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doi.org/10.35321/term27-02
Dicionário temático finlandês-russo para intérpretes da área da saúde: princípios e desafios da compilação
IGOR KUDASHEV
Universidade de Tampere, Faculdade de Ciências da Informação e da Comunicação
OLGA SEMENOVA
Universidade de Tampere, Faculdade de Ciências da Informação e da Comunicação
RESUMO
A crescente internacionalização levou a uma necessidade cada vez maior de interpretação comunitária em todo o mundo. A área da saúde é um dos domínios mais desafiadores para os intérpretes comunitários, pois os mal-entendidos, especialmente os causados pelo uso de terminologia incorreta, podem, no pior dos casos, custar vidas. Neste artigo, descrevemos o processo de compilação do Finnish–Russian Thematic Dictionary for Healthcare Interpreters. Começamos por descrever os fundamentos teóricos do planejamento de dicionários e analisar as necessidades de informação dos grupos-alvo. Em seguida, justificamos a seleção das fontes do dicionário, descrevemos sua megaestrutura, macroestrutura e microestrutura e relatamos brevemente os detalhes da implementação técnica do projeto. Por fim, refletimos sobre alguns desafios encontrados neste projeto, bem como sobre suas perspectivas futuras.
PALAVRAS-CHAVE: dicionário médico, glossário médico, comunicação médico-paciente, interpretação comunitária, interpretação na área da saúde
RESUMO
A crescente internacionalização resulta numa necessidade cada vez maior de interpretação comunitária (ingl. community interpreting) em todo o mundo. A prestação de cuidados de saúde é uma das áreas mais desafiadoras para os intérpretes comunitários, uma vez que os mal-entendidos, sobretudo os causados pelo uso incorreto da terminologia, podem, no pior dos casos, custar vidas. Neste artigo, descrevemos o processo de compilação do Dicionário Temático Finlandês-Russo para Intérpretes da Área da Saúde. Começamos por descrever os fundamentos teóricos do planeamento de dicionários e analisar as necessidades de informação dos grupos-alvo. Em seguida, justificamos a seleção das fontes do dicionário, descrevemos a sua megaestrutura, macroestrutura e microestrutura e apresentamos brevemente os pormenores da implementação técnica do projeto.
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Por fim, refletimos sobre alguns dos desafios encontrados no projeto, bem como sobre as suas perspetivas futuras.
PALAVRAS-CHAVE: dicionário médico, glossário médico, comunicação entre médico e paciente, interpretação comunitária, interpretação na área da saúde
1. INTRODUÇÃO
A crescente internacionalização tem resultado numa necessidade constantemente crescente de interpretação comunitária em todo o mundo (cf. de Pedro Ricoy 2009: 1). Na Finlândia, tal como em muitos outros países europeus, os representantes de minorias linguísticas têm, em muitos casos (conforme determinado pela legislação nacional e por instruções específicas das organizações), o direito de comunicar com as autoridades e os prestadores de serviços públicos na sua língua materna, o que, na prática, significa que é convocado um intérprete comunitário para a reunião.
A qualidade da interpretação comunitária tornou-se recentemente um tema de grande destaque nos estudos da interpretação (por exemplo, Hale 2007; Valero-Garcés 2008; Flores et al. 2012; Maley 2018). O uso da terminologia correta é um fator fundamental para uma interpretação de qualidade. A prestação de cuidados de saúde é uma das áreas mais críticas a este respeito, pois os mal-entendidos, sobretudo os causados pelo uso incorreto da terminologia, podem levar a tratamentos inadequados e, no pior dos casos, custar vidas.
Na Finlândia, a formação de intérpretes comunitários tem sido desenvolvida de forma sistemática (Mäntynen 2013). No entanto, continua a haver uma grande variação nos níveis de competência dos intérpretes (Ollila 2017: 28), tal como acontece em muitos outros países (por exemplo, Roat, Crezee 2015). O projeto «Desenvolvimento da formação em interpretação na área da saúde» (2019–2020) teve como objetivo melhorar a formação universitária dos intérpretes comunitários que trabalham no setor da saúde na Finlândia. Um dos principais objetivos do projeto foi a compilação do Dicionário Temático Finlandês-Russo para Intérpretes da Área da Saúde (Semenova, Kudashev, no prelo). Uma das razões para escolher o russo como língua-alvo foi o facto de ser a língua mais solicitada na interpretação comunitária na Finlândia (cf. Koskinen, Vuori, Leminen 2018: 9). De acordo com o Statistics Finland, os imigrantes da Rússia e da antiga União Soviética constituem o maior grupo de minorias linguísticas estrangeiras na Finlândia1. Em 2018, eram mais de 85 000, e o número continuava a aumentar2.
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Neste artigo, descrevemos o processo de planeamento e compilação do dicionário; apresentamos a sua megaestrutura, macroestrutura e microestrutura; relatamos a implementação técnica; e refletimos sobre alguns dos desafios encontrados neste projeto e as perspetivas futuras do dicionário. Esperamos que estas informações possam ser úteis tanto para compiladores de dicionários semelhantes com outros pares de línguas como para formadores de intérpretes comunitários.
2. FATORES QUE AFETAM O PLANEAMENTO DO DICIONÁRIO
Começamos por descrever o enquadramento teórico do planeamento de dicionários.
Os fatores que afetam o planeamento de qualquer dicionário podem dividir-se em fatores decorrentes das necessidades do grupo-alvo e fatores que refletem as limitações do mundo exterior. Podem ser denominados, respetivamente, fatores lexicográficos propriamente ditos e fatores lexicográficos externos (Kudashev 2007: 66).
Ao realizarem uma determinada tarefa (por exemplo, interpretação na área da saúde), os utilizadores do dicionário (por exemplo, intérpretes comunitários) têm certas necessidades de informação (por exemplo, precisam de informações sobre os equivalentes na língua-alvo e o seu uso), bem como necessidades relacionadas com a recuperação e o processamento da informação (por exemplo, precisam de encontrar e processar essas informações muito rapidamente no local de trabalho). No entanto, na maioria dos casos, o lexicógrafo que compila o dicionário não sabe com precisão quais serão as necessidades do potencial utilizador numa situação comunicativa específica. A visão geral de que dispõe o lexicógrafo é apenas uma aproximação, que pode ser aperfeiçoada com a ajuda de inquéritos e entrevistas a representantes do grupo-alvo e mediante uma seleção criteriosa das fontes do dicionário. Assim, o processo de planeamento do dicionário é fortemente influenciado pela metodologia de recolha de informações sobre as necessidades dos utilizadores, pelo volume e pela qualidade dessas informações e pela metodologia de seleção das fontes. Estes fatores estão resumidos na Figura 1 (cf. Kudashev 2007: 68).
Os fatores externos, por sua vez, estão relacionados sobretudo com a disponibilidade de recursos, como recursos temporais, financeiros, humanos e técnicos. Os fornecedores de recursos (por exemplo, patrocinadores, editoras) podem estabelecer condições adicionais próprias. Outro fator externo consiste nas limitações impostas pelo suporte de dados. A formação, a educação, a experiência prévia de elaboração de dicionários, etc., do lexicógrafo também podem afetar o planeamento do dicionário (Kudashev 2007: 71–73).
As necessidades dos utilizadores-alvo do nosso projeto de dicionário, juntamente com a metodologia de recolha dessas informações, são descritas na Secção 3. As fontes do dicionário e a justificação da sua seleção são descritas na Secção 4. Entre os fatores externos com grande impacto no projeto do dicionário, temos de mencionar o calendário apertado (um
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Fig. 1. Fatores que afetam o planeamento do dicionário
ano) e o orçamento limitado, devido aos quais só pudemos contratar um terminólogo a tempo parcial e recorrer apenas a voluntários do setor da saúde como especialistas do domínio. No entanto, conseguimos compilar um dicionário com 4.000 entradas que abrange 30 doenças comuns.
3. GRUPOS-ALVO E SUAS NECESSIDADES
Seguindo a teoria geral da elaboração de dicionários de linguagens especializadas (por exemplo, Bergenholtz, Tarp 1995; Kudashev 2007; Grinev–Grinevič 2009), com especial atenção aos dicionários pedagógicos e estatísticos (Morkovkin 1990; Alekseev 2001; Fuertes-Olivera, Arribas-Baño 2008; Fuertes-Olivera 2010), iniciámos o projeto analisando as necessidades de informação dos grupos-alvo. O principal grupo-alvo do dicionário é constituído por intérpretes comunitários profissionais e estudantes universitários de interpretação comunitária. Os grupos-alvo secundários incluem pacientes, profissionais de saúde e estudantes de medicina.
As informações sobre as necessidades dos grupos-alvo foram recolhidas por meio da autorreflexão e do estudo da literatura profissional sobre interpretação comunitária em geral (por exemplo, Hale 2007; Valero-Garcés, Martin 2008; Koskinen, Vuori, Leminen 2018) e interpretação em contextos de saúde em particular (por exemplo, Pöchhacker, Shlesinger 2007; Angelelli 2008; Arocha 2012; Mäntynen 2013; Metzger, Nicodemus 2014; Roat, Crezee 2015; Ollila 2017; Souza, Fragkou 2020). Além disso, entrevistámos Seija Koskinen, diretora do Pirkanmaa
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Centro de Intérpretes (Tampere, Finlândia), e Girta Roots, intérprete comunitária que trabalha com as línguas finlandesa, russa e estónia. O Centro de Intérpretes de Pirkanmaa presta serviços de interpretação comunitária na segunda região urbana mais populosa da Finlândia. Quase 40% dos trabalhos de interpretação do Centro estão relacionados com a saúde. Os grupos-alvo secundários foram representados por Galina Mäkräinen, médica russófona que participou em cursos de línguas destinados a médicos de origem imigrante. Mäkräinen também prestou consultoria sobre vários aspetos médicos e verificou os equivalentes. Os estudantes do curso especial Interpretação em contextos de saúde finlandês-russo, organizado no semestre de outono de 2019 na Universidade de Tampere, também deram a sua opinião sobre a primeira versão do dicionário.
Os intérpretes comunitários em atividade utilizam dicionários médicos para rever termos médicos enquanto se preparam para um trabalho. Também podem precisar do dicionário durante a interpretação para consultar um termo que desconhecem ou de que não se recordam. Os estudantes de interpretação utilizam dicionários médicos para os mesmos fins, mas o foco está na aprendizagem do vocabulário e na preparação para sessões de interpretação simuladas.
Ao prepararem-se para um trabalho real ou simulado, tanto os intérpretes em atividade como os estudantes familiarizam-se com o tema e estudam a terminologia a ele relacionada. Não podem saber antecipadamente que parte do material será útil para interpretar o caso em questão (Veisbergs 2006: 1220). Embora os estudantes saibam de antemão qual é o tema do trabalho, os intérpretes em atividade nem sempre dispõem desse privilégio devido ao Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (GDRP) e a regulamentos semelhantes que restringem o acesso a informações confidenciais; por isso, podem ter muito pouco tempo para se preparar. Para facilitar a aprendizagem rápida do vocabulário médico por tema, o dicionário deve ser organizado tematicamente e conter apenas as informações mais relevantes (cf. Grinev–Grinevič 2009: 68).
Os estudantes de interpretação têm menos conhecimentos prévios e menor competência linguística do que os intérpretes em atividade. Consequentemente, necessitam de mais informações linguísticas sobre os termos e os equivalentes. Por exemplo, a nossa experiência demonstrou que os estudantes finlandófonos precisam de informações sobre a posição do acento tónico na maioria dos equivalentes russos, enquanto os intérpretes finlandófonos experientes só necessitam dessas informações em casos difíceis (por exemplo, целикая, рефлюкс).
Os trabalhos de interpretação, como as consultas médicas, têm uma duração estritamente limitada; por isso, o intérprete de contextos de saúde dispõe de muito pouco tempo para
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verificação de termos. Isso implica que o dicionário deve ser bem estruturado e dispor de ferramentas de pesquisa rápidas e práticas.
O dicionário tem duas funções. A primeira é pedagógica. Os intérpretes comunitários e os estudantes devem conhecer de cor alguma terminologia básica. Como dificilmente é possível lembrar sempre a terminologia mais específica relacionada a cada doença, eles também precisam revisar a terminologia específica de cada doença enquanto se preparam para uma tarefa concreta. A segunda função do dicionário é referencial, pois os intérpretes podem esquecer um termo específico durante a interpretação e querer consultá-lo. Portanto, o dicionário deve ser temático e alfabético, para atender a ambos os requisitos.
Os intérpretes de serviços de saúde precisam de pelo menos algum conhecimento básico sobre a área da saúde, mas esse conhecimento provavelmente deve ser adquirido por meio de textos de divulgação ou manuais especializados, como “Introduction to Healthcare for Interpreters and Translators” (Crezee 2013). Um dicionário pedagógico de saúde para intérpretes não é o lugar adequado para fornecer esse tipo de informação, porque os artigos do dicionário precisam ser muito concisos. Além disso, sabe-se que compilar e modificar definições são tarefas muito trabalhosas, que exigem muitos recursos, consultas com especialistas da área, atenção aos direitos de propriedade intelectual etc. Por esse motivo, não incluímos definições nem informações enciclopédicas em nosso dicionário.
4. FONTES DO DICIONÁRIO
A melhor fonte para um dicionário médico voltado a intérpretes de serviços de saúde provavelmente teria sido gravações de consultas médicas autênticas. Infelizmente, essas informações são confidenciais, portanto, o acesso a elas é problemático. A única alternativa possível às conversas autênticas são fontes escritas, de preferência voltadas à comunicação entre médico e paciente. As seguintes fontes de termos finlandeses foram selecionadas como principais:
• diretrizes baseadas em evidências para pacientes (Käypä hoito) e descrições de doenças publicadas pela Sociedade Médica Finlandesa, Duodecim (Terveyskirjasto 2020)
• classificações e normas internacionais
– Classificação Internacional de Doenças, 10thª revisão3
– Classificação Internacional de Atenção Primária, 2ndª edição4
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– Terminologia Anatomica (Kolesnikov 2003, complementada com termos finlandeses em um de nossos projetos anteriores, ver Kudashev 2012)
Classificações e ontologias finlandesas
– Classificação Finlandesa de Procedimentos Cirúrgicos (Lehtonen, Lehtovirta, Mäkelä–Bengs 2013)
– Classificação de Medicamentos da Agência Finlandesa de Medicamentos FIMEA5
– Ontologia Finlandesa de Saúde e Bem-Estar TERO6
As principais fontes de equivalentes russos incluíram:
Diretrizes baseadas em evidências do Ministério da Saúde da Federação Russa7
O Manual do Médico “2000 doenças de A a Z” (Denisov, Ševčenko 2010)
Como fontes secundárias de termos finlandeses e equivalentes russos, também utilizamos livros didáticos e manuais para profissionais da área médica (por exemplo, Jousimaa et al. 2017; Mustajoki et al. 2019), bem como dicionários mono e bilíngues (por exemplo, Hyttinen et al. 2013; Fagradańac s.d.; ver Semenova 2020: 29–34 para uma análise crítica dos dicionários médicos finlandês-russo existentes). Em regra, não utilizamos materiais traduzidos de outras línguas. No entanto, atualmente, muitas classificações são internacionais de qualquer forma. Além disso, a maioria dos materiais sobre medicina baseada em evidências disponíveis em russo são traduções do inglês ou de outras línguas. Por exemplo, utilizamos um manual impresso singular, “Diretrizes de Medicina Baseada em Evidências” (Denisov et al. 2002), traduzido do inglês. Os textos traduzidos, contudo, foram usados com cautela, e os termos extraídos deles foram verificados em fontes não traduzidas.
5. M E G A E S T R U T U R A
A parte introdutória do dicionário consiste no Prefácio e em instruções sobre como utilizar o dicionário. A parte final contém o índice russo-finlandês e a lista de fontes.
O corpo do dicionário consiste em duas partes. A Parte 1 contém cerca de 2.000 dos termos mais comuns, que se pressupõe que sejam aprendidos de cor. Como os termos são mais fáceis de aprender tematicamente, estão agrupados de acordo com os domínios indicados abaixo. Dentro de cada domínio, o vocabulário é ainda
5 http://www.fimea.fi
6 https://finto.fi/tero/fi
7 http://cr.rosminzdrav.ru/#!/
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dividido em básico e avançado. Por exemplo, o nível básico da terminologia anatómica contém cerca de 150 termos, e o nível avançado tem cerca de 800 termos. Os termos básicos são fundamentais e devem ser dominados em primeiro lugar; os avançados também são importantes, mas podem ser aprendidos mais tarde. As secções temáticas da Parte 1 são as seguintes:
Sistema de saúde
Vocabulário médico geral
Doenças, sintomas e queixas
Anatomia e fisiologia
Exames médicos
Tratamento e cuidados, prevenção de doenças e reabilitação
Medicação
Equipamento médico
A segunda parte do dicionário é específica de doenças. A sua função é dupla. Em primeiro lugar, ajuda os intérpretes e os estudantes a prepararem-se para uma missão relacionada com uma doença específica, mesmo com pouca antecedência. A segunda função é de consulta. Mesmo os intérpretes experientes — quanto mais os estudantes — não conseguem memorizar toda a terminologia de que poderão necessitar. A segunda parte do dicionário fornece-lhes equivalentes específicos de cada doença, convenientemente agrupados em subdomínios para uma consulta mais rápida. Cada secção específica de doenças da Parte 2 divide-se nas seguintes secções temáticas:
Doença e suas subclasses
Doenças associadas e doenças com sintomas semelhantes
Anatomia e fisiologia
Sintomas e queixas
Exames médicos
Tratamento e cuidados, prevenção de doenças e reabilitação
Medicação
Equipamento médico
Diversos
Os termos da Parte 2 também podem ser incluídos na Parte 1, o que significa que as duas partes do dicionário não são exclusivas, mas sobrepõem-se parcialmente. Na versão atual do dicionário, a Parte 2 abrange cerca de 30 das doenças mais comuns, selecionadas com base nas estatísticas de saúde do Instituto Finlandês de Saúde e Bem-Estar8 e em consultas com um
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especialista da área. Os domínios das Partes 1 e 2 foram selecionados agrupando os termos extraídos de textos médicos em classes temáticas e realizando uma análise de enquadramento da situação comunicativa «consulta médica» (cf. Madžajeva 2012; Gagarina 2015).
6. MACROESTRUTURA
As entradas do dicionário estão organizadas numa tabela com duas colunas. Embora o formato de tabela agilize as consultas, as linhas da tabela devem ser discretas para não desviar a atenção do utilizador. Como descrito acima, o dicionário está dividido em secções temáticas, mas, dentro de todas as secções das Partes 1 e 2, os termos estão dispostos alfabeticamente. A ordem temática apoia a função pedagógica, e a ordem alfabética desempenha a função referencial.
A Figura 2 apresenta uma parte da secção dedicada a uma doença específica Refluxo. A primeira legenda em negrito é Doença e suas subclasses, e a segunda é Doenças associadas e doenças com sintomas semelhantes.
Fig. 2. Exemplo de uma secção dedicada a uma doença específica
Por predefinição, os sinónimos dos termos finlandeses são apresentados tanto sob a entrada principal como em remissões na sua posição alfabética. As remissões são essenciais quando o utilizador consulta um termo desconhecido. Para maior comodidade do utilizador, as remissões também incluem equivalentes em russo. Contudo, como as repetições podem incomodar quem está a aprender os termos, é possível desativar as remissões na versão eletrónica do dicionário.
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Os homónimos, isto é, palavras ou combinações de palavras que designam dois ou mais conceitos, são assinalados com índices romanos e notas de desambiguação. No exemplo abaixo (ver Figura 3), kuivuminen I refere-se a secura (como em secura da pele), e kuivuminen II, a desidratação (como em desidratação do corpo).
Fig. 3. Tratamento dos homónimos
A abordagem orientada para os conceitos evita um dos «pecados mortais» da lexicografia bilingue (cf. Kromann, Riiber, Rosbach 1991: 2724): apresentar vários significados numa mesma entrada sem a devida desambiguação. Isso resulta numa longa sequência de equivalentes de tradução, alguns dos quais não são intercambiáveis, pois designam conceitos diferentes. Além disso, a ausência de notas de desambiguação pode atrasar a escolha do equivalente correto e levar a erros de tradução. A principal necessidade de qualquer tradutor ou intérprete que utilize um dicionário é encontrar um equivalente de tradução correto o mais rapidamente possível e ter a certeza de que essa é a escolha certa (Varantola 1998: 181; Grinev-Grinevič 2009: 68; Nkwenti-Azeh 2001: 604–606).
Também é importante utilizar um separador adequado entre os sinónimos. A vírgula não é a melhor opção, pois algumas designações de LSP (sobretudo os equivalentes explicativos) podem já conter uma vírgula (ver Figura 4). O ponto e vírgula é uma opção mais segura (Kudashev 2007: 275).
Fig. 4. Exemplo de equivalentes que contêm vírgulas
MICROESTRUTURA
Os verbetes do dicionário são compostos pelos seguintes campos de dados: o termo principal em finlandês, seus possíveis sinônimos, as indicações gramaticais e de uso a eles relacionadas, o equivalente em russo, seus possíveis sinônimos e as indicações gramaticais e de uso a eles relacionadas. A ordem dos sinônimos no verbete foi determinada com o auxílio de análises estatísticas e de especialistas da área.
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Partindo do pressuposto de que a maioria dos intérpretes comunitários tem um bom domínio da língua estrangeira, fornecemos apenas uma quantidade limitada de informações fonéticas e gramaticais. No entanto, em alguns casos, também tivemos de levar em consideração as necessidades do segundo grupo-alvo, isto é, os estudantes.
Todos os equivalentes russos com mais de uma sílaba são apresentados com a sílaba tônica marcada em negrito (ver Figura 5). Em algumas palavras, a posição do acento é variável. Por exemplo, спирометрия (“espirometria”) pode ser pronunciada спирометрия ou спирометрия. Nesses casos, as duas possibilidades de acentuação são indicadas simultaneamente. Nas futuras versões do dicionário, planejamos também marcar os acentos secundários em palavras com vários componentes, como электронейростимуляцию (“eletroneuroestimulação”), por exemplo, sublinhando-os.
Fig. 5. Exemplos de acentuação em equivalentes russos com mais de uma sílaba
Em nosso dicionário, a letra russa “ё” nunca é substituída por “e”, pois isso pode causar problemas para falantes não nativos e até levar a mal-entendidos nos casos em que “ё” tem função distintiva de significado. Por exemplo, se escrevermos небо em vez de нёбо (“palato”), um estudante ou intérprete inexperiente pode decidir que esse termo anatômico é homônimo da palavra da língua geral que significa “céu”, o que causaria sérios problemas durante a interpretação.
Inicialmente, não planejávamos fornecer orientações adicionais de pronúncia para os termos russos, além da indicação da sílaba tônica. No entanto, notamos que a pronúncia correta de alguns termos não é óbvia nem mesmo para falantes nativos, quanto mais para estudantes que aprendem uma língua estrangeira. Eis alguns exemplos de casos difíceis. Às vezes, são necessárias orientações sobre a pronúncia de consoantes palatalizadas em palavras russas (por exemplo, que термотерапия [“termoterapia”] e протез [“prótese”] devem ser pronunciadas com um “т” palatalizado). Como a pronúncia das abreviaturas nem sempre é previsível em russo, provavelmente ela deveria ser especificada pelo menos nos casos ambíguos. Por exemplo, abreviaturas como МЭГ (abreviatura de магнитოэнцефалография “magnetoencefalografia”) podem ser lidas tanto letra por letra (эм-э-гэ)
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quanto como uma palavra “normal” de uma sílaba (мэг)9. Termos e abreviaturas que contêm componentes estrangeiros também podem causar problemas de pronúncia. Por exemplo, em С-реактивный белок e em sua abreviatura СРБ (“proteína C-reativa, PCR”), “C” é pronunciado como “s” ou “ts”? E como se deve pronunciar pH-метрия (“medição do pH”)? Uma combinação de transcrição e arquivo de áudio provavelmente seria a solução ideal para esses casos problemáticos.
Os termos no plural e as abreviaturas são acompanhados das indicações correspondentes. As formas informais e coloquiais (recolhidas em artigos destinados a pacientes e com a ajuda do especialista da área) são marcadas com uma indicação de uso (ver Figura 6). Por exemplo, colesterol HDL é frequentemente chamado, de modo informal, de colesterol bom. Ambos os termos estão incluídos no dicionário, mas o segundo é marcado como coloquial.
Fig. 6. Exemplos de indicações gramaticais e de uso
As formas irregulares do plural são apresentadas em itálico e entre parênteses para alertar os usuários sobre a flexão incomum. Os termos que são normalmente usados no plural são acompanhados de uma nota (ver Figura 7).
Fig. 7. Exemplos de formas gramaticais irregulares e uma nota sobre o uso predominante no plural
Os equivalentes russos terminados no sinal brando (“ь”) são acompanhados de indicações de gênero, pois o gênero não é óbvio (ver Figura 8). As indicações de gênero também são fornecidas em combinações de palavras que contêm componentes terminados em “ь”, a menos que seu gênero possa ser deduzido da(s) palavra(s) dependente(s).
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Os equivalentes parciais são assinalados com o sinal ≈ (ver Figura 9). Por exemplo, o conceito finlandês luontaistuote (≈ «produto natural / alimento saudável») difere do conceito russo биодобавка (≈ «suplemento alimentar»), embora em muitos casos possam ser usados como equivalentes contextuais.
Fig. 9. Tratamento dos equivalentes parciais
Idealmente, as diferenças entre os conceitos também deveriam ser comentadas, mas esses comentários impediriam, ao mesmo tempo, que o dicionário fosse uma obra de consulta concisa. Este é um exemplo das inevitáveis contradições internas de um dicionário que tem múltiplas funções e/ou se dirige a vários grupos-alvo. Em tais casos, os compiladores do dicionário devem estabelecer prioridades ou fazer concessões.
7. DESAFIOS ENCONTRADOS NO PROJETO
7.1. Termos específicos da cultura e da língua
Entre os principais desafios de qualquer projeto de dicionário bilíngue estão, naturalmente, os termos específicos de uma cultura, uma vez que os sistemas conceptuais e a terminologia nacionais diferem mesmo num domínio internacional como a medicina. Em particular, os termos relacionados com a organização dos cuidados de saúde em diferentes países podem causar problemas. Por exemplo, as palavras finlandesa fysioterapia e russa физиотерапия têm significados diferentes. O termo finlandês designa principalmente fisioterapia, ao passo que o russo designa eletroterapia. A Wikipédia apresenta uma ampla discussão sobre as diferenças entre esses conceitos no Ocidente e nos países pós-soviéticos. Nem sempre é claro qual estratégia, a domesticação ou a estrangeirização, deve ser usada nesses casos.
As diferenças entre as línguas podem levar a situações em que um substantivo tem de ser traduzido por um verbo ou um adjetivo, e vice-versa. Por exemplo, o termo finlandês raskauden yliaikaisuus (literalmente, «prolongamento da gravidez para além do termo») não pode ser traduzido diretamente para russo ou inglês por meio de uma construção nominal. Pelo menos, não soaria natural. Nesses casos, um equivalente «contextual» (переношенная беременность, «gravidez pós-termo») e uma nota são provavelmente uma solução melhor (cf. Vehmas-Lehto 2010: 368; Probirskaja-Turunen 2005: 104).
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Para compreender as nuances da tradução de termos específicos da cultura e da língua, na maioria dos casos é necessário ter um bom domínio das línguas usadas no dicionário, no nosso caso, o finlandês e o russo. Como não faz sentido discutir tais questões num artigo escrito em inglês, deixaremos este tema de lado e concentraremos a atenção em vários desafios menos específicos de cada língua.
7.2. Terminologia interdisciplinar
Um dos desafios da compilação de dicionários médicos é o facto de a medicina contemporânea ser um domínio multidisciplinar relacionado com muitos outros domínios: biologia, química, farmacologia, engenharia, etc. (por exemplo, Georgievskij 1981: 82). Na Finlândia, os cuidados de saúde também estão estreitamente interligados com o setor da segurança social e da assistência social. Até o ministério responsável pelos cuidados de saúde se chama Ministério dos Assuntos Sociais e da Saúde.
Consequentemente, nem sempre é fácil decidir se termos como sairausloma («baixa médica»), äitiyspäiväraha («subsídio de maternidade») ou ammatillinen kuntoutus («reabilitação profissional») pertencem ao domínio médico ou ao da assistência social. No entanto, como estes termos aparecem repetidamente em textos destinados aos pacientes, e os intérpretes comunitários têm de dominar a terminologia da segurança social de qualquer forma, incluímos no nosso dicionário termos de segurança social e assistência social frequentemente utilizados no setor dos cuidados de saúde.
7.3. Forma das entradas e dos equivalentes
As was demonstrated in several studies (e.g. Kudashev 2007: 360–363; Kudashev 2012; Kudashev 2013: 64–70; Kudashev 2016), terms a) are not always used in texts and reference resources in their full and unambiguous form, and b) some lexicographic practices aimed at data compression may disorient users as regards the form of terms and target language equivalents. Dictionary compiler should avoid these pitfalls by extracting and reconstructing terms correctly from the dictionary sources and presenting them unambiguously in the dictionary.
Os desafios mais comuns encontrados durante a «mineração de texto» incluem:
uso contextual de formas abreviadas e contraídas dos termos
capitalização injustificada de todo o termo ou da sua primeira letra
substituição de partes dos termos por um sinal especial, mesmo nos casos em que o termo original não pode ser reconstruído mecanicamente
uso de inversão
agrupamento de vários termos num único termo
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Para não induzir os usuários em erro, as entradas e os equivalentes devem ser apresentados no dicionário na forma completa, inequívoca e natural. Em particular, isso significa que as maiúsculas devem ser usadas apenas quando exigidas pelas regras ortográficas. Por exemplo, a grafia FINNISH INSTITUTE FOR HEALTH AND WELFARE ou Cosmetic Surgery não se justifica, mas o uso correto de maiúsculas é exigido em termos como ACE inhibitor ou vitamin D deficiency. Não se deve usar inversão. Por exemplo, nasal spray não deve ser apresentado na forma spray, nasal.
As entradas e os equivalentes não devem ser abreviados de forma alguma, por exemplo, omitindo elementos repetidos e substituindo-os por vírgulas, barras, parênteses etc. Por exemplo, embora o termo transcutaneous electrical nerve stimulation seja frequentemente abreviado como transcutaneous electrical stimulation e transcutaneous nerve stimulation, as três formas devem ser incluídas no dicionário como sinônimos e grafadas por extenso. Os usuários, sobretudo os estudantes, podem não conseguir interpretar corretamente formas abreviadas como transcutaneous (electrical) (nerve) stimulation. Além disso, intérpretes que fazem consultas rápidas não têm tempo para decifrá-las. Do ponto de vista técnico, a abreviação também dificulta a busca, a ordenação e a elaboração do índice na língua de chegada.
Embora as entradas sejam normalmente apresentadas no singular nos dicionários, alguns substantivos podem e/ou devem ser apresentados no plural (cf. Berkov 2004: 30). Pluralia tantum, isto é, substantivos usados sempre no plural (por exemplo, scissors), são um caso evidente. Alguns substantivos, porém, têm tecnicamente uma forma singular, mas são normalmente usados no plural (por exemplo, bronchus / bronchi, cramp / cramps, chemical / chemicals). Neste último caso, para conveniência dos usuários, provavelmente o substantivo deveria ser incluído duas vezes, tanto no singular como no plural.
Na linguagem médica, alguns advérbios têm sinônimos que, a rigor, não são unidades lexicais. Por exemplo, подкожно / под кожу (“por via subcutânea / sob a pele”), назально / через нос (“por via nasal / pelo nariz”). No entanto, tais expressões são unidades lexicalizadas com pleno estatuto terminológico e, por isso, devem ser incluídas no dicionário como entradas de pleno direito (cf. Kudashev 2013: 59–60).
7.4. Termos científicos versus informais
O discurso médico, como muitas outras linguagens de especialidade, é multidimensional. Em particular, pode ser categorizado de acordo com os participantes. É possível distinguir a comunicação entre médicos, médicos
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and nurses, doctors and patients, etc. (cf. Bergenholtz, Tarp 1995: 19; Abramova 2003; Alekseeva, Mishlanova 2002: 104–105; Agadžanân 2018; Gotti 2018: 13–14). Doctor–patient communication differs from other communicative situations in many respects. Typically, patients (and community interpreters) lack a medical background, which means that they tend to communicate using everyday vocabulary rather than scientific medical terminology. This presents a major challenge for dictionary compilers, who have to balance between the general and professional dimensions.
Por exemplo, a palavra russa гипертония (hipertensão arterial) era anteriormente um termo médico oficial. É geralmente compreendida e muito frequente no discurso cotidiano. No entanto, tornou-se obsoleta na linguagem científica e foi substituída pelo termo артериальная гипертензия, muito menos familiar aos pacientes. Um caso semelhante é o par de termos аденома простаты e гиперплазия предстательной железы (hiperplasia prostática). Como nosso dicionário descreve a comunicação entre médicos e pacientes, decidimos incluir termos informais, mas amplamente usados, juntamente com os oficiais. No entanto, os termos oficiais vêm antes dos informais. Não é evidente como esses termos informais devem ser rotulados. Do ponto de vista do médico, são obsoletos; do ponto de vista do paciente, não. Decidimos classificá-los como coloquiais, pois fazem parte do vocabulário dos pacientes, que foi «desterminologizado».
Muitos termos oficiais são abreviados na comunicação oral. Por exemplo, диабет («diabetes») costuma ser usado na forma completa em textos e obras de referência (сахарный диабет «diabetes mellitus»), mas, no cotidiano, a forma abreviada é muito mais comum. Os termos também podem ser «abreviados» no plano conceptual, por meio de uma transferência metafórica. Por exemplo, шейка матки («colo do útero») consiste em várias partes, incluindo, em particular, наружное отверстие шейки матки («orifício externo do colo do útero»). Ainda assim, no contexto de exames ginecológicos, os pacientes geralmente não fazem distinções minuciosas entre as várias partes e tendem a falar apenas do colo do útero. O lexicógrafo que compila um dicionário para a comunicação entre médicos e pacientes deveria ser excessivamente rigoroso a esse respeito ou não?
Os termos usados em classificações científicas podem diferir dos termos e das palavras da língua geral usados na comunicação entre médicos e pacientes. Por exemplo, não encontraremos palavras como waist e middle (partes do corpo), fundamentais numa conversa sobre obesidade, em Terminologia Anatomica. Isso ressalta a importância de extrair termos de várias fontes, em vez de confiar em uma única, ainda que autorizada.
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As culturas e as línguas diferem quanto às preferências por componentes internacionais ou nacionais nos termos médicos. Por exemplo, na Finlândia, os termos baseados em componentes nacionais são muito mais usados tanto por médicos como por pacientes do que os derivados do latim e do grego. Ainda assim, há exceções. Por exemplo, o termo internacional diabetes é muito mais frequente do que o termo constituído por componentes finlandeses — sokeritauti («doença do açúcar»). Em russo, pelo contrário, os termos baseados no latim e no grego são mais populares do que os sinónimos russos, mesmo entre os pacientes. Estas preferências específicas de cada cultura devem ser tidas em conta no dicionário.
Em suma, temos de admitir que nem sempre é fácil decidir quais os termos — estritamente científicos, profissionais ou coloquiais — que devem ser incluídos, em primeiro lugar, num dicionário destinado à comunicação entre médico e paciente, nem a ordem em que devem ser apresentados. Não existe uma «regra prática» universal a este respeito, pelo que cada caso tem de ser tratado individualmente.
7.5. Tratamento dos sinónimos e das abreviaturas
A abundância de sinónimos e abreviaturas é característica da linguagem médica (por exemplo, Georgievskij 1981; Kuryshko 2001; Abramova 2003). Se um termo básico tem muitos sinónimos, os seus derivados também terão muitos sinónimos. Por exemplo, лекарство («medicamento») tem vários sinónimos em russo: средство, препарат, медикамент, etc. Consequentemente, qualquer tipo de medicamento pode ser designado usando (quase) todas estas palavras; por exemplo, anti-inflammatory drugs são противовоспалительные лекарства / средства / препараты / медикаменты. A abundância de sinónimos coloca vários desafios relacionados com a sua seleção e disposição numa determinada ordem no verbete. Para resolver estas questões, utilizámos os seguintes critérios:
• compreensibilidade (os pacientes e os intérpretes devem compreender o maior número possível de termos)
• frequência (os termos usados com frequência são, em geral, mais compreensíveis e mais fáceis de memorizar)
• simplicidade e brevidade (os termos simples e curtos são mais fáceis de memorizar)
• diversidade (para cumprir a função de consulta, o dicionário também deve conter termos que não façam parte do vocabulário ativo do intérprete)
• autoridade da fonte (é dada prioridade aos termos provenientes de fontes autorizadas).
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No entanto, esses critérios podem contradizer-se. Por exemplo, as formas abreviadas são mais curtas e, em princípio, deveriam ser mais fáceis de memorizar. Em alguns casos, isso funciona. Por exemplo, a abreviatura УЗИ (ultrassonografia médica) é muito mais frequente em russo do que a sua forma completa, ультразвуковое исследование. Além disso, toda a gente conhece essa abreviatura. Por conseguinte, é plenamente justificável colocar a abreviatura antes da forma completa. No entanto, algumas abreviaturas são menos conhecidas dos pacientes. Por exemplo, a abreviatura НПВС (anti-inflamatórios não esteroides, AINEs) é bastante rara, apesar de os próprios AINEs serem provavelmente conhecidos por todos. Neste caso, a forma completa deve ser apresentada primeiro.
Outro exemplo ilustra a contradição entre autoridade e frequência. De acordo com um manual médico de referência (Denisov, Ševtšenko 2010), waist circumference corresponde a окружность талии em russo. Este termo é frequente por si só: há cerca de 577.000 resultados para esta combinação de palavras no Google. No entanto, segundo o Google, dois outros sinónimos são ainda mais frequentes: объём талии apresenta mais de 7.000.000 de resultados e обхват талии, mais de 11.000.000. Neste caso específico, a ordem dos sinónimos não é muito importante, pois todos são frequentes. No entanto, este exemplo volta a salientar a importância de verificar as informações, mesmo quando os termos e os equivalentes são extraídos de fontes de referência.
Como podemos ver, a priorização dos princípios orientadores gerais difere em cada caso específico. Para verificar as suas decisões, os responsáveis pela elaboração do dicionário devem consultar especialistas da área e representantes dos grupos-alvo.
8. I M P L E M E N T A Ç Ã O T É C N I C A
O dicionário será publicado tanto como uma base de dados acessível pela Web como em formato de dicionário imprimível em PDF. A versão eletrónica permite pesquisas eficientes, bem como algumas funcionalidades dinâmicas úteis. Por exemplo, é possível ativar ou desativar determinados dados (por exemplo, remissões, dados administrativos e etiquetas de domínio) em função da utilização pretendida. A versão imprimível, por sua vez, pode ser utilizada mesmo em situações em que não seja permitido utilizar dispositivos eletrónicos ou em que a ligação à Internet seja fraca.
O dicionário foi compilado com uma versão personalizada do sistema interno de redação de dicionários MyTerMS (ver Kudashev, Kudasheva 2006). O MyTerMS é uma interface Web para a base de dados lexicográfica subjacente. O MyTerMS foi utilizado em vários projetos de dicionários e serve como sistema de gestão terminológica em projetos terminológicos da Universidade de Tampere e da Universidade de Helsínquia, na Finlândia.
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Fig. 10. A janela principal do sistema de redação de dicionários MyTerMS
O MyTerMS executa todas as operações básicas esperadas de um software de gestão de dicionários, tais como adicionar, editar, pesquisar, consultar, imprimir e eliminar entradas. Também automatiza muitas operações. Por exemplo, ao adicionar várias entradas pertencentes ao mesmo domínio, é possível preencher previamente o campo do domínio, em vez de o selecionar manualmente de cada vez. O MyTerMS também ajuda a garantir a integridade dos dados, por exemplo, impedindo entradas duplicadas e gerindo automaticamente as remissões. Além disso, assegura a correção dos dados introduzidos através de uma verificação de conformidade antes de os guardar.
As entradas são segmentadas em campos de dados e os artigos são gerados «em tempo real» com a ajuda de scripts e folhas de estilo em cascata. A disposição das entradas é o mais próxima possível da versão final, exceto pela presença de alguns dados administrativos, que são visualmente diferenciados dos dados finais por meio da cor. Os dados administrativos e as remissões podem ser ativados ou desativados assinalando as caixas correspondentes.
Um dos pontos fortes do MyTerMS é a sua pesquisa avançada. Os utilizadores podem efetuar pesquisas muito complexas recorrendo a caracteres universais e expressões regulares, e combinando várias condições de pesquisa. Isto permite extrair dados com base em praticamente qualquer critério ou combinação de critérios. A Figura 10 mostra a janela principal do programa. A moldura verde é o painel de controlo, com vários botões e opções de controlo. As duas listas à esquerda são a lista de termos e a lista de resultados. A moldura maior é a moldura da entrada. Os intervalos de letras na
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O canto superior esquerdo permite limitar o comprimento da lista de termos para uma atualização mais rápida. Nesse mesmo canto, há também um painel de «pesquisa rápida» que facilita a navegação pela lista de termos e pela lista de resultados. O utilizador só precisa de digitar as letras iniciais do termo que procura.
Num dicionário temático, é particularmente importante assinalar com precisão os rótulos de domínio. No MyTerMS, isso é feito com a ajuda do seletor de domínio, que pode ser aberto a partir do formulário de adição/edição e da janela principal. As etiquetas de domínio são adicionadas com a ajuda de botões de opção e caixas de seleção. No exemplo abaixo (ver Figura 11), está a ser adicionado um termo à Parte I (Osa 1), ao grupo temático «Anatomia e Fisiologia» (Anatomia ja fysiologia), ao nível avançado (Vaikeusaste B), bem como à Parte II (Osa 2), à classe «Tuberculose» (tuberkuloosi) e à subclasse «Anatomia e Fisiologia» (c. Anatomia ja fysiologia).
Fig. 11. Seletor de domínio
Como podemos ver, um termo pode ser assinalado como pertencente à terminologia geral e/ou relacionado com uma ou mais doenças. Ao efetuar uma pesquisa, os utilizadores podem limitá-la a qualquer combinação de domínios e/ou subdomínios abrindo o mesmo seletor (ver Figura 12). A mesma ferramenta também pode ser usada para definir um domínio ou uma combinação de domínios como «preferidos». Isso poupa tempo e ajuda a evitar erros quando o terminólogo adiciona vários termos relacionados com o mesmo domínio.
As entradas são adicionadas e editadas com a ajuda de um formulário HTML (ver Figura 13). O formulário permite adicionar até sete sinónimos para cada
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Fig. 12. Domínios selecionados para a pesquisa com a ajuda do seletor de domínio
língua. As secções adicionais para os sinónimos são abertas quando necessário. O programa permite adicionar formatação em linha (por exemplo, negrito, itálico, índices superiores e inferiores). No entanto, também são guardadas cópias em texto simples dos campos correspondentes, para garantir pesquisas corretas e rápidas. A maioria dos rótulos relacionados com a gramática e o uso está predefinida, mas os utilizadores também podem fornecer notas adicionais de formato livre relacionadas com estas categorias.
Fig. 13. Formulário HTML para adicionar e editar entradas
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O MyTerMS também gera automaticamente o índice russo-finlandês (ver Figura 14).
A compilação de um dicionário temático para intérpretes na área da saúde revelou-se uma tarefa muito interessante, mas também desafiadora. Algumas necessidades de informação e de consulta diferem até mesmo entre os principais grupos-alvo do dicionário e conforme as situações em que ele é utilizado. A combinação das funções pedagógica e de referência também cria certa tensão. A inclusão de outros grupos-alvo (como pacientes, médicos com histórico de imigração etc.) teria agravado ainda mais a situação. No projeto atual, as contradições lexicográficas também foram complicadas por fatores externos, como o cronograma apertado e o orçamento limitado. Se tivermos a oportunidade de dar continuidade ao nosso trabalho, o dicionário será desenvolvido em várias direções.
Embora o número de termos que devem ser aprendidos de cor (cerca de 2.000) se aproxime do nível ideal, a parte do dicionário dedicada a doenças específicas é, sem dúvida, modesta. Nosso próximo objetivo é abranger cerca de 100 das doenças mais comuns, o que corresponde a aproximadamente 10.000–12.000 termos. As doenças serão selecionadas com base nas estatísticas oficiais de saúde. De acordo com o princípio de Pareto (também conhecido como regra 80 / 20), esperamos alcançar um ponto de saturação razoável quando o dicionário abranger os 80% principais dos motivos para consultar um médico. Um possível prob-
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lema, neste caso, é que as classes representadas nas estatísticas são muitas vezes «grandes demais» e incluem várias doenças não diferenciadas.
Durante o curso de interpretação na área da saúde organizado na Universidade de Tampere, observamos que o conhecimento dos estudantes sobre termos médicos, a maioria dos quais são substantivos, é insuficiente. Para usar os termos corretamente em contexto, os estudantes também precisam dominar verbos e colocações. Planejamos enriquecer nosso dicionário com exemplos de uso. Na versão eletrônica, estes poderiam ser ativados e desativados conforme a finalidade de uso do dicionário.
Embora o índice russo-finlandês permita usar o dicionário na direção inversa, ele não pode ser considerado um dicionário russo-finlandês completo. Como o dicionário se baseia no sistema conceitual finlandês e em fontes finlandesas, faltam-lhe, por exemplo, nomes de doenças amplamente usados nos países pós-soviéticos, mas não reconhecidos pelas classificações internacionais de doenças (por exemplo, остеохондроз [«osteocondrose»]; дисбактериоз [«disbacteriose»], диатез [«diátese»]; вегетососудистая дистония [«distonia vegetativo-vascular»], etc.). Entretanto, esses termos podem surgir facilmente durante a interpretação médica. Isso significa que o dicionário deveria ser complementado com pelo menos alguns termos russos específicos da cultura, provavelmente em um apêndice. Idealmente, também deveria ser compilado um dicionário russo-finlandês separado.
Outro apêndice poderia ser dedicado aos falsos cognatos, que existem até mesmo entre línguas tão diferentes como o finlandês e o russo. Além dos termos internacionais que podem ter significados diferentes em línguas distintas (ver acima o exemplo de fyseoterapia / физиотерапия), outra fonte de falsos cognatos são as abreviaturas. Por exemplo, a abreviatura finlandesa IBS, proveniente do inglês («irritable bowel syndrome»), não deve ser confundida com a abreviatura russa ИБС, que corresponde a ишемическая болезнь сердца («doença cardíaca isquêmica»). É uma boa ideia alertar os intérpretes para esses casos em uma seção separada.
Nosso dicionário já é dinâmico e personalizável até certo ponto. No entanto, o grau de personalização pode ser ampliado ainda mais. Nosso objetivo final é criar um dicionário médico multifuncional destinado a vários grupos-alvo, cujo conteúdo possa ser personalizado conforme o grupo-alvo e o uso pretendido. Isso, porém, exige um estudo mais aprofundado das perspectivas dos usuários, além de um trabalho considerável de lexicografia e engenharia de software.
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ACKNOWLEDGEMENTS
We wish to express our gratitude to the Finnish Cultura Foundation (https://culturas.fi) for funding the project “Developing Healthcare Interpreting Training”. We also gratefully acknowledge the contribution of the Director of the Pirk ส?
TEMINIS SUOMIŲ–RUSŲ KALBŲ ŽODYNAS SVEIKATOS PRIEŽIŪROS SRITIES VERTĖJAMS ŽODŽIU: SUDARYMO PRINCIPAI IR IŠŠŪKIAI
S a n t r a u k a
Augantis tarptautiškumas lemia vis didėjantį bendruomeninio vertimo (angl. community interpreting) poreikį. Taisyklingų terminų vartojimas yra pagrindinis kokybiško vertimo faktorius. Šiuo atžvilgiu sveikatos priežiūra yra viena iš kritinių sričių, kadangi nesusipratimai, ypač kylantys dėl netinkamo terminų vartojimo, gali baigtis netinkamu gydymu. Medicinos žodynas yra didžiulis, tad sveikatos priežiūros srities vertėjams žodžiu ir vertimo žodžiu studentams reikalingas žodynėlis, kuriame a) būtų dažniausiai vartojami terminai; b) terminai būtų išdėstyti pagal temas; c) kuris būtų patikimas ir leistų greitai surasti tinkamiausius atitikmenis vertimo kalboje.
Šiame straipsnyje aprašomas Teminio suomių–rusų kalbų žodyno sveikatos priežiūros srities vertėjams žodžiu sudarymo procesas. Žodyną sudaro dvi dalys. Tam tikrus pagrindinius terminus vertėjai žodžiu turi mokėti atmintinai, taigi pirmoje dalyje pateikiama apie 2000 dažniausiai vartojamų terminų, sugrupuotų pagal temas, kurios buvo pasirinktos remiantis freimų analize (angl. frame analysis). Kiekvienoje temoje žodynas yra toliau suskirstytas į bendruosius ir specialiuosius terminus. Antroji dalis yra suda-
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Igor Kudashev | Olga Semenova
Finnish–Russian Thematic Dictionary for Healthcare Interpreters: The Principles and Challenges of Compilation
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ryta pagal konkrečias ligas. Ji padeda vertėjams žodžiu ir studentams pasirengti su konkrečia liga susijusiai užduočiai. Be to, kadangi vertėjai žodžiu gali pamiršti konkretų terminą vertimo metu ir norėtų jį pasižiūrėti, antroje dalyje pateikiami su konkrečiomis ligomis susiję atitikmenys, patogiai sugrupuoti į mažesnius skyrius, kad juos būtų galima greitai surasti.
Kadangi vertėjams žodžiu skirti žodyno straipsniai turi būti labai glausti, juose pateikiama tik minimali semantinė ir lingvistinė informacija. Vis dėlto vertėjams žodžiu, verčiantiems sveikatos priežiūros srityje, paprastai trūksta medicininio išsilavinimo, tad jiems reikia šiek tiek informacijos apie medicinos terminų tarimą ir gramatinius požymius. Kompaktiškas skirtingų reikšmių išaiškinimas yra labai svarbus pasirenkant teisingą atitikmenį.
Žodyno sudarymas buvo be galo įdomi, tačiau ir sudėtinga užduotis. Šiame straipsnyje aprašomi kai kurie iššūkiai, susiję su konkrečioms kultūroms būdingomis sąvokomis, tarpdalykine terminologija, mokslinių ir neformalių terminų opozicija, sinonimų ir sutrumpinimų gausa. Ateityje planuojama žodyną plėsti keliomis kryptimis. Mūsų galutinis tikslas yra daugiafunkcis, įvairioms tikslinėms grupėms skirtas žodynas, kurio turinys galėtų būti pritaikytas pagal tikslinę grupę ir naudojimo tikslą. Vis dėlto tam reikia išsamesnės naudotojų perspektyvų studijos ir daug leksikografinės ir programinės inžinerijos.
Gauta 2020-06-30
Igor Kudashev Tampere University Kanslerinrinne 1 FI-33014 Tampere, Finland [email protected]
Olga Semenova Tampere University Kanslerinrinne 1 FI-33014 Tampere, Finland [email protected]