sé ie
ciências da
li e a u a
2015
29
/
3
diac í ica
dossie
p émios li e á ios
pode das na a i asas, na a i as do pode
29/
3UNIÃO EUROPEIA
Fundo Eu opeu de
Desen ol imen o Regional
diac í ica
e is a do cen o de es udos humanís icos
sé ie ciências da li e a u a
2015
29/3
dossie
p émios li e á ios
pode das na a i as
as na a i as do pode
ISSN 0807-8967
Dossie
p émios li e á ios.
O pode das na a i as
e /ou as na a i as do
pode
In odução
A e dade dos p émios
li e á ios
Ana Luísa Ama al
Ace ca dos p émios li e á ios
Ge mano Almeida
Não há p émios pu os. E po
que ha e ia de ha e ?
Isabel Pi es de Lima
Doxas, pa adoxos e
ho izon es: o ci cui o
secundá io da poesia
moçambicana em discussão
Nazi Ahmed Can
Vá ia
Almeida Ga e e a p opos a
polí ica do Roman ismo
Ana Bá ba a Ped osa
A A e Poé ica de O eu
na Dispe são, de Má io de
Sá-Ca nei o
Rica do Nob e
Não En es Tão Dep essa
Nessa Noi e Escu a de
An ónio Lobo An unes:
da esc i a omanesca à
pa i u a musical
Ca a ina Vaz Wa o
Censu a no Tea o B asilei o
e o a qui o – Pe doa-me
po me aí es de Nelson
Rod igues: uma análise a
pa i de Jacques De ida
E ickaline Beze a de Lima /
Nai a Neide Cio i
Ma ianela de Galdós: una
mi ada educa i a
Ma ía Luisa Ga cía Rod íguez
Recuo ao mais cônca o
azio de Juan José Millás –
os 40 anos de Ce be o son
las somb as
Alme inda Ma ia do Rosá io
Pe ei a
Che ilyn Sa kisian – ‘Che ’ o
he pos mode n P ome heus:
oicing he ‘Ma ginal’
O quídea Cadilhe
S ill ocking a e all hese
yea s: Adamas o w i es
back
Ma ia Sofi a Pimen el Biscaia
“A Te a es á fi cando oda
de sangue”: Poesia e gue a
em Moçambique
Giulia Spinuzza
Recensões
The u u e o auma heo y.
Con empo a y li e a y and
cul u al c i icism
Ped o Mou a
O oo do ga ajau: Dos
Aço es a Macau
Vi gínia Soa es Pe ei a
Tí ulo: DIACRÍTICA (Nº 29/3 – 2015)
Sé ie Ciências da Li e a u a
Di e o a: Ana Gab iela Macedo
Di e o es-Adjun os: Ca los Mendes de Sousa; Ví o Mou a
Edi o : O lando G ossegesse / Co-edi o a: Ma ga ida Es e es Pe ei a
E-mail: li[email p o ec ed].p
Coo denado as do Dossie : Ana Gab iela Macedo
Comissão Reda o ial:
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Lou enço (Uni . Coimb a), Cla a Rowland (Uni . Lisboa), Da id F ie (Uni . Leeds), Elena
B ugioni (Uni . do Minho), Emanuelle San os (Uni . Wa wick), Fá ima Mendonça (Uni . Lisboa),
Fe nando Beleza (Uni . New Hampshi e), F ancesca Rayne (Uni . do Minho), Glyn Hamb ook
(Uni . Wol e hamp on), Isabel C is ina Ma eus (Uni . do Minho), Joana Passos (Uni . do Minho),
Joanne Paisana (Uni . do Minho), José Cândido Oli ei a Ma ins (Uni . Ca ólica Po uguesa,
B aga), Má cia Regina Rod igues (UNESP, A a aqua a), Ma ia C is ina Ál a es (Uni . do Minho),
Ma ia do Ca mo Pinhei o Mendes (Uni . do Minho), Ma ia Micaela Ramon (Uni . do Minho),
Má io Viei a de Ca alho (Uni . No a de Lisboa), Nazi Ahmed Can (USP, São Paulo), Noelia
Iba a (Uni . Valencia), Paulo Césa And ade da Sil a (UNESP, A a aqua a), Rica do Ra o
Rod igues (Uni . No ingham), Ri a Pa ício (Uni . do Minho), Rui Goncal es Mi anda (Uni .
No ingham), Sé gio Guima ães de Sousa (Uni . do Minho), Vinícius Ma iano de Ca alho (King’s
College, London), Xaquín Núñez Saba ís (Uni . do Minho)
Comissão Cien í ica:
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San iago de Compos ela), Hélde Macedo (King’s College, London), Helena Buescu (Uni e sidade
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de Lisboa), Ma ia I ene Ramalho (Uni e sidade de Coimb a), Ma ia Manuela Gou eia Delille
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o Wa wick), Susan S an o d F iedman (Uni e si y o Wisconsin-Madison), Tomás Albaladejo
Mayo domo (Uni e sidad Au ónoma de Mad id), Vi a Fo una i (Uni e si à di Bologna), Ví o
Aguia e Sil a (Uni e sidade do Minho), Zi a Ben-Po a (Tel-A i Uni e si y).
Edição: Cen o de Es udos Humanís icos da Uni e sidade do Minho em colabo ação com
Edições Húmus – V.N. Famalicão. E-mail: [email protected]
Publicação subsidiada po
FCT – Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia
ISSN: 0807-8967
Depósi o Legal: 18084/87
Composição e imp essão: Papelmunde – V. N. Famalicão
ÍNDICE
DOSSIER PRÉMIOS LITERÁRIOS. O PODER DAS NARRATIVAS
E /OU AS NARRATIVAS DO PODER
7 In odução
11 A e dade dos p émios li e á ios
Ana Luísa Ama al
17 Ace ca dos p émios li e á ios
Ge mano Almeida
23 Não há p émios pu os. E po que ha e ia de ha e ?
Isabel Pi es de Lima
25 Doxas, pa adoxos e ho izon es: o ci cui o secundá io da poesia
moçambicana em discussão
Nazi Ahmed Can
VÁRIA
49 Almeida Ga e e a p opos a polí ica do Roman ismo
Ana Bá ba a Ped osa
65 A A e Poé ica de O eu na Dispe são, de Má io de Sá-Ca nei o
Rica do Nob e
79 Não En es Tão Dep essa Nessa Noi e Escu a de An ónio Lobo An unes:
da esc i a omanesca à pa i u a musical
Ca a ina Vaz Wa o
97 Censu a no Tea o B asilei o e o a qui o – Pe doa-me po me aí es
de Nelson Rod igues: uma análise a pa i de Jacques De ida
E ickaline Beze a de Lima / Nai a Neide Cio i
121 Ma ianela de Galdós: una mi ada educa i a
Ma ía Luisa Ga cía Rod íguez
143 Recuo ao mais cônca o azio de Juan José Millás –
os 40 anos de Ce be o son las somb as
Alme inda Ma ia do Rosá io Pe ei a
167 Che ilyn Sa kisian – ‘Che ’ o he pos mode n P ome heus:
oicing he ‘Ma ginal’
O quídea Cadilhe
181 S ill ocking a e all hese yea s: Adamas o w i es back
Ma ia So ia Pimen el Biscaia
203 “A e a es á icando oda de sangue”: Poesia e gue a em Moçambique
Giulia Spinuzza
RECENSÕES
229 The u u e o auma heo y. Con empo a y li e a y and cul u al c i icism
Ped o Mou a
235 O oo do ga ajau: Dos Aço es a Macau
Vi gínia Soa es Pe ei a
A ARTE POÉTICA DE ORFEU NA DISPERSÃO,
DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
THE POETICS OF ORPHEUS INDISPERSÃO,
BY MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
Rica do Nob e*
nob e@le as.ulisboa.p
Os poemas que cons i uem Dispe são êm indo a se es udados como um pe -
cu so ealizado po um sujei o poé ico em busca de si e da sua ob a; num plano
mí ico e simbólico, essa demanda oi in e p e ada po Da id Mou ão-Fe ei a
como a en a i a de Íca o a ingi o impossí el, de onde esul a uma queda no
abismo. No en an o, o mo imen o de queda e a insis en e demanda possibili am
pe cebe ambém a con igu ação de um sujei o di idido que se con o ma com os
aços do mi o de O eu: o con ínuo esga e de Eu ídice e a sua cons an e diluição
nas somb as não pe mi em que o sujei o se o ne ei de si (ideia coe en e com a
e imologia de dispe são). Es e es udo ap esen a, po isso, uma lei u a a en a dos
poemas de Dispe são, de Má io de Sá-Ca nei o, suge indo uma in e p e ação do
poe a enquan o O eu em busca da Poesia pe dida nas somb as de si, e que lu a
po se conc e iza .
Pala as-cha e: ecepção dos clássicos, poé ica, Má io de Sá-Ca nei o, O eu.
The poems ha cons i u e Dispe são ha e been s udied as an expedi ion unde a-
ken by a subjec sea ching himsel and his wo k as a mas e piece; a a my hical and
symbolic le el, his demand was es ed by Da id Mou ão-Fe ei a, who saw i as
an Ica us’ a emp o achie e he impossible, he esul being a all in o he abyss.
Howe e , he descending mo emen and he insis en demand allow he unde s-
anding o a di ided subjec ha ollows he main ea u es o O pheus’ my h: he
con inuing escue o Eu ydice and he cons an loss in he shadows do no allow
he subjec o become king o himsel ( his idea is cohe en wi h he e ymology o
dispe sion). This s udy p esen s, he e o e, a close eading o he poems o Má io
* Cen o de Es udos Clássicos da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa, Po ugal.
66 RICARDO NOBRE
de Sá-Ca nei o’s Dispe são, sugges ing an in e p e a ion o O pheus-Poe in sea ch
o Eu ydice-Poe y los in he shadows o himsel , s uggling o ma e ializa ion.
Keywo ds: Classical Recep ion, Poe ics, Má io de Sá-Ca nei o, O pheus.
Pa a a e is a idealizada po Má io de Sá-Ca nei o e Fe nando Pessoa
o am conside ados í ulos como Es inge, Lusi ânia e Eu opa, ha endo de
p e alece pa a a publicação inaugu al do Mode nismo po uguês a desig-
nação a ibuída po Luís de Mon al o : O pheu[1] (Sil a, 2008, p. 566).
Fá ima F ei as Mo na (2012, p. 169), econhecendo a a -se de um í ulo
“pe ei o” — is o que “o seu nome é já li e a u a (o mi o g ego do poe a
cujo can o inha pode sob e as o ças da na u eza), símbolo adequado a
um ex o que se p e ende de in e enção di ec a na con igu ação men al do
país”[2] —, conside a ele an e a “ausência de O eu ele p óp io, a pe sona-
gem do mi o, das ep esen ações li e á ias con idas não apenas na e is a a
que dá o nome mas ambém nas que se lhe segui am” (Mo na, 2012, p. 171).
De ac o, na li e a u a po uguesa des e pe íodo não se encon a “um ex o
que assuma a e isi ação, o desen ol imen o, a e uncionalização da pe so-
nagem mí ica dando-lhe o p o agonismo de um í ulo ou, pelo menos, de
uma ampla e econhecí el p esença”.[3] Não deixa de se , no en an o, signi-
ica i o que, sem ha e qualque e e en e conc e o ou alusão àquele he ói
mí ico na ob a de Má io de Sá-Ca nei o, Fe nando Cab al Ma ins (1999,
p. 277) admi a exis i , em Céu em Fogo, “uma a i mação ge al do mo i-
men o de exal ação, em ace o p og essi o com a ma e ialidade pulsional.
Pode se lido como o esga e de O eu e Na ciso do in e no da culpa. Uma
inespe ada eclosão de sen imen os o es e elizes no sump uoso neg ume
do mis é io sem limi e”.
1 A ideia de Eu opa con inua p esen e (e de ha monia com o ex o p e acial, assinado po
Mon al o ) no í ulo escolhido, pois O pheu é seu anag ama (Ma ins, 1999, p. 275).
2 Ci ação de Mo na (1982, p. 14); ainda no ex o mais ecen e, F. F ei as Mo na (2012, p. 169)
eco da que a e is a espanhola de Gómez de la Se na em um í ulo de igual essonância
clássica e mí ica: P ome eo (1908-1912).
3 Mo na (2012, p. 171). A li e a u a eu opeia coe ânea não acompanha essa omissão: eco de-se,
a í ulo ilus a i o, que Malla mé conside a a o o ício poé ico como “ he O phic explana ion
o he wo ld” (Sea s, 2010, p. 666); e o conjun o de poemas de Apollinai e (c iado do concei o
de o ismo), in i ulado “Bes iai e ou Co ège d’O phée” (1911), apa ecendo o he ói nou as
composições de au o ia des e poe a e c í ico. No século XX po uguês, a igu a do poe a de
Ródope apenas ganha á pa icula igo a pa i da ob a de Miguel To ga, que e á “o nome e o
mi o de O eu abundan emen e p esen e” — “mas isso já nas décadas de 40 e 50” (Mo na, 2012,
p. 171). Es e dado c onológico é bas an e signi ica i o, endo em conside ação o es udo aqui
ap esen ado.
67
A ARTE POÉTICA DE ORFEU NA DISPERSÃO, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
Igualmen e ele an e é o ac o de, nos úl imos anos, se e em publi-
cado es udos[4] dedicados a uma ob a como Dispe são[5] p opondo a inida-
des en e es e conjun o de poemas de Sá-Ca nei o e alguns mi os g egos,
mesmo que a sua p esença ex ual seja menos e iden e (Mou ão-Fe ei a,
1983, p. 134). Des es mi os, êm-se e e ido p incipalmen e Na ciso[6]
e Íca o[7], ep esen ando cada um deles uma ace a dis in a da exp essão
de um sujei o lí ico que decla a amiúde a sua inquie ação in e io , digla-
diando-se agicamen e pa a encon a uma o alidade inalcançá el; do
econhecimen o da impossibilidade de o consegui , deco e uma suspensão
da consciência e do empo (Ma ins, 1994, pp. 190-202).
Na sua globalidade, esses ensaios demons am que Dispe são cons-
ói igu a i amen e a imagem de um sujei o-poe a insa is ei o, de in e io
agmen ado e, po isso, dispe so, que apenas se pode á condensa quando
e ela ou esga a a poesia. Nesse sen ido, ap esen a-se nes e es udo uma
lei u a de Dispe são[8] enquan o a e poé ica mode na, que se soco e de
símbolos e mi os que espelham a ideia de li e a u a e dos seus emas, dis-
4 Em conco ência com es udos que, na senda da c í ica p esencis a, êm eco ido a lei u as
biog a is as (Ma ins, 1998, pp. 223-224 e 2001, p. 13) ou psicanalí icas (Lancas e, 1992 e
Macedo, 2011); ou os ensaís as êm explo ado a elação da ob a de Sá-Ca nei o com a adição
li e á ia po uguesa e ancesa, apon ando na emá ica, es ilís ica e e si icação endências
omân icas e decaden is as (Lopes, 1987, p. 527; Ma ins, 2001, pp. 16-17 e Mo ão, 2008 e 2011).
5 À excepção do p imei o poema (de Fe e ei o), odas as composições de Dispe são da am de
Maio de 1913. No cólo on, lê-se: “Acabado de imp imi pa a o au o nos p elos da Tipog a ia
do Comé cio aos 26 de No emb o de 1913”. Na olha de os o e na lis a de ob as de Má io de
Sá-Ca nei o que su ge na edição p íncipe (Lisboa: ed. do au o ), indica-se oda ia o ano de
1914. É, po an o, o único li o de poesia publicado em ida do au o .
6 Rocha (1984, pp. 5-9). Po que Na ciso não pode ama e, po que se acha eio (Rocha, 1984, p. 5),
ambém não é amado (VI.29-32, 37-40). O poema “Como Eu Não Possuo” pode e lei u a
idên ica, uma ez que “o au o [ ex ual] não concebe que se possa se amigo de alguém, sen i
qualque e nu a humana sem a ansiedade de um mis o de posse e en ega sexual” (Lopes,
1987, p. 532).
7 Foi Da id Mou ão-Fe ei a o p imei o a e i ica “elemen os essenciais do mi o de Íca o”
(Mou ão-Fe ei a, 1983, p. 132) na ob a de Sá-Ca nei o. Anos ol idos, o ensaís a ol a a
a insis i na ese: “nos doze poemas do li o Dispe são (…) se nos depa am alusões,
p incipalmen e em egis o me a ó ico, que po es e ou aquele modo pode ão epo a -se à
igu a a que ípica de Íca o” (Mou ão-Fe ei a, 1990, pp. 204-205). No es udo, Mou ão-Fe ei a
pe co e odos os poemas da ob a em es udo e em odos iden i ica cla os indícios que se ligam
ao mi o, nomeadamen e elemen os elacionados com a ascensão e a queda, es a p ecipi ada pela
ap oximação da luz sola (c . Rocha, 1984, pp. 9-12). A e são canónica do mi o de Íca o é a de
O ídio (Me amo oses, 8.183-235; c . G imal, 1990, s. . “Íca o”).
8 A edição u ilizada é a de F. Cab al Ma ins ( . bibliog a ia). Em p o ei o da economia e pa a
e i a a epe ição exaus i a de í ulos, as ci ações de Dispe são se ão ei as po e e ência
ao núme o dos poemas em omano e espec i os e sos em á abe (e.g., XI.44 = e so 44 de
“Rodopio”).
68 RICARDO NOBRE
anciando-se das poé icas clássica ( undada sob e udo na mimese e no es-
pei o de modelos li e á ios) e omân ica ( eo icamen e alice çada na c ença
da o iginalidade do poe a), sem delas se desliga po comple o.[9] Po isso, o
p esen e es udo suge e uma associação en e O eu e o poe a de Dispe são,
undamen ando a ideia de Ma ia Helena da Rocha Pe ei a (2005, p. 11), que
en ende que, pelos símbolos implicados, um mi o “não pe ence ao eino
do inconscien e, mas ao da linguagem”.
De ac o, os poemas de Dispe são pe mi em algumas linhas de lei-
u a que co espondem ao modelo do mi o de O eu e Eu ídice: o poe a
enquan o a e de uma eligião poé ica, o c iado que pe segue a luz a im
de a a anca às e as e inalmen e o mo imen o no olha , des iando-o do
caminho da luz da supe ície, que culmina á na p ecipi ação da poesia na
b uma, icando i emedia elmen e pe dida.
A p imei a es o e do poema “Pa ida”, sus en ada na me á o a da água
em mo imen o incessan e, simboliza o empo i e eá el da ida humana
(assinale-se a hipálage “escoa -se a ida humanamen e”). Pe an e seme-
lhan e cená io — que lhe é, a inal, ex e io —, o sujei o poé ico assume
o papel de obse ado : não é a ida dele que con empla, é a de ou os.
As águas que passam ei icam, pois, o empo e anescen e, ep esen ando
um mo imen o ex e io ao eu. Es e mo imen o, al como na Clepsyd a de
Pessanha, encon a á uma pola ização in e sa, ou seja, um ab andamen o
do empo e da consciência do sujei o, como se pode e i ica pela semân ica
dos e bos usados: e — hesi a — de e -se — medi a .
Po que não consegue alcança o que p ocu a, a passagem do empo,
que é pa a ou os poe as mo i o de ansiedade, em Sá-Ca nei o su ge como
algo posi i o, pois pode á e mina o con li o in e io : “A ida co e sob e
mim em gue a, / E nem seque um a epio de medo!” (VII.11-12). Na
úl ima es o e de “Além-Tédio”, admi e:
E só me es a hoje uma aleg ia:
É que, de ão iguais e ão azios,
Os ins an es me es oam dia a dia
Cada ez mais elozes, mais esguios… (X.21-24)
9 Fe nando Cab al Ma ins (1998, p. 223) de ende que, em conjun o com A Con issão de Lúcio,
Dispe são “é de uma a e no a, a poesia e a icção e as ca as às ezes se não dis inguindo,
ou as ezes en ol as numa ‘g ande somb a’ capaz de ans igu a as o mas econhecidas
da adição”. Pouco adian e, o au o ei e a: “Es a poé ica é uma louca apos a ei a pa a se
pe dida, que a sua elação com a Vangua da escla ece, sem esol e ” (Ma ins, 1998, p. 231);
c . Mo na (2012, p. 170).
69
A ARTE POÉTICA DE ORFEU NA DISPERSÃO, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
No e-se, no en an o, que aquele es ado de con emplação p esen e em
“Pa ida” não é no mal no sujei o, pelo que o poema se ap esen a como
sín ese de uma pe cepção que não deixa de se comum (“po ezes”), e que
inquie a o eu, pois enquan o a ida obse ada é me a o icamen e seman-
izada em “águas ce as”, o seu in e io iden i ica-se com “ o en e”. Des e
modo, é desde o início do poema e do li o que o eu poé ico de Dispe são
se singula iza e se assume como um se supe io (semelhan e posição é um
e dadei o ópos li e á io; c . Mo ão, 2004, p. 232): além disso, se “águas
ce as” pode se uma e e ência a uma no malidade comum na li e a u a
bu guesa, “coisas geniais em que medi o” pa ecem suge i que o eu é um
poe a[10], cuja o en e (de e sos) con as a com as “águas ce as” da poesia
da época.
O pensamen o a que se alude (“coisas geniais em que medi o”) é, am-
bém ele, len o (e desligado da ida que ê): ‘medi a ’ implica uma ealiza-
ção in e io , como aliás comp o a a e imologia do e bo. Em la im, medi o
é um e bo depoen e, equen a i o de medeo (‘cuida , oma con a’), ou
seja, a acção de ‘medi a , e lec i , pensa ’ é ei a em p o ei o do sujei o, al
como um ou o mo imen o, o de echamen o do sujei o em si, demons a.
A segunda es o e con inua a ema ização da poesia, pois o “ iun o”
do sujei o é consegui e i a a uga ao “mis é io” que possui (“que é meu”)
e que o ascina (“me seduz”), ainda que decla e a sua on ade (b e e,
pois “logo me iun o”) de e asão: “A on a-me um desejo de ugi ” (I.5).
Re e indo-se à “luz” do “mis é io”, aquele decla a que “Não há mui os que
a saibam e lec i ” (I.8). A luz que se e lec e é uma emanação da poesia[11],
ou seja, suge e-se que es a a e se encon a en ol a em “mis é io” (I.6 e 35)
e “b uma” (I.15), no meio dos quais o a is a de e “p ocu a a beleza” (I.16).
A poesia su ge, assim, na ob a de Má io de Sá-Ca nei o como algo supe-
io e di ino que não é acessí el a odos, como uma espécie de eligião. A ela
se associam imagens de luz (sol, ou o, es ela) e de al u a[12], enquan o ao eu
lí ico não a o se ligam ideias de conquis a, plasmadas em concei os que pa -
icipam do campo semân ico da lu a e do comba e, o a ganho, o a pe dido.[13]
10 Cab al Ma ins (1994, p. 195) ensina que o adjec i o “geniais” é uma “ e e ência à ainda i a
ep esen ação he óica do poe a omân ico”.
11 Além de luz, a poesia é simbolizada pelo can o: ‘melodia’ (III.10), ‘se eia’ (VII.14), ‘ecoa ’ (X.17),
‘som’ (III.7).
12 De no o, “es ela” e “sol” assinalam uma emanação celes e de luz (dou ada).
13 As imagens do con li o são eco en es ao longo da ob a, sendo e dadei amen e assinalá el
a di e sidade do ocabulá io associado a es e campo semân ico: ‘ ence ’ (I.43, IX.34, XII.13),
‘ iun o’ e ‘ iun a ’ (I.55, VIII.9, I.7), ‘ i ó ia’ (II.9), ‘espada’ e ‘b andi a espada’ (VII.5, I.23,
76 RICARDO NOBRE
a luz iluminado a dos seus e sos. Nes e ensaio p ocu ou-se demons a o
ca ác e mul ímodo e complexo que es u u a um eu em demanda de um
ideal que somen e consegue a ingi em sonhos, pela loucu a, na alucinação
do álcool[22], ou en ão apenas de o ma mui o agmen á ia (lei u a pa a
que conco e um abundan e campo semân ico do indício ou es ígio). Po
isso, são di e sos os mi os g egos com que o poe a da dispe são se pode
iden i ica : Íca o, Na ciso, O eu, Eu ídice, a é mesmo Sísi o. Des es, o de
O eu, epónimo de e is a e alego ia da p óp ia poesia, é aquele que mais
suges i amen e pa ece sin e iza a demanda que anima o poe a.
Re e ências
Edições dos ex os u ilizados
Sá-Ca nei o, Má io de (1914). Dispe são. Lisboa: ed. do Au o .
_____ (2001). Poemas Comple os (Ed. Fe nando Cab al Ma ins). (2.ª ed.). Lisboa:
Assí io e Al im.
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22 As imagens de uma espécie de es ado de êx ase c iado são acul adas pelo ocabulá io associado
ao álcool (além do í ulo “Dispe são”: IV.22, VI.81; ‘éb io’ VII.13, ‘bebedei a’ XI.21), subs ância
que “ ealiza a sín ese en e a água e o ogo” e que simboliza a “inspi ação c iado a” po que
“exci a as possibilidades espi i uais” e “ e dadei amen e as c ia” (Che alie & Ghee b an ,
1994, p. 50). O sujei o poé ico hesi a na de inição da subs ância que o man ém nesse es ado,
como suge e a de inição po meio da in e ogação “Ópio d’in e no em ez de pa aíso?”
(IV.18). No e-se que a e e ência ao “in e no”, ao lado de uma iliação bíblica, é um elemen o
impo an e pa a a cons ução do sen ido de Dispe são como iagem em sen ido descenden e,
como já “Esca ação” inha con i mado e as menções de “minas” (XI.48) e “ esou o” (XII.8) i ão
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77
A ARTE POÉTICA DE ORFEU NA DISPERSÃO, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
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[Recebido em 30 de ab il de 2015 e acei e pa a publicação
em 29 de junho de 2015]
sé ie
ciências da
li e a u a
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diac í ica
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pode das na a i asas, na a i as do pode
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3UNIÃO EUROPEIA
Fundo Eu opeu de
Desen ol imen o Regional
diac í ica
e is a do cen o de es udos humanís icos
sé ie ciências da li e a u a
2015
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dossie
p émios li e á ios
pode das na a i as
as na a i as do pode
ISSN 0807-8967
Dossie
p émios li e á ios.
O pode das na a i as
e /ou as na a i as do
pode
In odução
A e dade dos p émios
li e á ios
Ana Luísa Ama al
Ace ca dos p émios li e á ios
Ge mano Almeida
Não há p émios pu os. E po
que ha e ia de ha e ?
Isabel Pi es de Lima
Doxas, pa adoxos e
ho izon es: o ci cui o
secundá io da poesia
moçambicana em discussão
Nazi Ahmed Can
Vá ia
Almeida Ga e e a p opos a
polí ica do Roman ismo
Ana Bá ba a Ped osa
A A e Poé ica de O eu
na Dispe são, de Má io de
Sá-Ca nei o
Rica do Nob e
Não En es Tão Dep essa
Nessa Noi e Escu a de
An ónio Lobo An unes:
da esc i a omanesca à
pa i u a musical
Ca a ina Vaz Wa o
Censu a no Tea o B asilei o
e o a qui o – Pe doa-me
po me aí es de Nelson
Rod igues: uma análise a
pa i de Jacques De ida
E ickaline Beze a de Lima /
Nai a Neide Cio i
Ma ianela de Galdós: una
mi ada educa i a
Ma ía Luisa Ga cía Rod íguez
Recuo ao mais cônca o
azio de Juan José Millás –
os 40 anos de Ce be o son
las somb as
Alme inda Ma ia do Rosá io
Pe ei a
Che ilyn Sa kisian – ‘Che ’ o
he pos mode n P ome heus:
oicing he ‘Ma ginal’
O quídea Cadilhe
S ill ocking a e all hese
yea s: Adamas o w i es
back
Ma ia Sofia Pimen el Biscaia
“A e a es á ficando oda
de sangue”: Poesia e gue a
em Moçambique
Giulia Spinuzza
Recensões
The u u e o auma heo y.
Con empo a y li e a y and
cul u al c i icism
Ped o Mou a
O oo do ga ajau:
Dos Aço es a Macau
Vi gínia Soa es Pe ei a