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«O que me adivinha o coração»: dizer o futuro em Lágrimas Abençoadas e Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco

Nobre, Ricardo Miguel Guerreiro

Abstract

O artigo explica como o escritor português Camilo Castelo Branco retrata personagens femininas com capacidade premonitória nos romances Lágrimas Abençoadas e Amor de Perdição. Depois de enquadrar a adivinhação num contexto histórico e cultural alargado, desde a Antiguidade, em que a previsão fazia parte da própria religião, e na prática linguística do português, somos levados a concluir que, na obra de Camilo, o coração é o principal órgão pelo qual Maria dos Prazeres antevê o seu suturo e pelo qual Mariana antecipa a perdição de Simão. No entanto, esta habilidade não permite às jovens mulheres impedir que o futuro aconteça nem sequer escapar do destino; assim, poderemos perceber que estas personagens sofrem ainda mais e que o amor romântico tem processos que o definem.

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riosLitera 20 Ano 2016 Fasc. 2 Estudos Literários Mulheres Proféticas na Literatura, História e Cultura umanidades Revista Portuguesa de H umanidades Revista Por tuguesa de H Estudos Literários VOL. 20-2 ANO 2016 AXIOMA  PUBLICAÇÕES DA FACULDADE DE FILOSOFIA UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais Mulheres Proféticas na Literatura, História e Cultura Maria José Ferreira Lopes (Org.) Copyright © 2016 Aletheia – Associação Científica e Cultural Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, armazenada num sistema de recuperação de informação, ou transmitida de qualquer forma, ou por quaisquer meios – electrónico, mecânico, fotocópia, gravado, ou de outra maneira, sem qualquer atribuição – sem a permissão prévia do editor. All rights reserved. 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LANGACKER, UNIVERSIDADE DE CALIFÓRNIA, SAN DIEGO RAMÓN ALMELA PÉREZ, UNIVERSIDADE DE MÚRCIA SANTIAGO LÓPEZ MOREDA, UNIVERSIDADE DE EXTREMADURA H Estudos umanidades Revista Portuguesa de Literários ÍNDICE Apresentação Mulheres Proféticas na Literatura, História e Cultura MARIA JOSÉ FERREIRA LOPES 910 Cassandra: carácter, discurso e espectáculo MARIA DE FÁTIMA SILVA 1136 “O demo lhes ensina tanto”. A alcoviteira nas comédias de Jorge Ferreira de Vasconcelos MARIA LUÍSA DE OLIVEIRA RESENDE 3750 El modelo de religiosidad femenina de la Tercera Orden Franciscana durante la Edad Moderna ALFREDO MARTÍN GARCÍA 5168 Dentro e fora do tempo: profecias femininas na Idade Moderna em Portugal ISABEL MORUJÃO 6996 Los Monasterios Femeninos en las Diócesis de la Provincia de León durante el Antiguo Régimen MARÍA JOSÉ PÉREZ ÁLVAREZ 97114 Sibilas: da Babilônia ao Brasil MARIA CLÁUDIA ALMEIDA ORLANDO MAGNANI 115138 “O que me adivinha o coração”: dizer o futuro em Lágrimas Abençoadas e Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco RICARDO NOBRE 139154 Os (des)encantos de Abril: a perspectiva de Natália Correia (25 de Abril de 1974 – 30 de Setembro de 1974) NATÁLIA NEVES DOS SANTOS 155172 Recensões 173176 Livros Recebidos 177180 Revistas Recebidas 181186 Revista Portuguesa de Humanidades | Estudos Literários, 20-2 (2016), 139-154 “O que me adivinha o coração”: dizer o futuro em Lágrimas Abençoadas e Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco RICARDO NOBRE Universidade de Lisboa, Centro de Estudos Clássicos Abstract The article explains how the Portuguese writer Camilo Castelo Branco depicts female characters with premonitory skills in his novels Lágrimas Abençoadas and Amor de Perdição. After placing divination in a broad historical and cultural context since Ancient times, where prediction was part of Religion itself, and in Portuguese linguistic practice, we realise that, in Camilo’s work, the heart is the main organ by which Maria dos Prazeres feels her own future in advance and by which Mariana foresees Simão’s disgrace. However, this ability does not allow these young women to prevent the future from happening nor that they can scape negative fate; so it means that these characters suffer even more and that Romantic love has its procedures. Keywords: fiction characters, premonition, Camilo Castelo Branco, Lágrimas Abençoadas, Amor de Perdição. 1. É muito antiga a ideia de que os deuses conhecem o futuro e que aos homens não é permitido sabê-lo senão por meio de sinais que podem ser adequadamente interpretados, sendo essa diferença a causa de um profundo desnível entre eles (o céu, o divino) e nós (a terra, o profano)1. Com efeito, desde a tradição mesopotâmica até à Alta Antiguidade é possível acompanhar um intenso e rico debate sobre a validade de oráculos, presságios, augúrios, da astrologia, aruspicina, piromancia – cada um destes termos constituindo a análise daqueles sinais em suportes diversos: das vísceras de animais às chamas do fogo. E cada povo tem a sua tendência favorita: Cícero testemunha que os Assírios preferiam interpretar os astros, enquanto os Cilícios eram hábeis a explicar o voo das aves; por seu lado, 1 Platão, O Banquete, 202e-203a; cf. A República, 364a-365a. Na bibliografia deste artigo, indicam-se traduções recentes (infelizmente nem sempre para português) em que se podem ler as obras clássicas referidas no corpo do ensaio. Revista Portuguesa de Humanidades | Estudos Literários 146 Castelo Branco em que esse poder é mais evidente é Mariana, personagem da obra-prima do Romantismo português, Amor de Perdição30 (1862). A filha de João da Cruz surge na história no momento em que Simão se encontra na casa do ferrador antes de ir uma segunda vez a Viseu ver Teresa. A primeira menção do narrador a Mariana concentra nela características físicas que se repetirão ao longo da obra – “formas bonitas, um rosto belo e triste”31. Antes de lhe reportar o discurso, o narrador descreve a forma como Mariana observa Simão, que a interroga sobre “a causa daquele olhar melancólico com que ela o fitava”. Corando, com “um sorriso triste”, a jovem responde oracularmente: “Não sei o que me adivinha o coração a respeito de Vossa Senhoria. Alguma desgraça está para lhe suceder…” (Castelo Branco, 2006: 135). Estas palavras contribuem de modo muito eficaz para caracterizar a personagem com vincos que fazem dela uma mulher profética. Esses contornos virão a ser repetidos, com variações, ao longo da narrativa, devendo notar-se a insistência do vocabulário empregue, em particular o coração de Mariana, que adivinha a desgraça futura de Simão32. Por conseguinte, pode afirmar-se que é o coração que diviniza a mulher, legitimando que nele se observe a capacidade de adivinhação que excede os sentidos, ou seja, a existência de um sexto sentido, ausente nos homens. Antes da saída de Simão para Viseu, tal como no resto do romance, Mariana, sem impedir a acção do protagonista, pergunta-lhe se “sempre é certo ir” e, à firmeza da resposta, ela encomenda-lhe que “Nossa Senhora vá na sua companhia” (Castelo Branco, 2006: 140). Depois disto, retira-se “para esconder as (isso mesmo admite Maria de Noronha, na segunda cena do acto II de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett). 30 Sobre a personagem, v. Castro (2006: 54-62; cf. ainda pp. 67 e 71). Consultar Sousa (2015: 33-37) para um “estado da arte” das opiniões sobre Mariana. O autor explica, numa visão psicanalítica (quase clínica), o comportamento da personagem literária, opondo-se à perspectiva geralmente positiva com que a crítica camiliana (Jacinto do Prado Coelho, Luciana Stegagno Picchio, Aníbal Pinto de Castro, Luís Amaro de Oliveira) a tem interpretado. Na citação de Amor de Perdição, utilizo a ed. Caixotim (v. bibliografia). 31 Castelo Branco, 2006: 135. Por seu lado, Teresa é apenas “regularmente bonita” (Castelo Branco, 2006: 108). O carcereiro, sobre Mariana dirá: “Esta é bem mais bonita que a fidalga!” (Castelo Branco, 2006: 212); Rita, a irmã de Simão, em carta, diz ela é uma “bela moça” (Castelo Branco, 2006: 217); o irmão de Simão “tinha reparado em Mariana, e da beleza da moça inferira para formar falsos juízos” (Castelo Branco, 2006: 254). 32 Mariana parece partilhar com João da Cruz este sentido premonitório: “há bocadinho que eu ouvi estar meu pai a dizer a meu tio (…) que tinha suas razões para saber que alguma desgraça lhe estava para acontecer (…) [p]or amor duma fidalga de Viseu” (Castelo Branco, 2006: 136). “O que me adivinha o coração” 147 lágrimas”. São estas breves manifestações que anunciam previamente os acontecimentos da narrativa: ao fugaz encontro entre Simão e Teresa (o único em que eles estão efectivamente juntos) segue-se uma retirada em que Simão é alvejado (Castelo Branco, 2006: 148), revelando que o coração de Mariana estava certo33. Nesta ocasião, João da Cruz mata os dois criados de Baltasar. Hospedado na casa do ferrador, Simão é tratado por Mariana, por meio de quem fica a saber os rumores sobre os mortos da noite anterior. Simão confessa “o mau encontro”, e Mariana diz: “E Deus queira que seja o último!… Tanto tenho pedido ao Senhor dos Passos que lhe dê remédio a essa paixão!… O pior futuro eu que ainda está por passar…”; Simão recusa o vaticínio e promete regressar a Coimbra enquanto Teresa “fica em sua casa”. Para que isto venha a acontecer, Mariana admite já ter prometido “dois arráteis de cera ao Senhor dos Passos”, mas confessa, como que antecipando a matéria diegética da obra: “não me diz o coração que vossa senhoria faça o que diz…” (Castelo Branco, 2006: 172). Ainda durante a convalescença de Simão, Mariana revela que o conhece desde o célebre episódio das bilhas quebradas na fonte, mas apenas o voltou a ver quando ele regressou de Coimbra com o arrieiro, irmão de João da Cruz. Nesse instante, Mariana declara: “já sabia que vinha para esta desgraça, porque tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar”. Simão desvaloriza, e Mariana insiste: “eu nunca sonhei nada que não acontecesse. Quando meu pai matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro noutro homem; antes de minha mãe morrer, acordei eu a chorar por ela, e mais ainda viveu dois meses… A gente da cidade ri-se dos sonhos, mas Deus sabe o que isto é…” (Castelo Branco, 2006: 173). As palavras de Mariana, que instituem o sonho (um dos processos de cancelamento da consciência racional) como meio privilegiado de prever o futuro34, concretizam-se na sequência imediata deste diálogo, com a chegada da notícia de que “O pai arrastou Teresa ao convento” (Castelo Branco, 2006: 174). Simão, num acesso de fúria, redige a Teresa uma carta cheia de animosidade, manifestando a imperiosa necessidade de a arrancar daquele 33 Por contraste, no dia a seguir ao acidente, Teresa não pressente que alguma desgraça tenha acontecido a Simão (“Deus permita que tenhas chegado sem perigo a casa dessa boa gente”), afirmando desconhecer “o que se passa”, admitindo porém que “há coisa misteriosa que eu não posso adivinhar”, facto induzido porque Tadeu de Albuquerque esteve “toda a manhã fechado com o primo, e a mim não me deixa sair do quarto”. Teresa atribui à vontade de Nossa Senhora a casualidade de ter sido possível enviar a carta por intermédio da pobre a quem ela dá esmola (citações de Castelo Branco, 2006: 156). 34 Plutarco entendia que era a forma mais antiga de adivinhação (Banquete dos Sete Sábios, 159a). Revista Portuguesa de Humanidades | Estudos Literários 148 local (Castelo Branco, 2006: 174-175). O ferimento, porém, impede-o para já de agir. Finalmente, também no período em que Simão esteve instalado na sua casa, João da Cruz e a filha apercebem-se de que ele está sem dinheiro e arranjam um estratagema para lhe entregar mais de onze moedas sem que ele as recusasse. Isto implica que o ferrador se ausente algum tempo, causando estranheza ao doente, que pergunta se João da Cruz estaria preso. Mariana responde com informação já conhecida: “Não mo diz o coração, e o meu coração nunca me engana”. É o momento de Simão aproveitar para perguntar: “E que lhe diz o coração a meu respeito, Mariana? Os meus trabalhos ficarão aqui?” Mariana hesita na resposta, mas à insistência de Simão acaba por revelar: “O meu coração diz-me que os seus trabalhos ainda estão no começo… / Simão ouviu-a atentamente, e não respondeu” (Castelo Branco, 2006: 181). A estada de Teresa num convento de Viseu era uma “retenção temporária” (Castelo Branco, 2006: 158), até vir a ingressar no convento de Monchique, no Porto. A menina avisa Simão da impossibilidade de comunicar com ele por causa da transferência (Castelo Branco, 2006: 186). A essa notícia, descontrolado pela fúria, Simão determina atacar a comitiva e capturar Teresa (Castelo Branco, 2006: 187); resolvido ao assalto, há uma ocasião em que a correspondência entre os amantes se faz por via de Mariana35, que chegará com a notícia de que nessa noite Teresa viajará para Monchique, acompanhada do primo Baltasar36. É essa informação que desencadeia a cólera de Simão. Momentaneamente chamado à razão por João da Cruz, o ímpeto do jovem parece ceder (Castelo Branco, 2006: 195); nessa noite, Simão escreve nova carta a Teresa, mas as lágrimas impediram-no de terminar, no instante em que aparece Mariana, que, “em voz abafada, como se a si mesma somente o dissesse”, adianta (Castelo Branco, 2006: 197): – É a última vez que ponho a mesa ao senhor Simão em minha casa! – Porque diz isso, Mariana? – Porque mo diz o coração. 35 Sobre o que Mariana sentiria por Simão para ser mensageira entre ele e Teresa, o narrador exclama: “Que anjo te fadou o coração para a santidade desse obscuro martírio!” (Castelo Branco, 2006: 187). 36 “É impossível fugir, e vou muito acompanhada. Vai o primo Baltasar e as minhas primas, e meu pai, e não sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho é uma loucura com resultados funestos” (Castelo Branco, 2006: 192). “O que me adivinha o coração” 149 Desta vez, o académico ponderou supersticiosamente os ditames do coração da moça, e com o silêncio meditativo deu-lhe a ela a evidência antecipada do vaticínio. Tal como na noite em que Simão foi ferido, Mariana tenta demovê-lo da empreitada; sem que tal seja possível, ela encomenda-o a Deus. Pouco depois, para que João da Cruz não arriscasse segui-lo, Simão mente ao ferrador, dizendo não sairá ao encontro de Teresa: “Mariana, submissa sempre ao que o seu coração lhe bacorejava, duvidou da mudança” (Castelo Branco, 2006: 198) e, quando Simão sai furtivamente, Mariana despede-se e roga para ele, mais uma vez, protecção divina: “Eu fico pedindo a Nossa Senhora que vá na sua companhia”. O narrador direcciona a atenção para o interior do protagonista: “ouviu a voz íntima que lhe dizia: – «O teu anjo-da-guarda fala pela boca daquela mulher, que não tem mais inteligência que a do coração, alumiada pelo seu amor»” (Castelo Branco, 2006: 198). Como se apontou, desde o início que Mariana vem adivinhando que Simão caminhava para a perdição, deste modo assegurando a unidade temática da obra em torno do sofrimento experimentado pelas três personagens centrais. No entanto, só a partir deste ponto da diegese os presságios de Mariana (praticamente reduzidos a anúncios agourentos) começam a tornar-se realidade: o momento da mudança é aquele em que Simão assassina Baltasar. Condenado ao degredo, até à partida, permanece preso na cadeia da Relação do Porto, com o amparo providencial de Mariana, a quem chama anjo (Castelo Branco, 2006: 254 e 297), característica que, uma vez mais, a aproxima da divindade37. Quando João da Cruz38 é assassinado, Mariana está na cadeia a servir Simão. É a tia dela quem escreve a dar a notícia. Antes de abrir o sobrescrito, Mariana empalidece e faz uma pergunta que é igualmente indicativa do seu pressentimento: “Meu pai morreria?” (Castelo Branco, 2006: 265). A partir daqui, a acção precipita-se rapidamente para o fim: todas as personagens que tiveram algum protagonismo na obra encontram a morte. Sem pai, Mariana oferece-se para ir como acompanhante de Simão para a Índia, apesar da advertência de que ele não poderia amá-la: “O espírito de Mariana não podia altear-se à expressão do preso; mas o coração adivinhava-lhe as ideias” (Castelo Branco, 2006: 270). 37 Embora em dado passo, João da Cruz afirme, mas não sem humor, que a rapariga é “da pele de Satanás” (Castelo Branco, 2006: 249). 38 Esta personagem também adivinha a proximidade do momento da morte (capítulo XVII), com evidentes sintomas somáticos. Revista Portuguesa de Humanidades | Estudos Literários 150 No capítulo XX, Simão está de partida da barra do Douro e, diante do convento, “viu um rosto e uns braços suspensos das reixas de ferro; mas não era Teresa aquele rosto: seria antes um cadáver que subiu da clausura ao mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura”. Mariana confirma que se trata de Teresa, que expira nesse momento; o narrador acrescenta de imediato que a filha de João da Cruz ouviu “o seu coração dizer-lhe que a alma do condenado iria breve no seguimento daquela por quem se perdera” (Castelo Branco, 2006: 286). Como sempre, o coração de Mariana não mentiu nem se enganou. No capítulo de “Conclusão”, muito doente, Simão deixa descair a cabeça no seio de Mariana e declara: “O Anjo da compaixão sempre comigo!” (Castelo Branco, 2006: 295), vindo a morrer ao largo de Gibraltar, cumprindo-se o último pressentimento do coração de Mariana. Para concluir, parece fundamental observar que este poder de Mariana não é considerado por nenhuma personagem nem pelo narrador como profecia ou vaticínio. Na verdade, este vocabulário está quase ausente do romance, excepto quando se referem, a propósito do futuro de Teresa e Simão, “os vaticínios das profetisas” do convento de Monchique, que antecipavam o futuro em termos que não se vão realizar: “Simão sairia da cadeia, Tadeu de Albuquerque morreria de velhice e de raiva, o casamento seria um acto indisputável, e o céu dos desgraçados principiaria neste mundo” (Castelo Branco, 2006: 272). No Romance dum Homem Rico, este tipo de adivinhação, próxima da bisbilhotice e por isso não se confunde com os pressentimentos de Mariana, também é referida ironicamente: “como fosse notório e vulgar o amor de Álvaro a Leonor, já diziam os arúspices, atarefados em prognosticar a vida alheia, que as segundas núpcias da morgada pobre com o filho único do banqueiro Macedo seriam espectáculo de pouca delonga e muita graça” (Castelo Branco 1992: 162). Em termos narrativos, as intervenções divinatórias de Mariana, bem como os pressentimentos de Maria dos Prazeres, a qual mudaria o nome para Maria dos Anjos39 (concretizando a ligação ao divino) de Lágrimas Abençoadas, constituem indícios que conferem ao relato uma coerência, pois insistem no tópico da desgraça e infelicidade das personagens, criando uma verdadeira retórica do sofrimento: trata-se de um processo de repetição muito eficaz que reitera solidamente o pathos romântico (Ferraz, 2011). Assim, importa sublinhar que, nas obras mencionadas mas não só, o conhecimento antecipado do futuro não impede 39 A mudança é assim referida pelo narrador: “Maria dos Prazeres, ou dos Anjos como a crismaram no convento, para que o sobrenome não fosse uma falsidade, saiu do convento para uma pequena casa, onde seu marido a esperava com a face inundada de lágrimas felizes” (Castelo Branco, 1878: 156). “O que me adivinha o coração” 151 o sofrimento; antes pelo contrário – ele constitui um reforço dessa penitência por significar o que a linguagem corrente designa por sofrer por antecipação, a que se junta a angústia por tentar evitar esse destino, como Lágrimas Abençoadas demonstrou. O coração de mulheres como Maria dos Prazeres ou Mariana é uma tentativa de resposta humana à infinita incerteza que é o amanhã. Por meio delas, Camilo Castelo Branco define futuro como “o presente perpétuo da Divindade” (Castelo Branco, 1878: 61). Referências Castelo Branco, Camilo (1878). 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