Page 1ALBRECHT GREULE
Universidade de Regensburg
Áreas de investigação científica: gramática textual, teolinguística e canto sacro, onomástica, sintaxe histórica.
DOI: doi.org/10.35321/all84-01
CORROSIVO! SOBRE A HISTÓRIA DOS VERBOS ätzen, atzen, äsen
Corrosivo! Sobre a história dos verbos ätzen, atzen, äsen
ANOTAÇÃO
Na linguagem juvenil e coloquial alemã, ätzend é usado de modo depreciativo para algo que é entediante, repugnante e desagradável. Ätzen é, contudo, do ponto de vista etimológico, o causativo de essen; o artigo procura acompanhar o desenvolvimento que levou do causativo de essen presente nas línguas germânicas antigas, germânico *atjan, aos verbos do alto-alemão moderno ätzen, atzen e äsen, ainda registrados no Dicionário Alemão de 2007. Considera-se, nesse processo, a hipótese de que a mudança verbal não pode ser apreendida sem a descrição do contexto morfológico e semântico de cada verbo.
PALAVRAS-CHAVE: mudança semântica, etimologia, sintaxe histórica, causatividade, constelação verbo-actantes.
ANOTAÇÃO
Na comunicação juvenil e na linguagem coloquial alemãs, ätzend é usado depreciativamente para algo que é entediante, repugnante e desagradável. Contudo, etimologicamente falando, Ätzen é o causativo de essen. Este artigo procura acompanhar o desenvolvimento que levou do causativo de essen, germânico *atjan, presente nas línguas germânicas antigas, aos verbos do alto-alemão moderno ätzen, atzen e äsen, ainda registrados no Dicionário Alemão de 2007 (DWB). Observa-se a hipótese de que a mudança verbal não pode ser apreendida sem descrever o contexto morfológico e semântico de cada verbo.
Straipsniai / Articles
11
Page 2ALBRECHT GREULE
PALAVRAS-CHAVE: mudança de significado, etimologia, sintaxe histórica, causatividade, constelação verbo-actantes.
CONSTELAÇÕES VERBO-ACTANTES
As análises seguintes partem da hipótese de que o desenvolvimento semântico de um verbo não pode ser descrito adequadamente sem levar em conta a constelação verbo-actantes (VAK) exigida pelo verbo como portador de valência. A VAK consiste em dois níveis relacionados entre si, o semântico e o morfológico. O nível semântico é descrito, no caso dos actantes do verbo, por “papéis casuais” ou “casos profundos”, aos quais correspondem estruturas de expressão morfológicas (em parte, grupos de palavras flexionados). A descrição semântica dos actantes realiza-se num quadro de casos profundos (TKR), e a morfológica, por meio de um plano de construção frasal (SBP) (cf. Greule, Korhonen 2021: 34).
Exemplo: a constelação (trivalente) de actantes do verbo mhd. etzen ‘fornecer alimento (‘atividade’)’ é: [semanticamente] Agens (‘Mensch’) → [morfologicamente] Nn // [semanticamente] Adressat (‘Mensch/Tier’) → [morfologicamente] Na // [semanticamente] Affiziertes Objekt (‘Nahrung’) → [morfologicamente] pNmit// Abreviadamente: (SBP/TKR) Nn/Agens (Mensch) // Na/Adressat (Mensch/Tier) // pNmit/Affiziertes Objekt (Nahrung).
(As abreviaturas significam: Na = nome/grupo nominal no nominativo, Na = nome/grupo nominal no acusativo, pN = grupo preposicional, indexado com a preposição regente; além disso, Ng = nome/grupo nominal no genitivo, Nd = nome/grupo nominal no dativo.)
Do ponto de vista da gramática de construções, poder-se-ia falar de uma construção “ingestão de alimento causada”, com os papéis Agens x causando que Agens y ‘ingira’ a Nahrung z, construção na qual, ao longo da história da língua, em lugar de ätzen, atzen, äsen puderam entrar os verbos nähren, füttern, weiden etc.
As análises têm como objetivo preparar os causativos originais de essen, no alto-alemão moderno ätzen, atzen, äsen, para inclusão no Dicionário Histórico Sintático de Verbos (HSVW) (cf. Greule, Korhonen 2021: 154). Para isso, baseamo-nos nas digitalizações dos dicionários históricos alemães: AHDWB, MHDWB, FNH DWB, GoetheWB, e na edição impressa da reelaboração do Dicionário Alemão dos irmãos Grimm (DWBneu). Os significados individuais (sememas) atribuídos nesses dicionários às correspondências históricas de ätzen, atzen e äsen são, com base nos testemunhos textuais
12
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Page 3Ätzend! Zur Geschichte der Verben ätzen, atzen, äsen
interpretados, nível linguístico por nível linguístico, quanto à sua constelação verbo-actantes. Da soma dos sememas e de sua VAK, no confronto diacrônico, depreende-se sobretudo a história semântica dos três verbos originalmente (etimologicamente) sinônimos.
1. OS VERBOS CAUSATIVOS ORIGINAIS DE ESSEN
As formações causativas outrora existentes do verbo alemão essen desempenham, na comunicação atual em língua alemã, quando muito um papel secundário. A reelaboração do Dicionário Alemão (DWBneu) atribui, contudo, aos verbos äsen, atzen e ätzen, respectivamente, um artigo próprio. Os três verbos também estão registrados no Dicionário Universal Alemão da redação Duden. As entradas dos dicionários deixam claro que os três verbos, com o significado básico ‘x faz com que y coma z’ (mais simplesmente: ‘x alimenta/dá de comer a y com z’), estão documentados desde o alto-alemão antigo e apresentam correspondentes nas outras línguas germânicas. Apesar da estrutura sintática trivalente clara e da estrutura morfológica ainda reconhecível por reconstrução — trata-se de verbos fracos em jan do verbo não causativo, derivados do grau o, a partir do qual se forma o pretérito (essen-aß), cf. trinken/trank – tränken ‘fazer/deixar beber’ —, a apresentação da história verbal para o Dicionário Histórico Sintático de Verbos, isto é, levando em conta o contexto semântico e morfológico exigido pelos verbos como portadores de valência, apresenta dificuldades consideráveis. Elas se encontram tanto no âmbito dos significados que se desenvolveram divergentemente ao longo da história da língua quanto no das evoluções fonéticas iniciadas no período pré-alto-alemão antigo.
2. ETIMOLOGIA
O causativo do verbo forte germânico *et-a- ‘comer’ é derivado do grau o do radical verbal (germ. *at-), com o sufixo -ja. Essa formação “correta” está documentada no gótico (fra-)atjan ‘distribuir para comer’, no nórdico antigo etja ‘alimentar’, no inglês antigo ettian ‘deixar pastar’, no frísio antigo etta ‘pastorear’, e possui um paralelo morfológico no causativo germânico *sat-ja- ‘fazer sentar’, formado a partir do radical do verbo forte germânico *set- ‘sentar-se’. A complicação no causativo de essen surge porque outro verbo, com o radical germânico *et- ‘comer’ e o sufixo -ja, foi, contudo, derivado do
Straipsniai / Articles
13
Page 4ALBRECHT GREULE
grau alongado germânico ēt, como germânico *ēt-ja. Essa formação não está documentada no gótico; nessa língua, do grau alongado existem apenas os substantivos uz-eta ‘manjedoura’ e af-etja ‘comilão’, bem como, em outras línguas germânicas antigas, a continuação do germânico *ēt-a-m ‘comida, alimento’ (Seebold 1979: 180), de modo que se pode supor, com Jörg Riecke, que germânico *ēt-ja seja derivado desse radical nominal e originalmente não fosse causativo (Riecke 1996: 651). O germânico *ēt-ja poderia ter sido um ornativo (bivalente) e ter tido o significado ‘x fornece alimento/forragem a y’ (= ‘x alimenta y’). (cf. sobre todo o complexo EWAhd II: Sp. 1188f.)
A formação dos três verbos causativos de essen deve-se a várias mudanças fonéticas no período pré-alto-alemão antigo, que produziram três tipos formais:
No tipo 1, germ. *at-ja-, a vogal radical /a/ foi elevada diante de /j/ a /e/ (metafonia primária), e /-t-/ foi geminada > pré-ahd. *etija-.
No tipo 2, germ. *ēt-ja-, além do gótico, o /ē/ proto-germânico foi rebaixado a /ā/: *atīja-. Como a geminação de /-t-/ após vogal silábica longa era facultativa, no ahd. puderam surgir dois subtipos, um sem geminação de t (2a) e outro com geminação de t (2b):
Tipo 2a) pré-ahd. *atīja- > ahd. āzen. A metafonia esperada de /ā/ e o comprimento da vogal não foram marcados graficamente no alto-alemão antigo, mas somente no médio-alto-alemão como æʒen, êʒen, ēʒen (pret. âʒte?), nhd. äsen [äː] (= metafonia secundária). O /-t-/ pré-ahd. não geminado tornou-se (pela segunda mutação consonantal) a fricativa surda simples /-s-/, ahd. <-z->, mhd. <-ʒ->.
Tipo 2b) pré-ahd. *atīja- > ahd. *ätzen/āzen. A metafonia esperada de /ā/ e o comprimento da vogal não foram marcados graficamente no alto-alemão antigo, mas somente no “médio-alto-alemão” como *ætzen, *ētzen. A geminada /-tt-/ tornou-se (pela segunda mutação consonantal) a africada /-ts-/.
A etimologia do nhd. atzen é incerta. Pode tratar-se de uma variante secundária proveniente do dialeto (bávaro) (no dialeto bávaro, a metafonia de /ā/, mhd. <æ>, foi rebaixada a /aː/ desde o século XII) ou (mhd.) ätzen surgiu, por nivelamento do sistema, do pretérito *ätz-te.
Não pertence ao grupo dos causativos de essen o ahd. azon ‘banquetear-se’ (assim Seebold 1970: 180), ou o ahd. âzôn ‘procurar alimento ou forragem’ (AHDWB I: 11, Sp. 766), nhd. aasen (DUW: regionalmente ‘lidar com algo de modo esbanjador, não econômico, desperdiçar algo’ (cf. DWBneu, vol. 1, Sp. 15). Trata-se provavelmente de uma formação denominal a partir de ahd. āza (azza) ‘comida, forragem’ (cf. EWAhd I: Sp. 409–410).
14
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Page 5Ätzend! Zur Geschichte der Verben ätzen, atzen, äsen
3. SEMÂNTICA E SINTAXE: CONSTELAÇÕES VERBO-ACTANTES DIACRONICAMENTE
Alto-alemão antigo
Tipo 1, germ. *at-ja-: ahd. ezzen com [–ts–], mhd. etzen (pret. atzte, com metafonia regressiva), nhd. ätzen (propriamente *etzen)
Ahd. ezzen verbo fraco (AHDWB III: Sp. 476f.; Riecke 1996: 638)
Semema 1 ‘deixar pastar, deixar comer completamente’. Testemunho sem contexto sintático.
Semema 2 ‘corroer, limpar com líquido corrosivo’. Testemunho giezzit uurtin (passivo)
Tipo 2a, pré-ahd. *ātja- > ahd. āzen com [–s–], mhd. æzen, ȇzen/ēsen, nhd. äsen (mais antigo äßen)
e
Tipo 2b) pré-ahd. *āttja- > ahd. (gi-)āzen com [–ts–] (AHDWB I: Sp. 764f.: com africada; Schützeichel 2006: āz(z)en ‘alimentar, dar de comer’; Riecke 1996: 650f.: āzen ‘dar algo de comer a alguém, alimentar alguém’), mhd. *ætzen, *etzen. As grafias ahd. com <–z–> ou <–zz–> não permitem uma atribuição segura a africada ou fricativa.
Ahd. āzen (AHDWB I: 764f.)
Semema ‘dar de comer a alguém, nutrir alguém, dar algo de comer a alguém, alimentar um animal’.
SBP/TKR: NGn/Agens (Mensch/Gott) – Nga/Adressat (Menschen/Tiere) – [pNₘᵢₜ/Affiziertes Obj. (Speise)] – [pNₐᵦₐ/Instrumento („com a mão“)]
Testemunhos: (1) daz ih hungarege ni azda. (2) [du] rihtost... mir tische. daz ih keazzet wurde mit starcherun fluoro danne diu milch si (passivo). (3) toh tie... leuuen an in chetenna tragen. unde doh man sie azze aba hende Nb 138,1 [149,4].
Médio-alto-alemão
etzen, ezzen [com metafonia primária e africada < pré-ahd. *attja–], pretérito azte (= tipo 1)
Semema 1 ‘fornecer alimento a alguém/um animal, alimentar, nutrir, dar de comer’ (tr.): causativo (fativo) “fazer comer”.
SBP/TKR: NGn/Agens (Mensch) – Nga/Adressat (Mensch/Tier) – [pNₘᵢₜ/Affiziertes Objekt (Nahrung)] – [pNₘᵢₜ/Instrumento (Hand)]
Atestações: ir sult [...] den hungerigen etzen PrBerth 1:280,36; mich durfte, ir tran<em>tent</em> mich, mich hungerte, ir azetent mich Lucid 141,4; di hungerigen er [der gute Christ] ezet / di durstigen er trenket Glaub 1691; si [Maria] trancte in [Christus] unde azte in mit deme rainen spunne ire hailigen miliche TrudHL
Straipsniai / Articles
15
Page 6ALBRECHT GREULE
80,16; siche lûte pflac si a temperar e a beber com as suas mãos HvFritzIHI 243,1; que tu, para [o teu senhor], o seu gado [...] em casa alimentas e dás de beber PrBerth 1:268,17; com mel ele, [o diabo], [o pecador] alimenta / e depois dá-lhe de beber com fel HeslApk 13350.
Semema 2 ‘deixar o (seu) gado pastar’ causativo (permissivo) ‘deixar comer’
SBP/TKR: Nɢn/Agens (Mensch) – pNuf / Lugar (pastagem)
Testemunhos: daz pæide lôte vf ir paider wæide solen treiben vnde ezzen alse vor sechzich jaren UrkCorp (WMU) 1690,3; alles daz reht, daz ich hatte vf ir mat-tan ze ezzene ebd. 1801,26. 649,16.
Semema 3 ‘prejudicar alguém deixando o gado pastar sem autorização’
SBP/TKR: Nn/Agens (Mensch) – [Na/Patiens (Mensch)] – [pNan/Lugar]
Testemunhos: sunder hove, die uns weder treten noch etzen süllen SchweizId 1,628; swer den andern anspricht umb etzen, tretten, ubersniden, ubernemen UrkWittelsb 1,148 (a. 1255); item si quis alium impulsa uerit de dampnis, que dicuntur etzen, trettin, ubersniden, ubereren ebd. 1,89 (a. 1244]); tut ieman dem andern schaden pey tag oder pei nacht mit etzen an seinen chorn, an seinem wizmat, an seinen garten StrMünch 327,18.
etzen, mdt. *êtzen, (bair.?) ȃtzen [com metafonia secundária longa, africada < pré-ahd. *āttja–] A variante ȃtzen pode ter surgido pelo nivelamento do sistema a partir do pretérito *ātz-te ou provém do bávaro, onde a metafonia secundária mhd. <æ> foi rebaixada a /a:/ desde o século XII.
Semema 1 ‘fornecer alimento a alguém/um animal, alimentar, nutrir, dar de comer’ (tr.): causativo (fativo) “fazer comer”.
SBP/TKR: NGn/Agens (Gott, Mensch) – Nga/Adressat (Mensch, Tier) – [pNmit/ von/Affiziertes Objekt (Speise, Futter)] – [pNmit / uf /Instrumento (com/sobre a mão)]
Testemunhos: er [Gott] æcet siv [die Feinde Gottes] uon fezte chorens unde uon steine honges sat er siv PsM 80,17; Daniel 3590; und ätzt in [den Delphin] zuo letzt mit seiner hant BdN 236,17; [den Hahn] atzt er dick uf siner hant Reiher 35. übertr.: dar nach so trencht man in und aezet in mit der ler des hiligen ew ein-gelium PrOberalt 33,19.
Semema 2 ‘prover algo (uma vara de pesca) com uma isca’
SBP/TKR: NGn/Agens (Mensch) – Nga/objeto afetado (vara de pesca) – pNmit/Instrumento
Testemunhos: ain regenwurm, dâ mit man die ängel ätzt BdN 310,5, in die geätzten h amen BdN 215,13.
Semema 3 ‘dar algo de comer a alguém, revigorar alguém com algo’
SBP/TKR: Nn/Agente (Mensch) – Nd/Destinatário (Mensch) – Na/Objeto afetado (Duft)
16
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Page 7Ätzend! Zur Geschichte der Verben ätzen, atzen, äsen
Testemunho: (fig.) o santo odor que tu nos acist sempre LambGeb A23. aezen, mdt. êzen/êsen, bávaro? *âzen/âsen [com metafonia secundária longa, fricativa < pré-ahd. *atja-] (= tipo 2a)
Semema 1 ‘fornecer alimento a alguém/um animal, alimentar, nutrir, dar de comer’ SBP/TKR: NGᵣn/Agens (Mensch, Adler) – Nga/Adressat (Mensch, Adler) – [pNvon/objeto afetado (forragem)]
Testemunhos: dc du den hungergen ésest PrSchw 2,55; dise hende, dî dich ezden in ellende MarlbRh 49,34; – com Pron. refl.: [do águia] fus se [...] / ein lewen halten zu der stunde, / von dem sich sin richer munt / nach sime lust eset und erquickt Minneb 3005. –
Semema 2 ‘pastorear algo’, aqui em sentido figurado ‘rastejar’ (literalmente ‘pastorear a encosta abaixo’) SBP/TKR: NGᵣn/Agens (Mensch) – Nga/objeto afetado (encosta)
Testemunho: sobre areia e água / tiveram de [Jônatas e seus homens] pastorear as encostas asin / subindo [a rocha acima] sobre os quatro membros RyEWchr 23336.
Alto-alemão antigo recente
O FNH DWB estabelece um lema para cada tipo, o tipo com africada e o tipo com fricativa:
ätzen, etzen, mais raramente atzen
Semema 1 ‘dar algo de comer a alguém, alimentar alguém’; (especialmente: ‘prover (presos) de alimentação’; em fórmulas proibitivas de linguagem jurídica: ‘alimentar alguém, oferecer abrigo a alguém’; ‘alimentar (animais)’
SBP/TKR: NGᵣn/Agens (Mensch) – Nga/Adressat (Mensch/Tier) – [pNmit/objeto afetado (alimento)] – [pNmit/Instrumento (mão)]
Testemunho: welheu hüenr man ätzt mit halbgekochter gersten, diu legt vil air K. v. Megenberg, B.d.Nat.196,15; ele (pássaro) alimenta-se a si próprio com o seu pé como um ser humano com a mão K. v. Megenberg, B.d.N.222,9.
Semema 2 ‘dar algo como alimento (por exemplo, aveia)’ SBP/TKR: NGᵣn/Agens (Mensch) – Nga/objeto afetado (alimento)
Testemunho: ätzten sie aber habern, que a comunidade deve pagar Weist. Schriesheim 184, 10.
Semema 3 ‘conduzir (o gado) ao pasto florestal’ SBP/TKR: NGᵣn/Agens (Mensch) – NGᵃ/objeto afetado (gado) Testemunho:?
Semema 4: ‘(o gado) pastar’ SBP/TKR: NGᵣn/Agens (Mensch) – NGᵃ/Patiens (Vieh) Testemunho:?
Semema 5: ‘deixar pastar (a vegetação de uma superfície)’ SBP/TKR: NGᵣn/Agens (Mensch)
Straipsniai / Articles
17
Page 8ALBRECHT GREULE
Testemunho: mas que alguém paste⟧ [na área comum] queira⟧permitido⟧ Weistum Schriesheim 121,5
Semema 6: ‘prejudicar alguém deixando o gado pastar’ (cf. DWBneu atzen4: ‘prejudicar alguém por deixar pastar sem autorização em suas áreas de forragem’
SBP/TKR: NGn/Agente (Mensch) – NGa/Paciente (Mensch)
Testemunho: 1.º quartel do século XIV. sem cascos, que não nos devem nem pisar nem e(tzen) deixar schweiz. id. 1,628 (DWBneu)
Semema 7: ‘prover (um dispositivo de captura) com isca/carne’ (cf. DWBneu atzen3: ‘atrair animais com alimento, usar isca; prover algo com alimento atrativo, isca’, pela primeira vez em 1349/50, Konrad v. Megenberg)
SBP/TKR: Nn/Agente (Mensch) – Na/Paciente (Fanggerät) – pNmit/Objeto afetado (Köder)
Testemunho: com que se pescam os peixes Konrad v. Megenberg, B.d.Nat 250, 13
Semema 8: ‘comportar-se hostilmente contra alguém; nutrir sentimentos de vingança, saquear’ (cf. DWBneu atzen4: ‘prejudicar alguém, (na guerra) pilhar, despojar’
SBP/TKR: NGn/Agente (Mensch)
Testemunho: [eles] permaneceram na terra do bispo com violência e saquearam por 6 dias Chron. Augs. 2.21,26.
Semema 9 (segundo DWBneu ätzen1) ‘deixar que algo seja corroído por meios químicos que atuam sobre a superfície, por substância corrosiva (ácido, lixívia), decapar, limpar’
SBP/TKR: Nn/Agens (Mensch) – Na/objeto afetado
Testemunho: (1497) (a pomada) foi muito usada.. para corroer e limpar.. todas as feridas impuras Brunschwig, chirurgia 237b
Semema 10 (segundo DWBneu ätzen2): ‘produzir algo por ação de meios químicos, fazer surgir (de modo artístico) gravando-o numa superfície’
SBP/TKR: NGn/Agens (Mensch) – NGa/objeto eficiente (gravura) – pNin/Lugar (superfície)
Testemunho: (1558) o vidro no qual o santo Davi foi gravado estava Lindener, katzipori 133 LV.
ässen (correspondente a mhd. aȝen = tipo 2a)
Semema 1 ‘dar de comer a alguém, alimentar alguém; alimentar animais’ (sinônimo do semema 1 de ätzen/etzen/atzen)
SBP/TKR: Nn/Agens (Mensch) – Na/Adressat (Mensch/Tier) – [pNmit/objeto afetado (alimento)]
Testemunho (segundo DWBneu äsen1) 1388 que... deste ano não deverão ser abatidos mais de seis porcos württ. Geschichtsqu. 8,62.
18
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Page 9Ätzend! Zur Geschichte der Verben ätzen, atzen, äsen
(As formas verbais finitas citadas nos Belegen no FNHDWB com <z> também podem pertencer a ezen, por exemplo, do mite ezt her die gerualkin v. Tscharner, Md. Marco Polo 21,7.)
Semema 2 ‘atrair (animais) por meio de uma isca’
SBP/TKR: NGn/Agente (Mensch) – NGa/Paciente (Tier)
Testemunho: se tiveres uma raposa realmente amarrada [...], então atraia-a à madeira junto a uma árvore auf die erde Ermisch u.a., Haush. Vorw.225, 15.
Semema 3 (segundo DWBneu äsen1) ‘ingerir alimento’ (linguagem de caçadores), (segundo DWBneu äsen2) reflexivo ‘(de animais herbívoros, especialmente na linguagem de caçadores, da caça) comer, consumir, pastar algo’
SBP/TKR: NGn/Agente (Tier)
Testemunho: que ela (= veada prenhe) possa pastar e alimentar-se bem do linho lehre v. d. zeichnen d. hirsches 133 L.
Testemunho:1682 o veado deverá...pastar nas plantações e nos campos Hohberg georgica (1687)2,63b.
Alto-alemão moderno antigo (GoetheWB)
ätzen
Semema 1 ‘alimentar (uma ave)’
SBP/TKR: NGn/Agens (Mensch) – NGakk/Adressat (Tier) – [pNaus/Instrumento]
Testemunho: Havia um rapaz e uma pomba delicada, /...Alimentada por sua boca
Semema 2 ‘para o efeito nocivo de lixívias e ácidos, venenos’ apenas PartPres.!
Semema 3 ‘na arte da gravura, para o processo de corrosão’
SBP/TKR: NGn/Agens (Mensch) – NGa/objeto afetado (material)
Testemunho: Eu corroí a placa
äßen, sich
Semema: (linguagem de caçadores) para o ato de comer da caça: ‘alimentar-se’
SBP/TKR: Nn/Agens (animais selvagens) – pNan/Lugar
Testemunho: Boi chifrudo / Alimenta-se distribuído na rocha saliente.
Alto-alemão moderno (DUW, DWBneu)
äsen, sich
Semema (linguagem de caçadores) ‘(da caça, com exceção da caça de grande porte e dos predadores) ingerir alimento’
SBP/TKR: Nn/Agens – pN/Lugar
Testemunho: <1883> podia-se ver um corço ou um veado sair e alimentar-se (DWBneu, vol. 3, Sp. 338)
ätzen
Straipsniai / Articles
19
Page 10ALBRECHT GREULE
Semema 1 ‘tratar algo com ácido, lixívia ou semelhante, para dissolvê-lo ou removê-lo’
SBP/TKR: Nn/Agens (Mensch) – Na/objeto afetado – pNmit/Instrumento (ácido, lixívia e semelhantes)
Testemunho: corroer as bordas da ferida com pedra infernal (DUW)
Semema 2 ‘(de ácidos, lixívias ou semelhantes) atuar de modo destrutivo, corrosivo sobre algo’
SBP/TKR: Nn/Agens (ácidos, lixívias ou semelhantes) – Na/objeto afetado
Testemunho predominantemente no particípio presente ätzend.
Semema 3 ‘produzir algo na superfície de um material pelo uso de ácido, lixívia ou semelhante, gravar por corrosão’; produzir algo pela ação de meios químicos, fazer surgir, gravar (de modo artístico) numa superfície, depois, em geral, cortar ou riscar algo’ (DWBneu, vol. 3, Sp. 338)
SBP/TKR: Nn/Agens (Mensch) – objeto eficiente (imagem) – pNauf,in/Lugar (superfície do material)
Testemunho: 1851 que ele gravou letras numa placa de cobre (DWBneu), gravar uma imagem na placa de cobre (DUW).
ätzen
Semema (linguagem de caçadores) ‘fornecer alimento aos filhotes de aves’ (originalmente bávaro em lugar de ätzen — metafonia secundária?)
SBP/TPK: Nn/Agens (Tier) – Na/Adressat (filhote) – pNmit/Instrumento.
Testemunho: <1853> cegos... filhotes que ela (a fêmea do ouriço)... alimenta cuidadosamente com caracóis e minhocas (DWBneu, vol. 3, Sp. 391
4. RESUMO DOS SIGNIFICADOS (INDICADOS NOS DICIONÁRIOS) EM 12 SEMEMAS (A–L)
Para explicar o desenvolvimento semântico e sintático dos verbos pré-ahd. *atjaund *ātja–/*āttja–, os causativos etimológicos do verbo germ. *eta- ‘comer’, até os verbos nhd. ätzen, äsen, atzen, os significados indicados nos dicionários são resumidos em 12 sememas.
Semema A ‘fornecer alimento a uma pessoa/um animal, alimentar, nutrir, dar de comer’
Alto-alemão antigo ätzen: SBP/TKR: NGn/Agens (Mensch/Gott) – NGa/Adressat (Menschen/Tiere) – [pNmit/objeto afetado (alimento)] – [pNaba/Instrumento („com a mão“)]
20
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Page 11Ätzend! Zur Geschichte der Verben ätzen, atzen, äsen
Médio-alto-alemão etzen, ezzen: SBP/TKR: NGn/Agens (Mensch) – nga/Adressat (Mensch/Tier) – [pNmit/objeto afetado (alimento)] – [pNmit/Instrumento (mão)]
Médio-alto-alemão ätzen: SBP/TKR: NGn/Agens (Gott, Mensch) – nga/Adressat (Mensch, Tier) – [pNmit/von/objeto afetado (alimento, forragem)] – [pNmit/uf/Instrumento (com/sobre a mão)]
Mhd. æßen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano, águia) – Na/Destinatário (ser humano, águia) – [pNvon/Objeto afetado (ração)]
Fnhd. ätzen, etzen, atzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Na/Destinatário (ser humano/animal) – [pNmit/Objeto afetado (alimento)] – [pNmit/Instr (mão)]
Fnhd. ässen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Na/Destinatário (ser humano/animal) – [pNmit/Objeto afetado (alimento)]
Änhd.: ätzen ‘alimentar (uma ave)’: SBP/TKR: NGn/Agente (ser humano) – NGakk/Destinatário (animal) – [pNaus/Instr]
?Nhd.: atzen (linguagem dos caçadores) ‘prover aves jovens de alimento, nutrição’ (originalmente bávaro em vez de ätzen – trema secundário?); SBP/TPK: Nn/Agente (animal) – Na/Destinatário (animal jovem) – pNmit/Instr.
Semema B ‘deixar seu gado pastar’
Ahd. ezzen: SBP/TKR ---
Mhd. etzen/ezzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – pNuf/Lugar (pasto)
Fnhd. ätzen, etzen, atzen: ‘deixar pastar (a vegetação de uma área)’ SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano)
Fnhd. ätzen, etzen, atzen: ‘pastar (gado)’, SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Na/Paciente (gado)
Änhd.: ---
Nhd.: ---
Semema C ‘pastar algo até esgotá-lo’
Ahd. ---
Mhd. æßen: SBP/TKR: NGn/Agente (ser humano) – NGa/Objeto afetado/Lugar (encosta)
Fnhd.: ---
Änhd.: ---
Nhd.: ---
Semema D ‘conduzir (o gado) ao pasto na floresta’
Ahd. ---
Mhd. ---
Fnhd. ätzen, etzen, atzen: SBP/TKR: NGn/Agente (ser humano) – nga/Objeto afetado (gado)
Straipsniai / Articles
21
Page 12ALBRECHT GREULE
Änhd.: --- Nhd.: ---
Semema E ‘atrair animais com alimento, iscar; prover algo de isca, chamariz’
Ahd. --- Mhd. ätzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Na/Objeto afetado (anzol) – pNₘᵢₜ/Instr Fnhd. ätzen, etzen, atzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Na/Paciente (equipamento de captura) – pNₘᵢₜ/Objeto afetado (isca) Fnhd. ässen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Na/Paciente (animal) Änhd.: --- Nhd.: ---
Semema F ‘alimentar alguém com algo, revigorar alguém com algo’ ‘dar algo (p. ex., aveia) como alimento’
Ahd. --- Mhd. aetzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Nd/Destinatário (ser humano) – Na/Objeto afetado (fragrância) Fnhd. ätzen, etzen, atzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Na/Objeto afetado (alimento) Änhd.: --- Nhd.: ---
Semema G ‘prejudicar alguém por meio do pastoreio não autorizado de suas áreas de alimentação’
Ahd. -- Mhd. etzen, ezzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – [Na/Paciente (ser humano)] – [pNₐₙ/Lugar] Fnhd. ätzen, etzen, atzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Na/Paciente (ser humano) Änhd.: --- Nhd.:---
Semema H ‘comportar-se hostilmente em relação a alguém; alimentar sentimentos de vingança, pilhar’, ‘prejudicar alguém, saquear, despojar (em guerra)’
Ahd. --- Mhd. --- Fnhd. ätzen, etzen, atzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) Änhd.: ---
22
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Page 13Ätzend! Zur Geschichte der Verben ätzen, atzen, äsen
Nhd.: ---
Semema I (de animais herbívoros, especialmente na linguagem dos caçadores, da caça) ‘comer algo, consumir, pastar até esgotar’, ‘ingerir alimento’ (linguagem dos caçadores)
Ahd.: --- Mhd.: ---
Fnhd. ässen: SBP/TKR: NGn/Agente (animal)
Änhd. sich äßen (linguagem dos caçadores) SBP/TKR: Nn/Agente (animais de caça) – pNan/Lugar
Nhd.: äsen (linguagem dos caçadores)
Semema J ‘fazer com que algo seja corroído por substância agressiva (ácido, lixívia), por meios químicos que atuam sobre a superfície, decapar, limpar’
Ahd. ätzen (registrado apenas na voz passiva: giezzi tuurin)
Mhd.: ---
Fnhd. ätzen, etzen, atzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Na/objeto afetado
Änhd.: ---
Nhd.: ätzen ‘tratar algo com ácido, lixívia ou semelhante, para dissolvê-lo ou removê-lo’, SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Na/Objeto afetado – pNmit/Instr. (ácido, lixívia etc.)
Semema K ‘(de ácidos, lixívias ou semelhantes) atuar destrutiva e corrosivamente sobre algo’
Ahd.: --- Mhd.: --- Fnhd.: ---
Änhd.: ‘para o efeito nocivo de lixívias e ácidos, venenos’ apenas PartPräs!
Nhd.: ätzen, SBP/TKR: Nn/Agente (ácidos, lixívias ou semelhantes) – Na/Objeto afetado – predominantemente particípio presente ätzend.
Semema L ‘produzir algo na superfície de um material mediante o uso de ácido, lixívia ou semelhante, gravar por corrosão’ (DUW), ‘produzir, criar algo pela ação de meios químicos, gravar artisticamente numa superfície, depois, em geral, entalhar, incisurar algo’ (DWBneu, 3.º vol., p. 392)
Ahd.: --- Mhd. ---
Straipsniai / Articles
23
Page 14ALBRECHT GREULE
Fnhd. ätzen, etzen, atzen: SBP/TKR: NGn/Agente (ser humano) – Na/objeto afetado (gravação) – pNin/Lugar (superfície)
Änhd. ätzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Na/Objeto afetado (material)
Nhd. ätzen: SBP/TKR: Nn/Agente (ser humano) – Objeto efetuado (imagem) – pNauf,in/Lugar (superfície do material).
5. COMENTÁRIO
Partimos do pressuposto de que os verbos trivalentes (germânico ocidental) *atjae *atja/*ättja eram sinônimos na comunicação do período pré-antigo-alto-alemão. Contudo, sua causatividade pode ser interpretada tanto como factitiva quanto como permissiva: ‘x faz com que y coma z’ (factitiva) e ‘x deixa y comer z’ (permissiva). Além disso, deve-se observar que o verbo germânico ocidental *ātja-/*ättja- (< germânico *ēt-ja-) originalmente pode não ter sido um causativo, mas um verbo ornativo; morfologicamente (derivação com sufixo ja) e semanticamente (‘x provê y de alimento/ração’), porém, estava próximo do “verdadeiro” causativo (germânico) de comer. No antigo-alto-alemão não se pode distinguir entre o ezzen “verdadeiramente causativo” (< *atja-n) e o āzen/*ātzen ornativo (?) (< *atja/*attja-); ambos são usados trivalentemente; o mesmo vale para o mhd. etzen, ätzen e aȥen.
6. ESTRUTURAÇÃO DOS SEMEMAS
Os (12) sememas extraídos dos dicionários, interpretados sintaticamente e agrupados, estão acima dispostos de modo aproximadamente semântico na sequência ‘dar de comer’ – ‘alimentar’ – ‘pastar’ – ‘pastar até esgotar’ e ‘tratar com ácido’; nesse conjunto, os sememas J a L (‘tratar com ácido’ etc.) estão mais distantes do significado etimológico básico (‘x nutre y com z’).
A situação inicial (pré-ahd.) pode ser descrita assim: como causativos de comer, havia três verbos que se distinguiam formalmente apenas pouco entre si. É grande a probabilidade de que a tripla sinonímia tenha se desenvolvido cedo em direções diferentes, sobretudo porque a causatividade é interpretável tanto como factitiva quanto como permissiva e — no presente caso — o verbo surgido de germ. *etja-n provavelmente tenha sido derivado, como ornativo, do substantivo germ. *eta-m ‘restos de comida’ ou *et-on ‘manjedoura’.
No início do desenvolvimento da língua alemã, o Semema A apresenta uma variabilidade que não consiste no fato de o semema poder ser empregado tanto permissivamente ‘deixar comer’ quanto factitivamente ‘fazer comer’.
24
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Page 15Ätzend! Zur Geschichte der Verben ätzen, atzen, äsen
Em vez disso, o segundo actante não se restringe a ‘ser humano’, mas varia entre ‘ser humano’ e ‘animal’. Essa alternância com três actantes no SBP/TKR:
Nn/Agente (ser humano) – Na/Destinatário (seres humanos/animais) – [pNmit/Objeto afetado (comida)]
permanece até o Änhd. Ao mesmo tempo, a fórmula mostra que o terceiro actante está entre parênteses, isto é, aquilo que é dado para comer ou com que se alimenta pode ser expresso como membro da oração, mas não precisa sê-lo. Do ponto de vista da teoria da valência, trata-se de um SBP facultativamente trivalente, resultando outra possibilidade de variação: o actante ‘Objeto afetado’ (‘comida/ração’) não precisa ser mencionado. Como mostra o Goethe-Wörterbuch, no caminho para o novo-alto-alemão o Semema A sofre restrições em dois pontos: perde completamente o actante ‘Objeto afetado’, e a variação no segundo actante ‘Destinatário’ desaparece, ficando restrita a ‘animal’. Que isso seja condicionado por um uso especializado ou técnico do verbo torna-se claro no Nhd., onde o uso de atzen é marcado como “linguagem dos caçadores” e o primeiro e o segundo actantes são ainda mais restringidos, pois se faz referência à situação em que animais (não seres humanos) provêm seus filhotes de alimento. O fato de no Nhd. o formante ätzen não ser mais usado para esse semema, mas (bávaro?) atzen, poderia indicar a substituição por ätzen no sentido do Semema J.
Que posição ocupa, nesse contexto, o Semema F, atestado apenas no Mhd. e no Fnhd.? Seu TKR [Agente (ser humano) provê Destinatário (ser humano/animal) de Objeto afetado (alimento)] não difere, em sua configuração básica, do causativo de comer, mas no Mhd. é integrado à construção “clássica” com geben: Nn/Agente (ser humano) – Nd/Destinatário (ser humano) – Na/Objeto afetado, com o significado ‘dar alimento a alguém’. O Destinatário agora aparece no dativo, e não, como no Semema A, no acusativo, sendo omitido no Fnhd. O Objeto afetado (com que se nutre) passa ao acusativo, eliminando-se da construção um grupo preposicional.
Já no Ahd. torna-se clara a restrição de perspectiva da ação, observável no desenvolvimento do Semema A, aos animais, mais precisamente ao gado, e a necessidade de alimentá-lo ou deixá-lo pastar num local apropriado para isso. Assim, a permissividade original é utilizada às custas da factitividade, e o actante ‘Destinatário’ é fixado como ‘Paciente’ em ‘animais (gado)’; o actante ‘Objeto afetado (ração)’ desaparece e surge, por assim dizer, um novo actante, o lugar do pastoreio. Embora a VAK correspondente:
Nn/Agente (ser humano) – Na/Paciente (gado) – pN/Lugar (pasto)
Straipsniai / Articles
25
Page 16ALBRECHT GREULE
não esteja atestada integralmente em nenhum nível linguístico, para o Semema B resulta da “cena” uma VAK com três actantes. Relacionado a ele está o Semema C, bivalente e atestado apenas no Mhd., no qual, como consequência da perfectividade (‘pastar até esgotar’), o lugar aparece como Na/Objeto afetado. No Semema C, exclusivamente fnhd. (bivalente) (‘conduzir (o gado) ao pasto na floresta’), que pode ser entendido como uma intensificação do Semema B, o ‘lugar’ é, ao contrário, apagado e o ‘gado’ é introduzido como Na/Objeto afetado. A perspectiva recíproca do pastoreio do gado é assumida pelo Semema E: aqui, os animais não são conduzidos, mas atraídos por meio de isca. O foco desse semema (apenas mhd. e fnhd.) está na isca e no equipamento para iscagem.
Na passagem do significado de pastar em sentido amplo (Sememas B, C, D, E, G) da pecuária para a caça, surge, do Fnhd. ao Nhd., no curso da mudança linguística, um semema (Semema I) fixado no formante äsen (linguagem dos caçadores), cujo significado resulta da reflexivização de ‘alimentar/pastar’, isto é, ‘alimentar-se, pastar, nutrir-se’, restringindo-se o primeiro actante Nn/Agente a animais de caça.
Desde a época mhd., parece que deixar pastar levou a disputas judiciais. Só assim se torna compreensível o desenvolvimento para o Semema G ‘prejudicar alguém por meio do pastoreio não autorizado de suas áreas de alimentação’ e até a ampliação de significado reconhecível no Semema H, atestado apenas no Fnhd., para ‘prejudicar, saquear, despojar’.
Enquanto o desenvolvimento dos sememas descrito acima — excetuando-se o Semema A (atzen) e o Semema I (äsen) — não teve efeitos sobre o Nhd. e ocorreu apenas na Idade Média e no início da modernidade, o grupo dos Sememas J a K parece estar completamente à margem, mas é importante para o objetivo cognitivo da evolução até o Nhd.: precisamente ätzen (ou verätzen) ainda está presente na língua padrão e, sob a forma do particípio presente ätzend (depreciativo) ‘horrível’, ainda é atual na linguagem juvenil e coloquial. É digno de nota que o Semema J já esteja atestado no And., embora apenas como glosa sem VAK, e, exceto no Mhd., esteja documentado em todos os níveis linguísticos com diferenciações semânticas. Surge a questão de como o significado ‘fazer com que algo seja corroído por substância agressiva (ácido, lixívia), por meios químicos que atuam sobre a superfície, decapar, limpar’ se desenvolveu a partir do significado do causativo. Duden, Das Herkunftswörterbuch, sob ätzen (Riecke 2014: 136), oferece uma abordagem explicativa ao indicar que o verbo se tornou termo técnico no final do século XV e que o uso técnico parte da imagem de que o ácido, por assim dizer, “come” o metal por dentro. Evidentemente, devemos partir de uma metáfora antiga na história da língua, pela qual o morder e dilacerar durante a alimentação dos animais foi transferido para a ação de substâncias agressivas (corrosivas)
26
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Page 17Ätzend! Zur Geschichte der Verben ätzen, atzen, äsen
sobre o corpo humano. Isso também é sugerido pelas duas glosas ahd., nas quais o lat. mordere ‘morder’ foi traduzido por ahd. ezzen (leia-se: *etzen). Se a hipótese estiver correta, o Semema J desenvolveu-se mais provavelmente a partir do Semema B ‘deixar o gado pastar’, por contiguidade, pois a mordida dos animais durante o pastoreio até o esgotamento aparece como fenômeno marginal. A mudança de significado torna-se reconhecível na VAK na medida em que o actante ‘lugar do pastoreio’ do Semema B desaparece, o actante Na/Paciente se torna Na/Objeto afetado e já não se restringe a ‘gado’. Além disso, no Nhd. a VAK bivalente foi ampliada pelo actante pNmit/Instr, criando-se assim a possibilidade de especificar exatamente qual meio ätzt.
7. CONCLUSÃO / CONSIDERAÇÕES FINAIS
No início da história, há no Ahd. três formantes verbais amplamente idênticos do ponto de vista morfológico e semântico: trata-se de derivações em ja da morfema verbal germânica *et-a- ‘comer’, e seu significado é causativo ‘fazer comer’ ou ‘deixar comer’. No final, na comunicação atual em língua alemã, também há três verbos que se desenvolveram formalmente de germ. *atjabzw. *etja, mas que semanticamente já não permaneceram causativos de comer; apenas são usados em linguagem especializada, atzen, äsen na linguagem dos caçadores e ätzen na linguagem técnica.
O desenvolvimento semântico é menos marcado pela diferenciação e atribuição clara da causatividade factitiva e permissiva a um dos três formantes verbais do que pelo fato de a atividade humana de nutrir um ser vivo ter se concentrado cedo na pecuária. (O mesmo processo também se observa no causativo de beber, tränken ‘dar de beber aos animais’.) Na VAK, o desenvolvimento se manifesta de tal modo que o segundo actante ‘Destinatário’ é fixado em animais e, em vez do tipo de alimento — importante para a nutrição humana —, entra em cena como terceiro actante o lugar onde ocorre a alimentação ou o pastoreio. A favor do “deslocamento” puramente antigo na história da língua do âmbito de referência para o domínio do pasto do gado fala sobretudo o fato de o Semema J, já atestado no Ahd., ‘fazer com que algo seja corroído por substância agressiva (ácido, lixívia), por meios químicos que atuam sobre a superfície’, ter sido transferido metaforicamente do gado mordedor (e da caça?). Deve-se observar que esse semema, provavelmente ao ser restringido ao uso técnico, foi fixado no formante do Nhd. ätzen (ahd. ezzen).
O FNHD apresenta, com 10 sememas, um espectro semântico notavelmente amplo, que, por transferência de significado para outras áreas semanticamente próximas
Straipsniai / Articles
27
Page 18ALBRECHT GREULE
áreas de referência (por exemplo, o âmbito jurídico), por um lado, e pela especificação do significado de pastorear e alimentar animais, por outro, e ainda pela especificação do significado técnico ‘ätzen’, se desenvolve. Assim, o espectro de significados afastou-se claramente da causatividade original; esse desenvolvimento atingiu um ponto culminante no semema mhd. e fnhd. F ‘dar alimento a alguém’, mas sem efeitos sobre o Nhd. Também o pastoreio do gado por seres humanos e todos os sememas dele derivados no final da Idade Média permanecem sem reflexos no uso linguístico contemporâneo, o que provavelmente tem relação com a diminuição da importância da pecuária para a comunicação de toda a sociedade na era industrial. Além disso, é característico que no Nhd. a causatividade etimologicamente original de ätzen, atzen e äsen tenha desaparecido completamente e que os sememas hoje associados aos três verbos, em seu uso, tenham sido empurrados para a margem da linguagem especializada e técnica.
BIBLIOGRAFIA
DUW – Deutsches Universalwörterbuch, 4.ª edição revista e ampliada, editada pela Dudenreaktion, Mannheim, Leipzig, Viena, Zurique: Dudenverlag, 2001.
DWBneu – Deutsches Wörterbuch der Brüder Grimm, nova edição, editada pela Academia da RDA e pela Academia de Ciências de Göttingen. Vol. 1, col. 15, Leipzig: S. Hirzel, 1983; vol. 3, col. 337–339, 390–392, Stuttgart: S. Hirzel, 2007.
EWAhd I – Etymologisches Wörterbuch des Althochdeutschen, editado por A. L. Lloyd, O. Springer, R. Lühr, Göttingen, Zurique: Vandenhoeck & Ruprecht, 1988.
EWAhd II – Etymologisches Wörterbuch des Althochdeutschen, editado por A. L. Lloyd, O. Springer, R. Lühr, Göttingen, Zurique: Vandenhoeck & Ruprecht, 1998.
Greule Albrecht, Korhonen Jarmo 2021: Historische Valenz. Einführung in die Erforschung der deutschen Sprachgeschichte auf valenztheoretischer Grundlage, Tübingen: Niemeyer.
Riecke Jörg 1996: Die schwachen jan-Verben des Althochdeutschen. Ein Gliederungsversuch, Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht.
Schützeichel Rudolf 2006: Althochdeutsches Wörterbuch, 6.ª edição, revista e ampliada com as glosas, Tübingen: Niemeyer.
Seebold Elmar 1970: Vergleichendes und etymologisches Wörterbuch der germanischen starken Verben, Haia, Paris: Mouton.
28
Acta Linguistica Lithuanica LXXXIV
Page 19Ätzend! Zur Geschichte der Verben ätzen, atzen, äsen
DICIONÁRIOS ON-LINE
AHDWB – Althochdeutsches Wörterbuch. Acesso: http://awb.saw-leipzig.de.
FNHDWB – Frühneuhochdeutsches Wörterbuch. Acesso: https://fwb-online.de.
GoetheWB – Goethe-Wörterbuch. Acesso: https://gwb.uni-trier.de.
MHDWB – Mittelhochdeutsches Wörterbuch. Acesso: http://www.mhdwb-online.de.
Incômodo, desagradável, repulsivo! Sobre a história dos verbos alimentar, comer, devorar
RESUMO
No início da história do antigo-alto-alemão, havia três formantes verbais que eram idênticos do ponto de vista morfológico e semântico. Trata-se de derivados em ja da morfema verbal germânica *et-a- ‘essen’ (‘comer’), com significado causativo ‘essen machen’ (‘fazer comer’) ou ‘essen lassen’ (‘dar de comer’). No alemão atual restaram três verbos, formalmente derivados de germ. *atja-/*ėtja, embora, do ponto de vista semântico, já não sejam causativos de comer; apenas atzen, äsen continuam sendo usados na linguagem especializada, ou ätzen na linguagem dos caçadores.
As dez do alemão alto antigo inicial sememas registrados no dicionário criam um amplo espectro que, por um lado, define, mediante transferência de significado para outras áreas semanticamente próximas (por exemplo, o direito), os significados de pastorear e alimentar animais e, por outro, especifica o significado técnico de ‘ätzen’. Assim, separada do espectro de significados em questão, desenvolveu-se a causatividade, que atingiu seu auge no semema F do alemão médio e do alemão alto antigo inicial ‘jemandem Nahrung geben’ (‘dar alimento a alguém’), mas não influenciou o baixo-alemão. Todos os sememas relacionados ao pastoreio de animais e dele derivados no final da Idade Média não refletem, no uso atual, a importância dos processos da pecuária. Deve-se destacar que, no novo-alto-alemão, desapareceu a causatividade etimológica original de ätzen, atzen e äsen, e o uso dos sememas atribuídos atualmente aos três verbos foi relegado à margem da linguagem especializada e técnica.
Recebido em 25 de março de 2021.
ALBRECHT GREULE
Universität Regensburg Instituto de Germanística, D-93040 Regensburg [email protected]
Straipsniai / Articles
29