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Economia, saúde e políticas do verdadeiro nas declarações de Bolsonaro durante a pandemia de COVID-19 no Brasil

Abstract

O artigo tem por objetivo analisar como as declarações do Presidente Bolsonaro estabeleceram determinadas políticas do verdadeiro em relação à pandemia de COVID19 no Brasil. O material de análise é constituído por três pronunciamentos, realizados quando o país iniciava o isolamento social, e 45 reportagens com declarações do Presidente publicadas no portal GaúchaZH, de Porto Alegre, entre março e julho de 2020. Foram extraídos excertos que mostram as opiniões e crenças de Bolsonaro em relação aos eixos discursivos “saúde” e “economia” no âmbito da pandemia. A partir desse material foram criadas duas categorias analíticas: “mercado acima de todos”, com declarações relacionadas à economia, e “cloroquina acima de tudo”, com declarações relacionadas à saúde. O conjunto de procedimentos metodológicos apoiam-se na análise de discurso em Michel Foucault, que investiga os modos como poder e verdade se articulam naquilo que é dito. Mostra-se que o Presidente brasileiro enunciou a verdade neoliberal, desocultando o mercado como organizador fundamental do seu discurso durante a pandemia no Brasil. Essa verdade do mercado repousa em concepções específicas de liberdade e de democracia: individualistas, atomizadas, esvaziadas de seu caráter coletivo. Ainda, Bolsonaro apostou que a cloroquina seria a “pílula mágica” que salvaguardaria a saúde biológica da população e a saúde econômica do país. Porém, a saúde econômica foi sempre mais importante do que saúde biológica, o que sugere o desprezo pelas mortes dos cidadãos brasileiros por COVID-19. As políticas do verdadeiro nas declarações de Bolsonaro são políticas de morte

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Economia, saúde e políticas do verdadeiro nas declarações de Bolsonaro durante a pandemia de COVID-19 no Brasil

Author: Saraiva, Karla; Zago, Luiz Felipe
Publisher: Universidad de Sevilla
Year: 2021
DOI: 10.12795/Ambitos.2021.i52.0
Source: https://idus.us.es/bitstreams/38e84e78-5be3-40d7-8793-982ff610c04f/download
Economia, saúde e polí icas do e dadei o nas decla ações de
Bolsona o du an e a pandemia de COVID-19 no B asil
Economy, heal h and poli ics o u h in Bolsona o’s s a emen s du ing he
COVID-19
Ka la Sa ai a
Uni e sidade Lu e ana do B asil | A . Fa oupilha, 8001 – Canoas, RS| B asil |
h p://o cid.o g/ 0000-0002-2105-0619| p o a.ka la.sa ai [email protected]
Luiz Felipe Zago
Uni e sidade Fede al do Rio G ande do Sul | A . Paulo Gama, 110 – Po o Aleg e, RS| B asil |
h p://o cid.o g/ 0000-0003-4453-5982 | luiz elipezag[email p o ec ed]om
Fechas | Recepción: 14/01/2021 | Acep ación: 09/03/2021
Resumo
O a igo em po obje i o analisa como as
decla ações do P esiden e Bolsona o
es abelece am de e minadas polí icas do
e dadei o em elação à pandemia de COVID-
19 no B asil. O ma e ial de análise é
cons i uído po ês p onunciamen os,
ealizados quando o país inicia a o isolamen o
social, e 45 epo agens com decla ações do
P esiden e publicadas no po al GaúchaZH, de
Po o Aleg e, en e ma ço e julho de 2020.
Fo am ex aídos exce os que mos am as
opiniões e c enças de Bolsona o em elação
aos eixos discu si os “saúde” e “economia” no
âmbi o da pandemia. A pa i desse ma e ial
o am c iadas duas ca ego ias analí icas:
“me cado acima de odos”, com decla ações
elacionadas à economia, e “clo oquina acima
de udo”, com decla ações elacionadas à
saúde. O
conjun o de p ocedimen os
me odológicos apoiam-
se na análise de
discu so em Michel Foucaul , que in es iga os
modos como pode e e dade se a iculam
naquilo que é di o. Mos a-se que o P esiden e
b asilei o enunciou a e dade neolibe al,
desocul ando o me
cado como o ganizado
undamen al do seu discu so du an e a
pandemia no B asil. Essa e dade do me cado
Abs ac
The a icle aims o analyze how P esiden
Bolsona o's s a emen s es ablished ce ain
poli ics o u h ega ding he COVID-19
pandemic in B azil. Th
e analysis ma e ial
consis s o he con en o h ee
p onouncemen s, made when he coun y
s a ed social isola ion, and 45 jou nalis ic
epo s wi h s a emen s made by he P esiden ,
published on he GaúchaZH po al, om Po o
Aleg e, be ween Ma ch and July, 2020. Exce p s
we e ex ac ed showing Bolsona o's opinions
and belie s in ela ion o he discu si e axis o
“heal h” and “economics” in he con ex o he
pandemic. F om his ma e ial, wo analy ical
ca ego ies we e c ea ed: “make abo e all”,
wi h s
a emen s ela ed o economy, and
“chlo oquine abo e e e y hing”, wi h
s a emen s ela ed o he economy. The se o
me hodological p ocedu es is based on he
discou se analysis by Michel Foucaul , which
in es iga es he ways in which powe and u h
a e a
icula ed in wha is said. I is shown ha
he B azilian P esiden has enuncia ed he
neolibe al u h, un eiling he ma ke as a
undamen al o ganize o his speech du ing he
pandemic in B azil. This ma ke u h es s on
speci ic concep ions o eedom and democ acy:
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epousa em concepções especí icas de
libe dade e de democ acia: indi idualis as,
a omizadas, es aziadas de seu ca á e cole i o.
Ainda, Bolsona o apos ou que a clo oquina
se ia a “pílula mágica” que sal agua da ia a
saúde biológica da população e a saúde
econômica do país. Po ém, a saúde econômica
oi semp e mais impo an e do que saúde
biológica, o que suge e o desp ezo pelas
mo es dos cidadãos b asilei os po COVID-19.
As polí icas do e dadei o nas decla ações de
Bolsona o são polí icas de mo e.
indi idualis ic, a omized, emp ied o i s
collec i e cha ac e . S ill, Bolsona o be ha
chlo oquine would be he “magic pill” ha
would sa egua d he biological heal h o he
popula ion and he economic heal h o he
coun y. Howe e , e
conomic heal h has always
been mo e impo an han biological heal h,
which sugges s con emp o he dea hs o
B azilian ci izens by COVID-
19. The poli ics o
u h in Bolsona o's s a emen s a e poli ics o
dea h.
Pala as-cha e: análise de discu so, co id-19,
economia, saúde, polí ica.
Keywo ds: discou se analysis, co id-19,
economy, heal h, poli ics.
1. INTRODUÇÃO - FRAGMENTOS DA PANDEMIA DE COVID-19
O ano de 2020 ecém começa a e o mundo oi su p eendido com um í us al amen e
ansmissí el: o SARS-CoV-2. Os p imei os casos o am de ec ados no início de janei o, na
China. Nes e mesmo mês, o í us já chega a aos Es ados Unidos e à Eu opa. No início de
e e ei o, o Minis é io da Saúde do B asil con i mou os p imei os casos elacionados com
iajan es que e o na am ao país já con aminados. Em poucas semanas, o í us se espalhou
pelo país, e in ensi icou-se a con aminação comuni á ia.
G ada i amen e, medidas sani á ias o ien ando pa a o isolamen o social o am omadas em
g ande pa e do mundo, com maio ou meno igo e agilidade. Nos Es ados Unidos, o apoio
de Donald T ump ao isolamen o social oi mui o e icen e. Jai Bolsona o, P esiden e do B asil,
a ou com desp ezo os e ei os da pandemia. Pa a ele, o país não de e ia pa a os negócios,
pois, como epe iu inúme as ezes e analisa emos a segui , a ome ma a ia mais do que o
COVID-19.
Ao chega no B asil, a pandemia de COVID-19 ambém expôs as ensas elações do P esiden e
Bolsona o com a mídia adicional do país, compos a po emp esas de comunicação
mul imeios p i adas. Es as assumi am a cobe u a da pandemia baseando-se em dados
o necidos pelas Sec e a ias de Saúde de es ados e municípios, na medida em que o go e no
ede al di icul a a a di ulgação de es a ís icas. Essa cobe u a indica a o aumen o exponencial
dos casos de COVID-19 no B asil e a necessidade de adoção de es a égias du as de p e enção
ao í us, sob pena de ha e o colapso do sis ema de saúde b asilei o. Em um c escen e
an agonismo, Bolsona o e a mídia adicional b asilei a passa am a dispu a na a i as sob e a
g a idade, as consequências e os modos de a a e p e eni a in ecção espi a ó ia causada
pelo co ona í us.
Em meio a essa dispu a, o P esiden e deu á ias decla ações que exp essa am a posição o icial
do go e no b asilei o sob e a pandemia e como en en á-la. A mídia adicional b asilei a
epe cu iu as decla ações e ações do P esiden e, que igu a am como manche es de jo nais,
chamadas de elejo nais e í ulos de ma é ias jo nalís icas em á ios eículos de comunicação
do país. Nesse sen ido, inobs an e a esqui a comunicação polí ica do go e no Bolsona o, a
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mídia adicional b asilei a egis ou e di ulgou as alas desse a o polí ico con o e so du an e
um pe íodo con u bado.
Assim, es e a igo em po obje i o analisa como as decla ações do P esiden e Bolsona o
es abelece am de e minadas polí icas do e dadei o em elação à COVID-19 no B asil. O
ma e ial de análise consis e na ansc ição de ês p onunciamen os, ealizados quando o país
inicia a o isolamen o social, e 45 epo agens publicadas no po al GaúchaZH1, de Po o
Aleg e. O eco e empo al de inido pa a seleção oi en e 16 de ma ço de 2020, quando as
p imei as no ma i as públicas ela i as ao isolamen o social o am ap esen adas, a é dia 15 de
julho de 2020, logo após o anúncio da con aminação de Bolsona o pelo í us. Du an e a
p odução des e a igo, o P esiden e ez uma mani es ação homo óbica sob e o en en amen o
do í us no dia 10 de no emb o. De ido à epe cussão des a decla ação e ade ência à
p opos a aqui ap esen ada, decidimos inclui es a ma é ia na empi ia.
Na seção seguin e, ap esen amos a me odologia ado ada, baseada na análise de discu so em
Michel Foucaul . A segui , ap esen amos a undamen ação eó ica a pa i dos concei os de
discu so, e dade e polí icas do e dadei o, ambém a pa i de Michel Foucaul e
comen ado es. Nas duas seções subsequen es, desen ol emos as análises das enunciações do
P esiden e b asilei o a pa i de dois eixos discu si os, “economia” e “saúde”, nomeando as
ca ego ias daí o iundas de Me cado acima de odos e Clo oquina acima de udo2.
2. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
O a qui amen o das ma é ias jo nalís icas iniciou-se no mês de ab il de 2020. Em 24 e 31 de
ma ço e 8 de ab il, o P esiden e ealizou ês p onunciamen os em cadeia nacional de TV
de endendo seu posicionamen o em elação à c ise sani á ia. A ansc ição dessas alas oi o
p imei o elemen o do ma e ial empí ico.
Ainda, o P esiden e mani es ou-se com mui a equência sob e a pandemia u ilizando di e sas
es a égias: decla ações à imp ensa; decla ações a seus apoiado es em mani es ações
popula es di e sas; pos agens em edes sociais. Pa a ecolhe suas decla ações, escolhemos
um jo nal econhecido nacionalmen e pelo a o de ha e , na p á ica jo nalís ica, a publicação
diá ia de in o mações de idamen e apu adas. Escolhemos seleciona as ma é ias jo nalís icas
de um jo nal da mídia adicional b asilei a apos ando na unção mediado a que a imp ensa
exe ce en e as á ias ins i uições sociais – algo que o P esiden e pa ece con es a (Cas ilho,
2019; 2020). Nossa escolha oi pelo Jo nal Ze o Ho a, com a quin a maio ci culação no país3.
A pa i da escolha do eículo, selecionamos 45 ma é ias usando como c i é io o uso, nas
epo agens, de alas di e as do P esiden e. Das ma é ias o am ex aídos exce os que
mos am as opiniões e c enças de Bolsona o em elação aos eixos discu si os “saúde” e
“economia” no âmbi o da pandemia. A pa i daí, c iamos as duas ca ego ias analí icas des e
a igo. Pa a cada uma das ca ego ias, cons uímos um a cabouço analí ico, mobilizando aqui
os exce os que nos pa ece am de maio in e esse, endo em is a as limi ações do a igo. Os
1 Po al Gaúcha ZH. Disponí el em h ps://gauchazh.clic bs.com.b /. Acesso 06 jan. de 2021. O po al é a
e são digi al do jo nal Ze o Ho a, aquele de maio ci culação na cidade de Po o Aleg e, e exis e desde
2017.
2 T a a-se de uma e e ência ao slogan da campanha que elegeu Bolsona o: “B asil acima de udo, Deus
acima de odos”. Disponí el em h ps://bi .ly/35GCiSi. Acesso 06 jan. de 2021.
3 Po al Meio&Mensagem. Disponí el em h ps://bi .ly/2KdSmTN. Acesso 06 jan. de 2021.
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exce os se ão analisados pela pe spec i a da análise de discu so oucaul iana, que se á
ap esen ada na seção seguin e.
3. DISCURSO, VERDADE E POLÍTICAS DO VERDADEIRO
Com base em Michel Foucaul (2000, 2009), uma análise de discu so jo nalís ico p ocu a
e idencia os modos como pode e e dade se a iculam naquilo que é di o, o jando a
ealidade de a os que são apa en emen e na ados de o ma neu a. Es e é um dos aspec os
do uncionamen o do jo nalismo na con empo aneidade: “um modus ope andi que inda po
lhe chancela uma posição es a égica na p odução e di usão de ce os discu sos, bem como
no a e ecimen o ou, no limi e, a e ação de ou os discu sos possí eis” (Do Val y Aquino,
2013, p. 95-96). Do Val e Aquino (2013) suge em que o conjun o de eículos jo nalís icos se
o ien a pela isibilidade: “quan o mais in o mação, mais ácil se ia des enda a supos a
in eg alidade da e dade, em suas di e en es ace as” (Do Val y Aquino, 2013, p. 96).
En e an o, essa apa en e mimese do a o na ado com a e dade é o p odu o de um egime
de e idicção do eal (Do Valy Aquino, 2013). A e dade como e ei o discu si o é algo
undamen al pa a o jo nalismo, na medida em que o modo como aquilo que é di o
a egimen a elemen os que cons oem o que unciona á como ealidade. “Os p ocedimen os
que assegu am os e ei os de e dade são legí imos pa a o jo nalismo po que es ão baseados
em es a égias que buscam a con iabilidade” (Bene i, 2008, p. 25), is o é, a con iança
cons uída enquan o pac o de in eligibilidade en e lei o es e p o issionais, algo que assegu a
a c edibilidade do discu so jo nalís ico. “Os enunciados jo nalís icos ap esen am-se, po an o,
como elos de uma co en e de enunciação his ó ica e socialmen e o ganizada, inse ida em
egimes de e dade p eexis en es que enascem no p óp io a o daquela enunciação” (Do Val y
Aquino, 2013, p. 99).
De aco do com as eo izações de Foucaul (2000, 2009), pode e sabe o mam um pa
indissociá el. Não há exe cício de pode sem sabe es e, nessa elação, es á em jogo a
p odução da e dade. Pa a Foucaul , é po meio de p á icas discu si as que se cons i uem as
polí icas de e dade de uma sociedade,
is o é, os ipos de discu so que ela acolhe e az unciona como e dadei os; os
mecanismos e as ins âncias que pe mi em dis ingui os enunciados e dadei os dos
alsos, a manei a como se sanciona uns e ou os; as écnicas e os p ocedimen os que
são alo izados pa a a ob enção da e dade; o es a u o daqueles que êm o enca go de
dize o que unciona como e dadei o. (Foucaul , 2000, p.12)
Comp eende que polí icas de e dade são cons uções sócio-his ó icas expõe o ca á e
a bi á io que as cons i ui. Pa a Foucaul (2000, p. 12), “a e dade é des e mundo; ela é
p oduzida nele g aças a múl iplas coe ções e nele p oduz e ei os egulamen ados de pode ”.
Po ou o lado, o mesmo au o (Foucaul , 2014) mos a que, pa a o exe cício do pode polí ico,
não bas am os conhecimen os ú eis, como no caso das sociedades mode nas e
con empo âneas, os dados es a ís icos sob e a saúde da população, sob e o uncionamen o da
economia e das a i idades p odu i as, ou sob e a si uação iscal do país. Segundo ele, são
necessá ias mani es ações de e dade i ualizadas que possam unda e legi ima o exe cício
do pode , mani es ações es as que ão no sen ido de e ela uma supos a e dade ocul a
(Foucaul , 2009). Como e emos a segui , Bolsona o ins i uiu i uais de mani es ação da
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e dade em suas enunciações sob e a pandemia, ca ac e izados po uma oposição à ciência e
po um en en amen o suicida do í us. E é po es a azão, isando a ma ca um ce o
dis anciamen o das es a égias que sepa am o e dadei o do also, em di eção a es a égias
que p e endem des ela e dades ocul as, que p e e imos u iliza aqui o concei o de polí icas
do e dadei o, e não o de polí icas de e dade.
De aco do com S anley (2020), nos úl imos anos di e sos países o am assolados po um
nacionalismo de ex ema-di ei a que ele iden i ica como ascismo. No B asil, o P esiden e
Bolsona o em enca nando a igu a desse líde nacionalis a populis a e elegeu-se em 2018
com uma e ó ica que decalca as ca ac e ís icas do ascismo a oladas po es e au o quase
in eg almen e. Sua campanha oi es u u ada enal ecendo sua ca ei a no exé ci o,
associando-a a bene ícios que os mili a es e iam azido pa a o país du an e uma di adu a
oco ida na segunda me ade do século 20. Posiciona a-se como o candida o capaz de
comba e male ícios p oduzidos po go e nos de esque da que o an ecede am: a co upção; a
dissolução de hie a quias sociais baseadas em aça, gêne o e sexualidade, ameaçando a
cons i uição das amílias; a i imização do homem b anco, he e ossexual, que es a ia so endo
p econcei os po sua condição; uma ixação em uma e ó ica sexual, p incipalmen e no campo
da Educação, acusando as escolas de inci a em a ideologia de gêne o; o epúdio a polí icas de
inclusão social. Tudo isso sus en ado po co en es digi ais que disseminam no ícias alsas e
eo ias da conspi ação de cunho an i-in elec ual e an icien í ico.
Essas ca ac e ís icas se man i e am p esen es nas decla ações do P esiden e b asilei o
du an e os p imei os meses da pandemia no país. Suas decla ações o am pa e de um
conjun o discu si o mais amplo do go e no, que englobou no as e ou os documen os o iciais,
que localiza am o que chamamos aqui de polí ica do e dadei o de Jai Bolsona o sob e a
pandemia de COVID-19. O P esiden e, ocupando o ca go de máxima esponsabilidade sob e o
país e seus cidadãos, o jou associações en e economia, saúde e o no o co ona í us que
pa ida izam a doença e seu a amen o, além de explici amen e o ien a -se pela p ese ação
do me cado em de imen o das idas.
4. MERCADO ACIMA DE TODOS
Os p imei os casos de ec ados de indi íduos in ec ados com co ona í us no B asil oco e am
em inal de e e ei o. Em meados do mês de ma ço, quando a in ecção já começa a a se
alas a pelo país e hou e a p imei a mo e, no dia 17, inicia am-se as es ições a a i idades
econômicas. No dia 24 de ma ço, o P esiden e Bolsona o ez um p imei o p onunciamen o,
anunciando seu posicionamen o em elação à pandemia, que i ia g ada i amen e se
adicalizado. Embo a enha mos ado apoio ao en ão Minis o da Saúde, Luiz Hen ique
Mande a, já minimiza a os e ei os da pandemia e des aca a a necessidade de e i a o
desemp ego.
O dou o Hen ique Mande a em desempenhando um excelen e abalho de
escla ecimen o e p epa ação do SUS pa a a endimen o de possí eis í imas. Mas, o que
ínhamos que con e naquele momen o e a o pânico, a his e ia. E, ao mesmo empo,
aça a es a égia pa a sal a idas e e i a o desemp ego em massa. (G ipezinha,
24/03/2020)
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Nes e mesmo p onunciamen o, a i ma que “a ida em que con inua ” (G ipezinha,
24/03/2020). Também nes e momen o, inicia-se um an agonismo com os ges o es es aduais e
municipais, que es a am es abelecendo es ições às a i idades p odu i as, isando a con e a
disseminação do í us.
O sus en o das amílias de e se p ese ado. De emos, sim, ol a à no malidade.
Algumas poucas au o idades es aduais e municipais de em abandona o concei o de
e a a asada, como p oibição de anspo e, echamen o de comé cio e con inamen o
em massa. (G ipezinha, 24/03/2020)
Es e p onunciamen o, de ce o modo, lança as bases da e dade que se á enunciada po
Bolsona o ace ca das elações en e economia e pandemia ao longo dos meses seguin es.
Como esc e eu um g upo de in elec uais, “o B asil es á sendo colocado dian e de uma escolha
alsa: ou a mo e ísica p o á el ou a mo e econômica ce a” (Singe e al., 2020). Na
con amão do que a i ma am mui os economis as, e que podia se obse ado em ou os
países, a economia não es a a sendo de ubada pelas es ições, mas pelo p óp io í us. Como
no a Ca alho (2020), as expe iências de eabe u a de comé cio e se iços em luga es com
al os índices de con aminação não o am, em ge al, bem sucedidas, endo em is a o emo
dos consumido es. “A ouxidão dessas medidas e seu elaxamen o p ema u o adiam ainda
mais a ecupe ação da economia” (Ca alho, 2020, p. 18).
O P esiden e, en e an o, insis e na a i mação de que não de e iam exis i es ições de
ci culação em um no o p onunciamen o no dia 31 de ma ço, semp e u ilizando o a gumen o
de manu enção do abalho do mais ulne á eis.
Se echamos ou limi a mos mo imen ações, o que acon ece á com es as pessoas, que
êm que abalha odos os dias, e que êm que ganha o pão de cada dia odos os dias?
[...] Não me alho dessas pala as pa a nega a impo ância das medidas de p e enção e
con ole da pandemia, mas pa a mos a que da mesma o ma p ecisamos pensa nos
mais ulne á eis. Essa em sido minha p eocupação desde o p incípio. (P onunciamen o,
01/04/2020)
Bolsona o a i ma nes e segundo p onunciamen o que ha e ia “dois p oblemas a esol e : o
í us e o desemp ego, que de e iam se a ados simul aneamen e” (P onunciamen o,
01/04/2020). Con udo, quando co ejadas as a i ma i as ace ca da saúde, con o me a seção
seguin e, e es as sob e a economia, ica e iden e que o oco p incipal é o uncionamen o das
a i idades econômicas, a inal “o co ona í us eio, e um dia i á embo a, e in elizmen e e emos
pe das nes e caminho. Eu mesmo já pe di en es que idos no passado” (P onunciamen o,
01/04/2020). Como é possí el obse a , a p eocupação de Bolsona o não e a a manu enção da
enda, mas do abalho e, po conseguin e, da p odução. “Com isso, Bolsona o isa amplia
apoio jun o às camadas popula es desp o egidas e consolida sua elação com se o es
emp esa iais [...], que so e ão impac os p o undos do que de e se a maio queda anual de
PIB de nossa his ó ia” (Singe e al., 2020).
Se cien is as em ge al posiciona am-se pela necessidade de planos pa a en en amen o da
c ise sani á ia isando a p ese a idas, Bolsona o suge iu que se ia necessá io en en a o
í us em um campo de ba alha que se ia o me cado, sem eme as consequências:
Se ocê não es i e abalhando aqui ai es a de casa. Ou ão es a de é ias ou ão
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es a demi idos. Essa é uma ealidade. O í us es á aí, amos e que en en á-lo. Vamos
en en a como homem, pô, não como moleque. Vamos en en a o í us com a
ealidade, odos nós amos mo e um dia. (Após, 29/03/2020)
Nes a c uzada p ó-me cado, o apoio ao Minis o da Saúde, exp esso no p imei o
p onunciamen o, começa a se e i ado no início de ab il:
O que acon eceu po pa e de uns p o issionais do minis é io dele, aquela his e ia,
aquele clima de pânico, que acon eceu há uns 40 dias. Ago a, es á no momen o de
coloca o pé no chão. Se des ui o í us e des ui os emp egos, amos des ui o B asil.
(Bolsona o, 02/04/2020)
Bolsona o cons ói, assim, uma na a i a de múl iplas manei as bélica: de en en amen o às
medidas es i i as que são impos as po p e ei os e go e nado es; de en en amen o pessoal
com seu Minis o da Saúde; de en en amen o ao í us, sem eme pela saúde e pela ida. Ele
p óp io se coloca como um líde des emido, indo ao encon o e apoiado es e equen ando o
comé cio nos inais de semana. Ao se c i icado po sua exposição, esponde o seguin e:
Se eu osse pe gun a pa a ou os, que êm uma boa ida, se eu de e ia i pa a ua, se ia
quase uma unanimidade: não. Mas não exis e isso, eu es ou na linha de en e com os
meus soldados. Sou um gene al, mas es ou na linha de en e. Se p ecisa aze de no o,
a ei. (Após, 29/03/2020)
As p e isões ca as ó icas o am e o çadas pelo Minis o da Economia Paulo Guedes, que se
p onunciou da seguin e o ma: “não que emos co e o isco de i a uma Venezuela, não
que emos co e o isco de i a nem seque uma A gen ina, que en ou em deso ganização,
in lação subindo, odo esse pesadelo de ol a” (Bolsona o, 07/05/2020). Uma semana depois,
Bolsona o ei e a que o caos pode ia se ins ala no país, decla ando que
Lá na en e, eu enho alado com o minis o Fe nando [Aze edo], da De esa... os
p oblemas ão começa a acon ece . De caos, saque a supe me cados, desobediência
ci il. Não adian a que e con oca as Fo ças A madas po que não exis e gen e pa a
an a GLO [Ga an ia da Lei e da O dem]. (É gue a, 14/05/2020)
Em ma ço de 2020, já ha ia uma o e p essão social pa a que osse concedido auxílio às
camadas mais ulne á eis da população. Tal como oco eu em ou os países, oi se
con o mando aqui o auxílio eme gencial. Em 18 de ma ço, o Minis o da Economia, Paulo
Guedes, já anuncia a a c iação de um bene ício de R$ 200,00, conside ado insu icien e pelo
Cong esso Nacional. Após o P esiden e da Câma a pau a o p oje o da oposição, que ele a ia o
alo pa a R$ 500,00, o Go e no acei a concede R$ 600,004 (B asil le a, 15/04/2020). A
ab angência do p og ama ambém oi ampliada pelo Cong esso: enquan o a p opos a o iginal
alcança ia ce ca de 20 milhões de usuá ios (Go e no, 01/04/2020), as eg as ap o adas
pe mi i am o acesso a 66 milhões (B asil, 21/08/2020). Concebido pa a se pago em ês
pa celas, o auxílio eme gencial so eu sucessi as ex ensões. A é dezemb o de 2020, o am
pagas cinco pa celas de R$ 600,00, mais qua o pa celas de R$ 300,00.
Inicialmen e, o auxílio eme gencial susci ou bas an e esis ência no Go e no Fede al, po
ep esen a um exp essi o aumen o da despesa pública, ameaçando o equilíb io iscal. Po ém,
4 R$ 600,00 equi alem a pouco mais de meio salá io mínimo b asilei o, ce ca de $100.
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o P esiden e Bolsona o logo pe cebeu os bene ícios pa a sua popula idade e p opôs, em
seguida, um aumen o pa a o bene ício maio do que a p opos a da p óp ia oposição. A
ap o ação de Bolsona o oi amplamen e bene iciada pela p o ogação do auxílio eme gencial.
No dia 8 de junho, Bolsona o p onuncia-se sob e o auxílio eme gencial: “Nosso go e no alocou
cen enas de bilhões de eais não só pa a comba e o í us, bem como pa a e i a o
desemp ego. Cada mês pago do auxílio eme gencial de R$ 600,00 co esponde a despesa na
o dem de R$ 40 bilhões pa a a União” (Bolsona o, 08/06/2020). Apesa dis o, ao longo de odo
ano de 2020 oi possí el obse a um pe manen e ensionamen o no Go e no, com a
insis en e p eocupação do Minis o da Economia com o e o dos gas os.
De aco do com Ca alho (2020, p. 69), o bene ício ap o ado con ibuiu an o pa a o comba e
ao í us, quan o pa a a enua os e ei os econômicos. Segundo a au o a, os bene ícios sociais
no B asil êm signi ica i os e ei os mul iplicado es, endo em is a que são u ilizados quase
in eg almen e pa a o consumo, ala ancando a p odução e ge ando impos os. Po an o, a
e ação econômica de 5% p e is a pa a 2020 pode ia se mui o mais o e sem o auxílio
eme gencial. Já Giuseppe Coco (2020, p. 816) sublinha que “o con inen e la ino-ame icano
mos a que a e icácia das polí icas e es o ços pa a a con enção da pandemia é d as icamen e
limi ada pelo a o de uma po ção exp essi a da população depende do comé cio in o mal”. O
au o con inua a gumen ando que essa pa cela da população necessi a ainda mo imen a -se
pelo ecido u bano, usando anspo es cole i os, pa a man e sua enda – o que impossibili a
sus en a o dis anciamen o social po longos pe íodos. Di e en emen e de Ca alho (2020),
Coco (2020, p. 816) des aca: “o impac o do auxílio eme gencial oi pa adoxal: implemen ado
com mui o a aso (...), ele acabou e o çando poli icamen e o negacionismo p esidencial e a
acele ação de uma abe u a ge al guiada mais pelo cansaço do que pelo sucesso da con enção
do í us”.
Assim, cabe no a que mesmo econhecendo que sua ap o ação oi bene iciada pelo auxílio
eme gencial, o P esiden e não pa ou de ins iga a abe u a econômica. No dia 25 de junho,
decla ou que “não podemos e aquele pa o lá de ás, que chegou jun o à população e
hou e, no meu en ende , um excesso de p eocupação apenas com uma ques ão [saúde] e não
podia desp eocupa com a ou a [economia]” (Bolsona o, 25/06/2020). Já em 12 de julho,
a i mou que "A ealidade do u u o de cada amília b asilei a de e se despoli izada da
pandemia. Os núme os eais dessa gue a b e emen e apa ece ão” (Bolsona o, 12/07/2020).
Enunciações no mesmo sen ido con inua am se epe indo ao longo de 2020. Em 10 de
no emb o, hou e uma decla ação p oblemá ica, de bas an e epe cussão, pelo seu ca á e
homo óbico:
Tudo ago a é pandemia. Tem que acaba com esse negócio. Lamen o as mo es,
lamen o, odos nós amos mo e um dia, odo mundo ai mo e . Não adian a ugi
disso, ugi da ealidade. Tem que deixa de se um país de ma icas. Olha que p a o
cheio pa a a imp ensa. Pa a a u ubuzada que es á aí a ás. Temos que en en a , de
pei o abe o, lu a . (Tem,10/11/2020)
Des e modo, é possí el pe cebe que o P esiden e Bolsona o cons uiu uma discu si idade que
ins iga os b asilei os a abandona em o isolamen o social e a con inua em le ando suas idas
sem p eocupações com o í us. “Ao mos a -se indi e en e à a e a de p o ege os cidadãos
con a a ameaça da mo e, Bolsona o ompe com o p incípio basila do pac o social e com a
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jus i ica i a da exis ência do p óp io Es ado: a ga an ia do di ei o à ida” (Singe e al., 2020).
Sua a uação em elação à pandemia, espelhando desin o mação e ins igando o des espei o ao
isolamen o social, o o na esponsá el po pa e conside á el das mais de 200.000 idas
cei adas pelo í us no B asil, a é janei o de 2021.
5. CLOROQUINA ACIMA DE TUDO
Nos ês p onunciamen os o iciais de Bolsona o, ealizados espec i amen e nos dias 24 e 31
de ma ço e 08 de ab il em cadeia nacional de ádio e ele isão, há a exal ação da clo oquina
como o medicamen o capaz de p e eni e cu a o co ona í us. Não há nenhuma menção ao
uso de equipamen os de p o eção indi idual, como másca as, ou mesmo o uso de álcool em
gel 70%, como p á icas e insumos e icien es de p e enção du an e a pandemia (Bolsona o
eco e, 27/06/2020). Disse Bolsona o em 24 de ma ço:
Enquan o es ou alando, o mundo busca um a amen o pa a a doença. O FDA
ame icano e o Hospi al Albe Eins ein, em São Paulo, buscam a comp o ação da
e icácia da clo oquina no a amen o do Co id-19. Nosso go e no em ecebido no ícias
posi i as sob e es e emédio ab icado no B asil e la gamen e u ilizado no comba e à
malá ia, lúpus e a i e. Ac edi o em Deus, que capaci a á cien is as e pesquisado es do
B asil e do mundo na cu a des a doença.
Uma semana depois, o P esiden e a i ma: “Vamos cump i essa missão, ao mesmo empo em
que cuidamos da saúde das pessoas. O í us é uma ealidade, ainda não exis e acina con a
ele, ou emédio com e iciência cien i icamen e comp o ada, apesa da hid oxiclo oquina
pa ece bas an e e icaz” (Bolsona o, 31/03/2020). T a a-se de uma omada de posição
explíci a em a o do uso do e e ido medicamen o enquan o es a égia de ga an ia da saúde,
a i mando a e iciência e a e icácia do seu uso, inobs an e deixando de indica as e idências em
que se baseiam suas a i mações.
É nes e sen ido que demos o í ulo de “Clo oquina acima de udo” pa a es a seção: o
medicamen o oi usado nas decla ações do P esiden e como a pílula mágica que esol e ia o
p oblema da pandemia no B asil. E essa solução se ia ápida, simples e ba a a, que esol e ia a
an í ese en e p o eção de idas e ga an ia de emp egos, con o me ap esen ado na seção
an e io . As eco en es e e ências à clo oquina como emédio e icaz e e icien e con a o
co ona í us se a icula à negação, po pa e de Bolsona o, em assumi a medida do
dis anciamen o social como es a égia de p e enção. Isso po que o dis anciamen o de co pos
e, no limi e, o echamen o de on ei as e di isas e consequen e isolamen o da população
(lockdown) êm inega elmen e e ei os econômicos. Assim, esqui ando-se de menciona as
medidas de dis anciamen o e, ambém, de uso de másca as de p o eção acial, o uso da
clo oquina o na-se a ped a angula das decla ações o iciais do P esiden e.
Naquele mesmo p onunciamen o, o P esiden e a i ma que “as consequências do a amen o
não podem se mais danosas que a p óp ia doença. O desemp ego ambém le a à pob eza, à
ome, à misé ia, en im, à p óp ia mo e” (P onunciamen o, 08/04/2020). E ele pensa, ainda,
que sua posição em amplo apoio popula , decla ando e “ce eza de que a g ande maio ia
dos b asilei os que ol a a abalha ” (P onunciamen o, 08/04/2020). Segundo Lazza a o
(2019), exis e uma elação en e ascismo e neolibe alismo que pode se pe cebida a pa i da
elação de Hayek com o di ado chileno Augus o Pinoche . Tal elação p omo e o c escimen o
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Coo dena o G upo de Es udos Educação pa a a Re ol a e a Insu gência (GEERI). É edi o a da
Re is a Tex u a (ULBRA).
Luiz Felipe Zago é dou o e mes e em Educação (UFRGS), bacha el em Comunicação Social –
Jo nalismo. É pós-dou o ando olun á io jun o ao P og ama de Pós-G aduação em
En e magem da UFRGS, pesquisando saúde digi al, p omoção da saúde e comunicação e
saúde.
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