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Ca e nas e Cinema, Sonho e Na a i a
Fábio Cos a
Raquel Gomes de Oli ei a
Uni e sidade Fede al da Bahia
abiocos [email protected]
[email protected]
Resumo:
A analogia en e cinema e sonho se e de pon e en e a dimensão mí ica
exe cida nos mais an igos i uais da humanidade e a que se exp essa na ime são
hipnó ica da sala escu a. A simila idade des a úl ima com os an igos espaços de
ime são i ualizada, bem como a es u u ação a que ípica e na a i a do sonho e do
mi o, eúne dois ex emos da mesma expe iência, unindo uma ances alidade emo a
a seu de i ado mais ecen e. Nesse pe cu so, em que se des acam analogias e
con iguidades, o concei o de mímese cump e papel undamen al.
Pala as cha es: i ual; na a i a; sonho; cinema; mímese.
Abs ac : The analogy be ween cinema and d eams wo ks as a b idge be ween he
my hical dimension in humani ies’ mos ancien i uals and he one ha exp essed
in hypno ic imme sion o he da k oom. I s simila i y wi h he old spaces o
i ualized imme sion and also wi h he a che ypal and na a i e s uc u e o he
d eams and he my h, pu s oge he wo ex emes o he same expe ience,
combining he mos emo e ances y o i s newes de i a i es. In his pa h, wich
highligh s analogies and con igui y, he mimesis concep has undamen al ol.
Keywo ds: i ual, na a i e, d eam, cinema, mimesis
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1. In odução
É algo eco en e menciona simila idades en e as ca e nas p imi i as e as mode nas
salas de cinema: pa a além de e e ências à alego ia pla ônica, cujo mecanismo de
p ojeção de somb as inspi ou apaixonadas analogias com a ilusão p oduzida pelo
cinema óg a o, alguns aços da condição humana pa ecem ul apassa con ingências
con ex uais e ecnológicas e se impõem como esíduos ances ais de uma expe iência
necessá ia. As ca ac e ís icas ísicas que ap oximam os dois cená ios como espaços de
ime são i ualizada são a p e oga i a inicial dessa co elação, p incipalmen e no
ocan e à possibilidade de ep esen a a “ ealidade” po meio de seu egis o
imagé ico, mediada pela elação en e luz e somb a. Mas ou as dimensões en ol idas
suge em con iguidades ainda mais es ei as.
Das pin u as upes es à película em 3D, o ascínio exe cido pela o mulação, sucessão
e encadeamen o exp essi o de imagens eme e à necessidade humana de c ia ,
egis a e compa ilha elemen os imaginá ios e simbólicos que pe mi am a ibui
sen idos à expe iência indi idual e cole i a. Os e ei os desse “lança de luzes sob e a
escu idão” gua dam ib an e ocação me a ó ica, a começa pelos senso iais: é como
se em meio ao incessan e e a opelado p ocessamen o de es ímulos co idianos se
impusesse algo que “sal a aos olhos” (e aos ou idos) de o ma ão p egnan e que
eo ganiza e a ibui signi icados à expe iência di a eal, ou ma e ial.
Também o iundos de um p ocesso ime si o, os sonhos p o a elmen e acompanham o
se humano desde os p imó dios, como uma uminação p o unda e incessan e,
in e calada pelas elabo ações da igília. De na u eza o emen e imagé ica, as
emissões oní icas nos p opo cionam acesso às camadas mais p o undas do psiquismo,
a que alguns au o es – mais no adamen e Jung e F eud – denominam inconscien es.
Desse amálgama de con eúdos pessoais e cole i os, do indi íduo e da espécie, su ge a
noção de a qué ipo como a con igu ação mais in ensa e uni e sal da expe iência
humana. A a e a de a ibui sen ido à u bulen a sucessão de imagens e pala as que
po oam a men e nos momen os de sonho ou de aneio – da qual as esoluções
a que ípicas são a mais du á el exp essão e êm como um de seus p incipais p odu os
as na a i as mí icas – pa ece es a na gênese do que se con encionou denomina de
na a i a, pa ecendo uma necessidade humana ão básica quan o as isiológicas.
Nesse pe cu so, localizamos a mímese como a endência ina a
49
em que melho se
e elam os con li os exis en es en e os ins in os da espécie e as imposições da cul u a,
cuja unção é doma os ape i es, ci iliza as pulsões e o nece um epe ó io de
jus i ica i as pa a ob igações e in e dições, o iginalmen e exp essas na linguagem
a que ípica dos mi os e e o çadas pela egula idade dos i uais cole i os. Da magia
simpá ica às na a i as, a mímese pa ece p opo ciona ao homem um espelho no qual
se econheça, seja pela p óp ia imagem e le ida ou pelo eco e exp essi o da
ealidade, ma e ial ou imaginá ia, que o ce ca e cons i ui.
Ca e na, ú e o do sag ado
A descida a uma ca e na, g u a ou labi in o simboliza a mo e i ual, do ipo iniciá ico.
(...) Es a ca ábase é a ma e ialização do eg essus ad u e um, is o é, do e o no ao ú e o
49
A is ó eles, Poé ica (2006).
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ma e no, donde se eme ge de al manei a ans o mado, que se oca a é mesmo de
nome. O iniciado o na-se ou o. (B andão, ol. I, 1986: 54)
Os egis os mais emo os de a i idade mimé ica ealizada pelo homem são as
pin u as upes es. A ep esen ação pic ó ica da ada do paleolí ico a es a e exp essa a
emb ionação comum das dimensões mágica, es é ica, eligiosa e social do homem
p imi i o, bem como seu p opósi o de exe ce con ole sob e as condições de
sob e i ência a a és de um pac o com o in isí el, o nado isí el po es a
con igu ação e egis o:
As pin u as paleolí icas das ca e nas consis em, quase in ei amen e, de igu as de
animais cujos mo imen os e pos u as o am obse ados na na u eza e ep oduzidos com
g ande habilidade a ís ica. (...) Es as imagens suge em uma espécie de magia (...). O
animal pin ado em a unção de um double, is o é, de um subs i u o. Com o seu massac e
simbólico os caçado es an ecipam e assegu am a mo e do animal e dadei o. É uma
o ma de "simpa ia", baseada na " e acidade" a ibuída ao subs i u o: o que acon ece
com a pin u a de e acon ece com o o iginal. A explicação psicológica subjacen e é uma
o e iden i icação en e o se i o e sua imagem, que é conside ada a alma daquele se .
(Ja é in Jung, 1992: 235)
Embo a não haja egis os sono os elacionados às pin u as upes es, há o es
indícios de que izessem pa e de p ocedimen os i uais que incluíam elemen os
na a i os, pe o má icos e musicais. A dimensão imagé ica dialoga a com ou os
meios exp essi os na composição dos i uais que ealiza am o mi o, po meio do qual
a cole i idade celeb a a seus ances ais e as p á icas que assegu a am a subsis ência
ma e ial e os laços sociais. Pa a alguns es udiosos, a dimensão sono a es a ia p esen e
não apenas nos i uais, mas implíci a no p óp io egis o imagé ico. Segundo Pascal
Quigna d (1999), mui as das pin u as, além de ep esen a em o animal em
mo imen o, suge iam o momen o da emissão de seu som ca ac e ís ico. Além disso, a
qualidade acús ica das g u as onde as pin u as o am ei as a es a a indissociabilidade
en e o isual e o audi i o:
Os p imei os homens pin a am sua isiones noc u nae deixando-se guia pelas
p op iedades acús icas de ce as pa edes. Nas g u as de A iège, os pin o es-xamãs
paleolí icos ep esen am os ugidos bem dian e da goela ou do ocinho das e as, na
o ma de aços ag upados. Essa espécie de aços ou mesmo de incisões são os seus
ugidos. Eles pin a am ambém os xamãs masca ados segu ando seus alçapões e seus
a cos. A essonância, no g ande san uá io essonado , es a a ligada à apa ição, po ás
do d apeado das es alagmi es. (Quigna d, 1999: 88-89)
De aco do com o mi ólogo Joseph Campbell (2008) os p imei os mi os e i uais
p o a elmen e enham se o iginado da cons a ação da ini ude e da inexo á el lu a
pela sob e i ência. Nesse sen ido, es a iam ligados à pe cepção da p óp ia mo e, dos
p óximos e, em ou a pe spec i a, dos animais e ege ais que ga an iam a subsis ência
da ibo. A p á ica da caça, impos a pela p eca iedade ecnológica e pelo nomadismo,
e a mais bem sucedida quando ealizada de o ma cole i a: es a con ingência oi
undamen al no desen ol imen o de laços sociais, além de p opo ciona as p imei as
e lexões sob e o mis é io en ol endo a mo e e sua in ínseca elação com a ida.
Se no paleolí ico as pin u as upes es a es a am a e e ência a o ças in isí eis e
assinala am o desejo de in e i mime icamen e nas a i idades subsidiá ias do
cole i o, ao empo em que cons i uíam e o ganiza am seus componen es simbólicos e
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es é icos (Gomb ich, 1999), os i uais úneb es, a pa i do pe íodo Neande al,
sinalizam uma no a elação en e i os e mo os. Ao in és do desca e de co pos,
su gem os p imei os en e os, a es ados po achados a queológicos que indicam a
mudança na isão do homem sob e o im da exis ência ca nal, ou isí el. Os
me iculosos cuidados assumidos a pa i de en ão deno am uma c ença (ou desejo) na
con inuação da ida em ou o plano, ou na possibilidade de e o no do alecido
median e a i ualização de sua passagem. (Campbell, 2008)
Em pa alelo, Campbell (2008) apo a que a caça, como p á ica e p incípio
man enedo es da ida, ambém suge ia a exis ência de uma elação indissociá el en e
o plano isí el e o in isí el: a inal, e a com a mo e e consumo da p esa que a ibo
sob e i ia. Dian e da necessidade de assegu a a manu enção do que lhe ga an ia
subsis ência e econhecendo nisso uma qualidade que azia de de e minados animais
se es supe io es, o homem p imi i o passa não apenas a e e encia o pode desses
animais, mas a i ualiza sua mo e, em espei o a sua supe io idade e como o ma de
p opo ciona sua essu eição, a im de que se isse no amen e de alimen o.
Campbell (2008) a i ma que a seden a ização dos p imei os ag upamen os humanos e
o desen ol imen o da ag icul u a, se dá com a pe cepção mais apu ada das es ações
do ano e sua elação com o ciclo de plan io e colhei a, o que inspi a um no o ema na
elação en e ida e mo e. É o mis é io da semen e – que mo e pa a ge mina e
b o a – que passa a p edomina enquan o mo i o mi ológico. No a-se uma maio
so is icação na cons ução dos mi os ag á ios, haja is a o aspec o simbólico na
p óp ia ideia de mo e da semen e.
Nesse pon o, con ém des aca dois pon os em comum en e os egis os pic ó icos
paleolí icos, os i uais úneb es e de caça e as celeb ações pelo mis é io da semen e:
p imei o, a e a como elemen o p imo dial, de o igem e é mino, de ida e mo e – e
de e o no e eno ação. Ú e o e sepul u a, onde a an í ese en e ans o mação e
pe manência encon a uma égua igualmen e pe ene e ansi ó ia.
Segundo: o papel desempenhado pelo componen e mimé ico. Se na pin u a upes e
são e iden es os p incípios de semelhança e con iguidade (o igual a ua sob e o igual; a
pa e a e a o odo) que ca ac e izam magia simpá ica (F aze , 1982), os en e os e
i uais de e ilidade inco po am elemen os mais abs a os, que apon am pa a uma
ans o mação da in e ace en e o isí el e o in isí el e esul am na g adual
elabo ação de na a i as e no o alecimen o dos mi os enquan o exp essão do
sag ado.
2. Mi o, plasmação do sonho
O mi o eúne os alo es conscien es e inconscien es de uma cul u a e exp essa a
necessidade humana de a ibui sen ido à na u eza, de o ganiza o caos e es abelece
um elacionamen o signi ica i o com o mundo. (Hollis, 1998) Sua linguagem
simbólica e le e a possibilidade do homem enca a e esqui a -se simul aneamen e da
ealidade b u a, e ocando o mis é io da exis ência sem busca deci á-lo. Segundo
Jung, “os homens do passado não pensa am nos seus símbolos. Vi iam-nos, e e am
inconscien emen e es imulados pelo seu signi icado” (1992: 80).
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Enquan o na a i a, o mi o co esponde a uma elabo ação e bal o iunda da elação
en e a expe iência ma e ial e as i adiações a que ípicas, que se pe pe ua a a és de
i uais que a ualizam o pac o en e o isí el e o in isí el, e cuja unção é a ibui
sen idos à p óp ia exis ência dian e da noção de ini ude, além de assegu a algum
con ole in e en i o sob e as condições que assegu a am ou ameaçam a
sob e i ência indi idual e cole i a.
Jung des aca a iliação e descendência da pala a mí ica: “A o igem dos mi os emon a
ao p imi i o con ado de his ó ias, aos seus sonhos e às emoções que a sua imaginação
p o oca a nos ou in es. Es es con ado es não o am gen e mui o di e en e daqueles a
quem ge ações pos e io es chama am poe as ou ilóso os”. (1992: 90) A linguagem do
mi o, assim como a dos sonhos, em como componen es p incipais os a qué ipos que
po oam o inconscien e cole i o, e apon am pa a a eincidência de ques ões, si uações,
dilemas e pe spec i as comuns na expe iência humana a a és dos empos. Jung
a i ma que os ins in os são impulsos isiológicos pe cebidos pelos sen idos, e os
a qué ipos, mani es ações simbólicas das ene gias ins in i as:
O pesquisado expe ien e da men e humana (...) pode e i ica as analogias exis en es
en e as imagens oní icas do homem mode no e as exp essões da men e p imi i a, as
suas "imagens cole i as" e os seus mo i os mi ológicos. (...) O a qué ipo é, na ealidade,
uma endência ins in i a, ão ma cada como o impulso das a es pa a aze seu ninho ou o
das o migas pa a se o ganiza em em colônias. (Jung, 1992: 67-69)
Enquan o a a i idade conscien e em como p e oga i a a elabo ação lógica da
expe iência, o inconscien e é egido pelas “ endências ins in i as” que se mani es am,
p incipalmen e nos sonhos, a a és de a qué ipos. Jung escla ece que os a qué ipos
não são “imagens ou mo i os mi ológicos de inidos” ansmi idos he edi a iamen e.
Es es se iam suas “ ep esen ações conscien es”, cujas especí icas e a iadas
con igu ações esul am de di e en es con ex os cul u ais:
O a qué ipo é uma endência pa a o ma es as mesmas ep esen ações de um mo i o —
ep esen ações que podem e inúme as a iações de de alhes — sem pe de a sua
con igu ação o iginal. Exis em, po exemplo, mui as ep esen ações do mo i o i mãos
inimigos, mas o mo i o em si conse a-se o mesmo. (Jung, 1992: 67)
Dessa o ma, enquan o no sonho o a qué ipo mani es a a o mulação inconscien e de
endências ins in i as, o mi o exp essa uma elabo ação conscien e e condensada do
a qué ipo em o ma na a i a. O a qué ipo desempenha, po an o, uma unção basila
na analogia en e a na a i a mí ica e a dimensão oní ica. E na con iguidade esidual
en e as es e as mágica, mí ica, i ual, eligiosa, social, sensí el e es é ica subsis e a
he ança a que ípica de nossos ances ais:
Nem em co po nem em alma habi amos o mundo daquelas aças caçado as do milênio
paleolí ico, a cujas idas e caminhos de ida, no en an o, de emos a p óp ia o ma dos
nossos co pos e a es u u a das nossas men es. Lemb anças de suas mensagens animais
de em es a ado mecidas, de algum modo, em nós (...). Qualque que enha sido a
escu idão in e io em que os xamãs daquelas ca e nas me gulha am, em seus anses,
algo semelhan e de e es a ado mecido em nós, e nos isi a à noi e, no sono. (Campbell,
2008: 82).
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3. Mímese, cu so da na a i a
Ao longo da his ó ia do pensamen o, o concei o de mímese em sido u ilizado de o ma
a iada po a is as, ilóso os, cien is as e pelo senso comum. De o igem g ega, a
con o é sia sob e sua acepção emon a aos dis in os es a u os a ela a ibuídos nas
ob as de Pla ão e A is ó eles. Enquan o em Pla ão (1965) ela é de inida como
“imi ação” e condenada po co ompe o mundo das idéias, A is ó eles (2006) amplia
seu signi icado e a i ma sua impo ância es é ica e pedagógica, exempli icada na épica
homé ica e, p incipalmen e, nos d amas ágicos.
Um dos ex os mais discu idos no campo da es é ica e da c iação a ís ica, a Poé ica de
A is ó eles se desen ol e a pa i des a noção de mímese: sendo um ex o eso é ico, a
Poé ica não elucida o concei o, man endo-o implíci o, na exempla idade da agédia, à
ín ima elação en e meios, obje os e modos. No caso da agédia, “os meios (...) são a
pala a, o i mo e a ha monia, (...); o obje o (...) é a ação, quali icada como i uosa,
comple a e de ce a ex ensão; o modo (...) é a ap esen ação di e a dos a os, e não sua
na ação” (A is ó eles, 2006: 51) – o que a di e encia da na a i a épica pela
ap esen ação do en edo a a és dos p óp ios pe sonagens. Pa indo de uma noção
ge al pa a o exemplo em pa icula , A is ó eles deixa cla o conside a a mímese como
base de oda c iação a ís ica, o que, no co pus de sua ob a, se a á implíci o a ou as
o mas do pensamen o, como a p óp ia iloso ia: “O mime iza é na u al no homem
desde a in ância – e nisso di e e dos ou os animais, po que é o mais p openso à
mímese, e os p imei os ensinamen os são ei os po meio da mímese – e odos se
comp azem com as mímeses ealizadas” (A is ó eles, 2006: 40).
O igem de oda a ap endizagem, a mímese opo uniza uma qualidade especí ica de
con emplação, haja is a as ope ações que ans o mam o modelo em obje o
“mime izado”. A is ó eles a exempli ica po meio da pin u a e da esc i a épica ou
d amá ica, e en a iza a impo ância do p é io conhecimen o, po pa e do ecep o , de
o mas, co es, sons, si uações ou ou os aspec os e elemen os que, dispos os na
ab angência de seu meio na u al ou o iginal, encon am-se des acados, eco ados e
ans o mados em seu co ela o mimé ico. Mas mesmo sem um con a o an e io com
o obje o da mímese, é acul ado ao ecep o expe imen a o p aze especí ico que a
uição de uma bela composição p opo ciona. É na p óp ia ope ação mimé ica,
e e uada po um a í ice ou o ician e, que se encon am as p e oga i as da
ap endizagem, num p ocesso que depu a e sin e iza aspec os da expe iência eal e
essal a suas elações cons i u i as in e nas, pau adas na necessidade e na
p obabilidade. A is ó eles exempli ica a o dem e a ex ensão como alguns dos a ibu os
que ca ac e izam os p ocedimen os mimé icos. (A is ó eles, 2006)
Um aspec o suges i o no pe cu so da mímese como p incípio o ma i o do humano e
on e de oda ap endizagem esul a de sua p óp ia ampli ude e imológica. Tomada
como “imi ação”, é possí el elacioná-la mais in ensamen e aos p imei os anos de ida
da c ia humana, quando a exempla idade é undamen al pa a a ma u ação de
po enciais cogni i os e mo o es. A inal, sem modelos humanos, a c iança não se
humaniza.
50
Ob iamen e, aços dessa a i idade mimé ica o iginal pe manece ão
50
Como no caso dos meninos-lobo.
727
a uan es po oda a ida ul e io , com incidências a iá eis de indi íduo a indi íduo e
a si uações ou momen os de cada indi íduo.
A imagem do espelho al ez seja a mais ilus a i a do enômeno mimé ico em sua
acepção imi a i a, na qual um homem e le e a si p óp io, o nado ou o. En e an o, o
mesmo espelho se e de pon e e imológica pa a os desdob amen os mimé icos que
edundam em suas essonâncias me a ó icas: alendo-nos da o igem la ina do
ocábulo, especulum, chegamos ao e bo “especula ”, ambém u ilizado como
adje i o. Se a condição “especula ” nos a ela ao sen ido imi a i o da mímese, no qual
subsis e a deno ação do “ e lexo” e da “imagem”, a ação de “especula ” nos conduz às
é eis sea as do pensamen o especula i o, ou e lexi o. Aqui, a mímese se alça ao
pa ama cono a i o da e lexão, ul apassando a película do e lexo imi a i o sem, no
en an o, desp ezá-lo. A inal, se pensamos, o azemos pela exempla idade de ou os,
seja em sua dimensão sensí el ou pelos egis os e es ígios de sua a i idade e lexi a e
especula i a.
As na a i as pa ecem cump i ambas as qualidades da a i idade mimé ica: ao empo
em que sua elabo ação ou ecepção exige uma a i idade especula i a e e lexi a, na
junção das pa es de uma his ó ia pa a que aça sen ido, nos o e ecem o espelho em
que podemos con empla uma ace possí el – a ace humana, com udo que pode
compo a de econhecí el e espan oso. A cons ução do humano pelo p óp io
humano, ala gando as on ei as de sua exp essão pa a além dos impe a i os da
sob e i ência, em nas na a i as seu mais e icien e ins umen o, an o pelo egis o
da ances alidade emo a quan o pelo con ínuo delineio do que não em a ema e ou
conclusão. Enquan o hou e um homem sob e a e a ele necessi a á a ibui algum
sen ido pa a sua exis ência, e as na a i as o necem o mais po en e a senal pa a essa
a e a.
No a igo A Poé ica e Nós, Umbe o Eco (2011) essal a a impo ância da ob a de
A is ó eles no pensamen o mode no sob e na a i a. Segundo ele, embo a o d ama
ágico seja o obje o explíci o de sua análise, as e lexões do es agi i a alcançam uma
ampli ude bem maio , sob e i endo aos séculos jus amen e po essa qualidade:
Es ou de aco do com Ricoue quando diz que, na Poé ica, a na ação undada no en edo,
es a capacidade de compo um con o e on p agma on sus asis, o na-se como que o
gêne o comum, do qual a epopéia se eduz a espécie. O gêne o de que ala a poé ica é a
ep esen ação de uma ação (p agma) a a és de um my hos (que o chamemos de plo
ou de en edo), do qual a diegese épica e a mimese d amá ica são apenas espécies. (Eco,
2011: 236)
Eco pa e da p e oga i a de que “con a e ou i his ó ias é uma unção biológica”,
azão pela qual a na a i idade, campo de conhecimen o p opos o pelos o malis as
ussos no início do século XX, se con e e em assun o de in e esse c escen e em nosso
empo:
Não é ácil sub ai -se ao ascínio dos en edos em seu es ado pu o. (...) Mesmo a ecusa,
po pa e do Nou eau Roman, de le a -nos a expe imen a piedade ou e o , az-se
exci an e sob e o pano de undo de nossa p o unda pe suasão de que um con o de e
p oduzi ais paixões. A biologia se inga. Quando a li e a u a se ecusou a nos da
en edos, omos buscá-los nos ilmes ou nas epo agens jo nalís icas. (Eco, 2011: 238)
Segundo ele, é a ideia de con li o – subjacen e a odo en edo – que nos oca a ní el
o gânico, como uma necessidade o iginada da p óp ia dinâmica celula . Reco endo
728
às de inições de a qué ipo – nódulo seminal de odo my hos – cunhadas po Campbell
e Jung, que emon am sua o igem à con i ência pouca pací ica en e nossos ó gãos
in e nos ou en e os ins in os e a consciência ou imposições da cul u a, é possí el
es abelece uma co elação que ap oxima ainda mais a oco ência in olun á ia dos
sonhos e uma delibe ada busca po na a i as.
Dessa o ma, ao concen a -se sob e o en edo (ou my hos) na cons ução da na a i a,
exempli icada pela excelência do d ama ágico e da épica homé ica, A is ó eles
es abelece os alice ces de oda na a i idade, em cuja undação encon am-se os
p ocedimen os mimé icos que p opo ciona am desde a “imi ação” e e e ência às
o ças do in isí el a é sua es ilização g adual em egis os que, pa indo da pin u a
upes e e apo ando na a bi a iedade apa en e dos signos linguís icos, encon a sua
po ência mais exp essi a nas ob as de ca á e mais no adamen e na a i o.
Pa a além da acepção con encional de en edo e con li o, Eco eco e a es udos de
G eimas e Lako pa a a i ma que “ odo discu so em uma es u u a p o unda que é
na a i a e que pode se desen ol ida em e mos na a i os” (Eco, 2001: 239), seja um
ex o cien í ico acadêmico ou a p oposição de uma semân ica desen ol ida na o ma
de uma sequência de ações, em luga da semân ica a omis a e imobilis a. Mesmo os
elemen os químicos, nomeados e alocados de o ma apa en emen e pací ica na abela
pe iódica, gua da iam algo das como en es paixões que anima am seus p edecesso es
mi ológicos, a sabe , os deuses e he óis que po oa am as men es e co ações de nossos
an epassados. Vol ando à exp essão dessa incoe cí el ocação de nossas glândulas no
empo a ual, Eco a i ma:
A Poé ica é ce amen e a eo ia, en e ou as coisas, do wes e n à manei a de John Fo d
– e não po que A is ó eles osse um p o e a, mas po que quem que que deseje encena
uma ação a a és de um en edo (o que o wes e n az sem ou os esíduos) não pode agi
di e samen e daquilo que A is ó eles en e iu. Se con a his ó ias é uma unção
biológica, sob e es a biologia da na a i idade A is ó eles já comp eende a o que se
passa a. (Eco, 2011: 241)
Cinema, o can ei o da ilusão
Pode acon ece que du idemos da audiência escu a. Pode acon ece que as quime as de
um mundo amnió ico, aquá ico, aba ado, a as ado, nos pa eçam dados li igiosos. (...)
Mas a eco dação é uma na ação, como a que con a o sonho: essa na ação ou na a i a
az an o consigo que emos azão em descon ia de nós mesmos. Somos apenas um
con li o de na a i as endossado po um nome. (Quigna d, 1999: 85)
Da an iguidade aos nossos dias, as noções de mi o e i ual, bem como o concei o de
sag ado, pe co e am um longo e aciden ado caminho, no qual so e am
ans o mações subs anciais. A expe iência p opo cionada po uma sessão de cinema,
po exemplo, pa ece a ende a ou as demandas: já não pa ilhamos da mesma
cono ação i ual dos an igos, e o imaginá io mí ico ab ange dimensões al ez menos
amplas de nossas idas, embo a igualmen e p o undas e i ais.
Em con apa ida, em sua o igem o cinema ca ac e iza a-se jus amen e po a ende a
demandas psíquicas cuja co espondência só pode se encon ada no uni e so oní ico,
ou do delí io. Segundo A lindo Machado, “Ce amen e, o que a aía essas massas às
salas escu as não e a qualque p omessa de econhecimen o, mas a possibilidade de
ealiza nelas alguma espécie de eg essão, de econcilia -se com os an asmas
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in e io es e de coloca em ope ação a máquina do imaginá io”. (2007: 19) Dos mais
emo os ances ais do disposi i o cinema og á ico aos p imei os anos do apa a o
desen ol ido pelos Lumiè e, o p aze p opo cionado pela p ojeção de imagens i eais
e an asmagó icas, mesmo e a ando aspec os da ealidade co idiana, pa ece
di e amen e elacionado a an asias a caicas de o dem ins in i a e inconscien e,
associadas à saciação pa cial da pulsão escópica.
Em F eud (1996), o concei o de “pulsão” dema ca a ansição epis emológica do co po
biológico, sea a dos ins in os, pa a o co po e ógeno, onde as pulsões cons i uem e
esul am das ases do desen ol imen o sexual e da cons ução subje i a do indi íduo,
mediada po ensões in e nas, elações a e i as e es ímulos ou ecu sos do ambien e.
Classi icadas a p incípio em au op ese a i as e sexuais e pos e io men e em pulsão
de ida e de mo e, dis inguem-se dos ins in os po inclui a dimensão do p aze ; a
libido é a mani es ação de sua ene gia e o desejo, sua exp essão es u u an e. Ao longo
de sua ob a, F eud cons ói uma dis inção en e “ e ”, como de i ado da unção do
apa a o senso ial, e “olha ”, no que se insinua ia o p aze subjacen e a es a a i idade, a
pa i da eleição de um obje o p imá io, o ó gão geni al. No deco e das ases de
desen ol imen o, o binômio olha /se olhado é in es ido das in e dições cul u ais que
o ans o mam e deslocam esse p imei o obje o:
Ao con á io do ins in o, a pulsão pode se sa is aze o a de seu obje o (é a sublimação)
ou a é mesmo p escindi dele (é que se chama de ecalque). (...) A pulsão escópica supõe
uma dis ância en e o sujei o e o obje o do olha , ela es á na base do oyeu ismo. Esse
desejo es á no cen o do disposi i o cinema og á ico. Ele epousa na ausência do obje o
pe cebido, daí o ca á e “imaginá io” de seu signi ican e (que não passa de uma mi agem
pe cep i a). (Aumon & Ma ie, 2003: 247-248)
Aqui cabe a isca uma dis inção ope acional en e o inconscien e junguiano e o
eudiano: a moeda do inconscien e cole i o, p opos o po Jung, é o a qué ipo; a do
inconscien e indi idual, o iundo da ob a de F eud, é o complexo. Enquan o o
inconscien e cole i o esul a na o mulação do mi o a a és de uma cons ução
na a i a que modela, me a o iza e “ci iliza” a po ência ins in i a do a qué ipo, o
inconscien e indi idual esul a na ap op iação do mi o (e de suas camadas
cons i u i as sucessi as, ou seja, o ins in o e o a qué ipo) enquan o deno ação
na a i a, ou seja, calcada numa o denação signi ican e de desejos e in e dições que
p opo cione ao sujei o um epe ó io de signi icações pa a sua his ó ia pessoal. Aliás, é
em o no de um dos mi os mais eco en es nos d amas ágicos que sob e i e am a é
a a ualidade, o mi o de Édipo, que a psicanálise desen ol e seu p incipal axioma,
p opo cionando ao sujei o psicanalí ico, a pa i de um esquema mí ico de unções e
papéis de inidos, a elabo ação de seu p óp io d ama amilia . Em ambos os casos,
no a-se a pode osa incidência de expe iências ances ais e da elabo ação na a i a
como eículo e a enuan e da po ência do a qué ipo ou do mi o.
É possí el a isca uma analogia en e o cinema e a o ganização do psiquismo em
es u u as na a i as: em sua e apa inicial, an o a men e quan o o cinema se
con igu am de o ma mais b u a, p óximos à emissão a que ípica e imagé ica do
sonho. A e apa seguin e é o desen ol imen o de na a i as que componham um
uni e so signi ica i o a pa i da po ência ex ema e indomá el do a qué ipo e, po
conseguin e, das ene gias ins in i as. O mi o é a p imei a con igu ação na a i a e
conscien e dos elemen os a que ípicos. Da mesma o ma, o cinema na a i o cons i ui
a o mulação ci ilizada de sua inicial sel age ia imagé ica, domada pela inco po ação