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Arquivos Urbanos : Memória e História na Cidade

Abstract

O presente artigo apresenta uma metodologia de análise da paisagem urbana, desenvolvida sob uma perspectiva da memória como elemento fundamental na relação pessoaambiente. É a partir da memória que as pessoas relacionam-se consigo mesmas e com o mundo que as cercam. Mas a memória não é algo que está em algum lugar na mente, não é armazenagem daquilo que foi vivido, mas é um processo de montagem, sempre atualizada, de arquivos, de repertórios. Memória é processo de representação psíquica das coisas, é simbolização. A memória é sempre requisitada na construção subjetiva do real. Conhecer os arquivos que as pessoas constroem dos espaços urbanos existentes em suas realidades de vida, possibilita conhecer de que maneira esta cidade existe, simbolicamente, ou seja, como ela é "inventada" na paisagem urbana. Assim, tendo como objetivo conhecer e analisar a paisagem urbana inventada pelos seus moradores, desenvolvemos uma metodologia de escritas de histórias da cidade, que se chamou Arquivo Mnemônico do Lugar. Aqui apresentaremos as etapas, os procedimentos e os resultados da utilização desta metodologia, num estudo de caso na cidade do Rio de Janeiro, mais especificamente, no estádio de futebol Engenhão. A utilização da metodologia demonstrou que as metáforas são fortes indicadores dos significados que as pessoas atribuem aos lugares. Alguns espaços, construídos ou não na paisagem urbana, possuem uma grande capacidade de acionar o trabalho da memória, sendo importantes arquivos urbanos da cidade

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Arquivos Urbanos : Memória e História na Cidade

Author: Uglione, Paula; Duarte, Cristiane
Publisher: Dipòsit Digital de Documents de la UAB
Year: 2011
DOI: 10.5565/rev/qpsicologia.919
Source: https://ddd.uab.cat/pub/quapsi/quapsi_a2011v13n1/quapsi_a2011v13n1p91.pdf
Quade ns de Psicologia | 2011, Vol. 13, No 1, 91-101
ISNN: 0211-3481
 h p://www.quade nsdepsicologia.ca /a icle/ iew/919
A qui os U banos: Memó ia e His ó ia na Cidade
The U ban A chi es: Memo y and His o y in he Ci y
Paula Uglione
Fundação Ca los Chagas Filho de Ampa o à Pesquisa no Es ado do Rio de Janei o/FAPERJ/Uni e sidade Fede al do Rio
de Janei o
C is iane Dua e
P og ama de Pós-G aduação em A qui e u a PROARQ/Uni e sidade Fede al do Rio de Janei o/UFRJ
Resumen
O p esen e a igo ap esen a uma me odologia de análise da paisagem u bana, desen ol ida
sob uma pe spec i a da memó ia como elemen o undamen al na elação pessoa-ambien e.
É a pa i da memó ia que as pessoas elacionam-se consigo mesmas e com o mundo que as
ce cam. Mas a memó ia não é algo que es á em algum luga na men e, não é a mazenagem
daquilo que oi i ido, mas é um p ocesso de mon agem, semp e a ualizada, de a qui os,
de epe ó ios. Memó ia é p ocesso de ep esen ação psíquica das coisas, é simbolização. A
memó ia é semp e equisi ada na cons ução subje i a do eal. Conhece os a qui os que as
pessoas cons oem dos espaços u banos exis en es em suas ealidades de ida, possibili a
conhece de que manei a es a cidade exis e, simbolicamen e, ou seja, como ela é “in en-
ada” na paisagem u bana. Assim, endo como obje i o conhece e analisa a paisagem u -
bana in en ada pelos seus mo ado es, desen ol emos uma me odologia de esc i as de his ó-
ias da cidade, que se chamou A qui o Mnemônico do Luga . Aqui ap esen a emos as e a-
pas, os p ocedimen os e os esul ados da u ilização des a me odologia, num es udo de caso
na cidade do Rio de Janei o, mais especi icamen e, no es ádio de u ebol Engenhão. A u ili-
zação da me odologia demons ou que as me á o as são o es indicado es dos signi icados
que as pessoas a ibuem aos luga es. Alguns espaços, cons uídos ou não na paisagem u ba-
na, possuem uma g ande capacidade de aciona o abalho da memó ia, sendo impo an es
a qui os u banos da cidade
Palab as cla e: Memó ia; A qui os u banos; Cidade
Abs ac
This pape p esen s a me hodology o u ban landscape analysis, de eloped wi h an unde -
s anding o memo y as a undamen al elemen in he pe son-en i onmen ela ionship. The
way people see hemsel es and he wo ld a ound hem is p ima ily in luenced by memo y,
which is much mo e han a me e s o age o expe iences si ua ed somewhe e in an indi idu-
al’s mind. I is a he an ongoing cons uc ion and upda e o “a chi es.” Memo y is a p o-
cess o psychic ep esen a ion o hings; ha is, symboliza ion. Fo his eason, i is always
equi ed in he subjec i e cons uc ion o eali y. Ge ing o know he a chi es people
build up abou he u ban spaces su ounding hem allows he obse a ion o he symbolic
exis ence o hei ci y and how i is “in en ed” h ough he u ban landscape. Thus, aiming
o in es iga e and analyze he u ban landscape “in en ed” by i s inhabi an s, we ha e de-
eloped a me hodology o w i ings o s o ies abou he ci y, which has been named A -
qui os Mnemônicos do Luga (“Place Mnemonic A chi e”). In his pape we will p esen he
Uglione, Paula y Dua e, C is iane
h p://quade nsdepsicologia.ca
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s ages, p ocedu es, and esul s achie ed by he me hodology in he ci y o Rio de Janei o,
mo e speci ically a he Engenhão s adium. The use o he me hodology has demons a ed
ha me apho s a e a majo indica o o he meanings people associa e wi h places. Some
spaces in he u ban landscape, ei he occupied by buildings o no , ha e p o ed excellen
a jogging people’s memo ies, being he e o e impo an “u ban a chi es” o he ci y.
Keywo ds: Memo y; U ban A chi es; Ci y
In odução
1
A cidade con empo ânea ans o ma-se insis-
en emen e num i mo caó ico e agmen a-
do. Mui as ezes busca po uma “boa isibili-
dade” dessa cidade pode se uma o ma de
“sossega ” as inquie ude que esse espaço
p o oca com suas in e ogações. Es udos ea-
lizados na cidade do Rio de Janei o (Dua e &
Uglione, 2005; 2008) indicam, numa ou a di-
eção, que alguns luga es numa cidade embo-
a enham uma o e p esença isual na pai-
sagem de um bai o, não êm, necessa iamen-
e, impo ância signi ica i a na cons ução da
“imagem” da cidade ei a pelos seus mo ado-
es. E ambém, ais luga es, ainda que não
sejam emblemá icos, possuem uma espécie
de “ o ça e elado a” que em po e ei o
des ela “silêncios” da cidade. Que luga es
são, es es, numa cidade? Que luga es, ainda
que não emblemá icos, ainda que não ma cos
u banos, ainda que não necessa iamen e e e-
ências imagé icas na paisagem u bana, pos-
sui iam al o ça des elado a dos silêncios das
cidades a uais?
Que luga es ou os, al ez pouco econheci-
dos, al ez ecen es no e i ó io, pode iam
ajuda a o ien a caminhos pa a a comp een-
são e a p omoção de ans o mações que
eme gem e que con igu am os e i ó ios u -
banos na a ualidade? Pa a Pie e No a (1997)
“os luga es de memó ia não são aqueles dos
quais nos lemb amos, mas lá onde a memó ia
abalha” (p. 18). A memó ia, pode-se conclu-
i do au o , não pe ence ia aos luga es, ela
não es a ia con ida nos luga es, mas esses
mobiliza iam, aciona iam, p oduzi iam me-
mó ias. Tal ez, en ão, ao in és de pe segui
luga es emblemá icos (luga es “his ó icos”,
“monumen ais”) numa cidade, de e íamos
en a encon a luga es que e iam um po-
encial de aze a memó ia “ abalha ”. Ten-
a encon a luga es de memó ia na cidade.
1
Agência de pa ocínio: Fundação Ca los Chagas de Am-
pa o a Pesquisa do Es ado do Rio de Janei o/FAPERJ.
E is o não se con unde com a busca po qual-
que ipo de luga -gua dião que unciona ia,
pelo seu peso de signo, como p o e o dos
e ei os co osi os que o empo deixa (ine i a-
elmen e) na ida, luga es nos quais es a ia
“gua dada” uma memó ia a espe a po se
descobe a e con emplada como p o a ( alsa)
da esis ência humana con a o empo, o im-
p e isí el, a mo e.
Pa a Gilles Deleuze & Félix Gua a i
(1972/2010) é en e aos acon ecimen os, aos
ins an es de adei os nos quais a ampulhe a
gi a, que o psiquismo, es a máquina-
desejan e, é acionada a p oduzi (ou os e di-
e en es) signi icados pa a a ida. É en e ao
no o, à al a de signi icado, ao caos, que a
“ ida insis e em busca um sen ido” (Con e,
2001, p. 153). É en e às ans o mações da
ida que somos con ocados a cons ui as nos-
sas p óp ias his ó ias indi iduais e cole i as. É
en e às “suspensões”, aos azios p óp ios
dos “deslocamen os” na cidade, que a máqui-
na de esc i u a da memó ia u bana é a i ada
pa a as suas a e as. Luga es de Memó ia, que
po es a em em suspensão na cidade, exigem
da memó ia o seu abalho. Luga es em des-
locamen o no ecido u bano, luga es em
ans o mação. Um espaço que passa po uma
ans o mação, po uma mudanças na sua
con igu ação mo ológica, uncional, é um lu-
ga que se encon a em suspensão, que se en-
con a no ácuo ine en e do es a en e o que
oi e o que se á. Es es luga es, luga es em
suspensão, podem, al ez, guia - pesquisado-
es, ges o es da cidade, u banis as – em di e-
ção a uma lei u a dos mo imen os e i o iais
pelos quais passa a u bis con empo ânea. O
p esen e a igo si ua-se nes e con ex o, e ne-
le ap esen am-se p essupos os, concei os e
alguns esul ados ace ca do desen ol imen o
de uma abo dagem de lei u a da cidade.
Memó ia, Iden idade e Acon ecimen o
Es ou ce o de que os mu os con a incêndios êm
maio pode de impac o em nossa memó ia do
que as achadas p incipais... em ce o sen ido,
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Quade ns de Psicología | 2011, Vol. 13, No 1, 91-101
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uma cidade se de ine po seu impac o na memó-
ia das pessoas. (Wende s, 1984, p. 89).
Em 1895, Sigmund F eud esc e e um exo cé-
leb e chamado P oje o de uma Psicologia Ci-
en í ica. Nes e ex o, num momen o ainda
inician e de sua eo ização, F eud ap esen a
um modelo de psiquismo pensado como uma
“máquina de esc e e ”. Máquina, ou apa elho
psíquico, como F eud acabou denominando,
que i ia, em passos sucessi os e complemen-
a es, cap u ando, o ganizando e disponibili-
zando elemen os pa a se em o epe ó io a
pa i do qual as expe iências pe cep i as,
compo amen ais, cogni i as e a e i as de
cada pessoa encon a iam um supo e. Máqui-
na de esc i u a que do a ia cada pessoa de
uma ex ao diná ia capacidade de “mon a ”,
mo ida po mecanismos psicológicos ex e-
mamen e complexos, “ e dades” a pa i das
quais a ida adqui i ia signi icado e ealidade.
E is o se ia a memó ia humana: uma máquina
de mon agem de uma ma iz (um a qui o) ei-
a de aços, a pa i da qual o homem elaci-
ona -se-ia consigo e com o mundo que o ce -
ca. E o psiquismo se ia, em úl ima ins ância,
um a qui o de memó ia.
Toda his ó ia é um e e no ecomeço. E a me-
mó ia pa icipa ia a i amen e desse ecome-
ço. Quando uma edi icação impo an e pa a a
ida de um g upo de pessoas é des uída, po
exemplo, numa cidade, é p eciso ecomeça ,
é p eciso jun a os pedaços, aze um ema-
nejamen o do que e a. E assim na ida, de
modo ge al.
Esse é o mo imen o da his ó ia na ida: e-
começa . E a memó ia, enquan o p ocesso
psicológico, nada mais é do que a
( e)esc i u a que o psiquismo ai azendo
en e aos acon ecimen os da ida.
Mau ice Halbwachs (1967) em seu conhecido
a ado sob e memó ia cole i a, sinaliza que
o papel c ucial da memó ia na e-esc i u a
das his ó ias incide p incipalmen e no o a-
lecimen o das iden idades dos g upos numa
sociedade. No mesmo caminho, pa a S e en
Hoelsche & De ek Ade man (2004), memó ia
e luga são undamen ais na p odução dos
elemen os que es u u am as iden idades mo-
de nas.
Jacques De ida (1995/2001), po sua ez, em
uma e-lei u a daquele modelo eudiano de
psiquismo enquan o a qui o de memó ia, en-
a iza a enda sob e a qual a memó ia ope a-
ia. A memó ia, en a iza o au o , é uma e -
amen a con ocada a abalha nos “acon e-
cimen os” da ida, lá onde oco e am up u-
as de iden idade, onde oco e am asgos de
econhecimen o. E, po se uma “máquina es-
c i u á ia” (De ida, 1995/2001), a memó ia
ein en a ia signi icados, egis ando no psi-
quismo o que ainda não exis ia enquan o ma -
ca mnemônica. Enquan o esc i u a, ela p o-
duz epe ição di e encial daquilo que oi “ a-
chado” pela in ensidade do acon ecimen o, e
assim, na “ epe ição di e encial” que ela
p oduz, o que su ge é o “simulac o”, o duplo,
o es anho, o no o, que unda mundos di e-
enciais e, po an o, a ís icos, iccionais (De-
leuze, 2011). O que se p oduz no campo da
memó ia, nos a qui os de memó ia, é semp e
da o dem da icção.
Ao complemen a seu modelo de apa elho
psíquico, F eud (1896/1996) mos a, ia es u-
dos de casos clínicos, que os aços cons i u-
i os do psiquismo são (imp e e i elmen e)
a a essados po an asias, po lemb anças de
coisas que nunca acon ece am, mas que o-
am an asiadas po aquele que lemb a. Po -
an o, os a os que compõem uma his ó ia,
indi idual ou cole i a, acon ece am ou são
uma icção do seu in é p e e? Não há como
dis ingui , diz a eo ia eudiana; as his ó ias
cons uídas pela memó ia ap oximam-se a um
imaginá io li e á io. Po im, a memó ia não é
um a qui o de egis os a se em ecupe ados,
ela é o exe cício do egis o, ela é a cons u-
ção de “a qui os”. A memó ia é con ocada a
abalha nos “acon ecimen os” da ida, po -
que ela c ia, ela in en a signi icados a pa i
dos quais uma (no a) ida pode á acon ece .
Es es são os e e enciais eó icos sob e ao
quais alice çamos o p esen e es udo. Concep-
ções de memó ia, de a qui o e de his ó ia
que nos o nece am um apo e eó ico pa a
e le i sob e a cidade con empo ânea e suas
eme gências de ans o mação. Concepções
que solidi icam nosso en endimen o de que o
"exe cício" psicológico de cons ução de a -
qui os é unção p emen e na a e a de c ia
as es u u as simbólicas que “edi icam” os
modos como as pessoas in e agem com o
mundo ísico, a qui e ônico e u banís ico nos
quais i em. Concepções que essal am o ca-
á e a i o, cons u i o, e a ual, p esen e da
memó ia. E, nes e sen ido, que possibili am
uma isão in e essan e e o imis a sob e as
o ças que agem e que podem se acionadas
Uglione, Paula y Dua e, C is iane
h p://quade nsdepsicologia.ca
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nos momen os em que a ida exige econs u-
ção.
No que conce ne ao planejamen o u bano,
ais concepções indicam que a memó ia de e
se um elemen o-cha e pa a as polí icas de
in e enção, especialmen e quando se “ ein-
en a ” pa ece se uma espe ançosa (ou ne-
cessá ia) pos u a en e ao p esen e e ao u-
u o das cidades con empo âneas. Po is o,
buscando con ibui com as e lexões sob e
essas cidades, desen ol emos uma me odolo-
gia de in e enção, que denominamos A qui o
Mnemônico do Luga , e que é uma espécie de
“máquina de esc i u a” que ajuda ia a conhe-
ce e a es imula o mas a a és das quais as
pessoas azem en e aos acon ecimen os da
ida u bana.
A qui o Mnemônico do Luga
Moldagem do Luga e as “No as” Me odolo-
gia pa a Análise e In e enção no U bano
Di e sos es udos das á eas das ciências sociais
e humanas u ilizam-se do concei o de Luga .
Pa a Yi-Fu Tuan (1983), “espaços” ans o -
mam-se em “luga es”, e is o oco e a a és
da expe iência subje i a no espaço. Não exis-
e um momen o exa o em que o espaço “se
o na” Luga , mas um p ocesso con ínuo, inin-
e up o e impe cep í el (em mui os aspec-
os) no qual o ambien e é modi icado: ecebe
a e os, oma no as signi icações, modi ica o
sujei o que o usa. A esse p ocesso inin e up-
o, C is iane Dua e (1993) chamou de “mol-
dagem do Luga ”. Na passagem do espaço ao
luga , há um p ocesso a esanal de in e ação
en e pessoas e o ambien e cons uído - nes e
sen ido “moldagem”.
Alguns es udos ealizados na cidade do Rio de
Janei o, ilus am es e ca á e de moldagem
do luga , que as expe iências humanas ope a-
iam nos espaços.
Num es udo ealizado po Dua e (1994), na
a ela Ma a Machado, cons a ou-se que o en-
aizamen o dos mo ado es ao local oi um
quesi o undamen al na ida das pessoas que
mo a am naquela a ela. A a qui e u a do lo-
cal, com suas uas e ielas con o mam um es-
paço único, capaz de ansmi i segu ança e
a e o necessá ios pa a ga an i um supo e
anqüilo de con í io e p epa ação pa a a i-
da u u a das ge ações que es ão se o man-
do. O es udo ambém demons ou que ao usa-
em os luga es da a ela, os mo ado es ein-
en am seu passado de lu a pela conquis a do
bai o que, no início do século XX, e a uma
p op iedade de cul i o de ca é. Cada iela e
cada beco se ap esen am como pa es de um
passado e-cons uido cons an emen e: o a se
a a do local de uma á o e que se iu pa a
esconde a cons ução de um ba aco e que,
ao se emo ida, con e iu a seu “dono” o s a-
us de mo ado de ini i o, o a das ma gens do
iacho onde os mo ado es mais an igos eali-
za am as euniões da associação de mo ado-
es. Na expe iência desses mo ado es com o
espaço, os signi icados a ibuídos aos luga es
ão se ma e ializando em e en os u banos
que, po sua ez, explicam, po exemplo, a
azão da exis ência de locais “ azios”, como
e dadei as cla ei as den o de uma densa
ocupação, uncionando quase como san uá ios
dedicados à memó ia das conquis as de posse
da e a.
Ou o es udo lide ado po Alice B asilei o
(2000), ambém na cidade do Rio de Janei o,
que acompanhou o desen ol imen o dos lo-
cais de encon o de um conjun o habi acio-
nal, as modi icações das suas p aças e dos
seus espaços de uso comuni á io, concluiu
que, quando um g upo social compa ilha i-
sões de mundo, suas aspi ações, expec a i as
e espos as às di iculdades ap esen adas pelo
co idiano uncionam como um cimen o de
união social que encon a nos espaços cons-
uídos o locus de expe imen ação, i ência e
sociabilidade pa a se consolida .
Um e cei o es udo, ealizado po Ana Lúcia
San os & C is iane Dua e (2002), a pa i da
análise da população de ua, a i ica a con-
cepção da a qui e u a como cons ução de lu-
ga es, como uma manei a de p oduzi o mun-
do e, des a o ma, p oduzi -se a si-mesmo. No
e e ido es udo, a cons ução de uma “casa
in isí el” oi iden i icada no uso de equipa-
men os imp o isados pa a delimi a espaços
di e enciados na ocupação das uas: “salas”,
“qua os”, “cozinhas”, e am mon adas pelos
p óp ios mo ado es de ua, com a disposição
de obje os pessoais e es os de ma e iais en-
con ados na ua. Tal es udo pe mi iu com-
p eende que, des i uídos do supo e espacial
da “casa”, os mo ado es de ua desen ol em
mecanismos de compensação pa a sup i suas
necessidades de espacialização das es u u as
amilia es e de p o eção. Ve i icou-se, sob e-
udo, que a espacialização da mo ada é es-
sencial pa a a in eg idade psíquica do sujei o.
A qui os U banos: Memó ia e His ó ia na Cidade
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Es udos, es es, que dão indica i os cla os do
aspec o dinâmico e “ i o” da moldagem do
luga .
O espaço cons uído é, acima e an es de udo,
um a e a o cul u al, e is o po que é, sob e-
udo, linguagem, po que é po ado de signi-
icados e, p incipalmen e, po que é ma e ia-
lização da isão de mundo dos g upos que o
p oduzem.
Assim, ap ende a olha , a le e a escu a a
cidade e seus luga es como p ocessos de
ans o mação ísica e espacialização de alo-
es é icos e es é icos, passa a se uma a e a
e um desa io pa a odo pesquisado do u ba-
no.
A obse ação a en a (B asilei o, 2007), o
olha de den o e de pe o (Magnani, 2002), a
ime são na ambiência (Dua e, 2007), são
exemplos de oda uma “no a” pe spec i a
me odológica que a a qui e u a e o u banismo
ap opiam-se e e-signi icam den o de sua
“no a agenda” (Nesbi , 2006).
Na a i as do Luga e Na a i as Me a ó icas
do Luga
O A qui o Mnemônico do Luga si ua-se e jus-
i ica-se nes e con ex o de “no as” abo da-
gens de lei u a e de in e enção na cidade.
O A qui o Mnemônico do Luga é uma me o-
dologia que compa ilha, an es de udo, com
a c ença de que “o conhecimen o do mundo
se dá po múl iplas e con adi ó ias pe spec-
i as” (Uglione, 2008, p.67) e em como p in-
cípios: 1) a memó ia é um elemen o unda-
men al na elação pessoa-ambien e; 2) quan-
do con ocamos alguém a “ aze sua memó ia
abalha ”, es amos acili ando o abalho de
signi icação de uma dada ealidade.
A paisagem u bana “in en ada” pelos seus
mo ado es: is o é o que o A qui o Mnemônico
do Luga p ocu a conhece e, ao mesmo em-
po, almeja es imula , ou seja, é uma e a-
men a que ao se u ilizada na busca de co-
nhecimen os sob e a cidade, ambém é uma
e amen a que “con ida” os mo ado es de
um bai o a “in en a ” sua cidade, a im de
que ela exis a signi ica i amen e nos a qui os
indi iduais e cole i os de cada um e da cidade
com um odo.
A qui o Mnemônico do Luga é um concei o
que omamos “emp es ado” das concepções
de memó ia e de egis o mnemônico an o
de F eud (1895/1996) quan o de De ida
(1995/2001).
Na abo dagem de lei u a da cidade que de-
sen ol emos, chamou-se de A qui o Mnemô-
nico do Luga ao p ocesso que é a i ado ao
se ei o pa a alguém uma demanda de e-
memo ação ace ca de um espaço cons uído e
seu en o no, na cidade. P ocesso, es e, que,
segundo F eud (1914/1996), aciona ia di e-
en es opologias (conscien e, p é-conscien e,
inconscien e) e mecanismos psicológicos (cap-
u a, “apagamen o”, insc ição, ep esen ação
de aços) no “exe cício” de insc ição no psi-
quismo, dos aços e idos pela pe cepção.
Os p ocedimen os me odológicos do A qui o
Mnemônico do Luga consis em em: 1) solici-
a a um g upo de pessoas que na em sob e
as eco dações que êm ace ca de de e mina-
dos espaços da cidade; 2) compo um ex o,
chamado Na a i a do Luga , ei o do conjun-
o dos ela os des as eco dações; 3) selecio-
na do ex o compos o (da Na a i a do Luga )
as me á o as p esen es; 4) compo um segun-
do ex o, chamado Na a i a Me a ó ica do
Luga , ei o das me á o as selecionadas e
ag upadas po con inuidade e po semelhança
en e si.
A Na a i a do Luga , em seu con eúdo mani-
es o (o ex o o mado pelos ela os) é oma-
da enquan o o conjun o dos aços que che-
gam à consciência dos seus na ado es. Nela,
as me á o as p esen es são omadas como zo-
nas de somb a (Pollack, 1989), como “ ipolo-
gias do silêncio”, como duplos, como aquilo
que se epe e (di e encialmen e) na memó ia
enquan o e ei o da simbolização (a a és de
“jogos” de linguagem) de aços que, num ou-
o empo (passado), pelos mecanismos psico-
lógicos de “apagamen o”, não o am insc i os
no psiquismo.
A linguagem em seus pon os de in isibilidade
(De ida, 1973), uma ez que ela é capaz de
ocul a (pa a a consciência) o que se insc e-
eu ou de insc e e (no inconscien e) o que
não es á esc i o (na consciência).
No seu conjun o, o A qui o Mnemônico do Lu-
ga , a a és de seus p ocedimen os, “imi a-
ia” os mecanismos nomeados po F eud
(1914/1996), ou seja, ela se ia uma e amen-
a de “ aze a memó ia abalha ”, de eali-
za a cons ução de a qui os pessoais e cole-
i os na e da cidade, nos quais aquilo que es-
a a ocul o mas que insis e em se insc e e

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como aço – e que apa ece ia “escondido” na
o ma me a ó ica - es a ia ambém p esen e.
A Na a i a do Luga esc e e uma his ó ia do
luga , compos a a pa i de ela os o ais de
“na ado es” da cidade (pessoas que mo am
e/ou ansi am pelos bai os de uma cidade),
e a Na a i a Me a ó ica do Luga esc e e a
mesma his ó ia, mas a a és de suas somb as,
seus duplos, seus silêncios. Essa, compos a a
pa i das me á o as p esen es na Na a i a
do Luga , e endo, como na ado es, os pes-
quisado es/in e en o es na cidade.
Na a i a do Engenhão
O Es ádio Olímpico João Ha elange, conheci-
do como Engenhão, localiza-se no bai o de
classe média e média-baixa na Zona No e da
cidade do Rio de Janei o, chamado Engenho
de Den o. Es e bai o em sua o igem no pe-
íodo colonial do B asil, endo sido em oda a
sua ex ensão um engenho de açúca . A pa i
da segunda me ade do século XIX, em suas
e as começou a passa a Es ada de Fe o
Ped o II, pos e io men e denominada Es ada
de Fe o Cen al do B asil.
O Engenhão oi planejado pa a in eg a o con-
jun o das ob as des inadas aos Jogos Pan-
ame icanos de 2007 no B asil. Cons uído no
an igo e eno da Rede Fe o iá ia Fede al,
suas ob as inicia am-se em 2003 e o am ina-
lizadas em 2007.
A edi icação do Engenhão oi o esul ado de
um b usco p ocesso de ans o mação no bai -
o e na ida das pessoas que nele esidem ou
ci culam. O Engenho de Den o, um bai o es-
sencialmen e amilia , cuja o ganização sem-
p e gi ou em o no das o icinas de ens que
exis iam no e eno da Rede Fe o iá ia, ago-
a ecebia uma cons ução de g ande escala,
que exigia mudanças adicais na sua in a-
es u u a e, p incipalmen e, que al e a a
uma longa his ó ia de o inas e a i idades
que, po mui os anos, acon eciam no local.
Uma edi icação que p o oca a acon ecimen-
os, que azia gi a a ampulhe a da ida do
bai o, acionando signi icações a pa i das
quais no os e i ó ios pode iam (e necessa i-
amen e p ecisa iam) se con igu a naquela
paisagem u bana.
Com is o, o Engenhão nos pa eceu um luga
em suspensão na cidade. Um luga sob e o
qual ale ia a pena se deb uça e a a és dele
islumb a e es imula o p ocesso de “in en-
ção” da cidade.
E assim izemos, omando o Engenhão como
espaço sob e o qual “na ado es” do bai o
a iam seus ela os e, a a és da Na a i a do
Engenhão e da Na a i a Me a ó ica do Enge-
nhão, in en a iam uma (ou a) his ó ia pa a
aquele bai o, pa a aquele luga na cidade.
U ilizando os p ocedimen os do A qui o Mne-
mônico do Luga , conside amos os anseun-
es do bai o Engenho de Den o como possí-
eis na ado es de his ó ias do Engenhão: lei-
o es/ou in es da cidade, sujei os de memó-
ia, impelidos pelas ped as da cidade a aze-
em suas “máquinas de esc i u a” abalha e
da signi icado a uma no a ealidade que se
con igu a a.
Den e esses anseun es do bai o, pa icipa-
am como “na ado es”, 54 (cinqüen a e
qua o) sujei os, homens e mulhe es com ida-
des en e 16 (dezesseis) e 24 ( in e e qua o)
anos. A seleção dos na ado es oi ei a de
o ma espon ânea, sem es a i icação p é ia,
e endo como c i é io a disposição das pesso-
as que anda am nas uas do bai o pa a “con-
a algo sob e o Engenhão” – pe gun a que
inicia a o con a o en e os pesquisado es e
aqueles que ci cula am no bai o.
No que conce ne ao núme o de na ado es,
seguiu-se um c i é io bas an e subje i o indi-
cado po Jacques Ma e (1991), que é o do
esgo amen o de in o mações, ou seja, in e -
ompe a solici ação de no os sujei os quando
a “no idade” não es á mais ão p esen e nos
ela os.
A pa i do momen o em que os sujei os de-
mos a am disponibilidade pa a con a suas
his ó ias do Engenhão, inicia a-se uma “con-
e sação o diná ia” (Ricoue , 1998) en e na -
ado ( anseun es no bai o) e o ecep o
(pesquisado ). O empo de du ação das con-
e sas a ia a con o me a disponibilidade dos
na ado es e as ci cuns âncias nas quais as
con e sas oco iam. Os ela os o ais dos na -
ado es o am g a ados pelos pesquisado es
no momen o da con e sa e ansc i os com o
auxílio das ano ações ei as pelo pesquisado
du an e a con e sa.
Esses ela os o ais compuse am a Na a i a do
Engenhão, uma na a i a cole i a, ei a da
jus aposição de ela os o ais indi iduais dos
di e sos na ado es.
A qui os U banos: Memó ia e His ó ia na Cidade
Quade ns de Psicología | 2011, Vol. 13, No 1, 91-101
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A segui , um echo da Na a i a do Engenhão
compos o pelos ela os de qua o na ado es,
que, pa a man e o anonima o, chama emos
de na ado A, na ado B, na ado C e na -
ado D. Rela os ob idos de "con e sas" eali-
zadas en e os dias 01 e 10 do mês de junho
do ano de 2008. Es e echo oi escolhido ale-
a o iamen e, den e os demais que compõe a
Na a i a do Engenhão, e no qual es á a p e-
sença do que conside amos se uma me á o a
na Na a i a do Engenhão.
Meu pai e a comunis a. Os p édios e am p os a-
balhado es da Cen al e o am leiloados, oi um
cambalacho: a Cen al ez um jogo que os p édios
que o am cons uído em 1940 e a endido como
se oi cons uído em 1960 (na ado A, en e is a
pessoal, 04 de junho de 2008). Tinha uma o icina
T ajano de Medei os que e a subsidiada da Cen-
al... inha um ime de u ebol o Adélia e o En-
genho de Den o. Mas udo e a uma imundice
(na ado B, en e is a pessoal, 10 de junho de
2008). Es e Es ádio oi uma pilan agem, e o di-
nhei o oi de quem? O Engenhão não é usado
mesmo. Não exis e e en o nenhum. E depois da
ob a em al a de água nos apa amen os (na a-
do C, en e is a pessoal, 04 de junho de 2008).
T anqüilo, sem g andes comé cios...a é hoje não
i no idades com esse museu (Engenhão)...é um
ele an e b anco (na ado D, en e is a pessoal,
04 de junho de 2008).
Na a i a Me a ó ica do Engenhão
Ele an e b anco é uma me á o a na Na a i a
do Engenhão po que é uma pala a que signi-
ica ( an as) ou as pala as.
Di e sas me á o as es a am p esen es nos e-
la os o ais dos na ado es do Engenho de Den-
o, como po exemplo, mons o pa ado,
em an asma, en e ou as. Con udo, ne-
nhuma delas apa eceu nos ela os, epe idas
ezes, como oco eu com a me á o a ele an e
b anco. Essa, e o na a e e o na a no amen-
e nos ela os, pa ecendo insis i no abalho
de se insc e e nos a qui os do luga . E po
is o oma emos ela pa a ilus a um echo da
Na a i a Me a ó ica do Engenhão.
Quais ou as pala as es a me á o a pode ia
es a signi icando? O que é o ele an e b anco?
Que aço(s) ele simboliza na Na a i a do En-
genhão? O que insis e em se insc e e nas his-
ó ias do luga e da cidade?
Pe co endo ais pe gun a e seguindo os p o-
cedimen os do A qui o Mnemônico do Luga ,
pe co emos a Na a i a do Engenhão em bus-
ca dos aços que se liga am a ele an e b an-
co, bem como em busca de ou as me á o as
que pa eciam ap oxima -se deles, seja po
con inuidade, seja po semelhança.
Pe co endo, assim, a Na a i a, ago a e am
os pesquisado es que, no papel do que De i-
da (1995/2001) chama “in é p e es do a qui-
o”, se iam os na ado es na Na a i a Me a-
ó ica do Engenhão.
A segui , echos da Na a i a Me a ó ica do
Engenhão, esc i os a pa i da ap oximação
en e as me á o as (e seus aços) Ele an e
B anco e Mons o Pa ado.
É um luga abandonado pelo desin e esse, pelo
esquecimen o, pela não/má u ilização. O aban-
dono é, acima de udo, o de sua dis uncionalida-
de, a inal ele e a o luga (dos ens) que não es-
a a uncionando. Ele é dis uncional: o campo
em qua o en adas, mas icou um azio mui o
g ande. Ele e a uma á ea eno me, mas inap o ei-
á el. Uma o icina com á ios ens, mas pa ados.
Sua exis ência semp e oi pesada: ele oi um e -
eno cheio de em. Ele é es e gigan e, mas ago a
ele é bom, em segu ança, mo imen o e luc o, a
ua ica animada.
Seu abandono decepciona: a á ea oi alo izada,
mas a pada ia ali da esquina aliu. No começo, a
sua cons ução pa ecia uma boa, mas depois aca-
bou não alo izando a á ea nem azendo g andes
mudanças. Pa ecia que e ia mais mo imen o.
P ome e am um iadu o, ala gamen o das uas, e
nada. Mas pode apos a ! Nele se ac edi a, o bai -
o melho ou, em gen e ci culando, é mais boni-
o, e udo alo izou.
Longe de se a “solução” é a “boa so e” da cida-
de: Se não i essem cons uído o es ádio, e ia se
ans o mado num a elão. Como um o namen o
(um ele an e b anco na es an e) meio “ o a de
moda” na cidade, não é uma ob a de p imei a
qualidade, ele é p a “inglês e ”. Pelo menos i-
cou mais boni o que an es...ago a: celeb idades!
Mas ele ouxe ida ao bai o, é po sua causa
que odo mundo ago a lemb a do Engenho de
Den o.
Ele melho ou o isual, o ambien e, as calçadas, é
um bicho imp essionan e, e em a é u is a ago a
aqui. Ele é uma ilusão. En e espe ança e des-
c ença, es e ele an e b anco se man ém p esen e
no cená io u bano, ino ensi o. Ele pa ece acomo-
da -se à cidade: anqüilo, sem g andes comé -
cios. Tem uma escola pública onde bo a am um
mu o e ela icou lá.
Lá só e e joguinho de b incadei a! Ele é um lu-
ga do jogo enquan o b incadei a: sua en e gadu-
a é a da di e são, do lúdico. Mas é na sua dasa-
i ação (que icou desa i ado), na sua condição
( al ez imp e e í el) do que não se cump e o-
almen e, do que decepciona, em seu abandono –
e possi elmen e po causa dis o udo – é que o
jogo e a ida nele acon ecem: depois icou udo
abandonado e o pessoal passou a pula o mu o
pa a joga bola no campinho, a sol a pipa em
cima dos ens.
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Em seu dese o, inha pé de melão, manga, bam-
bu. No e eno azio que não acon ecia nada, lá
oi o luga da in ância, onde o pai, o io e o a ô
abalha am. É na dis uncionalidade que ele i e
no bai o: quando em jogo (o icial), eles só
ab em as saídas onde não em comé cio, é só
p ejuízo. Ninguém in adiu nada, ele oi e con i-
nua sendo ocupado (pelos desocupados?): clube
de idosos, es as, ca na al, meninos que b incam
de ska e, de bicicle a. Ele é um luga ipo museu,
que não mos a nada de no idade, pelo con á io,
e a um depósi o de em, de saudades, de acas-
sos e de expec a i as; um campão sem p édios,
abe o, pa ado, cujo des ino pa ece se o de dei-
xa mesmo um espaço mui o g ande na cidade, o
de ci cunsc e e (enchendo com e agens, po
exemplo) um luga azio onde seja possí el um “a
longo p azo” (um u u o) na cidade.
Silêncios na Cidade e Luga de Memó ia
O Engenhão ompeu silêncios da/na cidade,
con ocando as pessoas a in en a em his ó ias
dele, do bai o e de si mesmas.
A a és dele (Engenhão) e de sua o ça en-
quan o “acon ecimen o” na cidade, o passado
é e-esc i o na medida em que o p esen e
exige um sen ido.
O Engenhão é um “luga de memó ia”?
Sim, se po meio des e e mo es i e mos do-
ando-o da capacidade de p o oca up u as
na cidade, e com elas a u gência de memó ia,
se signi icação. Luga de Memó ia não po
con e (no sen ido de con eúdo e de con en-
ção) his ó ias da cidade, nem po se mui o
lemb ado, ou po se ma co u bano, mas po
p o oca e ocações na/da cidade. O que exis-
e no Engenhão não são esíduos de memó ia,
mas “in ensidades aumá icas” (Deleuze,
1968/1988).
Engenhão, pedaço de um mundo que nem
semp e se comp eende e, que po is o, pelo
azio de sua incomp eensão, não necessa ia-
men e empu a o sujei o à angús ia exis en-
cial, mas o o çam ao encon o com o pe i a
(Lacan, 1960/1988), com o obje o-causa do
desejo, exigindo, assim, o abalho da memó-
ia e a esc i a de his ó ias.
O Ele an e B anco se Insc e e no A qui o da
Cidade
Mas o que é o ele an e b anco? Es e aço que
insis iu em se insc e e na memó ia da cida-
de, que as na a i as do Engenhão con am?
Ele an e B anco, uma imagem (e uma o ma)
ão ácil e simples, que habi a o imaginá io
de qualque pessoa, um aço- ipo, quiçá ba-
nal (Rowe & Koe e , 1975/2006), ou con en-
cional, a pa i do qual, al ez, odo a qui o
de uma cidade se econs õe: de elemen os
simples, elemen a es, c iados no solo comum
das iden idades cul u ais e dos alo es de um
sociedade. Uma pe manência do glossá io da
cidade (Ven u i, Sco & Izenou , 1972/2003),
ou um a qué ipo, cujo apelo emocional co-
mum des enda “p eocupações e e nas” (Ros-
si, 2001, p. 381). Pode se que ele seja um
modes o es ígio, um humilde es emunho,
a a és dos quais (de aços modes os e hu-
mildes) a memó ia é ei a; aço “mesquinho”
(Foucaul , 1979/1984) da memó ia da cidade.
“Em seu dese o, inha pé de melão, manga,
bambu…” Ele an e B anco, “ es os” do mun-
do, es ampado/insc i o no a qui o da cidade
a descen a o sujei o, a con on á-lo com o
es anho habi a -o-mundo cul u al – e i ó io
dos humanos, nem ei o de “coisas conc e-
as”, como supunha Chis ian Noe be g-Shul z
(1983/2006), mas ão pouco de “abs ações
da ciência”, como ele ecea a.
“Se não i essem cons uído o es ádio, e ia
se ans o mado num a elão.” Colagem (Ro-
we & Koe e , 1975/2006) na paisagem, ele
dá es emunhos do cená io agmen ado do
qual é ei o odo ecido u bano con empo â-
neo.
“Não é uma ob a de p imei a qualidade, ele é
p a inglês e , mas ele ouxe ida ao bai -
o.” Ele an e B anco e sua es é ica nega i a a
con undi na pe cepção na/da cidade “as
on ei as do eio e do boni o, do ho o e do
sublime” (Souza, 2001, p. 128). Não oi pela
sua boa o ma (Lynch, 1960/2010) que ele se
insc e eu na cidade, mas como me á o a do
excesso, “uma á ea eno me, mas inap o ei-
á el” e do desajei ado, “o campo em qua-
o en adas, mas icou um azio mui o g an-
de”. Foi enquan o peso e ao mesmo empo
agilidade que ele se “colou” nos a qui os,
“esc e endo”, neles, sob e o abandono, o
descaso, a saudade e o acasso daque-
le/naquele luga e daquela/naquela cidade.
“Ele é um bicho imp essionan e”. O ele an e
b anco al ez seja uma imagem in an il que
se insc e eu no a qui o mnemônico pa a nos
lemb a o quan o exis e, como ac edi a Gas-
on Bachela d (1974), de sonho e de imagina-
ção na elação que es abelecemos com a ci-
dade.
A qui os U banos: Memó ia e His ó ia na Cidade
Quade ns de Psicología | 2011, Vol. 13, No 1, 91-101
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Os aços ligados ao ele an e b anco esc e e-
am sob e a decepção na/da cidade: ele pa-
ece se a me á o a do que desilude na cidade
pa a que ela (a cidade) “semp e ou a de si
mesma” (Schul z, 2008) possa con inua a se
impo .
“P ome e am um iadu o, ala gamen o das
uas, e nada. Mas pode apos a !” O ele an e
b anco decepciona, mas az espe ança.
“Quando despe amos pela manhã como sa-
bemos que o sonho pa ou?” – pe gun a Cha les
Melman (2003, p. 28) – “sem dú ida é po que
omamos con a o com uma o ma de decep-
ção que o ganiza nossa ealidade” – esponde
ele.
Não pa ece que nosso mamu e b anco enha
se insc i o na memó ia de um luga pa a a o-
ece o mas de ida sem “ up u as b u ais”,
como en ende Denise Jodele (2002) a ce ca
dos e ei os de memó ia na cidade.
Ele é um “ auma” na cidade. Po im, o Ele-
an e B anco é um dis a ce (Deleuze,
1968/1988), e, po is o, ele é um pouco (e
po de inição) incognoscí el. Ele é mais do
que que que possa simboliza , ele é um sím-
bolo do que não pode se ( o almen e) conhe-
cido da /na cidade, nem pela pe cepção e
nem pela memó ia.
Conclusão
A cidade do Rio de Janei o i e, na a ualida-
de, uma espécie de “ enascimen o” cul u al.
Po azões di e sas, den e elas, as expec a-
i as e os in es imen os ge ados e des inados
aos dois g andes e en os espo i os mundiais
que se ão ealizados no B asil, que são a Copa
do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos em
2016, o pa imônio cul u al e a a qui e u a da
cidade es ão na pau a de odos os cí culos.
A cons ução de g andes (e dispendiosos) mu-
seus, como o Museu da Imagem e do Som, o
Museu do Ma e o Museu do Amanhã, al e na-
se enquan o p oje os em andamen o na cida-
de, com a e i alização de á eas u banas
cons uídas e deg adadas, como a á ea po u-
á ia, dando indícios das polí icas igen es,
ainda que nem semp e explíci as, de memó ia
u bana na cidade do Rio de Janei o.
Se o Engenhão oi aqui conside ado um luga
de memó ia na cidade, é po que nele as o -
ças de ans o mação u banas es ão p esen-
es. Seja po sua a qui e u a inquie an e, seja
po seus usos, ou pelos seus modos polí icos,
sociais, ope acionais de se inse i na cidade,
ele acionou in enções signi icado as, on ades
e/ou necessidades humanas de e-signi icação
da ealidade.
E se o A qui o Mnemônico do Luga oi desen-
ol ido e u ilizado é enquan o me á o a, mais
do que enquan o modelo, de e amen as e
in e enções u banas que açam a cidade “ a-
la ”; que a açam cons ui sua memó ia, ao
in en a suas his ó ias.
Nes e sen ido, econhecemos que nosso o i-
mismo es á mais ao lado das polí icas e ações
de e i alização nas cidades, especialmen e
naquelas as quais, como o Rio de Janei o,
possuem uma eno me iqueza e complexidade
cul u al e u bana.
Mas acima de udo, as conside ações ei as ao
longo des e a igo não islumb am, de manei-
a nenhuma, alguma polí ica especí ica de in-
e enção nas cidades, mas apenas p e ende
se uma con ibuição pa a as e lexões sob e
a memó ia u bana enquan o a i idade psico-
lógica a i a e a i ada no p esen e, que age na
cons ução e signi icação de modos e p á icas
de ida.
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