scieee Science in your language
[po] (orig)

Dificuldades iniciais do processo de modernização pedagógica no município de Lisboa: a reprovação nas primeiras classes das escolas centrais ou graduadas (anos de 1880)

Abstract

Ao focar-se nas escolas graduadas do município de Lisboa no decurso dos anos de 1880, o presente estudo visa compreender de que forma, face ao impulso para estandardizar a aprendizagem e o comportamento dos estudantes, vão sendo “corrigidas” algumas disfuncionalidades do modelo de escola graduada – o qual, esse é um dos meus argumentos, nunca é posto em causa… simplesmente tem de funcionar melhor. A maior dificuldade organizacional resulta do facto de a atenção pedagógica do professor ter de contemplar, numa determinada classe, alunos com diferentes níveis cognitivos e com distintas necessidades. O problema tem particular acuidade nas 1.as classes, sobretudo devido à acumulação de alunos que não conseguem ascender de “grau” (são elevadas as taxas de reprovação nas classes inferiores). Os conselhos escolares vão ser palco de debate no sentido da resolução do problema. São, então, apresentadas várias soluções, ganhando progressiva aceitação a ideia de criar 1.as classes ascendentes mediante a segmentação do currículo.

Read accessible full text

Dificuldades iniciais do processo de modernização pedagógica no município de Lisboa: a reprovação nas primeiras classes das escolas centrais ou graduadas (anos de 1880)

Author: Silva, Carlos Manique Da
Year: 2017
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/29639/1/Dificuldades%20iniciais%20do%20processo%20de%20moderniza%c3%a7%c3%a3o%20pedag%c3%b3gica.pdf
Cu ículo sem F on ei as, . 17, n. 1, p. 60-74, jan./ab . 2017
ISSN 1645-1384 (online) www.cu iculosem on ei as.o g 60
DIFICULDADES INICIAIS DO PROCESSO DE
MODERNIZAÇÃO PEDAGÓGICA NO MUNICÍPIO DE
LISBOA: a ep o ação nas p imei as classes das
escolas cen ais ou g aduadas (anos de 1880)
Ca los Manique da Sil a
Ins i u o de Educação, Uni e sidade de Lisboa - Po ugal
Resumo
Ao oca -se nas escolas g aduadas do município de Lisboa no decu so dos anos de 1880, o
p esen e es udo isa comp eende de que o ma, ace ao impulso pa a es anda diza a
ap endizagem e o compo amen o dos es udan es, ão sendo “co igidas” algumas
dis uncionalidades do modelo de escola g aduada – o qual, esse é um dos meus a gumen os, nunca
é pos o em causa… simplesmen e em de unciona melho . A maio di iculdade o ganizacional
esul a do ac o de a a enção pedagógica do p o esso e de con empla , numa de e minada classe,
alunos com di e en es ní eis cogni i os e com dis in as necessidades. O p oblema em pa icula
acuidade nas 1.as classes, sob e udo de ido à acumulação de alunos que não conseguem ascende
de “g au” (são ele adas as axas de ep o ação nas classes in e io es). Os conselhos escola es ão
se palco de deba e no sen ido da esolução do p oblema. São, en ão, ap esen adas á ias soluções,
ganhando p og essi a acei ação a ideia de c ia 1.as classes ascenden es median e a segmen ação
do cu ículo.
Pala as-cha e: escola g aduada; município de Lisboa; ep o ação; mode nização pedagógica.
Abs ac
The p esen s udy is ocused on g aded schools o he Lisbon Municipali y in he second hal o
he nine een h cen u y. The aim is o unde s and how dys unc ionali ies o he g aded school
model a e being “co ec ed”; he model should ne e be con es ed ( his is one o my a gumen s)...
i simply mus ha e o wo k be e . The bigges o ganiza ional di icul y esul s om he ac o
he eache ’s commi men o look a e s uden s wi h di e en cogni i e le els and wi h di e en
needs. The p oblem has a peculia pe inence in he i s g ades, namely due o he numbe o
s uden s ha canno each o an uppe “g ade” ( he high ailu e a es a e e en mo e signi ican in
he lowe le els). The school boa de s played an impo an ole h ough he deba es o sol e he
p oblem. Du ing his p ocess se e al solu ions we e poin ed, bu he one ha has been
p og essi ely mo e accep ed was ha o c ea ing an inne di ision in he cu iculum o he i s
g ades.
Key wo ds: g aded school; Lisbon Municipali y; g ade e en ion; pedagogical mode niza ion.
Di iculdades iniciais do p ocesso de mode nização pedagógica no município de Lisboa: [...]
61
In odução
Há um conjun o de mudanças que oco e na o ganização pedagógica da escola p imá ia
en e os anos de 1830 e os inais do século XIX, em la ga medida quali a i as, pos o que
undadas na ma iz o ganiza i a da “classe”. Do que se a a, num momen o de ala gamen o
do público escola , é de encon a uma solução que pe mi a assegu a a e icácia do a o
educa i o. Regis a-se, assim, a p og essi a subs i uição do modo de ensino indi idual – que
con inua á, no en an o, a pe manece como pa adigma de e e ência pa a a o ganização da
sala de aula (BARROSO, 1995) – po ou os modos de ensino mais e icazes.1 Con o me
a i mou ecen emen e Ma celo Ca uso (2015), a e olução c ucial p ende-se com a
exis ência de um sis ema de in e ações ap op iado, ausen e no modo indi idual. Po ou as
pala as, a sis ema ização de in e ações pe mi i á eduzi os momen os de ociosidade dos
alunos e de compo amen o “não con olado”, e i ando-se, dessa o ma, despende empo
de ins ução (CARUSO, 2015).
O es o ço de acionalização do ensino e de o ganização cien í ica do abalho dos
p o esso es culmina á, nas úl imas décadas de Oi ocen os, no modelo o ganiza i o da
escola g aduada; a sua essência, o con ínuo p ocesso de classi icação dos alunos em o dem
à o mação de classes o mais homogéneas possí el. De ine-se, en ão, uma concepção de
abalho escola que pe manece á p a icamen e imu á el a é aos dias de hoje.
O a, em Po ugal, o município de Lisboa desempenha um impo an e papel na
expe imen ação da escola g aduada2 ( ambém designada “escola cen al”), nomeadamen e
du an e a p imei a g ande expe iência de descen alização do ensino (1881-1892),
enquad ada pela Re o ma de Rod igues Sampaio (Lei de 2 de maio de 1878). T a a-se de
uma página ele an e (a que oi p o agonizada pelo município da capi al) no sen ido da
mode nização pedagógica do país. No e-se que a iden i icação da polí ica educa i a do
município de Lisboa com o modelo de escola g aduada a endeu a um p oje o de in eg ação
social e polí ica conside ado undamen al pa a o ideá io epublicano. Facilmen e se pe cebe
o signi icado simbólico que ence a inaugu a um es abelecimen o de ensino com á ias
classes, mui o di e en e de c ia uma escola de classe única ( ambém denominada “escola
pa oquial”). Mas a ideia que impo a en a iza é a de que o no o modelo espondia com
e icácia ao desígnio de escola iza um ele ado núme o de c ianças. Com e ei o, du an e o
pe íodo de descen alização do ensino, a escola g aduada é decisi a pa a a expansão do
ensino p imá io o icial na cidade de Lisboa (SILVA, 2008). Em julho de 1881, po
exemplo, a equência média nas escolas de pa oquiais e cen ais de Lisboa e a de 2626
alunos, sendo que em 1891-1892 e a de 7122 alunos; inc emen o que icou, em la ga
medida, a de e -se ao apelo das escolas cen ais (SILVA, 2008). Não se es anha, assim,
que os esponsá eis pelo pelou o da ins ução do município de Lisboa en idem odos os
es o ços pa a elimina a escola de classe única, conside ada pob e e ine icien e.
E se é e dade que o modelo de escola g aduada p o a a se e icaz no espei an e ao
desígnio de escola iza a população em idade escola , não menos ce o se á a i ma que se
CARLOS MANIQUE DA SILVA
62
egis am, desde o início, algumas dis uncionalidades do mesmo. Desde logo, po que
p essupunha no os modos de o ganização do abalho e uma delimi ação na adminis ação
da escola dos campos pedagógico e adminis a i o. E não há, no momen o his ó ico em
causa, uma ideia cla a ela i amen e às possibilidades do modelo (VIÑAO, 2003). Po
ou o lado, na linha da in es igação de La y Cuban (2008, p. 73), a escola g aduada “[is]
one o he mos in lexible s uc u es o schooling”. O seu p essupos o é o de que
“educa ional quali y comes h ough uni o mi y” (CUBAN, 2008, p. 73), assumindo-se que
os alunos possuem iguais capacidades men ais e ísicas. T a a-se, no undo, azendo jus à
ase cunhada po João Ba oso, de “ensina a mui os como se ossem um só”. Uma
uni o midade de p incípio que con as a com a di e sidade dos i mos e e i os de
ap endizagem (PERRENOUD, 1995). É a essa luz que de e se comp eendida a ep o ação
(e a consequen e epe ência), cuja acionalidade é assegu a a homogeneidade das classes –
em causa, a ga an ia de que os alunos a ingem o mínimo de conhecimen os es abelecidos
pa a cada “g au”. A ope acionalização do ensino de classe encon a-se, assim, dependen e
da incessan e a e a de classi ica os alunos (a a és do exame), se quise mos, de os man e
num ní el de ins ução ap op iado (SLAVIN, 1989). Di o de ou o modo, em inais do
século XIX, a escola deixa de se o ganiza em unção dos alunos conside ados a í ulo
indi idual. É a isão da classe como um odo homogéneo, cujo p og esso oco e de modo
uni o me e não na base do p og esso indi idual de cada um dos seus elemen os que se
a i ma. Es a pe spe i a indi e enciada e in a iá el da população escola , associada a uma
conceção unidimensional e massi icada da c iança, con igu a a negação da ideia de que
numa classe os alunos podem e mui o em comum, sem que no en an o qualque um deles
seja igual ao ou o. Em suma, o modelo oi pensado pa a um “aluno médio”, a quem se ia
minis ado um “cu ículo médio”, cu iosamen e num momen o em que a pedagogia
cien í ica chama a a a enção pa a as di e enças indi iduais.
Ao oca -se nas escolas g aduadas do município de Lisboa no decu so dos anos de
1880, o p esen e es udo isa comp eende de que o ma, ace ao impulso pa a es anda diza
a ap endizagem e o compo amen o dos es udan es, ão sendo “co igidas” algumas
dis uncionalidades do modelo – o qual, esse é um dos meus a gumen os, nunca é pos o em
causa… assumindo-se simplesmen e que em de unciona melho . E a maio di iculdade
o ganizacional3 esul a do ac o de a a enção pedagógica do p o esso e de con empla ,
numa de e minada classe, alunos com di e en es ní eis cogni i os e com dis in as
necessidades. O p oblema em pa icula acuidade nas 1.as classes, sob e udo de ido à
acumulação de alunos que não conseguem ascende de “g au” (aumen ando o empo médio
de pe manência nas e e idas classes); conside adas, po esse mesmo ac o, de di ícil
lecionação. Os conselhos escola es das escolas g aduadas do município de Lisboa
(cons i uídos pelos espe i os docen es e di e o es) ão se palco de deba e no sen ido da
esolução do p oblema. São, en ão, ap esen ados “planos de melho ia” que ence am
di e sas soluções, designadamen e: i) c ia 1.as classes ascenden es, median e a
segmen ação do cu ículo (no undo, es amos a ala de “g aus” di e en es, se quise mos, de
“g upos de ní el”); ii) man e ciclos de a aliação ela i amen e cu os (exames bianuais);
iii) p omo e au oma icamen e os alunos ao “g au” seguin e; i ) di idi a classe em dois
Di iculdades iniciais do p ocesso de mode nização pedagógica no município de Lisboa: [...]
63
g upos, sendo ambos lecionados pelo mesmo docen e (po an o, em dois u nos); ) u iliza
moni o es como auxilia es de ensino.
Os con o nos da mencionada di iculdade o ganizacional o nam-se mais in e essan es,
se pensa mos que nas escolas g aduadas do município de Lisboa há uma hie a quização
sexis a dos docen es. Com e ei o, as 1.as classes são a ibuídas a p o esso as, que nelas se
especializam.
Uma das conclusões des e es udo é a de que há uma solução o ganizacional que
p og essi amen e se acaba po impo : as 1.as classes ascenden es ( o mação de “g upos de
ní el”). É, no undo, o e o ço da ideia da classe como um odo homogéneo (e é exa amen e
aí que eside a o ça do modelo).
Analisa de que o ma ão sendo es adas soluções o ganizacionais no sen ido de
esol e o p oblema do di e en e desempenho académico dos alunos, ajuda a pe cebe o
sucesso do modelo de escola g aduada (e as di iculdades em edesenhá-lo desde os inais
do século XIX).
A consolidação da escola g aduada ou cen al como comunidade o gânica4
Na secção an e io indiquei as mo i ações subjacen es à iden i icação da polí ica
educa i a do município de Lisboa com o modelo de escola g aduada ou cen al, du an e o
pe íodo de descen alização do ensino (1881-1892). Re e i, ademais, a e icácia do modelo
no que conce ne à capacidade de escola iza um ele ado núme o de c ianças em idade
escola . Aquilo que impo a ago a abo da é a p og essi a consolidação da escola g aduada
como comunidade o gânica, is o é, com ca a e ís icas p óp ias; supe ando, pois, a simples
lógica de eunião de escolas de classe única. Um en endimen o necessá io à comp eensão
das dis uncionalidades e i icadas ab o o.
A mudança de que ala a (no sen ido da consolidação do modelo de escola g aduada) é
pa icula men e iden i icada a pa i do início de 1882, com a chegada de Teó ilo Fe ei a
ao pelou o da ins ução da Câma a Municipal de Lisboa. A p imei a ideia a e e é a de que
a eno ação do ensino passa a, ob iga o iamen e, pela di ulgação de eo ias e
conhecimen os pedagógicos.
Em sín ese, o modelo de escola g aduada p essupunha a exis ência de um no o
p o issional; uma posição sus en ada po Teó ilo Fe ei a, ou não osse ele, desde 1873,
di e o da Escola No mal de Lisboa. Além do mais, uma p eocupação pe ce í el em Teó ilo
Fe ei a é a de que a complexidade da escola g aduada exigia um conjun o de no mas que
i esse em con a as suas especi icidades. E é nesse sen ido que é ap o ado, na sessão da
Câma a de 14 de dezemb o de 1882, um no ma i o: o Regulamen o p o iso io das escolas
cen aes do municipio de Lisboa (SILVA, 2008). Tem em p imei o luga de dize -se que o
no ma i o em causa consag a o ensino simul âneo e a classe como “módulo” da
o ganização escola . O ensino é en ão di idido em ês cu sos (in e io , médio e supe io )
co esponden es à ins ução p imá ia elemen a . Es abelece-se depois a seguin e di isão:
“nas escolas de qua o classes, a p imei a e a segunda cons i uem subdi isões do cu so
CARLOS MANIQUE DA SILVA
64
in e io […]; a e cei a classe cons i ui o cu so médio, e a qua a o cu so supe io ; nas
escolas de ês classes, cada uma co esponde á a um dos cu sos” (Regulamen o p o iso io
das escolas cen aes…, p. 4). P e ê-se ainda a exis ência de classes pa alelas (1ª A, 1ª B
e c.), se a equência de alunos a isso ob iga . Em qualque dos casos, de ende-se semp e a
con e gência de um p o esso , uma sala, uma classe. Quan o à du ação dos cu sos, a do
in e io é de dois anos, a do médio ambém de dois anos, sendo a do supe io de um ano.
Como não podia deixa de se , o documen o dedica pa icula a enção aos p og amas de
ensino e aos ho á ios escola es. No a-se desde logo uma mudança in ínseca à no a
o ganização: a subs i uição do dia pela semana como unidade empo al pa a a dis ibuição
do abalho escola (VIÑAO, 2003); decisi a po pe mi i o p incípio da g aduação, i.e., a
o dem cíclico-concên ica das ma é ias (disciplinas). Lê-se no no ma i o: “os ho á ios
indica ão o núme o de ho as semanal consag ado a cada disciplina ou exe cício pa a cada
classe, e a dis ibuição dessas ho as po cada [sic] um dos dias ú eis da semana”
(Regulamen o p o iso io das escolas cen aes…, p. 5).
Po ou o lado, em capí ulo au ónomo, de ine-se udo o que diz espei o à esc i u ação
escola . E a e dade é que o a iculado deixa bem p esen e o nexo en e a necessidade de
con olo do esc i o e a complexidade o ganiza i a da escola cen al. En e á ios egis os,
pode-se des aca o apa ecimen o do li o de pon o de p o esso es, bem como os mapas de
exames de ap o ei amen o, de passagem e inais, em la ga medida associados à incessan e
a e a de classi ica os alunos e de cons i ui classes o mais homogéneas possí el.
Cu iosamen e, o egulamen o não menciona uma única ez a ques ão da epe ência.
Impo an es são, do mesmo modo, as disposições ela i as aos docen es. E aqui
in e essa undamen almen e dize que o no ma i o es abelece duas ca ego ias de
p o esso es. Em causa, a ideia do po encial da depa amen alização (SLAVIN, 1989) pa a
a plu alização de si uações educa i as na escola popula , algo que p essupunha a exis ência
de docen es com pe il de especialis as (“auxilia es” ou “especiais”), esponsá eis po
disciplinas como o can o co al, o desenho, a calig a ia, a ginás ica e os exe cícios mili a es,
a pa de p o esso es com pe il de gene alis as (“o diná ios”).5
Po ou o lado, com a escola g aduada su ge uma igu a absolu amen e decisi a: a do
di e o ( egen e, na e minologia ado ada no ci ado Regulamen o p o iso io das escolas
cen aes…) que, nas pala as de Rosa Fá ima de Sousa (1998, p. 75), se ia “o elemen o-
cha e que ans o ma ia a me a ‘ eunião de escolas’ em uma comunidade o gânica”. En e
á ias compe ências a ibuídas ao egen e, ci em-se, po exemplo: supe in ende em odos
os se iços in e nos da escola; isi a as salas de aula da sua escola pa a se assegu a se são
(ou não) cump idas odas as p esc ições egulamen a es; en ida odos os es o ços pa a
conse a a ha monia en e os docen es (Regulamen o p o iso io das escolas cen aes…).
É, ademais, impo an e sublinha que, ao egen e, são come idas a e as pedagógicas,
nomeadamen e, o exame de classi icação inicial dos alunos e a supe isão do abalho dos
p o esso es. Também não é possí el igno a a dimensão adminis a i a do exe cício desse
ca go, uma ez que de ém: i) a esponsabilidade da esc i u ação e con abilidade; ii) a
cus ódia do a qui o da escola; iii) a elação bu oc á ica com o pelou o da ins ução
(Regulamen o p o iso io das escolas cen aes…).

Di iculdades iniciais do p ocesso de mode nização pedagógica no município de Lisboa: [...]
65
Ao mesmo empo, emos su gi um ó gão que, na sua génese, se cons i uiu como
con apode à igu a do egen e. Re i o-me ao conselho escola (compos o po odos os
p o esso es o diná ios). Ao mencionado conselho, e con inuamos a acompanha o ci ado
Regulamen o p o iso io das escolas cen aes…, cabia p opo modi icações em aspe os
ela i os à o ganização pedagógica, designadamen e os p og amas e os ho á ios. Cabia-lhe
ainda deba e , no início do ano le i o, a necessidade de subdi idi as classes. Ou a
compe ência p endia-se com a a ibuição de p émios aos alunos. Não de inha, po ém, julgo
ú il salien á-lo, unções disciplina es. Po ou o lado, o ac o de o no ma i o não de ini
qualque pe iodicidade pa a as euniões e ela os limi es da in luência do conselho escola .
Ainda assim, pa ece-me impo an e sublinha uma ideia an e io men e exp essa: a de es e
ó gão se cons i ui como con apode ao egen e. Na e dade, qualque p o esso podia
con oca o conselho escola e, no caso de disco da das delibe ações nele omadas, de
in e po ecu so. Ac esce que o egen e não inha o o de qualidade. Po im, p e ê-se que
o conselho escola possa ado a medidas des inadas a soluciona si uações u gen es e pa a
as quais o “ egen e não se julgue au o izado a esol e po si só” (Regulamen o p o iso io
das escolas cen aes…, p. 17).
É com o e e ido enquad amen o no ma i o que as escolas cen ais de Lisboa
uncionam no pe íodo comp eendido en e 1883 e 1886 – de ine-se en ão uma o ganização
pedagógica pa a a escola p imá ia pública.
Di iculdades o ganizacionais nas p imei as escolas cen ais ou g aduadas
de Lisboa: de inição e ensaio de “planos de melho ia”
Na secção inicial do p esen e es udo p ocu ei sublinha a in lexibilidade do modelo de
escola g aduada – uma o ganização pedagógica c iada pa a públicos homogéneos. Signi ica
is o dize , man endo p esen e a in es igação de La y Cuban (2008), que a escola g aduada
ca ego iza, seg ega e, em úl ima ins ância, elimina aqueles cuja pe o mance se a as a da
“no ma”. É exa amen e a essa luz que de e se pe cebido o papel do exame – o alice ce do
modelo; como se es e só sob e i esse baseado num sis ema de ep o ação, o qual impõe
aos alunos com um desempenho académico abaixo das expe a i as um a aso em elação ao
pe cu so escola p e is o.
Aquilo que se obse a nas escolas cen ais ou g aduadas de Lisboa no decu so dos anos
de 1880 – quando começa a exis i um nexo en e hie a quização das classes e idade dos
alunos – é a ex ema igidez das modalidades de passagem de uma classe à ou a (o
p opósi o é o de en a assegu a a homogeneidade dos g upos). O a, uma das
consequências di e as dessa igidez é o conges ionamen o de alunos nas classes in e io es.
Es amos pe an e uma di iculdade o ganizacional pe ei amen e iden i icada nas escolas
cen ais de Lisboa no início dos anos de 1880, à semelhança, aliás, do sucedido em F ança
no mesmo pe íodo (KROP, 2015). Com e ei o, em 1882, Eugénio de Cas o Rod igues,
egen e da Escola Cen al n.º 1 de Lisboa, comunica ao pelou o da ins ução
CARLOS MANIQUE DA SILVA
66
a incon enien e acumulação de alunos nas duas p imei as classes e de iciência
do con ingen e o necido po elas às ou as duas, onde po es e ac o a
equência es á sendo quase semp e mui o in e io ao núme o de alunos que
es as podiam compo a . (Ci ado po TERENAS, 1882, p. 39)
De es o, o p oblema mani es a-se desde meados da década de 1870. Veja-se a Tabela
1. Tabela 1. F equência média de alunos na Escola Cen al n.º 1 (1876-1877 a 1879-1880).
Fon e: TERENAS (1882).
Na essência, a ques ão em a e com e icácia, mo i o que le a Eugénio de Cas o
Rod igues a p opo o es abelecimen o de duas p imei as classes pa alelas (1.ª A e 1.ª B);
suge indo o mesmo ela i amen e à segunda (2.ª A e 2.ª B). E i a a-se assim, e as pala as
pe encem-lhe, o “péssimo mas único expedien e de passagens o çadas” (ci ado po
TERENAS, 1882, p. 39). No undo, as medidas p opos as isa am aumen a a equência e
c ia condições mais a o á eis de ap o ei amen o e de p og essão nos es udos. A não
se em cump idas, como adian a ainda, a Escola e -se-ia na necessidade de ecusa
admissões.
As di iculdades o ganizacionais ela adas – que deco em, como se disse, da exis ência
de modalidades de passagem de classe ex emamen e ígidas – se ão pa icula men e
sen idas nas 1.as classes. Os egen es das escolas cen ais equaciona ão en ão di e en es
soluções, no sen ido de esol e o p oblema do di e en e desempenho académico dos
alunos; e i ando, a udo o cus o, as passagens au omá icas.
An es, po ém, de abo da as soluções o ganizacionais ensaiadas nas escolas cen ais no
sen ido de melho a o endimen o escola dos alunos e a sua p og essão nos es udos,
pa ece-me impo an e dedica alguma a enção a uma ques ão es u u an e: a a aliação do
desempenho académico dos alunos. O ci ado Regulamen o p o iso io das escolas
cen aes… p e ê a exis ência de dois ipos de exames, a sabe : i) de ap o ei amen o; ii) de
passagem de classe. O p imei o (a ca go do p o esso da espe i a classe) a igu a-se como
uma espécie de ensaio pa a o segundo (mais o mal e decisi o). Com e ei o, o exame de
passagem de classe p essupõe que es e úl imo seja ei o pelo p o esso da classe in e io e
da imedia amen e supe io . O que es á em causa é impedi que, “sob qualque p e ex o, se
ma iculem ou classi iquem em qualque classe ou g upo alunos que, pelo seu es ado
educa i o, não podem acompanha o ensino p óp io a essa classe ou g upo” (Regulamen o
p o iso io das escolas cen aes…, 1883, p. 21). Nesse documen o não são ainda de inidas
épocas pa a a ealização dos e e idos exames; no en an o, e pelo menos a pa i de 1887, é
Ano le i o
1.ª Classe
2.ª Classe
3.ª Classe
4.ª Classe
To ais
1876-1877
70
52
51
39
212
1877-1878
122
80
63
46
311
1878-1879
138
84
68
41
331
1879-1880
120
74
70
40
304
Di iculdades iniciais do p ocesso de mode nização pedagógica no município de Lisboa: [...]
67
cla a a exis ência de dois pe íodos du an e os quais se e e uam exames de passagem de
classe ( e e ei o / ma ço e agos o) – encon amo-nos já pe an e uma mudança
o ganizacional no sen ido de e o ça a homogeneidade das classes. E e i amen e, a
ealização equen e de exames isa a esse obje i o, ab indo ao mesmo empo a
possibilidade de os alunos concluí em o seu pe cu so escola com maio cele idade; sem
esquece ainda o ac o, decisi o pa a a acionalidade do modelo, de o ciclo de epe ência
não du a um ano le i o comple o. A p óxima abela susci a, ce amen e, á ias
conside ações.
Tabela 2. Exames de passagem de classe na época de e e ei o de 1887 (escolas cen ais de Lisboa).
Escolas cen ais
Classes
Média de
equência
N.º de alunos
Ap o ados
Classes pa a onde
Passa am
N.º 2
1.ª A
51
4
2.ª
1.ª B
37
1
2.ª
2.ª A
31
2
3.ª A
N.º 3
1.ª A
28
11
2.ª
1.ª B
15
2
2.ª
2.ª
21
15
3.ª
N.º 4
1.ª A
45
9
2.ª
1.ª B
40
8
2.ª
N.º 5
1.ª A
49
6
2.ª
1.ª B
26
2
2.ª A
2.ª A
20
6
3.ª A
2.ª B
19
6
3.ª A
N.º 6
1.ª A
45
11
2.ª
1.ª B
46
11
2.ª
1.ª C
52
8
2.ª
2.ª A
30
10
3.ª
2.ª B
23
6
3.ª
N.º 7
1.ª A
25
6
2.ª
1.ª B
24
7
2.ª
2.ª
35
5
3.ª B
N.º 8
1.ª A
32
10
2.ª
1.ª B
22
6
2.ª
2.ª A
32
19
3.ª
2.ª B
16
14
3.ª
N.º 9
1.ª A
50
5
2.ª
1.ª B
20
11
2.ª
2.ª
28
16
3.ª
N.º 11
1.ª A
28
8
2.ª A
1.ª B
23
4
2.ª A
2.ª A
21
10
2.ª B
2.ª B
14
13
3.ª
N.º 12
1.ª
41
11
2.ª
N.º 13
1.ª A
36
11
2.ª A
1.ª B
29
7
2.ª A
1.ª C
23
6
2ª A
2.ª A
16
5
2.ª B
2.ª B
11
8
3.ª
CARLOS MANIQUE DA SILVA
68
N.º 14
1.ª A
29
7
2.ª
N.º 15
1.ª B
28
1
2.ª
1.ª C
49
3
2.ª
1.ª D
24
4
2.ª
N.º 17
1.ª A
16
4
2.ª
1.ª B
33
14
2.ª
2.ª
23
4
3.ª
N.º 19
1.ª A
44
9
2.ª
1.ª B
41
4
2.ª
1.ª C
52
12
2.ª
1.ª D
42
10
2.ª
2.ª A
38
9
3.ª A
2.ª B
33
7
3.ª A
3.ª A
15
10
3.ª B
N.º 22
1.ª A
66
12
1.ª B
1.ª B
27
5
2.ª
2.ª
21
7
3.ª
Fon e: Bole im do Se iço Ge al de Ins ução Pública da Câma a Municipal de Lisboa, n.º 2, 1887.
Cons a a-se que exis em classes pa alelas em odas as escolas cen ais6, sendo que
algumas delas são ascenden es, is o é, co espondem a “g upos de ní el” esul an es da
segmen ação do cu ículo. Po ou o lado, é mui o in e essan e que o oco dos exames de
passagem incida nas 1.ª e 2.ª classes, jus amen e po se em aquelas em que a ges ão da
he e ogeneidade dos g upos se punha com maio p emência (dada a acumulação de alunos
que não ascendiam de “g au”). Há, con udo, uma exceção: a 3.ª classe A da Escola Cen al
n.º 19. Con ém ambém menciona o ele ado núme o de alunos em algumas u mas;
limi ando, do mesmo modo, a ação educa i a dos docen es. A essa luz, e emos
opo unidade de o cons a a , se de e comp eende o ecu so equen e à igu a do moni o .
Po ém, a g ande ques ão é a que se p ende com as ele adíssimas axas de ep o ação. A
si uação é an o mais g a e pelo ac o de os ní eis de ep o ação se em semelhan es nos
exames de passagem ealizados em agos o de 1887 (c . Bole im do Se iço Ge al de
Ins ução Pública da Câma a Municipal de Lisboa, n.º 2, 1887). Assim, não in oduzindo o
ciclo de a aliação bianual a acionalidade p e endida (ou seja, a agilização das passagens de
classe), a g ande consequência é a na u alização da epe ência no cu so in e io . A e dade
é que, nas ci cuns âncias apon adas, g ande pa e dos alunos não chega a às classes
supe io es, não concluindo, dessa o ma, a ins ução p imá ia elemen a .7
O a, como se disse, a acumulação de alunos nas classes in e io es c ia a p oblemas
o ganizacionais, mas ambém é cla a, ao mesmo empo, a exis ência de uma isão
me i oc á ica da escola: o sen ido é o da p omoção social dos melho es alunos. De alguma
manei a, essa ideia eme ge quando analisamos os esul ados dos exames inais de ins ução
p imá ia elemen a (conclusão do cu so, po an o). A en e-se na Tabela 3.
Di iculdades iniciais do p ocesso de mode nização pedagógica no município de Lisboa: [...]
75
6. A on e não e e e as azões pelas quais não o am coligidos dados pa a as Escolas Cen ais n.os 1, 10, 16, 18, 20 e 21.
No caso dos exames de passagem ealizados em agos o de 1887, a mesma on e indica dados pa a odas as escolas
cen ais.
7. Em 1877, o mesmo sucedia nas escolas do Sena (KROP, 2015).
8. Faço, con udo, no a que a u ilização de moni o es e a ex ensí el a ou as classes.
9. Na década de 1880, o município de Lisboa apos a na o mação especializada de moni o es, endo em is a a
o ien ação pa a o magis é io p imá io.
Re e ências
BARROSO, João. Os Liceus. O ganização Pedagógica e Adminis ação. Lisboa: FCG/JNICT, 1995.
Bole im do Se iço Ge al de Ins ução Pública da Câma a Municipal de Lisboa. Lisboa: Câma a
Municipal de Lisboa, n.os 2 e 4, 1887.
CARUSO, Ma celo. Class oom S uggle: O ganizing Elemen a y Teaching in he 19 h Cen u y. In CARUSO,
Ma celo (ed.). Class oom S uggle: O ganizing Elemen a y School Teaching in he 19 h Cen u y.
F ank u : Pe e Lang, 2015, p. 9-37.
CUBAN, La y. F ogs in o p inces. W i ings on school e o m. New Yo k: Teache s College P ess, 2008.
FERREIRA, Teó ilo. Rela o io do pelou o da ins ucção da Câma a Municipal de Lisboa ela i o ao
anno ci il de 1882. Lisboa: Typog aphia No a Mine a, 1883.
GIL, Na ália. Rep o ação e epe ência escola : a con igu ação de um p oblema polí ico-educacional.
Comunicação ap esen ada na 37.ª Reunião Nacional da ANPEd, Flo ianópolis, 2015.
KROP, Jé ôme. Me i oc acia e os Usos da Repe ência na Escola P imá ia Pública F ancesa de 1850 ao Início
do Século 20. His ó ia da Educação, . 19, n. 46, p. 41-52, 2015.
NÓVOA, An ónio. E iden emen e. His ó ias da Educação. Po o: Asa, 2005.
PERRENOUD, Philippe. La ab ica ion de l’excellence scolai e. Genè e: Lib ai ie D oz S.A., 1995.
Regulamen o p o iso io das escolas cen aes do municipio de Lisboa. Lisboa: Imp ensa Nacional, 1883.
SILVA, Ca los Manique da. Do modo de ap ende e de ensina . Reno ação pedagógica e cená ios de
expe imen ação da escola g aduada (1834-1892). Tese (dou o ado em His ó ia da Educação). Lisboa:
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Uni e sidade de Lisboa, 2008.
SLAVIN, Robe (ed.). School and Class oom O ganisa ion. Ho e and London: Law ence E lbaum
Associa es, Publishe s, 1989.
SOUSA, Rosa Fá ima de. Templos de ci ilização: a implan ação da escola p imá ia g aduada no Es ado de S.
Paulo (1890-1910). S. Paulo: UNESP, 1998.
TERENAS, Feio. Escola Cen al Municipal N.º 1. F oebel, n. 5, p. 37-39, 1882.
VIÑAO, An onio. La Reno ación de la O ganización Escola : la escuela g aduada. In OSSENBACH,
Gab iela (coo d.). Psicología y pedagogia en la p ime a mi ad del siglo XX. Mad id: UNED, 2003, p.
73-104.
Co espondência
Ca los Manique da Sil a: In es igado da Unidade de In es igação e Desen ol imen o em Educação e
Fo mação (Ins i u o de Educação, Uni e sidade de Lisboa). Tem como á eas de in e esse a ci culação
e di usão do conhecimen o pedagógico, a escola g aduada, o ensino mú uo e a a qui e u a escola . De

CARLOS MANIQUE DA SILVA
76
en e as suas publicações, salien a-se: Escolas Belas ou Espaços Sãos? Uma Análise His ó ica Sob e a
A qui e u a Escola Po uguesa (1860-1920), Lisboa, IIE, 2002. Tem colabo ado em á ios p oje os de
in es igação de que se des acam: Liceus de Po ugal e Educação e Pa imónio Cul u al: Escolas,
Obje os e P á icas. Foi p o esso isi an e na Uni e sidade Es adual de S. Paulo (B asil) e na
Uni e sidade de O iedo (Espanha).
E-mail: maniq[email p o ec ed].p
Tex o publicado em Cu ículo sem F on ei as com au o ização do au o