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Memória de célebres apaixonados como património cultural português e ibérico no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende

Abstract

Algumas das primeiras referências poéticas que conhecemos de certas figuras mitificadas que fazem parte do património cultural português e ibérico encontram-se no Cancioneiro Geral. Concretamente abordamos aqui casos como os de Macias, O Namorado, celebrizado como poeta e amante; D. Pedro e Inês de Castro, unidos por um amor que ultrapassou os interesses políticos e a própria morte; D. João II, o Príncipe Perfeito, que aparece transformado em Juiz e Deus de Amor; e o Príncipe D. Afonso, morto prematuramente durante a celebração do seu casamento e chorado pela sua viúva D. Isabel, filha dos Reis Católicos.

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Memória de célebres apaixonados como património cultural português e ibérico no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende

Author: Morán Cabanas, Maria Isabel
Publisher: Associação Brasileira de Estudos Medievais
Year: 2012
Source: https://minerva.usc.es/bitstreams/3fa509ef-8d81-40e3-9928-852860c6aa0e/download
Re is a Signum, 2012, ol. 13, n. 2.
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MEMÓRIA DE CÉLEBRES APAIXONADOS COMO
PATRIMÓNIO CULTURAL PORTUGUÊS E IBÉRICO
NO CANCIONEIRO GERAL DE GARCIA DE RESENDE
MEMORY OF FAMOUS PASSIONATES AS PORTUGUESE AN
IBERIAN CULTURAL HERITAGE IN THE CANCIONEIRO GERAL
OF GARCIA DE RESENDE
Ma ia Isabel Mo án Cabanas
1
Uni e sidade de San iago de Compos ela
Resumo: Algumas das p imei as e e ências
poé icas que conhecemos de ce as igu as mi i-
icadas que azem pa e do pa imónio cul u al
po uguês e ibé ico encon am-se no Cancionei o
Ge al. Conc e amen e abo damos aqui casos
como os de Macias, O Namo ado, celeb izado
como poe a e aman e; D. Ped o e Inês de Cas o,
unidos po um amo que ul apassou os in e es-
ses polí icos e a p óp ia mo e; D. João II, o P ín-
cipe Pe ei o, que apa ece ans o mado em Juiz
e Deus de Amo ; e o P íncipe D. A onso, mo o
p ema u amen e du an e a celeb ação do seu
casamen o e cho ado pela sua iú a D. Isabel,
ilha dos Reis Ca ólicos.
Pala as-cha e: Cancionei o Ge al, pa imónio,
Po ugal.
Abs ac : Some o he i s poe ic e e ences
known o us o ce ain my hical igu es be-
longing o he Po uguese and Ibe ian cul u al
pa imony can be ound in he Cancionei o
Ge al. We deal he e speci ically wi h such cas-
esasMacias,“ heg ea lo e ”,celeb a edas
poe and lo e ; D. Ped o and Ines de Cas o,
uni ed by a lo e ha su passed poli ical in e -
es s and e en dea h; D. João II, he Pe ec
P ince, ep esen ed as Judge and God o Lo e;
and he P ince D. A onso, p ema u ely dead
and mou ned by his widow D. Isabel, daugh-
e o he Ca holic Mona chs
Keywo ds: Cancionei o Ge al, pa imónio, Po -
ugal.
Recebido em: 14/10/2012
Ap o ado em: 13/12/2012
1
E-mail: [email protected]
Re is a Signum, 2012, ol. 13, n. 2.
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Aqueles que bem ama am
e lealmen e se i am
no passado
ama de si os leixa am,
polas penas que sen i am
e cuidado.
Gil Moniz
Quando ainda os ca ac e es mó eis ou le as de o ma acaba am de se in-
oduzidas em Po ugal, imp imiu-se no ano de 1516 o Cancionei o Ge al de Ga cia
de Resende, as a compilação da p odução e si ica ó ia das co es po uguesas
du an e um pe íodo comp eendido en e a segunda me ade do século XV e os
p imei os dezasseis anos do seguin e, co esponden es ao einados de D. A onso
V, D. João II e D. Manuel I. Acede ao imaginá io que se ence a em ais coo -
denadas espaciais e sociais exige a pe ceção dos ex os não apenas como uma sé ie
a ulsa de o as e can igas eunidas pa a as p ese a da usu a do empo, mas
sob e udo como um meio ou e amen a e icazmen e u ilizá el na emp esa da
magni icação de um pode . Nes e sen ido, a o ganização e seleção do ma e ial
poé icoeop ólogo edigidopo Ga ciadeResendeededicadaao“P íncipe,Nos-
soSenho ”( u u o eiD.JoãoIII),assimcomoce aspa icula idadesg á icas(a
simbologia he áldica en ol e o Cancionei o de p incípio a im), ganham um espe-
cial ele o
2
. São elemen os que êm ma ca , sela , con i ma de o ma isí el a na-
u eza co esã da ob a.
Seguindo o exemplo de ou os einos ibé icos e ul api enaicos com que o
país man inha es ei as elações e onde o e si ica cole i o alcança a um ex ao -
diná io sucesso como p o a de equin e e passa empo palaciano, ambém em Po -
ugal as es as ou os amosos se ões celeb ados na Co e consolidam ou ac escen-
am o seu b ilho. Nese cí culo palaciano pa icipa-se de uma ida de luxo e g an-
deza: o ganizam-se caçadas, ou os, canas, jus as, o neios e jogos de dados, de
ca asede“ a olasde odasmanei as”;assimcomoseassis eamúsicas,can os,
2
Como pó ico da ob a encon amos a co oa, a se pe alada, os cas elos e as quinas. E, ainda, a ce -
cadu a com a es e a a mila e a di isa Spes mea in Deo Meo. En e os mo i os ege alis as, des acam
cinco igu as de pu i alados - dois dos quais empunham um a co e lecha. Fechando a ob a as a -
mas de Resende: as cab as do escudo e a do imb e no in e io de uma ce cadu a pa ecida à p i-
mei a (F azão, João Ama al, En e T o a e Tu a : A Encenação da Esc i a e do Amo no Cancionei o
Ge al, ed. Inqué i o, Lisboa, 1993, p. 14 e Al es, Ana Ma ia, As en adas égias po uguesas. Uma isão
de conjun o. Lisboa: Li os Ho izon e, sd., p. 20.
Re is a Signum, 2012, ol. 13, n. 2.
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danças, encenações, momos, en emezes e imp o isos poé icos. Esquece-se, po -
an o, a denúncia ou ep o ação que lança a o aus e o D. Dua e algumas décadas
a ás, quando lhes a ibuía a ais celeb ações e di e imen os o elaxamen o ou a é
en o pecimen o da au ên ica o aleza e do espí i o o e e ca alei esco no seu Li-
o de Bem Ca alga oda sela. Po decisão e ação égias as a es e as le as en am
ago anumpe íododec escen eesplendo eos en ação:“a is asnacionaisees-
angei os ope am uma eno ação no campo da a qui e u a e da escul u a; da pin-
u a, da iluminu a e da música; da ou i esa ia, da apeça ia, da a e da imp es-
são”
3
.
Na e dade, como já em opo unamen e assinalado And ée C abbé Rocha
4
,
a edição do Cancionei o Ge al ul apassa a me a de e minação indi idual ou pa i-
cula de Ga cia de Resende, co espondendo a um desejo da p óp ia mona quia. A
pa das magni icen es ob as a qui e ónicas que naquela al u a se edi ica am em
Lisboa em homenagem às descobe as e pa a se i de es emunha de g andeza,
al como a cons ução do Mos ei o dos Je ónimos ou a To e de Belém, a o ga-
nização e publicação do Cancionei o Ge al pa ece in eg a -se num clima de exal-
ação nacionalis a que se i ia em Po ugal e que o compilado exp ime com an a
eemência nas linhas p ologais. Os po ugueses p ecisa am, nessa conjunção his-
ó ica en ão i ida, a i ma a sua legi imidade cul u al e a colec änea em oco i ia
cons i ui ou o monumen o (aqueles em ped a, es e em le as) isí el e du a-
doi o.
Tal ob a e ia de cons i ui mais um desa io, mais ou o p oje o capaz de
conco e ou i aliza com os einos es angei os. E, de ac o, oi pa icula men e a
publicação do Cancione o Gene al de muchos y di e sos au o es de He nando del Cas-
illo (Valencia, 1511), que animou Ga cia de Resende a emp eende nas e as lu-
sas uma a e a simila ao longo dos cinco anos seguin es - a compilação po -
uguesa ambémé“ge al”e,embo anãoseexplici eno í ulo,de“mui osemui o
di e sos au o es” ( ezen os, ap oximadamen e). Fácil é, aliás, conje u a como
Ga cia de Resende e e a opo unidade de e , manusea , le a ob a do eino izi-
nho e nela se inspi a pa a a elabo ação de uma compilação análoga. Alguém que
em Cas ela o i esse conhecido, podê-lo-ia e azido a Po ugal po in e esse pes-
soal ou po que algum compa io a, sabedo da sua exis ência, se p eocupa a em
3
Dias, Aida Fe nanda, Cancionei o Ge al de Ga cia de Resende (A Temá ica). Maia: Imp ensa Nacional-
Casa da Moeda, 1998, ol. V, p. 23.
4
Ga cia de Resende e o Cancionei o Ge al, ICALP, Lisboa, 1979, p. 9.
Re is a Signum, 2012, ol. 13, n. 2.
4
possuí-lo; ou, en ão, qualque cas elhano, equen ando a co e po uguesa, se ia
p op ie á io de um exempla .
Nes e pe íodo de inais da Idade Média o na a-se p eciso a i ma e de-
mons a o alen o cul u al e li e á io do país no seio da Eu opa, c ia , can a e
p es igia os p óp ios mi os ou ap op ia -se e explo a li e a iamen e os p óximos,
con ibuindo em odos os casos pa a o o alecimen o do p es ígio nacional
5
. Lem-
b e-se que Ga cia de Resende ec imina no p ólogo a a i ude dos seus con e -
âneos pe an e as açanhas que le am a cabo, denunciando o esquecimen o a que
es as são subme idas, pois os po ugueses não alam nem esc e em sob e elas, a-
pesa de e em melho assun o pa a se anglo ia do que os p óp ios g egos e o-
manos. O compilado decla a a sua in enção de queb a , embo a modes amen e,
al“ icio”a imdequenãoseapaguemdamemó iace as igu asilus ese alo-
es da sua pá ia. A pa i da ó mula e ó ica da cap a io bene olen iae, mani es a o
seu p opósi o de a qui a em o ma imp essa apenas as coisas de olga (sá i a) e as
gen ilezas (amo ) como um p imei o passo que si a pa a incen i a alguns ou os
au o es com mais do es e alen o a abo da li e a iamen e os ou os sucessos de
maio alcance (que dize , os da emp esa ul ama ina):
E, po que, Senho [P íncipe D. Joao III], as ou as cousas sam em si am
g andes que po sua g andeza e meu aco en ende nam de o de oca ne-
las,nes a,queéasomenos,po emalgũapa esa is aze aodesejoquesem-
p e i ede aze algũacousa em que Vossa Al eza osse se ido e omasse
desen adamen o,de e mineiajun a algũasob asquepudeha e d'ʹalgũs
passados e p esen es e o dena es e li o, nam pe a po elas mos a quaes
o am e sam, mas pa a os que mais sabem s' espe a em a olga d' esc e e e
5
His o iado es e an opólogos êm-se ap oximado da noção de ama como aspi ação de comuni-
dades ou indi íduos dessas comunidades, obse ando as suas mani es ações a a és de di e en es
épocas e cul u as a im de pe cebe as suas peculia idades e os seus condicionan es. Na e dade,
embo a se a e de um enómeno omnip esen e, as suas a ian es são ealmen e signi ica i as, a é
no seio de uma mesma adição cul u al. Uma ob a que se o nou pon o de e e ência nes e campo
é a de Ma ía Rosa Lida de Malkiel, La ideal de la ama en la Edad Media cas ellana (México: Fondo de
Cul u a Económica, 1952), na qual se analisa como a a és da An iguidade Clássica, da Idade Mé-
dia e dos al o es da Renascença, é possí el obse a impo an es mudanças. Assim, é necessá io
dis ingui en e uma Idade Média que o ien a a ida do homem pa a o além, endo com desp ezo
a ânsia de ama coe ânea e pós uma, e uma Idade Média ca alei esca e co esã, egida po ou os
ideais. Po sua ez, o espí i o humanis a e a exal ação das le as an igas i ão o alece o desejo de
gló ia e o a is a já não se con o ma á com se um ocei o impesoal de san os, chamando a a enção
pa a si e pa a o seu espaço i al e/ou social.
Re is a Signum, 2012, ol. 13, n. 2.
5
aze aa memo ia os ou os g andes ei os, nos quaes nam sam dino de me-
e a mão ( ol. I)
6
.
Os dois g andes blocos emá icos do Cancionei o Ge al são, com e ei o, essas
coisas de olga e as gen ilezas, cuja exp essão não di e e em g ande medida da que
ca ac e iza o li ismo o ado esco galego-po uguês de o igem p o ençal, mas in-
oduz com mui a o ça a in luência da li e a u a cas elhana ecolhida nos cancio-
nei os de Qua ocen os e alguns mo i os de no a inspi ação que mesmo se o na-
ão clichés na Renascença, deixando en e e um humanismo incipien e e apenas
algumas en a i as de epopeia. A é se anuncia um Ba oco cheio de sub is concei-
os e a i ícios, de pa adoxos, de amos as de engenhosidade e deslumb an es hi-
pé boles, de an í eses iolen as e de signi icados in encionadamen e obscu os, a-
penas acessí eis pa a uma es ingida eli e de en endedo es. Pa a além de se e-
ela como um p ecioso documen o no que diz espei o à his ó ia dos cos umes, a
cole ânea o ganizada po Ga cia de Resende ep esen a uma pon e en e passado,
p esen e e u u o na a e poé ica
7
.
No que diz espei o ao a amen o de ce as igu as mi i icadas no Cancio-
nei o Ge al, in e essa-nos obse a sob e udo como nele pe passa a somb a dan es-
ca da Di ina Comédia, ob a-p ima da li e a u a ociden al que deu o igem à alego-
ias in e nais. E oca-se ali, de um modo esboçadamen e d amá ico, a oz de além-
úmulo, apa ecendo assim o ópico da descida ao in e no despojado do seu sen i-
do eligioso e como um modelo pa a a análise da expe iência amo osa e a é da
(quase) cons an e ligação Amo / Mo e. É es e o caso das o as compos as à mo -
e de Inês de Cas o ( ol. IV, nº 81), compos as pelo p óp io compilado quando
inha passado bem mais de um século da mo e da p o agonis a em 1355. Em ais
6
Todos os ex os da compilação po uguesa que ansc e emos ao longo des as páginas seguem a
edição ín eg a le ada a cabo po Aida Fe nanda Dias. Pa a a ci ação de e sos indicamos em cada
caso o núme o de olume co esponden e, assim como o da composição a que pe encem (Cancio-
nei o Ge al de Ga cia de Resende. Maia: Imp ensa Nacional-Casa da Moeda, 1991-1993, 4 ols.).
7
Os au o es usa am a adição e ino a am-na com elemen os de in en i idade e c ia i idade, a-
b indo no as possibilidades es é icas e explo ando inclusi e a exis ência ma e ial do ex o ( isual)
a a és de ecu sos que chega ão a se especialmen e pos as em des aque na poesia conc e is a e
expe imen alis a do século XX., al como sublinha Ge aldo Augus o Fe nandes na sua Tese de
Dou o ado sob e "O amo pela o ma no Cancionei o Ge al de Ga cia de Resende", de endida em
2011 na Uni e sidade de São Paulo ou no a igo “NoCancionei o Ge al de Ga cia de Resende, a
c ia i idadepalacianaemFe nãodaSil ei a”.Labi in os. Re is a Elec ônica do Núcleo de Es udos
Po ugueses, nº 3, 1º semes e de 2008 (h p://www.ue s.b /nep/labi in os/, al como oi cap u ado
em 3 de agos o de 2010).

Re is a Signum, 2012, ol. 13, n. 2.
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e sos depa amos com uma Inês mi i icada e com oz p óp ia, a qual nos ela a,
de o masingelae imada,asuahis ó ia.Desde“eue amoça,menina”,passape-
lo enamo amen o do P íncipe D. Ped o e lemb a pa icula men e as es a égias
com que en ou muda a decisão égia de ma á-la: as lág imas e a insis ência na
sua condição de mulhe desp o egida e mãe.
Os ogos e as súplicas de Inês como um se leal e inocen e chega am a a-
b anda os ânimos do mona ca A onso IV, mas ela pe cebe que nada pode á a-ze
con a a i me esolução dos conselhei os, escudada em azões de Es ado. Uma
oz in e io e ela-lheànob egalegaqueoseudesas ees ámesmope o:“que
os ca alei os que a a essam os campos do Mondego, di igindo-se pa a os seus
paços,i ãose ins umen odasuades uição”
8
. Assume, assim, o es a u o de pe -
sonagem ágica que, mais a de, An ónio Fe ei a desen ol e á na sua peça ea-
al A Cas o (publicada em 1587) a a és do elemen o do agoi o ou p es-
sen imen o de desg aça:
Como as cousas qu´ ham-de se
logo dam no co açam,
comecei en es ice ,
e comigo soo dize :
- Es es homeens donde i am?
E an o que p egun ei,
soube logo que e a El-Rei.
quando o i am ap essado,
meu co ação espassado
oi que nunca mais alei!
(ibidem)
Aliás, p es a-se ambém uma especial a enção ao des io da esponsa-
bilidade do ei A onso IV pe an e es a mo e, ec iando inclusi e as pala as ei-
mosas dos conselhei os em es ilo di e o, com as quais se p e ende lemb a ao ei
as suas ob igações e de e es como p o e o dos in e esses do seu po o:
Se a logo nam ma ais,
nam se eis nunca emido
nem a am o que mandais,
pois am cedo os mudais
do conselho qu' e a ha ido.
Olhai quam jus a que ela
8
Dias, Aida Fe nanda, Cancionei o Ge al de Ga cia de Resende (A Temá ica), p. 299.
Re is a Signum, 2012, ol. 13, n. 2.
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endes, pois po amo dela
osso ilho que es a
sem casa e nos que da
mui a gue a com Cas ela.
(ibidem)
O co ação da amada do p íncipe D. Ped o é espassado pelas espadas e
ou imos Inês de Cas oexclama ,an esdedesce aomundodosmo os:“T is e
de mim, inocen e, / que po e mui o e en e / lealdade, ee, amo / ò P incepe,
meusenho ,/mema a amc uamen e”(ibidem). As imp essões de agédia e in e-
licidade su gem no espí i o de odos os que leem es as o as que Ga cia de Re-
sende di ige às damas da Co e, sendo p ecisamen e com elas que a maio ia dos
o ganizado es de an ologias do Cancionei o Ge al ilus a al caso de amo e mo e.
Mas, se le mos a en amen e, con o me de emos, o es o da composição, e-
emos que o au o se di ige às senho as p ecisamen e pa a a as a dos seus es-
pí i os qualque eceio ou suspeição pe an e as paixões e pa a lhes mos a , den o
do código de amo co ês, qual é o e dadei o gala dão: uma mo e apenas ísica.
Inês pe deu a ida, que odos pe demos mais a de ou mais cedo; mas ganhou
mui o mais: iu-se co oada ainha pos -mo em, sendo assim decla ada em odos os
es amen os de D. Ped o, que sadicamen e ingou o c ime; os seus ilhos o am in-
an es e deles descende am os p incipais eis de Po ugal, de Cas ela e dou as
pa es da Eu opa
9
. E, ainda, a sua paixão icou pe pe uada nos sump uosos úmu-
los que mandou cons ui em Alcobaça e oi p oje ada pelos séculos a o a sob múl-
iplas dimensões. Ga cia de Resende insis e, po an o, nos alo es da imo alidade
eda amacomoamelho das ecompensaspa aos“ inos”enamo ados:
Em odos seus es amen os
9
Pa a a lei u a e in e p e ação des as o as consul e-se pa icula men e o es udo já ci ado de Aida
Fe nanda Dias, Cancionei o Ge al de Ga cia de Resende (A Temá ica), p. 301. Quan o aos g aus de in-
culação de Inês de Cas o às casas einan es que se mencionam no ex o, pe mi a-se-nos aze à
memó ia as seguin es ci cuns âncias: a sua ilha, a in an a Bea iz, con aiu ma imónio com San-
cho de Albuque que e de al união nasceu D. Leono , Condessa de Albuque que, que casou com D.
Fe nando I de A agão. Es es o am os pais dos chamados In an es de A agão. Den e os á ios
ilhos indos de al enlace in e essa-nos lemb a sob e udo A onso, Juan e Leono , pois os ês o-
cupa am o ono. O p imei o sucedeu ao p ogeni o , sendo conhecido como A onso V de A agão, o
Magnânimo, que oi ao mesmo empo ei de Nápoles. Po que aleceu sem ilhos, a co oa passou
pa a o seu i mão Juan (II), ei de Na a a e de A agão. E, a e cei a das mencionadas, casou com D.
Dua e, ei de Po ugal. En im, Ga cia de Resende az e e ência explíci a à descendência de Inês de
Cas o e ao pa en esco es abelecido po di e sos laços nupciais a a és do empo, a ando de legi-
ima e p es igia assim a paixão en e ela e o P íncipe D. Ped o.
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a dec a ou po molhe
e po s'is o melho c e
ez dous icos moimen os
em qu'ambos e eis jaze :
ei, ainha, co oados,
mui jun os, nam apa ados,
no c uzei o d'Alcobaça.
Quem pode aze bem aça,
pois po bem se dam ais g ados.
(ibidem)
Po ou o lado, as elações de Ped o e Inês possuem oda a con igu ação e
odos os ing edien es consubs anciais à p oli e ação de omances com boas doses
de e abulação que p eenchem as lacunas de memó ia, ep oduzem, imi am, ans-
o mam ou con e gem com ou os casos de elações humanas. Nes e sen ido, os
e sos comuns, as si uações e ocadas, os ges os e a i udes, e o a amen o a ís ico
do ex o pe mi em a i ma que algum omance (po uguês ou cas elhano) que ci -
cula a naquela época pode ia se ex emamen e amilia pa a Ga cia de Resende.
Na e dade, es amos pe an e um caso de in e ex ualidade que já es udiosos do
omancei o peninsula como Menéndez Pelayo, Teó ilo B aga ou Ca olina Mi-
chaëlis se dedica am a in es iga , endo em con a sob e udo as suas simili udes
com“G i ando aelcaballe o”ou“Yom´es andoenCoimb a/ap aze yabel
pesa ”.
As in es igações des es e ou os pe mi i am-nos descob i que exis i am
omances p imi i os ou can a es elhos em cas elhano sob e os amo es da dama
galega com o in an e po uguês, mas em nenhum deles se alude de o ma explíci a
ao las imoso caso, o que não signi ica que não enham exis ido
10
. Mais ecen-
emen e, Pa izia Bo a conside a o Cama ei o-Mo D. João Manuel como au o do
p imei o dos omances que mencionamos, ecolhido em edições do Cancione o Ge-
ne al de He nando del Cas illo, sob a au o ia de D. Juan Manuel, em oman-cei os
e pliegos suel os. A pa i de uma pe spicaz in e p e ação simbólica, a i ma que ais
e sos o am inspi ados nos amo es de Inês de Cas o, cujo nome es a ia he me i-
camen e ocul o sob as cinco le as iniciais de cas aña, segundo eza o o-mance. A
10
Vasconcelos, Ca olina Michaëlis. Es udos sob e o omancei o peninsula . Romances elhos em Po u-
gal. Po o: Lello e I mão, 1980, pp. 88-91.
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9
especialis a i aliana eme e-nos pa a a adução do adje i o g ego agné, que é o
é imo do nome la ino AGNES, do qual de i a INÊS
11
.
Aliás, pa ece que an o Ga cia de Resende, quan o Gil Vicen e quando
compõe a sua Fa sa dos Almoc e es, inham em men e os e sos do segundo dos o-
mances, bem conhecido de homens cul os do país e p esen e de o ma agmen-
á ia no Chansoniie Masson 56 da Biblio hèque des Beaux-A s de Pa is, um ma-
nusc i o poé ico-musical do século XVI, ilingue (po uguês, cas elhano e la im)
em que se descob e a mão de copis as po ugueses, com os usos linguís icos que
são equen es em ex os cas elhanos. Em 1526, ap oximadamen e dez ou onze
anos após a edação das o as de Resende, o Mes e Gil compôs a peça men-
cionada. O capelão que apa ece na a sa ao se iço de um pob e e o gulhoso idal-
go queixa-se da sua so e e en a ali ia as suas p eocupações glosando (que di-
ze , con a azendo, emedando, pa odiando...) o omance “Yo me es a a em
Coimb a”,ondepodemosobse a exp essões co ela i as à ala que Ga cia de
Resende põe em boca de Inês. Coimb a é a cidade onde se si ua a peça e onde a
memó iadaquela“míse aemesquinha”pe manecemais i a– a glosa, que ala
de omes, de ausências de alimen os, pode e sido can ada, com ou sem acompa-
nhamen o de música.
Aliás, de e-se lemb a aqui o c uzamen o da his o ia inesiana com o caso
de Leono Núñez de Guzmán (li e a u izada como Isabel de Lia ), aman e do ei
A onso XI de Cas ela du an e in e anos e do qual e e cinco ilhos – conc e-
amen e o p imogéni o, Hen ique de T as âma a, dispu ou o ono ao seu meio-
i mão D. Ped o de Cas ela, conseguindo cingi a co oa como Hen ique II. Após a
mo e do seu aman e, a condessa Leono o nou-se p isionei a da ainha iú a D.
Ma ia e ainda con inuou a exe ce o seu pode polí ico a é que, segundo dizem as
c ónicas, es a a mandou assassina em 1353, pouco empo an es de se i ada a i-
da a Inês de Cas o.
A con iguidade geog á ica e a con empo aneidade dos casos p o oca am
ex os híb idos que chega am aos nossos dias. Mui o embo a se egis em ce as
mudanças quan o aos luga es da ação ou aos nomes das pe sonagens, assim como
algumas incong uências, neles descob e-se com acilidade a con aminação de ais
amo ese agédiaspeninsula es.Come ei o,no omance“Yomees andoenGi-
11
“Una ombaemblema icape unamo ainco ona a.Le u adel omanceG i ando a el caballe o”.
Cul u a Neola ina, XLV, 1985, 201-295 o “Sul `sabo a omance´ delle T o as di Resende”.In:Lancas-
e, Ma ia José e al. (o g.), E ós, ágides minhas. Miscellanea in ono e di Luciana S egagno Picchio.
Lucca: Mau o Ba oni Edi o e, 1999, pp. 169-180.
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o ma de p ocesso judiciá io, em es ilo discu si o e numa linguagem ca ac e izada
pela gí ia e pelas ó mulas o enses pa a deba e sob e uma das sin oma ologias
do aman e an es comen ada: qual a i ude supõe um maio o men o? É o cuida
em silêncio (a in ospeção), ou é o sospi a ? ( ol. I, nº I). Realizam-se dois julga-
men os: o p imei o p esidido po Liono da Sil a, di a da Co e; e o segundo, o o-
mado como de ini i o, pelo Deus de Amo , sob o qual apa ece ans igu ada a
imagem de D. João II, alcunhado como o P íncipe Pe ei o
21
.
Com e ei o, na poesia dos cancionei os peninsula es do século XV es abe-
lece-se com equência a ligação en e amo e e eno égio (co e de Amo ), amo
e campo ju ídico (plei o de amo , es amen o de amo ...) e amo e eligiosidade
(c uzada, o ação de amo , missa de amo ...), ês dimensões que apa ecem p oje-
adas na composição cole i a do Cuida e Suspi a . Rei, Juiz e Di indade são as a-
ces de D. João II que se e ocam nes a es a palaciana a a és da ep esen ação de
um Deus de Amo . E iden emen e, não depa amos aqui com a ca ac e ização de
Cupido como um pu o, uma c iança com asas, a mada com a cos e se as e com os
olhos cobe os. A o mulação pla ónica em elação ao aman e que se cega, pelo
que julga e oneamen e o jus o e hon oso ( e e ida na li e a u a clássica como cae-
cus amo ou caeca libido) apa ece nou as composições do Cancionei o Ge al, mas não
encaixa em al ce ame poé ico
22
. Ago a a imagís ica baseia-se em ex os da épica-
21
À memó ia do P íncipe Pe ei o e sob e as excelências dos eis po ugueses da mona quia de
A is compuse am e sos Diogo B andão ( ol. II, nº 333) e Luis Hen iques ( ol. II, nº 367). O p i-
mei o ap esen a-o como p o ó ipo dos eis indou os, como exemplo de pe ei o homem, c is ão e
go e nan e, assim como se sublinha a sua ama de san idade, a qual se inha espalhado po e sido
encon ado o seu co po inco up o, exalando sua es odo es ao im de qua o anos, quando o am
le ados os seus es os da Sé de Sil es à Ba alha (1499). O segundo ambém chama a a enção pa a
es e caso milag oso, lemb ando como a p óp ia mo e con ibuiu pa a aumen a a gló ia da sua
ida e ena, não conseguindo a i ó ia sob e o co po. Es es e ou o ex os, como o de Ga cia de
Resende, no ela o da T esladaçam do co po do mui ca olico e magnanimo e es o çado Rei D. Ioam o se-
gundo, ei indicam inclusi e a sua san idade, es abelecendo assim ce o pa alelismo com a a i ude
de Fe não Lopes no que diz espei o a D. João I, o Mes e de A is, pa a jus i ica a sua ocupação do
ono apesa da sua o igem bas a da (c . Dias, Aida Fe nanda, Cancionei o Ge al de Ga cia de Resen-
de (A Temá ica), pp. 163-165).
22
Ga cia de Resende euniu á ios ex os que se ligam ao binómio isão alegó ica/ emá ica amo o-
sa, eme endo o lei o pa a á ios in e nos dos namo ados. Nes e sen ido, cabe des aca , en e ou-
as, a isão de Hen ique da Mo a: guiado po Ramusia, o au o ê-se em egiões inóspi as, habi a-
das po animais sel agens; anoi ecendo e não encon ando o caminho ce o que o libe asse dali,
p eso de pa o , p ocu a e úgio nos amos de uma á o e e in oca Cupido, que apa ece pe an e
os seus olhos como ummeninoalado:“Eeuquenamacaba a/meu ogo ampacien e/quando i
supi amen e / um c a o que me ce ca a. / E no meio dele es a a / pode oso / um moço ceg o, e-
moso, / o a ledo o a cuidoso / se mos a a / e inha aas com que oa a. // E azia po sinal de suas
ob assec e as/umcold e/commui asse as/euma comui eal”( ol.IV,nº800).

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alegó ica, nos quais se isualiza um g ande Senho Amo ou Deus Amo como um
o moso jo em que apa ece acompanhado um séqui o, que es e icas oupagens,
que ado na a sua cabeça com uma co oa e que apa ece amiúde sen ado no seu o-
no.
Um exemplo de al igu ação encon a-se na esc i a do Ma quês de San-
ilhana, poe a ão ene ado no Po ugal daquela al u a. Ele mos a o deus de A-
mo como um g ande mona ca, o namen adocomped as ulgen es”e“muyluçi-
e a co ona”, acompanhado de “sabios muy ansçenden es” e pajens pompo-
samen e es idos no seu T iun e e de Amo - í ulo inspi ado no T ion o d´Amo e de
Pe a ca, mas al e ado pelo su ixo diminu i o, po en u a como sinal de modés ia
e/ou maio b e idade
23
. E, no que diz espei o ao deus de Amo e ocado no Can-
cionei o Ge al, su p eende-nos um g ande senho da jus iça que, odeado de oda a
sua adminis ação, eio publica a sen ença com espe acula pompa.
Amalgamam-se assim ce os con encionalismos li e á ios com um e da-
dei o enal ecimen o do pode eal nos inais da Idade Média: o deus de Amo des-
ila com pendões, es e opas de b ocado e, em ge al, ai acompanhado de um g ande
apa a o de ou o. Com e ei o, uma das p incipais no idades que se obse - am no
isual da mona quia po uguesa, da al a nob eza e dos al os ca gos ecle-siás icos
oi p ecisamen e o uso da opa ou opalanda, de o igem anco-bo gonha. Pode-se
de ini es e como um aje de ex ao diná io luxo, com amplas e com-p idas man-
gas, quase semp e o ado de icas peles e que não admi ia le a man o po cima,
sendo oçagan e a opa de maio sump uosidade
24
. Aliás, al deus de amo , ca e-
gado de simbologia égia (e, em pa icula , joanina) az o seu conselho de edo , a
sua chancela ia, o seu co egedo , e assina com o seu selo - pa a mais com dez mil cha-
gas, sendo as chagas a g ande de oção de D. João II.
E, ainda, an es de ence a es e p ocesso poé ico apa ece uma embaixada
com ico paleo de ou o, exa amen e al como e a ecebido o ei quando iaja a.
Assim, no Regimen o das En adas em Lisboa (1502) es abelecia-se que semp e que
um mona ca en asse pela p imei a ez na cidade se ia ecebido com um pálio de
23
Sob e es e ex o, o seu simbolismo, a sua o igem e o seu signi icado, eja-se Lapesa, Ra ael, La
ob a li e a ia del Ma qués de San illana, Mad id: Ínsula, 1957.
24
Ace ca da in odução e a u ilização des a peça da es imen a em Po ugal e, em pa icula , pa a
obse a a sua p esença e o seu signi icado deno a i o e cono a i o em ex os qua ocen is as e
ainda nou as ob as li e á ias imedia amen e pos e io es, pode consul a -se Mo án Cabanas, Ma ia
Isabel, T aje, gen ileza e poesia. O campo semân ico da es imen a no Cancionei o Ge al de Ga cia de Re-
sende. Lisboa: Es ampa, 2001, 184-185.
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luxuoso b ocado e empunhado po e eado es - elemen os da e ique a que D. João
II e o çou nos p imei os anos da sua subida ao ono. O ex o do Cuida e Suspi a
adqui e, pois, a dimensão de uma es a, na qual se ema iza o aman e ideal e se
soleniza a igu a do mona ca sob o a es issemen do deus de Amo
25
. De ac o, a é
se az e e ência ali à Ja e ei a ou Ga o eia, o dem de ca ala ia que inha po em-
blema uma liga de senho a (em inglês, ga e ) e com que e am apenas gala -
doados os memb os de co es es angei as como p o a de gló ia e galan a ia. Con-
c e amen e D. João II ecebeu-a das mãos de Hen ique VII, em 1481, alguns anos
an esdaelabo açãodes e ex o,exibindoo“co dãmdaGa o ea”emimpo an es
ce imónias, ais como o casamen o do seu ilho o jo em P íncipe A onso com a
P incesa Isabel de Cas ela, ilha dos Reis Ca ólicos, o que indica o p es ígio de al
dis inção.
P ecisamen e es e casal é mais um dos exemplos de mi i icação que desco-
b imos no Cancionei o Ge al, onde se cho a a mo e p ema u a e inespe ada do seu
p o agonis a masculino. São bem conhecidas as ci cuns âncias em que se p oduziu
o desas e do P íncipe A onso du an e a celeb ação das suas bodas com a in an a
cas elhana na cidade de É o a, as quais se ememo am semp e sob uma au éola
de mis é io e p edes inação. Uma o ça ocul a pa ece a as a o P íncipe pa a a ca-
ás o e: negando-se p imei o a acompanha o pai, que ia banha -se no io Tejo,
quis depois alcançá-lo, pelo que apidamen e se es iu e mon ou um ca alo es-
anhamen e ajaezado de neg o – e neg as e am ambém o aje que es ia. Em ez
de nada , p e e iu ca alga e quis oca de mon ada, mas pa iu-se a co eia do
es ibo e o P íncipe ol ou ao p imei o ca alo. A queda que o ez mo e é pe s-
pec i ada de di e sos modos no imaginá io, mas, sob e udo, como caída ca as ó-
ica dos einos de Po ugal e Cas ela, que i am pe iga assim os seus in e esses e
comp omissos polí icos.
Não se a a nes e caso de uma elação ge ada pelo amo , mas do esul ado
das negociações ma imoniais en e memb os das mona quias cas elhana e po u-
guesa. Fica a já esc i o no a ado de anulação das e ça ias de Mou a que aos ca-
o ze anos o p íncipe he dei o casa ia com a in an a Joana, ilha segunda dos Reis
Ca ólicos, mas se a sua i mã mais elha, he dei a dos einos de Cas ela, A agão e
25
Nes e sen ido, de emos eme e especialmen e pa a o es udo com que Ma ga ida Viei a Mendes
ilumina a sua edição de O Cuida e Suspi a [1483]. Lisboa: Comissão Nacional pa a as Comemo a-
ções dos Descob imen os Po ugueses, 1997. Veja-se ambémMo ánCabanas,Ma iaIsabel,“Sob e
o deba e en e Cuida e Suspi a e a isualizaçãopoé icadoDeusdeAmo ”.Re is a Camoniana, 13,
III Sé ie, 2003, pp. 77-98.
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pa e de Na a a, ainda se encon asse sol ei a nessa al u a, a esposa se ia de p e-
e ência ela e oi mesmo isso que acon eceu. Apa ecia assim implíci o o plano da
união ibé ica sob a co oa de Po ugal, celeb ando-se os esponsais po p ocu ação e
com oda a solenidade na cidade de Se ilha em ab il de 1490. A eunião dos noi-
os i ia ealiza -se alguns meses depois em É o a, homenageando-se com g an-
des es ejos aus osamen e p epa ados pelo p óp io ei D. João II, os quais deslum-
b a am odos os es angei os p esen es, con o me ela a Ga cia de Resende quan-
do esc e e a c ónica des e mona ca e desc e e a p epa ação dos espaços e dos es-
pe áculos.
Se os homens de le as da época esc e e am num e nou o lado sob e o que
se p o e iza a como auspicioso ma imónio, ambém ememo a am em p osa e
e so o ne as o acon ecimen o da mo e do P íncipe com mais ou menos po me-
no es. Jun o ao lou o das qualidades mo ais e ísicas do jo em e à do dos p o-
geni o es (D. João II e a sua esposa, D. Leono de Po ugal ou de Lancas e), os ex-
os sublinham a angús ia da sua ecém-esposa. Aquando do eg esso a Cas ela da
P incessa-Viú a, o Cama ei o-Mo D. João Manuel compõe uma Lamen ación,
apos o ando as igu as mais ma cadas pelo desas e, en e as quais des aca a
P incesa:
¡Oh al a P incesa, la más i uosa
que oye on ni ie on jamas los humanos,
del ues o ma ido sin in deseosa,
sin in deseada de los lusi anos!
Ne anda Fu una y casos mundanos
po nues os pecados han delibe ado
de los ues os b aços se a eba ado
y pues o de donde le coman gusanos.
¡O quan desimiles ue on y son
la ues a enida y ues a o nada,
la una an p ospe a y an sublimada,
la o a an lhena de ibulacion!
(…)
( ol. I, nº 132)
Cabe eco da ambém o ex o elegíaco de Luís Hen iques, que quali ica o
P íncipecomo:“Animoso,muyhumano/P íncipe,másdadi oso/ymásamado,/
Po uguêsycas ellano,/delag anpincesaesposo/ynamo ado”e edigeEl plan-
o del Rey, el Plan o de la Reina e El plan o de la Pincesa, ence ando os ês com pa á-
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ases de ex os bíblicos. No e cei o, um pouco mais ex enso, a iú a au- ode ine-
secomo“Yosoyla is e euda/cubie ademil es u as,/simab igo/de odo
mibiendesnuda/ymuylhenad´ama gu as,/sinamigo!”( ol. II, nº 365).
Em Po ugal cabe salien a os ela os c onís icos de Rui de Pina e Ga cia de
Resende ace ca des a agédia, assim como os e sos que o humanis a Ca aldo lhe
dedica em la im ao que inha sido o seu discípulo. Já e ugiada a P incesa na sua
casa pa e na, ac escen a am-se as consolações ansmi idas em di e sos géne os
da esc i a po au o es cas elhanos (Juan del Encina, po exemplo). Diga-se, aliás,
que a en ada em cena da P incesa-Viú a e da Rainha nes e poema de Luis Hen-
iques é anunciada po uma oz anónima que as in o ma da is e no ícia, eme-
endo-nos pa a o papel do mensagei o de dois omances popula es, inspi ados no
mesmo assun o e cuja p io idade oi deba ida, en e ou os, po Gas on Pa is, Milá
y Fon anals, Menéndez Pelayo, Menéndez Pidal ou Ca olina Michaëlis de Vas-
concelos. T a a-se conc e amen e de “Hablando es aue la eyne en su pallacio
eal”,conse adocomoanónimo,yde“Hablandoes a alaReynaencosasbien
deno a ”,deF ayAmb osiodeMon esino
26
.
En im, no elenco de ex os comen ados mis u am-se elemen os his ó icos,
he oicos, elegíacos, d amá icos, amo osos e a é polí icos. O Cancionei o Ge al e a-
a a au éola de gló ia e mi i icação de ce as igu as que azem pa e da his ó ia
mais ou menos ecen e do país, elogiando pa icula men e as excelências dos seus
amado es numa esc i a de eo didá ico e exempla . Assim, a ma é ia sen imen al
o na-se alo izada ambém como obje o de o gulho e p es ígio nacional. A mo e
não é inimiga nas lides ca alei escas nem nas passionais, po que em ambos os
campos não implica á um aniquilamen o o al: os seus má i es são le ados pelas
asas da Fama – apenas penalizada nalgum ex o de ca iz eligioso que ep o a o
cul o p es ado a ci cuns âncias p o anas. Deslocam-se a Po ugal in e nos e dei-
dades de Amo pa a pa icipa de um i ual de celeb ação, obedecendo aos có-
digos da galan a ia e ea alidade que igo am nes es inais da Idade Média.
Os e sos que a am do d ama de Inês de Cas o; da o una de Macias, o
Namo ado; das i udes de D. João II como Rei, Juiz e Deus de Amo ; e do casa-
men o do P íncipe A onso e a P incesa Isabel de Po ugal que ão imp e isi-
elmen e se ingiu de lu o co espondem bem à conside ação da a e de o a
26
Uma sín ese do a amen o que oi dado a es e assun o é-nos o necida po Aida Fe nanda Dias
em O Cancionei o Ge al e a Poesia Peninsula de Qua ocen os. Con ac os e Sob e i ência. Coimb a: Li-
a ia Almedina, 1978, ou no Cancionei o Ge al de Ga cia de Resende (A Temá ica), pp. 170-174.
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21
como um desen andamen o (en e enimen o) e icaz pa a o conhecimen o da nação e
pa a a di ulgação do seu pa imónio cul u al, como um meio de hon a passado e
p esen e e como um eículo de p ojeção pa a o u u o. Sob essai en e os ou os,
adqui i enome, consegui no o iedade e o na -se obje o de admi ação ap esen-
am-se aqui como aspi ações na u ais e legí imas, azendo um apelo à a i ude de
o gulho nacional. Daí as pala as de Ga cia de Resende quando edige o P ólogo
do Cancionei o Ge al: “Todoses es ei oseou osmui osd´ou assus anciasnam
sam de ulgados como o am, se jen e d´ou a naçam os ize a (...). E assi mui os
empe ado es, eis e pessoas de memo ia, polos imances e o as sabemos suas
es o ias...”( ol. I, p. 10).
Igualmen e na p óp ia poesia do compilado egis am-se ad e ências nes e
sen ido: “Nes emundoamoo  i o ia/quesedaanempode e /qualque pessoa
/é ica delamemo ia”( ol.I,nº868).Elapida essão ambémos e sosqueoau-
o Diogo B andão edige pe an e a mo e do ei D. João II, ei indicando a a i -
mação dos alo es pá ios e a sua di ulgação a a és de odos os empos e espa-
ços:
Dize dos an igos que sam consumidos
nam quee o em g egos ala nem omãaos,
mas nos que nos caem aqui dan ' as mãaos,
is os de nós e de nós conhecidos.
Despe emos de odo os nossos sin idos,
pois es e mundo é am incons an e,
c eamos dos mo os que nam sam pe didos,
mas que sam idos u pouco adian e.
( ol. II, nº 333)
* * *