F ancisco de Oli ei a, Cláudia Teixei a,
Paula Ba a a Dias (coo ds.)
Espaços e Paisagens
An iguidade Clássica e He anças
Con empo âneas
Vol. I Línguas e Li e a u as. G écia e Roma
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
COIMBRA UNIVERSITY PRESS
ANNABLUME
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ESPAçOS DA MORTE NA HISTORIOGRAFIA
DE TÁCITO
Ma ia C is ina Pimen el
Faculdade de Le as da uni e sidade de Lisboa
[email p o ec ed]
Résumé
Taci e es , en géné al, peu p olixe dans la desc ip ion des espaces physiques où se dé oulen
les é énemen s é oqués dans son his oi e. Il es donc ès signi ica i d’obse e les passages
où une spéciale a en ion es acco dée aux espaces se an de déco à la agédie de ceux qui
omben en disg âce. L’é oca ion de ces espaces souligne le éalisme e le pa hé ique de la scène
e condui le lec eu à une é lexion su les mécanismes de la y annie e , en de nie esso , su la
condi ion humaine. Une analyse cen ée su les six p emie s li es des Annales, me en é idence
le ai que les c imes de Tibè e semblen se concen e dans un nomb e es ein de lieux (îles,
p isons, ues e places de Rome, la cu ie, l’in é ieu des maisons), auxquels Taci e a ibue non
seulemen une aleu desc ip i e mais aussi une dimension symbolique que le lec eu es à
même de déchi e .
Pala as-cha e: Annales, espaços da mo e, his o iog a ia ágica, Táci o, Tibé io, i ania.
Um homem es á na ma gem de uma ilha e ixa os olhos na imensidão do
ma . Ele sabe que hão-de i pa a i a -lhe a ida. Es á há ca o ze anos exilado,
mas al ez enha sabido ou p essin a que a mo e de Augus o da á en im a
Tibé io o pode de sol a a i a e sacia o seu anco .
O homem que Táci o assim nos ap esen a é Semp ónio G aco, implicado
em p ocesso po adul é io com a ilha de Augus o e exilado numa ilha jun o à
cos a da A ica. Ele é uma das p imei as í imas de Tibé io, uma en e mui as
de uma longa lis a de assassínios, execuções e suicídios com que Táci o le a o
lei o a e lec i sob e os mecanismos da i ania e, em úl ima ins ância, sob e a
p óp ia condição humana.
G aco não é, nem Táci o que que pensemos que e a, alguém cuja condu a
e ca ác e me ecessem lou o . Bem pelo con á io: o his o iado não deixa de
egis a a indignidade que lhe aleu o exílio. Mas o que p e ende ao mos á-
-lo, só, longe de udo e de odos, à bei a do ma e à espe a do im, nihil lae um
oppe ien em (Ann. 1.53.5), é dá-lo como exemplo de alguém cuja a i ude
pe an e a mo e como que edimiu a ida pau ada pela dissolução. E é ambém
esc e e mais um apon amen o que, somado a mui os ou os dos seis p imei os
li os dos Annales, se aduzi á no balanço unes o de um p incipado ma cado
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pelo e o e pela a bi a iedade, ema que a a essa oda a ob a, sus en ando a
e lexão sob e o egime polí ico ins i uído po Augus o.
E a imagem que gua damos – a que Táci o sem dú ida quis que gua dássemos
– é essa: um homem es á sozinho e sem de esa pe an e a mo e. Sob e ele aba e-
se a o ça cega da p epo ência impe ial. Numa ilha, como se esse espaço echado,
essas ma gens que o ce cam, simbolizassem a impossibilidade de escapa à
iolência e à o una ad e sa. G aco, po ém, não se deixa e ga pelo medo,
nem abdica de se homem e olha a mo e com se enidade e co agem, com a
cons an ia desejada pelos es óicos. Não é como bicho acossado ou conduzido
ao aba e que ele que sai da ida. Po isso, aos soldados que êm pa a o ma a
e que sem dú ida iu ap oxima em-se da ímb ia da ilha onde Táci o o oca,
pede apenas um b eue empus pa a esc e e à mulhe as de adei as on ades.
Depois, sem acila , ce uicem... pe cusso ibus ob uli .
G aco não é a p imei a í ima de Tibé io após a sua ascensão ao pode .
Táci o e oca a já o p imum acinus (1.6.1) desse p incipado, o assassínio de
Ag ipa Pós umo, úl imo ne o de Augus o. Exilado na ilha de Planásia, ambém
ele es á sem a mas e inde eso quando o ibuno que o igia, em cump imen o
de o dens indas de Roma, o su p eende e ma a. Ag ipa, po ém, esis iu à
mo e, deu lu a, o que é coe en e com a in o mação an e io de que e a ux,
es upidamen e o gulhoso da sua o ça ísica, e desp o ido de qualque cul u a
(1.3.4; 4.3). Isso não impede, oda ia, que no momen o da mo e Táci o o ixe
numa a i ude não isen a de dignidade, ecusando-se a mo e sem ao menos
opo a esis ência de quem nada em de que se acusa .
O a, se obse a mos que o im de G aco é e ocado no mesmo capí ulo
em que se egis a a mo e de Júlia, ou o a sua aman e e ilha de Augus o,
epudiada mulhe de Tibé io e mãe de Ag ipa, e emos que a associação en e
es as ês igu as não pode se in olun á ia po pa e do his o iado e suge e
mui o mais do que uma lei u a imedia a que a jus i ique pelos laços a ec i os
e de sangue que os unem. Táci o deixa-nos en e e , associando-os na mo e, a
unes a coe ência de Tibé io ao conce a uma ingança ansiada du an e anos:
Ag ipa, úl imo ilho de Júlia e sua de adei a espe ança, oi o p imei o a se
mo o, po medo de que cons i uísse ameaça polí ica. Depois eio a ingança
con a a mulhe que a en ou con a a sua hon a, que o pôs a idículo com
sucessi os e públicos adul é ios. Pa a ela ese ou uma mo e len a, à míngua
de udo, con encido de que passa ia desape cebido o seu desapa ecimen o
após an os anos longe de Roma. Na mesma al u a, az execu a G aco, que
o a on a a, que inci a a Júlia a des espei á-lo e o a um dos mui os aman es
dela: po isso é como se Tibé io nele quisesse aniquila odos aqueles com
quem Júlia se cob i a e o cob i a a ele de op ób io.
Des e modo, Táci o mos a-nos Tibé io como alguém que, gua dando
den o de si um ódio anco oso que só se sacia a com sangue, há mui os anos
espe a a o momen o em que pudesse ace a as con as com os que o ha iam
insul ado, em que i esse as mãos li es pa a a as a do caminho odos os que
lhe pa eciam ep esen a uma ameaça ao seu pode .
A uni as ês í imas es á ambém um espaço echado, de ce co: Júlia mo e
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no oppidum de Rhegium, gua dada à is a; Ag ipa e G aco cada um em sua ilha,
aquele mo o pela gua da des acada pa a o igia , es e po soldados en iados
pa a o assassina em. O im des as pe sonagens, sepa adas no espaço mas unidas
no ano da mo e e na his ó ia comum, o na-se assim o p imei o andamen o
de uma composição de ons dissonan es que incomoda a alma de quem lê e
nos põe de imedia o na expec a i a de uma sequência a oz de massac es no
p incipado de Tibé io.
A a enção aos espaços em que se desen ola a agédia daqueles que caem
em desg aça, como o ma de da mais ealismo ou sublinha o pa é ico de um
quad o, é ambém exp essi a no caso de Libão D uso. Acusado de conspi a
con a Tibé io, Táci o en ende que o p ocesso de que oi al o me ece um ela o
especialmen e cuidado, já que oi o p imei o de mui os que du an e an os
anos mina am o Es ado. Saímos, pois, de uma es e a pessoal, a dos a ec os e
desa ec os de Tibé io, pa a passa mos a um mal mais pe sis en e e de as ado :
aquele que a ingi á os melho es de Roma, quase semp e inocen es dos c imes
de que os acusam.
Libão em con a si quem lhe é p óximo. O p imei o a p o oca -lhe a uína
é um amigo ín imo, que ap o ei a a sua ju en ude, inexpe iência e i e lexão
pa a o incen i a à consul a dos as ólogos e o le a a anglo ia -se da sua
es i pe e da jus eza da p e ensão a um des ino mais al o. Apanhado numa
cilada de que não consegui á sai , D uso ape cebe-se da desg aça iminen e e
en a encon a quem, no senado onde se á julgado, o de enda. Táci o e a a-
lhe a a lição (2.29), indo de casa em casa (ci cumi e domos) a suplica aos que
lhe e am p óximos que alguém acei e apoiá-lo. Mas, desse mo imen o que se
adi inha em c escen e desespe o, apenas esul a a ex ema aqueza que o le a
a, no dia do p ocesso, e de se anspo ado de li ei a a é às po as da cú ia,
de o ado de medo e de inquie ação. À sua ol a ize a-se um dese o, pois
odos lhe inham negado ajuda, in ocando di e sos p e ex os que, segundo
Táci o, inham no en an o a mesma causa: o e o (eadem o midine) pe an e o
isco de ambém eles se em acusados. O his o iado não censu a os que assim
agi am. Di -se-á que os comp eende. Mas as mui as ezes em que acusa os
g andes de Roma, pa icula men e os senado es, de segni ia, de pa ien ia se uilis,
de al a de solida iedade en e si, de coba dia e gonhosa que a nada conduz
pois os o na cada ez mais desp o egidos pe an e a iolência do p inceps, sem
dú ida es ão na men e do lei o . E D uso, com oda a inconsciência da sua
ju en ude, a sua hyb is que o ai pe de , o na-se, no momen o da queda, uma
í ima que, aos nossos olhos, despe a ão-só comise ação e simpa ia.
Táci o de ém-se en ão nos úl imos momen os de D uso. Ou indo as
acusações e pe cebendo que nada o pode ia sal a , ele pede que a sessão do
senado seja suspensa a é ao dia seguin e. Da cú ia, Táci o conduz-nos a é
casa de D uso, onde o úl imo ac o des a agédia e á luga . Toda a casa es á
ce cada e in adida po soldados, que os ensi a e uidosamen e se mani es am
no es íbulo pa a que os ouçam e ejam. A manob a de in imidação é e iden e,
al como é cla o, pelo e bo que Táci o escolhe e usa na oz passi a (2.31.1:
cingeba u ), que D uso es á no cen o de um cí culo que se ape a em o no
Espaços da mo e na his o iog a ia de Táci o
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dele. Pensa a que um es im lhe adoça ia as de adei as ho as, em ez disso é
o men o o que sen e, a pon o de que e pô e mo à ida sem mais espe a .
Implo a aos esc a os que o ma em, mas odos ecusam e o deixam, omados
pela o ça cen í uga que é o medo: uma ez mais, D uso é abandonado po
odos. Na a lição com que dele ogem, omba a candeia colocada sob e a mesa
e a sala me gulha na escu idão, numas e as unes as que p enunciam as da
mo e. É nessa noi e neg a, nessa sala ce cada de soldados ameaçado es e azia
de mãos que o ajudem, que D uso se e e no en e. Táci o az-nos escu a o
gemido, o som do co po que cai pesadamen e, ou ido pelos libe os que só en ão
aco em, num mo imen o con á io ao de pouco an es ( e ugiun ... adcu e e),
logo seguidos dos soldados que, endo-o mo o, inalmen e se e i am da casa,
espaço p i ado que a sua b u eza iola a. A mo e de D uso é o malmen e um
suicídio. Mas Táci o, com o po meno dado ao episódio, mos a que oi como
um assassínio p og amado e execu ado, com ia lucidez, pelos pa es de D uso
e, em úl ima ins ância, po Tibé io.
O quad o des e p ocesso ap oxima-se, em signi ica i os aspec os, do de
Pisão, o alegado assassino de Ge mânico. Também aqui há dois espaços que
se sucedem, co espondendo a dois momen os di e en es, mas igualmen e
ágicos, do episódio: a cú ia, onde Pisão é julgado; a sua p óp ia casa, onde
se suicida, an ecipando-se à condenação ine i á el. Na cú ia, enquan o se
esmiúçam os ag a os, ou e-se a populaça ameaça que in adi á a sala se o éu
não o condenado. Em o no de Pisão, como acon ece a com D uso, ape a-se
um duplo laço: um p imei o nó, o dos senado es eunidos pa a o pe de ; um
segundo, o da mul idão que agua da, incon ida e minaz. Quando a sessão é
suspensa, Pisão é le ado numa li ei a, acompanhado pelo ibuno da gua da
p e o iana. Como Libão, ambém ele eg essa a casa sob cus ódia.
Em no a sessão do senado, Pisão en a ainda de ende -se, mas pe cebe
que não em sal ação. De no o Táci o nos mos a um homem ao lado de
quem ninguém icou, abandonado a é pela mulhe , Plancina, inicialmen e
implicada com ele mas que, ga an ido o apoio de Lí ia, se a as a do ma ido
deixando-o à me cê da sua so e. É essa commu a io o unae que o his o iado
ealça, azendo o lei o esquece que sob e Pisão pesa a acusação g a íssima,
não de odo in undada, de e en enenado Ge mânico, o amado gene al que
quase odos que iam e sucede a Tibé io. O a, o p óp io p inceps, que e ia
sido o mandan e do c ime, ia-o ago a Pisão num mu ismo sine mise a ione,
sine i a, obs ina um clausumque (3.15.2), dominando e escondendo qualque
sinal de sen imen o ou emoção. É isso que o decide a mo e e, assim, Táci o
le a uma ez mais o lei o a a ibui a Tibé io a esponsabilidade dessa mo e.
Pisão eg essa a casa: aí, sob p e ex o de p epa a a de esa pa a o dia seguin e,
esc e e uma ca a ao p inceps, cump e os habi uais p ecei os de higiene e, noi e
den o, depois de a mulhe e saído do qua o, mandou que ancassem a
po a. Ao ompe do dia, encon a am-no caído, a ga gan a co ada com a
p óp ia espada.
Se o p ocesso, a pa e pública des e d ama, se desen olou na cú ia, é em
casa, com a se enidade e a i meza que os i os quo idianos e elam, com o
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ânimo co ajoso com que, po esc i o, a i ma a Tibé io a sua inocência e a sua
nunca queb ada lealdade pa a com ele, que Pisão nos su ge, pela a e de Táci o,
mais p o undamen e humano no desejo de p i acidade na mo e. Sozinho
– como sozinho es a a en e às o ças que o esmaga am – no silêncio da
noi e e na es ei eza de um cubiculum, Pisão é mais uma igu a que Táci o
nos mos a na complexidade do se humano que e a, mas nem po isso
deixa de me ece a nossa admi ação quando acei a a mo e, não com o os o
cabisbaixo dos encidos, mas com a cabeça e guida de quem a i a sem émi o
da consciência.
Na sua escalada con a a amília de Ge mânico e odos os que conse assem
amizade ou lealdade pa a com ela, Tibé io decide, no ano 28, aniquila Tício
Sabino. Táci o mos a udo o que, nes e caso, oi ignominioso: an es do mais
egis a o ac o de a p isão e uína de Sabino e ido luga no início do ano,
o que, a endendo à sac alidade da época, con igu a um oedum p incipium
(4.68.1). É nesse momen o em que se omam auspícios inaugu ais que ele
é a as ado pa a a p isão. A indignidade do que em de supo a é depois
ealçada pela e e ência ao seu es a o social (inlus i equi e Romano). Só en ão
Táci o e ela as causas da sua pe dição: ob amici iam Ge manici; e po que não
inha desampa ado a iú a, Ag ipina, e os ilhos, que con inua a a isi a e a
acompanha publicamen e.
Táci o ela a em analepse os po meno es da a madilha que lhe p epa a am,
enume ando, em jei o de denúncia, o nome dos qua o an igos p e o es que,
pa a ag ada em a Sejano e, assim, pode em aspi a ao consulado, se uni am pa a
o inc imina em. Sabino não se ape cebeu do dolo, con iou em quem julga a
se since o na sua comise ação po Ag ipina e os ilhos, no ódio exp esso po
Sejano e po Tibé io. O his o iado des enda, como az em mui as ou as
ocasiões, uma allax amici ia que se empenha em pe de alguém de ca ác e
impolu o. Sabino deixa-se iludi po essa species a ae amici iae (68.4) e é como
que apanhado numa a oei a.
O espaço escolhido pa a que ele se inc imine pe an e es emunhas é a
p óp ia casa de Lacia , o che e de ila dos pe seguido es, que Táci o az ques ão
de e e i po sena o es pa a acen ua a ileza de memb os da p imei a o dem
do Es ado. É na casa dele que os ou os ês se escondem, pa a su p eende o
que Sabino disse . Mas, po eceio de que um uído ou mo imen o inad e ido
os denuncie, não o azem colocando-se a ás de uma po a: escondem-se an es
num espaço en e o elhado e o ec o da casa ( ec um in e e laquea ia). Táci o,
que eg a ge al é escasso na desc ição dos espaços ísicos em que deco em os
acon ecimen os eco dados na sua his ó ia, indica aqui com p ecisão o local
onde eles se dissimulam. E á-lo po que p e ende denuncia a o peza do
expedien e e a in âmia dos senado es, que nos az e como a os no o o de
uma casa, imó eis e à esp ei a, o ou ido colado a odas as endas e o i ícios.
Lacia , en e an o, a aiu Sabino à cilada: encon ou-o in publico e depois le ou-o
domum e in cubiculum. A sequência é eloquen e: de um local abe o, uma ua
onde Sabino sem dú ida es a ia de sob ea iso con a os ou idos de odos os que
passassem, Lacia le a-o pa a sua casa, espaço echado onde Sabino se julga á
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segu o. Mas o lei o , a quem Táci o já des endou o a dil e gonhoso, sob e o
qual exp essou juízo de alo pe emp ó io – haud minus u pi la eb a quam
de es anda aude (69.1) – o lei o sabe que Sabino, na con iada inconsciência
das í imas que não p essen em o seu des ino, en a no local da sua pe dição.
Em casa de Lacia , é pa a o qua o des e que Sabino é le ado. O espaço mais
ín imo do supos o amigo, aquele onde julga que a con idencialidade é absolu a,
é a inal o espaço mais es ei o em que o nó se ape a: e ele ala, ala abundan e
e abe amen e da sua do e dos ag a os impe iais. Julga que ninguém o ou e,
mas ele, que se acau ela a das uas de assadas, não sabe que ou os ou idos –
esses sim, aiçoei os – o escu am e ixam odas as pala as sob e as quais logo
da ão es emunho em ca a ao impe ado , na qual, além das acusações, expõem
despudo adamen e e sem pejo a aus a que eco e am.
Táci o e mina o capí ulo com uma desencan ada e ominosa e ocação do
e ei o que a no ícia dos meand os da maquinação e e em Roma. Em hipé bole
ca egada de signi icado, pelo que anuncia de um empo em que não mais ha e ia
quem se sen isse segu o, onde que que es i esse ou com quem que que alasse,
acen ua os dois sen imen os que domina am a cidade, a inquie ação e o medo,
numa pe soni icação (anxia e pauens) que dá ele o ao compo amen o que a
pa i daí se impôs a odos: a necessidade de dissimula opiniões e sen imen os,
po descon iança mesmo dos mais p óximos, e de e i a qualque eunião ou
con e sa (a ali e ação cong essus conloquia isa a eg a absolu a em que essa
a i ude se ans o ma), po medo de quem pudesse ou i o que se dissesse;
a sinédoque au es, eme endo pa a os ou idos que egis a am as pala as de
Sabino, aduz, ampliando, o ambien e de pe manen e pe igo e descon iança
que os dela o es c ia am, como se em oda a pa e só hou esse ou idos pé idos
à escu a; do mesmo modo, a an í ese no ae igno aeque, quali ica i os de au es,
apon a pa a a u gência de, pa a sal agua da a ida, não se con ia em ninguém.
A ase que echa o capí ulo, úl imo memb o de uma g adação ascenden e
que suge e a escalada do clima de e o , mos a que a necessidade de ica de
sob ea iso e de absolu a p ecaução se ala gou inclusi e aos objec os mudos
e inanimados e que, po isso, odos examina am, espiando os mais ín imos
ecan os, a é o ec o e as pa edes das casas ( ec um e pa ie as), exp essão que
es abelece um nexo di ec o de causalidade en e a a madilha o jada con a
Sabino e a pesada nu em de insegu ança e pa o que esmagou a cidade.
Táci o, que no início do episódio nos mos a a Sabino ac o in ca ce em,
suspendendo depois a sequência da na a i a pa a nos da a conhece como se
amou a sua desg aça, ol a no cap. 70 à o dem c onológica in e ompida pa a
ixa nele o olha no dia da execução. A cena es á ca egada de d ama ismo e o
es ilo de Táci o é de e as sublime nes e passo: o condenado é a as ado pa a o
suplício, não é, pois, uma daquelas í imas que so em em silêncio a desg aça,
sem ao menos eagi em denunciando a p epo ência que os de uba. É isso que
aduz aheba u , o ma do mesmo e bo que liga ambos os momen os da
acção, passi a que no-lo mos a le ado pelas uas como se in enso, uma co da
a ape a -lhe o pescoço e as es es a cob i em-lhe o os o, g i ando sem cessa
(clami ans), na medida em que o conseguia aze sob os cons angimen os
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a que o sujei a am, a denúncia das ci cuns âncias o pes em que o inham
inc iminado e o le a am a mo e : num es e o úl imo de quem conhece e
acusa os seus e dadei os inimigos, e ela que é imolado como í ima a Sejano,
somb a unes a po ás de odos os mal ados, e clama con a o ac o sac ílego
de uma execução no início do ano.
Os g i os de Sabino pa eciam, oda ia, não encon a eco em ninguém.
Táci o acen ua, com o quiasmo in endisse oculos... ue ba accide en e o assínde o
de uga, uas i as... i ine a, o a, o dese o que, pelas uas e p aças, se ia azendo
em o no dele. Todos ogem po medo, sabe-o o lei o sem que Táci o enha
de o dize . Mas a esse mo imen o cen í ugo que deixa o condenado a sós
com os seus e dugos sucede-se um mo imen o cen ípe o que az de ol a
( eg edieban u ) uns quan os dos que ha iam ugido e os az mos a em-se de
no o (os en aban que se u sus), a e o izados pelo p óp io pa o que sen em.
Obse ando aqueles cuja consciência lhes e ela uma e í el hie a quia de
medos, o medo de mo e e o medo de se capaz de udo pa a não mo e ,
Táci o en a no mais ín imo e sec e o dos luga es, onde se pesa e decide a
dignidade ou a in âmia de um se humano. E, pa a mos a que nem odos
echa am os ou idos e a consciência às pala as de adei as de Sabino, que
nem odos se deixa am domina pelo medo e se e ugia am na ágil segu ança
da indi e ença à desg aça alheia, Táci o ep oduz o que pensa am, a assus ada
indignação pe an e a impiedade de Tibé io ao mancha aquele dia com a
aplicação da pena capi al, e que a compa ação quomodo delub a e al a ia, sic
ca ce em ecludan (70.3) põe a nu.
Também o episódio de Consídio P óculo, acusado de maies as (6.18),
sublinha a desumanidade quase sac ílega com que Tibé io a ingia as suas
í imas. O his o iado inicia o capí ulo com a a i mação de que uma no a
aga de pe seguições e p ocessos se e i icou nesse ano de 33, azendo
ec udesce o medo, sen imen o que, po isso, o ien a e de e mina oda a
lei u a do ex o subsequen e: p ocesso sabiamen e usado po Táci o, que só
a as ezes e po pouco empo deixa ao lei o espaço pa a se deb uça sob e
ou os acon ecimen os sem que a somb a da ep essão e da i ania pai e sob e o
ela o e se ma e ialize numa sé ie de assassínios, execuções sumá ias, suicídios
e exílios, num acumula de episódios sang en os que acabam po nos da a
sensação, sem dú ida desejada po Táci o, de que o p incipado de Tibé io – e,
depois, o de Ne o – oi uma espi al de iolência sem eio nem emissão.
P óculo é su p eendido po essa iolência sem que nada o izesse suspei a
do que o agua da a, sem que nada emesse quan o ao seu des ino. Focando-o
nullo pauo e enquan o celeb a a o seu ani e sá io, Táci o suge e ao lei o a
anquilidade que só as consciências inocen es expe imen am, enquan o acen ua
o abuso da c ueldade que des echa o golpe num dia de es a amilia , dia de aleg ia
em que o p óp io cul o aos deuses p oibia os sac i ícios sang en os. P óculo é
a ancado à amília, à sua casa, le ado de imedia o pa a a cú ia, condenado em
p ocesso sumá io e execu ado no ins an e seguin e. Toda es a p essa que o le a,
num ápice, do espaço da ida e do júbilo, ao abismo da desg aça e da mo e,
é sublinhado pelo eco e da ase: em ap us in cu iam pa i e que damna us
Espaços da mo e na his o iog a ia de Táci o
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in e ec usque, ao homeo eleu o dos pa icípios e ao polissínde o que os une
em jun a -se a ca ga semân ica da censu a que o ad é bio pa i e az pesa
sob e aqueles pa a quem a e e ência espacial in cu iam apon a: os senado es,
coni en es, na sua subse iência e po medo, com a i ania de Tibé io.
Já pe o do im da ida, po ém, Tibé io não saciou ainda o seu essen imen o
con a odos os descenden es de Ge mânico. Às ci cuns âncias da mo e de
um dos seus ilhos, ne o po adopção do p óp io impe ado , dedica Táci o os
capí ulos 23-24 do Li o 6, e elando-nos que D uso mo eu ex inguindo-se
numa agonia len a de no e dias, depois de, pelo desespe o da ome a que o
ob iga am, e comido o enchimen o do colchão em que do mia no ca i ei o.
É a desumanidade desse des ino que o his o iado nos az olha an es de
mais, p o ocando no lei o um sob essal o de e o e piedade que o le a a
compadece -se da desg aça de alguém que, nascido na amília impe ial e po
isso na u almen e sob signo auspicioso, acaba enca ce ado pelo seu p óp io a ô,
lu ando pa a sob e i e e enlouquecido de ome, nas masmo as sub e âneas
do Pala ium. A e e ência explíci a ao local do calabouço suge e ao lei o a
impassí el c ueza de Tibé io, imune ao pode de qualque a ec o, capaz de
man e o ne o, anos a io, nas mais abjec as condições, ão pe o do local onde
ou o a o a um dos possí eis he dei os do impé io.
Pa a que o lei o se compadeça de mais es a í ima de Tibé io, Táci o
não e oma nes e passo nenhuma das in o mações nega i as que de a sob e
D uso em 4.60, quando o mos ou colabo ando com Sejano pa a a pe dição
do i mão mais elho e elencou as azões dessa a i ude aiçoei a. Em sábia
dis ibuição do ma e ial de que az a sua his ó ia, a Táci o in e essa oca aqui
apenas a e ol an e condição a que, no empo de Tibé io, e a possí el eduzi
um se humano, pa a nos mos a que ninguém, nem mesmo um colabo ado
de Sejano, nem mesmo um se iolen o e aido dos mais sag ados laços
amilia es, me ece mo e daquela o ma.
Todos os c imes de Tibé io pa ecem, assim, nos di e en es ac os de que se
compõe es a his ó ia ágica, concen a -se num núme o es i o de espaços
aos quais Táci o a ibui não um alo desc i i o mas um signi icado simbólico
que cabe ao lei o comp eende .
São os espaços echados das p isões onde são lançados se es inocen es e
sem de esa, pa a apod ece em anos a io a é ao momen o da mo e, pa a se em
man idos na maio ignomínia a é à execução ou a é ao desespe o com que
buscam o im. São as uas e as p aças po onde as í imas da i ania ou da ileza
de ou os homens são a as adas pa a o suplício, e que se azem dese o à sua
passagem. É a cú ia pa a onde an os e an os são le ados, pa a se em julgados
em p ocesso sumá io ou iciado, numa a sa de aplicação da jus iça, a cú ia que
é luga da in âmia dos senado es capazes de abdica da hon a pa a man e em a
ida, ainda que al ez não po mui o empo, e seja qual o o p eço que enham
de paga po esse adiamen o da desg aça. São as casas, luga da in imidade,
dos a ec os, da segu ança e da ida, de assadas pelos soldados sinis os, espaço
onde se a oi am os p edado es, segu os de que nada lhes a a á o passo ou lhes
censu a á a delação, as casas donde, sem azão nem a iso, é possí el a anca
Ma ia C is ina Pimen el