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Atmosfera, Stimmung, Aura : nos interstícios da filosofia, paisagem e política

Abstract

O conceito de Atmosfera e, bem antes, os conceitos de Stimmung e Aura surgem no discurso teórico e filosófico a partir da destruição progressiva dos espaços e ambientes naturais e do deslocamento da experiência do sublime da esfera do natural e dos seus fenómenos e aparências mais diversas, para a esfera do cultural, dos fenómenos e aparências artificiais, sejam eles construções arquitetónicas, invenções técnicas ou simplesmente ações e ocorrências completamente humanas, como as guerras e as suas forças explosivas [...]. Reconhecer a presença e a importância desses fenómenos em suas diversas dimensões e formas de expressão justifica a abertura deste Colóquio a distintas áreas de conhecimento e de atuação (arquitetura, paisagismo, literatura, artes, psicologia, ecologia...) apostando nas perspectivas oferecidas por seus múltiplos pontos de contato.

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Atmosfera, Stimmung, Aura : nos interstícios da filosofia, paisagem e política

Author: Bartalini, Vladimir,Cabral, Arthur Simões Caetano,Hennrich, Dirk Michael
Publisher: Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Centro de Filosofia
Year: 2020
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/44346/1/E-book%20Atas%20Atmosferas.pdf
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
1
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
2
Comunicações p o e idas no Colóquio In e nacional
A mos e a, S immung, Au a:
nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
ealizado no dia 05 de agos o de 2019 na Faculdade de A qui e u a e U banismo
da Uni e sidade de São Paulo.
ISBN 978-989-8553-51-5
O ganização:
Vladimi Ba alini
A hu Simões Cae ano Cab al
Di k Michael Henn ich
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
3
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ................................................................................................................. 4
On he Concep o A mosphe es
Ge no Böhme…………………………………………………………………………………………………..........................……..7
ATMOSFERAS DAS METRÓPOLES
Sob e a c iação e a des uição das a mos e as na mode nidade ............................. 11
Di k Michael Henn ich
A c iação de a mos e as p op ie a is as e expulsi as pela ale os e a .................. 21
Luanda F ancine Ga cia da Cos a
Paisagem e me ópole ........................................................................................................... 34
Robe o Rüsche
Uma a essia de Be lim: caminhada e lâne ie ............................................................ 49
Willi Bolle
ATMOSFERAS E INTERSTÍCIOS
Sen i , imagina , exp essa : A mos e as e paisagens nos in e s ícios u banos . 75
A hu Simões Cae ano Cab al
Enquan o que… es âncias .....................................................................................................90
Igo Gua elli
MA – po ência, in e alo, espaço- empo: a e e a qui e u a ..................................... 112
Michiko Okano
Ves ígios, sob as, paisagens ............................................................................................... 128
Vladimi Ba alini
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
4
APRESENTAÇÃO
Uma das conside ações ilosó icas mais eco en es na
in e p e ação e na comp eensão, não só de ce as cul u as ou sociedades,
mas de épocas in ei as, é que cada empo possui os seus concei os
p incipais e condu o es. Nes e sen ido, não é um me o acaso que os
concei os de S immung, Au a e A mos e a, enham su gido a pa i da
segunda me ade do século 19 e aden ado os séculos seguin es, em
au o es como Alois Riegl, Geo g Simmel, Wal e Benjamin, Ma in
Heidegge , He mann Schmi z e Ge no Böhme, como concei os cha es
pa a expo suas lei u as es é icas, enomenológicas e on ológicas da
mode nidade e da disposição do humano como um en e sensí el e
co pó eo localizado no limia en e a assim chamada Na u eza e o que
adicionalmen e se conside a seu opos o, a Cul u a.
O concei o de A mos e a e, bem an es, os concei os de S immung e
Au a su gem no discu so eó ico e ilosó ico a pa i da des uição
p og essi a dos espaços e ambien es na u ais e do deslocamen o da
expe iência do sublime da es e a do na u al e dos seus enômenos e
apa ências mais di e sas, pa a a es e a do cul u al, dos enômenos e
apa ências a i iciais, sejam eles cons uções a qui e ônicas, in enções
écnicas ou simplesmen e ações e oco ências comple amen e humanas,
como as gue as e as suas o ças explosi as.
Os concei os de A mos e a, Disposição [S immung], Au a e ambém
o concei o de Ambien e [Umwel ] ganham impo ância e a enção num
empo em que udo apon a pa a uma eneb osa mudança climá ica de ida
à p og essi a des uição da bios e a plane á ia que a ingi á de modo
adical a o ma de ida humana e a sob e i ência de odos os se es i os.
Essa ans o mação e des uição da a mos e a plane á ia pode se
conside ada um e lexo ou a é uma consequência de um mal es a , de uma
indisposição [Ve s immung] do humano em si, de uma des uição das
qualidades a mos é icas na economia dos sen imen os do humano, uma
indisposição do pa hos, uma apa ia con agian e que pe u a globalmen e a
a mos e a, a es e a in e io e ex e io do humano e do não humano na
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e a. T a a-se, po an o, de concei os ab angen es que conce nem aos
mais di e sos domínios e escalas.
A mos e as e Disposições são enômenos que se espalham no
espaço con e indo-lhe um ca á e especí ico, embo a semp e ansi ó io
e mu á el. Podem es a p esen es simplesmen e, su gindo do na u al;
podem se na u ais e cul u ais; ou podem se o almen e c iadas e
di ecionadas como ins umen os de desenho e de cons ução de um
de e minado obje o ou espaço (na a qui e u a, no paisagismo, no design)
ou de uma de e minada sociedade (na polí ica).
O humano, como odos os ou os se es i os, expe imen a semp e
e p oduz, a é um ce o pon o, a mos e as e disposições, que são
enômenos pe cep í eis apenas a a és da nossa p esença sensí el e
co pó ea, não apenas ísica, mas i ida ao habi a e ao espassa os
espaços, ambien es e paisagens. São enômenos dos in e s ícios, nem
obje os nem sujei os, mas jus amen e emanações dos obje os e dos
sujei os e, sob e udo, mani es ações especí icas de um e cei o si uado
en e sujei o e obje o, imp escindí eis pa a a cons i uição de ínculos ou
elos associa i os e comunica i os en e as mais di e sas apa ências.
Reconhece a p esença e a impo ância desses enômenos em suas
di e sas dimensões e o mas de exp essão jus i ica a abe u a des e
Colóquio a dis in as á eas de conhecimen o e de a uação (a qui e u a,
paisagismo, li e a u a, a es, psicologia, ecologia...) apos ando nas
pe spec i as o e ecidas po seus múl iplos pon os de con a o.
Di k Michael Henn ich, São Paulo, Julho 2019.

A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
6
On he Concep o A mosphe es
(Tex o inédi o, concedido pelo au o )
Ge no Böhme
Filóso o alemão con empo âneo, nascido em Dessau, em 1937, oi p o esso de Filoso ia
na Technische Uni e si ä de Da ms ad e di e o do Ins i u ü P axis de Philosophie
em Da ms ad . É au o de á ias publicações sob e iloso ia da ciência, é ica, es é ica,
an opologia e enomenologia da na u eza. Em
Ais he ik. Vo lesungen übe Äs he ik als
allgemeine Wah nemungsleh e
,
1
publicado em 2001, expõe sua eo ia sob e a pe cepção
es é ica das a mos e as.
The concep o an a mosphe e was o iginally in oduced by me in
he con ex o en i onmen al aes he ics
2
. The la e was pa o my
c i icism o ecology. The science o ecology s emming om E ns Haeckel
(19 h cen u y) a ha ime was p esen ed as a means o cope wi h he
p oblems we humans go li ing in a ce ain en i onmen . Ye , we a e no
me e na u al agencies. In he en i onmen conce ned, ou beha io is
poli ically, economically and ju idical pa e ned acco ding o ce ain
no ms. To gi e an example: ou en i onmen may be na u al, bu i is cu
in o pa cels and ea ed as p ope y. Thus, he claim o my o me wo king
g oup was o in oduce concep s s emming om humani ies in o he
science o ou en i onmen . This le us o he pa adox claim o a social-
na u al science (Soziale Na u wissenscha
3
). Pa o his was my u n o
aes he ics: Wha was missing in he con empo a y ecology, seen as a
science o en i onmen , was ou aes he ic ela ion o ha en i onmen .
We app ecia e ou en i onmen h ough bodily eeling o i : The
en i onmen is beau i ul, pleasan , and e en good, i we eel well in ha
en i onmen . We eel whe e we a e - in he sense o in wha so o
en i onmen . F om he e he main hesis: Th ough ou bodily eeling we a e
awa e o wha so o en i onmen we a e ac ually in.
1
Ge no Böhme, Ais he ique. Pou une es hè ique de l’expé ience sensible. ( ad.) Ma in
Kal enecke e F anck Lemonde.Dijon/F ance: Les p esses du éel, 2020.
2
Fü eine ökologische Na u äs he ik, F ank u /M.: Suh kamp 1989, 3. Au l. 1999.Polzka:
Wa schau: O ićyna Naukowa 2002.
3
Ge no Böhme, Engelbe Sch amm (eds.), Soziale Na u wissenscha . Wege zu E wei e ung
de Ökologie, F ank u /M.: Fische 1985.
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This is he place whe e he concep o a mosphe e comes in:
A mosphe es a e concei ed as some hing media ing objec i e ac s o he
en i onmen wi h ou subjec i e eeling o hem. An example is smell: Well,
bad smell may be an indica o o he ai su ounding us being oxic, bu i
mus no be ha way. A p oo is he case o nice smell: We may mee a
wonde ul smell in a pa k, bu he pleasu e o i – hough igge ing ou
i ali y – does no mean ha his smell has any physiological e ec .
The en i onmen al ac s, om ligh ning o sounds, om colo s o
o ms, om he quali ies o ai o he mo emen o i – i.e. winds – a e
p oducing a ce ain mood o he space conce ned, may i be na u e o build
en i onmen . A space wi h a ce ain mood ca ying i : ha is an
a mosphe e.
We may lea n a lo abou he connec ion o en i onmen al ac s o a
space and he mood we a e eeling by s udying his ela ion om he
pe spec i e o p oduc ion aes he ics, i.e. he p ac ices o p oduce a ce ain
mood in a gi en space. This is he eason why he a o s age se ing and
Hi sch eld’s A o Ga dening
4
a e hus impo an o en i onmen al
aes he ics, as well o na u al as o build en i onmen .
4
C. C. J. Hi sch eld, Theo y o Ga den A (Penn S udies in Landscape A chi ec u e), 2001.
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Sob e o concei o das A mos e as
( adução pa a po uguês de Flá io I o Sil a.)
Ge no Böhme
O concei o de a mos e a oi o iginalmen e in oduzido po mim no
con ex o da es é ica ambien al
5
, que, po sua ez, ez pa e da minha c í ica
à ecologia. A ciência da ecologia, p o enien e de E ns Haeckel (séc. XIX),
oi ap esen ada à época como um meio de lida com os p oblemas que nós,
humanos, emos ao lida com um ce o ambien e. No en an o, nós não
somos me as agências na u ais. Em um dado ambien e, nosso
compo amen o é polí ica, econômica e ju idicamen e moldado de aco do
com ce as no mas; po exemplo, nosso ambien e pode se na u al, mas é
ambém di ido em ações que são a adas como p op iedade. Assim
sendo, a demanda do meu an igo g upo de abalho e a a in odução de
concei os da á ea de humanidades na ciência de nosso meio ambien e. Isso
nos conduziu à ei indicação pa adoxal de uma ciência sociona u al
(Soziale Na u wissenscha
6
). Pa e dela consis ia na minha a enção à
es é ica: o que al a a na ecologia con empo ânea, is a como uma ciência
do ambien e, e a nossa elação es é ica com esse ambien e.
Vi enciamos nosso ambien e a a és de sua sensação co pó ea: ele
é belo, ag adá el e a é mesmo bom se nele nos sen imos bem. Sen imos
onde es amos – is o é, em que ipo de ambien e. Daí su ge a ese cen al:
a a és da nossa sensação co pó ea, omamos consciência do ipo de
ambien e no qual nos encon amos.
É aqui que en a o concei o de a mos e a: a mos e as são
concebidas como algo que media a os obje i os do ambien e com suas
pe cepções subje i as. Como exemplo, emos o chei o: bem, um mau
chei o pode se um indica i o de que o a que nos en ol e seja óxico, mas
ele não de e se dessa o ma. Uma p o a se ia o caso de um chei o bom:
5
Fü eine ökologische Na u äs he ik, F ank u /M.: Suh kamp 1989, 3. Au l. 1999.Polzka:
Wa schau: O ićyna Naukowa 2002.
6
Ge no Böhme, Engelbe Sch amm (eds.), Soziale Na u wissenscha . Wege zu E wei e ung
de Ökologie, F ank u /M.: Fische 1985.
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podemos sen i um odo ma a ilhoso em um pa que, mas o p aze que
emana disso – a a és da a i ação de nossa i alidade – não signi ica que
es e chei o enha qualque e ei o isiológico.
Os a os ambien ais, da iluminação aos sons, das co es às
o mas, das qualidades do a a seu mo imen o – i.e., en os –, p oduzem
uma ce a disposição [S immung] no espaço, seja ele um ambien e na u al
ou cons uído. Um espaço com uma ce a disposição que o ca ega: isso é
uma a mos e a.
Podemos ap ende mui o a espei o da conexão en e os a os
ambien ais de um espaço e a disposição que nele i enciamos ao es uda
essa elação a pa i de uma pe spec i a da es é ica da p odução, i.e., as
p á icas u ilizadas pa a p oduzi uma de e minada disposição em um
espaço de inido. Eis a azão pela qual a a e da cenog a ia e a A e da
Ja dinagem de Hi sch eld
7
são impo an es pa a a es é ica ambien al, seja
ela e e en e a ambien es na u ais ou cons uídos.
7
C. C. J. Hi sch eld, Theo y o Ga den A (Penn S udies in Landscape A chi ec u e), 2001.
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Tão dado como sou ao édio, é cu ioso que nunca, a é hoje,
me lemb ou de medi a em que consis e. […] O édio...
Pensa sem que se pense, com o cansaço de pensa ;
sen i sem que se sin a, com a angús ia de sen i ; não
que e sem que se não quei a, com a náusea de não
que e – udo is o es á no édio sem se o édio, nem é
dele mais que uma pa á ase ou uma anslação. […] O
édio... É al ez, no undo, a insa is ação da alma ín ima po
não lhe e mos dado uma c ença, a desolação da c iança
is e que in imamen e somos, po não lhe e mos
comp ado o b inquedo di ino. […] O édio... Quem em
Deuses nunca em édio. O édio é a al a de uma mi ologia
(PESSOA, 1986: 194-196).
O concei o de mode nidade é um concei o da penú ia, da al a, do
de ei o, da ca ência que cul i a, apesa das conquis as écnico cien í icas,
um sen imen o da decadência mo al e social. O mundo is o pelo
espec ado mode no es á em cons an e mudança, e uma espos a
ca ac e ís ica a essa ins abilidade é a c iação de ideologias, de isões de
mundo bem delimi adas, de ideologias que p ome em uma ixação do
mundo como uma única imagem. Ideologias p oduzem disposições e
onalidades especí icas pa a p o eção con a isões de mundos alheias.
Elas se en inchei am numa a mos e a peculia que impossibili a a
in il ação de a mos e as opos as. É uma exp essão da mode nidade que
ela seja expos a a uma cons an e modi icação das suas disposições. Ela
apa en emen e não insis e numa onalidade especí ica como, po exemplo,
a idade clássica, que e a e é conside ada uma época de ce os alo es e
a mos e as es á eis, uma época que se ia como exemplo e e e ência
imu á el, sob e udo po causa da sua p odução canônica. Po is o, há uma
elação di e a en e os concei os da mode nidade e da moda, cuja essência
eside jus amen e na sua incons ância e ansi o iedade: “A moda é o
e e no e o no do no o” (BENJAMIN, 2006: 173).
A c iação das a mos e as, ou, pa a se mais p eciso, a abe u a pa a
o a mos é ico su ge de uma ca ência do sujei o mode no, su ge do azio
que o no o impiedosamen e p oduz. Os mode nos se enchem com o azio
à p ocu a de algo consis en e, e oda e qualque consis ência é logo

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aniquilada pelo no o: a inconsis ência do sujei o mode no c iada a a és
da p ocu a pe pé ua do no o. Con udo, apesa de ca ac e izada como um
empo em cons an e modi icação e em cons an e ans o mação, exis e
uma noção bem de inida da disposição undamen al da mode nidade em
au o es apa en emen e ão opos os como Wal e Benjamim, em
Passagens,
e Ma in Heidegge , seja em
Se e Tempo
, seja em sua aula
Os
concei os undamen ais da me a ísica
. Ambos iden i icam o édio,
(
Langeweile
) como a disposição undamen al do século que an ecede a
segunda gue a mundial, ou, mais p ecisamen e, o século XIX e a p imei a
me ade do século XX. Pa a Benjamin, o édio su giu a pa i dos anos 40
do século XIX de o ma epidêmica, in e ando po in ei o a sociedade
bu guesa. Ele apa ece, esc e e Benjamin em
Passagens
, quando não
sabemos que es amos à sua espe a. Ele é, assim, uma disposição
au odes u i a na qual o sujei o não consegue se libe a da
au a
em que
os obje os, pessoas e a e a os são ap isionados. Essa
au a
é, pa a
Benjamin, conside ada uma
au a
inau ên ica, sus en ada pelo cul o ou pela
eligião e sem qualque capacidade emancipado a e que, na época da
ep odu ibilidade écnica, é des uída pa a da luga a uma
au a
au ên ica,
en e ada po baixo dos escomb os da his ó ia. Benjamin salien a ambém
que o clima, o mau empo, a chu a, o céu cinzen o e, assim, a a mos e a
plane á ia, se o na um ema impo an e na poesia de Cha les Baudelai e
e é no á el jun a es e a o, no início da Re olução Indus ial, à poluição
das g andes cidades, como Pa is e Lond es, e ao e ei o di e o que a
des uição da a mos e a do plane a em na disposição undamen al da
mode nidade. A complexidade do concei o da au a no pensamen o de
Benjamin p o ém da sua p óp ia eo ia da his ó ia e da ideia de deixa
apa ece aquela his ó ia inédi a, não di a, que se mos a nos deje os da
his ó ia esc i a e p omulgada pela au o idade da adição. Heidegge , na
sua in e p e ação, de ine o édio como disposição undamen al de uma
ci ilização que é essencialmen e indispos a (
e s imm
), sublinhando que
o humano pe deu o in e esse em si mesmo. Na indisposição, segundo
Heidegge , o humano se o nou cego pe an e si mesmo e pe deu o cuidado
pe an e o ambien e que o ce ca. O humano que não se pe cebe mais,
ambém não cuida mais da e a, ele se o na um se sem chão e sem
pá ia (
heima los
), o que se espelha ambém, e g a emen e, no descuida
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da na u eza. Os ês concei os, a a mos e a, a onalidade ou disposição e
a au a, não são concei os que designam a iações de um único signi icado,
mas eles se ap oximam em pa es. A au a pode se desc i a como uma
au éola que ci cunda um sujei o ou um obje o, uma emanação in isí el
desc i í el como a mani es ação da sua unicidade e peculia idade. A
disposição (
S immung
), já mais complexa, se si ua no in e s ício, no en e
espaço, nem sujei o, nem obje o. Mas, jus amen e de ido a es a posição
in e mediá ia, ela a inge os dois polos da elação dico ômica cons i uindo-
os, essencialmen e, a pa i do seu es a u o de e cei o e não-dico ômico:
é só a pa i da disposição que exis e uma elação en e sujei o e obje o
ou, em escala maio , a elação en e as pa es espalhadas no espaço e o
odo que é pe cebido e sen ido, com odos os sen idos, como po exemplo
uma paisagem. Assim, o concei o de a mos e a é, no conjun o, o concei o
mais ca ac e ís ico pa a a época a ual. A a mos e a é mais do que a
disposição de um enômeno espacial, uma o ma in o me que se espalha
e se es ende num ce o espaço e que é imedia amen e sen ida. As
a mos e as podem se c iadas ou p oduzidas, mas elas não são
compa á eis com os p óp ios sen imen os, não são exp essões
sen imen ais do indi íduo, mas aquilo que se o ma e es abelece na
elação en e os sujei os, os indi íduos i os e sensi i os e en e os
sujei os e os obje os pe cebidos pelos indi íduos. Tal como pode se
mani es a uma ce a a mos e a pe an e um obje o ou uma cena na u al,
pode se es abelece uma a mos e a pe an e um a e a o, um obje o
cul u al. Is o signi ica que, no conjun o dos ês concei os, sob e udo a
disposição e a a mos e a são enômenos de essonância com e e ência
implíci a e explici a à elação di e a e inespe á el en e o co po- i o (
Leib
)
e o ambien e (
Umwel
).
Conside ando o que oi explanado acima, não é uma oco ência
a bi á ia que, no inal da segunda pa e do século in e, enha su gido
uma es é ica da na u eza de o ien ação ecológica a pa i de uma
especí ica eo ia ge al das a mos e as, que já não esponde ao so imen o
bu guês pe an e a sociedade, mas sim ao so imen o pe an e a
deg adação e des uição acele ada da assim chamada na u eza, das
paisagens na u ais (BÖHME, 1989). Essa eo ia ge al das a mos e as é uma
espos a à decadência da es é ica da na u eza p oduzida pelo sujei o
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bu guês que p e e e e e ap ecia o na u al dis anciado, sus en ando o
es anhamen o e a p o unda a e são não econhecida con a o
incon olá el e i acional do na u al. Ela se des ela como a en a i a de
sal ação e es i uição das a mos e as no momen o o al e inegá el da sua
queda e des uição. Tudo gi a ao edo do possí el desapa ecimen o da
a mos e a plane á ia e é impo an e eco e aqui à noção da elação
di e a en e o mac ocosmo e o mic ocosmo, que já e a ema desde os
empos an igos: o humano é o espelho da o dem cósmica e a sua apa ia é
o espelho da apa ia da alma do mundo. Na época do
Capi aloceno
, is o é,
do mundo sob o domínio quase o al do capi alismo, não oco e apenas um
ce o
epis emicídio
–
uma exp essão co en e no pensamen o de
Boa en u a de Sousa San os que se e e e à des uição e aniquilação de
ou os conhecimen os e p á icas di e en es da cul u a écnico-cien í ico
do capi alismo ociden al-eu opeu – mas an es de mais nada um
a mos e icídio
, uma as a exclusão e des uição de disposições e
a mos e as e, a inal, a ex inção da a mos e a plane á ia em p ol da
ideologia p edominan e, hoje em dia espalhada po oda a e a. Uma
des uição ou a omização de disposições e a mos e as di e en es pa a
pe mi i apenas a mos e as ins an âneas e p é- ab icadas, massi icadas
e p oduzidas, po que na cul u a do
Capi aloceno
nada pode e um enigma
(enquan o a paisagem e o co po- i o se alimen am do enigmá ico).
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
20
Re e ências
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A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
21
A c iação de a mos e as p op ie a is as e
expulsi as pela ale os e a
Luanda F ancine Ga cia da Cos a
Psicanalis a, G aduada em iloso ia e Mes e em Psicologia Social pela PUC-SP.
Coo denado a do G upo de Pesquisa sob e É ica e Di ei os dos Animais do Di e si as-
USP.
Resumo: Pa indo do concei o de a mos e a sus en ado pelo ilóso o Ge no
Böhme e da concepção de ale os e a c iada pelo psicanalis a Jacques Lacan, es e
ensaio isa ealiza um diálogo en e essas elabo ações a im de pensa os
e ei os a mos é icos p op ie a is as e expulsi os p omo idos pela ale os e a
capi alis a e suas me cado ias em o ma de la usas, no con ex o especí ico das
des uições das paisagens na u ais e de suas a mos e as, bem como das
disposições co po ais dos sujei os pe an e o mundo na u al.
Pala as-cha e: a mos e a, ale os e a, capi alismo, me cado, An opoceno.
Abs ac : S a ing om he concep o a mosphe e suppo ed by he philosophe
Ge no Böhme and om he concep o ale os e a c ea ed by he psychoanalys
Jacques Lacan, his essay aims o ca y ou a dialogue be ween hese wo
elabo a ions in o de o hink abou he p op ie a y and expulsi e a mosphe ic
e ec s p omo ed by he capi alis ale osphe e and i s goods in he o m o la usas,
in he speci ic con ex o he des uc ion o na u al landscapes and hei
a mosphe es, as well as he bodily disposi ions o he subjec owa ds he na u al
wo ld.
Keywo ds: a mosphe e, ale osphe e, capi alism, ma ke , An h opocene.

A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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A mos e a. Subs an i o eminino que designa a es e a gasosa que
en ol e a e a e qualque obje o plane á io, a condição a mos é ica, o a
que espi amos, o ambien e men al, social ou mo al em que i emos, o
clima
8
. Pa a odos os desígnios, a a mos e a é uma ins ância que escapa à
ca ego ia do ap op iá el e da o ma, mui o embo a possa se elacionada
ao que é p óp io das o mas. A a mos e a nos en ol e, pene a, a e a. A
a mos e a é a es e a do compa ilhá el, do que nos liga.
Na iloso ia es é ica, Ge no Böhme (1993) ealiza um es o ço pa a
e i a a a mos e a do es ado de inde e minação on ológica, né oa que
pa ece p eenche o espaço, sem que saibamos se de emos a ibuí-las aos
ambien es, aos obje os ou aos sujei os que a sen em, a im de abalhá-la
como um concei o. Pa a an o, pon ua o ilóso o, a condição undamen al
se ia a de consegui explici a o peculia s a us in e mediá io en e sujei o
e obje o que a a mos e a ocupa. Re omando o concei o benjaminiano de
au a aplicado às ob as de a e o iginais, o es ado de inacessibilidade,
dis ância e espei o que as en ol e, Böhme localiza em seu uso o
ep esen an e subs i u o em eo ia pa a o concei o de a mos e a:
A angua da não conseguiu desca a a au a como se az
com um casaco, deixando a ás de si os salões sag ados
de a e pa a oda ida. O que eles [os angua dis as]
consegui am aze oi ema iza a au a dos a e a os
a ís icos, seu halo, sua a mos e a, seus nimbos. E isso
o nou cla o que o que az de um abalho uma ob a de
a e não pode se en endida apenas po meio de suas
qualidades conc e as. Mas aquilo que a excede, esse “a
mais”, a au a, pe maneceu comple amen e inde e minada.
A “au a" signi ica como se osse a a mos e a enquan o al,
o en elope não ca ac e izá el e azio de sua p esença
(BÖHME, 1993, s/n).
Esse “a mais” que excede é o ingimen o imp esso pela p esença
das coisas, das pessoas, das pala as, das imagens ou das
cons elações ambien ais que saem de si mesmas, mo imen o esse
8
h ps://michaelis.uol.com.b /mode no-po ugues/busca/po ugues-b asilei o/a mos e a/
Acesso em: 17 e 20.
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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chamado po Böhme de êx ases da coisa. U ilizando como exemplo o
obje o xíca a azul, o au o obse a que a condição azul ex a asa a xíca a,
não se es inge a ela po que a co é i adiada pa a o ambien e da xíca a,
ingindo-o. Des e modo, ao con á io da adição clássica que de ine as
coisas unicamen e pela con enção de suas o mas, c i é io que ca ac e iza
a sepa ação, di e enciação e unidade, Böhme ealiza uma o ção ao
essal a as ex e io izações das coisas, os modos como elas saem de si
mesmas:
Na on ologia clássica da coisa, a o ma é pensada como
algo que limi a e enclausu a, como aquilo que, de den o,
ence a o olume da coisa e, po o a, a limi a. A o ma de
uma coisa, no en an o, ambém exe ce um e ei o
ex e no. Ela i adia como se es i esse den o do
ambien e, e i a a homogeneidade do espaço ci cundan e
e o p eenche de ensões e suges ões de
mo imen o (BÖHME, 1993, s/n).
Não obs an e, é p eciso pon ua que a po a de en ada do in e esse
es é ico de Böhme é a ecologia. Seu concei o de a mos e a é buscado no
caminho de uma es é ica da na u eza, na es e a da elação en e
qualidades ambien ais e es ados humanos. Po isso o au o az ques ão de
lemb a que a au a benjaminiana não o a pensada apenas pa a os obje os
his ó icos, mas ambém, embo a cos umei amen e menos susci ada,
a ibuída, o iginalmen e, aos obje os da na u eza. Benjamin (2006) assim
a desc e e:
Podemos de ini-la como o apa ecimen o único de algo
dis an e, po mui o pe o que es eja. Segui com o olha
uma cadeia de mon anhas no ho izon e ou um amo de
á o e que dei a sob e nós a sua somb a, ao
descansa mos num Ve ão – is o é espi a a au a dessas
mon anhas, desse amo (BENJAMIN, 2006: 213).
Pa a a au a que aqui se espi a, a p esença do co po ganha
des aque no pensamen o de Böhme. É necessá io que haja uma disposição
co po al p esen e e ecep i a pa a cap a o êx ase de uma coisa. Pa a
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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sen i uma a mos e a, é p eciso um co po p esen e na paisagem, que se
deixe a e a pelo ho izon e, pela cadeia de mon anhas, pelo amo, pela
somb a, pelo e ão e pelo a que ingem o espaço, incluindo as co es da
p óp ia p esença co po al do sujei o. A a mos e a se ia, assim, a ealidade
comum daquele que pe cebe e do que é pe cebido, aquilo que se
expe imen a pela p esença co po al em elação com pessoas e coisas ou
com espaços, algo que p ocede de e é c iado po coisas, pessoas ou suas
cons elações (Böhme, 1993). As a mos e as, po an o, são eple as de
sen idos, não são espaços lu uan es e dissociados dos obje os e dos
sujei os, e, no en an o, embo a as a mos e as se a iculem a pa i e en e
eles, não podem se ca ac e izadas como algo obje i o e nem subje i o:
as a mos e as não são algo obje i o, is o é, qualidades
que as coisas possuem, ainda que, no en an o, elas sejam
algo do ipo coisa, pe encendo à coisa à medida em que
as coisas a iculam sua p esença po meio de qualidades
– concebidas como êx ases. A mos e as ampouco são
algo subje i o, po exemplo, de e minações do es ado
psíquico. E, no en an o, elas são como sujei os, pe encem
aos sujei os na medida em que são sen idas po se es
humanos de co pos p esen es, e essa sensação é, ao
mesmo empo, um es ado co po al do se de sujei os no
espaço (BÖHME, 1993, s/n).
Con udo, se o azul de uma xíca a, a p óp ia o ma da xíca a, uma
ob a de a e, uma cadeia de mon anhas, um amo, uma somb a, um
ho izon e e um co po p esen e imp imem suas co es na a mos e a que
c iam e sen em, o que pode íamos dize sob e uma xíca a queb ada, um
azul que desbo a, mon anhas de as adas, amos des ei os, ausência de
somb a pa a dei a , al a de ho izon e e uma disposição co po al onde o
sujei o não se ap esen e nela? Tal pe spec i a nos impele à e lexão sob e
um “a mais” nega i o c iado pelo mo imen o que lesiona, que ompe, que
de o ma. Como a i ma a ilóso a Ca he ine Malabou:
Ninguém pensa espon aneamen e numa a e plás ica da
des uição. No en an o, es a ambém con igu a. Uma ca a
queb ada é ainda um os o, um co o é uma o ma, uma
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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psique auma izada pe manece uma psique. A des uição
em seus cinzéis de escul o (MALABOU, 2014: 13)
Des e modo, endo em is a a a mos e a de des uição e
dese i icação da ida que se ap esen a na con empo aneidade numa
p opo ção nunca an es
a- ingida
, chegando a é mesmo a esculpi as
dimensões geológicas do plane a – o que ca ac e iza ia assim, po sua,
ez, a chamada E a do An opoceno – , se ia necessá io disce ni ao
menos duas ins âncias, no con ex o especí ico do capi alismo e seu
impe a i o de consumo: uma, que isa in e oga a a mos e a que ge a as
des uições ecológicas e a p óp ia a mos e a que é ge ada po elas (o que
implica, assumindo o pensamen o de Böhme, a inclusão da pe cepção dos
sujei os co po almen e p esen es) e, ou a, que se deb uça a pensa sob e
os p óp ios cinzéis, as e amen as emp egadas pa a esculpi as
a mos e as de des uições. Pa a an o, ac escen a emos ao deba e, a
pa i de en ão, uma ou a es e a, a ale os e a.
Ale os e a é um neologismo c iado pelo psicanalis a Jacques Lacan
(1969-1970/1992), a pa i do e mo g ego
ale eia
– des elamen o da
e dade – e das designações dos sis emas e es es (a mos e a, li os e a,
hid os e a e bios e a), pa a indica e nomea a exis ência de uma camada,
uma es e a especí ica c iada pelos e ei os inédi os da pa ce ia da
p oli e ação de me cado ias com o campo da ciência, uma ez que es a,
pa a Lacan, em a ca ac e ís ica de “ e ei o su gi no mundo coisas que
de o ma alguma exis iam no plano da nossa pe cepção” (LACAN, 1969-
1970/1992: 150) e não necessa iamen e de in oduzi um conhecimen o do
mundo que osse melho e mais amplo.
A ale os e a é ocupada po ondas he zianas que se en ec uzam,
ela se g a a azendo sulcos na Te a e ambém se encon a pa a além
dela: nas iagens espaciais pa a a lua ou pa a Ma e, onde se ou e, no
cen o, a oz humana. Seus obje os são cons i uídos po ab icações
di ecionadas à causação de desejo e, na medida em que as me cado ias
a ás das i ines passam a se egidas pela ciência, são nomeadas po
Lacan (1969-1970/1992) como la usas – e mo inspi ado no subs an i o
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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Dian e de al deslocamen o que me deixou sem pala as, pude escu a o
inconscien e que não alha, mas ala. E que me alou algo sob e o amanho
impac o dessa e dade da cul u a, que des ói a é as pala as a ibuídas
às coisas que des ói.
O segundo exemplo, ambém elacionado a esse ema, oi o e ei o
que e e em minha elação com a cidade e com os ios e có egos que nela
i em, a ocasião em que eu pude pe cebe , com ecep i idade a i a,
quando essas águas passam po debaixo dos meus pés e dos pés da
cidade, sob o chão cimen ado. A condição de não sabe da p esença deles
ali, po e em sido comple amen e e i ados do campo de isão cole i a,
endo seus êx ases se e amen e dilapidados, bloquea a a possibilidade de
eu sen i quaisque nuances de suas in as e, assim, es abelece uma
elação com eles.
Nessas duas exempli icações, os có egos e os ios o am des ei os
e e ei os pelas pala as e c ia am em mim um e ei o de acon ecimen o:
os ios e os có egos da cidade u banizada acon ece am em mim, como
nunca an es, e, jun o a eles, ou as empo alidades às suas ma gens me
a e a am. Tais expe iências ilus am como a p óp ia oz humana, es ando
ela no nosso cen o, é capaz de aze a unção não somen e de
encob imen o, mas ambém, de en elopamen o que ab e espaço pa a
ou as ozes, inumanas e a é inaudí eis, en a em ambém nessa
cons ução de cen alidade. Expe iências onde o êx ase da oz que sai de
si mesma a isca-se ao es angei o, ao encon o com o ou o, dissol endo
assim, a p óp ia ideia de cen o. En ão, além das ielas po onde é possí el
pe cebe que debaixo delas co e um io de io, quando ejo uma ampa de
buei o no as al o, semp e que posso, p ocu o le se ali es á esc i o “águas
plu iais” e su ilmen e ap oxima meu ou ido pa a en a escu á-las nas
gale ias escusas. E con inuo me su p eendendo, po ém, não sem do .

A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
33
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A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
34
Paisagem e me ópole
Robe o Rüsche
A qui e o e u banis a, dou o ando do p og ama de pós-g aduação em A qui e u a e
U banismo da Uni e sidade de São Paulo, pesquisado do Labo a ó io de Paisagem, A e
e Cul u a (LABPARC/ FAUUSP) em g upo de es udo in i ulado "Es udos sob e a
imaginação poé ica em paisagismo". É docen e do Cen o Uni e si á io San 'anna – Uni
San 'anna – nas disciplinas de paisagismo, u banismo e planejamen o u bano.
Resumo: As e lexões con idas nes e esc i o e sam sob e a paisagem enquan o
um modo de expe iência sensí el da ealidade. Inicialmen e, são ap esen ados
alguns aspec os con idos na ob a de au o es que não apenas ca ac e izam as
pa icula idades da paisagem sob um pon o de is a es é ico, mas ambém
suge em os desdob amen os con idos na i ência paisagís ica do mundo em que
habi amos. Pa a além de imagens idílicas ou pi o escas, o ex o abo da a
expe iência es é ica das cidades e das me ópoles, ap esen adas po um olha
paisagís ico. No exe cício de lei u a das g andes cidades, a paisagem mos a-se
como uma ca ego ia capaz de ap oxima ealidades a p incípio a as adas de
nossa sensibilidade.
Pala as-cha e: paisagem; me ópole; expe iência es é ica;
Abs ac : The e lec ions con ained in his w i ing a e abou he landscape as a
sensi i e expe ience o eali y. Fi s , he wo k p esen s au ho s and aspec s ha
no only cha ac e ize he pa icula i ies o he landscape as an aes he ic
expe ience, bu also sugges he de elopmen s con ained in he landscape
pe cep ion and li ingness o he wo ld. Beside he images ha sugges idyllic o
pic u esque images, he ex e e s o he aes he ic expe ience o ci ies and
me opolises p esen ed by he landscape app oach. In he exe cise o eading he
me opolis and he scenes o la ge ci ies, he landscape can be unde s ood i sel
as a ca ego y capable o b inging oge he he di e en eali ies ha su ound
bu a e ini ially dis an om ou sensi i i y.
Keywo ds: landscape; me opolis; aes he ic expe ience.
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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O p esen e ex o em como obje i o associa paisagem e
expe iência es é ica dos luga es, p ocu ando susci a a alidade do
sen imen o paisagís ico como um modo de ap op iação sensí el da
ealidade que nos en ol e. Não se a ando de um pon o de is a a ís ico
sob e as paisagens, as conside ações aqui eunidas isam indica os
desdob amen os da paisagem enquan o uma elação sensí el com o
mundo, na qual a linguagem poé ica cump e a unção de media o encon o
do homem com as dimensões limi adas e ilimi adas p esen es na i ência
dos ambien es em que habi amos. Além de uma disposição em elação à
na u eza, a paisagem nos apon a ainda pa a uma possibilidade de acolhe
es e icamen e as cidades e as me ópoles, enômenos apa ados das
elações com a na u eza e as dimensões do mundo na u al.
Paisagem e expe iência es é ica
Em meio aos di e sos desdob amen os que as elações en e
paisagem e es é ica suge em, os apon amen os aqui selecionados
p ocu am não apenas ap esen a a expe iência paisagís ica como um
modo de in e ação sensí el com a na u eza e o ambien e que nos en ol e,
mas ambém susci a a ideia de que, a a és das paisagens, conside adas
enquan o unidades sensí eis (SIMMEL, 2011), ins au a-se uma pe manen e
e semp e eno ada elação de al e idade que, a pa i da ap oximação
en e a sensibilidade e a na u eza ou mesmo en e a sensibilidade e o
mundo em que habi amos, suge e e insinua os laços p o undos, incógni os
e mis e iosos da nossa p óp ia exis ência na Te a.
Na en a i a de esboça o p olongamen o que a expe iência es é ica
da paisagem nos suge e, as conside ações de Simmel
13
es abelecem
alguns pa âme os undamen ais. Em p imei o luga , o au o a i ma que,
embo a comp eendida em uma unidade au ossu icien e e limi ada – os
limi es es abelecidos na is a de uma paisagem – a paisagem se mani es a
como um p olongamen o, uma ex ensão, uma p ojeção que se lança à
13
O ex o de Geo g Simmel cons i ui uma e e ência incon o ná el ao es udo das elações en e
paisagem e es é ica. Filoso ia da paisagem, publicado em 1913, possui um alo o iginal na medida
em que con e e à paisagem o inédi o s a us de uma ques ão ilosó ica, um p oblema a se a ado
no campo da iloso ia (SERRÃO, 2011).
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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con inuidade do empo e do espaço, ao ilimi ado que de ine o odo da
p óp ia na u eza. Em um campo isual es i o, a paisagem a i ma an o
sua unidade e indi idualidade, sua au onomia enquan o a anjo espacial
p óp io, quan o seu ínculo à o alidade na u al da qual oi sub aída. Em
um p ocesso semelhan e a uma ob a de a e
in s a u nascendi
, a seleção
e ecomposição e e uada pelo a is a na con o mação de uma paisagem
p ese a o ínculo com a o alidade da Na u eza, Desde o seu su gimen o,
embo a au ônoma, a paisagem é a a essada “pelo obscu o sabe des a
conexão in ini a” que ca ac e iza o mundo na u al (SIMMEL, 2011: 43).
É jus amen e isso que o a is a az – pa indo do luxo
caó ico e da in ini ude do mundo imedia amen e dado,
delimi a uma po ção, cap a-a e en o ma-a como unidade
que encon a ago a o seu sen ido nela mesma, e co a os
ios que a ligam ao mundo pa a ol a a ligá-los ao seu
cen o p óp io – udo isso azemos nós numa medida
in e io , menos undada em p incípios, de modo mais
agmen á io e de limi es ince os, logo que em ez de um
p ado e uma casa e um ibei o e um co ejo de nu ens
olhamos uma paisagem. (SIMMEL, 2011: 45).
Em segundo luga , é p eciso sublinha que Simmel a ibui à
S immung
de uma paisagem – aduzido enquan o um de e minado es ado
de alma que, concomi an emen e, habi a a dimensão sen imen al do
obse ado e se localiza obje i amen e na paisagem – a capacidade de
econs i ui a o alidade da qual a paisagem oi ex aída. No acolhimen o
es é ico do ambien e na u al, a paisagem, median e uma pa icula
condição anímica e a e i a, assegu a os ínculos à Na u eza, e nos o e ece
a in uição das dimensões ilimi adas que a ca ac e iza.
A pa i de Simmel, é possí el iden i ica em demais au o es an o
os p olongamen os e ex ensões que a expe iência sensí el das paisagens
nos suge e, quan o o ca á e incógni o que pau a a i ência do mundo sob
um pon o de is a paisagís ico. Nesse sen ido, econhecemos em E win
S aus esse ínculo da paisagem com a inconclusão de uma pe manen e
abe u a, a ingindo, nesse caso, os ex emos de uma deso ien ação
undada sob e dimensões eais e conc e as do mundo em que i emos.
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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En e o aqui e o além, a expe iência paisagís ica an ecipa qualque
signi icação e en ol e o sujei o em uma a mos e a sel agem, muda e
p imi i a, si uada “en e a pu a ísica e a pu a paisagem” (STRAUS, 2000:
378). A paisagem não a a, po an o, do espaço echado, desp o ido de
ho izon e, sis ema izado po um sis ema de coo denadas onde a o igem é
a bi á ia e absolu a, mas e e e-se à p esença do ho izon e que nos
en ol e, nunca é alcançado e que se mo imen a na p óp ia expe iência
paisagís ica – os “luga es adjacen es no in e io de um cí culo de
isibilidade” (Idem), no qual o sujei o semp e es á no cen o, uindo de um
e en o único, não passí el de epe ição. Segundo S aus, a paisagem
ecusa o plano e o p og ama e opõe-se à iagem cuidadosamen e
p epa ada e elabo ada. Do empo obje i o da iagem, a paisagem se a as a,
ecua à medida que se elaciona ao empo não mensu á el de e minado
po um es ado de espí i o.
No c epúsculo, na escu idão, no ne oei o, eu ainda es ou
na paisagem. Minha posição a ual é semp e de e minada
po aquela que me é mais izinha; eu posso ainda me
mo e . Mas eu não sei mais onde es ou, eu não posso
de e mina mais minha posição num conjun o pano âmico
(STRAUS, 2000: 379).
Compos a po momen os ugazes, espon âneos, desejos e
mo i ações súbi as que não comp eendem um obje i o de inido e não
alcançam uma esolução p ecisa, a paisagem pe manen emen e ede ine
seu ho izon e e seus limi es. Quan o mais nos ap oximamos e
conquis amos a paisagem, mais nos pe demos em elação ao mundo e a
nós mesmos, eliminado pe spec i as obje i as, his ó icas e demais
aspec os ela i os à nossa p óp ia consciência aco dada – na paisagem,
complemen a S aus, sonha-se despe o e com os olhos abe os. No
de aneio paisagís ico, colocamo-nos em um ambien e hos il e sel agem,
não domes icado, e ampouco comp eendido pela cul u a humana.
Con a iamen e, “[o homem] não pode mais ica comple amen e na
paisagem, mas ambém não pode escapa da paisagem po comple o”
(STRAUS, 2000: 388).

A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
38
Complemen ando os a gumen os de Simmel e S aus, os
apon amen os de E ic Da del ace ca da geog a ia, do sabe geog á ico, e
da paisagem a i mam a condição incon o na elmen e geog á ica e
sensí el do habi a humano sob e a Te a e con e em às exp essões
a ís icas e poé icas uma impo ância cen al na medida em que in o mam
e ansmi em as ca ac e ís icas e o om da expe iência paisagís ica. A
pa i de Da del, den e demais aspec os, é impo an e econhece que a
paisagem desdob a-se em um alo exis encial, si uado pa a além da
ciência ou da beleza na u al. “Todo obje i o de Da del se á mos a que a
geog a ia es á en ol ida, em sua p óp ia essência, po es a indagação
on ológica conce nen e ao homem, e é ali que ela encon a, inalmen e,
seu sen ido mais e dadei o” (BESSE, 2006, p. 85).
De aco do com Da del, paisagem e ealidade geog á ica dizem
espei o ao momen o inaugu al em que se e e i a uma descobe a da
Te a, do ambien e que nos en ol e, uma ealidade que se exibe
ma e ialmen e ao homem e es e icamen e o ques iona, impelindo-o à
ansg essão das dimensões cognoscí eis e obje i á eis conce nen es ao
in elec o. Na expe iência paisagís ica da deliana, há uma on ade de
“conhece o desconhecido”, “de alcança o inacessí el” pau ado sob e “uma
elação conc e a”, “uma geog a icidade do homem, de sua exis ência e de
seu des ino” (DARDEL, 1990: 2).Não exclusi a ao cien is a, ao pesquisado
ou ao geóg a o em sen ido es i o, a paisagem e e e-se ao mundo dos
homens, aos po os que o habi am. A paisagem não é, pa a Da del, um
simples a anjo de elemen os jus apos os. Em uma única imp essão, em
um só ins an e, a paisagem inco po a a ideia de uma o alidade, de uma
con luência, de uma ha monia undamen ada sob e a sensibilidade com a
qual acolhemos a ealidade habi ada. T a a-se de um encon o es é ico, no
qual o homem se libe a das dimensões espaço- empo ais ini as e
conhecidas, islumb ando a exp essão de uma abe u a, de um ho izon e,
de um “plano de undo eal ou imaginá io que o espaço ab e além do olha ”
(Idem: 42).
No des elamen o do mundo mediado pela expe iência paisagís ica,
as exp essões a ís icas e poé icas possuem pa a Da del uma impo ância
undamen al. Comp á el à geog a ia como esc i u a da Te a, a paisagem
se exp essa e nos ala sob “o jogo al e nado da somb a e da luz”, no qual
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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“a linguagem do geóg a o o na-se sem es o ço, a do poe a.” (Idem: 3).
“Enquan o p esença insis en e, quase obsessi a” (Idem), a dimensão
es é ica e a ep esen ação sensí el mis u am-se aos ios, às mon anhas,
aos ales ou às aldeias si uadas nos penhascos que se p oje am sob e o
ma . Não co espondendo a uma an asia, a um descolamen o das
dimensões eais, “há, mani es amen e, pa a Da del, uma e dade das
apa ências, po que elas não são ilusões, mas a isionomia do enômeno [a
que] não se pode acede a não se po um encon o es é ico.” (BESSE, 1990:
145)
.
É, po an o, a a és dessas su ealizações (ou i ealizações)
sensí eis que a paisagem se mos a, se deixa e e se ap esen a. O
desdob amen o do ho izon e, bem como das demais ca ac e ís icas que
de inem a expe iência paisagís ica, não se az alheio a um olha i o que,
enca nado e comp ome ido com a ealidade, ep esen a o gênio de um
luga sob uma o ma sensí el e poé ica.
O passeio de Robe Smi hson po Passaic
Em um sábado ou onal de 1967, Robe Smi hson se di ige a Passaic,
localidade si uada nos subú bios de No a Je sey.
Um passeio pelos
monumen os de Passaic
, publicado em dezemb o do mesmo ano, ence a
o ela o da iagem de Smi hson à cidade, eunindo, em ex os e o og a ias,
os comen á ios e as imp essões momen âneas e imp e is as do iajan e
sob e o pe cu so emp eendido. Ao con á io do que se pode pensa ,
monumen os
não designam, na na a i a de Smi hson, qualque ob a
e igida a comemo ações, acon ecimen os ou pe sonalidades. Mais
ace adamen e, a exp essão se associa a um conjun o de elemen os
comuns e desp e ensiosos dispos os nos luga es pe co idos pelo a is a
iajan e: uma pon e sob e o io Passaic; mu os de con enção; uma
pla a o ma de bombeamen o; uma c a e a a i icial; uma placa; a is a do
cen o de Passaic; e uma caixa de a eia. A i mando uma adical
dispa idade com ou os an os ela os e na a i as de iagem
14
não há, a
14
Re e imo-nos aqui às na a i as de iagem elabo adas en e os séculos XVIII e XIX, no abilizadas
po ep esen ações belas, pi o escas ou sublimes das cenas de na u eza imiscuídas às uínas e à
he ança da cul u a e ci ilização humanas, a exemplo do ela o de Goe he, de sua Viagem à I ália,
bem como ou as expe iências de iajan es alinhados com o pensamen o es é ico cien í ico ou
com as di e en es co en es do oman ismo.
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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p incípio, qualque no abilidade, singula idade ou expec a i a na ime são
subu bana de Smi hson. O deslocamen o smi hsoniano se exp essa, desde
seu início, de modo casual e o ui o: “Em um sábado, 30 de se emb o de
1967, ui ao edi ício da Po Au ho i y na ua Qua en a e Dois com a Oi a a
A enida. [...] A segui , ui ao guichê 21 e comp ei um bilhe e de ida pa a
Passaic” (SMITHSON, 2003: 123).
O que se sucede à pa ida, no deslocamen o do ônibus a é Passaic,
são e lexões que se mos am supe iciais e desin e essan es, pau adas
po uma elação limi ada à conc e ude do mundo co idiano, desp o ida de
in e esses e es i a à simples apa ência das coisas e dos obje os
ep oduzidos na dispe são de anúncios, esc i os de jo nais, e li os
ela ados pelo iajan e. Não obs an e a pouca a enção que Smi hson
con e e a ais documen os, con o me indica o modo com que o a is a
emp eende as lei u as e obse ações nos ma e iais que em à mão –
“Sen ei-me e ab i o
Times.
Passei os olhos sob e seção de a e [...]”; “[...]
meus olhos opeça am no ex o em í ulos ais como ‘Melho a Sazonal’,
‘Se iço de mudança’, e ‘T anspo a uma escul u a de 1.000 lib as ambém
pode se uma boa ob a de a e’”; ou ainda a lei u a da manche e em le as
maiúsculas “O ESTADO POLICIAL EMERGENTE NO GOVERNO ESPIÃO
NORTE-AMERICANO” (Idem: 123) – anspa ece nas desc ições iniciais de
Smi hson o delineamen o de uma a mos e a decisi a à ambien ação do
lei o ao ela o do a is a. A desa enção e o desp endimen o do iajan e
com o cená io en ol en e, pouco a en o ao que se mos a da janela do
ônibus – “do lado de o a do ônibus, passou oando um mo el Howa d
Johnson, uma sin onia de la anja e azul” (Idem: 123) – ansmi em imagens
pálidas e pouco a aen es que, desde o início do ela o, pa ecem imp egna
os subú bios isi ados pelo a is a.
Assim que sal a do ônibus, o p imei o monumen o – uma pon e
sob e o io Passaic – é obse ada sob o “sol do meio dia [que] da a um
ca á e cinema og á ico ao luga , con e endo a pon e e o io numa
imagem
supe expos a” (Idem: 123). A luz di e a, implacá el do sol a pino,
pa ece acen ua uma espécie de impene abilidade con ida na p óp ia
expe iência sensí el. Em ou as pala as, em locais desp o idos de beleza
e encan o, a p óp ia luz, a cla idade que é acen uada pelo sol e ical,
e o ça as di iculdades de cap a as o mas e os con o nos dos obje os
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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bem como suge e ce a esis ência à uição es é ica sob os pa âme os
do belo ou do pi o esco, ão comuns em ou os modos da expe iência
paisagís ica. Embo a indiscu i elmen e se a e de uma expe iência
es é ica, as ep esen ações de Passaic a a és da len e smi hsoniana se
mos am a a és de uma hipe exposição, median e imagens e
ep esen ações ex uais que suge em e con i mam cená ios de di ícil
assimilação. Se, em ou os casos, o sol e ela os e lexos e as somb as e
de e mina o p aze do olha , em Passaic udo se mos a inacessí el: a
pon e e o io são eduzidos a desna u adas o og a ias.
O sol con e eu-se numa lâmpada mons uosa que
p oje a a uma sé ie sucessi a de ‘ o og amas’ em di eção
aos meus olhos a a és da minha Ins ama ic. Quan o
andei sob e a pon e, oi como se andasse sob e uma
o og a ia eno me ei a de madei a e aço e, debaixo, o io
exis ia apenas e ão somen e uma imagem b anca e
con ínua (Idem: 126).
Pe o dali uma ba caça, como uma o ma “ e angula ine e”,
anspo a a um ma e ial desconhecido (p. 126). A pon e gi a a em o no
de seu eixo pa a a passagem da emba cação e suge ia ao iajan e “os
mo imen os
limi ados
de um mundo o a de moda” (Idem: 126). Tudo se
ap esen a como uídos, como enômenos em cons an e desa monia com
o iajan e, deslocado de seu e i ó io de o igem. Em Passaic, a a mos e a
é pesada, du a, demasiadamen e cla a, desp o ida de nuances, de ons
in e mediá ios, de co es e luminosidade que ap o unda iam o olha do
iajan e e do lei o nas cenas da expe iência i ida.
O segundo monumen o, os mu os de uma con enção em conc e o,
sus en a a a cons ução de uma au opis a. Sob epos a e con undida com
a ia exis en e, a ob a da no a ia exibia uma eição caó ica, uma con usão
de o mas es á icas, pa alisadas e imó eis. A ci cuns ância da isi a em
pleno sábado, con e e ao enômeno a ideia de um u u o já a uinado pelo
p óp io abalho do homem e das máquinas – “c ia u as p é-his ó icas
a oladas no ba o”; “máquinas ex in as – dinossau os mecânicos
desp o idos de pele” (Idem: 126). Ali po pe o, a mono onia das casas
mul iplicadas e dispos as lado-a-lado con i mam as imagens de um
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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Re e ências
BESSE, Jean-Ma c. “Géog aphie e exis ence, d’ap és l’oeu e d’E ic
Da del”, in DARDEL,
L’homme e la e e. Na u e de la éali é géog aphique
.
Pa is: Edi ions du CTHS, 1990.
____________________.
Ve a Te a: seis ensaios sob e a paisagem e a
geog a ia
. T adução Vladimi Ba alini. São Paulo: Pe spec i a, 2006.
DARDEL, E ic.
L’homme e la e e. Na u e de la éali é géog aphique
.
Pa is: Edi ions du CTHS, 1990.
SIMMEL, Geo g. “Filoso ia da paisagem”, in: SERRÃO, A. V. (coo denação).
Filoso ia da Paisagem. Uma An ologia
. Lisboa: Cen o de Filoso ia da
Uni e sidade de Lisboa, 2011.
STRAUS, E win.
Du sens d essens. Con ibu ion à l´ é udedes ondemen s
de la psychologie
. T ad. G. Thines e J.-P. Leg and. G enoble: Jé ôme Million,
2000.
SMITHSON, Robe . “Um passeio pelos monumen os de Passaic, No a
Je sey”. Ap esen ação e adução: Agnaldo Fa ias. In:
Re is a Espaço &
Deba es
. São Paulo: p. 120-128, nº 43-44, ol. 23, jan/dez 2003.

A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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Uma a essia de Be lim:
caminhada e lâne ie
Willi Bolle
P o esso i ula sênio de Li e a u a Alemã na FFLCH-USP. Publicou, en e ou os, o
li o Fisiognomia da Me ópole Mode na (EdUSP).
Resumo: Rela o de uma caminhada de se e dias, ealizada em junho de 2017,
ocasião em que o au o pe co eu Be lim a pé, de no e a sul e de oes e a les e.
T a a-se de uma a essia no espaço e no empo, uma ez que no ele o, nos ios
e lagos, nos pa ques, nas p aças e uas, nas cons uções, mis u am-se
lemb anças pessoais e as “co en es da his ó ia”, g a adas na geog a ia
be linense.
Pala as-cha e: Be lim; caminhada; geog a ia; his ó ia; memó ia.
Abs ac : Repo o a se en-day walk, ca ied ou in June 2017, when he au ho
a eled Be lin on oo , om no h o sou h and om wes o eas . I is a jou ney
no only in space bu also in ime, in which pe sonal memo ies a e mixed wi h he
"cu en s o his o y" eco ded in Be lin geog aphy.
Keywo ds: Be lin; walking; geog aphy; his o y; memo y.
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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O ma e ial pa a a pales a em o ma de powe -poin , que ap esen ei
em 2019 no Colóquio “A mos e a, S immung, Au a”, oi cole ado em junho
de 2017, quando ealizei uma a essia da minha cidade de o igem, a
me ópole Be lim, em oda a sua ex ensão, de no e a sul e de oes e a
les e, du an e se e dias, caminhando dia iamen e en e 15 a 20 km. O
sub í ulo “caminhada e lâne ie” oi inspi ado pela isionomia opog á ica
da capi al alemã, na qual se mis u am elemen os paisagís icos de an igas
aldeias e açados u banís icos e a qui e ônicos ípicos de uma me ópole
mode na. Baseio-me ambém em dois ex os clássicos. O p imei o é o
omance
Os anos de caminhadas de Wilhelm Meis e
(1821), de Johann
Wol gang on Goe he. A ideia da caminhada pode se sin e izada com es a
ci ação: “A maio ia dos bens que ecebemos e os mais impo an es
consis em no que é mó el, e naquilo que ganhamos a a és de uma ida
em mo imen o”. O segundo ex o é a ob a das
Passagens
(1927-1940), de
Wal e Benjamin, na qual ele desc e e de alhadamen e a igu a do
lâneu
.
Es e se au ode ine assim, segundo o esc i o Ma cel Réja, ci ado po
Benjamin: “Eu iajo pa a conhece a minha geog a ia”. O
lâneu
, como
explica o au o das
Passagens
, dialoga com o espaço, que “pisca pa a ele”,
pe gun ando “En ão, o que e á acon ecido em mim?” Com base nesses
p essupos os, amos inicia a nossa a essia de Be lim.
Pa a a o ien ação do lei o , eme o ao mapa de Be lim (Imagem 1),
que mos a o pe cu so da a essia. No p imei o dia, comecei no no e da
cidade, no dis i o de Reinickendo , caminhando do bai o de F ohnau a é
o de Tegel. No segundo dia, p ossegui de Tegel a é o limi e com o dis i o
de Mi e. No e cei o dia, esol i con inua a a essia a pa i do sul da
cidade, no dis i o de Tempelho -Schönebe g, en ando em seguida no de
Neukölln. Comple ei a a essia no e-sul-no e no qua o dia,
caminhando de Neukölln po F ied ichshain-K euzbe g a é o limi e de
Mi e com Reinickendo . No quin o dia iniciei a a essia oes e-les e no
dis i o de Spandau, chegando a é Cha lo enbu g-Wilme sdo . No sex o
dia mudei no amen e de di eção, começando no les e, a a essando os
dis i os de Ma zahn-Helle sdo , Lich enbe g e F ied ichshain-K euzbe g
pa a chega em Mi e. E no sé imo e úl imo dia, comple ei a a essia de
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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Be lim, caminhando de Cha lo enbu g-Wilme sdo a é Mi e, a é a p aça
mais amosa da cidade: Alexande pla z.
Imagem 1: O pe cu so da a essia
on e: o au o .
1º dia: En ando em con a o com caçado es de enas
O caminhan e que en a em Be lim pelo ex emo no e, no bai o de
F ohnau, é acolhido po uma lo es a bas an e ex ensa. Depois de uns dois
quilôme os, ele começa a passea pelas uas a bo izadas, os e des
e enos e as casas bem cuidadas desse bai o-ja dim, c iado na p imei a
década do século XX, quando a Alemanha i eu um pe íodo de
p ospe idade. Na p aça cen al de F ohnau encon a-se uma on e com a
es á ua de uma nin a; daqui a is a-se a o e do cassino que unciona a ali
há mui as décadas a ás.
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Con inuamos a é o bai o izinho de He msdo , que nasceu, assim
como mui os ou os bai os de Be lim, de uma aldeia c iada no inal da
Idade Média. No museu local es ão expos os p eciosos documen os
his ó icos, que emon am a é a Idade da Ped a. Há uma ep odução de um
acampamen o de caçado es de enas, que exis iu ali há ce ca de 10.000
anos. Eles se es abelece am às ma gens do iacho Fließ, que pe co e
es a pa e do no e de Be lim e deságua no lago de Tegel. As lâminas de
sílex usadas pelos caçado es azem lemb a u ensílios semelhan es dos
habi an es das sel as b asilei as, especialmen e os po os do al o Xingu,
que o am pesquisados no inal do século XIX pelo e nóg a o be linense
Ka l on den S einen.
Imagem 2: Lago de Tegel e an igas aldeias
on e: Fo o i ada pelo au o no Heima museum He msdo .
Pa a o lei o e uma ideia mais conc e a da opog a ia do no e de
Be lim, insi o aqui um mapa, cujo cen o é o lago de Tegel (Imagem 2). Ele
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az pa e do sis ema lu ial do Ha el, que acompanha a cidade de Be lim
na pa e oes e, de no e a sul, e é um a luen e do io Elbe, que deságua no
Ma do No e, pe o de Hambu go. O lago de Tegel oi o mado no im do
úl imo pe íodo glacial e con ém á ias ilhas a bo izadas; o conjun o pa ece
uma Amazônia em minia u a. Pe o do lago, das sua es colinas cobe as
de lo es as e sob e udo ao longo do iacho Fließ, es abelece am-se,
desde a Idade Média, c iadas po ibos esla as e ge mânicas, á ias
aldeias: He msdo , Tegel, Wi enau e Lüba s. Es a é a aldeia mais an iga
em Be lim; seu nome p o ém de uma pala a esla a, “ljuba”, que signi ica
“amo ”.
Quem me ansmi iu o amo po oda essa egião, que é a e a da
minha in ância e adolescência, oi a minha p o esso a da escola p imá ia,
no bai o de Waidmannslus (“P aze do caçado ”), c iado no inal do
século XIX en e Lüba s e Tegel. Caminhando em di eção a Tegel,
passamos pelo conjun o habi acional F eie Scholle, undado em 1895 e
concluído em 1929 pelo a qui e o e u banis a B uno Tau . Esse conjun o é
um exemplo da combinação de unidades habi acionais u banas com
ja dins u ais p odu i os, con o me as suges ões de Lebe ech Migge em
seu li o
Jede mann Selbs e so ge !
(Cada um au ossu icien e!, 1918).
2º dia: Relemb ando os p epa a i os pa a o pouso na Lua e
caminhando po uas da Á ica
P osseguindo a nossa caminhada po Tegel, e emos como es e
bai o – a a és de qua o ei os – se p oje ou na li e a u a e na his ó ia
alemã e uni e sal. Enquan o a capi al Be lim não é mencionada na ob a
mais amosa da li e a u a alemã, o bai o de Tegel apa ece ali com
des aque. Pa a en ende melho o con ex o, amos caminha a é o Moinho
de Tegel que e a, segundo as lendas medie ais, um luga de b uxas e
an asmas. O esc i o be linense F ied ich Nicolai, um dos ep esen an es
da
Au klä ung
, inha publicado um poema i ônico sob e o omance de
es eia de Goe he,
Os so imen os do jo em We he
(1774). O a, o mesmo
Nicolai chegou a mani es a a sua c ença em an asmas, que e iam
apa ecido pe o do e e ido moinho, numa casa lo es al. Na segunda pa e
de sua agédia
Faus o
(1832), Goe he eplicou a Nicolai, e e indo-se a ele

A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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com a igu a ca ica u esca do P oc o an asmis a, que decla a: “Somos ão
in eligen es e, mesmo assim, há an asmas em Tegel”.
Ao lado do moinho es á localizado o Pa que Humbold com o cas elo
que pe encia a essa amília da a is oc acia p ussiana. Dois memb os da
amília, os i mãos Wilhelm e Alexande , o na am-se mundialmen e
amosos. Wilhelm on Humbold (1767-1835) oi um eminen e linguis a e o
c iado da Uni e sidade de Be lim. Alexande on Humbold (1769-1859) oi
um iajan e e pesquisado exempla do nosso plane a Te a no conjun o
do uni e so; a sua ob a em ampla epe cussão in e nacional a é hoje.
Saindo do pa que, caminhamos a é a bei a do lago de Tegel,
ap eciando as suas a bo izadas ma gens e ilhas. De lá, seguimos a é o
local da an iga aldeia de Tegel, com a ig eja lu e ana, a é chega na á ea
da companhia Bo sig, que inha inaugu ado aqui, em 1898, uma áb ica de
locomo i as, que o am expo adas pa a o mundo in ei o. A ualmen e, essa
á ea é ocupada po um shopping cen e . P osseguindo em di eção ao
cen o de Be lim (que ainda es á dis an e), passamos pela en e do
P esídio de Tegel. Nes e local inicia-se o en edo do omance
Be lin
Alexande pla z
(1929), de Al ed Döblin, uma ob a que ep esen a a
p incipal con ibuição alemã pa a a li e a u a uni e sal em e mos de
e a os da me ópole mode na. O omance começa com es a ase: “Ele
[o p o agonis a F anz Bibe kop ] es a a dian e do po ão da p isão de
Tegel, li e”.
Em seguida já a ingimos a á ea do ae opo o de Tegel. Foi aqui que,
nos anos 1930, o jo em engenhei o We nhe on B aun (1912-1977) iniciou
os seus es es com ogue es (imagens 3a e 3b). Sob o egime nazis a, ele
oi o p incipal esponsá el pela cons ução dos ogue es mili a es V 1 e V
2. Em 1945, logo após a gue a, on B aun emig ou pa a os Es ados Unidos.
A pa i de 1959, abalhou na NASA, e nos anos seguin es coo denou a
cons ução do ogue e Sa u no V, que ez pa e do p og ama Apolo, o qual,
em 1969, conseguiu le a pela p imei a ez o homem à Lua.
Con inuando a nossa caminhada pela Sees aße, que az pa e do
eixo de uas que a a essa Be lim de no e a sul, chegamos no Bai o
A icano (A ikanisches Vie el). Nas pa edes da es ação de me ô
A ikanische S aße es ão expos as imensas o os de gi a as, leões e
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inoce on es. O Bai o A icano oi undado em 1899, numa época em que
o Impé io Alemão inha adqui ido di e sas colônias na Á ica – Togo,
Cama ões, Á ica O ien al (a ual Tansânia) e Á ica do Sudoes e (a ual
Namíbia) – e p e endia o na -se uma po ência mundial, que endo amplia
cada ez mais o seu domínio colonial sob e aquele con inen e. Nomes de
uas como Togos aße, Kame une S aße, Kongos aße, Guineas aße e
Senegals aße e le em essa his ó ia e essas p e ensões. Recen emen e,
os nomes de ep esen an es do colonialismo alemão nas placas de uas
o am subs i uídos po nomes de de enso es da independência a icana.
Fo am c iadas ambém caminhadas cole i as pelo bai o com guias
a icanos, que passa am a esidi ali e comen am c i icamen e a his ó ia
colonial.
Imagem 3a: We nhe on B aun es ando ogue es
on e: Fo o i ada pelo au o no Heima museum He msdo .
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Imagem 3b: Ae opo o de Tegel
on e: o au o .
O nosso p óximo des ino é a p aça de Reinickendo , a an iga “Aldeia
das aposas”, que deu o nome ao dis i o. Pe o dali em o cha moso “Lago
dos pas o es” (Schä e see), onde podemos pa a pa a oma um ca é e
ap ecia a is a sob e os que passeiam pelo lago num ba co a emo.
Concluímos a caminhada des e dia com uma a essia do adicional bai o
ope á io de Wedding, a é a es ação de ens de Gesundb unnen, ao lado da
qual se e gue a colina de Humbold hain, cobe a po um denso bosque. No
opo dessa colina, a pa i da qual se em uma is a pano âmica sob e o
bai o, encon amos es ígios da Segunda Gue a Mundial: um bunke ,
onde a população se p o egia du an e os a aques dos bomba dei os
ingleses e no e-ame icanos, e uma o e onde es a am ins alados
canhões de de esa an i-aé ea.
3º dia: Uma a mos e a de con os de adas, mas ambém de
nec ópole
No e cei o dia, en amos em Be lim pelo ex emo sul. Passamos a
conhece mais uma aldeia, a de Lich en ade, com a sua ig eja an iga, pe o
de um lago com belas lo es aquá icas. Mas nem udo é idílico nes e bai o.
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Numa das calçadas encon amos placas de me al em memó ia dos judeus
assassinados du an e a época do nazismo.
En ando no dis i o de Neukölln, caminhamos po uma as a á ea
ocupada po pequenas casas ce cadas de ja dins, onde uma pa e dos
be linenses passa seus ins de semana. Os caminhos ali êm nomes de
con os de adas, como Cinde ela, Sapo-Rei e Anão Na igudo. Chegamos
em seguida ao B i ze Ga en, o qual é, ao lado do Ja dim Bo ânico, o mais
boni o pa que-ja dim da cidade. No Ja dim das Rosas podemos admi a
essas belas lo es em odas as suas a ian es c omá icas. Nos ins de
semana da p ima e a e do e ão, as amílias acomodam-se nos g amados
e ão usu uindo essa saudá el a mos e a (Imagem 4). Descansando na
g ama, uma mulhe olha pa a o céu azul e sonha com o in ini o... O pa que
é o ganizado em o no de um iângulo de lagos ap azí eis. Num dos
can os oi es abelecido o Ja dim das B uxas, com uma amos a de plan as
cu a i as, u ilizadas desde a Idade Média, den e elas: a nica, camomila,
den e-de-leão, e a-doce, ho elã, mal a e melissa.
Depois do B i ze Ga en, c uzamos o Tel owkanal, um dos canais
c iados pa a o anspo e de me cado ias na á ea de Be lim, e
caminhamos umo ao cen o do bai o de Neukölln. Passamos po um
cemi é io, no qual oi o ganizada uma exposição chamada “Nec ópole
Be lin-Neukölln”, pa a elemb a as í imas da Segunda Gue a Mundial.
Um pouco mais adian e es á em cons ução o “Tempohome”, um ab igo
p o isó io pa a os e ugiados que es ão chegando de países do p óximo e
médio O ien e e da Á ica. Concluímos a caminhada des e dia nas es ações
de me ô e de S-Bahn de Neukölln. Es a úl ima az pa e de um anel de
ens ápidos em o no do cen o de Be lim, ao qual ainda amos nos
e e i mais adian e.
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Imagem 7: O Es ádio Olímpico de Be lim
on e: o au o .
Imagem 8: O dia da inaugu ação dos jogos de 1936
on e: o o i ada pelo au o de um painel his ó ico no Es ádio Olímpico de Be lim.

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Imagem 9: O cen o de Be lim em 1945
on e: ca álogo de uma exposição o og á ica de 1975, e a ando a cidade em 1945.
6º dia: Como c ia um sis ema de anspo e público que dispensa o
uso do au omó el?
Nes e penúl imo dia, iniciamos a a essia mais uma ez pelo lado
opos o, ou seja, pelo ex emo les e, en ando pelo dis i o de Ma zahn-
Helle sdo . Es a pa e da cidade é ma cada po á ios ambien es
bucólicos: desde o Lago do Bag e, logo na en ada; passando pelo pa que
de Ma zahn, que pode se obse ado ambém do al o, a pa i da linha
ele é ica; e con inuando pelo ale do iacho Wuhle, com uma g ande
a iedade de lo es campes es; a é chega na aldeia de Biesdo .
A pa i daqui p osseguimos em di eção ao cen o de Be lim pela
odo ia ede al núme o 1 (Bundess aße 1), que a a essa a Alemanha
in ei a: da on ei a com a Polônia, na cidade de F ank u no io Ode , a é
a on ei a com a Holanda. Seu açado, nes a pa e da cidade, coincide
com a F ank u e Allee. Es e é ambém o nome da es ação de ens que
c uzamos e que az pa e do anel de S-Bahn em o no do cen o es endido
de Be lim. É o momen o de ap esen a mos b e emen e o sis ema de
anspo e público da capi al alemã, com base no mapa que mos a a ede
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de ens u banos (Imagem 10). Uma ca ac e ís ica especial de Be lim é a
complemen a iedade en e S-Bahn e U-Bahn. O p imei o nome em de
“S ad -Schnellbahn” ( em ápido u bano), o segundo de “Un e g undbahn”
(Unde g ound), sendo que ambos os ipos de ens podem e suas
es ações localizadas na supe ície ou debaixo da e a. A S-Bahn o iginou-
se a pa i das e o ias in e u banas; o anel de 37 km em o no do cen o
de Be lim oi inaugu ado em 1871. Sua ede, com 327 km de ex ensão e 166
es ações, es ende-se a á ias pequenas cidades nos a edo es da capi al
alemã, como Po sdam e Be nau. Já a U-Bahn, que oi inaugu ada em 1902
e cuja ede em 146 km de ex ensão e 173 es ações, é um sis ema
exclusi amen e u bano. Somando os se iços de ambas as edes de ens,
o sis ema público do anspo e de Be lim – uma cidade com ce ca de 4
milhões de habi an es – não ica a ás de nenhuma ou a me ópole do
mundo.
Imagem10: O anspo e público em Be lim: a ede de ens
on e: ep odução do mapa da Companhia do T anspo e Público de Be lim.
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Con inuando a caminha pela F ank u e Allee, chegamos a um
echo de qua ei ões que o am cons uídos a pa i de 1949, e cujo
conjun o se o nou o p incipal bule a da capi al da Alemanha O ien al. Em
homenagem ao líde do país que enceu a Segunda Gue a Mundial, ele oi
denominado de S alinallee. Con o me o modelo so ié ico, o am e guidos
ali p édios de mo adias que passa am a se chamados de “palácios dos
abalhado es”, endo ao seu lado con o á eis
o oi s
, lojas a aen es e
inos es au an es. Num desses p édios, os cons u o es – p ocu ando
uni os ideais do comunismo com a ama do maio esc i o alemão –
g a a am es a ci ação do
Faus o
de Goe he, que exp essa o desejo u ópico
do p o agonis a colonizado : “Quise a eu e al po oamen o no o / E em
solo li e e -me em meio a um li e po o”. Te minamos a caminhada
des e dia na Alexande pla z.
7º dia: É só o encedo que de e comanda a cons ução de uma
cidade?
Nes e úl imo dia, amos conclui a nossa a essia de Be lim com
uma caminhada da Funk u m, a o e de ádio (150 m de al u a) inaugu ada
em 1926 no bai o de Cha lo enbu g, a é a Fe nseh u m (368 m),
inaugu ada em 1969 jun o à Alexande pla z. Do al o da Funk u m já
a is amos o nosso des ino, que ica a ce ca de 12 km de dis ância, em linha
e a, andando pela a enida oes e-les e, que nes a pa e inicial chama-se
Kaise damm (Bule a do Impe ado ). Ela se á o eixo da nossa caminhada,
mas a emos dois des ios.
O p imei o des io se á logo mais adian e, quando i amos à
esque da, pa a conhece o cas elo de Cha lo enbu g. Cons uído em o no
do ano de 1700, o cas elo – cujo nome é uma homenagem à ainha Sophie
Cha lo e (1668-1705) – oi a esidência de e ão da amília eal da P ússia.
Con inuamos a é a E ns -Reu e -Pla z, cujo nome ememo a o p imei o
p e ei o de Be lim Ociden al (1948-1953). Nes a p aça encon a-se o mais
al o dos p édios da Uni e sidade Técnica de Be lim. Subindo a é o 20º
anda , des u amos de uma p i ilegiada is a pano âmica sob e os bai os
cen ais de Be lim. Olhando pa a ás, elemb amos o cas elo de
Cha lo enbu g, Funk u m e Teu elsbe g. Olhando pa a en e, emos o
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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ex enso pa que cen al da cidade (Tie ga en), a Coluna da Vi ó ia e a
Fe nseh u m. G aças a es as múl iplas pe spec i as e qualidades, a E ns -
Reu e -Pla z pode se ca ac e izada com es a o mulação que se encon a
nas
Passagens
, de Wal e Benjamin: “Os pon os culminan es da cidade são
suas p aças, onde desembocam não só mui as uas, mas ambém as
co en es de sua his ó ia”.
Pa a conhece mais uma das co en es da his ó ia de Be lim, amos
aze um segundo des io, des a ez à di ei a do eixo oes e-les e,
caminhando a é a Kaise -Wilhelm-Gedäch niski che, que é um dos
p incipais emblemas da cidade. Essa ig eja lu e ana oi cons uída en e
1891 e 1895, em es ilo neo omân ico, em memó ia do Impe ado Wilhelm
I. A sua o e, com 113 m, e a naquela época a mais al a da cidade. Nos
bomba deios du an e a Segunda Gue a Mundial, a ig eja oi se iamen e
dani icada. Na época da econs ução de Be lim hou e um consenso de
man e a uina da o e como um monumen o con a a gue a.
Na p aça B ei scheidpla z, onde ica a Gedäch niski che, inicia-se o
mais amoso bule a de Be lim Ociden al: a Ku ü s endamm. Com suas
lojas de luxo, inos ca és e es au an es e di e sos pon os de a i idades
cul u ais, ele i eu o seu auge nos chamados “anos dou ados de 1920”. A
con inuação da Ku ü s endamm, passando pela Gedäch niski che, é a
Tauen ziens aße. Nesse bule a , com ainda mais o e as de me cado ias,
encon a-se a loja de depa amen os KaDeWe (Kau hausdesWes ens),
inaugu ada em 1907 (Imagem 11). Com uma o e a deslumb an e de a igos
de luxo – oupas de moda, cosmé icos, comidas e inadas e os mais
a iados obje os de uso co idiano –, a “Loja de Depa amen os do Oes e” é
a mais amosa de oda a Alemanha e pode conco e de igual pa a igual
com as melho es do mundo.
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Imagem 11: A KaDeWe (Loja de Depa amen os do Ociden e)
on e: o au o .
Depois desse des io, ol amos a caminha pelo eixo oes e-les e, em
di eção à Coluna da Vi ó ia (Siegessäule). Esse monumen o, que em no
seu opo uma es á ua dou ada da deusa encedo a, oi e guido pa a
comemo a a i ó ia dos exé ci os alemães unidos sob o comando da
P ússia con a a F ança, na gue a de 1870/71. Con inuando pelo pa que
cen al do Tie ga en, encon amos do lado esque do, imedia amen e
an es do Po ão de B andembu go, o monumen o da i ó ia das opas da
União So ié ica, em 1945, sob e a Alemanha nazis a. Olhando a pa i daqui
– do anque T 134, que az pa e do monumen o so ié ico – pa a ás, a é a
Coluna da Vi ó ia, a is amos um dos mais ins u i os quad os da his ó ia
alemã e uni e sal. Ele nos mos a como uma i ó ia (1871) se ans o mou
em de o a (1945). Nada melho pa a comen a esse quad o (Imagem 12)
do que es a ci ação de F ied ich Nie zsche, de suas
Conside ações
ex empo âneas
, publicadas em 1873:

A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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Imagem 12: Uma i ó ia [1871] que se ans o mou em de o a [1945]
on e: o au o .
Uma g ande i ó ia é um g ande pe igo. De odas as más
consequências dessa gue a con a a F ança a pio é o
e o da opinião pública de que ambém a cul u a alemã
enha encido nessa gue a. Esse des a io é ne as o,
po que ele pode á ans o ma a nossa i ó ia numa o al
de o a.
A ás do monumen o so ié ico encon a-se o p édio do Reichs ag,
onde unciona a a pa i dos anos 1890 o pa lamen o do Impé io Alemão e,
a pa i de 1919, o da República de Weima . Em e e ei o de 1933, um mês
depois de Adol Hi le e sido nomeado o che e do go e no do país, o
Reichs ag oi incendiado e des uído pelas chamas. O go e no nazis a
a ibuiu esse c ime às o ças de esque da e o usou como p e ex o pa a
liquida um g ande núme o de seus ad e sá ios. Desde o inal dos anos
1990, o p édio, que oi econs uído e ecebeu uma bela cúpula pano âmica,
é o espaço de abalho do pa lamen o alemão.
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Passamos ago a pelo Po ão de B andembu go. Essa cons ução,
em es ilo neoclássico, inaugu ada no inal do século XVIII e endo no seu
opo a escul u a de uma
quad iga
– a es á ua da deusa g ega da Paz,
puxada po qua o ca alos – é o monumen o p incipal da cidade de Be lim.
A imagem do Po ão pe co eu o mundo in ei o quando, no dia 9 de
no emb o de 1989, oco eu a queda do Mu o, que passa a na sua en e
ociden al. Do lado o ien al começa o bule a Un e denLinden, que se
es ende po um quilôme o e meio, a é o local do Be line Schloss (o
Cas elo de Be lim).
No caminho pa a lá, passamos pela Humbold -Uni e si ä , undada
em 1809 po Wilhelm on Humbold . Na en ada es ão as es á uas dele e
do seu i mão Alexande . A uni e sidade ecebeu esse nome apenas em
1949. Um pouco mais adian e, já em en e ao Schloss, encon a-se a
Ca ed al de Be lim, o Dom, cons uído em es ilo neoclássico en e 1894 e
1905.
O Cas elo de Be lim oi desde meados do século XV o palácio da
dinas ia dos Hohenzolle n, que go e na a a P ússia. A pa i de 1871,
o nou-se a esidência dos impe ado es da Alemanha. Pelos bomba deios
da Segunda Gue a Mundial, o cas elo oi bas an e dani icado. O go e no
da Alemanha comunis a decidiu eliminá-lo e ins ala em seu luga a Ma x-
Engels-Pla z, além de cons ui , ao lado, o Palas de Republik (Palácio da
República). Es e e a o luga do Pa lamen o da República Democ á ica
Alemã e, ao mesmo empo, ab iga a espaços pa a a i idades cul u ais e
ins alações gas onômicas. Depois da euni icação da Alemanha, em 1990,
o cená io a qui e ônico-u banís ico mudou no amen e: o Palas de
Republik oi demolido e o Cas elo Real oi econs uído. O que não mudou
oi a pos u a polí ica: quem comanda a cons ução da cidade em sido
semp e o encedo . Não se pode ia pensa na al e na i a de aze uma
mon agem a qui e ônica com pedaços das duas cons uções, elemb ando
assim que o país passou po ases his ó icas e o mas de pensa e i e
di e en es e con adi ó ias?
Pe o do im des a caminhada, amos da ainda uma olhada no local
onde a cidade oi undada em meados do século XIII, no bai o chamado
Nikolai ie el. Be lim, cujo nome p o ém da pala a esla a “be l”, que
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signi ica b ejo, oi cons uída na ma gem no e do io Sp ee. Na ma gem
sul, oi ins alada uma cidade-i mã chamada de Cölln (cujo nome epe cu e
no bai o de Neukölln, que a a essamos no e cei o dia).
Vol ando ago a da Idade Média pa a o nosso empo p esen e,
escolhemos como pon o e minal des a a essia de Be lim a sua p aça
mais amosa: Alexande pla z (Imagem 13). Po meio da lei u a do omance
de Al ed Döblin, o conhecimen o da capi al e da his ó ia da Alemanha pode
se ap o undado.
Imagem 13: Alexande pla z
on e: o au o .
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
73
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di igi aos a abaldes da cidade e pin a paisagens. Realizadas en e as
décadas de 1930 e 40, suas pin u as exp essam poe icamen e si uações
p op iamen e in e s iciais na medida em que e elam o con a o a seco
en e elemen os u banos e a na u eza que os pe meia. Mais do que isso,
sua pin u a expõe a ensão en e a expe iência a mos é ica, da qual
pa icipamos não só com os olhos, mas com odo o co po, e as
possibilidades da exp essão de al expe iência
in isu
. Nesse sen ido, as
paisagens de Gal ez susci am a mos e as e azem à ona imagens
poé icas a inen es à ma e ialidade undamen al da paisagem, as quais
podem encon a co espondências nas paisagens possí eis dos
in e s ícios das cidades con empo âneas.
Não pa ece excessi o dize que as paisagens de Gal ez põem em
jogo uma poé ica da paisagem. É pelo aze , is o é, pela poiesis, que nos
são des eladas as qualidades das imagens que despon am aos olhos, ao
co po e ao espí i o do pin o no que ele se dispõe à uição paisagís ica.
Exp imi essa uição, po sua ez, demanda pos u as que e oquem a sua
igência e a sugi am em a o, que não a en ijeçam ou p ocu em
embalsamá-la ou con e ê-la em obje o es á ico. Sob essa pe spec i a, o
abalho de Gal ez dedicado à pin u a de paisagem pode se en endido
como um aze p op iamen e paisagís ico. Se ossem pala a, ex o,
poema, suas paisagens não se limi a iam a desc e e a isada do a is a
e os aspec os da ealidade conc e a po ela alcançada; se ossem música,
os mo imen os de sua composição suge i iam as a iações ênues ou
b uscas do ho izon e, as subs âncias e é eas que se ap esen am acima
dele, a solidez ou o lui das exis ências en es ao chão. Sendo pin u a, seu
abalho man ém igen e a poé ica da paisagem ao ope a a exp essão,
camada a camada, co sob e co , das e e be ações da Te a em seu se .
O ca á e a mos é ico das pin u as de Gal ez e dos in e s ícios
u banos pode se econhecido em Do ou o lado do io, o bai o de
San ana, de 1945. No quad o, um mo o a oxeado, ao undo, soe gue o
ho izon e em linha ondulada. Di ícil dize se sua p esença apo osa, quase
espec al, he da do céu sua supe ície quen e, osada, ou se é ele quem
az le i a o calo úmido da Te a. A luz en iesada do poen e pe co e o
quad o de cima a baixo. Ul apassa a se a, dei a-se sob e as casas de
além- io e ado mece en e as duas ma gens. No caminho in e so, ao

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e le i -se nas águas cla as, a luminosidade embebe as dob as do ele o
com a né oa aba ada da á zea e az eluzi o ba o ca eado pelas
ladei as desde as cumeei as ao baixio, a é ungi a on e co ada da
Can a ei a e, en im, dissol e -se, ainda úmida, no ho izon e ( igu a 1).
Figu a 1: GALVEZ, Raphael.
Do ou o lado do io (bai o de San ana)
– 1945.
on e: Exposição Raphael Gal ez – Gale ia Almeida e Dale, 2017.
A ambiguidade da luz, em seus mo imen os descenden es e
ascenden es, con unde-se com o aje o con ínuo e ci cula en e a água e
o a , en e e apo ações e condensações que imp egnam a e a. O eco e
escolhido aba ca desde os baixios inundá eis aos cumes quase ima e iais
da se a, aspec o imp escindí el pa a que osse cump ido o aje o
comple o da umidade que se imiscui no a . Ao assumi al pe spec i a, o
pin o acolhe na po ção in e io de sua paisagem as duas ma gens do io.
Não há bas ido es e a planu a do io é anqueada de um lado a ou o.
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En e an o, a e en e na qual se encon a o obse ado se ap esen a em
seus úl imos palmos de e a i me, mais p ecisamen e em um banco de
a eia. Mais do que sinaliza a la gu a do io, a p esença dessa ma gem az
pousa os pés de quem con empla a cena. A co a ze o do quad o, po assim
dize , é delibe adamen e an íbia: con i e i esis í el a e esca -se nas
águas, ao banho do co po a igado pelo a aba ado das á zeas, à
dissolução da lama insis en e, e ida nos passos dos caminhan es.
Não há canoa ou pon e ou caminho à a essia – ampouco há o
aceno ou a acolhida de qualque igu a humana. Em plena solidão, na
companhia apenas das águas, dos capins, dos a o edos escu os, os olhos
a a essam a au o g ande io. A passagem, con udo, não é simples e não
se ganha a ou a ma gem sem se encha ca plenamen e. Embo a
apa en emen e anquilas, as águas se mesclam de cinzas p o undos e de
ons osados le es, não se de inindo com cla eza: o a se mos am
p ima e is, aleg es, o a azem ao olha o pesa das somb as. O ins an e
do poen e ca ac e iza o humo ambi alen e de cada exis ência que in eg a
a paisagem. O dia se es ai ao mesmo empo em que a noi e se anuncia e,
nessa condição in e mediá ia, êm à ona an o imagens de p o undidade,
de in imidade, associadas às águas escu as, como de le eza, de
ex o e são, elacionadas aos modos pelos quais nos a e am as águas
cla as.
Embo a su is, as de o mações das imagens sob e as águas são
p o undamen e signi ica i as sob o pon o de is a da exp essão que Gal ez
con e e às imagens ma e iais. O a o edo, os capins, a se a e o céu que
apa ecem à supe ície do io não são éplicas me amen e in e idas de
sua exis ência conc e a. Seus con o nos êmulos e, sob e udo,
embaçados, e elam os modos pelos quais as águas pa ecem dissol e
odo ipo de solidez pa a, no limi e, dissol e a si mesma. Na exis ência
i ual e na císica dos e lexos, oda a e a em con empla -se a é que
suas o mas abdiquem de qualque o malidade, a é que sua ma é ia se
desma e ialize pa a assumi o a . Bas a um le e espasmo, sop o mínimo
sob e a pele do io pa a que o espelho d’água ope e a magia de suas
dis o ções, e é com oda delicadeza que Gal ez as exp ime. Os e lexos
pon iagudos e o çam o eixo e ical ao longo do qual a água ganha o a
em apo es espe inos, e odo o io pulsa, em le es ondulações
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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ans e sais, com as imagens e le idas. O calo do céu poen e se
po encializa no e lexo das águas cla as enquan o o a o edo denso se
ap o unda nas po ções somb ias do io p es es a anoi ece .
A aquosidade da paisagem em ap eço não se mani es a apenas em
mo imen os de e lexão. Há nela, ambém, a po ência da e ação, do
ap o undamen o do olha median e a dis o ção das somb as, das
subs âncias que êm me gulha em di eção ao lei o escu o do io. As
ma gens b ejosas, nas quais a e a se mis u a is emen e à água, êm
seu lodo emplas ado po e des escu os. Jun o a elas, as águas são
quase es á icas, mo ibundas, e as somb as escu as do a o edo que nelas
me gulham mo em aos poucos. O lei o paludoso, in isí el aos olhos do
pin o , o na-se ainda mais p o undo nas zonas escu as do io. A chegada
da noi e é ecebida melancolicamen e pelas águas escu as, ão dis in as
da supe ície ainda iluminada do io. O con as e pelo qual i alizam o cla o
e o escu o, o dia e a noi e, a le eza e o peso, as águas aleg es e a umidade
lúgub e, o ien a odo o mo imen o das imagens ma e iais que pe co em
a paisagem. Fon e da b uma que sobe os mo os e se dissol e no
ho izon e, o io que Gal ez nos ap esen a é o núcleo de oda ambiguidade
do en a dece , do qual eme ge uma a mos e a úmida, ainda osada e mui o
i a, e onde êm encon a seu des echo somb io, e icen es, as
exis ências diu nas.
Adian e, na ma gem opos a, sob e capins e a bus os deso denados,
de eições a zeanas, o a o edo se dis ibui desigualmen e. Embo a o
dossel da ma a seja econhecí el, ainda iluminado, nas po ções ociden ais
do quad o, o que se ê da encos a mais p óxima ao io, à di ei a, é apenas
sua silhue a somb ia, o ma o bo ado em e des escu os, já anoi ecidos.
En e as duas ex emidades insinua-se um ale, een ância da Te a po
onde a luz do céu se mis u a à do io. Nessa condição ísica, Gal ez
encon a um ecu so indispensá el à poé ica de sua paisagem: é essa
en e abe u a que pe mi e a exp essão de oda a dissolução que imp egna
o quad o, po meio da qual os mo os mais ele ados podem oca o baixio,
e a umidade se es ai no a .
A cidade pe manece iluminada adian e, decalcando em pinceladas
ápidas de pa edes e elhados as o mas mo imen adas do e eno. Em
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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meio ao casa io, as silhue as de algumas á o es se ap esen am aqui e lá,
como se se desp endessem do pequeno bosque da á zea e se
imiscuíssem na ocupação do subú bio. Embo a ene oada, dissol ida na
luminosidade úmida do en a dece , a is a do bai o de San ana se dá pela
oscilação su il en e ons e osos e osados. É possí el an e e os
espaços o a esguios, o a amplos, que se ab em en e as cons uções, e o
olha é con idado a se en osca en e eles.
Não há qualque de inição o mal que ca ac e ize esses espaços;
não se sabe, ao ce o, o limi e en e os elhados de ba o e a e a nua,
en e as copas das á o es e a macega. Nessa inde inição de o mas,
Gal ez p io iza a exp essão das imagens nascidas da ma é ia, o ien adas
pelo mo imen o da umidade que se aquece, se desp ende do io e
pe manece e ida en e a se a e os mo os que delimi am a á zea. Sob
os apo es do poen e, a ocupação u bana das bo das da cidade não se
e ela senão po silhue as embaçadas pelo a , abe as às mais di e sas
o mas pelas quais podem assoma imagens poé icas, insinuadas po
pinceladas densas em quase empas elamen os.
Nos sopés da se a da Can a ei a, a ib ação dos ijolos e das elhas
de ba o se eba e numa luz a oxeada, le emen e aquecida. Os limi es
en e a cidade e a ma a pe manecem elados, inde inidos, como se as
eições da na u eza elu assem em se sepa a com cla eza das
cons uções humanas. Há uma espi ação len a e p olongada, o úl imo
suspi o do dia que, aos poucos, se p epa a pa a ecebe a noi e. O ôlego
quen e e úmido do en a dece se p opaga se a acima em i adiações
osadas, em apo es que se es iam e se o nam escu os à medida que
se ap oximam do céu. No sen ido in e so, o céu se o na mais cla o en e
ao ho izon e, na linha em que a água deixa em de ini i o a p esença da
Te a pa a dilui -se no a . Como um con apon o às águas escu as da
á zea, as nu ens di usas em meio à luminosidade do poen e ence am o
des ino das imagens de le i ação de oda a umidade que ganha o a . Aos
poucos, cessa-se o mo imen o ascenden e da b uma, dando luga a
a iações ho izon ais, inciden ais. A paisagem anoi ece.
* * *
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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Em alguma medida, as a mos e as exp essas
in isu
po Gal ez se
elacionam com aquelas passí eis de econhecimen o nos in e s ícios de
São Paulo nos dias de hoje. Tal co espondência pode se a e ida em
ela os de incu sões ealizadas en e espaços in e s iciais, os quais, po
meio de ex os e imagens, podem con ibui pa a a exp essão de
a mos e as p op iamen e in e s iciais e de opo unidades o e ecidas nos
in e s ícios à uição paisagís ica. A segui , p opomos a ap esen ação de
um echo do ela o p oduzido após uma caminhada ecen emen e
ealizada pelas á zeas do io Tie ê, à al u a do bai o de San ana.
As pis as la gas de luxo ápido da a enida ma ginal con inam as
ma gens e i icadas do io Tie ê. Suas águas, ou o a lânguidas e
o uosas, hoje e em en ijecidas, ap essadas pela p e ensa disciplina da
cidade. À al u a de San ana, com os meand os dessecados e os b ejos
e es idos, a planu a as a o a ap o ei ada pa a a implan ação de
equipamen os di e sos – p esídio e ae opo o, ainda na p imei a me ade
do século passado, shopping cen e s e cen os de exposição, sambód omo
e clubes espo i os, e minais odo iá ios e epa ições públicas.
Em que pesem as sucessi as in e enções no sí io pelas quais oi
possí el a ins alação de ais disposi i os, as eições da á zea podem se
ainda econhecidas, sensi elmen e, em es ígios exis en es em meio ao
ecido u bano. Em si uações que, em ge al, passam ao la go da ap eensão
co iquei a, mui as ezes desconexas ou descon ex ualizadas, é possí el
pe cebe e, sob e udo, sen i ce os aspec os da na u eza, que, indi e en e
aos es o ços humanos e e en es à sua manipulação, despon am em sua
po ência o iginá ia.
En e galpões e edi ícios, nos in e s ícios de qua ei ões la gos e
ex ensos, há espaços esiduais onde se mani es a a umidade que en ol e
a á zea, encha cando a e a e ene oando o a . T i iais, desp o idos de
qualque aspec o excepcional, esses espaços escapam das
in encionalidades que de inem usos e unções pa a as e as planas que
se es endem às ma gens do io. De suas eições, embo a al e adas ao
longo da u banização, pa icipam aços o iginá ios da na u eza. Seja em
poças c ônicas ou na lama que ocasionalmen e a lo a à supe ície, seja às
ma gens es ei as de có egos ou em amplos e enos agos, na

A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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exp essão de b o os de plan as ús icas, com suas olhas amolecidas a
e e a umidade das aízes ao a , são di e sas as imagens ma e iais que
acompanham a expe iência sensí el dos espaços i esolu os exis en es
nas imediações da á zea do Tie ê.
Em que pesem as di e en es in enções que de ini am usos
especí icos à á ea co esponden e, hoje, ao Pa que da Ju en ude – de
p esídio a pa que público –, há si uações singula es, nele exis en es, que
não se o ien am po nenhuma in encionalidade apa en e. Si uada sob um
echo de uma linha de ansmissão de ene gia, há uma aixa do pa que
que des oa do es an e. T a a-se de uma á ea exígua an e as dimensões
do equipamen o público, mas que pode se signi ica i a se assumida sob
uma pe spec i a p op iamen e paisagís ica, in e essada nas
opo unidades que o e ecem à expe iência sensí el da paisagem.
Não há qualque cons ução, mobiliá io ou á o e no pequeno
g amado colonizado po capins e g amíneas ude ais. Nenhum con i e à
pe manência sob a p esença ameaçado a das o es e cabos de al a
ensão. Com e ei o, se o pa que é bas an e mo imen ado – mesmo numa
manhã chu osa de segunda- ei a –, o pequeno g amado co esponden e à
p ojeção do linhão de o ça, po ou o lado, se mos a azio e silencioso.
Na ausência de qualque pa imen o, os pés a undam a cada passo,
a es ando a sa u ação da e a. O gua da-chu a ameniza os e ei os da
ga oa ina, mas de nada se e an e o ba o que descola do chão.
Abe o, de um lado, à planu a as a da á zea, o espaço é
delimi ado, na ex emidade opos a, pelas empenas cegas e desajei adas
co esponden es aos undos das cons uções. Aqueles que não se
incomoda em em pe manece po alguns minu os, ao menos, sob a ede
de ansmissão, nem em caminha com os pés ingidos pela lama pode ão
se ap oxima do g adil limí o e do pa que. En e as ba as en e ujadas e
as epadei as que nelas se en oscam, ê-se o lui ené gico do có ego
Ca ajás ( igu a 2).
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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Figu a 2: Có ego Ca ajás (aqua ela)
on e: A hu Cab al, 2018.
Seu ola o e e cons an e con as a com a ga oa ina e indecisa,
azendo dela um coadju an e na a mos e a en e à de e minação e à
enacidade com que se mani es a o co po d’água. A luminosidade anêmica
do céu é so ida pelas pulsações do io, ca eada jun o ao ba o e
de ol ida à supe ície em e luxos enlameados, e lexos sanguíneos. Seu
i mo, embo a mui o i o e cons an e, é cadenciado. Não se az menção de
p essa em chega à oz e udo o que é água olada mo o abaixo pa ece
agua da no denso luxo da á zea o momen o da despedida.
Sob e suas ma gens e es idas de cimen o, espalham-se a bus os
ouxos, o a de amados das nesgas de e a man idas descobe as, a
mon an e, o a ge minados em issu as do cimen ado. Toucei as de capim
despon am sob e um le e p omon ó io si uado a poucos cen íme os do
g adil, con e indo à is a uma espécie de bas ido inacabado. O ien ado
pela e icalidade de uma das o es da linha de ansmissão, o olha
e ido nas águas ecebe o con i e da subida, mas é impedido de se
es ende ao longo da planície po um mu o cego exis en e adian e. Nas
limi ações do ho izon e, não há caminho a esp ei a e os olhos e o co po
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pe manecem embebidos pela água do io que se ap o unda na e a e que
le i a no a . Sob e os blocos do mu o cinzen o, a umidade ascenden e
decalca em manchas de mo o suas p e ensões aé eas; sob os sapa os, a
essa al u a comple amen e encha cados, o ba o con e e uma p esença
á il às imagens que eme gem da á zea e az pousa sob e a e a os pés
de quem a con empla.
* * *
Embo a imp o á el nos g andes cen os u banos de nosso empo,
ac edi amos que a uição paisagís ica é possí el em al con ex o, se
conside adas as a mos e as que nos coen ol em a e i amen e nas
en elinhas das cidades, onde a na u eza se mani es a com sua po ência
o iginá ia po meio de indícios que, apesa de incomple os ou desconexos,
podem susci a ime sões a mos é icas. Assumindo os in e s ícios da
cidade de São Paulo e pin u as de paisagem a eles associados como
campo empí ico das e lexões aqui ap esen adas, en endemos que a
eme gência de imagens poé icas e o des elamen o de paisagens
in si u
podem se po encialmen e amilia es às a mos e as paisagís icas
exp essas
in isu
po meio da pin u a. Analogamen e, assumimos que as
possibilidades de exp essão poé ica da expe iência di e a da paisagem
dada na a ualidade dos in e s ícios u banos – seja pela pin u a, pela
pala a ou po in e enções p oje uais – não pode p escindi do
coen ol imen o a mos é ico a que co esponde a uição sensí el da
paisagem.
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A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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O
punc um
pode se is o como a in e upção on ológica do en e, o
elemen o que, pe encen e à coisa, é es anho a ela. O
punc um
, um
desag egado concei o em um ex o ou discu so, uma es anha insc ição
em uma ob a, um disposi i o suplemen a em um e i ó io ou edi icação
são a possibilidade de cisão da unidade da coisa, ab indo-a; é a passagem
a um ou o ainda não islumb ado.
Seguindo De ida, é o espaçamen o gene a i o, um in e alo en e
o que a coisa é e pode não se , mas nunca um “ e á semp e sido”
pe manen e. O in e alo é um suplemen o que az pa e da coisa já sendo
a chance de sua p óp ia supe ação, ainda que sem des uí-la. Pe cebe ,
p o oca queb as on ológicas, desag ega ou ge a in e s ícios na coisa é
a chance de des i uí-la de seus ga an idos undamen os, es i uindo-a
como um ou o, de e ido e di e ido em elação ao seu u u o an e io , ao
seu “ e á sido” semp e assim. No espaçamen o, pela disjunção, ece-se, ao
mesmo empo, conjunções com um se ainda não p esen e, de um en e
que já é um ou o.
Ao p o oca mos ou econhece mos in e s ícios no uno, na unidade,
na coisa monolí ica, c iamos a possibilidade de izinhanças inexis en es
en e as p esenças o madas pela ausência que as o mou, ou pela
conjunção de p esenças impossí eis, dada a coesão inicial daquilo que e a
is o como uno, em-si.
Disjunções c iam ou as conjunções jus amen e pela abe u a
c iada po elas e as dis âncias que ago a sepa am esses “ agmen os” de
ou os, dis âncias essas inexis en es, dada a o alidade daquilo que e a
uno, e dade em-si, pleno, echado, sem al a. Seguindo Heidegge ,
en ende que o disposi i o maçane a só é maçane a ao se coloca em
elação com algo além dela – o disposi i o po a – é pe cebe a o ça do
ecido conjun i o en e coisas que, apa en emen e, podem exis i como
en idades em-si, po ém, sem o pode que ambas êm ao se coloca em em
conjunção sem se anula em em suas singula idades.
Concei os são dilace ados, desmemb ados pa a que possam
con inua como on e de signi icações, meio pa a ou as conjunções de
con eúdo, o mais, espaciais, empo ais. Como nos mos am os pós-
es u u alis as, sob e udo De ida e seus jogos polissêmicos e labi ín icos

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em o no dos concei os, um concei o den o de um discu so
apa en emen e coeso, coe en e, pode se um
punc um
p omo o de
con adições, emba alhamen os e es anhamen os.
Semp e em in e alo consigo mesmo, o espaçamen o en e seu
e ymon
, sua e imologia, e suas camadas me a ó icas adicionais ao longo
do empo o o nam um e i ó io po encial da pe da, da indagação e de
ques ionamen os, e não de ce ezas ou econhecimen os uní ocos ou bi-
uní ocos. “Os concei os são mons os que enascem de seus pedaços”
(DELEUZE, 2010: 183), a i ma Deleuze.
An ído o con a a doxa, o senso-comum e o aciocínio
es e eo ipado, o concei o, é um disposi i o p ospec i o, um campo
imanen e de inesgo á el especulação e in enção, e não um elemen o ixo
de ecognição ou iden i icação.
[...] Num concei o, há no mais das ezes, pedaços ou
componen es indos de ou os concei os, que espondiam
a ou os p oblemas e supunham ou os planos. Não pode
se di e en e, já que cada concei o ope a um no o co e,
assume no os con o nos, de e se ea i ado ou eco ado
[...].Um concei o não exige somen e um p oblema sob o
qual emaneja ou subs i ui concei os p eceden es, mas
uma enc uzilhada de p oblemas em que se alia a ou os
concei os coexis en es (DELEUZE, 2010: 29-30).
Assim, pela di e enciação concei ual do p óp io do concei o, ab e-
se um campo de especulações concei uais a é en ão inaudi o, encobe o
pela unicidade in iolá el do concei o na u alizado em seu signi icado ou
ep esen ação. Um concei o ope a po zona de izinhança ou pon es com
ou os concei os. Pelo concei o, e pelos in e s ícios ge ados pelo
desencon o deles, en e eles, o na-se possí el pensa o mundo, e os
acon ecimen os que o po oam, com maio consis ência e, pa adoxalmen e,
com maio dú ida, ins á el, ao mesmo empo que nos a as amos da doxa
e dos iscos de in e p e ações al amen e subje i adas, absolu as e
posi i adas. Podemos nos pe gun a sob e os signi icados do concei o de
on ei a, po exemplo. Pa a além da ideia de limi e, de bo da, a ideia de
deslimi ação, de a essia, de ul apassamen os ou ansbo damen os
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on ológicos, geog á icos, sociais, mo ológicos, po exemplo, só pode i
pela noção de delimi ação de algo. Os concei os eme em a p oblemas e
não a soluções.
Luga es de pe da, de a ibulações e supe ações semân icas, de
ques ionamen os de suas e dades, essências são possí eis de exis i no
momen o em que econhecemos seus limi es, seus signi icados e
iden idades dados. F on ei a nos dá a possibilidade de ul apassa aquilo
que nos é dado como campo de ecognição, de iden idade, de p op iedade.
Res i uições só podem exis i quando há econhecimen o das
on ei as en e o que se deseja es i ui e p ese a . En elaçamen os e
diálogos imp o á eis, imp óp ios, inadequados só podem exis i a pa i
da cla a delimi ação do que seja p óp io, de p op iedade de alguém ou
adequado a algo ou a alguém. De i es só exis em a pa i do
econhecimen o das p op iedades do en e.
Figu a 3: Gango a: in e enção de Ronald Rael (2019) no mu o- on ei a que
sepa a o México dos EUA
on e: casa ogue.globo.com.
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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Espec alidades e es âncias
Pelo e a a és do in e s ício o na-se possí el en aquece o que se
mos a em sua in eg idade in iolá el e p esença absolu a. O in e s ício é
uma ausência que se o na p esen e como um suplemen o espec al. A
pa i de um, do uno, da coisa o alizada em si, pela enda, pelo in e alo,
su gem ês. Disjun i a, a enda a o men a o uno, o absolu o, ao di idi-lo,
ao mesmo empo que ga an e a elação en e as pa es, nem au ônomas,
nem undidas, disjun as.
O in e s ício, essa ausência supé lua, desin eg a o odo pa a o ná-
lo uma mul iplicidade, um que se az ao menos ês, mas jus apos os,
a izinhados, a o men ados po essa ausência que os sepa a e une ao
mesmo empo, es âncias do que e am e do que podem se como no os
“unos” jus apos os, em elação uns com os ou os. Ce amen e Koolhaas
soube c ia in e s ícios no discu so o ma ado de Le Co busie sob e seu
ecei uá io ace ca da no a a qui e u a e u banismo. Não só do ecei uá io
de Co busie , mas da a qui e u a e u banismo mode nos.
Koolhaas abalha com es âncias da
p omenade a chi ec u al e
co busiana
como o ma de p ecipi a um ou o e hos ace ca do espaço
a qui e ônico. Conexões múl iplas, up u as, con inuidades descon ínuas,
des ios, [des]ag egações p og amá ico-espaciais. Há uma gene osidade
al da es i uição do léxico co busiano que acaba po supe á-lo,
ansmu ando-o em um ou o, sem des uí-lo.
Se o in e s ício é condição pa a o labi in o e nele se ealiza, a
labi ín ica
p omenade
dos p oje os de Koolhaas (Casa da Música do Po o
e Biblio eca Pública de Sea le, po exemplo) são abe u a a um ou o do
discu so co busiano. Koolhaas pa e do disposi i o Co busie pa a
abandoná-lo ao adicalizá-lo; não o coloca, po an o, à sua in ei a
disposição, mas o conside a o su icien e pa a sub e ê-lo. Nada es á
suben endido no disposi i o, é p eciso eab i-lo e in e ogá-lo uma ez
mais.
Essa adicalidade issu ou o campo e igido, o ma ado e idealizado
em um p eciso ideá io ( edundância in encional) disseminado po
Co busie . Em um pensamen o de idiano, nessa issu a ins alou-se a
p omessa, a ex e io idade de uma in e io idade in iolá el. A his ó ia é
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
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e lização de seu p óp io de i , e não luga de p ese ação e e e ência.
O empo não se ia nada ou o senão essa inclusão epe ida do ou o
naquilo que pa ece se o o iginal, a ma iz, a e e ência in iolá el.
Figu a 4: Co e ans e sal da Casa da Música da cidade do Po o
(OMA/Koolhaas)
on e: building iews.ne .
Sem de oção, Koolhaas libe a a
p omenade
de suas
ep esen ações, cli ando-a em sua iden idade, o nando-a uma iden idade
di e encial, uma e ou a. Lança-a em um in e alo en e o que ela e a no
con ex o co busiano-mode no e o con ex o no qual ago a ela se inse e, a
me ópole
in de siècle.
No in e s ício, habi amos a p esença da ausência e a ausência da
p esença. É po ele que os as os do an es e do depois se mani es am.
Koolhaas, delibe adamen e, cinde e de o ma as ep esen ações do
discu so co busiano da
p omenade a chi ec u ale
e c ia um in e alo
inquie an e ao ap oximá-la do mundo shopping, sob e o qual eo iza em
seu conhecido ex o
Junk Space.
A
p omenade
é es i uída a pa i de uma lei u a c í ica e a gu a do
po encial do disposi i o escada olan e quando inse ida no mundo
shopping. É einse ida na me ópole como condição de in e io ização de
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ex e io idades públicas do espaço, o nando-se meio à e e i ação de um
po en e e labi ín ico
con inuum
espacial, in e io izado, desie a quizando
a i idades e bo ando limi es en e público e p i ado. Conges ionamen os
espaciais são p o ocados pela manipulação ex ema de conexões
imp o á eis, ealizadas po meio de luxos não sequenciais, e á icos,
ompidos, des ian es, mui as ezes.
Figu as 5 e 6 e 7: A ansmu ação da
p omenade
: de Co busie ao shopping.
on es: wikipedia [5 e 6] e li o
Mu a ions
, ac a [7].
I e ando, pelo in e alo c iado ao a izinha a
p omenade
a chi ec u ale,
imaginada po Co busie , da escada olan e, Koolhaas
ec ia a ideia de uma con inuidade espacial ans igu ada, al e ada em seu
alo e signi icado o iginais, apesa de não des uí-los. Um in e alo é
c iado en e a acionalidade da
p omenade
“o iginal” e sua massi icação
no mundo shopping. Algo es a en e um e ou o, enda po onde Koolhaas
ope a.
Na ob a,
La Vé i é en Pein u e
(1978), não é o que nos mos a
De ida ao expo uma discussão en e Heidegge e Shapi o em o no de
um dos quad os da sé ie “sapa os”, de Van Gogh. Nessa sé ie, Van Gogh
e a ou, com a iações, dois sapa os desgas ados, su ados,
supos amen e bas an e usados. Em linhas ge ais (quase uma he esia com
De ida), o capi ulo
Res i u ions
[Res i uições] é dedicado à
pa ousia
, a
o al coincidência, sem es o, em uma imagem, en e obje o e as

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ep esen ações que ca egamos sob e as coisas, an e io es a qualque
análise mais po meno izada dos e en uais
punc uns
dessas imagens.
Em “A o igem da ob a de a e”, Heidegge – o pensado da Flo es a
Neg a, do chalé, apegado à e a, que cul i a a como maio es p aze es
co a lenha e esquia , que inha insigh s em seu chalé du an e as
empes ades –, ao analisa essa pin u a de Van Gogh, pa e da a i mação
de que se a a de um pa de sapa os de uma camponês, al ez de uma
camponesa, pa a, en ão, in e p e a o
da-sein
camponês e de uma
camponesa. Como especula De ida, ao longo do mencionado capí ulo
Res i u ions
, Meye Shapi o, ci adino, p o esso uni e si á io, comunis a,
em co espondência en iada a Heidegge , con apõe-se a Heidegge
dizendo que não se ia possí el a i ma ca ego icamen e a a -se de um
pa de sapa os de uma camponesa mas que, al ez, osse um pa de
sapa os de um cidadão, de um homem da cidade, possi elmen e um
ope á io de áb ica; ou a é mesmo do p óp io Van Gogh du an e seus anos
de ag u as e p i ações em Pa is. Ambos inco po am ep esen ações
dogmá icas aos seus a gumen os (DERRIDA, 1978: 295-298).
De ida pe gun a se ambos não es a iam alando da coisa a pa i
de ep esen ações de mundo e alo es que ca ega am
independen emen e do obje o analisado, do que es a am endo. A a o de
Shapi o, se assim podemos conside a , des aca o a o de e abalhado
com a dú ida, o al ez, e não com a asse ção. Mas, de qualque o ma, os
sapa os, desama ados no quad o, já pa eciam a ados às ep esen ações
de mundo de seus in e locu o es. Pa ecem e a ado um
suje
(assun o e
sujei o) adequado e ideal ao modelo pin ado, o p óp io Van Gogh; e que, ao
mesmo empo se o na um p edicado eal a um obje o pin ado. Os sapa os
pe manecem ade idos a pés e pe sonagens especí icos (DERRIDA,
1978:336-337).
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Figu a 8: O pa de sapa os esponsá el pela polêmica en e Heidegge , Schapi o
e De ida
on e: wikipedia.
Pe gun a-se, sem a i ma ou ambiciona uma conclusão, se e a a
pin u a ou o p óp io Van Gogh que es a am sendo analisados; a pin u a já
ha ia se o nado o p óp io, uma coincidência sem es o en e um e ou o.
Ambos, Heidegge e Shapi o, pa eciam es i ui plenamen e, sem
in e alo, o quad o a Van Gogh e a eles p óp ios, exp op iando, do quad o,
alo es in ínsecos a ele, pa a melho dele se ap op ia em a ibuindo-lhe
alo es a pa i de suas ep esen ações e alo es pessoais de mundo, com
a in enção de alida suas asse ções. In e essados na e dade do quad o,
p oje am-no den o de luga es imaginá ios, condizen es com suas
p óp ias e e ências.
Se Heidegge ala de uma camponesa gené ica, Schapi o o c i ica
po supos amen e e esquecido do p óp io au o do quad o, ao con á io
dele p óp io. Fe ichizado, ambos es i uem o quad o pleno de a ibuições,
sem in e s ícios en e os sapa os e seu
suje
; nada pa ece es a a sabe .
Uma das ques ões cen ais de De ida, que pe meia o ex o: o que pode
ainda se p oduzido a pa i do p odu o, do p oduzido ou do p odu o
p oduzido? O p odu o p oduzido de e al a pa a se o na passagem a
ou as p oduções.
Tal ez, an o Heidegge como Schapi o, enham e ido e anexado em
demasia a assina u a de Van Gogh e suas p óp ias, comp ome endo a
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es i uição do quad o ao público. O quad o, na p o oca i a análise de
De ida, pa ece e pe manecido de p op iedade do pin o e dos dois
c í icos. As u o, quase i ônico, se pe gun a se aqueles pés de sapa o
se iam pa e de um pa , pode iam nem se . Olhando, minuciosamen e,
pa a os
punc uns
da imagem, pa eciam e a cu a u a do mesmo lado,
con igu ando o mesmo pé, além de um se le emen e meno que o ou o.
Pode iam, inclusi e, aze pa e de um conjun o de sapa os, não e a ados
na pin u a, indaga.
Esses es os en e a imagem e sua ap eensão imedia a são os
in e alos necessá ios po onde ou os pensamen os agem, ope am, e
ou as hipó eses são cons uídas. Ao con á io dos ou os, De ida pa ece
pe manece en e o que ainda pe ence ao quad o e o que pode ia se algo
além dele, p esen e nele como as o de uma ou a possibilidade, sem
ga an ias. Es amos alando de uma desmon agem de discu sos
ca egó icos em di eção a um e i ó io mais mo ediço, de dissensos,
ince o, po isso mais ecundo como es i uição pública, abe a, meio de
ou as cons uções, e não apenas adesões ao ou e u ações do que chega
como discu so o ma ado.
Se o in e alo pa ece al a en e Heidegge e os sapa os e en e
Schapi o e Van Gogh, em
Glas
, de 1974, uma de suas ob as mais obscu as
e in igan es, é pelo in e alo, no in e alo, que De ida es abelece um
complexo, con li uoso e deslimi ado diálogo en e Hegel, o monumen al
pensado do pu o, do absolu o, do imaculado e Jean Gene , o polêmico
esc i o ma ginal do impu o, do obsceno, do au o de li e a u a meno .
Essa impossí el con igüidade ab e um campo de lei u as c uzadas,
sub ex os espec ais e imp o á eis conexões, que se ão capazes de
desmon a , pela mon agem, o que pa ecem se os undamen os e o p óp io
de cada um.
De o ma o incomum, o ma quad ada 25x25 cen íme os, as
páginas são o ganizadas, majo i a iamen e, a pa i de 2 colunas e icais,
uma con a a ou a, uma [não] sem a ou a, além de uma e cei a o mada
po e á icas insc ições, incisões en e elas, sem um início ou um im. A
coluna da esque da é ocupada po um “diálogo” com Hegel, a da di ei a,
com Gene (ao que pa ece, os ex os o am esc i os em empos dis in os,
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o ex o sob e Hegel oi p epa ado pa a um seminá io de 1971-1972, e
ap oximados como uma in e ex ualidade) e, na sup essão de pa es das
colunas, nos in e s ícios e ãos abe os, De ida p omo e á e abalha á
uma disjunção de ambos a pa i de inusi adas e imp o á eis junções e
angências en e ambos, com algumas no ações e lexi as pon uais,
suplemen os que [não] sup em, emulam ques ões. Se á po um
pensamen o angencial que De ida, de manei a c i e iosa, ambígua e
con adi ó ia, cons ui á uma a gumen ação – pela ap oximação po
di e imen o, po uma dila ação, um espaçamen o en e ambos au o es
[
Di é ance
] – que desmon a á e man e á, não incólumes, as supos as
on ei as exis en es en e uma esc i a maio [ iloso ia hegeliana e
iloso ia, no ge al] e uma esc i a meno [li e a u a].
É na e pela es ância ge ada pelo impossí el “diálogo” en e ambos
que De ida desmon a e dades sob e algumas dualidades que só se iam
possí eis e passí eis de exis i simul aneamen e se em an agonismo,
como an ípodas. Limi es p óp ios e na u ais en e um e ou o são
colocados à p o a, in e pelados, e en ão dissol idos pa a se em
es i uídos em uma zona cinzen a en e ambos, po ambos, a a és deles.
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MA – po ência, in e alo, espaço- empo:
a e e a qui e u a
Michiko Okano
A qui e a g aduada pela FAU-USP em 1981, mes e (2001) e dou o a (2007) em
Comunicação e Semió ica pela PUC-SP, p o esso a do cu so de g aduação e pós-
g aduação de His ó ia da A e da Uni e sidade Fede al de São Paulo, p o esso a
colabo ado a do Cen o de Es udos Japoneses/EFLCH-USP e coo denado a do G upo de
Es udos A e Ásia. Au o a do li o Ma: en e-espaço da a e e comunicação no Japão.
Resumo: O Ma é uma noção p esen e em á ias mani es ações cul u ais japonesas, di ícil
de se explicada de aco do com a lógica ociden al. En e an o, oi possí el en endê-lo
dessa pe spec i a po meio da abo dagem semió ica pei ceana, que az a ques ão da
p imei idade no bojo da sua a qui e u a ilosó ica, e da segundidade como mani es ação
da po ência em enômeno. Essa conc e ização no mundo da exis ência pode ap esen a -
se como espaço azio, in e ala ou median e sua mon agem com o empo. Alguns
exemplos clássicos da a qui e u a japonesa são especi icados nessas ês subdi isões,
e sinalizou-se o
Ma
em algumas ob as do a qui e o japonês Tadao Ando. Po im, o am
ap esen ados alguns diálogos possí eis com ob as a qui e ônicas e a ís icas b asilei as,
no in ui o de essal a o in e câmbio ecundo en e cul u as dis in as e a p odução de
no os signos que es abelecem uma comunicação sensí el.
Pala as-cha e:
Ma
, semió ica, a e, a qui e u a
Abs ac : Ma is a no ion p esen in se e al Japanese cul u al mani es a ions ha is a he
di icul o explain h ough Wes e n logic. Howe e , i has been possible o unde s and i
om his pe spec i e h ough he Pei cean semio ic app oach, which b ings he ques ion
o i s ness a he co e o i s philosophical a chi ec u e, and secondness as a
mani es a ion o po ency in phenomenon. This ma e ializa ion in he wo ld o exis ence
can p esen i sel as emp y space, in e als o h ough i s assembly wi h ime. Some
classic examples o Japanese a chi ec u e a e speci ied in hese h ee subdi isions, and
Ma has been signaled in some wo ks by Japanese a chi ec Tadao Ando. Finally, possible
dialogues wi h B azilian a chi ec u al and a is ic wo ks we e also p esen ed, in o de o
highligh he ui ul exchange be ween di e en cul u es and he p oduc ion o new signs
ha es ablish a sensi i e communica ion.
Keywo ds: Ma, semio ic, a , a chi ec u e

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O que é o
Ma
e como abo dá-lo num mundo ociden al,
especi icamen e nes a e a opical com ace as cul u ais ão dis in as, é
uma ques ão que em acompanhando a pesquisa do ema ao longo dos
anos. Algumas po as pa a no as possibilidades de modos de e e
pensa esse aspec o ão pa icula da cul u a nipônica o am abe as
nessa caminhada e se ão ap esen adas com o in ui o de c ia canais de
diálogo com o Ociden e.
O
Ma
é um
modus ope andi
que se mani es a especi icamen e na
cul u a japonesa, em di e sas á eas, e pode se pe cebido desde na
manei a pela qual as pessoas alam no co idiano, a é nas ep esen ações
a ís icas e a qui e ônicas. O es udo ealizado conside a-o como uma
po ência ou uma possibilidade de se que pode o na -se exis en e em ês
o mas: o espaço azio, de in e mediação, on ei a e coexis ência, ou de
mon agem espaço- empo al.
Na pe spec i a ado ada, o
Ma
não oi concebido como “concei o”,
con o me o sis ema ilosó ico ociden al, uma ez que esse ocábulo em
o igem no La im “
concep us
” (do e bo
concipe e
), que signi ica "coisa
concebida" ou " o mada na men e". Pa a A is ó eles, o concei o e a
compa ado ao
eido
e, de aco do com a sua lógica, a a-se da o ma mais
básica de pensamen o (em conjun o com o juízo e o aciocínio) e é a
ep esen ação in elec ual abs a a de um obje o. Tal pensamen o azia
pa e da a qui e u a on ológica cons uída pelo ilóso o, que admi ia
apenas duas possibilidades de exis ência – se ou não se –, baseadas no
p incípio da iden idade e da não con adição. Omi ia-se, assim, a e cei a
opção, aquela in e mediá ia, de “nem se , nem não se ”, a que A is ó eles
chamou de e cei o excluído. A lei a is o élica da não con adição az em
si a impossibilidade de uma p oposição e dadei a se alsa ou de uma
alsa se e dadei a e, dessa o ma, nenhuma p oposição pode ia es a
nessas duas ca ego ias ao mesmo empo. Assim, o que e a “um e ou o”
ou “nem um, nem o ou o” ica a o a do sis ema lógico acional bipola
c iado pa a o desen ol imen o do conhecimen o cien í ico.
Es uda o
Ma
exige conhece o al do e cei o excluído, da
coexis ência dos con adi ó ios, no qual é possí el encon a
“simul aneamen e um e ou o” ou “nem um, nem ou o”. E esse modo de
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pensamen o e exis ência e le e-se em uma es é ica peculia que pode se
isualizada, po exemplo, no espaço b anco não desenhado no papel, no
empo de não ação da dança adicional japonesa ou do Bu ô, no silêncio
do empo musical, bem como nos espaços a qui e ônicos e u banos que
se si uam na in e mediação do in e no e ex e no, do público e do p i ado,
do di ino e do p o ano ou, numa abo dagem mais me a ó ica, nos empos
que habi am o passado e o p esen e, a ida e a mo e.
Ao se e i ica his o icamen e a noção do
Ma
, descob e-se que é
mui o an iga e emon a ao espaço azio, dema cado po qua o pilas as,
des inado à conexão com o di ino. O es ígio desse exemplo é possí el de
se is o a ualmen e em de e minados espaços dos san uá ios xin oís as.
O ocábulo, po ém, começou a se emp egado somen e no século XII e a
sua ampla u ilização oco eu a pa i do inal do século XVI e início do XVII.
O conhecimen o do
Ma
es ingiu-se ao e i ó io nipônico a é 1978,
momen o em que o a qui e o A a a Isozaki o ganizou, no Ociden e, uma
g ande exposição em Pa is, denominada
Ma
,
Espace-Temps du Japon.
O e en o, com i ine ância nos Es ados Unidos e em alguns países
nó dicos eu opeus, des elou essa ca ac e ís ica ão pa icula men e
nipônica pa a o Ociden e, bem como uncionou como disposi i o pa a da
início, nesse hemis é io, a um p ocesso de comp eensão e de
ques ionamen o a espei o dela. Tal a o ez que hou esse um caminho
in e so e inci ou uma e isão da concepção do
Ma
pelos p óp ios
japoneses: o que e a
modus ope andi
e, po an o, não inha necessidade
de nenhuma explicação sob e o seu signi icado, se ans o mou num
pa adigma pa a que osse possí el a comp eensão pelo “ou o”.
Uma ap oximação cul u al, que ange à imagem do Japão no
Ociden e, an o nos aspec os es é icos quan o nos polí icos, oi assim
es abelecida em ambos os sen idos. Alguns pesquisado es ociden ais
es uda am o ema, como o alemão Gun e Ni schke (1966), o ancês
Augus in Be que (1982), o i aliano Fab izio Fuccello (1996), en e ou os.
Numa isão dos es udiosos japoneses sob e o assun o, odos são
unânimes em pon ua que o
Ma
é algo econhecí el, mas não e balizá el
como concei o e que cons i ui um modo de pensa p óp io dos japoneses.
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Mui os azem e e ência à conjunção espaço- empo (ISOZAKI, 1990;
KOMPARU, 1991; NISHIYAMA, 1981; KEN’MOCHI,1992; OGURA,1981), ou os, ao
espaço azio, silêncio ou não ação (KEN’MOCHI, 1992; MINAMI, 1983;
ISHIGURO, 1982). Ken’mochi salien a que
Ma é
um espaço azio, e “o espaço
azio es á p enhe de ene gia
Ki
” (1992, p.64, T.N. apud OKANO, 2012)
.
Alguns
co elacionam o
Ma
à memó ia cul u al ou pessoal, conside ando-o como
uma ansmissão sec e a da memó ia da cul u a. O a o de
kabuki
,
Danju o, escla ece que exis em dois ipos de
Ma
: o que pode se ensinado
e o que não pode. O mais impo an e é es e úl imo, que é algo na o.
(ISHIGURO, 1983 p.185 apud OKANO, 2012). Exis e ambém um
en endimen o do
Ma
como essonância en e duas con apa es, po
Ma suoka (1980: 112, apud OKANO, 2012): “Chama-se Ma um es ado de anja
cons i uído quando dois elemen os se associam. (...) Uma á ea c iada
quando o elemen o A se encon a em oposição ao B”.
Alguns japoneses mencionam o ní el me a ísico do
Ma
e, po an o,
da sua não concei uação (KAWAGUCHI
,
1982; MINAMI, 1983; MATSUOKA,
1980). Kawaguchi (1982, p.168 apud OKANO, 2012) a i ma que “
Ma
não possui
explicação lógica e que ele é
Ma
jus amen e po que não possui essa lógica.
E, quando ela é o çada, o
Ma
dis ancia-se da sua essência”. Mui os
(MINAMI (1983), ISOZAKI (2000), MATSUOKA (1980)) con i mam que não
exis e algo simila ao
Ma
na cul u a ociden al (OKANO, 2012).
Apesa desses es udos ealizados, o
Ma
con inua sendo algo de
di ícil pe cepção, ap eensão e comp eensão pa a a maio ia das pessoas
que não es ão inse idas na cul u a japonesa.
O caminho ilhado nessa busca oi o de comp eende o
Ma
com
base mais nos meios pe cep i os que na lógica concei ual, o que
es abelece uma ou a o ma de comunicação, uma ou a possibilidade de
conhecimen o do mundo. Foi po meio da semió ica pei ceana que a
in es igação se desen ol eu, esqui ando-se desse âmbi o do
inap eensí el pa a uma noção mais inculada ao pensamen o ociden al.
Dessa pe spec i a, o
Ma
oi abo dado semio icamen e como um quase-
signo – uma possibilidade – que pode se pe cebido quando se o na
exis en e e isí el a nossos olhos e men es, na a qui e u a, nas a es, no
cinema ou na dança. A mani es ação conc e a do
Ma
oi chamada de
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espacialidade
Ma
e, po in e médio dela, iabilizou-se o es udo da noção
abs a a desse elemen o cul u al.
Ma
: ap oximação semió ica
Em iagem ao Japão pa a ealiza a pesquisa sob e o
Ma
, num
encon o com o p o esso e a qui e o japonês Kawazoe Nobo u (1926-
2015), ecebi um olha de ep o ação, como se eu osse uma es angei a
a aída pelo exo ismo do
Ma
, acompanhado da seguin e c í ica: “Se en a
concei ua o
Ma
間, o único des ino é o
Ma
魔 e não alcança á o
Ma
真.”
Isso signi ica a que concei ua o
Ma
間 den o do sis ema lógico
ociden al, i ia le a ao segundo
Ma
魔, o Diabo, o que impedi ia ob e o
e cei o
Ma
真, a Ve dade. Kawazoe en a a dize que o
Ma
é algo que não
se pe mi e de ini , apesa de odos os japoneses o u iliza em e
iden i ica em no seu co idiano, na e balização, nos ges os e nas
ep esen ações espaciais, a ís icas e cul u ais.
Somen e mais a de, eio a comp eensão de que
Ma
é algo que não
se pe mi e de ini , uma ez que não se conc e izou. Além do mais, quando
ganha ma e ialidade, o az de modo mul i ace ado, o nando mais
complexa ainda qualque concei uação. A semió ica de Pei ce pôde
aba ca o es udo do
Ma
, po inclui , no bojo da sua es u u a eó ica, ês
ca ego ias em que se podem classi ica os enômenos: a p imei idade, a
segundidade
15
e a e cei idade
16
. A p imei idade en ol e o “es ado de
consciência de expe iencia uma me a qualidade” (IBRI, 1992), is o é, uma
expe iência no empo absolu amen e p esen e. Po qualidade, en ende-se
aquilo que “é o que é, no seu es ado me amen e po encial, independen e
de se sen ida ou pensada” (Ibid.).
15
Segundidade é a ca ego ia que az a ideia do “segundo em elação a” cons i uindo uma
expe iência di e a, não media izada; é a consciência de dualidade: uma que age e ou a que eage
(IBRI, 1992).
16
Te cei idade é ca ego ia que az a ideia de gene alização, uma expe iência de sín ese ou
pensamen o que incula o p esen e com a expe iência passada e in encionalidade u u a,
po an o, semp e conec ada ao luxo do empo (IBRI, 1992).
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Assim, ao conside a a p imei idade pei ceana, oi possí el, na sua
a qui e u a ilosó ica, encon a um pon o comum em que a lógica do
Ociden e pudesse es abelece diálogos com o
Ma
: o luga de quase-signo,
um es ágio an e io à exis ência sígnica, que co esponde a uma
possibilidade, a um dado p eexis en e e, po an o, nada a espei o dele
pode se di o nesse es ado. Apenas quando a possibilidade se ma e ializa,
passando pa a as ca ego ias de segundidade e e cei idade, o es udo é
iá el. Desse modo, pelo olha semió ico, o
Ma
consegue se econhecido
ao se conc e iza no mundo ma e ial, no momen o em que anscende a
p imei idade e chega à segundidade, o nando-se enômeno e,
consequen emen e, passí el de es udo.
Vol emos, en ão, à noção p imo dial do
Ma
: um espaço azio,
dema cado po qua o pilas as, onde ha e ia a possibilidade da apa ição
di ina. O es ado de espe a, do azio icônico pa a a mani es ação da
di indade indicial, es a ia conec ado com a p imei idade. Ao ha e essa
conexão, e a conc e ização da descida di ina no espaço azio, ins au a-se
a espacialidade
Ma
, que é comp eendida como espaço in e ala . Essa
semân ica pode se isualizada na p óp ia o mação do ideog ama
Ma
間,
uma composição de duas po inholas, a a és das quais, no seu espaço
in e ala , se a is a o sol (日). 間 (
Ma
) = 門 (po inhola) +日 (sol).
A espacialidade
Ma
p essupõe in e mediação e elação, di isão,
mas ambém conexão, na qual a noção de on ei a se az ele an e. O
semió ico Iu i Lo man (1996) concebe a on ei a como “um mecanismo
bilíngue que aduz as mensagens ex e nas à linguagem in e na da
semios e a
17
e ice- e sa”. A espacialidade Ma pode se assim
comp eendida, como algo que sepa a e conec a dois elemen os dis in os,
ao es abelece a adução de uma semios e a a ou a, mui as ezes com a
p odução de no os signos.
En ão, po meio das espacialidades na ca ego ia da segundidade
pei ceana, que conc e iza a mani es ação do p é-signo, o
Ma
pode se
17
Semios e a é, de aco do com semió ica da cul u a, espaço de p odução de semiose na cul u a,
po an o, de coexis ência e coe olução dos sis emas de signos (MACHADO, 2003).

A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
118
es udado, seja ep esen ado pela a qui e u a e espaço u bano, seja pela
a e ou ou as exp essões.
Ma
: a qui e u a
Mui os exemplos de
Ma
podem se encon ados na a qui e u a
japonesa, an o a adicional quan o a con empo ânea. Alguns clássicos
são: sala adicional
Ma, genkan, engawa
e
sandō
, além de elemen os como
o ii,
pon e, escada e c. Nosso oco de análise ecai sob e as cons uções
do a qui e o Tadao Ando e, com base nelas e em ou as da adição
japonesa, lançamos alguns ques ionamen os se ha e ia o
Ma
na ob a de
alguns a qui e os con empo âneos b asilei os.
É ele an e le a em conside ação que a a qui e u a é um modo de
o ganização do espaço, o qual p essupõe uma mediação en e o homem e
o espaço. Tal elação é p imo dial pa a a comp eensão do
Ma
na
a qui e u a.
De aco do com Luc écia Fe a a, a cognição do espaço é ob ida pela
ep esen ação enomênica – e, po an o, pela espacialidade
Ma
– em
conjunção com a isualidade e a comunicabilidade. A isualidade é a ibu o
da ca ego ia da segundidade pei ceana, ao passo que a comunicabilidade
é da e cei idade, quando al en endimen o a inge o olho da men e (2007,
p.13), is o que o espaço se mos a não apenas no seu aspec o ísico, mas
ambém no pe cep i o e no comunica i o, po an o, semp e na sua elação
com o homem.
O p imei o exemplo az e e ência à espacialidade
Ma
como azio,
dema cada apenas po pilas as pa a a apa ição di ina, con o me a o igem
da pala a. São as espacialidades exis en es no San uá io Ise, dedicado à
deusa do sol, Ama e asu, da ado de século V, bem como nos ecin os
denominados
Ma
de uma casa adicional japonesa, cons uídos po uma
mon agem de
a ami
de ap oximadamen e 1,80 a 0,90m cada um. Esses
cômodos são azios, desp o idos de mobiliá ios, e ambém lexí eis: as
po as de co e de papel são acilmen e emo í eis pa a ab i espaços
con íguos. São espacialidades azias à espe a de obje os e pessoas pa a
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
119
que a elação se es abeleça de aco do com a si uação desejada e
de e minada.
O segundo e e e-se à espacialidade
Ma
de in e mediação,
coexis ência e on ei a que pode conec a /sepa a o ex e no e o in e no
ou o público e o p i ado. Na casa adicional japonesa, exis em pelo menos
duas espacialidades que co espondem a al ca ac e ís ica:
genkan
(
hall
de en ada da casa) e
engawa
(espécie de e aço en e a casa e o ja dim).
Genkan
cons i ui-se local in e ala en e ex e no/público e
in e no/p i ado. Numa análise dos ní eis da edi icação, pode-se e i ica
que pe ence ao ex e no/público, dado que a casa em um ní el mais
ele ado. Sepa a-se do ex e no/público po di isó ias e icais,
con igu ando-se in e no/p i ado e mos a-se espacialidade in e ala se
oma mos como e e ência o hábi o dos japoneses de ica em com
calçados no ambien e ex e no e, ao aden a a casa, i á-los jus amen e
no
genkan
– o luga de in e mediação en e o o a e o den o.
Engawa
é o e aço con íguo à casa, do mesmo ní el (e assim,
in e no), mas sepa ado po uma di isó ia e ical que ica abe a du an e
o dia, mas echada à noi e (ex e no à noi e). O ma e ial do piso é ambém
di e en e:
a ami
no ní el in e no e madei a no
engawa,
o que de e mina
hábi os dis in os: descalço no p imei o e com chinelo no segundo. É o luga
in o mal em que se con empla o ja dim e no qual as izinhanças se
eúnem, sem i a os sapa os, pa a con e sa sen adas, euniões essas,
mui as ezes, egadas a chá o e ecido pela dona da casa
.
O po al
o ii
18
na en ada do San uá io Ise
19
é um ou o elemen o
que se classi ica como a p imei a on ei a do san uá io, que indica a
di isão/conexão en e o e i ó io p o ano e o di ino.
O e cei o caso é elacionado com a ques ão da mon agem espaço-
empo al, que cons i ui uma passagem ansi ó ia, como no caso de
sandō,
oji
(ja dim uela)
,
pon e ou escada
.
São espacialidades p ocessuais, em
18
To ii é um po al ge almen e ei o de madei a ou elemen o me álico e melho. É conhecido
pelos b asilei os em azão da exis ência de um deles na Rua Gal ão Bueno, bai o da Libe dade,
cuja semân ica, po meio do seu deslocamen o pa a o B asil, se o nou símbolo do Japão.
19
San uá io Ise (Ise Jingū), localizado na p o íncia de Mie, undado no séc. V, é um san uá io
xin oís a que se di ide em Gekū e Naikū. O p imei o é dedicado à di indade da ag icul u a e da
indús ia, Toyouke, e o úl imo à deusa do sol, Ama e asu, o qual é o mais isi ado.
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
120
cons ução com a ação humana. Um exemplo é o adicional
oji
, um ja dim
es ei o que une a po a de en ada e a casa de ce imônia do chá. É uma
espacialidade es ei a de passagem, que é palmilhada de aga , sob e as
ped as-guias i egula es es a egicamen e colocadas no chão, e em
como obje i o p epa a espi i ualmen e o con idado pa a aden a a casa
da a e. O mesmo se az no
sandô
, caminho p ocessual de p epa ação ao
encon o do di ino, desde o po ão
o ii
, a p imei a on ei a en e o
e i ó io p o ano e o di ino a é chega ao san uá io p op iamen e di o. No
caso do San uá io Ise, Naikū, são pe cu sos que se compõem de pon e,
sob e a qual é possí el ou i o som do lui da água do io que passa po
debaixo, ou i os p óp ios passos pelo som p oduzido pelo con a o do pé
com os ped egulhos que o am o aje o e sen i o a oma das á o es ao
edo . Ou os
o ii
e pon es no caminho indicam que o di ino es á mais
p óximo. Quando se chega ao san uá io p op iamen e di o, a cons ução
nem se mos a isualmen e e, mui o menos, é pe mi ida a en ada. A
pe eg inação é exa amen e o pe co e o espaço- empo p ocessual, que
ans o ma o espaço ísico em espaço pe cep í el po meio da ação do
homem ao es abelece uma comunicação sensí el.
Mil on San os (1926-2001), geóg a o b asilei o, não limi a a geog a ia
apenas a aspec os ísicos, mas conside a o espaço como soma da
paisagem e da sociedade, não apenas como o ma, mas o ma e con eúdo
ou, ainda, como composição de ixos e luxos e, po an o, do espaço e dos
homens (2002, p.61). Ve i ica-se, nos casos an e io men e apon ados, que
o
Ma
se es abelece na sua elação com o se humano que pe az uma ação
no espaço. E a espacialidade
Ma
não se esume à isualidade, mas ab ange
a i ência pe cep i a polissenso ial e a sua comunicabilidade.
A a qui e u a de Tadao Ando (1941-) é um exemplo pe inen e pa a
isualiza a p esença da espacialidade
Ma
na con empo aneidade. Desde
cedo, já no seu p imei o p oje o,
Sumiyoshi no Nagaya
(1976), ele
inco po ou a noção do
Ma
ao concebe uma casa com duas edi icações
sepa adas po um en e-espaço abe o. A descon inuidade en e as duas
pa es cons u i as oi c iada po um pá io in e no que ele denomina Pá io
da Luz, o qual sepa a a sala de es a , numa das ex emidades, da cozinha,
sala de jan a e banhei o, que icam na ou a. De aco do com Ando, a a a-
se de uma es a égia pa a in oduzi a na u eza no in e io da esidência
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
121
(2005: 155. T.N.) e no seu co idiano. E a inconcebí el que o homem
passasse o dia sem e o céu, sen i o sol, o en o ou a chu a. É essa
in e ação en e a cons ução e a na u eza que Ando p opicia em ou as
ob as, seja pela cons ução de um espaço in e ala , seja po bo a as
on ei as en e a a qui e u a e a na u eza, como em Times I (1984) em
Kyo o; Ig eja da Luz (1989); Museu da A e Con empo ânea de Naoshima
(1992) e Ho el Anexo (1995); Templo Minamide a (1999), Museu de A e
Chichū (2004), en e mui os ou os.
Em g ande pa e dos museus que ele cons ói, exis e um espaço de
passagem in e ala na en ada do edi ício, como o ja dim
oji
da
ce imônia do chá, em o ma de ampa, escada ou acesso di ecionado pa a
a cons ução, a im de que o isi an e enha um aje o de p epa ação
espi i ual pa a en a na casa da a e. Isso acon ece com Museu de A e
Con empo ânea de Naoshima, Templo Minamide a, Museu de A e Chichū,
Museu Na iwa (1994), Museu Sun o y (1994) e c.
A elação na u eza/a qui e u a pode se bem obse ada ao se
en a no apa amen o do Ho el Anexo ao Museu Con empo âneo de
Naoshima e isualiza um qua o bem p oje ado, sem luxo, com uma po a
de co e in ei iça de id o que ab e po comple o, a a és da qual o céu e
o ma aden am a isualidade, como se o qua o es i esse cons uído em
consonância com a na u eza; ou, ainda, quando Ando ab e uma b echa na
pa ede de conc e o em o ma de c uz na Ig eja de Luz, em Osaka, deixando
a p óp ia luz se o símbolo di ino. Temos ambém a Ig eja sob e a Água
(1988), em que, do in e io da cons ução, o isi an e con empla a c uz em
um lago ex e no, emoldu ada pelas pa edes de conc e o e id o. Pode-se
obse a nessa disposição um diálogo com o San uá io I sukushima
20
,
he ança cul u al japonesa, em Miyajima, Hi oshima, cons uído no século
VI, ambém edi icado sob e a água, que possui um
o ii
e melho de 17 m
de al u a den o do Ma In e io do Japão, a 150 m do san uá io,
inco po ado em 1875.
Ando não cons ói o mas, mas espacialidades comunica i as, que
sejam de coexis ência en e a cons ução e a na u eza, que sejam de
20
Cons uído no século VI, e p o a elmen e econs uído no século XII, é um san uá io lu uan e
sob e a água do Ma In e no do Japão, conside ado Pa imônio Mundial pela UNESCO em 1996.
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
128
Ves ígios, sob as, paisagens
Vladimi Ba alini
A qui e o-u banis a, li e docen e, p o esso dos cu sos de g aduação e pós-g aduação
em A qui e u a e U banismo da Faculdade de A qui e u a e U banismo da Uni e sidade
de São Paulo. Memb o undado do Labo a ó io Paisagem, A e e Cul u a da FAU-USP,
onde desen ol e pesquisas na linha denominada “Es udos sob e a poé ica da paisagem”.
Resumo: O ex o, concebido como in e enção no “Colóquio In e nacional A mos e as,
S immung, Au a: no in e s ício en e iloso ia, paisagem e polí ica”, p opõe uma
abo dagem dos e mos cons i u i os do í ulo e do sub í ulo do e en o, isando ealça a
ma e ialidade p esen e mesmo nos enômenos idos como in angí eis. As ques ões
a inen es à paisagem conduzem o ex o. A na u eza complexa, ao mesmo empo conc e a
e ugidia, ma e ial e au á ica, ini a e in ini a, pe ecí el e ge minan e da paisagem mo i a
e jus i ica eco e a con ibuições p o enien es de di e en es au o es que, embo a nem
semp e se e i am di e amen e à paisagem, con ibuem pa a pensá-la, sen i-la e
islumb a sua po ência poé ica e polí ica.
Pala as-cha e: cidade; na u eza; paisagem; sob as; es ígios.
Abs ac : This ex , concei ed as an in e en ion in he “In e na ional Colloquium
A mosphe es, S immung, Au a: a he in e sec ion be ween philosophy, landscape and
poli ics”, p oposes an app oach o he cons i u i e e ms o he i le and sub i le o he
e en , aiming o highligh he ma e iali y p esen e en in phenomena conside ed as
in angible. The ques ions ela ed o he landscape guide he ex . The complex na u e, a
he same ime conc e e and elusi e, ma e ial and au a ic, ini e and in ini e, pe ishable
and ge mina ing o he landscape mo i a es and jus i ies eso ing o con ibu ions om
di e en au ho s who, al hough no always e e di ec ly o he landscape, con ibu e o
hinking abou i and eel i , as well as en isioning i s poe ic and poli ical powe .
Keywo ds: ci y; na u e; landscape; le o e s; emains.

A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
129
Um encon o que em po í ulo
A mos e as, S immung, Au a
e se
p opõe explo a
in e s ícios
, pode ia se um con i e emba açoso pa a
cap u a jus o aquilo que não se deixa pega . No en an o, se a é mesmo o
nada, como des aca É ienne Klein, “se o na ma é ia uma ez que seja
pensado” (KLEIN, 2018: 75), as né oas e e ocações, po mais ine á eis e
su is, com mais azão não dispensa iam uma base ma e ial.
Ves ígios e sob as, em que pese sua ma e ialidade, não cons i uem
co pos ín eg os, mas sua condição agmen á ia, ao subsis i , pode
eme e àquele ausen e do qual aziam pa e ou, ainda, sob e udo no que
diz espei o às sob as ( e ugos) e à sob e ida, o igina algo no o.
Abo da emos de início, e de modo b e e, como a imaginação, os
de aneios, mas ambém o pensamen o, lidam com a ma é ia a e ei a das
a mos e as e das au as, e com a ideia de es ígio. Em seguida,
p ocu a emos mos a o po encial de ce os es ígios e sob as
esul an es das ans o mações no espaço (o u bano, especialmen e) pa a
aludi a algo que os ul apassa, apon ando, assim, pa a a o mação de
no as paisagens.
* * *
A mos e a p o ém de
a mos
, sop o, apo . O apo pode se
de inido como o conjun o de pa ículas gasosas emanadas de líquidos, que
se di undem ou icam suspensas no a . Mas essa de inição, es i amen e
obje i a, não con empla a iqueza de signi icados que a a mos e a ence a
como iado a de oda a ma é ia i a.
Emanuele Coccia, em
A ida das plan as
(2018), o nece uma
alen ada lis a de í ulos sob e o concei o de a mos e a e dedica uma pa e
impo an e da sua
me a ísica da mis u a
à “A mos e a do mundo”. Coccia
de ende que, mais do que a Te a, habi amos a a mos e a, o luido. Sua
hipó ese é que a ida só é possí el em meios luidos. Assim, a passagem
dos se es i os da água pa a a e a não e ia sido p op iamen e uma
g ande e olução, mas “uma mudança de g au de densidade e de es ado
de ag egação de um mesmo luido (a ma é ia) que pode assumi
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
130
con igu ações di e en es” (COCCIA, 2018: 34). A na u eza luida é o que
da ia unidade à imensa di e sidade de ma é ias e elemen os que
cons i uem o mundo habi ado, independen e se a ma é ia es á em es ado
sólido, líquido ou gasoso. O impo an e pa a que haja luidez, ou seja,
possibilidade de ida, é que a ma é ia p olongue “suas o mas numa
imagem de si, seja sob a o ma de uma pe cepção ou de uma con inuidade
ísica” (Idem: 35). O que se deduz daí não é pouco impo an e: “Se odo
i en e só pode exis i no in e io de um meio luido, é po que a ida
con ibui pa a cons i ui o mundo como al, semp e ins á el, semp e
omado po um mo imen o de mul iplicação e di e enciação de si” (Idem).
A ida e es e es á hoje ão ime sa na a mos e a como já es e e (ou es á)
ime sa no ma . Es a no mundo é semp e uma o ma de ime são, o que
o na ine me a oposição en e mo imen o e epouso, con emplação e ação,
den o e o a, sujei o e obje o: “no mo imen o, udo isa a pene a o
mundo e a se pene ado po ele” (Idem: 36), o que desabsolu iza a
dis inção ma e ial en e nós e o es o do mundo. Essa iden idade, le ada à
sua adicalidade, pe mi e dize que “não se pode es a num espaço luido
sem modi ica
ipso ac o
a ealidade e a o ma do ambien e que nos odeia”
(Idem: 41).
Coccia es á in e essado em demons a que a ida das plan as é a
p o a mais cabal disso, uma ez que elas não se limi am à adap ação
passi a a um dado ambien e, mas, an es, cons i uem o p óp io ambien e
ao se cons i uí em a pa i dele. O nosso in e esse, aqui, é modes o, e se
nos se imos das e lexões de Coccia sob e "A a mos e a do mundo" e as
plan as, o azemos pa a salien a possí eis pon os de con a o com as
ques ões que en ol em mais di e amen e a paisagem.
Conside e-se, nesse sen ido, o papel que Geo g Simmel (2011)
a ibui à
S immung
como p opiciado a da unidade que o ma a paisagem.
A pala a
S immung
, sem e são sa is a ó ia em ou as línguas, é às ezes
aduzida como a mos e a ou es ado de alma. A
S immung
não es á nem
no sujei o, nem no obje o, diz Simmel, mas se dá no encon o dos dois, e é
ela que ga an e a coesão necessá ia pa a que os mais di e sos obje os –
uas, casas, ios, á o es, mon anhas – p esen es na na u eza e pa ícipes
da “in ini a conexão das coisas”, se eúnam pa a o ma uma no a unidade
a qual, mesmo sendo pa cial,
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
131
exige um se -pa a-si, po en u a óp ico, po en u a
es é ico, po en u a con o me à
S immung,
uma
ca ac e ís ica singula que a des aque daquela unidade
indi isí el da na u eza, na qual cada po ção mais não pode
se do que um pon o de passagem pa a as o ças o ais da
exis ência. (SIMMEL, 2011: 43).
Pode-se en ende que é essa ime são numa ce a a mos e a, numa
S immung
, que az elemen os dispe sos a ingi em uma sín ese que c ia
algo no o, não exis en e p e iamen e (embo a odos os seus componen es
já es i essem ali): uma paisagem.
Na en a i a de explica como o simples campo que dominamos com
o olha , e que ainda não é uma paisagem, em a se o na uma, Simmel
lança mão de uma compa ação: [...] um mon e de li os jus apos os não é
ainda 'uma biblio eca’, mas se o na á numa quando, sem se lhe i a ou
ac escen a um único olume, um ce o concei o uni icado a ie aba ca ,
dando-lhe o ma.” (Idem: 44). Po essa disposição do espí i o, que cons i ui
uma paisagem onde an es ha ia apenas um acúmulo de elemen os, aquilo
que e a pa e de um odo acaba po se o na um conjun o independen e,
que se sepa a e ei indica seu di ei o dian e do odo ao qual pe encia.
Con i a-se ago a o que esc e e Coccia ao a a da a mos e a:
O que con e e unidade con e e ambém o ma,
isibilidade, consis ência. É esse mesmo a de amília que
nos pe mi e econhece a eal iden idade de uma coleção,
e é a a mos e a que o na pa a nós um luga isí el em
sua o alidade, pa a além dos obje os que o ocupam
(COCCIA, 2018: 55).
Pode-se dize com con o á el segu ança que, em
A ida das
plan as
, Coccia não emp ega uma só ez a pala a paisagem, mas não
se ia abusi o econhece ap oximações en e sua a gumen ação sob e as
plan as – “As plan as são o
sop o de odos os se es i os, o mundo
enquan o sop o
” (Idem: 56) – e o pensamen o sob e a paisagem. Veja-se,
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
132
po exemplo, o que diz Coccia nas seguin es passagens sob e o “sop o do
mundo” que se ealiza e se a ualiza con inuamen e nas plan as:
A isão é espi ação: acolhe a luz, as co es do mundo, e
a o ça de se deixa espassa po sua beleza, de
escolhe uma po ção, e uma po ção unicamen e, pa a
c ia uma o ma, pa a inicia uma ida a pa i do que
a ancamos ao
con inuum
do mundo (Idem: 58).
[O sop o] é o nome p óp io da ida. Pa a econhece seu
es a u o, ez-se dele uma subs ância sepa ada das ou as,
pela o ma, pela ma é ia e pelo se – o espí i o. Mas o
p imei o e mais pa adoxal a ibu o do sop o é sua
insubs ancialidade: ele não é um obje o sepa ado dos
ou os, mas a ib ação pela qual odas as coisas se ab em
à ida e se mis u am com o es o dos obje os, a oscilação
que, po um ins an e, anima a ma é ia do mundo (Idem).
É [...] com e nesse mesmo mo imen o que i en e e mundo
consag am sua sepa ação. Aquilo a que chamamos ida é
p ecisamen e esse ges o a a és do qual uma po ção da
ma é ia se dis ingue do mundo com a mesma o ça que
u iliza pa a se con undi com ele (Idem).
Não é di ícil pe cebe , nesses exce os, ce a amilia idade com o
p ocesso de o mação da paisagem – uma pa e que se sepa a do odo e
a ele ol a a undi -se, em no os e mos – con o me ap esen ado po
Simmel.
Compa e-se ago a mais es a ci ação de Coccia
O sop o não se limi a à a i idade do se i o: de ine
ambém, e sob e udo, a consis ência do mundo [...]. E é ao
sop o que de emos pe gun a pela na u eza do mundo: é
nele que o mundo se e ela, é nele que o mundo exis e
pa a nós (Idem: 59).
A as do Colóquio In e nacional A mos e a, S immung, Au a: nos in e s ícios da iloso ia, paisagem e polí ica
133
com a seguin e passagem de Rosa io Assun o, ex aída de um a igo em
que o pensado i aliano busca es abelece as di e enças concei uais en e
paisagem, ambien e e e i ó io:
A ida, não a i emos no e i ó io; o e i ó io é uma me a
abs acção bu oc á ica [...]. Também o ambien e, enquan o
ambien e pu o e simples, é uma me a abs acção [...]. O
ambien e conc e o, o ambien e que i emos e do qual
i emos i endo nele, é semp e o ambien e como o ma
de um e i ó io: paisagem (ASSUNTO, 2011: 128-129).
Pa adoxalmen e insubs ancial e ma e ial, a paisagem pode se is a
a um só empo como sop o "que de ine a consis ência do mundo" (COCCIA,
2018: 59) e " o ma na qual se modelou uma ma é ia" (ASSUNTO, 2011: 129).
* * *
A au a compa ilha com a a mos e a pa adoxo semelhan e, pois
nela a dimensão ma e ial con i e com o ine á el.
Au a é uma pala a indo-eu opeia (
awe
), que o iginou a pala a a
e se ixou no g ego e no la im ambém com o sen ido de a agem, b isa,
en o sua e. Na mi ologia g ega, Au a é o nome de uma nin a, ápida como
a b isa, que acompanha Á emis na caça.
Á emis, a Diana dos omanos, é, como sabemos, a deusa das e as
sel agens, das lo es as e colinas, senho a dos animais. Ela é, po an o,
associada à na u eza, ciosa de sua pu eza e a edia ao con a o com os
homens (Ac éon é cas igado po ê-la is o nua banhando-se numa on e,
o mesmo endo acon ecido com ou os que, aciden almen e ou não, se
ap oxima am dela sem au o ização). Ma ia Rosa io González P ada, na
in odução à e são espanhola de
Os He oicos Fu o es
, de Gio dano
B uno, e e e-se a Diana como "a di indade em es ígio, a
explica io
di ina
no uni e so" (PRADA, 1987: XLII) (g i o nosso). No con ex o de
Os He oicos
Fu o es
, a menção a Diana em da con adição p esen e no a o de se mos
"na u almen e" a aídos po um obje o (o conhecimen o absolu o, ou

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di ino) que é inacessí el à nossa "na u eza", ou à na u eza da azão
humana, que impõe limi es ao nosso desejo de comp eende . No en an o,
ainda segundo Ma ia Rosa io González P ada, essa us ação não é
imobilizado a pa a o he ói u ioso de Gio dano B uno. Ao con á io, ele se
sen e es imulado e con ian e po con a com Diana, o es ígio do di ino, "a
Diana caçado a que simboliza o mundo ísico, e lexo da di indade, que a
quase odos pe manece ocul a, mas que não é o almen e inacessí el"
(Idem).
Po an o, ambém no mi o de Á emis (Diana) e Au a, o ma e ial e o
e é eo compa ecem associados, mesmo que essa ma é ia – o mundo ísico
(Diana) – seja um es ígio da subs ância di inal acompanhado da
ola ilidade do sop o (Au a).
Se a a mos e a ( apo ) é, em e mos ma e iais, água e a , a au a é
b isa, en o, a em mo imen o. Água e a , assim como o híb ido apo , que
é o encon o dos dois, são ma é ias luidas que pene am po odos os
in e s ícios, num dinamismo incessan e, po mo o p óp io ou sob o
impulso do en o ou da au a, o en o sua e.
Pa a a imaginação, o mo imen o é o alo undamen al dos luidos
– haja is a a cono ação nega i a de exp essões como "água pa ada" e "a
pa ado", sem p ejuízo das imagens poé icas que elas possam despe a –
e a subs ância em p io idade sob e a o ma. A água, pa a Bachela d, é
"um se o al: em um co po, uma alma, uma oz", que conduz, ou mesmo
ob iga, a uma "unidade de elemen o". Sem essa unidade, "a ob a ca ece de
ida, po que ca ece de subs ância" (BACHELARD, 2002: 17), ao passo que,
"com o a , o mo imen o supe a a subs ância" (BACHELARD, 2001: 9).
Bachela d obse a ainda que, apesa da imaginação a o ece es e
ou aquele elemen o em pa icula , ela com equência os combina,
eunindo-os dois a dois (BACHELARD, 2002: 99). É o caso da combinação
de água e a , o apo , esse “meio u o” que az com que "a co apa eça e
o mundo seja possí el", con o me apon a Jean-Ma c Besse no ensaio
e e en e à paisagem i aliana na iagem de Goe he (BESSE, 2006: 56).
Vale a pena, pa a os p opósi os des a in e enção, de e -se um
pouco mais em algumas passagens do e e ido ensaio:
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O e en o do mundo pa a o homem começa pela co : ê-se
as co es, diz Goe he, an es de dis ingui as o mas. Mas a
co se desdob a em duas impossibilidades simé icas, ela
su ge como luga da isibilidade en e dois ex emos que
anulam oda isão: a o al anspa ência e a o al
opacidade. Ambas cegam. A anspa ência o al é a pu a
luz, al qual a es uda a ó ica new oniana. Mas a geome ia
é sem co , ela é abs a a, in isí el. O b anco, egis o
colo ido mais p óximo da luz pu a, é ainda o uscamen o
ejei ado pelos sen idos, nele o mundo ainda não es á
dado
. In e samen e, a opacidade o al aniquila o olha ,
azendo-o desapa ece na obscu idade da ma é ia. Pa a
que haja co , mundo sob o olha humano, são en ão
necessá ias, ao mesmo empo, a luz e a obscu idade. A
co se da á como somb a na luz, ou aço de luz sob e a
opacidade dos co pos (BESSE, 2006: 55).
Mas esses p incípios opos os – luz e escu idão –, necessá ios pa a
que a co se exp esse, são ainda abs a os e in isí eis. Um
meio
se az
necessá io pa a que a co apa eça e possibili e o mundo (humano).
Esse meio é chamado po Goe he de "meio u o" ou,
ainda, "meio ma e ial". Um espaço azio – espaço da
geome ia – se ia o almen e anspa en e, incolo , não
pe cep í el. O mundo começa quando esse espaço se
u a, se enche de um con eúdo ma e ial, e quando
su gem, segundo a opacidade a iá el desse espaço, as
co es da ida. [...]
Desse pon o de is a, o es udo dos enômenos
a mos é icos é decisi o pic o icamen e, a e i amen e,
on ologicamen e (g i o nosso). Com e ei o, a a mos e a, o
apo (
a mos
), é a p imei a u ação do espaço. O apo
colo ido, o éu de b uma, é o p óp io co po da co que
su ge dian e dos nossos olhos: nascimen o do mundo na
paisagem apo osa. [...]
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Assim, as desc ições de paisagens i alianas po Goe he
assinalam egula men e a exis ência de um a apo oso
que cob e as o mas e as co es locais dos obje os. Essa
a mos e a ca ac e ís ica que se es ende pelo céu em
como e ei o a enua a luz e p oduzi a unidade da
paisagem, e cada co pa icula , g aças a esse apo
sua izado , unde-se ha monicamen e numa onalidade
de conjun o. [...]
Os con á ios são undidos numa mis u a que é o sinal da
sua "essência comum". [...] Essa con ação da luz, que
simul aneamen e se desdob a nas co es, p o oca uma
in uição de o alidade, em que, no múl iplo, o olha
pe cebe a unidade p imo dial do Se . [...]
A paisagem é o mundo em edução, e o apo da
paisagem, o acesso à o mação do mundo sob a o ma de
uma p esença sensí el (BESSE, 2006: 56-57).
A paisagem – essa expe iência so ida po um sujei o a emessado,
“às ezes iolen amen e, pa a o a dos seus limi es” (BESSE, 2009: 52)
sem, no en an o, i ao encon o de um obje o, já que “não há mais nenhum
obje o, no sen ido da ciência e da consciência ep esen a i a” (Idem) –
pode, ainda assim, se acessada... pelo apo . É como a Diana que, apesa
de ocul a -se, não é o almen e inacessí el, pois uma b isa sua e a
acompanha e mani es a.
* * *
A iagem de Goe he à I ália se deu no inal do século XVIII.
Ce amen e o céu da I ália, hoje, é ou o, an o nas cidades como no campo.
Que o digam os esc i o es, cineas as, músicos, poe as e a is as de um
modo ge al. O mundo mudou mui o nesse pe íodo de mais de dois
séculos,di icul ando, se não impossibili ando, a "in uição de o alidade"
i enciada en ão po Goe he. A agmen ação, ou mesmo a anulação da
expe iência, é gene alizada e acome e a odos.
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Res am es ígios, as os (esses e mos são a iações usuais nas
aduções da pala a
Spu
, que Wal e Benjamin emp ega a sem a iação)
(OTTE, 2012: 71). Con ém ago a expo a elação en e es ígio (ou as o) e
au a.
O as o é a apa ição de uma p oximidade, po mais
longínquo que es eja aquilo que o deixou. A au a é a
apa ição de algo longínquo, po mais p óximo que es eja
aquilo que a e oca. No as o, apode amo-nos da coisa;
na au a, ela se apode a de nós" (BENJAMIN, 2006: 490,
apud JANZ, 2012: 19).
Veja-se o caso da na u eza – ege al, mine al, animal – na nossa
cidade, São Paulo. Os po os que habi a am os campos de Pi a ininga, an es
dos colonizado es, nomea am ios, ma as, luga es po suas qualidades
peculia es. Pi a ininga, Anhangabaú, Tie ê, Tamandua eí, Mandaqui,
Ta uapé, Ibi apue a não o am nomes dados alea o iamen e. Es a am
o emen e ade en es às ca ac e ís icas dos se es assim nomeados. A é
pa a o que já
não e a mais
da a-se nome: capoei a, de
ka'a
(ma o),
ue a
(passado).
Capoei a
e e e-se, assim, ao campo oçado, sem deixa de
aludi ao ma o que ali exis ia an es. Uma au a se exp essa na pala a
capoei a.
Os ios, po exemplo, com o a anço da u banização, sumi am de
cena
22
. Res am seus es ígios – obje os ou nomes – hoje, no mais das
ezes, ca en es de signi icado: gua da-co pos de pon es sem unção,
becos abandonados, nesgas de e a sob an es, disposi i os insóli os,
angulações e desní eis indeci á eis à p imei a is a. Há um apagamen o,
sem dú ida, no en an o, ele é incomple o. A o a os es ígios explici amen e
ma e iais que podem conduzi ao co po ocul ado, uma a mos e a especial
22
A in es igação dos có egos ocul os na cidade de São Paulo em sendo ealizada, desde 2002,
no Labo a ó io Paisagem, A e e Cul u a da Faculdade de A qui e u a e U banismo da
Uni e sidade de São Paulo. Os di e sos casos já es udados, a inen es a dis in as bacias
hid og á icas, ize am pa e de p oje os de pesquisa desen ol idos, em di e en es momen os, po
A hu Simões Cae ano Cab al, Bianca Qui é io Gua iglia, Johny Ka sumi Takeha a, Luis Fe nando
Zanga i Ta a es, Luis Guilhe me Al es Rossi, Ma ia João Ca alcan i Ribei o de Figuei edo,
Ma iana Ma ins Yamamo o, Mu illo Aggio Piazzi e Vladimi Ba alini, á ios deles publicados na
o ma de a igos em e is as especializadas ou em capí ulos de li os.
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