Cu ículo sem F on ei as, . 17, n. 1, p. 60-74, jan./ab . 2017
ISSN 1645-1384 (online) www.cu iculosem on ei as.o g 60
DIFICULDADES INICIAIS DO PROCESSO DE
MODERNIZAÇÃO PEDAGÓGICA NO MUNICÍPIO DE
LISBOA: a ep o ação nas p imei as classes das
escolas cen ais ou g aduadas (anos de 1880)
Ca los Manique da Sil a
Ins i u o de Educação, Uni e sidade de Lisboa - Po ugal
Resumo
Ao oca -se nas escolas g aduadas do município de Lisboa no decu so dos anos de 1880, o
p esen e es udo isa comp eende de que o ma, ace ao impulso pa a es anda diza a
ap endizagem e o compo amen o dos es udan es, ão sendo “co igidas” algumas
dis uncionalidades do modelo de escola g aduada – o qual, esse é um dos meus a gumen os, nunca
é pos o em causa… simplesmen e em de unciona melho . A maio di iculdade o ganizacional
esul a do ac o de a a enção pedagógica do p o esso e de con empla , numa de e minada classe,
alunos com di e en es ní eis cogni i os e com dis in as necessidades. O p oblema em pa icula
acuidade nas 1.as classes, sob e udo de ido à acumulação de alunos que não conseguem ascende
de “g au” (são ele adas as axas de ep o ação nas classes in e io es). Os conselhos escola es ão
se palco de deba e no sen ido da esolução do p oblema. São, en ão, ap esen adas á ias soluções,
ganhando p og essi a acei ação a ideia de c ia 1.as classes ascenden es median e a segmen ação
do cu ículo.
Pala as-cha e: escola g aduada; município de Lisboa; ep o ação; mode nização pedagógica.
Abs ac
The p esen s udy is ocused on g aded schools o he Lisbon Municipali y in he second hal o
he nine een h cen u y. The aim is o unde s and how dys unc ionali ies o he g aded school
model a e being “co ec ed”; he model should ne e be con es ed ( his is one o my a gumen s)...
i simply mus ha e o wo k be e . The bigges o ganiza ional di icul y esul s om he ac o
he eache ’s commi men o look a e s uden s wi h di e en cogni i e le els and wi h di e en
needs. The p oblem has a peculia pe inence in he i s g ades, namely due o he numbe o
s uden s ha canno each o an uppe “g ade” ( he high ailu e a es a e e en mo e signi ican in
he lowe le els). The school boa de s played an impo an ole h ough he deba es o sol e he
p oblem. Du ing his p ocess se e al solu ions we e poin ed, bu he one ha has been
p og essi ely mo e accep ed was ha o c ea ing an inne di ision in he cu iculum o he i s
g ades.
Key wo ds: g aded school; Lisbon Municipali y; g ade e en ion; pedagogical mode niza ion.
Di iculdades iniciais do p ocesso de mode nização pedagógica no município de Lisboa: [...]
61
In odução
Há um conjun o de mudanças que oco e na o ganização pedagógica da escola p imá ia
en e os anos de 1830 e os inais do século XIX, em la ga medida quali a i as, pos o que
undadas na ma iz o ganiza i a da “classe”. Do que se a a, num momen o de ala gamen o
do público escola , é de encon a uma solução que pe mi a assegu a a e icácia do a o
educa i o. Regis a-se, assim, a p og essi a subs i uição do modo de ensino indi idual – que
con inua á, no en an o, a pe manece como pa adigma de e e ência pa a a o ganização da
sala de aula (BARROSO, 1995) – po ou os modos de ensino mais e icazes.1 Con o me
a i mou ecen emen e Ma celo Ca uso (2015), a e olução c ucial p ende-se com a
exis ência de um sis ema de in e ações ap op iado, ausen e no modo indi idual. Po ou as
pala as, a sis ema ização de in e ações pe mi i á eduzi os momen os de ociosidade dos
alunos e de compo amen o “não con olado”, e i ando-se, dessa o ma, despende empo
de ins ução (CARUSO, 2015).
O es o ço de acionalização do ensino e de o ganização cien í ica do abalho dos
p o esso es culmina á, nas úl imas décadas de Oi ocen os, no modelo o ganiza i o da
escola g aduada; a sua essência, o con ínuo p ocesso de classi icação dos alunos em o dem
à o mação de classes o mais homogéneas possí el. De ine-se, en ão, uma concepção de
abalho escola que pe manece á p a icamen e imu á el a é aos dias de hoje.
O a, em Po ugal, o município de Lisboa desempenha um impo an e papel na
expe imen ação da escola g aduada2 ( ambém designada “escola cen al”), nomeadamen e
du an e a p imei a g ande expe iência de descen alização do ensino (1881-1892),
enquad ada pela Re o ma de Rod igues Sampaio (Lei de 2 de maio de 1878). T a a-se de
uma página ele an e (a que oi p o agonizada pelo município da capi al) no sen ido da
mode nização pedagógica do país. No e-se que a iden i icação da polí ica educa i a do
município de Lisboa com o modelo de escola g aduada a endeu a um p oje o de in eg ação
social e polí ica conside ado undamen al pa a o ideá io epublicano. Facilmen e se pe cebe
o signi icado simbólico que ence a inaugu a um es abelecimen o de ensino com á ias
classes, mui o di e en e de c ia uma escola de classe única ( ambém denominada “escola
pa oquial”). Mas a ideia que impo a en a iza é a de que o no o modelo espondia com
e icácia ao desígnio de escola iza um ele ado núme o de c ianças. Com e ei o, du an e o
pe íodo de descen alização do ensino, a escola g aduada é decisi a pa a a expansão do
ensino p imá io o icial na cidade de Lisboa (SILVA, 2008). Em julho de 1881, po
exemplo, a equência média nas escolas de pa oquiais e cen ais de Lisboa e a de 2626
alunos, sendo que em 1891-1892 e a de 7122 alunos; inc emen o que icou, em la ga
medida, a de e -se ao apelo das escolas cen ais (SILVA, 2008). Não se es anha, assim,
que os esponsá eis pelo pelou o da ins ução do município de Lisboa en idem odos os
es o ços pa a elimina a escola de classe única, conside ada pob e e ine icien e.
E se é e dade que o modelo de escola g aduada p o a a se e icaz no espei an e ao
desígnio de escola iza a população em idade escola , não menos ce o se á a i ma que se
CARLOS MANIQUE DA SILVA
62
egis am, desde o início, algumas dis uncionalidades do mesmo. Desde logo, po que
p essupunha no os modos de o ganização do abalho e uma delimi ação na adminis ação
da escola dos campos pedagógico e adminis a i o. E não há, no momen o his ó ico em
causa, uma ideia cla a ela i amen e às possibilidades do modelo (VIÑAO, 2003). Po
ou o lado, na linha da in es igação de La y Cuban (2008, p. 73), a escola g aduada “[is]
one o he mos in lexible s uc u es o schooling”. O seu p essupos o é o de que
“educa ional quali y comes h ough uni o mi y” (CUBAN, 2008, p. 73), assumindo-se que
os alunos possuem iguais capacidades men ais e ísicas. T a a-se, no undo, azendo jus à
ase cunhada po João Ba oso, de “ensina a mui os como se ossem um só”. Uma
uni o midade de p incípio que con as a com a di e sidade dos i mos e e i os de
ap endizagem (PERRENOUD, 1995). É a essa luz que de e se comp eendida a ep o ação
(e a consequen e epe ência), cuja acionalidade é assegu a a homogeneidade das classes –
em causa, a ga an ia de que os alunos a ingem o mínimo de conhecimen os es abelecidos
pa a cada “g au”. A ope acionalização do ensino de classe encon a-se, assim, dependen e
da incessan e a e a de classi ica os alunos (a a és do exame), se quise mos, de os man e
num ní el de ins ução ap op iado (SLAVIN, 1989). Di o de ou o modo, em inais do
século XIX, a escola deixa de se o ganiza em unção dos alunos conside ados a í ulo
indi idual. É a isão da classe como um odo homogéneo, cujo p og esso oco e de modo
uni o me e não na base do p og esso indi idual de cada um dos seus elemen os que se
a i ma. Es a pe spe i a indi e enciada e in a iá el da população escola , associada a uma
conceção unidimensional e massi icada da c iança, con igu a a negação da ideia de que
numa classe os alunos podem e mui o em comum, sem que no en an o qualque um deles
seja igual ao ou o. Em suma, o modelo oi pensado pa a um “aluno médio”, a quem se ia
minis ado um “cu ículo médio”, cu iosamen e num momen o em que a pedagogia
cien í ica chama a a a enção pa a as di e enças indi iduais.
Ao oca -se nas escolas g aduadas do município de Lisboa no decu so dos anos de
1880, o p esen e es udo isa comp eende de que o ma, ace ao impulso pa a es anda diza
a ap endizagem e o compo amen o dos es udan es, ão sendo “co igidas” algumas
dis uncionalidades do modelo – o qual, esse é um dos meus a gumen os, nunca é pos o em
causa… assumindo-se simplesmen e que em de unciona melho . E a maio di iculdade
o ganizacional3 esul a do ac o de a a enção pedagógica do p o esso e de con empla ,
numa de e minada classe, alunos com di e en es ní eis cogni i os e com dis in as
necessidades. O p oblema em pa icula acuidade nas 1.as classes, sob e udo de ido à
acumulação de alunos que não conseguem ascende de “g au” (aumen ando o empo médio
de pe manência nas e e idas classes); conside adas, po esse mesmo ac o, de di ícil
lecionação. Os conselhos escola es das escolas g aduadas do município de Lisboa
(cons i uídos pelos espe i os docen es e di e o es) ão se palco de deba e no sen ido da
esolução do p oblema. São, en ão, ap esen ados “planos de melho ia” que ence am
di e sas soluções, designadamen e: i) c ia 1.as classes ascenden es, median e a
segmen ação do cu ículo (no undo, es amos a ala de “g aus” di e en es, se quise mos, de
“g upos de ní el”); ii) man e ciclos de a aliação ela i amen e cu os (exames bianuais);
iii) p omo e au oma icamen e os alunos ao “g au” seguin e; i ) di idi a classe em dois
Di iculdades iniciais do p ocesso de mode nização pedagógica no município de Lisboa: [...]
63
g upos, sendo ambos lecionados pelo mesmo docen e (po an o, em dois u nos); ) u iliza
moni o es como auxilia es de ensino.
Os con o nos da mencionada di iculdade o ganizacional o nam-se mais in e essan es,
se pensa mos que nas escolas g aduadas do município de Lisboa há uma hie a quização
sexis a dos docen es. Com e ei o, as 1.as classes são a ibuídas a p o esso as, que nelas se
especializam.
Uma das conclusões des e es udo é a de que há uma solução o ganizacional que
p og essi amen e se acaba po impo : as 1.as classes ascenden es ( o mação de “g upos de
ní el”). É, no undo, o e o ço da ideia da classe como um odo homogéneo (e é exa amen e
aí que eside a o ça do modelo).
Analisa de que o ma ão sendo es adas soluções o ganizacionais no sen ido de
esol e o p oblema do di e en e desempenho académico dos alunos, ajuda a pe cebe o
sucesso do modelo de escola g aduada (e as di iculdades em edesenhá-lo desde os inais
do século XIX).
A consolidação da escola g aduada ou cen al como comunidade o gânica4
Na secção an e io indiquei as mo i ações subjacen es à iden i icação da polí ica
educa i a do município de Lisboa com o modelo de escola g aduada ou cen al, du an e o
pe íodo de descen alização do ensino (1881-1892). Re e i, ademais, a e icácia do modelo
no que conce ne à capacidade de escola iza um ele ado núme o de c ianças em idade
escola . Aquilo que impo a ago a abo da é a p og essi a consolidação da escola g aduada
como comunidade o gânica, is o é, com ca a e ís icas p óp ias; supe ando, pois, a simples
lógica de eunião de escolas de classe única. Um en endimen o necessá io à comp eensão
das dis uncionalidades e i icadas ab o o.
A mudança de que ala a (no sen ido da consolidação do modelo de escola g aduada) é
pa icula men e iden i icada a pa i do início de 1882, com a chegada de Teó ilo Fe ei a
ao pelou o da ins ução da Câma a Municipal de Lisboa. A p imei a ideia a e e é a de que
a eno ação do ensino passa a, ob iga o iamen e, pela di ulgação de eo ias e
conhecimen os pedagógicos.
Em sín ese, o modelo de escola g aduada p essupunha a exis ência de um no o
p o issional; uma posição sus en ada po Teó ilo Fe ei a, ou não osse ele, desde 1873,
di e o da Escola No mal de Lisboa. Além do mais, uma p eocupação pe ce í el em Teó ilo
Fe ei a é a de que a complexidade da escola g aduada exigia um conjun o de no mas que
i esse em con a as suas especi icidades. E é nesse sen ido que é ap o ado, na sessão da
Câma a de 14 de dezemb o de 1882, um no ma i o: o Regulamen o p o iso io das escolas
cen aes do municipio de Lisboa (SILVA, 2008). Tem em p imei o luga de dize -se que o
no ma i o em causa consag a o ensino simul âneo e a classe como “módulo” da
o ganização escola . O ensino é en ão di idido em ês cu sos (in e io , médio e supe io )
co esponden es à ins ução p imá ia elemen a . Es abelece-se depois a seguin e di isão:
“nas escolas de qua o classes, a p imei a e a segunda cons i uem subdi isões do cu so
CARLOS MANIQUE DA SILVA
64
in e io […]; a e cei a classe cons i ui o cu so médio, e a qua a o cu so supe io ; nas
escolas de ês classes, cada uma co esponde á a um dos cu sos” (Regulamen o p o iso io
das escolas cen aes…, p. 4). P e ê-se ainda a exis ência de classes pa alelas (1ª A, 1ª B
e c.), se a equência de alunos a isso ob iga . Em qualque dos casos, de ende-se semp e a
con e gência de um p o esso , uma sala, uma classe. Quan o à du ação dos cu sos, a do
in e io é de dois anos, a do médio ambém de dois anos, sendo a do supe io de um ano.
Como não podia deixa de se , o documen o dedica pa icula a enção aos p og amas de
ensino e aos ho á ios escola es. No a-se desde logo uma mudança in ínseca à no a
o ganização: a subs i uição do dia pela semana como unidade empo al pa a a dis ibuição
do abalho escola (VIÑAO, 2003); decisi a po pe mi i o p incípio da g aduação, i.e., a
o dem cíclico-concên ica das ma é ias (disciplinas). Lê-se no no ma i o: “os ho á ios
indica ão o núme o de ho as semanal consag ado a cada disciplina ou exe cício pa a cada
classe, e a dis ibuição dessas ho as po cada [sic] um dos dias ú eis da semana”
(Regulamen o p o iso io das escolas cen aes…, p. 5).
Po ou o lado, em capí ulo au ónomo, de ine-se udo o que diz espei o à esc i u ação
escola . E a e dade é que o a iculado deixa bem p esen e o nexo en e a necessidade de
con olo do esc i o e a complexidade o ganiza i a da escola cen al. En e á ios egis os,
pode-se des aca o apa ecimen o do li o de pon o de p o esso es, bem como os mapas de
exames de ap o ei amen o, de passagem e inais, em la ga medida associados à incessan e
a e a de classi ica os alunos e de cons i ui classes o mais homogéneas possí el.
Cu iosamen e, o egulamen o não menciona uma única ez a ques ão da epe ência.
Impo an es são, do mesmo modo, as disposições ela i as aos docen es. E aqui
in e essa undamen almen e dize que o no ma i o es abelece duas ca ego ias de
p o esso es. Em causa, a ideia do po encial da depa amen alização (SLAVIN, 1989) pa a
a plu alização de si uações educa i as na escola popula , algo que p essupunha a exis ência
de docen es com pe il de especialis as (“auxilia es” ou “especiais”), esponsá eis po
disciplinas como o can o co al, o desenho, a calig a ia, a ginás ica e os exe cícios mili a es,
a pa de p o esso es com pe il de gene alis as (“o diná ios”).5
Po ou o lado, com a escola g aduada su ge uma igu a absolu amen e decisi a: a do
di e o ( egen e, na e minologia ado ada no ci ado Regulamen o p o iso io das escolas
cen aes…) que, nas pala as de Rosa Fá ima de Sousa (1998, p. 75), se ia “o elemen o-
cha e que ans o ma ia a me a ‘ eunião de escolas’ em uma comunidade o gânica”. En e
á ias compe ências a ibuídas ao egen e, ci em-se, po exemplo: supe in ende em odos
os se iços in e nos da escola; isi a as salas de aula da sua escola pa a se assegu a se são
(ou não) cump idas odas as p esc ições egulamen a es; en ida odos os es o ços pa a
conse a a ha monia en e os docen es (Regulamen o p o iso io das escolas cen aes…).
É, ademais, impo an e sublinha que, ao egen e, são come idas a e as pedagógicas,
nomeadamen e, o exame de classi icação inicial dos alunos e a supe isão do abalho dos
p o esso es. Também não é possí el igno a a dimensão adminis a i a do exe cício desse
ca go, uma ez que de ém: i) a esponsabilidade da esc i u ação e con abilidade; ii) a
cus ódia do a qui o da escola; iii) a elação bu oc á ica com o pelou o da ins ução
(Regulamen o p o iso io das escolas cen aes…).
Di iculdades iniciais do p ocesso de mode nização pedagógica no município de Lisboa: [...]
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Ao mesmo empo, emos su gi um ó gão que, na sua génese, se cons i uiu como
con apode à igu a do egen e. Re i o-me ao conselho escola (compos o po odos os
p o esso es o diná ios). Ao mencionado conselho, e con inuamos a acompanha o ci ado
Regulamen o p o iso io das escolas cen aes…, cabia p opo modi icações em aspe os
ela i os à o ganização pedagógica, designadamen e os p og amas e os ho á ios. Cabia-lhe
ainda deba e , no início do ano le i o, a necessidade de subdi idi as classes. Ou a
compe ência p endia-se com a a ibuição de p émios aos alunos. Não de inha, po ém, julgo
ú il salien á-lo, unções disciplina es. Po ou o lado, o ac o de o no ma i o não de ini
qualque pe iodicidade pa a as euniões e ela os limi es da in luência do conselho escola .
Ainda assim, pa ece-me impo an e sublinha uma ideia an e io men e exp essa: a de es e
ó gão se cons i ui como con apode ao egen e. Na e dade, qualque p o esso podia
con oca o conselho escola e, no caso de disco da das delibe ações nele omadas, de
in e po ecu so. Ac esce que o egen e não inha o o de qualidade. Po im, p e ê-se que
o conselho escola possa ado a medidas des inadas a soluciona si uações u gen es e pa a
as quais o “ egen e não se julgue au o izado a esol e po si só” (Regulamen o p o iso io
das escolas cen aes…, p. 17).
É com o e e ido enquad amen o no ma i o que as escolas cen ais de Lisboa
uncionam no pe íodo comp eendido en e 1883 e 1886 – de ine-se en ão uma o ganização
pedagógica pa a a escola p imá ia pública.
Di iculdades o ganizacionais nas p imei as escolas cen ais ou g aduadas
de Lisboa: de inição e ensaio de “planos de melho ia”
Na secção inicial do p esen e es udo p ocu ei sublinha a in lexibilidade do modelo de
escola g aduada – uma o ganização pedagógica c iada pa a públicos homogéneos. Signi ica
is o dize , man endo p esen e a in es igação de La y Cuban (2008), que a escola g aduada
ca ego iza, seg ega e, em úl ima ins ância, elimina aqueles cuja pe o mance se a as a da
“no ma”. É exa amen e a essa luz que de e se pe cebido o papel do exame – o alice ce do
modelo; como se es e só sob e i esse baseado num sis ema de ep o ação, o qual impõe
aos alunos com um desempenho académico abaixo das expe a i as um a aso em elação ao
pe cu so escola p e is o.
Aquilo que se obse a nas escolas cen ais ou g aduadas de Lisboa no decu so dos anos
de 1880 – quando começa a exis i um nexo en e hie a quização das classes e idade dos
alunos – é a ex ema igidez das modalidades de passagem de uma classe à ou a (o
p opósi o é o de en a assegu a a homogeneidade dos g upos). O a, uma das
consequências di e as dessa igidez é o conges ionamen o de alunos nas classes in e io es.
Es amos pe an e uma di iculdade o ganizacional pe ei amen e iden i icada nas escolas
cen ais de Lisboa no início dos anos de 1880, à semelhança, aliás, do sucedido em F ança
no mesmo pe íodo (KROP, 2015). Com e ei o, em 1882, Eugénio de Cas o Rod igues,
egen e da Escola Cen al n.º 1 de Lisboa, comunica ao pelou o da ins ução
CARLOS MANIQUE DA SILVA
66
a incon enien e acumulação de alunos nas duas p imei as classes e de iciência
do con ingen e o necido po elas às ou as duas, onde po es e ac o a
equência es á sendo quase semp e mui o in e io ao núme o de alunos que
es as podiam compo a . (Ci ado po TERENAS, 1882, p. 39)
De es o, o p oblema mani es a-se desde meados da década de 1870. Veja-se a Tabela
1. Tabela 1. F equência média de alunos na Escola Cen al n.º 1 (1876-1877 a 1879-1880).
Fon e: TERENAS (1882).
Na essência, a ques ão em a e com e icácia, mo i o que le a Eugénio de Cas o
Rod igues a p opo o es abelecimen o de duas p imei as classes pa alelas (1.ª A e 1.ª B);
suge indo o mesmo ela i amen e à segunda (2.ª A e 2.ª B). E i a a-se assim, e as pala as
pe encem-lhe, o “péssimo mas único expedien e de passagens o çadas” (ci ado po
TERENAS, 1882, p. 39). No undo, as medidas p opos as isa am aumen a a equência e
c ia condições mais a o á eis de ap o ei amen o e de p og essão nos es udos. A não
se em cump idas, como adian a ainda, a Escola e -se-ia na necessidade de ecusa
admissões.
As di iculdades o ganizacionais ela adas – que deco em, como se disse, da exis ência
de modalidades de passagem de classe ex emamen e ígidas – se ão pa icula men e
sen idas nas 1.as classes. Os egen es das escolas cen ais equaciona ão en ão di e en es
soluções, no sen ido de esol e o p oblema do di e en e desempenho académico dos
alunos; e i ando, a udo o cus o, as passagens au omá icas.
An es, po ém, de abo da as soluções o ganizacionais ensaiadas nas escolas cen ais no
sen ido de melho a o endimen o escola dos alunos e a sua p og essão nos es udos,
pa ece-me impo an e dedica alguma a enção a uma ques ão es u u an e: a a aliação do
desempenho académico dos alunos. O ci ado Regulamen o p o iso io das escolas
cen aes… p e ê a exis ência de dois ipos de exames, a sabe : i) de ap o ei amen o; ii) de
passagem de classe. O p imei o (a ca go do p o esso da espe i a classe) a igu a-se como
uma espécie de ensaio pa a o segundo (mais o mal e decisi o). Com e ei o, o exame de
passagem de classe p essupõe que es e úl imo seja ei o pelo p o esso da classe in e io e
da imedia amen e supe io . O que es á em causa é impedi que, “sob qualque p e ex o, se
ma iculem ou classi iquem em qualque classe ou g upo alunos que, pelo seu es ado
educa i o, não podem acompanha o ensino p óp io a essa classe ou g upo” (Regulamen o
p o iso io das escolas cen aes…, 1883, p. 21). Nesse documen o não são ainda de inidas
épocas pa a a ealização dos e e idos exames; no en an o, e pelo menos a pa i de 1887, é
Ano le i o
1.ª Classe
2.ª Classe
3.ª Classe
4.ª Classe
To ais
1876-1877
70
52
51
39
212
1877-1878
122
80
63
46
311
1878-1879
138
84
68
41
331
1879-1880
120
74
70
40
304
Di iculdades iniciais do p ocesso de mode nização pedagógica no município de Lisboa: [...]
67
cla a a exis ência de dois pe íodos du an e os quais se e e uam exames de passagem de
classe ( e e ei o / ma ço e agos o) – encon amo-nos já pe an e uma mudança
o ganizacional no sen ido de e o ça a homogeneidade das classes. E e i amen e, a
ealização equen e de exames isa a esse obje i o, ab indo ao mesmo empo a
possibilidade de os alunos concluí em o seu pe cu so escola com maio cele idade; sem
esquece ainda o ac o, decisi o pa a a acionalidade do modelo, de o ciclo de epe ência
não du a um ano le i o comple o. A p óxima abela susci a, ce amen e, á ias
conside ações.
Tabela 2. Exames de passagem de classe na época de e e ei o de 1887 (escolas cen ais de Lisboa).
Escolas cen ais
Classes
Média de
equência
N.º de alunos
Ap o ados
Classes pa a onde
Passa am
N.º 2
1.ª A
51
4
2.ª
1.ª B
37
1
2.ª
2.ª A
31
2
3.ª A
N.º 3
1.ª A
28
11
2.ª
1.ª B
15
2
2.ª
2.ª
21
15
3.ª
N.º 4
1.ª A
45
9
2.ª
1.ª B
40
8
2.ª
N.º 5
1.ª A
49
6
2.ª
1.ª B
26
2
2.ª A
2.ª A
20
6
3.ª A
2.ª B
19
6
3.ª A
N.º 6
1.ª A
45
11
2.ª
1.ª B
46
11
2.ª
1.ª C
52
8
2.ª
2.ª A
30
10
3.ª
2.ª B
23
6
3.ª
N.º 7
1.ª A
25
6
2.ª
1.ª B
24
7
2.ª
2.ª
35
5
3.ª B
N.º 8
1.ª A
32
10
2.ª
1.ª B
22
6
2.ª
2.ª A
32
19
3.ª
2.ª B
16
14
3.ª
N.º 9
1.ª A
50
5
2.ª
1.ª B
20
11
2.ª
2.ª
28
16
3.ª
N.º 11
1.ª A
28
8
2.ª A
1.ª B
23
4
2.ª A
2.ª A
21
10
2.ª B
2.ª B
14
13
3.ª
N.º 12
1.ª
41
11
2.ª
N.º 13
1.ª A
36
11
2.ª A
1.ª B
29
7
2.ª A
1.ª C
23
6
2ª A
2.ª A
16
5
2.ª B
2.ª B
11
8
3.ª
CARLOS MANIQUE DA SILVA
68
N.º 14
1.ª A
29
7
2.ª
N.º 15
1.ª B
28
1
2.ª
1.ª C
49
3
2.ª
1.ª D
24
4
2.ª
N.º 17
1.ª A
16
4
2.ª
1.ª B
33
14
2.ª
2.ª
23
4
3.ª
N.º 19
1.ª A
44
9
2.ª
1.ª B
41
4
2.ª
1.ª C
52
12
2.ª
1.ª D
42
10
2.ª
2.ª A
38
9
3.ª A
2.ª B
33
7
3.ª A
3.ª A
15
10
3.ª B
N.º 22
1.ª A
66
12
1.ª B
1.ª B
27
5
2.ª
2.ª
21
7
3.ª
Fon e: Bole im do Se iço Ge al de Ins ução Pública da Câma a Municipal de Lisboa, n.º 2, 1887.
Cons a a-se que exis em classes pa alelas em odas as escolas cen ais6, sendo que
algumas delas são ascenden es, is o é, co espondem a “g upos de ní el” esul an es da
segmen ação do cu ículo. Po ou o lado, é mui o in e essan e que o oco dos exames de
passagem incida nas 1.ª e 2.ª classes, jus amen e po se em aquelas em que a ges ão da
he e ogeneidade dos g upos se punha com maio p emência (dada a acumulação de alunos
que não ascendiam de “g au”). Há, con udo, uma exceção: a 3.ª classe A da Escola Cen al
n.º 19. Con ém ambém menciona o ele ado núme o de alunos em algumas u mas;
limi ando, do mesmo modo, a ação educa i a dos docen es. A essa luz, e emos
opo unidade de o cons a a , se de e comp eende o ecu so equen e à igu a do moni o .
Po ém, a g ande ques ão é a que se p ende com as ele adíssimas axas de ep o ação. A
si uação é an o mais g a e pelo ac o de os ní eis de ep o ação se em semelhan es nos
exames de passagem ealizados em agos o de 1887 (c . Bole im do Se iço Ge al de
Ins ução Pública da Câma a Municipal de Lisboa, n.º 2, 1887). Assim, não in oduzindo o
ciclo de a aliação bianual a acionalidade p e endida (ou seja, a agilização das passagens de
classe), a g ande consequência é a na u alização da epe ência no cu so in e io . A e dade
é que, nas ci cuns âncias apon adas, g ande pa e dos alunos não chega a às classes
supe io es, não concluindo, dessa o ma, a ins ução p imá ia elemen a .7
O a, como se disse, a acumulação de alunos nas classes in e io es c ia a p oblemas
o ganizacionais, mas ambém é cla a, ao mesmo empo, a exis ência de uma isão
me i oc á ica da escola: o sen ido é o da p omoção social dos melho es alunos. De alguma
manei a, essa ideia eme ge quando analisamos os esul ados dos exames inais de ins ução
p imá ia elemen a (conclusão do cu so, po an o). A en e-se na Tabela 3.
Di iculdades iniciais do p ocesso de mode nização pedagógica no município de Lisboa: [...]
75
6. A on e não e e e as azões pelas quais não o am coligidos dados pa a as Escolas Cen ais n.os 1, 10, 16, 18, 20 e 21.
No caso dos exames de passagem ealizados em agos o de 1887, a mesma on e indica dados pa a odas as escolas
cen ais.
7. Em 1877, o mesmo sucedia nas escolas do Sena (KROP, 2015).
8. Faço, con udo, no a que a u ilização de moni o es e a ex ensí el a ou as classes.
9. Na década de 1880, o município de Lisboa apos a na o mação especializada de moni o es, endo em is a a
o ien ação pa a o magis é io p imá io.
Re e ências
BARROSO, João. Os Liceus. O ganização Pedagógica e Adminis ação. Lisboa: FCG/JNICT, 1995.
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KROP, Jé ôme. Me i oc acia e os Usos da Repe ência na Escola P imá ia Pública F ancesa de 1850 ao Início
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PERRENOUD, Philippe. La ab ica ion de l’excellence scolai e. Genè e: Lib ai ie D oz S.A., 1995.
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Co espondência
Ca los Manique da Sil a: In es igado da Unidade de In es igação e Desen ol imen o em Educação e
Fo mação (Ins i u o de Educação, Uni e sidade de Lisboa). Tem como á eas de in e esse a ci culação
e di usão do conhecimen o pedagógico, a escola g aduada, o ensino mú uo e a a qui e u a escola . De
CARLOS MANIQUE DA SILVA
76
en e as suas publicações, salien a-se: Escolas Belas ou Espaços Sãos? Uma Análise His ó ica Sob e a
A qui e u a Escola Po uguesa (1860-1920), Lisboa, IIE, 2002. Tem colabo ado em á ios p oje os de
in es igação de que se des acam: Liceus de Po ugal e Educação e Pa imónio Cul u al: Escolas,
Obje os e P á icas. Foi p o esso isi an e na Uni e sidade Es adual de S. Paulo (B asil) e na
Uni e sidade de O iedo (Espanha).
E-mail: maniq[email p o ec ed].p
Tex o publicado em Cu ículo sem F on ei as com au o ização do au o