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Instituto da Língua Lituana
Linhas de pesquisa científica: sintaxe, semântica e pragmática do lituano antigo e contemporâneo; história da cultura lituana e dos textos eclesiásticos.
DOI
Juozas Pabrėža
A LÍNGUA E A ORTOGRAFIA SAMOGÍTIAS
MONOGRAFIA CIENTÍFICA
Šiauliai: Departamento de Publicações da Biblioteca da Universidade de Šiauliai (Bibliotheca actorum humanitaricum universitatis Saulensis, livro n.º 17), 2017, 336 p.
ISBN 978-609-819-10-1, ISSN 1822-7278
A monografia de Juozas Pabrėža, A língua e a ortografia samogítias (doravante ŽKR), publicada no final de 2017, é importante não apenas para os dialetólogos, mas também para qualquer pessoa interessada na identidade samogítia, pois, como possibilidade de expressão e reconhecimento dessa identidade, o livro revela os componentes mais importantes e interessantes desse fenômeno, os mais bem estudados ou, pelo contrário, carentes de pesquisa, bem como sua singularidade.
ŽKR pode interessar e destina-se a dois tipos distintos de leitores. O primeiro tipo é o leitor emocionalmente neutro, interessado em estudos lituanos e dialetologia: o sistema linguístico samogítio é descrito tomando-se como referência o lituano padrão (isso se reflete tanto nas fórmulas demonstrativas, que enfatizam as diferenças entre os dois sistemas linguísticos, quanto nos exemplos ilustrativos, que quase sempre1 vêm acompanhados de um equivalente formal ou semântico no lituano padrão). Mas ŽKR também tem outro leitor — emocionalmente envolvido. Este livro é muito importante para qualquer samogítio ou pessoa de ascendência samogítia, pois o alfabeto samogítio que apresenta (p. 167), as normas de ortografia aplicada (p. 168–194) e as explicações sobre a transcrição fonética (p. 37–40) permitem adquirir os fundamentos da alfabetização básica. ŽKR
1 Com exceção de alguns casos inteiramente coincidentes com o lituano padrão, cf., por exemplo, o laukas de acentuação dos samogítios meridionais, rasa, apresentado na p. 74.
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as descrições da cultura samogícia (p. 17–36) e da língua samogícia (p. 41–113), os textos que representam a fala samogícia segundo diferentes subdialetos (p. 114–144) e a coletânea de criação literária samogícia intitulada Žemaičių rašõs pavyzdžiais (p. 195–300), bem como as referências bibliográficas dedicadas a vários aspetos da expressão da identidade samogícia (p. 301–309), permitem ao leitor deste livro conhecer plenamente a expressão e a singularidade da identidade samogícia.
Em 19–20 de outubro de 2017, realizou-se no Instituto da Língua Lituana a quinta conferência em memória de Aleksas Girdenis (1936–2011), «Transformações das línguas e dos dialetos». Nessa conferência, Juozas Pabrėža falou sobre as origens e as tradições da escrita samogícia, abrangendo, no seu relato, o período desde a primeira publicação em língua lituana (1547) e a identidade samogícia de Martynas Mažvydas até aos dias atuais e ao movimento de identidade samogícia que surgiu com o Renascimento Nacional, bem como até Žemaičių rašõs2, publicado em 1998 por Aleksas Girdenis e Juozas Pabrėža. Nessa ocasião, o orador comentou que também já tinha preparado um livro sobre a língua e a escrita samogícias. Mas não foi apenas essa afirmação ou o conteúdo de toda a comunicação que teve importância: o modo de apresentação causou a maior impressão nos ouvintes. Tendo começado a comunicação em lituano padrão, a certa altura, ao apresentar um exemplo samogício que ilustrava uma afirmação, mudou de código linguístico. Juozas Pabrėža não voltou ao lituano padrão. Uma metodologia semelhante de «encantamento samogício» é também aplicada no livro aqui recenseado: as partes expositivas de ŽKR são apresentadas em lituano, seguidas de textos samogícios que ilustram dois sistemas distintos de representação escrita da fala samogícia — o exato e o aproximativo (o primeiro é adequado tanto a quem sabe como a quem não sabe falar samogício; trata-se da chamada transcrição fonética simplificada, «baseada na representação exata dos sons segundo a sua pronúncia» (p. 37); o segundo sistema de escrita — a ortografia prática, apresentada ao leitor de ŽKR — destina-se a registar a língua samogícia do quotidiano e/ou literária; visualmente, este último sistema parece bastante mais simples, mas é precisamente ele que exige do leitor competências de fala samogícia e, de quem começa a aplicá-lo na prática, um conhecimento considerável das regularidades da língua samogícia, fundamentadas em ŽKR pela comparação com o sistema sonoro da língua padrão). Na contracapa do livro encontra-se uma apresentação, em samogício, do autor de ŽKR: Eso Skouda žemės žmogos. [...] Pabrėža Jūzas.
A monografia em análise é constituída por Pratarmė, Įvadas, duas partes expositivas, Žemaičių kalba e Žemaičių rašõs (ambas incluem exemplos de textos que representam estes dois sistemas distintos de expressão — fala e escrita), uma bibliografia, um índice de apelidos e um resumo The Samogitian Language and Writing. Na avaliação da estrutura do livro, só causa alguma estranheza a colocação do capítulo Transkripcija não na secção Žemaičių kalbos, mas na Įvadas, que, não fosse esta inserção dedicada aos fundamentos da transcrição, poderia ser descrita como uma recensão dos estudos sobre a origem e a autoconsciência dos samogícios, na qual se aborda o nome Žemaičiai (p. 17–19), o cultural
2 Dar plg. Urbanavičienė, Jaroslavienė 2018: 144.
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movimento samogício (p. 20–25) e a atividade da Žemaičių kultūros draugijos, fundada em 27 de novembro de 1988 (p. 26–30), bem como as questões da identidade samogícia (p. 31–36). Ao apresentar, na introdução, as interpretações da origem da palavra žemaičiai, o autor de ŽKR salienta dois significados da forma plural deste nome: «Žemaičiai (com inicial maiúscula) designa a região, enquanto žemaičiai (com inicial minúscula) designa os habitantes» (p. 17). Segundo Juozas Pabrėža, a designação da região pela forma plural Žemaičiai é bastante mais antiga do que o topónimo Žemaitija (este último «começou a difundir-se após a recuperação da liberdade de imprensa» (p. 19)). No capítulo Žemaičių tapatumas (p. 31–36), são apresentadas duas perspetivas sobre a origem dos samogícios: os arqueólogos Pranas Kulikauskas, Adolfas Tautavičius, Albinas Kuncėvičius, Adomas Butrimas e Vladas Žulkus, com base nas suas pesquisas, propõem a conceção dos samogícios como uma antiga tribo báltica distinta (ou uma unidade étnica distinta), enquanto os historiadores Alvydas Nikžentaitis e Edvardas Gudavičius, os linguistas Giedrius Subačius e Zigmas Zinkevičius e o etnólogo Petras Kalnius defendem que sejam considerados um subgrupo étnico, subnacionalidade, subgrupo nacional ou grupo étnico (p. 31). Juozas Pabrėža caracteriza a identidade samogícia e a sua singularidade com base nos estudos das linguistas Regina Kliukienė, Rasa Kviklytė, Kazimieras Župerka e Silvija Papaurėlytė, dos etnólogos Auksuolė Čepienė, Vaidotas Pakalniškis, Petras Kalnius e Stasys Gutautas, do etnopsicólogo Remigijus Blumas e da etnomusicóloga Loreta Sungailienė, destacando especialmente que «o elemento mais importante e distintivo da cultura tradicional samogícia, que mais claramente descreve, identifica e representa a identidade samogícia, é a língua samogícia» (p. 36).
O capítulo Žemaičių kalba começa por abordar a questão do estatuto — língua ou dialeto. Entre os argumentos que confirmam o estatuto de língua, apontam-se as diferenças entre a língua samogícia, a língua padrão e os outros dialetos, sublinhando-se que «a língua samogícia possui todos os níveis, parâmetros ou componentes mais importantes de qualquer língua: fonética, morfologia, sintaxe e léxico» (p. 47). O autor enfatiza a sua convicção pessoal, afirmando que «mantém firmemente a posição de que existe uma língua samogícia, com três dialetos claramente distintos (samogícios do norte donininkai, samogícios do sul dūnininkai, samogícios do oeste dounininkai), os subdialetos telšiai e kretinga dos samogícios do norte, os subdialetos varniai e raseiniai dos samogícios do sul, e numerosas variedades locais e subvariedades» (p. 48). Assim, ŽKR apresenta uma visão global do sistema linguístico samogício, examinando as características mais marcantes dos sons, da prosódia, da morfologia, da sintaxe e do léxico da língua samogícia (bem como dos seus dialetos e variedades locais)³. Nesta recensão, recorre-se também a
3 É habitual que os dialetos sejam descritos primeiro com base nas características mais gerais, concentrando-se depois numa variedade ou subdialeto específico. Por exemplo, em Dialektologijoje, de Z. Zinkevičius, apresentam-se inicialmente as diferenças mais marcantes entre os samogícios e os aukštaičiai (Zinkevičius 194: 85–105), seguindo-se a análise dos samogícios do sul (raseiniai e varniai), dos samogícios do norte (telšiai e kretinga) e das características fonéticas e prosódicas dos samogícios do oeste (ibid., 106–123).
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conceito de língua žemaitiana, portanto a atenção também será voltada para a questão de saber se, para compreender o estatuto do conjunto das variedades do falar žemaitiano como uma língua única, e não como um dialeto, convém aceitar e aplicar automaticamente no ŽKR os termos habituais nas descrições dialetológicas.
Como já foi mencionado, no ŽKR a língua žemaitiana é descrita com base na língua padrão4. Esse sistema de referência é habitual na tradição das descrições dialetológicas lituanas e, na maioria dos casos, tal abordagem não constitui qualquer obstáculo nesta monografia (o estatuto do ŽKR como monografia científica indica que seu destinatário principal é alguém que domina o lituano padrão e conhece sua estrutura). Por exemplo, as características sonoras dos dialetos e subdialetos žemaitianos são examinadas indicando-se os correspondentes dos sons uo, ie, o, ė, ai, ei, u, i,5, am, an, em, en, ą, ę, ų, į do lituano padrão, descrevendo-se as particularidades de pronúncia das consoantes palatalizadas č, dž e de algumas outras consoantes, bem como a redução das terminações. A descrição da língua žemaitiana contém numerosas ilustrações que apontam tanto regularidades quanto exceções. Por exemplo, ao tratar dos correspondentes žemaitianos dos ditongos ie, uo (p. 49–52), discutem-se tanto o «desvio» das regularidades de substituição quanto a conservação desses sons em empréstimos, como miests, sviests; indicam-se não apenas as variantes do sufixo -ien (por exemplo, em sobrenomes de mulheres casadas, cf. Butkėnė, e em nomes de pratos, cf. bulbėnė, lapinė), mas também os casos em que «em lugar de uo, ie todos os žemaitianos têm as vogais longas ū, ī ou as breves u, i, por exemplo, Jūzaps / Jūzops ‘Juozapas’, […] kūnėr ‘quando’, kėutė-mėt ‘outro’, kažekumėt ‘quando, não se sabe bem’, tūmėt ‘então’, vėsumėt ‘sempre’, tūjau ‘logo’, lītös ‘chuva’ […]» (p. 51), mencionando-se também a realização de uo, ie em algumas palavras com «relações opostas» (por exemplo: pùks ‘penugem’, vėšnė ‘cereja’) ou os correspondentes que não seguem a regularidade (cf.: «[t]ambém são possíveis realizações de uo, ie totalmente inesperadas, por exemplo: juokūte ‘brincar’, […] švėstė ‘varrer’.» (p. 52). O ŽKR caracteriza-se por uma descrição simples e fundamentada, que, evidentemente, é buscada deliberadamente6. Ainda assim, em um ou outro caso, a explicação particularmente simplificada apresentada ao leitor permite questionar a pertinência dessa abordagem. Cf., por exemplo, o início da descrição e o parágrafo inteiro sobre os correspondentes de uo, ie do lituano padrão no dialeto žemaitiano meridional, que levam a supor que o próprio Autor não tende a aprovar a versão simplificada (e, como cientista, tampouco deveria fazê-lo); cf.:
Os žemaitianos meridionais […] têm, em lugar de uo, ie, sons semelhantes às vogais longas ū, ī, por exemplo: dūna ‘pão’, […] svīts ‘claro’ […]. Na verdade, alguns linguistas (A. Girdenis, J. Bukantis, D. Atkočaitė, «Lietuvių kalbos tarmių
4 Na verdade, por vezes as características da língua žemaitiana no ŽKR também são comparadas com as próprias dos aukštaitianos, por exemplo, nas p. 75–76.
5 Também se dedica bastante atenção à análise dos casos de assimilação regressiva de u, i, que distinguem o subdialeto telšiai do žemaitiano setentrional do subdialeto kretinga do žemaitiano setentrional (cf. p. 57–62).
6A indicação no prefácio permite considerá-lo um dos objetivos do livro, isto é, «descrever a língua žemaitiana, tanto quanto possível, de modo simples, compreensível e acessível, bem como sua singularidade» (p. 11).
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os organizadores da crestomatia»7 afirmam que aqui não se trata das vogais longas (monoftongos) ū, ī, mas de sequências semelhantes a ditongos (ditongoides) uⁿ, iⁿ, por exemplo: dūⁿna ‘duona’, [...] sūⁿts ‘svietas’ [...]. Com efeito, diversas pesquisas e experimentos demonstraram que os correspondentes de ie, uo e y, ū da língua padrão não são sons totalmente idênticos no dialeto žemaitiano meridional, pois há diferença entre formas como rīts ‘rietas’ e rīts ‘rytas’, lītē ‘lieti’ e lītē ‘lyti’ [...]. (p. 50)8
No ŽKR, procura-se descrever a peculiaridade dos sons žemaitianos chamando a atenção não só dos leitores que não falam žemaitiano (cf., por exemplo, a incompatibilidade dos ou, ei do žemaitiano setentrional com o lituano padrão, que tem ou apenas em empréstimos klounas, šou (p. 49–50)), mas também a dos próprios žemaitianos que procuram pronunciar corretamente as palavras da língua padrão, cf.:
[...] a maioria dos žemaitianos (com exceção da região ocidental) não tem de modo algum as vogais longas tensas o, ē. E é extremamente difícil aprender a pronunciar sons inexistentes no sistema da língua materna. Por isso, mais de um žemaitiano, mesmo tendo aprendido bastante bem a língua padrão, costuma revelar sua verdadeira origem ao ditongar as vogais o, ē. (p. 53–54)
Essas referências, que abrangem sistemas fonéticos tão distintos, são comuns nas descrições dialetológicas da língua lituana9, mas o que distingue ŽKR é que isso é feito apresentando muito mais exemplos (cf. casos em que se esperariam consoantes mais recentes em palavras internacionais, empréstimos ou nomes próprios: a substituição de f, ch, h por seus correspondentes habituais p, k, g (como Ādūlis ‘Adolfas’ [...], kuligāns ‘čuliganas’ [...], gīms ‘himnas’ [...] e seu completo desaparecimento (cf. aktārs / ek tārs ‘hektaras’ [...]), a inserção das consoantes j (antes de i, e, ė) e v (antes de uo), bem como sua inserção no interior das palavras (cf. jīd ‘ėda’ [...], vūobōs ‘uobolys’, vūobėlē ‘obelės’ [...]), ou seu desaparecimento, palatalização e outros casos (ver pp. 70–71).
No capítulo Características prosódicas, discutem-se as características de acentuação próprias dos žemaitianos (p. 74–84) e descrevem-se as suas entoações — a quebrada e a contínua —, bem como uma variante da entoação simples — a média — (p. 85–86); menciona-se também que em certas regiões da Žemaitija «se distinguem entoações de acento retraído» (p. 86), e que fatores entoacionais podem determinar alterações em certas entoações (p. 87). Indica-se ainda como o conhecimento das particularidades da acentuação e das entoações žemaitianas pode ser útil no ensino e na aprendizagem da acentuação da língua padrão (p. 83–84). Na verdade, para o leitor sem interesse por dialetologia — sobretudo para um žemaitiano —, começar a ler a seção Acentuação do ŽKR (p. 74–78) exige paciência, pois nela, com base na teoria da regularidade da retração do acento, como se fosse algo evidente por si mesmo
7 Ver Bacevičiūtė et al., eds. 2004.
8 Apie šiuos diftongoidus dar plg. Zinkevičius 1994: 105.
9 Sobre a influência dos dialetos e as dificuldades de pronúncia enfrentadas pelos žemaitianos ao falar o lituano padrão, ver Zinkevičius 1966: 20–21; 1994: 126–131; Grinaveckis 1973: 31–35.
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das coisas são descritas as características de acentuação da língua samogícia que diferem da língua padrão (mais precisamente, que se manifestam de determinadas maneiras em certas áreas de dialetos específicos). Introduzido sem qualquer explicação teórica ou referência, o termo retração do acento parece resolver as armadilhas para a concepção da língua samogícia proposta em ŽK, pois, sem qualquer apresentação teórica inicial nem referência à natureza convencional do discurso habitual dos acentólogos10, os samogícios que compreendem sua língua materna dentro de seus próprios parâmetros podem ter dificuldade em entender com base em que seu modo natural de acentuação é chamado de condicional ou de geral retração do acento (ver o ponto 4 da citação apresentada abaixo). Cf. o início, ligeiramente abreviado, da seção Acentuação:
Quanto à acentuação, os samogícios podem ser divididos em quatro áreas:
1. Em toda a parte mais meridional da Samogícia (Šilutė, Vainutas, Pagėgiai, Tauragė, Skaudvilė, Eržvilkas), o sistema de acentuação é muito semelhante à da língua padrão, isto é, o acento é mantido em todos os casos e não é retraído; por exemplo: pugā ‘pūgā’, gīvā ‘gyvà’, laũkš ‘laũkš’ [...], žaltis ‘žaltýs’, ragù ‘ragù’, mažõs ‘mažõs’. Todos os outros samogícios apresentam algum tipo de retração do acento da desinência para o início da palavra. Distinguem-se dois tipos de retração do acento: condicional e geral. Conforme a quantidade da sílaba para a qual ocorre a retração, a retração condicional do acento divide-se em dois graus.
2. Numa área muito pequena da Samogícia meridional, em torno de Raseiniai, Viduklė, Nemakščiai e Lyduvėnai, ocorre a retração do acento de segundo grau: o acento é retraído de uma desinência breve para a penúltima sílaba longa; por exemplo: pūgā ‘pūgà’, gīvā ‘gyvà’, laũkš ‘laũkš’ [...], mas [...] žaltīs ‘žaltýs’, ragù ‘ragù’, mažõs ‘mažõs’.
3. Mais ao norte, numa área um pouco maior da Samogícia meridional, em torno de Pėžrantė, Kražiai, Kelmė, Kiaunoriai, Šaukėnai e Kurtuvėnai, o acento é retraído segundo a retração condicional de primeiro grau (ou retração condicional mais intensa), isto é, de uma desinência breve para a penúltima sílaba, de qualquer quantidade (longa ou breve); por exemplo: gīvā ‘gyvà’, dīnà ‘dienà’, laũkš ‘laũkš’ [...], mas [...] žaltīs ‘žaltýs’, ragù ‘ragù’, mažõs ‘mažõs’.
4. A maioria dos samogícios (todos os do norte e a maior parte dos do oeste e do sul, os varnškiai) apresenta retração geral (intensa) do acento: o acento
10 Cf. a descrição da natureza convencional deste termo apresentada por Vytautas Rinkevičius, não apenas por meio do epíteto chamado, mas também ao discutir a constituição da língua padrão como ponto de referência para a comparação entre sistemas de acentuação: „Iš sisteminių kirčio vietos nesutapimų tarp tarmių visu pirma minėtas šiaurės ir šiaurės vakarų Lietuvos tarmėms būdingas vad. kirčio atitraukimas iš galinių žodžio skiemenų, kurie kitose tarmėse paprastai būna kirčiuoti. [...] Bendrinė lietuvių kalba, susiformavusi palyginti archajiškos vakarų aukštaičių tarmės, kurioje gerai skiriamos priegaidės ir nėra kirčio atitraukimo, pagrindu, yra patogus atskaitos taškas kirčiavimo istorijos tyrimams“ (Rinkevičius 2015: 24; 25).
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é retraído de desinências breves e de desinências longas com circunflexo para a primeira sílaba, independentemente da quantidade; por exemplo: gõž ‘gyvà’, bãisòs ‘baisùs’, [...] šãką ‘šakà’, [...] žãltįs ‘žaltìs’, [...] tėkrā ‘tikrai’, tīevā ‘tėvai’, [...] jōukās ‘juokais’ [...]. (p. 74–75) É verdade que, mais adiante, após indicar que tais casos não são os mais frequentes¹¹ (pois „[n]uo tvirtagalių galūnių žemaičiai kirčio netraukia, pvz: karklīns ‘karklynas’, šabakštīns ‘šabakštynas’, [...] perm ‘pirm’, ketām ‘kitām’, [...] arklēms ‘arkliams’, šimtāms ‘šimtams’ [...])“ (p. 75), o autor de ŽKR discute a retração samogícia do acento como fenômeno relacionado ao chamado deslocamento do acento (p. 77) e à formação de acentos secundários¹² (p. 76–78), bem como processo que gera debates sobre a origem e a datação do fenômeno (p. 83–84), salientando que a retração do acento não é „visiškai reguliarus, dėsningas, jokių išimčių nepažįstantis reiškinys“ (p. 78), e apresenta com particular detalhe a dinâmica da retração do acento (p. 78–83). É provável que, durante algum tempo, o foco do interesse científico de Juozas Pabrėža tenha sido os chamados casos de não cumprimento da teoria da retração do acento¹³, o que levou à apresentação dessa teoria como algo evidente no livro resenhado, pois a adequação do conceito de retração do acento em ŽKR não é questionada nem fundamentada. Em ŽKR também há passagens em que as descrições da retração do acento como fenômeno podem, à primeira vista, parecer contradizer-se mutuamente (cf. as afirmações: „ilgą laiką buvo manoma, kad kirčio atitraukimas yra visiškai reguliarus, dėsningas, jokių išimčių nepažįstantis reiškinys. Tačiau, ištyrus gausią empirinę medžiagą (per 61 000 pavyzdžių) ir apdorojus rezultatus statistiškai [...], paaiškėjo, kad žemaičių kirčio atitraukimas yra ne statiškas, o dinamiškas reiškinys“ (p. 78) e „[m]okant ar mokantis kirčiavimo, galima remtis net kirčio atitraukimu, nes jis yra preciziškas, griežtas ir dėsningas“ (p. 88). Uma observação adicional sobre a natureza das situações de fala no segundo caso — que diz respeito à acentuação de palavras isoladas — eliminaria a aparente contradição, pois, no primeiro caso, as pp. 78–82 tratam de textos contínuos¹⁴).
11 Cf.: „[T]virtagalių galūnių žemaičiai turi daugiau negu bendrinė kalba ar kitos tarmės [...]. Taigi žemaičių kalboje, skirtingai nuo aukštaičių tarmių ar bendrinės kalbos, cirkumfleksas, o ne akūtas yra žymėtas opozicijos narys“ (p. 75).
12 São os chamados casos em que „po pagrindinio kirčio atsiranda naujas šalutinis kirtis, kurio bendrinėje kalboje iš viso nėra (pvz., žodė ‘žodžiai)’“ (p. 77). Cf. os casos de acentuação de palavras caracterizadas pela abundância de acentos excepcionais: „Pasitaiko žodžių net su keturiais ar penkiais kirčiais, pvz.: [...] možēkontēs ‘muzikantus’, darbēninkūs ‘darbininkus’, [...] nabāpīrādi ‘nebeprigirdi’ [...]“ (p. 78).
13 Plg., pavyzdžiui, Pabrėža 1986.
14 Cf.: „Žemaičių rišliame tekste pasitaiko ne taip jau mažai žodžių, iš kurių galūnių kirtis pagal veikiančius atitraukimo dėsnius vis dėlto kartais nėra atitraukiamas, pvz.: [...] možēks ‘muzikas’, stuogā ‘stogai’, prostā ‘prostai’...“ (p. 78)
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No capítulo Características morfológicas (p. 89–101), são analisadas formas de palavras que diferem do lituano padrão ou de outros dialetos mais claramente no plano morfológico (e não fonético). Em ŽKR, elas são descritas considerando as diferenças mais características das diversas classes gramaticais — substantivo, adjetivo, pronome, verbo, numeral e advérbio —, bem como a formação de palavras (p. 100–101) e a peculiaridade da oposição de gênero (pois os samogícios preservaram a oposição de gênero não só nos pronomes, por exemplo: vė́do, vė́d(ž)e, jọ́.do, jọ́.-d(ž)e, anọ́.do, aned(ž)e (p. 98), mas também nos verbos, substantivos e até nos particípios (ver p. 99)).
Ao discutir os traços sintáticos, ŽKR destaca a capacidade dos samogícios de descrever com recursos próprios a situação, o tempo e a atividade de uma ação. O sistema aspectual dos samogícios (sobretudo dos setentrionais) é caracterizado como tendo não apenas aspectos durativo e pontual, mas também um aspecto intermediário (p. 103), que “se forma, na maioria das vezes, acrescentando advérbios de significado esmaecido e partículas enfáticas como žem, lān, šalin, lygi, kietai, gatavai, kiaurai, viršų, arti, vietoje e afins a um verbo não delimitado” (p. 102), cf.: tu mesma vais à igreja e levas as crianças com urgência ‘tu mesma vais à igreja e levas as crianças, necessariamente’ (Židikai); [...] como vais ficar sem trabalho ‘como vais aguentar sem trabalho’ (Mosedis); vive um pouco e sai correndo, não aguenta ficar ‘fica um pouco e sai correndo — não aguenta ficar muito tempo’ (Laižuva) (p. 103). O capítulo destaca o forte contraste, característico da fala samogícia, entre o uso de tempos simples e perfeitos (pp. 103–104), a frequência da expressão de evidencialidade denominada modo reportativo¹⁵ (p. 103), além de construções causativas peculiares, características apenas dos samogícios (pp. 104–106), e a particularidade da ordem das palavras (que inclui uma combinação pouco usual na língua padrão, na qual primeiro se diz o sobrenome da pessoa e depois o nome, por exemplo, olha, Kaubrys Kazimieras está de botas ‘olha — Kaubrys Kazimieras está de botas’ (Alsėdžiai) (p. 106). No capítulo Características lexicais (pp. 107–113), são descritos os grupos de palavras mais propensos a preservar seus significados. A singularidade do léxico samogício é apresentada por meio de um conjunto de palavras dividido em vários grupos temáticos. Essas listas de palavras (pp. 107–111) permitirão ao leitor samogício verificar seu conhecimento efetivo do léxico samogício, embora provavelmente seu objetivo seja interessar não apenas o leitor samogício, pois o léxico samogício é apresentado não em transcrição dialetal, mas, como é habitual nos dicionários, adaptado à língua padrão (cf., por exemplo, os termos para partes do corpo humano — ossos ‘kaulai’, ossinho da perna ‘kojos kaulėlis’, espaço entre os dedos ‘tarpupirštis’, bolha endurecida, calo ‘sut rinta pūslė, nuospauda’ (pp. 107–108) — ou termos da flora — vagem verde de ervilhas ou favas ‘žalia žirnių ar pupų ankštis’, cálamo-palustre ‘balinis ajeras’, tabua ‘švendras’, óleo ‘alyva’ (p. 108) —). Aqui também são discutidos os que pertencem a outras
15 Segundo Axel Holvoet, certas características formais e peculiaridades funcionais das formas evidenciais dificultam sua inclusão nos sistemas de modo e modalidade; para mais informações sobre a evidencialidade como «categoria parasitária», ver Holvoet 2004: 107t.
16 Apie transponavimą žr. Pabrėža, Marčiukaitė, Leskauskaitė 2013: 17.
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palavras características dos dialetos, que os žemaičiai usam com um significado diferente, por exemplo: žygiai – em žem. ‘tarefas domésticas, alimentação do gado’, kūlnai – em žem. ‘orações com cânticos’ (p. 11). O capítulo Características do léxico também aborda o papel e a quantidade dos empréstimos – é particularmente digno de nota que os žemaičiai têm menos empréstimos do que outros dialetos lituanos (p. 112–113).
A segunda parte da monografia recenseada, A ortografia žemaitiana, é composta por 7 capítulos: Breve história da escrita žemaitiana, Alfabeto žemaitiano, Vogais, Consoantes, Ditongos, Digrafos, Algumas questões de morfologia, sintaxe e léxico e exemplos de ortografia žemaitiana. Ao tratar da história da escrita žemaitiana (p. 147–166), são indicados primeiro os exemplos do uso do žemaitiano no catecismo de Martynas Mažvydas (1547), na postila de Wolfenbüttel (1574) e no hinário traduzido por Saliamonas M. Slavočinskis (1646); são apresentados textos manuscritos em žemaitiano (a datação mais antiga é de 1636)17, bem como o monumento linguístico žemaitiano mais importante e marcante do século XVII – a tradução do polonês de um livro do teólogo São Boaventura, impressa em 1759 – ZWATAS PONA YR DIEWA MUSU JEZUSA CHRISTU-SA18. Mais adiante, a atenção se concentra no século XIX, período de grande importância para o desenvolvimento da escrita žemaitiana; sobretudo com base nas pesquisas de Giedrius Subačius, são apresentadas as obras dos mais destacados agentes da cultura žemaitiana do século XIX — Jurgis Pabrėža, Simonas Daukantas e Motiejus Valančius — dedicadas à língua escrita em žemaitiano, nela redigidas ou relacionadas aos žemaičiai (p. 149–151), bem como a gramática em polonês escrita em 185 m. por Juozas Čiulda, Breves reflexões sobre as regras gramaticais da língua žemaitiana, que «resumiu a tradição da língua escrita žemaitiana, ponderou sobre sua normatização e uniformização e sobre a coerência da escrita žemaitiana»19 (p. 151–152). ŽKR destaca que, na virada dos séculos XIX–XX, mesmo após a formação de uma língua lituana comum com base no dialeto do alto lituano ocidental meridional, persistiu a necessidade de escrita žemaitiana: na imprensa žemaitiana da época — nos semanários Žemaičių prietelius (1925–1940) e Žemaičių žemė (1940–1944) — discutia-se e incentivava-se a escrita em žemaitiano (cf. a afirmação de Jonas Jablonskis: «Para o bem da cultura linguística comum da nação, seria útil que os žemaičiai tivessem sua própria escrita, paralela à literária» (p. 156)); propunham-se várias versões de uma ortografia žemaitiana normalizada (J. Tautvydas, B. Jurgis) (p. 155–156), e publicavam-se narrativas, provérbios, ditos, canções e poemas escritos em žemaitiano (nas publicações mencionadas e na antologia de 1938, Stasys Anglickis, Pranas Genys, Sofija Čiurlionienė-Kymantaitė e outros autores publicaram suas obras escritas em žemaitiano (p. 156–158)). A nova onda do movimento cultural žemaitiano, que ganhou impulso com o Atgimimas, incentivou a união de esforços
17 Žr. Zinkevičius 1974.
18 Para mais informações, ver Girdinis, Skirmantas, org., 1998; Girdinis, Girdenienė 1997.
19 Subačius 1993: 5.
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para elaborar as normas ortográficas do samogitiano e promover a expressão criativa em samogitiano: em 1991, foram publicados os Žemaičių rašybos patarimai, preparados por Juozas Pabrėža; por iniciativa de Danutė Mukienė, começou a ser publicado o jornal em samogitiano A mon saka?, que, a partir de 1993, passou a ser a revista Žemaičių žemė. O crescimento do número de pessoas dispostas e capazes de escrever em samogitiano incentivou a revisão e o aperfeiçoamento dos fundamentos da ortografia samogitiana; por isso, em 1998, Alekas Girdėnas e Juozas Pabrėža publicaram uma nova edição ampliada e revista do livreto Žemaičių rašyba20, que foi reimpressa em 2002 na revista Žemaičių žemė, tornando-se assim mais acessível a um público leitor mais amplo21.
Nos cinco capítulos seguintes da seção ortográfica de ŽKR, a atenção concentra-se nas regras da ortografia aplicada do samogitiano. Depois de apresentar o alfabeto samogitiano, afirma-se que os princípios ortográficos das vogais da língua samogitiana são muito próximos dos fonéticos («É preciso escrever como se fala na região de origem do autor» (p. 169)), ao passo que as consoantes se escrevem como na língua-padrão — morfologicamente (p. 168). Após conhecer as regras para a escrita das vogais curtas i, ė, e, a, o, u em casos como, por exemplo: lis ‘lės’ [...], vėse ‘visi’ [...], medos ‘medus’, [...] taks ‘takas’, rode ‘rudi’, [...] šūs ‘šuo’ [...] (p. 169–170), ŽKR indica os casos que precisam ser discutidos separadamente, por exemplo, quando, devido ao acento, as vogais que se alongam em determinadas posições (as chamadas vogais de quantidade posicional) são representadas por letras curtas («cf.: „uoka ‘vaiką’ (vogal longa “verdadeira”): taka ‘taką’ (vogal a alongada devido ao acento)“ (p. 170)). A escrita das vogais curtas em posição final é tratada por meio da distinção de 13 casos (p. 170–173), que podem assustar quem deseja conhecer as regras ortográficas. Convém tranquilizar o leitor samogitiano: na realidade, essas explicações são excessivas e destinam-se a quem não fala samogitiano (ou não o fala 22). Nelas são discutidas as diferenças entre o sistema fonético samogitiano e a língua lituana-padrão, indicando-se em que casos as vogais samogitianas são eliminadas nas terminações (cf. «1. Se a terminação é curta e nunca pode receber o acento, a vogal é totalmente eliminada. Nesse caso, escrevemos sem vogais finais, por exemplo: nė ‘nėsa’, ved ‘veda’, [...], top ‘tupi’, [...] ples ‘pilas’ [...]» (p. 170–171), mantidas (ver as descrições dos casos 2 e 3), substituídas por vogais curtas quando são longas (ver o caso 4) etc. Esses 13 itens, que descrevem as correspondências entre as regras das terminações samogitianas e/ou sua variação em diferentes falares (cf. 12), servirão como uma lição sobre a diversidade fonética dos falares samogitianos. Um desses itens pode ser descrito como uma tentativa de recuperar uma tradição historicamente estabelecida, exortando a violar o princípio fonético declarado (ver p. 168; 169), cf.:
²⁰ Žr. Girdenis, Pabrėža 1998.
²¹ Um pouco mais tarde, uma versão desta publicação também ficou disponível na internet, ver: http://www.samogit.lt/ZZ_2013_1/ZZ_2013_1_p8_14.pdf e http://www.samogit.lt/ZZ_2013_2/ZZ_2013_2_geras_16-21.pdf.
²² Cf., por exemplo, a descrição do caso 10: «A vogal curta -u (e não -o!) é usada regularmente nas terminações plurais de substantivos, adjetivos e pronomes masculinos, por exemplo: tievus ‘tėvus’, [...] plėkus ‘plikus’, anus ‘juos’, ketus ‘kitus’ [...]» (p. 173).
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13. É preciso chamar atenção, separadamente, para a terminação instrumental feminina. Atualmente, formas mais recentes com -a estão se impondo cada vez mais, por exemplo: ronka ‘ranka’, luova ‘lova’, stuora ‘stora’, kėta ‘kita’. No entanto, os antigos samogitianos do norte afirmam que, nessas formas, a vogal é -o. Trata-se de uma característica herdada de um passado muito remoto e, por isso, também deve ser preservada na língua samogitiana escrita. Assim, escrevamos: so pagalbo, kalbo, šako, balto, viso ‘com ajuda, com a língua, com o ramo, branca, toda’, so veino ronko ‘com uma mão’, želo galvo ‘cabeça grisalha’, balto kato ‘gata branca’, so to gero motreško ‘com aquela mulher boa’ etc. (p. 173)
Ao apresentar a variedade de pronúncia (e, portanto, de escrita) das preposições, dos prefixos e dos radicais das palavras encontrada em diferentes falares (por exemplo, em alguns falares samogitianos, a conjunção da língua-padrão ir corresponde a uma forma contraída num único som, pronunciada e escrita como a vogal curta i, enquanto em outros falares corresponde à vogal curta ė) (ver p. 173–176), recomenda-se seguir consistentemente o princípio fonético: «ao escrever, basta seguir o seu próprio falar nativo» (p. 175).
Em seguida, ŽKR descreve a ortografia das vogais longas samogitianas. A duração de todas as vogais é indicada por um mácron²³, cf.: ī, ē, ė̄, ā, ō, ū. As vogais longas presentes no radical e nas terminações das palavras escrevem-se da mesma forma, por exemplo: vīrs ‘viras’, [...] sprēsk ‘spresk’, [...] svēks ‘sveikas’ [...], gerā ‘gerai’ [...], drōsas ‘drąsus’ [...], skūsti ‘skųsti’ (p. 176–177). Recomenda-se verificar a escrita das vogais samogitianas ā, ē com base nas correspondências adequadas da língua-padrão, cf.:
Antes de mais nada, é preciso lembrar que os grafemas ā, ē devem representar os sons pronunciados no lugar dos ditongos da língua-padrão ai, ei. Se os representássemos como as vogais curtas, essa grafia não só deixaria de indicar a pronúncia real, como também aumentaria o número de formas diferentes de uma palavra escritas da mesma maneira no texto. Isso dificultaria muito a leitura. (p. 177)
Também se adverte aqui que nem todos os sons ā, ē correspondentes a ai, ei da língua-padrão (a formulação usada em ŽKR é «transformados dos ditongos ai, ei em vogais ā, ē» (p. 178)) são pronunciados longamente; cf. as duas possibilidades kāp e kap ‘kaip’ na frase kāp to čė jedi kap mažos vāks ‘como tu comes aqui como uma criança pequena’ (p. 178); por isso, presume-se que ā, ē pronunciados brevemente (embora correspondam aos ditongos ai, ei da língua-padrão) também se escrevem dessa maneira. Apresentam-se aqui ainda outros casos de formação das vogais longas samogitianas (por exemplo, ē longo na negação, cf. nē, aš tēkrā navažiuosiu [...] ‘não, eu realmente não vou viajar [...]’ (p. 178–179). ŽKR afirma que «[u]m ē longo também pode resultar da contração de duas vogais curtas» (p. 179). Contudo, é difícil acreditar nessa afirmação à luz dos exemplos apresentados. Eles parecem conter erros de escrita, pois não correspondem ao princípio fonético declarado em ŽKR; cf.: aš tēkrā nēso (<neso) significaria ‘eu realmente não estive lá’, nēso ni matēs, ni girdējēs ‘não vi nem ouvi’
23 Para a ortografia samogitiana, não são necessárias as vogais com til ą, ę, į, ų. Sobre quais vogais da língua samogitiana correspondem às vogais com til da língua lituana-padrão, ver p. 180–181.
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(p. 179). Por isso, a explicação de que a forma neso ‘não sou’ surgiu de ne e esu também é redundante24. Além disso, não é adequado escrever neso ‘não sou’ com ė longo também devido à sua presença na palavra nėso ‘não irei’; compare: aš tékrà neso ten božės ‘realmente não estive lá’ e aš tékrà ten nėso ‘realmente não irei lá’. Há ainda outros exemplos que mostram que as regras de grafia das vogais no ŽKR se baseiam não apenas no princípio fonético; compare: „[s]e pronunciamos e escrevemos a vogal longa nas palavras virs ‘homem’, vira ‘do homem’, também se deve escrevê-la nas palavras viròks ‘rapazinho’, virėlis / virielis ‘homenzinho’, embora a vogal seja pronunciada brevemente“ (p. 180); de modo semelhante, explica-se a grafia das palavras grudlė ‘grãozinhos’ (porque grūds ‘grão’), grėžinis ‘broca’ (porque grėžė ‘perfurar’) etc. (p. 180). Além disso, na descrição dos princípios de grafia das consoantes, indica-se que o princípio morfológico às vezes também se aplica às vogais (compare: „É importante lembrar que o princípio morfológico se aplica às consoantes com mais frequência do que às vogais“ (p. 182)).
A grafia das consoantes žemaitianas recorre a 20 letras: b, c, č, d, f, g, h, j, k, l, m, n, p, r, s, š, t, v, z, ž. O princípio morfológico exige que as mesmas partes da palavra sejam escritas da mesma maneira, sem levar em conta as diferenças de pronúncia; por isso, a assimilação das consoantes não é representada na escrita, por exemplo, escreve-se darbs ‘trabalho’, derbsio ‘trabalharei’ (embora geralmente se pronuncie darps, dèrpsio) etc. (p. 182). Recomenda-se seguir o princípio morfológico também nos casos de assimilação total; compare: „Quando, no encontro de duas consoantes semelhantes, apenas uma é pronunciada, mantendo o princípio morfológico, ambas as consoantes devem ser representadas na escrita, por exemplo: išsprouga ‘escapou’, [...] ožžėlė ‘ficou coberto de vegetação’ [...]“ (p. 182). A escolha da grafia de č, dž e t, d cabe ao autor do texto (compare: „Deve-se escrever como se fala no lugar de onde o autor é originário“ (p. 184)). Na parte oriental da Žemaitija, t, d são preservados apenas diante de vogais do tipo e, por exemplo: žemaitė ‘žemaičiai’, žuodė ‘palavras’, mas diz-se žemaičiū ‘dos žemaičiai’, žuodžiu ‘de palavras’; já nos falares dos žemaičiai do noroeste, t, d são preservados em todos os casos, compare: žuodis ‘palavra’, žuodės ‘palavras’, žemaitė ‘žemaičiai’, žemaitems ‘aos žemaičiai’ etc. (ver pp. 183–184). É interessante a discussão sobre a pronúncia e a grafia dos correspondentes žemaitianos de f, ch, h da língua-padrão. Os numerosos exemplos permitem ao leitor žemaitiano verificar e constatar que, na língua real, não apenas os nomes próprios, mas também muitas palavras internacionais são pronunciadas naturalmente e, portanto, podem ser grafadas com seus próprios p, k, g, por exemplo: šoperis ‘motorista’, arkiteks ‘arquiteto’, bogateris ‘contador’ etc. Também é digno de nota que essas consoantes estrangeiras são prontamente destacadas
24 Aqui é útil tomar como exemplo o princípio fonológico aplicado na língua-padrão, cuja ortografia, segundo o princípio predominante de uso das letras, „é morfológica (ou morfofonêmica), mas também contém elementos de ortografia fonológica e histórica (tradicional). [...] O princípio fonológico é seguido quando os morfonológicos não são irregulares (isto é, quando não há neutralização) ou quando o vínculo de formação de palavras entre cognatos se enfraqueceu e já não é sentido (escreve-se aukštas, daiktas, pois não se associam a ūga, dāgas). Além disso, escreve-se fonologicamente também quando a alternância dos sons se baseia em regras tradicionais mortas (por exemplo: vežu, e não *vežiu, bristi, e não *bridi [...].“ Girdenis e Ambrazas, orgs., 2006: 20.
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nas interjeições: fui, fi, cha cha, hop hop, aha, oho (p. 184), bem como ao tratar de assuntos científicos e artísticos (compare: harmonėje ‘harmonia’, Fausts ‘Fausto’, chuoralā ‘corais’, filosofėje / filusufėje ‘filosofia’ etc.) (compare p. 185). Para assinalar a palatalização das consoantes, a ortografia žemaitiana requer um apóstrofo, por exemplo: vėlns ou veļs ‘diabo’ (pp. 185–186). Ao escrever ditongos e grupos vocálicos žemaitianos (ver pp. 187–189), pode-se confiar no ouvido; compare a grafia, no žemaitiano do norte, de palavras com ou, ei, por exemplo, nas palavras papuole ‘caiu’, rodu ‘enferrujou’, snēgs ‘neve’, pēmu ‘pėmu’ (p. 187). A seção Kai kurie morfologijos, sintaksės, leksikos dalykai oferece valiosas observações sobre a variedade de formas de criação de sobrenomes žemaitianos tradicionais (compare os sobrenomes de meninas/jovens mulheres encontrados em diferentes lugares da Žemaitija, por exemplo: Botkalė ou Botatė ‘Butkutė’, Raudatė ou Raudėtė ‘Raudytė’, Šakalė ‘Šakytė’, Vaškė ‘Vaškytė’, Šikšnė ‘Šikšniūtė’; sobrenomes de meninos adolescentes com -ūtis, -utis: Butūtis arba Bututis ‘Butkus’) ou observações sobre a grafia de nomes (ver pp. 192–193).
Esses seriam os principais pontos de atenção que familiarizam o leitor do ŽKR com os fundamentos da língua e da ortografia žemaitianas. Algumas observações25 foram feitas na esperança de que, ao preparar uma nova edição e/ou publicar um livro em outro formato26, elas ajudem a encontrar mais argumentos em favor da ideia central do livro resenhado: a de que o sistema linguístico žemaitiano, considerado como um todo, pode ser avaliado como tendo o estatuto de língua, e não de dialeto. É de esperar que o Autor apresente, com esse propósito, as opiniões de avaliadores independentes27 e encontre novos argumentos próprios28.
O ŽKR tem dois tipos de destinatários (os destinatários da seção Žemaičių kalba são sobretudo visados entre os falantes da língua-padrão, enquanto os da seção Žemaičių rašyba são os usuários da língua žemaitiana), o que também estrutura de duas maneiras a apresentação dos assuntos abordados. A relação do Autor com o destinatário difere na primeira e na segunda parte do livro — o sistema de enunciação
25 Aqui também são mencionados alguns erros tipográficos observados: p. 63 sondėlė, p. 82 kāims, p. 103 ‘o karštybė bus [...]’ -> ‘o karštybė būdavo [...]’; p. 148 (ver Subačius 1998: 489) -> (ver Subačius 1998); p. 221 veizu: žmonės atseitoj kāp tik tas vaikēzas -> veizu: už monės atseitoj kāp tik tas vaikēzas; p. 302 Čiulda Juozas, 1993: trumpi [...] -> Čiulda Juozas, 1993: Trumpi [...]; p. 304 Kliukinė -> Kliukienė.
26 Entre esses, há formatos de livros eletrônicos para leitura que já se tornaram familiares até mesmo aos lituanos (disponibilizados em CD ou acessíveis pela internet), compare Klicner 2017, e talvez também livros em áudio (ou partes de livros).
27 Compare as referências, nos trabalhos de Zigmas Zinkevičius, ao bilinguismo dos žemaičiai (e não só deles), que indicam que, em áreas desses dialetos, „as crianças que terminaram a escola e os alunos são, na prática, ‘bilíngues’: ‘Com os falantes do dialeto, também em casa falam dialetalmente; com os falantes da língua-padrão e de outros dialetos, falam ou pelo menos tentam falar na língua-padrão, que, além disso, também é usada quando é preciso expressar pensamentos por escrito’“ (Zinkevičius 2006: 34).
28 Um dos argumentos desse tipo apresentados no ŽKR foi exposto também durante a apresentação do livro na Biblioteca Wróblewski da Academia de Ciências da Lituânia; ver Pabrėža 2018-03-30.
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O ŽKR é discutido de maneira neutra, enquanto, para explicar os princípios ortográficos, escolhe-se o inclusivo nós, emocionalmente mais expressivo (que inclui tanto o autor como o leitor do texto)²⁹ (cf. exemplos desse nós: tad nepasiduokime (p. 175); dažniausiai trumpai tariame, vadinas, taip ir turime rašyti (p. 178); be šių naujųjų priežasčių neapsieisime (p. 185) etc.). Ao ler o ŽKR, o destinatário emocionalmente tocado e envolvido será quem mais sairá ganhando, pois este é um livro que proporciona prazeres de leitura em diferentes níveis: o texto científico de Juozas Pabrėža é informativo, argumentado, simples e claro, e os exemplos são completos e interessantes. No capítulo Língua samogícia, textos transcritos³⁰ que representam diferentes dialetos e subdialetos samogícios não são apenas interessantes, mas também revelam as diferenças e semelhanças entre os dialetos samogícios (e abordam uma ampla variedade de temas — o cotidiano e as festas, as doenças e os tratamentos, a consciência samogícia etc.). Os exemplos de criação literária samogícia presentes no capítulo Ortografia samogícia revelam a profundidade da língua samogícia e sua aptidão para a criação artística. É provável que esse compêndio, reunido em um único livro, das diversas realizações e possibilidades da língua samogícia incentive o leitor samogício a prestar atenção à própria língua não apenas por meios habituais entre os samogícios — o silêncio e a fala —, mas talvez também pela escrita. Pois, parafraseando a ideia principal apresentada no conto Suopėjos pasakoje Najies – nadėktois, arba selekėj – kaštuns dāktas, de Čiurlionienė-Kymantaitė (p. 195–198; cf. p. 198), também se pode enunciar esta verdade relevante para os samogícios: neskaitīsi narāsi – neišlajkiisi ont svieta.
A descrição do sistema linguístico samogício apresentada no ŽKR, fundamentada tanto em diferenças regulares como em diferenças que não se caracterizam pela regularidade em relação ao lituano padrão, pode ser valiosa não apenas para os samogícios, mas também ser usada no ensino e na aprendizagem, não só da língua samogícia ou para conhecê-la, mas também do lituano padrão como língua estrangeira. Este livro pode ser usado como guia para ensinar crianças samogícias a ler e escrever na língua padrão. Para responder à questão de se o sistema de ensino da escrita exposto no ŽKR é eficaz, é preciso testá-lo. É possível que, para os samogícios que nunca tentaram ler e escrever em samogício, este livro pareça inicialmente um tanto confuso e desanimador; por isso, pode-se imaginar que seu diálogo interior (ou talvez real) se desenrolará mais ou menos assim: No dar kon baišėmėis – rēks muokētės skaitīte i rašītė! No nakentu tokiu daliku. So tuom nujoujem daba vėsė pōl, juk jau išmuokom lietovėška, i gerī, i ožtenk mon. Mas é provável que, ao começarem a ler o ŽKR, sejam cativados pelo prazer da leitura; assim, depois de lerem ou terminarem o livro, pensarão e falarão de maneira um pouco diferente: No jau nagalio sakīt, ka
29 Apie inkluzyvinio mes tipus žr. Linkevičienė, Šinkūnienė 2012: 92–94.
30O leitor que não sabe samogício ou tem dificuldade para compreendê-lo pode encontrar, em outra publicação preparada por Juozas Pabrėža com suas colegas, traduções para o lituano de alguns textos dialetais do ŽKR (ditados por samogícios do norte de Telšiai), por exemplo: Pabrėža, Marčiauskaitė, Leskauskaitė, orgs., 2013: 81 e seguintes; 124 e seguintes, e ŽKR 114 e seguintes; 116 e seguintes.
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Recomendo esse livro, “A língua e a ortografia samogitianas”. Um livro sério. Agora eles sabem tudo sobre nós. Pabrėža Jozis mostrou muito bem toda a nossa sabedoria: somos tão instruídos quanto os prussianos, também podemos ser filósofos e sabemos rir de nós mesmos.
A descrição das características mais marcantes da língua e da ortografia samogícias é útil, tanto teórica como praticamente, para o leitor interessado na identidade samogícia. Este livro é conveniente para os samogícios que aprendem a língua padrão e, naturalmente, para aqueles que querem aprender samogício. Do ponto de vista didático, este livro pode ser — e provavelmente será — muito útil aos pais e/ou educadores de crianças em idade pré-escolar e nos primeiros anos escolares, ajudando-os a motivar crianças que dominam apenas sua língua materna samogícia a ler e escrever em lituano padrão. Ao concluir a discussão do ŽKR, é preciso voltar à ideia central do estatuto da língua samogícia — em que medida este livro a confirma, afirma, populariza, leva a acreditar nela ou dissipa dúvidas. O autor do ŽKR, sendo uma personalidade coerente e conciliadora (o tipo pessoal de Juozas Pabrėža poderia ser descrito em samogício pela frase Ons ir malonus žmogus), é um excelente embaixador dessa ideia. É especialmente importante também que Juozas Pabrėža promova a língua samogícia como adequada à fala pública e representativa. O êxito de uma diplomacia pacífica sempre exige apoio externo (pois o apoio exclusivamente samogício pode ser entendido como os samogícios julgando seu próprio caso); por isso, gostaria de desejar ao Autor esse apoio. Por ora, cabe aos samogícios abraçar a ideia de que falar samogício é falar a língua materna, e não um dialeto materno, e representá-la adequadamente.
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Entregue em 15 de janeiro de 2019.
JŪRATĖ PAJĖDIENĖ
Instituto da Língua Lituana
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