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A Arte Poética de Orfeu na Dispersão, de Mário de Sá-Carneiro

Nobre, Ricardo Miguel Guerreiro

Abstract

Os poemas que constituem Dispersão têm vindo a ser estudados como um percurso realizado por um sujeito poético em busca de si e da sua obra; num plano mítico e simbólico, essa demanda foi interpretada por David Mourão-Ferreira como a tentativa de Ícaro atingir o impossível, de onde resulta uma queda no abismo. No entanto, o movimento de queda e a insistente demanda possibilitam perceber também a con guração de um sujeito dividido que se conforma com os traços do mito de Orfeu: o contínuo resgate de Eurídice e a sua constante diluição nas sombras não permitem que o sujeito se torne rei de si (ideia coerente com a etimologia de dispersão). Este estudo apresenta, por isso, uma leitura atenta dos poemas de Dispersão, de Mário de Sá-Carneiro, sugerindo uma interpretação do poeta enquanto Orfeu em busca da Poesia perdida nas sombras de si, e que luta por se concretizar.

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sé ie ciências da li e a u a 2015 29 / 3 diac í ica dossie p émios li e á ios pode das na a i asas, na a i as do pode 29/ 3UNIÃO EUROPEIA Fundo Eu opeu de Desen ol imen o Regional diac í ica e is a do cen o de es udos humanís icos sé ie ciências da li e a u a 2015 29/3 dossie p émios li e á ios pode das na a i as as na a i as do pode ISSN 0807-8967 Dossie p émios li e á ios. O pode das na a i as e /ou as na a i as do pode In odução A e dade dos p émios li e á ios Ana Luísa Ama al Ace ca dos p émios li e á ios Ge mano Almeida Não há p émios pu os. E po que ha e ia de ha e ? Isabel Pi es de Lima Doxas, pa adoxos e ho izon es: o ci cui o secundá io da poesia moçambicana em discussão Nazi Ahmed Can Vá ia Almeida Ga e e a p opos a polí ica do Roman ismo Ana Bá ba a Ped osa A A e Poé ica de O eu na Dispe são, de Má io de Sá-Ca nei o Rica do Nob e Não En es Tão Dep essa Nessa Noi e Escu a de An ónio Lobo An unes: da esc i a omanesca à pa i u a musical Ca a ina Vaz Wa o Censu a no Tea o B asilei o e o a qui o – Pe doa-me po me aí es de Nelson Rod igues: uma análise a pa i de Jacques De ida E ickaline Beze a de Lima / Nai a Neide Cio i Ma ianela de Galdós: una mi ada educa i a Ma ía Luisa Ga cía Rod íguez Recuo ao mais cônca o azio de Juan José Millás – os 40 anos de Ce be o son las somb as Alme inda Ma ia do Rosá io Pe ei a Che ilyn Sa kisian – ‘Che ’ o he pos mode n P ome heus: oicing he ‘Ma ginal’ O quídea Cadilhe S ill ocking a e all hese yea s: Adamas o w i es back Ma ia Sofi a Pimen el Biscaia “A Te a es á fi cando oda de sangue”: Poesia e gue a em Moçambique Giulia Spinuzza Recensões The u u e o auma heo y. Con empo a y li e a y and cul u al c i icism Ped o Mou a O oo do ga ajau: Dos Aço es a Macau Vi gínia Soa es Pe ei a Tí ulo: DIACRÍTICA (Nº 29/3 – 2015) Sé ie Ciências da Li e a u a Di e o a: Ana Gab iela Macedo Di e o es-Adjun os: Ca los Mendes de Sousa; Ví o Mou a Edi o : O lando G ossegesse / Co-edi o a: Ma ga ida Es e es Pe ei a E-mail: li[email p o ec ed].p Coo denado as do Dossie : Ana Gab iela Macedo Comissão Reda o ial: Ad iana Bebiano (Uni . Coimb a), Angélica Va andas (Uni . Lisboa), An ónio Apoliná io Lou enço (Uni . Coimb a), Cla a Rowland (Uni . Lisboa), Da id F ie (Uni . Leeds), Elena B ugioni (Uni . do Minho), Emanuelle San os (Uni . Wa wick), Fá ima Mendonça (Uni . Lisboa), Fe nando Beleza (Uni . New Hampshi e), F ancesca Rayne (Uni . do Minho), Glyn Hamb ook (Uni . Wol e hamp on), Isabel C is ina Ma eus (Uni . do Minho), Joana Passos (Uni . do Minho), Joanne Paisana (Uni . do Minho), José Cândido Oli ei a Ma ins (Uni . Ca ólica Po uguesa, B aga), Má cia Regina Rod igues (UNESP, A a aqua a), Ma ia C is ina Ál a es (Uni . do Minho), Ma ia do Ca mo Pinhei o Mendes (Uni . do Minho), Ma ia Micaela Ramon (Uni . do Minho), Má io Viei a de Ca alho (Uni . No a de Lisboa), Nazi Ahmed Can (USP, São Paulo), Noelia Iba a (Uni . Valencia), Paulo Césa And ade da Sil a (UNESP, A a aqua a), Rica do Ra o Rod igues (Uni . No ingham), Ri a Pa ício (Uni . do Minho), Rui Goncal es Mi anda (Uni . No ingham), Sé gio Guima ães de Sousa (Uni . do Minho), Vinícius Ma iano de Ca alho (King’s College, London), Xaquín Núñez Saba ís (Uni . do Minho) Comissão Cien í ica: Abel Ba os Bap is a (Uni e sidade No a de Lisboa), Be na d McGui ck (Uni e si y o No ingham), Cla a Rocha (Uni e sidade No a de Lisboa), Fe nando Cabo Aseguinolaza (Uni e sidad de San iago de Compos ela), Hélde Macedo (King’s College, London), Helena Buescu (Uni e sidade de Lisboa), João de Almeida Flo (Uni e sidade de Lisboa), Ma ia Alzi a Seixo (Uni e sidade de Lisboa), Ma ia I ene Ramalho (Uni e sidade de Coimb a), Ma ia Manuela Gou eia Delille (Uni e sidade de Coimb a), Nancy A ms ong (B own Uni e si y), Susan Bassne (Uni e si y o Wa wick), Susan S an o d F iedman (Uni e si y o Wisconsin-Madison), Tomás Albaladejo Mayo domo (Uni e sidad Au ónoma de Mad id), Vi a Fo una i (Uni e si à di Bologna), Ví o Aguia e Sil a (Uni e sidade do Minho), Zi a Ben-Po a (Tel-A i Uni e si y). Edição: Cen o de Es udos Humanís icos da Uni e sidade do Minho em colabo ação com Edições Húmus – V.N. Famalicão. E-mail: [email protected] Publicação subsidiada po FCT – Fundação pa a a Ciência e a Tecnologia ISSN: 0807-8967 Depósi o Legal: 18084/87 Composição e imp essão: Papelmunde – V. N. Famalicão ÍNDICE DOSSIER PRÉMIOS LITERÁRIOS. O PODER DAS NARRATIVAS E /OU AS NARRATIVAS DO PODER 7 In odução 11 A e dade dos p émios li e á ios Ana Luísa Ama al 17 Ace ca dos p émios li e á ios Ge mano Almeida 23 Não há p émios pu os. E po que ha e ia de ha e ? Isabel Pi es de Lima 25 Doxas, pa adoxos e ho izon es: o ci cui o secundá io da poesia moçambicana em discussão Nazi Ahmed Can VÁRIA 49 Almeida Ga e e a p opos a polí ica do Roman ismo Ana Bá ba a Ped osa 65 A A e Poé ica de O eu na Dispe são, de Má io de Sá-Ca nei o Rica do Nob e 79 Não En es Tão Dep essa Nessa Noi e Escu a de An ónio Lobo An unes: da esc i a omanesca à pa i u a musical Ca a ina Vaz Wa o 97 Censu a no Tea o B asilei o e o a qui o – Pe doa-me po me aí es de Nelson Rod igues: uma análise a pa i de Jacques De ida E ickaline Beze a de Lima / Nai a Neide Cio i 121 Ma ianela de Galdós: una mi ada educa i a Ma ía Luisa Ga cía Rod íguez 143 Recuo ao mais cônca o azio de Juan José Millás – os 40 anos de Ce be o son las somb as Alme inda Ma ia do Rosá io Pe ei a 167 Che ilyn Sa kisian – ‘Che ’ o he pos mode n P ome heus: oicing he ‘Ma ginal’ O quídea Cadilhe 181 S ill ocking a e all hese yea s: Adamas o w i es back Ma ia So ia Pimen el Biscaia 203 “A e a es á icando oda de sangue”: Poesia e gue a em Moçambique Giulia Spinuzza RECENSÕES 229 The u u e o auma heo y. Con empo a y li e a y and cul u al c i icism Ped o Mou a 235 O oo do ga ajau: Dos Aço es a Macau Vi gínia Soa es Pe ei a A ARTE POÉTICA DE ORFEU NA DISPERSÃO, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO THE POETICS OF ORPHEUS INDISPERSÃO, BY MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO Rica do Nob e* nob e@le as.ulisboa.p Os poemas que cons i uem Dispe são êm indo a se es udados como um pe - cu so ealizado po um sujei o poé ico em busca de si e da sua ob a; num plano mí ico e simbólico, essa demanda oi in e p e ada po Da id Mou ão-Fe ei a como a en a i a de Íca o a ingi o impossí el, de onde esul a uma queda no abismo. No en an o, o mo imen o de queda e a insis en e demanda possibili am pe cebe ambém a con igu ação de um sujei o di idido que se con o ma com os aços do mi o de O eu: o con ínuo esga e de Eu ídice e a sua cons an e diluição nas somb as não pe mi em que o sujei o se o ne ei de si (ideia coe en e com a e imologia de dispe são). Es e es udo ap esen a, po isso, uma lei u a a en a dos poemas de Dispe são, de Má io de Sá-Ca nei o, suge indo uma in e p e ação do poe a enquan o O eu em busca da Poesia pe dida nas somb as de si, e que lu a po se conc e iza . Pala as-cha e: ecepção dos clássicos, poé ica, Má io de Sá-Ca nei o, O eu. The poems ha cons i u e Dispe são ha e been s udied as an expedi ion unde a- ken by a subjec sea ching himsel and his wo k as a mas e piece; a a my hical and symbolic le el, his demand was es ed by Da id Mou ão-Fe ei a, who saw i as an Ica us’ a emp o achie e he impossible, he esul being a all in o he abyss. Howe e , he descending mo emen and he insis en demand allow he unde s- anding o a di ided subjec ha ollows he main ea u es o O pheus’ my h: he con inuing escue o Eu ydice and he cons an loss in he shadows do no allow he subjec o become king o himsel ( his idea is cohe en wi h he e ymology o dispe sion). This s udy p esen s, he e o e, a close eading o he poems o Má io * Cen o de Es udos Clássicos da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa, Po ugal. 66 RICARDO NOBRE de Sá-Ca nei o’s Dispe são, sugges ing an in e p e a ion o O pheus-Poe in sea ch o Eu ydice-Poe y los in he shadows o himsel , s uggling o ma e ializa ion. Keywo ds: Classical Recep ion, Poe ics, Má io de Sá-Ca nei o, O pheus. Pa a a e is a idealizada po Má io de Sá-Ca nei o e Fe nando Pessoa o am conside ados í ulos como Es inge, Lusi ânia e Eu opa, ha endo de p e alece pa a a publicação inaugu al do Mode nismo po uguês a desig- nação a ibuída po Luís de Mon al o : O pheu[1] (Sil a, 2008, p. 566). Fá ima F ei as Mo na (2012, p. 169), econhecendo a a -se de um í ulo “pe ei o” — is o que “o seu nome é já li e a u a (o mi o g ego do poe a cujo can o inha pode sob e as o ças da na u eza), símbolo adequado a um ex o que se p e ende de in e enção di ec a na con igu ação men al do país”[2] —, conside a ele an e a “ausência de O eu ele p óp io, a pe sona- gem do mi o, das ep esen ações li e á ias con idas não apenas na e is a a que dá o nome mas ambém nas que se lhe segui am” (Mo na, 2012, p. 171). De ac o, na li e a u a po uguesa des e pe íodo não se encon a “um ex o que assuma a e isi ação, o desen ol imen o, a e uncionalização da pe so- nagem mí ica dando-lhe o p o agonismo de um í ulo ou, pelo menos, de uma ampla e econhecí el p esença”.[3] Não deixa de se , no en an o, signi- ica i o que, sem ha e qualque e e en e conc e o ou alusão àquele he ói mí ico na ob a de Má io de Sá-Ca nei o, Fe nando Cab al Ma ins (1999, p. 277) admi a exis i , em Céu em Fogo, “uma a i mação ge al do mo i- men o de exal ação, em ace o p og essi o com a ma e ialidade pulsional. Pode se lido como o esga e de O eu e Na ciso do in e no da culpa. Uma inespe ada eclosão de sen imen os o es e elizes no sump uoso neg ume do mis é io sem limi e”. 1 A ideia de Eu opa con inua p esen e (e de ha monia com o ex o p e acial, assinado po Mon al o ) no í ulo escolhido, pois O pheu é seu anag ama (Ma ins, 1999, p. 275). 2 Ci ação de Mo na (1982, p. 14); ainda no ex o mais ecen e, F. F ei as Mo na (2012, p. 169) eco da que a e is a espanhola de Gómez de la Se na em um í ulo de igual essonância clássica e mí ica: P ome eo (1908-1912). 3 Mo na (2012, p. 171). A li e a u a eu opeia coe ânea não acompanha essa omissão: eco de-se, a í ulo ilus a i o, que Malla mé conside a a o o ício poé ico como “ he O phic explana ion o he wo ld” (Sea s, 2010, p. 666); e o conjun o de poemas de Apollinai e (c iado do concei o de o ismo), in i ulado “Bes iai e ou Co ège d’O phée” (1911), apa ecendo o he ói nou as composições de au o ia des e poe a e c í ico. No século XX po uguês, a igu a do poe a de Ródope apenas ganha á pa icula igo a pa i da ob a de Miguel To ga, que e á “o nome e o mi o de O eu abundan emen e p esen e” — “mas isso já nas décadas de 40 e 50” (Mo na, 2012, p. 171). Es e dado c onológico é bas an e signi ica i o, endo em conside ação o es udo aqui ap esen ado. 67 A ARTE POÉTICA DE ORFEU NA DISPERSÃO, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO Igualmen e ele an e é o ac o de, nos úl imos anos, se e em publi- cado es udos[4] dedicados a uma ob a como Dispe são[5] p opondo a inida- des en e es e conjun o de poemas de Sá-Ca nei o e alguns mi os g egos, mesmo que a sua p esença ex ual seja menos e iden e (Mou ão-Fe ei a, 1983, p. 134). Des es mi os, êm-se e e ido p incipalmen e Na ciso[6] e Íca o[7], ep esen ando cada um deles uma ace a dis in a da exp essão de um sujei o lí ico que decla a amiúde a sua inquie ação in e io , digla- diando-se agicamen e pa a encon a uma o alidade inalcançá el; do econhecimen o da impossibilidade de o consegui , deco e uma suspensão da consciência e do empo (Ma ins, 1994, pp. 190-202). Na sua globalidade, esses ensaios demons am que Dispe são cons- ói igu a i amen e a imagem de um sujei o-poe a insa is ei o, de in e io agmen ado e, po isso, dispe so, que apenas se pode á condensa quando e ela ou esga a a poesia. Nesse sen ido, ap esen a-se nes e es udo uma lei u a de Dispe são[8] enquan o a e poé ica mode na, que se soco e de símbolos e mi os que espelham a ideia de li e a u a e dos seus emas, dis- 4 Em conco ência com es udos que, na senda da c í ica p esencis a, êm eco ido a lei u as biog a is as (Ma ins, 1998, pp. 223-224 e 2001, p. 13) ou psicanalí icas (Lancas e, 1992 e Macedo, 2011); ou os ensaís as êm explo ado a elação da ob a de Sá-Ca nei o com a adição li e á ia po uguesa e ancesa, apon ando na emá ica, es ilís ica e e si icação endências omân icas e decaden is as (Lopes, 1987, p. 527; Ma ins, 2001, pp. 16-17 e Mo ão, 2008 e 2011). 5 À excepção do p imei o poema (de Fe e ei o), odas as composições de Dispe são da am de Maio de 1913. No cólo on, lê-se: “Acabado de imp imi pa a o au o nos p elos da Tipog a ia do Comé cio aos 26 de No emb o de 1913”. Na olha de os o e na lis a de ob as de Má io de Sá-Ca nei o que su ge na edição p íncipe (Lisboa: ed. do au o ), indica-se oda ia o ano de 1914. É, po an o, o único li o de poesia publicado em ida do au o . 6 Rocha (1984, pp. 5-9). Po que Na ciso não pode ama e, po que se acha eio (Rocha, 1984, p. 5), ambém não é amado (VI.29-32, 37-40). O poema “Como Eu Não Possuo” pode e lei u a idên ica, uma ez que “o au o [ ex ual] não concebe que se possa se amigo de alguém, sen i qualque e nu a humana sem a ansiedade de um mis o de posse e en ega sexual” (Lopes, 1987, p. 532). 7 Foi Da id Mou ão-Fe ei a o p imei o a e i ica “elemen os essenciais do mi o de Íca o” (Mou ão-Fe ei a, 1983, p. 132) na ob a de Sá-Ca nei o. Anos ol idos, o ensaís a ol a a a insis i na ese: “nos doze poemas do li o Dispe são (…) se nos depa am alusões, p incipalmen e em egis o me a ó ico, que po es e ou aquele modo pode ão epo a -se à igu a a que ípica de Íca o” (Mou ão-Fe ei a, 1990, pp. 204-205). No es udo, Mou ão-Fe ei a pe co e odos os poemas da ob a em es udo e em odos iden i ica cla os indícios que se ligam ao mi o, nomeadamen e elemen os elacionados com a ascensão e a queda, es a p ecipi ada pela ap oximação da luz sola (c . Rocha, 1984, pp. 9-12). A e são canónica do mi o de Íca o é a de O ídio (Me amo oses, 8.183-235; c . G imal, 1990, s. . “Íca o”). 8 A edição u ilizada é a de F. Cab al Ma ins ( . bibliog a ia). Em p o ei o da economia e pa a e i a a epe ição exaus i a de í ulos, as ci ações de Dispe são se ão ei as po e e ência ao núme o dos poemas em omano e espec i os e sos em á abe (e.g., XI.44 = e so 44 de “Rodopio”). 68 RICARDO NOBRE anciando-se das poé icas clássica ( undada sob e udo na mimese e no es- pei o de modelos li e á ios) e omân ica ( eo icamen e alice çada na c ença da o iginalidade do poe a), sem delas se desliga po comple o.[9] Po isso, o p esen e es udo suge e uma associação en e O eu e o poe a de Dispe são, undamen ando a ideia de Ma ia Helena da Rocha Pe ei a (2005, p. 11), que en ende que, pelos símbolos implicados, um mi o “não pe ence ao eino do inconscien e, mas ao da linguagem”. De ac o, os poemas de Dispe são pe mi em algumas linhas de lei- u a que co espondem ao modelo do mi o de O eu e Eu ídice: o poe a enquan o a e de uma eligião poé ica, o c iado que pe segue a luz a im de a a anca às e as e inalmen e o mo imen o no olha , des iando-o do caminho da luz da supe ície, que culmina á na p ecipi ação da poesia na b uma, icando i emedia elmen e pe dida. A p imei a es o e do poema “Pa ida”, sus en ada na me á o a da água em mo imen o incessan e, simboliza o empo i e eá el da ida humana (assinale-se a hipálage “escoa -se a ida humanamen e”). Pe an e seme- lhan e cená io — que lhe é, a inal, ex e io —, o sujei o poé ico assume o papel de obse ado : não é a ida dele que con empla, é a de ou os. As águas que passam ei icam, pois, o empo e anescen e, ep esen ando um mo imen o ex e io ao eu. Es e mo imen o, al como na Clepsyd a de Pessanha, encon a á uma pola ização in e sa, ou seja, um ab andamen o do empo e da consciência do sujei o, como se pode e i ica pela semân ica dos e bos usados: e — hesi a — de e -se — medi a . Po que não consegue alcança o que p ocu a, a passagem do empo, que é pa a ou os poe as mo i o de ansiedade, em Sá-Ca nei o su ge como algo posi i o, pois pode á e mina o con li o in e io : “A ida co e sob e mim em gue a, / E nem seque um a epio de medo!” (VII.11-12). Na úl ima es o e de “Além-Tédio”, admi e: E só me es a hoje uma aleg ia: É que, de ão iguais e ão azios, Os ins an es me es oam dia a dia Cada ez mais elozes, mais esguios… (X.21-24) 9 Fe nando Cab al Ma ins (1998, p. 223) de ende que, em conjun o com A Con issão de Lúcio, Dispe são “é de uma a e no a, a poesia e a icção e as ca as às ezes se não dis inguindo, ou as ezes en ol as numa ‘g ande somb a’ capaz de ans igu a as o mas econhecidas da adição”. Pouco adian e, o au o ei e a: “Es a poé ica é uma louca apos a ei a pa a se pe dida, que a sua elação com a Vangua da escla ece, sem esol e ” (Ma ins, 1998, p. 231); c . Mo na (2012, p. 170). 69 A ARTE POÉTICA DE ORFEU NA DISPERSÃO, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO No e-se, no en an o, que aquele es ado de con emplação p esen e em “Pa ida” não é no mal no sujei o, pelo que o poema se ap esen a como sín ese de uma pe cepção que não deixa de se comum (“po ezes”), e que inquie a o eu, pois enquan o a ida obse ada é me a o icamen e seman- izada em “águas ce as”, o seu in e io iden i ica-se com “ o en e”. Des e modo, é desde o início do poema e do li o que o eu poé ico de Dispe são se singula iza e se assume como um se supe io (semelhan e posição é um e dadei o ópos li e á io; c . Mo ão, 2004, p. 232): além disso, se “águas ce as” pode se uma e e ência a uma no malidade comum na li e a u a bu guesa, “coisas geniais em que medi o” pa ecem suge i que o eu é um poe a[10], cuja o en e (de e sos) con as a com as “águas ce as” da poesia da época. O pensamen o a que se alude (“coisas geniais em que medi o”) é, am- bém ele, len o (e desligado da ida que ê): ‘medi a ’ implica uma ealiza- ção in e io , como aliás comp o a a e imologia do e bo. Em la im, medi o é um e bo depoen e, equen a i o de medeo (‘cuida , oma con a’), ou seja, a acção de ‘medi a , e lec i , pensa ’ é ei a em p o ei o do sujei o, al como um ou o mo imen o, o de echamen o do sujei o em si, demons a. A segunda es o e con inua a ema ização da poesia, pois o “ iun o” do sujei o é consegui e i a a uga ao “mis é io” que possui (“que é meu”) e que o ascina (“me seduz”), ainda que decla e a sua on ade (b e e, pois “logo me iun o”) de e asão: “A on a-me um desejo de ugi ” (I.5). Re e indo-se à “luz” do “mis é io”, aquele decla a que “Não há mui os que a saibam e lec i ” (I.8). A luz que se e lec e é uma emanação da poesia[11], ou seja, suge e-se que es a a e se encon a en ol a em “mis é io” (I.6 e 35) e “b uma” (I.15), no meio dos quais o a is a de e “p ocu a a beleza” (I.16). A poesia su ge, assim, na ob a de Má io de Sá-Ca nei o como algo supe- io e di ino que não é acessí el a odos, como uma espécie de eligião. A ela se associam imagens de luz (sol, ou o, es ela) e de al u a[12], enquan o ao eu lí ico não a o se ligam ideias de conquis a, plasmadas em concei os que pa - icipam do campo semân ico da lu a e do comba e, o a ganho, o a pe dido.[13] 10 Cab al Ma ins (1994, p. 195) ensina que o adjec i o “geniais” é uma “ e e ência à ainda i a ep esen ação he óica do poe a omân ico”. 11 Além de luz, a poesia é simbolizada pelo can o: ‘melodia’ (III.10), ‘se eia’ (VII.14), ‘ecoa ’ (X.17), ‘som’ (III.7). 12 De no o, “es ela” e “sol” assinalam uma emanação celes e de luz (dou ada). 13 As imagens do con li o são eco en es ao longo da ob a, sendo e dadei amen e assinalá el a di e sidade do ocabulá io associado a es e campo semân ico: ‘ ence ’ (I.43, IX.34, XII.13), ‘ iun o’ e ‘ iun a ’ (I.55, VIII.9, I.7), ‘ i ó ia’ (II.9), ‘espada’ e ‘b andi a espada’ (VII.5, I.23, 76 RICARDO NOBRE a luz iluminado a dos seus e sos. Nes e ensaio p ocu ou-se demons a o ca ác e mul ímodo e complexo que es u u a um eu em demanda de um ideal que somen e consegue a ingi em sonhos, pela loucu a, na alucinação do álcool[22], ou en ão apenas de o ma mui o agmen á ia (lei u a pa a que conco e um abundan e campo semân ico do indício ou es ígio). Po isso, são di e sos os mi os g egos com que o poe a da dispe são se pode iden i ica : Íca o, Na ciso, O eu, Eu ídice, a é mesmo Sísi o. Des es, o de O eu, epónimo de e is a e alego ia da p óp ia poesia, é aquele que mais suges i amen e pa ece sin e iza a demanda que anima o poe a. Re e ências Edições dos ex os u ilizados Sá-Ca nei o, Má io de (1914). Dispe são. Lisboa: ed. do Au o . _____ (2001). Poemas Comple os (Ed. Fe nando Cab al Ma ins). (2.ª ed.). Lisboa: Assí io e Al im. O ídio (2007). Me amo oses (T ad. Paulo Fa mhouse Albe o). Lisboa: Co o ia. Ve gílio (2005). Eneida (T ad. Luís Ce quei a e al.). (2.ª ed.). Lisboa: Be and. Bibliog a ia passi a Che alie , Jean & Ghee b an , Alain (1994). Dicioná io dos Símbolos: mi os, sonhos, cos umes, ges os, o mas, igu as, co es, núme os (C is ina Rod igues & A u Gue a, T ads.). Lisboa: Teo ema. G imal, Pie e (1999). Dicioná io da Mi ologia G ega e Romana (Vic o Jabouille, T ad. coo d.). (3.ª ed.). Lisboa: Di el. Lancas e, Ma ia José de (1992). O eu e o ou o: pa a uma análise psicanalí ica da ob a de Má io de Sá-Ca nei o. Lisboa: Que zal. Lopes, Ósca (1987). Má io de Sá-Ca nei o. In En e Fialho e Nemésio: es udos de li e a u a po uguesa con empo ânea (pp. 527-551). Lisboa: Imp ensa Nacional-Casa da Moeda. 22 As imagens de uma espécie de es ado de êx ase c iado são acul adas pelo ocabulá io associado ao álcool (além do í ulo “Dispe são”: IV.22, VI.81; ‘éb io’ VII.13, ‘bebedei a’ XI.21), subs ância que “ ealiza a sín ese en e a água e o ogo” e que simboliza a “inspi ação c iado a” po que “exci a as possibilidades espi i uais” e “ e dadei amen e as c ia” (Che alie & Ghee b an , 1994, p. 50). O sujei o poé ico hesi a na de inição da subs ância que o man ém nesse es ado, como suge e a de inição po meio da in e ogação “Ópio d’in e no em ez de pa aíso?” (IV.18). No e-se que a e e ência ao “in e no”, ao lado de uma iliação bíblica, é um elemen o impo an e pa a a cons ução do sen ido de Dispe são como iagem em sen ido descenden e, como já “Esca ação” inha con i mado e as menções de “minas” (XI.48) e “ esou o” (XII.8) i ão ea i ma nos dois úl imos poemas do li o. 77 A ARTE POÉTICA DE ORFEU NA DISPERSÃO, DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO Macedo, Ve a Lúcia Viana de (2011). Me á o as Psicanalí icas na Ob a de Má io de Sá-Ca nei o: Uma He menêu ica da Mo e em Vida. Uni e sidade de Coimb a: Tese de Dou o amen o. Ma ins, Fe nando Cab al (1994). O Mode nismo em Má io de Sá-Ca nei o. Lisboa: Es ampa. Ma ins, Fe nando Cab al (1998). Uma Ques ão de Vida. In Má io de Sá Ca nei o, P imei os Con os (pp. 223-231). Lisboa: Assí io & Al im. Ma ins, Fe nando Cab al (1999). O Na ado Sup emo. In Má io de Sá-Ca nei o, Céu em Fogo: Oi o No elas (pp. 269-277). Lisboa: Assí io e Al im. Ma ins, Fe nando Cab al (2001). P e ácio. 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(Po opção pessoal, de aco do com a an iga o og a ia) [Recebido em 30 de ab il de 2015 e acei e pa a publicação em 29 de junho de 2015] sé ie ciências da li e a u a 2015 29 / 3 diac í ica dossie p émios li e á ios pode das na a i asas, na a i as do pode 29/ 3UNIÃO EUROPEIA Fundo Eu opeu de Desen ol imen o Regional diac í ica e is a do cen o de es udos humanís icos sé ie ciências da li e a u a 2015 29/3 dossie p émios li e á ios pode das na a i as as na a i as do pode ISSN 0807-8967 Dossie p émios li e á ios. O pode das na a i as e /ou as na a i as do pode In odução A e dade dos p émios li e á ios Ana Luísa Ama al Ace ca dos p émios li e á ios Ge mano Almeida Não há p émios pu os. E po que ha e ia de ha e ? Isabel Pi es de Lima Doxas, pa adoxos e ho izon es: o ci cui o secundá io da poesia moçambicana em discussão Nazi Ahmed Can Vá ia Almeida Ga e e a p opos a polí ica do Roman ismo Ana Bá ba a Ped osa A A e Poé ica de O eu na Dispe são, de Má io de Sá-Ca nei o Rica do Nob e Não En es Tão Dep essa Nessa Noi e Escu a de An ónio Lobo An unes: da esc i a omanesca à pa i u a musical Ca a ina Vaz Wa o Censu a no Tea o B asilei o e o a qui o – Pe doa-me po me aí es de Nelson Rod igues: uma análise a pa i de Jacques De ida E ickaline Beze a de Lima / Nai a Neide Cio i Ma ianela de Galdós: una mi ada educa i a Ma ía Luisa Ga cía Rod íguez Recuo ao mais cônca o azio de Juan José Millás – os 40 anos de Ce be o son las somb as Alme inda Ma ia do Rosá io Pe ei a Che ilyn Sa kisian – ‘Che ’ o he pos mode n P ome heus: oicing he ‘Ma ginal’ O quídea Cadilhe S ill ocking a e all hese yea s: Adamas o w i es back Ma ia Sofia Pimen el Biscaia “A e a es á ficando oda de sangue”: Poesia e gue a em Moçambique Giulia Spinuzza Recensões The u u e o auma heo y. Con empo a y li e a y and cul u al c i icism Ped o Mou a O oo do ga ajau: Dos Aço es a Macau Vi gínia Soa es Pe ei a