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IŠ LIETUVIŲ LEKSIKOLOGIJOS IR LEKSIKOGRAFIJOS

LIETUVOS TSR MOKSLŲ AKADEMIJA

DA HISTÓRIA DA TERMINOLOGIA DA PECUÁRIA NAS LÍNGUAS BÁLTICAS*

A. SABALIAUSKAS

DENOMINAÇÕES DE REBANHOS

As línguas indo-europeias não têm uma denominação comum, ou sequer muito difundida, para um rebanho de animais domésticos conduzido ao pasto. Em geral, grupos linguísticos distintos têm denominações próprias, surgidas por vias semânticas diversas; às vezes, essas denominações diferem até mesmo em línguas estreitamente aparentadas.

As línguas bálticas também não têm uma denominação comum para um rebanho.

Liet. bandà

Em lituano, a denominação mais frequentemente usada para um rebanho é bandà. É uma palavra muito interessante da terminologia da pecuária. Seus significados, pode-se dizer, refletem de maneira peculiar várias etapas da história da pecuária e oferecem bons paralelos semânticos para explicar a origem de palavras usadas com significado semelhante em outras línguas indo-europeias.

O dicionário acadêmico da língua lituana registra sete acepções para essa palavra: 1) rebanho, manada; 2) cereais (linho) semeados por um trabalhador contratado, pelo filho de um agricultor ou pelo irmão mais novo; semeadura; 3) terra onde se faz a semeadura; 4) complemento salarial pago em espécie ao trabalhador contratado; 5) antigamente, salário (em espécie) pago ao trabalhador contratado; 6) benefício, riqueza, propriedade, parte; dinheiro; 7) pão de tamanho relativamente pequeno, pãozinho (LKŽd., I, 519—20; na segunda edição do tomo I do dicionário, as acepções são distribuídas de maneira um pouco diferente).

Considerando essa sequência de acepções, ocorre pensar que o significado original do lituano bandà deve ter sido ‘animal, cabeça de gado’, pois somente assim é possível explicar a evolução dos significados mencionados. Ainda é possível discernir esse significado do lituano bandà em textos lituanos antigos; compare-se: giwen kaip banda bei neischmintingoses kiaules (1579, W₂₁), tauczîamus ir assîamus ir kitai bândai (1599, DP 340₃₃), Daug jaunimo kaip banda labai piggei tapo pardûta (Br P, II, 346), entre outros.1 Desse significado surgiram as acepções ‘rebanho’ e ‘benefício, dinheiro, riqueza’, e desta última, ‘cereais semeados’ e ‘terra onde esses cereais são semeados’. Entre todas essas acepções, a de ‘pãozinho’ destaca-se de maneira peculiar. Essa acepção deveria, ao que parece, ser relacionada à de ‘complemento salarial pago em espécie ao trabalhador contratado’. Provavelmente

*Plg. anksčiau paskelbtus šios srities autoriaus darbus: Названия безрогового скота, „Проблемы индоевропейского языкознания“, Москва, 1964, p. 59—65; Baltų kalbų naminių gyvulių pavadinimai, „Lietuvių kalbotyros klausimai“, X, Vilnius, 1968, p. 101—190.

1 K. Būga, Rinktiniai raštai, III, Vilnius, 1961, p. 664.

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bandà, a princípio, também significava não simplesmente um pãozinho, mas um pão de centeio ou de trigo dado entre outras coisas.

O lituano bandà já tem uma antiga tradição escrita — essa palavra foi registrada ainda antes do aparecimento dos primeiros monumentos escritos em língua lituana.

Assim, com o sentido de «bens», a palavra banda já se encontra no Código de Casimiro, de 1468: «E se os servos roubarem alguma coisa a alguém, e (então) estiver escrito acima neste documento como punir cada roubo: se roubar pela primeira vez, não o enforcar, mas pagar por ele com seus bens; e se não houver bens, então seu senhor pagará por ele, e o servo será punido e açoitado...».² Esse sentido também aparece no Primeiro Estatuto da Lituânia (1529): «Se os servos roubarem na região e forem apanhados em flagrante, e o valor do que foi apreendido for de meio grosz: então devem ser punidos como ladrões; mas se o valor do que foi apreendido não for de meio grosz: então o dano deve ser pago com seus bens (=tunc debet solvi damnum ex rebus eius) ou a coisa apreendida deve ser devolvida, e, além disso, devem ser espancados com varas...».³ O lituano bandà, nos sentidos de «bens» e «remuneração em espécie», também ocorre frequentemente em outros documentos lituanos de épocas posteriores, redigidos em línguas estrangeiras⁴.

Do lituano bandà derivaram muitos outros vocábulos cujo significado está estreitamente relacionado aos sentidos dessa palavra: bandýkštis «animal do rebanho, gado» (palavra encontrada tanto em textos antigos — M. Mažvydas, J. Bretkūnas, M. Daukša — quanto em dialetos — Akmenė, Barstyčiai, Betygala; LKŽd., I(2), 640), bandystis (em «Žiwatas», publicado em 1787: LKŽd., I(2), 641), bandinga «prenhe» (LKŽd., I(2), 640), bandaūti «servir (pastorear o gado)» (LKŽd., I(2), 639), bandinė «cercado para manter o rebanho; pastagem distante da propriedade; festa dos pastores no Pentecostes; reuniões» (LKŽd., I(2), 640), bandininkas «estábulo do rebanho, do gado» (LKŽd., I(2), 640), bandininkas «pastor do rebanho, pastor; empregado do agricultor» (LKŽd., I(2), 640), bandišius «pastor» (LKŽd., I(2), 641), bandiskas «característico do rebanho, animalesco» (LKŽd., I(2), 641), bandótis «semear para o rebanho; tirar proveito de algo» (LKŽd., I(2), 642), bandúotis «obter lucro da colheita, tirar proveito do rebanho» (LKŽd., I(2), 643), bandìnis «próprio» (LKŽd., I(2), 641), liúosbandė «gado jovem não amarrado no estábulo, gado criado em pastagem livre» (LKŽd., VII, 620).

Entre as palavras aqui mencionadas, bandìnis «próprio» (usado em Dusetos) parece ter um significado um tanto afastado dos demais. O sentido de «próprio» provavelmente surgiu de «bandinis, isto é, semeado no campo do rebanho»; compare-se Gaspadarnus linus pabai̇gėm braukt, liko tik bandiniai (Dusetos). Ao lado de bandinių linų e de centeio, surgiram também bandinis puodas, bandinis botagas etc.

O lituano bandà, em alguns de seus sentidos, também passou para as línguas vizinhas (não apenas para as escritas, mas também para as faladas).

O letão bānda «a parcela de terra ou a semeadura nela atribuída pelo proprietário ao servo como remuneração; atividade secundária, renda adicional; ganho, negócio, lucro», bānds (EM, I, 261–2; EH, I, 204) é usado nas canções populares letãs e ocorre em algumas

² K. Jablonskis, Lietuviški žodžiai senosios Lietuvos raštinių kalboje, I, Kaunas, 1941, p. 15.

³ K. Jablonskis, Lietuviški žodžiai senosios Lietuvos raštinių kalboje, I, p. 15–17; J. Jurginis, Baudžiavos įsigalėjimas Lietuvoje, Vilnius, 1962, p. 135–136.

⁴ K. Jablonskis, Lietuviški žodžiai senosios Lietuvos raštinių kalboje, I, p. 307–308, 330, 337–341.

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em que outros monumentos linguísticos e dialetos⁵. A palavra bañda pode ter chegado por vezes ao letão também através dos curônios. No entanto, como entre os vestígios da língua curônia não há marcas mais expressivas dessa palavra (a menos que a relacionemos com o topônimo Bandowe6), seria mais apropriado considerar o let. bañda um lituanismo. Por fim, é possível até mesmo que alguns letões tenham conhecido essa palavra por intermédio dos lituanos, e outros, por intermédio dos curônios.

Em letão há também outras palavras inseparáveis do let. bañda, cf. let. bañdnieks ‘um servo a quem o proprietário cedeu um pedaço de terra como pagamento’, bañdenieks, fem. bandniece, bañduoties ‘trabalhar para si, obter ganhos por meio de trabalho suplementar’ (EM, I, 262), bándāties ‘ocupar-se de semear os campos recebidos como pagamento (bandas)’, bandžuot ‘procurar obter alimento ou ganhos suplementares’, bandžēris ‘quem costuma gastar bebendo as suas bandas’ (EH, I, 204).

O let. bañda deixou marcas bastante expressivas também na toponímia letã; cf. Bañdas-kalns, Bañdas-plava, Bañdu-purvs, Bandu lauks, Bandu-sils, Bandulauks, Bañdaiņis, Bañdene, Bañdenes, Bañdenīcas, Bañdenieki, Bañdnieki, Bañdenieku-vējsudmalas, Bañdēņi7.

Na Letônia há topônimos que talvez indiquem que, em algum momento, os letões também possuíam uma forma própria, foneticamente correspondente com exatidão ao litu. bandà: *buoda ou *buode. Tais topônimos são o let. Buōdes, Buōdel-purvs, Buōdīte, Buōdnieki. Em geral, tende-se a relacionar essas palavras com o let. buōde ‘a barraca’ (<do baixo-alemão médiobōde), buōdnieks ‘o comerciante, o lojista’; contudo, em alguns casos pode nelas ter sobrevivido também o antigo let. *buoda ou *buode, correspondente ao litu. bandą8.

Com vários significados, o litu. bandà também é usado em bielorrusso; cf. bielorr. бонда ‘pão achatado, croissant, pãozinho; pão, pequeno pão; presente de carne de animal abatido (aquilo que se leva a parentes ou conhecidos depois de abater um animal)’⁹.

Em alguns dialetos bielorrussos (na região de Brest, no triângulo entre Kobryn, Ivaceviči e Luninec), a palavra бонда é usada com o significado de ‘vacas dadas à noiva como dote’. A palavra também é usada com esse significado nos dialetos ucranianos vizinhos¹⁰.

Nos textos da língua prussiana não encontramos uma palavra correspondente ao litu. bandą. Existem, porém, vários topônimos e antropônimos prussianos que indicariam que essa palavra poderia ter existido nessa língua; cf. os topônimos Bandadis, Bandeynen, Bandeln, Banduken11 e os antropônimos Bandeyke, Bandiko, Banduke, Bandupe, Bandush12.

Nos monumentos da língua prussiana está registrada outra palavra que provavelmente deveria ser relacionada à denominação báltica de um animal ou de um rebanho pertencente a essa raiz — trata-se do pr. nienbon-den ‘inutilmente (=unnützlich)’ (palavra do segundo catecismo), ni enbāndan ‘em vão (=vergeblich)’ (palavra do terceiro catecismo)¹³. O contexto prussiano indicaria que o significado literal do pr.

⁵ K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 665; E. Fraenkel, Et. Wb., 34; V. Urbutis, LKK, VI, p. 297.

⁶ K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 168.

⁷ J. Endzelīns, Latvijas PSR vietvārdi, I, 1, Rīgā, 1956, p. 84.

⁸ J. Endzelīns, ten pat, p. 152–153.

⁹ K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 665; V. Urbutis, Baltistica, V(1), p. 50–51.

¹⁰ Д. С. ТеленТЮК, Диалектологічний бюлетень, вип. IV, Київ, 1953, p. 58–59; А. П. Непокупний, Мовознавство, 1968, 6, p. 35.

¹¹ G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, Berlin und Leipzig, 1922, p. 16.

¹² R. Trautmann, Die altpreussischen Personennamen, Göttingen, 1925, p. 16, 17.

¹³ R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, Göttingen, 1910, p. 11, 23; Prūsų kalbos paminklai, parengė V. Mažiulis, Vilnius, 1966, p. 101, 139.

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ni enbāndan pode significar «não em benefício», cf. Tou ni tur sten emmen twayse deywas nienbandan westwey (= Du solt den namen Gottes nicht unnützlich führen); Tou turri stan Emnan twaisei Deiwas ni enbāndan westwei (= Du solt den Namen des Herren deines Gottes nicht vergeblich führen).

A maioria dos pesquisadores concorda com essa etimologia da palavra prussiana14; quanto à semântica, cf. lituano nauda, letão naūda «dinheiro»: nórdico antigo naut «cabeça de gado», inglês antigo neat «cabeça de gado, animal»15.

Além disso, lituano bandà é relacionado a palavras da raiz indo-europeia *bhendh- «atar», cf. sânscrito bad-hnāti «ele ata», avéstico bandayai-ti, sânscrito bāndhuḥ «parente», gótico bindan «atar», grego πεῖσμα «corda», lituano bendras e outros16.

Lituano bandà parece diferir dessas palavras indo-europeias quanto ao significado. O significado original do lituano bandà deve ter sido «animais atados ou mantidos no curral (“amarrados”)». Foneticamente, a associação do lituano bandà às palavras desse grupo não suscita dúvidas; contudo, a semântica leva a alguma hesitação, pois faltam dados históricos sobre esse tipo de pastoreio. A acepção de «cercado para animais» está muito estreitamente ligada às palavras da raiz indo-europeia *bhendh- (cf. grego φάτνη «manjedoura», celta berne «cesto de carroça»). Assim, o significado original do lituano bandà poderia ser «cercado para animais (ao ar livre ou no pasto)»; desse significado poderia então ter surgido o de «rebanho». Uma mudança semântica análoga observa-se no lituano gardas, «cercado ao ar livre ou no pasto», que, como veremos, é usado nos escritos antigos em nosso idioma com o sentido de «rebanho». Também é possível explicar de outro modo o significado original do lituano bandà: a palavra poderia ter significado «animais comuns, de propriedade coletiva». Os significados das palavras da raiz indo-europeia *bhendh- tampouco contradiriam essa hipótese. Além disso, a origem da palavra lituana kaimenė também daria algum apoio a essa interpretação do significado original do lituano bandà.

J. Endzelīns tentou explicar de outra maneira a origem do lituano bandà. Ele relacionou o báltico *bandā ao lituano bandyti «tentar, experimentar» e ao prussiano perbanda «tentado», apontando como paralelo semântico o gótico kiusan «examinar, pôr à prova», o grego γεύσθαι «provar, experimentar, comer» e o latim gustāre «provar, apreciar»17.

B. Jēgers, concordando com essa ideia de J. Endzelīns, relaciona ainda o lituano bandà à raiz indo-europeia *bhen- «golpear, ferir». Segundo B. Jēgers, os significados do lituano bandà teriam se desenvolvido a partir daí da seguinte maneira: «golpear» (letão beride «o carrasco», beñdēt «atormentar, tratar cruelmente») > «tentar» (prussiano perbanda «tentado», lituano bandyti) > «provar» (lituano bandyti, letão bandas dzīt). Do significado «golpear», segundo B. Jēgers, poderia ter surgido diretamente o significado «pedaço de terra» (lituano bandà, letão bānda) (*o pedaço de terra desbravado); de «pedaço de terra (entregue como pagamento)» poderia ter surgido o significado «benefício» (prussiano ni enbāndan, lituano bandà, letão bānda); do significado «benefício», passando pela acepção de «gado útil», teria surgido o significado «rebanho» (lituano bandà)18.

14 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 384; K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 665; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, Rīga, 1943, p. 215; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 34.

15 J. Pokorny, Et. Wb., p. 768.

16 J. Pokorny, Et. Wb., p. 127; M. Mayrhofer, Et. Wb., II, p. 406; ao que parece, Grynbergeris (Grienberger) foi o primeiro a explicar assim a origem do lituano bandà; cf. B. Jēgers, KZ, 80, p. 125.

17 EM, I, p. 262; Izglītības Ministrijas Mēnešraksts, 1921, Nr. 2, p. 194–195 (assinado Pēteris Liepiņš, cf. a bibliografia dos trabalhos de J. Endzelīns, Rakstu krājums…, Rīgā, 1959, p. 672).

18 B. Jēgers, KZ, 80, p. 128–129.

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A explicação de B. Jėgeris parece-nos pouco convincente. Em primeiro lugar, a relação do letão bėnde com o indo-europeu *bhen- ‘golpear’ é muito obscura: o letão bėnde é provavelmente algum tipo de empréstimo. Ainda assim, é muito mais plausível a evolução semântica na direção oposta: ‘animal’ > ‘proveito’ > ‘terra’.

Lituano kaimenė

Lituano kaimenė ‘grupo de animais; rebanho’ (LKŽd., V, 55) é uma palavra bastante difundida tanto na língua literária como nos dialetos. É mais usada nos dialetos dos aukštaičiai ocidentais. Esta palavra também era muito difundida nos dialetos lituanos da antiga Prússia Oriental. Encontramos a palavra kaimenė também em antigos documentos da língua lituana, sobretudo naqueles cujos autores estão ligados aos dialetos mencionados acima — na tradução da Bíblia de J. Bretkūnas, na Postila de M. Daukša, nos Evangelhos publicados em Kėdainiai em 1653 e na tradução da Bíblia de S. Bitneris.

Além da forma kaimenė, nos dialetos também se usa a forma kaiminė (Kapsukas, Bartininkai).

Nas variedades dialetais do lituano, a área de uso das palavras kaimenė, kaiminė parece coincidir quase por completo com a área de uso das palavras kaimas (Kalvarija, Kapsukas, Kazlų Rūda, Šakiai, Vilkaviškis), kaima (Eržvilkas, Jurbarkas, Raseiniai, Vilkija) e kaimė (Dotnuva, Gudžiūnai, Kėdainiai, Krekenava)¹⁹.

A origem do lituano kaiminė não deixa dúvidas: deve ser relacionado com o lituano kaimas20. O significado original do lituano kaimenė terá sido provavelmente ‘animais da aldeia, animais da aldeia apascentados em conjunto’.

A distribuição geográfica do lituano kaimenė no próprio lituano, bem como a ausência de vestígios desta palavra noutras línguas bálticas, indicariam que se trata de uma palavra relativamente recente.

Também se deveria relacionar com o lituano kaiminė a palavra kaimina ‘amontoado, grupo’, registrada por A. Juška (Cresci entre as crianças do amontoado, LKŽd., V, 55).

Liet. guotas

Em lituano, a palavra guotas também é usada com o significado de ‘rebanho de animais’: ‘manada, grupo, bando; pequeno grupo de árvores, cogumelos, arbustos ou cereais; tufo’ (LKŽd., III, 740). Além da forma guotas, o dicionário académico da língua lituana também regista as formas guotas e guostas ‘tufo, guotas’ (LKŽd., III, 739).

A palavra guotas é usada sobretudo na parte meridional da Lituânia (Alytus, Aukštadvaris, Birštonas, Daukšiai, Leipalingis, Liškiava, Rumiškės). Também está bem atestada nos antigos monumentos da língua lituana — encontra-se na Postilha de J. Bretkūnas, na Postilha de M. Daukša, no Enchiridion de B. Vilentas, na tradução bíblica de S. Bitneris, no Livro da Devoção de 1653, entre outros.

K. Būga relaciona o lituano guotas com a antiga denominação indo-europeia do bovino (cf. letão guovs ‘vaca’, sânscrito gāuh ‘bovino’, alto-alemão antigo chuo ‘vaca’ etc.), explicando que o significado original da palavra teria sido ‘rebanho de vacas, manada de vacas’²¹.

19 Utilizou-se um mapa manuscrito elaborado por E. Grinaveckienė (Instituto de Língua e Literatura Lituanas da Academia de Ciências da Lituânia).

20 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 251; P. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba. Vilnius, 1941, p. 236.

21 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, Vilnius, 1959, p. 353.

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E. Frenkelis relaciona o lituano guõtas não diretamente com a denominação indo-europeia do bovino, mas com palavras gregas da mesma raiz: βόσκειν ‘pastar’, βοτήρ ‘pastor’, βοτόν ‘bovino’22. Contudo, procedendo assim, dificilmente ganhamos alguma coisa; parece-nos que a associação proposta por K. Būga é mais plausível, sobretudo porque as línguas bálticas conservaram a antiga denominação indo-europeia do bovino (cf. letão guovs).

Provavelmente, aceitando a associação proposta por K. Būga, a reconstrução mais plausível do lituano guõtas seria o indo-europeu *gūō(u)-to-m ‘rebanho de bovinos’, relacionando diretamente esta forma protolinguística com o indo-europeu *gōu- bovino23.

Uma questão muito complexa é a relação do lituano guõtas com o lituano gaujà ‘monte, grupo, manada; multidão, bando; grande quantidade’ (LKŽd., III, 168), gõveda ‘bando, turba, multidão, grupo’, gõveda, goveda, govena, govežda, gõvija, govija (cf. também o povoado disperso Góvija), gova, gõvada (LKŽd., III, 487). O lituano gova, evidentemente, surgiu do lituano gõvada. Encontramos algo inteiramente semelhante também num dialeto bielorrusso, onde, a partir do bielorrusso гаўяда ‘rebanho de animais’, surgiu a forma гаўя (Staryja Darogi, entre Sluck e Babruisk)24.

Alguns pesquisadores consideram o lituano gõveda — e, naturalmente, também as outras variantes da palavra — um eslavismo; segundo eles, o lituano gõveda ‘bando, turba, multidão, grupo’ deriva do polaco gawiedź25. Porém, K. Būga26 e, concordando com ele, também P. Skardžius27, E. Frenkelis28, F. Slavskis29 consideram o lituano gõveda uma palavra de origem lituana, relacionando-a com o lituano gaujà. É difícil responder se o lituano gõveda é um empréstimo ou uma palavra autóctone. Por exemplo, a forma govezda (registada no dicionário de F. Kuršaitis, embora desconhecida do próprio Kuršaitis) pareceria indicar que se trata de um empréstimo do polaco, mas então seria muito difícil explicar o surgimento das formas gõvija, govena, gova. Portanto, talvez tanto a palavra gõveda como govija e as suas outras formas devam ser consideradas palavras autóctones, enquanto a forma govezda seria um empréstimo do polaco ou uma forma remodelada a partir do lituano gõveda sob a influência do polaco gawiedź.

Muito hipotética, mas ainda assim possível, é também a relação dessas palavras com o lituano guõtas30. Se essa relação estivesse correta, tanto o lituano gaujà como gõveda teriam tido originalmente o significado de ‘rebanho de bovinos’.

Liet. kėltuva

Liet. kėltuva tem como significado principal «gado, animal», mas essa palavra (sua forma no singular) também é bastante usada com o sentido de «rebanho, manada de gado». Com esse sentido, liet. kėltuva é usada na língua viva na parte mais oriental da Lituânia (Adutiškis, Dysna, Tverečius), bem como nas ilhas linguísticas lituanas situadas no território da Bielorrússia. A palavra mencionada também ocorre com o sentido de «rebanho de gado» nos nossos escritos antigos (M. Mažvydas, J. Bretkūnas). Cf.:

„...Jobui kialtuwa atymta“, Mž, 433.

22 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 177.

23 J. Pokorny, Et. Wb., p. 483.

24 Дыялекталагічны атлас беларускай мовы, Мінск, 1963, zemėlapis Nr. 293.

25 LKŽd., III, p. 487; J. Otrębski, LP, 4, p. 39; J. Otręmbskis afirma que liet. gaujà pode ter derivado de liet. govijà.

26 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, sudarė Z. Zinkevičius, Vilnius, 1958, p. 328.

27 P. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, p. 82, 231.

28 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 140.

29 F. Slawski, Sl. et., I, p. 262.

30 K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 867; J. Pokorny, Et. Wb., p. 483.

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„… e perto de mim esteja você, seus filhos, … seu gado miúdo e grande (escrito: keltuwa“, BrB 1 Moz 45, 10 (LKŽd., V, 551).

Liet. kėltuva relaciona-se com o liet. kėlti31.

Lituano pėkus, pr. pecku

Com o sentido de ‘rebanho de animais’ também se usa o liet. pėkus, cujo sentido original, tal como o da palavra kėltuva, seria ‘gado, animal’. A palavra pėkus é usada muito frequentemente com o sentido de ‘rebanho de animais’ em nossos escritos antigos (M. Mažvydas, J. Bretkūnas, M. Daukša, S. Chilinskis). Às vezes, aparece ali simplesmente como sinônimo de banda, kėltuva ‘rebanho de animais’. Cf.:

„…era muito rico em Pekúmi (Banda“, BrB 1 Moz 13, 2.

„…nútėkei̯ens Pękauʃpi (na margem: bandoʃpi)“, BrB 1 Moz 18, 7.

„…tinha… muito pėkaus“, BrP, II, 194.

„…os pastores que apascentam o Peku“, Mž, 193.

„…seu pekauss era de sete mil ovelhas“, Ch Job I 3.

De modo semelhante, o liet. pėkus também é usado na edição de 1642 do dicionário de K. Širvydas:

„Gado, gado, reses. Pecus, udis, et pecus, oris. Pekus, kieltuwą“.

„Bydlecy. Pecuarius, Pecorinus. Pekaus, kieltuwu“ (Dic., 26).

„Apascentar o gado, Pascerebene. Conduzir, encerrar o gado“ (Dic., 192).

“Pasę bydło, Pasco, bubulcitor, feruo pecudes. Ganau peku” (Dic., 286).

No lituano atual, pėkus está registrado com o sentido de ‘rebanho de animais’ apenas no dialeto de Zietela.

Os exemplos do terceiro catecismo prussiano indicariam que, também na língua prussiana, a palavra pecku (nominativo singular) era usada com o sentido de ‘rebanho de animais’:

„…Depois roupas e calçados, comida e bebida, casa e propriedade, esposa e filhos, campos e gado, e todos os bens…

…Além disso, roupas e sapatos, comida e bebida, casa e propriedade, esposa e filhos, campos e gado e todos os bens…

Tudo o que é necessário para a subsistência, comida, bebida, roupas, sapatos, casa, propriedade, campos, gado, dinheiro…

Tudo o que pertence ao sustento e às necessidades do corpo, como comida, bebida, roupas, sapatos, casa, propriedade, campos, gado, dinheiro…

…que dá alimento a todos os homens da terra, que dá a sua comida ao gado…

…Que dá alimento a toda a carne, que dá forragem ao gado…“32

Na língua letã não há equivalentes de liet. pėkus, pr. pecku.

Quanto à origem de liet. pėkus, há duas opiniões: alguns consideram essa palavra um empréstimo antigo das línguas germânicas; outros, uma palavra báltica antiga. A última opinião parece mais aceitável33.

Liet. gyvuliai, gyvīs e outros

Em lituano, também se usa a forma plural gyvulys, gyvuliai, com o sentido de «rebanho», cf. também as formas gyvolis, gyvulis, gyvuolis (LKŽd., III, 383, 384, 385, 387)34.

31 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 238; A. Sabaliauskas, LKK, X, p. 136–137.

32 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 28, 29, 36, 37, 52, 53; Monumentos da língua prussiana, p. 152, 153, 164, 165, 196, 197.

33 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 564–565; A. Sabaliauskas, LKK, X, p. 136.

34 K. Būga, Escritos selecionados, I, p. 122–123.

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Nas próprias variedades do sudeste da língua lituana, usa-se ainda outra palavra desta raiz, gyvīs, com o sentido de «rebanho», cf. Pro kur varo gyvį, varykla vadinas (Lazūnai): Visi dudena, kad jo vaikas jau gyvį gano (Dieveniškės); LKŽd., III, 383. A palavra gyvīs é amplamente usada em várias variedades da língua lituana e em antigos monumentos escritos com o sentido de «ser vivo, criatura viva» e outros sentidos semelhantes; contudo, com o sentido de «rebanho», está registrada apenas nas variedades mencionadas.

Também encontramos nas línguas eslavas nomes para «rebanho» derivados desta raiz (indo-europeu *gṷi-, lituano gy-, eslavo ži-): bielorrusso жывёла, жывина, polonês żywina, żywizna, żywioła, russo antigo животина, sérvio живо, esloveno živina³⁵. É evidente que, tanto em lituano como em línguas eslavas específicas, tal significado das palavras desta raiz pode ter surgido de forma inteiramente independente (cf. sérvio-croata живина «aves domésticas», ucraniano живина); em casos específicos, porém, pode também tratar-se de empréstimo. É o caso, por exemplo, do bielorrusso жывина, que, como mostram os dados do atlas dialetológico bielorrusso, é usado de forma mais ampla apenas nos arredores de Grodno e, sem dúvida, é um empréstimo do polonês. Particularmente interessante é o fenômeno dos nomes com o formante -l-, que formam uma área totalmente compacta, abrangendo o lituano, quase todas as variedades do bielorrusso e parte das variedades do polonês que fazem fronteira direta com a área da língua lituana³⁶. O uso mais intenso do lituano gyvulys, gyvuliai sugere que o bielorrusso жывёла e o polonês żywioła podem ter surgido sob a influência do lituano.

O gyvīs usado em Dieveniškės e Lazūnai com o sentido de «rebanho» provavelmente não é uma criação recente dessas variedades, mas um vestígio do antigo uso lituano de gyvis, pois essa palavra é bastante difundida nos textos antigos com o sentido de «animal», cf. Avis yra romus, … nekaltas gyvis DP 209: Ta ranka penį visus gyvius, kiekvienam tikrą penukšlą duodama SP I 242; Anoji kančia, ir nebylius gyvius galėtų pajudint galėjimop DP 176; Gyvis, išėjęs išg girų, staugimu, kaukimu, baubimu teip baisus bus DP 7 (LKŽd., III, 383).

Quanto ao uso da forma singular gyvis com o sentido de «rebanho», cf. o uso lituano de kėltuva, pėkus.

Não encontramos palavras da raiz indo-europeia *gṷi- com o sentido de «rebanho» nem nas línguas prussianas nem nas letãs. É verdade que em letão encontramos as palavras dzīvnieks «um ser vivo, um animal», dzīvuonis, dzīvīte «um animal doméstico» (EM, I, 560); contudo, parecem ter surgido relativamente há pouco tempo, e não há qualquer tendência para usá-las com o sentido de «rebanho».

Nas variedades letãs encontra-se o nome de animal doméstico da raiz indo-europeia *gṷi, živats «um animal; um animal doméstico», «sīkluops» («uma ovelha, um porco»). Contudo, é um empréstimo do russo (EM, IV, 814).

Lat. luopi

O lituano gyvulys corresponde aproximadamente, em significado e uso, ao letão luōps. A forma plural deste vocábulo, luōpi, é usada em letão também com o sentido de ‘rebanho de animais’, cf. Laid luopus ārā!; Jādzen luopi ganųos; Luopus ganīt (EM, II, 528).

O letão luōps é uma palavra completamente isolada nas línguas bálticas e eslavas, que provavelmente deveria ser relacionada com o albanês lopē ‘vaca’³⁷.

35 O. N. Trubatchov, A origem dos nomes dos animais domésticos nas línguas eslavas, Moscovo, 1960, p. 100; Dialektalglatāni atlas беларускай мовы, mapa n.º 293.

36 O. N. Trubatchov, A origem dos nomes dos animais domésticos nas línguas eslavas, p. 100–101.

37 J. Pokorny, Et. Wb., p. 654; A. Sabaliauskas, LKK, X, p. 137.

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Lat. bars

Com o sentido de ‘rebanho de animais’, a palavra bars é muito amplamente usada em letão; usa-se a forma diminutiva desta palavra, bariņš, bem como as combinações luõpu bars, luõpu bariņš.

A palavra bars é usada em letão com vários sentidos. Assim, o dicionário de K. Miülenbach registra nada menos que seis (na verdade, seria possível distinguir ainda mais) acepções desta palavra: 1) die Schwade; 2) ein bestimmter Strich Feldes bei der Flachsraufe; 3) die Mast; 4) der Haufe, die Menge, die Schar, Herde, 5) die Sandmassen in der Flussmündungen, die das Fahrwasser seichter machen; 6) atberi (klātpieduotuo barības tiesu sauc par beriem, baru, biežāk atberiem; cf. atberes ‘Wiedergabe des aus dem Gemeindemagazin geliehenen Getreides; das Getreide, das bei der Wiedergabe gleichsam als Prozent mehr abgegeben wird’) (EM, I, 150, 264–5).

Em lituano, a palavra bãras, correspondente ao letão bars, também é usada com sentidos semelhantes: ‘faixa de campo ocupada de uma só vez durante o trabalho (colheita de cereais, arranque do linho, ceifa); grupo de pessoas (com este sentido, encontra-se apenas nos escritos de S. Gimžauskas (Linkmenys) e no dicionário de A. Juška)’ (LKŽd., I(2) 651–2). Recentemente, na língua lituana contemporânea, a palavra bãras tem sido amplamente usada com o sentido de ‘âmbito ou área de alguma atividade’.

Como vemos, os sentidos do lituano bãras, e especialmente do letão bars, são bastante variados. Isso levou J. Endzelynas a suspeitar que o letão bars teria várias origens. Para os sentidos 1–3, ele tendia a relacionar o letão bars com o irlandês médio berraim ‘tesoura’, avéstico tiži-bāra ‘de fio afiado’, latim ferīre ‘golpear’, forus ‘caminho em torno de um canteiro’, alto-alemão antigo bara ‘terreno cercado’, russo забор ‘cerca’, grego φόρος ‘pedaço de terra, sulco’. Para os sentidos 4–5, J. Endzelynas tendia a relacionar o letão bars com o indo-europeu *bher- ‘carregar’, e somente para o sexto sentido relacionava o letão bars com o letão bērt e o lituano berti, admitindo que talvez também fosse possível relacionar com esses verbos o letão bars no quarto sentido38.

No entanto, J. Endzelynas provavelmente não tinha razão ao considerar o letão bars uma palavra de até três origens distintas. Parece-nos que todos os sentidos tanto do lituano bãras quanto do letão bars podem ser explicados relacionando estas palavras com os verbos lituano berti e letão bērt. A origem do lituano bãras e do letão bars já havia sido explicada assim por A. Leskynas39. Muitos estudiosos posteriores apoiaram a explicação de A. Leskynas. K. Būga afirmou que „bãras é a porção de terreno que se pode cobrir com sementes numa só passada durante a semeadura“40; P. Skardžius41, E. Frenkelis42 e J. Otręmbskis43 tinham a mesma opinião. O que provavelmente mais levava J. Endzelynas a duvidar dessa etimologia era o fato de que, nas línguas bálticas, se usa outro vocábulo antigo com o sentido de ‘área de terreno semeada’: lituano biržė, letão birze, relacionado com o eslavo antigo brazda ‘sulco’, russo борозда, polonês brózda44 (na verdade, esta etimologia parece bastante duvidosa).

No entanto, os significados originais destas palavras (lituano biržė, lituano bãras) podem ter sido diferentes — a sua aproximação é resultado de uma evolução posterior.

38 EM, I, p. 265.

39 A. Leskien, Der Ablaut der Wurzelsilben im Litauischen, Leipzig, 1884, p. 321; Bildung der Nomina im Litauischen, Leipzig, 1891, p. 167 (pastarajame veikale teigia kiek abejodamas).

40 K. Būga, Escritos selecionados, II, p. 294.

41 P. Skardžius, Formação de palavras da língua lituana, p. 26.

42 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 34–35.

43 J. Otrębski, Gramatyka języka litewskiego, II, Warszawa, 1965, p. 33.

44 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 44–45; EM, I, p. 299.

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É difícil relacionar diretamente o significado ‘rebanho’ com o verbo bérti, mas é possível associar a esse verbo, em geral, os significados ‘multidão’, ‘grupo’ (cf. Os ramos das tílias estão cobertos de botões; O céu estava límpido, salpicado de estrelas brilhantes, LKŽd., I(2), 773; letão biru birām ‘em bandos’, birum birumiem, EM, I, 298). Do significado ‘multidão’, ‘grupo’ decorre muito naturalmente também o significado ‘rebanho, manada’, cf. lituano guõtas ‘manada – grupo’, lituano kaĩmenė ‘manada – grupo’, lituano gyvìs ‘manada – multidão’ etc.

Como mencionamos, J. Endzelynas tendia a relacionar o letão bars nos sentidos 4–5 com o indo-europeu *bher- ‘tragen’. No entanto, também o lituano bérti e o letão bērt são relacionados com essa raiz indo-europeia. É verdade que J. Endzelynas parece ter tido algumas dúvidas quanto a essa relação, observando que K. Būga, J. Mikola, A. Briukneris e R. Trautmanas relacionavam o lituano bérti e o letão bērt com o indo-europeu *bher ‘tragen’ «sem se pronunciarem sobre o desenvolvimento do significado»45. Parece-nos que certos significados do verbo lituano bérti, como ‘dispersar-se (referindo-se a um animal)’, ‘parir, dar à luz’, poderiam aproximá-lo do indo-europeu *bher-; cf. A porca dispersou-se; Se cuidares da porca até ela parir, ganharás um leitão LKŽd., I(2), 773, 847. Contudo, esses significados também podem ser inovações da língua lituana, cf. significados semelhantes dos verbos griūti, irti.

Letão ganeklis e outros

Em letão encontramos vários nomes para ‘rebanho’ derivados do verbo ganīt (lituano ganýti): ganeklis (vīrs ganekli aizdzen mājā), ganekles (a palavra ocorre na tradução da Bíblia de Glück, de 1689), ganība (uz mūsu ganībām vesela ganība luopu), ganīkla (šur un tur luopu ganīklas ganās), ganāmais (būs viens gans, viens ganāmais), ganāmie (EM, I, 599, 600; EH, I, 382).

Nos escritos de J. Žemaitė, a palavra gãniava aparece com o significado de ‘rebanho’ (Não se consegue apascentar tantos rebanhos de animais nesses pastos, LKŽd., III, 102). Contudo, aqui gãniava provavelmente não é um dado da língua viva, mas uma palavra surgida simplesmente por engano a partir de gõniava, usado na terra natal de Žemaitė (provavelmente obra dos editores dos escritos de Žemaitė).

Lituano gõniava, gonà e outros

Nos dialetos lituanos encontramos nomes para ‘rebanho’ que devem ser relacionados com o verbo ginti ‘tocar, conduzir a manada para o pasto’: gõniava ‘manada, grupo, multidão’, gonà, ‘grupo, multidão’ (O pastor leva um grupo de vacas. J. Nunca tinha visto tantos animais num rebanho destes Als.), gõna, gõnas, gõnė (Um rebanho destes porcos comeria alguma coisa Kair.), gonìa (Abre a porta do estábulo, estou trazendo o rebanho Vlk.), gonyčia (LKŽd., III, 482)46.

Liet. gárdas

No sentido de «rebanho», esta palavra é usada apenas nos nossos textos antigos — assim a empregam J. Bretkūnas, M. Daukša, S. Chilinskis e outros. Cf.:

«...e haverá um só pastor e um só aprisco», BrP, II, 209.

«...o bom pastor, que assim não deixará a ovelha perdida sobre os seus ombros, para a recolher no seu aprisco», DP, 174.

«...e reuniria ali todos os apriscos», Ch 1 Moz 29,3.

45 EM, I, p. 292.

46 P. Skardžius, Formação de palavras da língua lituana, p. 47.

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«...reuniria todos os apriscos», Ch 1 Moz 29, 8.

«...e seus irmãos foram apascentar o rebanho de seu pai», Ch 1 Moz 37, 12.

«...quem apascenta o rebanho e não come o leite do rebanho? Bt 1 Pv K 9,7 (cf. também LKŽd., III, 120).

Na língua lituana, a palavra gardas, como sabemos, é usada no sentido de certo tipo de recinto («parte vedada do estábulo», «cercado no campo ou no pasto», «caixa feita de tábuas para transportar porcos», LKŽd., III, 120). Este último sentido — o de recinto — é, sem dúvida, o mais antigo. O sentido de «rebanho» surgiu, aparentemente, do sentido de «cercado no campo ou no pasto».

O lituano gardas está relacionado com o antigo eslavo gradъ «castelo, cidade, jardim», o russo город «cidade», o sânscrito grháḥ «casa», o gótico gards, gótico garda «recinto», albanês garth «sebe» e outros.47

Também se encontra um equivalente do lituano gardas em letão; cf. letão gards «um cercado junto ao ou dentro do estábulo» (atestada nos escritos de J. Janševskis). J. Endzelīns tende a considerar esta palavra letã um lituanismo (Anscheinend aus li. gãrdas dass., wenn wirklich mit kurzem a; vgl. gārds 1, EH, I, 384). Parece-nos que também o letão gārds «um cercado para gado de engorda, especialmente para porcos» (EM, I, 618; EH, I, 390) deve ser considerado um lituanismo. Com efeito, a julgar pelo dicionário de K. Mühlenbach e pelo material dos seus suplementos, esta palavra é usada quase exclusivamente na fronteira com a Lituânia (Dunika, Gruobinia, Lazduona, Nyca, Nygranda, Rucava). O alongamento do a da raiz na palavra letã deve ser explicado pela pronúncia lituana da região fronteiriça, pois os lituanos dessa região (Akmenė, Klykoliai, Mažeikiai), de quem esta palavra deve ter passado para o letão, pronunciavam o lituano gardas como gãrc. Mesmo que o letão gārds não seja um empréstimo do lituano, foi, pelo menos, a língua lituana que favoreceu a sua conservação naquelas variedades letãs.

O lituano gardas, no sentido de «cercado», também passou para as línguas fino-bálticas; cf. finlandês karsina, careliano karžina e outros.48

Liet. stōdas

Liet. stōdas também é usado com o sentido de «rebanho», mas apenas em textos antigos — esse sentido aparece em J. Bretkūnas, M. Daukša, K. Širvydas etc. Compare-se:

„...nuneche awi ich Stodo (paraštėje: Gardo)...“, BrB 1 Sam 17, 34.

„...stōdai ir kaimenės, tawos...“, DP, 290.

„...piewos, łakos, kãimenes, stōdai...“, DP, 306.

„Paweýksłu tieġ tapi stōdo... (Wžormi, movi, bėdac stāda...)“, SP, II, 136.

„...piemenimus, Stodą ganantiemus...“, KN, 130.

Além da forma stodas, nos textos antigos também se usa a forma stoda49.

Quanto à origem do lituano stōdas, há várias opiniões. A. Brückner supôs que os lituanos tomaram essa palavra emprestada do polonês50. K. Būga, que durante muito tempo duvidou se se tratava de uma palavra autóctone ou de um empréstimo51, considera-a um empréstimo do russo52, enquanto P. Skardžius a considera um empréstimo

47 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 135–136; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 297; J. Pokorny, Et. Wb., p. 444.

48 Y. H. Toivonen, Suomen kielen etymologinen sanakirja, I, Helsinki, 1955, p. 165; A. Sabaliauskas, LKK, VI, p. 118.

49 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 592.

50 A. Brückner, Die slavischen Fremdwörter im Litauischen, Weimar, 1877, p. 137.

51 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, 92, II, p. 591–592.

52 K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 46.

2. Iš lietuvių leksikologijos ir leksikografijos

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LKI BIBLIOTEKA

da língua bielorrussa53. Categoricamente, provavelmente, não se pode rejeitar nenhuma das opiniões. No entanto, P. Skardžius, entre outras coisas, lembra o uso muito semelhante do lituano stōdas e do bielorrusso cmado em textos bielorrussos de documentos da Lituânia (cf. кони, стада и животина князя Лит. Мет. (1520). РИБ. XX 1434). Por fim, é possível que tal denominação de um rebanho tenha entrado no lituano a partir das línguas eslavas por diferentes vias.

Lituano armuõ

O lituano armuõ, no sentido de «rebanho», está registrado uma única vez, a saber, na tradução da Bíblia de A. Baranauskas: Iš armen(i)ės patiną nesutemptą apieravos, 3Moz 1,3 (LKŽd, I (2), 310). Parece-nos que, neste contexto, o uso do lituano armuõ por A. Baranauskas foi motivado pelo latim armentum (...si holocaustum fuerit ejus oblatio, ac de armento...3 Moz 1, 3), que em latim significa «animais de trabalho de grande porte (cavalos, bois); rebanho de animais de trabalho».

De resto, o lituano armuõ, «camada de solo arável; terra arável; lavoura, solo» (: lituano árti), nunca é usado no sentido de «rebanho».

Lituano gaibjė

O lituano gaibjė, no sentido de «rebanho», está registrado nos seguintes documentos da língua lituana: «Clavis Germanico-Lithvana», o dicionário de J. Brodovskis, o dicionário de F. Nesselmann e o dicionário de F. Kurschat (indicando que o próprio F. Kurschat não conhecia tal palavra da língua falada). A estrutura dessa palavra indicaria que não se trata de um fato vivo da língua lituana, pois palavras com tal formação simplesmente não existem em lituano. Surge a questão de como ela poderia ter aparecido nesses documentos da nossa língua. F. Kurschat tomou essa palavra do dicionário de F. Nesselmann. F. Nesselmann copiou-a do manuscrito do dicionário de J. Brodovskis. F. Nesselmann copiou-a corretamente, pois essa passagem do manuscrito do dicionário de J. Brodovskis é muito claramente legível:

«Gótas Awju. Gardas, Stodas. Gauje, Gaibje» (B, 613).

A palavra gaibjė provavelmente chegou ao manuscrito do dicionário de J. Brodovskis a partir do dicionário do século XVII «Clavis Germanico-Lithvana», onde também está registrada com bastante clareza:

«Heerde Vieh. Kaimene, ės. F. Gúta, ôs F. Gaibje, ės. F. Gáuje, ęs. F.» (C, I, 873).

Pode-se até supor que J. Brodovskis, ao copiar essa palavra da fonte mencionada, a tenha trocado de lugar com a palavra gauje, por esta lhe ser conhecida, e tenha colocado a palavra gaibje no fim, por lhe ser desconhecida. J. Lebedys54 demonstrou claramente que J. Brodovskis realmente utilizou «Clavis Germanico-Lithvana». No entanto, por enquanto não é possível dizer como a palavra gaibjė surgiu neste último manuscrito.

53 P. Skardžius, Die slavischen Lehnwörter im Altlitauischen, Kaunas, 1931, p. 206.

54 J. Lebedys, Smulkioji lietuvių tautosaka XVII—XVIII a., Vilnius, 1956, p. 23.

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Lituano pūlkas, letão pulks

Tanto em lituano como em letão, usa-se a palavra pūlkas (let. pulks) com o significado de ‘rebanho de animais’.

O significado de ‘rebanho de animais’ para a palavra pūlkas já se encontra na edição de 1629 do dicionário de K. Širvydas:

„Stado, grex, armentum. pulkas“

„Stadko, grex pusillus, pulkelis“ (Dic., 174).

Na edição de 1642 do dicionário de K. Širvydas também encontramos:

„Stādo bydla, Armentum, grex pulkas“ (Dic., 421).

Com o significado de ‘rebanho de animais’, pūlkas também é frequentemente usado nos dialetos lituanos. Contudo, aqui é usado sobretudo não como sinônimo de bandos ou rebanhos, mas em geral no sentido de ‘grupo, multidão (referindo-se principalmente a seres vivos)’ e costuma ser usado com um termo que o especifica; cf. rebanho de ovelhas, grupo de porcos, grupo de vacas etc. Em alguns dialetos lituanos, porém, pūlkas é usado quase como sinônimo de bandos ou rebanhos; cf. Pastavam junto ao rebanho (Pumpėnai); Durante dois turnos pastavam os animais (Linkuva).

Um uso muito semelhante também se encontra na palavra letã pūlks ‘o monte (de seres vivos), o grupo, uma quantidade em geral’, ganāms pulks ‘o rebanho’, ganāmpulks, ļopu pulks, ļopu pulciņš, pulks, pulciņš (Kur tu dzīsi savu pulciņu?) (EM, I, 600, III, 407; EH, I, 382)55.

O lituano pūlkas e o letão pūlks são empréstimos do russo antigo, cf. russo antigo pъlkъ ‘regimento, exército, força militar, marcha do exército, acampamento’56. Ao que parece, a palavra entrou nas línguas bálticas com o significado de termo militar, enquanto os outros significados surgiram mais tarde, já nessas línguas. Um processo semelhante de ampliação semântica também é observado em algumas línguas eslavas; cf. russo dialetal полок ‘grupo (de meninas)’, servo-croata nyk ‘povo, gente, multidão’, tcheco pluk ‘montão’.

Os eslavos tomaram esta palavra emprestada do germânico antigo (*fulkaz); cf. alto-alemão antigo folk, inglês antigo folc ‘exército, grupo’57.

Liet. tabūnas

Com o sentido de «grupo de animais», nas variedades da língua lituana por vezes também ocorre a palavra tabūnas. Em geral, essa palavra é usada em lituano com vários sentidos: «grupo de animais (na maioria das vezes, cavalos)» (Kurtuvėnai, Liškiava, Ukmergė, Salamiestis), «grupo, multidão» (Alytus, Anykščiai, Druskininkai, Dusetos, Jurbarkas, Južintai, Laukuva, Lazdijai, Rudamina, Ukmergė, Utena), «pastagem cercada por todos os lados» (Kurtuvėnai, Radviliškis, Šiauliai).

A palavra tabūnas entrou na língua lituana vindo das línguas eslavas. Com o sentido de «grupo de cavalos», essa palavra é usada nas línguas eslavas orientais; compare-se russo табун, bielorrusso табун, ucraniano табун. Daí chegou também ao polonês; compare-se polonês tabun58. Os eslavos orientais tomaram emprestada essa palavra de

55 Os exemplos que não constam do dicionário de K. Mühlenbach — J. Endzelīns foram fornecidos pelo autor pelo candidato a mestre em filologia D. Zemzare.

56 P. Skardžius, Die slavischen Lehnwörter im Alt litauischen, p. 183; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 665–666; EM, III, 407.

57 M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 393–394; F. Kluge, Et. Wb., p. 825; E. Klein, Et. Dic., I, p. 607.

58 A. Brückner, Sł. et., p. 563.

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línguas turco-t tártaras; compare-se tártaro de Kazan tabun «manada de cavalos», chagatai tabun, tártaro da Crimeia tabum «manada, grupo»59.

É difícil dizer de qual língua eslava se originou o lituano tabūnas; talvez seja mais provável que os lituanos tenham recebido essa palavra do russo. Os sentidos de «grupo em geral, multidão» e «pastagem cercada» surgiram já na própria língua lituana.

Let. pūlis

Esta palavra é usada em letão com vários significados: ‘a pilha; a multidão’, ‘o rebanho; o grupo (de animais jovens)’, ‘o ninho’, ‘a chuva torrencial’ (EM, III, 446–7). O significado de ‘rebanho’ desenvolveu-se, sem dúvida, a partir do significado de ‘pilha, multidão’.

J. Endzelīns tende a relacionar o let. pūlis com o let. pauna ‘o crânio; a boca’, let. paũna ‘um pequeno gorro; uma mochila; um fardo’ (EM, III, 128). Mais adiante, estas palavras devem ser relacionadas com palavras da raiz indo-europeia *pū-, *peu-, *pou- ‘inflar; inflado, inchado’; cf. sânscrito phuphusah ‘pulmões’, arménio (h)ogi ‘odor, respiração, alma’, etc.60

* * *

As línguas bálticas possuem muitos nomes para designar o ‘rebanho’, sobretudo o lituano. Esses nomes são, na maioria, palavras de origem báltica, formadas a partir de diversas raízes. É frequente a evolução semântica ‘multidão, grupo’ → ‘rebanho’ e ‘animal, animais’ → ‘rebanho’. Alguns nomes de ‘rebanho’ também entraram nas línguas bálticas a partir das línguas eslavas.

NOMES DE PASTORES

Nas línguas indo-europeias não existe um nome comum para ‘pastor’ que seja mais difundido entre elas. Contudo, os grupos individuais de línguas indo-europeias geralmente têm nomes comuns, surgidos de modo semanticamente semelhante e, por vezes, até a partir da mesma raiz indo-europeia; cf. lat. pāstor ‘pastor’: lat. pāscō, -ere ‘pastar, dedicar-se à pecuária’, russo пастух ‘pastor’: russo пасти ‘pastar’, arménio hoviv (< *ou̯i-pā-) ‘pastor’; alemão Hirt ‘pastor’: alemão Herde ‘rebanho, manada’, inglês (shep)herd ‘pastor’; inglês herd ‘rebanho, manada’, lituano ker džius ‘pastor-chefe, pastor mais velho’, etc.

De modo semelhante, surgiram os nomes de pastor também nas línguas bálticas.

Lituano piemuo

Esta denominação é muito antiga; há motivos para supor que remonte ao indo-europeu comum. É verdade que, entre as línguas bálticas, atualmente só encontramos esse nome de pastor em lituano, mas há dados suficientes que indicam que ele existiu no báltico comum.

O lituano piemuõ tem correspondentes diretos apenas em grego; cf. gr. ποιμήν ‘pastor’, ποιμνή ‘rebanho, manada’. É verdade que há controvérsia quanto à correspondência exata do vocalismo da raiz do lituano piemuõ e das palavras gregas. Contudo, quer relacionemos o ie báltico diretamente com

59 M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 66.

60 J. Pokorny, Et. Wb., p. 847.

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ide. *oi, ou se explicaremos o vocalismo da raiz da palavra báltica como resultado de uma alteração provocada pela influência de outras palavras; a relação entre lituano piemuo e grego ποιμήν não deixa dúvidas.

Os nomes de pastor em lituano e grego são relacionados com a raiz proto-indo-europeia *pō(i), cujo significado principal era ‘apascentar animais’. Mais tarde, desse significado surgiu também o novo sentido geral de ‘proteger algo’.

Além do lituano e do grego, encontramos palavras dessa raiz também em outras línguas indo-europeias; compare o sânscrito pāti ‘ele protege, apascenta’, o avéstico pāiti, o sânscrito gōpāḥ ‘pastor (originalmente, pastor de gado, de vacas; compare o sânscrito gauḥ ‘gado, boi, vaca’)’, pāyuḥ ‘guardião’, pālāḥ ‘sentinela, pastor’, nṛpaḥ ‘rei (protetor do povo)’, e o persa antigo xšāθrapāvan ‘governador de uma região, sátrapa’1.

Também se tenta relacionar com a raiz proto-indo-europeia *pō(i) um grupo de palavras das línguas germânicas; compare o gótico fōdr ‘bainha’, o inglês antigo fōdor e o alemão Futter ‘forro’2. Semanticamente, a relação das palavras germânicas com a raiz proto-indo-europeia *pō(i) é explicada pelo fato de que o gótico fōdr e as demais podem estar relacionadas ao sentido de ‘proteger cobrindo’.

Houve tentativas de relacionar a raiz proto-indo-europeia *pō(i) com a raiz proto-indo-europeia *pā- ‘alimentar, nutrir, apascentar’3, da qual derivam os nomes indo-europeus de pastor já mencionados (latim pāstor, russo пастух, armênio hoviv). Essas tentativas, porém, não foram bem-sucedidas.

É muito duvidosa também a relação do hitita paddar ‘cesto, cesta’4 com a raiz proto-indo-europeia *pō(i)5.

As línguas eslavas não herdaram nenhuma palavra da raiz proto-indo-europeia *pō(i). É verdade que essa raiz ocorre na denominação russa e ucraniana para pastor de ovelhas, чабан. Contudo, essa palavra entrou no russo a partir das línguas turco-tártaras (compare o tártaro da Crimeia čōban ‘pastor’6), que, por sua vez, receberam essa denominação de pastor do persa; compare o persa šūban ‘pastor’, o afegão špūn < *fšu-pāna- ‘pastor de gado’, compare o sânscrito pāṇāḥ ‘protetor’7.

Nas línguas letã e prussiana, não encontramos uma denominação de pastor correspondente ao lituano piemuo. No entanto, podemos reconhecer certos vestígios dessa palavra em alguns topônimos e antropônimos.

Na língua prussiana encontramos o topônimo Paymekopo (registrado em documentos de 1311). Parece que, derivando-o de Paymenkopo, seria possível relacionar esse topônimo ao lituano piemuo. Quanto à formação do prussiano Paymekopo, compare o prussiano Auctacops, Auctukape: lituano aukštas + lituano kāpas8.

Também se tenta relacionar com o lituano piemuo o antropônimo letão Paim e o topônimo Paimis9.

Como vemos, o vocalismo da raiz nesses exemplos não coincide com o vocalismo da raiz do lituano piemuo, mas corresponde ao vocalismo do grego ποιμήν. É possível que nas línguas bálticas tenham existido duas variantes dessa denominação de pastor — *peim- ir *poim-. A segunda variante pode até ter sido mais antiga. Isso seria indicado pela denominação de pastor de origem báltica nas línguas fino-bálticas; compare o finlandês paimen ‘pastor’, paimen

1 J. Pokorny, Et. Wb., p. 839; M. Mayrhofer, Et. Wb., I, 348, II, 251, 262.

2 J. Pokorny, Et. Wb., p. 839; F. Kluge, Et. Wb., p. 226—227.

3 M. Mayrhofer, Et. Wb., II, p. 251; J. Pokorny, Et. Wb., p. 787.

4 F. Kluge, Et. Wb., p. 227.

5 J. Friedrich, Hethitisches Wörterbuch, Heidelberg, 1952, p. 166.

6 M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 297.

7 M. Mayrhofer, Et. Wb., II, p. 251.

8 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 12, 112.

9 E. Blese, Latviešu personu vārdu un uzvārdu studijas, I, Rīgā, 1929, p. 333; E. Blese tokį (šaknyje su -ai-) latvių kalbos piemens pavadinimą linkęs laikyti sekundariniu skoliniu iš Pabaltijo suomių kalbų.

21

iaa ‘pastar’, est. paimendama ‘pastar, guardar’, carel. paimen ‘pastor’, liv. paimēn ‘pastor’, paimentta ‘pastar, guardar’, veps. paimen ‘pastor’, paimenta ‘pastar, guardar’ etc.10

[A denominação báltica para pastor entrou nas línguas fino-bálticas juntamente com outras palavras relativas à criação de animais e à agricultura, provavelmente nos últimos séculos antes da nossa era. No terreno das línguas fino-bálticas, dela surgiu também um verbo que significa ‘pastar, guardar’, bem como outras palavras aparentadas; compare-se o finlandês paimentaminen ‘pastoreio, apascentamento’, paimenkoira ‘cão pastor’, paimenpilli ‘flauta de pastor’, paimenpoika ‘pastorzinho’, paimentolainen ‘nómada’ etc.11

Uma questão bastante interessante é por que razão o letão não conservou esta denominação para pastor. Parece-nos que a preposição pie poderá ter desempenhado aqui algum papel. Com efeito, no letão, após a transformação de pie, as palavras letãs iniciadas pela sequência pie- poderiam ser entendidas como palavras compostas com a preposição. As palavras cuja relação lexical com a preposição pie já não era sentida não se ajustavam, de certo modo, ao sistema dos compostos mencionados e começaram a desaparecer gradualmente, ou a sua fonética foi alterada sob a influência de outras palavras. Por esta razão, por exemplo, o letão plāva poderá ter substituído o antigo letão pieva (EH, II, 278); pela mesma razão, talvez não encontremos em letão um correspondente fonético do lituano pieštūs. A nossa hipótese, naturalmente, não se pode aplicar a palavras letãs em que ie < en, nem a palavras que, após o encurtamento da terminação, se tornaram monossilábicas.

Let. gans, lit. gānas etc.

No letão consolidou-se uma denominação para pastor com outra raiz; compare-se o letão gans ‘pastor’, as formas diminutivas ganiņš, ganelis, ganēns, gane, gaņa, ganiene, ganikis ‘um pastor (um pastor pequeno, insignificante)’, gantājs ‘o guardião’ (EM, I, 599, 600; EH, I, 382). Estas palavras relacionam-se com o letão ganīt e o lituano ganyti.

Denominações para pastor derivadas deste último verbo são também usadas em lituano; compare-se o lituano gānas ‘guardador de rebanhos, pastor’, ganýtojas, ganikas, ganūkas, ganė ‘pastora, guardadora de rebanhos’ (LKŽd., III, 96, 100, 107, 108).

Usam-se também numerosas denominações compostas para pastor, cujo segundo componente é uma palavra desta raiz. Compare-se:

Lit. ančiāgonis ‘pastor de patos’ (LKŽd., I(2), 131) < lit. ántis + ganýti.

Lit. arklāganis ‘aquele que apascenta cavalos’, arklāganis, arkliaganỹs, arkliāgonis, arkliiganis, arkliūganis (LKŽd., I(2), 301, 303, 305, 307) < lit. arklys + ganýti.

Lit. aviganis ‘pastor de ovelhas, guardador de ovelhas’, avigonis, aviāgonis, avēliaganis (LKŽd., I(2), 521, 523, 525) < lit. avis + ganýti.

Lit. galvijagonis ‘pastor, guardador de gado’, galvijagonis (LKŽd., III, 83) < lit. galvijas + ganýti.

Lit. jautaganỹs ‘guardador de bois; pastor’, jaučiāgonis (LKŽd., IV, 295, 322) < lit. jautis + ganýti.

Lit. karvāganis ‘pastor de vacas’ (LKŽd., V, 352) < lit. kárvė + ganýti.

10 Y. H. Toivonen, E. Itkonen, A. J. Joki, Dicionário etimológico da língua finlandesa, II, Helsinki, 1958, p. 459; J. Kalima, Empréstimos bálticos nas línguas fino-bálticas, Helsinki, 1936, p. 145; V. Thomsen, Relações entre as línguas finlandesas e bálticas (lituana-letã), Köbenhavn, 1890, p. 208.

11 A. Sabaliauskas, LKK, VI, p. 130.

22

Lituano kiaulāganis ‘pastor de porcos’, kiaulāgonis, kiaūlganis, kiauliāganis, kiauliāgonis (LKŽd., V, 687, 691, 693) < lituano kiaũlė + ganýti.

Lituano ožkaganỹs ‘pastor de cabras’, ožkāganis¹² < lituano ožkà + ganýti.

Lituano žąsigonis ‘pastor de gansos’ < lituano žąsìs + ganýti.

Lituano bandāganis ‘pastor de gado, guardador de gado’, bandganis (LKŽd., I(2), 639) < lituano bandà + ganýti.

Lituano diēnaganis ‘quem só pastoreia o gado durante o dia, pastor medíocre’ (LKŽd., II, 346) < lituano diēnā + ganýti.

Lituano naktigonis ‘quem pastoreia o gado à noite (geralmente cavalos)’ < lituano naktis + ganýti.

Lituano rytāgonis ‘quem pastoreia o gado de manhã’ < lituano rytās + ganýti.

Designações compostas de pastores de origem semelhante são também bastante usadas em letão. Compare-se:

Letão āitgans ‘o pastor de ovelhas’ (EH, I, 5) < letão āita ‘ovelha’ + gans ‘pastor’.

Letão cūkgans ‘o pastor de porcos’, cūkganis (EM, I, 398; EH, I, 280) < letão cūka ‘porco’ + gans.

Letão giòvgans ‘o pastor de vacas’ (EM, I, 692; EH, I, 424) < letão giòvs ‘vaca’ + gans.

Letão luōpgans ‘o pastor de gado’ (EM, II, 527) < letão luōps ‘gado, animal doméstico’ + gans.

Letão zīrgans ‘o pastor de cavalos’ (EM, IV, 726; EH, II, 808) < letão zīrgs ‘cavalo’ + gans.

Letão zùosgans ‘o pastor de gansos’ (EM, IV, 759) < letão zùoss ‘ganso’ + gans.

Letão dižgans ‘o pastor principal (mais velho), pastor-chefe’ (EH, I, 324) < letão dižs ‘grande, magnífico, nobre’ + gans.

Lituano ganýti e letão ganīt são ainda relacionados ao lituano gìnti ‘perseguir, conduzir; levar o rebanho, os animais ao pasto’, letão dzīt, russo гнать ‘conduzir, incitar, perseguir, afugentar’, polonês gonić, irlandês antigo gonim ‘firo, mato’, sânscrito hanti ‘ele mata, assassina’, armênio gan ‘golpe, açoite’, grego φόνος ‘assassinato’ etc.13

Reconstrói-se para essas palavras a forma proto-indo-europeia *gu̯hen -(ə)-, cujo significado original provavelmente era ‘bater’. Nas línguas bálticas também há palavras dessa raiz cujo significado não se afastou tanto do sentido original; compare-se lituano genėti ‘podar ramos; cortar arbustos’, letão dzenēt, lituano genys, letão dzenis, prussiano antigo genix. Nas línguas eslavas encontramos palavras dessa raiz cujo significado se aproxima plenamente dos sentidos de lituano ganýti, letão ganīt, lituano gìnti, letão dzīt; compare-se russo вгон ‘pastagem, pastoreio, caminho do rebanho; ato de levar o rebanho ao pasto’, polonês wygon.

Em lituano há denominações de pastor derivadas diretamente do verbo gìnti; compare-se lituano genùlis ‘pastorzinho’ (LKŽd., III, 239), gìnikas ‘aquele que conduz (os animais)’ LKŽd., III, 319), gintėjas (LKŽd., III, 327).

Lituano arklininkas, avininkas etc.

Também ocorrem denominações de pastores derivadas diretamente dos nomes dos animais correspondentes. Compare-se:

Lituano arklininkas ‘vigia noturno de cavalos, cuidador de cavalos; apreciador, conhecedor de cavalos’, arklinȳkas (LKŽd., I (2), 305), arklinis ‘vigia noturno de cavalos, pastor de cavalos, tratador’ (LKŽd.,

12 Os exemplos da língua lituana para os quais não se indica fonte são geralmente retirados do fichário do dicionário acadêmico «Lietuvių kalbos žodynas».

13 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 152—153; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 293; J. Pokorny, Et. Wb., p. 491—493.

23

I(2), 306), arklìčius ‘pastor malandro’ (LKŽd., I (2), 305; quanto à semântica, cf. lituano arklìnis ‘travesso’), cf. lituano arklỹs.

Lituano avininkas ‘pastor de ovelhas; cuidador, criador, tratador de ovelhas’, avinýkas (LKŽd., I(2), 528), avinorius ‘pastor de ovelhas’ (com sufixo eslavo, LKŽd., I(2), 529), cf. lituano avis.

Lituano galvìjininkas ‘pastor de gado’ (LKŽd., III, 83), galvininkas (LKŽd., III, 84), cf. lituano galvijas.

Lituano jautìnininkas ‘pastor de bois; pessoa que trabalha com bois’, jautìnis ‘boieiro, pastor, comerciante de bois; cuidador de bois’ (LKŽd., IV, 324), jaučius ‘pastor de bois; vaqueiro’, jautìčius (LKŽd., IV, 295), jautìšius ‘cuidador de bois’ (LKŽd., IV, 325), cf. lituano jautis.

Lituano karvininkas ‘pastor, cuidador, criador de vacas’ (LKŽd., V, 357), karvišius ‘pastor de vacas, em sentido depreciativo’, karviškus (LKŽd., V, 358), cf. lituano karvė.

Lituano kiaulininkas ‘pastor de porcos, porqueiro, alimentador e cuidador de porcos’, kiaulininkas (LKŽd., V, 696), kiaulinis ‘pastor de porcos; pessoa que se dedica à criação de porcos’, kiaulinis (LKŽd., V, 697), kiaulišius ‘porqueiro, pastor de porcos’, kiauliušis (LKŽd., V, 699), cf. lituano kiaulė.

Lituano ožkininkas ‘pessoa que cria cabras, cabreiro’, ožkininkas, cf. lituano ožka.

Lituano avinvedis ‘pastor de ovelhas’ (LKŽd., I(2), 529), avinvedỹs < lituano ávi̇̀nas + vesti.

Lituano kiauliapiemenis ‘pastor de porcos’ (LKŽd., V, 694), kiauli̇̀piemenis (LKŽd., V, 700) < lituano kiaulė+piemuo.

Lituano: akėčpiemenis, berniukas, gelčius etc.

Ocasionalmente, encontra-se também em lituano algum nome de pastor de outra origem, geralmente usado com um significado específico ou dotado de alguma nuance emocional. Cf.:

Lituano akėčpiemenis ‘pastor apto a trabalhar com a grade, ajudante de lavoura’ (LKŽd., I(2), 51), akėtpiemenis (LKŽd., I(2), 55) < do lituano akėčios ‘grade’ + piemuo ‘pastor’.

Lituano berniukas ‘menino pastor, trabalhador rural mais jovem (empregado)’ (LKŽd., I(2), 770), cf. lituano berniukas ‘menino’.

Lituano gelčius ‘criança, menino pastor’ (LKŽd., III, 213), cf. lituano geltónas, geltas ‘amarelo’; quanto à semântica, cf. lituano geltonsnāpis ‘imaturo, garoto de leite, moleque’.

Lituano naktininkas ‘pastor noturno’, naktinis, cf. lituano naktis ‘noite’.

Lituano vigia noturno ‘pastor noturno’ < lituano noite + deitar-se

Lituano: avčiorius

Lituano avčiorius ‘criador de ovelhas, pastor de ovelhas’ (LKŽd., I(2), 520) < polonês owczarz.

Entretanto, na palavra lituana percebe-se a relação lexical desse vocábulo com o lituano avis ‘ovelha’. Que essa palavra tenha sido emprestada do polonês talvez seja indicado por sua fonte — o dicionário de J. Brodovski.

Letão šēperis, šēruks

Lat. šēperis ‘um pastor, o pastor de uma propriedade; o pastor de uma propriedade’ (EH, II, 626) — palavra de origem alemã, cf. alemão Schäfer; cf. também lat. šēperis ‘cão pastor’, šēperītis (EM, IV, 17)14.

14 J. Sehwers, Sprachlich-kulturhistorische Untersuchungen, Leipzig, 1936, p. 130.

24

Lat. šeruks ‘um cuidador de gado (casado) e pastor (especialmente em propriedades)’ (EM, IV, 17) encontra-se em dialetos letões situados na fronteira com a Lituânia; na opinião de J. Endzelīns, pode ter sido tomado de empréstimo do lituano, cf. lit. šėrti, let. šėrt < < lit. šerti.

Lit. kerdžius

Na língua lituana usam-se vários nomes específicos para designar o pastor-chefe.

A denominação mais difundida é kerdžius, também usada na língua literária. Além da forma kerdžius, nos dialetos e em diversos monumentos linguísticos encontramos também outras formas dessa denominação de pastor-chefe, com a mesma raiz; cf. kerdeninkas (kerdenykas), kerdis, kerdžys (LKŽd., V, 600). Dessa denominação derivaram também numerosas outras palavras relacionadas com o trabalho do pastor-chefe ou, em geral, com o pastoreio de animais; cf. kerdystė ‘trabalho do pastor-chefe’, kerdžystą, kerdžuvis ‘aquele que já foi pastor-chefe’, kerdūkas ‘pastorzinho’, kerdžianka ‘mulher que apascenta animais’, kerdžiauti ‘exercer as funções de pastor-chefe, ser pastor-chefe’, kerdžinė ‘banquete dos pastores’, kerdžinyčia ‘cabana do pastor-chefe’, kerdžiuvienė ‘esposa do pastor-chefe’ (LKŽd., V, 600), kiaulkerdis ‘pastor-chefe de porcos’, kiaulkerdžius (LKŽd., V, 699).

Nos dialetos lituanos, bem como na língua literária, é muito difundida também a forma skerdžius e as palavras dela derivadas (skerdžiauti, skerdystė, skerdžiuvienė). A forma skerdžius é mais recente — surgiu com o acréscimo da consoante s- à forma kerdžius. A adição de consoantes semelhante é um fenômeno bastante comum em lituano (também conhecido em letão); cf. lit. keterà: sketerà, kregždė: skregždė, kremzlė: skremzlė, entre outros.15

A origem do s- acrescentado à palavra kerdžius é explicada de várias maneiras. E. Fraenkel, advertindo que o lit. skerdžius não deve ser relacionado com o lit. skersti ‘abater um porco’, explica o aparecimento de s- pela influência das palavras sérgėti, sárgas16. J. Otrębski, por sua vez, explica o aparecimento do lit. skerdžius justamente pela influência da palavra skersti, pois o pastor-chefe também era o responsável pelo abate dos animais17. Das duas explicações, a de J. Otrębski parece mais convincente. Contudo, parece-nos que o s- no nome do pastor-chefe também poderia ter surgido sem a influência de alguma palavra específica. Afinal, de qualquer forma, não é possível explicar etimologicamente todos os s- acrescentados, tanto em lituano como em letão, pela influência de uma palavra específica.

O acréscimo de s- à palavra kerdžius é um fenômeno antigo. Z. Zinkevičius relaciona também com a palavra skerdžius os hidrônimos Skerdžius, Skérdžia18. No entanto, esses hidrônimos também podem ser relacionados com palavras do grupo lit. skardis, skardžius, cf. lit. Skerdupis, ao lado de Skardupis, e outros hidrônimos muito difundidos19. Esta última possibilidade parece-nos mais plausível, sobretudo porque não ocorrem hidrônimos que possam ser relacionados com o lit. kerdžius.

15 J. Otrębski, Gramatyka języka litewskiego, I, Warszawa, 1958, p. 376–378; J. Endzelins, Latviešu valodas gramatyka, Rīga, 1951, p. 238–239; Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, Vilnius, 1966, p. 190–191.

16 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 242.

17 J. Otrębski, Gramatyka języka litewskiego, I, p. 378.

18 Lietuvos TSR upių ir ežerų vardynas, Vilnius, 1963, p. 148; Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, p. 190.

19 Lietuvos TSR upių ir ežerų vardynas, p. 147–148.

25

O lituano kerdžius tem uma etimologia bastante segura — é associado a palavras da forma proto-indo-europeia *kerdho-, cujo significado original era ‘fila; rebanho, manada’. A evolução semântica das palavras dessa forma proto-indo-europeia está muito bem refletida nas línguas eslavas e, em parte, também nas bálticas; comparem-se o russo череда ‘fila, tempo, ocasião; rebanho’, o ucraniano череда ‘rebanho, grupo, multidão; fila’, o bielorrusso чарада ‘fileira, fila; multidão, grupo; rebanho’, o polonês trzoda ‘rebanho, gado’, o tcheco třída ‘ordem, fila, classe, sucessão; rua, avenida’, o eslovaco črieda ‘rebanho, manada’, o alto sorábio črjoda ‘monte’, entre outros.20

Ao associar o lituano kerdžius, o prussiano kėrdan e o russo череда ao indo-europeu *kerdho, suscita algumas dúvidas a consonância inicial da palavra nas línguas bálticas e eslavas — gutural em vez da palatal esperada; comparem-se o sânscrito śárdha- ‘rebanho, grupo’ e o avéstico sarəða. No entanto, nas línguas bálticas, essa gutural «irregular» ocorre com bastante frequência, e provavelmente não se deve considerar que esta denominação báltica e eslava seja um empréstimo de algum dialeto indo-europeu ocidental.

B. Jäger tenta relacionar estas palavras bálticas e eslavas ao indo-europeu *(s)ger- ‘schnei-’21.

Entre as línguas bálticas, o lituano e o prussiano conservaram palavras desta raiz indo-europeia. Em lituano, como vimos, a palavra desta raiz designa o pastor mais velho, ao passo que a palavra prussiana kėrdan, no singular acusativo (forma atestada três vezes no terceiro catecismo), e kerdan (forma atestada uma vez no mesmo catecismo) conservaram o significado temporal; comparem-se prei swaiam kerdan (= zu seiner zeit), en kėrdan (= bey zeit), Enstan kėrdan (= Zu der zeit)22. Assim, nas línguas bálticas parecem ter sido preservados dois polos semânticos do indo-europeu *kerdho-. Por isso, parece justificada a hipótese de que, nas línguas bálticas, antes de surgir o significado de pastor mais velho ou de pastor em geral, se usava uma palavra da mesma raiz com o significado de ‘rebanho, manada’. Poderíamos até supor que a denominação do pastor mais velho kerdenykas, atestada no manuscrito da Postila de Wolfenbüttel de 1573, de certo modo reflete o antigo significado do lituano *kerda ‘rebanho, manada’; compare-se bandà: bandininkas ‘pastor’, bandùlis ‘pastor mais velho; kerdžius’.

A palavra da raiz indo-europeia *kerdho- é usada com o sentido de pastor nas línguas germânicas; comparem-se o gótico hairdeis, o alto-alemão antigo hirti, o alemão Hirt e o inglês (shep)herd, que também deriva da denominação germânica do rebanho; comparem-se o gótico hairda, o alto-alemão antigo hërta, o alemão Herde e o inglês herd, entre outros.23

Que, anteriormente, uma palavra da raiz indo-europeia *kerdho- era usada com o significado de ‘fila, tempo’ não só em prussiano, mas também noutras línguas bálticas, é indicado pelo facto de essa palavra ter passado às línguas fino-bálticas; comparem-se o finlandês kerta ‘camada, fila; vez’ (comparem-se expressões ou palavras compostas como ainoa kerta ‘uma vez’, vaatekerta ‘mudança de roupa’, elämänkerta ‘biografia’, vuosikerta ‘publicação anual’; derivados como kerros ‘camada’, kertoa ‘contar; multiplicar (em matemática)’, entre outros), o estónio kord, o careliano kerda, o livónio kērda, entre outros.24 É verdade que, recentemente, alguns investigadores (J. Ka-

20 M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 320; R. Trautmann, B.-sl. Wb., p. 127–128; О. Н. Трубачёв, Origem das denominações dos animais domésticos nas línguas eslavas, p. 105.

21 B. Jėgers, KZ, 80, p. 46–48.

22 R. Trautmann, Os monumentos linguísticos prussianos antigos, p. 53, 61, 63, 69, 356; Monumentos da língua prussiana, p. 195, 209, 211, 223.

23 F. Kluge, Et. Wb., p. 304, 310; J. Pokorny, Et. Wb., p. 579; E. Klein, Et. Dic., I, p. 722.

24 Y. H. Toivonen, Dicionário etimológico da língua finlandesa, I, p. 184–185; V. Thomsen, Contatos entre as línguas finlandesas e as bálticas (lituana-letã), p. 185–186; J. Kalima, Os empréstimos bálticos nas línguas fino-bálticas, p. 115–117.

26

(limą, L. Hakulinenas) duvidaram um pouco da origem báltica destas palavras. Contudo, é pouco provável que as suas dúvidas tenham fundamento. Tanto o significado das palavras como a sua fonética indicam que elas foram, de facto, emprestadas das línguas bálticas.

Não encontramos vestígios de ide. *kerdho- em letão. É verdade que nos dialetos letões (Rucava) foi registada a forma kėrdzis ‘moço dos cavalos na propriedade senhorial’ (EM, II, 375). Contudo, como assinalou J. Endzelīnas, ela provavelmente deriva do lituano kerdžius.

As palavras lituanas kerdžius, skerdžius também passaram para documentos sobre a Lituânia redigidos em bielorrusso, russo e polaco; cf. bielorr. кердъ, скердъ, rus. кердъ, pol. skierdź25.

H. Hirt, sem qualquer fundamento, tentou considerar a palavra lituana kerdžius de origem germânica (gótica)26.

Lituano dieninis

Lituano dieninis ‘kerdžius’ (LKŽd., II, 347), cf. lituano dienà.

Como podemos ver, a semântica desta designação lituana do pastor-chefe assemelha-se muito à evolução dos significados de ide. *kerdho-. Lituano dieninis é usado numa área dialetal relativamente pequena (Bagaslaviškis, Gelvonai, Pabaiskas, Paberžė). No leste da Lituânia encontra-se também o apelido Dieninis, que originalmente designava a profissão da pessoa a que se referia.

Lituano viršininkas

Lituano viršininkas ‘kerdžius, pastor-chefe’, cf. lituano viršus.

Lituano viršininkas, no sentido de pastor-chefe, ocorre sobretudo na parte norte da Lituânia central (Akmenė, Eriškiai, Gruzdžiai, Grūžiai, Klykoliai, Linkuva, Papilė, Pušalotas, Rozalimas, Skaistgirys, Šeduva, Upytė, Žagarė). Com o sentido de pastor-chefe, o lituano viršininkas passou também para documentos redigidos em polaco em meados do século XVIII, nas regiões de Šiauliai e Žagarė. Além da palavra viršynik, esses documentos contêm até mesmo o termo derivado viršynikostvo ‘ofício, funções de kerdžius’27.

É interessante o destino posterior desta palavra. Já no final do século XIX, J. Jablonskis introduziu-a na língua literária, não, porém, com o sentido de ‘pastor-chefe’, mas com o de ‘pessoa que tem algum tipo de autoridade sobre outras pessoas (Vorsteher, Vorgesetzter, начальник)’28. Graças sobretudo aos esforços de J. Jablonskis, a palavra consolidou-se firmemente na língua literária lituana com o seu novo significado.

Do lituano viršininkas ‘pastor-chefe’ derivaram também várias outras palavras relacionadas com a criação de gado; cf. lituano viršininkė ‘esposa do viršininkas, mulher do kerdžius’, viršininkai ‘dia em que o pastor-chefe, isto é, viršininkas, vai comer à quinta do pastor, que assim não precisa de apascentar o rebanho’ (Lauksodis, Linkuva).

25 K. Jablonskis, Palavras lituanas na língua dos antigos escritórios da Lituânia, p. 212, 323, 358; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 242.

26 K. Būga, Escritos selecionados, II, p. 92.

27 K. Jablonskis, Palavras lituanas na língua dos antigos escritórios da Lituânia, p. VIII–IX, 356–358.

28 Jablonskio raštai, IV, Kaunas, 1935, p. 17; P. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, p. 601.

27

Liet. bandùlis e outros

Liet. bandùlis ‘vaqueiro’ (LKŽd., I(2), 643), bandžius (LKŽd., I(2), 644), bandūnis (LKŽd., I(2), 641), cf. também bandinininkas ‘pastor do rebanho, pastor’, bandišius ‘pastor, tratador’ (LKŽd., I(2), 641), cf. lituano bandà ‘rebanho’.

Lituano tvarklas

Na literatura linguística, desde os tempos de A. Becenberger, menciona-se com o sentido de pastor a palavra tvarklas, usada na tradução da Bíblia de J. Bretkūnas²⁹. Nas traduções posteriores da Bíblia em lituano da Prússia Oriental, a palavra tvarklas usada por J. Bretkūnas corresponde a kerdžius (.... e como um rebanho sem pastor, Is. 13, 14)³⁰. Portanto, seria possível supor que, também na Bíblia de J. Bretkūnas, a palavra tvarklas é usada com o sentido de vaqueiro. Infelizmente, a palavra mencionada entrou na literatura linguística com o sentido de pastor devido a um engano. Mencionamos que, nas traduções mais recentes da Bíblia em lituano da Prússia Oriental, à palavra de J. Bretkūnas tvarklas naquela frase corresponde kerdžius. Nas traduções alemãs mais recentes, essa frase é traduzida assim: …und wie eine Herde ohne Hirten (Is., 13, 14)³¹. Contudo, na tradução da Bíblia de Martinho Lutero de 1549, essa frase aparece assim: …und wie ein Herd on hürten³². Que, nessa frase, o alemão hürten significa não ‘vaqueiro’ ou ‘pastor’, mas ‘curral’, é claramente demonstrado por outra frase do mesmo capítulo da Bíblia: …die Hirten keine hurten da auffschlahen (Is., 13, 20), que J. Bretkūnas também traduz: …Piemens… Twarklu ne tajis. Portanto, tanto na primeira frase (que J. Bretkūnas traduz: … ir kaip Gūtas be Twarklių) quanto na segunda, tvarklas de J. Bretkūnas significa ‘curral (= alemão Hürde, alto-alemão médio hurt, plural hürte), e não ‘pastor’.

Lituano pastyrius, pulkaunýkas, ustovas

Lituano pastyrius ‘pastor-chefe, vaqueiro’ (Daugėliškis, Dūkštas, Ignalina, Mielagėnai, Rimšė, Tverečius), cf. russo пастырь ‘pastor, sacerdote, vaqueiro’, bielorrusso пастыр, ucraniano пастир. A palavra provavelmente entrou no lituano a partir do russo. A palavra comum a todas as línguas eslavas provavelmente está relacionada com o russo пасти ‘apascentar’ e outras formas. Contudo, devido ao sufixo incomum nas línguas eslavas, chegou-se a considerá-la até mesmo um empréstimo³³.

Lituano pulkaunýkas ‘pastor-chefe, vaqueiro’ (Karsakiškis, Ukmergė), pulkaunykas < russo полковник ‘пастух’ (В. Н. Добровольский, См., 652).

Lituano ustōvas (užstōvas) ‘pastor-chefe, vaqueiro; supervisor’ (Anykščiai, Balninkai, Daugailiai, Kupiškis, Kupreliškis, Pandėlys, Pasvalys, Rokiškis, Salakas, Sudeikiai, Svėdasai, Tauragnai, Ukmergė, Utena, Užpaliai, Vyžuonos, Zarasai); sua origem suscita certas dúvidas.

E. Frenkelis, ao reconstruir, provavelmente com razão, a forma užstōvas, relaciona essa denominação do pastor-chefe com o lituano užstōti ‘defender, apoiar o lado de alguém; ser um obstáculo,

29 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1150; A. Bezzenberger, Beiträge zur Geschichte der litauischen Sprache, Göttingen, 1877, p. 333.

30 Biblia, Tai esti: Wissas Szwentas Raßtas… Karalauczuje, 1816; Biblija, tai esti Visas Šventas Raštas, Berlynas, 1931.

31 Die Bibel oder die ganze Heilige Schrift, Berlin, 1907.

32 Biblia: Das ist: die gantze heilige Schrifft: Deutsch. Auff's new zugericht. D. Mart. Luth., Wittemberg, 1549.

33 M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 322.

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reter alguém; começar, užstojis ‘proteção, abrigo’, užstolis ‘salvador’ (palavra dos escritos de M. Daukša) etc.34

No entanto, parece-nos que tal associação é bastante dificultada pela diferença de significado. Assim, não seria mais correto considerar o lituano ustòvas (užštòvas) como uma espécie de derivado do lituano pristòvas ‘supervisor, encarregado’ (< russo пристава, bielorrusso прыстаў ou polonês przystaw).

Lituano paganìkas, pūganas etc.

Em lituano, encontramos também denominações específicas para os ajudantes do kerdžius — o pastor-chefe. Cf.:

Lituano paganìkas ‘ajudante do kerdžius ou do pastor’ (Girdiškė, Karklėnai, Laukuva, Nemakščiai, Šilalė, Švėkšna, Upyna, Žarėnai).

A forma paganìkis ocorre com bastante frequência também nos dicionários da língua lituana da Prússia Oriental:

„Hirten=Knabe Paganikkis, -io“, C, I, 952.

„Paganikkis, -io, m. um rapaz auxiliar do pastor de gado (Niederung, Prökuls)“, G. H. F. Nesselmann, Wb., 256.

A forma diminutiva paganikėlis encontra-se nas canções populares lituanas recolhidas por F. Nesselmann:

“Birbiń wamzdelį Paganikelis”35.

Liet. paganìkis A. Leskynas tentou explicar a origem, segundo o qual „paganikis ou pagunikis, ajudante do pastor de gado, é provavelmente, com toda a certeza, o russo pogonok ‘condutor de gado’, lituanizado segundo paganyti, embora se pudesse invocar para a forma com u o prussiano guntwei (infinitivo), gunnimai (1.ª pessoa do plural) ‘conduzir’“36.

Provavelmente, não se pode rejeitar categoricamente esta explicação de A. Leskynas. Há, contudo, razões suficientes para duvidar dela. Em primeiro lugar, o significado do russo погонок ‘Sūdrussl. 1. o que toca os bois do arado; o condutor de gado’ (И. Я. Павловский Р-н. сл. 1082) difere bastante do significado do lituano paganìkas. Em segundo lugar, nos dialetos lituanos encontramos um sinónimo do lituano paganìkas que, pela sua formação, não se assemelha em nada ao russo погонщик, mas que pode ser relacionado com o lituano ganýti. Cf.:

Lituano pāganas ‘ajudante do kerdžius’ (Kretinga, Palanga, Salantai, Šateikiai), pāganaitis ‘pequeno pastor’ (Palanga), cf. o lituano paganyti37.

O lituano paganìkas é considerado palavra autóctone, relacionando-o com o lituano paganyti, por P. Skardžius38 e J. Otrębski39.

Lituano pavàrniṅkas, pìrmininkas, šalininkas

Liet. pavàrniṅkas ‘pastor que, juntamente com o kerdžius, conduz o rebanho e fica na retaguarda’ (Akmenė), pavarinis (Žemaitkiemis), pavarinys (Lyduokiai), cf. lituano varyti.

34 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1175.

35 Littauische Volkslieder, gesammelt kritisch bearbeitet und metrisch übersetzt von G. H. F. Nesselmann, Berlin, 1853, p. 20; plg. t. p. V. Kalvaitis, Prūsijos Lietuvių dainos, Tilžė, 1905, p. 341.

36 A. Leskien, A formação dos substantivos em lituano, p. 510.

37 P. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, p. 444.

38 P. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, p. 128.

39 J. Otrębski, Gramatyka języka litewskiego, II, p. 277.

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Lituano pirmininkas (usado sobretudo no plural): ao conduzir o rebanho junto com o kerdžius, pastor que caminha à frente do rebanho («à frente dos olhos») (Akmenė); cf. lituano pirmas. Na ficha do «Dicionário da língua lituana», de caráter acadêmico, o lituano pirmininkas está registrado uma vez também com o sentido geral de «pastor» (Lazūnai, anotado por J. Senkus)40, com a observação de que foi ouvido uma única vez, de um idoso.

Lituano šalininkas (usado sobretudo no plural): ao conduzir o rebanho junto com o kerdžius, pastor que caminha ao lado do rebanho (Akmenė); cf. lituano šalis.

Nos dialetos lituanos, o pastor mais velho é por vezes chamado também por outras palavras, usadas geralmente para designar antiguidade ou autoridade: piemenų karalius, galvà, tėvas, vyresnybė41. Esses nomes, porém, costumam ter certa conotação emocional.

* * *

Após examinar as denominações de pastor nas línguas bálticas, podemos constatar que somente o lituano conservou a antiga denominação indo-europeia de pastor (lituano piemuo). Há, contudo, motivos para supor que essa denominação também existisse em outras línguas bálticas. Das línguas bálticas, essa denominação passou às línguas fino-bálticas. O lituano conserva também uma denominação muito antiga para o pastor mais velho (lituano kerždžius). Nas línguas bálticas há muitas denominações de pastor ou de pastor mais velho, usadas sobretudo nas regiões setentrionais e de diversas origens; encontramos especialmente muitas dessas denominações em lituano.

DENOMINAÇÕES DE EDIFÍCIOS PARA A GUARDA DE ANIMAIS

As línguas indo-europeias não têm uma denominação comum para o edifício destinado a alojar animais. Muitas ramificações das línguas indo-europeias também não possuem uma denominação comum. Os nomes dessa noção surgiram, em geral, de forma independente em cada língua, e há numerosos casos de empréstimo.

As línguas bálticas tampouco têm uma denominação comum para esse edifício. No entanto, como veremos, há algumas denominações comuns dessa noção em lituano e letão.

Há pouquíssimas informações históricas sobre os edifícios destinados à guarda de animais entre os antigos bálticos. As breves referências disponíveis em documentos históricos não permitem reconstituir em detalhe a evolução da forma desse tipo de edifício. Tanto na Lituânia como na Letônia, havia diferentes tipos de edifícios destinados à guarda de animais1.

Documentos do século XVI contêm informações um pouco mais detalhadas sobre os estábulos dos camponeses lituanos. Por exemplo, o registro de 31 de outubro de 1562, feito por Jokūbas Laškauskis, revisor dos distritos da Samogícia, no inventário do distrito de Karšuva, diz: «Para que o gado seja mantido necessariamente fora das casas, em razão do estrume, devem-se construir pátios abertos e cercá-los bem, como na Podláquia. E o administrador, para servir de exemplo, deve mandar construir um junto à sua residência, em algum distrito de vaitystė; e, se alguém nunca tiver visto um, então é preciso fazer assim

40 Z. Zinkevičius, Dialetologia lituana, p. 29.

41 Lietuvių etnografijos bruožai, red. A. Vyšniauskaitė, Vilnius, 1964, p. 93.

1 Lietuvių etnografijos bruožai, red. A. Vyšniauskaitė, Vilnius, 1964, p. 262–269; Iz. Butkevičius, Lietuvių valstiečių ūkiniai pastatai, — Iš lietuvių kultūros istorijos, II, Vilnius, 1959, p. 237–256; K. Čerbulėnas, Namas („numas“ pirmasis lietuvių gyvenamojo pastato tipas, — Iš lietuvių kultūros istorijos, I, Vilnius, 1958, p. 104–145; Latviešu konversācijas vārdnīca, 10, Rīga, 1933–1934, sklt. 19235–43; A. Bielenstein, Die Holzbauten und Holzgeräte der Letten, I–II, St. Petersburg, 1907–1918; Latviešu etnogrāfija, red. kolēģija: A. Bīrons, S. Cimermanis, A. Krastiņa, I. Leinasare, H. Strods (atb. red.), Rīga, 1969, p. 134; S. Cimermanis, Latviešu tautas dzīves pieminekļi, Celtnes un to iekārta, Rīga, 1969, p. 81–88.

30

…: escolher um lugar tal que a água não escorra dele; em seguida, no lado sul, construir um portão com uma cerca não muito alta; no lado leste, construir um estábulo ou um celeiro, coberto sem muita altura para protegê-lo do vento, e resguardar bem pelo menos duas paredes, erguendo-as e enchendo de terra o espaço entre elas; no extremo do pátio aberto, no lado norte, construir outro, e também um terceiro no lado oeste, deixando um espaço vazio no meio, para que os animais possam sair livremente dos estábulos e entrar neles por conta própria; além disso, espalhar palha e outras coisas no meio, para que o gado as pise; assim haverá estrume suficiente para adubar a terra…»2

Uma das primeiras descrições mais pormenorizadas dos estábulos lituanos foi apresentada por S. Daukantas3.

Liet. tvártas

Em lituano, a designação mais difundida para uma construção destinada a abrigar animais é tvártas. Hoje, essa palavra é usada na língua literária e numa vasta área dos dialetos lituanos (partes do sul, centro e leste da Lituânia: Ariogala, Daugai, Dūkštas, Ignalina, Jurbarkas, Kapsukas, Kėdainiai, Lazdijai, Raseiniai, Simnas, Švenčionys, Varėna, Veisiejai, Vilkaviškis, Vilkija; ilhas linguísticas lituanas situadas no território da RSS da Bielorrússia: Lazūnai, Zietela)4.

Essa palavra já aparece também em nossos textos antigos. Assim, na tradução da Bíblia de S. B. Chilinskis encontramos:

«Pabudawosim čia awiu twartus pekuy musu...», 4 Moz 32, 16.

«... ir padarė twartus pekuy sawo...», 1 Moz, 33, 17.

J. Bretkūnas traduz essas passagens bíblicas assim:

«Mes tiktai Awiu Twartas schicze darisim delei mūsų Bandos...», 4 Moz 32, 16.

«... ir pabūdawoia saw Namus ir padarė pėkui sawam Būdas...», 1 Moz 33, 17.

Contudo, parece que tanto S. B. Chilinskis, ao usar a forma tvartas, quanto J. Bretkūnas, ao usar a forma tvarta (?), não a empregam aqui no sentido atual de «construção destinada a abrigar animais», mas no sentido de «cercado». Isso pode ser afirmado com particular segurança a respeito de J. Bretkūnas. Essa hipótese também seria confirmada pelo texto bíblico alemão; compare-se a edição da Bíblia de M. Lutero de 1549:

«Wir wollen nur Schafhürten hie bawen für unser Vieh...», 4 Moz 32, 16.

«...und bawet jm ein Haus, und machet seinem Vieh hütten...», 1 Moz. 33, 175.

A palavra tvártas é usada apenas no sentido de «cercado» nos dicionários lituanos da Prússia Oriental:

«Twártas, to, m. ein abgezäunetes Ställchen», P. Ruhig, Lex., I, 166.

«Stall, Staldas, do, m. nur bezäunt Twártas, to, m.», R. Ruhig, Lex. II, 336.

“Twartas, to, m. uma instalação para animais, estábulo cercado. Pennukßlū Twartas, um estábulo de engorda cercado”, Chr. Mielcke, Wb., I, 303.

2 Fontes da história da RSS da Lituânia, I, comissão editorial: K. Jablonskis (editor responsável), J. Jurginis, J. Žiugžda (editor-chefe), Vilnius, 1955, pp. 178—179.

3 Budą Senowęs — Letuwiu Kalnienų ir Žamajtių išsraše... Jokub’s Łaukys, Petropilie, 1845, pp. 22—23.

4 Ao indicar a distribuição de vários nomes para “estábulo” nos dialetos da língua lituana, o autor baseia-se sobretudo no mapa manuscrito do Atlas da língua lituana elaborado por B. Vanagienė. Pelos exemplos dos dialetos da língua letã, agradece à candidata em filologia E. Šmitė.

5 Biblia: Das ist: die gantze heilige Schrifft: Deudsch. Auff's new zugericht. D. Mart. Luth., Wittemberg, 1549.

31

“Stall, Staldas, do, m. apenas cercado, Twārtas, to m.”, Chr. Mielcke, Wb., II, 450.

“twārtas, -o, substantivo masculino: o cercamento, a divisória, um curral”, F. Kurschat, Wb., 472.

“kiaũltwartis, -čio, substantivo masculino: um cercado para porcos”.

“kiaũlstaldīs, -džio, substantivo masculino: o chiqueiro”, F. Kurschat, Wb., 181.

A clara distinção que F. Kursaitis faz entre tvārtą ‘cercado’ e o conceito de ‘edifício destinado a alojar animais’ fica especialmente evidente nestes exemplos:

“…cercar um espaço no estábulo para os bezerros, twārtą weŕbiams staldē nukalti (ou padaryti; também: aptwērti)”, F. Kurschat, Wb., I, 25.

“…cercar um lugar no estábulo para um bezerro, staldē weŕbiui twārtą padaryti…”, F. Kurschat, Wb., I, 36.

A palavra twārtas é usada nos textos dos lituanos da Prússia Oriental até mesmo ao falar de uma parte específica da igreja; cf.:

“Às mulheres foi destinado um Twartas especial para a realização do serviço divino”, K. Jurkšaitis, Jeruz. Išp., 1901, 97.

Assim, tvārtas, que originalmente significava, em geral, “cercado”, isto é, um espaço especialmente delimitado no estábulo, passou posteriormente a ser usado com o sentido de “edifício destinado a alojar animais”.

A etimologia desta palavra não suscita dúvida alguma — ela está relacionada com os vocábulos lituanos tvērti, tvrtas, tvorà, tvārštis e outros da mesma raiz6.

Em parte da Samogícia (Kvėdarna, Plungė, Rietavas, Salantai, Viekšniai), a palavra tvārtas é usada com o significado de ‘atadura, lenço para enfaixar uma ferida’. O significado ‘edifício destinado a abrigar animais’ dessa palavra é novo nessas localidades, tendo sido adotado da língua literária.

Parece que também na língua prussiana existiu uma palavra dessa raiz, usada com o significado de lit. tvārtas ‘edifício destinado a abrigar animais’; cf. «Coaris Banse» (verbete 232 do glossário de Elbing)7. O alemão Banse pode significar ‘amplo espaço do celeiro junto à eira, espaço de ambos os lados da eira no celeiro para empilhar’8.

A. Fick relacionou essa palavra da língua prussiana com o lit. kárti. Contudo, parece muito mais convincente a explicação de A. Bezzenberger, que corrige o pr. coaris para a forma toaris e relaciona esta última com o lit. tvārtas, tvorà, tvērti9. Ao comparar essas palavras, também suscita certas dúvidas o vocalismo da raiz do pr. toaris. Pode tratar-se de um caso semelhante ao da palavra prussiana aloade (verbete 541 do glossário de Elbing), ‘Haspe’, cuja origem se tenta explicar a partir de *al(v)ōde ou *alvadē.

R. Trautmann10 e J. Endzelīns11 concordaram com a etimologia do pr. toaris proposta por A. Bezzenberger.

A língua letã não possui nomes da mesma raiz para o edifício destinado a abrigar animais. Contudo, encontramos palavras dessa raiz usadas com significado semelhante; cf. let. tvarts ‘o apoio, a proteção, o refúgio; a barreira para peixes’ (EM, IV, 289), tvertiņš ‘o refúgio’, tvertne ‘abrigo para pessoas; recipiente, tanque’ (EM, IV, 291). Let. tvāra ‘um

6 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1151.

7 Monumentos da língua prussiana, p. 63; ao citar exemplos dos glossários da língua prussiana, geralmente indica-se primeiro a palavra prussiana.

8 D. Sanders, Wörterbuch der deutschen Sprache, I, Leipzig, 1860, p. 81; F. L. K. Weigand, Deutsches Wörterbuch, I, Giessen, 1909, p. 153.

9 A. Bezzenberger, BB, 23, p. 232.

10 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 361.

11 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 140, 266.

32

“Cerca feita de varas dispostas horizontalmente”, tvāre “uma cerca; a cancela” (EM, IV, 289) não serão por acaso empréstimos do lituano, uma vez que, como mostram os dados do dicionário de K. Miülenbach, são encontrados sobretudo na própria fronteira da Lituânia (Gridzgalė, Mėmelė).

Lituano gūrbas, letão gūrba

Lituano gūrbas é usado com o significado de “edifício destinado a abrigar animais” no extremo nordeste da Lituânia (Anykščiai, Debeikiai, Dusetos, Kamajėliai, Kavarskas, Obeliai, Rokiškis, Troškūnai, Utena, Vyžuonos).

Além do significado acabado de mencionar, a palavra gūrbas é também usada nos dialetos lituanos com outros significados: “cesto, cesta”, “parte superior da carroça, entrançada com vime; armação com extremidades unidas (de carrinhos de passeio e de uso festivo)”, “manjedoura”, “gaiola de aves domésticas (pombos, gansos, galinhas...), entrançada com vime ou feita de tábuas; lugar onde se põem os ovos; ninho”, “casota de cão”, “parte separada do estábulo para animais menores (ovelhas, leitões, vitelos); cercado; parte delimitada da cave para armazenar outros legumes”, “pátio descoberto”, “jaula (para animais selvagens)”, “certo tipo de colmeia coberta de palha”, “certa espécie de grade para transportar animais, geralmente porcos, para venda”, “suporte para enrolar e torcer fios” (LKŽd., III, 741–2).

A palavra gūrbas, com o significado de “edifício destinado a abrigar animais”, já aparece também no dicionário de K. Širvydas:

„Chlew, bara, Stabulum. gurbas“, C. Szyrwid, Dic. (1629 metų leidimas), 11.

„Chlew. Stabulum, caulae. Pune, gurbas“, C. Szyrwid, Dic. (1642 metų leidimas), 29.

„Obora, Stabulum, pecuaria loca. Gurbas“, C. Szyrwid, Dic. (1642 m. leidimas), 233.

„Swinnik, Suilehara. Kiaulu gurbas“, C. Szyrwid, Dic. (1642 m. leidimas), 430.

Os exemplos do dicionário de K. Širvydas mostram que os lituanos orientais conhecem há muito a palavra gūrbas com o significado de “edifício destinado a abrigar animais”: K. Širvydas era natural precisamente da região da Lituânia onde a palavra ainda hoje é usada com esse significado.

Há várias opiniões quanto à origem da palavra gūrbas.

K. Alminauskis considerava que a fonte do lituano gūrbas, assim como da forma kūrbas, era o alemão korb “cesto, cesta”, korv, argumentando que os significados dessa palavra se ampliaram em lituano12. A alternância das consoantes g-: k- em lituano é, de facto, um fenómeno muito comum; compare-se gėmbė: kėmbė, glėbys: klėbys, griaūnos: kriaūnos, glusnūs: klusnūs, entre outros.13 Por sua vez, o alemão korb deriva do latim; compare-se o latim corbis “cesto, cesta”14.

E. Frenkelis, embora concordasse que o lituano kūrbas “cesto, cesta” é um empréstimo do alemão, considerava a palavra lituana gūrbas autóctone, relacionando-a com o indo-europeu *ger- “entrelaçar”; compare-se o grego ῥέρεον “cerca entrançada do abrigo na praça do mercado de Atenas, cesto de carroça entrançado, escudo leve e oblongo revestido de pele bovina crua”, γυργαθός “cesto entrançado de vime, armadilha para peixes”, entre outros.15

12 K. Alminauskis, Die Germanismen des Litauischen, Kaunas, 1934, p. 55, 76.

13 J. Endzelynas, Baltų kalbų garsai ir formos, Vilnius, 1957, p. 54; J. Otrębski. Gramatyka języka litewskiego, I, p. 324.

14 F. Kluge, Et. Wb., p. 393; J. Pokorny, Et. Wb., p. 387.

15 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 178.

3. Iš lietuvių leksikologijos ir leksikografijos

33

K. Būga também considerou o lituano gūrbas uma palavra autóctone, tentando relacioná-lo ora com o germânico kurba, alemão Korb16, ora com o eslavo grъb ‘pequena colina, corcova, ruga’, sérvio грба17.

Tendo em conta que o alemão Korb é um empréstimo do latim, a primeira associação proposta por K. Būga fica descartada. A segunda associação também não nos parece muito convincente, pois as palavras eslavas deveriam ser comparadas com o prussiano antigo garbis ‘montanha’18. K. Būga relacionou o lituano gūrbas com as palavras eslavas mencionadas, buscando paralelos semânticos entre ‘monte (куча)’ e ‘estábulo’.

É provável que as explicações de K. Alminauskis e de E. Frenkel estejam ambas parcialmente corretas. Parece-nos que, ao explicar a origem do lituano gūrbas, é preciso distinguir os significados dessas palavras. O gūrbas dos lituanos orientais, no sentido de ‘construção destinada a alojar animais’ — significado em que, como vimos, já aparece nas primeiras edições do dicionário de K. Sirvydas —, bem como os significados estreitamente relacionados a este, deve ser considerado uma palavra báltica autóctone. Como veremos, essa palavra também ocorre em letão. Já Gūrbas no sentido de ‘cesto, cesta’, assim como os significados mais estreitamente relacionados a este último, deve ser considerado um empréstimo do alemão. Como, do ponto de vista semântico, os significados de ‘estábulo’ e ‘cesto’ são bastante próximos (cf. ‘trançar’), hoje é difícil traçar uma distinção nítida entre eles no lituano: as palavras autóctone e emprestada podem ter-se confundido.

Os argumentos a favor das hipóteses que acabamos de expor são os seguintes. Na língua lituana, a palavra gūrbas tem duas áreas de ocorrência completamente independentes entre si: uma no extremo nordeste da Lituânia, onde gūrbas é usado no sentido de ‘construção destinada a alojar animais’; a outra na região sudoeste da Lituânia, onde essa palavra é usada sobretudo no sentido de ‘cesto, cesta’. É precisamente com este último significado que a palavra gūrbas é usada em parte das áreas samogíticas e em parte das áreas dos aukštaitianos ocidentais, justamente nos dialetos lituanos que tiveram mais contato com a língua alemã (Alksnėnai, Alvitas, Barzdai, Batakiai, Gražiškiai, Jurbarkas, Kybartai, Kudirkos Naumiestis, Lauksargis, Liudvinavas, Pilviškiai, Slavikai, Sudargas, Tauragė, Vilkaviškis)19.

Como já foi mencionado, o lituano gūrbas também é usado no sentido de ‘certo tipo de colmeia’. Com esse significado, a palavra foi registrada em Bartininkai (distrito de Vilkaviškis). A forma kuṙbas também ocorre, no sentido de ‘colmeia’, em dicionários lituanos da Prússia Oriental. Cf.: „Bienenkorb, der, bičių kūrbas“, F. Kurschat, Wb., I, 239. „bitkurbis, -io, Subst. m. der Bienenkorb“, F. Kurschat, Wb., 49. „Bitinnis kurbėlis, ein Bienenkorb“. „Bitkurbas, o, m. ein Bienenkorb“, G. H. F. Neselmann, Wb., 212. Cf. também o significado do alemão Korb: ‘geflochtne Behältnisse für die Bienen zur Wohnung’20.

É difícil imaginar que, sem a influência do alemão, teria surgido o significado lituano de gūrbas ‘certo tipo de colmeia coberta de palha’.

A forma gūrbas no sentido de ‘parte superior de uma carroça, trançada com varas; conjunto de ripas com as pontas unidas’ lembra muito o significado do alemão Korb ‘a parte traseira trançada de uma carroça com escada ou de uma carroça de carga e, em geral, qualquer trançado de cesto em tal carroça’21. O lituano gūrbas com o significado mencionado foi registrado em Garliava, Lekėčiai e Kretinga (LKŽd., III, 741).

16 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 331.

17 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 526.

18 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 294.

19 Os dados foram extraídos do fichário do Atlas da Língua Lituana.

20 D. Sanders, Wörterbuch der deutschen Sprachen, I, p. 995.

21 D. Sanders, mesma obra, p. 995.

34

No sentido de ‘casinha de cachorro’, nos dialetos lituanos, além da forma gurbas, também se usa a forma gurbà (Alytus, Leipalingis, Liškiava, Merkinė, Seirijai, Simnas, Veisiejai; LKŽd., III, 741).

Tanto liet. gurbà quanto gurbas têm correspondentes em letão. Em letão, essas palavras também são usadas com significados bastante variados:

Lat. gùrba ‘uma gaiola para estorninhos; sebe; um compartimento de tábuas no estábulo; uma caixa de madeira para a postura de ovos das aves domésticas; uma caixa de madeira na qual se transportam galinhas para o mercado; um abrigo para aves; «cūku aizgalda», gurbs, gurbes ‘cercado onde se colocam animais’ (EM, I, 683; EH, I, 420).

Como vemos, os significados das palavras letãs coincidem por completo com os significados das palavras lituanas desta raiz ou são muito próximos deles. No entanto, faltam aqui, por assim dizer, os significados fundamentais característicos da palavra lituana, a saber, ‘construção destinada a alojar animais’ e ‘cesto, cesta’. Todos os significados de lat. gùrba, gurbs parecem situar-se entre os sentidos de ‘cesto, cesta’ e ‘construção destinada a alojar animais’.

A distribuição das palavras letãs também é bastante interessante. Segundo os dados do dicionário de K. Miülenbach e de seus suplementos, lat. gùrba, gurbs são usados apenas na parte sudoeste da Letônia, junto à fronteira com a Lituânia (Asytė, Barta, Gruobinia, Kaletai, Nyca, Nygranda, Saka, Ventspilis).

A distribuição geográfica da palavra letã indicaria que lat. gùrba também poderia ter origem no lituano. A entonação da palavra letã também favoreceria essa hipótese.

Não há vestígios de lat. gùrba tampouco na toponímia letã.

No território da Lituânia há vários topônimos que podem ser associados ao liet. gùrbas, plg. Gùrbai (Gruzdžiai), Gurbmiškis (nome de floresta, Gruzdžiai), Gurbšilėlis (Pilviškiai), Gùrbšilis, Gurbùkelis (caminho, Gruzdžiai), Gurbų miškas (Dūkštas), Pagùrbė (Dūkštas)²². No entanto, é muito duvidoso que esses topônimos estejam ligados ao liet. gùrbas ‘construção destinada a alojar animais; cesto’. Por exemplo, Gurbšilėlis é explicado como ‘elevação do terreno’; no território da República Socialista Soviética da Bielorrússia, numa ilha lituana (Stanišiai, região de Varenavas), encontramos o topônimo Gùrbos, explicado como ‘túmulos (como pequenos montes)’. Assim, os topônimos mencionados deveriam provavelmente ser associados ao liet. gùrbautas ‘pequena elevação de terra, torrão’, ao pr. garbis ‘montanha’ (assim se corrige a palavra 28 do glossário de Elbing, grabis; cf. os topônimos prussianos Lulegarbis, Mantegarbs, Ladegarbe, Swentegarben etc.)²³, ao russo горб ‘qualquer convexidade numa superfície plana’, ao polonês garb ‘deformidade convexa do tórax ou das costas de uma pessoa; elevação, saliência do terreno’, ao sérvio-croata грба etc. K. Būga, como vimos, também tentou associar a essas palavras o liet. gùrbas ‘construção destinada a alojar animais’.

Lituano kūtė, letão kūts

Na parte norte da Lituânia, é amplamente usado o nome kūtė para a construção destinada a abrigar animais (Biržai, Joniškis, Kuršėnai, Linkuva, Mažeikiai, Radviliškis, Salantai, Skuodas, Šeduva, Šiauliai, Žagarė). Na parte mais ocidental e na mais oriental desta área,

22 Lietuvos TSR administracinis-teritorinis suskirstymas, Vilnius, 1959, p. 716, 851. Duomenys, kurių nėra minėtame darbe, paimti iš Lietuvių kalbos ir literatūros instituto Vietovardžių kartotekos.

23 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 82, 341; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 175; G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 80, 92, 94, 178–179.

3*

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na parte, usa-se a forma kūtys (Kretinga, Pasvalys, Vabalninkas). Também é conhecida a forma singular kūtis (LKŽd., VI, 1006).

A forma kūtė também é usada com o significado de ‘cabana velha e em mau estado, choupana’ (LKŽd., VI, 1000; Skaudvilė, Viduklė); compare-se também kūta ‘casa’ (Vilius Bruožis, LKŽd., VI, 999). No entanto, as palavras usadas com esse significado não pertencem à área de uso de kūtė como construção para alojar animais.

Nos antigos monumentos da literatura lituana, parece não ocorrer a palavra kūtė. Os escritos de M. Valančius e S. Daukantas serão provavelmente as fontes mais antigas dessa palavra.

A palavra kūts (ao lado da qual também ocorre frequentemente a forma kūte), com o significado de ‘construção destinada a abrigar animais’, é amplamente usada em letão. A forma kūts é também o nome normativo dessa noção na língua literária.

A forma kūts (ou kūte) é usada em toda a área dialetal de Vidzeme (Ainažiai, Aluoja, Cēsis, Limbaži, Mazsalaca, Rūjiena, Sigulda, Smiltene, Valka, Valmiera) e Zemgale (Auce, Bauska, Dobele, Eleja, Jelgava). Nessa área dialetal, praticamente não se usam outros nomes para estábulos com raízes diferentes. Na parte ocidental da Letônia — nos dialetos de Kurzeme — as formas kūts, kūte são usadas ao lado de outros nomes para estábulo (laidars, stallis). As formas kūts, kūte quase não são usadas apenas na parte mais oriental da Letônia — Latgale —, onde se emprega um nome de origem eslava para estábulo.

Não é possível traçar uma fronteira mais precisa entre os dialetos em que se usa a forma kūts e aqueles em que se usa kūte. Há casos em que ambas as formas são usadas na mesma localidade (Alažiai, Aluoja, Inčukalns, Padure, Planīca, Sigulda, Taurkalne). Ambas as formas também são usadas nos dialetos situados junto à fronteira com a Lituânia.

O letão kūts (ou kūte) é usado com nomes específicos de animais e aves; compare-se o letão aitu, guovju, luopu, putnu, zirgu kūts. Ocorrem por vezes outras variantes do nome para estábulo com esta raiz; compare-se kūtene ‘o estábulo’, kūtenis; čūku, zuosu kūtene, diminutivo kūtiņa, pejorativo kūtele (EM, II, 338; EH, I, 684).

O letão kūts já se encontra em textos evangélicos letões do século XVI24. A origem do lituano kūtė e do letão kūts, tal como a do lituano gurbas e do letão gurba que acabamos de discutir, é muito complexa. Há várias explicações, mas todas suscitam dúvidas de um ou outro tipo.

Até agora, talvez a etimologia mais popular seja a de A. Becenberger25. Ele afirmava que esta palavra chegou às línguas lituana e letã vinda da língua prussiana. O prussiano *pele (em que u < a após uma gutural) teria derivado do baixo-alemão médio cabana, abrigo ‘cabana, barracão, estábulo’.

P. Person, considerando o lituano kūtė e o letão kūts palavras bálticas autóctones, relacionou-os ao lituano kutỹs ‘saquinho para dinheiro’, ao prussiano keuto ‘pele’, ao alto-alemão antigo hūt, ao latim cutis e ao alto-alemão antigo hutta ‘cabana’26.

E. Berneker também explicou assim a origem do lituano kūtė27.

J. Endzelīnas inicialmente inclinou-se a concordar com a explicação de A. Becenberger (… provavelmente antes … juntamente com ou por meio do lituano kūtis, de um prussiano antigo *kūtis (com ū proveniente de ā), do médio baixo-alemão kate ou kotte… do que do lituano kutỹs ‘saco’, do prussiano antigo keuto, do alto-alemão antigo hūt…)28.

24 J. Endzelīns, Filologu biedrības raksti, XI, Rīgā, 1931, p. 201.

25 A. Bezzenberger, KZ, 44, p. 291.

26 P. Persson, Beiträge zur indogermanischen Wortforschung, Uppsala, 1921, p. 181, 183.

27 E. Berneker, Et. Wb., I, 602.

28 EM, II, p. 338.

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E. Frenkelis29 concordou sem qualquer dúvida com a explicação de A. Becenbergerio, indicando também J. Endzelynas como defensor dessa etimologia. No entanto, não atentou para o fato de que J. Endzelynas posteriormente mudou de opinião, dedicando um artigo especial à etimologia do letão kūts30.

J. Endzelynas, neste artigo, apontando as deficiências tanto cronológicas quanto fonéticas da etimologia de A. Becenbergerio, inclina-se a concordar com a etimologia de P. Personas. Contudo, tal etimologia é possível, na opinião de J. Endzelynas, se o lituano kūtis for uma palavra autóctone, não emprestada. Ao mesmo tempo, o estudioso letão apresenta um argumento muito sério: essa denominação lituana para um edifício destinado a abrigar animais pode ser um empréstimo do letão; e, se assim for, a raiz ū da palavra letã pode ter se originado de un, e então se torna possível uma etimologia inteiramente nova para essa palavra, relacionando o letão kūts ao eslavo antigo kašta “σκηνή”, ao ucraniano куча ‘chiqueiro’, ao búlgaro къшта ‘cabana’, que E. Berneker relaciona ainda ao búlgaro кътам ‘berge’, ao russo кутать ‘verhüllen’ etc.31

Parece-nos que a explicação de J. Endzelynas é bastante plausível. Em primeiro lugar, é muito possível que o lituano kūtė seja um empréstimo do letão. A geografia do lituano kūtė, ‘edifício destinado a abrigar animais’, confirmaria plenamente essa hipótese. Como mostra o fichário do Atlas da Língua Lituana, essa palavra é usada com esse sentido somente na região fronteiriça com a Letônia. No final de seu artigo, J. Endzelynas parece duvidar da possibilidade de empréstimo do lituano kūtė do letão, pois, depois de escrever o artigo, foi informado de que o lituano kūtės ‘estábulo’ também ocorre na Suvalkija. No entanto, os dados do fichário do atlas não confirmam a veracidade dessa informação. Como mencionado, tampouco encontramos a palavra kūtė nos antigos monumentos da língua lituana — só a encontramos em textos de meados do século XIX, cujos autores eram originários daquela parte da Lituânia onde ainda hoje kūtė é usada com o sentido de ‘edifício destinado a abrigar gado’.

A distribuição geográfica do lituano kūtė também é um argumento sério de que essa palavra não poderia ter vindo do prussiano.

Considerando o lituano kūtė um empréstimo do letão e tendo em conta a possibilidade apontada por J. Endzelynas de que o letão kūts possa ter se originado da forma *kunt-, seria possível relacionar a denominação desse edifício destinado a abrigar animais não só ao eslavo antigo kašta etc., como faz J. Endzelynas, mas também ao russo кут ‘угол, зауголок, закоулок, тупик; вершина или конец глухого захода, залива, заводи, мыса; угол крестьянской избы, придверный угол и прилавок, коник’ (В. Даль, Сл., II, 227—8), báltico кут, ucraniano кут (nos dialetos, também usado com o sentido de ‘chiqueiro’, Б. Д. Гринченко, Сл., II, 332), búlgaro кът, servo-croata кут, esloveno kat, tcheco kout, eslovaco kut, polonês kąt32, cf. também o russo закут ‘cabana de qualquer tipo, toca ou abrigo subterrâneo; casinha de palha; pequeno estábulo aquecido (contra ratos) para o inverno, destinado ao gado miúdo; compartimento, despensa, depósito, especialmente um espaço separado por divisória’, закута, закутка (В. Даль, Сл. I, 594—5)33.

A possibilidade de relacionar a denominação báltica para ‘estábulo’ a essas palavras eslavas já foi apontada por A. Briukneris, que, em seu dicionário, acrescenta a seguinte observação ao polonês kąt: «significado original em lituano kutis, “buraco escavado por porcos”»34. Naturalmente, não se pode concordar com a explicação de A. Briukneris para o significado original da palavra lituana.

29 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 322.

30 J. Endzēlins, Filologu biedrības raksti, XI, p. 200—201.

31 E. Berneker, Et. Wb., p. 602—603.

32 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 705; F. Slawski, Sl. et., II, p. 121—122.

33 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 440.

34 A. Brückner, Sl. et., p. 225.

37

Como mencionamos, nas variedades do lituano a palavra kūtė também é usada com o sentido de «cabana velha e precária». Como essa acepção da palavra kūtė é encontrada em outra parte da Lituânia que não aquela em que se encontra o nome de estábulo aqui discutido, parece-nos que talvez fosse necessário distingui-la do lituano kūtė «construção destinada a abrigar animais» e considerar que deriva do alemão Kote ‘die Hütte’.

Lituano staldas, letão stallis, prussiano staldis

Na parte meridional da Samogícia e em algumas variedades do alto lituano ocidental próximas da antiga Prússia Oriental, usa-se o nome de construção destinada a abrigar animais staldas (Kelmė, Pagėgiai, Rietavas, Skaudvilė, Slavikai, Sudargas, Šilalė, Tauragė, Užventis, Vainutas, Varniai); também ocorre a forma staldis (Endriejavas, Judrėnai, Juodkrantė, Nida, Sakučiai, Šilutė, Veiviržėnai).

Essa palavra já é encontrada também em nossos escritos antigos. Encontramos a forma staldoie até mesmo na «Postilė» de M. Daukša («Kaip iūsu ne pažėidę dargūs giwēnimas staldoie ir grînas guleimas prakarte», DP, 425), cujo autor era originário de lugares onde a palavra staldas já não é usada hoje. De modo geral, o lituano staldas é usado sobretudo nos escritos dos lituanos da Prússia Oriental: na «Postilė» de J. Bretkūnas (II, 23, 101), no «Giesmynas» de D. Klein (32), no dicionário manuscrito do século XVII «Lexicon Lithuanicum» («Stale Staldas, Twartas», 82 a), pode-se dizer, em quase todas as obras lexicográficas posteriores dos lituanos da Prússia Oriental (nos dicionários de P. Ruigys, K. Milkus, G. H. F. Nesselmann, F. Kurschat e outros), e é encontrado com bastante frequência no folclore lituano dessa região35.

Além das formas staldas, staldis, nas variedades do lituano também se encontram as formas stalnė (Padvarėliai, Tirkšliai), stalnis (Zastaučiai, distrito de Mažeikiai). Contudo, ao que parece, essas últimas formas são usadas apenas para designar grandes estábulos para cavalos, geralmente de propriedades senhoriais. Dessas formas deriva também o adjetivo stalninis (arklys) (Šatės, Viekšniai). Nomes desse tipo para estábulos de cavalos, sobretudo as formas diminutivas, aparecem com bastante frequência também em textos do folclore samogício:

«Isz — ein ir brolelis Isz naujos stalnelės Bierą žirgą wesdamas Pas seselę ejdamas», S. Daukantas, D. Ž., 1236.

«Neįšzkoki berneli Sawo bierō žirgėlio, Tawa yra žirgėlis Mąno tiewo stalnelie», S. Daukantas, D. Ž., 27.

«Bene buwaj stalnelie? Bene łankėj berneli? Bene tawo wajnikėlis? Stalnie ant gembelę?», S. Daukantas, D. Ž., 89.

35 Smulkioji lietuvių tautosaka XVII—XVIII a., paruošė J. Lebedys, Vilnius, 1956, p. 418, 426, 472.

36 Canções da Samogícia, transcritas segundo as palavras dos cantores, São Petersburgo, 1846.

38

„Levar uma para o estábulo, a outra para o pomar, a a a dza dza dza a outra para o pomar“, S. Daukantas, D. Ž., 91.

Nos versos citados de canções folclóricas da Samogícia registrados por S. Daukantas, as palavras stalnelė, stalnė são usadas onde, em outras variantes dessas canções, aparecem stainėlė, stainė, stainia. Por isso, parece-nos que E. Fraenkel37, que conhecia apenas por S. Daukantas a forma com -ln-, associa indevidamente essas palavras ao lituano staldas: as formas stalnelė, stalnė surgiram em lugar das formas stainėlė, stainė. A mudança delas também pode ter sido influenciada, por vezes, pela forma staldas. Cabe notar que, nas canções folclóricas da Samogícia publicadas por S. Stanevičius em 1829, encontra-se apenas a forma stainė38. As formas stalnė, stalnīs, como veremos adiante, também ocorrem nos dialetos samogícios atuais, justamente nas proximidades do local de nascimento de S. Daukantas.

Um caso semelhante, em que o segundo elemento do ditongo i é substituído pela consoante l, encontra-se também no lituano kūlnas ‘cavalo ruim’ (Giedraičiai, Videniškiai, LKŽŽd., VI, 844), ao lado da forma kūinas.

A fonte do lituano staldas é o baixo-alemão médio stall39; quanto à passagem de ll > a ld, compare-se o letão meldēris < e o baixo-alemão möller, estoniano mölder ‘Müller’, kelder ‘Keller’ etc.40 Assim como em lituano, essa denominação de celeiro é usada em dinamarquês com o formante -ld; compare-se o dinamarquês stald ‘celeiro’. Em geral, muitas línguas germânicas usam uma denominação semelhante para celeiro, e algumas outras línguas europeias a tomaram emprestada das línguas germânicas. O significado original da palavra era ‘lugar para ficar de pé’ — ela está relacionada ao prussiano antigo stallīt ‘ficar de pé’, ao grego στέλλειν ‘arrumar’, ao sânscrito sthálati ‘ele fica de pé’ etc.41

De modo semanticamente semelhante surgiram denominações de celeiros em várias línguas indo-europeias; compare-se o sânscrito gosthānam ‘estábulo de vacas’, o avéstico goostānō, o alto-alemão antigo ewi-st ‘estábulo de ovelhas’, o latim stabulum (palavra que está na origem do francês étable, do espanhol establo, do romeno staul, do grego moderno στάβλος, do inglês stable, do irlandês stábla etc.): a raiz indo-europeia *stā- ‘ficar de pé, construir’42.

Na língua prussiana também encontramos uma denominação de origem germânica para uma construção destinada a abrigar animais, foneticamente correspondente ao lituano staldīs; compare-se a palavra 226 do glossário de Elbing, «Staldis Stal»43.

O prussiano antigo staldīs, assim como o lituano staldas, deriva do alemão, provavelmente da forma do baixo-alemão médio stall44.

Em letão há várias formas dessa denominação de celeiro; compare-se o letão stallis ‘der Stall, vorzugsweise der Pferdestall’, stalis, stale ‘der Stall’ (EM, III, 1042; EH, II, 569), stalle, stēļis.

37 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 894.

38 S. Stanevičius, Dainos žemaičių, paruošė J. Lebedys, Vilnius, 1954, p. 14, 78, 122.

39 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 591; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 894.

40 J. Endzelīns, Latviesu valodas gramatika, p. 247–248.

41 F. Kluge, Et. Wb., p. 737; J. Pokorny, Et. Wb., p. 1019–1020.

42 C. D. Buck, Dic., p. 150–151; J. Pokorny, Et. Wb., p. 1004–1010; M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 350.

43 Monumentos da língua prussiana, 63; R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 85.

44 W. Prellwitz, Die deutschen Bestandteile in den lettischen Sprachen, Göttingen, 1891, p. 49; R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 435; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 254.

39

Lat. stallis, no sentido de ‘edifício destinado a abrigar animais’, forma dois conjuntos peculiares no território atual da RSS da Letónia. Em primeiro lugar, é usado, ao lado dos nomes para estábulo kūts (resp. kūte) e laidars, na parte mais ocidental da Letónia — nos dialetos de Kurzeme e em parte dos dialetos semigalianos (Aizpute, Alsunga, Barta, Blydienė, Dunika, Grobiņa, Kuldīga, Nīgranda, Piltene, Saldus, Talsi). O segundo conjunto desta denominação, sem fronteira direta com o primeiro e bastante afastado dele, situa-se na parte meridional dos chamados dialetos selonianos, contígua ao território da RSS da Lituânia (Abliai, Asare, Biržai, Līvāni, Sauka, Subate, Zalva). Nesta área, a forma stallis também não é a única denominação para estábulo: é usada aqui ao lado das denominações kūts (resp. kūte) e klēvs (na parte oriental da área). A forma stellis ocorre em Kurzeme (Piltene, Ugale, Užava, Varve, Zlekas, Žuras). A forma stalle foi registada apenas uma vez (Virbai, a norte de Sabile). A palavra stallis já se encontra no dicionário de G. Mancelis (1638), onde é usada ao lado da palavra kūts. Além de outras denominações para estábulo, stallis também aparece no dicionário manuscrito de J. Langijs, de 1685:

„Stallis (Kuhts, Klähws) um estábulo. Sirgo=Stal= lis, um estábulo para cavalos. Gohwo=st. um estábulo para gado =st. Zuhko=stallis, um estábulo para porcos“, J. Langija Vrd., 286.

Importa notar que este germanismo também se encontra no dicionário da língua estónia publicado por H. Stahl em 1637; cf. est. tall45. A diferença na fonética da palavra letã talvez indique que os letões tomaram esta palavra emprestada em época diferente da dos lituanos e prussianos. De resto, a sua fonte, tal como a do est. tall, é o baixo-alemão médio stall, stal46.

Litu. pūnė, let. pūne

A palavra lituana pūnė, no sentido de ‘edifício destinado a abrigar animais’, é usada numa área relativamente pequena dos dialetos aukštaitianos orientais (Gelvonai, Neveronys, Pabaiskas, Siesikai, Šašuoliai, Širvintos, Ukmergė, Vepriai). Esta denominação também ocorre nas ilhas de língua lituana situadas na RSS da Bielorrússia (Geliūnai, Gervėčiai). Com esse sentido, litu. pūnė já aparece na edição de 1642 do dicionário de K. Širvydas: «Chlew. Stabulum, caulae, pune, gurbas», C. Szyrwid, Dic., 29. «Koźiarnia, Caprile, caprilis casa, haedile. Obkinė pune», C. Szyrwid, Dic., 126. «Obara, aliter: Claustrum, septum, dimitere pecus è claustris. Pune, namas», C. Szyrwid, Dic., 233. Litu. pūnia, no sentido de ‘edifício destinado a abrigar animais’, também se encontra em documentos antigos da Lituânia, redigidos em línguas não lituanas. Cf.: «Дворец, где рикуния мешкает: у дворцы гридня с присенкомъ и ку тому клетка, пуня на быдло...» Panevėžiukas, concelho de Vilkija (documento de 1563)47.

45 Anführung zu der Estnischen Sprach… von M. Henrico Stahlen, Revall, M.DC. XXXVII, plg. D. Zemzare, Latviešu vārdnīcas, Rīgā, 1961, p. 49–50.

46 J. Sehwers, Sprachlich-kulturhistorische Untersuchungen, p. 118; EM, III, p. 1042.

47 K. Jablonskis, Lietuviški žodžiai senosios Lietuvos raštinių kalboje, p. 200.

40

“Não muito longe daquela casa, um abrigo de madeira para o gado, coberto de palha, com portões de tábuas sobre gonzos”, 1604, Inventário da propriedade e da cidade de Kėdainiai⁴⁸.

Em lituano, a palavra pūnė (e outras formas suas) também é usada com outros significados; cf. pūnė ‘compartimento para palha, parte da eira onde se amontoa a palha’ (Kupiškis, Naujamiestis, Vabalninkas), pūnis, -ies «мякиница» (К. Явнис Поневежские говоры II 27), pūnia ‘edifício para armazenar cereais, celeiro’ (Dubingiai, Rimšė), pūnė (Viekšniai, Kossarzewski Lituanica 117 a)⁴⁹.

Nos escritos de M. Valančius e S. Daukantas, esta palavra é usada com o significado de ‘cabana, tenda’. Cf.:

“Petras, desde a primavera, primeiro cavou uma pūnė, cercou-a de árvores, deixou uma abertura para entrar na caverna e instalou-se”⁵⁰.

“…de barro e estopa, faziam para si cabanas, abrigos e palhoças, tecendo-as com hastes de lúpulo, palha e vimes, e prendendo-as com cordas”⁵¹

Um significado semelhante da palavra também se encontra num manuscrito de hinos lituanos datado do início do século XVIII; cf.

“Isztirt to noredami, sakima negindami, renkdamięs ing Bethleem Tokieja punioy (?) Jezu uszspeia, Jozefa ir Marya”⁵².

Nos escritos de M. Mažvydas e J. Bretkūnas, encontramos esta palavra com o significado de ‘caverna, gruta’. Cf.:

“…como também o leão, em seu covil, quando está exausto, o atrai para sua rede” (Gesmes Chriksconiskas, II, Salmo X.)⁵³.

“Como o leão no covil…” (BrB, Psal. X, 9).

“…eles… descansam na fenda (na margem, corrigido para: Höle Olaie (puneie), BrB, Jó. 38, 40; no manuscrito de J. Bretkūnas, 39 (o início).

Cf. o texto alemão da Bíblia de M. Lutero, de 1549:

“…como um leão na caverna…” (Psal., X).

“…e se escondem na caverna….” (Hiob., 39 (o início).

Cf. o texto latino da Bíblia:

“…como um leão na sua caverna” (Psal., X, 9).

«Quando se deitam nas cavernas…» (Hiob., 38, 40).

Nos antigos inventários da Lituânia e em outros documentos redigidos em línguas que não o lituano, a palavra punia é usada sobretudo com o sentido de «celeiro para guardar cereais, feno e palha». Cf.:

«Há quinze montes de centeio e de palha na punia…», 1600, Kraukėnai, distrito de Upytė.

«…punia construída para os cereais, coberta de palha; porta simples de tábuas, com ferrolho e cadeado; a outra punia é nova e ainda não foi montada…», 1598, Breslauja.

«…e deram-nos duas rodas de dinheiro por aquela punia», 1516, Mstislav?.

48 Lietuvos inventoriai XVII a., sudarė K. Jablonskis ir M. Jučas, Vilnius, 1962, p. 19.

49 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 525.

50 M. Valančius, Paaugusių žmonių knygelė, Tilžė, 1902, p. 102; Valančiaus raštai, red. J. Balčikonis, Kaunas, 1931, p. 244.

51 Budą Senowęs – Lietuwiu Kalnienų ir Žamajtių išraszę… Jokūb’s Laukys, Petropilie, 1845, p. 16.

52 V. Biržiška, Tauta ir žodis, VII, p. 259.

53 Mažvydas seniausieji lietuvių kalbos paminklai iki 1570 metams, spaudai parūpino J. Gerullis Kaunas, 1922, p. 524.

41

«Um punio com quatro compartimentos, construído para guardar o feno, e um celeiro para armazenar palha miúda e palha de debulha, construído em linha…», 1756, Tradevičiai, distrito de Polotsk.

«Um grande punio de sete lados para armazenar palha, com paredes de pinho, sem portões…», 1775, Letcas, distrito de Vitebsk.54

«No fim desse celeiro, um grande punio novo, feito de troncos, para guardar cereais, coberto de palha; a porta tem dobradiças e ferrolho… Este punio tem sete paredes, cada uma com cinco braças. Saindo deste punio em linha reta para o segundo, há uma nova porta entre as divisórias da eira, do lado direito, coberta com telhas e com dobradiças. Depois dessa porta há um punio feito de troncos e coberto de palha; no interior, de ambos os lados, há compartimentos para armazenar cereais e uma eira para debulhá-los, com trinta braças de comprimento e sete de largura; duas portas nas extremidades, com dobradiças de madeira; uma vedação de oitenta sebes», 1619, Šiaulėnai, distrito de Viduklė.

«Mais adiante, um celeiro velho e desabado, e um punio grande e em mau estado», 1645, Žalava, distrito de Ašmena.

«Dois celeiros, um com uma debulhadora, o terceiro, um punio para palha», 1651, Palušė, Drevינinkai, distrito de Vilnius.

«Junto a esse celeiro, um punio de madeira para armazenar centeio…», 1700, Papalčiai55. Em letão — tanto nos dialetos como em diversos monumentos escritos — encontramos correspondentes do lituano pūnė, usados com significados semelhantes.

Let. pūne «um celeiro; um palheiro ou depósito de palha (construído também como anexo); um anexo à klēts ou à kūts para guardar feno, anexo à debulhadora (para guardar palha miúda e palha); um anexo ou um pequeno celeiro independente para guardar palha miúda», pūne «um celeiro», pūnis, pūnis, pūnis, pūnis «um celeiro para palha miúda; uma pequena construção semelhante a um celeiro, à beira-mar ou de um lago, para guardar apetrechos de pesca; um pequeno celeiro para feno, palha e palha miúda (como anexo à rija); um palheiro na floresta; um pequeno celeiro para apetrechos de pesca; uma cabana de camponês», pūna «um celeiro junto ao estábulo; abrigo para redes dos pescadores», pūnite «um celeiro», pūnītis, pūnelis «diminutivo (pejorativo) de pūnis’», pūnite «uma cabaninha» (EM, III, 413, 447; EH, II, 342).

Let. pūnis já aparece no dicionário de G. Mancelis, de 1638; compare:

«um celeiro, Schkunis, Wallh. Puhnis», G. Mancelis, Lettus, 34156.

Quanto à origem do lituano pūnė e do letão pūne, há duas opiniões. Alguns pesquisadores consideram que essa palavra entrou nas línguas lituana e letã por intermédio das línguas eslavas.

A. Brückner foi o primeiro a propor essa ideia, observando que pūnė, «estábulo, abrigo para o gado», aparece no dicionário de K. Širvydas e que «é desconhecida em Ragnit» (aqui, provavelmente, ele se baseia no dicionário de G. H. F. Nesselmann); considera que a fonte do lituano punė é o russo ou o bielorrusso пунья57.

J. Endzelīns concordou com a ideia de A. Brückner («…segundo Brückner… do russo пунья58), assim como P. Skardžius («Pelo significado, provavelmente do bielorrusso пунья…59); essa opinião também foi defendida por E. Frenkelis, autor do dicionário etimológico da língua lituana60.

54 K. Jablonskis, Palavras lituanas na língua dos antigos cartórios da Lituânia, p. 65, 83, 90, 225, 236.

55 Inventários da Lituânia no século XVII, p. 86, 141, 170, 436.

56 D. Zemzare, Dicionários letões, p. 440.

57 A. Brückner. Palavras estrangeiras eslavas no lituano, p. 123.

58 EM, III, p. 447.

59 P. Skardžius, Die slavischen Lehnwörter im Alt-litauischen, p. 183.

60 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 667.

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De fato, encontramos essa palavra usada com significados quase idênticos em todas as línguas eslavas vizinhas. Compare:

rus. пуня ‘palheiro, celeiro de palha, depósito de palha; abrigo aberto, depósito de feno; barracão; pequeno cômodo separado, compartimento de vime onde se guardam várias coisas e onde, no verão, o dono dorme; no oeste, estábulo’, пунька, V. Dal, Sl., III, 538. (Segundo V. Dal, a palavra é usada nas regiões de Novgorod, Tver (Kalinino), Riazan, Oriol, Tambov, Kaluga e Smolensk.)

rus. пуня ‘estábulo; galpão para feno’, V. Dobrovolski, Sl., 749.

bielorr. пуня ‘estábulo; galpão para feno ou palha’, I. I. Nosovich, Sl., 538.

pol. punia ‘pequeno celeiro de madeira para feno; galpão, depósito de feno’, punka, J. Karłowicz, A. Kryński e W. Niedźwiedzki, Sł., V, 433, 435.

Como mostram os dados do atlas dialetológico da língua bielorrussa, bielorr. пуня é usado com o significado de ‘construção para armazenar feno (às vezes também palha e cereais)’ em toda a Bielorrússia setentrional e oriental; na parte ocidental dessa área também ocorre a forma пунька, e ao sul de Moguiliov foi registrada também a forma пуніма61. Na parte ocidental da Bielorrússia, a palavra пуня também é usada com o significado de ‘curral de ovelhas’62.

Pol. punia é usado muito raramente e, sem dúvida, foi tomado de empréstimo do russo ou do bielorrusso.

Além dos vizinhos imediatos do lituano e do letão, as outras línguas eslavas não têm essa palavra. Como mencionamos, A. Brückner, J. Endzelīns, P. Skardžius e E. Fraenkel consideram o lit. pūnė e o let. pūne eslavismos.

Outro grupo de pesquisadores considera que o lit. pūnė e o let. pūne são palavras autóctones e que, pelo contrário, passaram para as línguas eslavas a partir das línguas bálticas.

A. Potebnia63, E. Karski64, A. Preobrazhenski65 e K. Būga66 consideravam o rus. пуня e o bielorr. пуня baltismos. Baseando-se sobretudo na distribuição geográfica da palavra nas línguas eslavas, também M. Vasmer67, autor do melhor dicionário etimológico da língua russa, a considera um baltismo.

É realmente muito difícil dizer qual dos lados tem razão. Para resolver essa questão, é muito importante determinar a etimologia da palavra e seu significado original.

Os linguistas que consideram o lit. pūnė e o let. pūne eslavismos aparentemente ainda não tentaram explicar a origem da palavra eslava. Os defensores da segunda hipótese propuseram duas etimologias para essa palavra.

Em primeiro lugar, tenta-se relacionar o lit. pūnė com o sânscrito pūnáti ‘limpa, purifica’, pá-vanah ‘vento (deus)’, e o alto-alemão antigo fowen ‘peneirar’. Portanto, o significado original do lit. pūnė seria ‘lugar onde se limpam os cereais’68. Naturalmente, essa etimologia é difícil de comprovar. É pouco provável que os antigos bálticos pudessem ter uma construção especialmente destinada à limpeza dos cereais.

K. Būga tentou explicar a origem do lituano pūnė e do letão pūne com base em dados das línguas bálticas. Relacionou o lituano pūnė com o lituano pūnė ‘extremidade vazia do ovo (пужка, тузка яйца),

61 Дыялекталагічны атлас беларускай мовы, zemėlapis 236; Дыялекталагічны атлас беларускай мовы, уступныя артыкулы і каментарыі да карт, Мінск, 1963, p. 794—797.

62 No mesmo lugar, mapa 231.

63 А. А. Потебня, К истории звуков русского языка, III, Этимологические и другие заметки, Варшава, 1881, p. 90.

64 Е. Ф. Карский, Белоруссы, I, Варшава, 1903, p. 135.

65 А. Преображенский, Эт. сл., II, p. 153.

66 K. Būga, Rinktiniai raštai. I, p. 582, II, p. 524—526.

67 M. Vasmer. Et. Wb., II, p. 464—465.

68 А. Преображенский, Эт. сл., II, p. 153; M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 465.

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let. paũna ‘crânio, cabeça, focinho’, let. puns ‘caroço, protuberância, abscesso’. Segundo K. Būga, o significado original do lit. pūnė teria sido ‘monte, amontoado de palha, palhiço, estrume’. Ele aponta paralelos semânticos semelhantes: let. gubenis ‘celeiro (para palha, feno); anexo junto à eira’, gubens, gubene, gubezis: let. guba ‘monte, pilha (de feno)’, lit. gubà, gubė; lit. kūginỹs ‘estábulo’: lit. kūgis ‘pilha, monte, amontoado’; lit. gūbas ‘estábulo’: eslov. grb ‘pequena elevação, colina, corcova, dobra’⁶⁹. Se o terceiro paralelo semântico indicado por K. Būga pode suscitar dúvidas, os dois primeiros são inteiramente confiáveis.

De modo geral, a etimologia de K. Būga é mais convincente do que a primeira etimologia proposta para o lit. pūnė (: sânscr. pūnāti). Do ponto de vista semântico, a relação entre let. paũna, let. puns, lit. pūnė ‘extremidade vazia do ovo’ e o significado ‘monte’ é perfeitamente possível; cf. rus. куча ‘monte, amontoado’: lit. kaukas ‘tumor, abscesso’, kaukaras ‘pequena colina, elevação, montículo’, gót. hauhs ‘alto’⁷⁰; lit. gumbas ‘excrescência de árvore (planta), engrossamento em algum ponto; chaga, abscesso, caroço’, lit. gumburas ‘protuberância, tufo’: let. gumba ‘abscesso; elevação, monte’; e, como mostram os paralelos mencionados (kūginys: kūgis; gubenis: guba), o significado ‘estábulo’ pode ter surgido do significado ‘monte’. Contudo, a etimologia de K. Būga pode suscitar certas dúvidas porque não encontramos nas línguas bálticas palavras que possam ser relacionadas ao lit. pūnė ‘estábulo’ e ao let. pūne, usado com o sentido de ‘monte’; além disso, o salto semântico de ‘abscesso, protuberância’ para ‘estábulo’ talvez seja demasiado grande. Em nossa opinião, somente essa circunstância impede que a etimologia de K. Būga seja considerada plenamente aceitável.

A questão dos significados do lit. pūnė também é bastante complexa. Se o significado ‘cabana, tenda’ dos vocábulos usados por M. Valančius e S. Daukantas pôde, sem dúvida, surgir facilmente do significado ‘estábulo, celeiro’, já a origem dos sentidos ‘caverna, gruta’ nos escritos de M. Mažvydas e J. Bretkūnas não é tão clara. Naturalmente, o sentido ‘caverna, gruta’, como ‘morada do leão’, também poderia ter surgido do sentido de estábulo como ‘morada do animal’.

Talvez essa diversidade de significados das palavras bálticas constitua certo argumento a favor de que o lit. pūnė, let. pūne sejam palavras autóctones de origem báltica.

De qualquer modo, há mais fatos que indicam que os eslavos tomaram emprestada essa palavra dos bálticos do que o contrário. No entanto, por enquanto não é possível afirmá-lo categoricamente.

Lit. nãmas, let. nams

Em certa área da Lituânia central (Dotnuva, Ėriškiai, Krakės, Kulva, Surviliškis, Šlapaberžė, Vadaktai), a palavra nãmas é usada com o sentido de ‘edificação destinada a alojar animais’.

O lit. nãmas também ocorre com esse sentido na edição de 1642 do dicionário de K. Širvydas; cf.:

«Obora, aliter: Claustrum, septum dimitere pecus è claustris. Pune, namas», C. Szyrwid, Dic. 233.

A palavra namas (e suas diversas formas) também é encontrada com frequência em antigos documentos das chancelarias da Lituânia, redigidos em línguas não lituanas. Cf.:

«Para o estrume, a fim de que o gado e os cavalos sejam necessariamente mantidos não em namach, mas em estábulos, que se construam e se fortifiquem bem à maneira podláquia…», 1562, Karšuva.

69 K. Būga, Escritos selecionados, II, p. 525–526.

70 M. Vasmer, Et. Wb., I, 708; F. Kluge, Et. Wb., p. 311; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 229–230.

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“Indo do pátio ao celeiro, há uma torre, ou edifício para o gado, coberto de palha, e no fim dessa torre há um abrigo feito de galhos, sob o mesmo telhado...”, 1597, Biliūnai, distrito de Raseiniai.

“Edifício de toras destinado ao armazenamento de cereais, coberto de palha...”, 1599, Žarėnai.

“Edifício para o gado...”, 1600, Dubiniai, distrito de Beržėnai.

“Torre, em lituano nams, de madeira de abeto, com três paredes...”, 1619, Joku-biškiai, perto de Šiaulėnai, distrito de Viduklė.

“Edifício, isto é, torre para o gado, com tudo o que lhe pertence...”, 1639, Sokmedžiai Višutaičiai, distrito de Tendžiogala.

“Edifício para a criação de gado...”, 1650, Kretkampis, distrito de Vilkija.

“Edifício ou, mais precisamente, torre samogícia para a criação de gado...”, 1675, Plungė.

“Pequeno estábulo para o gado;... nesse pátio, um edifício para o gado; o celeiro atrás do edifício, coberto de palha e cercado por uma velha paliçada...”, 1676, Laukuva.

“Estábulo novo para o gado, coberto de palha, junto com o edifício; um chiqueiro anexo, coberto de palha...”, 1676, Smilgiai.

“Estábulo com edifícios para o gado, cujas portas são montadas em pivôs...”, 1678, Dikta-riškis, distrito de Viduklė.

“Um estábulo e, em sua extremidade, um depósito de cereais erguido muito recentemente com madeira, coberto de palha. Uma construção para os animais, denominada numa, feita de paredes e, na extremidade, acrescida de cercas, coberta de palha...”, 1705, Laukuva71.

“Dois edifícios. Um estábulo para o gado e, na extremidade dele, outro para as ovelhas; em frente, um para os porcos...”, 1667, Biržėnai72.

Os exemplos apresentados mostram que, nesses documentos, a palavra nãmas é usada sobretudo com o sentido de “certo tipo de construção para alojar animais”. Também ocorre o sentido de “construção para armazenar cereais”. Na opinião dos etnógrafos, a nãmas mencionada nesses documentos, assim como a viežà, “provavelmente eram construções mais antigas, de planta quadrangular alongada, erguidas com vários compartimentos para alojar cavalos, vacas e animais menores. Às vezes, as pessoas também viviam numa das extremidades; naturalmente, apenas os pobres, pois, naquela época (século XVI, A. S.), os camponeses abastados já viviam em casas”73.

Nos documentos mencionados, o lituano nãmas aparece frequentemente também em palavras compostas que designam partes específicas da “casa”. Compare-se:

“....torre construída com toras para o gado,...estábulo construído com toras, com um anexo para porcos na extremidade....”, 1602 (1603), Miminiai, distrito de Ukmergė.

“Uma torre com um anexo e com um namakgalas, que custou oito kopa de groszes...”, 1584, Padubysys, distrito de Raseiniai.

„....torre de madeira com estrutura de tábuas e troncos, feita de madeira miúda...“, 1603, Karklėnai Bukantai, distrito de Karklėnai.74

71 K. Jablonskis, Palavras lituanas na língua dos antigos escritórios da Lituânia, p. 129, 130, 131, 132; ali são apresentados ainda mais exemplos.

72 Inventários da Lituânia do século XVII, p. 266.

73 Traços da etnografia lituana, p. 262; cf. também Iz. Butkevičius, Da história da cultura lituana, II, p. 243; K. Čerbulėnas, Da história da cultura lituana, I, p. 137—145.

74 K. Jablonskis, Palavras lituanas na língua dos antigos escritórios da Lituânia, p. 134, 135.

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Lat. nams não é usado no sentido de ‘edifício destinado a abrigar animais’, mas alguns dos sentidos dessa palavra são, de fato, muito próximos do sentido mencionado. Cf.:

Lat. nams ‘uma cozinha de verão cônica, montada com varas retas (também com as duas metades de um barco cortado transversalmente e já impróprio para navegar); uma cozinha de verão; um pequeno edifício onde se cozinha tudo durante o verão (no inverno, apenas em dias festivos); um pequeno edifício de madeira onde se cozinha para o gado (antigamente, também para as pessoas), com uma lareira e um caldeirão no centro; a parte central da casa de habitação, a cozinha; “lugar na casa onde ficava o forno”; em algumas regiões, o cômodo central da casa é dividido por uma parede em cozinha e vestíbulo; uma antecâmara; um anexo sem andar superior diante da sauna, com um grande caldeirão para ferver água; “diante da sauna”, “cômodo dianteiro da sauna, onde as pessoas se despem”, “anexo à sauna onde se lava”; uma cabana para defumar as corégonas; uma cabana para redes, montada com as duas metades de um barco cortado transversalmente e já impróprio para navegar; um pequeno edifício; a casa na cidade’ (EM, II, 692–3; EH, II, 4).

À luz desses sentidos, provavelmente é possível concluir que o sentido mais antigo do letão nams era ‘edifício equipado para aquecer um cômodo, cozinhar alimentos ou algo semelhante’. É provável que o lituano nãmas também tenha sido usado inicialmente com sentido semelhante. Naturalmente, não se pode afirmar que lituanos e letões designassem com essa palavra edifícios absolutamente idênticos: sua construção e finalidade podiam variar em certa medida mesmo em diferentes territórios da Lituânia e da Letônia75.

Nos antigos textos letões, o letão nams é frequentemente usado no sentido do latim domus (‘casa, morada, família, agregado familiar’); cf. a obra de G. Elger „Evangelien und Episteln“ (1640),76 o uso da palavra nams, com a qual se traduz o latim domus:

„Vnd te egaja ekszan to nammu, vnd attradda to baernu a Maria sauwa mata…“, G. Elger, 17.

„Et intrantes domum, invenerunt puerum cum Maria matre eius…“, Mat. 2, 11.

„…vnd pepildia wyssu to nammu…“, G. Elger, 86.

„…et replevit totam domum…“, Ap D, 2, 3.

„…ka mans nams tôp pepildits…“, G. Elger, 92.

„…ut impleatur domus mea…“, Luk., 14, 23.

„…vziaem ekszan sauwems nammems“, G. Elger, 98.

«…que me recebam em suas casas», Lc., 16, 4.

«Minha casa é uma casa de oração…», G. Elger, 99.

«Pois a minha casa é casa de oração…», Lc., 19, 46.

«…na casa de um sumo fariseu…», G. Elger, 106.

«…na casa de um dos fariseus…», Lc., 14, 1.

«E ele acreditou, juntamente com toda a sua família», G. Elger, 111.

«…e acreditou ele e toda a sua casa», Jo., 4, 53.

Até mesmo o lat. paterfamilias G. Elger traduz por tas Nammukungs (G. Elger, 92; Lc., 14,21).

O liet. nãmas é usado tanto nos escritos antigos quanto na língua atual com o sentido do lat. domus.

75 Quanto à função do letão nams, cf. Latviešu konversācijas vārdnīca, 14, Rīgā, 1936, col. 28400-6.

76 Evangelhos e Epístolas traduzidos para o letão por Georg Elger, com um índice de seus hinos religiosos do período por volta de 1640, ed. K. Drāviņš, Lund, 1961.

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Quanto à origem do lituano nāmas e do letão nams, existem duas opiniões. Alguns investigadores relacionam-no com o eslavo antigo domъ ‘casa’, russo дом, sânscrito dāmah, grego δόμος, latim domus, arménio tun, explicando a alteração do consonantismo das palavras bálticas por dissimilação77. Outros tendem a relacionar o lituano nāmas e o letão nams com o grego νομός ‘pastagem; local de residência, morada’, grego νέμω ‘habito, cultivo, governo’, grego νομεύς ‘pastor’78. J. Endzelīns, inicialmente, também apoiou esta última etimologia79, mas mais tarde inclinou-se a apoiar a relação do lituano nāmas e do letão nams com o eslavo antigo domъ e outras formas80.

Por enquanto, é difícil provar qual opinião está correta. Parece-nos mais plausível relacionar o lituano nāmas com a antiga designação indo-europeia da casa. A alternância entre d- e n- no início das palavras é, de qualquer modo, um fenómeno bastante comum nas línguas indo-europeias; compare-se lituano devyni, letão deviņi, eslavo antigo devętь: prussiano newints, sânscrito nava, latim novem, gótico niun; lituano debesìs, letão debess ‘céu’; eslavo antigo nebo, antigo alto-alemão nebesą, sânscrito nābhah ‘névoa, bruma, céu’, grego νέφος ‘nuvem’ e outras formas.

Letão laidars, lituano laidaras

O letão laidars é usado com o significado de ‘edifício para albergar animais’ na parte ocidental da Letónia — Kurzeme (Aizpute, Arlava, Blīdene, Dobele, Dunika, Kandava, Matkule, Praviņi, Saka, Tadaiki, Tume, Užava, Vandzene, Zvārde). Esta designação não é a única usada na área mencionada: aí aparece, na maioria das vezes, ao lado de outras designações letãs para celeiro de animais (kūts, kūte, stallis, stēllis). Por vezes, a palavra laidars designa apenas um celeiro grande (Kandava, Laidze, Upesgrīva). Por vezes, os falantes do dialeto sentem que laidars é arcaico (Kazdanga, Skaistkalne).

O letão laidars, além do significado ‘edifício para albergar animais’, é usado também com outros significados; compare-se ‘um recinto vedado diante do estábulo, onde se deixam entrar os animais; o local de depósito do estrume dentro do conjunto de estábulos; o espaço formado por estábulos construídos em todo o seu perímetro; um curral para animais no campo’ (EM, II, 402; EH, I, 711). Além da forma laidars, nos dialetos letões encontram-se também as formas laidaris, laiders, lāideris, lāideris, lāideris, leīdars, leideris (EM, III, 402, 403, 446; EH, I, 711, 712). Encontram-se ainda as formas laidārzs, leidārzs, que surgiram por etimologia popular, ao relacionar estas palavras com o letão dārzs ‘jardim, horta’ (EM, II, 402). Também se usam formas compostas: ārlāidars ‘curral para animais no campo’ (EM, I, 243; EH, I, 195), laūklāidars (EM, II, 426; EH, I, 722).

O letão laidars já se encontra nos escritos de G. Mancelis.

O lituano laidaras não é usado com o significado de ‘edifício para albergar animais’. Contudo, de resto, o seu uso é muito semelhante ao do letão laidars; compare-se o lituano laidaras ‘recinto junto dos estábulos para reunir o gado, pátio de curral; lugar vedado no pasto para juntar os animais’, laidaris, laidarỹs, lāideris (LKŽd., VII, 15, 16). A forma laidaris também está registada com o significado de ‘fosso para estrume; depósito de estrume, lixeira’ (A. Bezzenberger, Lit. Forsch., 132; LKŽd., VII, 16). Um significado semelhante está registado para a forma lāideris (G. H. F. Nesselmann, Wb., 351; LKŽd., VII, 16).

77 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 483; V. Mažiulis, LKK, II, p. 14; J. Pokorny, Et. Wb., p. 199. A opinião de J. Pokorny sobre a origem do lituano nāmas e do letão nams é bastante pouco clara: numa entrada do dicionário, afirma que «lit. nāmas... ist aus *damas dissimiliert» (p. 199), enquanto noutra relaciona esta palavra com o grego νέμω (p. 763–764).

78 R. Trautmann, B-sl. Wb., p. 193; P. Skardžius, Formação de palavras da língua lituana, p. 31; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 361.

79 EM, II, p. 693.

80 J. Endzelīns, Escritos da Sociedade Filológica, 12, p. 175–176.

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Como mostra o fichário do Atlas da Língua Lituana, o lituano la ūdaras (la ūdaris, la ūdarỹs, la ūderis) é usado na Samogícia e numa pequena parte das variedades dialetais aukštaitianas ocidentais (Joniškis, Kriukai, Šakyna, Žagarė)81. F. Kurschat não conhecia essa palavra da língua falada. Entre os autores lituanos mais antigos, parece que apenas S. Daukantas usa a palavra la ūdaras.

O significado do letão la ū daras ‘construção para abrigar animais’ é mais recente. O significado original do letão la ū-dars e do lituano la ūdaras é ‘cercado para animais’. Foi desse significado que surgiu o sentido de ‘construção para abrigar animais’. Como vimos, ocorreu um processo análogo com os significados do lituano tvãrtas.

O lituano la ūdaras e o letão la ū dars são associados ao lituano leisti, ao letão la īst, ao lituano palãidas e a outras palavras dessa raiz82.

Lituano daŋgtis

Numa área relativamente pequena do centro da Lituânia (Darsūniškis, Kaišiadorys, Kruonis, Palomenė, Užuguostis, Vievis, Žasliai), a palavra daŋgtis é usada com o significado de ‘construção para abrigar animais’. A julgar pelo fichário do Dicionário da Língua Lituana acadêmico, essa palavra provavelmente era usada antes com esse significado numa área um pouco maior (foi registrada nos arredores de Balbieriškis, Daugai, Šilavotas e Valkininkai).

Com esse significado, o lituano daŋgtis já aparece em 1600 na chamada Postila de J. Morkūnas; compare-se:

„…tiktay biedname danktiia, kurime pekus sudariti buvo“, Post., 26.

O lituano daŋgtis também é usado com o significado de ‘celeiro, eira’ (LKŽd., II, 176).

A origem dessa palavra não deixa margem a dúvidas. O lituano daŋgtis, além dos significados já mencionados, é usado nos sentidos de ‘cobertura, tampa, parte superior’ e ‘telhado’. Foi desse último significado que surgiram os sentidos de ‘estábulo’ e ‘eira’; compare-se o lituano stõgas ‘cobertura de uma construção’: lituano stõginė ‘abrigo para guardar palha ou feno; galpão’.

Não encontramos, em outras línguas bálticas, nomes de construções para abrigar animais derivados dessa raiz.

Liet. kūginys

Numa pequena área dos dialetos do alto leste (Alizava, Jutkonys, Kupiškis, Salos, Skapiškis), a palavra kūginys é usada com o significado de «construção para alojar animais». Antigamente, a área de uso deste nome para estábulo era aparentemente maior, mas hoje ele está sendo gradualmente substituído por gurbas, kūtė, de uso mais amplo, ou mesmo por tvãrtas, proveniente da língua literária.

O lit. kūginys, com o significado de «construção para alojar animais», já se encontra no Postilė de M. Daukša. Cf.:

«…e o que é pior, as casas de Deus realmente se transformaram em kūginys para vocês…», DP, 412.

«…virado para a cabana ou para o kūginys do campo…», DP, 534.

O fato de a palavra kūginys se encontrar no Postilė de M. Daukša também indicaria que, antigamente, essa palavra era usada de forma mais ampla.

A origem do lit. kūginys também não suscita dúvidas: relaciona-se com o lit. kūgis «grande monte de feno, palha ou outros materiais, meda, feixe; pequeno monte de feno ou de culturas de verão ajuntados; pilha, monte de lenha» (LKŽd., VI, 775–6); quanto à semântica, cf. let. gubenis

81 O autor utilizou materiais preparados por E. Grinaveckienė.

82 EM, II, p. 402; P. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, p. 302; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 330.

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‘celeiro (para palha, feno); anexo junto à eira’: letão guba, lituano gubà, e talvez também lituano pūnė: lituano pūnė ‘extremidade vazia do ovo’, letão puns ‘caroço, saliência, furúnculo’83.

Lituano abārēs

Numa determinada área da Lituânia central, aproximadamente entre Dotnuva e Kražiai (Kiaunoriai, Kubiliai, Kušleikiai, Tytuvėnai), usa-se o nome abārės para ‘edifício destinado a alojar animais’; também ocorrem as formas abārai (Krakės, Pakražantis), abārios, abāros, abariškas (Merkinė), LKŽd., I(2), 2–3. Este nome não forma uma área compacta, mas é usado sobretudo ao lado de outros nomes para estábulo. Além disso, designa normalmente um estábulo grande. Aqui e ali, estas palavras também foram registradas em localidades fora da área indicada (Garliava, Liškiava, LKŽd., I(2), 2).

Além do significado de ‘edifício destinado a alojar animais’, estas palavras são usadas com os significados de ‘pátio descoberto, quintal’ (abarà, ābaras) e ‘celeiro grande’ (abārės) (LKŽd., I, (2), 2)84.

A fonte do lituano abārės e de outras formas desta palavra é o polaco obora ‘edifício para gado bovino; pátio; espaço diante do estábulo ou cocheira para gado ou cavalos’85.

O polaco obora tem cognatos também em outras línguas eslavas; cf. russo обора ‘cercado, curral’, обвора (В. Даль, Сл., II, 585), búlgaro обор ‘estábulo’, sérvio-croata обор ‘cercado, curral, pátio junto à casa’, esloveno obor ‘cercado’, checo obora.

Em seguida, estas palavras relacionam-se com o russo antigo воръ ‘cercado’, o russo вергать ‘enfiar, introduzir algo, esconder, enterrar; cavar, remexer na terra’ (В. Даль Сл., I, 178), o eslavo antigo върети ‘enfiar’, o polaco wrzeć ‘fechar’ e o checo otevriti ‘abrir’. Também pertence à mesma raiz indo-europeia o lituano vērti86.

Letão klēvs

Lat. klēvs significa «edifício para alojar animais» e é usado na parte oriental da Letónia — Latgália (Balvi, Daugavpils, Ilūkste, Kārsava, Krāslava, Preiļi, Rēzekne, Viļāni, Zilupe). Além da forma klēvs, ocorre por vezes também a forma klāvs (Atašiene, Līvāni, Pilda, Pruņi). O nome de estábulo derivado desta raiz é usado de forma muito restrita na referida parte da Letónia — apenas na parte mais ocidental desta área é usado ocasionalmente ao lado do nome kūts (ou kūte), enquanto na parte sudoeste (em torno de Līvāni, Subate, Viesīte), além de klēvs, ocorre não só kūts (ou kūte), mas também stallis.

O nome de estábulo desta raiz já se encontra nos antigos monumentos da língua letã. No entanto, aí se usa a forma de tema em -ā, e não de tema em o: klēva. Cf.:

„Stall, Stallis, Kuhts, Wallh. Seelb… Klähwa“, G. Mancelis, Lettus, 173.

„Ochsenstall, Wehrsckuhts, klähwa, Wallh.“, G. Mancelis, Lettus, 134.

„Kuhts (klähwa) ein Stall“, J. Langija Vrd., 125.

No dicionário de 1761 de G. F. Stender, o letão klahwa é caracterizado como palavra dos augšzemnieki.

83 K. Būga, Escritos selecionados, II, p. 525–526.

84 K. Būga, Escritos selecionados, III, p. 284–285.

85 A. Brückner, Die slavischen Fremdwörter im Litauischen, p. 66; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1.

86 A. Brückner, Sl. et., p. 371; M. Vasmer, Et. Wb., I, 184; II, 243; V. Machek, Et. sl., p. 332; K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 285.

4. Iš lietuvių leksikologijos ir leksikografijos

49

As formas klahws, klehws estão registradas no dicionário publicado por K. Ulmanis em 187287. A indicação de G. Mancelis, Wallh. (=Wallhof, Valle em letão, mais tarde Taurkalnė (a leste de Jaunjelgava)), sugeriria que a área de ocorrência da denominação do celeiro com esta raiz se estendia anteriormente um pouco mais para oeste do que sua área atual.

Em Nereta, o letão klėvs também está registrado com o sentido de «celeiro de debulha (kluons)» (EH, I, 616).

Esta denominação de celeiro entrou no letão a partir das línguas eslavas; compare-se o russo хлеб, o bielorrusso хлебу, o russo antigo хлява, o ucraniano хлів, o polonês chlew, entre outros. É difícil dizer de qual língua eslava os letões receberam essa palavra. J. Endzelīns considera que sua fonte é o russo хлеб. A origem desta denominação de celeiro é bastante obscura também nas próprias línguas eslavas. Ainda assim, a maioria dos pesquisadores acredita que os eslavos receberam essa palavra dos godos; compare-se o gótico hlaiw «Grab, Höhle»89. Como vemos, os significados das palavras gótica e eslava diferem consideravelmente. O significado original da palavra nas línguas eslavas pode ter sido «caverna, habitação subterrânea».

Nas línguas bálticas encontramos numerosas denominações especiais de estábulos, destinadas a espécies específicas de animais.

Estábulos para cavalos

Lituano arklidė (Gaižūnai, Gudaičiai, Kriaušiškiai, Kriukai, Žagarė; palavra proveniente da língua literária que também se difundiu por outros dialetos do lituano), arklūdė (palavra não registrada em nenhum lugar na língua falada; cf. LKŽd., I (2), 307, formada segundo a palavra pelūdė), arklinis (Dūkštas, Kazitiškis, Luodžiai, Šešuolėliai), arklinė (Alanta, Antalieptė, Ažytėnai, Daugailiai, Dubingiai, Giedraičiai, Lyduokiai, Skudutiškis, Šašuoliai, Videniškis, Želva), arkliniñkas (Alsėdžiai, Budriai, Girdiškė, Kaltinėnai, Lauko Soda, Pakražantis, Skuodas, Šakiai, Tirkšliai, Varduva), arklinýkas (Alovė, Barzdai, Butrimonys, Daugai, Kuršiai, Marijampolis, Mauručiai, Medeišiai, Nedingė, Nemaniūnai, Rimšė, Tverečius, Varėna, Žagarai), arklinýkė (Kruonis, Liškiava, Mašnyčia, Panošiškis, Pašlavantis, Savilionys, Šklėriai, Valkininkai, Vydeniai); cf. também LKŽd., I (2), 305–7): lituano arklỹs90.

Lituano arkliatvartis (Lazdijai, LKŽd., I (2), 305) < arklỹs + tvártas.

Lituano stainia (palavra usada em quase todos os dialetos do lituano), stainė (Aukštadvaris, Daugėliškis, Eriškiai, Girkalnis, Gražiškiai, Kurtuvėnai, Pabaiskas, Raguva, Ramygala, Tytuvėnai, Troškūnai, Užventis, Venpriai), stainis (Gaižūnai), staininė (Kražiai, Sereikonai), < polonês stajnia «estábulo»91.

O lituano stonia (Alunta, Garliava, Jurbarkas, Kalvarija, Kamajai, Kapsukas, Liudvinavas, Pandelys, Rokiškis, Švėdasai, Šalčininkai) deriva de uma forma mais antiga da palavra polonesa stania92. O polonês stania é uma palavra de origem polonesa, relacionada ao verbo stać «estar de pé»93.

Nos monumentos linguísticos dos lituanos da Prússia Oriental encontra-se a forma stonė. Compare-se:

87 D. Zemzare, Latviešu vārdnīcas, p. 439.

88 EM, II, p. 225.

89 M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 245–246; F. Sławski, Sl. et., I, p. 66.

90 Ao indicar a distribuição geográfica das palavras, utilizou-se o material do Atlas da Língua Lituana preparado por B. Vanagienė.

91 A. Brückner, Die slavischen Fremdwörter im Litauischen, p. 136; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 892.

92 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 912; S. Reczek, Podręczny słownik dawnej polszczyzny, Wrocław–Warszawa–Kraków, 1968, p. 469.

93 A. Brückner, Sl. et., p. 512, 513.

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„Stónė, ės, f. ein gebrückter Stall“, P. Ruhig, Lex., I, 142.

„Pferdestall, gebrückt, Stónė, ės. f.“, P. Ruhig, Lex., II, 277.

„Pferdestall, gebrückt, Stónė, ės, f.“, Chr. Mielcke, Wb., II, 370.

Provavelmente, a forma com tema em ė também ocorre nas canções publicadas por L. Rėza:

„Dūsu Stonę kloti,

Beram mano Žirgáczui“

(Anotado nos arredores de Isrutis)94.

No dicionário de M. Nyderman, A. Sen, F. Brender e A. Salys encontra-se a forma staunià (Wb., IV, 93). Essa forma não está registrada no fichário do dicionário acadêmico da língua lituana, mas ali está registrado o adjetivo staũnas «bem alimentado, destinado a ser montado (referindo-se a um cavalo)» (Debeikiai); compare-se lituano staininis: stainia, stóninis: stonia, o que indicaria que a forma staunià é um dado linguístico confiável.

Lituano strãje, com o significado de «estábulo de cavalos», encontra-se em documentos da língua lituana da Prússia Oriental. Neles estão registradas diversas formas dessa palavra. Compare-se:

„Straja, ós, f. a palha de cama, a palha usada como forragem (Ragnit); depois também o estábulo, especialmente o estábulo de cavalos (frequentemente em Dainos). Cf. Sztrajus.

Straje, ės, f. o mesmo (Ragnit).

Strajus, aus, m. o mesmo.

Strajélė, ės, f. dim. o mesmo.

Strajùžė, ės. f. Dim. idem.

Strajininkas, o, m. um criado de estábulo, tratador de cavalos; um cavalo de estábulo”, G. H. F. Nesselmann, Wb., 505.

„strāja, -os, Subst. f. um estábulo para cavalos com pavimento de tábuas e coberto de palha de cama”, F. Kurschat, Wb., 407.

Nas canções populares lituanas publicadas por V. Kalvaitis encontramos também a forma stragelė (registada nas proximidades de Ska...)95. A forma deste vocábulo, usada com -g-, é também indicada pela palavra do dicionário de Chr. G. Mielcke stragininkas:

„Cavalo de estábulo, Arklys Stóninink's, Straginink's”, Chr. G. Mielcke, Wb., II, 450.

Também se encontram formas deste nome de estábulo para cavalos com št- no início da palavra št-. Cf.:

„Levanta-te, paizinho, levanta-te, meu velho,

Dá-me a chave do estábulo…

Entrei no estábulo,

Apoiei-me no cavalinho”

(canção popular lituana registada na região de Klaipėda)96.

Como vemos, nestes exemplos também se alterou o vocalismo da raiz. A forma strėja está igualmente registada no dicionário de M. Nyderman, A. Sen, F. Brender, A. Salys (Wb., IV, 116).

94 L. Rėza, Lietuvių liaudies dainos, I, Vilnius, 1958, p. 226; V. Kalvaitis, Prūsijos Lietuvių dainos, Tilžė, 1905, p. 296.

95 V. Kalvaitis, Canções dos Lituanos da Prússia, p. 13.

96 Tautosakos darbai, VII, Kaunas, 1940, p. 34.

4*

51

Quanto à origem do lituano strājē, há duas opiniões. Já J. Šmitas97 e P. Personas98 (com reservas) consideravam o lituano strāja uma palavra autóctone, relacionando-a com palavras da raiz indo-europeia *ster-, *steru-: *streu- ‘espalhar, dispersar’, cf. sânscrito strṇāti ‘espalha; cobre com algo; lança, derruba’, latim sternō, -ere ‘espalhar, estender; derrubar’, eslavo eclesiástico antigo prostrěti ‘espalhar’, russo споръ ‘ordem’ e outras. A origem do lituano strājē também é explicada dessa maneira nos dicionários etimológicos de M. Fasmer99, J. Pokorny100 e A. Walde (na verdade, na segunda edição do dicionário de A. Walde, com base numa carta de H. Hirt, indica-se que o lituano strāja também pode ser um germanismo)101.

Essa explicação da origem do lituano strājē é, sem dúvida, errônea. K. Būga já a havia criticado de maneira suficientemente fundamentada nas notas e aditamentos ao dicionário etimológico da língua russa de A. Preobraženskij. No entanto, o trabalho de K. Būga só foi publicado em 1959, e, por isso, os pesquisadores não puderam utilizá-lo antes.

Como K. Būga102 observou acertadamente, quem ler atentamente a explicação do lituano strājē no dicionário de F. Nesselmann não o comparará com o eslavo strojiti e outras palavras. De fato, a explicação dessa palavra nos dicionários de F. Nesselmann e F. Kurschat revela sua evolução semântica e sua origem.

Assim, a fonte do lituano strājē é o alemão Streu ‘cama de palha’, cf. as formas štraie, štrei103 dessa palavra no alemão da Prússia Oriental. Em lituano, a evolução semântica desse empréstimo foi a seguinte: ‘cama de palha, palha para a cama’ → ‘estábulo forrado de palha’ → ‘estábulo para cavalos’.

O fato de o lituano strājē provir do alemão também é demonstrado pelas formas paralelas já mencionadas strāgē, štrajus104. A distribuição geográfica da palavra também confirma essa hipótese: essa palavra lituana encontra-se apenas em fontes escritas do lituano da Prússia Oriental e no folclore lituano dessa região, bem como dos arredores de Klaipėda.

K. Būga indica que a forma strāja é impossível em lituano: a forma apresentada no dicionário de F. Kurschat é apenas uma representação gráfica, não fonética, da palavra, pois no dialeto de Kurschat strājē > strājē, enquanto, no lugar de -e átono no fim da palavra, ele escreve -ia com bastante frequência.

A origem do lituano strāja, štraja, štrajus ‘Streu’ já havia sido corretamente indicada por K. Alminauskis105.

No dicionário de E. Frenkelis, também se tende a considerar o lituano strāja um germanismo. Entre outros argumentos, apresenta-se ali o de que essa palavra não ocorre nas línguas eslavas com o significado de ‘cama de palha’106.

O alemão Streu ‘cama de palha’ relaciona-se com o verbo streuen ‘lançar, espalhar, forrar com palha’107, que, por sua vez, é cognato do sânscrito strṇāti e de outras palavras desse grupo.

Em letão encontramos as palavras streija, plural streijas ‘a cama de palha (para cavalos e gado)’, streijāt ‘lançar, espalhar, estender a cama de palha’, strejāt (EM, III, 1085; EH,

97 Joh. Schmidt, Zur Geschichte des indogermanischen Vokalismus, II, Weimar, 1875, p. 258.

98 P. Persson, Beiträge zur indogermanischen Wortforschung, Uppsala, 1912, p. 787.

99 M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 29.

100 J. Pokorny, Et. Wb., p. 1030.

101 A. Walde, Et. Wb., II, p. 590–591.

102 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 606.

103 K. Alminauskis, Die Germanismen des Litauischen, p. 137, 138.

104 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 606.

105 K. Alminauskis, Die Germanismen des Litauischen, p. 120, 137, 138.

106 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 917.

107 F. Kluge, Et. Wb., p. 758.

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II, 586), cuja origem é o alemão baixo strei, streu ‘todo tipo de resíduo’, strei(g)en ‘espalhar’¹⁰⁸. Contudo, a palavra letã streja não é usada com o significado de ‘estábulo para cavalos’.

Lituano kaniušnia (Miežionys, Vigutėnai, Zarasai), kaniukštė (Aukštadvaris, Jotainiai, Ramygala); essa denominação para estábulo de cavalos também se encontra amplamente em nossos escritos antigos: kaniukšlė (DP, 39), kaniukšne (MP, 202), kaniukštė (MP, 375; DP, 373, 534), cf. LKŽd., V, 210). A forma kaniukšne também se encontra na primeira edição do dicionário de K. Sirvydas:

«Staynia, stabulum, equile, bouile, kaniukšne», Dic., 175.

Na terceira edição do dicionário de K. Sirvydas, usa-se a forma kaniušne (Dic., 422).

Essa denominação para estábulo de cavalos entrou no lituano por intermédio das línguas eslavas; cf. bielorrusso канюшня, russo конюшня, polonês koniusznia. Os lituanos provavelmente a tomaram emprestada do bielorrusso¹⁰⁹. As formas com -k- epentético surgiram já no próprio domínio da língua lituana. Nos dialetos lituanos, o k é inserido esporadicamente com bastante frequência entre uma vogal (ditongo) e s ou š, sobretudo quando depois destes vem uma consoante¹¹⁰. Também surgiu em lituano a forma kaniukšlė; cf. lituano šermukšlė ao lado de šermukšnė, šermukšnis, krūmokšlis ao lado de krūmokšnis, etc.¹¹¹

Lituano kaniukšlė (Notėnai, Židikai), kaniukštis (Gudeliai) também são usados com o significado de ‘chiqueiro’ (LKŽd., V, 210).

Letão zirgstallis (EM, IV, 727) < zirgs ‘cavalo’ + stallis.

Letão zirgsklēvs (EH, II, 808) < zirgs+klēvs.

Em letão, como mencionamos, a palavra stallis é frequentemente usada com o significado de ‘estábulo para cavalos’.

Chiqueiros

Lituano kiaulidė (Aukštadvaris, Dotnuva, Kėdainiai, Nemajūnai, Pabiržė, Pakruojis, Saločiai, Šeduva, Šilalė, Šiluva, Švėkšna, Utena, Žagarė; bastante difundido também em outros dialetos a partir da língua literária), kiaulininkas (Alsėdžiai, Girkalnis, Kelmė, Kražiai, Kriukai, Kudirkos Naumiestis, Kuršėnai, Kvėdarna, Lieporiai, Papilė, Raudonė, Rietavas, Salantai, Sintautai, Skuodas, Šakiai, Šakyna, Tirkšliai, Užventis, Vegeriai, Veiviržėnai, Viduklė); também ocorre a forma kiaūlininkas; kiaulinýkas (Alytus, Alksnėnai, Alvitas, Barzdai, Garliava, Igliauka, Jieznas, Kalvarija, Kapsukas, Kazlų Rūda, Lekėčiai, Liubavas, Mauručiai, Medeišiai, Pilviškiai, Rudamina, Rumšiškės, Skriaudžiai, Tverečius, Vilkaviškis); também se usa a forma kiaulinýkas; kiaulinis (Balčiai, Dūkštas, Inturkė, Kazitiškis, Puvočiai, Širvintos, Videniškis); também se usa a forma kiaūlinis; kiaulinys (Minkūnai, Molėtai, Vilūčiai); kiaulinė (Balninkai, Dūkštas, Giedraičiai, Markutiškiai, Okainiai, Skudutiškis, Šimonys), kiaulinėčius (Antalieptė, Dubičiai, Kaniava, Paditvys, Pelesa, Plikiai, Rudnia, Vydeniai, Zarasai); kiaulinýčia (Kapsukas, Parovėja); também ocorre a forma kiaulinýčia; kiaulynas (LKŽd., V, 696), kiaulinės ‘chiqueiros’ (LKŽd., V, 696), cf. LKŽd., V, 695–7): lituano kiaulė.

Lituano migis (Aukštadvaris, Ažytenai, Čiobiškis, Daugėliškis, Eriškiai, Kulva, Okainiai, Palomenė, Pašušvys, Surviliškis, Šlapaberžė, Vepriai, Žeimys), mencio-

¹⁰⁸ J. Sehwers, Sprachlich - kulturhistorische Untersuchungen, p. 123.

¹⁰⁹ P. Skardžius, Die slavischen Lehnwörter im Altlitauischen, p. 95.

¹¹⁰ Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, p. 194–195; J. Otrębski, Gramatyka języka litewskiego, I, p. 383–384.

¹¹¹ P. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, p. 293.

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nessas localidades, por vezes também ocorre a forma migys; migelis (Gelvonai, Pociūnėliai, Pašušvys, Siesikai): lituano migoti, cf. migis ‘leito de um animal’. Foi desse último sentido que surgiu o significado de chiqueiro.

Lituano namėlis (Aukštadvaris): lituano namas. Lituano namas, como vimos, também é usado com o significado de estábulo.

Lituano svinárnykas (Šklėriai, Vievis, Žietela) < bielorrusso свінарнік; cf. também russo свинарник: свинья ‘porca’.

Lituano kiaulmigys (Alanta, Anykščiai, Dusetos, Gražiškiai, Karsakiškis, Krakės, Krekenava, Musninkai, Pabaiskas, Panevėžys, Pociūnėliai, Raguva, Siesikai, Sodeliai, Šašuoliai, Želva); também se usam as formas kiaūliamigis, kiāulamagis, kiāūmigis (LKŽd., V, 688, 693, 701) < kiaulė+migis.

Lituano kiaūlatvartis (LKŽd., V, 688), kiaulėtvartis (LKŽd., V, 691), kiauliatvartis (LKŽd., V, 695), kiaūltvartis (LKŽd., V, 701), keltvartis (LKŽd., V, 552) < kiaulė+tvartas.

Lituano kiaulākūtė (Šatės, LKŽd., V, 688) < kiaulė+kūtė

Lituano kiaūliagurbis (Dusetos, LKŽd., V, 693) < kiaulė+gurbas.

Lituano kiaūlstaldis (LKŽd., V, 700) < kiaulė+staldas.

Letão cūkkūts (EM, I, 398; EH, I, 281) < cūka ‘porca’+kūts.

Lat. cūkklevs (EH, I, 281) < cūka+klēvs.

Lat. cūkstallis (EH, I, 281) < cūka+stallis.

A denominação do chiqueiro encontra-se registrada também nos monumentos da antiga língua prussiana: Seweynis Sewstal (palavra 229 do glossário de Elbing)112. O pr. seweynis, não se sabe até que ponto essa grafia corresponde à forma real da palavra na língua prussiana, deve ser relacionado às denominações correspondentes do porco nas línguas bálticas; cf. pr. swintian, let. suvens, sivens113.

Estábulos de ovelhas

Lit. avidė (Derveliai, Gadūnavas, Gaižūnai, Kėdainiai, Kietaviškės, Kupiškis, Raginėnai, Surviliškis, Svobiškis; da língua literária, essa palavra também passou a outros dialetos; por fim, mesmo nas localidades aqui indicadas, avidė nem sempre pode ser um fato linguístico antigo), aviniūkas (Alsėdžiai, Barčiai, Drobūkščiai, Dubičiai, Girdžiai, Lauko Soda, Laužai, Pakražantis, Rėkščiai, Sintautai, Skirpsčiai, Slavikai, Šiauduva, Varduva), avinykas (Dailidės, Mauručiai, Miežionys, Onuškis, Palomenė, Pavinkšniai, Rimšė, Sekonys, Tverečius), avinykė (Birštonas, Butrimonys, Čiobiškis, Darsūniškis, Daukšiai, Igliauka, Kalvarija, Kapčiamiestis, Kruonis, Liškiava, Marijampolis, Nauja Ūta, Paparčiai, Pašlavantis, Simnas, Vievis), avinė (Armališkės, Kaniava, Širvintos), avikinė (Giedraičiai, Minkūnai, Musninkai, Naujamiestis, Pagiriai, Šašuoliai, Vaiskūnai, Žeimelis), avikinis (Radžiūnai, Raguva), avikė (Darsiškiai, Kableliai, Lukštai), avėlinis (Dūkštas, Želva), avinyčia (Alksnėnai, Dotnuva, Juknaičiai, Smalininkai); cf. também LKŽd., I (2), 523, 525, 527, 528): lit. avis.

Lit. jāuja (Lazūnai, LKŽd., IV, 299): lit. jāuja ‘construção para secar e macerar linho’.

112 Monumentos da língua prussiana, p. 63.

113 A. Sabaliauskas, LKK, X, p. 171–172.

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Lituano avītvartis (Kaniava, LKŽd., I(2), 530) < avis + tvārtas.

Lat. āitstallis (EH, I, 5) < āita ‘ovelha’ + stallis.

Lat. avikūts (EH, I, 190) < avs ‘ovelha’ + kūts.

Estábulos para vacas

Liet. karvidė (Gaižūnai, Kapčiūnai, Lieporiai, Lukošaičiai, Nairiai, Noriūnai, Rūdupiai, Salamiestis, Sodeliai, Telšiai; da língua literária, esta palavra também chegou a vários outros dialetos do lituano. Além disso, mesmo nas localidades aqui indicadas, karvidė pode, por vezes, ser uma palavra surgida muito recentemente), karvini̇ṅkas (Alsėdžiai, Eidżiotai, Salantai, Skripščiai, Vardūva), karvinẏkas (Biržiniškė, Mauručiai, Medeišiai, Rimšė, Sekonys, Tverėčius, Vištytis), karvini̇ṅkė (Ratnyčia, LKŽd., V, 357), karvinis (Kazitiškis, Luodžiai), karvinỹs (Molėtai, LKŽd., V, 358; cf. também LKŽd., V, 357–8): liet. kárvė.

Liet. bandini̇ṅkas (Drobūkščiai; cf. também LKŽd., I(2), 640): liet. bandà.

Liet. galvijinė (Joniškis), galvininkas ‘estábulo para gado’ (LKŽd., III, 84): liet. galvijas.

Liet. gyvulini̇ṅkas (Šakiai): liet. gyvulỹs.

O liet. abārės (Kaunatava, Pakšteliai, Papilė, Raudėnai) também era usado com o sentido de estábulos senhoriais para vacas.

Liet. jautidė ‘estábulo para bois’ (LKŽd., IV, 323), jautini̇ṅkas ‘estábulo para gado; jautidė’ (LKŽd., IV, 324), jautinyčia (LKŽd., IV, 324): liet. jautis.

Liet. veršidė ‘estábulo para bezerros’ (Laukuva, Utena; palavra provavelmente de formação recente), veršini̇ṅkas (Kurtuvėnai, Skripščiai): liet. veršis.

Lituano kárviatvartis (Ratnyčia, LKŽd., V, 357) < kárvė + tvārtas.

Lat. gùovskūts (EM, I, 693) < gùovs ‘vaca’ + kūts.

Letão gùovstallis (EH, I, 424) < gùovs + stallis.

Ao comparar as denominações lituanas específicas para estábulos com as denominações correspondentes do letão, chama a atenção a grande variedade de nomes lituanos. Em letão, não encontramos denominações formadas como as do tipo lituano -idė, -inin-kas. Em letão, predominam as denominações compostas: aitu kūts, guovju kūts, teļu kūts, cūkkūts, zirgu kūts (além de stallis). Já em lituano, denominações formadas dessa maneira são usadas com muito menos frequência. Nos dialetos lituanos, as denominações do tipo -idė têm se difundido bastante nos últimos tempos. Tendo chegado da língua literária junto com o sistema kolkhoziano, elas estão substituindo denominações de outras formações usadas anteriormente.

* * *

Em geral, encontramos em lituano e letão numerosas denominações para edifícios destinados à criação de animais. Algumas dessas denominações são usadas tanto em lituano quanto em letão. Além de palavras de origem autóctone, também ocorrem empréstimos das línguas eslavas vizinhas e do alemão.

55

NOMES DOS INSTRUMENTOS PARA TOCAR O GADO

Na terminologia da criação de animais das línguas bálticas, é possível distinguir como grupo semântico independente os nomes dos instrumentos usados para tocar ou bater no gado. Esses instrumentos são, sem dúvida, muito antigos — surgiram juntamente com a criação mais intensiva de animais, quando o ser humano começou a pastorear o gado e a utilizá-lo em diversas tarefas. No entanto, os nomes específicos dos instrumentos para tocar o gado nas línguas bálticas não são, em comparação, palavras de origem muito antiga; além disso, na maioria dos casos foram tomados de povos vizinhos, aos quais também chegaram com frequência de regiões mais distantes onde a criação de animais era intensa. Naturalmente, há também palavras de origem própria, usadas de forma mais ou menos restrita, mas mesmo estas são formações relativamente recentes.

As línguas indo-europeias não dispõem de uma terminologia mais geral para este campo. Costuma-se salientar que as línguas eslavas se distinguem por uma terminologia particularmente rica neste domínio1. Muitos nomes de instrumentos para tocar o gado passaram das línguas eslavas também para as línguas bálticas.

Liet. botāgas, lat. pātaga etc.

Acredita-se que os antigos indo-europeus inicialmente conduziam os animais, espetando-os com varas especiais, e que mais tarde conheceram o chicote por intermédio dos povos orientais2. Os bálticos conheceram este instrumento por intermédio dos eslavos. Os dados linguísticos demonstram isso claramente.

Liet. botāgas instrumento para tocar o gado; chicote (com uma corda; corda com cabo)3 (LKŽd., I(2), 976 – 7) já se encontra nos próprios primeiros monumentos da língua lituana — nos escritos de M. Mažvydas, M. Daukša, K. Širvydas e outros. Compare-se:

„Botagais ghi iſch plake...“, Mž, 443.

„...ir pláka ij kaip’ botāgais, paſmirdųſeis liežuwieis... Nėſſą botāgai io yra nūdemes mūſu...“, DP, 105.

„...terp tu buvo wirwes, lynčiugay, botagay, rikßtes...“, SP, II, 163.

„nahayka, scutica, flagellum, mastix. botagas“, C. Szyrwid, Dic. (1629 m. leidimas), 86.

„Jr padaręs botagą iß dirželu...“, Ch 1, II, 150.

Além da forma botagas, os textos antigos também apresentam a forma batagas. Compare-se: „korbácz, scutica. flagrum, flagellum, mastix. batagas“, C. Szyrwid, Dic. (edição de 1629), 60.

„...ſmarki batagai“, WP, 21.

Nos dialetos lituanos e em diversos monumentos escritos encontram-se também outras formas deste nome para o chicote: botēgas (LKŽd., I(2), 978), botaga (LKŽd., I(2), 976; registada no „Clavis Germanico-Lithvana“, no dicionário de D. Sutkevičius), botas (LKŽd., I(2), 978; palavra reconstruída por F. Nesselmann a partir da forma botkotis, considerando botkotis < como botas + kotas).

No dialeto žemaitiano, este nome é amplamente usado com v- no início da palavra; compare-se votāgas (Kuršėnai, Pagėgiai, Raudėnai, Viekšniai, Žarėnai, Židikai), votēgas (Girdiškė, Kalnalis, Salantai, Smilgiai, Šilalė; escritos de M. Valančius e S. Daukantas). As formas com v- são mais recentes, tendo surgido já no próprio território da língua lituana. Por vezes, encontram-se formas deste tipo também em monumentos escritos mais antigos:

1 O. Schrader, Reallexikon der indogermanischen Altertumskunde, II, Berlin, 1929, p. 154.

2 O. Schrader, ibidem, II, p. 154.

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“Muitos também açoitam as pessoas pecadoras...”, KN, 36³.

Sobre a alternância v: b, cf. lituano bėbras: vėbras, byškupas: vyškupas, vėlybas: vėlyvas etc.⁴

Provavelmente, não se deveria relacionar o lituano botāgas ao lituano botarainis ‘chicote comprido’ (LKŽd., I(2), 978; registrado nos escritos de Žemaitė); cf. botarainis ‘torto, nodoso, áspero, retorcido’ (Skuodas; LKŽd., I(2), 978). Um exemplo como Tavo lazda tikra botarainė talvez indicasse que, também nos escritos de Žemaitė, botarainis é usado não no sentido de ‘chicote’, mas no de ‘algum tipo de vara’ (cf. a frase de Žemaitė citada no dicionário: O aš — akloji švaistau botarainiu šunis, net kaukdamį į šalis sklinda). Cf. também o žemaitiano bōteris ‘grande, corpulento’, bōterinis, bōterainas, bōterainis (LKŽd., I(2), 978), aos quais seria possível relacionar as palavras mencionadas anteriormente.

O lituano bataška ‘vara flexível, vergasta; chicote desse tipo; vara’ (LKŽd., I(2), 683) deveria ser derivado diretamente do polonês batożek, forma diminutiva de batog ‘chicote’ (J. Karlowicz, A. Kryński W. Niedźwiedzki, Sł, I, 105); cf. também o polonês batożkować ‘açoitar com batożki’, de que provavelmente também deriva o lituano bataškuoti ‘bater, golpear com um bataška’.

A fonte do lituano botāgas é o bielorrusso батога⁵. Algumas outras línguas eslavas também têm esse nome para ‘chicote’: ucraniano батіг ‘chicote’, батяг, polonês batog ‘chicote curto’, tcheco batoh ‘chicote’, russo батог ‘vara’, dialetal потог, russo antigo batogъ⁶.

A maneira como essa palavra surgiu nas línguas eslavas não está muito clara. Alguns pesquisadores consideram-na um empréstimo, apontando como fonte ora o turco budak ‘ramo’, o tártaro de Kazan botak, ora o italiano batacchio ‘vara’; outros consideram-na uma palavra de origem eslava, relacionando-a com o eslavo bat ‘vara, bastão de carvalho’, batati ‘bater, golpear’ (cf. russo ботать⁷). A primeira hipótese (empréstimo das línguas turcas e tártaras) é menos plausível por razões fonéticas, embora, em geral, a história da criação de animais a favorecesse. De todo modo, a segunda hipótese conta com mais adeptos.

Das línguas eslavas, esse nome para ‘chicote’ passou também ao letão:

Letão pātaga ‘o chicote’, pātega, pātega (EM, III, 190, 191; EH, II, 217), pātags (EH, II, 217), pārtaga (EM, III, 182; EH, II, 214).

Como vemos, os exemplos letões diferem dos lituanos pela consoante inicial. J. Endzelīns⁸ inclinava-se a pensar que o eslavo batogъ foi assim alterado por estonianos ou livônios assimilados pelos letões. De fato, a alternância b: p é muito característica do letão. Suas causas são justamente explicadas pela influência das línguas fino-bálticas⁹.

A forma pārtaga já é uma criação lexical letã. A inserção da consoante -r- entre uma vogal longa (ou os ditongos ie, uo) e uma consoante é bastante frequente nos dialetos letões, sobretudo em empréstimos; cf. letão kārkis: kākis ‘o gancho’ (EM, II, 196), letão mērtelis: mētels ‘o manto’ (EM, II, 620), letão pērlis: pēlis ‘o colchão’ (EM, III, 209), letão stērķis: stēķis ‘o peixe-espinho’ (EM, III, 1063), entre outros.¹⁰

³ P. Skardžius, Die slavischen Lehnwörter im Altlitauischen, p. 240.

⁴ J. Otrębski, Gramatyka języka litewskiego, I, p. 326.

⁵ P. Skardžius, Die slavischen Lehnwörter im Altlitauischen, p. 45; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 53.

⁶ M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 62.

⁷ F. Slawski, Sł. Et., I, p. 28; A. Brückner, Sł. et., p. 18; H. M. Шанский, Эт. сл., I, p. 56.

⁸ EM, III, p. 190.

⁹ V. Kiparsky, Scando-slavica, 14, p. 73–97.

¹⁰ J. Endzelīns, Gramática da língua letã, p. 237–238; M. Rudzīte, Dialetologia letã, Riga, 1964, p. 100–101, 194, 313–314.

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Bižūnas lituano, bižūne letão

Lituano bižūnas ‘chicote de cabo curto, trançado com tiras ou cordões; vara de açoitar’ (LKŽd., I(2), 871), bižūnas também é de origem eslava (as formas bišūnas, bežūnas mencionadas por E. Frenkelis (Et. Wb., 45) não são dados confiáveis da língua lituana). Sua fonte deve ser considerada o polonês bizun ou o bielorrusso бізун11.

Ainda não foi definitivamente esclarecido como tal palavra surgiu nessas línguas eslavas. A. Briukner12 afirmou que o polonês bizun (ele também indica a forma bizon) provém do húngaro bizony ‘ora, certamente, de fato’, que, segundo se diz, era o que gritava quem estava sendo açoitado ou açoitando. Essa palavra teria entrado no polonês por intermédio dos eslovacos da Hungria, que serviam aos senhores da Lituânia e da Polônia nos séculos XVII–XVIII. Como paralelo semântico para essa origem do polonês bizun, A. Briukner cita a origem do polonês harapnik (cf. lituano rāpninkas).

Outros pesquisadores tendem a considerar que a fonte do polonês bizun é o latim medieval bison ‘bisão’ (gr. βίσων); cf. latim taurus ‘touro’: latim taureus ‘correia de couro’. Também se aventou a hipótese de que a fonte da palavra polonesa mencionada seja o turco biston — um chicote com o qual monges muçulmanos mendicantes se açoitavam para despertar compaixão13.

Todas as etimologias suscitam dúvidas. Ainda assim, talvez a explicação de A. Briukner seja a mais convincente. Ela também é adotada no novo dicionário acadêmico da língua polonesa14.

O letão bižūne ‘o malho, bastão para bater’, bizuns ‘ferramenta de espancamento’, bizuons ‘porrete, chicote de ciganos’ também tem como fonte o polonês ou o bielorrusso, ou talvez até um dialeto da vizinha língua russa (EM, I, 303).

Nas canções populares letãs também se encontra a forma bizuls ‘para arremessar, para bater’ (EH, I, 222), provavelmente uma forma remodelada de bizuns.

Provavelmente também se deve relacionar o letão bizuns, bizuls ao letão bizuns ‘aquele que vagueia sem trabalhar, incitando os outros a trabalhar’ (nasājas kai bizuns aplīk, nikā nestrādā, EH, I, 222), e talvez também o letão bizulis ‘pessoa que anda vagando’ (EM, I, 302; EH, 222), distinguindo-o do letão bizulis ‘gado que enxameia’: letão biz̄uot ‘enxamear (especialmente, falando do gado), vaguear, correr’. Quanto à semântica, cf. o significado do lituano bižūnas (Anda como um bižūnas, sem se dedicar ao trabalho, LKŽd., I(2), 871).

Lituano dāndaras, letão dāndala

A distribuição geográfica do lituano dāndaras ‘chicote (com muitos nós)’ (LKŽd., II, 171) (Joniškis, Šakyna) indicaria que ele entrou no lituano vindo do letão. É verdade que a fonética da palavra indicaria que ela é antes uma palavra lituana do que letã, mas, em lituano, ela está completamente isolada, enquanto em letão há várias de suas variantes e mais palavras da mesma raiz.

Letão dāndala ‘um chicote de ciganos’, danda, dandara ‘um chicote de ciganos, o chicote’ (EM, I, 437), dāndele ‘o chicote de ciganos’ (EH, I, 306), cf. também letão dandalāties ‘brandir um chicote’, dandalhot ‘bater com o chicote de ciganos’ (EM, I, 437), dāndēlet (EH, I, 306).

11 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 45; A. Brückner, Die slavischen Fremdwörter im Litauischen, p. 72.

12 A. Brückner, Sł. et., p. 28.

13 J. Karłowicz, A. Kryński e W. Niedźwiedzki, Sł., I, p. 160; Enciclopédia Lituana, III, Kaunas, 1935, col. 1361.

14 W. Doroszewski (red.), Słownik języka polskiego, I, Warszawa, 1958, p. 539.

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Aos termos letões citados também se deve relacionar o letão dañdala ‘uma vara comprida, bastante grossa e lisa; uma criança travessa e irrequieta (raramente usado em relação a adultos), também um animal assim’, dañdalēties ‘discutir durante a troca de cavalos; fazer barulho durante a compra de cavalos’ (EH, I, 306), dañdars ‘uma pessoa angulosa e desajeitada’, dañdariski ‘com pressa, a toda velocidade’ (EM, I, 437). Quanto à semântica dos últimos termos, cf. os significados de lituano bizūnas etc.; cf. também o letão: iet kā dañdala kuzu kuzām (EM, I, 437).

Este nome letão para ‘chicote’ é provavelmente de origem onomatopaica.

Lituano kančiukas, letão kančuka

Liet. kančiukas ‘chicote de couro, açoite, chicote de caça’, kančukas (LKŽd., V, 200), segundo P. Skardžius e E. Frenkel, deriva do bielorrusso канчук15. No entanto, é igualmente provável que a forma polonesa kańczuk também tenha podido ser a fonte do lituano kančiukas; nos dialetos, ela é usada ao lado da forma kańczug, de resto mais difundida. A forma kańczuk também se encontra nos escritos dos escritores poloneses A. Mickiewicz e I. Chodzko, ligados à Lituânia16.

Além das formas kančiukas, kančiukas, também se usam em lituano as formas kańčius, kańčas, kańčas (LKŽd., V, 200). Essas formas são explicadas de duas maneiras. M. Niedermann sustentava que elas surgiram no próprio lituano, por abstração de formas supostamente diminutivas; compare-se o lituano baršas ao lado de baršiukas (<polonês borsuk ou bielorrusso барсук), lituano kāpšas ao lado de kapšiukas (<polonês kapczuk ou bielorrusso канчук), entre outros17. P. Skardžius levantou a hipótese de que o lituano kańčius poderia ter vindo diretamente do polonês, pois nessa língua, além das formas kańczuk, kańczug, também existe a forma kańcz18. F. Sławski, porém, opõe-se a essa possibilidade, uma vez que o polonês kańcz é usado em dialetos poloneses situados longe da Lituânia. Em sua opinião, tanto o lituano kańčius quanto o polonês kańcz surgiram independentemente em ambas as línguas19.

Nas línguas eslavas (russo камчук, камчуге, ucraniano канчук, búlgaro камшик), esse nome de chicote veio do Oriente; compare-se o turco kamčy, o tártaro da Crimeia kamčy e o caraíta kamčū20. A palavra também é bastante difundida em outras línguas europeias (grego, húngaro). Do eslavo veio também o alemão Kantschu, Kantschuk.

A fonte do letão kančuka ‘o chicote cossaco grosso, de couro’, kančuks, kančaka, kaņčūklis (EM, II, 154; EH, I, 583), kančiklite (EH, I, 583) também é eslava, provavelmente russa ou bielorrussa. Em letão encontram-se também formas mais curtas dessas palavras: kańce ‘um chicote’ (EH, I, 583) e kańka ‘o chicote cigano’ (EM, II, 154).

A. Zumentas (Summent) considerava que a forma kańce derivava do polonês kańc21. No entanto, pelas mesmas razões que no caso do lituano kańčius, dificilmente o letão kańce poderia ter vindo diretamente do polonês. É provável que tanto a forma kańce quanto kańka tenham surgido no próprio letão.

15 P. Skardžius, Die slavischen Lehnwörter im Altlitauischen, p. 95; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 215.

16 W. Doroszewski (red.), Słownik języka polskiego, III, p. 525.

17 M. Niedermann, StB, III, p. 108–110.

18 P. Skardžius, APh, III, p. 50.

19 F. Sławski, Sl. et., II, p. 48.

20 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 515–516; A. Brückner, Sl. et., p. 217; K. Lokotsch, Et. Wb., p. 84.

21 A. Summent, Unbeachtete slavische Lehnwörter im Lettischen, Göttingen, 1950, p. 143 (mašinraštis), plg. E. Fraenkel, Et. Wb., p. 215.

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Lituano karbãčius, letão karbãča

Lituano karbãčius ‘uma espécie de chicote, azorrague’ (LKŽd., V, 266), karbãčius (LKŽd., V, 267) estão registrados sobretudo no folclore dos lituanos da Prússia Oriental, bem como em outros monumentos da língua lituana dessa região: nos escritos de K. Donelaitis, na tradução da Bíblia de L. Rėza e nos dicionários de F. Nesselmann e F. Kurschat.

A. Brückner22 e E. Fraenkel23 consideram que a fonte dessas palavras é o polonês karbacz, korbacz (A. Brückner também menciona o bielorrusso карбач). No entanto, considerando a distribuição geográfica do lituano karbãčius, karbõčius, e sobretudo o fato de que tal designação para chicote não se encontra em outros dialetos da língua lituana, pode-se supor que os lituanos a receberam do alemão; cf. o alemão da Prússia Oriental Karbatsch(e) ‘Peitsche, Lederpeitsche aus Riemen geflochten’, karbatschen ‘açoitá-lo, espancá-lo com o Karbatsch’24. Essa designação para chicote já aparece em monumentos da língua alemã do século XVII25.

O polonês korbacz já está registrado em monumentos da língua polonesa do século XVI. Chegou ali do turco; cf. turco kyrbaç. Na verdade, essa palavra também pode ter chegado ao polonês por intermédio do húngaro; cf. húngaro korbács. Essa designação de chicote, de origem turca, é usada em muitas línguas europeias26.

Letão karbãča ‘uma espécie de chicote, o karbatsche’, diminutivo karbacina (EH, I, 588), karpaciņa (EH, I, 589), kārbacā (EH, I, 602), kārpača (EH, I, 603); cf. também o letão karbacuôt ‘bater com um karbacā’.

Essa designação letã para chicote encontra-se sobretudo nas canções populares letãs, nos escritos de J. Janševskis e em alguns dicionários. Parece ter sido registrada pela primeira vez no manuscrito do dicionário de J. Langijs (1685): „Karbatsch’. ein Carbatſch“, J. Langija Vrd., 41.

Nos dicionários letões do século XVIII já se encontra a palavra alemã Karbatsche (G. F. Stender, Lex., II (1789), 349), mas ainda não há uma forma letã dessa palavra. Ela só aparece nos dicionários da segunda metade do século XIX (de Kr. Valdemars e K. Ulmanis)27.

É bastante difícil dizer por que via essa designação de chicote chegou à língua letã. J. Endzelīns observa apenas: „Entlehnt gleich li. karbãčius dass.“28 D. Zemzare considera-a um eslavismo.29 No entanto, os letões também podem ter recebido essa palavra do alemão.

Lituano knūtas, letão knute

Lituano knūtas ‘chicote, vergasta’ encontra-se em algumas de nossas variedades e em monumentos linguísticos do século XIX — nos escritos de M. Valančius e V. Kudirka (LKŽd., VI, 279). Também ocorre a forma kniūtas (LKŽd., VI, 272).

Esta denominação do chicote entrou na língua lituana a partir das línguas russa ou polonesa. Mais frequentemente, através do russo, ela (russo кнут) difundiu-se também por outras línguas eslavas: bielorrusso кнут,

22 A. Brückner, Die slavischen Fremdwörter im Litauischen, p. 90.

23 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 220.

24 F. Frischbier, Preussisches Wörterbuch, I, Berlin, 1882, p. 337.

25 F. Kluge, Et. Wb., p. 351.

26 A. Brückner, Sl. et., p. 256; F. Slawski, Sl. et., II, p. 474–475; K. Lokotsch, Et. Wb., p. 102; V. Machek, Et. sl., p. 192–193.

27 D. Zemzare, Latviešu vārdnīcas, p. 88–89.

28 EH, I, p. 588.

29 D. Zemzare, Latviešu vārdnīcas, p. 88.

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ucran. кнут (já usado na primeira metade do século XVIII), pol. knut (encontrado em documentos dos séculos XVI–XVII), tcheco knuta, knut, eslovaco knuta, búlgaro кнут, servo-croata књма, књм, esloveno knuta, knut, alto-sorábio knut, knuta.

Tal designação do chicote provavelmente chegou ao russo a partir da Escandinávia; cf. isl. ant. knútr ‘protuberância, caroço, nó’, sueco ant. knuter30. Inicialmente, essa palavra designava um chicote especial com nós. Em geral, essa designação para chicote é usada em muitas línguas europeias; cf. alemão Knute (dessa forma podem ter derivado também algumas formas eslavas já mencionadas), francês knout, inglês knout.

Lat. knute ‘um chicote’ (EH, I, 634), nesse sentido, segundo J. Endzelynas, é um empréstimo do russo. Em letão também se encontra a forma kņ uote ‘chicote’; cf. let. uzkņūotet ‘golpear com um kņ uote’ (EH, II, 725).

Ao lado do let. knute ‘um chicote’, kņ uote, encontramos também as palavras knuta ‘um bastão’, knutka, kņute ‘um bastão para golpear’ (EH, I, 637), knute ‘uma vara fina, usada para prender a palha no telhado’, knutele, knutiņa (EM, II, 250), knuta, kņute, knutele (EM, II, 253; EH, I, 637).

O let. knuta ‘um bastão’, como conjectura J. Endzelynas31, pode ter surgido por extração da forma diminutiva presumida knutele, que, por sua vez, teria sido emprestada do alemão.

Parece-nos que, nos exemplos letões mencionados (knute, kņute, knutele, knutele etc.), se confundiram duas palavras: uma tem como fonte o alemão Knüttel ‘bastão’, e a outra, o russo кнут ‘chicote’ ou o alemão Knute ‘chicote’. De todo modo, tanto o alemão Knüttel ‘bastão’ quanto as designações de chicote mencionadas são palavras da mesma raiz: uma tinha o significado de ‘bastão nodoso’ (= Knotenstock), e a outra, como mencionamos, o de ‘chicote com nós’ (cf. alemão Knottpeitsche32).

Lituano matāras, letão mātara

Lituano matāras ‘instrumento para bater (chicote, corda, vara, bastão)’, mātaras, mātaras, matar inis, mataryš (LKŽd., VII, 907): a questão da origem é muito complexa.

Em primeiro lugar, a palavra matāras é usada em lituano com vários significados: ‘dispositivo para torcer cordas e enrolar correias, torcedor, carretilha’, ‘dispositivo para torcer fios, carretel, roca’, ‘ponta longa de fio, braça’, ‘vara junto à rede’, ‘tagarela, falatório’, ‘falador rápido’, ‘quem está sempre em movimento; irrequieto’; cf. também matarāklas ‘dispositivo para enrolar fios em meadas; urdideira; quem fala depressa e em tom de brincadeira; pessoa leviana, que gosta de tagarelar’, matarėlis ‘ripa para prender a palha ao cobrir o telhado’, mataraila ‘pessoa muito vivaz, irrequieta; tagarela, falatório’, mat ar uoti, māt ar uoti. O significado original do lituano matāras provavelmente era ‘dispositivo para torcer ou enrolar algo’, e a palavra relaciona-se com o lituano mėšti33. Da palavra matāras derivou o verbo mataruoti, e desse verbo (cf. também os cognatos matarai, matar, matary) surgiu também matāras ‘instrumento para bater’.

30 F. Slawski, Sl. et., II, p. 290–291; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 580–581; A. Brückner, Sl. et., p. 240; F. Kluge, Et. Wb., p. 385; E. Klein, Et. Dic., I, p. 850.

31 EM, II, p. 250.

32 F. Kluge, Et. Wb., p. 385.

33 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 465; P. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, p. 302, 489; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 414.

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Uma palavra semelhante também é usada em letão, mas ali seu uso é muito mais restrito.

Let. matara ‘uma vara (fina), vergasta; uma haste fina’ (EM, II, 566; EH, I, 784), matars ‘um cacete’ (EM, II, 566), matars ‘macho robusto’ (EH, I, 784).

Como vemos, em letão essa palavra não é usada com o sentido de ‘instrumento para fazer girar ou conduzir algo’, que, em nossa opinião, é o mais antigo e permite relacionar essa palavra ao verbo mėsti.

A palavra matar ‘vara grossa, cacete’ também se encontra em estoniano. Portanto, provavelmente foi sobretudo essa última circunstância que deu a A. Zumentas34 motivo para afirmar que os letões, assim como os estonianos, poderiam ter tomado essa palavra emprestada do russo; cf. rus. мотор «porrete» (В. Даль, Сл., II, 351). Parece-nos que a opinião de A. Zumentas é bastante plausível. Até mesmo o sentido de liet. matāras ‘estaca, cavilha’ poderia, por vezes, ter vindo do russo.

Rus. мотор também é usado com outros sentidos, que às vezes lembram os sentidos de liet. matāras; cf. rus. мотор ‘pessoa ágil’, мотopa ‘esbanjador’, моторный ‘ágil, destro’. M. Vasmer tende a relacionar essas palavras russas com rus. мотать ‘enrolar, torcer (fios), agitar, sacudir’, метать ‘lançar’, apontando como paralelo semântico liet. matāras: liet. mėsti35.

Lituano nagáika, letão náika

Liet. nagáika ‘instrumento trançado, com cabo curto, para bater; chicote, açoite’, náika (Laižuva, Mažeikiai, Palanga, Vieksniai, Veiviržėnai; G. H. F. Nesselmann, Wb., 416, F. Kurschat, Wb., 266), naikas (G. H. F. Nesselmann, Wb., 416), niaika (F. Kurschat, Wb., 266) — são palavras de origem eslava.

A forma nagáika deriva da forma russa нагайка, enquanto a forma náika, provavelmente mais antiga, deriva do bielorrusso нагайка; cf. liet. paūbelis < bielorrusso погц-бель, liet. blovieščius < bielorrusso благовещие37.

Além do russo e do bielorrusso, algumas outras línguas eslavas também têm essa denominação para um instrumento de bater; cf. ucraniano нагай, нагайка, polonês nahajka, nahaj, tcheco nahajka. Essa palavra entrou nas línguas eslavas vinda do tártaro; cf. tártaro da Crimeia ногой ‘denominação de uma tribo tártara’, tártaro do Quirguistão ногой, que, por sua vez, deriva do nome de um chefe tártaro38.

Let. náika ‘uma correia, uma vara, uma vara flexível’ (EH, II, 112), let. naikas ‘porrete’ (EM, II, 689) provavelmente deriva do lituano, como indicaria a distribuição geográfica de let. náika (Dunika, Nyca). J. Endzelīns tendia a derivar let. naikas (sem indicação da distribuição geográfica da palavra) do bielorrusso нагайка. No entanto, essa forma também poderia ter sido emprestada do lituano; naturalmente, sem conhecer com precisão a distribuição geográfica da palavra, não se pode afirmá-lo categoricamente. Que liet. náika, náikas era usado não apenas com o sentido de ‘instrumento para bater, com cabo curto’ é indicado pela explicação de F. Nesselmann para o sentido de liet. naikas: «um chicote de ciganos, um chicote curto para castigar, também um chicote de montaria; em tom de brincadeira, também usado para uma vigorosa vara de salgueiro com a qual se ameaça bater em alguém» (G. H. F. Nesselmann, Wb., 416).

34 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 414.

35 M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 165.

36 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 478.

37 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 348–349; P. Skardžius, Die slavische Lehnwörter im altlitauischen, p. 137; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 478.

38 M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 192; A. Brückner, Sl. et., p. 353–354; V. Machek, Et-sl., p. 317.

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Com letão naikas, talvez também se deva relacionar o letão naicēklis ‘o órgão genital masculino’ (EH, I, 2); quanto à semântica, compare-se o letão stute ‘uma vara para espancar’: letão stute ‘o membro masculino’ (EH, I, 596), polonês pyta ‘chicote curto’: polonês pyta ‘pênis’ (J. Karłowicz, Sł., IV, 460).

Lituano pastarānka, letão pastrunkis

Liet. corda grossa trançada com vários fios (Gudелiai) tem origem nas línguas eslavas. Em lituano, essa palavra é amplamente usada com outros significados: ‘corda que liga os arreios à lança do carro, correia’ (Bagotoji, Krekenava, Kruonis, Pabaiskas, Pušalotas, Skaudvilė, Ukmergė, Upninkai), ‘cordel com que o chicote é preso ao cabo’ (Užventis). Também ocorrem as formas cordas de chicote (G. H. F. Nesselmann, Wb., 506 (Ragnit) ‘eine Peitschenschnur’. F. Kurschat, Wb., 297), corda (Švenčionys). A forma com -g- pode ter sido influenciada pelo lituano cordas < e pelo alemão corda ‘uma corda, um cabo’³⁹.

Esse eslavismo pode ter entrado no lituano por duas vias: a fonte das formas pastrāngas, pastrānka provavelmente é o polonês postronek, enquanto a forma pastarānka vem do russo посторонка ‘correia ou corda lateral, nos arreios do cavalo: vai do balancim ou do varal ao tirante; nos arreios com timão, somente nos cavalos laterais, e nos arreios de timão, em todos os cavalos’ (В. Даль, Сл., III, 346). De modo geral, essa palavra é amplamente usada nas línguas eslavas; compare-se o russo постромка, постронка, ucraniano посторонок, посторомок, bielorrusso постронка, посторонок, tcheco postranek, postraněk, polonês postronek, alto sorábio postronk, baixo sorábio postronk e cassúbio poestronk.

Quanto à origem da palavra eslava, há várias opiniões. No entanto, a explicação mais aceitável é que o significado original da palavra era ‘ao lado’ (=*po stornē)⁴⁰.

O letão pastrunkis ‘um chicote com que os camponeses são castigados em alguns lugares; um castigo nas nádegas com o chicote; um rapaz adolescente’ encontra-se nos dicionários de G. F. Stender (1789) e K. Ulmanis (1872) (EM, III, 109).

J. Endzelīns não expressou sua opinião sobre a origem do letão pastrunkis, limitando-se a citar a opinião de A. Brückner (Nach Brückner… aus wruss. посторонок ‘corda’, EM, III, 109). É verdade que, depois da forma bielorrussa, A. Brückner também indica formas de palavras russas e polonesas⁴¹; portanto, pode-se entender que, em sua opinião, essa palavra poderia ter chegado ao letão tanto do bielorrusso quanto do russo e do polonês. Contudo, parece-nos que o -un- na palavra letã permite supor que os letões tomaram essa palavra emprestada dos lituanos orientais, onde an > un.

Lituano pitkā, letão pitka

O lituano pitkā ‘chicote curto, azorrague’ (Kalvarija, Kapsukas, Karklėnai, Kupiškis, Punskas) é um empréstimo do polonês; compare-se o polonês pytka, pyta ‘corda, correia, trapo torcido em forma de corda, como instrumento para bater; de modo mais geral: chicote, correia, corda’.

39 K. Alminauskis, Die Germanismen des Litauischen, p. 120.

40 M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 416—417; A. Brückner, Sł. et., p. 432.

41 A. Brückner, Die slavischen Fremdwörter im Litauischen, p. 179.

63

Pol. pyta, pytka devem ser relacionadas ao pol. pytać ‘dirigir-se a alguém de modo a exigir uma resposta, a fim de obter alguma informação, notícia ou autorização para algo’, rus. nůmamь ‘atormentar, perguntar’.

Lat. pitka ‘um chicote, chicote para cães, chicote cigano’ (EM, III, 229; EH, II, 239) provavelmente também tem origem na língua polonesa; cf. também lat. pitkainis ‘um arruaceiro armado com uma pitka; uma pessoa cruel que bate no gado’, pitkat ‘bater com uma pitka’ (EM, III, 229).

Nas fontes da língua letã, este nome para ‘chicote’ está registrado também com um s- protético: spitka (župam pa juokam ar spitku (chicote?) iecirta pa biksēm, EM, III, 1000); cf. também lat. spitka ‘uma pequena vara’ (EH, II, 552). Nos acréscimos ao dicionário de K. Mülenbach (EH, II, 552), cita-se uma frase de R. Blaumanis: „...barouns... gaisā spitku šmikstināj(a)“, que talvez indique que aqui spitka foi usado no sentido de ‘chicote’, e não de ‘pequena vara’. Quanto ao s- protético, cf. lat. spikis: lat. piķis, lat. skaste: lat. kaste e outros.42

Lituano pletnià, letão pletne, plītne, plete

Liet. pletnià ‘chicote, correia’ (Merkinė, Veisiejai), plētnē ‘vara’ (Eržvilkas), plētnē ‘instrumento para espantar moscas’ (Kapsukas) devem derivar do pol. pletnia ‘instrumento de bater feito de partes parcialmente entrelaçadas de correias, varas etc.; disciplina; golpes desferidos com uma disciplina’.

O pol. pletnia deve ser relacionado ao rus. плеть ‘chicote, azorrague, látego’, ao pol. pleść ‘trançar’, ao rus. плести e a outros.43

Lat. pletne ‘um chicote trançado, chicote cossaco’ (EM, III, 338; EH, II, 292), plētne (EM, III, 342), ambos, segundo J. Endzelīns, explicam-se como resultantes de contaminação entre plete (= pletne) e plene ‘a trança’. No entanto, é mais provável que lat. pletne, assim como liet. pletnià, derive do pol. pletnia. Do lat. pletne também se originou o verbo plet nēt ‘bater com uma pletne’ (EM, III, 338).

Lat. plekne ‘o chicote cossaco’ (EM, III, 334), segundo J. Endzelīns, deriva da forma pletne (provavelmente com kn a partir de tn); cf. também lat. saplek nēt ‘espancar com uma plekne’, saplek nīt (EM, III, 702).

Também não se pode separar desses nomes letões para ‘chicote’ o lat. blētne ‘objeto largo (correia de couro)’ (EH, I, 228).

Lat. plītne ‘o chicote’ (EM, III, 350) provavelmente também deve ser relacionado ao lat. pletne, e o vocalismo da raiz alterou-se sob a influência do lat. plītēt ‘bater; estalar’.

Lat. plete ‘um chicote trançado, chicote cossaco’ (EM, III, 337; EH, II, 292), plete (EM, III, 370), segundo J. Endzelīns, tem como fonte o rus. плеть; cf. também lat. pletēt ‘espancar, bater com uma vara larga’ (EM, III, 337), pletēt ‘bater com uma plete’ (EM, III, 370).

Lat. pletka ‘o chicote trançado, chicote cossaco’, pletka (EM, III, 337), deriva do rus. плётка ‘chicote pequeno, azorrague’.

42 J. Endzelīns, Latviešu valodas gramatika, p. 239; M. Rudzīte, Latviešu dialektoloģija, p. 99, 193, 313.

43 M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 371.

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Lituano vytinis, letão vītine

O liet. vytinis ‘instrumento para bater, entrançado com varas finas; chicote entrançado, cabo de chicote’ (Biržai, Dusetos, Kuliai, Liškiava, Plungė, Vaškai, Viduklė) é uma palavra de origem autóctone; cf. liet. vyti ‘torcer uma corda, enrolar, torcer’, vytelė ‘rebento de salgueiro usado para entrançar’, vytis ‘vara, chicote’, vytinė ‘vara, galho’.

O lat. vītine ‘chicote torcido com três ramos’ (EH, II, 794), vitene ‘um chicote (torcido); um cabo de chicote entrançado de madeira rachada’ (EM, IV, 646), vītinis ‘um cabo de chicote entrançado de madeira’ (EM, IV, 647) têm a mesma origem que o liet. vytinis; cf. lat. vīt ‘torcer, entrançar’, vītene ‘o torcido, a grinalda; o entrançado’. A forma vītinis pode, por vezes, ter entrado também no letão a partir do lituano. A distribuição geográfica da palavra letã (Liepoja, Rucava) não contrariaria tal hipótese.

Encontramos numerosos nomes de instrumentos para conduzir ou bater nos animais que são característicos de apenas uma das línguas bálticas:

Liet. ákštinas ‘vareta pontiaguda para conduzir animais mansos’, akstinyčia (LKŽd., I (2), 86), ákštinas (LKŽd., I (2), 87): liet. ákštinas ‘espinho, acúleo’, akstis ‘pauzinho pontiagudo, vara; espinho’, ákštis. Na sua evolução semântica, esta palavra lituana lembra muito a evolução do lat. stimulus; cf. lat. stimulus ‘vara pontiaguda para conduzir animais’: lat. stimulus ‘estímulo; incentivo, encorajamento’, liet. ákštinas ‘instrumento para conduzir animais’: liet. ákštinas ‘incitamento, estímulo’.

Liet. arimnykas ‘chicote de arar’ (LKŽd., I(2), 300): liet. ariminis ‘usado na lavoura’, cf. ariminis botagas ‘chicote de arar’.

Liet. barbarō ‘mangual; uma vara desse tipo; chicote de couro; corda (de salgueiro) para amarrar jangadas’, barbaras ‘chicote de couro’ (Aš turėjau barbarėlį, plonai režtą, tankiai pintą ‘Eu tinha um barbarėlį, cortado fino e densamente entrançado’) (LKŽd., I (2), 655) — empréstimo do eslavo; cf. pol. barbara ‘chicote, corda’ (A. Brückner, Sł. et., 15), barbara ‘corda grossa e longa, usada no transporte fluvial’ (J. Karłowicz, A. Kryński i W. Niedźwiedzki, Sł., I, 97). A denominação deriva de um nome feminino; cf. pol. Barbara, liet. Barbora.

Liet. bim̃bilas ‘chicote’, bimbieras ‘chibata, açoite’ (LKŽd., I(2), 824), bimbiras ‘chibata de couro, açoite’; cf. liet. bimbti, bimbti ‘produzir determinado som’, bimbilas ‘moscardo’, bimbalas, bimbyti ‘bater’, bimblỹs ‘pessoa barulhenta’, bambalas ‘moscardo; criança gorda; pessoa pequena e corpulenta’. Liet. bimbilas e bimbiras também são usados com o sentido de ‘membro viril’.

Liet. bindza ‘cabo de chicote entrançado com 4, 8 ou 12 varas, com uma laçada para enfiar o chicote; trança de entrançamento, vytinis’ (LKŽd., I(2), 829–30), binza (LKŽd., I(2), 834), bėndžė ‘chicote; chicote grosso’ (LKŽd., I(2), 752), bindžikas ‘pano torcido com um nó, usado para bater (num certo jogo); instrumento para bater em geral’, bindžikas, bindžiukas (LKŽd., I(2), 831) — também provavelmente de origem onomatopaica; cf. liet. bindz ‘interj. stinkt, bidz (para indicar andar lento, a passos espaçados)’, bindzi, bindzi, bindži. Também têm a mesma origem liet. bindzinėti ‘andar sem fazer nada, vaguear, arrastar os pés’, bindžinėti, bindžikuoti, bindza ‘ocioso, preguiçoso, vagabundo, careca’, bindzakas, bindzolas, etc.

Quanto à relação semântica entre estas palavras, cf. os sentidos de liet. bizūnas (‘libertino, vagabundo’; Kaip bizūnas liko (nusigyveno) ‘ficou como um bizūnas (empobreceu)’, pol. bizun ‘patife, ocioso, preguiçoso, mandrião’ (Goły jak bizun ‘nu como um bizun’), liet. vėjo botagas ‘espantalho’, lat. nabaga pātag a ‘o miserável, mendigo — insulto (literalmente, o chicote do mendigo)’ (EM, III, 190).

5. Iš lietuvių leksikologijos ir leksikografijos

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Lituano biržūklė ‘vara para bater’ (LKŽd., I(2), 852), biržūklis (LKŽd., I(2), 853): lituano bėržas, biržlis ‘ramo de bétula’.

Lituano blakštas ‘instrumento para golpear’ (LKŽd., I(2), 880): lituano blakštas ‘ripa para prender a palha ao cobrir o telhado; ramo folhoso ou vara para prensar o linho na tina de maceração ou colocar sob os cereais empilhados no celeiro’, lituano blókšti ‘bater as medas de centeio ou de trigo contra alguma coisa para debulhar os grãos’.

Lituano bričius ‘chicote, látego’ (LKŽd., I(2), 1039) – de origem onomatopaica; compare-se o lituano bric ‘interj. estrondo, queda’, brýc, brinks, brinkt, brinkšt ‘interj. estalo’, bričinti ‘fazer algo com determinado som’, bričyti, bricas ‘preguiçoso, imprestável’, bričė ‘cauda (joc.)’.

Lituano bruikštas ‘vara, bastão para bruikšti alguém, tocar adiante’ (LKŽd., I(2), 1078), bruīžtas (LKŽd., I(2), 1079): lituano bruikšti ‘tocar, afugentar’, brūžti44. É provável que estas últimas palavras devam ser associadas ao verbo braūkti45.

Lituano brūklis ‘bastão forte, vara, vergasta; instrumento para bater’, brūklis, brūklis, brūklinis ‘instrumento para açoitar; chicote’ (LKŽd., I(2), 1082), brunkletas ‘bastão, cacete’ (LKŽd., I(2), 1093): lituano braūkti, brūkti46.

Lituano dratinis ‘uma espécie de chicote’47: lituano dratas ‘arame; fio grosso torcido’ < do baixo-alemão médio drāt; compare-se também dratinis ‘grosso, fiado em fio torcido (a respeito de tecido); torcido em cordão’ (Tenho um chicotinho, tenho um chicote de arame; quando açoitar o cavalo baio, até o cavalinho salta, LKŽd., II, 446).

Lituano džala ‘instrumento, chicote’ (LKŽd., II, 723) – de origem onomatopaica; compare-se o lituano džā ‘interj. tchê’, džālyti ‘bater’, džābyti, džābā ‘despeja’, džābas e outros, ou então derivado diretamente do letão dzala.

Lituano džendžiūras ‘instrumento, látego’, džendžiūras (LKŽd., II, 724), džindžiras ‘chicote pequeno com cabo curto e grosso’ – de origem onomatopaica; compare-se džin ‘interj. dzin’, džēn ‘interj. dan, estalo’, džēn, džēmsterėti ‘golpear, dar uma pancada’, džengsėti ‘tilintar’.

Lituano džiolas ‘instrumento para bater desse tipo, chicote, látego’ – também provavelmente de origem onomatopaica; compare-se džiolė ‘interj. dito ao tocar os porcos’, džiolio, džiōbinti ‘golpear, cortar, bater’, džiōboti ‘cortar com golpes fortes’, džioryti ‘açoitar, fustigar’. A palavra polonesa dziób ‘bico’, dziobać ‘bicar’ pode também ter influenciado o surgimento das palavras onomatopaicas desta raiz.

Lituano džiungāras ‘instrumento de açoitar, vergasta’, džiungara, džiumbaras (Não há quem ponha às crianças um bom džiumbāras, LKŽd., II, 742) – de origem onomatopaica; compare-se o lituano džiūmt, džiung ‘interj. pancada’, džiumbāryti ‘bater’, džiungāryti ‘bater, açoitar (com correia)’.

Lituano gairinė ‘vara comprida para tocar o gado’ (LKŽd., III, 33); compare-se o lituano gairė ‘ripa, cavilha, estaca’, bem como gairėti ‘soprar’, pagairė ‘lugar atingido pelo vento’. Assim, o significado original do lituano gairė foi provavelmente ‘cata-vento, veleta’.

Lituano gylýs ‘vara desse tipo para tocar bois ou cavalos teimosos’ (LKŽd., III, 301); compare-se o lituano gylýs ‘ferrão’, gilti ‘picar com ferrão, golpear, escavar’.

44 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 392.

45 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 60.

46 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 54–55.

47 Traços da etnografia lituana, p. 96.

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Liet. gìngiras ‘chicote’ (LKŽd., III, 318) – provavelmente de origem onomatopaica; compare lituano gingla ‘pessoa alta, de pernas compridas; quem anda com as pernas nuas’, ginglinėti ‘andar como um ginglas’, gingāras ‘pessoa ou animal alto, grande’, gingaras.

Liet. gyslinis ‘chicote, azorrague’, compare lituano gysla.

Liet. įnagis ‘açoite, chicote, clava, corda’, įnagė, įnaginis (LKŽd., IV, 103) têm como significado original ‘instrumento, objeto com que algo é feito’. É nesse sentido que a palavra įnagis é também mais amplamente usada em lituano. Relaciona-se com o lituano nãgas, compare nagingas ‘hábil em trabalhos manuais, engenhoso’ (< ‘que tem unhas, com unhas, ungulado’), panagingas, nagnūs48. Quanto à formação, compare também lituano įrankis (: rankà), letão ieruocis (: ruoka).

Do lituano também foi emprestado o letão inagis ‘parasita, piolho, pessoa’ (Gramzda, EH, I, 501). Esse significado da palavra letã provavelmente surgiu do sentido de ‘açoite, chicote’. Quanto à semântica, compare os significados do lituano bizūnas, botāgas, bindza.

Lituano ýpas ‘chicote trançado, açoite’ (LKŽd., IV, 129), ýpsas (LKŽd., IV, 133), cf. lituano ýpas ‘golpe, pancada; cicatriz, mancha (na pele causada por uma pancada)’ <alemão da Prússia Oriental golpe ‘golpe, pancada’49.

Liet. jautāgyšlis ‘chicote (feito de tendões de boi)’ (LKŽd., IV, 322) < é formado de lituano jautis + gysla.

Liet. kanapinis ‘açoite’, kanāpinis (LKŽd., V, 197): lituano kanãpė.

Liet. kiettenius ‘açoite de couro com um pedaço de chumbo ou ferro preso à extremidade’ (LKŽd., V, 755) – registrado na edição de 1642 do dicionário de K. Širvydas:

«Bafayk. Plumbata. ac. flagellum plumbum annexū in extremo habes. Botagas šikßnynis galy šwinu turis kießtenius» (Dic., 8, 102).

A origem deste nome é o polonês kiescien, que, por sua vez, vem das línguas turco-tártaras; compare o tártaro de Kazan kistān ‘clava, porrete, pau para bater manteiga’50.

Liet. kiškóje ‘chicote, instrumento preso à perna de uma lebre’ (LKŽd., V, 887) < é formado de lituano kiškis + koja; compare lituano stirnakojis.

Liet. kliūbinis ‘instrumento de salgueiro ou vara para bater’ (LKŽd., VI, 113), kliūbinis, kliūbinis (LKŽd., VI, 161): lituano kliūbas ‘verga para entrançar; galho ou vara torcida para construir uma cerca ou amarrar algo’. A origem do lituano kliūbas é o polonês51; compare o dialetal polonês kluby ‘vime para enxertar madeira em jangadas’. A palavra polonesa, por sua vez, foi emprestada do alemão52.

Liet. kurklyš ‘chicote, vara de veado, azorrague’ está registrado no acadêmico “Dicionário da língua lituana” a partir de uma única fonte, a saber, a Bíblia de S. B. Chilinskis (1660): „Tėvas mano plakė jus botagais, bet ašen plaksiu jus kurkliais“ (Ch 2 Cr 10, 14, LKŽd., VI, 955). Essa passagem bíblica é traduzida de modo semelhante também em outras traduções lituanas posteriores da Bíblia; nelas, porém, à palavra kurkliais correspondem outros sinônimos lituanos de botagas: dygeis karbočiais (Königsberg, 1816), dygliuotais rimbais (Kaunas, 1921).

A palavra kurklys é usada nos antigos monumentos da língua lituana com outros significados: ‘pombinha, rola; escorpião’ (LKŽd., VI, 955). Na nova

48 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 478; P. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, p. 112, 224.

49 K. Alminauskis, Die Germanismen des Litauischen, p. 57; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 186

50 F. Slawski, Sl. et., II, p. 175–176; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 562.

51 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 273.

52 F. Slawski, Sl. et., II, p. 233–234.

5*

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O significado de ‘chicote, vergasta’ foi atribuído ao lituano kurklys devido à influência do texto bíblico latino. A passagem bíblica latina aparece assim: „…pater meus cecidit vos flagellis, ego vero caedam vos scorpionibus“. No latim eclesiástico, a palavra scorpio é usada com vários significados: „1. Escorpião, inseto venenoso (também como constelação). 2. Máquina de guerra para arremessar flechas. 3. peixe-marinho espinhoso (Apoc. 9, 5). 4. instrumento de tortura: açoite com ganchos (Quat. Coronat. 8. Nov.)“⁵³. Portanto, em vez do quarto significado do latim scorpio, foi na realidade incorporado à tradução bíblica lituana o primeiro significado, e o lituano kurklys adquiriu o novo significado de ‘vergasta, chicote’.

Lituano linkstinis ‘vara flexível; vergasta’ (LKŽd., VII, 546): lituano linkti, lankstus, linkstis ‘vara flexível para pendurar o berço; mola’.

Lituano makãras ‘vergasta, chicote, vara para bater’, mãkaras, mãkaras (LKŽd., VII, 771), makãiras (LKŽd., VII, 767), makõras (LKŽd., VII, 781) — pode ser explicado de duas maneiras. E. Frenkelis associa-o ao lituano mãkaluoti ‘misturar, brandir, agitar’, mãkaruoti e outros parentes lituanos de mõti. Com base apenas nos dados da língua lituana, essa explicação não suscitaria dúvidas. Infelizmente, uma designação semelhante para chicote também se encontra em polonês: makarami kilka wycięli, makarem kolejno weźmiecie (cerca de 1700), gdy go z kolka makarym wychłostał (F. Bohomolecas, 1720–1784)⁵⁴.

A. Briukneris explica que o polonês makar, com esse significado, deriva do nome próprio Makar. Além da já mencionada designação polonesa para chicote, derivada de nome próprio, barbara, A. Briukneris indica que o nome próprio russo Сергей (przydatku dam sergiejem po plecach, apie 1730 m.) também é usado com o significado de chicote.

Portanto, o lituano makãras também pode ter sido emprestado do polonês. Mais tarde, por etimologia popular, essa designação para chicote pode ter sido associada aos verbos mãkaruoti, mãkaruoti, makaruoti etc. Tanto esses verbos quanto a designação para chicote podem estar relacionados ao lituano mãkaras ‘pessoa leviana, tagarela; quem está constantemente em movimento, se remexe e se mete em tudo’, mãkaris.

A circunstância de que o polonês makar ‘chicote’ é usado de maneira muito restrita leva a duvidar do caráter polonês do lituano makãras: essa palavra não aparece de modo algum nos principais dicionários poloneses (de S. B. Linde, J. Karlowicz, J. Karlowicz — A. Krymski — V. Niedzviedzki, V. Doroszewski). Portanto, também é possível o caminho inverso do empréstimo (nesse caso, o polonês makar não deveria ser relacionado ao nome próprio). Naturalmente, é difícil afirmar isso sem conhecer precisamente a distribuição geográfica do polonês makar ‘chicote’. F. Bohomolecas, mencionado por A. Briukneris, estudou e trabalhou por bastante tempo em Vilnius; por isso, essa palavra pode ter entrado em seus escritos também a partir do lituano, por intermédio do polonês local.

O fato de que o lituano makãras possa ser uma palavra autóctone talvez também seja atestado pelo lituano matãras, cujo significado e uso coincidem notavelmente com os do lituano makãras.

Lituano mėtena ‘chicote, vergasta’ (Joniškis), mėtenas (Mažeikiai, Šatės), mėtamasis ‘cinto, vara ou, em geral, aquilo com que se bate’ (Šakyna, Vegeriai) são empréstimos do letão; cf. letão mėtamais ‘vara para bater’, letão mest ‘atirar, bater’⁵⁵.

Lituano myžinis ‘vergasta, chicote’, myžinis (Kairiai, Pociūnėliai), myžeklės ‘instrumento para bater, vara, vergasta, chicote’ (Grūžiai), myžeklinis (Skaudvilė), myžõklis (Gargždai): lituano myžėklis ‘pênis’, myžti ‘urinar’; quanto à semântica, cf. lituano biž-

⁵³ A. Sleumer, Kirchenlateinisches Wörterbuch, Limburg a. d. Lahn, 1926, p. 703.

⁵⁴ A. Brückner, Sl. et., p. 15.

⁵⁵ A. Sabaliauskas, LKK, VIII, p. 104.

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balas, letão metamais ‘um bastão para bater’; letão metamais ‘o órgão genital masculino’, polonês pyta ‘pênis’: polonês pyta ‘chicote curto’ etc.

Lituano pavarõklis ‘chicote’ (Rumšiškės): lituano pavarýti.

Lituano rãpnykas ‘chicote longo com cabo curto, chicote’ (Gizai, Kapsukas, Liudvinavas, Pandėlys, Raseiniai, Veiveriai), rãpningas (Višakio Rūda) é um empréstimo do polonês; cf. polonês harapnik ‘chicote com corda longa’. A forma rãpnikas surgiu no próprio terreno da língua lituana devido ao uso paralelo dos sufixos -inyka- e -ininka-.

Do polonês, o nome desse instrumento de açoite também passou para algumas outras línguas eslavas; cf. russo арапник, ucraniano гарапник, bielorrusso арапнік, tcheco harapnik.

Em polonês, além da forma harapnik, também se usam as formas harap, herap, cujo significado original teria sido o chamado dos caçadores aos cães, incitando-os a ir buscar a presa. O polonês herap (também se registra a forma herab), segundo a opinião de muitos pesquisadores, deriva do alto-alemão herab ‘para baixo’⁵⁶. Contudo, alguns significados da palavra polonesa (‘presa, pilhagem’; cf. polonês już po harapie ‘já acabou tudo, tarde demais’) levam a duvidar dessa explicação; por isso, talvez F. Slawski tenha razão ao afirmar que parte dos significados da palavra polonesa seria facilmente explicável se sua origem fosse considerada o turco harap ‘destruição, devastação, desolação’⁵⁷.

Lituano rìm̃bas ‘chicote, chicote grosso, ponta de corda, cordão de chicote, vara’ (Griškabūdis, Kapsukas, Merkinė, Naumiestis) — palavra de origem lituana, relacionada com lituano rem̃bti ‘ficar preguiçoso’, rémbėti ‘ficar preguiçoso; endurecer, crescer junto’, rùmbas ‘cicatriz (depois de a ferida sarar ou de levar uma pancada)’ e rambùs ‘desajeitado, desastrado’⁵⁸.

Lituano stirmakojis ‘chicote com cabo feito de perna de corça’, stirnakojis (Mažeikiai, Raseiniai, Rokiškis, Šiluva), stirninis (Dusetos, Kupiškis), stirninė (Baisogala), stirninas (Skrebotiškis), stirnõkas (G. H. F. Nesselmann, Wb., 502; F. Kuršaitis escreve stirnõkas, indicando ao mesmo tempo que não ouviu essa palavra na língua falada, Wb., 406) < lituano stirna ‘corça’ + koja ‘perna’. As formas não compostas são provavelmente mais recentes, derivadas da forma composta stirnakojis.

Lituano šmikis ‘chicote’ (Klaipėda, Upyna), cf. lituano šmikis ‘a corda de ponta do chicote’ (Chr. Mielcke, Wb., I, 279; F. Kurschat, Wb., 391; G. H. F. Nesselmann, Wb., 528); ‘ponta do cordão presa ao chicote, torcida de linho’ (Dovilai, Gaurė) — empréstimo do alemão; cf. alemão Schmicke ‘ponta do cordão do chicote’⁵⁹.

O significado de ‘chicote’ de lituano šmikis surgiu já no próprio lituano.

Nos dialetos lituanos, a palavra šmikis é amplamente usada com o significado de ‘p e s s o a i n ú t i l, i n c o m p e t e n t e, i r r e s p o n s á v e l’. No dicionário de E. Frenkel, conjectura-se que o significado possa ter sido influenciado pela palavra polonesa smyk ‘garoto, imprestável’. Contudo, considerando a evolução semântica dos nomes do chicote e dos conceitos relacionados a ele, o significado de ‘imprestável’ poderia ter surgido no lituano sem qualquer influência externa.

Nas variedades do lituano, há muitos nomes de instrumentos de condução e açoite, de diversas origens, que são característicos apenas do letão:

Letão ādainica ‘chicote de couro’, ādenica, ādunica (EM, I, 236; EH, I, 192); cf. letão āda ‘a pele, o couro’, lituano óda.

⁵⁶ A. Brückner, Sl. et., p. 168; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 22.

⁵⁷ F. Slawski, Sl. et., I, p. 402–403.

⁵⁸ K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 111; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 696.

⁵⁹ K. Alminauskis, Die Germanismen des Litauischen, p. 130; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1013.

69

Letão atvītene ‘um cordão de chicote entrançado novamente; um chicote cossaco’ (EH, I, 181), cf. letão atvīt ‘desfazer a trança, separar’.

Letão baīce «um chicote curto e grosso», baīcene (EM, I, 249), na opinião de J. Endzelīns, provavelmente uma adaptação do alemão Peitsche (provavelmente uma alteração de Peitsche, em alemão). Sobre a relação entre b- e p- no início da palavra, cf. letão brusaks «o prussiano», letão bakškis: letão pakš(k)is, letão bęka: letão pęka, letão bires: letão pires, letão blakts, lituano blākė: letão plakts etc.60

O alemão Peitsche, por sua vez, é um empréstimo das línguas eslavas (já se encontra em documentos alemães do século XIV)61.

Letão bembele ‘um chicote, nomeadamente o chicote dos ciganos’ (EM, I, 278), bèmbele ‘um cacete (para bater)’ (EH, I, 212); cf. letão bèmbelis ‘termo depreciativo (referido a pessoas — crianças pequenas, feias e barrigudas —, animais — vitelos e cavalos barrigudos — e árvores deformadas)’, bემბere ‘rapariga de baixa estatura’, bemberis ‘árvore nodosa; bétula torta e mal crescida’; cf. também o lituano bimbìlas.

Letão biktala ‘o chicote cigano’ (EM, I, 295), biktiņš ‘pancada’, nùobiktalât ‘espancar’ podem ser palavras de origem onomatopaica; cf. letão bika, biku ‘interjeição que exprime um empurrão ou uma pancada’, bikât kājas ‘bater com os pés no chão’ (EH, I, 218).

Letão cùcine ‘um chicote para guardar porcos’ (EH, I, 280); cf. letão cūka ‘o porco’.

Letão čūnčurs ‘um chicote demasiado curto’ (EM, I, 421); cf. letão čūnčurs ‘algo emaranhado e desgrenhado, um novelo, um grumo; alguém que costuma vestir-se com muita roupa quente’, čūnčuris ‘alguém a quem o trabalho não corre bem’, čūnčuriski ‘curvado’.

Letão derža ‘um chicote curto, cujo cabo consiste numa pata de cabra ou de lebre Setzen; um chicote grande, um chicote cigano’ (EM, I, 458), segundo J. Endzelīns (com?), significava originalmente um chicote de couro; cf. lituano diržas.

Letão dimbā ‘chicote de boi’ provavelmente deve ser associado ao letão timbā ‘fazer algo lentamente’ (nu timbā, timbā! diz-se para incitar um cavalo preguiçoso e fraco); ‘carregar com dificuldade’, timbā ‘um tecido mais grosso do que o habitual’.

Letão diņķene «chicote de montar feito de vergalho de boi», diņķavniea, diņķenice «vergalho de boi; chicote de montar feito de vergalho de boi» (EH, I, 321), cf. letão diņķis «órgão genital masculino (especialmente de um boi)» < baixo-alemão médio dink «pênis».

Letão dratka «um chicote; a repreensão» (EM, I, 491) provavelmente deve ser relacionado ao letão drāte «o arame» < baixo-alemão médio drāt, cf. letão drātēt «repreender», drātīt «bater, espancar», drātējens «a repreensão=» (EH, I, 331), cf. também lituano dratinis.

Letão dūrtēne ‘um chicote de equitação grosso e afiado; uma surra’ (EM, I, 520): letão dūrt ‘espetar, empurrar’, lituano dūrti.

Letão dzenamais ‘algo com que se conduz, um bastão, um chicote, etc.’ (EM, I, 544): letão dzīt ‘conduzir, perseguir’.

60 J. Endzelīns, Latviešu valodas gramatika, p. 251–252; V. Kiparsky, Scando-slavica, 14, p. 73–97.

61 F. Kluge, Et. Wb., p. 537.

70

Lat. džala ‘?’ (čigānam brenga džala BW. 33554, 6, EH, I, 365) provavelmente < lat. džāndžala.

Lat. džāndžala ‘o chicote dos ciganos’, džandala (EM, I, 563), džandželīte (EH, I, 365), džendžala (EM, I, 563), džendžele (EH, I, 365), džīndžala (EM, I, 564; EH, I, 365), džindžauska (EM, I, 564), džīndža ‘uma vara de salgueiro ou de bétula, ou um chicote’ (EH, I, 365), cf. também džandžalāt ‘bater’, džāndžalēt, džendžalāt, džindželēt, džindžuot, džindžalāt, džindžalēt, džindžināt ‘brandir o chicote’, džindžalnieks ‘um cigano’. Palavras provavelmente de origem onomatopaica; cf. lat. džindž ‘interjeição que representa um som metálico’, džindžēt ‘soar’, džindžulis ‘um sino ruim; um relógio de bolso’; cf. também o lit. džendžioras.

Lat. elvete ‘uma vara de pastor, vara para espancar’ (EM, I, 569), cf. lit. elvytōs ‘vara de bétula de um balanço’, alvytà ‘chicote torcido (salgueiro)’, lat. elvede ‘um jovem abeto da grossura de um braço, cuja ponta fina, transformada em klūga, serve para prender as jangadas à margem’, talvez também o pr. alodde ‘dobradiça=, peça pela qual a porta é pendurada nas dobradiças’ (palavra 541 do glossário de Elbing)62.

Lat. ganeklis ‘a vara do pastor’ (EM, I, 599), ganenīca (EM, I, 600): lat. gans ‘o pastor’, ganīt ‘guardar, apascentar’.

Lat. grīndža ‘um chicote cigano’ (EH, I, 406) pode ter surgido por vezes, por dissimilação, do lat. džindža.

Lat. kaltine ‘o chicote cossaco, grosso e de couro’ (EM, II, 145): lat. kalt ‘forjar; bater; ferrar’.

Lat. kaūka ‘um chicote cigano’ (EM, II, 173): lat. kāukt ‘uivar’; cf. também lat. kaūka ‘o uivo, o vento de tempestade; o gritador, aquele que uiva, uma pessoa chorona’.

Lat. kazāčene ‘o chicote cossaco’ (EM, II, 183): lat. kazāks ‘o cossaco’.

Lat. līcene ‘o chicote’ (EM, II, 476) — J. Endzelīns relaciona-o com o lat. līkt ‘dobrar-se, curvar-se, afundar, quebrar-se’.

Lat. liētēne ‘um chicote curto’ (EM, II, 507) — J. Endzelīns relacionou-o, com reservas, com o lat. liēt ‘verter; golpear, bater’. A relação é muito plausível; cf. lit. liēt kam par galvu; liēt kam ar riksti pa pakauļ (EH, I, 757).

Lat. lūnte ‘o chicote’, lūntaga (EM, II, 514) — empréstimo do alemão63; cf. al. die Lunte ‘mecha, pavio; cauda (na linguagem dos caçadores)’. A forma lūntaga provavelmente surgiu segundo o modelo da forma pātaga.

Lat. luot̄ega ‘um chicote; uma vara, um bastão, uma vara grande’ (EH, I, 768), luōtaga ‘a vara, algo para bater (uma corda, um chicote)’ (EM, II, 528–9, EH, I, 768), lūtaga (?) ‘uma vara flexível e maleável’ (EM, II, 520): lat. luotāt ‘bater’. Talvez também sejam formas peculiarmente “latinizadas” do lat. lūntaga.

Lat. miseklis ‘um chicote cigano’ (EH, I, 818); talvez deva ser relacionado com o lat. mizeklis ‘a uretra’, mizeknis ‘o órgão sexual masculino (de garanhões, touros e carneiros)’, mislis ‘o órgão masculino, especialmente dos cavalos’; cf. lit. myžėklis. Por outro lado, é possível relacionar o lat. miseklis com o lat. mizuot ‘golpear, bater, espancar’, cujo significado principal é ‘tirar a casca, descascar’ (cf. lat. misuot (?) = mizuot). Para a mudança de significado do lat. mizuot, cf. lit.

62 K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 429; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 120–121; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 140.

63 J. Sehwers, Sprachlich - kulturhistorische Untersuchungen, p. 74.

71

lūpti ‘tirar a casca, a cortiça, a concha’→‘bater, dar uma surra’. Contudo, a primeira explicação parece mais plausível.

Letão peizere ‘o chicote’ (EM, III, 193; EH, I, 219), cf. letão pēizēt ‘desperdiçar’, peizāt ‘ridicularizar, causar prejuízo material’, peiza ‘cerveja fraca’, peizeris ‘pessoa leviana, tola’, peizums ‘alguém que faz barulho, que arma algazarra’.

Letão pempe ‘um chicote curto’ (EM, III, 199), cf. letão pempe ‘a cauda curta dos porcos, cauda cortada dos cavalos’, pempele ‘menina pequena e gorda; pessoa de compleição atarracada’ (EH, II, 222), pempis ‘a barriga, pessoa gorda’, pimpis ‘órgão sexual masculino’. Além disso, essas palavras devem ser relacionadas ao letão pempt, pampt e ao lituano pañpti.

Letão pička ‘um chicote; uma vara flexível’, pička (EM, III, 230) — é uma palavra encontrada em textos antigos da língua letã (nos escritos de G. Mancelis, G. Elger e J. Langijs) e também com bastante frequência nos dialetos. Sua origem é o baixo-alemão pietske ‘chicote’⁶⁴. Do baixo-alemão pietske também deriva o estoniano piitsk.

Letão pikene ‘instrumento para bater; chicote curto (alcatroado)’ (EM, III, 214); este último significado indicaria que pikene originalmente significava um chicote untado com piche (‘pichado’; letão pikis, lituano pikis, estoniano pikk < e baixo-alemão médio pik); cf. também letão pjikenēt ‘bater com o chicote’.

Letão pipa ‘o chicote’ (EM, III, 221), pipka ‘o chicote; um pano torcido para bater’ (EM, III, 222) provavelmente se relacionam com o letão pipis ‘o canto, a ponta de um saco de cereais; o órgão sexual masculino’, pipiņš ‘designação diminutiva do órgão sexual masculino’, pipaste ‘vaca de cauda curta’; cf. também o letão pipāt ‘chicotear’ e o letão pipka ‘beberrão, bêbado’.

Letão pleņica ‘chicote achatado de couro’, pleņica, pleņice (EM, III, 336), plemiča ‘instrumento de castigo da época da escravidão’ (EH, II, 291) < russo плетеница ‘trança’: russo плести (В. Даль, Сл., III, 123).

Letão riņguotne ‘uma espécie de chicote de cabo curto’ (EM, III, 528), cf. letão riņgalts ‘cinta da sela, cilha’, ringuts < baixo-alemão Ringgurt⁶⁵.

Letão sipsna ‘uma vara forte, também — uma correia para açoitar (= siksna)’ (EM, III, 842). K. Būga relacionava-a ao lituano šipulys, šipti⁶⁶; J. Endzelīns inclinava-se a relacioná-la ao sânscrito śiphā ‘raiz fina, vara’ ou śepáḥ ‘pênis’. Parece-nos que, considerando ‘uma correia para açoitar’ como significado da palavra sipsna, seria possível explicá-la como derivada de siksna (= lituano šìkšna).

Letão sislis ‘um bastão, em geral, um instrumento para bater’ (EM, III, 849): letão sist ‘bater’.

Letão sitamais ‘algo para bater, um porrete’ (EM, III, 849, 850): letão sist ‘bater’.

Letão skabene ‘aquilo que serve para bater = sitamais’ (EM, III, 863). J. Endzelīns tende a relacioná-la ao letão skabīt ‘cortar os ramos, podar’, cf. letão atskabene ‘um batedor de sauna gasto’ (EM, I, 191).

Letão strūpene ‘uma vara de pastor’, strūpene (EM, III, 1098). J. Endzelīns tende a relacioná-la ao letão strupjs ‘curto e truncado, de amarras curtas’.

⁶⁴ J. Sehwers, Investigações linguístico-culturais e históricas, p. 89.

⁶⁵ Ibidem, p. 101.

⁶⁶ K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 600, II, p. 316, 618.

72

Letão škęste ‘uma vara (comprida); uma vara de pastor (com ramos delgados); uma vara para telhado de palha’ (EM, IV, 29) é associado ao lituano sketerà ‘dorso do animal, corcova; pelos da corcova’, russo щетина ‘cerdas’⁶⁷.

Letão škina ‘uma vara, uma vara de pastor, uma haste fina e comprida, uma vara de pesca, uma vara para telhado de palha’, škinaga ‘uma vara de pastor, uma vara comprida para fazer feixes ou entrançar cestos, uma vara de pesca’ (EM, IV, 41; EH, II, 636), J. Endzelynas tende a associar ao letão škīt ‘desgalhar, despojar, colher’.

Letão šmīkšenica ‘uma vara ou chicote’ (EH, II, 649): letão šmīkstēt ‘estalar, bater, estalar a língua, assobiar’ (cf. braucuot pātaga pa gaisu (gar ausīm) vien šmīks-tēja), šmīkšēt.

Letão švaka ‘uma vara, um bastão flexível para bater’ (EM, IV, 113) – provavelmente de origem onomatopaica; cf. letão ledus saka: brika braka; zuobeniņi švika švaka (BW. 31971 var., EM, IV, 113).

Letão vebikis ‘chicote’ (EM, IV, 514), cf. letão vebe ‘uma fita da largura de um dedo, tecida com cordões’.

Letão vembele ‘uma vara; uma vara grossa; uma vara curta e grossa para bater; uma vara de pastor’, vembelis (EM, IV, 536), vembele ‘um cacete mais curto’ (EH, II, 770) – provavelmente um empréstimo das línguas fino-bálticas; cf. estónio vemmal (gen. vemble) ‘porrete, cacete’, finlandês vempele⁶⁸.

Letão zeliga ‘uma maça; chicote com uma maça de ferro’ (EM, IV, 704) provavelmente deve ser associado ao letão zelēt ‘mastigar, espancar’.

Letão zipsna (também escrito com -b-) ‘uma vara forte; a correia, um cinto de couro=siksna’ (EM, IV, 725), cf. também letão zipât ‘bater’, zipene ‘uma vara’, zipsnât ‘bater’. Talvez o letão zipsna devesse ser derivado do letão sipsna, e este último associado ao letão siksna.

Letão žebenica ‘uma vara comprida de pastor’ (EM, IV, 799), cf. letão žebeklis ‘um pedaço de madeira com ramos, um bastão com ramos’, žābeklis ‘o graveto ou os espinhos com que se cerca a boca de um animal jovem para que não possa mamar’, que devem ser relacionados, por sua vez, ao lituano žābas, žābōti⁶⁹.

Encontramos também um nome de instrumento de açoite nos documentos da língua prussiana: é a palavra 315 do vocabulário de Elbing – Brusgis Geysel. Essa palavra aparece depois dos nomes de corda e provavelmente significa ‘chicote’. A origem do prussiano brusgis é bastante obscura; provavelmente, como sugerem R. Trautmann⁷⁰ e J. Endzelynas⁷¹, deve ser associado ao lituano brūzgai ‘arbustos densos e esparsos’, brūžgas ‘galho, vara, ramo’, bruzgōtas ‘pau, ramo’, brūzgulys ‘pau; laço com uma peça de madeira para apertar o focinho de um porco; pau para amarrar feixes de palha’, etc. Portanto, o significado original do prussiano brusgis seria ‘bastão’; quanto à semântica, cf. alemão die Geissel ‘chicote’: nórdico antigo geisli ‘bastão’⁷².

⁶⁷ K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 599, II, 315, 617; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 803–804; M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 450–451.

⁶⁸ V. Thomsen, Beröringer mellem de finske og de baltiske (litauisk-lettiske) Sprog, p. 286.

⁶⁹ E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1282–1283.

⁷⁰ R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 314.

⁷¹ J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 154.

⁷² F. Kluge, Et. Wb., p. 242.

73

Como vemos, nas línguas bálticas (lituano e letão) há muitos nomes, de uso mais restrito ou mais amplo, para instrumentos de conduzir ou açoitar animais. Grande parte desses nomes entrou nas línguas bálticas a partir das línguas eslavas (lit. botagas, let. pātaga, lit. bižūnas, let. bižūne, lit. kančiūkas, let. kančūka, lit. knūtas, let. knute, lit. nagaika, let. naika, lit. pastarānka, let. pastrunkis, lit. pitka, let. pitka, lit. pletnìa, let. pletne, lit. barborā, lit. kiestenius, lit. rāpn ykas, let. plenica). Um ou outro eslavismo desse tipo também pode ter entrado no letão por meio do lituano. Entre os nomes de instrumentos de açoitar em letão encontramos também empréstimos do alemão (let. baice, lunte, pīcka, ringuotne). Em lituano, eles quase não ocorrem (lit. šmikis).

Nas línguas bálticas há muitos nomes de instrumentos de açoitar de origem onomatopaica (lit. bimbilas, lit. bindza, lit. bričius, lit. džendžioras, lit. džiungāras, let. biktala, let. dañdala, let. džandžala, let. šmikšenica, let. švaka). Há uma estreita relação semântica entre os nomes dos instrumentos de açoitar e os de membrum virile. Alguns nomes de instrumentos de açoitar são usados com o sentido de «pessoa imprestável, leviana, vagabunda».

ABREVIATURAS

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II

air. – irlandês

av. – avéstico

afgan. – afegão

baltr. – bielorrusso

alb. – albanês

bulg. – búlgaro

angl. – inglês

chorv. – croata

arm. – armênio

ček. – tcheco

aukšt. – dialeto aukštaitiano

dial. – dialetal

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est. — estoniano germ. — germânico got. — gótico gr. — grego het. — hitita ide. — indo-europeu isl. — islandês isp. — espanhol karel. — careliano kaš. — cassúbio lat. — letão lenk. — polonês liet. — lituano lyv. — livônio lot. — latim lūž. — luso n. — novo pers. — persa pr. — prussiano

pranc. — francês rus. — russo sen. — antigo serb. — sérvio serb.-chorv. — sérvio-croata skand. — escandinavo skr. — sânscrito slav. — eslavo slov. — esloveno slovk. — eslovaco suom. — finlandês tarm. — dialetal tot. — tártaro ukr. — ucraniano veps. — vepsiano vid. — médio vok. — alemão žem. — samogiciano

DA HISTÓRIA DA TERMINOLOGIA DA PECUÁRIA NAS LÍNGUAS BÁLTICAS

А. САБАЛЯУСКАС

Resumo

Nomes de rebanhos. Nas línguas bálticas, especialmente no lituano, há muitos nomes para rebanho: em lituano — bandā, kaimenė, guotas, kėltuva, pėkus, gyvuliai, gyvis, goniava, gonā, gardas, stōdas, armuo, gaibjė, pūlkas, tabūnas; em letão — luopi, bars, ganeklis, pulis, entre outros. Na maioria dos casos, são palavras antigas de origem báltica.

Um interesse especial apresenta o lituano bandā, que nos dialetos da língua lituana e nos textos escritos é usado com os seguintes significados: ‘rebanho’, ‘cereais (também linho) semeados para si pelo trabalhador agrícola, pelo filho ou pelo irmão mais novo do camponês’, ‘terra onde foi semeada a bandā’, ‘complemento salarial em espécie do trabalhador agrícola’, ‘salário em espécie do trabalhador agrícola’, ‘benefício, bens, patrimônio, propriedade, dinheiro’, ‘pão’. Originalmente, o lituano bandā provavelmente significava ‘animal’, e outros significados mais recentes foram se desenvolvendo gradualmente a partir desse. O lituano bandā está atestado em documentos escritos em outras línguas antes mesmo do surgimento dos textos escritos em lituano. Com diferentes significados, essa palavra passou ao letão e também às línguas eslavas. Nas línguas eslavas, ela aparece também com significados desconhecidos no lituano; assim, por exemplo, nos dialetos do bielorrusso e do ucraniano, a palavra бонда é usada com o significado de ‘vaca destinada a integrar o dote da noiva’. Alguns topônimos e antropônimos do antigo prussiano parecem indicar que também nessa língua existiu outrora uma palavra correspondente ao lituano bandā. Muitos pesquisadores relacionam o lituano bandā ao indo-europeu *bhendh- ‘atar’. Mas o aspecto semântico dessa etimologia suscita algumas dúvidas.

O lituano kaimenė ‘rebanho’ deve ser relacionado ao lituano káimas ‘aldeia, povoado’. É interessante observar que até mesmo a distribuição geográfica dessas palavras coincide, em linhas gerais.

De origem muito obscura é o lituano guotas ‘rebanho’. Tanto sua relação com o lituano gan- jā ‘bando, grupo, matilha’, góvėda ‘ralé, multidão’, quanto com o indo-europeu *guou- ‘gado; animais domésticos’ é muito hipotética.

Lituano rebanho ‘gado; rebanho’ é usado nos dialetos orientais da língua lituana também com o sentido de ‘manada’. Assim, era usado também na escrita antiga. Lituano rebanho: lituano erguer ‘levantar’.

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O lituano rėkus significava originalmente também ‘gado; rebanho’, mas, na escrita antiga e, por vezes, também nos dialetos, esta palavra é usada no sentido de ‘manada’.

É particularmente interessante o facto de o lituano gyvuliai ‘gado, rebanho’ formar uma área bastante compacta com o bielorrusso жывіла e o polaco zwierzęta. Não se pode excluir a possibilidade de que o bielorrusso жывіла tenha surgido com esse sentido sob a influência do lituano gyvuliai. Na escrita antiga, bem como nos enclaves lituanos em território bielorrusso, usa-se a palavra gyvis no sentido de ‘manada’. Ambas estas denominações de rebanho são indissociáveis do indo-europeu *gʷi- (lituano gy-, eslavo ži-).

Lituano gōniava ‘rebanho’, gonà: lituano ginti ‘impelir’.

O lituano gardas é usado no sentido de ‘rebanho’ apenas na escrita antiga. O significado original desta palavra é ‘cerca, lugar cercado; curral’. Do significado ‘curral’ surgiu também o sentido de ‘rebanho’.

Lituano stodas, tabūnas, pulkas (letão pulks) são empréstimos das línguas eslavas.

O lituano artimo ‘rebanho’ está registado apenas na tradução da Bíblia feita por A. Baranauskas, onde surgiu sob a influência do latim armentum ‘gado bovino; rebanho, manada’.

O lituano gaibje foi registado pela primeira vez num dicionário manuscrito do século XVII. Daí passou para o dicionário manuscrito de J. Brodowski e, deste, para o dicionário de F. Nesselmann. No entanto, a estrutura desta palavra indica que ela não constitui um dado autêntico da língua lituana.

Letão lūpri ‘rebanho’: letão lūprs ‘gado, animal’ (cf. albanês lopē ‘vaca’).

Letão bars ‘rebanho, manada, matilha’: letão bērt ‘derramar’, lituano berti, lituano bāras ‘parcela, faixa’.

Letão ganeklis ‘rebanho’: letão ganīt ‘apascentar’, lituano ganyti.

O letão pulis adquiriu o sentido de ‘rebanho’ a partir do significado ‘monte, multidão, turba’. De modo geral, nas denominações bálticas de rebanho, é bastante frequente a evolução semântica: ‘multidão, turba’→‘rebanho’, ‘animal; gado’→‘rebanho’.

Denominações de pastores. Em lituano conservou-se uma antiga denominação indo-europeia de pastor — piėtuō (: grego antigo ποιμήν, etc.). Esta denominação de pastor era provavelmente usada também em prussiano antigo e em letão. A denominação báltica de pastor difundiu-se pelas línguas fino-bálticas; cf. finlandês paimen ‘pastor’, etc.

Em lituano e letão usam-se denominações de pastor derivadas do lituano ganyti ‘apascentar’ e do letão ganīt. Em seguida, estas palavras devem ser relacionadas com o lituano ginti ‘impelir’, o letão dzīt, o russo гнать e outros.

Em lituano encontramos toda uma série de denominações derivadas das correspondentes denominações de animais domésticos; cf. arklininkas ‘pastor de cavalos’: lituano arklys ‘cavalo’, avinininkas ‘pastor de ovelhas’: lituano avis ‘ovelha’, jautininkas ‘pastor de bois’: lituano jautis ‘boi’, karvišius ‘pastor de vacas’, kārvinininkas: lituano kārvė ‘vaca’, etc.

Lituano avčiorius ‘pastor de ovelhas’ < polaco owczarz.

Letão šēperis ‘pastor de ovelhas’ < alemão Schäfer.

Em lituano encontramos vários nomes para o pastor-chefe. Os nomes mais frequentes são kerėdžius e skerdžius (com um s adicional; cf. lituano kregždė ‘andorinha’; skregždė, keterà ‘crista do pescoço’: sketerà, etc.). Este nome do pastor-chefe tem uma etimologia segura: é relacionado ao indo-europeu *kerdh- ‘vez, fila; rebanho’. Em prussiano antigo conservou-se uma palavra desta raiz, kērdan (acusativo singular), ‘tempo’. Na Antiguidade, esta palavra, com o sentido de ‘fila, camada’, parece ter sido usada em todas as línguas bálticas. Disso é testemunho o finlandês kerta ‘camada, estrato; vez, uma vez’, empréstimo das línguas bálticas. O lituano kerėdžius, skerdžius ocorre com bastante frequência em documentos russos, bielorrussos e poloneses relativos à Lituânia.

Muito próximo, em termos semânticos, do lituano kerėdžius, skerdžius é também o lituano dienìnis ‘pastor-chefe’ (: lituano dienà ‘dia’). Este nome é usado apenas numa pequena área dos dialetos lituanos orientais.

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Lituano viršininkas ‘pastor-chefe’: lituano viršus ‘alto’. No final do século XIX, o linguista lituano J. Jablonskis (1860–1930) introduziu esta palavra na língua literária, atribuindo-lhe um novo significado: ‘chefe’.

Lituano bandìlis ‘pastor-chefe’, bandìžius, bandìnis: lituano banda ‘rebanho’.

Na literatura linguística, desde a época de A. Bezzenberger, encontra-se o lituano tvarklas com o significado de pastor. Esta palavra, com esse significado, também aparece no dicionário etimológico da língua lituana de E. Fraenkel. A. Bezzenberger tomou a palavra tvarklas de um manuscrito da tradução da Bíblia de Bretkūnas. No entanto, como conseguimos apurar, tvarklas entrou por engano na literatura linguística com o significado de ‘pastor’. Como mostra a edição alemã da Bíblia de 1549, a frase „und wie ein Herd on hirten“ foi interpretada incorretamente. Nessa frase, a palavra hirten corresponde ao alemão Hürde. Portanto, também o tvarklas de Bretkūnas é usado nesta frase não com o significado de ‘pastor’, mas de ‘curral’.

Lituano pastýrius ‘pastor-chefe’, pulkavnykas e, muito provavelmente, também ustòvas são empréstimos das línguas eslavas.

Em lituano encontramos também vários nomes para os ajudantes especiais do pastor-chefe — paganìkas, pàganas: lituano ganýti ‘pastorear’; pavarininkas, pavarinis: lituano varyti ‘tanger’; pirmininkas: lituano pìrmas ‘primeiro’; šalininkas: lituano šalis ‘país’.

Nomes para o pão. Nas línguas bálticas encontramos numerosos nomes para pão, de diferentes origens.

Em lituano, a denominação mais difundida é tvártas. O significado original desta palavra é ‘lugar cercado’. Com esse significado, a palavra ocorre em textos lituanos antigos e também em dicionários da língua lituana da antiga Prússia Oriental. Lituano tvártas ‘estábulo’: lituano tvérti ‘cercar’. Ao lituano tvártas deve-se provavelmente relacionar também o prussiano antigo coaris (toaris).

O lituano gùrbas é usado com o significado de ‘pão’ em parte dos dialetos orientais da língua lituana. Esse significado do lituano gùrbas já está registrado no dicionário de K. Širvydas (edição de 1629). Em geral, essa palavra tem muitos significados nos dialetos lituanos: ‘cesto, cesta de vime’, ‘parte superior da carroça, feita de vime’, ‘cocho (para o gado)’, ‘gaiola para aves domésticas’, ‘ninho’, ‘canil’, ‘compartimento separado do estábulo (para ovelhas, leitões)’, ‘pátio do gado; curral’, ‘gaiola para animais’, ‘tipo especial de colmeia coberta de palha’, etc. A origem do lituano gùrbas ainda não foi esclarecida definitivamente. Parece-nos que, para determinar a origem desta palavra, é preciso distinguir seus significados. O lituano gùrbas ‘pão’, usado na Lituânia Oriental, é uma palavra báltica autóctone; já gùrbas ‘cesto, cesta de vime’, usado sobretudo na Lituânia Ocidental, assim como outros significados estreitamente relacionados a gùrbas ‘cesto, cesta de vime’, entraram na língua lituana vindos do alemão. O letão gùrba, gùrbs não é usado com o significado de pão. Não se exclui a possibilidade de que esta palavra tenha entrado no letão a partir do lituano.

O lituano kùtė ‘estábulo’ é usado na parte setentrional da Lituânia. A forma kùts é amplamente usada em letão. A questão da origem desta palavra é muito complexa. Provavelmente, J. Endzelīns tinha razão ao supor que o lituano kùtė pode ser um empréstimo do letão. A distribuição geográfica da palavra lituana também aponta para essa possibilidade. A forma mais antiga do letão kùts pode ter sido *kunt; nesse caso, esta denominação de estábulo poderia provavelmente ser relacionada ao russo кут ‘canto, recanto; extremidade ou fim de um beco sem saída; canto da casa camponesa, canto junto à porta’, ao ucraniano кут ‘canto, pocilga’, etc.

O lituano stalùdas, o letão stallis e o prussiano antigo staldìs são empréstimos do alemão (cf. baixo-alemão stall). E. Fraenkel relacionava a esses nomes de estábulo também a forma samogícia lituana stalnė, stalnėlė. Parece-nos, porém, que o lituano stalnė, stalnėlė deve ser relacionado não ao lituano staldas, mas ao lituano stainė ‘estábulo’, stainėlė (quanto à fonética, cf. lituano kùinas ‘égua velha’: lituano kùlnas ‘égua velha’). Nossa hipótese é especialmente corroborada pelos textos de canções folclóricas lituanas, nos quais o uso das formas stalnė e stainė coincide quase absolutamente.

O lituano pìlė ‘estábulo’ é usado numa pequena área da Lituânia Oriental. A palavra já ocorre com esse significado no dicionário de K. Širvydas (edição de 1642). O lituano pìlė também é usado com os significados de ‘toca, caverna; tenda, cabana, casinhola’. Em lituano

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Nos inventários redigidos em russo, polonês e bielorrusso, o lituano pūnia é usado mais frequentemente com o significado de ‘construção para cereais colhidos, feno e palha’. O letão pūne, pūnis também é usado com significados semelhantes. O letão pūnis já aparece no dicionário de G. Mancelius (1638). A origem desta palavra é muito incerta. Alguns pesquisadores consideram que ela foi tomada pelos bálticos das línguas eslavas; outros, pelo contrário, defendem que entrou nas línguas eslavas a partir das línguas bálticas. Parece-nos que esta última opinião é mais plausível.

O lituano pãtas é usado com o significado de ‘estábulo’ numa pequena área da parte central da Lituânia. Com esse significado, a palavra pãmas também aparece no dicionário de K. Širvydas (edição de 1642). Ela é usada com significado semelhante também em inventários lituanos redigidos em polonês, bielorrusso e latim. O letão pams não é usado com o significado de ‘estábulo’, embora alguns de seus significados sejam muito próximos desse sentido. O significado original da palavra letã pams era ‘construção que continha uma instalação para aquecer e cozinhar’. Atualmente, tanto o lituano pãmas como o letão pams são usados sobretudo com o significado de ‘casa’.

O letão laidars é usado com o significado de ‘estábulo’ na parte ocidental da Letônia. O significado original do letão laidars e do lituano laidaras era ‘cercado’. Desse significado surgiu o sentido de ‘estábulo’. Lituano laidaras, letão laidars: lituano leisti ‘deixar entrar, soltar’ e letão laist.

O lituano dāngtis é usado com o significado de ‘estábulo’ apenas numa pequena área da parte central da Lituânia. A palavra aparece com esse significado também em alguns documentos antigos. O significado principal do lituano dāngtis é ‘tampa, cobertura; telhado’. Do último significado surgiu o sentido de ‘estábulo’. Lituano dāngtis: lituano dengti ‘cobrir, revestir, tapar’.

O lituano kūginys é usado com o significado de ‘estábulo’ apenas num pequeno grupo de dialetos orientais. A palavra aparece com esse significado já nas obras de M. Daukša. Lituano kūginys ‘estábulo’: lituano kūgis ‘meda de feno; pilha’, quanto à semântica, compare-se o letão gubenis ‘celeiro de feno, paiol’: letão guba ‘meda; monte’, lituano gubà ‘meda’.

O lituano abarės é usado com o significado de ‘estábulo’ numa área muito pequena da parte central da Lituânia. Esta palavra foi tomada do polonês; compare-se o polonês obora.

O letão klēvs ‘estábulo’ é usado na parte oriental da Letônia. A palavra já ocorre nos antigos textos letões. Ela entrou no letão a partir das línguas eslavas; compare-se o russo хлев, o bielorrusso хлеў e o polonês chlew.

Nas línguas bálticas encontramos muitos nomes de estábulos destinados a espécies específicas de animais.

Lituano arklidė ‘estábulo’, arklinis, arkline, arklininkas, arkliņykas, arkliņykė: lituano arklys ‘cavalo’.

Lituano stainia ‘estábulo’, stajnė, stainis, staininė < polonês stajnia; lituano stonià < polonês stania.

Lituano strājė ‘estábulo’ < alemão Streu ‘cama de palha, palha’.

O lituano kaniūšnia, kaniūškė, kaniūškė foi tomado das línguas eslavas; compare-se o bielorrusso канюшня e outros.

Lituano kiaulidė ‘chiqueiro’, kiaulininkas, kiaulinykas, kiaulinis, kiaulinys, kiaulinė, kiaulinčius, kiaulinyčia: lituano kiaulė ‘porco’.

Lituano migìs ‘chiqueiro’, migėlis; compare-se o lituano migìs ‘covil’: lituano miegoti ‘dormir’.

Lituano svinárnykas < bielorrusso сві́нарнік.

Antigo prussiano seweynis ‘chiqueiro’; antigo prussiano swintian ‘porco’, letão sivens.

Lituano avidė ‘aprisco de ovelhas’, avininkas, avinynkas, avinykė, avinė, avikinė, avikinis, avikė, avinyčia: lituano avis ‘ovelha’.

Lituano karvidė ‘estábulo de vacas’, karvininkas, karvinykas, karvininkė, karvinis, karvinys: lituano kárvė ‘vaca’.

Nomes de instrumentos usados para incitar os animais. Nas línguas bálticas encontramos muitos nomes para chicote, látego e nagaica. Muitos nomes desses instru-

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mentos entraram nas línguas bálticas vindos das línguas eslavas vizinhas. Apresentamos os nomes mais característicos.

Lituano botāgas ‘chicote’, letão pātaga, pārtaga < bielorrusso батог, cf. também russo antigo batogъ.

Lituano bizi̇̀nas ‘látego, nagaica’, letão bizūne < polonês bizun ou bielorrusso бізун.

Letão dāidala ‘chicote cigano’, dandara — provavelmente de origem onomatopaica. Essa palavra passou do letão para o lituano; cf. lituano daīd aras ‘chicote com nós’.

Lituano kančiukas ‘látego, nagaica’, letão kančuka < bielorrusso канчук ou polonês kańczuk.

Lituano karbāčius, letão karbāča podem ter sido emprestados tanto do alemão como das línguas eslavas; cf. alemão Karbatsch, polonês korbacz.

Lituano knūtas, letão knute < russo кнут ou polonês knut.

Lituano matāras ‘chicote, corda, vara, vergasta’; lituano mėsti ‘atirar, lançar, tecer’. Letão matars provavelmente foi emprestado do russo.

Lituano nagāika, nāika foi emprestado das línguas eslavas; cf. russo нагайка, bielorrusso нагаіка. Letão paika, paikas pode ter sido emprestado tanto do lituano como das línguas eslavas.

Lituano pastarānka ‘chicote grosso, torcido com várias cordas’, pastrānka < russo посторонка, polonês postronek. Letão pastrunkis provavelmente foi emprestado dos dialetos orientais do lituano.

Lituano pitkā ‘chicote curto, nagaica’, letão pitka < polonês pytka.

Lituano pletniā ‘látego’, letão pletne < polonês plełnia.

Lituano vytinis ‘chicote trançado’, letão vitine: lituano vyti ‘torcer, entrelaçar’, letão vit. Não se pode excluir a possibilidade de que essa palavra tenha chegado ao letão a partir do lituano.

Lituano ákstinas ‘vara pontiaguda usada para instigar os animais’: lituano ákstinas ‘espinho’, akstis. Em seu desenvolvimento semântico, essa palavra lituana lembra muito o latim stimulus; cf. latim stimulus ‘vara pontiaguda com que se tangiam os animais’: latim stimulus ‘estímulo, incentivo, encorajamento’, lituano ákstinas ‘vara pontiaguda’: lituano ákstinas ‘incentivo, estímulo, impulso’.

Lituano barbora ‘vara desse tipo, chicote de correia, corda para amarrar jangadas’ ≤ polonês barbara.

Lituano bimbilas ‘chicote’, bimbiras: lituano bimti ‘zumbir’.

Lituano bindza, bendže ‘chicote’ — de origem onomatopaica.

Lituano bričius ‘chicote, açoite’ — de origem onomatopaica.

Lituano džāla ‘açoite, chicote’ — de origem onomatopaica ou emprestado do letão.

Lituano džīolas ‘açoite, chicote’ — de origem onomatopaica.

Lituano glỹs ‘vara pontiaguda usada para instigar os animais’: lituano gylys ‘ferrão’, gilt ‘ferroar’.

Lituano gīngīras ‘açoite’ — muito provavelmente de origem onomatopaica.

Lituano įnagis ‘chicote, açoite’: lituano įnagis ‘instrumento, ferramenta’, nāgas ‘unha; garra’, nagingas ‘hábil, habilidoso’.

Lituano ūpas ‘chicote trançado, açoite’: lituano ūpas ‘golpe’ < alemão Hieb.

Lituano kiestienius ‘chicote de correia com uma peça de chumbo ou ferro na ponta’ < polonês kiescień.

Lituano kurklys ‘açoite’ está registrado apenas na tradução da Bíblia de S. B. Chilinski (1660). Na antiga escrita lituana, kurklys significa ‘escorpião’. Como mostra o texto latino da Bíblia, Chilinski traduziu o latim scorpio por kurklys; porém, scorpio em latim significa não apenas ‘escorpião’, mas também ‘chicote especial’, de modo que, por erro de Chilinski, lituano kurklys adquiriu um novo significado.

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Lituano makāras ‘chicote, vara’ — ou é uma palavra lituana autóctone (: makaruoti ‘agitar, brandir’), ou foi tomada de empréstimo do polonês.

Lituano mētena ‘chicote, látego’ — tomado de empréstimo do letão.

Lituano myžinis ‘chicote’, myžeklis: lituano myžeklis ‘pênis’, myžti ‘urinar’.

Lituano rāpnykas ‘chicote, chicote árabe’ < polonês harapnik.

Lituano rīm̄bas ‘chicote’: lituano rēmbėti ‘endurecer; cicatrizar; tornar-se preguiçoso’, rambus ‘preguiçoso’.

Lituano stīrnakojis ‘chicote, látego’ < stirna ‘corça’ + kōja ‘perna’.

Letão dadainīca ‘chicote de couro’: letão dada ‘pele, couro’.

Letão baice ‘chicote curto’ > alemão Peitsche.

Letão bembele ‘chicote’: letão bēmbelis ‘termo pejorativo (para pessoas ou animais barrigudos)’.

Letão biktala ‘chicote cigano’ — de origem onomatopaica.

Letão diņķene ‘chicote’: letão diņķis ‘pênis (na maioria das vezes, de touro)’ < alemão dink ‘pênis’.

Letão dūrtēne ‘chicote, açoite’: letão durt ‘furar’.

Letão dzārdžala ‘chicote cigano’ — provavelmente de origem onomatopaica.

Letão kaltine ‘chicote’: letão kalt ‘forjar; golpear’.

Letão kazācene ‘chicote cossaco’: letão kazāks ‘cossaco’.

Letão liētene ‘chicote curto’: letão liēt ‘derramar; bater’.

Letão lunte ‘chicote’ < alemão Lunte.

Letão pempe ‘chicote curto’: letão pempe ‘cauda curta’.

Letão piska ‘chicote’ < alemão pietsке ‘Peitsche’.

Letão piķene ‘chicote’: letão piķis ‘alcatrão, piche’ < alemão pik.

Letão plenīca ‘chicote de couro’ < russo пленица.

Prussiano antigo brūzgās ‘chicote’ — muito provavelmente deve ser relacionado ao lituano brūzgas ‘galho seco, vara’.

Como vemos, nas línguas bálticas há um número considerável de denominações para chicote de origem onomatopaica. Existe uma relação semântica bastante estreita entre as denominações para chicote (azorrague) e as denominações de membrum virile. Uma parte considerável das denominações para chicote (azorrague) também é usada no sentido de ‘patife, preguiçoso, vagabundo’.

Esta parte da terminologia da criação de animais aponta para relações bastante estreitas entre as línguas bálticas e as eslavas.

6. Iš lietuvių leksikologijos ir leksikografijos

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