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Acta Linguistica Lithuanica

LVII (2007), 17 – 44

Alternâncias na expressão dos argumentos em lituano e os recursos da Gramática Aplicativa para explicá-las

Dedicado à memória de Sebastian Shaumyan (1916–2007)

KRISTINA LENARTAITĖ

Instituto da Língua Lituana

Este artigo trata da noção de alternância no domínio da realização dos argumentos ou da diátese. Apresenta-se uma definição de trabalho e um panorama dos exemplos mais característicos desse fenômeno em lituano. Discutem-se várias abordagens importantes do tema, incluindo as propostas na tradição da gramática lituana. Por fim, propõe-se uma nova abordagem das alternâncias em lituano e de sua posição no sistema da língua lituana, no âmbito da Gramática Aplicativa.

1. INTRODUÇÃO

As diferentes diáteses realizadas com o mesmo verbo vêm sendo estudadas por linguistas lituanos e estrangeiros há várias décadas. Embora, nos trabalhos destes últimos, o fenômeno em questão tenha uma denominação amplamente reconhecida e já tenham sido propostas diversas possibilidades de interpretação dos diferentes casos do fenômeno, nos estudos lituanos os casos de alternância na expressão dos argumentos são abordados apenas de forma fragmentária, ao lado de outros fenômenos problemáticos da sintaxe, da semântica sintática ou da semântica lexical1. Assim, este artigo se dedica a examinar os casos mais notáveis

1 Nos trabalhos de N. Sl žienė, que pesquisou a valência dos verbos lituanos e mencionou sobretudo casos de alternância de argumentos, o fenômeno em questão é frequentemente explicado e denominado de maneiras distintas, conforme as necessidades da pesquisa: em alguns casos, a realização variável do sujeito ou do objeto direto permitida por certos verbos é chamada de subjetiva e objetiva (cf. Rožių kelmaitis užaugs didžiu medaičiu

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aos casos de alternância na expressão dos argumentos em lituano e a alguns problemas decorrentes da interpretação desse fenômeno: busca-se, antes de tudo, definir o conteúdo do fenômeno, identificar e discutir os tipos mais marcantes de alternância na expressão dos argumentos; com base nas pesquisas sobre o lituano e em concepções teóricas estrangeiras, recorrendo aos recursos da gramática aplicativa, apresentar mais uma possibilidade de descrever e explicar o mecanismo de expressão de construções alternantes e encontrar o lugar do fenômeno investigado no sistema da língua.

e De um toco de rosa crescerá uma grande árvore; Mãe cobriu a mesa com uma toalha branquíssima e Mãe pôs sobre a mesa uma toalha branquíssima (Sližienė 1980: 95–101), em outros casos de alternância na expressão do objeto, enfatiza-se a possibilidade de o mesmo verbo desempenhar diferentes funções significativas ou de uma mesma situação receber uma interpretação significativa diferente, da qual depende também o uso sintático distinto do verbo (Sližienė 1978: 117); as frases que surgem da interpretação semântica distinta de uma mesma situação e cujos significados muito próximos apresentam argumentos realizados de modos diferentes são chamadas paráfrases (Sližienė 1994: 50–51); os casos de alternância na expressão do sujeito são chamados paráfrases conversivas, e suas diferenças significativas estariam relacionadas apenas às diferenças de valência sintática do verbo, isto é, em ambos os casos os participantes da situação são interpretados semanticamente da mesma maneira, e a perspectiva diferente adotada em relação a eles decorre do fato de que o nominativo corresponde, em uma frase, a um argumento do predicado e, em outra, a outro. A relação entre tais paráfrases conversivas seria próxima da relação entre construções ativas e passivas (cf. os arbustos cobriram as margens e as margens ficaram cobertas de arbustos) (Sližienė 1994: 52). A variação na expressão do objeto é explicada por A. Holvoet como uma possibilidade alternativa gramaticalizada de escolha de um tema secundário numa estrutura em camadas da articulação da informação (cf. deu livros aos alunos: premiou os alunos com livros; encheu os copos com chá: encheu os copos de chá) (Holvoet 2003: 86–87). A. Drukteinis afirma que, em construções como palha no telhado – cobrir o telhado com palha, devido à mudança de significado do verbo, o argumento expresso por um locativo se desloca para uma posição mais próxima do verbo e sua expressão se altera — neutralizando-se assim o significado do caso. O significado do verbo teria mudado por causa de um componente semântico adicional, o sema holístico, que indica que a ação se relaciona com o objeto inteiro ou que o objeto é completamente abrangido pela ação. Com a incorporação do sema holístico, a lexema verbal torna-se mais geral em relação à lexema sem o sema correspondente; por isso, em tais construções, estabelecem-se relações de oposição privativa entre lexemas verbais (juntamente com seus componentes dependentes): a lexema mais geral pode substituir a mais específica na construção desta última (assumindo também o significado correspondente) (Drukteinis 1985: 56–58, 128–129). Há ainda a questão da relação entre as estruturas alternantes: uma delas transmitiria diretamente os papéis da situação, enquanto a outra mostraria uma interpretação (perspectiva) diferente das relações entre os participantes da situação, escolhida pelo enunciador. Devido às várias mudanças no predicado e na estrutura como um todo, identificadas pela comparação entre diferentes interpretações da mesma situação, as estruturas podem ser consideradas uma como primária e a outra como derivada (e as funções semânticas dos argumentos dessas estruturas são classificadas de maneira correspondente) (Drukteinis 2007: 27, 12–14).

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2. CONCEITO, ESCOPO E DENOMINAÇÃO DO FENÔMENO

A ausência de estudos abrangentes sobre a posição do fenômeno em questão no sistema da língua lituana também é atestada pelo fato de que não se dispõe não apenas de um termo próprio adequado para designá-lo, mas que a denominação internacional, que abrange vários tipos de variação na expressão dos argumentos, alternações começou a ser usada em trabalhos lituanos há relativamente pouco tempo (ver Drukteinis 2007: 13). Pelo uso do termo nos trabalhos de linguistas estrangeiros, fica claro que ele é entendido de maneiras diferentes: em sentidos mais amplos e mais restritos. Portanto, é necessário, antes de tudo, definir o conteúdo do fenômeno: determinar suas características mais típicas e, com base nisso, identificar os casos de variação da expressão que lhe pertencem ou que devem ser distinguidos dele.

2.1. Provavelmente, a característica mais marcante das construções alternantes em lituano e em outras línguas é seu caráter parafrástico: do ponto de vista da lógica2 (da verdade das proposições), as construções de alternância de diátese investigadas podem até ser consideradas equivalentes (cf.: se é verdade que os estorninhos cobriram o sorveiro, então é verdade que o sorveiro ficou coberto de estorninhos, e se é verdade que o sorveiro ficou coberto de estorninhos, então é verdade que os estorninhos cobriram o sorveiro, isto é, estabelece-se a equivalência entre duas estruturas predicativas: R(x, y) ~ R(y, x)). Os matizes adicionais de significado das construções também nem sempre são suficientemente nítidos (sob esse aspecto, muitos pesquisadores distinguem as chamadas alternações locativas, nas quais o significado de uma das construções frequentemente adquire um sema adicional (holístico — de abrangência total da ação/do efeito); além disso, muitos pares de construções classificados como alternações têm a mesma composição lexical. A perspectiva sobre o caráter parafrástico das construções investigadas e sua avaliação dependem também do modelo teórico escolhido para explicar esse fenômeno. A concepção gramatical também determina a avaliação de outro aspecto, talvez o mais significativo, dos casos em discussão: o papel do verbo com o qual se formam as construções correspondentes no processo de surgimento das construções alternantes e o seu significado (o mesmo ou dois diferentes), o que, por sua vez, também influencia a questão do caráter parafrástico das construções.

2 O significado lógico não deve ser confundido aqui com o significado gramatical (estrutural): o significado estrutural das construções alternantes é sempre diferente; compare-se, nas frases a. os estorninhos cobriram o sorveiro e b. o sorveiro ficou coberto de estorninhos, o significado lógico do predicado é o de um predicado transitivo: o ponto inicial da ação é os estorninhos, e o ponto final é o sorveiro; na lógica, o predicado da frase b é considerado uma conversiva do predicado transitivo da frase a, mas os significados estruturais dos predicados das duas frases são diferentes: a — predicado transitivo; b — predicado intransitivo.

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Assim, é preciso esclarecer a posição de diferentes modelos teóricos em relação aos aspectos em questão. Entre outros fenômenos da sintaxe e da semântica sintática, as teorias que estudam as alternâncias na expressão dos argumentos podem ser divididas entre aquelas que privilegiam a análise das mudanças estruturais e aquelas que se concentram, antes de tudo, nos significados das construções e em suas mudanças. Entre as primeiras, merecem destaque os estudos de representantes das gramáticas transformacional e relacional, bem como os trabalhos de M. Baker, D. R. Dowty e R. S. Jackendoff3. Os resultados gerais desses últimos estudos atribuem as seguintes características às alternâncias na expressão dos argumentos e a outros fenômenos semelhantes: afirma-se que os verbos alternantes têm uma única e mesma

3Na gramática transformacional, a relação estabelecida entre as construções ativa e passiva foi aplicada também para explicar as alternâncias de dativo e locativas do inglês: afirma-se que o verbo alternante tem apenas uma projeção dos argumentos na sintaxe; a segunda realização dos argumentos seria derivada da primeira por meio de uma transformação. Na gramática relacional, as relações tanto entre as alternâncias ativa e passiva quanto entre as alternâncias de dativo e locativas são definidas, como relações entre formas básicas e derivadas, por meio de regras de mudança das funções gramaticais, entendidas como primitivos (as regras abrangem a mudança das funções gramaticais dos argumentos do predicado, mas não do próprio predicado). O ponto de partida do modelo não transformacional de análise dos fenômenos em questão de M. Baker é a suposição de que as alternâncias de dativo e seus equivalentes em outras línguas são «paráfrases temáticas», isto é, têm o mesmo significado. Essa propriedade das construções alternantes fundamenta-se na hipótese da uniformidade da atribuição de teta (Uniformity of Theta Assignment Hypothesis, UTAH): relações temáticas idênticas entre elementos são representadas por relações estruturais idênticas entre esses elementos no nível da estrutura profunda; assim, atribui-se a ambas as construções uma estrutura sintática profunda idêntica. A morfossintaxe também desempenha aqui um papel importante: em algumas línguas, uma das construções alternantes tem um morfema aplicativo anexado ao verbo (por exemplo, o afixo ir- da língua chicheŵa), que permite realizar como objeto direto um argumento adicional, geralmente uma meta (goal) ou um beneficiário. As desvantagens desse modelo teórico são: não fica claro como se avalia a parafrasticidade temática — deveria definir-se com precisão de que modo se estabelece, para duas frases, uma relação semântica idêntica entre o verbo e seus argumentos; ainda que a hipótese teta possa ser aplicada a alguns casos de alternância (por exemplo, às alternâncias de dativo), é impossível explicar desse modo as alternâncias locativas, para as quais muitos pesquisadores reconhecem diferenças de significado. Segundo D. R. Dowty, em inglês, a seleção do sujeito e do objeto depende das propriedades dos papéis prototípicos de agente e paciente que podem ser atribuídos aos argumentos (Proto-role): o argumento ao qual se podem atribuir mais propriedades prototípicas de agente é selecionado como sujeito, enquanto aquele ao qual se podem atribuir mais propriedades prototípicas de paciente é selecionado como objeto. Se nenhum dos argumentos tiver propriedades suficientes para ser inequivocamente selecionado como sujeito ou objeto, são permitidos casos de variação na expressão dos argumentos. R. S. Jackendoff afirma que uma única e mesma representação da semântica lexical permite duas realizações sintáticas diferentes. Segundo ele, as alternâncias são possíveis, em geral, porque, na representação da semântica lexical, uma determinada posição em relação à realização do argumento está marcada de modo opcional (Levin & Rappaport Hovav 2005: 196–205).

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significado em ambos os casos de expressão; afirma-se que as alternâncias se baseiam em regras que definem o surgimento de duas realizações morfossintáticas e, além disso, que uma das variantes de expressão é frequentemente considerada básica — sendo, assim, a segunda considerada derivada (transformada) da primeira. Esses modelos teóricos tendem a ignorar as diferenças de significado características das construções alternantes: diz-se que a construção derivada por meio de uma transformação sintática não altera o significado, pois as diferenças de significado decorrentes da transformação seriam de outra natureza: abrangem não o conteúdo lexical do verbo, mas aspectos do significado no nível da frase, como o escopo do quantificador ou a atribuição de foco (cf. Levin & Rappaport Hovav 2005: 196–207). Assim, de acordo com essa posição, reconhece-se a paráfrase das construções alternantes, mas ela não é examinada mais a fundo, ao contrário do que ocorre nas concepções gramaticais que destacam as mudanças de significado, cujos trabalhos mais notáveis são de B. Levin e M. Rappaport Hovav, S. Pinker, A. Goldberg e W. Croft; também merecem menção os estudos de S. Iwata e M. Fried4. Esses pesquisadores procuram diferenças na expressão dos argumentos e as expli-

4Uma das primeiras tentativas de explicar nessa direção as alternâncias locativas é o estudo de B. Levin e M. Rappaport (também classificado entre os chamados modelos de regras lexicais (Lexical rule), assim como a análise de S. Pinker). Nesse estudo, afirma-se que a variação sistemática dos significados das construções alternantes reflete diferentes representações da semântica lexical; nesse caso, regras de mapeamento formuladas adequadamente poderiam ser aplicadas para vincular as representações da semântica lexical aos modelos corretos de realização dos argumentos. Para o tipo de alternância locativa, propõe-se a seguinte representação da semântica lexical (a. load: [X CAUSE [Y TO COME TO BE AT Z] / LOAD] b. load: [[X CAUSE [Z TO COME TO BE IN STATE]] BY MEANS OF [X CAUSE [Y TO COME TO BE AT Z]] / LOAD]), na qual a variante com a construção preposicional with (b) é uma extensão da variante locativa (a), ou, dito de outro modo, a variante com with é tomada como base da variante locativa, de tal modo que o constituinte principal desta se torna um constituinte subordinado da variante com with. A derivação das construções só é possível nessa direção (apenas da locativa, mas não no sentido inverso). Tudo isso explica em parte a relação entre as variantes, percebida intuitivamente como próxima da paráfrase. O modelo de S. Pinker é muito semelhante ao que acaba de ser discutido. Além das alternâncias locativas, são estudadas também as alternâncias de dativo e causativas. As regras de mapeamento também regulam a relação entre as representações da semântica lexical e a expressão sintática de cada par de construções (o verbo cuja estrutura semântica central é ‘X causes Y to move into / onto Z’ é convertido em um novo verbo cuja estrutura semântica central é ‘X causes Z to change state by means of moving Y into / onto it’); aqui, porém, ao contrário do modelo de B. Levin e M. Rappaport, a derivação das construções pode ocorrer nas duas direções, dependendo de qual argumento da variante da construção pode ocupar o lugar do único elemento que complementa o predicado (embora esse teste nem sempre seja confiável). No estudo de A. Goldberg, o verbo é concebido como a combinação de seu significado mínimo e dos argumentos perfilados (isto é, os papéis semânticos dos acompanhantes do predicado que são obrigatórios de expressar) e é denominado «raiz»

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com base nas diferenças de significado entre as construções alternantes. Assim, também o aspeto parafrástico / perifrástico das construções é aqui relevante: é tendo-o em conta que se definem tanto as diferenças de significado entre as construções como a relação entre elas. A atenção centra-se sobretudo nas alternâncias de objeto (os casos mais frequentemente mencionados são as alternâncias de dativo e de locativo) e, sob este ponto de vista, procura-se manter uma base semântica unificada para a objetualidade. Para explicar as construções alternantes, criam-se mecanismos que permitem que mais de um argumento satisfaça alternativamente a definição semântica de objetualidade.

Assim, quanto à característica das construções alternantes que mais salta à vista — o seu caráter parafrástico / perifrástico —, pode dizer-se o seguinte: se se reconhecem diferenças de significado entre as construções e o modelo teórico é concebido precisamente nessa direção, esta característica é usada no estudo como base para explicar as diferenças de significado entre as construções, as condições que lhes dão origem e as relações entre elas; se, pelo contrário, se segue a via da análise estrutural e a relação entre as construções é explicada como a existente entre uma construção de base e outra derivada, o caráter parafrástico / perifrástico é mobilizado para demonstrar a derivação, por transformação, de uma das construções alternantes a partir da outra, bem como a estrutura profunda comum a ambas. Seja qual for a conceção teórica escolhida para estudar as alternâncias, o caráter parafrástico / perifrástico deve ser considerado extremamente

(root), em seguida, este significado mínimo é integrado na construção correspondente da estrutura argumental de tal modo que o processo envolve a união dos argumentos do verbo às posições da construção. As alternâncias argumentais surgem quando um verbo pode combinar-se com mais de uma construção. S. Iwata aponta várias semelhanças entre a sua investigação e a posição de A. Goldberg, atribuindo às construções locativas alternantes um único significado geral do nível lexical mais elevado (Lexical Head Level Meaning), que abrange diferentes aspetos do significado ao nível da frase (Phrase Level Meaning) realizados em cada uma das construções do par. Contudo, a diferença fundamental entre as teorias de A. Goldberg e S. Iwata reside no papel do verbo: no modelo de A. Goldberg, o verbo não determina a estrutura da frase, uma vez que os aspetos de significado necessários para tal são atribuídos não ao próprio verbo; em contraste com esta posição, no estudo de S. Iwata o significado do verbo ocupa uma posição central — é entendido como uma cena fílmica, e a integração do verbo na construção baseia-se na adequação semântica. W. Croft considera que, em muitas alternâncias argumentais, as respetivas construções abrangem a mesma raiz verbal (uma combinação do significado verbal mínimo e dos argumentos perfilados) e um único tipo de evento, mas dois «perfis» verbais distintos (Levin & Rappaport Hovav 2005: 205–216; Iwata 2005: 355–403). M. Fried explica as alternâncias de sujeito como uma seleção do sujeito baseada em pontos de vista (viewpoint), dependente da perceção e conceptualização do evento pelo falante. As diferenças regulares na codificação morfossintática são explicadas como determinadas por diferentes configurações dos papéis semânticos correspondentes em certos tipos de cena (Fried 2005: 475–512).

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uma característica importante deste fenómeno. Além disso, é indubitável a relevância desta característica para o estudo dos aspetos pragmáticos das alternâncias (por exemplo, a estrutura tema-rema); contudo, este artigo adota a posição de que é mais importante começar a investigação por revelar os mecanismos de expressão fixados no sistema da língua, embora um modelo exaustivo para o estudo das alternâncias argumentais em lituano venha a exigir, no futuro, que se abranjam também as condições que dão origem ao fenómeno analisado e os aspetos das funções que este desempenha no sistema da língua.

Outra questão importante é o papel do verbo neste processo. A sua avaliação também depende do modelo teórico: alguns reconhecem o papel decisivo do verbo no surgimento e na explicação das alternâncias (quase todos os estudos centrados nas diferenças de significado entre construções; ver a nota 4); noutros casos, o seu papel é reduzido (cf. a posição de A. Goldberg na nota 4) ou não é amplamente discutido (cf. a nota 3). A avaliação do significado verbal nas construções alternantes distribui-se de forma semelhante: por um lado, afirma-se que é o mesmo em ambas as construções do par; por outro, que são dois significados distintos, relacionados como o de base e o derivado. A abordagem da análise do fenómeno em questão proposta neste artigo consiste, em grande medida, na aplicação do modelo de gramática aplicativa universal de S. Shaumyan (Universal Applicative Grammar). Antes de apresentar a avaliação do papel do verbo nas construções alternantes segundo a gramática aplicativa, importa dizer que nesta é particularmente importante distinguir rigorosamente dois níveis dos fenómenos linguísticos: as gramáticas genotípica (genotype) e fenotípica (phenotype). Ao nível genotípico pertencem unidades funcionais — predicados, termos (satélites do predicado — argumentos e termos circunstanciais) e modificadores — e as relações abstratas de operador e operando que ligam essas unidades. A gramática fenotípica abrange unidades sintagmáticas — morfemas e palavras — e as suas relações quanto à ordem linear e às características morfológicas. As regras da gramática genotípica devem ser consideradas invariantes relativamente às várias realizações possíveis na gramática fenotípica. As regras da gramática genotípica destinam-se a explicar fenómenos linguísticos universais (Shaumyan 1987: 97). A alternância da expressão argumental é um fenómeno atestado em muitas línguas e, além disso, os seus principais tipos (por exemplo, as alternâncias da expressão do sujeito ou as alternâncias locativas) têm correspondentes análogos em diferentes línguas. Assim, para identificar adequadamente os processos de expressão linguística associados a este fenómeno e não se perder na profusão de variações ao nível fenotípico realizadas por diferentes línguas, a alternância da expressão argumental deve ser definida, em primeiro lugar, por meio de regras ao nível genotípico

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e só depois se deve investigar como estas se articulam com os fenómenos fenotípicos de uma língua específica. São estes os princípios da gramática aplicativa pertinentes para a questão em causa: 1) a alteração do estatuto gramatical dos termos (satélites do predicado) deve ser considerada uma consequência da alteração do predicado; a alteração do predicado é determinada pelas regras de alteração do predicado5, que têm de ser aplicadas ao predicado antes de este ser aplicado aos termos; 2) uma frase com relações gramaticais alteradas pode ser realizada independentemente de uma frase com relações gramaticais inalteradas; por exemplo, uma frase passiva pode ser realizada aplicando diretamente o predicado passivo aos seus termos, em vez de transformar uma frase ativa numa passiva (Shaumyan 1987: 272).

A segunda afirmação significa que as construções passivas relativamente às ativas, bem como outros fenómenos semelhantes, não são aqui considerados derivados no sentido atribuído ao termo nas gramáticas transformacional ou relacional (ver a nota 3). Contudo, se, a partir do predicado P1 que representa a frase, for derivado, mediante a aplicação das regras pertinentes de alteração do predicado, um predicado P2, então a frase com o predicado alterado (P2) deve ser considerada derivada da frase realizada com o predicado inalterado (P1) apenas na medida em que a estrutura da frase não derivada é representada pelo predicado P1 e transferida para a estrutura representada pelo predicado derivado (P2).

A necessidade de uma alteração na estrutura do predicado como condição nas alternâncias de diátese pode ser ilustrada pelos seguintes casos, que devem ser distinguidos das alternâncias; cf.:

(1) a. Ela separou a carne dos ossos. b. Ela separou os ossos da carne. (2) a. Eles arrancaram a criança da mãe. b. Eles arrancaram a mãe da criança.

Aqui, a estrutura do predicado não se altera — nas frases de cada par, o predicado abre posições idênticas para os argumentos e os termos circunstanciais.

2.2. Outra questão importante para definir a conceção das alternâncias argumentais é a composição lexical dos pares de construções. Quando se menciona este fenómeno, tem-se geralmente em mente casos de composição lexical idêntica; no entanto, o fenómeno que B. Levin designa por alternâncias de diátese pode ser equiparado, em sentido mais amplo, ao conjunto das possibilidades de variação da expressão argumental6, procurando-se assim, a partir do ver-

5As regras de alteração do predicado são discutidas na secção 3.2.

6Cf. B. Levin, que, ao classificar os verbos ingleses com base na relação entre os seus significados e o comportamento sintático, inclui entre as alternâncias sintáticas, ou de diátese, todos

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diferenças no comportamento sintático do verbo para determinar diferenças em seu significado. A maioria dos exemplos do inglês classificados como alternâncias de diátese nem sequer permitiria formular tais hipóteses em lituano, pois são realizados por lexemas verbais diferentes (ou por formas diferentes deles), cf.: a. o açougueiro corta a carne e b. a carne é facilmente cortada; a. a criança quebrou a xícara e b. a xícara se quebrou; a. esse cão morde as pessoas e b. esse cão morde. O caso denominado alternância de transformação total não altera a estrutura do núcleo da oração — isto é, dos argumentos necessários à realização da semântica do predicado —, mas apenas introduz um elemento adicional na periferia da oração7; cf.: a. a bruxa o transformou em sapo e b. a bruxa transformou o príncipe em sapo. Qualquer elemento realizado na periferia deve ser considerado facultativo e, se, na expressão alterada, não for promovido à posição de argumento do núcleo do predicado, sua realização ou não realização não altera o núcleo do predicado e, portanto, não pode ser classificado como fenômeno de alternância. Neste artigo, adota-se a posição de que as alternâncias na expressão dos argumentos são definidas, antes de tudo, como padrões regulares de expressão dos argumentos dos predicados, fixados nos sistemas das línguas (isto é, como fenômenos do nível da gramática genotípica); já qualquer variação na expressão dos acompanhantes do predicado pertencentes à periferia (termos circunstanciais), que não afete seus argumentos, é um fenômeno da gramática fenotípica (do nível morfossintático de uma língua específica). Com base nisso, consideram-se alternâncias apenas os casos de variação na expressão dos argumentos do predicado (isto é, realizados como sujeito, objeto e objeto indireto). No entanto, alguns aspectos da questão das alternâncias precisam ser precisados: 1) não é inteiramente exato chamar o fenômeno de alternância na expressão dos argumentos, pois as mudanças de expressão abrangem não só os argumentos do predicado, realizados pelas funções gramaticais de sujeito, objeto e objeto indireto, mas também elementos não argumentais — termos circunstanciais, cuja realização o predicado permite facultativamente;

casos de variação na expressão dos argumentos licenciados pelos verbos; por isso, incluem-se aqui também construções com composição lexical diferente, cf.: alternância média (Middle Alternation): a. Butcher cuts the meat; b. The meat cuts easily; alternância causativa/incoativa (Causative/Inchoative Alternation): a. Janet broke the cup; b. The cup broke; alternância de objeto não especificado (Unspecified Object Alternation): a. Mike ate the cake; b. Mike ate; alternância de propriedade característica do agente (Characteristic Property of Agent Alternation): a. That dog bites people; b. That dog bites; alternância de transformação total (transitiva) (Total Transformation Alternation (transitive)): a. The witch turned him into a frog; b. The witch turned him from a prince into a frog; entre outras (Levin 1993: 25–26, 27–30, 33, 39, 57–58).

7 Para os termos núcleo, dos argumentos necessários para representar a semântica do predicado, e periferia, dos elementos (não argumentos) da frase de estrutura estratificada, ver também Van Valin, LaPolla (1997: 25–31).

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realizados pelas funções gramaticais de sujeito, objeto e objeto indireto, mas também elementos não argumentais — termos circunstanciais, cuja realização o predicado permite facultativamente; 2) o critério essencial para incluir um caso nas alternâncias de diátese investigadas é que a alternância de expressão necessariamente afete ao menos uma mudança na posição de argumento do predicado: isto é, deve mudar ou a expressão dos próprios argumentos (por exemplo, um argumento do predicado que desempenha a função gramatical de objeto também pode ser realizado como sujeito: as pulgas infestaram o cão e o cão ficou infestado de pulgas), ou um termo circunstancial deve ser promovido da periferia à posição de argumento (cf. espalha areia no caminho e espalha o caminho com areia); este último exemplo também inclui o rebaixamento de um argumento à posição de termo circunstancial (cf. areia – com areia). Mais precisamente, só devem ser incluídos no fenômeno de alternância de diátese investigado os pares de orações que realizam diferenças na expressão das funções gramaticais de sujeito e objeto; nas orações com os chamados objetos indiretos, só é relevante a promoção destes últimos à posição de objeto direto — é precisamente isso que fundamenta o surgimento de mais um tipo de alternância, cf. o pai calça os sapatos na criança e o pai calça a criança com os sapatos. Justamente por as alternâncias afetarem obrigatoriamente uma mudança na expressão do sujeito ou do objeto, o termo «alternância na expressão dos argumentos» não é considerado muito adequado.

As alternâncias de objeto não especificado distinguidas por B. Levin levam a considerar casos análogos em lituano. Muitas vezes, uma das construções do par é interpretada como não tendo realizado um argumento, embora o significado do verbo abra essa posição⁸, cf. a. a criança come uma maçã e b. a criança come (bem). No entanto, o significado do verbo que denota um tipo de atividade ou uma capacidade não exige de modo algum que seja complementado por um argumento que desempenhe a função gramatical de complemento; e, se um complemento fosse realizado com esse significado, deixaria de se tratar apenas de indicar uma capacidade ou um tipo de atividade, cf. a criança já come maçãs (sozinha) ou as crianças sonham (frequentemente) com a mãe. Seja qual for a análise da segunda frase (b) do par — como transitiva, com a função de complemento não realizada, ou como intransitiva —, este e casos análogos devem ser distinguidos das alternâncias de diátese em estudo: se o predicado for transitivo em ambos os casos, o objeto está sempre implícito; se uma das construções for transitiva e a outra intransitiva, então só se coloca a questão da relação entre as construções.

8 Um verbo transitivo, devido ao seu significado, sempre abre uma posição sintática para um complemento, embora ela não precise necessariamente ser preenchida (Holvoet, Judžentis 2005: 14–15). Cf. ainda que os complementos diretos de muitos verbos são omitidos quando se pretende apenas descrever de maneira geral o tipo de atividade (Ele agora escreve, lê e assim por diante) ou uma capacidade (A criança já lê e escreve) (Holvoet, Čižik-Prokaševa 2005: 70).

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... implícito; e, se uma das construções for transitiva e a outra intransitiva, nesse caso, só se coloca a questão da relação entre as construções.

Além do caso acabado de analisar, devem também ser examinados outros casos semelhantes de expressão dupla dos argumentos, cuja composição lexical é diferente, cf.:

(3) a. A cabeleireira cortou o cabelo à menina (da menina).

b. A cabeleireira cortou a menina.

(4) a. O barbeiro fez a barba ao cliente (do cliente).

b. O barbeiro fez a barba ao cliente.

(5) a. A criança atou os atacadores dos sapatos.

b. A criança atou os sapatos.

(6) a. O homem abotoou os botões da camisa.

b. O homem abotoou a camisa.

(7) a. Mamãe limpou as migalhas da mesa.

b. Mamãe limpou a mesa (? das migalhas).

(8) a. Nós varremos as folhas dos caminhos.

b. Nós varremos os caminhos (? das folhas).

É evidente que, nas frases 3a, 4a, 5a e 6a, o objeto direto e o elemento realizado no caso dativo estão relacionados por relações de parte-todo ou de posse; além disso, o elemento realizado no dativo também pode ser entendido aqui como modificador do objeto, cf. a empresa costura roupas para mulheres / de mulheres / femininas. Devido à relação parte-todo, os modificadores das primeiras frases dos pares (3a, 4a, 5a, 6a) representam metonimicamente o sintagma inteiro nas segundas frases (1b, 2b, 3b, 4b); portanto, as diferenças de expressão não são determinadas por uma alteração do predicado, cf.: os escritos de Jablonskis – Jablonskis e leio os escritos de Jablonskis / Jablonskis. É precisamente por não haver mudanças na estrutura do predicado que esses casos não são classificados como alternâncias na realização dos argumentos.

A expressão das segundas frases (b) dos pares 7 e 8 é duvidosa, embora também esteja atestada no corpus <http://donelaitis.vdu.lt>. Sem decidir aqui a questão da correção ou incorreção de seu uso, por enquanto esses casos (apenas com termos circunstanciais expressos nas segundas frases (7b, 8b)) não se distinguem dos demais casos sob investigação, embora seja perfeitamente possível que essas construções realizem sentidos diferentes de um mesmo verbo, um dos quais (b) já não abra uma posição para um termo circunstancial, cf.: (nu)šluostyti «remover algo (de algo) passando (algo)» e «limpar (higienizar, secar) algo passando (algo)».

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Assim, para os pares de frases que pretendem ser chamados de alternâncias de diátese, a identidade da composição lexical é condição necessária: se o predicado não pode abrir uma posição para determinado argumento / termo circunstancial, pode-se considerar que essas estruturas predicativas estão demasiado distantes; nesse caso, só é possível investigar suas relações e as circunstâncias em que surgiram.

2.3. Assim, por fim, podem ser enunciadas as propriedades que, quando todas elas (não apenas uma ou algumas) são satisfeitas, permitem chamar de alternâncias na realização dos argumentos, ou alternâncias de diátese, os casos de diferentes diáteses permitidas pela mesma lexema verbal: 1) é obrigatória a identidade da composição lexical das frases; 2) são necessárias mudanças na estrutura do predicado das construções alternantes; 3) as mudanças de expressão devem afetar necessariamente pelo menos uma das funções gramaticais realizadas pelos argumentos do predicado — o sujeito e/ou o objeto direto (a função gramatical de objeto indireto não desempenha nenhum papel decisivo nesse fenômeno); 4) a relação entre as frases alternantes pode ser entendida (em certo nível de abstração) como parafrástica, e até equivalente em termos de verdade lógica.

Considerando as propriedades das alternâncias enumeradas, já é possível falar também da denominação do fenômeno. Na literatura estrangeira, o termo alternância está consagrado em sentido mais restrito e mais amplo (B. Levin, ver nota 6). Além disso, não é usado exclusivamente para designar fenômenos de diátese (também se denomina assim a alternância vocálica e a variação de morfemas); por isso, seu uso sem contexto exige necessariamente a especificação de modificadores. Como o próprio fenômeno é universal e deve ser considerado no contexto de fenômenos análogos em diferentes línguas, não convém abandonar o termo já corrente. Para a alternância na realização dos argumentos em sentido mais amplo, pode-se propor também o equivalente lituano, igualmente não estritamente definido, de variação na realização dos argumentos įvairavimo, que, justamente por sua indefinição, não serve para denominar o objeto de estudo empregado em sentido mais restrito, sujeito a requisitos rigorosos e designando fenômenos regulares do sistema linguístico. Às vezes, os verbos que permitem alternâncias também são chamados de verbos de deslocamento (em inglês, shift), por exemplo, verbos de deslocamento do dativo (cf. Van Valin 2005: 114–115). Assim, a atenção se concentra na mudança de posição de um dos membros das construções alternantes, e esse termo dificilmente serviria para denominar o fenômeno como um todo, pois seu uso no plural também seria demasiado amplo e indefinido. Ao tentar abranger e descrever em linhas gerais o que ocorre nas construções alternantes, o primeiro traço que salta à vista é a troca, redistribuição e mudança de posição dos acompanhantes do predicado (argumentos e termos circunstanciais). Assim, para o fenômeno investigado—

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para o kinui propõe-se o termo lituano – ALTERNÂNCIA DA EXPRESSÃO DOS ARGUMENTOS. Talvez este termo também não seja suficientemente preciso, exija igualmente uma especificação do modificador e possa ser aplicado não só a este fenómeno; ainda assim, parece descrever com bastante precisão a essência do fenómeno e, além disso, ao contrário de variação, ALTERNÂNCIA permite inferir uma quantidade limitada de casos envolvidos no processo. Este termo não pressupõe qualquer avaliação do fenómeno em estudo e, por isso, deverá ser adequado a todos os modelos gramaticais.

2.4. Como referido, existem diferentes tipos de alternância na expressão dos argumentos, que parece mais racional classificar de acordo com os argumentos cuja expressão das funções gramaticais realizadas — objeto direto e/ou sujeito — é afetada.

1. Alternância na expressão do sujeito e do objeto:

(9) a. Fiquei coberto de cardos. b. Fiquei coberto de cardos.

2. Alternância na expressão do sujeito:

(10) a. No quintal, cheira a lilases. b. No quintal, cheira a lilases.

3. Alternância na expressão do objeto e seus subtipos:

a) alternância na expressão tanto do objeto como do termo circunstancial que designa o local da ação9:

(11) a. A criança espalha manteiga (de manteiga) sobre o pão. b. A criança passa manteiga no pão.

b) alternância na expressão tanto do objeto como do destinatário da ação/do efeito10:

(12) a. A mãe veste a camisa à menina. b. A mãe veste a menina com a camisa.

c) alternância entre o local da ação/do efeito e o objeto:

9 Aqui se resume o conteúdo das várias funções semânticas desempenhadas pelos termos circunstanciais, como, por exemplo, o locativo, o diretivo ou o objetivo (goal).

10 Aqui se abstrai da chamada função gramatical de objeto indireto, resumindo-se, para o termo circunstancial, os conteúdos de destinatário da ação/do efeito (recipient), possuidor (possessor) e pessoa-alvo (target person).

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(13) a. Os meninos correram ao redor do lago. b. Os meninos circundaram o lago.

(14) a. A criança chutou a bola. b. A criança chutou a bola.

Aqui foram mencionados os tipos e subtipos mais marcantes de alternância argumental; portanto, é possível que alguns casos tenham passado despercebidos e não tenham sido incluídos. Além disso, os tipos de alternância não formam um conjunto fechado: a expressão dos argumentos de construções de diferentes tipos pode alternar, cf.:

(15) a. No quintal, cheira a lilases. b. O quintals cheira a lilases. c. No quintal, cheira a lilases.

A alternância entre (15a) e (15b) abrange mudanças na expressão de dois argumentos do predicado, enquanto a alternância entre (15a) e (15c), bem como entre (15b) e (15c), abrange apenas um; por isso, a alternância entre (15a) e (15b) é atribuída aos tipos de alternância de expressão do sujeito e do objeto, ao passo que as alternâncias entre (15a) e (15c) e entre (15b) e (15c) são atribuídas aos tipos de alternância de expressão do sujeito. Nos enunciados (15a) (=10a) e (9a), pode-se questionar o estatuto de sujeito de lilases e urtigas devido à incompatibilidade com uma propriedade semântica característica do sujeito: em enunciados com estrutura informacional não marcada — e estes são os que estão sendo analisados — lilases e urtigas pertencem à parte do comentário da frase, enquanto no quintal e em mim são tópicos em ambos os enunciados. O estatuto de tópico não marcado em uma frase é uma das propriedades prototípicas da função gramatical de sujeito (ver Holvoet, Semėnienė 2005: 49–50). Lilases e urtigas só poderiam tornar-se tópicos se fossem deslocadas para o início da frase e reforçadas por acento lógico — nesse caso, seriam enunciados com estrutura informacional marcada. Aqui, os argumentos expressos no nominativo ainda são considerados sujeitos, embora não correspondam a todas as propriedades de um sujeito prototípico. No enunciado (15c), o substantivo no quintal deve ser reconhecido como sujeito, embora seja realizado no caso locativo: o locativo no quintal é usado aqui numa função secundária, a de sujeito11. Também se incluem no tipo de alternância de sujeito e objeto exemplos que não permitem duvidar do estatuto de sujeito dos argumentos realizados dessa maneira (16); nos exemplos do tipo de alternância de sujeito (17), porém, parece haver sempre esse problema, cf.:

11 Além disso, a gramática aplicativa, assim como muitos outros modelos teóricos, reconhece a necessidade de um sujeito na frase: «se uma sequência de palavras é uma frase, então ela tem sujeito» (Shaumyan 2006: 229). As frases impessoais ou outras frases sem sujeito expresso têm a chamada forma de sujeito nulo (dummy ou zero terms).

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(16) a. As moscas cobriram o mel.

b. O mel cobriu-se de moscas.

(17) a. Do lago soprou uma brisa fresca.

b. O lago soprou uma brisa fresca.

A validade da distinção entre os tipos de alternância da expressão argumental enumerados, bem como outros critérios necessários para esse fenômeno, deve ser verificada mediante a análise do mecanismo de expressão das construções.

3. ALTERNÂNCIA DA EXPRESSÃO DOS ARGUMENTOS NA GRAMÁTICA APLICATIVA

A alternância da expressão dos argumentos foi explicada tanto com base nas diferenças semânticas entre as frases (cf. nota 4) como nas mudanças de sua estrutura (cf. nota 3). As observações fragmentárias dos linguistas lituanos sobre o fenômeno investigado destacam sobretudo as diferenças semânticas (cf. nota 1). Todos os estudos oferecem dados valiosos. Os estudos voltados à busca de diferenças semânticas entre construções alternantes também precisam levar em conta fatores extralinguísticos, por exemplo, a análise das situações que determinaram uma avaliação diferente do papel de seus participantes; e a maioria das explicações propostas sobre essa questão (perfilamento, diferenças na codificação da estrutura informacional da frase etc.) parece correta e aplicável às necessidades correspondentes, que só podem ser determinadas com precisão numa situação concreta. No entanto, é evidente que existem na língua (e, dada a universalidade do fenômeno da alternância, nas línguas) meios gramaticais para expressar essas necessidades; por isso, a análise das alternâncias de argumentos em lituano pretende começar justamente por aí. Para investigar esse fenômeno de modo abrangente, o passo seguinte deve ser estabelecer a relação entre os meios e processos formais de expressão e os fenômenos do domínio semântico. Espera-se que uma explicação adequada do processo de expressão ajude a distinguir os fatores semânticos essenciais dos secundários.

Para alcançar os objetivos mencionados, foram escolhidos o método e os recursos da gramática aplicativa universal, também denominada teoria semiótica da linguagem (Semiotic Theory of Language). O principal criador do modelo foi S. Shaumyan. Uma característica importante dessa gramática é a distinção entre fenômenos dos níveis genotípico e fenotípico (ver seção 2.1). Como o fenômeno da alternância de argumentos opera universalmente, seus princípios de funcionamento devem ser definidos, antes de tudo, no nível das relações entre as unidades funcionais da gramática genotípica (predicados, termos e modificadores) e os operadores e operandos

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3.1. Assim, a seguir, definem-se os princípios fundamentais da gramática aplicativa, aplicados, entre outros fenômenos, também à explicação do fenômeno em estudo. Um dos princípios fundamentais do sistema da língua é aqui o princípio da superposição funcional, que cria uma hierarquia das funções primárias e secundárias dos signos e dos fonemas. Esse princípio é amplamente aplicado para explicar fenômenos do nível fenotípico (fonologia, morfologia e sintaxe).

“No contexto da mudança de significado ou função, um signo ou fonema A é aplicado por superposição a um signo ou fonema B, de modo que B é usado como recipiente e A como estrutura de duas camadas <B SUP A>. Como resultado da superposição, cria-se uma relação de derivação funcional, de tal maneira que B se torna um derivado funcional ou alternante de A. O signo ou fonema B recebe um significado ou função secundária, que é ‘sobreposta’ ao seu significado ou função primária, independente do contexto” (Shaumyan 2006: 131). (Aqui e em outros lugares, tradução minha – K. L.)

Para identificar processos gramaticais universais, formula-se uma lei idealizada de autonomia da gramática em relação ao léxico, representada por dois processos de abstração: 1) a estrutura da frase é abstraída das palavras que a preenchem; 2) a estrutura da frase é abstraída de sua representação linear. Assim, restam os elementos essenciais e universais: as funções sintáticas. Na estrutura sintática universal distinguem-se quatro funções principais: predicados, termos (argumentos dos predicados e termos circunstanciais), modificadores de termos e modificadores de predicados. No nível fenotípico, essas funções são atribuídas, respectivamente, como funções primárias às quatro classes de palavras: aos verbos, a função de predicado; aos substantivos, a de termo; aos adjetivos, a de modificador de termo; e aos advérbios, a de modificador de predicado. Cada classe de palavras, além das funções sintáticas primárias,

12 Essas relações são determinadas pela lei de combinação dos sintagmas (aqui, sintagma é entendido de modo semelhante a um gestalt — uma palavra juntamente com seu significado estrutural): “Se o significado de um sintagma é insuficiente e precisa ser complementado pelos significados de outros sintagmas, esse sintagma é chamado operador e se combina com um ou mais sintagmas, chamados operandos, a fim de formar um novo sintagma, chamado resultante” (Shaumyan 2006: 213).

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podem ter também funções secundárias. A superposição funcional é um processo pelo qual uma função secundária é «sobreposta» a uma função primária, criando assim uma nova função de duas camadas. A nova função é uma combinação das funções primária e secundária. Após a superposição, a palavra («superposta») apresenta características de ambas as funções — primária e secundária. Por exemplo, a função primária da palavra baltas é a de modificador de termo, como na frase Baltas šunelis vizgina uodegą. Já na frase Baltas yra geras, o juodas blogas, ela desempenha a função de termo. Assim, no segundo caso, o adjetivo sofre uma superposição de substantivo, e, por isso, a função sintática do adjetivo funde-se com a função sintática do substantivo. Na frase Vakar aš vaikščiojau sode ir staiga matau – Jonas, o significado estrutural da palavra matau é entendido como passado. Assim, aqui a função de presente está combinada com a função de passado. Na frase Jonas yra vairuotojas, a palavra vairuotojas, no sintagma yra vairuotojas, tem uma função secundária, predicativa, que, ao se combinar essa palavra com o operador yra, foi «sobreposta» por superposição à sua função primária (de termo). Estes são exemplos de superposição sintática.

Na morfologia, o mecanismo de superposição opera no processo de derivação: apenas as palavras-base têm funções sintáticas primárias, enquanto as palavras derivadas têm apenas funções secundárias, derivadas por superposição das funções das palavras-base, por exemplo: a palavra žalias é não derivada e tem a função primária de modificador de termo, ao passo que žalumas é seu derivado, formado pela adição do marcador nominal externo correspondente13 (-um-as) e pela «sobreposição» da função de termo — obtendo-se assim uma função secundária dupla do derivado, isto é, modificador de termo e termo — à função primária da palavra-base, a de modificador de termo.

O mecanismo de superposição também opera no nível da derivação dos significados das palavras; compare-se o significado primário da palavra žalias, «dessa cor»: ao «sobrepor» a esse significado o significado primário da palavra nepatyręs, «inábil, não habituado», deriva-se o significado secundário da palavra žalias, «inexperiente, inábil; jovem» — trata-se de uma forma metafórica de transferência de significado. O significado secundário da palavra žalias e o significado primário da palavra nepatyręs relacionam-nas como sinônimos, ao passo que os dois significados da palavra žalias estão ligados por uma relação de polissemia.

3.2. S. Shaumyan também explica o fenômeno da alternância de argumentos objeto de estudo...

13 A superposição da função sintática pode não ter nenhum marcador externo; compare-se: nematau akmens ir akmens sieną.

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explica-a pela operação da superposição e encontra para ela um lugar ao lado de outros fenômenos sintáticos fundamentados na transformação14 (por exemplo, a passivização). Antes de definir as regras de superposição que regulam esse fenômeno, cabe discutir a hierarquia de aplicação dos termos sintáticos ao predicado, ou, em outras palavras, a hierarquia aplicativa (Applicative Hierarchy)15. Aqui, à semelhança da gramática relacional, as funções sintáticas, ou simplesmente gramaticais (cf. Holvoet, Mikulskas 2005: 7), são convencionalmente indicadas da seguinte maneira: 1 — sujeito, 2 — objeto direto, 3 — objeto indireto, Q — termo circunstancial (somente na gramática aplicativa, ao contrário da relacional, sujeito e objeto direto não são considerados elementos que marcam relações gramaticais, mas membros da relação binária criada por um predicado de dois lugares). Os termos sintáticos ordenam-se hierarquicamente assim:

[1 > 2 > 3] > Q

14 Na gramática aplicativa, as construções passivas são consideradas conversões das ativas, mas seu surgimento e a relação entre elas são explicados de modo diferente do adotado pelas gramáticas transformacional e relacional: o isomorfismo entre os componentes fundamentais das construções ativas e suas correspondentes passivas, estabelecido por S. Shaumyan (não se deve confundir isomorfismo com equivalência), consiste em que a relação entre o predicado e o sujeito das construções ativas é isomórfica à relação entre o predicado e o termo circunstancial das construções passivas (que corresponde ao sujeito da construção ativa); o predicado é o elemento principal que representa a frase — a frase mínima é um predicado. Portanto, na gramática aplicativa, não é a relação entre construções (ativa e passiva: R(x, y) e R'(y, x)) que é denominada conversiva: a partir do predicado da frase ativa (predicado fundamental), aplicando-lhe um operador abstrato de conversão, deriva-se um predicado conversivo, a partir do qual se constrói então o predicado passivo (isto é, o predicado conversivo deriva-se do predicado fundamental, mas não o inverso; o predicado passivo não é um predicado conversivo, mas apenas deriva do predicado conversivo que, por sua vez, deriva do predicado fundamental); assim, se é possível falar de transformação ou conversão de construções ativas e passivas, é apenas no nível das estruturas predicativas dessas construções, pois as construções passivas devem ser consideradas geradas independentemente das ativas correspondentes; as construções passivas podem apenas ser reduzidas às ativas correspondentes (Desclés, Guentchéva, Shaumyan 1985: 22–24; Shaumyan 2006: 234–235; cf. também as observações na seção 2.1).

15 Esta hierarquia decorre das regras de formação da frase. «A frase é constituída por uma hierarquia de combinações binárias de seus componentes» — portanto: 1) «se X é um operador que se combina com o termo Y para formar a frase Z, então X é um predicado intransitivo e Y é o sujeito; 2) se X é um operador que se combina com o termo Y para formar o predicado intransitivo Z, então X é um predicado transitivo e Y é o objeto direto; 3) se X é um operador que se combina com o termo Y para formar o predicado transitivo Z, então X é um predicado ditransitivo e Y é o objeto indireto; 4) se X é um operador que se combina com a frase Y para formar uma frase Z do mesmo tipo que Y, então X é um atributo de Y» (Shaumyan 2006: 228–232).

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Os parênteses distinguem os termos do predicado, os membros do quadro de predicação. 3 é marcado em relação a 2, porque o grau de 2 (o conjunto de posições funcionais na frase) é mais amplo: 2 realiza-se tanto em frases transitivas como ditransitivas, ao passo que 3 se realiza apenas em frases ditransitivas; porém, 2 é marcado em relação a 1, porque 1 se realiza em frases intransitivas, transitivas e ditransitivas; e Q é marcado em relação ao quadro de predicação, cujo grau é mais amplo: o quadro de predicação realiza-se em todas as frases, ao passo que Q não se realiza em todas.

Assim, a diátese — a transformação da frase A na frase B — é determinada pelas seguintes regras:

1. Se 3 se identifica com 2, então 2 tem de sofrer a superposição de Q:

<3 SUP 2> → <2 SUP Q>

2. Se 2 se identifica com 1, então 1 tem de sofrer a superposição de Q:

<2 SUP 1> → <1 SUP Q>

3. Se 3 se identifica com 1, então 1 tem de sofrer a superposição de Q:

<3 SUP 1> → <1 SUP Q>

Em suma, se um termo A da frase se realiza como termo de ordem superior B, então o termo B será realizado como termo circunstancial (Shaumyan 2006: 235–236).

A primeira regra abrange um caso de alternância na expressão do objeto — a alternância na expressão tanto do objeto como do destinatário da ação/do efeito (cf. 12ab), cf.:

(18) a. A mãe enrola um lenço à criança. b. A mãe enrola a criança num lenço.

Na frase (18a), os argumentos do predicado desempenham funções diretas: mãe – 1, lenço – 2, criança – 3; já na frase (18b), devido à superposição sofrida, os argumentos adquirem funções secundárias — de duas camadas: 3 sofre a superposição de 2, 2 a de Q e 1 a superposição de 1 (isto é, superposição zero16), cf.:

(18) b. mãe lenço criança <1 SUP 1> <2 SUP 3> <3 SUP 2>

Os demais casos de alternância na expressão do objeto incluem um termo circunstancial que, em sentido mais amplo, desempenha a função semântica de lugar da ação/do efeito,

16 A transformação não tem necessariamente de alterar a função de cada termo da frase. A situação em que a função do termo permanece a mesma, como no caso do sujeito mãe nas frases 18a e 18b, chama-se superposição zero.

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a mudança de expressão (ver p. 8), por isso as regras estabelecidas por S. Šaumyan devem ser complementadas com mais uma:

Se Q for identificada com 2, então 2 deve sofrer a superposição de Q:

<Q SUP 2> → <2 SUP Q>

(19) a. As meninas prendem flores nas tranças. b. As meninas prendem as tranças com flores.

No enunciado (19a), as funções primárias dos argumentos do predicado e dos termos circunstanciais são as seguintes: meninas – 1, flores – 2, tranças – Q; já no enunciado 19b, após a superposição, obtêm-se as seguintes funções secundárias, cf.:

(19) b. meninas flores tranças <1 SUP 1> <2 SUP Q> <Q SUP 2>

A segunda regra estabelecida por S. Šaumyan aplica-se não apenas à alternância na expressão do sujeito e do objeto, mas também à explicação do processo de passivização. Isso atesta a afinidade funcional desses fenômenos e indica o lugar da alternância de argumentos no sistema linguístico.

(20) a. Os leitões cobriram a porca. b. A porca ficou coberta de leitões. c. A porca foi coberta pelos leitões / ficou coberta de leitões.

Apenas no enunciado (20a) se realizam as funções primárias dos argumentos: leitões – 1, e porca – 2. No enunciado (20b), porca adquire a função secundária <2 SUP 1> e, por isso, é promovida à posição de sujeito, enquanto leitões recebem a função secundária <1 SUP Q> e são rebaixados à posição de termo circunstancial. O correspondente passivo de (20a) é (20c), que surge pela aplicação da mesma regra de superposição, cf.:

(20) c. leitões porca <1 SUP Q> <2 SUP 1>

Para o tipo de alternância na expressão do sujeito, também é necessário definir uma regra separada:

Se Q for identificada com 1, então 1 deve sofrer a superposição de Q:

<Q SUP 1> → <1 SUP Q>

(21) a. Na floresta brotaram cogumelos.

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b. A floresta ficou cheia de cogumelos.

(22) a. Na cozinha fedia a alho. b. A cozinha fedia a alho. c. Na cozinha fedia a alho.

As frases deste tipo, (21b) e (22b), devem ser explicadas precisamente pelo funcionamento desta regra. É importante observar que, na frase (21a), a realização do sujeito (grybų) não é típica, mas também pode ser explicada pela superposição: o verbo pridygo é derivado de dygo; portanto, em relação à palavra de base, pridygo só pode ter uma função secundária, que, por meio da superposição, é «sobreposta» à função primária de dygo. Por isso, o argumento exigido pelo predicado pridygo realiza-se não no nominativo, mas no genitivo — o que já constitui um marcador formalmente expresso da função secundária desse argumento: isto é, o substantivo grybų, realizado no genitivo, tem aqui uma função secundária de sujeito; compare-se: miške dygsta grybai ir miške pridygo grybų. Na frase (21b), a função gramatical do sujeito da frase (21a) (grybų) mudou — por meio da superposição, foi-lhe «sobreposta» a função gramatical de objeto, embora isso não seja expresso por nenhum marcador externo.

A frase (22c) é transformada a partir da frase (22b) por meio da superposição, «sobrepondo-se» aos termos a função secundária de termo circunstancial (a função do termo circunstancial česnaku não muda aqui — isto é, ele sofre superposição nula):

(22) c. cozinha alho << Q SUP 1 > SUP Q > << 1 SUP Q > SUP Q >

A terceira regra de funcionamento da superposição indicada por S. Šaumyan aplica-se à transformação das alternâncias de dativo do inglês em construções passivas17. Em lituano, esta regra poderia ser aplicada, quando muito, a casos como: a. šeimininkė davė šuneliui ėdalo e b. šunelis šeimininkės yra duotas ėdalo18. Aqui, na frase (b), a função secundária do termo šunelis é <3 SUP 1>, a do termo šeimininkė é <1 SUP Q>, enquanto a função do termo ėdalas não muda, isto é, ele

17 Compare-se: a. John handed the scarf to Mary; b. John handed Mary the scarf; c. Mary was handed the scarf by John. Na primeira frase (a), os argumentos desempenham as funções primárias. John – 1, scarf – 2, Mary – 3; a segunda frase (b) transforma-se de acordo com a primeira regra: <1 SUP 1> <2 SUP Q> <3 SUP 2>; e a terceira (c) transforma-se a partir da segunda (b) segundo a terceira regra estabelecida por S. Šaumyan: <<1 SUP 1> SUP Q> <<2 SUP Q> SUP Q> <<3 SUP 2> SUP 1> (Shaumyan 2006: 235–236).

18 Plg. Šunelis šiandien tebėra nieko neduotas (Jablonskis 1997: 140).

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sofre superposição nula — <2 SUP 2>. Contudo, devido à chamada promoção do objeto indireto à posição de sujeito, não se lhe deve atribuir uma função excepcional no processo de alternância de argumentos: o mais importante aqui é a promoção à posição de sujeito do termo que desempenha a função de objeto indireto, tal como a de qualquer outro termo/termo circunstancial (cf. 20b, 21b, 22b), e não a própria função gramatical básica de objeto indireto. Além disso, o exemplo em análise é um caso não de alternância, mas de passivização — fenômeno próximo da alternância na realização dos argumentos.

Todas as regras discutidas abrangem a mudança de posição de dois termos — tanto do sujeito/objeto como do termo circunstancial —, e em todas elas o ponto de partida da mudança é a promoção deste último à posição de sujeito ou de objeto direto, da qual decorre o rebaixamento à posição de termo circunstancial do argumento que antes desempenhava a função gramatical de sujeito ou objeto. No entanto, parece que a sequência de eventos não precisa necessariamente desenvolver-se apenas nessa ordem, pois o fenômeno da alternância de argumentos abrange muitos casos em que muda a posição de apenas um argumento ou termo circunstancial (casos de alternância do lugar da ação/do impacto e do objeto direto; cf. 13ab, 14ab), por exemplo:

(23) a. A criança atravessou o rio a nado. b. A criança nadou através do rio. (24) a. O menino chuta a bola. b. O menino chuta a bola.

Na frase (23a), devido à derivação, o verbo perplaukė adquire uma função secundária — a de predicado transitivo — em relação ao predicado intransitivo primário plaukė; por isso, o substantivo de significado tipicamente «circunstancial» upė, que em relação ao predicado primário também desempenha a função de termo circunstancial (cf. plaukti upėje, upe), pode ser realizado como objeto direto19 — assim, por meio da superposição, o substantivo upė realiza-se com a função secundária de duas camadas <Q SUP 2>. Na frase (23b), após a superposição, upė é rebaixado de argumento a termo circunstancial, e sua função passa a ser <<Q SUP 2> SUP Q>. Além disso, na frase (23b) a informação redundante é evidente.

19 Segundo A. Drukteinis, nas construções com verbos de deslocamento ou de direção, o estatuto sintático dos elementos realizados de maneiras diferentes não muda, e as construções deste tipo não devem ser classificadas como relações de objeto (Drukteinis 1985: 59). No entanto, a objetividade de upės também é comprovada pelo teste de passivização; cf. upė buvo vaiko perplaukta, e o conteúdo de duas camadas pode ser explicado pelo funcionamento da superposição.

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De modo semelhante ao que ocorre na frase (23a) por derivação, também na frase (24b), sem quaisquer marcas externas, um predicado intransitivo é realizado na função secundária de predicado transitivo, enquanto seu argumento — anteriormente um termo circunstancial — é realizado na função secundária de objeto direto — <Q SUP 2>. Como evidência da direção da transformação e das funções duplas do predicado e dos argumentos (e/ou termos circunstanciais) das construções transformadas, neste e em outros casos de alternância, pode-se considerar o fato de que o significado da construção transformada necessariamente implica pelo menos parte da informação da construção não transformada20, mas não o contrário; cf.: kaišyti kasas (19b) — “ao inserir algo nas tranças, deixá-las enfeitadas”; kiaulei aplipti paršeliais (20b) — “devido à (numerosa) aglomeração de leitões, a porca ficar coberta por eles”; perplaukti per upę (23b) — “atravessá-la (cruzá-la a nado) ao nadar pelo rio”; perplaukti upę (23a) — “atravessar (cruzar a nado) o rio nadando”; spirti kamuolį (24b) — “golpear a bola com o pé, fazendo-a assim se mover”.

3.3. Também é importante retomar a questão do papel do predicado nas transformações em discussão. Em alguns casos de alternância (cf. 20ab, 23ab), a função secundária de predicado intransitivo é “sobreposta”, por superposição, à função primária de predicado transitivo. Isso, aliás, também acontece em todos os casos de passivização. Portanto, em tais construções, a mudança do próprio predicado21,

20 De modo semelhante, no modelo das regras lexicais, B. Levin, M. Rappaport Hovav e S. Pinker fundamentam a direção da derivação das alternâncias (ver nota 3), enquanto a negação, por S. Iwata, da transformação da estrutura do predicado e de seus significados no caso das alternâncias locativas — argumentando que alguns verbos supostamente permitem apenas uma das variantes — deve ser considerada no contexto mais amplo do fenômeno da alternância de argumentos e de seu entorno, ao se examinarem os pressupostos da possibilidade de realização/não realização correspondente, mas não para explicar o próprio mecanismo de expressão (Iwata 2005: 356–361).

21 Na descrição formal do processo de passivização, a supressão da transitividade é explicada pela introdução de um termo não especificado (unspecified term), que, a partir do predicado de base (transitivo — bivalente — da construção ativa), mediante a aplicação de um operador de conversão, deriva um predicado converso (ver nota 14), que ainda é bivalente; somente quando o predicado converso se combina com o termo não especificado, como resultado dessa combinação, obtém-se um predicado passivo intransitivo univalente. Assim, uma das funções do termo não especificado é converter o predicado converso em um predicado passivo univalente. As outras características do termo não especificado são: 1) ele tem a função sintática de termo secundário (isto é, objeto direto); 2) seu significado é “lugar do agente” (isto é, remete a qualquer agente que possa ser especificado pelas informações do contexto, da situação pragmática ou do significado lexical do predicado); 3) é marcado por um sinal zero, isto é, não é expresso de forma alguma (Descĺes, Guentchéva, Shaumyan 1985: 14, 55). Por ora, não está claro como a posição não preenchida de objeto direto deveria ser marcada formalmente nos casos de alternância da transitividade variável do predicado.

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que determina a realização de alguns de seus argumentos e/ou termos circunstanciais em funções diferentes — secundárias — é evidente. Os casos de alternância com transitividade invariável dos predicados devem ser explicados como regularidades definidas existentes no sistema da língua para realizar a estrutura predicativa de várias maneiras: por meio do predicado de base e das posições que sua estrutura abre para os argumentos com funções primárias, e por meio do predicado derivado e das posições que sua estrutura abre para os argumentos com funções derivadas e/ou para os termos circunstanciais. O predicado derivado sempre herda a estrutura do predicado de base e, por superposição, combina-a com a estrutura predicativa modificada, criada por qualquer um dos métodos de transformação descritos (ou por diversas outras combinações possíveis — afinal, todas as operações se reduzem a duas fundamentais: ou se eleva o nível do argumento/termo circunstancial, ou se rebaixa). Assim, a estrutura do predicado derivado é transformada a partir da estrutura do predicado de base, mas as próprias construções não são derivadas umas das outras; elas apenas podem ser relacionadas por meio de seus predicados. Também é possível extrair (reduzir) a estrutura de base da estrutura transformada, pois a primeira está implicada na segunda. Isso pode ser demonstrado com o seguinte exemplo:

(25) a. Os caçadores colocam galhos sobre a cova.

b. Os caçadores cobrem a cova com galhos.

Esse par de frases não deve ser classificado como alternância na expressão dos argumentos, pois processos análogos são realizados aqui não pela mesma, mas por diferentes lexemas verbais. O predicado da segunda frase (b), apdeda, deriva do predicado da primeira frase, deda; portanto, o derivado apdeda também tem uma função secundária em relação à palavra de base deda; o marcador de derivação no nível morfológico é o prefixo ap-, e o significado do verbo derivado indica a direção da derivação semântica — apdėti, “colocar algo sobre algo, cobrindo-o por todos os lados”. No nível abstrato das funções gramaticais, a estrutura do predicado de base é combinada, por superposição, com um dos modelos de expressão das funções secundárias dos argumentos do predicado fixados na estrutura da língua (isto é, as regras de transformação discutidas e suas combinações); no nível morfossintático, as funções secundárias do predicado derivado são marcadas pelos argumentos (e termos circunstanciais) realizados por meio de casos e/ou construções preposicionais correspondentes. No caso em questão, é evidente que somente os predicados estão ligados por uma relação de derivação; as construções são relacionadas por meio da relação entre seus predicados, e, a partir da estrutura do predicado transformado, é possível extrair (reduzir) a estrutura de base (cf. apdėti duobę šakomis “colocar

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ramos sobre o buraco de modo que o buraco ficasse totalmente coberto”), mas isso não significa que, ao realizar a construção do predicado derivado, seja necessariamente necessária uma operação intermediária de realização da construção do predicado básico — a segunda frase pode ser expressa independentemente da primeira. Todos os procedimentos discutidos e a sua sequência exata são importantes apenas para explicar as relações entre as duas construções, mas não para produzir uma frase específica num contexto específico: se for necessário criar uma frase com o predicado apdėti, não é necessário recordar que este deriva de dėti. O caso discutido e outros semelhantes correspondem funcionalmente à alternância da expressão dos argumentos e distinguem-se dela devido a características formais do nível morfológico (um marcador de derivação morfológica). Nos fenómenos de alternância dos argumentos, tanto no que diz respeito à alteração do predicado como dos seus argumentos (e/ou dos termos circunstanciais), ocorrem processos análogos ao caso acabado de discutir, mas que não se exprimem de modo algum externamente na lexema verbal; por isso, seria correto incluir também na periferia da alternância da expressão dos argumentos os pares de estruturas com marcadores derivacionais realizados (como, por exemplo, 25ab). (Em algumas línguas, por exemplo, na língua chichewa, processos análogos às alternâncias argumentais só podem realizar-se mediante a junção do afixo ir- à lexema verbal (cf. nota 3); também em alemão, as alterações na expressão do argumento que desempenha o papel de locativo realizam-se pela junção do afixo be- ao verbo; cf.: Sie sprü hte Farbe an die Wand «ela pulverizou tinta na parede» e Sie besprühte die Wand mit Farbe «ela pulverizou a parede com tinta» (Michaelis, Ruppenhofer 2001: 12)). Devido aos processos análogos e às diferenças na estrutura informacional concretizadas pelo par de frases, o fenómeno da alternância dos argumentos deve ser situado no sistema da língua ao lado do fenómeno da passivização22 (cf. 20abc). Talvez, após estudos mais aprofundados das funções semânticas (especialmente pragmáticas) da alternância da expressão dos argumentos, se venha a perceber que este fenómeno (ou pelo menos alguns dos seus casos) pertence funcionalmente à periferia da expressão da categoria de voz.

Os recursos da gramática aplicativa utilizados para explicar os processos de alternância da expressão dos argumentos abrangem apenas parcialmente os pressupostos que dão origem aos pares de construções (sobre eles, na ausência de contexto, só se pode inferir a partir das funções alteradas dos argumentos); neste artigo, ficaram também por discutir as diferenças de estrutura informacional que se realizam em muitos casos de alternância dos argumentos; além disso, não menos importante é

22 A. Holvoetas afirma que a categoria de voz também constitui um meio de gramaticalização da estrutura informacional: a construção passiva permite nada dizer sobre o agente e concentrar a atenção no objeto, que se torna o tópico da frase (Holvoet 2003: 87; cf. ainda Holvoetas sobre a expressão gramaticalizada do tópico secundário na nota 1).

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definir as características semânticas dos verbos que permitem a alternância — tudo isto constitui uma tarefa para investigações futuras.

4. CONCLUSÕES

A alternância da expressão dos argumentos é um fenómeno universal da estrutura das línguas; por isso, os casos de alternância dos argumentos em lituano devem ser examinados tendo em conta fenómenos análogos noutras línguas e os estudos que lhes dizem respeito. Observou-se que, na literatura estrangeira, o termo alternância, amplamente utilizado para este fenómeno, é empregado em dois sentidos: num sentido mais amplo, como o conjunto de possibilidades de variação da expressão dos argumentos do predicado (a posição de B. Levin), e num sentido mais restrito, como regularidades da expressão dos argumentos do predicado gramaticalizadas de modo correspondente nos sistemas de diferentes línguas (é precisamente assim que a maioria dos investigadores entende as alternâncias argumentais, posição também adotada aqui). Assim, os casos atribuídos à alternância da expressão dos argumentos (alternância) devem satisfazer todos os seguintes critérios: 1) a composição lexical das frases deve ser idêntica; 2) são necessárias alterações na estrutura do predicado das construções em alternância; 3) as alterações da expressão devem necessariamente afetar pelo menos uma das funções gramaticais realizadas pelos argumentos do predicado, isto é, o sujeito, o objeto direto ou ambos (o objeto indireto não desempenha qualquer papel especial no processo de alternância dos argumentos: a função gramatical de objeto indireto, tal como a função desempenhada por qualquer outro termo ou termo circunstancial, só é relevante neste fenómeno porque este último é promovido à posição de sujeito ou de objeto direto); 4) a relação entre as frases em alternância pode ser entendida como parafrástica, ou perifrástica, e até equivalente quanto ao valor de verdade lógica das proposições.

Tendo em conta as características mais gerais do fenómeno estudado, propõe-se para ele a designação lituana — alternância da expressão dos argumentos.

Para descrever os processos de realização da alternância dos argumentos, recorreu-se aos recursos da gramática aplicativa, entre os quais cabe aqui o papel mais importante ao fenómeno que opera universalmente em todos os níveis da língua: a superposição funcional. É precisamente devido à superposição ao nível das funções semânticas que surgem, e são consagradas de modo correspondente em cada sistema linguístico, as possibilidades de os predicados se exprimirem por meio das suas estruturas básicas (com funções argumentais primárias) e de estruturas derivadas que realizam os seus argumentos através de funções secundárias (de dupla camada). A relação entre os predicados das construções em alternância é estabelecida como a de uma construção básica com uma derivada, mas as suas cons-

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As construções não são consideradas derivadas umas das outras, pois podem ser produzidas independentemente, a menos que seja possível extrair (reduzir) a construção do predicado básico da construção do predicado derivado, uma vez que a primeira está sempre implicada pela construção do predicado derivado.

Devido a processos análogos, também pertencem à periferia das alternâncias de realização dos argumentos os pares de construções que realizam diferenças na expressão dos argumentos por meio da forma verbal com prefixo e da forma correspondente sem prefixo; e a posição do próprio fenômeno de alternância de argumentos no sistema linguístico, tanto pela semelhança dos processos de realização como pelos aspetos comuns na expressão da estrutura informacional, parece situar-se junto do fenômeno da passivização.

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Kristina Lenartaitė

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