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ALGIRDAS SAUDARGAS

Parlamento Europeu

Comissão da Indústria, da Investigação e da Energia

Áreas de investigação: linguística cognitiva, neuropsicologia cognitiva, biofísica.

SAGAS FONOSSEMÂNTICAS NO DICIONÁRIO DA LÍNGUA LITUANA

Sagas fonossemânticas no Dicionário da Língua Lituana

RESUMO

O artigo apresenta uma abordagem para explicar os fenômenos fonossemânticos na língua lituana. Essa abordagem divide o conteúdo semântico da palavra em uma parte conceptual e em conteúdos que expressam relações de espaço, tempo e dinâmica de forças. Nessa perspectiva, os fenômenos fonossemânticos são explicados como extensões da topologia cognitiva da rede de significados da palavra a palavras fonologicamente semelhantes, mas sem parentesco etimológico. São examinados alguns exemplos. Analisam-se as redes de significados de palavras lituanas com consoantes K/L; N/R; M/L <> L/M na raiz.

PALAVRAS-CHAVE: saga fonossemântica, frame de referência, esquema imagético, dinâmica de forças, topologia cognitiva.

ANOTAÇÃO

Apresenta-se uma explicação dos fenômenos fonossemânticos na língua lituana. Essa explicação divide o conteúdo do sentido das palavras em uma parte conceptual e outra que expressa aspectos de espaço, tempo e dinâmica de forças (STD). Nessa abordagem, os fenômenos fonossemânticos são explicados como a extensão da topologia cognitiva da rede de sentidos das palavras a palavras fonologicamente semelhantes, embora não geneticamente relacionadas. São investigados vários exemplos. Analisa-se a rede de sentidos de palavras lituanas com as consoantes K/L; N/R; M/L <> L/M.

PALAVRAS-CHAVE: saga fonossemântica, quadro de referência, esquema imagético, dinâmica de forças, topologia cognitiva.

Įžvalgos / Insights

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ALGIRDAS SAUDARGAS

0. INTRODUÇÃO

“...o próprio pensamento só pode ser expresso na própria língua.”

Antanas Maceina

Há mais de três décadas, circularam em edição artesanal as reflexões de Algirdas Patackas sobre a cultura báltica Saulė ir kryžius (Patackas 1983; Patackas 2014: 30–85). Ali foi mencionado pela primeira vez o “princípio da simetria”: observou-se que, ao trocar as consoantes da raiz de algumas palavras, seu significado também adquire uma espécie de sentido simétrico, ocorrendo uma inversão peculiar do sentido (por exemplo: meilė – laimė) (Patackas 2014: 78). Outra observação foi que o significado de palavras com as mesmas consoantes na raiz, mas com vogais diferentes, permanece unido por uma ideia comum, embora as próprias palavras não sejam de modo algum aparentadas (por exemplo: nokti – nykti) (Patackas et al. 1984; Patackas et al. 2014: 93). Do ponto de vista da linguística formal, esses exemplos pareciam desenvolvimentos sem qualquer fundamento de fenômenos linguísticos conhecidos — a metátese e a apofonia — e não podiam ser aceitos.

Patackas me despertou o interesse pelos problemas da língua levantados em seu estudo e me incentivou a expor minhas ideias por escrito. Esse texto (Saudargas 1986) está repleto de especulações filosóficas que hoje talvez interessassem apenas a pesquisadores do gênero da edição artesanal. No entanto, ele se baseia numa ideia que também está no cerne deste artigo. Voltei meu olhar para palavras cujas raízes são fonologicamente semelhantes, mas cujo parentesco não está comprovado. Tentei revelar suas relações semânticas. Meu guia foi (e continua sendo) a visão de Antanas Maceina sobre a língua materna: “A riqueza do vocabulário da língua lituana e a variedade de sua estrutura gramatical mostram que o pensamento lituano é capaz de penetrar no objeto pensado com amplitude e profundidade admiráveis e de expressar até mesmo as nuances, quase imperceptíveis, mas reais, de suas conexões e relações. Nesse aspecto, a língua lituana não fica atrás de nenhuma outra língua em que, ao longo da história, se tenha criado ou se esteja criando uma filosofia de alto nível. Mūsų língua é um caminho aberto para mūsų filosofia. Se nós juo seguiremos ou se tomaremos o caminho estagnado dos estrangeirismos depende de nossa compreensão de que savas pensamento só pode ser expresso na sava língua” (Maceina 1994: 309). No texto mencionado, tratei de verbos que denotam o sentido da visão: žiūrėti, domėtis, regėti, matyti e vysti (vydo), e comparei sua semântica com a de palavras cujas raízes são fonologicamente próximas. Quando pesquisava essas relações fonossemânticas, eu desconhecia os estudos da linguística cognitiva então em formação, pois, nas condições da época, eram difíceis de acessar ou talvez totalmente inacessíveis. Retomei essas reflexões há uma década e, em pouco tempo, descobri que a linguística cognitiva dispunha da técnica de pesquisa necessária. Naquela época, eu também desconhecia muitas outras coisas que menciono hoje.

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Fonosemantinės šaknės lietuvių kalbos žodyne

Os textos reunidos neste artigo foram escritos ao longo da última década. Foram repensados e reescritos várias vezes. Ao reuni-los numa única obra, voltei a ponderar tudo, fiz correções e desenvolvi as ideias. Muita coisa teve de ser inteiramente reescrita.

Estes textos são de dois tipos. Os textos do primeiro tipo são estudos empíricos, nos quais procurei ser tão objetivo quanto possível. Por isso, defini com precisão os objetos estudados: são as lexemas do Lietuvių kalbos žodyno (doravante LKŽ), e apenas elas. O estudo procura descrever as relações semânticas entre palavras fonologicamente próximas (que têm o mesmo par de consoantes na raiz). O objetivo do estudo é mostrar que algumas raízes lituanas fonologicamente próximas (os chamados feixes de raízes) também formam conjuntos semânticos, que, por conveniência, são denominados narrativas fonossemânticas. A essência do estudo reside em decompor o conteúdo do significado das palavras lituanas em componentes conceptual e espaço-temporal. Os conteúdos espaço-temporais também abrangem a interação de forças (dinâmica); por isso, uso a abreviatura ELD (espaço, tempo, dinâmica). Para a investigação semântica, recorro às técnicas da semântica cognitiva. Procurei basear-me em métodos tão confiáveis e comprovados quanto possível; por exemplo, para descrever a interação de forças, uso os esquemas de dinâmica de forças de Leonard Talmy, já consagrados. Todos os resultados empíricos são bastante evidentes, embora (como pude constatar pessoalmente) seja preciso algum hábito com as técnicas utilizadas para perceber alguns deles.

Os textos do segundo tipo são subjetivos. Tornaram-se necessários porque as pesquisas empíricas mencionadas não têm lugar no espectro tradicional dos estudos linguísticos. É claro que, nos tempos livres, cada um pode investigar o significado das palavras tanto quanto quiser. Cabe ao leitor decidir se tais investigações se refletem na poesia. Se quisermos submetê-las à atenção da comunidade científica, elas precisam encontrar o seu lugar. Ao procurar esse lugar, ficou claro que essas pesquisas são extrassistêmicas na linguística, ou até mesmo, em termos gerais, extralinguísticas. Mais precisamente, as narrativas fonossemânticas são objeto de convergência entre disciplinas, embora a linguística, entendida no sentido mais amplo possível, devesse interessar-se por elas. À procura de analogias, vagueei entre a topologia matemática e a alquimia medieval. Em busca de argumentos, consultei monografias, dissertações e artigos das áreas mais diversas: da fonossemântica, considerada marginal, aos estudos contemporâneos do cérebro. Essas divagações ameaçam constantemente transformar-se numa dispersão infrutífera do pensamento, pois só é possível aprofundar-se de forma muito limitada em áreas tão distantes umas das outras. Por outro lado, é apenas na convergência entre disciplinas que os paradigmas mudam e se formam novas correntes. Por isso, nestes textos, recorro a autores e fontes muito diversos, que seria impossível estudar todos a fundo mesmo ao longo de várias vidas; as referências fornecidas, porém, pouparão tempo ao leitor curioso. É evidente que textos deste tipo refletem as minhas escolhas subjetivas e avaliações pessoais, e não podem pretender constituir uma análise cientificamente abrangente de qualquer área. Chegou o momento de passar a observações mais concretas. Mas, antes de tudo, é preciso recordar os precursores que deram início a tudo.

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1. REFLEXÕES SOBRE O MÉTODO

1.1. Precursores e seus críticos

«Até o próprio mel lhe parece amargo» (LKŽ)

Algirdas Patackas e Aleksandras Žarskus desenvolveram as observações iniciais numa investigação singular, apoiada em abundantes fontes etnográficas, sobre a condução das transformações espirituais na antiga cultura báltica (Patackas, Žarskus 2013). Dainius Razauskas avaliou essas pesquisas da seguinte forma: «A obra de Algirdas Patackas e Aleksandras Žarskus é um dos fenómenos mais interessantes e profundos da cultura contemporânea da palavra lituana, comparável em espírito, talvez, ao fenómeno de Vydūnas de há cem anos» (Razauskas 2006: 47). Contudo, segundo Razauskas, «o “mel” espiritual reunido com esse trabalho gigantesco é envenenado por uma “colherada de alcatrão”» (ibid.: 45). Trata-se da «relação de Patackas e Žarskus com a língua, ou melhor, com a linguística, com as ciências da linguagem» (ibid.). De facto, já uma década antes, as reflexões de Patackas e Žarskus haviam sido alvo da crítica contundente (e, ao que parece, justa) do linguista Simas Karaliūnas (1995). O mundo oficial da linguística não reconheceu nessas pesquisas nenhum fenómeno que pudesse ser investigado. Atenuando as críticas de Karaliūnas, Razauskas afirma, numa comunicação emotiva intitulada «Loucura linguística e língua sagrada», apresentada em 1996: «O objetivo aqui não é provar a origem de uma ou outra palavra, nem o parentesco etimológico entre palavras, mas chamar a atenção para correspondências por vezes verdadeiramente surpreendentes, por exemplo, entre a simetria fonética e semântica das raízes das palavras, deixando completamente de lado a questão da origem das palavras» (Razauskas 1997: 10). Ainda assim, Razauskas resigna-se, por alguma razão: «Seja como for, parece que tal objetivo não pertence realmente à linguística. Em suma: a relação com a língua que está a ser examinada não é linguística, não é ciência» (ibid.). Depois disso, Razauskas redireciona a discussão para o fenómeno das anagramas, descoberto por Ferdinand de Saussure e redescoberto por Vladimir Toporov. Formula corretamente o problema: «Será possível — e, se sim, com que fundamento, com base em quê — relacionar a simples simetria fonética das consoantes da raiz de uma palavra com a semântica das palavras correspondentes, e ainda mais com toda uma visão do mundo que se supõe estar nelas contida?» (ibid.). Infelizmente, imerso no interessante, mas ainda bastante obscuro, fluxo de estudos sobre anagramas e a poética indo-europeia a eles associada, emerge com uma resposta bastante etnosófica (nos termos dele próprio1): «Assim, temos não só duas línguas — a habitual, quotidiana, e a sagrada, poética —, mas, correspondentemente, também duas linguísticas,

1 Cf. Razauskas 2006.

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FIG. 1. Rede fonossemântica do acadêmico Paulius Slavėnas

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isto é, duas relações diferentes com a língua, fundamentadas teórica e metodologicamente de maneiras distintas, como reflexos de relações diferentes com a realidade em geral — precisamente, uma linguística simples, profana, e uma linguística secreta, sagrada” (ibid.: 16).

Outro precursor, o patriarca da astronomia lituana, o acadêmico Paulius Slavėnas, que publicou uma série de artigos entre 1974 e 1985, estudou de forma muito interessante as relações entre som e significado na língua lituana (Slavenas 2001; 1984). Ele observou que, com muita frequência, a alternância vocálica na raiz de uma palavra não altera fundamentalmente seu significado, apenas o modifica. Depois de examinar várias combinações e descartar as inadequadas, desenhou um esquema num plano. Segundo seu próprio testemunho, “depois de anotá-lo sem muito detalhe, o desenho ocupava cerca de um terço de metro quadrado” (Slavenas 1984: 34). Como o estudo de Slavėnas não despertou o interesse dos linguistas, apresento na figura 1 o desenho de sua rede fonossemântica (Slavenas 2001: 278).

O próprio desenho é apenas uma forma de organizar informações linguísticas. A estrutura das consoantes é combinada pelo método mais simples de combinatória. Com sua pesquisa, Slavėnas parece sugerir: esqueçamos temporariamente tudo o que sabemos sobre as raízes das palavras e vejamos que associações de significado evocam palavras fonologicamente próximas. Então, numa rede fonossemântica elaborada com cuidado, é possível discernir certas regularidades. Essa metodologia é comum não só nas ciências naturais experimentais, mas também nas investigações teóricas. Para sermos justos, convém observar que os próprios linguistas também recorrem muitas vezes a essa metodologia. Assim, esse tipo de experimentação com raízes de palavras não infringe nenhuma lei conhecida da linguística. No tempo livre, todos podem divertir-se com tais experimentos. Porém, se quisermos apresentar algo à ciência, é preciso tirar conclusões desses experimentos e defendê-las. O acadêmico Slavėnas tira de suas pesquisas conclusões realmente ousadas, que não parecem suficientemente fundamentadas à comunidade dos linguistas. Apresentarei alguns trechos do artigo “O significado da protolíngua”.

“A protolíngua de uma antiga tribo isolada desenvolvia-se exclusivamente por meio da imitação da geração mais velha e de hábitos de fala geneticamente programados. Ela não era constituída por palavras (no sentido da língua lituana), mas por formantes mais curtos e polissêmicos, que posteriormente poderiam tornar-se tanto raízes de palavras como afixos de raízes. Mais precisamente, o formante não tem significados, mas uma noção mais ampla, uma categoria de pensamento um tanto vaga; os significados surgem apenas nas combinações de formantes. O formante não é nem uma palavra no sentido gramatical habitual, nem uma unidade de classe gramatical: em combinações diferentes, poderia ter o significado de um substantivo, de um verbo ou de outra coisa; ou seja, poderia apresentar o que se chama conversão no inglês atual, poderia servir para uma designação, um apelido, uma constatação, uma ação ou outra finalidade. Um formante isolado dava apenas uma pista sobre o assunto, e o significado se tornava claro na combinação” (Slavenas 2001: 261).

“As várias observações feitas aqui suscitam a ideia bastante paradoxal de que a dispersão das línguas indo-europeias significa um afastamento não de uma protolíngua hipotética pré-sânscrita, mas da estrutura arcaica ainda viva da língua lituana” (ibid.: 273).

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Essas percepções são realmente profundas e interessantes, mas, embora lisonjeiem muito o amor-próprio da comunidade de língua lituana, não estão suficientemente fundamentadas. Portanto, o esquecimento dos estudos do velho acadêmico por parte dos linguistas é perfeitamente compreensível.

1.2. A farmácia da mente

“A farmácia da mente fica sob esse teto. Talvez alegrar alguém com uma opinião.”

Dionizas Poška

“A mente inconsciente sugere; a mente consciente seleciona.”

Stanislas Dehaene

Voltemos à conclusão de R az auskas de que “temos [...] duas relações diferentes com a língua, fundamentadas teórica e metodologicamente de maneiras distintas, como reflexos de relações diferentes com a realidade em geral — precisamente, uma linguística simples, profana, e uma linguística secreta, sagrada”. Onde procurar uma metodologia para estudar o fenômeno que nos interessa? O primeiro passo poderia ser a afirmação de que essa linguística “cotidiana, simples, profana” estuda fenômenos da língua percebidos conscientemente, enquanto a linguística “secreta, sagrada, poética” procura revelar aquilo que é inconsciente na língua, isto é, diretamente inacessível à consciência. Que tudo depende do ponto de vista fica claro num exemplo simples. A gramática é, sem dúvida, um campo tradicional da linguística. No entanto, podemos olhar para a mesma gramática de dois ângulos. As crianças em idade pré-escolar falam corretamente do ponto de vista gramatical, embora nunca tenham estudado gramática. Quando começam a estudá-la na escola, essa disciplina se mostra cansativa e entediante para muitas delas. Isso é bem conhecido e claro. Assim como, ao andar de bicicleta ou dirigir um carro, executamos algumas ações automaticamente e outras conscientemente, também, ao falar, pronunciamos palavras e frases gramaticalmente corretas de modo automático, enquanto a consciência observa e orienta o contexto significativo. A palavra é a janela pela qual a consciência olha para o significado, mas o significado está imerso no subconsciente humano, e a fronteira entre o consciente e o inconsciente não é fácil de captar...

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conceito. Na seção seguinte, pergunto o que as medições neurofisiológicas da atividade cerebral podem nos oferecer hoje. Nas últimas seções, dedicadas a perspectivas sobre o método, define-se a lenda fonossemântica — objeto de estudo deste artigo.

Uma dimensão especialmente importante da linguagem situa-se entre a univocidade e ambiguidade (em inglês, ambiguity2. Poderia parecer que a univocidade deveria ser o ideal da linguagem. De fato, é assim quando a ambiguidade pode ser perigosa. Uma ordem dada por um oficial deve ser compreendida sem equívocos. As instruções do cirurgião durante uma operação não podem ser ambíguas. A vida dos soldados ou dos pacientes depende disso. Na legislação e em muitos outros campos, busca-se que os termos usados sejam compreendidos sem equívocos. Então, por que há ambiguidade na linguagem? A ambiguidade na linguagem é um fato empírico. É preciso vê-la como fonte de criatividade na linguagem, como garantia de sua vitalidade. Na linguagem sempre houve tanto o termo quanto a palavra poética3.

Em lituano, a hesitação difere sutilmente da dúvida: a hesitação enfatiza a escolha inevitável entre duas possibilidades, enquanto a dúvida designa também um estado que abrange ambas as possibilidades. Podemos dizer que a hesitação é mais característica da escolha mecânica de uma máquina segundo critérios predefinidos e marca um ponto de ramificação de um algoritmo. Já a dúvida descreve o método de funcionamento do instrumento da mente — o cérebro humano. A ambiguidade está hoje no centro das atenções da pesquisa cognitiva (Zeki 2004). Assim se esclarece o lugar de nosso método de pesquisa no sistema das ciências: interessa-nos a linguagem como meio de conhecer o estado da mente. Hoje, essa área é a linguística cognitiva em seu sentido mais amplo (Cuyckens, Geeraerts 2007).

Na linguagem, deparamo-nos com duas direções distintas de escolha. O exemplo mais simples é a homonímia e a sinonímia (ver fig. 2). Quando ouvimos uma palavra polissêmica (por exemplo, baras), estamos num ponto de dúvida. Para decidir, geralmente precisamos aguardar informações adicionais de um ou outro contexto. Na direção oposta, chegamos a um ponto de dúvida quando temos várias maneiras de expressar o mesmo significado: o pássaro voa / o pássaro dispara. Mais uma vez, decidimos recorrendo a informações adicionais.

Conforme a direção, distinguiremos ambiguidade onomasiológica e ambiguidade semasiológica4. A homonímia e a sinonímia não são objeto direto de nossa pesquisa. Uma raiz polissêmica constitui uma ambiguidade semasiológica. A interação entre ambiguidades semasiológicas e onomasiológicas está no próprio cerne do mecanismo de compreensão da linguagem. A univocidade e a ambiguidade não são dois estados discretos, mas os polos extremos de uma dimensão de uma característica importante da atividade mental humana. A mente humana

2 Esse conceito é usado de maneira muito ampla. Importa-nos a perspectiva apresentada por Semir Zeki em seu artigo (Zeki 2004) e em outros trabalhos.

3 Panašiai mano ir Skirmantas Valentas (2012: 12).

4 Cf. Geeraerts 2010: 281–284.

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Lendas fonossemânticas no dicionário da língua lituana

FIG. 2. Homonímia e sinonímia como ambiguidade semasiológica e onomasiológica

o instrumento — o cérebro — não é um computador. A essência da arquitetura dos computadores modernos não mudou desde os tempos de Alan Turing e John Von Neumann. Pode-se dizer que a arquitetura do computador reflete a atividade da mente consciente (Dehaene, Brannon 2011; Zylberberg et al. 2011). Nesse polo da univocidade, o cérebro humano parece desesperadoramente lento em comparação com os computadores modernos. No entanto, até os computadores mais potentes e os programas mais inteligentes ainda não conseguem resolver de forma confiável nem mesmo as tarefas mais simples da mente humana. Von Neumann já intuía por que isso acontece: o maior trabalho da mente humana é realizado inconscientemente, aproveitando mecanismos cerebrais analógicos que operam em paralelo. Stanislas Dehaene descreve assim os resultados de pesquisas minuciosas sobre psicologia da linguagem realizadas ao longo das últimas três décadas:

“Assim, nossa mente inconsciente é suficientemente inteligente para armazenar em paralelo e recuperar da memória todas as associações semânticas de uma palavra, mesmo quando ela é polissêmica ou quando apenas um de seus significados se ajusta ao contexto. A mente inconsciente propõe; a mente consciente seleciona” (Dehaene 2014: 66).

Em pesquisas minuciosas realizadas atualmente, os psicólogos investigam como as crianças compreendem as palavras. A renomada psicóloga Jean Mandler, ao sintetizar essas pesquisas, observa que uma criança de dois anos enfrenta um problema duplo: em que situações usar uma palavra aprendida e qual palavra usar em cada situação concreta (Mandler 2004: 131). Em nossos termos, a criança depara-se com uma ambiguidade semasiológica e uma onomasiológica. A palavra é a mesma, mas significa para a criança algo diferente do que significa para um adulto. Ao comunicar-se, a criança reduz a ambiguidade até que ela alcance o mesmo nível daquela existente na comunidade de falantes. Estes e

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Muitos outros estudos mostram que a dúvida é o polo oposto da univocidade na mente humana, imersa nas águas do inconsciente5.

Como sempre, Marshall McLuhan (em colaboração com o poeta canadense Wilfred Watson) revela de modo original e interessante a relação entre o consciente e o inconsciente em seu livro raramente lembrado Do clichê ao arquétipo (McLuhan 2011 (1970)). Para ilustrar essa transição — do clichê unívoco e fossilizado à dúvida que se segue ao arquétipo, e novamente a um novo clichê —, ele recorre aos versos finais do poema «The Circus Animals’ Desertion», do poeta irlandês William Butler Yeats:

Essas imagens magistrais, por serem completas, cresceram na mente pura, mas a partir de que começaram? De um monte de lixo ou das varreduras de uma rua, chaleiras velhas, garrafas velhas e uma lata amassada, ferro velho, ossos velhos, trapos velhos, aquela rameira louca que toma conta do caixa. Agora que minha escada desapareceu, devo deitar-me onde todas as escadas começam, na imunda loja de trapos e ossos do coração.

Ele chama, seguindo o texto do poeta, a região de nossa mente preenchida por clichês antigos e seus destroços, governada por arquétipos que dão origem a novos clichês, de rag-and-bone shop of the heart. Era uma loja de antiguidades e resíduos da Inglaterra do século XIX, que comercializava trapos (rag) ou até ossos de animais (bones). Como explica o editor da publicação, até os ossos de animais eram uma matéria-prima secundária bastante procurada na fabricação de fertilizantes, cola ou porcelana (McLuhan 2011: vii). Essa região da mente é uma fonte de novas formas e imagens — o mundo dos arquétipos (McLuhan 2011: 104). Nela fervilha a criação poética; nela se apoiam a escada de Jacó, mencionada por Yeats em seus versos. A análise de McLuhan é perspicaz, mas o próprio livro é difícil de ler e tem uma estrutura elaborada. Aqui, importa-nos apenas a inegável analogia com aquilo que os fundadores da psicanálise chamavam de inconsciente e arquétipos, embora este último conceito seja muito vago e dependa do autor que o utiliza. Em lituano, podemos chamar a loja de antiguidades que fica no coração do poeta de farmácia da mente. Dionizas Poška convida ao seu museu dos Baubliai «pessoas de opinião», para que se divirtam, pois — «a farmácia da mente fica sob esse teto». O museu é uma fonte para a imaginação, para que o artesão «de opinião» nela busque imagens e ideias para suas obras. Podemos brincar um pouco com as palavras — afinal, váistas e vaistas são palavras de mesma origem, homógrafas que diferem apenas pela entonação. Wojciech Smoczyński, em seu Słownik etymologiczny języka litewskiego (doravante SEJL), deriva a palavra váistas de uma raiz comum aos bálticos e eslavos, *vaid- «conhecimento (sobre encantamentos para curar doenças)» (SEJL 2007: 713), ao passo que a forma vaistas tem uma raiz secundária do verbo vysti (išvydo), vais-, que ele deriva

5 Outro tema importante associado à dicotomia univocidade/dúvida é a assimetria cerebral (McGilchrist 2009).

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iš prokalbės šaknies *ueid- (SEJL 2007: 762, 763). Vaistas (be kirčio) yra abeją, apimanti vaizdinę (vaistas) (LKŽ: Dievas kalbėjo Izraeliui vaiste) ir veikliąją (váistas) dalį, kuri tinka nurodyti į archetipinį informacijos pobūdį. Jungas tai vadino lotynišku žodžiu imago – pasąmonės turinių telkinio (komplekso) suvokimo schema. Imago apima įvairius pojūčius (kaip šiuolaikinėje psicholingvistinėje literatūroje vadina – modalumus): tai ir regimo vaizdinio schema, ir garsinė melodija ar ritmas, ir lytėjimo, kvapo ar skonio motyvas, bet taip pat ir ritualinio (schematiško) judesio pajautimas savame kūne. Tai ir vaistas, ir váistas. Proto vaistinė (vaištinė ir váistinė vienu metu) tai ta pati pranokėjų Patacko ir Žarskaus vydija (tos pačios šaknies naujadaras!), tai Freudo ir Jungo pasąmonė, tai XX a. pabaigoje psichologų eksperimentuose tiriama implicitinė atmintis (Mancia 2006), tai McLuhano poeto Yeatso kūryboje surasta „sendaičių krautuvėlė širdyje“, tai tie sąmonei tiesiogiai nepasiekiami atminties klodai, iš kurių James’as Joyce’as du dešimtmečius jam vienam težinomais būdais traukė Finegano budynių į kitas kalbas neišverčiamus sakinius. Daugelis žmogaus dvasios tyrinėtojų mėgina pasidairyti proto vaistinėje. Ten pat žvelgia ir Skirmantas Valentas (1997; 2007; 2012) savo trilogijoje, gilindamasis į Antano Baranausko, Vlado Braziūno, Sigito Gedos ir kitų poetų kūrybinę virtuvę.

Os artesãos «de opinião» eram (e continuam sendo) criadores de mitos. O que Claude Lévi-Strauss (1997) escreve sobre o pensamento mítico faz parte do cotidiano do discurso interdisciplinar contemporâneo: «Também em nossos dias, o artesão6 é aquele que faz tudo por conta própria, com as próprias mãos e utilizando, ao contrário do mestre de uma determinada área (especialista), meios de todos os tipos, muitas vezes casuais. [...] Assim, o pensamento mítico é uma espécie de bricolagem intelectual» (Lévi-Strauss 1997: 29). «[...] o pensamento mítico, como bricolagem no plano prático, compõe conjuntos estruturais não utilizando diretamente outros conjuntos estruturais, mas os resíduos e destroços subjacentes aos acontecimentos [...] fragmentos e restos — como fósseis nos quais se reflete a história de um indivíduo ou de uma sociedade» (Lévi-Strauss 1997: 34). «No modelo reduzido, ao contrário do que ocorre quando se tenta conhecer uma coisa ou um ser em suas dimensões reais, conhece-se primeiro o todo e só depois as partes separadas» (Lévi-Strauss 1997: 37).

Já passeamos bastante pelos campos da criação poética e mitopoética. Queríamos apenas certificar-nos de que não estamos de modo algum sozinhos na busca da «linguagem sagrada». Na farmácia da mente, clichês antigos e seus destroços flutuam nas águas do inconsciente sob a forma de imagens e fragmentos de imagens. Não são apenas imagens visuais, mas também combinações de sons (palavras, frases ou melodias), cheiros, sensações, sabores e impressões de emoções de todos os tipos. Essas imagens se tornam nítidas e se desvanecem, combinam-se de todas as maneiras possíveis

6 Na edição lituana, a palavra francesa bricolage foi traduzida como «meistravimas».

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por combinações. É daí que extraem ideias não só os poetas, mas também os matemáticos (Hadamard 1945). Quem organiza essas imagens, qual é a sua gramática?

Os fenômenos fonossemânticos são peculiares porque o sentido é incorporado a processos inconscientes. Esses fenômenos são estudados há mais de um século. Um dos fundadores da psicanálise e criador da psicologia analítica, Carl Gustav Jung (junto com Franz Riklin), iniciou sua carreira científica com experimentos de associação de palavras na clínica Burghölzli, na Suíça, no início do século XX. Ele deu continuidade aos experimentos de Kraepelin e Aschaffenburg, que demonstraram que os participantes, quando descansados, associavam palavras pelo sentido, mas, quando cansados, pela semelhança sonora. Jung refinou as condições. Verificou-se que as associações sonoras, isto é, fonológicas, predominam quando a consciência está amortecida e sua atenção dispersa, por exemplo, logo ao despertar do sono ou simplesmente quando o experimento entedia. Jung concluiu que a atenção concentrada inibe as associações sonoras, enquanto, à medida que a atenção se dispersa, elas se tornam cada vez mais numerosas, até restarem apenas associações sonoras (Kugler 1980: 2–7). Por isso, Paul Kugler (1980: 15) pergunta em sua dissertação: haverá em nossa língua grupos autônomos de associações, ligados foneticamente e dotados de sentido por uma imagem arquetípica?7? Freud também dedicou grande atenção às associações sonoras e aos lapsos de linguagem. É frequentemente citado o caso Rat Man, descrito por ele em 1909 (no qual se associam palavras alemãs: Ratten, Raten, Spielratte, Rita, Heiraten, Rathaus8.

1.3. A mente viva

“Ora, é claro, Harry, isso acontece na sua cabeça, mas quem disse que, por isso, não é real?” (Albus Dumbledore)9

As pesquisas sobre o cérebro, de que trataremos agora, também têm uma história de trinta anos. Aproximadamente na mesma época em que o acadêmico Slavenas desenhava seus esquemas, na Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos, nos arredores do então emergente e famoso Vale do Silício, a cientista americana de origem húngara Marta Kutas queria descobrir como o potencial elétrico do cérebro humano (EEG) reflete a associação semântica de uma palavra com o contexto da frase. A tecnologia moderna permite registrar a reação do cérebro a uma palavra pronunciada, embora o sinal de reação de uma única palavra

7 Alguns anos depois, Paul Kugler desenvolveu suas reflexões no livro A alquimia do discurso, reeditado duas décadas mais tarde (Kugler 2002).

8 Freudo aprašytus atvejus būtina vertinti kritiškai (žr. Sulloway 1991: 255).

9 J. K. Rowling. Haris Poteris ir Mirties Relikvijos. Vilnius: Alma littera, 2008, 572.

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às vezes é dez vezes mais fraco que o próprio EEG. Há décadas os cientistas estudam essas reações, chamadas potenciais relacionados a eventos (em inglês, event related potential – ERP). O ERP dura até um segundo e oscila várias vezes, formando picos e vales característicos. Cada máximo ou mínimo tem suas próprias características, cuja descrição ocuparia muitas páginas. Interessa-nos uma mudança de rumo na pesquisa, ocorrida no final dos anos 1970. A cientista mencionada e seus colegas queriam descobrir como o ERP mudava, por exemplo, na frase Aş nusiskutau ūsius ir barzdą quando a última palavra era substituída de barzdą į miestą (Kutas, Hillyard 1980). A frase torna-se semanticamente incoerente. Os pesquisadores observaram que o segundo pico se alterava e, desde então, é chamado N400. Nos quase vinte e cinco anos transcorridos desde essa observação, o N400 tornou-se um marcador da atividade semântica do cérebro (Münte et al. 2000). Verificou-se que o aumento da amplitude desse marcador mede o esforço necessário para ajustar uma palavra ao contexto da frase. Para esses estudos, o mais conveniente é apresentar frases semelhantes à mencionada. A última palavra pode ser esperada (como barzda) ou inesperada (como miestas). Esse teste é chamado de teste de preenchimento (em inglês, cloze). O ponto essencial que ficou claro de imediato é que o N400 reage não apenas à surpresa, mas a uma grande variedade de parâmetros que refletem a correspondência entre a frase e a palavra.

Após três décadas de pesquisas meticulosas, formou-se uma visão geral aproximadamente como esta. Ao ouvirmos uma palavra ou a lermos na tela, nós a percebemos com um ritmo temporal bastante preciso. No primeiro quarto de segundo, a sensação é analisada até que a palavra seja reconhecida. No segundo quarto de segundo, refletido pelo marcador N400, ocorre o ajuste da palavra percebida ao contexto relevante naquele momento. Em seguida, acontecem o que se pode chamar de correções. Sobre o primeiro quarto de segundo, é importante observar que, ao reconhecer a palavra, todas as informações sensoriais já recebidas são utilizadas imediatamente. Além disso, experimentos psicológicos e medições neurofisiológicas demonstraram que, enquanto a palavra se desenrola, há acesso direto e contínuo à informação semântica, sem esperar que ela seja reconhecida. O segundo quarto de segundo é uma janela temporal precisa durante a qual a palavra já reconhecida é ajustada sobretudo ao contexto da frase, mas também ao conhecimento mais geral que é relevante naquele momento. A janela temporal dedicada ao ajuste não depende das características da informação contida na palavra e no contexto. O intervalo de tempo para perceber a palavra no contexto é dado; quando ele termina, teremos o resultado que foi possível alcançar nesse período. Além disso, é importante não esquecer que tudo acontece inconscientemente. Se não conseguirmos nos orientar, será preciso fazer correções já à luz da consciência. O que é esse contexto do ponto de vista de uma rede neural? Sem dúvida, são os conjuntos neuronais de palavras ativados pela frase ouvida ou vista, bem como outras redes neurais ativadas, que representam informações gramaticais, prosódicas (relacionadas ao acento, à entonação, à duração, à entoação ou a aspectos semelhantes) ou não expressas pela linguagem, e o conteúdo evocado da memória de longo prazo, que suscitou associações. O mais importante é que o cérebro ajusta ativamente a palavra nova. O cérebro

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os mecanismos estão continuamente fazendo previsões, tentando antecipar que informação os aguarda. A palavra não é incorporada mecanicamente a um contexto já existente nem simplesmente acrescentada a ele. A palavra cai na rede que já a está esperando. O exemplo mencionado acima apenas mostra que a palavra barzdą foi prevista e esperada e, por isso, nem sequer foi preciso verificá-la. Isso se refletiu na baixa amplitude do marcador N400. A palavra inesperada miestą, assim como qualquer outra palavra que não se encaixe no contexto da frase, sobrecarrega o cérebro, que procura algum tipo de relação com o contexto. Isso se reflete na amplitude máxima do N400, indicando que o cérebro usou todo o tempo disponível para buscar significado. Naturalmente, nem sempre o contexto é tão restritivo a ponto de haver uma única previsão clara. O contexto muda continuamente, e suas propriedades restritivas também mudam, oscilam. Assim, a previsão do cérebro oscila entre totalmente indefinida e muito específica. O cérebro faz previsões em todos os níveis, desde o reconhecimento de imagens até a compreensão da linguagem e das intenções numa conversa.

O aspecto mais interessante da percepção da linguagem é a forma da previsão da palavra esperada. Descobriu-se que a reação do cérebro não se divide em dois tipos — palavra esperada e inesperada. Entre elas há todo um espectro de reações intermediárias. A amplitude do N400 pode não ser apenas máxima ou mínima, mas também assumir qualquer valor intermediário. Na realidade, a palavra ouvida pode não ser apenas esperada ou inesperada, mas também um pouco esperada ou um pouco surpreendente. Por exemplo, o cérebro prevê a categoria da palavra e espera mais os membros típicos dessa categoria do que os atípicos. Se o contexto indica que a palavra deve ser o nome de alguma fruta, a maçã será mais esperada do que a pera, e ainda mais do que alguma fruta exótica. O cérebro espera mais as palavras frequentes do que as raras, e assim por diante.

O marcador N400 parece ainda não ter sido medido com palavras lituanas, mas seria fácil fazê-lo e testar as considerações apresentadas a seguir. Para destacar a importância desses estudos para o nosso problema, formulemos um exemplo análogo em lituano. Tomemos a seguinte frase: Kas rytą teka saulė. O início da frase, Kas rytą teka, é muito restritivo. Se forem convidados a completar a frase, muitos mencionarão saulę. Um final inesperado para a frase poderia ser, por exemplo: Kas rytą teka drambl ys. Acontece que o cérebro espera palavras não apenas semanticamente, mas também fonologicamente semelhantes às mais prováveis. Isso foi demonstrado por Kara Federmeier, aluna de Marta Kutas, e sua doutoranda Sarah Laszlo, em estudos da última década (Federmeier, Laszlo 2009). Explicarei as conclusões delas com o mesmo exemplo lituano. Enquanto espera o final mais provável — saulė —, o cérebro humano ativa não apenas palavras semanticamente próximas ou que possam ser associadas mėnuo, vanduo, mergina (recorrendo à polissemia do verbo teka), mas também palavras fonologicamente próximas. Poderiam ser palavras que rimam com saulė: sala, sula, siela, seilė ou suolas. A facilitação do processamento dessas palavras se baseia no fato de que são previstas não apenas as associações do contexto semântico, mas também o contexto fonológico, que não precisa ter qualquer interpretação de significado. Portanto

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o resultado provável do experimento deveria ser o seguinte: saulė — amplitude mínima do N400; dramblys — máxima; suolas ou mėnuo — intermediária. Trata-se de um fato sobre a organização do sistema linguístico em nosso cérebro, comprovado experimentalmente. Por que o cérebro ativa não apenas associações semânticas, mas também fonológicas? Muitas evidências indicam que as palavras são reconhecidas sequencialmente, um fonema após o outro. O cérebro opera abrangendo amplamente fluxos paralelos e simultâneos de informação. Não são previstas apenas palavras, mas também fonemas, até que a escolha esteja definitivamente clara. Assim, o reconhecimento de uma palavra ativa todo um conjunto de palavras fonologicamente próximas. Quando a palavra já foi reconhecida, o conjunto de neurônios correspondente à palavra fonologicamente semelhante à palavra esperada já está ativado. Acredita-se que essa estratégia de reconhecimento aumenta a confiabilidade e aproveita eficazmente a vantagem do cérebro — o princípio do processamento paralelo da informação.

Examinamos em detalhe o resultado de um experimento psicológico. Trata-se de uma área de pesquisa chamada neurolinguística, ou, num contexto mais amplo, neuropsicologia cognitiva. A especialização da ciência contemporânea criou abismos profundos entre diferentes disciplinas, e as pontes construídas sobre esses desfiladeiros conceituais mediante experimentos meticulosos e análises teóricas cuidadosas são inseguras e muitas vezes desmoronam de forma irreversível. Talvez seja apenas uma questão de tempo até que a pesquisa cerebral e a inteligência artificial preencham todos esses desfiladeiros num futuro próximo e possamos sentir o terreno firme de uma ciência incontestável? Ainda haverá espaço para a linguística e a psicologia como as conhecemos? Em 2016, no Brain forum, em Lausanne, foram apresentadas iniciativas de pesquisa cerebral em curso nos Estados Unidos, na Europa, na China e no Japão, que já garantiram financiamento de bilhões. Algumas dessas iniciativas e outras pesquisas semelhantes são analisadas no volume organizado por Gary Marcus e Jeremy Freeman, Smegenų ateitis (Marcus, Freeman 2015; cf. Adolphs 2015). No posfácio do volume, Christof Koch e Gary Marcus apresentaram uma previsão para os próximos cinquenta anos da neurociência (Koch, Marcus 2015). Ao anteciparem o progresso das ciências cognitivas, afirmam que, daqui a cinco décadas, o pensamento, a linguagem, as relações sociais e outros fenômenos próprios da mente humana ainda não serão explicados com base na atividade neural do cérebro. Na opinião deles, continuará sem se saber como o cérebro codifica o significado de uma palavra ou de uma frase, apesar de, nessa altura, nanorrobôs já poderem penetrar até o neurônio vivo. Portanto, no próximo meio século, teremos de nos fiar em pontes suspensas...

Essa perspectiva sóbria nos leva a não descartar quaisquer percepções, independentemente de quando e por quais meios tenham sido alcançadas. Compare-se as conclusões que podemos tirar de um estudo de ERP no Vale do Silício com os experimentos psicológicos realizados há um século na clínica Burghölzli. As medições do marcador N400 mostraram que o cérebro humano prevê o final de uma frase (por exemplo, saulė), que ativa todo um fragmento da rede semântica e fonológica a ela associado (por exemplo, mėnuo ou suolas). Essa informação é comparada com a palavra apresentada no experimento.

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Tudo ocorre inconscientemente. À consciência é apresentada apenas uma única interpretação final do sentido da frase. As experiências de Jung e Riklin nos dizem algo mais. Pede-se aos participantes da experiência que apresentem a associação que fazem com uma palavra indicada. Os resultados mostram que as associações podem ser tanto semânticas como fonológicas. Isso corresponde às conclusões do estudo de ERP. Mas as pesquisas realizadas na clínica de Burghölzli mostraram que a natureza da associação depende do estado do sujeito em relação à consciência. Jung chegou à importante conclusão de que a mente consciente procura associações semânticas e suprime as fonológicas. As associações fonológicas irrompem quando a consciência do sujeito está atenuada. Resultados análogos foram obtidos no estudo de pacientes com amnésia, que não conseguiam recordar o fato (memória explícita comprometida) de terem jogado um jogo de computador visual (por exemplo, Tetris), mas, antes de dormir, viam imagens do jogo ou sonhavam com elas (Stickgold et al. 2000). Os psicólogos explicam isso como manifestação da memória implícita.

As pesquisas contemporâneas sobre a consciência distinguem cinco tipos de atividade cerebral inconsciente (Dehaene 2014: 190–197). De acordo com a hipótese do «espaço de trabalho global», um pensamento percebido conscientemente é «retransmitido» amplamente no cérebro por grandes grupos de neurônios. Apenas sinais fortes, os chamados supralimiares, podem entrar no foco da consciência. Pode haver muitos desses sinais no cérebro ao mesmo tempo, mas a consciência seleciona apenas uma sequência contínua de cada vez. Esses sinais não desaparecem: aguardam a atenção da consciência e podem ser amplificados para uma retransmissão global. «A mente inconsciente propõe; a mente consciente seleciona» (Dehaene 2014: 66). Esses sinais fortes, mas ainda à espera da atenção da consciência, são conteúdos cerebrais inconscientes do primeiro tipo. Os sinais do segundo tipo são demasiado fracos para chamar a atenção da consciência. São sinais sublimiares, que desaparecem e permanecem inacessíveis à consciência. Esses sinais não conseguem, por si sós, atrair a atenção da consciência, mas, durante seu breve período de existência, podem influenciar informações que serão percebidas conscientemente mais tarde. A atividade cerebral inconsciente do terceiro tipo abrange todo o automatismo do nosso sistema nervoso, por exemplo, a respiração. O quarto tipo inclui toda a codificação primária das sensações, que precisa ser recodificada antes de entrar no campo da consciência. O que mais nos interessa é o quinto tipo de conhecimento inconsciente, que Dehaene chama de latente. Essa informação está codificada nas conexões sinápticas. Ela começa a ser acumulada ainda antes do nascimento. Durante o primeiro ano de vida, embora a maioria dos neurônios do cérebro humano já esteja em seu lugar, as conexões sinápticas se formam em alta velocidade. Nos dois primeiros anos, o cérebro cresce até metade do tamanho que terá na idade adulta — de um quarto a três quartos de seu volume. No entanto, não nos lembramos de nada dos três primeiros anos de vida (a chamada amnésia infantil). Para onde foi essa informação? Tudo isso é a memória latente. A informação continua lá, mas não está acessível à memória consciente. Nela reside toda a gramática e a fonologia da língua, tão profundamente arraigadas que os responsáveis por projetos de investigação cerebral de bilhões não esperam alcançá-las nos próximos cinquenta anos.

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A memória latente é a mesma farmácia da nossa mente. Não está diretamente acessível à consciência, mas pode ser alcançada pela intuição. Poetas e matemáticos recorrem a essa fonte de criatividade. O matemático francês Jacques Hadamard (1945), com base na experiência de Henri Poincaré, um dos mais célebres matemáticos, que se tornou um clássico, divide esse diálogo em quatro etapas: iniciação, incubação, iluminação e verificação. O matemático não receberá inspiração sem um longo e extenuante trabalho preliminar, que muitas vezes não produz o resultado desejado. O matemático trabalha com formas de pensamento percebidas conscientemente, adquiridas em longos estudos e lapidadas por reflexão intensa. No período de incubação, as combinações de formas de atividade consciente do matemático são mergulhadas num oceano de arquétipos, governado por instrumentos esquemáticos reais, latentes, mas presentes no inconsciente. A iluminação (inspiração) chega quando o inconsciente traz à luz da consciência uma solução inesperada. Sua forma corresponde àquela descrita pela psicanálise — o arquétipo. Ela sempre tem uma carga emocional. Na matemática, a emoção se manifesta esteticamente: a solução inesperada é sempre bela.

1.4. Lendas fonossemânticas

«Terrenos quase intocados da linguística lituana — a relação entre a semântica e a estrutura fonética da raiz»

Audronė Kaukienė (História do verbo da língua lituana, vol. I)

«Ai, gatinhos, meus gatinhos, por que não arastes os campos, por que não semeastes o linho?»

Juozas Tumas Vaižgantas (Dicionário da Língua Lituana)

Audronė Kaukienė escreve no estudo História do verbo da língua lituana: «A relação entre estrutura e semântica é observada há muito tempo. Muitas vezes, destaca-se a relação da estrutura fonomorfológica com a semântica concreta.» Mais adiante, constata: «Terrenos quase intocados da linguística lituana — a relação entre a semântica e a estrutura fonética da raiz» (Kaukienė 1994: 164, 165). Esses terrenos da linguística (mencionados no subtítulo da seção) constituem o território ainda inexplorado pela ciência ao qual se aventuram os pioneiros mencionados na primeira seção. Não há contradição com os fatos linguísticos conhecidos, mas o problema continua sem ser formulado de uma maneira aceitável para a ciência. Por outro lado, esse território só permanece inculto nos estudos da língua lituana. Hoje, grandes grupos de cientistas trabalham nele, utilizando a tecnologia mais avançada, embora os campos semeados de linho, como adverte a sabedoria popular (e os responsáveis por projetos de investigação cerebral de bilhões), ainda exijam um caminho longo e penoso. Trata-se de um território de fronteira entre disciplinas,

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à qual também cabe aos pesquisadores da língua lituana aventurar-se (basta vencer a indolência de um gato à maneira de Vaižgantas...). Como pudemos constatar, por enquanto só se chega a esse território por pontes suspensas. Os especialistas de uma área, agarrados com segurança à sua própria margem, não alcançarão a outra. É preciso correr riscos intelectuais. Uma ponte suspensa não oferece segurança. As hipóteses podem não se confirmar, mas a ciência não conhece outro caminho. O importante é que a ponte que liga duas áreas esteja firmemente ancorada em ambas as margens.

Tomemos um exemplo concreto — o par de verbos lituanos lemti / limti. O SEJL indica a raiz protoindo-europeia *lemH– com um ponto de interrogação, que aparentemente se refere ao significado ‘quebrar’ (pol. łamać) (SEJL 2007: 344). Encontramos essa raiz também no MA, de onde ficamos sabendo que, numa monografia de dimensão enciclopédica sobre o mundo espiritual indo-europeu, essa raiz muito produtiva nas línguas bálticas e eslavas sobreviveu apenas na forma de espíritos noturnos horripilantes: latim lemures e grego lamia (MA 2006: 411). Sem dúvida, no âmbito de assustar crianças, elas podem ser comparadas às nossas laumės. A linguística comparativa, pressionada pela autoridade da tríade clássica (sânscrito, grego, latim), tende a esquecer as palavras bálticas, embora os estudiosos da poética indo-europeia se lembrem delas (cf. West 2007: 384, 386).

Observemos esta simples figura (ver fig. 3), que já vimos centenas de vezes em textos de estudos econômicos e sociológicos.

FIG. 3. Esquema da parte em relação ao todo

Ela costumava estar rodeada por outras figuras semelhantes e coberta de números. Trata-se de um esquema imagético que indica a relação do todo com sua parte. O esquema imagético (ing. image schema) é um dos principais instrumentos da linguística cognitiva10. Aqui, importa-nos apenas lembrar que um esquema imagético não é uma figura ou um desenho (que pode ser completamente diferente), mas um modelo primordial do pensamento para o qual a figura apenas aponta (Cuyckens, Geeraerts 2007).

No LKŽ ainda temos uma palavra para designar a parte de um todo:

10 Terminą „vaizdinys“ vartoju pagal Jakaitienės vadovėlį (Jakaitienė 2010: 45).

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FIG. 4. Metáfora conceptual

1 lãmas 1. ‘parte, pedaço, fragmento de algo’11 I Como você engoliu tão rápido um pedaço tão grande de bolo! Ms.

Os verbos com L/M na raiz e o sentido de ‘quebrar’ parecem já não ser usados (por exemplo, lamėti ‘quebrar-se’, cf. eslavo lomati). Há muitos substantivos: lãmas ‘parte, pedaço de algo, área de terra, lote’, lamatà ‘quebra violenta (durante uma tempestade)’, lomà ‘área de terra baixa, vale, pedaço, torrão, área de terra, lote’. A palavra luomas nos transporta para o âmbito social. O LKŽ apresenta os seguintes significados: ‘grupo social constituído segundo a origem, a riqueza ou a ocupação’; ‘situação familiar’; ‘espécie, origem’; ‘área, lote, pedaço’; ‘classe de números’. A forma feminina correspondente luoma, além do primeiro significado de luomo, tem ainda outros: ‘felicidade, destino’; ‘vez, turno’; ‘limite temporal, prazo’.

Todos sabem o que significa a palavra laimė. Conhecemos suas relações com as palavras lemti, likimas. Neste ponto, é preciso fazer uma pausa e remeter ao segundo capítulo, detalhado, do estudo de Algirdas Julius Greimas, “Aušrinė e Laima” (Greimas 2005b). Nele são reveladas

11 Neste artigo, os objetos elementares são os lexemas do LKŽ (com apenas alguns exemplos do DLKŽ). Os lemas são escritos em negrito e numerados. Uso os termos “lexema” e “lema” segundo a definição de Jakaitienė (2005; 2010), mas em sentido restrito, como objetos estruturais do LKŽ.

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FIG. 5. Roda de Rėda

relações entre felicidade e destino, felicidade e fado, Laima e Laumė no amplo contexto do folclore lituano. O conteúdo semântico do léxico e da mitologia lituanos é representado da forma mais geral na Figura 4. As setas atribuem uma estrutura esquemática a cada domínio (frame) ou transferem-na de um domínio para outro. A linguística comparativa, sem se interessar pela estrutura cognitiva dos significados das palavras, reduz o mundo espiritual indo-europeu ao nível de (neste caso) espantalhos infantis. Este é apenas um exemplo que mostra que a linguística comparativa deveria assumir pelo menos parte da responsabilidade pela referida «colher de alcatrão».

Vejamos outro exemplo, que a linguística formal rejeita automaticamente. Patackas e Žarskus organizam as transformações na Roda de Rėda (ver Fig. 5) (Patackas, Žarskus 2013: 10; Patackas 2014: 87).

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FIG. 6. Esquema do verbo 2 nókti

Nada impede que palavras de som semelhante (nokti – nykti) ou invertidas (migti – gimti) sejam usadas para nomear relações de transformação. A linguística tradicional rejeita qualquer relação entre esses pares de palavras e a ciência da linguagem. Consideremos o par de palavras nokti / nykti. A linguística comparativa reconstrói as seguintes raízes da língua protoindo-europeia: *neh₂k- / *nik- (SEJL 2007: 427, 425). São raízes diferentes e famílias etimológicas diferentes. Com isso, o interesse termina12. Como vimos, o conteúdo cognitivo da semântica não interessa muito aos linguistas. Ainda assim, valeria a pena investigá-lo.

Antes de mais, é necessário observar que a própria forma verbal nokti abrange a oposição semântica atribuída, na Roda de Rėda, ao par de palavras nokti / nykti: 1 nókti 1. ‘amadurecer (frutos, cereais)’ 1 nókti 4. ‘enfraquecer, diminuir’

Recordemos também o verbo que está a cair em desuso: 2 nókti 1. intr. ‘ir, seguir atrás’ 2 nókti 2. tr. ‘perseguir, defender-se’

A estrutura deste conjunto de significados pode ser representada como duas metáforas conceptuais (Cuyckens, Geeraerts 2007). O conteúdo do verbo 2 nókti, ‘ir, seguir atrás; perseguir, defender-se’, é expresso pelo desenho da Figura 6.

No ponto P, quem perseguia panoko ‘alcançou’ e pranoko ‘ultrapassou’. A primeira metáfora {2 nókti → 1 nókti 1. ‘amadurecer’} transfere a estrutura do desenho do espaço do movimento

12 Cf. Karaliūnas 1995: 8.

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do domínio para o domínio da natureza, onde o ponto P assinala o ápice da maturidade. A mesma metáfora também se reflete no verbo prieiti:

1 prinókti 1. ‘amadurecer, chegar’

prieiti 1. ‘aproximar-se (de algo) caminhando’ Chegou à extremidade da ponte.

prieiti 13. ‘amadurecer, ficar maduro’ Este ano o centeio amadureceu mais cedo.

Outra metáfora apresenta uma inversão de valor:

{2 nókti → 1 nókti 4. ‘enfraquecer, declinar’}

O ponto culminante corresponde não ao positivo, mas ao negativo (Nōks nōks i nu-nōks (numirs)). O verbo nykti evita a incómoda inversão. Assim, a estrutura cognitiva completa de ambos os verbos é descrita por duas metáforas deste tipo:

{2 nókti → 1 nókti 1. ‘amadurecer’} + {1 nókti 4. ‘enfraquecer, declinar’ ← 1 nýkti}

O primeiro exemplo foi apenas uma leve censura aos linguistas que trabalham no campo da linguística comparativa, por (evidentemente) se aprofundarem pouco na semântica contemporânea; no entanto, este exemplo suscita questões. A estrutura apresentada é uma organização cognitiva ao nível do uso lexical refletido no LKŽ (cuja precisão é sincrónica ao longo de vários séculos e da distribuição espacial dos dialetos). Pelos seus significados, ela abrange naturalmente não só palavras de uma única família etimológica, mas também «vizinhos» fonológicos13. A questão para os linguistas é precisamente como tais estruturas se formam. A evolução das metáforas conceptuais é objeto de amplo debate (Fusaroli, Morgagni 2009). A linguística cognitiva reconhece a importância da metáfora na mudança linguística. Que evolução atesta a estrutura semântica de nokti / nykti é uma questão que exige investigação cuidadosa. O verbo 2 nókti, que constitui a base espaciotemporal da metáfora conceptual, já desapareceu do uso, embora a ação eventiva 2 pranókti continue a ser uma fonte produtiva de novas metáforas (pode-se verificar isso introduzindo esta palavra no programa Google). Ao esquema apresentado, seria ainda necessário acrescentar um ponto de transformação, que o verbo noko ilustra belamente em duas canções folclóricas:

Não brotou a arruda, não brotou a hortelã, não brotou o lírio, não brotaram os meus dias jovens como a verdinha arruda (d.) Gs. No jardim brota a rosa, brota o lírio, brota a minha juventude junto ao rapaz travesso LTR (Mrk).

O LKŽ e o DLKŽ apresentam estas frases sob o significado de ‘perder o viço, murchar’ (o DLKŽ apresenta apenas a primeira parte da frase). É interessante que o professor Smoczyński perceba a ambiguidade, traduzindo a frase de duas maneiras: «Dojrzewała (= amadurecia) ruta, dojrzewała mięta, dojrzewała lilia, jak zielona rutka więdły (= murchavam) dni mej młodości». A tradução ou a substituição dos verbos revela e fixa uma interpretação específica. A beleza incomparável do folclore reside na ambiguidade: o mesmo verbo nokti aparece por toda a parte, mas, na primeira parte da frase, tende ao significado de ‘amadurecer’, enquanto, na frase final, emerge a ameaça de ‘perder o viço,’

13 Plg. Federmeier, Laszlo 2009.

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‘murchar’. Este é o ponto de viragem que reside na essência dos costumes nupciais e da festa de Rasos. Infelizmente, a linguística na Lituânia continua indiferente à ambiguidade.

Os significados das palavras mantêm entre si uma relação paradigmática. Nas frases A flor amadurece ou A maçã amadurece, o sentido depende do significado que escolhemos para a palavra noksta: 1 nókti 1 ‘amadurecer’ ou 1 nókti 3 ‘perder o viço, murchar’. Na frase Nóko rūta, nóko mėta, nóko lelijėlė, nóko mano jaunos dienos kap žalia rūtelė, porém, na interpretação SEJL, os mesmos significados mantêm uma relação sintagmática: primeiro noksta, depois vyksta. Este sintagma situa-se não no nível da sintaxe da frase, mas no da estrutura narrativa. Compare-se três variantes desta frase:

Nóko rūta, nóko mėta, nóko lelijėlė, nóko mano jaunos dienos kap žalia rūtelė = ambiguidade no folclore;

Vyto rūta, vyto mėta, vyto lelijėlė, vyto mano jaunos dienos kap žalia rūtelė = interpretação do LKŽ e do DLKŽ;

Brendo rūta, brendo mėta, brendo lelijėlė, vyto mano jaunos dienos kap žalia rūtelė = interpretação SEJL.

A primeira frase, como referido, é uma ambiguidade que confere ao folclore abertura interpretativa. A segunda frase substitui a palavra nóko pelo sinónimo proposto pelo LKŽ. A terceira frase é uma tradução de retorno do polaco.

Do ponto de vista formal, a interpretação do LKŽ está correta. O dicionário reflete a visão de mundo do agricultor, que se formou ao longo de não apenas um milénio. A língua é muito sensível e precisa quanto a aspetos importantes do ambiente habitado. O significado principal do verbo 1 nókti é ‘amadurecer (frutos, cereais)’. Não se pode dizer isso de uma flor. Isso fica claro nesta frase:

A papoila, ao florescer como uma rosa, ganha poros, abre-se; quando amadurece, desfaz-se em sementes ao ser sacudida pelo vento B.

A papoila primeiro floresce (como uma rosa) e depois amadurece. A flor não amadurece, mas floresce até murchar. Amadurecem o fruto, o grão e a semente (desfaz-se em sementes ao ser sacudida pelo vento). Mas a juventude floresce, amadurece e murcha:

Petniūnas não confiava nos pretendentes e não se atrevia a aceitar um genro em casa, embora a filha fosse amadurecendo, amadurecendo, até passar do ponto e perder o encanto da juventude rš. (LKŽ).

Esta frase, assinalada no LKŽ como figurada, isto é, como metáfora conceptual, transfere um esquema da vegetação para a natureza biológica humana. A juventude pode ser comparada tanto à flor de um lírio como a uma maçã que amadurece e, infelizmente, a um fruto passado ou a uma flor murcha. Este ponto de viragem é expresso de forma bela e conceptualmente precisa no esquema do ciclo de Rėda, mas interessam-nos os aspetos da expressão na língua. Ao substituirmos, com precisão formal, nóko por vyto na frase, perdemos toda a essência poética do folclore. O verbo vyto não tem ambiguidade e, por isso, não abre ao leitor (nem ao ouvinte — afinal, é uma canção!) acesso ao ponto de viragem (tal como o formularia a ciência cognitiva

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psicolinguística). A interpretação do SEJL, sacrificando a precisão14, tenta construir essa abordagem. O ponto de virada é revelado no nível consciente racional, como desenvolvimento discursivo (amadurecia a pequena líria > murchavam meus dias de juventude). O folclore usa a ambiguidade inerente ao verbo nokti para abrir um acesso inconsciente ao ponto de virada. Essa é a diferença entre prosa e poesia.

Esse conteúdo, sem dúvida, duradouro, não encontra lugar nos estudos de linguística comparativa, embora o SEJL, ao reconstruir a forma *neh₂k-, não tenha dúvidas quanto à origem indo-europeia da raiz. Será que esse conteúdo, central para a visão de mundo do agricultor, veio da protolíngua ou foi criado nas línguas bálticas, como os locativos posposicionais, e agora já está desaparecendo? Essas são as questões suscitadas pela análise cognitiva. O DLKŽ mostra como esse campo semântico amplo e profundo está se fragmentando. A língua muda inevitavelmente. O que deve ser preservado e o que não importa: essa é a questão fundamental. Não comentarei nem questionarei a importância da estabilidade da expressão (e da ortografia). Aprendemos a língua inconscientemente; por isso, os mecanismos da percepção inconsciente são decisivos para a vitalidade da língua. Para sabermos o que e como preservar, é preciso estudá-la minuciosamente.

Vejamos agora a quarta variante da frase, na qual o último verbo nokti foi substituído pelo verbo nykti.

Murchou a arruda, murchou a hortelã, murchou a pequena açucena; meus dias de juventude feneceram como uma verdinha arruda.

Ele é apresentado não para substituir a letra da canção. Não há mais nada a acrescentar ao que foi dito sobre a ambiguidade. A expressão desta frase (nokti / nykti) mantém a ambiguidade na primeira parte da frase (nóko lelijėlė), mas revela à consciência a ameaça na segunda parte (nyko mano jaunos dienos). No folclore, o ponto de virada está profundamente submerso na polissemia do verbo nokti. Essa frase traz o ponto de virada ao nível da consciência (assim como a interpretação do SEJL), mas ele continua submerso no inconsciente por meio da semelhança fonológica. Não se trata de nenhum fato linguístico novo que contradiga as conclusões da linguística comparativa. É uma referência a um conjunto semanticamente relacionado, que abrange as duas formas de raiz da protolíngua. O todo semântico (gestalt) abrange na língua os dois núcleos etimológicos, que, do ponto de vista fonológico, estão a uma «distância apofônica». O exemplo de Nokti / nykti motiva a denominação lenda fonossemântica. Lenda é um termo do nível narrativo. Este artigo se dedica à metodologia de busca e descrição dessas estruturas. Neste exemplo, a lenda fonossemântica abrange todo o continuum expressivo do LKŽ: nokti, nykti, neikti, niūkti, [...] niekas, naktis [...] etc. A base da gestalt semântica é formada pelo par de metáforas mencionado e pelo ponto de virada. Do ponto de vista da «alquimia do discurso» de Paul Kugler, trata-se de um conjunto de palavras foneticamente próximas, unificadas por um campo de sentidos emocionalmente muito motivado

14 Dojrzewala é traduzido no dicionário como «amadurece, fica maduro». Como vimos, o LKŽ não atribui esses significados às flores. Não me atrevo a decidir se a palavra polonesa dojrzewala pode ser usada não apenas para frutos, mas também para flores.

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do todo — imago. A propósito, a ameaça do ponto de virada associado a nokti / nykti, descrita detalhadamente no Livro das Transformações, é a mesma de que trata o exemplo principal do estudo do psicanalista (a perda da virgindade; Kugler 1980: 11). No entanto, falta estrutura organizacional ao complexo de conteúdos inconscientes descrito pelos psicanalistas. Os arquétipos do inconsciente coletivo de Jung captam apenas características muito gerais. Aqui é preciso construir uma ponte para uma rocha mais sólida: a matemática. O psicólogo suíço de origem chilena Rafael Núñez (atualmente na Universidade de San Diego, na Califórnia), ao analisar a correspondência de Jung com o famoso físico Wolfgang Pauli, observa uma correspondência conceitual entre os arquétipos do inconsciente coletivo e os esquemas imagéticos usados na linguística cognitiva (Núñez 2008: 9). Núñez, juntamente com um dos fundadores da linguística cognitiva, George Lakoff, revelou, no fim do milênio, a estrutura cognitiva do pensamento matemático (Núñez, Lakoff 1998; Lakoff, Núñez 2001). Esses são os primeiros passos rumo ao estudo científico da análise da criatividade matemática realizada por Hadamard há meio século, já mencionada por nós (ver 1.3). Hoje, os pesquisadores que trabalham nessa direção utilizam tanto métodos da linguística cognitiva e da psicologia quanto medições neurofisiológicas da atividade cerebral (ver Núñez, Marghetis 2014; Marghetis, Edwards, Núñez 2014; Dehaene, Brannon 2011; Dehaene 2014).

1.5. A elaboração de lendas fonossemânticas

«E, também em nossos dias, o faz-tudo é aquele que faz tudo por conta própria, com as próprias mãos e usando, ao contrário do especialista de uma determinada área, os mais diversos meios, muitas vezes casuais.»

Claude Levi-Strauss

Em resumo, podemos dizer que a lenda fonossemântica é um conjunto de palavras foneticamente próximas cujos espaços semânticos de significado, tempo e dinâmica de forças (ELD) formam um todo, que frequentemente adquire carga emocional. Onde procurar essas lendas? Resposta: no LKŽ. Kugler se interessa pelas manifestações do inconsciente na psique humana e estuda os casos em que conjuntos de palavras foneticamente próximas podem ser discernidos em sonhos ou visões. Na doença dessa psique (o caso do Rat Man descrito por Freud) ou nos lapsos de fala, manifesta-se o estado da psique individual. É possível procurar lendas diretamente na língua, em textos criados ou na própria estrutura do dicionário. Como vimos, o folclore oculta uma estrutura cognitiva na polissemia da palavra — a ambiguidade. Sintagmaticamente, desenvolve as ressonâncias através dos paradigmas de flexão e derivação (LKŽ: Aš keleivis keleivėlis, keleliu keliavęs KlpD20). Textos

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A tradição oral, ao que parece, não cria sequências de palavras não aparentadas, mas foneticamente semelhantes (cf. nóko lelijėlė / nyko mano jaunos dienos). Textos desse tipo teriam sido notados e estudados. O problema pode ser ilustrado com um pequeno texto artificial. Compare-se três histórias sobre corvos:

I. Esperam três corvos. Um voou para longe, outro ficou, e o terceiro continua à espera.

II. Três corvos-pretos esperavam numa gaiola. O tempo passava depressa. «Já é hora», disse um dos corvos e voou para fora. O segundo corvo-preto ficou. Tinha segurado um queijo no bico e pensava: «estou com fome, não me vão dobrar». O terceiro corvo-preto continuava à espera. Era mantido pela saudade da casa natal. «Nunca mais», grasnou ele.

III. Três corvos-pretos pousavam na gaiola. A vida passava. «Já é hora», disse um dos corvos e voou para fora da gaiola. O segundo corvo-preto não voou. Tinha um queijo no bico e pensava: «não comi, não me obrigam». O terceiro corvo-preto ficou por mais tempo. Era atraído pela saudade da casa natal. «Nunca mais», grasnou ele.

Os sujeitos da primeira história são três corvos, e todos os verbos têm a mesma estrutura consonântica das raízes, L/K, embora não sejam necessariamente aparentados, pois pertencem a diferentes famílias etimológicas (laukti < *leuk; lėkėti < *lek; likti / laikyti < *leiku / *liku). A segunda história apresenta ainda outras palavras com a mesma estrutura de raiz, L/K (laikyti, lenkti, alkti, laukan, laikas). Os corvos são substituídos por corvos-pretos, que têm muitas associações na tradição oral; o queijo remete para o enredo conhecido de uma fábula, e a expressão «nunca mais» lembra aos admiradores da poesia de Edgar Poe o famoso poema «O Corvo» (em inglês, The Raven). A terceira história já não contém nenhuma palavra com raízes do tipo L/K, mas o seu enredo quase não mudou.

Ninguém cria textos do primeiro tipo nem fala assim. A segunda história desenvolve o núcleo semântico dos verbos da primeira, recorrendo a raízes do mesmo tipo (exceto na última frase). A terceira história conserva a estrutura cognitiva do discurso, embora todas as ligações fonológicas tenham sido eliminadas. É assim que são os textos da língua. Mas a estrutura da língua não desapareceu. Como vimos, experiências psicológicas e até medições precisas da atividade elétrica cerebral atestam que, em mecanismos inconscientes, as palavras se associam tanto semanticamente quanto foneticamente. Desse modo, as unidades fonossemânticas manifestam-se e influenciam o pensamento e a linguagem. Os psicanalistas observam-nas nas suas pesquisas. Na língua, estão firmemente estabelecidas em paradigmas morfonológicos. Mas nem tudo está registado nas gramáticas. Por isso, a resposta é: as narrativas fonossemânticas residem na estrutura cognitiva dos significados das palavras do LKŽ.

Não encontraremos narrativas fonossemânticas nos textos. É preciso encenar uma narrativa fonossemântica. Começaremos pela parte fonológica, selecionando um conjunto de palavras cujas raízes tenham a mesma estrutura. Em seguida, recorrendo à linguística cognitiva,

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com a técnica da linguística, estruturaremos o conteúdo semântico de espaço, tempo e dinâmica do espaço de significados das palavras do conjunto.

Observemos a Figura 7, que ajudará a mostrar que o método utilizado neste estudo não contradiz os factos linguísticos conhecidos, mas antes os complementa. Podemos olhar para a mesma coluna de formas de palavras do ponto de vista da linguística (à esquerda) ou de uma perspetiva extralinguística (à direita)15. Examinemos mais atentamente ambos os modos. As formas das palavras estão dispostas verticalmente segundo a vogal da raiz (incluindo a ausência de vogal, ø). As raízes de todas as palavras têm o mesmo esqueleto consonântico (que indicaremos como K/L, distinguindo as raízes vocalizadas das não vocalizadas: K-L e KL-). À esquerda, assinalei as formas reconstruídas da raiz protoindo-europeia, aqui e noutros lugares (salvo indicação em contrário), com base no Słownik etymologiczny języka litewskiego. de Smoczyński. Assim, as raízes vocalizadas pertencem a duas famílias etimológicas diferentes, e os verbos kloti, klėsti e klysti também não são aparentados entre si.

Os verbos kelti / kilti, kalti / kulti, kloti, klėsti, klysti são fonologicamente semelhantes. Pode-se afirmar que a sua semelhança fonológica é igual à alternância das vogais da raiz (ablaut). Kelti / kilti são palavras aparentadas; por isso, a diferença entre as suas estruturas é atribuída ao ablaut. Kelti / kalti não são palavras aparentadas, e a sua semelhança fonológica não é atribuída à alternância vocálica da raiz, embora as vogais da raiz difiram do mesmo modo que em kelti / kalnas. A relação entre as vogais da raiz de kelti / kloti não é, em lituano, atribuída de modo algum ao ablaut, mas esse grupo consonântico ocorre em palavras aparentadas de outras línguas (Smoczyński 2006). Podemos agrupar as raízes de acordo com a sua estrutura consonântica (ver Fig. 8). O esquema foi elaborado selecionando do SEJL todas as famílias etimológicas com o esqueleto consonântico lituano correspondente. Chamaremos feixe de raízes (ŠP) ao conjunto de raízes que, a partir de um nó, se estende para baixo na direção das setas. Por exemplo, o ŠP K-L é composto por raízes com os seguintes esqueletos: K-L; K-LB; K-LP16. Os números indicam a quantidade de famílias etimológicas. Encontrámos sete dessas famílias no ŠP L/K e até dezanove no K/L. A essência da nossa investigação não depende da precisão desta distribuição. Uma metodologia diferente ou possíveis erros na interpretação dos dados da fonte não alteram a conclusão principal — a abundância de grupos de significados discretos, não relacionados entre si.

15 Claude’as Vandeloise’as (Vandeloise 2010: 171) savo erdvinių žodžių genezės sistemoje lingvistinį požiūrį vadina vidiniu (an. internal lexical formation), o ekstralingvistinį – išoriniu (external lexical formation) kalbos sistemos atžvilgiu. Jo sistema remiasi ekstralingvistiniu erdvės sąvokų genezės mechanizmu (plg. skirsnyje 2.1 minimą Herberto Clarko P- erdvės ir L- erdvės skirtį).

16 Esta notação é ambígua — designa igualmente o próprio esqueleto consonântico e o feixe de raízes que começa por ele. Isso não causa confusão, pois o contexto deixa claro de que se está a falar.

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FIG. 7. Raízes com as consoantes K/L

Trata-se apenas de uma organização da informação — não se atribui nenhum conteúdo linguístico ao ŠP. Contudo, o ŠP foi elaborado com base não na fonética, mas na linguística comparativa (por exemplo, lizdas pertenceria ao ŠP S–D)17.

17 Nisso, a elaboração do ŠP difere do esquema de Paulius Slavėnas, que se baseia na fonética (ver a primeira seção).

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FIG. 8. Ninhos etimológicos com as consoantes K/L

No LKŽ encontramos os seguintes significados principais dos verbos: kélti 1. ‘erguer algo pesado’ 1 kálti 1. ‘bater com um martelo, impelir golpeando, cravar’ klóti 1. ‘estender, pôr, deitar algo sobre uma superfície’ 1 klė́sti 1. ‘varrer, andar varrendo, varrer’ klýsti 1. ‘seguir por um caminho errado, desviar-se inadvertidamente do caminho certo’

A comparação direta desses significados parece arbitrária. Do ponto de vista da semântica tradicional ou estrutural, esses significados não oferecem fundamento para relacionar verbos não aparentados. A metodologia de Greimas permite distinguir movimento linear (kelti, kalti) e não linear (kloti) (ver Greimas 2005a: 64; Nastopka 2010: 144)18. A metodologia estruturalista, baseada na oposição entre oposições, para aqui. A estrutura cognitiva do espaço não se revela a ela. A perspectiva da linguística cognitiva não estuda os significados das palavras em um sistema linguístico fechado, mas se baseia em leis gerais do pensamento—

18 Estritamente falando, segundo a análise de Greimas, o significado do verbo kloti pertence não apenas aos eixos semânticos da espacialidade, mas também aos da horizontalidade (lateralidade). Isso não é relevante para a discussão a seguir.

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mento, isto é, em nossa figura, chega à palavra pelo lado extralinguístico (direito). Essa perspectiva não contradiz os fatos da linguística comparativa, mas os complementa. O fato de que raízes vocalizadas expressam movimento linear (kelti para fora da superfície; kalti — de volta à superfície), enquanto raízes com o grupo consonantal KL- expressam movimento não linear, é um fato empírico. Para o sistema linguístico do lituano, esse fato é extrassistêmico e, por isso, parece arbitrário. O método cognitivo encontra lugar para esse fato no sistema extralinguístico da percepção espacial.

A extremidade esquerda da figura 7 está firmemente ancorada na margem da linguística comparativa. Somente um especialista com vasta experiência pode sugerir ali alguma correção confiável. Para construirmos uma “ponte suspensa”, também precisamos ancorar com segurança a parte direita (extralinguística). Como já foi mencionado, os métodos da linguística estrutural deixam de funcionar aqui. Permanecemos no campo discreto de ninhos etimológicos sem relação semântica. Dentro de um ninho etimológico, a relação semântica é obrigatória (a menos que tenha se apagado ao longo da evolução da língua), ao passo que, entre ninhos, as relações semânticas são arbitrárias em relação à fonologia. É fácil projetar o ŠP sobre o conjunto de significados do LKŽ. Os elementos básicos de nosso estudo são lexemas do LKŽ. Não questionamos nenhuma descrição de significado. A perspectiva extralinguística altera substancialmente a relação entre lexemas nos casos em que as raízes apresentam uma estrutura ELD profunda e rica. Isso não significa que o dicionário deva ser reescrito, mudando-se a ordem dos lexemas. A ELD reorganiza os lexemas de maneira não linear — já não se trata de um fragmento de dicionário, mas de um episódio de uma rede semântica.

O lado direito da figura 7 mostra os esquemas mais gerais de ELD, correspondentes a diferentes grupos de palavras. Ao erguer um objeto, retiramo-lo da superfície e colocamo-lo acima dela. Ao martelar, fazemos o contrário: devolvemos o objeto à superfície. Ambos os movimentos são lineares, isto é, unidimensionais. Ao estender algo, fazemos coincidir superfícies bidimensionais. Esse raciocínio fará sentido quando indicarmos o conjunto comum desses esquemas, um certo gestalt, em relação à estrutura do qual os significados das palavras se relacionam ou diferem. Esse conjunto é gerado pelos verbos principais kelti e laikyti em seus significados principais. O conteúdo conceptual do verbo kelti remete à atração terrestre, ou gravidade. A experiência da gravidade evoca um frame de referência espacial (AF) de determinada estrutura e restringe a natureza da dinâmica das forças. Uma característica essencial é a divisão do espaço tridimensional isotrópico em uma superfície bidimensional, que permanece isotrópica, e uma direção vertical unidimensional. Os objetos têm peso e os erguemos verticalmente para cima, mas o peso dos objetos é igual em toda a superfície terrestre. A tarefa do segundo capítulo é mostrar que os significados das palavras K/L do ŠP são vocalizados segundo o AFK-L, no qual a superfície bidimensional é ilimitada, e L/K segundo o AFL-K, no qual a superfície bidimensional é limitada e fechada. Todas as observações de nosso estudo, como mencionado acima, são condicionadas pelos princípios do sistema linguístico (selecionamos apenas palavras de origem báltica, excluindo onomatopeias e empréstimos), mas não são por ele limitadas. Em outras palavras, o estudo não contradiz os fatos linguísticos conhecidos,

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mas os complementam. De onde vem essa informação adicional? A lexicologia delimita seu objeto de estudo em relação à gramática. Ela estuda apenas os nomes e o conteúdo de seus significados, invariável no que diz respeito à flexão. No entanto, as estruturas de ELD geralmente se manifestam na informação gramatical. Os sistemas hierárquicos que geram conceitos espaciais são ilustrados por preposições de várias línguas. Talmy fundamenta sobretudo a classificação das formas de dinâmica de forças em estruturas sintáticas. O sistema gramatical da língua lituana também dispõe de meios de expressão análogos, mais ou menos sistematizados. Em nossa pesquisa, a fonte de informação é a distribuição do conteúdo dos significados de raízes fonologicamente próximas (incluindo a polissemia). Em outras palavras, buscamos na lexicologia das palavras a informação de ELD que geralmente reside nas formas gramaticais de expressão. A informação gramatical costuma ser criada pela combinação de morfemas significativos. No nosso caso, a informação de ELD reside na própria raiz. A palavra namas é dividida em morfemas – a raiz nam- e a terminação -as. A informação transmitida pelo morfema nam- (o conceito de casa) e por -as (o caso nominativo) é somada por composição à informação transmitida pela palavra namas. Essa abordagem é característica das tradições linguísticas estruturalistas ou generativistas. Hoje, ela já não é suficiente. Isso não significa que a abordagem esteja errada, mas que é limitada. Ela revela apenas um aspecto do fenômeno. A tradição da linguística cognitiva adota outra perspectiva. Em primeiro lugar, embora a informação lexical (transmitida pela raiz) e a informação gramatical (transmitida pela terminação) sejam essencialmente de natureza distinta, ambas são significativas (Talmy 2000: 21; Langacker 2008: 18). A gramática não consiste em regras: ela tem conteúdo semântico. A raiz (nam-) dá acesso à memória enciclopédica por meio de um frame ao qual o contexto específico remete. A terminação (-as) dá acesso ao paradigma gramatical: à rede de formas flexionais ou derivacionais na qual nam- é um invariante fonológico. A raiz não tem significado. Apenas as palavras têm significados. Cada significado de uma palavra é um invariante de uso. É assim que o LKŽ foi organizado. Cada lexema apresenta um lema (que representa um paradigma flexional), sua definição (o invariante semântico do uso) e exemplos de uso. O SEJL apresenta uma sequência de transformações fonológicas, desde a raiz indo-europeia ou báltica reconstruída até a raiz da palavra. Em sentido estrito, apenas o lexema tem significado (descrito pela definição fornecida pelo LKŽ), e o conteúdo semântico da palavra (salvo exceções suficientemente raras e pouco interessantes) é constituído pela totalidade dos lexemas que lhe pertencem. Essa totalidade não é apenas uma lista numerada de lexemas; inclui a motivação semântica da relação entre os conteúdos (definições) dos lexemas. Assim, o significado da palavra apresentado como significado principal representa todo o sistema motivado de significados da palavra. O conteúdo semântico de uma família etimológica abrange o sistema motivado de todos os significados de todas as palavras aparentadas. A escolha do significado principal de uma palavra suscita muitos problemas sincrônicos e diacrônicos para os lexicógrafos (Jakaitienė 2005: 2010). Além disso, o «significado principal» atribuído a uma raiz reconstruída raramente representa adequadamente a estrutura semântica de toda a família.

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Isso é particularmente evidente quando consideramos apenas o conteúdo semântico de uma família etimológica de palavras lituanas (ou bálticas), enquanto o «significado principal» é imposto pela autoridade das línguas clássicas19. O rico conteúdo semântico da família lituana, apresentado no LKŽ como na palma da mão, é simplesmente ignorado. Cultiva-se o hábito pernicioso de pensar na raiz (da palavra ou reconstruída na protolíngua) como portadora de significado, e esse significado é frequentemente manipulado. É necessário mudar essa abordagem da semântica. Um pensamento mais preciso (no sentido da ciência da semântica) deve considerar o conteúdo semântico da sequência {lexema < palavra < raiz < raiz reconstruída} como a revelação gradual da ambiguidade de ambas. O lexema expressa a aspiração final à univocidade na linguagem consciente. A raiz reconstruída apresenta o maior grau de ambiguidade. É nessa perspectiva que podemos falar da significatividade de um par de consoantes. Isso, a rigor, tampouco é um significado, mas um conjunto motivado de todas as palavras e de todos os significados. A narrativa fonossemântica é precisamente o sentido do par de consoantes – seu conteúdo semântico motivado. Podemos prolongar a sequência: {lexema < palavra < raiz < raiz reconstruída < narrativa fonossemântica}.

A conexão entre as estruturas do par de consoantes e de ELD também é indicada pelas simetrias e pelas chamadas leis nokti / nykti mencionadas por Patackas, bem como pela rede de raízes de Slavenas. Essas intuições precursoras não foram reconhecidas pela ciência da linguagem porque, como já foi mencionado, as relações fonológicas são extrassistêmicas, enquanto as semânticas são extralinguísticas. Ainda assim, é possível encontrar-lhes um lugar, por exemplo, na arquitetura paralela de Ray Jackendoff (Jackendoff 2003).

A estrutura generativa da morfologia e da sintaxe, apoiada no sistema fonológico, constitui o princípio fundamental para sistematizar os fatos da língua. O sistema autônomo de conhecimentos que descrevem a língua, cujos fundamentos foram lançados por Ferdinand de Saussure e ao qual a geração de generativistas liderada por Noam Chomsky conferiu rigor formal, fundamentou a aspiração da linguística a ser uma ciência exata e criou a ilusão da formalização completa da língua. As tentativas da linguística generativa de formalizar a língua foram chamadas de revolução cognitiva, no contexto da busca por inteligência artificial. A corrente da linguística cognitiva surgiu como reação ao formalismo já estéril dos métodos generativos. Ocupando uma posição intermediária, de uma espécie de mediador, Jackendoff propôs a arquitetura paralela, observando que a língua contém mais de um sistema generativo próprio e independente. A perspectiva da arquitetura paralela incentiva a investigar as conexões entre as estruturas generativas individuais depois de descrevê-las. As principais são as estruturas generativas fonológica, sintática (que inclui também a morfologia) e semântica. Além dessas, Jackendoff menciona também a estrutura espacial (ver Fig. 9). O próprio autor reconhece que a estrutura espacial abrange também a percepção do tempo e as formas de dinâmica de forças (Jackendoff 2003). Espaço,

19 Pgl. MA 2006: 396, 404, kur prokalbės šaknys *h₁enek- ir *bher- indoeuropiečių kalbų spektre apima reikšmes ‘imti’, ‘nešti’ ir ‘duoti’ plačiame freime, bet „pagrindinė reikšmė“ parenkama pagal „autoriteta“.

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FIG. 9. Arquitetura paralela segundo Jackendoff

fonossemântica

FIG. 10. Narrativa fonossemântica na arquitetura paralela

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A percepção da interação (dinâmica) entre tempo e força e sua expressão na linguagem vêm sendo investigadas com intensidade crescente nas últimas décadas. Em sua arquitetura paralela, Jackendoff propõe descrever estruturas generativas fonológicas, sintáticas e semânticas e estudar suas relações.

Para a estrutura espacial, ele indica uma relação apenas com a estrutura conceptual. Trata-se da difusão do conteúdo dos conceitos por meio de vários sentidos humanos (modalidades). Ele não prevê relações das estruturas ELD com a sintaxe ou a fonologia. A relação direta da ELD com a estrutura fonológica da linguagem é justamente o território onde jazem os mencionados campos ainda intocados da linguística lituana. Nossa abordagem propõe a expressão direta das estruturas ELD na fonologia. Em outras palavras, essa abordagem postula que a relação da estrutura conceptual com a expressão fonológica é acompanhada não apenas por uma relação através da sintaxe (incluindo a morfologia), mas também por uma relação através da ELD. Lembrando a ênfase constante dos adeptos da linguística cognitiva no caráter significativo da gramática (incluindo a sintaxe) e na predominância de informações ELD no conteúdo gramatical, podemos ampliar o triângulo da arquitetura paralela de Jackendoff, convertendo-o em um tetraedro (ver Fig. 10).

2. A LENDA SOBRE O CAMINHO E O TEMPO

2.1. Percepção e expressão da espacialidade, do tempo e da dinâmica na linguagem

“Assim, a imagem inicial do espaço é uma intuição a priori, e não um conceito”

Imanuelis Kantas (Kantas 1982: 77)

Perguntemos o que está representado na Fig. 11: uma flor na mão ou sobre a mão? É evidente que a escolha do locativo ou da preposição ant depende de como dividimos o espaço ao olhar para a imagem: se a mão será percebida como recipiente (superfície fechada) ou como suporte (superfície aberta).

Essa situação não recebeu atenção especial nos últimos tempos por acaso20. Nela convergem a expressão da dinâmica de forças e a percepção do espaço. Foram investigados em detalhe tanto o uso das preposições inglesas on / in quanto os sistemas de preposições de várias línguas. Nos estudos linguísticos, o contexto em relação ao qual se fala de objetos contidos é chamado de quadro de referência. A psicologia investiga como aquilo que é vivenciado pelos sentidos

20 Ver Evans, Chilton 2010 e as numerosas referências ali.

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FIG. 11. Uma flor na mão ou sobre a mão?

a imagem é interpretada num ou noutro quadro de referência. Do ponto de vista semântico, aqui se confrontam a perspectiva onomasiológica (como se pode dar nomes diferentes à mesma experiência) e a investigação semasiológica (a que situações se aplica uma ou outra preposição polissêmica). Ambas as perspectivas se revelam quando se escolhe dividir o espaço tridimensional por meio de uma superfície bidimensional.

O espaço é tridimensional e isotrópico. Só podemos situar algo no espaço em relação a outra coisa. Na matemática ou nas ciências exatas que a utilizam, os objetos são situados em relação a um sistema de coordenadas. As línguas têm seus próprios meios de expressar as relações do sistema cartesiano de coordenadas: para cima / para baixo; para a frente / para trás; para a esquerda / para a direita (Landau, Jackendoff 1993). As relações espaciais são expressas tanto pelo léxico quanto por meios gramaticais. Os quadros de referência podem ser diferentes, e as línguas os utilizam à sua maneira.

Já na década de 1970, a análise apresentada por Herbert Clark expõe uma perspectiva que pergunta diretamente como percebemos o espaço (Clark 1973). Farei um breve apanhado dessa perspectiva. A criança nasce num mundo em que caminha ereta sobre uma terra plana e sente por toda parte os efeitos da gravidade. Isso lhe forma uma estrutura de percepção espacial, que o autor chama de espaço perceptual — espaço P. Ao começar a falar, a criança emprega termos espaciais da língua para essa experiência, os quais constituem um sistema que o autor denomina espaço L (espaço da língua). Clark examina duas hipóteses: a hipótese da correlação e a hipótese da complexidade. A hipótese da correlação afirma que a estrutura do espaço L deve corresponder à do espaço P. A hipótese da complexidade sustenta que a criança primeiro assimila os termos mais simples e, depois, os mais complexos (ver Clark 1973: 28).

É claro que, desde o artigo de Clark mencionado, passaram-se várias décadas de estudos interdisciplinares. Mencionei esse artigo porque as duas hipóteses que formula definem o contexto geral deste capítulo. A literatura sobre a percepção do espaço e sua expressão na língua é difícil de abranger. Uma visão geral e uma análise foram apresentadas há duas décadas por Stephen C. Levinson (Levinson 1996), e Evans e Chilton editaram uma coletânea de trabalhos posteriores (Evans, Chilton 2010). Ali se pode

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FIG. 12. A divisão do espaço tridimensional por um plano ilimitado ou por uma superfície limitada

encontrar também muitas referências sobre os temas correspondentes. A elas ainda se pode acrescentar uma visão geral da percepção do espaço, do tempo e dos números no cérebro (Dehaene, Brannon 2011), bem como a monografia de Chilton publicada recentemente (Chilton 2014).

O sistema cartesiano de coordenadas introduz um eixo para cada dimensão do espaço tridimensional. Interessa-nos o primeiro passo, pelo qual se reduz a isotropia do espaço. Investigaremos o passo inicial em que as três dimensões são divididas numa superfície bidimensional e numa linha unidimensional. A superfície bidimensional permanece isotrópica nessa divisão inicial. Temos duas escolhas fundamentais e mais simples: um plano infinito ou uma superfície fechada. Ao dividir o espaço tridimensional por um plano, a dimensão restante é a direção vertical que atravessa a superfície. O plano permanece isotrópico. No caso de uma esfera fechada, a dimensão restante é o raio que parte do centro. A esfera também permanece isotrópica (ver fig. 12).

Na estrutura das raízes lituanas, isso corresponde a representar a inversão K/L >< L/K nos quadros de referência AFK-L e AFL-K. As estruturas da percepção espacial são estudadas, em geral, no nível da sintaxe. São examinados os sistemas de preposições de várias línguas. Até agora, não foi possível encontrar estudos sobre como a divisão inicial do espaço se manifesta na língua. Em cada caso, podemos atribuir ao quadro de referência um ou outro tipo de divisão. Essa divisão está estreitamente relacionada à classificação dos quadros de referência em egocêntricos e alocêntricos, mas não coincide com ela. Tomaremos essa redução inicial da isotropia espacial como base para estudar as raízes lituanas.

A divisão do espaço interage com a percepção do tempo e da dinâmica das forças. No quadro AFK-L, o tempo é percebido como um movimento unidimensional ou de outro tipo no espaço. Já no quadro AFL-K, o tempo tem uma natureza própria e única, irredutível à forma espacial, isso

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gražiai parodo lietuviški veiksmažodžiai laukti ir likti (plg. Galton 2011). Toks erdvės padalijimas glaudžiai susietas su dvejopų jėgų santykiu. Jei perkeliant vieną daiktą judesys perduodamas kitam, tai gali vykti dviem būdais: judesį valdantis daiktas kito atžvilgiu yra atrama arba talpykla. Tai aišku iš mūsų pradinio pavyzdžio. Bet, pereidami nuo sintaksės lygmens prie šaknies sandaros, lietuviškų šaknų semantikoje atveriame gilesnę erdvės, laiko ir jėgų dinamikos santykį. Neurofiziologiniai erdvės suvokimo tyrimai parodė, kad smegenys taip pat linkusios trimatę erdvę dalyti į paviršių ir vertikalią kryptį.21

O que foi dito pode ser resumido na tabela:

AFK-L

AFL-K

aberta

fechada

caminho

tempo

espaço

plano + vertical

esfera + raio + ponto

tempo

trajetória no espaço

duração num ponto

força

dispersa na superfície, atuando na linha

concentrada num ponto

2.2. A dinâmica de forças na polissemia dos verbos kelti e laikyti

Pasigilinkime į jėgos dinamiką pagal Leonardo Talmy (Talmy 2000: 409; De Mulder 2007). Kadangi šis, kognityvinėje lingvistikoje jau senokai tapęs klasika, metodas lietuviškuose semantikos tyrimuose dar labai retai sutinkamas, išdėstysiu jo esmę smulkiau. Jėgos dinamika nusako santykį tarp dviejų sąveikaujančių jėgų: agonisto ir antagonisto. Agonistas tai tas objektas, į kurį nukreiptas sakinio dėmesys ir kuris arba pasižymi polinkiu išlaikyti esamą stacionarią būseną, arba pats turi potenciją judėti ar kitaip veikti. Antagonistas veikia priešingai agonistui. Susidaro keturios situacijos. Dvi situacijos yra, kai antagonistas nugali agonistą:

JDa – o agonista procura manter um estado estacionário, mas o antagonista o põe em movimento;

JDd – o agonista tem potencial para se mover, mas o antagonista o detém.

As outras duas situações são análogas, mas o antagonista não consegue vencer o agonista, que mantém um estado estacionário ou o movimento. São assinaladas, respetivamente, como JDb e JDc. Na sua monografia, Talmy (2000: 412) investiga sobretudo a dinâmica de forças que se manifesta na sintaxe da frase. Se uma bola (de basquetebol, futebol ou golfe) estiver deitada

21 Žr. trimatės erdvės neurofiziologinių tyrimų apžvalgą (Jeffery et al. 2012).

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no chão, permanecerá ali, a menos que alguém lhe dê um pontapé, a pegue ou, de outro modo, a ponha em movimento. Suponhamos que sopra um vento suficientemente forte para pôr a bola em movimento. Nesse caso, a situação JDa é descrita pela seguinte frase: Com um vento forte a soprar, a bola rola pelo campo. Se colocarmos a bola numa encosta, ela terá tendência a rolar para baixo, a menos que alguém a segure: A bola não rola encosta abaixo porque a erva densa a segura. Temos aqui um caso JDd. Em ambos os casos, a bola é o agonista, para o qual se dirige a atenção da afirmação. O vento e a erva densa são o antagonista que, ao intervir na situação, altera (ou procura alterar) o estado do agonista. Talmy considera estes dois esquemas fundamentais, pois introduzem na língua a ação e a sua causa. Simboliza-os com as conjunções porque / visto que: A bola rola porque / visto que sopra um vento forte; A bola não rola porque / visto que a erva densa a segura. As outras duas situações descrevem um efeito malsucedido do antagonista, e Talmy simboliza-as com a palavra apesar de (ing. despite): A bola permanece imóvel, apesar do vento forte; A bola rola, apesar da erva densa.

Interessam-nos os casos em que a dinâmica de forças está contida na própria raiz do verbo. Por outras palavras, examinaremos o conteúdo da dinâmica de forças lexical (ELD) do significado verbal. Ao passarmos a exemplos do léxico lituano, podemos representá-los na forma apresentada na Figura 13. Aqui comparamos os significados básicos de kelti e laikyti e as suas negações:

kelti I.1. ‘erguer algo pesado’ Levanta o fardo. Consegues tirá-lo do chão?

kelti I.10. ‘lavrar, arar’ Ai, gatinhos, meu gatinho, por que não lavraste os campos, por que não semeaste o linho?

laikyti 1. ‘segurar para que não caia nem escape’ A donzela está de pé junto à sua amada, segurando na mão um lenço de seda; Fizeste bem, minha irmãzinha, em não segurar os cavalinhos baio.

Nesta figura, o círculo representa o agonista e o semicírculo, o antagonista. A seta ou o ponto no centro do círculo indica a tendência do agonista (mover-se ou permanecer parado), enquanto o sinal de mais no semicírculo ou no círculo mostra quem vence — o antagonista ou o agonista. Na parte inferior, a linha tracejada representa o resultado final: movimento ou imobilidade. Nas frases do LKŽ, o verbo que exprime a dinâmica de forças está a negrito, e o agonista está sublinhado.

JDa e JDd revelam a dinâmica de forças lexical da semântica dos significados básicos kelti I.1. ‘erguer algo pesado’ e laikyti 1. ‘segurar para que não caia nem escape’. Como referido anteriormente, estes são dois esquemas fundamentais, pois apontam para possíveis mudanças na situação: o antagonista vence, pondo o agonista em movimento (JDa) ou detendo-o (JDd). Em ambos os casos, o semicírculo do antagonista está assinalado com um sinal de mais. Não é de admirar que estes esquemas exprimam os significados dos sentidos básicos (kelti I.1 e laikyti 1). Os outros dois esquemas apontam para casos em que o agonista vence e a situação permanece inalterada. Podemos obter os esquemas JDb e JDc aplicando uma transformação lógica — a negação. Ao observarmos os esquemas JDa e JDb, vemos que diferem apenas pela transferência do sinal de mais do semicírculo (antagonista) para o círculo (agonista). Esta é a semântica da negação: os esforços do antagonista são anulados e o agonista vence (mantém a sua tendência): não ergueu (não lavrou) o fardo (os campos). Transferindo de modo análogo

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FIG. 13. Dinâmica de forças com negação

um sinal de mais; passamos de JDd para JDc (não segurou, não conseguiu conter, não conteve os cavalos ruços (lenços de seda)).

O esquema de Talmy revela quatro relações possíveis entre o agonista e o antagonista. Interessa-nos a sua relação com a perceção do espaço. Mostrarei que, ao dividir o conjunto de quatro esquemas com uma linha vertical, os JDa e JDc que ficam à esquerda são percebidos no frame AFK-L, ao passo que os JDb e JDd restantes, à direita, são percebidos, respetivamente, no frame AFL-K (ver fig. 14).

Para destacar a perceção do espaço, substituí as frases JDb e JDc com negações por usos dos verbos intransitivos subir e ficar. Observemos a forma intransitiva do verbo subir. Ela descreve o estado de um objeto. Quando levantamos um objeto, ele sobe. No entanto, os exemplos apresentados no LKŽ e a própria definição apontam para outra coisa:

subir 1. «elevar-se» Por entre os bordos, a lua sobe.

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FIG. 14. Dinâmica de forças e divisão do espaço

A lua não sobe porque alguém a levanta. Nem com base na visão quotidiana do mundo, nem recorrendo aos conhecimentos de astronomia, conseguiremos apontar uma força que a levante segundo o esquema JDa. E a própria lua também não se levanta. A lua simplesmente sobe. A frase exprime o movimento observado da lua em relação ao bordo. Por outras palavras, já não há dinâmica de forças na frase. Ainda assim, o par de palavras levantar / subir não permite uma ausência total. A dinâmica de forças não desapareceu, mas foi relegada para a periferia da perceção — para o fundo. Em primeiro plano está o movimento puramente espacial. A característica distintiva essencial da semântica de levantar / subir é a transferência da JD do primeiro plano (perfil) para o fundo, deixando o perfil

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para o espaço-tempo. Por isso, ainda podemos, de modo aproximado, situar esta frase no esquema JDc. Compare-se esta situação com os esquemas dos significados principais de levantar (JDa) e segurar (JDd). A lua sobe, não porque alguém a levante, mas porque (segundo a interpretação inicial de Talmy) sobe apesar da gravidade. Eis todas as frases do LKŽ que descrevem fenómenos literalmente (sem transferência metafórica):

Subiram enormes nuvens de poeira.

Na primavera, dos teus prados sobe uma névoa quente.

Na ausência do sinal de mais no esquema, o semicírculo do antagonista, por um lado, vem de JDd (a gravidade não consegue reter no campo de visão a lua que sobe). Por outro lado, reflete uma das duas forças que interagem em JDa (a gravidade não é a força que levanta, mas a força que impede de levantar). A força vencedora do antagonista, como vimos, já não participa de modo algum; já no esquema JDc do vencido, a força do antagonista é a gravidade, que, no esquema JDa, é vencida pela força que levanta. Assim, a semântica do verbo subir é movimento vertical sobre o fundo da gravidade. É esse o frame de referência AFK-L suscitado pelo verbo levantar. É preciso observar que, em alguns casos, substituir o verbo subir pela forma reflexiva levantar-se é adequado, mas altera o sentido. O verbo reflexivo permanece no esquema JDa, identificando o agonista com o antagonista. Outras línguas usam, na maioria das vezes, formas reflexivas precisamente onde o lituano usa subir (ou verbos análogos). Em lituano, uma substituição desse tipo, quando não exprime a estrutura cognitiva, destrói o tecido profundo da língua. De modo análogo, podemos analisar também segurar / ficar. O que importa é que, quando a JD recua para o fundo, subir e ficar passam a estar em frames de referência diferentes. O verbo subir transfere para a expressão do movimento unidimensional, belamente simbolizado pelo substantivo caminho. O frame AFL-K, eliminadas as forças, encerra no espaço interior fechado, sem movimento espacial. Resta apenas o tempo.

Um exemplo da poesia mostra belamente que o verbo subir tem a JD no fundo do seu significado. No LKŽ, temos duas frases que ilustram o lexema subir 2 «elevar-se»:

Subiram aos céus falcões de plumagem variada V.Myk-Put.

Um bando de pássaros levantou voo Kl121.

Na poesia, os falcões de plumagem variada não podem subir como a névoa ou simplesmente como um bando de pássaros. Por isso, os versos seguintes do poema «Falcões de plumagem variada», de Vincas Mykolaitis Putinas, revelam a JD relegada para o fundo:

Acompanhando tarde a brasa que se apaga

Ergueram-se no céu falcões multicoloridos.

Desprezando os sonhos enganosos da terra,

Estenderam as asas no firmamento.

Fica claro que os falcões multicoloridos não simplesmente se elevam, mas romperam o vínculo com a terra que os sustinha, atraindo-os com sonhos enganosos, enquanto as asas estendidas os erguem.

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FIG. 15. O verbo erguer em diferentes quadros de referência

A afirmação de que, ao passar do verbo erguer para sustentar e vice-versa, percebemos seu sentido espacial trocando um quadro de referência por outro, requer uma análise mais precisa. Por isso, encontraremos o ponto de interseção da percepção na polissemia dos verbos erguer e sustentar (perspectiva semasiológica), em que ambos os verbos funcionam como sinônimos, e mostraremos que a percepção de seus significados coincidentes difere apenas quanto ao quadro de referência (perspectiva onomasiológica). O significado do provérbio popular Muitas mãos erguem um grande fardo precisa ser explicado, quando muito, a alunos do ensino fundamental. No entanto, os compiladores de dicionários o interpretam de maneiras distintas. O LKŽ o apresenta sob o significado

erguer I.1. ‘ser capaz de levantar algo pesado’.

Por sua vez, os responsáveis pela elaboração do DLKŽ atribuem-no ao significado

erguer 9. ‘ser capaz de sustentar’.

Este último significado corresponde ao significado do LKŽ

erguer I.2. ‘ser capaz de sustentar, aguentar, suportar, ter forças para; tolerar’.

Os significados do LKŽ são próximos; será que diferem apenas ligeiramente? Observemos a Figura 15.

À esquerda da imagem está Atlas, sobre cujos ombros foi colocado o firmamento. Ao olhar para a imagem e ouvir alguém dizer Atlas ergueu o fardo, escolheremos o significado do DLKŽ, pois o tom da imagem nos leva a pensar numa situação estática, sustentada por outra frase do mesmo verbete: Vou pôr o saco nos teus ombros; consegues levantá-lo? O desenho dinâmico à direita não deixa dúvidas de que o verbo ergue no provérbio Muitas mãos erguem um grande fardo é entendido segundo o significado principal do verbo no LKŽ.

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O DLKŽ é um dicionário da língua contemporânea, e esse deslocamento de sentido indicaria uma mudança na interpretação. No entanto, a imagem à direita é ainda mais contemporânea, pois foi retirada de material didático para crianças do ensino primário22. É mais fácil para as crianças aprenderem a interpretação dinâmica do provérbio. Por exemplo, no caderno de exercícios de História do quinto ano há a seguinte tarefa: a imagem representa pessoas desmatando uma floresta, e é preciso dizer a que forma de agricultura isso está relacionado e como a imagem corresponde ao nosso provérbio (Muitas mãos levantam um grande fardo)23. Os alunos que leram sobre a agricultura itinerante reconhecerão facilmente essa prática e explicarão que é difícil demais para uma só pessoa desbravar na floresta um campo arável, mas que todos juntos podem alcançar o objetivo. O provérbio contrapõe os esforços de uma pessoa ao trabalho conjunto de um grupo (muitas mãos). O verbo levanta é secundário nesse provérbio. Muitas mãos também podem realizar outros trabalhos: rolar uma grande pedra, construir um castelo alto ou derrubar árvores na floresta. A sabedoria popular escolheu um trabalho simples, mas expressivo: levantar um grande fardo. O verbo levantar também trouxe sua natureza ambígua para o provérbio. Os contextos em que o provérbio pode ser usado diferem até mesmo emocionalmente, mas seu conteúdo didático permanece inalterado. O sentido do provérbio é invariante, independente da interpretação do significado do verbo levanta. Portanto, não faz sentido perguntar qual dicionário está certo, pois ambas as interpretações são adequadas. Isso raramente é percebido, porque os mecanismos que determinam a diferença não chegam à consciência.

Nosso objetivo é expressar, por meio de esquemas JD, a transição dos significados básicos para os coincidentes de kelti e laikyti. Para descrever as propriedades cognitivas dos significados, precisamos penetrar mais fundo, até o movimento elementar da mente. Vejamos as frases:

Os pinheiros resistirão às tempestades.

As ondas se enfureciam, espumavam, contorciam-se como serpentes, e parecia que o navio não resistiria à tempestade.

A que esquema JD corresponde o conteúdo dessas frases? Recordando a descrição de Talmy (A bola permanece imóvel, apesar do vento forte), podemos afirmar que se trata de JDb. Os pinheiros (o navio) permanecem no estado inicial (sem se quebrar), apesar da tempestade: os pinheiros (o navio) resistiram (suportaram) às tempestades. Lembremos que obtivemos o esquema JDb ao negar JDa. Quando a ação do antagonista fracassa ou, como aquele gato, o antagonista desiste de agir, o agonista permanece em estado estacionário: o novelo jaz no chão, o terreno em pousio não foi revolvido. Neste caso, não há negação, e a transformação do esquema é diferente. Poderíamos usar a negação para descrever a mesma situação, mas o verbo seria outro: as tempestades não quebraram os pinheiros (o navio). Para aproximar as duas frases do ponto de vista sintático, temos de trocar o sujeito e o predicado, isto é, passar para a voz passiva: os pinheiros

22 Kašubienė 2012: 15 skaidrė.

23 IPU 2014: 7.

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(o navio) não foram abatidos pelas tempestades. Todas essas ocorrências dos verbos transmitem o mesmo conteúdo:

resistir (às tempestades);

suportar (as tempestades);

não ser (pelas tempestades) abatido.

Há uma diferença essencial. Os pinheiros ou o navio passam de agonistas a antagonistas. Não ser abatido pelas tempestades ou resistir (suportar) às tempestades diferem quanto à redistribuição da atenção. Podemos nos perguntar se os próprios pinheiros não são a causa da tempestade (se provocam tempestades):

Os pinheiros provocarão tempestades.

Os pinheiros não provocarão tempestades.

Todos esses significados são resumidos por um esquema em que o mais importante para nós é a alternância entre agonista (sublinhado) e antagonista (ver Fig. 16). Para maior clareza, usando, em lugar do significado básico, o significado obtido por meio da metáfora conceptual (pakelti VII. 2. ’fazer, provocar’), temos uma frase sobre os pinheiros, que não provocam tempestades por si sós, e podemos compará-la com a frase que obtivemos ao substituir atlaikys por pakels:

Os pinheiros não suportarão as tempestades.

Os pinheiros suportarão as tempestades.

Formalmente, as frases são negações lógicas uma da outra, mas seus esquemas de JD coincidem. Ainda assim, coincide apenas o tipo de esquema (JDb), mas sua aplicação difere: agonista e antagonista trocam de lugar. Assim como o gato não pretende de modo algum arar as terras em pousio, e elas permanecem como estavam, também o pinheiro, por si só, não tem poder para provocar tempestades; portanto, não há relação causal entre os pinheiros e a origem das tempestades. Interpretando a mesma frase com o mesmo verbo erguerá / não erguerá, mas atribuindo o papel de agonista não às tempestades, e sim aos pinheiros, temos um significado completamente diferente, embora o esquema permaneça o mesmo. Isso não é apenas uma redistribuição formal, mas uma operação psicológica. A atribuição dos papéis de agonista e antagonista está ligada à ordem em que se dirige a atenção. O agonista não é tanto o protagonista quanto aquele para o qual a atenção é dirigida primeiro. O antagonista é introduzido numa situação já conhecida, e seu efeito é avaliado em relação ao agonista. Na frase Os pinheiros não erguerão tempestades, dirigimos primeiro a atenção para as tempestades e, em seguida, incluímos os pinheiros no campo de atenção, constatando que eles não têm (não erguerão =não provocarão) relação causal com o surgimento das tempestades. Na frase Os pinheiros erguerão tempestades, a distribuição da atenção é inversa. Primeiro, a atenção é dirigida aos pinheiros e, depois, constata-se que as tempestades não conseguirão derrubá-los. Essa disposição da atenção (em lituano) não depende da ordem das palavras na frase, mas se reflete na sintaxe. Em JDa ou JDb com negação, o antagonista ocupa a posição de sujeito. Invertendo a atenção, fazemos do sujeito o agonista.

Trata-se de uma espécie de situação passiva, embora gramaticalmente não seja uma forma passiva. O mesmo podemos dizer do verbo segurar. Neste caso, é mais adequada a forma com outro prefixo: Os pinheiros conterão tempestades. A negação desta frase é JDb, mas a afirmativa

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ĮDa

Os pinheiros provocarão tempestades.

ĮDb

Os pinheiros não provocarão tempestades.

Os pinheiros erguerão tempestades.

Os pinheiros resistirão tempestades.

Os pinheiros não conterão tempestades.

ĮDc

ĮDd

Os pinheiros conterão tempestades.

FIG. 16. Dinâmica de forças dos verbos erguer e segurar

A frase passa para o esquema ĮDd. Essa espécie de alquimia destila o movimento inconsciente da mente que se procura. Trata-se do retorno à ordem de direcionamento da atenção. Ela transforma os significados das acepções principais (ĮDa e ĮDd) num significado coincidente (ĮDb). Para nossa pesquisa, o essencial é que, nos significados dos verbos erguer e segurar, apenas o esquema ELD se transforma, mas o conteúdo conceptual não muda. Na perspectiva semasiológica, as acepções principais são substituídas, por um único movimento da mente, por uma das acepções periféricas na organização do LKŽ ou do DLKŽ. O fato empírico de essas acepções serem sinônimas é arbitrário? Esta é a questão principal. É possível refutar a arbitrariedade revelando a motivação. A perspectiva semasiológica deve mostrar qual é a motivação para tal extensão do significado. Na perspectiva onomasiológica, temos de responder à questão de por que a mesma coisa é designada por palavras diferentes. No nosso caso, temos sinônimos obtidos pela extensão

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FIG. 17. Esquema da polissemia do verbo kelti

significados principais. A motivação semasiológica deve fornecer a base para a motivação onomasiológica.

De onde surge a necessidade desse significado periférico? Vejamos primeiro o processo expresso pelo verbo kelti. Para levantar o objeto oferecido, temos de pegá-lo do chão, no ponto L1, e, vencendo a força da gravidade, erguê-lo até um ponto mais alto, L2 (ver fig. 17). Os recursos gramaticais e o contexto da frase podem expressar o movimento em diferentes etapas. A atenção pode concentrar-se no início do movimento (pakelti, atkelti – Ar pakelsi nuo žemės?), no fim (užkelti – Kelk maišą į ratus) ou abranger todo o percurso (perkelti). Em qualquer caso, o movimento descrito é delimitado por dois estados estacionários, como diriam os físicos. O movimento pode ser prolongado, elevando a carga ainda mais, por iterações ilimitadas. O significado periférico que investigamos surge quando queremos compreender a relação de forças depois de a elevação parar numa posição intermédia. Aqui nos deparamos com a inversão de atenção mencionada. Para erguer um objeto do chão, desempenhamos o papel de antagonista (Kelk pūrą. Ar pakelsi nuo žemės?). Quando levantamos a carga, é preciso mantê-la nas mãos, e o objeto pesado torna-se o antagonista, procurando vencer a nossa resistência (Uždėsiu maišą ant pečių, ar pakėlsi?). Por que razão a língua lituana manteve o mesmo verbo para designar estas situações? Não poderemos responder porquê — trata-se de um problema interessante para investigações futuras. O nosso estudo mostra apenas que a língua lituana registou com atenção e precisão este ponto crucial da dinâmica das forças, no qual a interação de forças se cruza com mudanças fundamentais na perceção do espaço e do tempo. Para expressar o estado JDb no ponto L2, escolhemos AF (ver fig. 18).

Se dizemos laiko, escolhemos AFL/K e a imagem no espaço é estática, enquanto só o tempo muda. Se dizemos kelia, escolhemos AFK/L e a imagem é dinâmica, traçando o percurso do movimento no espaço. Ao escolher AF, revelamos a ideia onomasiológica

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FIG. 18. Sobreposição dos esquemas de polissemia dos verbos kelti ir laikyti

(cf. fig. 19). Trata-se de informação muito importante para compreender a arquitetura do esquema generativo ELD.

A língua conceptualiza as características fundamentais, frequentemente recorrentes, do mundo observado. No entanto, tem de permanecer aberta a um mundo em transformação. Assim, os significados das palavras ficam abertos à interpretação. Vejamos a tradição popular. Que significados tem o verbo kelti nestas estrofes:

A terra erguia a erva, O cavalo erguia a sela, A erva erguia o orvalho, A sela erguia o cavaleiro, O orvalho erguia a ferradura, O cavaleiro erguia o chapéu, A ferradura — o cavalo. Para a velhinha mãe.

No LKŽ encontramos os dois primeiros versos destas estrofes: kelti I.2. ‘sustentar, suportar algum peso (quando algo pressiona para baixo); carregar sobre si, sobre a própria superfície’ A terra sustenta a erva, a erva sustenta o orvalho J.Jabl (Rm); A superfície da poça só aguenta uma pessoa (não se pode passar com cavalos).

O dicionário apresenta uma descrição dupla. A primeira parte, ‘sustentar, suportar algum peso (quando algo pressiona para baixo)’, exprime claramente a relação de forças JDb. A segunda frase, sobre a superfície da poça congelada, que aguenta uma pessoa

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FIG. 19. Ambiguidade semasiológica e onomasiológica dos verbos kelti e laikyti

(ergue), mas não o cavalo, corresponde inteiramente a esta descrição. Também correspondem a ela todos os outros exemplos apresentados no verbete kelti I.2., exceto o fragmento de nossa estrofe. A segunda parte da descrição, ‘levar sobre si, sobre a própria superfície’, destina-se claramente apenas a ele, pois tal explicação é redundante para todos os outros exemplos. A primeira parte da descrição, ‘sustentar, suportar algum peso (quando algo o pressiona para baixo)’, não se ajusta muito bem à primeira frase. De fato, soaria pouco convincente explicar o sentido do verbo ergue na frase A terra ergue a grama dizendo que a terra suporta o peso da grama que a pressiona para baixo. Também pareceria estranho que o orvalho pressionasse a grama. Em essência, a segunda parte da descrição permite substituir o verbo ergue pelo verbo sustenta: A terra sustenta a grama. Como rejeitamos JDb por ser inadequado, o que então condiciona a sinonímia dos verbos? Vejamos como fica a estrofe se trocarmos os verbos em toda parte:

A terra sustentou a grama, A sela sustentou o cavaleiro, A grama sustentou o orvalho, O cavaleiro sustentou o chapeuzinho O orvalho sustentou a ferradura, Para a velha mãezinha. A ferradura — o cavalo (O cavaleiro ergueu o chapeuzinho O cavalo sustentou a sela, Para a velha mãezinha)

Em toda parte, exceto na última frase, o verbo sustentar foi empregado corretamente, em sentido literal ou figurado. O verbo sustentar reflete com mais precisão do que erguer

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FIG. 20. Cubo de Kanizsa

a imagem descrita. No entanto, a imagem permanece estática. O verbo sustentar foi empregado segundo o esquema]Dd. Contudo, toda a poética da canção desaparece, pois a palavra sustentou evoca em nossa consciência um frame estático AFL/K. A criação popular escolhe o verbo ergueu e, com ele, também um frame dinâmico AFK/L, por meio de um esquema que lhe é atípico]Dd (‘levar sobre si, sobre a própria superfície’). Mais ainda, o verbo ergueu traz consigo toda a sua polissemia (com]Da e]Db) na forma de ambiguidade (lembremos o provérbio!): O orvalho ergueu a ferradurinha — interprete como quiser, isto é, de todas as maneiras ao mesmo tempo. É um exemplo maravilhoso de ambiguidade na poesia popular, um verdadeiro sorriso de Gioconda escondido nos sons da língua, análogo às obras de Michelangelo ou Vermeer, mencionadas por Zeki nas artes visuais (Zeki 2004:).

Voltemos ao provérbio (Muitas mãos levantam uma grande carga). Ao ouvirmos o provérbio sem um contexto específico, compreendemos facilmente sua lição, sem nos aprofundarmos em uma interpretação específica do verbo levanta. Escolhemos a interpretação ao nos depararmos com uma situação concreta. Dependendo da situação, o provérbio evoca três imagens essencialmente distintas. Essa mudança da imagem interna é inteiramente análoga às conhecidas ilusões visuais, por exemplo, ao chamado cubo de Kanizsa (ou de Necker) (ver fig. 20).

Se perguntarmos o que está representado no desenho superior, receberemos uma resposta inequívoca: trata-se de um cubo. A percepção da imagem deste desenho é análoga à do provérbio

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sem o sentido de uma interpretação concreta para a compreensão. Ao começarmos a examinar o significado específico do verbo levanta, encontramo-nos numa situação ambígua, análoga à representada nos desenhos inferiores com linhas tracejadas. Quando perguntamos se o cubo da figura está representado visto de cima ou de baixo, fica claro que o desenho superior é ambíguo. Estas duas interpretações são incompatíveis entre si. A base neurofisiológica da ilusão é que os mecanismos do nosso cérebro não dispõem de critérios claros para interpretar esta figura ambivalente, e a imagem oscila involuntariamente. Deve-se notar que esta análise ocorre inconscientemente. O cubo de Kanizsa corresponde ao significado didático abstrato do provérbio, e, ao assinalarmos as linhas encobertas por pontos, facilitamos uma ou outra interpretação. De modo análogo, sem alterar o sentido do provérbio, o significado concreto do verbo levanta traz consigo uma imagem que lhe é própria. É indubitável que os mecanismos cerebrais responsáveis pela percepção de imagens visuais e linguísticas são análogos.

2.3. A estrutura ELD na polissemia do verbo levantar

O LKŽ apresenta 45 significados de levantar, 16 de erguer-se e 33 de segurar. Encontram-se ainda cerca de 300 significados com prefixos. A estrutura ELD permite simplificar consideravelmente esta diversidade, organizando as relações entre os significados. Nesta seção, discutiremos a polissemia do verbo levantar. Tomaremos como base os significados principais do aspeto imperfectivo. O aspeto perfectivo (com prefixos) reproduz essencialmente a estrutura do aspeto imperfectivo. A semântica dos significados principais do verbo erguer-se em relação a JD foi discutida na seção 2.2. O LKŽ apresenta o seguinte agrupamento dos significados de levantar:

I. ‘pegar, empurrar algo para cima; colocar algo num lugar mais alto’

II. ‘elevar, aumentar, fortalecer’

III. ‘construir’

IV. ‘despertar, acordar, estimular; agitar-se’

V. ‘surgir, brotar, crescer; soprar; espalhar’

VI. ‘transportar de um lugar para outro; enfiar, fazer’

VII. ‘preparar, organizar algo’.

Antes de mais, deve-se notar que a maioria destes significados (31) são metáforas conceptuais:

I. 3, 9, 10; II. 2–8; III. 3–6; IV. 1–6; V. 1–9; VII. 1–2.

Naturalmente, a metáfora conceptual projeta a estrutura ELD para algum outro domínio (ver Figura 4). A própria metáfora não é o nosso tema. Interessa-nos a manifestação da estrutura ELD na raiz em estado puro. Os significados correspondentes do LKŽ são classificados de acordo com a parte conceptual do domínio para o qual a metáfora projeta. Para dizer a verdade, esta é uma tarefa bastante inglória para um dicionário. Quanto aos futuros criadores de uma rede semântica da língua lituana (se já existem na Lituânia incentivos para criar tal rede

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pode ser avaliada seriamente; é uma tarefa séria. Os estudos sobre a estrutura e o desenvolvimento das metáforas são extremamente numerosos (Cuyckens, Geeraerts 2007; Fusaroli, Morgagni 2009). Podemos nos convencer de que a fonte das metáforas é inesgotável lembrando o exercício dos alunos do quinto ano do capítulo 2.2. Ao interpretar o provérbio Daug rankų didžią naštą pãkelia, os alunos terão, de fato, de construir a fonte do esquema FPT (fonte > percurso > alvo) como uma floresta selvagem, o alvo como um campo arado e preencher o percurso com exemplos de atividades variadas extraídos do acervo de conhecimentos que possuem. A estrutura da ELD permanece oculta à consciência. Trata-se do esquema FPT do significado do verbo pakelia, ilustrado na figura 21. Alterando as disciplinas e levando em conta o nível de instrução dos alunos, podemos gerar uma quantidade ilimitada desses exercícios para um único provérbio. O LKŽ, naturalmente, apresenta as chamadas metáforas mortas ou de vários graus de convencionalização, muitas vezes transformadas em clichês da língua (Lakoff 1987; Lakoff 1993; Allan 2009). Esse é um amplo campo de pesquisa, e neste artigo nos aprofundamos nele apenas quando isso é indispensável para os objetivos principais estabelecidos.

Examinemos os outros 14 significados. Já estudamos o JD do primeiro significado I.1 ‘algo difícil de levar para cima’. A consequência imediata do JD para o espaço-tempo é um evento topológico24. De fato, para levantar algo, temos de vencer a força do peso do objeto levantado. Nas frases Kelk pūrą. Ar pakelsi nuo žemės?, os verbos têm aspecto tanto durativo como télico. Na exortação kelk pūrą, ainda não há informação sobre se o fardo será realmente levantado. O aspecto durativo não fornece essa informação. A expressão kelia pūrą está aberta às duas consequências lógicas que o aspecto télico necessariamente revela: pūrą pakėlė ou pūro nepakėlė. No entanto, essa abertura não é simétrica, pois o verbo kelti prevê inequivocamente a informação contida no aspecto télico, uma vez que o resultado oposto (malsucedido) do esforço de levantar exige uma negação com os marcadores morfológicos correspondentes (o prefixo ne-). Ao mesmo tempo, o verbo kelti exprime inequivocamente as consequências espaço-temporais do JD, que se atualizam no aspecto télico: o objeto pakeltas é separado da superfície à qual estava ligado (Ar pakelsi nuo žemės?) e move-se para cima. Se o fardo não perdeu o contato com o chão, nenhuma comissão de observadores reconhecerá que ele foi pakeltas, a menos que tenha sido pajudintas, patrauktas ou paslinktas. No espaço-tempo, o conteúdo do verbo kelti é expresso por três esquemas imagéticos: verticalidade, FPT e JD. Os traços mais gerais da relação entre eles estão representados na figura 21. Os lexemas transferem a atenção de um esquema para outro. I.1 concentra a atenção no início do movimento — o evento topológico (contornado na figura 21, análogo ao esquema de elevação da superfície da figura 7). Essa é a fonte do esquema FPT. Passemos ao lexema:

I.4. ‘colocar, levar algo para um lugar mais alto ou para outro lugar’ Kelk maišą į ratus.

24 “Topologia” é um termo matemático cujo uso na linguística ainda não está suficientemente claro (Talmy 2000: 25; Petitot, Doursat 1998).

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21 FIG. Esquemas da polissemia do verbo kelti

Aqui, em primeiro plano, está o alvo do esquema FPT. O próprio esquema FPT ainda está ligado à verticalidade. O lexema seguinte volta a conduzir à fonte, e o JD assume a forma de uma relação causal (de natureza topológica):

I.7. ‘tirar’ Kels nu galvelės rūtų vainikelį, maus nu pirštelio sidabro žiedelį.

O lexema I.8. ‘pendurar, retirar das dobradiças (uma porta, janela, portão...)’ é apenas uma aplicação da mesma ELD a uma situação específica.

Aqui convém lembrar Kazimieras Būga, que destacou que o verbo lituano kelti, ao contrário dos seus correspondentes eslavos, pode ser usado no aspecto durativo (sem prefixo) com os significados de pakelti e nukelti (Būga 1958: 477). Sem dúvida, os prefixos distribuem a atenção entre os componentes do esquema FPT (fonte > percurso > alvo), modificando o significado à sua maneira habitual. O aspecto durativo está sendo empurrado para fora de uso. Tem uma gilesnę abeĵą e, por isso, é-lhe mais difícil sobreviver às superficiais

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numa linguagem sobrecarregada de detalhes. Aqui e ali, ainda está vivo. Eis mais quatro lexemas:

VI.1. ‘transportar, levar algo para outro lugar’ No outono já será preciso também levar as casas para a kolkozan Ktk.

VI.2. ‘transportar de barco através da água para a outra margem’ Leva-me de barco pelo rio J.

VI.3. ‘mudar os animais de lugar (no pasto), prendendo-os de novo’ O pai foi mudar as vacas de lugar Dgl.

VI.4. ‘fazer, colocar (as portas)’ Não feches as portas até ao fim KlvD92.

A estrutura ELD de todas elas é a mesma. Em primeiro plano (no perfil), resta quase apenas o esquema ŠTT, sem JD e sem verticalidade (relegados para o fundo). Ao mudar as vacas de lugar, ninguém as levanta. Trata-se de uma estrutura puramente espaciotemporal, de natureza topológica. Desvincular-se do domínio de origem e ligar-se ao domínio de destino. Pode parecer que os contextos estão completamente ultrapassados e que hoje tais esquemas já não servem para ninguém. Muito pelo contrário. Os contextos mudam, os esquemas permanecem. Hoje, segundo esse esquema, movemos arquivos de um dispositivo inteligente para outro. Não é uma metáfora. A informação não tem peso. Tal como aquela vaquinha, desprendemo-la de um suporte de armazenamento e prendemo-la a outro.

Quando a origem e o destino são associados a dois estados habituais, mas opostos, do corpo humano — deitado e de pé —, temos não só mais dois lexemas, mas também todo um conjunto de metáforas. Estes dois lexemas:

III.1. tr. ‘ajudar alguém a levantar-se, fazer com que fique de pé, pôr de pé’

III.2. intr. ‘levantar-se (depois de cair ou estar sentado)’

também podemos interpretá-los como metáforas, mas isso já é outro tema.

Os outros dois lexemas:

I.5. ‘dar a alguém uma posição mais elevada, fazer com que suba’

II.1. ‘tornar algo mais alto, mais elevado’

ocupam uma posição intermédia. Convém recordar que

I.2. ‘sustentar, suportar alguma dificuldade (quando algo pressiona para baixo)’

I.2. ‘levar sobre si, na sua própria superfície’ A Terra faz crescer a relva, a relva faz crescer o orvalho

já discutimos na seção 2.2. Resta uma forma reflexiva:

I.6. refl. ‘subir, elevar-se’ Das pradarias erguia-se a neblina.

Aqui é preciso recordar o verbo kilti, cujo JD já discutimos na seção 2.2:

kìlti 1. ‘subir’ Por entre os olmos surge a lua; Na primavera, das tuas pradarias sobe uma neblina morna.

Teks dar kartą pažvelgti į Būgos raštus (Būga 1959: 113). Jo žodžiai skamba kiek senoviškai, bet jų prasmė labai šiuolaikiška: „Svetimoji kalbos dvasia dau-gio inteligentų smageninėje nustelbė ne tiktai tą dalyvį, bet ir ištisą savaiminų veiksmažodžių (neutra, media) rūšį. Vietoje sakyti kyla, pakilo; [...] daug kas da-bar ima sakyti ir rašyti keliasi, pasikėlė; [...]“. Be abejo, lema I.6 refl. LKŽ yra visai teisėtai. Galima sakyti abe-jopai:

Das pradarias subiu a neblina;

Das pradarias ergueu-se a neblina.

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No entanto, seu conteúdo cognitivo é diferente. Como vimos na seção 2.2, o verbo kilo corresponde ao esquema]Dc, no qual a gravidade permanece em segundo plano e apenas o movimento espacial é visível (esquema da verticalidade). Já a forma reflexiva pode ser interpretada como uma espécie de variante do esquema]Da, em que o agonista coincide com o antagonista. Comparemos as frases:

Kilst do mar uma nuvenzinha, e o meu feno murchará.

Sobe do mar uma nuvenzinha, e o meu feno murchará.

Ergue-se do mar uma nuvenzinha, e o meu feno murchará.

A primeira frase foi retirada de uma canção e citada junto à entrada LKŽ kilti 1. Nela encontramos a segunda das formas do presente indicadas pelo LKŽ: kȳla, kilsta, kȳlna. Na segunda frase, para comparação, foi usada a primeira forma (kȳla), e na terceira frase foi usada a forma reflexiva, seguindo o exemplo da entrada:

kelti 6. refl. ‘subir, elevar-se’ Passa uma nuvenzinha negra, e o feno murchará no prado.

A nuvenzinha com kȳla é passiva pelas razões que discutimos na seção 2.2. A forma reflexiva ativa a nuvenzinha e, por isso, confere vivacidade (ativa-se a forma reflexiva]D). A forma verbal kilsta apresentada no LKŽ é homófona a esta entrada:

kilst interj. [para indicar uma elevação súbita]

O que foi usado na canção: a interjeição kilst ou a forma abreviada kilti 1 kilsta?

Seja como for, algo em nossos «cérebros» toca coisas muito sensíveis e profundas. Talvez já seja hora de nomeá-las com uma linguagem científica verdadeiramente rigorosa (não formal!).

2.4. Estrutura dos feixes de raízes K-L e KL-

Sou viajante, pequeno viajante, que viajou por caminhos KlpD20 (LKŽ)

A seda das folhas cobre a terra S.Nėr (LKŽ)

Cresceu um pequeno bordo, vicejou com folhas muito largas (LKŽ)

Vejamos os significados do verbo kalti. Mais uma vez, temos um feixe de metáforas:

1 kalti 4, 5, 8, 11–13. Restam estas lexemas:

1 kalti 1. tr., intr. ‘bater com um martelo, impulsionar a golpes, cravar’

1 kalti 2. tr., intr. ‘bater, espancar, golpear’

1 kalti 6. tr., intr. ‘cortar, picar’

1 kalti 7. tr. ‘afiar, bater (as mós)’

1 kalti 10. tr., intr. ‘martelar metal’

1 kalti 14. tr. ‘bater, repicar (a foice), afiar’

1 kalti 3. tr., intr. ‘tilintar, bater os dentes; pingar’

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FIG. 22. Esquemas dos verbos erguer e martelar

Observamos uma diferença essencial em relação à polissemia do verbo erguer. Todos os significados têm uma estrutura ELD idêntica, e as suas diferenças são conceptuais (com ou sem metáfora). Interessa-nos apenas a relação entre as estruturas ELD dos verbos erguer e martelar (ver Fig. 22). As propriedades espaciotemporais e JD do verbo martelar adequam-se à estrutura AFK/L do frame e até a preenchem. Vencendo a força da gravidade, depois de levantar um objeto de um lugar mais baixo L1 e colocá-lo num lugar mais alto L2, temos várias possibilidades (ver Fig. 17). Na secção 2.2, examinámos a intersecção entre o estado estático (tempo) e o ato de continuar a levantar (percurso) (cf. Fig. 18). No estado L2, é possível largar o objeto das mãos ou deixá-lo cair no chão. No entanto, mantendo o contacto com o objeto e controlando-o, só há uma forma natural de o devolver à superfície bidimensional de onde foi levantado: martelá-lo.

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L-K(T) lekti

L-(J)K likti, laikyti, laikas

L-(V)K laukas I,II

L-(V)K laukti

L-(N)K lenkti, linkti

LK alkūnė

LK alkti, alka I,II

K-L kelti, kilti

K-L kalti

K-L kalėti

(S)K-LB kalbėti

K-L kelias

K-L kelta

K-L kaulas

K-LP laço

K-L pescoço

KL estender

KL inclinar, inclinar-se I,II

KL-JD divagar, delirar

KL-V confiar, impedir

KL perguntar, ouvir

KL-B aderir

KL-VB ajoelhar-se

KL-N declive

KL-V bordo

KLŠ culche

AFL/K

espaço 3D

AFK/L

23 FIG. Perceção do espaço K/L <> no feixe de raízes L/K

O SEJL distingue o verbo kalėti em um ninho etimológico separado. Considerando esse conjunto de lexemas do LKŽ sob uma perspectiva extralinguística e extrassistêmica, não deveríamos ter problemas para interpretá-los do ponto de vista do ELD, em paralelo com kalti:

3 kálti, kãli (kãla), kãlė [cf. 1 kalėti 3] Uma árvore grande sombreia uma arvorezinha, ou a sufoca.

1 kalėti, kãli, -ėjo 1. intr. ‘estar na prisão’

1 kalėti 3. tr. ‘sufocar, sufocar o crescimento, sombrear (plantas)’

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1 kalėti 4. intr. ‘definhar estando num só lugar, estando comprimido’ Talvez outros, tendo sentido a vastidão celeste, já não definhem na solidão B.Sruog. refl.: Fico fechado o dia inteiro e me entristeço].

2 kàiti, kãlia, kõlė tr. ‘apostar algo contra algo, esconder, apoiar’.

Vejamos agora cinco substantivos que o SEJL distribui por ninhos etimológicos separados (cf. fig. 23). Para descrevê-los, usarei o termo «reificação» aproximadamente no sentido de Ronald Langacker (Langacker 2008: 95, 107, 119), a fim de que nossa abordagem permaneça independente da formação de palavras. Para maior clareza, tomemos um exemplo. Na distribuição da polissemia do verbo kelti, usamos o esquema FONTE> TRAJETO > META. Na forma ampliada do esquema, o verbo kelti focaliza o início e o fim, ignorando o próprio percurso. O verbo kilti, como vimos, expressa o esquema VERTICALIDADE. Pois bem, o substantivo kelias é a reificação de uma parte unidimensional do frame AFK/L, totalmente independente da formação de palavras ou da etimologia desse vocábulo.

Em relação ao verbo kelti, kelias é a reificação da parte intermediária, TRAJETO, do esquema FONTE-TRAJETO-META. Por sua vez, esse esquema é usado como protótipo na forma de metáfora conceptual para os usos do substantivo kelias.

O uso principal é concreto:

1 kelias 1. ‘faixa de terra por onde se caminha ou se viaja’ Agora já não se transita por esta estrada (a pé ou de carro) J.]abl.

Em outros usos do mesmo lexema, kelias é concebido de outra maneira: Essa estrada atravessa Svieriai. Trata-se de movimento fictício (Talmy 2000: 99). Ao lado da estrada de terra crescia um carvalho verdejante. Aqui, a estrada é parte da paisagem.

1 kelias 3. ‘linha no espaço (no ar, na água) ao longo da qual ocorre o movimento’ Eu a conduzirei pelos caminhos das estrelas Mair.

Trata-se de uma metáfora conceptual. A descrição do LKŽ indica o protótipo.

Esta lista pode ser ampliada, mas o esquema será sempre o mesmo. O mesmo se pode dizer dos outros ninhos etimológicos, com alguns comentários. Kaulas é claramente um objeto unidimensional reificado, embora seu uso explore as propriedades mecânicas do osso. Kilpa é uma linha fechada unidimensional. Usamos o pescoço não apenas para acenar na vertical, mas também podemos olhar ao redor no plano horizontal. É interessante que aqui a linguística comparativa venha em nosso auxílio: kaklas < *kal-klas (SEJL 2007: 245). Há várias interpretações possíveis, mas, de acordo com o frame AFK/L, é assim mesmo que deve ser.

Resta a palavra arcaica kėlta (essa é a forma apresentada no SEJL). No LKŽ encontramos:

1 kėlta 1. cf. 1 keltas

1 keltas ‘ponte flutuante de madeira, pela qual se atravessa para a outra margem do rio quando não há ponte; jangada’

2 kėlta ver keltava 1

kėltava 1. ver keltuva 1

kėltuva ‘bovino, animal doméstico’.

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Como esta palavra se encaixa na AFK/L? Já tivemos de lidar com uma keltuvėlė:

1 keltuvė ‘vaca’.

Recordemos:

kélti VI.3. ‘mudar (o gado) para outro lugar (na pastagem)’ O pai foi mudar as vacas de lugar.

Essa prática, hoje quase esquecida, foi, desde os tempos da Revolução Neolítica, a característica mais típica do gado em pastoreio, ou seja, dos keltuvai. É evidente: as keltuvos são aquelas que é preciso mudar constantemente de lugar (sem dúvida: kélti VI.3). O que diz a linguística comparativa? SEJL deriva a palavra kelias da forma *kelas e do verbo desaparecido *kelti (com o significado de ‘pôr em movimento, provocar um impulso ou uma rotação’), que são associados à raiz proto-linguística *kʷelh₁-o- (SEJL 2007: 271). A palavra kélta é justamente o elo que sustenta essa explicação. Assim, segundo (SEJL 2007: 272), kelias é «o caminho pelo qual o gado é conduzido até a pastagem». De alguma forma, está tudo de pernas para o ar. Mas, afinal, estamos olhando a partir de perspectivas diferentes...“

Em síntese, podemos afirmar que a estrutura ELD da ŠP K-L se mantém em toda parte dentro dos limites da divisão unidimensional do espaço. A diversidade da ELD concentra-se na polissemia do verbo principal kelti. A evolução subsequente da estrutura da ELD associa entre si palavras não aparentadas (kelti / kalti), enquanto, no interior do ninho etimológico, a variação da ELD acompanha a formação e a flexão das palavras de modo habitual.

Passemos à ŠP KL– e examinemos a parte restante da divisão do espaço — a superfície bidimensional. É compreensível que o verbo que chama a atenção seja kloti:

klóti 1. tr. ‘estender, pôr, colocar algo sobre uma superfície’ A seda das folhas cobre o chão S.Nėr. Os outros significados têm a mesma estrutura ELD. Talvez valha a pena mencionar apenas duas metáforas características:

22. refl. ‘correr bem’ A viagem correu-me bem.

išklóti 7. fig. ‘contar tudo, expor, explicar’ É preciso encontrar uma pessoa assim, que saiba... encarar alguém e contar tudo direitinho LzP.

como folhas que cobrem o chão ‘falar com fluência’.

No entanto, temos dez ninhos etimológicos (ver fig. 23). O que os relaciona com a superfície bidimensional? Estamos a estudar material empírico, por isso não temos de lhe impor nada, mas devemos procurar compreender como pode ser interpretado no esquema teórico adotado. Recordemos que o verbo kelti, mantendo-se dentro dos limites da divisão unidimensional, desenvolveu a sua polissemia no esquema abstrato ŠTT, afastando-se por completo tanto do movimento vertical como da própria JD (sempre a mesma vaquinha ou a informação contemporânea). Encontramos o mesmo também em ŠP KL-. A língua desenvolveu a oposição {linha unidimensional <> superfície bidimensional} numa oposição entre o movimento intencional abstratamente unidimensional (ŠTT) e o seu contrário. Kloti é apenas uma interpretação diretamente espacial. De fato, encontramos duas generalizações essenciais que motivam todo o conjunto do léxico KL-. A primeira generalização é a expansão do movimento do plano bidimensional para o espaço tridimensional (klėsti), com metáforas correspondentes (klėstėti). A segunda generalização é a negação do movimento intencional (klysti):

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klýsti 1. intr., tr. ‘seguir por um caminho errado, desviar-se inadvertidamente do caminho certo’.

É possível passar horas a fio com o LKŽ e constatar que, do ponto de vista da ELD, todas as lexemas do feixe, abundantemente desenvolvidas tanto na expressão fonológica como nas nuances de significado, são motivadas de uma ou outra maneira mencionada. Apresento abaixo apenas alguns exemplos.

1 klėsti, klėsčia (–čia, klėčia, klėčia), -tė (klėtė, klėšo)

1. tr. ‘varrer, andar varrendo, varrer’

3. tr. ‘envolver, cobrir’

4. tr. ‘esconder, proteger, defender’

6. intr. ‘mover-se, ondular’

etc.

Não são necessários comentários. Klesčia (1 klėsti 9. ‘espalhar, expandir’), portanto, tanto a expressão como as nuances semânticas dos mais variados contextos se propagam e desenvolvem. Entre os usos encontramos:

O pequeno bordo cresceu mais alto, abriu as folhinhas mais largas.

Do ponto de vista da ELD, já não é preciso perguntar o que é klevas.

klejóti 1. ‘delirar, divagar’

klejóti 3. ‘andar perdido, vaguear, não encontrar o caminho’

O SEJL escolheu klejóti como lema. As mudanças fonológicas têm os seus próprios critérios. Do ponto de vista da estrutura da ELD, klejóti 1 é uma metáfora cujo modelo original é klejóti 3. Assim, o significado típico é klýsti 1., já mencionado. A oposição monte / vale é reproduzida por falar / ouvir. Esta lista pode ser prolongada. Só não consegui encontrar uma interpretação para kiaulė, que pertence ao feixe K–L. Não a incluí na lista porque o SEJL considera obscura a etimologia de kiaulės. Poderíamos afirmar que a correspondência é de cem por cento, se alguma coisa não atrapalhasse os porcos. Mas até o porco sonha com as nuvens (vertical!).

3. A LENDA SOBRE NÁRNIA

Os heróis dos livros infantis de Clive Staples Lewis entram repetidas vezes na misteriosa terra de Nárnia e regressam de lá depois de realizarem várias aventuras. Em cada aventura, as crianças chegam lá de maneiras diferentes, mas todas têm uma característica em comum: chega-se a Nárnia mergulhando. Nem sempre se mergulha na água. Certa vez, precisam passar (mergulhar) pela parede traseira de um velho guarda-roupa; noutra ocasião, atravessar alguma outra superfície real (inclusive a água) ou imaginária. Os heróis de Lewis sempre chegam não apenas a outro espaço, mas também a outro espaço-tempo. Muitas vezes regressam a casa não pelos mesmos portões por onde entraram, mas por outros meios, e, pelas voltas do enredo, entrelaçando os mundos visitados com o seu próprio num só universo.

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FIG. 24. Feixe de raízes N-R

Conta-se que o escritor escolheu por acaso o nome da terra dos contos de fadas. Ao folhear um antigo mapa da Itália, reparou na localidade de Narnia (hoje Narni), na Úmbria, a meio caminho entre Roma e Assis. Gostou da sonoridade do nome. Foi uma coincidência, mas a relação de Nárnia com o verbo lituano nerti não é arbitrária. Pela localidade de Narni corre o rio úmbrio Nera, que desagua no Tibre, e a raiz ner significa «herói» em úmbrio. Na Lituânia também corre o rio Neris, e, em vez de um herói, debaixo de água mergulha uma correnteza ou um remoinho. Trata-se de uma herança indo-europeia. O deus grego do mar é Nereu, e as suas filhas são as ninfas nereidas. Na mitologia escandinava, o deus Njord e a sua consorte Nertus estão associados à água. Não esqueçamos também a relação de Narciso com a superfície da água que reflete o seu rosto (MNM 1992: 212, 231, 201). Já não deveríamos surpreender-nos por encontrarmos essa estrutura cognitiva apenas na língua lituana, pois o verbo nerti conservou o seu significado principal 1 nérti 1. «entrar ou descer bruscamente (por exemplo, na água)» apenas nas línguas bálticas e eslavas (MA 2006: 293).

O esquema fonológico das consoantes está representado na figura 24. No SEJL encontramos oito verbetes, que se agrupam em quatro famílias etimológicas:

N-R nerti I, nerti II, narys, niuras

N-R norėti, norint

N-RŠ neršti

N-RT nertėti

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Do ponto de vista da semântica, a etimologia reúne as acepções da ŠP N-R em cinco significados prototípicos:

1 nėrti 1. ‘mergulhar, descer bruscamente (geralmente na água)’

2 nėrti 1. ‘fazer renda, uma rede; tricotar’

norėti 1. ‘sentir desejo, desejar’

1 neršti ‘desovar, produzir ovos (geralmente falando de peixes e rãs)’

nertėti 1. ‘ficar muito zangado, enfurecer-se, enraivecer-se, irar-se’

O LKŽ apresenta o verbo nerti em dois artigos separados: 1 nerti ‘descer bruscamente à água’ e 2 nerti ‘tricotar’. Os linguistas não estão de acordo sobre se se trata de significados diferentes de uma mesma palavra ou de homónimos, isto é, palavras cujos significados se afastaram tanto que devem ser apresentados em artigos separados. No manual de Jonas Palionis (1999: 185), recorda-se que a primeira edição do DLKŽ (1954) optou pela primeira solução, ao passo que nas edições posteriores, tal como no LKŽ, se adotou a segunda. O manual explica que «até hoje não foram estabelecidos critérios mais rigorosos que permitam dizer se, num caso concreto, temos uma única palavra polissémica (com vários significados) com aceções distantes, ou duas palavras — homónimos» (ibidem). Por outras palavras, ainda não está claro o que significa a noção de «significados afastados (ou próximos) de uma palavra».

A linguística comparativa não esclarece muito mais neste caso concreto. O SEJL apresenta a seguinte etimologia:

1 mergulhar I, 2 mergulhar, niuras, narys < *nerH-

norėti < noras < *nārā- < *nā-ra < *neh₂-ro-

neršti < *nerḱ-

O SEJL afirma que 2 nerti está «provavelmente ligado etimologicamente» a 1 nerti, mas não apresenta argumentos (SEJL 2007: 421, 422). O MA apresenta 1 nerti como exemplo de uma forma verbal conservada em lituano que corresponde à preposição proto-indo-europeia *ner (debaixo). Esta preposição deu origem, de uma forma interessante, à palavra germânica north — norte (porque os indo-europeus associavam o norte ao que fica em baixo). Já 2 nerti é apresentado na mesma obra como exemplo da raiz *(s)ner- (com o significado de ‘prender com fio ou corda’) (MA 2006: 234, 293). Na verdade, o problema é o mesmo: as raízes reconstruídas têm significados semelhantes aos das formas lituanas, e é preciso responder à mesma questão da proximidade ou distância entre significados.

A estrutura espaço-temporal do mergulho na água (1 nerti) está representada na Figura 25. Para o tricô (2 nerti), uma figura desse tipo já não basta. Em que aspetos as estruturas espaço-temporais dos dois grupos de significados são semelhantes e em que aspetos diferem? Ambas estão representadas em conjunto na Figura 26. Imaginemos uma superfície P estendida sobre uma linha fechada L. O movimento começa no ponto A e atravessa a superfície P no ponto B. Em seguida, está assinalado o ponto C, onde se escolhe entre duas possibilidades de continuação do movimento. Se a superfície P for a superfície de uma massa de água e a linha L for a sua linha de costa, o movimento pode prosseguir por baixo da superfície, mas, para regressarmos ao ponto inicial A, teremos de atravessar novamente a (água)

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FIG. 25. Estrutura espaço-temporal do verbo 1 nerti

no ponto D da superfície. Se P for uma superfície (imaginária) numa linha fechada, podemos virar noutra direção e, depois de percorrermos o contorno L, regressaremos ao ponto de partida A sem voltarmos a atravessar a superfície. É precisamente no ponto C que se dá a escolha entre 1 nerti e 2 nerti. Esse ponto de escolha é o objeto do nosso estudo. De que objeto se trata e que disciplinas científicas estudam objetos desse tipo? O desenho é facilmente interpretável em matemática. Representa uma propriedade importante de uma superfície bidimensional limitada: depois de atravessarmos uma superfície desse tipo, temos dois caminhos para regressar ao ponto de partida. Esta situação pode ser formulada como um facto do ramo da matemática chamado topologia. Contudo, os matemáticos não têm o menor interesse no facto de estas duas possibilidades serem expressas pela mesma raiz lituana. A investigação semântica também não precisa da matemática. As relações espaciais são evidentes, e uma área complexa da matemática não acrescentará nada aqui.

Todos veem os mesmos significados do verbo, descritos em pormenor no LKŽ, mas cada um vê apenas aquilo que o paradigma da sua disciplina consegue e quer ver. Os significados do verbo nerti dividem-se claramente em dois grupos de conceitos essencialmente distintos: 1 nerti (mergulhar abruptamente na água) e 2 nerti (fazer malha). Mergulhar na água não tem nada que ver com fazer malha. O que é que esta perspetiva não vê? Não vê aquilo que constitui a principal ferramenta metodológica da nossa investigação: uma parte do conteúdo do significado da palavra,

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FIG. 26. Estrutura espaço-temporal conjunta dos verbos 1 nerti e 2 nerti

que expressa as relações de espaço, tempo e dinâmica das forças (ELD). Coloquemos o gato sinuoso no ponto C para que ele possa ver a estrutura ELD como um todo. O objeto da nossa investigação não é tanto o próprio ponto, mas o estado mental perante uma escolha. Na secção 1.2 chamámos a esse estado abėja. Ao olharmos assim para o nosso exemplo, não só vemos o conjunto dos significados da palavra, como também podemos reconhecer um facto singular da língua lituana. A raiz ner conservou na língua lituana o estado abėja. É fácil confirmar isso desenvolvendo, passo a passo, uma frase como esta:

Mergulho… Faço malha… Faço malha e mergulho-a na água.

Seria possível verificar, com testes psicológicos simples — do tipo que se realizam diariamente aos milhares em todo o mundo — como muda a compreensão da frase. É muito provável que mudasse na seguinte sequência: 1 nérti > 2 nérti > 1 nérti. Enquanto os psicólogos na Lituânia não se interessarem pelas propriedades singulares da sua própria língua, não nos resta outra alternativa senão prosseguir a investigação com os nossos próprios meios. No ponto C, escolhemos um contexto espacial,

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o chamado quadro de referência (AF). A escolha a que conduzem este e outros exemplos lituanos é injustamente ignorada nos estudos contemporâneos da perceção do espaço. Recordemos que o espaço é tridimensional e isotrópico. A semântica do verbo nerti conduz ao mesmo primeiro passo que reduz a isotropia do espaço, passo que abordámos na secção 2.1. As duas escolhas mais simples possíveis distinguem os significados 1 nérti e 2 nérti. O significado 1 nérti é interpretado no quadro AFK-L, pois a superfície da água através da qual se mergulha não é limitada em nenhum uso. Ao contrário da semântica K/L, em que tudo acontece acima da superfície terrestre, aqui descreve-se um estado abaixo da superfície (da água). O significado 2 nérti já não está associado à água, mas a superfície através da qual se mergulha é limitada. Não nos deslocamos para o quadro AFL-K, como no caso de L/K, mas para a interseção dos quadros AFK-L e AFL-K. Aqui, convém colocar o termo «interseção» entre aspas, pois ele descreve diretamente apenas o facto geométrico de o contorno L resultar do corte de uma superfície aberta por uma fechada. Para a combinação dos próprios quadros de referência, seria provavelmente necessário recorrer à técnica de integração conceptual (ing. blending). Neste artigo, isso ocuparia demasiado espaço.

4. A LENDA SOBRE O AMOR E A FELICIDADE

A estrutura do feixe de raízes L-M/M-L é apresentada na figura 27. As entradas do SEJL agrupam-se em 11 ninhos etimológicos:

L-M determinar, felicidade

M-L querido, amável, amar

M-L moer

M-L moer, moinho, melro, terra, farinha, argila, azul, mistura, areia

M-L mentira

M-LD rezar

M-LD trevo

M-LK lenha

M-LK lenha

M-LŠ esmagar

M-LŽ ordenhar, gigante

O feixe de raízes L-M abrange apenas um ninho etimológico, cuja semântica, que expressa a relação entre parte e todo, analisámos na secção 1.4. Aqui aprofundaremos o feixe de raízes M-L, composto por dez ninhos etimológicos. Analisarei apenas a semântica dos quatro ninhos principais (sem consoantes adicionais). O título da lenda alude à simetria amor / felicidade. Contudo, a natureza cognitiva da simetria reside não nestas palavras populares, mas na inversão da relação entre o todo e a parte. Ao invertermos a estrutura ELD de determinar / partir, entendida como a separação de uma parte (lasca) do todo (determinação), devemos esperar a ação oposta — a constituição do todo a partir das partes.

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FIG. 27. Feixe de raízes L-M / M-L

A estrutura cognitiva M-L diz outra coisa. Como veremos, a semântica das palavras M-L conduz à relação entre limitado / ilimitado e discreto / contínuo. Os verbos do feixe M-L exprimem uma transformação do discreto limitado em discreto ilimitado e, em seguida, uma transformação em contínuo limitado. De fato, ao quebrarmos um pedaço de bolo ou de pão, não retiramos um componente do mecanismo, mas separamos uma parte de um objeto contínuo limitado (quebramos um pedaço). Seria interessante aprofundar e repensar, sob esse ponto de vista, a análise mitológica de Greimas. Neste artigo, limitar-me-ei à análise do M-L das raízes, à qual passo agora.

A semântica M-L / L-M assume a forma de uma metáfora conceptual (tal como entendida na linguística cognitiva). Trata-se de um mapeamento de um domínio concreto (a produção e o consumo de pão) para um domínio abstrato (as relações comunitárias), unidos pela mesma estrutura ELD.

A produção (e o consumo) de pão compõe-se de três etapas:

a) os grãos são moídos para fazer farinha,

b) a farinha é misturada com água,

c) o pão é assado (no fogo),

d) o pão é fatiado para consumo.

Essas etapas não são uma invenção, mas foram extraídas da língua. Correspondem a três famílias etimológicas que têm como base verbos: malti, milti e lemti. Todas as demais famílias se baseiam em substantivos (por exemplo, mylas) ou contêm grupos consonantais (por exemplo, melsti) e são derivadas do ponto de vista cognitivo e fonológico. Essas

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três etapas no domínio das relações comunitárias não são evidentes, por isso apresentarei primeiro o ELD.

A semântica cognitiva divide as coisas percebidas em limitadas / ilimitadas e discretas / contínuas (Talmy 2000: 59). As quatro combinações resultantes estão representadas na Fig. 28. As setas representam a sequência de transformações: a passagem do discreto limitado ao discreto ilimitado, a transformação do discreto em contínuo e, finalmente, a transformação do contínuo ilimitado em contínuo limitado. Nosso objetivo é verificar se a estrutura ELD da semântica dos verbos com a raiz M-L corresponde precisamente a essas transformações. Além disso, essas transformações ocorrem paralelamente tanto no domínio concreto (a produção de pão) quanto no domínio abstrato (as relações comunitárias), como exige o esquema da metáfora conceptual.

À primeira vista, não é evidente que o verbo malti esteja ligado à transformação do discreto limitado em discreto ilimitado: malti 1. ‘triturar grãos até virarem farinha’. Esse significado aponta claramente para um mecanismo simples pelo qual a farinha é obtida dos grãos. O uso em um contexto mais amplo, ‘triturar, esmagar, moer algo até virar farinha, em partículas pequenas’, é ainda mais claro. Malti significa transformar objetos materiais maiores em outros menores, mais finos ou (no caso da farinha) até mesmo quase imperceptíveis. Nessa perspectiva, o verbo malti é sinônimo dos verbos grūsti, trinti, smulkinti, skaldyti e semelhantes, que exprimem o mesmo processo sob diferentes aspectos e em diferentes graus.

Examinemos mais amplamente o contexto que o LKŽ nos apresenta. Dizer que miltai é ‘um produto de grãos moídos’ também não traz nenhuma novidade. Contudo, o singular dessa palavra muda muita coisa: miltas ‘parte farinácea do grão’. Como isso tem importância decisiva para nossa pesquisa, vale a pena examinar uma série de exemplos apresentados pelo LKŽ:

Avižų mažas miltas, o didelė sėlina. Grūdą parkandus, miltas matyti. Ar pupelė, ar žirnis – turia tokį pat miltą. Mažųjų linų sėmuo y[ra] juo pripurpęs, didelį miltą turia. Grūdai sudžiūvo, bet nebuvo dar milte, iš to badas [1868 m.].

Esses exemplos apresentam a estrutura do grão, que era compreendida com muita clareza pela comunidade agrícola. Disso se conclui que obtemos miltus não «triturando os grãos até virarem farinha», mas de algum outro modo, pois miltas já está no grão. Chegava-se até a dizer: «grūdas yra / nėra milte», dependendo de o miltas ser grande ou pequeno. Os grãos já contêm miltus em si. Cada grão tem miltą, e o conjunto deles, malant, forma miltus. Miltas está no grão como num recipiente chamado sėlena. Ao moer, miltas é separado do sėlenos e libertado do recipiente.

Recorramos às estruturas cognitivas para esclarecer a diferença entre os significados do verbo malti ‘triturar grãos até virarem farinha’ e ‘triturar, esmagar, moer algo até virar farinha, em partículas pequenas’, embora o LKŽ os apresente como significados da mesma acepção

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maltį:

discreto limitado

transforma-se em

discreto ilimitado

2 milti:

discreto ilimitado

transforma-se em

contínuo ilimitado

1 milti:

contínuo ilimitado

transforma-se em

contínuo limitado

FIG. 28. Mudança da estrutura ELD M/L da lenda

variantes. Podemos partir as pedras em brita; mais finos serão o cascalho, depois a areia e, por fim, o pó. Ao compreender assim a moagem dos grãos, estamos num nível mais grosseiro da estrutura cognitiva, adequado à pedra, mas que não atenta para a percepção mais profunda, para a estrutura do grão. Se moemos uma pedra, o contínuo limitado transforma-se em discreto ilimitado. Mais precisamente, trata-se de outro esquema, no qual um objeto unitário se transforma em múltiplo. Se moemos grãos e levamos em conta a estrutura do grão, o discreto limitado transforma-se em discreto ilimitado. Essas transformações são percebidas de maneiras diferentes. Uma pedra (contínuo limitado), moída até virar pó (discreto ilimitado), não é um recipiente para esse pó. O grão tem farelo, que contém a farinha e, ao moermos os grãos, libertamos a farinha desse recipiente. Trata-se de estruturas cognitivas essencialmente diferentes. A língua é muito precisa ao expressá-las. Ao libertar de um recipiente um conteúdo discreto ou contínuo, usamos palavras diferentes. Vertemos a água (contínua) do recipiente, mas despejamos os grãos (discretos) do saco. Não podemos despejar a água nem verter os grãos. A farinha, tal como o pó, não é nem despejada nem vertida. Ocupa uma posição intermédia, de transição, por isso

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temos de usar uma palavra universal: despejamos farinha (mas despejamos tanto água como grãos). Assim, a estrutura cognitiva da semântica de moer contém tanto uma estrutura mais grosseira como uma mais profunda. Será moer sinónimo de despejar ou de triturar depende da profundidade da compreensão. A língua pode ser tanto de precisão rigorosa como de liberdade poética. Como mencionámos, não podemos despejar água, nem verter grãos. Ao transportar o mesmo esquema, por via metafórica, para a esfera social, encontramos no LKŽ que as pessoas podem tanto fluir como acorrer e derramar-se. Assim fundamentamos a etapa a do processo de fabrico do pão mencionada acima.

A estrutura das etapas b e c é totalmente evidente, pois o pão é feito de farinha (discreto ilimitado) e, ao ser amassado e cozido, transforma-se num objeto contínuo. A propósito, a palavra pão é usada tanto como limitado (um pão) como ilimitado (dá-me pão). Esta etapa abrange duas transformações: de discreto para contínuo e de ilimitado para limitado. Vamos examiná-las em conjunto, pois a semântica das palavras se sobrepõe de uma maneira interessante. A relação com o verbo milti não é evidente. No LKŽ encontramos dois significados (e duas formas fonológicas): 1 milti, milia, mylė ‘mergulhar pedras aquecidas em água fria na sauna’ Vamos à sauna — já vi que está a mergulhar as pedras. 2 milti, milsta, milo ‘começar a amar’ Vivendo em harmonia, as pessoas começam a afeiçoar-se umas às outras.

O segundo significado 2 milti revela uma camada cognitiva. O sentido ‘começar a amar’ apresentado no LKŽ permanece à superfície, enquanto o exemplo aponta para uma camada mais profunda. As pessoas milsta se vivem em harmonia. Podemos entender que as pessoas começam a amar-se umas às outras. Mas o uso do verbo milsta é intransitivo, isto é, revela não o que as pessoas fazem, mas o que lhes acontece: as pessoas milsta. Ao milti, as pessoas passam de um conjunto de indivíduos separados (discreto ilimitado) para uma comunidade (contínuo limitado). É a mesma transformação que ocorre ao fazer pão com farinha. Não encontramos no LKŽ o significado de que a farinha, ao transformar-se em pão, milsta. Mais uma vez, é completamente irrelevante se esse significado existiu alguma vez ou se teve alguma outra expressão fonológica. O que é conservadora é a própria estrutura cognitiva, e o significado do verbo dá testemunho dela. O mais extraordinário é que o primeiro significado da palavra 1 milti está diretamente ligado ao fabrico do pão. A farinha já não tem individualidade, mas sem ela não se pode cozer pão. Contudo, para se tornar pão, a farinha tem de passar por um procedimento repleto do simbolismo do fogo e da água. Começa o mistério do fogo e da água, e é só graças a ele que teremos pão aromático. Assim, a farinha não é apenas consequência da moagem, mas também causa do processo subsequente (milti). Ela funde os elementos constituintes num todo — o pão. Resta lembrar que, antigamente, o pão era cozido na sauna...

A estrutura cognitiva das etapas b e c é também testemunhada por outras palavras. O SEJL apresenta a palavra mylas como lema de todos os significados e formas relacionados com o amor, incluindo 2 milti. Apresenta separadamente apenas 1 milti, cuja origem permanece por esclarecer. Entretanto, a perspetiva cognitiva põe tudo no seu devido lugar. Os substantivos agrupam-se em torno de: mylas, mielas, mielės. Não é difícil perceber o denominador comum desse significado — aquilo que reúne em

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uma totalidade (pão, comunidade, edifício), um «fermento» — será que isso significaria levedura, gesso ou uma pessoa amável? Trata-se de uma transformação do discreto para o contínuo.

A última etapa d está associada à transformação fonológica M-L > L-M. A transformação fonológica L-M, como mencionado, foi discutida na seção 1.4. É interessante que o LKŽ também apresenta a metátese fonológica milinys / liminys. É compreensível que sua natureza seja completamente diferente.

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SUMMARY

Several decades ago fonosemantic phenomena have been noticed in the Lithuanian language. It was observed that the senses of certain words with interchanged consonants remain related. Those observations were not supported by the scholars of the Lithuanian language.

In this article an account explaining fonosemantic phenomena in the Lithuanian language is presented. This account partitions the content of the word sense into the conceptual part and the content which expresses space, time and force dynamic (STD) aspects. The conceptual part of the word sense provides access to encyclopaedic knowledge and is processed consciously. STD part remains unconscious. The fonosemantic phenomena under this account are explained as the extension of the cognitive topology of the network of word senses to phonologically similar though not genetically related words.

Several examples are investigated. The network of senses of the Lithuanian verb kelti (to rise, to lift) is studied and expanded. It is demonstrated that STD content of verbs with consonants K/L in the root corresponds to the frame of reference which partitions isotropic 3D space into unbounded 2D manifold plus verticality of one dimension. On the other hand, STD content of senses of the verb laikyti (to keep, to hold) corresponds to the frame of reference which partitions isotropic 3D space by bounded 2D manifold.

Words with consonants N/R; M/L <> L/M are analysed in a similar manner.

Įteikta 2016 m. gegužės 5 d.

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Europos parlamento nario Algirdo Saudargo biuras

Teatro g. 8, LT-03107 Vilnius, Lietuva

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