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Os Talismãs da Vida: Magia, Religião e Ciência na Saga Harry Potter

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Os Talismãs da Vida: Magia, Religião e Ciência na Saga Harry Potter

Author: João Fernando de Castro Gonçalves dos Santos
Year: 2015
DOI: 10.34626/00cd-be64
Source: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/81594/2/37386.pdf
João Fe nando de Cas o Gonçal es dos San os
Os Talismãs da Vida: Magia, Religião e Ciência na Saga de
Ha y Po e
Disse ação ealizada no âmbi o do Mes ado em Es udos Anglo-Ame icanos:
Li e a u as e Cul u as, o ien ada pela P o esso a Dou o a Ma ia de Fá ima de Sousa
Bas o Viei a
Faculdade de Le as da Uni e sidade do Po o
Se emb o de 2015
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Os Talismãs da Vida: Magia, Religião e Ciência na Saga de
Ha y Po e
João Fe nando de Cas o Gonçal es dos San os
Disse ação ealizada no âmbi o do Mes ado em Es udos Anglo-Ame icanos:
Li e a u as e Cul u as, o ien ada pela P o esso a Dou o a Ma ia de Fá ima de Sousa
Bas o Viei a
Memb os do Jú i
P o esso Dou o Gual e Mendes Quei oz Cunha
Faculdade de Le as - Uni e sidade do Po o
P o esso a Dou o a Ma ia de Fá ima de Sousa Bas o Viei a
Faculdade de Le as - Uni e sidade do Po o
P o esso a Dou o a Iolanda F ei as Ramos
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Uni e sidade No a de Lisboa
Classi icação ob ida: 17 alo es
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Sumá io
Ag adecimen os………………………………………………………………………….6
Resumo…………………………………………………………………………………..7
Abs ac ………………………………………………………………………………….8
Lis a de Ab e ia u as e Siglas…………………………………………………………...9
In odução…………………………………………………………………………..10-12
1. Capí ulo 1 – A Receção da saga Ha y Po e ……………………………...13-23
2. Capí ulo 2 – Magia, Religião e Ciência – Uma B e e His ó ia…………….24-45
3. Capí ulo 3 - Magia, Religião e Ciência em Ha y Po e …………………..46-65
3.1 - Os Talismãs da Vida…………………………………………………..66-76
Conclusão………………………………………………………………………………77
Re e ências Bibliog á icas………………………………………………………….78-81

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Ag adecimen os
Que ia ag adece à minha O ien ado a, a P o esso a Fá ima Viei a, cuja ajuda oi
de i al impo ância pa a a conc e ização des a disse ação, e sem a qual não pode ia e
conc e izado es e pequeno sonho. Que o ambém ag adece odo a ajuda que me oi
dado pela minha mãe, que me apoiou em odos os momen os, que os melho es que os
de maio di iculdade. Finalmen e, que ia ambém ag adece aos meus que idos amigos e
ao meu i mão mais no o, que me enco aja am e me de am mui as ideias an ás icas que
ajuda am a en iquece a disse ação.
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Resumo
Os Talismãs da Vida: Magia, Religião e Ciência na saga de
Ha y Po e
Es a disse ação e sa sob e a saga Ha y Po e , de J. K. Rowling. Embo a não
pe ença (ainda) ao cânone li e á io, a saga é uma das mais amadas e popula es dos
úl imos empos, com in luências comp o adas na cosmo isão das ge ações mais no as.
A disse ação em como obje i o analisa a saga do pon o de is a das elações que
es abelece en e as es e as da magia, da eligião e da ciência.
Num p imei o momen o, a disse ação p opõe uma b e e e isão da his ó ia da magia,
da eligião e da ciência, eco endo pa a o e ei o à pe spe i a a ançada po au o es das
mais a iadas á eas, desde J.G. F aze e B onislaw Malinoswki a Eins ein e ao Papa
F ancisco, passando po mui os ou os nomes de ele o.
Num segundo momen o, a disse ação p opõe a lei u a da saga Ha y Po e a a és das
len es da magia, da eligião e da ciência, selecionando passos e si uações desc i os na
saga onde es as pe spe i as são e iden es. A disse ação sublinha o ca ác e holís ico da
cosmo isão que J. K. Rowling p opõe ao seu jo em público lei o , e idenciando que as
di e en es es e as não de e ão se enca adas indi idualmen e, de endo an es se ei o
um in es imen o na comp eensão do nexo de elações que en e elas se es abelece.
Adicionalmen e, suge e-se que a magia é a o ma como os ei icei os do mundo de
Ha y azem ciência.
A disse ação p opõe, po im, que os “Talismãs da Mo e” que dão o í ulo ao úl imo
omance da saga de am na ealidade se is os como os “Talismãs da Vida”, e sublinha
a necessidade u gen e da boa comp eensão da ob a, po oada po pe sonagens e
si uações de ida ni idamen e subsidiá ias de lendas, mi os e adições.
P ocu a-se des a o ma demons a que Ha y Po e o na possí el uma elação menos
con li uosa en e a Magia, a Religião e a Ciência no século XX, que são a inal ês
o mas di e en es de se es uda o mundo.
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Abs ac
“Os Talismãs da Vida: Magia, Religião e Ciência na saga de
Ha y Po e ”
This disse a ion conce ns J.K. Rowling’s popula saga, Ha y Po e . E en hough i
does no belong in he li e a y canon (ye ), his is one o he mos belo ed and popula
sagas o all imes, which has al eady p o ed o be qui e in luen ial amongs young
eade s. My pu pose wi h his disse a ion is o analyze he saga h ough he ela ionship
ha I will be es ablishing be ween magic, eligion and science.
In a i s ins ance, I shall pe o m a b ie e ision o he his o y o magic, eligion and
science using he ad anced pe spec i e o au ho s om a ious ields o s udy, om
J.G. F aze and B onislaw Malinowski o Albe Eins ein and Pope F ancis, and many
o he ele an names.
In he second chap e , I will p opose a eading o he Ha y Po e saga h ough he
p isms o magic, eligion and science, selec ing ce ain momen s and si ua ions om he
s o y in which hese pe spec i es a e clea . Wi h his disse a ion I wish o unde line he
holis ic cha ac e o he cosmo ision ha J.K. Rowling p oposes o he young eade s,
hus making i clea ha he h ee di e en a o e men ioned sphe es shouldn’ be
analyzed indi idually, bu a he h ough he ela ionship ha is es ablished be ween
hem. Mo eo e , i will be sugges ed ha magic is he way wiza ds in Ha y’s wo ld do
science.
I shall inally p opound ha “The Dea hly Hallows” whose name is he same as he las
olume o he saga can in ac be seen as “Hallows o Li e”, hus unde lining he u gen
need o a good unde s anding o he saga, peopled by cha ac e s and li e si ua ions
clea ly eminiscen o legends, my hs and adi ions.
In his way i will be demons a ed how Ha y Po e makes i possible o magic,
eligion and science o coexis ha moniously in he 20 h cen u y and ha hese h ee
opics a e h ee di e en ways o s udy ou wo ld.
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Ab e ia u as
Dado o núme o ele ado de li os de J. K. Rowling que es udo nes a disse ação, op ei
po os e e i a a és das seguin es o mas ab e iadas:
. Ha y Po e and he Philosophe s's S one (1997, Lond es, Bloomsbu y) -
Philosophe 's S one
. Ha y Po e and he Chambe o Sec e s (1998, Lond es, Bloomsbu y) – Chambe o
Sec e s
. Ha y Po e and he P isone o Azkaban (1999, Lond es, Bloomsbu y) – P isone o
Azkaban
. Ha y Po e and he Goble o Fi e (2000, Lond es, Bloomsbu y) – Goble o Fi e
. Ha y Po e and he O de o he Phoenix (2003, Lond es, Bloomsbu y) – O de o
he Phoenix
. Ha y Po e and he Hal -Blood P ince (2005, Lond es, Bloomsbu y) – Hal -Blood
P ince
. Ha y Po e and he Dea hly Hallows (2007, Lond es, Bloomsbu y) – Dea hly
Hallows
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sa í ico no om. Os bons con os de adas de e ão ainda en ol e se es humanos como
pe sonagens e di igi em-se a um ou mais desejos humanos p imo diais, al como o
desejo de comunica com ou as c ia u as ou de iaja a a és do espaço e do empo.
Finalmen e, segundo Tolkien, os con os dão qua o p esen es mui o aliosos ao lei o :
Fan asia, Cu a, Escape e Consolo (apud. S u gis, 2004: 3). Todas es as ca ac e ís icas
pode ão se encon adas em Ha y Po e .
Em p imei o luga , Rowling in oca a essência de Faë ie, a essência de um mundo
que não é o nosso, mas que, apesa de odas as suas ca ac e ís icas sob ena u ais pode
se is o como uma isão al e na i a do nosso. Rowling o e ece a sua e são de um
mundo de an asia, com o qual o lei o se pode á elaciona acilmen e e no qual se
p essen e uma espécie de pode supe io em ação, um pode que não pe ence ao mundo
do p óp io lei o . Pode se di ícil de de ini , mas há semp e uma au a e pode es
mis e iosos em ação. Tais mis é ios incluem um cas elo encan ado, uma lo es a
p oibida e uma aldeia mágica. Além disso, o mundo da magia de Ha y Po e é um
local pe igoso, cujos habi an es eco dam as a ocidades do passado come idas po
Voldemo . Todos se lhe e e em como “He-Who-Mus -No -Be-Named”, emendo que
ele se e ga mais uma ez depois da de o a que so eu às mãos de Ha y e da sua
amília.
Em segundo luga , Rowling le a a magia de Hogwa s e do seu ambien e
ci cundan e mui o se iamen e. A legi imidade dos encan amen os e ei iços usados de
o ma e icaz nunca é ques ionada. A magia em Hogwa s é uma o ça pe manen emen e
usada an o pa a a aque como pa a de esa, sendo ap esen ada como algo eal, que não
exis e apenas em sonhos, o que jus i ica a c ença do lei o .
Em e cei o luga , a sé ie en ol e se es humanos no mais como pe sonagens, que
sejam os Muggles que não êm magia ou a é mesmo (exemplos mui os a os) ei icei os
que nasce am sem magia (chamados de Cepa o as6), que os p óp ios ei icei os que
podem se econhecidos como se es humanos. As pe spe i as do lei o são ecoadas nas
pe spe i as de Ha y e da sua amiga He mione que, apesa de se em ei icei os, o am
c iados num mundo sem magia, o chamado “mundo eal”.
A sé ie de li os ambém se di ige a desejos humanos p imo diais: Ha y
comunica com c ia u as mágicas e a é az amizade com um meio-gigan e, um
lobisomem, um el o-domés ico, um an asma e um cen au o, en e mui os ou os.
6 “Squib” é o e mo o iginal inglês.

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Ou os desejos ealizados são iaja no empo e a é p olonga a ida g aças a uma ped a
mágica, a ped a iloso al. Rowling o e ece, assim, o qua e o de qualidades de um con o
de adas que Tolkien an o de endeu.
Na Fan asia, o mundo mágico e o não-mágico su gem undidos. Na Cu a, Ha y
compa a ca as que alam e o og a ias e quad os que se mo em aos seus equi alen es
“ eais” após cada ano passado em Hogwa s. Tais compa ações o e ecem um Escape do
mundo no mal que ão mal a ou Ha y. Finalmen e, cada li o o e ece Consolo ao
lei o e ao p óp io Ha y, apesa de odos os pe igos pelos quais ele passa nos seus anos
na escola mágica. Ao consegui sa is aze es es c i é ios, J.K. Rowling esc e eu uma
boa his ó ia an o em e mos de es u u a como de con eúdo, de aco do com os c i é ios
p opos os po J.R.R. Tolkien.
Uma ou a azão pa a admi a mos os li os de Ha y Po e é que o seu mundo de
an asia é consis en e: em as suas p óp ias “leis da na u eza”, que não são queb adas
a bi a iamen e. É o que se passa, po exemplo, em elação ao concei o de mo e. Mais
conc e amen e, exis em limi es em elação ao que se pode aze com a magia no mundo
de Ha y. No seu mundo de sal ação, onde se sen e em casa, o mundo da ei iça ia ou,
mais p ecisamen e, a escola de Hogwa s, Ha y ap ende, no meio do seu so imen o e
da saudade que sen e dos pais que nunca chegou a e , que os mo os não podem se
essusci ados. Ao pensa nes a si uação, emos que a au o a de Ha y Po e não em
in enção de apela ou de incen i a os seus lei o es à magia neg a. Como se e á mais à
en e, a magia neg a no malmen e implica a essu eição dos mo os, mas na o ma de
cadá e es, ou de zombies, um dos meios, aliás, que Voldemo usa pa a en a
conquis a o mundo dos ei icei os e pa a e adica os Muggles, as pessoas não mágicas.
O ac o de as pessoas não pode em eg essa do mundo dos mo os da o ma como e am
e os es o ços de Ha y pa a e adica Voldemo e os seus mé odos sanguiná ios são
p o a de que J.K. Rowling que inci a os seus lei o es à sua p óp ia lu a con a o mal
em nome do bem. Des a o ma, são de ubadas odas as eo ias de que J.K. Rowling é
uma apologis a do sa anismo ou do p óp io mal no sen ido pejo a i o que as pala as
“b uxa ia”, “magia” e “ ei iça ia” implicam.
Es as es ições que impe am no mundo de Ha y Po e azem com que a magia
de Rowling nunca deixe de e como base o “ eal.” A magia da esc i o a e le e aquilo
que são alguns dos eceios do se humano, sendo um deles a mo e. De aco do com
Nancy Flanagan Knapp, es as p eocupações com a mo e são comuns no nosso dia-a-
dia, pois é a o encon a -se um se humano que não a ema. Es as p eocupações êm
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aiz na alibilidade e no egoísmo, mas ambém na inc í el co agem da nossa na u eza
humana (Knapp, 2003: 6). Como se pode á e i ica pela lei u a dos li os de Rowling,
a maio ia das suas pe sonagens são bas an e humanas e ealis icamen e complexas.
Ha y, sendo a pe sonagem que mais so e ao longo da sé ie (ou é mais mos ada a
so e ), de ido à complexidade do seu so imen o é capaz de ep esen a odas as
pessoas que es ejam a passa po momen os maus.
Ha y é de ac o uma pe sonagem com a qual odas as pessoas, p incipalmen e as
c ianças, se pode ão iden i ica de ido ao desejo de que e em escapa à sua ealidade.
Apesa de odas as en ações pelas quais Ha y passou e que pe mi i iam ácil acesso ao
mundo da magia neg a, ou de Voldemo , apesa de mui as conclusões e adas, iscos
mui as ezes insensa os, e apesa de e mui as ezes icado con uso com o que a
ealidade inha pa a lhe da , Ha y oi semp e bom. No que ealmen e con a, quase
ins in i amen e, ele ez semp e a escolha ce a ou, melho dizendo, a escolha mo al que
é mais uma p o a de que é o bem que em de iun a con a o mal, e não o con á io.
Cada uma das escolhas de Ha y no sen ido de p ese a o ou o em ez da sua p óp ia
pessoa, o ce o em ez do e ado, acaba po de e mina a i ó ia de Ha y sob e o seu
a qui-inimigo e é ambém uma das azões da sua sob e i ência ace às á ias en a i as
de assassínio po pa e de Voldemo e dos seus se os, os De o ado es da Mo e.7
Ha y demons a que o que impo a é o que es á den o de uma pessoa e não o
nascimen o e as ci cuns âncias do mesmo. Em ez da on e de magia neg a e de
maldade que mui as pessoas ac edi am que Ha y Po e é, es a sé ie e a sua pe sonagem
p incipal se em, simplesmen e, como o ma de escape à ealidade e, po isso, uma
on e de con o o.
De aco do com Knapp, os li os de Ha y Po e le an am ques ões de g ande
impo ância pa a o desen ol imen o é ico e social das c ianças. Pa a além de a ai o
seu in e esse, es es li os ajudam as c ianças a ap ende sob e a ida, já que le an am
ques ões de g ande signi icado mo al, con ibuindo assim pa a o seu desen ol imen o
na sociedade. Knapp ac edi a que a melho his ó ia o e ece às c ianças p é-adolescen es
uma “expe iência isual” a a és da qual elas possam p ocessa ques ões de é ica e
a alia o impac o de di e en es escolhas mo ais an es de e em de en en a es as
escolhas na ida eal. Ao i e em a a és dos olhos dos seus he óis sob e os quais leem,
as c ianças conseguem desen ol e co agem e con icções de que i ão p ecisa pa a
7 “Dea h Ea e s” é o e mo inglês.
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esis i em a odos os males, mesmo os mais p osaicos, que e ão de en en a
ine i a elmen e à medida que c escem (Knapp, 2003: 8).
Es a lei u a da u ilidade de Ha y Po e é co obo ada po um es udo psicológico
ealizado com c ianças e adolescen es publicado pelo Jou nal o Applied Social
Psychology, de aco do com o qual le a saga de Ha y Po e melho a de o ma
signi ica i a a pe ceção de pessoas sob e jo ens de g upos es igma izados, ais como
imig an es, homossexuais ou e ugiados.8 De aco do com o es udo, o maio ei o de
Ha y Po e pode á não e sido de o a o senho das e as, Voldemo , mas ensina
aos jo ens de odo o mundo como es es hão-de comba e o p econcei o.9
Con udo, há quem ac edi e que os emas dos li os são, de ce a o ma,
inap op iados ou a é mesmo p ejudiciais pa a as c ianças. Alguns c í icos conside am-
nos demasiado pesados, demasiado assus ado es pa a as c ianças p é-adolescen es que
são os seus lei o es mais á idos. No en an o, uma lei u a a en a e ela á que mui as
pessoas nos li os azem coisas boas e que, po isso, mui as coisas boas lhes acon ecem.
Um dos apologis as da lei u a de Ha y Po e , Pe e Den on, a i ma:
I hink i is a wise cou se o ac ion o le child en see some hing o he wo ld as i is,
some hing o wha e il lu ks in he hea s o o he people, o help hem lea n he na u e o
he choices hey will ha e o make, in o de ha hey ha e a be e chance o ending o
hemsel es when he e is no longe an adul a ound o p o ec hem. (apud. Knapp, 2003:
86).
8 h p://www.psmag.com/na iga ion/books-and-cul u e/ha y-po e -ba le-bigo y-87002/, Jacobs, 2014
9 Fo am ealizados ês es udos di e en es. O p imei o en ol eu 34 es udan es i alianos do quin o ano que
equen a am um cu so de seis semanas sob e Ha y Po e . Os in es igado es pedi am aos es udan es
pa a p eenche em um ques ioná io sob e imig an es e depois es es o am di ididos em dois g upos, sendo
que cada g upo leu passos di e en es dos li os. Os alunos do p imei o g upo discu i am o p econcei o e a
in ole ância como emas dos li os, ao passo que o ou o g upo não o ez se indo es e como um g upo de
con olo. Os alunos do p imei o g upo mos a am a i udes melho adas em elação aos imig an es, mas
somen e se ossem elacionados com Ha y Po e . Um segundo es udo com 117 alunos i alianos do
ensino secundá io e elou que a iden i icação emocional de um lei o com a saga o a associada com
pe ceções mais posi i as de pessoas gays, bissexuais e anssexuais em ge al. Um e cei o es udo que
in es igou es udan es b i ânicos da aculdade acabou po não encon a nenhuma associação en e um
laço emocional com Ha y e as pe ceções de e ugiados, mas indicou que es udan es que i essem menos
iden i icação emocional com Voldemo inham a i udes melho adas em elação aos e ugiados. Nos ês
es udos, os in es igado es de am c édi o aos li os po melho a em a capacidade dos lei o es pa a
assumi em a pe spe i a de g upos ma ginalizados. Os in es igado es ambém a i ma am que as c ianças
consegui am pe cebe que o apoio cons an e de Ha y em elação aos Muggles, ou como os De o ado es
da Mo e lhes chamam, “Sangues de Lama” (Mudbloods), é uma alego ia em elação à in ole ância na
nossa ida eal. É cla o que al aciocínio po pa e das c ianças e e que se moni o izado po um
p o esso . De aco do com a equipa de in es igação lide ada po Lo is Vezalli, da Uni e sidade de
Modena, e po Reggio Emilia, es es esul ados suge em que le a amosa saga pode ajuda à edução da
do p econcei o. Adicionalmen e, os es udos ambém comp o am que le icção li e á ia pode ajuda a
eduzi o acismo, ajudando os lei o es a iden i ica em-se com pe sonagens de di e sos ipos. Es as
mensagens em Ha y Po e são in oduzidas com sucesso no meio de uma his ó ia imagina i a e
apela i a (h p://www.psmag.com/na iga ion/books-and-cul u e/ha y-po e -ba le-bigo y-87002/,
Jacobs, 2014).
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Knapp ambém ac edi a que se as pessoas lessem os li os com uma men e abe a
em ez de e em medo deles sem seque sabe em os po meno es, consegui iam e que
a magia de Rowling não é nem sa ânica nem ocul a na sua o igem. Na magia que Ha y
ap ende em Hogwa s não encon amos a in ocação de demónios ou espí i os. A magia
dos li os pa ece-se mais com a ciência da nossa p óp ia cul u a, uma e amen a que
pode se usada an o pa a o bem como pa a o mal, dependendo dos obje i os das
pessoas que a con olam. Na e dade, de aco do com Knapp, a saga de Ha y é uma das
úl imas his ó ias no seio de uma longa adição na li e a u a in an il que coloca a magia
do bem em con on o com a magia do mal.
Ou as his ó ias com ca ac e ís icas semelhan es são The Wiza d o Oz, dos i mãos
G imm, The Lo d o he Rings, de J.R.R. Tolkien e The Ch onicles o Na nia, de C.S.
Lewis. A lu a do bem con a o mal nes as his ó ias pode á se elacionada, como se e á
mais à en e, com o apelo c is ão à paz e à de o a do mal. Ha y Po e es á de ac o
mais elacionado com o C is ianismo do que as pessoas julgam. Alguns exemplos
conc e os des a ligação à é c is ã pode ão se encon adas no ac o de: os ei icei os de
Ha y Po e se casa em, ba iza em os seus ilhos e celeb a em o Na al e a Páscoa.
Após uma lei u a mais a en a, o lei o ape cebe-se de que J.K. Rowling enco aja os seus
lei o es a uma e lexão sob e ques ões mo ais ances ais. Voldemo diz a Ha y: “The e
is no good o e il, he e is only powe , and hose oo weak o seek i ” (Philosophe ’s
S one, 291). Toda ia, Voldemo alha semp e nos seus obje i os, impedido não pelos
pode es mágicos de Ha y, mas pela sua lealdade, a sua co agem e o amo dos seus pais
que o sal am mesmo pa a além da mo e, ca ac e ís icas e c enças c is ãs que se ão
explicadas e explo adas nos seguin es capí ulos. Ha y é o he ói não po se g ande ou
o e ou amoso ou espe o ou a é mesmo pode oso, mas po que no im ele escolhe
semp e aquilo que é bom e ecusa-se a acei a udo o que seja malignamen e apela i o
apesa das consequências que isso possa aca e a pa a ele p óp io. Pa a aseando o
di e o de Hogwa s, Dumbledo e, o se humano pa ece e endência a escolhe udo
aquilo que lhe é p ejudicial; Ha y não é uma dessas pessoas (idem, 335).
No en an o, o medo em elação à magia e os p o es os não deixam de exis i , e no
meio de odas as espos as a es es p o es os, ac edi o que se á impo an e salien a as
espos as da p óp ia au o a de Ha y Po e em elação a es a polémica. A esc i o a
semp e negou que o obje i o dos seus li os osse le a as c ianças a me e em-se na
ei iça ia. Em 1999, numa en e is a à CNN, Rowling decla a que:
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I absolu ely did no s a w i ing hese books o encou age any child in o wi chc a . I’m
laughing sligh ly because o me, he idea is absu d. I ha e me housands o child en and
no e en one ime has a child come up o me and said, “Ms. Rowling, I’m so glad I’ e ead
hese books because now I wan o be a wi ch.10
Numa ou a en e is a, des a ez ao Donny & Ma ie Show, ambém em 1999,
Rowling a i mou: “You ha e a pe ec igh , o cou se, as e e y pa en does, and I’m a
pa en , o decide wha you child is exposed o. You do no ha e he igh o decide
wha e e yone else’s child en a e exposed o. So ha ’s how I eel abou i .”11
Abo dando mais uma ez a ques ão da p eocupação com o des ino das c ianças que
leem Ha y Po e e ques ionada ace ca da con o é sia que gi a a à ol a dos seus
li os, a au o a comen ou ainda num documen á io de 2001, Ha y Po e and Me que:
People unde es ima e child en so hugely, hey know i ’s ic ion. When people a e a guing
om ha kind o s andpoin , I don’ hink eason wo ks emendously well. Bu I would be
su p ised i some o hem had ead he books a all.12
A i onia e ambém us ação des a si uação é que mui os dos comen á ios nega i os são
ei os po pessoas que não se de am ao abalho de le os li os e que os a acam só po
ou i em pala as como ei iça ia, magia, b uxa/s, e bes as/mons os.
No en an o, aqueles que in es em algum do seu empo na lei u a dos li os são os
que conseguem cons ui melho es comen á ios. En e es es, su gem alguns que, em ez
de o alece em as con icções de g upos eligiosos de que Ha y Po e é sa ânico,
azem à luz o ca ác e espi i ual e a é mesmo eligioso que exis e nos li os de Ha y
Po e , ema que desen ol e ei no e cei o capí ulo. Po es e mo i o, Ha y Po e é
conside ado boa lei u a, e odas as pessoas são enco ajadas a le a saga do jo em mago
pa a pode em encon a algum consolo em elação à ealidade que i em. Um exemplo
des e pon o de is a pode se is o no comen á io de Ma y Ma ga e Kea on em “Ha y
Po e : A Tool o Sowing Seeds o he Gospel” (2001):
Ha y Po e books demons a e i ue o e ice, good o e e il, lo e beyond measu e…
ucked among he p e een gags, human ail ies, and an as ical my hos o he Ha y Po e
books lay he seed o he Gospel – lo e, sel -sac i ice, discipline, iendship, eedom.
(apud. Bu le , 2003: 9).
Ha y Po e conseguiu ansmi i es a mensagem de o ma ão e icaz que hou e
pessoas que esc e e am ca as exp imindo a sua g a idão a J.K. Rowling po e esc i o
10 h p://edi ion.cnn.com/books/news/9910/21/ owling.in u/, s.a., 1999
11 h p://www.accio-quo e.o g/a icles/1999/1199-osmonds.h ml, Ca me , 1999
12 h p://www.accio-quo e.o g/a icles/2001/1201-bbc-hpandme.h m, Ma olo & Thoge sen, 2001

22
a saga, alegando que es a lhes mudou as idas po comple o po causa das mensagens
de espe ança que ansmi e.13
Apesa de odas as coisas posi i as que o am di as sob e Ha y Po e , con inua a
pe manece uma ques ão: po que é que exis e es e medo p o undo em elação à magia?
A magia oi is a, em mui os momen os da his ó ia da humanidade, como algo de
eneb oso, a se emido e a é mesmo cas igado. Os cul os eligiosos semp e ize am
es o ços imensos pa a a as a em a magia de o ma de ini i a da sociedade e
con ence em o público em ge al de que é algo em que não se pode con ia . A p óp ia
ciência negou e chegou a é mesmo a idicula iza odas as ideias “ an ás icas” e
“mágicas” que o se humano desen ol eu desde os empos mais an igos sob e a ida
humana, a na u eza e o ambien e en ol en e. Pa a os cien is as, a magia e a um mé odo
p imi i o de explica o mundo e a ida humana e, po isso, desen ol e am eo ias que
andam à ol a do mesmo assun o: que não há nada de mís ico no mundo, que há uma
explicação acional e lógica pa a udo. A magia oi semp e is a po mui os como algo
que co ompe o se humano. Se obse a mos a en amen e o con li o que exis e en e os
cul os eligiosos e os emas de Ha y Po e , es a pe seguição à saga pode á se
compa ada à caça às b uxas que oco eu no passado.
Mas se ão a magia e a eligião assim ão di e en es? Não e ão es as duas o mas
de enca a a ida elemen os semelhan es de mis icismo e de sob ena u alismo na o ma
como os seus i uais são execu ados e na o ma como en am esol e os p oblemas do
nosso dia-a-dia, ou melho , da ida humana? E não pode á a ciência ap ende um pouco
com a magia e a eligião e a é mesmo analisa o compo amen o e o desen ol imen o da
humanidade a a és delas e chega a no as conclusões sob e a o ma como o se
humano pode á e olui ? Não se á possí el encon a mos ce as semelhanças nos
p opósi os que a eligião e a ciência desejam se i na nossa sociedade? E não se á
Ha y Po e um bom exemplo de como a magia é acei e de b aços abe os pelo público
em ge al apesa do seu ca á e e iden emen e ilusó io?
No capí ulo que se segue a ei e e ência a au o es especialis as em es udos da
magia, ais como J.G. F aze , Philip Ca -Gomm, Ma cel Mauss e B onislaw
Malinowski, e au o idades eligiosas e cien í icas ais como o Papa F ancisco e Albe
Eins ein, espe i amen e, pa a ilus a a o ma como a magia oi is a ao longo dos
13 Pa a mais in o mações sob e algumas das ca as e em:
h p://ha ypo e o seeke s.com/a icles/ch isnihill.php um websi e dedicado a uma p o unda explo ação
das emá icas eligiosas de Ha y Po e .
23
empos em elação à eligião e à ciência, e e idencia como es e nexo de elações é is o
nos nossos dias.
Nos dois úl imos capí ulos, a a és da minha análise da p óp ia saga de Ha y
Po e , p oponho-me p o a que a au o a, J.K. Rowling, usa os seus li os pa a ilus a
(implici amen e) e de ende as suas p óp ias c enças eligiosas, e que a magia em Ha y
Po e pode se is a como a o ma que os ei icei os êm de es uda o mundo, ou seja,
aze a sua p óp ia ciência. Que o p o a que o mundo de Ha y Po e pode se is o
como um mundo pa alelo ao nosso, uma ou a possibilidade de ida, onde a magia é o
elemen o que une a eligião e a ciência. Pa a o alece a ligação en e Ha y Po e e os
ês ópicos sup a mencionados (magia, eligião e ciência) u iliza ei os ês Talismãs da
Mo e que apa ecem no úl imo li o da saga de Rowling, Ha y Po e and he Dea hly
Hallows.
Desejo demons a a o ma como Ha y Po e o na possí el uma elação menos
con li uosa en e a Magia, a Religião e a Ciência no século XXI. Ac edi o que es as
pe spe i as podem ap ende umas com as ou as e a é mesmo i e lado a lado sem se
con adize em e que nenhuma delas ep esen a qualque pe igo pa a as ou as. Desejo
p o a que a magia, a eligião e a ciência são ês o mas di e en es de se es uda o
nosso mundo e que, po exemplo, a eligião esponde a ques ões espi i uais às quais a
ciência não consegue esponde , mas que a ciência é necessá ia pa a apela à pa e
acional do nosso mundo.
24
Capí ulo 2
Magia, Religião e Ciência – Uma B e e His ó ia
I we wish o sum up he whole his o y o magic, in a
sen ence, we may say ha men i s ega ded magic
as na u al, hen as ma elous, hen as impossible
and absu d.
Lynn Tho ndike, The Place o Magic in he
In elec ual His o y o Eu ope
Como se i á e ao longo des e capí ulo, o se humano, mais especi icamen e o
homem p imi i o, i ia em ha monia com a na u eza sem ques iona as dádi as que
es a lhe o e ecia. Os se es humanos e odo o seu ambien e ci cundan e e am um só.
Com o passa do empo, o homem p imi i o começou a ques iona -se sob e a
o igem das dádi as e desas es da na u eza: po que azão ha ia boas e más colhei as,
empes ades, doenças e po que azão ha ia dias de sol e dias de chu a. Claude Lé i-
S auss, na sua ob a O Pensamen o Sel agem, ci a Balzac como o ma de elucida os
seus lei o es ace ca das ações dos homens p imi i os como, po exemplo, pescado es,
ag icul o es e cu andei os:
Não exis e ninguém no mundo melho que os sel agens, os camponeses e os p o incianos14
pa a es uda p o undamen e e em odos os sen idos os seus p óp ios a aze es; assim,
quando passam do Pensamen o ao Fa o, podeis encon a as coisas comple as. (apud. Lé i-
S auss, 1962: 9).
Com is o que o au o dize que a análise dos enómenos na u ais começou po se
ei a não no seio de g upos eclé icos ou e udi os, mas no seio de se es humanos comuns
e p imi i os que ie am a ap ende e a es uda aquilo que se ia conhecido como
enómeno de “causa e e ei o”. Na e minologia de James F aze , “causa e e ei o” é a
ideia de que o homem p imi i o, na busca de espos as, começou a e noção de que as
suas ações inham e ei o no seu ambien e ci cundan e. Su ge aqui a ideia da Lei da
Simili ude, ou seja, um acon ecimen o ou um e ei o oco ido na Na u eza é semelhan e
à sua causa, que é p o ocada pelo se humano. O se humano começou a enca a a
Na u eza como uma di indade, uma en idade com ida p óp ia à qual se podia apela ,
a a és de pedidos, sac i ícios ou i uais, pa a que odos os abalhos que as pessoas
p imi i as desen ol essem ossem bem-sucedidos. O ag icul o ac edi a a que e a
p eciso cul i a plan as na al u a ce a, nas condições ap op iadas, e que ce os i uais
14 Re e ência da ob a o iginal.
25
inham de se execu ados pa a que a na u eza concedesse os desejos dos se es humanos
e que es es i essem colhei as abundan es. Caso não hou esse esul ado algum, os
homens p imi i os ac edi a iam que a Na u eza, ou qualque ou a di indade lhes e a
ad e sa em elação aos seus obje i os (F aze , 1915: 11).
A es a c ença, Edwa d B. Tylo chamou animismo, que e a, na sua pe spe i a, a
essência da eligião p imi i a (apud. Malinowski, 1992: 18). Com o obje i o de ob e
esul ados posi i os nos seus abalhos, o se humano desen ol eu “encan amen os”, ou
conjun os de pala as-cha e, de o ma a apela à Na u eza inesc u á el, que
equen emen e unciona a de o ma con á ia à paz e sucesso dos planos das pessoas
p imi i as. A é mesmo médicos ou cu andei os, pessoas de medicina e com algum
conhecimen o cien í ico, po mais básico que osse, execu a am i uais e p o e iam as já
mencionadas pala as-cha e à medida que adminis a am as suas e as medicinais ou
emédios pa a que a cu a osse mais céle e. No pensamen o deles, os homens p imi i os
ac edi a am que p o e indo es as pala as e execu ando os i uais, eles e iam con olo
absolu o sob e a na u eza. A pa i daqui, começa am a su gi as p imei as noções de
ei iça ia e os se es humanos começa am a julga -se con olado es do seu p óp io
des ino. Foi en ão que apa ece am os p imei os mágicos. De aco do com B onislaw
Malinowski, o homem p imi i o encon a a-se num es ado de espí i o mís ico,
mani es a a a e são em elação ao aciocínio e não conseguia comp eende as mais
elemen a es leis da na u eza (idem: 25).
A pala a magia, num con ex o p imi i o, signi ica a pode con ola as coisas de
aco do com a on ade da pessoa que p o e isse os encan amen os. De aco do com
F aze , o mágico podia p oduzi qualque e ei o que es e desejasse simplesmen e ao
aze uma imi ação desse e ei o, ou seja, a a és de um i ual. Po exemplo, o ei icei o
ac edi a a que a imagem de um homem e ido e ia como e ei o um homem e ido na
ealidade, que a imagem p oduzi ia o o iginal. A magia pode ia se usada an o pa a
e i alguém con a quem se i esse anco , mais p ecisamen e a ão conhecida magia udu,
como pa a cu a . Dependendo do u ilizado , a magia pode ia se usada an o pa a
des ui como pa a egene a . O mágico ac edi a a que podia con ola a na u eza à sua
on ade (F aze , 1915: 11). Es e é o pensamen o sel agem (ou mágico) a que se e e e
Lé i-S auss, que assen a na a ibuição de elações causais en e ações e e en os não
jus i icá eis pela azão e pela obse ação.
De aco do com Lynn Tho ndike, a magia e a a iloso ia do homem p imi i o e
ep esen a a a sua a i ude em elação à na u eza. A na u eza e a is a, de ce a o ma,
32
a se ), e a um bem de oda a comunidade. Po ou o lado a magia e a algo de ocul o,
ensinada a a és de iniciações mis e iosas, passadas de o ma he edi á ia ou, pelo
menos, a a és de uma iliação mui o exclusi a. Além disso, ao passo que a ciência e a
baseada na conceção das o ças na u ais, a magia su gia da ideia de um ce o pode
mís ico e impessoal, no qual a g ande maio ia dos po os p imi i os ac edi a a (idem,
19)
Toda ia, an o a ciência como a magia mos a am ce as semelhanças e, como
disse F aze , a magia podia se chamada de pseudociência. A ciência, mesmo a
ep esen ada pelo conhecimen o p imi i o do homem sel agem, e a baseada na
expe iência uni e sal do dia-a-dia, ganha a a és da lu a do indi íduo con a a na u eza
pa a a sua subsis ência e segu ança, undada na obse ação e ixada pela azão. A magia
e a baseada na expe iência de es ados emocionais especí icos, p ocesso a a és do qual
o indi íduo obse a a não a na u eza, mas a si p óp io. Aqui, a e dade e a e elada
não pela azão, mas pelas emoções que exe ciam os seus e ei os no o ganismo humano.
A ciência e a undada na con icção de que a expe iência, o es o ço e a azão e am
álidos, e a magia inha como base a c ença de que a espe ança e a a úl ima coisa a
mo e e que os nossos desejos não e am ilusões. As eo ias do conhecimen o cien í ico
e am di adas pela lógica, as da magia pela associação de ideias sob a in luência do
desejo. O conhecimen o acional e o conhecimen o mágico es a am inco po ados em
adições, con ex os sociais e ipos de a i idade di e en es. O p imei o cons i uía o
domínio do p o ano e o segundo, ce cado de mis é ios e abús, e a uma das me ades do
domínio do me a ísico, cuja ou a me ade é a eligião (idem, 87).
Pa a pode mos comp eende a di e ença en e a eligião e a magia e pa a
adqui i mos uma isão cla a das p op iedades da indade magia, eligião e ciência é
impo an e pe cebe mos a unção cul u al de cada uma. O se humano, endo
conhecimen o do que o odea a usando as o ças da na u eza e da ciência, inha uma
eno me an agem biológica sob e o es o de odos os ou os se es i os. Po ou o lado,
ap endemos a pe cebe a unção da eligião e o seu alo a a és do es udo de c enças
sel agens e dos cul os já mencionados. A é eligiosa es abelecia, ixa a e aumen a a
odas as a i udes men ais aliosas, ais como a e e ência pela adição, a ha monia com
o meio-ambien e, a co agem e a con iança na lu a con a as di iculdades e a calma
pe an e a pe spe i a da mo e. Es a c ença, man ida pelos cul os ce imoniais, e a de
imenso alo biológico e e ela a a e dade ao se humano no seu sen ido mais
p agmá ico. A a és da magia, emos que os ins in os, emoções e as a i idades p á icas

33
conduziam o se humano a impasses nos quais al as de conhecimen o e limi ações do
pode de obse ação e azão mais an igos o aíam em momen os c uciais. O o ganismo
humano eagia a ais ci cuns âncias com explosões de ú ia, nas quais e am engend adas
o mas de compo amen o e c enças udimen a es. A magia e a ixada nes as c enças e
i uais udimen a es e o na a-os adicionalmen e pe manen es. Assim, a magia da a ao
se humano p imi i o i uais e c enças p é-p epa ados, que se iam de ampa o pa a as
complicações que oco iam em e en os c í icos. Da a ambém ao homem a capacidade
de ealiza as suas a e as impo an es com con iança e de man e a sua pos u a e
in eg idade men al em si uações us an es pau adas po acessos de ódio, desespe o e
ansiedade. A unção da magia e a i ualiza o o imismo do se humano e aumen a a sua
é na i ó ia da espe ança sob e o medo. A magia exp essa a pa a o homem o g ande
alo da con iança sob e a dú ida e do o imismo sob e o pessimismo (Malinowski,
1992: 90).
No en an o, com o passa do empo o exe cício da magia, p á ica soli á ia, es i a
e dis anciada da comunidade, começou a se is a como an i é ica às on ades e p á icas
eligiosas das comunidades da Idade Média. Conhecida como a época da caça às b uxas
e da Inquisição, a Idade Média oi um pe íodo du an e o qual a magia e a emida pelo
po o de ido ao seu des io da mensagem comuni á ia que a Ig eja deseja a ansmi i .
Toda ia, não e am só p a ican es de magia que inham eceios em elação às
pe seguições. Ha ia pessoas do adas de men es b ilhan es que ealiza am a anços
inc í eis no conhecimen o humano, mas es es e am demasiado a ançados pa a uma
ácil acei ação po pa e do po o medie al. Pa a aseando Lynn Tho ndike, o po o
a aca a semp e a epu ação de pessoas ins uídas e quem que que osse um especialis a
na sua á ea de conhecimen o e a conside ado um aliado dos demónios19 (Tho ndike,
1905: 12).
Con udo, e apesa das pe seguições execu adas an o a men es engenhosas, como
a homens e mulhe es que ealmen e lida am com o ocul o pa a seu p óp io p o ei o, as
mulhe es e am al o de uma maio pe seguição po pa e da Ig eja de ido ao que e a
conside ada a sua maio empa ia com a na u eza e os sen imen os, an o os seus como
os dos demais, que e am opos os à isão mais p agmá ica e ú il dos homens em elação
ao mundo. Ac edi a a-se que, a a és des a sensibilidade, as mulhe es inham mais
19 Todas as aduções de ci ações e i adas de ob as inglesas são da minha au o ia.
34
p obabilidade de se em possuídas po espí i os malé icos e de come e em a os e í icos
em nome dos mesmos.20
Um pon o onde exis e maio consenso académico e e e-se à seguin e ideia de que
a pe seguição à ei iça ia e á de lag ado apenas quando noções de simples ei iça ia e
magia popula o am ligadas a eo ias demonológicas, nas quais es as p á icas e am
is as como pac os com o diabo que e am socialmen e ameaçado es, demoníacos e
he é icos. Exis em longas adições de condenações c is ãs da magia. Os eólogos
ensina am que a ei iça ia e a uma ilusão, uma an asia e uma o ma de supe s ição
pagã (S ye s, 2004: 20).21
Como o ma de p o eção ace às pe seguições, o nou-se cos ume nes es empos a
esc i a de abalhos sob e o ocul o usando o nome de He mes Me cu ius T ismegis us22.
A ele o am associados odos os li os de au o ia du idosa. No en an o, a igu a mí ica
de He mes T ismegis us o nou-se um ideal da Idade Média e odos os abalhos que
apa eciam com o seu nome i e am uma in luência conside á el na expansão da c ença
na magia, apesa das pe seguições.23
20 No malmen e, as mulhe es que e am pe seguidas e am aquelas que ap esen assem qualque sinal
anómalo no co po como, po exemplo, um sinal ou uma e uga. Qualque mulhe que osse encon ada
com es es sinais e a sen enciada à mo e e incendiada de o ma a expulsa os espí i os pe e sos. Hou e
mui as mulhe es que se sabia não es a em en ol idas de o ma alguma com a magia, mais p ecisamen e,
a magia neg a, mas, ao encon a os sinais, as mulhe es em ques ão não e am ou idas. Ou os casos e am
os de mulhe es que ap esen a am alsas con issões de ei iça ia, mas apenas po causa da imensa o u a à
qual essas mulhe es o am subme idas. Es a ques ão ambém se de ia à posição social da mulhe da
al u a: o homem e a mais espei ado e o seu es a u o social e a mui o supe io ao da mulhe . Semp e que
se suspei a a de alguma mulhe a come e a os de ei iça ia, a mulhe em causa e a despida pa a que
odos os pelos do co po ossem e i ados de o ma a se pode encon a os já e e idos sinais anómalos.
Es a c ença na susce ibilidade das mulhe es e a pa ilhada an o po Ca ólicos como P o es an es
incluindo Ma inho Lu e o, que a i ma a que as mulhe es e am dis in amen e susce í eis à magia, po que
es a a na sua na u eza se em ímidas e eme em o mundo. As mulhe es cons i uí am 75%/80% das
execuções po b uxa ia (S ye s, 2004: 26).
21 A noção de supe s ição e a usada de o ma mui a elás ica pa a designa ce imónias ou p á icas que a
ig eja desap o asse e que pe manecessem o a do seu con olo. A di e ença en e memb os do cle o e os
mágicos es a a menos nos e ei os que os dois diziam pode alcança do que nas suas posições sociais e na
au o idade na qual as suas a i mações e am impos as (S ye s, 2004: 20).
22 A quem se deu a au o ia do Co pus He me icum, uma sé ie de ex os sag ados que o mam a base do
He me icismo, cuja dou ina a i ma que exis e uma única e dadei a eologia que es á p esen e em odas
as eligiões e que oi dada à Humanidade po Deus em empos an igos.
23 Du an e a Idade Média e o Renascimen o, os esc i os a ibuídos a He mes T ismegis us, conhecidos
como He me ica, des u a am de g ande p es ígio e e am popula es en e os alquimis as. A “ adição
he mé ica” e e e-se consequen emen e a alquimia, magia, as ologia e ou os ópicos semelhan es. Es es
ex os são no malmen e di ididos em duas ca ego ias: a he mé ica “ ilosó ica” e a he mé ica “ écnica.” A
p imei a lida p incipalmen e com a iloso ia e a segunda com a magia, poções e alquimía. Po exemplo,
ei iços usados pa a p o ege obje os o mam a o igem da exp essão “He me icamen e selados.” No
en an o, apesa da a ibuição de ex os ocul os a T ismegis us, mui os esc i o es c is ãos ais como Ralph
Waldo Eme son, Tomás de Aquino, Augus ine, Lac an ius, Gio dano B uno, Ma silio Ficino, Campanella
e Gio anni Pico della Mi andola conside a am-no um sábio p o e a pagão que, i onicamen e, p e i a a
chegada do C is ianismo.
35
No en an o, pe sis iu a en a i a ené ica de di e encia a magia da eligião. O
mago e a aquele que p o essa a pode con ola os pode es com os quais lida a; dizia
consegui abalha o mal com a mesma pe ícia que o bem, o pad e abalha a apenas o
bem. O mago lida a com odos os ipos de o mas, algumas sob ena u ais e ou as não,
e o pad e lida a apenas com deuses e os seus anjos. O mago inha con olo sob e odas
as subs âncias ma e iais, o pad e con ina a-se a assun os de na u eza espi i ual. A magia
e a desc i a como uma obsessão com o uso do pode ão, algo que pe manecia
ema anhado numa ede de desejos imp óp ios e dis up i os, elações obscu as com a
ma e ialidade e com a busca a ogan e do eu. Con udo, es e con as e en e a eligião e
magia se iu pa a des ia assun os de pode ela i os à p óp ia eligião. O uso da magia
masca a a os alo es e in e esses ma e iais em ação na p odução de um uni e so
eligioso delimi ado e se ia, ao mesmo empo, pa a ocul a o pode e dadei amen e
exe cido po e den o de ins i uições eligiosas ociden ais. Po an o, a magia começou a
unciona como um ma cado po en e de di e enças cul u ais, com ápidas aplicações
nas es e as económicas e polí icas (S ye s, 2004: 7).
Den o des as dispu as, in e esses ma e iais e polí icos começa am a adqui i
o ma isí el. Na li e a u a de ciências sociais dos séculos XIX e XX a magia e a is a
como uma ca ac e ís ica de ini i a da men alidade p imi i a p e iamen e e e ida. O
pensamen o mágico e a is o como um dos indicado es p incipais do não-mode no e do
não-ociden al, sendo no malmen e a ibuído a pessoas, locais e e as ma ginais. Dizia-se
que a simpa ia com a magia demons a a uma incapacidade pa a au ocon olo
esponsá el, e que as pessoas ligadas à magia p ecisa am de con olo “iluminado”. A
eligião ia-se com o papel de lida com o que ac edi a am se a escu idão da magia. A
oposição à magia, a a és de e angelizações, e a is a como um compo amen o
eligioso que odo o se C is ão ap op iado de ia ado a .
Toda ia, a magia pe sis ia a é mesmo nas sociedades mode nas. A magia inci a a
ape i es an issociais e paixões sub e si as en e aqueles que nada possuíam e assim
coloca a a boa o dem da sociedade em isco. Com a magia con igu ada como o epí ome
do não-ociden al e do não-mode no, p o ou-se que se ia como um meio pode oso pa a
con es a as es u u as sociais hegemónicas e as no mas da mode nidade. No século
XIX, os in elec uais eu opeus não chama iam mais à magia de pecado, mas an es uma
o ma de pensamen o abe an e e, po isso, an i é ica ace à lógica da cul u a dominan e.
Foi ambém designada como um sin oma de dis ú bios psicológicos e uma ma ca
36
pe encen e a cul u as e aças in e io es. A acionalidade mode na ociden al e a,
po an o, con as ada explici amen e com a supe s ição das c enças mágicas.
No en an o, as dispu as in elec uais sob e a magia podem se is as como um
g ande con ibu o pa a o su gimen o do pensamen o cien í ico mode no. C í icos das
pe seguições ie am a desc e e alegadas b uxas como melancólicas e loucas, com
necessidade de a amen o médico em ez da pe seguição a que e am sujei as. Du an e o
pe íodo das pe seguições exis i am mui os a gumen os desen ol idos que ques iona am
a c ença nos pode es das b uxas e o alo das pe seguições. Um modo de ques iona as
pe seguições eio de c í icos que es a am p eocupados com a iolência e a deso dem
social causada pelos julgamen os. Desde as p imei as décadas do século XVI su gi am
dú idas en e inquisido es em elação à alidade das con issões e das p o as ob idas de
b uxas acusadas e o u adas, mais especi icamen e pessoas igno an es, inocen es e con usas.
Uma das o mas mais di e as de desa io aos julgamen os de b uxa ia p o eio de
pensado es que desa ia am a noção de in e enção espi i ual ou demoníaca no mundo
ma e ial. Pie o Pompanazzi24, po exemplo, ejei ou a noção da in e enção di e a de
Deus no mundo humano e, po conseguin e, o pode e a exis ência de anjos e demónios,
algo que não podia se p o ado a a és da azão na u al.25
Assim começou a su gi um g ande ce icismo ela i amen e às pe seguições às
b uxas. Nos p imei os anos do século XVIII, Pie e Bayle26 jun ou-se ao c escen e
mo imen o con a a c ença na supe s ição e na magia. Como um dos mais impo an es
p ecu so es do Iluminismo ancês, Bayle ejei ou a c ença nos pode es das b uxas
a a és de uma posição de an idogma ismo acional semelhan e às posições de nomes
como Weye e Mon aigne.27 Bayle a i mou que as c enças mágicas con empo âneas
e am no malmen e o p odu o do medo, da c edulidade inocen e e de imaginações
24 Filóso o i aliano do século XVI, po ezes conhecido pelo seu nome la ino, Pe us Pompona ius.
25 Po exemplo, E asmo de Ro e dão c i ica a as c enças popula es no ocul o e na alquimia (S ye s, 2004:
27)
26 Esc i o e ilóso o ancês do século XVIII melho conhecido pelo seu abalho His o ical and C i ical
Dic inona y. Foi P o es an e e, como de enso do p incípio da ole ância de c enças di e gen es, os seus
abalhos subsequen emen e in luencia am o desen ol imen o do Iluminismo.
27 Johann Weye (1515 – 1588) e a um médico holandês, ocul is a e demonologis a, discípulo e seguido
de Hein ich Co nelius Ag ippa on Ne esheim. Foi um dos p imei os a p o es a con a a pe seguição às
b uxas. O seu abalho mais in luen e é De P aes igiis Daemonum e Incan a ionibus ac Veni iciis (Sob e
a ilusão de Demônios, Fei iços e Venenos, 1563). Michel Eyquem de Mon aigne (1533 — 1592) oi
um ju is a, polí ico, ilóso o, esc i o , cé ico e humanis a ancês, conside ado o in en o
do ensaio pessoal. Nas suas ob as analisou as ins i uições, as opiniões e os cos umes, deb uçando-se sob e
os dogmas da sua época e omando a gene alidade da humanidade como obje o de es udo. Ele c i icou a
educação li esca e mnemónica, p opondo um ensino ol ado pa a a expe iência e pa a a ação. Ac edi a a
que a educação li esca exigi ia mui o empo e es o ço, o que a as a ia os jo ens dos assun os mais
u gen es da ida. Pa a ele, a educação de e ia o ma indi íduos ap os ao julgamen o, ao
disce nimen o mo al e à ida p á ica.
37
mui os susce í eis, um e o que podia p oduzi sin omas psicossomá icos e ou os
e ei os ísicos. Bayle ambém concluiu que a supe s ição e a mais pe igosa que o
p óp io a eísmo, po que a supe s ição assen a a na c ença insidiosa de que as pessoas
es a am mesmo a obedece a uma en idade di ina.
Du an e os séculos XVII e XVIII, um g ande núme o de clé igos ca ólicos
denunciou á ias p á icas como supe s iciosas e, po isso, en ou p omo e uma piedade
eligiosa mais espi i ualizada. No im do século XVII, o ce icismo ela i o às
pe seguições oi inalmen e ansmi ido a a és de p ocedimen os judiciais que cada ez
mais exigiam p o as conc e as de acusações de ei iça ia. No inal dos anos se en a do
século XVII, a maio ia dos julgamen os de ei iça ia inha cessado na maio ia da Eu opa
ociden al. A c ença na b uxa ia passa ia a se conside ada um ma cado de di e ença
cul u al, uma pa ologia psicológica que podia se explicada acionalmen e em ez de se
is a como uma ameaça demoníaca (S ye s, 2004: 23).
Rela i amen e a es e aspe o da exigência de explicações acionais, F ancis Bacon,
conhecido na his ó ia da ciência pelo seu papel impo an e na exigência de uma o ma
igo osa de obse ação indu i a e de conhecimen o cien í ico, ejei a a mui os dos
excessos de magia na u al. Bacon e a um p oponen e de um modo exo é ico e
e o mado de magia na u al e a i mou, em No um O ganum (1620), que de ia ha e um
oco empí ico nas ma a ilhas da na u eza de o ma a pe mi i a descobe a dos seus
p ocessos na u ais complexos e la en es. O au o , pa ilhando a opinião de Bayle,
ambém a i mou que e a p e e í el se -se um não c en e do que e uma noção
supe s iciosa e indigna de Deus (apud. S ye s, 2004: 29-30).28
Thomas Hobbes, ambém ansioso po li a o mundo de noções supe s iciosas,
a i mou que o desen ol imen o de á ias noções eligiosas, pa icula men e a da c ença
em espí i os, e a baseado na igno ância humana ace ca das leis da causalidade e no
medo humano do desconhecido e de pode es in isí eis. Hobbes o e eceu a sua e são
da o igem da eligião e uma dis inção adequada en e eligião e supe s ição. Hobbes
a i mou que o medo de pode es in isí eis, ingidos pela men e, ou imaginados a a és
de con os publicamen e pe mi idos e a a eligião; o que não e a publicamen e pe mi ido
e a a supe s ição; e quando o pode imaginado é al e qual aquilo que nós p óp ios
imaginamos, es amos dian e de e dadei a eligião. Enquan o Hobbes econhece o
mé i o da au o idade da eligião em p omo e elações sociais pací icas, a i mou
28 Bacon conclui que compa a a supe s ição à eligião e a o mesmo que compa a um macaco a um se
humano (S ye s, 2004: 30).

38
ambém que oda a eligião em a sua o igem no medo humano e que a eligião é a
o ma socialmen e acei e do medo de pode es in isí eis (apud. S ye s, 2004: 32).
Po seu lado, Emmanuel Kan nega a eologia deí ica anscenden al e a i ma que
odas as en a i as em usa a azão na eologia em qualque o ma especula i a são
comple amen e inú eis e azias na sua na u eza (apud. S ye s, 2004: 38). Uma é
ilusó ia pode impo -se aos limi es da azão, di igindo-se ao sob ena u al, algo que não é
de uso eó ico ou p á ico de aco do com as leis da azão.29
Desca es, um ou o ilóso o cé ico adical, à semelhança de Bayle, Bacon e Kan ,
a i mou que o mundo ma e ial não conseguia da p o as da exis ência de Deus. Sem
p o as an e io es de que os sen idos humanos e am de con iança, odas as p o as
ex e nas se o na am suspei as. Desca es ac edi a a que os aspe os men ais da ida
humana podiam se explicados po causas ma e iais. Não obs an e, ambém ac edi a a
que me as causas ma e iais não se iam capazes de explica a capacidade que o se
humano em pa a ala línguas e o mula c enças complicadas. Pa a is o, são
necessá ias almas. Po essa azão a i mou Desc a es que a nossa alma é esponsá el
apenas po unções cogni i as, incluindo c enças, desejos e a capacidade de ala mos
línguas di e en es (I win / Bassham, 2010: 38). Assim, Desca es con ibuiu pa a o
su gimen o de noções mode nas de di e enciação en e a na u al e o sob ena u al.30 Es a
di e enciação básica de Desca es deu o igem a um pa adigma que assegu a a as
di e enciações dos espaços ap op iados da ciência e da eligião (apud. S ye s, 2004: 30).
À medida que es as di e enciações conquis a am acei ação popula , começa am a su gi
dema cações mode nas en e a magia, a eligião e a ciência.
Ou os pensado es in luen es do Iluminismo a i ma am que a eligião de e ia se
e ida de o ma a se baseada no que a azão di a a e não em e elações ou expe iências
mís icas. John Toland, ilóso o in luenciado po John Locke, p ocu ou con e a
C is andade es i amen e den o dos limi es da azão. Po sua ez, An hony Collins, em
1713, a i mou que os supe s iciosos e am incapazes de ac edi a num Deus que osse
29 Paul Tillich, exis encialis a, ilóso o e eólogo C is ão Ge mano-Ame icano do século XX, concluiu
que Kan sen ia que não e a digno que homens au ónomos que con ola am o mundo e que possuíam o
pode da azão se encon assem em si uações de o ação.
30 Em The Wo ld (da ado do início de 1630) uma das suposições undamen ais de Desca es e a a c ença
de que Deus não execu a ia milag es e que o ças espi i uais não in e ompe iam o decu so no mal da
na u eza. E no seu P incipia Philosophae (1644) Desca es a i mou a imu abilidade de Deus e que Deus
p ese ou o mundo pela sua ação e de aco do com as leis que Ele c iou. Po an o, as leis ma emá icas
undamen ais da na u eza podiam se calculadas com g ande ce eza. Todo o uncionamen o men al,
incluindo as línguas e as emoções, e a, segundo Desca es, de ido a p ocessos ísicos que oco iam no
cé eb o e não ha ia nenhuma en idade supe io que es i esse po de ás des e p ocesso (I win / Bassham,
2010: 41)
39
pe ei amen e jus o e bom (idem, 35). Es es emas mais acionais o am ei e ados
a a és do século XVIII po esc i o es in luen es que p ocu a am sepa a a i mações
especí icas de e elação e adição C is ã de uma eligião acional e uni e salizada,
li e de udo o que osse is o como o ma de in ole ância, ana ismo e supe s ições do
passado (idem, 35-36).
Do século XVII em dian e, o mas acionalizadas de eligião ganha am maio
in luência no pensamen o Eu opeu. A e o ma da C is andade, nas suas o mas
P o es an es e Ca ólicas, eque ia no as no mas espi i ualizadas pa a a é. No século
XVIII, as isões mecanicis as da na u eza inham expulsado e e i amen e o sob ena u al
e as noções iluminis as de acionalidade ha iam colocado g andes desa ios a e elações
e i uais eligiosos. Po isso, deba es eológicos sob e a exis ência de milag es o na am-
se numa maio acei ação de duas noções: p imei o, que a na u eza e a go e nada po
leis mecânicas e egula es; segundo, que Deus pe manecia o a desse sis ema de leis.
No os ideais eligiosos oma am o ma, excluindo odas as o mas de p á icas eligiosas
e i ualís icas ex e nas, sendo es as subs i uídas po uma sensibilidade eligiosa mais
p i ada e in elec ualizada.
Apesa da pe sis ência de g andes oposições a es as no as eg as, es e ideal da
eligião acionalizada e e g ande in luência no seio das classes dominan es e das eli es
in elec uais da Eu opa e da Amé ica. Tendo a eligião sido es ingida a ais abs ações,
o mundo ma e ial podia se con igu ado como secula . Uma das p incipais assunções
que liga am deís as e a eís as do Iluminismo e a a ce eza no alo da ciência e da
acionalidade cien í ica. Mui os pensado es do Iluminismo e am ambém cien is as e
pa ilha am a c ença de que a acionalidade cien í ica e a a cha e pa a o p og esso
humano. No seio das classes sociais e in elec uais de eli e, a ciência ociden al passou a
se um g ande ma cado da supe io idade cul u al da Eu opa, e es a con iança na
p oeminência da Eu opa se iu como um ecu so alioso na p opagação do pode
indus ial e económico eu opeu ao longo dos séculos XVIII e XIX.
Es as in e p e ações mais posi i is as31 da his ó ia da Humanidade o na am-se
cada ez mais in luen es no deco e do século XVIII. Apesa da exis ência de ozes
dissiden es, mais especi icamen e Rousseau, mui os g andes pensado es iluminis as i am
o no o desen ol imen o social e cien í ico da Eu opa como p o a do dealba de uma
no a e a no desen ol imen o humano (S ye s, 2004: 39).
31 O Posi i ismo é uma co en e ilosó ica que su giu na F ança no começo do século XIX. Os p incipais
idealizado es des a co en e o am os pensado es Augus e Com e e John S ua Mill.
40
Po ou as pala as, se es humanos que p a icassem pode mágico di e o sob e a
na u eza inham esses planos a uinados pela al a de mediação nas suas elações com a
na u eza. Sem pensamen o medi a i o e a impossí el alcança -se o que que que osse
pa a além dos obje os na u ais ci cundan es. Na ei iça ia não exis ia a ideia de um Deus
ou de uma é mo al. A magia ma ca a, po an o, a on ei a da eligião, sendo a elação
da magia com essa on ei a uma ques ão em abe o (S ye s, 2004: 43). A magia e a,
p incipalmen e, um enómeno local e é nico, e a baseada no desejo e on ade a bi á ios
e ilimi ados. A magia não implica a noções de anscendência ou de uni e salidade
de ido ao seu a o dominan emen e indi idual. Es a a ligada essencialmen e a po os
não eu opeus, apesa de exe ce um ascínio inexplicá el na cul u a ociden al. Nas
pala as de Tobias Chu on:
The image o he Magus, a mas e o Magick wen h ough many changes om p e-
Ch is ian imes o he s i ing o Wes e n Ci iliza ion. A magus could be a audulen
pu eyo o cheap icks o he exal ed b idge be ween ea h and s a s. He could be a kind
o a ch-p ies e oking demons and in oking angels. He could be a p o ound philosophe ,
an as ologe , an alchemis , a make o cha ms, and a o e elle o he u u e, o e en, as in
he case o he legenda y Me lin, a no -qui e-human ca e ake o he icissi udes o
ea hbound bu hea en-des ined impe ial B i ish his o y – King A hu ’s ue iend (i only
he’d lis ened). (apud. Ca -Gomm / Heyga e, 2009: 378).
De ac o, o ascínio exe cido pela magia é de al o ma po en e que ainda hoje
emos pessoas a en a ec ia e a esc e e his ó ias sob e a mesma como o ma de
pa ilha e de desen ol e a imaginação de indi íduos que quei am oma pa e nes e
enómeno mais que an igo, apesa de ilusó io. Em Ingla e a, o e i e do paganismo já
inha começado no século XVIII com o abalho de es udiosos como Richa d Payne
Knigh , au o de The Wo ship o P iapus, publicado em 1786. Mas oi na p imei a
me ade do século XX que es e in e esse in elec ual oi con e ido em magia p á ica
a a és do abalho de C owley e de Dion Fo une.32 No en an o, a é aos anos 80 do
32 Depois, na segunda me ade do século XX, Ge ald Ga dne e Ross Nichols le a am o e i e a um ní el
mais al o ao desen ol e um “calendá io de ene ação” que se o nou a base das p á icas pagãs mode nas.
Pa a ambos os au o es, pa ecia que a humanidade se inha desligado do i mo da e a e das es ações e,
po conseguin e, do p óp io ciclo da ida. As suas pesquisas sob e o olclo e e ela am que os elhos
es i ais pas o ais inham as suas aízes no paganismo p é-c is ão. A aplicação de Ga dne e de Nichols
consis ia em jun a es as épocas es i as de o ma a c ia um calendá io que o e ecesse a possibilidade às
pessoas de se encon a em uma ez em cada seis semanas pa a en a em comunhão com as cons an es
mudanças da na u eza de uma o ma que osse an o espi i ual como mágica. Nes e esquema o am
in oduzidas o mas de celeb ação que êm a sua o igem na he ança mágica da Eu opa Ociden al. Nas
celeb ações e am in ocadas as qua o di eções ca dinais e as bênçãos do ogo e da água como elemen os
p imo diais. O abalho de Ga dne e de Nichols não só ez com que a magia con inuasse i a, mas com
que ambém osse p a icada li emen e nos campos ingleses e em odo o mundo, de o ma a que oda a
gen e pudesse assis i .
41
século XX a magia Wicca33, po exemplo, e a maio i a iamen e p a icada a po as
echadas e os seus p a ican es p eocupa am-se mais com a ei iça ia e com a ligação a
deuses an igos do que com os pode es da na u eza.
Con udo, no inal dos anos 80, um núme o signi ica i o de pessoas começou a
ape cebe -se da magni ude das c ises ambien ais e hou e uma onda de in e esse ão
g ande ela i amen e às adições indígenas que es a a é alcançou o P íncipe Filipe de
Ingla e a, que decla ou que o p agma ismo ecológico das eligiões pagãs e a de ce a
o ma mais ealis a em e mos de é ica de conse ação do que as iloso ias
mono eís icas in elec uais das eligiões e eladas. Com o e i e do paganismo, a magia
es a a eunida mais uma ez com o seu pa en e p óximo, a eligião. No e-se con udo
que as eligiões es abelecidas semp e en a am dis ancia -se da magia, cuja na u eza é
expe imen al e pode osa e, po conseguin e, uma ameaça a dogmas e hie a quias
an e io men e ixadas (Ca -Gomm / Heyga e, 2009: 358-359).
Toda ia, nos inais do século XX, um núme o ele ado de sujei os começou a
e ela sinais de adiga ace à eligião con encional. Em con as e, a magia Wicca, e
ambém a dos D uidas34, o e ecia mui as an agens, como, po exemplo um sen ido de
comunidade e de i os de passagem nas ases mais impo an es da ida sem a exis ência
do a do de demasiada dou ina. Es as ambém ein oduzi am c enças e i uais mágicos
que o e ecem a opo unidade de se se um pa icipan e em ez de um consumido
passi o. De ce a o ma, as pessoas êm a opo unidade de aze as suas ecei as e
cozinhá-las. E e i amen e, mui os li os pagãos sob e magia podem se lidos nos nossos
dias como li os de ecei as e al si uação não é de espan a , is o que as magias Wicca
e D uida êm ing edien es pa a o e ece ideias pa a i uais, his ó ias, olclo e e écnicas
que podem se combinadas de á ias o mas di e en es pa a o nece expe iências
mágicas e espi i uais.
Toda ia, nem oda a gen e em uma o ien ação o emen e eligiosa e a magia ala
não só àqueles que p ocu am con o o em expe iências mís icas, mas ambém a men es
33 Uma eligião de b uxa ia mode na e pagã, desen ol ida pelo p óp io Ge ald Ga dne em Ingla e a
du an e a p imei a me ade do século XX e ap esen ada ao público em 1954.
34 Memb os da classe p o issional educada en e os po os cél icos da Gália, da G ã-B e anha e da I landa
du an e a Idade de Fe o. A classe dos D uidas consis ia em ad ogados, poe as e dou o es, en e á ias
ou as p o issões de enome. Con udo en e os D uidas mais conhecidos es a am lide es eligiosos. Mui o
pouco se sabe ace ca deles. Não o am deixados esc i os sob e os D uídas e as únicas p o as são
desc ições deixadas po g egos, omanos e á ios ou os au o es e a is as e ambém his ó ias c iadas po
esc i o es i landeses medie ais. Exis em á ios emas eco en es em desc ições g eco- omanas que
e a am os D uidas a ealiza sac i ícios de animais e a é mesmo de humanos. Dizia-se ambém que os
D uidas ac edi a am na eenca nação e inham g ande epu ação na sociedade gaulesa.
48
adições an igas e es as, po sua ez, são ap op iadas pa a um mundo de p a ican es de
magia. Além disso, podemos ambém e que, apesa de odas as ma a ilhas que a
magia disponibiliza aos ei icei os da saga, a au o a, eplicando nes e aspe o os
p incípios de c iação li e á ia de J.R.R. Tolkien, c ia um mundo mágico com eg as e
leis, ambém elas ge almen e inescapá eis.
No en an o, em e mos da execução da magia no mundo de Ha y Po e , exis em
ambém abús, ou ei iços p oibidos e emidos, al como exis iam no mundo p imi i o.
Apesa do a o indi idualis a, de sec e ismo, e das cono ações nega i as que semp e
o am associadas aos concei os de magia e ei icei o, o mundo de Ha y é go e nado
pelo Minis é io da Magia, o que signi ica que as ações dos cidadãos são con oladas e,
al como no nosso mundo, puní eis, podendo os p a ican es de magia neg a se
mandados pa a a p isão dos ei icei os, Azkaban.42
Apesa do seu ca ac e an asioso, o mundo dos ei icei os, que coexis e lado a
lado com o mundo das pessoas não-mágicas, os Muggles, não pa ece se mui o di e en e
des e segundo, is o que a é mesmo aos ei icei os são a ibuídas es ições ao que lhes
é pe mi ido aze com o a senal que lhes é disponibilizado, algo que não é di e en e da
maquina ia e a ilha ia pesada dadas aos Muggles pa a se em u ilizadas segundo a lei.
Apesa de possuí em pode es mágicos, podemos e que a ida dos ei icei os não é ão
ácil de con ola . Os ei icei os, al como os Muggles, es ão sujei os ao desconhecido e
ao imp e isí el. No en an o, em ez de in oca em ou con a em com en idades di inas,
maldições em Ha y Po e se em apenas pala as sol as, o la im pode ainda se usado como uma língua
do dia-do-dia. A ualmen e, con inua a se a língua o icial do Va icano. A publicado a de J.K. Rowling
chegou a publica os dois p imei os olumes da saga em la im. O p imei o, Ha ius Po e e Philosophi
Lapis, aduzido po Pe e Needham, oi lou ado po pe i os em la im que a i ma am que es e es a a
esc i o num es ilo que e a qualque coisa menos mo o (Colbe , 2008: 240).
42 Um dos exemplos mais pode osos de magia neg a é a c iação de In e i, cadá e es que são e guidos po
ei icei os neg os de o ma a que es es açam o que lhes é o denado. Apesa de al a o pa ece uma
essu eição, como se os co pos ol assem à ida, os In e i não passam de zombies. Es a p á ica neg a é
absolu amen e p oibida em Ha y Po e . Um ac o que a au o a semp e ez ques ão de en a iza na sua
sé ie ( an o di e a como indi e amen e) é que os mo os não podem se azidos de ol a à ida e que não
há magia pode osa o su icien e capaz de o aze . Um ou o exemplo de um c ime impe doá el é a p á ica
de um ou o abú no mundo de Ha y Po e , as Maldições Impe doá eis, que, de aco do com o au o
Mad-Eye Moody, dão di ei o aos espe i os p a ican es um bilhe e só de ida a Azkaban. Os nomes das
ês maldições ambém êm as suas o igens em línguas an igas: a p imei a maldição, Impe ius,
p onunciada “Impe io” na sua conjugação, é la im pa a “eu con olo” e pe mi e con ola os seus al os de
aco do com a on ade do ei icei o; a maldição da o u a, C ucia us, p onunciada “C ucio”, é la im pa a
“eu o u o” e p o oca do es agonizan es aos seus al os. A úl ima maldição, A ada Keda a, a maldição
da mo e ins an ânea, em do a amaico “a a kehdab a”, que signi ica “eu c io enquan o alo”; no
en an o, J.K. Rowling combinou es a exp essão com a pala a “cada a”, que signi ica “cadá e es”, po
isso a exp essão A ada Keda a signi ica “eu c io cadá e es enquan o alo.” Em a amaico a exp essão é
“Abhadda kedhabh a”, que, de aco do com Colbe , signi ica: “disappea like his wo d.” Toda ia, es a
exp essão oi usada po ei icei os an igos pa a aze com que doenças desapa ecessem. Não há p o a
nenhuma de que i esse sido usada pa a ma a alguém. Es a exp essão a amaica é uma das possí eis
o igens da exp essão ab acadab a, ago a apenas pa e de espe áculos de magia (Colbe , 2008: 45-46).

49
os ei icei os u ilizam os seus p óp ios ecu sos pa a pode em esol e os p oblemas do
seu dia-a-dia.43
Con udo, podemos e o acesso a ecu sos semelhan es po pa e de an o
ei icei os como Muggles, cu iosamen e, nas poções ei as no mundo de Ha y Po e .
Tal como b uxas adicionais, os ei icei os de Ha y Po e azem poções, que podem
se usadas pa a a a odo o ipo de doenças e sin omas. As ecei as pa a as poções de
J.K. Rowling ( al como udo no seu mundo) incluem mui as his ó ias e lendas (Colbe ,
2008: 334). Mui os dos ing edien es u ilizados pelo p o esso de Poções de Ha y
Po e , Se e us Snape são eais. Se i éssemos i ido há algumas cen enas de anos
a ás, o médico local pode ia o e ece um emédio ei o de ing edien es como os que o
p óp io Ha y Po e u iliza nas suas aulas. Ap esen o alguns exemplos desc i os em The
English Physician, esc i o po Nicholas Culpepe :44 pa a as do es de ou ido, e am
esmagados milípedes e piolhos e mis u ados com inho, sendo depois despejados den o
do ou ido; pa a as do es, Culpepe ecomenda a que ossem inge idas cob as; os
esco piões queimados se i iam pa a cu a ped as nos ins; pó ei o a pa i de minhocas
a ia com que um den e caísse imedia amen e, al como as cinzas de o migas
queimadas e dos seus o os; a inges ão de ga anho os cu a a as do es de es ômago; a
espuma do ma e i ada da ma gem do oceano cu a ia a pe da de cabelo, se osse
es egada na cabeça, e b anquea ia os den es com uma la agem; inalmen e, de o ma a
pe de o desejo po inho ou ce eja, simplesmen e inha que se bebe um copo das
di as bebidas a a és de uma caneca na qual uma enguia i esse sido colocada pa a
43 No en an o exis i am ei icei os lendá ios, quase di inos, no mundo de Ha y Po e , incluindo Me lin.
Es e ei icei o, um das maio es lendas da nossa a ualidade é uma celeb idade no mundo de Ha y Po e ,
que deu o igem a uma in e jeição que pode se equipa ada ao “Meu Deus!” do mundo Muggle que é
“Pelas ba bas de Me lin!” (em inglês – “Me lin’s Bea d!”) Quando Ha y ai pa a Hogwa s pela
p imei a ez ao apanha o Exp esso de Hogwa s, o seu melho amigo, Ronald Weasley, dá a conhece a
Ha y os Famosos C omos de Fei icei os e B uxas ( adução minha do inglês: “Famous Wi ches and
Wiza ds ading ca ds). Ron menciona alguns ei icei os: Dumbledo e, Me lin, Pa acelsus, a D uída
Cliodna, Hengis o Woodc o , Mo gana, P olomeu e Ci ce (Colbe , 2008: 437). Alguns des es
ei icei os são igu as his ó icas e dadei as. Ou os exis em em lendas que emon am há cen enas de
anos. Conhecido po mui os, Me lin é conside ado um dos ei icei os mais sábios de semp e. Ac edi a a-
se se um g ande mes e ei icei o e conselhei o dos eis b i ânicos Vo ige n, U he Pend agon e A u ;
Me lin é uma pe sonagem c iada a a és de lendas an ás icas. Po exemplo, diz-se que oi ele quem
o ganizou as ped as de S onehenge e que inha ambém o dom da p o ecia, pois já inha is o o u u o
(idem, 444) Me lin é melho conhecido como o men o do Rei A u e escondeu o ei em c iança al como
Dumbledo e sabia que inha de esconde Ha y de Voldemo , pois Dumbledo e sabia que es e eg essa ia
pa a en a assassina Ha y (idem, 445).
44 Um li o de medicina de 1653 que con inua a se imp esso mesmo após mais de cem edições e que já
oi, em empos, lei u a ob iga ó ia pa a qualque médico digno do nome. No en an o, como Colbe
en a iza, os ing edien es ap esen ados não são pa a se expe imen ados em qualque ci cuns ância.
50
mo e ; is o cu a ia ambém p o a elmen e o desejo po enguias (idem, 335-336).45
Apesa da se e idade e do al o g au de exigência de Se e us Snape (que nu ia g ande
desp ezo po Ha y Po e ) nas suas aulas, Ha y e ia di iculdade nas aulas de Poções
osse qual osse o p o esso a lecioná-las, mesmo alguém mais simpá ico do que Snape.
De aco do com Colbe , já é di ícil con ola o núme o de ing edien es, quan o mais as
ecei as. Toda ia, as poções de Snape – pelo menos as ensinadas du an e os p imei os
anos de Hogwa s – não e am impossí eis de domina (idem, 346).
Um ou o exemplo digno de menção ela i o a p op iedades mágicas e que é
conhecido an o po ei icei os como po Muggles é a magia elacionada com o núme o
se e, que encon amos nos se e li os que compõem a saga. Na educação medie al, os
alunos es uda am se e disciplinas: g amá ica, e ó ica, lógica, música, a i mé ica,
geome ia e as onomia, ambém conhecidas como as a es libe ais; o núme o se e é
ambém conside ado um núme o da so e; exis em se e dias da semana e as ases da lua
du am p oximamen e se e dias; mui as cul u as econheciam se e plane as: o Sol, a Lua,
Me cú io, Vénus, Ma e, Júpi e e Sa u no; exis em os se e pecados mo ais da adição
c is ã; exis em ambém supe s ições elacionadas com o núme o se e: pa i um espelho
dá se e anos de aza e, no I ão, um ga o em se e idas e não as no e do mi o
ociden al.46
Algumas das e e ências encon adas na saga são i iais: exis em se e úneis
sec e os pa a o a de Hogwa s, se e echadu as numa mala, paga-se se e Galeões47 de
ou o pa a se comp a uma a inha e exis em se e jogado es numa equipa de Quiddi ch48
e Ha y, que p a ica es e despo o, em o núme o 7 nas suas oupas; cada equipa de
Quiddi ch em se e jogado es e o capí ulo qua o do sé imo li o chama-se “The Se en
Po e s,” só pa a nomea alguns exemplos. Ou as e e ências mos am maio
ele ância: exis em se e anos de ensino na escola de Hogwa s; Ha y Po e nasceu em
45 Um ou o ing edien e digno de menção e ao qual é dado g ande impo ância no mundo de Ha y Po e
é o bezoa . Tal como Ha y ap ende na sua p imei a aula de poções em Philosophe ’s S one, um bezoa é
uma “ped a” encon ada no es ômago de uma cab a, que unciona como an ído o pa a mui os enenos.
Po mais di ícil que seja de ac edi a , os bezoa s exis em mesmo e o am usados dessa o ma no passado.
São bolas du as de pelo ou de ib a ege al não-dige ida, que às ezes são encon adas nos es ômagos de
animais como cab as ou acas. O p óp io nome em de pala as Pe sas e signi ica “p o e o con a
eneno.” No The English Physician, é desc i o como al e, ambém, como “a no able es o e o na u e…
[ ha ] makes a me y, bli he, chee ul c ea u e.” Ha ia á ias o mas de o p epa a : uma cu a pa a a eb e
consis ia numa mis u a de bezoa com pó de co no de eado, pe las esmagadas, pele de cob a e ga as e
olhos de ca anguejo. Todos es es ing edien es e am en olados numa bola com geleia. De aco do com
Colbe : “Pe haps ha uly did make pa ien s me y and chee ul; o pe haps hey s opped complaining o
a oid he dose” (Colbe , 2008: 338).
46 h p://www.b i annica.com/ opic/numbe -symbolism
47 Valo mone á io do mundo dos ei icei os.
48 O despo o dos ei icei os, cuja popula idade equaliza o u ebol dos Muggles.
51
Julho, o sé imo mês; Ginny Weasley, a esposa de Ha y, oi a sé ima c iança da sua
amília; e a Ped a Filoso al do p imei o olume é p o egida po se e encan amen os
(Colbe , 2008: 458). No en an o, o núme o se e mais impo an e de odos – o núme o
um na lis a de se es – são os Ho c uxes de Voldemo .49
“Ho c ux” é um neologismo c iado po J.K. Rowling, mas a ideia que lhe subjaz
pode á se encon ada em lendas de mui as cul u as (idem, 470-471). J.G. F aze euniu,
em The Golden Bough, mui os exemplos daquilo a que ele chamou “ a alma ex e na”:
S o ies o his kind a e widely di used o e he wo ld, and om hei numbe and a ie y
o inciden and o de ails in which he leading idea is embodied, we may in e ha he
concep ion o an ex e nal soul is one which has had a powe ul hold on he minds o men a
an ea ly s age o his o y. (apud. Colbe , 2008: página 471).50
A eg a de J.K. Rowling de que é necessá io um assassínio pa a se aze um
Ho c ux em as suas o igens na magia an iga. Um sac i ício de sangue de um animal
pequeno e a usado, às ezes, pa a da mais pode a um ei iço. Es a eg a ambém é
encon ada em lendas de um pouco po odo o mundo; na Ingla e a, na I landa, na
Escandiná ia, na Eu opa Cen al, no Médio O ien e e em oda a Ásia e Á ica; é
ambém pa e da cul u a na i a no e-Ame icana e da Aus ália; ambém há exemplos
no An igo Egip o, na G écia e em Roma. Po ou as pala as: es á em odo o lado (idem,
472). F aze esc e e:
A common e sion o i is his: a wa lock, gian , o o he ai yland being is in ulne able
and immo al because he keeps his soul hidden a away in some sec e place; bu a ai
p incess, whom he holds en h alled in his enchan ed cas le, wiles his sec e om him and
e eals i o he he o, who seeks ou he wa lock’s soul, hea , li e, o dea h, (as i is
a iously called), and by des oying i , simul aneously kills he wa lock. (apud. Colbe ,
2008: 472).
Excluindo a pa e sob e a p incesa,51 Ha y en ega-se de ac o à missão de encon a e
des ui os Ho c uxes de Voldemo .
49 Ho c uxes são obje os den o dos quais um ei icei o esconde pa e da sua alma de o ma a pe manece
imo al, que é o maio desejo de Voldemo . Es a p á ica é conside ada magia neg a na sua o ma mais
ho í el e é ou o abú do mundo dos ei icei os, is o que a o ma de se di idi a alma é a a és de
assassínio.
50 Apesa de The Golden Bough não se conside ado cien í ico pelos pad ões da a ualidade, e e uma
g ande e posi i a in luência na an opologia. O seu g ande sucesso e a sua in luência ambém se
espalha am pa a a li e a u a. As ligações ei as nes a ob a en e i uais pagãos e o C is ianismo cap u ou a
imaginação de C.S. Lewis e in luenciou a sua esc i a, incluindo as C ónicas de Ná nia (Colbe , 2008:
471).
51 É di ícil imagina as he oínas de Ha y Po e , po exemplo, Ginny Weasley e He mione G ange ,
espe a em pacien emen e pa a se em sal as.
52
Voldemo , um an igo aluno de Hogwa s, cujo nome e dadei o é Tom Riddle,
pe gun a ao seu p o esso de poções, Ho ace Slugho n, em Hal -Blood P ince, se
apenas se pode ia di idi a alma uma ez: “Wouldn’ i be be e , make you s onge , o
ha e you soul in mo e pieces? I mean, o ins ance, isn’ se en he mos powe ully
magic numbe …?” (Hal -Blood P ince: 560). Deixando empo a iamen e de lado a
ques ão de se ou não ú il a exis ência de Ho c uxes, a ques ão que Tom Riddle coloca é
sem dú ida pe inen e. Tan o no mundo de Ha y como no nosso, o núme o se e não é
só um núme o da so e, mas diz-se que ambém con ém p op iedades especiais (Colbe ,
2008: 459).52 A ma emá ica pa ece e o ça o simbolismo na u al e os núme os e am
es udados de ido ao seu pode mís ico (idem, 466). Alphonse Louis Cons an , ambém
conhecido pelo seu pseudónimo, Éliphas Lé i, esc e e: “The i ue o he numbe se en
is absolu e in magic, o his numbe is decisi e in all hings” (apud. Colbe , 2008:
468). Con ola es e pode e a, mui as ezes, o obje i o dos mágicos. Es es en a am
encon a equações mágicas na ma emá ica; en a am combina os se e elemen os
plane á ios na alquimia;53 epe iam encan amen os se e ezes, ou em g upos de se e, ou
no sé imo dia do sé imo mês (ibidem). Com a no á el exceção dos li os de Ha y
Po e , es es es o ços não i e am sucesso no nosso mundo. Con udo, no mundo de
Ha y, pa ecem aze sen ido. A ideia de Tom Riddle não e a absu da, apesa de e sido
comple amen e desumano le á-la a cabo da o ma como ele a le ou (idem, 469).
A p esença da magia no mundo de Ha y Po e não implica con udo, como
a i mámos já, que não sejam de e á eis na ob a emas eligiosos. Mui as pe sonagens e
momen os da amosa sé ie são inspi ados em c enças eligiosas e em momen os de
pa icula ele ância pa a a his ó ia da eligião. J.K. Rowling u iliza a sua saga ambém
de o ma a apela ao mundo eal ou, pelo menos, à magia que se ac edi a a exis i no
passado, mais p ecisamen e na época da caça às b uxas. Em O de o he Phoenix,
52 Há mais de 4000 anos a ás, os Babilónios ap ende am que o mundo oi c iado em se e dias. No
Induísmo, o mundo oi c iado po se e deuses nascidos da men e do sup emo C iado . De aco do com o
olclo e, um sé imo ilho de um sé imo ilho se ia um mago e um cu ado pa icula men e pode oso. Às
sé imas ilhas não e a dado o mesmo es a u o, mas, nas lendas omanas, es as e am capazes de e o
u u o (Colbe , 2008: 461/463). Exis em ambém eligiões com se e céus, e ou as com se e demónios. O
C is ianismo em uma imensa quan idade de se es, alguns deles na p óp ia Bíblia, ou os adicionados po
es udiosos. Es es incluem os se e dias da C iação, os se e anos de es im e os se e anos de ome, os Se e
Pecados Mo ais e as Se e Vi udes, e as Se e Aleg ias e as Se e T is ezas da Vi gem Ma ia. O San o
Augus ino (354-430), uma das igu as mais in luenciais do C is ianismo, es a a ascinado com o
simbolismo dos núme os e conside a a o núme o se e um sinal de pe eição (idem, 464).
53 De aco do com os alquimis as, ce os me ais e am con olados ou a e ados po plane as especí icos. Os
alquimis as planea am o seu abalho de o ma a condize com condições as ológicas. Os elemen os
plane á ios e os seus “ egen es” e am: Ou o (Sol), P a a (Lua), Cob e (Vénus), Fe o (Ma e), Es anho
(Júpi e ), Me cú io (Me cú io), Chumbo (Sa u no) (idem, 469).
53
exis e uma pe sonagem que adqui e a unção de “G ande Inquisido a” de Hogwa s.
Es a pe sonagem é Dolo es Umb idge54, que abalha pa a o Minis é io da Magia. O
í ulo de Umb idge, “G ande Inquisido a”, é algo que de e aze a epia an o os
ei icei os como os Muggles. Es e í ulo em de um longo e sang en o pe íodo na
his ó ia que a e ou an o b uxas como pessoas leigas e que pa ece eapa ece sob
di e en es o mas, em quase odas as e as, incluindo a nossa (idem, 392). O í ulo de
“G ande Inquisido a” az ine i a elmen e à men e a Inquisição, e a sé ie de
julgamen os injus os que se p olongou po cen enas de anos. O obje i o de cada
Inquisição e a aze com que as pessoas ac edi assem naquilo que as au o idades
que iam que elas ac edi assem. Se alguém disco dasse do go e no ou da Ig eja (mui as
ezes ambos e am a mesma coisa), pode ia mo e . As au o idades oma am es as
medidas ex emas po eme em pe de a sua au o idade. Colbe ques iona: “Think
abou i : why ha e ials o people you belie e a e doomed o e e nal damna ion?” O
medo dos Inquisido es le ou a que es es abusassem do seu pode ; as acusações podiam
se ei as em seg edo. Os julgamen os e am ambém sec e os. As pessoas acusadas não
inham di ei o a um ad ogado. O ac o mais chocan e é a já mencionada o u a. Mui as
con issões o am, como já se sabe, o çadas (idem, 393).
No en an o, a “G ande Inquisido a” de J.K. Rowling é mais do que uma e e ência
à Inquisição. O e mo “caça às b uxas” ambém é usado nos empos mode nos pa a
desc e e a manei a como go e nos e ou as ins i uições p oclamam injus amen e que
ce as pessoas ulne á eis são culpadas de lesa a sociedade como um odo, mui as
ezes undamen ando-se em mo i os agos e não-p o ados (idem, 402). Is o é o que
acon ece a Ha y Po e em O de o he Phoenix, du an e o seu julgamen o do
Wizengamo .55 Tendo di o no olume an e io , Goble o Fi e, que Voldemo , o
ei icei o neg o mais emido de odos, ol a a56 e que ha ia Demen o s57 que lhe
obedeciam, Ha y desa iou a posição o icial do Minis é io da Magia; po isso, Co nelius
Fudge, o Minis o da Magia da al u a, bem como Dolo es Umb idge subme e am-no a
um julgamen o p ocu ando silenciá-lo (idem, 403). Dolo es Umb idge usa ambém uma
a imanha con a ou a pe sonagem da sé ie, G iselda Ma shbanks, que inha
54 “Dolo es” em do La im e signi ica do . “Umb idge” é um jogo com a pala a “umb age”, que
signi ica “ essen imen o.” (Po exemplo: “Dolo es Umb idge ica essen ida quando é desa iada/ e u ada,
po isso ela a á com que as pessoas se a ependam dessa acção.” – adução minha do inglês: “Dolo es
Umb idge akes umb age when you challenge he , so you’ e going o be e y so y now”) (idem, 394).
55 G upo de ei icei os enca egue de julga os in a o es da lei.
56 Voldemo o a encido an e io men e po Ha y Po e .
57 Os gua das da p isão dos ei icei os, Azkaban e, po isso, sob a alçada do Minis é io da Magia.

54
eemen emen e p o es ado con a a inquisição ambém ealizada em Hogwa s.
Umb idge espalhou en ão men i as, azendo co e o boa o de que G iselda es a ia a
abalha com goblins58 de o ma a de uba o go e no dos ei icei os.59 Umb idge
en ou assim des ui a epu ação de G iselda, apelando ao medo que os ei icei os êm
dos goblins. Es e é, como sabemos, um mé odo usado desde semp e, desde as
inquisições medie ais à polí ica mode na. Umb idge e Fudge êm mui as desculpas pa a
aze em o que azem, é simplesmen e assim que unciona. As inquisições semp e o am
ole adas ou ealizadas po pessoas que se ecusa am a ques iona a pe eição da sua
eligião ou da sua nação. J.K. Rowling não é uma dessas pessoas. Pa a a au o a, nada é
mais impo an e do que e mos a co agem de pensa mos po nós p óp ios. Umb idge,
que, apesa dos seus c imes, con inua a se uma b uxa, de ia e emido de medo ao
se -lhe dado o í ulo de G ande Inquisido a de Hogwa s. Qualque ei icei o de e ia e
melho disce nimen o (Colbe , 2008: 405).60
Rela i amen e a lendas he oicas e his ó ias eligiosas, podemos oma como
exemplo o cálice de ogo que apa ece no qua o olume da saga de Ha y Po e . O
cálice é desc i o como: “… a oughly hewn wooden cup ha would be en i ely
un ema kable had i no been ull o he b im wi h dancing blue-whi e lames” (Goble
o Fi e: 283). O cálice é u ilizado pa a a con ocação dos que compe em no “To neio
dos T ês Fei icei os.” Esse desa io e a sua on e mis e iosa ligam os compe ido es,
incluindo o p óp io Ha y Po e , e o seu ad e sá io e amigo, Ced ic Diggo y, a lendas
ela i as ao Rei A u e à Tábula Redonda.
O cálice de ogo e idencia ainda bas an es semelhanças a um ou o cálice de
g ande pode , que es e e igualmen e na o igem de o neios e ba alhas: o San o G aal.
Es a oi ambém a aça a pa i da qual Jesus C is o bebeu du an e a Úl ima Ceia.
Apesa de às ezes se e a ado como um cálice de p a a b ilhan e, endo sido a aça de
um pob e ca pin ei o, o San o G aal e á sido p o a elmen e ei o de madei a – al
como o cálice de ogo. O G aal é igualmen e um obje o mágico. Quem dele bebe ica á
58 Donos do banco dos ei icei os, G ingo s, que albe ga odos os bens de oda a comunidade mágica.
59 As elações en e ei icei os e goblins em Ha y Po e semp e o am mui o ins á eis.
60 De qualque o ma, nenhum ã da sé ie de Ha y Po e conside a ia Umb idge uma cidadã exempla
ou, a é mesmo, uma go e nado a jus a e sábia. Aliás, a sua cons an e negação das eg as, as suas medidas
iolen as de e aliação e á icas pa a ganha e man e con olo, eminiscen es dos mé odos da Ges apo,
azem-nos pensa po que azão não es a a ela no g upo de Voldemo , em ez de es a no Minis é io da
Magia (I win / Bassham, 2010: 339).
55
mi aculosamen e cu ado. E, al como o cálice de ogo, o G aal é capaz de sen i se as
pessoas êm ou não um co ação pu o (Colbe , 2008: 190).61
Ou o exemplo a e em con a é a O dem da Fénix, no quin o li o da sé ie.62
Tan o na li e a u a como na his ó ia, qualque g upo que se chame uma “O dem” e á de
ce eza algum p opósi o. A O dem dos Ca alei os Templá ios oi undada em 1119 pa a
p o ege pe eg inos que iajassem à Te a San a.63 Em his ó ias de an asia e de
a en u a, uma o dem age quase semp e como um gua dião sec e o de uma causa. Os
pe i os em li e a u a an ás ica, John Clu e e John G an , es abelecem o seguin e pad ão:
os memb os des as o dens de endem o seu mundo ou, às ezes, o mundo in ei o; eles
comba em o mal a i amen e em ez de espe a em que es e desapa eça; e a iscam as
suas idas pelas suas c enças. Como Clu e e G an explicam, os “Gua diões Sec e os”
são os ad e sá ios mais comuns de senho es das e as ou po enciais senho es das
e as (apud. Colbe , 2008: 316-317).
A O dem da Fénix ambém encaixa numa ca ego ia especial de gua diões sec e os
que Clu e e G an apelidam de “Pa iah Eli e.” Es as o dens sob e i em à ma gem das
sociedades, são desp ezadas e ejei adas, de ido ao ac o do es o do mundo já es a a
ica , pouco a pouco, sob o con olo do inimigo (idem, 318). O undado da O dem da
Fénix, Albus Dumbledo e, bem como os seus amigos, são idicula izados e insul ados
pela maio ia dos ou os ei icei os, incluindo os pode osos polí icos Co nelius Fudge e
Dolo es Umb idge. Con udo, al como as eli es e e idas po Clu e e G an , a O dem da
Fénix sob e i e po que é de en o a de conhecimen os especiais. Os memb os da o dem
pe cebem os seus inimigos melho do que eles se pe cebem a si p óp ios. Além disso,
pe manecendo iel aos cos umes do passado, a O dem bene icia de seg edos an igos que
ou os ei icei os já esquece am, como po exemplo a capacidade de se desloca em de
um luga pa a o ou o sem o ecu so à ede de Pó de Floo, que es á sob cons an e
61 De aco do com a lenda, o Rei A u , ezando aos céus po dádi as du an e um pe íodo ágico do seu
eino, ê o G aal. Depois, o Rei e os seus ca alei os pa em em jo nadas pa a cap u a o G aal ou pa a,
pelo menos, pe cebe o seu signi icado. No mundo de Ha y a a e a inal do To neio dos T ês Fei icei os
é, li e almen e, encon a um G aal, nes e caso, a Taça dos T ês Fei icei os, e ganhá-la pa a Hogwa s, a
escola de Ha y. E, al como o G aal é encon ado nas lendas A u ianas po Galahad, ilho de Lancelo ,
po causa da pu eza da sua alma, Ha y Po e e Ced ic Diggo y alcançam a aça com sucesso a a és dos
seus o es e pu os co ações e ambém g aças à sua pe ícia em magia (Colbe , 2008: 191).
62 Exis e uma e dadei a O dem da Fénix. É uma hon a dada pelo go e no g ego a cidadãos es angei os
que, de alguma o ma, ajuda am a G écia.
63 Os Ca alei os Templá ios ganha am g ande pode e in luência, azendo com que os eis da Eu opa os
emessem. Es ando na Te a San a, os Ca alei os desen ol e am elações com os Muçulmanos, o que ez
com que os C is ãos suspei assem deles. E en ualmen e, o essen imen o con a os Ca alei os c esceu de
al o ma, que ac edi a a-se que o seu pode inha de b uxa ia p a icada em i uais sec e os. No início do
século XIV, o ei de F ança jun ou-se ao Papa pa a os des ui .
56
igilância dos espiões de Fudge, o Minis o da Magia em O de o he Phoenix (idem,
318-319).64
Uma pe sonagem que se encaixa nes e pe il de he ói da an iguidade é o p óp io
Ha y Po e . São de ac o de e á eis em Ha y qualidades que o insc e em na classe
dos he óis. Desde Philosophe ’s S one que Ha y em indo a se is o como um
lendá io p íncipe pe dido ou um mona ca ocul o – al como Édipo, Moisés ou o Rei
A u .65 An es de e en ado pa a a escola de ei iça ia, Ha y não sabia que e a um
ei icei o – desconhecia inclusi amen e a exis ência de um mundo mágico (idem,
348).66 Es e pad ão da jo nada do he ói, que apa ece em mui os clássicos épicos e é
minuciosamen e desc i o po Joseph Campbell, começa com a chamada à a en u a do
he ói. No caso de Ha y, is o acon ece quando ele é con ocado pa a Hogwa s. Nes as
lendas, um he ói nasce, não se az, e Ha y não é exceção. Mui o an es de en a no
Exp esso de Hogwa s pa a o seu p imei o ano de escola – a é mesmo an es de seque
pode ala ou anda – Ha y pe de os seus pais, ganha um inimigo pe igoso e o na-se
amoso no mundo mágico como “O Rapaz que Sob e i eu”67 (idem, 477).
Em elação a es e aspe o, pode ão se ú eis as conclusões a que chegou o
psicoanalis a O o Rank (1884-1939), no seu es udo sob e his ó ias de nascimen os e
in âncias de he óis lendá ios. As suas eo ias e as do seu men o , Sigmund F eud (1856-
1939), são de ac o ascinan es (idem, 478). Rank deu ao li o onde desc e e o pad ão
he oico eplicado em di e en es cul u as o í ulo de The My h o he Bi h o he He o.
Ab e iando as conclusões de Rank, pode emos desc e e o seguin e pad ão: o p íncipe
é no malmen e escondido num local segu o, po causa de uma p o ecia sob e um pe igo
64 A Rede de Pó de Floo é um sis ema de anspo e que u iliza um pó especial que pe mi e a um ei icei o
desloca -se de uma habi ação pa a ou a (ou de sua casa pa a o abalho) lançando o p óp io pó pa a a
chaminé da sua habi ação. O pó, po sua ez, ans o ma-se num ogo e de especial não in lamá el, no
qual o ei icei o en a pa a p o e i o nome do sí io pa a onde que i . Es a ede é cons an emen e igiada
e egulamen ada pelo Minis é io da Magia. Um exemplo de como os ei icei os con o nam a ede é
u ilizando assou as pa a se desloca em nos céus, is o que o Minis é io não dispõe de meios pa a
as ea as assou as.
65 Um plebeu pode p o a se o descenden e de um g ande he ói após ecebe a espada do he ói. O Rei
A u puxou a Excalibu da ped a; numa saga nó dica, é dada uma espada a Sigmund pelo Deus Odin, que
mais a de a dá ao ilho de Sigmund; Ha y Po e consegue puxa a espada de God ic G y indo (o he ói
da casa a que ele pe ence em Hogwa s) do Chapéu Selecionado (Colbe , 2008: 364).
66 O que o az ainda mais amilia aos lei o es é que Ha y é, pelo menos de aco do com os pad ões
es anhos da amília Du sley (os seus ios; a amília com quem ele ica a i e após a mo e dos pais), um
“pa inho eio.” Pa a eles udo em Ha y é es anho e o a do comum. Po essa azão eles a am-no como
a Cinde ela oi a ada: ap isionam-no num mundo mui o menos in e essan e do que lhe e a de ido,
o çando-o a do mi num a má io debaixo das escadas, quando uma cama de dossel o espe a a em
Hogwa s. Além disso, dão-lhe os es os da sua comida, o que az com que Ha y ique imensamen e
su p eendido com a abundância dos es ins de Hogwa s (idem, 485).
67 T adução minha do o iginal ingles: “The Boy Who Li ed.”
57
eminen e, no malmen e de ido a i alidades en e amílias. Exis e no malmen e uma
iagem po um io abaixo ou a é mesmo um oceano, quando o p íncipe é le ado pa a o
esconde ijo. De seguida, ele é c iado po uma pessoa ou uma amília das classes mais
baixas da sociedade (ou a é mesmo po um animal), sem que ninguém lhe ale sob e o
seu des ino. Toda ia, o des ino con ola a sua ida. Ele acaba po encon a os pais (e
pode a é mesmo en a em con on o com o seu pai), acabando po ecebe odas as
hon as que lhe são de idas po nascimen o (idem, 479). A his ó ia da Bíblia sob e
Moisés, po exemplo, insc e e-se nes e pad ão, embo a com uma pequena di e ença:
Moisés nasce como um esc a o heb eu, não um p íncipe. O Fa aó dec e a que odos os
apazes heb eus ecém-nascidos sejam mo os – mais uma ez, de ido a uma p o ecia
que a isa o Fa aó de que o he ói es á pa a i ( al como Voldemo é a isado, a a és de
uma p o ecia, que nasce á um ei icei o com o pode de o de o a , Ha y Po e ). Po
es a azão, Moisés é pos o den o de um ces o que lu ua po um io abaixo. No en an o,
é encon ado pela ilha do Fa aó e, po isso, ado ado pela amília eal. A p o ecia
ealiza-se quando Moisés lide a a e ol a dos esc a os do Fa aó (idem, 481).
Es as lendas sob e he óis pode ão se encon adas em á ias his ó ias eligiosas.
Numa en e is a após a publicação do sé imo e úl imo li o da saga de Ha y Po e ,
Rowling admi iu que a his ó ia de Ha y em uma cono ação eligiosa: “My belie and
my s uggling wi h eligious belie I hink is qui e appa en in his book” (idem, 491). O
úl imo li o da sé ie não deixa ealmen e nenhuma dú ida de que a eligião é impo an e
pa a a sé ie. Não de e ia se su p esa que o c is ianismo es eja ligado à his ó ia de
Ha y. Tendo já ei o e e ências a mui as ou as cul u as, e ia sido peculia que
Rowling excluísse a sua p óp ia eligião. Quando ques ionada pelos media, Rowling
semp e e elou as suas c enças c is ãs, mas de início não quis liga a sua é à sua
his ó ia (idem, 491-492). Numa en e is a, Rowling decla ou:
E e y ime I’ e been asked i I belie e in God, I’ e said yes, because I do, bu no one e e
eally has gone any mo e deeply in o i han ha , and I ha e o say ha does sui me,
because i I alk oo eely abou ha I hink he in elligen eade , whe he en o six y, will
be able o guess wha ’s coming in he books. (apud. Colbe , 2008 493).
O que Rowling quis dize é que alguns lei o es e iam adi inhado que a his ó ia de
Ha y e mina ia como a his ó ia de Jesus C is o na Bíblia: em ez de lu a con a o seu
inimigo, Jesus es á dispos o a mo e de o ma a sal a a humanidade dos seus pecados
e, depois de mo e , essusci a. Es a his ó ia é semelhan e ao que acon ece no im do
úl imo li o, Dea hly Hallows: Ha y escolhe não lu a con a Voldemo , mas
64
mais pe igosos e os menos pe igosos e ambém, po exemplo, o seu luga na cadeia
alimen a .
Os cien is as a é es ão a “ ec ia ” os ei iços de Ha y Po e a a és de
comp imidos. Quando Ha y e os seus amigos p ecisam de apaga a memó ia a alguém,
eles usam o ei iço “Obli ia e.” Es e ei iço ajudou o Minis é io da Magia a man e o
seu mundo um seg edo pa a os Muggles, po exemplo, quando os Muggles encon am
d agões ou qualque ou a coisa da qual eles não de essem sabe . Ka im Nade , da
Uni e sidade de McGill, no Canadá, e a sua equipa mos a am que algumas d ogas
podem ameniza memó ias aumá icas. Ago a pa ece que apagado es de memó ia mais
especí icos se podem o na ealidade. Um es udo ealizado po And e Fen on e os seus
colegas na Uni e sidade Es a al de No a Io que mos a que apaga memó ias é ac o
cien í ico. A equipa descob iu uma pa e c ucial do mecanismo complexo que con ola
as eco dações no nosso cé eb o e mos ou que manipulando uma única molécula que se
pode apaga memó ias a longo p azo. A equipa i á usa as suas descobe as pa a
concebe a amen os pa a, po exemplo, s ess pós- aumá ico e epilepsia.75
Um ou o aspe o que os cien is as es ão a en a desen ol e é a egene ação de
memb os do co po humano. Em Chambe o Sec e s, quando Gilde oy Lockha
emo eu odos os ossos do b aço de Ha y, Madam Pom ey, a médica de Hogwa s,
deu a Ha y uma poção chamada Skele.G o que ez com que os ossos do b aço de Ha y
ossem es au ados. In es igado es es ão desespe adamen e a en a encon a o mas de
egene a dedos ou a é mesmo memb os in ei os, e ago a a descobe a de uma espécie
de a o, o Mu phy Ro h’s La ge (MRL), suge e que um dia isso possa se possí el. A
p o esso a Ellen Hebe -Ka z, do Ins i u o Wis a , na Filadél ia, depa ou-se com as
inc í eis capacidades egene a i as des e a o enquan o ealiza a o seu es udo sob e o
sis ema imuni á io. Ela iden i icou o a o que ecebeu uma d oga du an e um es e
azendo um pequeno u o nas suas o elhas. Um mês mais a de, a dou o a descob i a
que os u os inham desapa ecido. As o elhas dos a os o am u adas uma segunda ez,
des a ez sem a adminis ação da d oga, e, passado algum empo, os bu acos ol a am a
desapa ece . Es e ipo de egene ação nunca inha sido is o num a o. Uma pesquisa
mais p o unda po pa e da p o esso a Hebe -Ka z e idenciou que os ecidos do co ação
e a coluna do a o MRL ambém se egene a am depois de e em so ido um
auma ismo, e sem deixa em sinais de cica izes. Ou os ó gãos e os ne os ize am o
75 h p://www. eleg aph.co.uk/news/science/science-news/3300033/Ha y-Po e -magic- ac -behind- he-
ic ion.h ml, High ield, 2007

65
mesmo, e a é as imp essões digi ais do a o se egene a am depois de e em sido
dani icadas. Nes e momen o, a equipa es á a pesquisa as combinações gené icas exa as
que possam es a na o igem da egene ação.76
Ac edi o que, a a és de Ha y Po e , podemos obse a os seguin es a o es
ela i amen e à magia, à eligião e à ciência: a magia, apesa da sua apa en e
omnipo ência e da sua g ande p esença na sé ie, é algo de ilusó io e que a au o a de
Ha y Po e u iliza pa a nos aze e que a ida não é ácil, seja em que mundo o . Os
mo i os eligiosos encon ados nos li os se em pa a ajuda os lei o es a comp eende
ques ões de eo eligioso e espi i ual, as mesmas que Ha y en en a na sua a en u a.
Os ei icei os são cien is as, à sua p óp ia manei a. A magia que eles usam é a o ma
como eles azem o es udo do seu meio en ol en e. Os Muggles, a a és das suas
p óp ias e amen as, es udam o meio ambien e al como os magos de Ha y Po e .
Muggles e ei icei os não são, de ac o, assim ão di e en es: ambos são humanos e
en en am as di iculdades e os pe igos do seu mundo. Podemos dize que a ciência, al
como a magia em Ha y Po e , é algo que az com que sonhos se o nem ealidade e
com que o impossí el se o ne possí el.
Não obs an e, de o ma a o alece e a o na mais e iden e a ligação en e a
magia, a eligião, a ciência e o mundo de Ha y Po e , i ei p ocede a uma pequena
análise compa a i a en e es es ês emas e ês obje os de g ande pode que apa ecem
no úl imo li o da sé ie, Dea hly Hallows: os Talismãs da Mo e, mais especi icamen e,
a Va inha de Sabuguei o, a Ped a da Ressu eição e o Man o da In isibilidade. Na
minha opinião e, como p ocu a ei explica no p óximo capí ulo, es es ês obje os
podem se conside ados enca nações ma e iais dos ês ópicos sup a mencionados no
mundo de Ha y Po e . Ac edi o que a análise em que de seguida in es i ei legi ima á
a minha ideia de que a magia, a eligião e a ciência são, na e dade, os “Talismãs da
Vida”.
76 h p://www. eleg aph.co.uk/news/science/science-news/3300033/Ha y-Po e -magic- ac -behind- he-
ic ion.h ml, High ield, 2007
66
Capí ulo 3.1
Os Talismãs da Vida
[d aws a line] The Elde Wand, he mos powe ul
wand e e made. [d aws a ci cle] The Resu ec ion
S one. [d aws a iangle] The Cloak o In isibili y.
Toge he , hey make he Dea hly Hallows. Toge he ,
hey make one mas e o dea h.
J.K. Rowling, Ha y Po e and he Dea hly Hallows
Os Talismãs da Mo e77 o am c iados po ês i mãos ei icei os, os Pe e ell, no
mundo de Ha y Po e , e se i am de inspi ação pa a um con o de Rowling pa a
c ianças mágicas, “The Tale o he Th ee B o he s”, que az pa e da pequena cole ânea
publicada pela au o a, The Tales o Beedle he Ba d. Nes e con o, ês i mãos ei icei os,
eco endo à magia, conseguem e i a uma mo e ce a. De epen e, apa ece-lhes uma
igu a encapuzada: a p óp ia Mo e. Es a dá ês obje os especiais aos ês i mãos, po
e em sido capazes de a e i a : o i mão mais elho ecebe a Va inha de Sabuguei o, o
i mão do meio ecebe a Ped a da Ressu eição e o i mão mais no o, sabendo que não
de e ia con ia na Mo e, pede e ecebe, se bem que elu an emen e, o Man o da
In isibilidade. Como qualque ou o con o, “The Tale o he Th ee B o he s” em como
p opósi o ensina uma mo al aos seus lei o es.
Quando a mãe da au o a mo eu aos 45 anos de idade, Rowling já inha começado
a esc e e sob e Ha y. A mo e da mãe di ecionou o oco da his ó ia. Segundo a au o a,
a pa i desse momen o a mo e o nou-se um ema cen al da his ó ia, mui o
possi elmen e o ema cen al dos se e li os. A his ó ia dos Talismãs da Mo e, que é
con ada não só na cole ânea de con os, mas ambém no úl imo li o da sé ie é
p o a elmen e a mais impo an e da sé ie (Colbe , 2008: 523). Rowling a i mou que a
his ó ia dos i mãos Pe e ell e dos seus Talismãs oi inspi ada no “The Pa done ’s Tale”,
um episódio dos The Can e bu y Tales, de Geo ey Chauce .78 O pe doado de The
Can e bu y Tales con a uma his ó ia (que Chauce ai bebe a ou as ábulas) sob e ês
77 Em lendas Cél icas, deuses conhecidos como Tua ha Dé Danaan ouxe am qua o alismãs pa a a
I landa: uma ped a mágica que podia da longa ida ao ei, uma espada e uma lança de g ande pode e um
caldei ão mágico que inha comida in ini a. Nas lendas A u ianas exis em ambém qua o alismãs: a aça
da qual Jesus bebeu, uma espada, um p a o e uma lança. A lança é, às ezes, chamada de “Lança do
Des ino” (“The Spea o Des iny”). De aco do com a lenda, oi usada po um soldado omano pa a
espassa Jesus na c uz e es a ainda em o sangue de Jesus nela. Is o az o dono da lança in encí el. No
úl imo li o de Ha y Po e , a Va inha de Sabuguei o é chamada “A Va inha do Des ino” (“Wand o
Des iny”) e é conhecida na his ó ia po da in encibilidade ao seu dono (Colbe , 2008: 524-526).
78 Um pe doado (pa done ) e a um agen e o icial da ig eja que endia o pe dão da ig eja a pessoas que
inham come ido ce os pecados.
67
homens que que em inga a mo e de um amigo, en ando pa a o e ei o encon a e
ma a a p óp ia Mo e. Con udo, no sí io onde eles espe am encon a a Mo e,
depa am-se com moedas de ou o. Decidem en ão descansa e um dos homens ai
comp a inho. Quando es e se ausen a, os ou os dois concebem um plano mui o
simples, de o ma a ica em com o dinhei o pa a eles e ma am-no quando ele eg essa.
Seguidamen e, celeb am o seu sucesso bebendo o inho, nunca suspei ando de que o
homem que inha ido comp a o inho inha ambém engend ado um plano simples:
coloca a eneno na bebida. Assim, os dois homens mo em e a Mo e é i o iosa uma
ez mais (idem, 524-526).
A e são de Rowling é ligei amen e di e en e: a Mo e engana os i mãos Pe e ell
ao da -lhes ês p esen es que, apa en emen e, os o na ão mais o es do que ela. Com
os dois p imei os Talismãs, a Va inha de Sabuguei o e a Ped a da Ressu eição, exis e
um p oblema: os dois mo em p ema u amen e e os i mãos que ecebem es e obje os
apidamen e se a ependem das suas decisões. Toda ia, o i mão que não pede pa a
de o a a mo e ecebe o Man o da In isibilidade e consegue, assim, i e uma ida
na u al comple a a a és da sua p o eção. Sabiamen e, o i mão mais no o não en a
iludi a Mo e po mais empo do que o necessá io. A e são de Rowling dá um no o
signi icado à his ó ia. Na e são de Chauce , o pe doado explica que o que ele p e ende
ilus a com a sua his ó ia é que a ganância é a aiz de odo o mal (“g eed is he oo o
all e il”). Como He mione G ange explica a Ha y e a Ron, o con o de adas dos
i mãos Pe e ell é uma his ó ia sob e o medo que os se es humanos sen em da mo e79
(Dea hly Hallows, 481).
A his ó ia dos i mãos Pe e ell ambém ap esen a as escolhas de Ha y pa a
en en a Voldemo : ele pode ia come e o e o de en a usa a iolência da Va inha de
Sabuguei o pa a de o a Voldemo , algo que se sen e bas an e en ado a aze . Ele
pode ia come e o e o de usa a Ped a da Ressu eição pa a aze os seus pais de ol a
e, assim, ecupe a a amília. Es a é uma en ação ainda maio . Ou en ão ele pode ia
simplesmen e acei a que a mo e é um des ino na u al e ine i á el e que os
sob e i en es êm que con inua a i e . Ao aze es a e cei a e úl ima escolha ele
o na-se, nas pala as de Dumbledo e, um mes e da mo e (idem, 817).
79 Po exemplo, Voldemo , pa ece se ex ao dina iamen e pode oso pa a os ou os ei icei os, mas
Rowling não o ê dessa o ma. Voldemo eme pe an e a possibilidade da mo e e ele a á qualque
coisa pa a não mo e . O seu p óp io nome denuncia es a in enção: Vol de mo signi ica uga da mo e
(“ ligh om dea h”). Ele não ai en a engana a mo e, ele espe a supe á-la. Es e desejo obsessi o le a-
lo a come e odos os seus c imes (Colbe , página 527).
68
O p imei o obje o a se adqui ido é a Va inha de Sabuguei o. Es a é conhecida
como a “Va inha do Des ino” ou “Pau da Mo e” e é conside ada a mais pode osa
a inha alguma ez c iada na his ó ia do mundo de Ha y Po e e é, po isso, que a
conside o a enca nação ísica do conhecimen o mágico e, nes e caso, o equi alen e e
ep esen an e da magia. O mo i o p incipal pa a es a ligação é que es e alismã é, acima
de udo, uma a inha. A a és das a inhas, os ei icei os conseguem canaliza os seus
pode es mágicos e lança os ei iços que semp e inspi a am e seduzi am as imaginações
de mui os lei o es e esc i o es em á ias al u as: pe mi indo le i a obje os, con ocá-los
desde longas dis âncias e ans o ma pessoas e obje os ou azê-los desapa ece ou
mul iplica . Não há dú ida nenhuma de que a a inha é a e amen a mais impo an e de
um ei icei o. No mundo de Ha y, es as são ei as ao combina pa es de c ia u as
mágicas – cabelos de cauda de unicó nio, penas de caudas de énix, e ios de co ações
de d agões – com madei a de á o es como o salguei o, o mogno, o eixo, o ca alho e o
ca alho sil es e, a aia, e o ébano. Cada a inha é ligada à pe sonalidade de cada
indi íduo, e é a a inha quem escolhe o ei icei o e não o con á io (idem, 558).
Julga-se que os ei icei os semp e usa am a inhas. Es as a as – ou, em alguns
casos, g andes bas ões – concen am o pode mágico.80 No passado, alguns ei icei os
p e e iam a inhas ei as de madei a de sabuguei o, que e am conside adas
especialmen e mágicas. Os ei icei os que p a ica am magia neg a usa am no malmen e
cip es e, que e a associado com a mo e81 (idem, 436). Con udo, se á que a Va inha de
Sabuguei o, conside ada a mais pode osa, unciona como se diz que unciona e é, po
isso, in encí el? Se á que a magia da a inha é in alí el e e á ela a capacidade de
ul apassa os mui os es o ços e in enções das pessoas não mágicas, os Muggles?
De aco do com o con o dos ês i mãos, o i mão que consegue a a inha consegue
ma a um ei icei o com quem inha uma i alidade, com a maio das acilidades. No
en an o, depois de se e gabado dos pode es da sua a inha, de o ma a que oda a gen e
o pudesse ou i , ele é assassinado enquan o do me e a a inha é-lhe i ada. Es a si uação
80 Alguns an opólogos ac edi am que pin u as ca e nais da Idade da Ped a que mos am pessoas com
paus êm como obje i o e a a líde es de clãs a segu a a inhas, assim assegu ando o seu pode . Is o é
conside ado um palpi e, mas exis em p o as consis en es disso e que emon am ao an igo Egip o.
Hie ógli os mos am pad es a segu a pequenos bas ões. Na mi ologia g ega, He mes, mensagei o dos
deuses g egos, inha uma a inha especial chamada Caduceus. Es e e a um bas ão com asas, com duas
se pen es en ol idas à sua ol a. Es e bas ão signi ica a sabedo ia e pode es cu ado es. Hou e médicos
que o ado a am como o seu símbolo há cen enas de anos e ainda o usam hoje em dia (Colbe , 2008: 435).
81 No en an o, J.K. Rowling diz-nos que a a inha de Voldemo é ei a de eixo, o que ambém az
sen ido. Ac edi a-se que o eixo em imenso pode sob ena u al. A de e minada al u a o eixo o nou-se
um símbolo an o da mo e e do enascimen o – a mesma imo alidade que Voldemo deseja ão
desespe adamen e (idem, 436).
69
susci a á ias pe gun as e dú idas sob e a u ilidade e segu ança da u ilização da Va inha
de Sabuguei o. Conside ada a mais pode osa de odas, a Va inha do Des ino é um
obje o ex emamen e apela i o pa a os ei icei os do mundo de Ha y Po e , ao pon o
de e deixado um as o sang en o esc i o em á ias páginas da his ó ia do mundo dos
ei icei os. Guiados pela ganância e pela busca de pode , os ei icei os aziam duelos
pa a lu a pela posse da a inha. Em The Tales o Beedle he Ba d, ao analisa e o e ece
as suas conside ações sob e a Va inha de Sabuguei o, Albus Dumbledo e a i ma que
odos os se es humanos, sejam eles Muggles ou ei icei os, êm ine en emen e um
desejo de pode e, in elizmen e, uma o e endência pa a escolhe aquilo que é pio pa a
eles. Como um dos obje os mais pode osos do mundo de Ha y Po e , a Va inha do
Des ino a aia os co ações de pessoas que simplesmen e en a am a anja uma o ma
de se o na em mais pode osas e, po conseguin e, mais p o egidas.
No en an o, Dumbledo e, um dos úl imos donos da Va inha de Sabuguei o, soube
compo a -se di e en emen e. Depois de e conquis ado a a inha do seu ad e sá io
sem o e ma ado, o sábio ei icei o oi capaz de usa os imensos pode es da a inha
pa a p o ege os ou os, assim domando a a inha; e, com medo de que ou os
soubessem da sua exis ência e come essem os mesmos e os que os seus an ecesso es,
Dumbledo e man e e a a inha em seg edo.
Ou a pe sonagem que demons a a mesma sabedo ia e compo amen o e a-a-
e a ao não p ocu a a a inha é o p óp io Ha y Po e . Du an e a sua jo nada pa a
de o a o seu pio inimigo, Voldemo , Ha y ica a sabe da exis ência da Va inha de
Sabuguei o, que Voldemo ambém que ia pa a si. Ha y em duas escolhas possí eis:
p ocu a e des ui os Ho c uxes de Voldemo sem p ocu a a Va inha de Sabuguei o,
que e a o que Dumbledo e p e endia, ou en ão p ocu a a a inha mais pode osa de
odas, le ando Ha y a iola o úmulo de Dumbledo e (que oi o que Voldemo ez),
an e io men e assassinado, e com quem a a inha jazia. Ha y, guiado pelo seu
p opósi o de sal a o mundo in ei o de Voldemo e man endo os al os pad ões mo ais,
comuns em odos os he óis, mos ou conhece a ealidade do seu mundo e escolheu o
caminho mais longo, que, apesa de se á duo e complicado, e a aquele que le a ia com
oda a ce eza à de o a do Senho das T e as.
A escolha do p o agonis a causou eações a iadas en e os seus dois melho es
amigos, Ron Weasley e He mione G ange . Ron, in luenciado pelas lendas da a inha,
c i icou a escolha de Ha y, dizendo que a a inha e ia sido uma a ma pode osa na lu a
con a Voldemo . Não obs an e, como He mione en a izou, iola o úmulo de

70
Dumbledo e e ia sido uma ação desp ezí el, e a p ocu a da a inha não se ia po ce o
o caminho que Dumbledo e deseja a pa a Ha y. Ha y es a a decidido a u iliza odos
os meios possí eis de o ma a de o a o seu a qui-inimigo, mas apenas desde que
es i essem den o dos pad ões da mo alidade. Ao con á io dos ei icei os neg os, Ha y
sabia que ha ia ce os ipos de magia que não de iam se p ocu ados. Ao planea o
passo seguin e na pe seguição dos Ho c uxes de Voldemo , o io de he óis descob iu
um ou o ac o cu ioso sob e a inhas, e que os ajudou a de o a o Senho das T e as.
O pe i o em a inhas inglês da sé ie de Ha y Po e , Olli ande , in o ma Ha y, num
de e minado momen o do úl imo li o da saga, que Ha y ganha a a idelidade de uma
a inha que pe ence a a um dos seus ou os seus inimigos e i ais de escola, D aco
Mal oy, que Ha y simplesmen e desa ma a num duelo sem o e ma ado. Is o signi ica
que, de cada ez que um ei icei o é de o ado num duelo, a a inha ans e e a sua
lealdade pa a o indi íduo i o ioso.
Podemos pois e que, apesa de se em o ins umen o de abalho mais impo an e
do mundo mágico, as a inhas são ins umen os bas an e ins á eis. Is o coloca uma
ou a ques ão: a quem é que a Va inha de Sabuguei o ju a a a sua idelidade naquele
momen o? A Voldemo ou a ou a pessoa? Voldemo , a quem Olli ande ambém
alou da Va inha do Des ino e das a inhas em ge al, após e sido o u ado, ac edi a a
que a a inha pe encia, naquele momen o, ao ei icei o que ma a a Dumbledo e. Na
men e do ei icei o neg o, a lenda da a inha e a pa a se le ada à le a, e po isso ele
ma ou um dos seus p óp ios se os, Se e us Snape, esponsá el pela mo e de
Dumbledo e. Des a o ma, Voldemo espe a a ganha con olo absolu o da a inha. No
en an o, al ação p o ou não se su icien e. Depois de e sob e i ido a mui as
p o ações e a en u as, Ha y chegou ao seu con on o inal com Voldemo . A
de e minada al u a, ape cebeu-se de que a Va inha de Sabuguei o passa a a sua
idelidade pa a ele p óp io, pois ele desa ma a o ei icei o que desa ma a Dumbledo e,
an es de es e e sido assassinado. A a inha pe ence a a D aco Mal oy, o que
signi ica a que a a inha passa a de D aco pa a Ha y. De ido à sé ia al a de
disce nimen o de Voldemo e à idelidade da a inha pa a com Ha y, Voldemo é
de o ado.
Con a iamen e ao que a a inha odo-pode osa azia as pessoas ac edi a , es a
não man inha as pessoas a as adas do seu u ilizado po eme em o seu inc í el pode .
Em ez disso, a aía mui os ou os ei icei os, que i a am a a inha ao u ilizado a ual.
Seguidamen e, an o a a inha, como as suas idas e am-lhes i adas. Em ez de
71
segu ança, a a inha só a aía p oblemas a ás de p oblemas. Adicionalmen e, as baixas
causadas pelo Pau da Mo e ha iam sido an as que a sua his ó ia, na ealidade, p o a a
o opos o daquilo que azia as pessoas ac edi a em que pode ia aze : a a inha podia se
encida e, nesse sen ido, não e a a a inha mais pode osa de odos os empos; p ocu a
es a a inha apenas azia desg aça a quem o izesse. Es es acon ecimen os lamen á eis,
a ceguei a dos ei icei os e a sua sede de pode le a am a é à c iação de um di ado que,
na minha opinião, esume mui o bem a his ó ia do p imei o Talismã: “Wand o Elde ,
Ne e P ospe ” (Dea hly Hallows: 467).
Apesa da sua imensa u ilidade e dependência no mundo de Ha y Po e , a
magia, um pode que alimen a maio i a iamen e a imaginação, e idencia mui as alhas
no mundo de Ha y. Além disso, a a inha mais pode osa de odas demons a que a
magia é, na ealidade, pu a ilusão e que os pode es da imaginação p ecisam dos
alice ces da ealidade pa a se pode em sus en a . O p óp io Ha y icou a sabe que a
magia em os seus limi es e é, po isso, o çado a encon a um consenso en e a magia
do seu mundo e a c ueldade da ealidade. Po exemplo, uma das desilusões de Ha y
ela i amen e à magia é que es a não pode aze os mo os de ol a à ida.
Lamen a elmen e, pa a os lei o es de Ha y Po e , independen emen e das
mui as ma a ilhas que a magia enha pa a o e ece nes e mundo, es a não é ilimi ada
nem omnipo en e. Em Dea hly Hallows, podemos e que an o os ei icei os como os
Muggles êm de en en a as ad e sidades e que cada g upo en a sob e i e da melho
o ma possí el. No inal, ambos os g upos são iguais: odos são humanos.
Con udo, não é minha in enção dize que a imaginação é inú il, mui o pelo
con á io: al como a magia, a ealidade ap esen a mui as alhas, mui as ques ões po
esol e e espaços em b anco po p eenche , como ambém já mencionei an e io men e.
Tal como a imaginação depende da ealidade pa a sob e i e , a ealidade p ecisa da
imaginação dos se es humanos pa a o seu con ínuo desen ol imen o. Além disso, an o
a azão como a ciência êm di iculdades em sa is aze a necessidade desespe ada dos
se es humanos po o ien ação espi i ual e emocional, que apa en emen e só pode ão se
encon adas num mundo que não o ma e ial, e is o apesa dos es o ços da ciência. Com
es as úl imas pala as em men e, podemos passa pa a o segundo Talismã, a Ped a da
Ressu eição.
A Ped a da Ressu eição, como o nome indica, e al como oi explicado no “The
Tale o he Th ee B o he s”, em o pode de aze pessoas amadas de ol a do mundo
dos mo os, mas, al como a a inha, em ambém um p oblema. De aco do com o “The
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Tale o he Th ee B o he s”, es a ped a de e ia se usada com o p opósi o de humilha a
mo e ainda mais, mas al não acon eceu. O ei icei o que icou com a Ped a da
Ressu eição, o i mão do meio, oi capaz, com a ped a, de aze de ol a a mulhe que
ele an o ama a e com quem e a supos o ele e casado, mas que mo e a
p ema u amen e. Con udo, a sua amada não se sen ia eliz no mundo dos i os. A noi a
es a a emocionalmen e dis an e, pois, al como é a i mado no con o, já não pe encia ao
mundo dos mo ais. Po esse mo i o, o segundo i mão, louco de desespe o e desejo,
come eu suicídio, jun ando-se assim e dadei amen e a ela. A Mo e conseguiu pois
ence o segundo i mão al como sucede a com o p imei o.
No malmen e, essu eição dos mo os é conside ada uma p á ica de magia neg a,
um i ual neg o que az as pessoas de ol a na o ma de zombies, uma p á ica
conhecida como nec omancia, mas esse não é o caso no con o. Apesa dos de alhes
sinis os e suicidas ela i os à Ped a da Ressu eição, é-nos ensinada uma lição aliosa.
A essu eição dos mo os é conside ada ho í el e é, po an o, banida pela lei do mundo
dos ei icei os. No en an o, a essu eição que es emunhamos a a és da Ped a é, de
ce a o ma, di e en e. O con ac o que o segundo i mão expe iencia no mundo dos
mo os é bas an e eminiscen e, não de co pos pod es sem alma, mas da ida após a
mo e que a eligião c is ã p ome e.
A e e ência à Ped a da Ressu eição é sem dú ida eminiscen e da isão que J.K.
Rowling inha da mo e, sob e udo, como imos já, depois da mo e ex empo ânea da
sua mãe. Apesa de a esc i o a se de ini como eligiosa, a eligião não lhe deu nessa
al u a o con o o de que necessi a a. Em ez disso, Rowling c iou um mundo onde se
pudesse esol e o con li o en e o desejo de engana a mo e e a impossibilidade de
ealmen e o consegui . O seu maio desejo pode ia se e a sua mãe ou a ez, mas
quando o p óp io Ha y e e a opo unidade de se euni com os seus pais, Ha y já
sabia que, in elizmen e, al não pode ia acon ece (Colbe , 2008: 529). Não signi ica
is o que Rowling es i esse a ejei a a ideia da possibilidade de uma ida após a mo e.
A sua a i ude pa ece se mais complicada do que isso. Quando in e ogada sob e a
a i mação de Dumbledo e de que a mo e é apenas a p óxima g ande a en u a82,
Rowling e elou: “I would like o… I’m no as wise as him. I would like o see i ha
way. And I do see i ha way, in many ways.” A esc i o a escla eceu que a mo e ainda
a assus a, al como assus a a g ande maio ia das pessoas (idem, 530). Toda ia, no
82 T adução minha do o iginal: “Dea h is bu he nex g ea ad en u e” (Philosophe ’s S one: 335).
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úmulo dos pais de Ha y encon amos a seguin e insc ição: “The las enemy ha shall
be des oyed is dea h.” Es a é uma ci ação do No o Tes amen o (Co in ianos 15:26) que
se e e e à ida e e na no céu (apud. Colbe , 2008: 530). In encionalmen e ou não,
depa amo-nos aqui com uma solução con o á el pa a Rowling, que imagina uma ida
celes ial pa a os pais ic ícios e ambém, po que não, pa a a sua p óp ia mãe.
Uma das epíg a es no início do úl imo li o da saga é uma ci ação de William
Penn, o Quake que undou a Pennsyl ania: “Dea h is bu c ossing he wo ld, as iends
do he seas; hey li e in one ano he s ill. Fo hey mus needs be p esen , ha lo e and
li e in ha which is omnip esen ” (apud. Colbe , 2008: 531). Pa a Penn, is o
signi ica a que o amo de Deus liga a-o a pessoas amadas que inham alecido. Ha y
pode ia não e pa ilhado os sen imen os de Penn nes a sua exa a o mulação, mas a
elicidade que os en ou no epílogo de Dea hly Hallows começou, ce amen e, com
alguma c ença nas pala as: “They ha lo e beyond he wo ld, canno be sepa a ed by
i . Dea h canno kill wha ne e dies” (apud. Colbe , 2008: 531). A Ped a da
Ressu eição pode se is a, po an o, mais como um obje o que pe mi e ao u ilizado
comunica com pessoas amadas que já alece am do que um p ocesso pa a as aze de
ol a, que é o que acon ece no caso de Ha y. Quando Ha y se p epa a pa a se
sac i ica às mãos de Voldemo , eco e à Ped a da Ressu eição pa a isualiza
imagens espec ais das pessoas que ele mais ama a, que já ha iam alecido, e de quem
sen ia al a: os seus pais, o seu Pad inho, Si ius Black e um dos seus amigos e an igos
p o esso es, Remus Lupin.
A mo al que nos é ensinada a a és da Ped a é que a mo e é ine i á el e que é
impossí el escapa -lhe. Não obs an e, ambém ap endemos que no mundo além da
mo e as pessoas encon am paz, e não do e is eza. Além disso, as pessoas êm a
opo unidade de se euni em com os seus amados. Os mo os são elizes enquan o
mo os e encon am paz absolu a, al como o segundo i mão encon ou a sua elicidade
ao jun a -se à sua amada no ou o mundo. Es a paz de espí i o e descanso e e no
ambém são e e idos nas c enças c is ãs. Toda ia, não é de odo minha in enção
a i ma , que as pessoas de em come e suicídio ou que só são elizes quando mo em e
se jun am aos seus amados na ou a ida. A mensagem que nos é ansmi ida a a és da
Ped a é que as pessoas que a ança am pa a o mundo dos mo os pe encem e de em
ica no mundo dos mo os e, po isso, não de e ão se pe u badas, pois, ao en a em na
no a ida, encon a ão paz absolu a e a única coisa que os i os podem aze é ap ende
a i e com os seus sen imen os de pe da.
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*Si es acedidos pela úl ima ez no dia 26 de se emb o de 2015.