Quade ns de Psicologia | 2011, Vol. 13, No 1, 91-101
ISNN: 0211-3481
h p://www.quade nsdepsicologia.ca /a icle/ iew/919
A qui os U banos: Memó ia e His ó ia na Cidade
The U ban A chi es: Memo y and His o y in he Ci y
Paula Uglione
Fundação Ca los Chagas Filho de Ampa o à Pesquisa no Es ado do Rio de Janei o/FAPERJ/Uni e sidade Fede al do Rio
de Janei o
C is iane Dua e
P og ama de Pós-G aduação em A qui e u a PROARQ/Uni e sidade Fede al do Rio de Janei o/UFRJ
Resumen
O p esen e a igo ap esen a uma me odologia de análise da paisagem u bana, desen ol ida
sob uma pe spec i a da memó ia como elemen o undamen al na elação pessoa-ambien e.
É a pa i da memó ia que as pessoas elacionam-se consigo mesmas e com o mundo que as
ce cam. Mas a memó ia não é algo que es á em algum luga na men e, não é a mazenagem
daquilo que oi i ido, mas é um p ocesso de mon agem, semp e a ualizada, de a qui os,
de epe ó ios. Memó ia é p ocesso de ep esen ação psíquica das coisas, é simbolização. A
memó ia é semp e equisi ada na cons ução subje i a do eal. Conhece os a qui os que as
pessoas cons oem dos espaços u banos exis en es em suas ealidades de ida, possibili a
conhece de que manei a es a cidade exis e, simbolicamen e, ou seja, como ela é “in en-
ada” na paisagem u bana. Assim, endo como obje i o conhece e analisa a paisagem u -
bana in en ada pelos seus mo ado es, desen ol emos uma me odologia de esc i as de his ó-
ias da cidade, que se chamou A qui o Mnemônico do Luga . Aqui ap esen a emos as e a-
pas, os p ocedimen os e os esul ados da u ilização des a me odologia, num es udo de caso
na cidade do Rio de Janei o, mais especi icamen e, no es ádio de u ebol Engenhão. A u ili-
zação da me odologia demons ou que as me á o as são o es indicado es dos signi icados
que as pessoas a ibuem aos luga es. Alguns espaços, cons uídos ou não na paisagem u ba-
na, possuem uma g ande capacidade de aciona o abalho da memó ia, sendo impo an es
a qui os u banos da cidade
Palab as cla e: Memó ia; A qui os u banos; Cidade
Abs ac
This pape p esen s a me hodology o u ban landscape analysis, de eloped wi h an unde -
s anding o memo y as a undamen al elemen in he pe son-en i onmen ela ionship. The
way people see hemsel es and he wo ld a ound hem is p ima ily in luenced by memo y,
which is much mo e han a me e s o age o expe iences si ua ed somewhe e in an indi idu-
al’s mind. I is a he an ongoing cons uc ion and upda e o “a chi es.” Memo y is a p o-
cess o psychic ep esen a ion o hings; ha is, symboliza ion. Fo his eason, i is always
equi ed in he subjec i e cons uc ion o eali y. Ge ing o know he a chi es people
build up abou he u ban spaces su ounding hem allows he obse a ion o he symbolic
exis ence o hei ci y and how i is “in en ed” h ough he u ban landscape. Thus, aiming
o in es iga e and analyze he u ban landscape “in en ed” by i s inhabi an s, we ha e de-
eloped a me hodology o w i ings o s o ies abou he ci y, which has been named A -
qui os Mnemônicos do Luga (“Place Mnemonic A chi e”). In his pape we will p esen he
Uglione, Paula y Dua e, C is iane
h p://quade nsdepsicologia.ca
92
s ages, p ocedu es, and esul s achie ed by he me hodology in he ci y o Rio de Janei o,
mo e speci ically a he Engenhão s adium. The use o he me hodology has demons a ed
ha me apho s a e a majo indica o o he meanings people associa e wi h places. Some
spaces in he u ban landscape, ei he occupied by buildings o no , ha e p o ed excellen
a jogging people’s memo ies, being he e o e impo an “u ban a chi es” o he ci y.
Keywo ds: Memo y; U ban A chi es; Ci y
In odução
1
A cidade con empo ânea ans o ma-se insis-
en emen e num i mo caó ico e agmen a-
do. Mui as ezes busca po uma “boa isibili-
dade” dessa cidade pode se uma o ma de
“sossega ” as inquie ude que esse espaço
p o oca com suas in e ogações. Es udos ea-
lizados na cidade do Rio de Janei o (Dua e &
Uglione, 2005; 2008) indicam, numa ou a di-
eção, que alguns luga es numa cidade embo-
a enham uma o e p esença isual na pai-
sagem de um bai o, não êm, necessa iamen-
e, impo ância signi ica i a na cons ução da
“imagem” da cidade ei a pelos seus mo ado-
es. E ambém, ais luga es, ainda que não
sejam emblemá icos, possuem uma espécie
de “ o ça e elado a” que em po e ei o
des ela “silêncios” da cidade. Que luga es
são, es es, numa cidade? Que luga es, ainda
que não emblemá icos, ainda que não ma cos
u banos, ainda que não necessa iamen e e e-
ências imagé icas na paisagem u bana, pos-
sui iam al o ça des elado a dos silêncios das
cidades a uais?
Que luga es ou os, al ez pouco econheci-
dos, al ez ecen es no e i ó io, pode iam
ajuda a o ien a caminhos pa a a comp een-
são e a p omoção de ans o mações que
eme gem e que con igu am os e i ó ios u -
banos na a ualidade? Pa a Pie e No a (1997)
“os luga es de memó ia não são aqueles dos
quais nos lemb amos, mas lá onde a memó ia
abalha” (p. 18). A memó ia, pode-se conclu-
i do au o , não pe ence ia aos luga es, ela
não es a ia con ida nos luga es, mas esses
mobiliza iam, aciona iam, p oduzi iam me-
mó ias. Tal ez, en ão, ao in és de pe segui
luga es emblemá icos (luga es “his ó icos”,
“monumen ais”) numa cidade, de e íamos
en a encon a luga es que e iam um po-
encial de aze a memó ia “ abalha ”. Ten-
a encon a luga es de memó ia na cidade.
1
Agência de pa ocínio: Fundação Ca los Chagas de Am-
pa o a Pesquisa do Es ado do Rio de Janei o/FAPERJ.
E is o não se con unde com a busca po qual-
que ipo de luga -gua dião que unciona ia,
pelo seu peso de signo, como p o e o dos
e ei os co osi os que o empo deixa (ine i a-
elmen e) na ida, luga es nos quais es a ia
“gua dada” uma memó ia a espe a po se
descobe a e con emplada como p o a ( alsa)
da esis ência humana con a o empo, o im-
p e isí el, a mo e.
Pa a Gilles Deleuze & Félix Gua a i
(1972/2010) é en e aos acon ecimen os, aos
ins an es de adei os nos quais a ampulhe a
gi a, que o psiquismo, es a máquina-
desejan e, é acionada a p oduzi (ou os e di-
e en es) signi icados pa a a ida. É en e ao
no o, à al a de signi icado, ao caos, que a
“ ida insis e em busca um sen ido” (Con e,
2001, p. 153). É en e às ans o mações da
ida que somos con ocados a cons ui as nos-
sas p óp ias his ó ias indi iduais e cole i as. É
en e às “suspensões”, aos azios p óp ios
dos “deslocamen os” na cidade, que a máqui-
na de esc i u a da memó ia u bana é a i ada
pa a as suas a e as. Luga es de Memó ia, que
po es a em em suspensão na cidade, exigem
da memó ia o seu abalho. Luga es em des-
locamen o no ecido u bano, luga es em
ans o mação. Um espaço que passa po uma
ans o mação, po uma mudanças na sua
con igu ação mo ológica, uncional, é um lu-
ga que se encon a em suspensão, que se en-
con a no ácuo ine en e do es a en e o que
oi e o que se á. Es es luga es, luga es em
suspensão, podem, al ez, guia - pesquisado-
es, ges o es da cidade, u banis as – em di e-
ção a uma lei u a dos mo imen os e i o iais
pelos quais passa a u bis con empo ânea. O
p esen e a igo si ua-se nes e con ex o, e ne-
le ap esen am-se p essupos os, concei os e
alguns esul ados ace ca do desen ol imen o
de uma abo dagem de lei u a da cidade.
Memó ia, Iden idade e Acon ecimen o
Es ou ce o de que os mu os con a incêndios êm
maio pode de impac o em nossa memó ia do
que as achadas p incipais... em ce o sen ido,
A qui os U banos: Memó ia e His ó ia na Cidade
Quade ns de Psicología | 2011, Vol. 13, No 1, 91-101
93
uma cidade se de ine po seu impac o na memó-
ia das pessoas. (Wende s, 1984, p. 89).
Em 1895, Sigmund F eud esc e e um exo cé-
leb e chamado P oje o de uma Psicologia Ci-
en í ica. Nes e ex o, num momen o ainda
inician e de sua eo ização, F eud ap esen a
um modelo de psiquismo pensado como uma
“máquina de esc e e ”. Máquina, ou apa elho
psíquico, como F eud acabou denominando,
que i ia, em passos sucessi os e complemen-
a es, cap u ando, o ganizando e disponibili-
zando elemen os pa a se em o epe ó io a
pa i do qual as expe iências pe cep i as,
compo amen ais, cogni i as e a e i as de
cada pessoa encon a iam um supo e. Máqui-
na de esc i u a que do a ia cada pessoa de
uma ex ao diná ia capacidade de “mon a ”,
mo ida po mecanismos psicológicos ex e-
mamen e complexos, “ e dades” a pa i das
quais a ida adqui i ia signi icado e ealidade.
E is o se ia a memó ia humana: uma máquina
de mon agem de uma ma iz (um a qui o) ei-
a de aços, a pa i da qual o homem elaci-
ona -se-ia consigo e com o mundo que o ce -
ca. E o psiquismo se ia, em úl ima ins ância,
um a qui o de memó ia.
Toda his ó ia é um e e no ecomeço. E a me-
mó ia pa icipa ia a i amen e desse ecome-
ço. Quando uma edi icação impo an e pa a a
ida de um g upo de pessoas é des uída, po
exemplo, numa cidade, é p eciso ecomeça ,
é p eciso jun a os pedaços, aze um ema-
nejamen o do que e a. E assim na ida, de
modo ge al.
Esse é o mo imen o da his ó ia na ida: e-
começa . E a memó ia, enquan o p ocesso
psicológico, nada mais é do que a
( e)esc i u a que o psiquismo ai azendo
en e aos acon ecimen os da ida.
Mau ice Halbwachs (1967) em seu conhecido
a ado sob e memó ia cole i a, sinaliza que
o papel c ucial da memó ia na e-esc i u a
das his ó ias incide p incipalmen e no o a-
lecimen o das iden idades dos g upos numa
sociedade. No mesmo caminho, pa a S e en
Hoelsche & De ek Ade man (2004), memó ia
e luga são undamen ais na p odução dos
elemen os que es u u am as iden idades mo-
de nas.
Jacques De ida (1995/2001), po sua ez, em
uma e-lei u a daquele modelo eudiano de
psiquismo enquan o a qui o de memó ia, en-
a iza a enda sob e a qual a memó ia ope a-
ia. A memó ia, en a iza o au o , é uma e -
amen a con ocada a abalha nos “acon e-
cimen os” da ida, lá onde oco e am up u-
as de iden idade, onde oco e am asgos de
econhecimen o. E, po se uma “máquina es-
c i u á ia” (De ida, 1995/2001), a memó ia
ein en a ia signi icados, egis ando no psi-
quismo o que ainda não exis ia enquan o ma -
ca mnemônica. Enquan o esc i u a, ela p o-
duz epe ição di e encial daquilo que oi “ a-
chado” pela in ensidade do acon ecimen o, e
assim, na “ epe ição di e encial” que ela
p oduz, o que su ge é o “simulac o”, o duplo,
o es anho, o no o, que unda mundos di e-
enciais e, po an o, a ís icos, iccionais (De-
leuze, 2011). O que se p oduz no campo da
memó ia, nos a qui os de memó ia, é semp e
da o dem da icção.
Ao complemen a seu modelo de apa elho
psíquico, F eud (1896/1996) mos a, ia es u-
dos de casos clínicos, que os aços cons i u-
i os do psiquismo são (imp e e i elmen e)
a a essados po an asias, po lemb anças de
coisas que nunca acon ece am, mas que o-
am an asiadas po aquele que lemb a. Po -
an o, os a os que compõem uma his ó ia,
indi idual ou cole i a, acon ece am ou são
uma icção do seu in é p e e? Não há como
dis ingui , diz a eo ia eudiana; as his ó ias
cons uídas pela memó ia ap oximam-se a um
imaginá io li e á io. Po im, a memó ia não é
um a qui o de egis os a se em ecupe ados,
ela é o exe cício do egis o, ela é a cons u-
ção de “a qui os”. A memó ia é con ocada a
abalha nos “acon ecimen os” da ida, po -
que ela c ia, ela in en a signi icados a pa i
dos quais uma (no a) ida pode á acon ece .
Es es são os e e enciais eó icos sob e ao
quais alice çamos o p esen e es udo. Concep-
ções de memó ia, de a qui o e de his ó ia
que nos o nece am um apo e eó ico pa a
e le i sob e a cidade con empo ânea e suas
eme gências de ans o mação. Concepções
que solidi icam nosso en endimen o de que o
"exe cício" psicológico de cons ução de a -
qui os é unção p emen e na a e a de c ia
as es u u as simbólicas que “edi icam” os
modos como as pessoas in e agem com o
mundo ísico, a qui e ônico e u banís ico nos
quais i em. Concepções que essal am o ca-
á e a i o, cons u i o, e a ual, p esen e da
memó ia. E, nes e sen ido, que possibili am
uma isão in e essan e e o imis a sob e as
o ças que agem e que podem se acionadas
Uglione, Paula y Dua e, C is iane
h p://quade nsdepsicologia.ca
94
nos momen os em que a ida exige econs u-
ção.
No que conce ne ao planejamen o u bano,
ais concepções indicam que a memó ia de e
se um elemen o-cha e pa a as polí icas de
in e enção, especialmen e quando se “ ein-
en a ” pa ece se uma espe ançosa (ou ne-
cessá ia) pos u a en e ao p esen e e ao u-
u o das cidades con empo âneas. Po is o,
buscando con ibui com as e lexões sob e
essas cidades, desen ol emos uma me odolo-
gia de in e enção, que denominamos A qui o
Mnemônico do Luga , e que é uma espécie de
“máquina de esc i u a” que ajuda ia a conhe-
ce e a es imula o mas a a és das quais as
pessoas azem en e aos acon ecimen os da
ida u bana.
A qui o Mnemônico do Luga
Moldagem do Luga e as “No as” Me odolo-
gia pa a Análise e In e enção no U bano
Di e sos es udos das á eas das ciências sociais
e humanas u ilizam-se do concei o de Luga .
Pa a Yi-Fu Tuan (1983), “espaços” ans o -
mam-se em “luga es”, e is o oco e a a és
da expe iência subje i a no espaço. Não exis-
e um momen o exa o em que o espaço “se
o na” Luga , mas um p ocesso con ínuo, inin-
e up o e impe cep í el (em mui os aspec-
os) no qual o ambien e é modi icado: ecebe
a e os, oma no as signi icações, modi ica o
sujei o que o usa. A esse p ocesso inin e up-
o, C is iane Dua e (1993) chamou de “mol-
dagem do Luga ”. Na passagem do espaço ao
luga , há um p ocesso a esanal de in e ação
en e pessoas e o ambien e cons uído - nes e
sen ido “moldagem”.
Alguns es udos ealizados na cidade do Rio de
Janei o, ilus am es e ca á e de moldagem
do luga , que as expe iências humanas ope a-
iam nos espaços.
Num es udo ealizado po Dua e (1994), na
a ela Ma a Machado, cons a ou-se que o en-
aizamen o dos mo ado es ao local oi um
quesi o undamen al na ida das pessoas que
mo a am naquela a ela. A a qui e u a do lo-
cal, com suas uas e ielas con o mam um es-
paço único, capaz de ansmi i segu ança e
a e o necessá ios pa a ga an i um supo e
anqüilo de con í io e p epa ação pa a a i-
da u u a das ge ações que es ão se o man-
do. O es udo ambém demons ou que ao usa-
em os luga es da a ela, os mo ado es ein-
en am seu passado de lu a pela conquis a do
bai o que, no início do século XX, e a uma
p op iedade de cul i o de ca é. Cada iela e
cada beco se ap esen am como pa es de um
passado e-cons uido cons an emen e: o a se
a a do local de uma á o e que se iu pa a
esconde a cons ução de um ba aco e que,
ao se emo ida, con e iu a seu “dono” o s a-
us de mo ado de ini i o, o a das ma gens do
iacho onde os mo ado es mais an igos eali-
za am as euniões da associação de mo ado-
es. Na expe iência desses mo ado es com o
espaço, os signi icados a ibuídos aos luga es
ão se ma e ializando em e en os u banos
que, po sua ez, explicam, po exemplo, a
azão da exis ência de locais “ azios”, como
e dadei as cla ei as den o de uma densa
ocupação, uncionando quase como san uá ios
dedicados à memó ia das conquis as de posse
da e a.
Ou o es udo lide ado po Alice B asilei o
(2000), ambém na cidade do Rio de Janei o,
que acompanhou o desen ol imen o dos lo-
cais de encon o de um conjun o habi acio-
nal, as modi icações das suas p aças e dos
seus espaços de uso comuni á io, concluiu
que, quando um g upo social compa ilha i-
sões de mundo, suas aspi ações, expec a i as
e espos as às di iculdades ap esen adas pelo
co idiano uncionam como um cimen o de
união social que encon a nos espaços cons-
uídos o locus de expe imen ação, i ência e
sociabilidade pa a se consolida .
Um e cei o es udo, ealizado po Ana Lúcia
San os & C is iane Dua e (2002), a pa i da
análise da população de ua, a i ica a con-
cepção da a qui e u a como cons ução de lu-
ga es, como uma manei a de p oduzi o mun-
do e, des a o ma, p oduzi -se a si-mesmo. No
e e ido es udo, a cons ução de uma “casa
in isí el” oi iden i icada no uso de equipa-
men os imp o isados pa a delimi a espaços
di e enciados na ocupação das uas: “salas”,
“qua os”, “cozinhas”, e am mon adas pelos
p óp ios mo ado es de ua, com a disposição
de obje os pessoais e es os de ma e iais en-
con ados na ua. Tal es udo pe mi iu com-
p eende que, des i uídos do supo e espacial
da “casa”, os mo ado es de ua desen ol em
mecanismos de compensação pa a sup i suas
necessidades de espacialização das es u u as
amilia es e de p o eção. Ve i icou-se, sob e-
udo, que a espacialização da mo ada é es-
sencial pa a a in eg idade psíquica do sujei o.
A qui os U banos: Memó ia e His ó ia na Cidade
Quade ns de Psicología | 2011, Vol. 13, No 1, 91-101
95
Es udos, es es, que dão indica i os cla os do
aspec o dinâmico e “ i o” da moldagem do
luga .
O espaço cons uído é, acima e an es de udo,
um a e a o cul u al, e is o po que é, sob e-
udo, linguagem, po que é po ado de signi-
icados e, p incipalmen e, po que é ma e ia-
lização da isão de mundo dos g upos que o
p oduzem.
Assim, ap ende a olha , a le e a escu a a
cidade e seus luga es como p ocessos de
ans o mação ísica e espacialização de alo-
es é icos e es é icos, passa a se uma a e a
e um desa io pa a odo pesquisado do u ba-
no.
A obse ação a en a (B asilei o, 2007), o
olha de den o e de pe o (Magnani, 2002), a
ime são na ambiência (Dua e, 2007), são
exemplos de oda uma “no a” pe spec i a
me odológica que a a qui e u a e o u banismo
ap opiam-se e e-signi icam den o de sua
“no a agenda” (Nesbi , 2006).
Na a i as do Luga e Na a i as Me a ó icas
do Luga
O A qui o Mnemônico do Luga si ua-se e jus-
i ica-se nes e con ex o de “no as” abo da-
gens de lei u a e de in e enção na cidade.
O A qui o Mnemônico do Luga é uma me o-
dologia que compa ilha, an es de udo, com
a c ença de que “o conhecimen o do mundo
se dá po múl iplas e con adi ó ias pe spec-
i as” (Uglione, 2008, p.67) e em como p in-
cípios: 1) a memó ia é um elemen o unda-
men al na elação pessoa-ambien e; 2) quan-
do con ocamos alguém a “ aze sua memó ia
abalha ”, es amos acili ando o abalho de
signi icação de uma dada ealidade.
A paisagem u bana “in en ada” pelos seus
mo ado es: is o é o que o A qui o Mnemônico
do Luga p ocu a conhece e, ao mesmo em-
po, almeja es imula , ou seja, é uma e a-
men a que ao se u ilizada na busca de co-
nhecimen os sob e a cidade, ambém é uma
e amen a que “con ida” os mo ado es de
um bai o a “in en a ” sua cidade, a im de
que ela exis a signi ica i amen e nos a qui os
indi iduais e cole i os de cada um e da cidade
com um odo.
A qui o Mnemônico do Luga é um concei o
que omamos “emp es ado” das concepções
de memó ia e de egis o mnemônico an o
de F eud (1895/1996) quan o de De ida
(1995/2001).
Na abo dagem de lei u a da cidade que de-
sen ol emos, chamou-se de A qui o Mnemô-
nico do Luga ao p ocesso que é a i ado ao
se ei o pa a alguém uma demanda de e-
memo ação ace ca de um espaço cons uído e
seu en o no, na cidade. P ocesso, es e, que,
segundo F eud (1914/1996), aciona ia di e-
en es opologias (conscien e, p é-conscien e,
inconscien e) e mecanismos psicológicos (cap-
u a, “apagamen o”, insc ição, ep esen ação
de aços) no “exe cício” de insc ição no psi-
quismo, dos aços e idos pela pe cepção.
Os p ocedimen os me odológicos do A qui o
Mnemônico do Luga consis em em: 1) solici-
a a um g upo de pessoas que na em sob e
as eco dações que êm ace ca de de e mina-
dos espaços da cidade; 2) compo um ex o,
chamado Na a i a do Luga , ei o do conjun-
o dos ela os des as eco dações; 3) selecio-
na do ex o compos o (da Na a i a do Luga )
as me á o as p esen es; 4) compo um segun-
do ex o, chamado Na a i a Me a ó ica do
Luga , ei o das me á o as selecionadas e
ag upadas po con inuidade e po semelhança
en e si.
A Na a i a do Luga , em seu con eúdo mani-
es o (o ex o o mado pelos ela os) é oma-
da enquan o o conjun o dos aços que che-
gam à consciência dos seus na ado es. Nela,
as me á o as p esen es são omadas como zo-
nas de somb a (Pollack, 1989), como “ ipolo-
gias do silêncio”, como duplos, como aquilo
que se epe e (di e encialmen e) na memó ia
enquan o e ei o da simbolização (a a és de
“jogos” de linguagem) de aços que, num ou-
o empo (passado), pelos mecanismos psico-
lógicos de “apagamen o”, não o am insc i os
no psiquismo.
A linguagem em seus pon os de in isibilidade
(De ida, 1973), uma ez que ela é capaz de
ocul a (pa a a consciência) o que se insc e-
eu ou de insc e e (no inconscien e) o que
não es á esc i o (na consciência).
No seu conjun o, o A qui o Mnemônico do Lu-
ga , a a és de seus p ocedimen os, “imi a-
ia” os mecanismos nomeados po F eud
(1914/1996), ou seja, ela se ia uma e amen-
a de “ aze a memó ia abalha ”, de eali-
za a cons ução de a qui os pessoais e cole-
i os na e da cidade, nos quais aquilo que es-
a a ocul o mas que insis e em se insc e e
Uglione, Paula y Dua e, C is iane
h p://quade nsdepsicologia.ca
96
como aço – e que apa ece ia “escondido” na
o ma me a ó ica - es a ia ambém p esen e.
A Na a i a do Luga esc e e uma his ó ia do
luga , compos a a pa i de ela os o ais de
“na ado es” da cidade (pessoas que mo am
e/ou ansi am pelos bai os de uma cidade),
e a Na a i a Me a ó ica do Luga esc e e a
mesma his ó ia, mas a a és de suas somb as,
seus duplos, seus silêncios. Essa, compos a a
pa i das me á o as p esen es na Na a i a
do Luga , e endo, como na ado es, os pes-
quisado es/in e en o es na cidade.
Na a i a do Engenhão
O Es ádio Olímpico João Ha elange, conheci-
do como Engenhão, localiza-se no bai o de
classe média e média-baixa na Zona No e da
cidade do Rio de Janei o, chamado Engenho
de Den o. Es e bai o em sua o igem no pe-
íodo colonial do B asil, endo sido em oda a
sua ex ensão um engenho de açúca . A pa i
da segunda me ade do século XIX, em suas
e as começou a passa a Es ada de Fe o
Ped o II, pos e io men e denominada Es ada
de Fe o Cen al do B asil.
O Engenhão oi planejado pa a in eg a o con-
jun o das ob as des inadas aos Jogos Pan-
ame icanos de 2007 no B asil. Cons uído no
an igo e eno da Rede Fe o iá ia Fede al,
suas ob as inicia am-se em 2003 e o am ina-
lizadas em 2007.
A edi icação do Engenhão oi o esul ado de
um b usco p ocesso de ans o mação no bai -
o e na ida das pessoas que nele esidem ou
ci culam. O Engenho de Den o, um bai o es-
sencialmen e amilia , cuja o ganização sem-
p e gi ou em o no das o icinas de ens que
exis iam no e eno da Rede Fe o iá ia, ago-
a ecebia uma cons ução de g ande escala,
que exigia mudanças adicais na sua in a-
es u u a e, p incipalmen e, que al e a a
uma longa his ó ia de o inas e a i idades
que, po mui os anos, acon eciam no local.
Uma edi icação que p o oca a acon ecimen-
os, que azia gi a a ampulhe a da ida do
bai o, acionando signi icações a pa i das
quais no os e i ó ios pode iam (e necessa i-
amen e p ecisa iam) se con igu a naquela
paisagem u bana.
Com is o, o Engenhão nos pa eceu um luga
em suspensão na cidade. Um luga sob e o
qual ale ia a pena se deb uça e a a és dele
islumb a e es imula o p ocesso de “in en-
ção” da cidade.
E assim izemos, omando o Engenhão como
espaço sob e o qual “na ado es” do bai o
a iam seus ela os e, a a és da Na a i a do
Engenhão e da Na a i a Me a ó ica do Enge-
nhão, in en a iam uma (ou a) his ó ia pa a
aquele bai o, pa a aquele luga na cidade.
U ilizando os p ocedimen os do A qui o Mne-
mônico do Luga , conside amos os anseun-
es do bai o Engenho de Den o como possí-
eis na ado es de his ó ias do Engenhão: lei-
o es/ou in es da cidade, sujei os de memó-
ia, impelidos pelas ped as da cidade a aze-
em suas “máquinas de esc i u a” abalha e
da signi icado a uma no a ealidade que se
con igu a a.
Den e esses anseun es do bai o, pa icipa-
am como “na ado es”, 54 (cinqüen a e
qua o) sujei os, homens e mulhe es com ida-
des en e 16 (dezesseis) e 24 ( in e e qua o)
anos. A seleção dos na ado es oi ei a de
o ma espon ânea, sem es a i icação p é ia,
e endo como c i é io a disposição das pesso-
as que anda am nas uas do bai o pa a “con-
a algo sob e o Engenhão” – pe gun a que
inicia a o con a o en e os pesquisado es e
aqueles que ci cula am no bai o.
No que conce ne ao núme o de na ado es,
seguiu-se um c i é io bas an e subje i o indi-
cado po Jacques Ma e (1991), que é o do
esgo amen o de in o mações, ou seja, in e -
ompe a solici ação de no os sujei os quando
a “no idade” não es á mais ão p esen e nos
ela os.
A pa i do momen o em que os sujei os de-
mos a am disponibilidade pa a con a suas
his ó ias do Engenhão, inicia a-se uma “con-
e sação o diná ia” (Ricoue , 1998) en e na -
ado ( anseun es no bai o) e o ecep o
(pesquisado ). O empo de du ação das con-
e sas a ia a con o me a disponibilidade dos
na ado es e as ci cuns âncias nas quais as
con e sas oco iam. Os ela os o ais dos na -
ado es o am g a ados pelos pesquisado es
no momen o da con e sa e ansc i os com o
auxílio das ano ações ei as pelo pesquisado
du an e a con e sa.
Esses ela os o ais compuse am a Na a i a do
Engenhão, uma na a i a cole i a, ei a da
jus aposição de ela os o ais indi iduais dos
di e sos na ado es.
A qui os U banos: Memó ia e His ó ia na Cidade
Quade ns de Psicología | 2011, Vol. 13, No 1, 91-101
97
A segui , um echo da Na a i a do Engenhão
compos o pelos ela os de qua o na ado es,
que, pa a man e o anonima o, chama emos
de na ado A, na ado B, na ado C e na -
ado D. Rela os ob idos de "con e sas" eali-
zadas en e os dias 01 e 10 do mês de junho
do ano de 2008. Es e echo oi escolhido ale-
a o iamen e, den e os demais que compõe a
Na a i a do Engenhão, e no qual es á a p e-
sença do que conside amos se uma me á o a
na Na a i a do Engenhão.
Meu pai e a comunis a. Os p édios e am p os a-
balhado es da Cen al e o am leiloados, oi um
cambalacho: a Cen al ez um jogo que os p édios
que o am cons uído em 1940 e a endido como
se oi cons uído em 1960 (na ado A, en e is a
pessoal, 04 de junho de 2008). Tinha uma o icina
T ajano de Medei os que e a subsidiada da Cen-
al... inha um ime de u ebol o Adélia e o En-
genho de Den o. Mas udo e a uma imundice
(na ado B, en e is a pessoal, 10 de junho de
2008). Es e Es ádio oi uma pilan agem, e o di-
nhei o oi de quem? O Engenhão não é usado
mesmo. Não exis e e en o nenhum. E depois da
ob a em al a de água nos apa amen os (na a-
do C, en e is a pessoal, 04 de junho de 2008).
T anqüilo, sem g andes comé cios...a é hoje não
i no idades com esse museu (Engenhão)...é um
ele an e b anco (na ado D, en e is a pessoal,
04 de junho de 2008).
Na a i a Me a ó ica do Engenhão
Ele an e b anco é uma me á o a na Na a i a
do Engenhão po que é uma pala a que signi-
ica ( an as) ou as pala as.
Di e sas me á o as es a am p esen es nos e-
la os o ais dos na ado es do Engenho de Den-
o, como po exemplo, mons o pa ado,
em an asma, en e ou as. Con udo, ne-
nhuma delas apa eceu nos ela os, epe idas
ezes, como oco eu com a me á o a ele an e
b anco. Essa, e o na a e e o na a no amen-
e nos ela os, pa ecendo insis i no abalho
de se insc e e nos a qui os do luga . E po
is o oma emos ela pa a ilus a um echo da
Na a i a Me a ó ica do Engenhão.
Quais ou as pala as es a me á o a pode ia
es a signi icando? O que é o ele an e b anco?
Que aço(s) ele simboliza na Na a i a do En-
genhão? O que insis e em se insc e e nas his-
ó ias do luga e da cidade?
Pe co endo ais pe gun a e seguindo os p o-
cedimen os do A qui o Mnemônico do Luga ,
pe co emos a Na a i a do Engenhão em bus-
ca dos aços que se liga am a ele an e b an-
co, bem como em busca de ou as me á o as
que pa eciam ap oxima -se deles, seja po
con inuidade, seja po semelhança.
Pe co endo, assim, a Na a i a, ago a e am
os pesquisado es que, no papel do que De i-
da (1995/2001) chama “in é p e es do a qui-
o”, se iam os na ado es na Na a i a Me a-
ó ica do Engenhão.
A segui , echos da Na a i a Me a ó ica do
Engenhão, esc i os a pa i da ap oximação
en e as me á o as (e seus aços) Ele an e
B anco e Mons o Pa ado.
É um luga abandonado pelo desin e esse, pelo
esquecimen o, pela não/má u ilização. O aban-
dono é, acima de udo, o de sua dis uncionalida-
de, a inal ele e a o luga (dos ens) que não es-
a a uncionando. Ele é dis uncional: o campo
em qua o en adas, mas icou um azio mui o
g ande. Ele e a uma á ea eno me, mas inap o ei-
á el. Uma o icina com á ios ens, mas pa ados.
Sua exis ência semp e oi pesada: ele oi um e -
eno cheio de em. Ele é es e gigan e, mas ago a
ele é bom, em segu ança, mo imen o e luc o, a
ua ica animada.
Seu abandono decepciona: a á ea oi alo izada,
mas a pada ia ali da esquina aliu. No começo, a
sua cons ução pa ecia uma boa, mas depois aca-
bou não alo izando a á ea nem azendo g andes
mudanças. Pa ecia que e ia mais mo imen o.
P ome e am um iadu o, ala gamen o das uas, e
nada. Mas pode apos a ! Nele se ac edi a, o bai -
o melho ou, em gen e ci culando, é mais boni-
o, e udo alo izou.
Longe de se a “solução” é a “boa so e” da cida-
de: Se não i essem cons uído o es ádio, e ia se
ans o mado num a elão. Como um o namen o
(um ele an e b anco na es an e) meio “ o a de
moda” na cidade, não é uma ob a de p imei a
qualidade, ele é p a “inglês e ”. Pelo menos i-
cou mais boni o que an es...ago a: celeb idades!
Mas ele ouxe ida ao bai o, é po sua causa
que odo mundo ago a lemb a do Engenho de
Den o.
Ele melho ou o isual, o ambien e, as calçadas, é
um bicho imp essionan e, e em a é u is a ago a
aqui. Ele é uma ilusão. En e espe ança e des-
c ença, es e ele an e b anco se man ém p esen e
no cená io u bano, ino ensi o. Ele pa ece acomo-
da -se à cidade: anqüilo, sem g andes comé -
cios. Tem uma escola pública onde bo a am um
mu o e ela icou lá.
Lá só e e joguinho de b incadei a! Ele é um lu-
ga do jogo enquan o b incadei a: sua en e gadu-
a é a da di e são, do lúdico. Mas é na sua dasa-
i ação (que icou desa i ado), na sua condição
( al ez imp e e í el) do que não se cump e o-
almen e, do que decepciona, em seu abandono –
e possi elmen e po causa dis o udo – é que o
jogo e a ida nele acon ecem: depois icou udo
abandonado e o pessoal passou a pula o mu o
pa a joga bola no campinho, a sol a pipa em
cima dos ens.
Uglione, Paula y Dua e, C is iane
h p://quade nsdepsicologia.ca
98
Em seu dese o, inha pé de melão, manga, bam-
bu. No e eno azio que não acon ecia nada, lá
oi o luga da in ância, onde o pai, o io e o a ô
abalha am. É na dis uncionalidade que ele i e
no bai o: quando em jogo (o icial), eles só
ab em as saídas onde não em comé cio, é só
p ejuízo. Ninguém in adiu nada, ele oi e con i-
nua sendo ocupado (pelos desocupados?): clube
de idosos, es as, ca na al, meninos que b incam
de ska e, de bicicle a. Ele é um luga ipo museu,
que não mos a nada de no idade, pelo con á io,
e a um depósi o de em, de saudades, de acas-
sos e de expec a i as; um campão sem p édios,
abe o, pa ado, cujo des ino pa ece se o de dei-
xa mesmo um espaço mui o g ande na cidade, o
de ci cunsc e e (enchendo com e agens, po
exemplo) um luga azio onde seja possí el um “a
longo p azo” (um u u o) na cidade.
Silêncios na Cidade e Luga de Memó ia
O Engenhão ompeu silêncios da/na cidade,
con ocando as pessoas a in en a em his ó ias
dele, do bai o e de si mesmas.
A a és dele (Engenhão) e de sua o ça en-
quan o “acon ecimen o” na cidade, o passado
é e-esc i o na medida em que o p esen e
exige um sen ido.
O Engenhão é um “luga de memó ia”?
Sim, se po meio des e e mo es i e mos do-
ando-o da capacidade de p o oca up u as
na cidade, e com elas a u gência de memó ia,
se signi icação. Luga de Memó ia não po
con e (no sen ido de con eúdo e de con en-
ção) his ó ias da cidade, nem po se mui o
lemb ado, ou po se ma co u bano, mas po
p o oca e ocações na/da cidade. O que exis-
e no Engenhão não são esíduos de memó ia,
mas “in ensidades aumá icas” (Deleuze,
1968/1988).
Engenhão, pedaço de um mundo que nem
semp e se comp eende e, que po is o, pelo
azio de sua incomp eensão, não necessa ia-
men e empu a o sujei o à angús ia exis en-
cial, mas o o çam ao encon o com o pe i a
(Lacan, 1960/1988), com o obje o-causa do
desejo, exigindo, assim, o abalho da memó-
ia e a esc i a de his ó ias.
O Ele an e B anco se Insc e e no A qui o da
Cidade
Mas o que é o ele an e b anco? Es e aço que
insis iu em se insc e e na memó ia da cida-
de, que as na a i as do Engenhão con am?
Ele an e B anco, uma imagem (e uma o ma)
ão ácil e simples, que habi a o imaginá io
de qualque pessoa, um aço- ipo, quiçá ba-
nal (Rowe & Koe e , 1975/2006), ou con en-
cional, a pa i do qual, al ez, odo a qui o
de uma cidade se econs õe: de elemen os
simples, elemen a es, c iados no solo comum
das iden idades cul u ais e dos alo es de um
sociedade. Uma pe manência do glossá io da
cidade (Ven u i, Sco & Izenou , 1972/2003),
ou um a qué ipo, cujo apelo emocional co-
mum des enda “p eocupações e e nas” (Ros-
si, 2001, p. 381). Pode se que ele seja um
modes o es ígio, um humilde es emunho,
a a és dos quais (de aços modes os e hu-
mildes) a memó ia é ei a; aço “mesquinho”
(Foucaul , 1979/1984) da memó ia da cidade.
“Em seu dese o, inha pé de melão, manga,
bambu…” Ele an e B anco, “ es os” do mun-
do, es ampado/insc i o no a qui o da cidade
a descen a o sujei o, a con on á-lo com o
es anho habi a -o-mundo cul u al – e i ó io
dos humanos, nem ei o de “coisas conc e-
as”, como supunha Chis ian Noe be g-Shul z
(1983/2006), mas ão pouco de “abs ações
da ciência”, como ele ecea a.
“Se não i essem cons uído o es ádio, e ia
se ans o mado num a elão.” Colagem (Ro-
we & Koe e , 1975/2006) na paisagem, ele
dá es emunhos do cená io agmen ado do
qual é ei o odo ecido u bano con empo â-
neo.
“Não é uma ob a de p imei a qualidade, ele é
p a inglês e , mas ele ouxe ida ao bai -
o.” Ele an e B anco e sua es é ica nega i a a
con undi na pe cepção na/da cidade “as
on ei as do eio e do boni o, do ho o e do
sublime” (Souza, 2001, p. 128). Não oi pela
sua boa o ma (Lynch, 1960/2010) que ele se
insc e eu na cidade, mas como me á o a do
excesso, “uma á ea eno me, mas inap o ei-
á el” e do desajei ado, “o campo em qua-
o en adas, mas icou um azio mui o g an-
de”. Foi enquan o peso e ao mesmo empo
agilidade que ele se “colou” nos a qui os,
“esc e endo”, neles, sob e o abandono, o
descaso, a saudade e o acasso daque-
le/naquele luga e daquela/naquela cidade.
“Ele é um bicho imp essionan e”. O ele an e
b anco al ez seja uma imagem in an il que
se insc e eu no a qui o mnemônico pa a nos
lemb a o quan o exis e, como ac edi a Gas-
on Bachela d (1974), de sonho e de imagina-
ção na elação que es abelecemos com a ci-
dade.
A qui os U banos: Memó ia e His ó ia na Cidade
Quade ns de Psicología | 2011, Vol. 13, No 1, 91-101
99
Os aços ligados ao ele an e b anco esc e e-
am sob e a decepção na/da cidade: ele pa-
ece se a me á o a do que desilude na cidade
pa a que ela (a cidade) “semp e ou a de si
mesma” (Schul z, 2008) possa con inua a se
impo .
“P ome e am um iadu o, ala gamen o das
uas, e nada. Mas pode apos a !” O ele an e
b anco decepciona, mas az espe ança.
“Quando despe amos pela manhã como sa-
bemos que o sonho pa ou?” – pe gun a Cha les
Melman (2003, p. 28) – “sem dú ida é po que
omamos con a o com uma o ma de decep-
ção que o ganiza nossa ealidade” – esponde
ele.
Não pa ece que nosso mamu e b anco enha
se insc i o na memó ia de um luga pa a a o-
ece o mas de ida sem “ up u as b u ais”,
como en ende Denise Jodele (2002) a ce ca
dos e ei os de memó ia na cidade.
Ele é um “ auma” na cidade. Po im, o Ele-
an e B anco é um dis a ce (Deleuze,
1968/1988), e, po is o, ele é um pouco (e
po de inição) incognoscí el. Ele é mais do
que que que possa simboliza , ele é um sím-
bolo do que não pode se ( o almen e) conhe-
cido da /na cidade, nem pela pe cepção e
nem pela memó ia.
Conclusão
A cidade do Rio de Janei o i e, na a ualida-
de, uma espécie de “ enascimen o” cul u al.
Po azões di e sas, den e elas, as expec a-
i as e os in es imen os ge ados e des inados
aos dois g andes e en os espo i os mundiais
que se ão ealizados no B asil, que são a Copa
do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos em
2016, o pa imônio cul u al e a a qui e u a da
cidade es ão na pau a de odos os cí culos.
A cons ução de g andes (e dispendiosos) mu-
seus, como o Museu da Imagem e do Som, o
Museu do Ma e o Museu do Amanhã, al e na-
se enquan o p oje os em andamen o na cida-
de, com a e i alização de á eas u banas
cons uídas e deg adadas, como a á ea po u-
á ia, dando indícios das polí icas igen es,
ainda que nem semp e explíci as, de memó ia
u bana na cidade do Rio de Janei o.
Se o Engenhão oi aqui conside ado um luga
de memó ia na cidade, é po que nele as o -
ças de ans o mação u banas es ão p esen-
es. Seja po sua a qui e u a inquie an e, seja
po seus usos, ou pelos seus modos polí icos,
sociais, ope acionais de se inse i na cidade,
ele acionou in enções signi icado as, on ades
e/ou necessidades humanas de e-signi icação
da ealidade.
E se o A qui o Mnemônico do Luga oi desen-
ol ido e u ilizado é enquan o me á o a, mais
do que enquan o modelo, de e amen as e
in e enções u banas que açam a cidade “ a-
la ”; que a açam cons ui sua memó ia, ao
in en a suas his ó ias.
Nes e sen ido, econhecemos que nosso o i-
mismo es á mais ao lado das polí icas e ações
de e i alização nas cidades, especialmen e
naquelas as quais, como o Rio de Janei o,
possuem uma eno me iqueza e complexidade
cul u al e u bana.
Mas acima de udo, as conside ações ei as ao
longo des e a igo não islumb am, de manei-
a nenhuma, alguma polí ica especí ica de in-
e enção nas cidades, mas apenas p e ende
se uma con ibuição pa a as e lexões sob e
a memó ia u bana enquan o a i idade psico-
lógica a i a e a i ada no p esen e, que age na
cons ução e signi icação de modos e p á icas
de ida.
Re e encias
Bachela d, Gas on (1974). La poé ique de l’espace
(8 ed.). Pa is: PUF.
B asilei o, Alice (2000). Espaços de Uso Comuni á-
io em P og amas Habi acionais: En e o Discu -
so e a P á ica. Disse ação de Mes ado. Uni e -
sidade Fede al do Rio de Janei o.
B asilei o, Alice (2007). Reba imen os espaciais de
dimensões sócio-cul u ais: ambien es de aba-
lho. Tese de dou o ado. Uni e sidade Fede al do
Rio de Janei o.
Con e, Julio (2001). O silêncio dos espaços in ini-
os. En Edson Souza y Elida Tessle (Ed.), A in-
enção da ida: a e e psicanálise (pp.150-154).
Po o Aleg e: A es e O ícios.
Deleuze, Gilles (2011). Le Be gsonisme (4 ed.). Pa-
is: PUF.
Deleuze, Gilles (1968/1988). Di e ença e epe i-
ção. São Paulo: G aal.
Deleuze, Gilles & Gua a i, Felix (1972/2010). O
An i-édipo: capi alismo e esquizo enia (1 ed.).
Rio de Janei o: Edi o a 34.
De ida, Jacques (1973). G ama ologia . Rio de Ja-
nei o: Relume-Duma á.