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«O que me adivinha o coração»: dizer o futuro em Lágrimas Abençoadas e Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco

Abstract

O artigo explica como o escritor português Camilo Castelo Branco retrata personagens femininas com capacidade premonitória nos romances Lágrimas Abençoadas e Amor de Perdição. Depois de enquadrar a adivinhação num contexto histórico e cultural alargado, desde a Antiguidade, em que a previsão fazia parte da própria religião, e na prática linguística do português, somos levados a concluir que, na obra de Camilo, o coração é o principal órgão pelo qual Maria dos Prazeres antevê o seu suturo e pelo qual Mariana antecipa a perdição de Simão. No entanto, esta habilidade não permite às jovens mulheres impedir que o futuro aconteça nem sequer escapar do destino; assim, poderemos perceber que estas personagens sofrem ainda mais e que o amor romântico tem processos que o definem.

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«O que me adivinha o coração»: dizer o futuro em Lágrimas Abençoadas e Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco

Author: Nobre, Ricardo Miguel Guerreiro
Publisher: Aletheia - Associação Científica e Cultural
Year: 2016
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/29143/1/Nobre%202016.%20O%20Que%20Me%20Adivinha%20o%20Cora%c3%a7%c3%a3o.pdf
iosLi e a
20
Ano 2016
Fasc. 2
Es udos Li e á ios
Mulhe es P o é icas na
Li e a u a, His ó ia e Cul u a
umanidades
Re is a Po uguesa
de
H
umanidades
Re is a Po
uguesa de
H
Es udos
Li e á ios
VOL. 20-2
ANO 2016
AXIOMA  PUBLICAÇÕES DA FACULDADE DE FILOSOFIA
UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA
Faculdade de Filoso ia e Ciências Sociais
Mulhe es P o é icas na Li e a u a,
His ó ia e Cul u a
Ma ia José Fe ei a Lopes
(O g.)
Copy igh © 2016 Ale heia – Associação Cien í ica e Cul u al
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PUBLICAÇÃO Re is a Po uguesa de Humanidades
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ISSN 0874-0321
ISBN (Pape back) 978-972-697-270-9
ISBN (Ebook) 978-972-697-271-6
DEPÓSITO LEGAL 119141/97
CAPA AXIOMA - PUBLICAÇÕES DA FACULDADE DE FILOSOFIA
PAGINAÇÃO E
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4050-110 Po o
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FÁTIMA SILVA, UNIVERSIDADE DE LISBOA
ISABEL HUB FARIA, UNIVERSIDADE DE LISBOA
JOSÉ LUIS CIFUENTES HONRUBIA, UNIVERSIDADE DE ALICANTE
JOSÉ SÁNCHEZ MARIN, UNIVERSIDADE DE GRANADA
MARIA GRACIETE BESSE, UNIVERSIDADE DA SORBONNE
OSWALD DUCROT, EHESS - PARIS
PAULA MORÃO, UNIVERSIDADE DE LISBOA
PAULO MOTTA OLIVEIRA, UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
RONALD W. LANGACKER, UNIVERSIDADE DE CALIFÓRNIA, SAN DIEGO
RAMÓN ALMELA PÉREZ, UNIVERSIDADE DE MÚRCIA
SANTIAGO LÓPEZ MOREDA, UNIVERSIDADE DE EXTREMADURA
H
Es udos
umanidades
Re is a Po uguesa
de
Li e á ios

ÍNDICE
Ap esen ação
Mulhe es P o é icas na Li e a u a, His ó ia e Cul u a
MARIA JOSÉ FERREIRA LOPES 910
Cassand a: ca ác e , discu so e espec áculo
MARIA DE FÁTIMA SILVA 1136
“O demo lhes ensina an o”. A alco i ei a nas comédias de Jo ge Fe ei a de Vasconcelos
MARIA LUÍSA DE OLIVEIRA RESENDE 3750
El modelo de eligiosidad emenina de la Te ce a O den F anciscana
du an e la Edad Mode na
ALFREDO MARTÍN GARCÍA 5168
Den o e o a do empo: p o ecias emininas na Idade Mode na em Po ugal
ISABEL MORUJÃO 6996
Los Monas e ios Femeninos en las Diócesis de la P o incia de León
du an e el An iguo Régimen
MARÍA JOSÉ PÉREZ ÁLVAREZ 97114
Sibilas: da Babilônia ao B asil
MARIA CLÁUDIA ALMEIDA ORLANDO MAGNANI 115138
“O que me adi inha o co ação”: dize o u u o em Lág imas Abençoadas e Amo de
Pe dição, de Camilo Cas elo B anco
RICARDO NOBRE 139154
Os (des)encan os de Ab il: a pe spec i a de Na ália Co eia
(25 de Ab il de 1974 – 30 de Se emb o de 1974)
NATÁLIA NEVES DOS SANTOS 155172
Recensões
173176
Li os Recebidos
177180
Re is as Recebidas
181186
Re is a Po uguesa de Humanidades | Es udos Li e á ios, 20-2 (2016), 139-154
“O que me adi inha o co ação”: dize o u u o em Lág imas
Abençoadas e Amo de Pe dição, de Camilo Cas elo B anco
RICARDO NOBRE
Uni e sidade de Lisboa, Cen o de Es udos Clássicos
Abs ac
The a icle explains how he Po uguese w i e Camilo Cas elo B anco depic s emale
cha ac e s wi h p emoni o y skills in his no els Lág imas Abençoadas and Amo de
Pe dição. A e placing di ina ion in a b oad his o ical and cul u al con ex since Ancien
imes, whe e p edic ion was pa o Religion i sel , and in Po uguese linguis ic p ac ice,
we ealise ha , in Camilo’s wo k, he hea is he main o gan by which Ma ia dos P aze es
eels he own u u e in ad ance and by which Ma iana o esees Simão’s disg ace. Howe e ,
his abili y does no allow hese young women o p e en he u u e om happening no
ha hey can scape nega i e a e; so i means ha hese cha ac e s su e e en mo e and
ha Roman ic lo e has i s p ocedu es.
Keywo ds: ic ion cha ac e s, p emoni ion, Camilo Cas elo B anco, Lág imas
Abençoadas, Amo de Pe dição.
1.
É mui o an iga a ideia de que os deuses conhecem o u u o e que aos homens
não é pe mi ido sabê-lo senão po meio de sinais que podem se adequadamen e
in e p e ados, sendo essa di e ença a causa de um p o undo desní el en e eles
(o céu, o di ino) e nós (a e a, o p o ano)1. Com e ei o, desde a adição mesopo-
âmica a é à Al a An iguidade é possí el acompanha um in enso e ico deba e
sob e a alidade de o áculos, p esságios, augú ios, da as ologia, a uspicina,
pi omancia – cada um des es e mos cons i uindo a análise daqueles sinais em
supo es di e sos: das ísce as de animais às chamas do ogo. E cada po o em a
sua endência a o i a: Cíce o es emunha que os Assí ios p e e iam in e p e a
os as os, enquan o os Cilícios e am hábeis a explica o oo das a es; po seu lado,
1
Pla ão, O Banque e, 202e-203a; c . A República, 364a-365a. Na bibliog a ia des e
a igo, indicam-se aduções ecen es (in elizmen e nem semp e pa a po uguês) em que
se podem le as ob as clássicas e e idas no co po do ensaio.
Re is a Po uguesa de Humanidades | Es udos Li e á ios
146
Cas elo B anco em que esse pode é mais e iden e é Ma iana, pe sonagem da
ob a-p ima do Roman ismo po uguês, Amo de Pe dição30 (1862).
A ilha de João da C uz su ge na his ó ia no momen o em que Simão se
encon a na casa do e ado an es de i uma segunda ez a Viseu e Te esa. A
p imei a menção do na ado a Ma iana concen a nela ca ac e ís icas ísicas que
se epe i ão ao longo da ob a – “ o mas boni as, um os o belo e is e”31. An es
de lhe epo a o discu so, o na ado desc e e a o ma como Ma iana obse a
Simão, que a in e oga sob e “a causa daquele olha melancólico com que ela o
i a a”. Co ando, com “um so iso is e”, a jo em esponde o acula men e: “Não
sei o que me adi inha o co ação a espei o de Vossa Senho ia. Alguma desg aça
es á pa a lhe sucede …” (Cas elo B anco, 2006: 135). Es as pala as con ibuem
de modo mui o e icaz pa a ca ac e iza a pe sonagem com incos que azem dela
uma mulhe p o é ica. Esses con o nos i ão a se epe idos, com a iações, ao
longo da na a i a, de endo no a -se a insis ência do ocabulá io emp egue, em
pa icula o co ação de Ma iana, que adi inha a desg aça u u a de Simão32. Po
conseguin e, pode a i ma -se que é o co ação que di iniza a mulhe , legi imando
que nele se obse e a capacidade de adi inhação que excede os sen idos, ou seja,
a exis ência de um sex o sen ido, ausen e nos homens.
An es da saída de Simão pa a Viseu, al como no es o do omance, Ma iana,
sem impedi a acção do p o agonis a, pe gun a-lhe se “semp e é ce o i ” e, à
i meza da espos a, ela encomenda-lhe que “Nossa Senho a á na sua compa-
nhia” (Cas elo B anco, 2006: 140). Depois dis o, e i a-se “pa a esconde as
(isso mesmo admi e Ma ia de No onha, na segunda cena do ac o II de F ei Luís de Sousa,
de Almeida Ga e ).
30
Sob e a pe sonagem, . Cas o (2006: 54-62; c . ainda pp. 67 e 71). Consul a Sousa
(2015: 33-37) pa a um “es ado da a e” das opiniões sob e Ma iana. O au o explica, numa
isão psicanalí ica (quase clínica), o compo amen o da pe sonagem li e á ia, opondo-se
à pe spec i a ge almen e posi i a com que a c í ica camiliana (Jacin o do P ado Coelho,
Luciana S egagno Picchio, Aníbal Pin o de Cas o, Luís Ama o de Oli ei a) a em in e -
p e ado. Na ci ação de Amo de Pe dição, u ilizo a ed. Caixo im ( . bibliog a ia).
31
Cas elo B anco, 2006: 135. Po seu lado, Te esa é apenas “ egula men e boni a”
(Cas elo B anco, 2006: 108). O ca ce ei o, sob e Ma iana di á: “Es a é bem mais boni a
que a idalga!” (Cas elo B anco, 2006: 212); Ri a, a i mã de Simão, em ca a, diz ela é uma
“bela moça” (Cas elo B anco, 2006: 217); o i mão de Simão “ inha epa ado em Ma iana, e
da beleza da moça in e i a pa a o ma alsos juízos” (Cas elo B anco, 2006: 254).
32
Ma iana pa ece pa ilha com João da C uz es e sen ido p emoni ó io: “há boca-
dinho que eu ou i es a meu pai a dize a meu io (…) que inha suas azões pa a sabe
que alguma desg aça lhe es a a pa a acon ece (…) [p]o amo duma idalga de Viseu”
(Cas elo B anco, 2006: 136).

“O que me adi inha o co ação”
147
lág imas”. São es as b e es mani es ações que anunciam p e iamen e os acon e-
cimen os da na a i a: ao ugaz encon o en e Simão e Te esa (o único em que
eles es ão e ec i amen e jun os) segue-se uma e i ada em que Simão é al ejado
(Cas elo B anco, 2006: 148), e elando que o co ação de Ma iana es a a ce o33.
Nes a ocasião, João da C uz ma a os dois c iados de Bal asa .
Hospedado na casa do e ado , Simão é a ado po Ma iana, po meio de
quem ica a sabe os umo es sob e os mo os da noi e an e io . Simão con essa
“o mau encon o”, e Ma iana diz: “E Deus quei a que seja o úl imo!… Tan o enho
pedido ao Senho dos Passos que lhe dê emédio a essa paixão!… O pio u u o
eu que ainda es á po passa …”; Simão ecusa o a icínio e p ome e eg essa a
Coimb a enquan o Te esa “ ica em sua casa”. Pa a que is o enha a acon ece ,
Ma iana admi e já e p ome ido “dois a á eis de ce a ao Senho dos Passos”,
mas con essa, como que an ecipando a ma é ia diegé ica da ob a: “não me diz o
co ação que ossa senho ia aça o que diz…” (Cas elo B anco, 2006: 172).
Ainda du an e a con alescença de Simão, Ma iana e ela que o conhece
desde o céleb e episódio das bilhas queb adas na on e, mas apenas o ol ou a e
quando ele eg essou de Coimb a com o a iei o, i mão de João da C uz. Nesse
ins an e, Ma iana decla a: “já sabia que inha pa a es a desg aça, po que inha
ido um sonho, em que ia mui o sangue, e eu es a a a cho a ”. Simão des a-
lo iza, e Ma iana insis e: “eu nunca sonhei nada que não acon ecesse. Quando
meu pai ma ou o almoc e e, inha eu sonhado que o ia a da um i o nou o
homem; an es de minha mãe mo e , aco dei eu a cho a po ela, e mais ainda
i eu dois meses… A gen e da cidade i-se dos sonhos, mas Deus sabe o que is o
é…” (Cas elo B anco, 2006: 173). As pala as de Ma iana, que ins i uem o sonho
(um dos p ocessos de cancelamen o da consciência acional) como meio p i ile-
giado de p e e o u u o34, conc e izam-se na sequência imedia a des e diálogo,
com a chegada da no ícia de que “O pai a as ou Te esa ao con en o” (Cas elo
B anco, 2006: 174). Simão, num acesso de ú ia, edige a Te esa uma ca a cheia
de animosidade, mani es ando a impe iosa necessidade de a a anca daquele
33
Po con as e, no dia a segui ao aciden e, Te esa não p essen e que alguma
desg aça enha acon ecido a Simão (“Deus pe mi a que enhas chegado sem pe igo a casa
dessa boa gen e”), a i mando desconhece “o que se passa”, admi indo po ém que “há coisa
mis e iosa que eu não posso adi inha ”, ac o induzido po que Tadeu de Albuque que
es e e “ oda a manhã echado com o p imo, e a mim não me deixa sai do qua o”. Te esa
a ibui à on ade de Nossa Senho a a casualidade de e sido possí el en ia a ca a po
in e médio da pob e a quem ela dá esmola (ci ações de Cas elo B anco, 2006: 156).
34
Plu a co en endia que e a a o ma mais an iga de adi inhação (Banque e dos Se e
Sábios, 159a).
Re is a Po uguesa de Humanidades | Es udos Li e á ios
148
local (Cas elo B anco, 2006: 174-175). O e imen o, po ém, impede-o pa a já de
agi .
Finalmen e, ambém no pe íodo em que Simão es e e ins alado na sua casa,
João da C uz e a ilha ape cebem-se de que ele es á sem dinhei o e a anjam um
es a agema pa a lhe en ega mais de onze moedas sem que ele as ecusasse.
Is o implica que o e ado se ausen e algum empo, causando es anheza ao
doen e, que pe gun a se João da C uz es a ia p eso. Ma iana esponde com in o -
mação já conhecida: “Não mo diz o co ação, e o meu co ação nunca me engana”.
É o momen o de Simão ap o ei a pa a pe gun a : “E que lhe diz o co ação a
meu espei o, Ma iana? Os meus abalhos ica ão aqui?” Ma iana hesi a na
espos a, mas à insis ência de Simão acaba po e ela : “O meu co ação diz-me
que os seus abalhos ainda es ão no começo… / Simão ou iu-a a en amen e, e
não espondeu” (Cas elo B anco, 2006: 181).
A es ada de Te esa num con en o de Viseu e a uma “ e enção empo á ia”
(Cas elo B anco, 2006: 158), a é i a ing essa no con en o de Monchique, no
Po o. A menina a isa Simão da impossibilidade de comunica com ele po causa
da ans e ência (Cas elo B anco, 2006: 186). A essa no ícia, descon olado pela
ú ia, Simão de e mina a aca a comi i a e cap u a Te esa (Cas elo B anco,
2006: 187); esol ido ao assal o, há uma ocasião em que a co espondência en e
os aman es se az po ia de Ma iana35, que chega á com a no ícia de que nessa
noi e Te esa iaja á pa a Monchique, acompanhada do p imo Bal asa 36. É essa
in o mação que desencadeia a cóle a de Simão. Momen aneamen e chamado à
azão po João da C uz, o ímpe o do jo em pa ece cede (Cas elo B anco, 2006:
195); nessa noi e, Simão esc e e no a ca a a Te esa, mas as lág imas impedi-
am-no de e mina , no ins an e em que apa ece Ma iana, que, “em oz aba ada,
como se a si mesma somen e o dissesse”, adian a (Cas elo B anco, 2006: 197):
– É a úl ima ez que ponho a mesa ao senho Simão em minha casa!
– Po que diz isso, Ma iana?
– Po que mo diz o co ação.
35
Sob e o que Ma iana sen i ia po Simão pa a se mensagei a en e ele e Te esa, o
na ado exclama: “Que anjo e adou o co ação pa a a san idade desse obscu o ma í io!”
(Cas elo B anco, 2006: 187).
36
“É impossí el ugi , e ou mui o acompanhada. Vai o p imo Bal asa e as minhas
p imas, e meu pai, e não sei quan os c iados de bagagem e das li ei as. Ti a -me no
caminho é uma loucu a com esul ados unes os” (Cas elo B anco, 2006: 192).
“O que me adi inha o co ação”
149
Des a ez, o académico ponde ou supe s iciosamen e os di ames do co ação
da moça, e com o silêncio medi a i o deu-lhe a ela a e idência an ecipada do
a icínio.
Tal como na noi e em que Simão oi e ido, Ma iana en a demo ê-lo da
emp ei ada; sem que al seja possí el, ela encomenda-o a Deus. Pouco depois, pa a
que João da C uz não a iscasse segui-lo, Simão men e ao e ado , dizendo não
sai á ao encon o de Te esa: “Ma iana, submissa semp e ao que o seu co ação lhe
baco eja a, du idou da mudança” (Cas elo B anco, 2006: 198) e, quando Simão
sai u i amen e, Ma iana despede-se e oga pa a ele, mais uma ez, p o ecção
di ina: “Eu ico pedindo a Nossa Senho a que á na sua companhia”. O na ado
di ecciona a a enção pa a o in e io do p o agonis a: “ou iu a oz ín ima que lhe
dizia: – «O eu anjo-da-gua da ala pela boca daquela mulhe , que não em mais
in eligência que a do co ação, alumiada pelo seu amo »” (Cas elo B anco, 2006:
198).
Como se apon ou, desde o início que Ma iana em adi inhando que Simão
caminha a pa a a pe dição, des e modo assegu ando a unidade emá ica da
ob a em o no do so imen o expe imen ado pelas ês pe sonagens cen ais.
No en an o, só a pa i des e pon o da diegese os p esságios de Ma iana (p a i-
camen e eduzidos a anúncios agou en os) começam a o na -se ealidade: o
momen o da mudança é aquele em que Simão assassina Bal asa . Condenado ao
deg edo, a é à pa ida, pe manece p eso na cadeia da Relação do Po o, com o
ampa o p o idencial de Ma iana, a quem chama anjo (Cas elo B anco, 2006: 254 e
297), ca ac e ís ica que, uma ez mais, a ap oxima da di indade37.
Quando João da C uz38 é assassinado, Ma iana es á na cadeia a se i Simão.
É a ia dela quem esc e e a da a no ícia. An es de ab i o sob esc i o, Ma iana
empalidece e az uma pe gun a que é igualmen e indica i a do seu p essen i-
men o: “Meu pai mo e ia?” (Cas elo B anco, 2006: 265). A pa i daqui, a acção
p ecipi a-se apidamen e pa a o im: odas as pe sonagens que i e am algum
p o agonismo na ob a encon am a mo e. Sem pai, Ma iana o e ece-se pa a i
como acompanhan e de Simão pa a a Índia, apesa da ad e ência de que ele não
pode ia amá-la: “O espí i o de Ma iana não podia al ea -se à exp essão do p eso;
mas o co ação adi inha a-lhe as ideias” (Cas elo B anco, 2006: 270).
37
Embo a em dado passo, João da C uz a i me, mas não sem humo , que a apa iga é
“da pele de Sa anás” (Cas elo B anco, 2006: 249).
38
Es a pe sonagem ambém adi inha a p oximidade do momen o da mo e (capí ulo
XVII), com e iden es sin omas somá icos.
Re is a Po uguesa de Humanidades | Es udos Li e á ios
150
No capí ulo XX, Simão es á de pa ida da ba a do Dou o e, dian e do
con en o, “ iu um os o e uns b aços suspensos das eixas de e o; mas não e a
Te esa aquele os o: se ia an es um cadá e que subiu da clausu a ao mi an e,
com os ossos da ca a inçados ainda das he pes da sepul u a”. Ma iana con i ma
que se a a de Te esa, que expi a nesse momen o; o na ado ac escen a de
imedia o que a ilha de João da C uz ou iu “o seu co ação dize -lhe que a alma
do condenado i ia b e e no seguimen o daquela po quem se pe de a” (Cas elo
B anco, 2006: 286). Como semp e, o co ação de Ma iana não men iu nem se
enganou. No capí ulo de “Conclusão”, mui o doen e, Simão deixa descai a cabeça
no seio de Ma iana e decla a: “O Anjo da compaixão semp e comigo!” (Cas elo
B anco, 2006: 295), indo a mo e ao la go de Gib al a , cump indo-se o úl imo
p essen imen o do co ação de Ma iana.
Pa a conclui , pa ece undamen al obse a que es e pode de Ma iana não
é conside ado po nenhuma pe sonagem nem pelo na ado como p o ecia ou
a icínio. Na e dade, es e ocabulá io es á quase ausen e do omance, excep o
quando se e e em, a p opósi o do u u o de Te esa e Simão, “os a icínios das
p o e isas” do con en o de Monchique, que an ecipa am o u u o em e mos que
não se ão ealiza : “Simão sai ia da cadeia, Tadeu de Albuque que mo e ia de
elhice e de ai a, o casamen o se ia um ac o indispu á el, e o céu dos desg a-
çados p incipia ia nes e mundo” (Cas elo B anco, 2006: 272). No Romance dum
Homem Rico, es e ipo de adi inhação, p óxima da bisbilho ice e po isso não se
con unde com os p essen imen os de Ma iana, ambém é e e ida i onicamen e:
“como osse no ó io e ulga o amo de Ál a o a Leono , já diziam os a úspices,
a a e ados em p ognos ica a ida alheia, que as segundas núpcias da mo gada
pob e com o ilho único do banquei o Macedo se iam espec áculo de pouca
delonga e mui a g aça” (Cas elo B anco 1992: 162).
Em e mos na a i os, as in e enções di ina ó ias de Ma iana, bem como
os p essen imen os de Ma ia dos P aze es, a qual muda ia o nome pa a Ma ia
dos Anjos39 (conc e izando a ligação ao di ino) de Lág imas Abençoadas, cons-
i uem indícios que con e em ao ela o uma coe ência, pois insis em no ópico
da desg aça e in elicidade das pe sonagens, c iando uma e dadei a e ó ica do
so imen o: a a-se de um p ocesso de epe ição mui o e icaz que ei e a soli-
damen e o pa hos omân ico (Fe az, 2011). Assim, impo a sublinha que, nas
ob as mencionadas mas não só, o conhecimen o an ecipado do u u o não impede
39
A mudança é assim e e ida pelo na ado : “Ma ia dos P aze es, ou dos Anjos como
a c isma am no con en o, pa a que o sob enome não osse uma alsidade, saiu do con en o
pa a uma pequena casa, onde seu ma ido a espe a a com a ace inundada de lág imas
elizes” (Cas elo B anco, 1878: 156).
“O que me adi inha o co ação”
151
o so imen o; an es pelo con á io – ele cons i ui um e o ço dessa peni ência po
signi ica o que a linguagem co en e designa po so e po an ecipação, a que
se jun a a angús ia po en a e i a esse des ino, como Lág imas Abençoadas
demons ou.
O co ação de mulhe es como Ma ia dos P aze es ou Ma iana é uma en a i a
de espos a humana à in ini a ince eza que é o amanhã. Po meio delas, Camilo
Cas elo B anco de ine u u o como “o p esen e pe pé uo da Di indade” (Cas elo
B anco, 1878: 61).
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