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Uma imagem é uma imagem é uma imagem: as narrativas de demanda de Francisco José Viegas

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Uma imagem é uma imagem é uma imagem: as narrativas de demanda de Francisco José Viegas

Author: Magda Peixoto Barbeita
Year: 2014
DOI: 10.34626/3edf-pg50
Source: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/72302/2/28626.pdf
FACU L DA DE DE L E T R A S
U NIVE RSIDADE D O PO RTO
Magda Peixo o Ba bei a
2º Ciclo de Es udos em Es udos Li e á ios, Cul u ais e In e a es
Ramo de Es udos Compa a is as e Relações In e cul u ais
Uma imagem é uma imagem é uma imagem:
as na a i as de demanda de F ancisco José Viegas
2013
O ien ado a: P o esso a Dou o a Ma ia de Lu des Sampaio
Classi icação: Ciclo de es udos:
Disse ação/ ela ó io/P oje o/IPP:
Ve são de ini i a
À Zi, à Rosa e ao Rui. Pa a a Lu des.
Há encon os que nos edimem
de odos os desencon os.
Índice
In odução …………………………...…………………………………………………........…. 1
Pa e I
P imei o andamen o: Uma poé ica da ausência …………….……………...……………...… 15
Pa e II
Segundo andamen o: Ca og a ias iden i á ias …………………….…………………........... 50
Pa e III
Te cei o andamen o: Em di eção do abismo. Ou al ez não. …………………...….……...… 97
Conclusão ……………………………………………………………………………………. 113
Bibliog a ia ……………………………………………………………………………...…... 116
Anexos
Sinopses dos omances …………………………………………………………………………. i
En e is a a F ancisco José Viegas ……………………………………………………….....….
Resumo: Nes a disse ação ensaia emos uma lei u a da ob a omanesca de F ancisco José Viegas
p o agonizada pela dupla de de e i es Jaime Ramos/Filipe Cas anhei a, nela p ocu ando ele a uma
ensão pe manen e en e a ida e a mo e, en e a p esença e a ausência, bem como o en endimen o do se
humano como o único e e dadei o enigma. Des a o ma, i emos mos a como o de e i e em Viegas se
assume como um de e i e-bióg a o, em demanda de iden idades desconhecidas que se en am pe pe ua
pelo a o de con a his ó ias, como um de e i e-geóg a o, ca og a ando essas á ias iden idades a a és da
insc ição (ou não) no empo e nos espaços, de que deco e uma iden idade cole i a, e como um bióg a o
de si mesmo, ealçando como o concei o de iden idade nele se pe spe i a sob e udo numa dimensão
exis encial ou on ológica. Rele a emos, po um lado, a p esença, ou excesso, aduzido, que pela
inco po ação e diluição de on ei as en e o omance e a poesia, o policial e a biog a ia, a li e a u a de
iagens e o omance de gue a, que pelo diálogo e cons ução in e a ís icos en e a li e a u a, a o og a ia
e o cinema, que ainda pelos á ios mo imen os de ai ém, ans e ência e des-locamen os; e, po ou o, a
ausência, ou azio, pelo pendo cla amen e sa u nino da pe da, do desencon o, do exílio, da solidão, da
pul e ização e da mo e.
Pala as-cha e: biog a ia – cinema – des-locação – o og a ia – geog a ia – iden idade – imagem –
in es igação – memó ia – policial
Abs ac : In his disse a ion we will s udy F ancisco José Viegas no els lead by he de ec i e-duo o
Jaime Ramos and Filipe Cas anhei a. In such wo k a pe manen s ain be ween li e and dea h and
be ween p esence and absence will be e ealed. Also e ealed will be he way human being appea s as he
ue enigma. Thus we will demons a e how he de ec i e in Viegas assumes himsel as: a biog aphe -
de ec i e, in he ques o unknown iden i ies ha y o ou las hemsel es by he ac o s o y elling; a
geog aphe -de ec i e, cha ing hose se e al iden i ies h ough he insc ip ion (o lack o i ) in ime and
spaces, om which a collec i e iden i y occu s; and a sel -biog aphe , highligh ing how in him he
concep o iden i y assumes mainly an exis en ial o on ological dimension. On one hand we will also
e eal in his no els he p esence o excess ansla ed ei he h ough he inco po a ion and dilu ion o
ba ie s be ween no el and poe y, de ec i e ic ion and biog aphy, a el li e a u e and wa no els;
whe he h ough he in e -a is ic dialog and cons uc ions be ween li e a u e, pho og aphy and cinema and
also by he use o he se e al “shu le” mo emen s, ans e ence and dis-placemen s. On he o he hand we
will emphasize he absence o emp iness by he clea ly sa u nine disposi ion o loss, ailu e o connec ,
exile, soli ude, pul e iza ion and dea h.
Key wo ds: biog aphy – cinema – de ec i e ic ion – dis-placemen – geog aphy – iden i y – image –
memo y – pho og aphy – ques
1
In odução
É semp e di ícil ap eende mos qualque enómeno li e á io como um odo quando dele
es amos mui o p óximos. Fal a-nos dis anciamen o empo al e, sob e udo, um dis anciamen o
li e á io imp escindí el a uma e lexão c í ica o mais obje i a e ab angen e possí el.
Rela i amen e às úl imas décadas do século passado e p imei as des e século XXI, há, oda ia,
uma da a comummen e acei e en e os meios académicos e c í icos que ep esen a um ma co e
um pon o de i agem, não só na li e a u a po uguesa, como em odas as ealidades do país: o 25
de ab il de 1974. A libe ação do egime salaza is a que se ha ia p olongado du an e qua en a e
oi o anos, o im da gue a colonial e a dissolução de um impé io com mais de cinco séculos de
exis ência i ão p o oca no país um silêncio em o no des es acon ecimen os, assim como a
necessidade de epensa e edimensiona a iden idade po uguesa, is o é, as imagens da sua
p óp ia ep esen ação simbólica enquan o nação, e o papel de Po ugal na sua elação com as ex-
colónias a icanas e com os seus pa cei os eu opeus, de que a en ada na en ão CEE em 1986
u gia. Des e silêncio e des a in e ogação é signi ica i o o í ulo de um li o de ensaios de José
Ca doso Pi es publicado em 1977 – E ago a, José? –, e idenciando a expec a i a e a
in e ogação ace ao papel dos esc i o es nes a conjun u a, sin omas de uma c ise de iden idade
que en ão se ins ala a como de uma c ise de ação. Hoje, passados in a e seis anos após a
publicação de E ago a, José?, sabemos que caminhos o am sendo ilhados no seio do uni e so
omanesco po uguês, de que i emos nes a in odução salien a ês ilões – o omance de gue a
colonial, o omance his ó ico e o omance policial –, e idenciando que, apesa de se cons i uí em
como subespécies au ónomas,
1
eles es ão in imamen e ligados pela pa ilha da mesma conjun u a
his ó ica, polí ica e social, pela c ise de iden idade e de ação que neles se espelha e pela
necessidade de epensa e eexamina o p esen e à luz dos ecen es acon ecimen os ou ecuando a
um passado his ó ico mais longínquo empo almen e.
O eg esso dos milha es de soldados e mili a es da gue a colonial à pá ia, e, em alguns
casos, das suas mulhe es e amília, aduzi -se-á na necessidade de e le i e, essencialmen e,
exo ciza os ho o es e aumas de gue a, num mo imen o simul âneo de culpabilização e de
lu o. Daí que as mani es ações li e á ias que ema iza ão a gue a, sob e udo as das décadas de
1980 e 1990, se ão sob e udo na a i as de es emunho, mas onde a dimensão indi idual i á
ganha con o nos cla amen e cole i os e a na ação da his ó ia se con e e á na na ação da
His ó ia ou de uma His ó ia po uguesa. Daqui nasce, assim, um ipo especí ico de omance na
1
Quan o à possibilidade de os omances que ema izam a gue a colonial cons i uí em uma subespécie do omance,
eja-se a no a 81 da segunda pa e.

2
li e a u a po uguesa. Da omada de consciência des e no o ipo de li e a u a são signi ica i os,
como ealça Robe o Vecchi em Excepção A lân ica. Pensa a Li e a u a da Gue a Colonial,
que o “B e e o ei o da Li e a u a da Gue a em Po ugal” de Edua do Mayone Dias publicado
no Diá io de No ícias em 1985, onde se combina o enquad amen o his ó ico da gue a colonial
com uma li e a u a que o espelha, que o p oje o de João de Melo, Os Anos da Gue a 1961-
1975. Os Po ugueses em Á ica. C ónica, Ficção e His ó ia, de 1988, que em, sob e udo,
p eenche um azio his o iog á ico, mas ambém cul u al e an opológico, ao mesmo empo que
p oblema iza em e mos c í icos es e ipo de li e a u a no seio do sis ema li e á io po uguês e
que, nas pala as de Ma ga ida Cala a e Ribei o, “ az pa e de um sis ema mais complexo de
e isão do se po uguês” (1998: 136). Segundo Robe o Vecchi, o p oje o de João de Melo
cons i ui um di iso de águas dos mais signi ica i os. Não só po que nele li e a u a e his ó ia (…) se
aliam, ou po que um papel ele an e é desempenhado pelas o og a ias anexas (quase « o obiog a ia»
elicá ia de um objec o ão pouco iden i icá el como a gue a colonial (…). Mas sob e udo po que a
o ganização on ológica é, mo ologicamen e, ambém on ológica de um ema ainda mui o esd úxulo – o
que unda um modo de pensa aquela li e a u a que se o na imp escindí el (…) pa a o discu so c í ico.
(2010: 30)
2
Des a o ma, e ace ao silêncio his o iog á ico, cul u al, social e polí ico, e à necessidade de
ins i ui uma memó ia cole i a que não se diluísse no esquecimen o, uma pa e signi ica i a da
li e a u a po uguesa i á a i ma -se como a au o do aumá ico passado ecen e po uguês, como
uma ia, en e ou as, de e le i sob e Po ugal, sob e o impé io po uguês e sob e a gue a
colonial, e um cen o dinâmico, pola izado e ca alisado da ques ão iden i á ia po uguesa que
” ai e e o passado pa a pode en a no p esen e” (Ribei o, 1998: 135). Como sublinha Vecchi,
mesmo na década de 90, a his o iog a ia “não inha ainda começado a desmon a as na a i as de
nação, conse ado as, de u ilidade ambígua e o iundas da ma iz do egime an e io ” (2010: 25),
ao passo que “a li e a u a po uma dinâmica p óp ia já es a a a a icula um amplo abalho
a queo-on ológico de iden i icação, a é obsessi a, pode -se-ia dize , do País” (ibidem),
desempenhando, assim, um papel icá io.
Impo a, po úl imo, salien a ainda que a pa da expe iência da gue a, sob o es emunho
di e o, dos mili a es que nela pa icipa am, ou indi e o, das mulhe es que os acompanha am, os
omances que su gi ão essencialmen e nas duas décadas des e século amplia ão as suas e lexões
sob e a iden idade po uguesa à ida dos po ugueses nas ex-colónias a icanas an es e após a sua
independência, e subsequen es gue as ci is, ao eg esso d amá ico dos e o nados que i e am
2
Ao o e ece -nos uma plu alidade de ozes e pon os de is a pela ia li e á ia, his ó ica, o og á ica e es emunhal, a
an ologia o ganizada po João de Melo em ainda a pa icula idade de inclui , se bem que a po uguesa seja
dominan e, ou as ozes do lado de lá da gue a, como as dos angolanos Cos a And ade, Jo e Rocha, José Luandino
Viei a, Oc a iano Co eia e Pepe ela, dos moçambicanos An on Simba (pseudónimo de Heliodo o Bap is a) e
O lando Mendes, ou mesmo híb idas, como a do luso-moçambicano An ónio Ca nei o Gonçal es.
3
de abandona a sua ida e ecomeça uma no a num país desconhecido, assim como às ge ações
seguin es, mui as ezes nascidas em e i ó io a icano.
Recuando a um passado his ó ico mais longínquo, os anos 80 e ão ambém su gi no seio
do uni e so omanesco po uguês, depois de um declínio pelo gos o his ó ico nas p imei as
décadas do século XX, uma e i i icação do omance his ó ico e da biog a ia omanceada (c .
Rocha, 2012: 473), à semelhança da p odução omanesca eu opeia e ame icana. Recupe ando o
pa adigma a is o élico da es u u a na a i a anco ada num en edo com p incípio, meio e im,
após a sua dissolução ap egoada pelo nou eau oman, o omance his ó ico con empo âneo
ap esen a á, con udo, di e enças subs anciais em elação ao omance his ó ico adicional que
nasce no pe íodo omân ico e que de i am sob e udo de uma no a conceção da His ó ia, assim
como das ans o mações que o p óp io omance oi so endo nas úl imas décadas do século
passado. A ela i ização de uma e dade única e uni e sal, a au o- e lexidade p esen e nos
comen á ios ecidos ao passado, as múl iplas ocalizações que o e ecem á ias e sões dos
mesmos acon ecimen os, a pe spe i ação sob o pon o de is a de pe sonagens a é en ão ma ginais
ou ma ginalizadas pelo discu so o icial da His ó ia, p oblema izando o discu so his o iog á ico e
conduzindo ao apa ecimen o de e sões al e na i as, o seu ca ác e c í ico esul an e da u ilização
da i onia e da pa ódia como p ocessos de descons ução e a ibuição de no os signi icados, e, às
ezes, a é mesmo o apagamen o do espaço e do empo, se ão e idenciados nes as mani es ações
li e á ias que Linda Hu cheon apelida á, em A Poe ics o Pos mode nism, de me a icção
his o iog á ica. Po ou o lado, se já no omance his ó ico adicional, como salien a Fá ima
Ma inho em O Romance His ó ico em Po ugal, es a a p esen e a consciência de que, que o
discu so his o iog á ico, que o do omance his ó ico, inco po a am em si uma dimensão
simul aneamen e eal e iccional, assen es na e osimilhança (c . Ma inho, 1999: 29-30), no
omance his ó ico pós-mode no, a econs ução e ein e p e ação do passado su gem ão caó icas
e complexas como o p esen e, pa a o que mui o con ibui a consciência de que o passado apenas
nos é acessí el de o ma ex ualizada, que é já um ou o ex o, igu a i o, alegó ico, ic ício (c .
Hu cheon, 1995: 93/143). Des a o ma, mais impo an e que os acon ecimen os his ó icos, sob o
pon o de is a de uma ep odução iel e com pendo didá ico, se á a e lexão sob e a p óp ia
His ó ia: “O omance his ó ico pós-mode no o na-se, assim, não uma o ma de conhecimen o
his ó ico (como os omân icos o p e endiam), mas a inqui ição da possibilidade de u iliza esse
mesmo conhecimen o de uma pe spec i a epis emológica ou polí ica” (Ma inho, 1999: 39).
Em Po ugal, a pa do enómeno de ep odução do oco ido no campo eu opeu e
ame icano, como e e imos já, se á p ecisamen e es a inqui ição da His ó ia e do passado
po uguês, sob e udo “[n]o escaldo da Re olução, com o seu e iginoso i mo de sucessos
his ó icos e polí icos a ní el nacional e in e nacional, com o ad en o de no os pad ões
4
socioeconómicos e com a alência das g andes u opias que assinala am o século” (Rocha, 2012:
463), que a ua á como meio impulsionado à p oli e ação do omance his ó ico, possí el ago a
após a implan ação de um egime democ á ico de li e exp essão. Como apon am Fá ima
Ma inho e Cla a Rocha, a c ise de iden idade e “a p emência de uma indagação sob e os des inos
colec i os, que a a és da ememo ação do passado, que pela ia da p ojecção u u an e”
(ibidem) es a uem-se enquan o causas possí eis des e c escen e in e esse pelo omance his ó ico
após a Re olução de Ab il, igu ando-se que como en a i as de esboça uma no a iden idade,
que c iando “um campo a o á el pa a a ein e p e ação do passado, despido de um discu so
con encional e alheio a ou as ealidades” (Ma inho, 1999: 306).
À semelhança do omance his ó ico, depois do “pe íodo de ou o” dos anos 1950 e 1960 e
após um pe íodo de es agnação, de epe ição e de esgo amen o de ó mulas, os anos 80 ambém
es emunha ão um boom do omance policial um pouco po odo o lado, em Po ugal como na
Eu opa ou na Amé ica, se bem que po mo i os di e sos, mui o con ibuindo, no caso po uguês,
a libe ação de um egime di a o ial de censu a.
3
Depois de uma década de quase silêncio
ela i amen e ao géne o du an e os anos con u bados da e olução (dec éscimo, aliás, sen ido em
odas as á eas a ís icas, como bem se comp eende), assis imos ao apa ecimen o de inúme as
coleções, que de géne o, que de au o , que apos am no policial, esmagado amen e es angei o,
mas ambém po uguês, que i á su gi eno ado com no os au o es.
4
Con inuando o e o do
policial dos anos 80, a década de 90 i á, con udo, aze di e enças subs anciais em e mos
edi o iais, de e minando, de ce a o ma, a eceção do omance policial, sob e udo es angei o, e
en ando ele a o géne o à “li e a u a maio ”, o e endo ao lei o edições cuidadas, bem
aduzidas, em o ma o no mal e ao p eço de qualque ou o omance.
5
Dando con a des e enómeno, não é a o encon a mos aqui e ali, em e is as e jo nais, a
e e ência ao boom do policial a pa i da década de 80 e são de salien a os á ios dossie s
dedicados ao géne o em e is as li e á ias. Em 1983 su ge no JL um dossie in i ulado “O
eg esso do omance policial”, o almen e dedicado aos mes es, com especial incidência no
3
Vá ios são os eó icos, assim como esc i o es de omance policiais, que de endem que a p odução do géne o apenas
é possí el num egime democ á ico. A es e p opósi o, eja-se o capí ulo “Da (In) Viabilidade do Romance Policial
Po uguês” em Sampaio, 2007: 435-477.
4
Me ecem des aque: a coleção “Bolso Noi e” da Eu op ess c iada em 1983 po Luís Campos, a p imei a coleção a
publica , de o ma sis emá ica, nomes po ugueses; a “Ulmei o Policial” que su ge no ano seguin e e que, apesa da
cu a du ação e de apenas 8 í ulos publicados, pa ecia apos a apenas no omance policial po uguês; e a “Caminho
Policial”, que i á um pouco mais longe que as an e io es na en a i a de incen i a os au o es po ugueses a
expe imen a em o géne o, endo pa a isso c iado um p émio bienal, sendo signi ica i o que mui os au o es
po ugueses enham publicado aí os seus p imei os omances policiais.
5
Excluindo as coleções “C ime S. A.” (1990) da Ulisseia e a “Bolso Neg o” (1992) da Puma Edi o a que apos a ão
ainda em edições mais ba a as de o ma o bolso, a pa i dos anos 90, os omances policiais i ão, de ac o, conhece
uma no a linha edi o ial com as coleções “O Fio da Na alha” da Edi o ial P esença (1998), “Noi es B ancas” (1999)
ou “Li e a u a ou Mo e” (2002), lançadas pelas Edições Asa, “Damas do C ime” da Pe gaminho (2000),
“Noc u nos” da Gó ica (2000) e “Policiais” da Temas e Deba es (2002).
5
omance neg o ame icano. Nele encon amos ex os que se deb uçam sob e o géne o, o esboço de
uma c onologia do omance policial, um a igo sob e o diálogo en e o policial ame icano e o
cinema noi , a ap esen ação de 20 au o es clássicos selecionados po An ónio Mega Fe ei a e
ainda a legi imação de um “géne o meno ” a a és do a igo de Jo ge Lis opad sob e dois
“clássicos policiais”, C ime e Cas igo de Dos oié ski e O P ocesso de Ka ka, e de uma colhe ada
de Pessoa pela mão de Ma ia Helena Mensu ado. A p incipal e e ência po uguesa que aí
encon amos é Denis McShade e dá-se a conhece ao lei o o e cei o capí ulo do seu Requiem
pa a D. Quixo e. Toda ia, a sua p esença pa ece ele a mais da he ança do omance neg o
ame icano, po que uma sua pa ódia e po que uma homenagem a Chandle , impondo-se o policial
po uguês ainda e mais uma ez como géne o es angei o e impo ado. Con udo, ês anos depois,
em 1986, o mesmo jo nal i á o e ece -nos uma pe spe i a do omance policial des a ez de cunho
luso, num dossie p ecisamen e in i ulado “Policiais à po uguesa”, onde se dão a conhece
alguns nomes, pseudónimos, í ulos e pe spe i as de uma no a ge ação de esc i o es de omances
policiais po ugueses, com especial des aque pa a A u Va a ojo, Dennis McSchade, Luís
Campos, Ross Pynn, Modes o Na a o, Masca enhas Ba e o e Cla a Pin o Co eia. Des a
in enção são signi ica i as as pala as que su gem na pequena ap esen ação do dossie : “não
quisemos aze a his ó ia do policial po uguês. Esse é um «c ime» pa a uma descobe a quase
impossí el. De es o, o policial po uguês, pa ece, es á ago a nos seus p imei os (sé ios) passos.
Aqui icam algumas das pis as sob e o caso policial po uguês – e as suas di e enças” (20).
6
A
e is a Vé ice i á ambém c ia um espaço c í ico e de deba e que i á con ibui de o ma
de e minan e, que pa a a di ulgação do géne o policial, como já o ize a nos anos 40 e 50 (c .
Sampaio, 2007: 235), que ope ando uma en a i a de aça os caminhos de um policial
po uguês. É nes e âmbi o que se des acam “O policial po uguês. Geog a ia de uma
p oblemá ica” (1988) e “Po uma his ó ia do policial po uguês” (1992) de Ca los J. F. Jo ge,
uma mesa- edonda sob o ema “A c iação da icção policial” (1990), onde pa icipa am
Figuei edo Jo ge, Dick Haskins, Modes o Na a o, Hen ique Nicolau, Fe nanda Pin o Rod igues,
Eunice Cab al e Zé Ped o, “A li e a u a policial po uguesa e os esc i o es ma ginais” (1991) de
O lando Gue a e “O adeus à a ma” (1992) de F ancisco José Viegas.
Des a o ma, em e mos eó icos, e i icamos, à semelhança do “pe íodo de ou o”, um
eno a do in e esse em elação ao policial, como o demons am os á ios a igos e dossie s
e e idos, mas con inuam, oda ia – apesa de uma in es igação que se começa, ainda
imidamen e, a mos a e de algumas impo an es ações que êm con ibuído pa a a sua
6
Salien e-se que em 1989 se á ainda publicado no JL um dossie a p opósi o da publicação do n.º 500 da Vampi o,
“O caso do ampi o iun an e”, e, cinco anos depois, em 2004, se á a ez de “Li e a u a Policial”. Um ano an es, em
2003, su gi a ambém um “Dossie Policiais” pelas mãos de José P a a e Te eza Coelho na e is a Os Meus Li os,
com especial des aque, en e ou os, pa a as coleções de policiais a pa i de ins da década de 90.
12
de e i e se en ega, que na segunda e e cei a pa es, onde oca emos a demanda de si, das
pe sonagens e do p óp io de e i e. Po ou o lado, como e emos ambém, ao en a ( e)cons ui
a his ó ia da ida dos mo os, o de e i e em Viegas assume-se cla amen e como um de e i e-
bióg a o, em demanda de iden idades desconhecidas, ope ando ao mesmo empo um mo imen o
de des-locação espacial, que o i á e ela igualmen e como um de e i e-geóg a o, mas ambém
empo al, que o ob iga á a in le i sob e o p esen e e o passado ecen e da his ó ia de Po ugal.
Des a o ma, e como en a emos mos a ao longo de ês andamen os, as á ias iden idades
indi iduais, a que nos dedica emos na p imei a pa e, ganha ão con o nos cole i os e pa icipa ão
igualmen e na con igu ação de uma iden idade, a po uguesa, como en a emos demons a ao
longo da segunda pa e des e abalho. Po úl imo, na e cei a pa e, ocando-nos na igu a de
Jaime Ramos enquan o bióg a o de si p óp io, ele a emos, não obs an e uma con igu ação
cole i a, que o concei o de iden idade em Viegas se pe spe i a sob e udo numa dimensão
exis encial ou on ológica.
Viegas encon a igualmen e no modelo policial um modelo de na a i a que lhe pe mi e
con a his ó ias com p incípio, meio e im, uma das possí eis causas que es ão na o igem do
boom do omance policial um pouco po oda a pa e, aqui em Po ugal, como no es o da Eu opa,
na Amé ica do No e ou na La ina, mui o de edo a de uma c ise do omance que se ez sen i nos
anos p eceden es. Ci emos uma passagem, en e inúme as possí eis, de um a igo seu, “O
Imaginá io do Romance Policial”, onde o policial é acen uado p ecisamen e como um modelo
na a i o e, sob e udo, como a na a i a das na a i as e como agen e po enciado de eno ação
do omance ou cou :
O policial não é só um géne o, nem é só um modelo que se pode epe i in ini amen e à manei a da
g amá ica, al como Chomsky a concebia, como uma espécie de máquina ge ado a de enunciados in ini os,
desde que hou esse eg as, desde que essas eg as ossem conhecidas dos alan es e dos ou in es, e desde
que hou esse uma adequação ex ual mínima, is o é, desde que hou esse um con ex o. O policial é, ele
mesmo, uma ca ego ia, ins i ui-se como um modo de in e p e a a p óp ia a e de con a his ó ias e de as
p oblema iza . (…)
Des e modo, a li e a u a policial acabou, à sua manei a, po cons i ui aquilo que designa ia como uma
espécie de edu o da a e na a i a pu a. Is o é, de edu o do omance como a e de con a uma his ó ia. E a
icção ge al, hoje em dia, não escapa às ma cas que o policial a ecadou pa a elabo a os seus uques, as
suas ma emá icas, as suas geome ias, os seus silêncios e a sua a e de c ia o suspense. Que nas suas
o mas mais c is alizadas, que nas suas o mas ingénuas, o policial deixa de exis i como al, como géne o
à pa e. (1999: 171/173)
Ao e e i -se à diluição de on ei as en e o omance policial e o omance em si,
mecanismo eco en e no omance policial con empo âneo, como aliás sublinha Jochen Vog que
inicia um seu ecen e ensaio p ecisamen e com o sub í ulo “Como o policial se o nou omance”
(c . 2012: 169-174), Viegas e le e igualmen e o que se passa com os seus p óp ios omances. De
ac o, não é a o encon a mos aqui e ali e e ências à diluição do policial nos seus omances,

13
classi icados como omances pseudopoliciais (c . Mellid-F anco, 1989), de in ospeção ou de
in es igação in ospe i a (c . Mendonça, 1996), en e o omance policial e o omance poé ico,
como se lhes e e e o seu edi o , Manuel Albe o Valen e, en e o omance policial e o omance
de cos umes (c . Real, 2012: 124), na linha de um omance policial medi e âneo, pela
ap oximação a Manuel Vázquez Mon albán e And ea Camille i (c . Mesplède, 2007) ou mesmo
como um subgéne o luso do policial, o omance policial melancólico (c . P an ille, 2009: 127).
Todas es as designações nos dão con a de que, se os omances de F. J. Viegas se insc e em
cla amen e na ma iz do omance policial, essa ma iz di e ge dos modelos a que nos omos
habi uando, di e gência pa a a qual ambém con ibui, e de o ma subs ancial, a sua capacidade
de in enção de um géne o espa ilhado. Nes e pon o, é impossí el não nos oco e o a iso aos
lei o es que p e igu a o omance Longe de Manaus, a i mando simul aneamen e a insc ição num
géne o e a ansg essão ou descons ução do mesmo – Um omance policial, como se sabe, em
as suas eg as. Es e não em. – e que pa ece es abelece uma éplica ao ensaís a e pensado
búlga o Tz e an Todo o de “Typologie du oman policie ”, ealçando a capacidade de
eno ação de um géne o no ma i o que não ansg ide as eg as e a elas se con o ma.
14
Nes a
linha de pensamen o, e po que não conside amos o géne o policial um “géne o meno ”, de aco do
com Chandle , passa emos a designa os omances policiais de Viegas como omances policiais,
em i álico, pa a neles des aca a adição e a ino ação, a no ma e a ansg essão, o p é- ex o e o
p e ex o, a na a i a e a poesia.
Insc e endo o esc i o numa adição li e á ia “ele ada” e numa iden idade cul u al
comum, Miguel Real sin e iza des a o ma a p odução na a i a de Viegas, dando-nos con a dos
di e sos ios que en e ecem a sua ob a:
F ancisco José Viegas ence a um caminho iccional que escapa às classi icações habi uais sob e o
omance po uguês a ual, ans e salizando géne os li e á ios e c uzando, num uni e so simbólico
singula , o policial com a na a i a lí ica, o d ama exp essi o da exis ência, à Raul B andão, com a
melancolia cé ica sob e o sen ido da ida, à Lobo An unes, a desc ição do ealismo comezinho da ida de
14
A es e p opósi o, eja-se o ensaio de Te esa Bo elho que se deb uça sob e a p odução a o-ame icana do omance
policial que i á sub e e os modelos do ha dboiled sob o pon o de is a acial/é nico e das ozes mino i á ias. No e-
se, igualmen e, que alguns es udos êm abo dado o omance policial sob o pon o de is a do géne o ( eminis a, gay,
lésbico). Cu iosamen e, não podemos deixa de obse a no omance policial con empo âneo á ios enómenos
mui o semelhan es aos oco idos com o omance his ó ico pós-mode no que abo dámos já, e que não são senão
sin omas de uma época pós-mode nis a que se e le e em á ios campos e á eas. Aliás, como salien a Jochen Vog , o
omance policial e o omance his ó ico, nascidos ambos em Ingla e a e no século XIX, “ êm que se is os quan o
ao con eúdo e à es u u a como complemen a es um em elação ao ou o” (2012: 174) e Ad iana Bebiano e e e-se ao
omance policial his ó ico como um “híb ido pa icula men e eliz”, des acando a sua si uação de on ei a que
pe mi e a p oblema ização do conhecimen o, assim como da ep esen ação do eal e da his ó ia ( e Bebiano, 2001).
Também Ma ia Alzi a Seixo salien a que o pós-mode nismo
mon e d’ailleu s une p é é ence clai e pou le oman de l’His oi e (où ce e même His oi e es co igée, ou du moins
ega dée selon des pe spec i es qui peu en éb anle sa ision o icielle) e pou le oman à énigme, en pa iculie le
oman policie , gen es où la desc ip ion es oujou s po euse d’un sens (c’es à di e, où les uni és desc ip i es son
oujou s des emb yons de éci s), mais pou l’élude (c’es a di e, que dans ce e desc ip ion, la éci au a di icilemen
lieu). (1991: 310)
14
bai o, à Rod igues Miguéis, com o pessimismo me a ísico de Mau Tempo no Canal, de Nemésio. (2012:
121)
Es es di e sos ios que ão indicando caminhos á ios a pe co e – e que mui o con ibuem pa a
a lei u a dos seus omances como omances em si e mui as ezes nos azem esquece , a nós
lei o es, a dimensão policial – se ão ambém obje o de lei u a ao longo des a disse ação. Po
ou o lado, dando con a da dimensão imagé ica e poé ica da na a i a de Viegas, e con ocando as
pala as de Gas on Bachela d de que “[l]a mo es d’abo d une image, elle es e une image”
(1965: 312), ambém a imagem – enquan o an asma e imaginação –, e os seus á ios con o nos e
aceções, i á cons i ui o enquad amen o ans e sal a es e abalho, da imagem poé ica à imagem
o og á ica, da imagem cinema og á ica à imagem-pensamen o, da imagem o nada paisagem à
imagem o nada iden idade.
Po úl imo, es a-nos ele a que en a emos ensaia aqui uma lei u a da ob a omanesca de
F. J. Viegas p o agonizada pela dupla Jaime Ramos/Filipe Cas anhei a à luz do que oi sendo di o
de o ma espo ádica e assis emá ica em a igos espa sos (e escassos), das p óp ias pala as do
au o enquan o esc i o e ensaís a do géne o, e, sob e udo, daquilo que ainda não oi di o.
15
P ecisamen e po isso, po se a a de um es udo que se p e ende de maio ôlego, op ámos po
lança á ias pis as de análise e in e p e ação que nos dessem con a de uma imagem pano âmica
do conjun o do seu uni e so omanesco – pa a a qual con ibui uma na a i a em sé ie que se
ab e, po an o, a no as possibilidades ao es abelece um con inuum –, en ando não descu a ao
mesmo empo uma discussão de alhada e minuciosa num mo imen o de zoom.
15
Exclui emos do nosso co pus, apesa de se em obje o de uma no a ou ou a, os omances Um C ime na Exposição
e Um C ime Capi al, po um lado, po uma ques ão de economia e po que e le em as mesmas ques ões le an adas
pelos ou os omances, e, não obs an e o que acabámos de a i ma , po ou o, po que e idenciam uma es u u a que
os a as a deles que pensamos es a elacionada com a sua p óp ia p odução, em jei o de di e imen o (no e-se que
Di e imen o igu a como sub í ulo do p imei o omance), e publicação, uma ez que ambos o am p imei amen e
publicados em olhe im, o p imei o no Diá io de No ícias e o segundo no Jo nal de No ícias. Também o úl imo
omance a é ago a publicado, O Colecionado de E a, não se á obje o de es udo di e o pela p oximidade empo al
da elabo ação des a disse ação e, essencialmen e, po que nos pa ece ab i um no o ciclo na p odução policial do
au o (assim como O Ma em Casablanca pa ece echa um p imei o ciclo), embo a enhamos de sal agua da que
es e no o ciclo es á em abe o, assim como a nossa posição.
Uma ez que op ámos po não aze aqui um esumo dos omances em es udo, inclui emos as sinopses dos omances
em anexo e no im des a disse ação, caso o lei o não es eja amilia izado com o seu uni e so na a i o. Segue-se-
lhes, igualmen e, uma en e is a ao au o po nós conduzida.
15
Pa e I
P imei o andamen o: Uma poé ica da ausência
Fica as pa a ás. Fiquei pa a ás
algumas ezes, obse ando como a a de mo ia
depois dos une ais e eu inha de segui pela ida o a
ac escen ando ausências sob e ausências.
F. J. Viegas, Se me como esse o amo
No omance policial clássico udo começa pelo c ime. Ou melho , udo começa pela mo e.
Ou melho ainda, udo começa pelo im. E é p ecisamen e o ac o de começa pelo im que az
com que es e géne o enha uma es u u a mui o peculia , uma es u u a que p e ende o na
explíci a a p óp ia es u u a, cabendo ao de e i e a unção de assegu a a na ação cujos ios se
pe de am. O omance policial é, de aco do com Umbe o Eco, “a Poé ica eduzida às suas
coo denadas essenciais, uma sequência de acon ecimen os (p agma a), de que se pe de am os ios
condu o es, e o en edo con a-nos o modo como os econs ói o de ec i e” (2003: 252).
A es u u a do omance clássico dedu i o é, pois, como demons ou Tz e an Todo o em
“Typologie du oman policie ”, ca ac e izada pela dualidade, já que o omance de enigma con ém
em si não uma, mas duas his ó ias – a his ó ia do c ime e a his ó ia do inqué i o. A his ó ia do
c ime é an e io à his ó ia da in es igação e, apesa de “pouca coisa” nes a se passa , i á ocupa
quase a o alidade do omance e se á uma espécie de “len a ap endizagem”. A de eção exis e
en ão no omance clássico dedu i o in p aesen ia, pa a e ela ou conc e iza a his ó ia do c ime,
in absen ia, o que az des e ipo de es u u a, como e e e Pe e B ooks em Reading o he Plo ,
uma espécie de na a i a das na a i as (c . 1992: 25), a in iga desca nada que se busca a si
mesma, en ando econs i ui os seus músculos, as suas eias, o seu sangue, já que a his ó ia do
inqué i o e ela a p óp ia es u u a da na a i a, consis indo na explici ação de como essa mesma
na a i a se pode p ocessa , de como esse mesmo li o é esc i o.
16
Além disso, ao epe i os
passos do c iminoso, o de e i e mais não az do que consuma um a o que qualque na a i a
p e ende, já que oda a na a i a se assume como uma epe ição de algo que já acon eceu: “ he
de ec i e epea , go o e again, he g ound ha has been co e ed by his p edecesso , he
c iminal” (B ooks, 1992: 24). O a, sendo a his ó ia da in es igação uma epe ição dos passos da
16
Des a o ma, segundo T. Todo o , a his ó ia do c ime co esponde, de aco do com a e minologia o malis a, à
“ abula” e a his ó ia do inqué i o ao “assun o”.
16
his ó ia do c ime, a sua p incipal p eocupação é a de econs i uição do passado, ope ando, po
isso, segundo um mo imen o e ospe i o. Cabe á ao de e i e esga a o passado ausen e, oda ia
p esen e sob a o ma de eminiscências, es os e as os,
17
imp imindo-lhe um sen ido o al, uma
his ó ia e, po an o, uma p esença, a a és da sua na ação. O omance policial clássico ab i á,
pois, com uma me á o a inicial que ence a o mis é io do c ime e que se á desmon ada a a és de
um p ocesso me onímico que pe mi i á acede aos meand os e enleios que a ence am (c .
B ooks, 1992: 26-27). Assim, ao mesmo empo que ep esen a p ecisamen e “a his ó ia do li o”,
ins au a igualmen e, como Jo ge Luis Bo ges ealçou, um modo de le , ao c ia um ipo especial
de lei o , “un lec eu inc édule, soupçonneux d’un soupçon ès spécial” (1983: 291).
Po ou o lado, es e mo imen o e ospe i o su ge ambém como uma o ma de o nece
uma o dem ao mundo, de hie a quiza e comp eende as causas que es ão po de ás dos e ei os.
18
No p e ácio ao ensaio acima e e ido, Pe e B ooks, e omando e ala gando à na a i a em ge al a
ideia de Bo ges do policial como modo de le , e e e-se ao en edo como o ma de o ganiza e
in e p e a o mundo: “na a i es ex s hemsel es appea o ep esen and e lec on hei plo s.
Mos iable wo ks o li e a u e ell us some hing abou how hey a e o be ead, guide us owa d
he condi ions o hei in e p e a ion” (1992: xii). De igual modo, nos omances policiais de F. J.
Viegas, se á a o ma como a de eção i á se ei a que ope a á como uma en a i a de o nece
uma o dem ao mundo, mas cujos esul ados se aduzi ão, como e emos, numa (in)comp eensão
desse mesmo mundo, p ecisamen e po que a na u eza humana – e a mo e –, ence a em si
seg edos, impulsos e ensões insondá eis e pa a além da comp eensão humana.
Em F ancisco José Viegas, como apon ámos na in odução a es e abalho, se a lógica
in e na dos seus omances se cons ói, al como nos omances policiais clássicos, em o no de
uma poé ica da ausência, di e en emen e da es u u a ípica des es, mais do que a his ó ia do
c ime – e, pode íamos dize , da mo e –, o que se p e ende esga a é a his ó ia da ida, ol endo-
se, no en an o, e como e emos, ambas numa e nou a. Logo no p imei o omance, C ime em
Pon a Delgada, es a des-locação é ano ada po Filipe Cas anhei a, o de e i e que aí su ge, que
nos ad e e pa a a cla idade do c ime po oposição à obscu idade da ida:
«Mis e iosamen e assassinado», assim oi como o locu o se ap esen ou dian e das câma as.
Mis e iosamen e assassinado. Nada de mais idículo. Nunca se é mis e iosamen e assassinado. É-se
cla amen e assassinado, ou não há assassínio. O assassínio esul a de um co po sem ida. Vi a já alguns.
17
Como salien a Robe o Vecchi, “[o] p óp io e mo es o apoia-se numa dupla e imologia que aia a con adição,
signi icando simul aneamen e pe da, al a, ausência, abandono e pe manência, esis ência” (2010: 44).
18
No omance neg o ame icano, e po que pa e das causas pa a os e ei os, es e sen imen o de o dem no mundo não
sob e i e, o que sob e i e nele é o caos.
17
(…) Mas nada de especial. Nada de mais. Po isso, o assassínio não cabia em nenhuma ca ego ia de
nenhum mis é io. O assassínio é cla o de mais. (Viegas, 1989: 53-54)
Os mo os são pe sonagens undamen ais, mas em ausência. Em alguns omances, o lei o
ainda con i e com eles, mas po b e es e escassos momen os, pois dep essa deixam de exis i e a
única coisa que os co po iza é o seu cadá e ou a simples memó ia de um co po e uma iden idade
que se pe de am. O de e i e pa i á en ão em demanda do azio p o ocado pela mo e, em
demanda de idas in e ompidas que se p e endem pe pe ua , esga ando-as do esquecimen o e do
desapa ecimen o, e imp imindo-lhes uma iden idade que as sal e do anonima o, po que “[s]omos
mui o iguais depois de mo os, mui o iguais” (Viegas, 1992: 97). Po isso, o de e i e em Viegas
assume em odos os omances o papel de bióg a o e cada omance é ambém uma biog a ia de
uma pe sonagem: a de An ónio Gomes Ja dim em C ime em Pon a Delgada, a de um amoso
jogado de u ebol em Mo e no Es ádio, a de Rui Ped o Ma im da Luz em As Duas Águas do
Ma , a de João Al es Lopes em Um Céu Demasiado Azul, a de Ál a o Se e iano Fu ado em
Longe de Manaus, a de Adelino José Fon ou a em O Ma em Casablanca.
19
E iden emen e que omamos aqui biog a ia enquan o na a i a que segue um modelo de
cons ução biog á ica, po oposição a biog a ia enquan o géne o au ónomo
20
– embo a de amos
essal a que es e é um géne o esqui o, híb ido e p o eico, cujas on ei as não são acilmen e
delimi adas, e que escapa, po an o, a uma classi icação ou de inição consis en es, como
demons ou Ad iana Bebiano na sua disse ação de dou o amen o in i ulada Biog a ias
omanceadas: a his ó ia con ada como delí io. Na e dade, se a p imei a cons ói a biog a ia de
uma pe sonagem ic ícia, a segunda implica a exis ência his ó ica da pe sonagem/pessoa
biog a ada. No en an o, se conside a mos que o omance policial se insc e e numa ma iz ealis a
– mesmo sabendo que esse ealismo é semp e do domínio do iccional –, o es abelecimen o de
um pa alelismo en e a biog a ia ou a biog a ia omanceada e a biog a ia enquan o modelo de
cons ução que encon amos nos omances de Viegas apon a-nos algumas es a égias e
mecanismos comuns, podendo, po an o, e ela -se bas an e ú il ao ilumina de e minadas
ques ões, e a ele eco e emos ao longo des a disse ação semp e que conside a mos pe inen e.
Desde logo, gos a íamos de começa po salien a que o abalho do de e i e, al como o do
bióg a o, é igualmen e de de eção de es ígios, de ecolha e ecoleção de agmen os, de pedaços
de ida co po izados em o og a ias, moldu as, ca as, documen os, es emunhos, que o ajudem a
19
De emos, no en an o, ad e i que es a ese não é álida, que pa a Um C ime na Exposição, que pa a Um C ime
Capi al, que ado am, a é pelas ci cuns âncias em que o am c iados, como imos na in odução, ou as es a égias de
na ação, mais p óximas do omance policial clássico a la cle e como di e imen o, e que as a as am da biog a ia. O
mesmo se e i ica no úl imo omance publicado, O Colecionado de E a, um omance onde o p ocesso de
in es igação, que das biog a ias, que dos c imes, se es uma e des az como poei a, acompanhando o p óp io
p ocesso de des anecimen o do de e i e Jaime Ramos.
20
Es a di e ença se á do a an e ma cada a a és da u ilização de i álico.

18
aça uma biog a ia, um abalho aqui en endido como c a ou do domínio da écnica (c .
Bebiano, 2003: 114-125). No en an o, o de e i e em Viegas é um bióg a o singula , um bióg a o
que pe segue o que não se e ela numa biog a ia, in adindo a in imidade, iolando a p i acidade,
des endando seg edos escondidos, como “um in uso nas memó ias amilia es e nas biog a ias de
cidadãos exempla es que i em na Foz do Dou o e podem a uma o seu passado em a qui os
silenciosos, desconhecidos dos ou os, ga e as que deslizam sem uído, gua dando seg edos,
coisas que não se esc e em numa biog a ia” (Viegas, 2005: 394). Inúme os exemplos pode íamos
con oca de passagens dos omances que a lo am e e le em sob e es as ques ões, en e as quais
gos a íamos de des aca o oi a o capí ulo de Longe de Manaus, um capí ulo de um g ande li ismo
na a i o in ei amen e dedicado à libe dade dos cidadãos, exp essão que su ge, aliás, como um
e ão, di e sas ezes epe ida, e onde a igu a do de e i e su ge como a de um oyeu , num
mis o de epugnância e p aze .
Po ou o lado, se o bióg a o aça a his ó ia da ida de alguém que admi a ou que se
no abilizou e sob essaiu en e a massa anónima, posi i a ou nega i amen e, o de e i e de Viegas
aça biog a ias de anónimos sob e os quais nada sabe, a não se os cadá e es e as espe i as
au ópsias, de pessoas que não escolheu biog a a . Ele limi a-se, apenas, a cump i as suas
ob igações enquan o in es igado da Polícia Judiciá ia.
No e-se, mais uma ez, que se es as duas ca ac e ís icas nos pode iam le a a pensa num
a as amen o da biog a ia, ale a pena conside a , como salien ou Ad iana Bebiano, que se há um
denominado comum en e a biog a ia “pu a” e a biog a ia “ iccionada” ou “ omanceada” – o
ac o de ambas se cen a am em “his ó ias de he óis, de pe sonagens ‘bigge han li e’,
apa en emen e uma condição sine qua non pa a se se ma e ial de ‘ ida’ ou de ida omanceada”
(2003: 125) –, “[a]o longo da e olução do géne o po odo o século XX, es e é jus amen e um dos
aspec os que mudou” (ibidem), a a és da humanização do he ói, da exposição dos aspe os
ín imos, mais obscu os ou mesmo pa ológicos do biog a ado ( ia uma “ha e” ou “Judas
biog aphy”), de onde essal am o oyeu ismo a ibuído que ao bióg a o que ao seu lei o (c .
2003: 129-131), da con ocação de pe sonalidades que a é en ão inham ido um papel ma ginal
na ( e)esc i a da his ó ia (como é o caso das mulhe es, po exemplo), e da p óp ia impo ância
que o domínio p i ado ai adqui indo na his o iog a ia, e onde as ques ões do des endamen o de
seg edos e mis é ios, do di ei o à in o mação e da iolação da p i acidade ganham con o nos
cada ez mais isí eis e, ambém, cada ez mais p oblemá icos.
Po ou o lado ainda, ele e-se que Ad iano Bebiano indica p ecisamen e como
an epassados da biog a ia “pu a” e da biog a ia “ omanceada” “as hagiog a ias, do lado da
amília do ‘ omance’, e as biog a ias de c iminosos, do lado da amília do no el/ omance” (2003:
19
125),
21
não podendo nós deixa de assinala aqui uma es ei a ligação en e o omance policial em
ge al, e de F.J. Viegas em pa icula , e as biog a ias omanceadas, pa a as quais, como i emos
cons a a mais à en e nes e andamen o, as biog a ias dos omances des e esc i o eme em, mais
do que p op iamen e as biog a ias “pu as”. O des endamen o de um ou á ios mis é ios é ou a
ca ac e ís ica que ap oxima es es dois géne os, e, se conside a mos que “são a as as biog a ias
de pessoas ainda i as” (idem: 139), e que, como e e e Bebiano e omando as pala as de
O lando G ossegesse, “cada biog a ia é, em p incípio, um ac o nec ológico” (ibidem), mais um
ínculo podemos es abelece en e biog a ia ou biog a ia omanceada e o omance policial.
Toda ia, como acima e e imos, se o cadá e e espe i a au ópsia cons i uem o pon o de
pa ida a a és do qual o de e i e em Viegas inicia a sua biog a ia, a e dade é que as au ópsias
dizem mui o pouco e os cadá e es nada ou pouco dizem.
22
São apenas co pos azios ou
es aziados de cadá e es que eclamam o seu co po, a his ó ia da sua ida. Po isso, apesa de as
au ópsias cons i uí em, às ezes, obje o de longas desc ições e apesa dos cadá e es que
assomam po ezes, a biog a ia que se p ocu a esga a não é a dos co pos-cadá e es, mas de
ou os co pos, essusci ados, que se sol am de o og a ias an igas, de pala as ao acaso, de
imagens a p e o e b anco, po que da mo e, salien a Fe nando Ca oga em “O cul o dos mo os
como uma poé ica da ausência”, “só pode emos econhece a sua semió ica, os discu sos
ana ológicos se ão semp e uma ala de (e sob e) os i os” (2010: 78). A en emos na seguin e
passagem ex ual:
o alo de um co po abandonado no chão, depois de assassinado, e a ela i o. Vi a alguns. Não di ia
mui os, mas alguns. Co pos dis o mes e co pos anquilos onde se aloja a o seg edo da sua mo e ou se
e ela a o seg edo da sua mo e, e em ambos os casos o aspec o desses co pos não e a ag adá el. Pensa a
neles apenas como co pos, co pos abandonados depois de mo os, qualque coisa onde an es habi a am
os os, coisas ulga es, abandonadas de ac o. Pa a ele, esses co pos deixa am de e os os, não passa am
de um dado que pode ia egis a , desc e e , ac escen a -lhes uma his ó ia, uma biog a ia – mas uma
biog a ia que não inha nada a e com aqueles co pos, mas com ou os que se sol a am, quase
essusci ados, de o og a ias an igas, de pala as ao acaso, ecolhidas po so e do seu p óp io des ino de
inqui ido , de imagens a p e o e b anco, como é semp e a memó ia. (Viegas, 1991: 14-15)
Como podemos dep eende do monólogo in e io de Filipe Cas anhei a acima ansc i o, à
imagem do co po-cadá e sob epõe-se a imagem do co po- o og a ia, à imagem do co po-mo e
sob epõe-se a do co po- ida. Toda ia, se ão semp e imagens-obsessão de co pos de somb a e de
luz, de espec os que o de e i e pe segue e busca con ínua e obsessi amen e ao longo da sua ida
e da ida dos ou os, como uma assomb ação. Des a o ma, a pele do jogado de u ebol de Mo e
21
No e-se que as biog a ias de c iminosos, inicialmen e egis adas no “Tybu n Calenda ” e, pos e io men e, a pa i
de 1773, compiladas sob o nome de “The Newga e Calenda ”, são mesmo equacionadas como an ecesso as do
omance policial como suge em Ad iana Bebiano (c . 2003: 344-345) ou S ephen Knigh (c . 2004: 3-9).
22
Com exceção de Mo e no Es ádio em que a au ópsia i á e ela o que o amoso jogado de u ebol ha ia jan ado,
le ando o de e i e a suspei a que não inha jan ado sozinho, assim como es ígios de uma elação sexual ecen e,
aliás, al como a de João Al es Lopes em Um Céu Demasiado Azul.
20
no Es ádio que se ap eende não é a do cadá e , mas de uma o og a ia que eco da as é ias
passadas no Alga e (c . Viegas, 1991: 161), a imagem dos cabelos su p eenden emen e lisos de
Ri a Calado Gomes é a que ad ém de uma o og a ia e i ada de uma ca ei inha de cou o (c .
Viegas, 1992: 46), o os o de Ál a o Se e iano Fu ado que Jaime Ramos eco da é o os o
oubado aos a qui os, a um passapo e usado (c . Viegas, 2005: 291). De igual o ma, em Um
Céu Demasiado Azul, lemos es a não iden i icação en e o co po-mo e e o co po- ida a a és de
Jaime Ramos: na mo gue, pe an e o cadá e de João Al es Lopes, ele “não sabe ia dize , à
p imei a is a, se um e ou o e am o mesmo, mas suspei a a de que en e as duas iden idades
e ia de ha e uma dis ância maio que aquela que sepa a o mundo dos i os do mundo dos
mo os” (Viegas, 1995: 9). O de e i e em Viegas em consciência de que há um imenso abismo
en e a ida e a mo e, e, sob e udo, que “uma biog a ia não se es abelece en e o nascimen o e a
mo e de alguém, e que a mo e, mui as ezes, é o início da e dadei a his ó ia que em a
in e essa pa a essa biog a ia” (Viegas, 1991: 16). É esse espaço azio, esse in e alo de ida que
su ge como um ma in ini o, que de e po ele se p eenchido:
po que é o ma que apa ece pe manen emen e nos sonhos – o ma e o medo, um medo g andioso como a
ida oda que desapa ece em cada cadá e que alguém ca aloga. Há um ma in ini o que ompe pelas
es ei as da mo gue, um ma in ini o que en a pelas janelas da casa, um ma in ini o na oz da cidade, a
es a ho a, a odas as ho as. (Viegas, 1992: 62)
Se é ce o que a mo e, e especialmen e a mo e p o ocada e an ecipada pelo assassínio,
anspo a semp e consigo uma imagem ao mesmo empo su p eenden e e iolen a, em Viegas
pe manece á apenas a su p esa da mo e que em, de o ma imp e is a e ab up a, in e ompe a
ida. A mo e é sob e udo enca ada, nos seus omances, numa pe spe i a exis encial, a da elação
en e o homem e o empo e a consciência da sua mo alidade.
Po ou o lado, se em quase odos os omances o local do c ime oco e em espaços
ex e io es – An ónio Gomes Ja dim é assassinado numa cu a de es ada, a segui à p aia do
Pópulo, o amoso jogado do Fu ebol Clube do Po o é mo o a i o à saída de um ba na Foz, o
Bonapa e, Ri a Calado Gomes e Rui Ped o Ma im da Luz são ambos encon ados mo os ao
amanhece , ela nos Aço es, na Pon a do A nel, ele nas a eias da p aia de Finis e a, João Al es
Lopes é encon ado na bagagei a do seu p óp io ca o jun o ao io Dou o e Adelino José Fon ou a
numa p aia de Moledo (cu iosamen e semp e jun o ao io ou ao ma , acen uando, de o ma
simbólica, a ida/ empo que passa, a mo e, a melancolia, os mis é ios e seg edos que ambas,
ida e mo e, ence am e a sua imensidão e in ini ude) –, assinala-se semp e um mo imen o de
in e io ização, já que os indícios que in e essa ão pa a a his ó ia da mo e – e da ida – não
21
pa i ão das cenas do c ime, ou dos cadá e es e espe i as au ópsias, como imos, mas sim das
casas dos mo os.
23
O de e i e-bióg a o começa, assim, em p imei o luga , po “le uma casa”, assumindo-se,
des a o ma e igualmen e, como um de e i e-geóg a o que busca imagens dispe sas no espaço e
comp imidas no empo.
24
Es a é uma geog a ia in e io , pois a casa é o espaço ín imo que gua da
e p o ege as memó ias, os sonhos, os de aneios. A casa dep essa se ans o ma na “ opog a ia do
nosso se ín imo” e num “ins umen o de análise pa a a alma humana” (2000: 20), de aco do com
as pala as de Gas on Bachela d em A Poé ica do Espaço, e o de e i e num oyeu que acede à
in imidade dos mo os, como e e imos já, mas ambém num lâneu dessa mesma in imidade e
in e io idade.
25
De ac o, em inúme as passagens dos omances se az e e ência ao ac o de o
de e i e se en ega a di e sas e âncias ao longo da in es igação, pene ando em casas
abandonadas, como se de um i ual se a asse, quase como num san uá io. São casas
abandonadas, es os de es os de es os que gua dam ges os, imagens e pala as suspensas e que
espelham uma ida in ei a – “Que idas cabem (…) numa casa?” (Viegas, 2009: 159) – edu o do
se humano e da ida. Po isso, pensa Filipe Cas anhei a, as memó ias que habi am as casas
de iam se conse adas como num museu:
23
Se é e dade que em Longe de Manaus e O Ma em Casablanca as í imas são encon adas mo as em casa e,
po an o, num espaço in e io , se á p eciso não esquece mos que, no caso da p imei a, Ál a o Se e iano Fu ado, não
se a a da casa que e ela a in imidade, mas de uma casa de passagem ou de uma casa- e úgio, e que se á, aliás,
p ecisamen e a busca da casa e dadei a que mo i a á a iagem de Jaime Ramos a Manaus. Po ou o lado, em O
Ma em Casablanca, o jo nalis a Joaquim Seab a é encon ado jun o ao lago do Palace Vidago e Benigno Mendonça
numa casa de u ismo u al na Régua, mas a biog a ia que aí se p e ende aça não é a dos mo os inicialmen e
encon ados, mas a de uma pe sonagem-somb a, Adelino José Fon ou a, cuja exis ência não pode se p o ada e cuja
mo e só oco e á no im do omance po que se a a de um i o dado como mo o, de alguém que se ia mo o pela
e cei a ez.
24
No e-se que Wal e Benjamin, e e indo-se ao in e io da casa bu guesa, es abelece a já, bem cedo, uma elação
en e a casa e o policial, suge indo mesmo que es a ia po esc e e um abalho que desse con a da habi ação
bu guesa do século XIX po in e médio dos omances policiais ( e Benjamin, 2004: 12-13). E, ecuando um pouco
mais no empo, eco de-se igualmen e que Edga Allan Poe, conside ado po mui os o pai do omance policial, oi o
p imei o a elabo a uma iloso ia do mobiliá io no seu ensaio “Philosophy o Fu ni u e”, publicado em Maio de 1840
na Bu on's Gen leman's Magazine.
25
O e mo lâneu u ilizado em elação aos de e i es de Viegas é, de ac o, mui o mais da o dem da in e io idade
men al do que ísica, como a igu a o suge e em Poe ou Baudelai e: epa e-se que nes es a cidade ol e-se em espaço
in e io , ao mesmo empo que despole a o apagamen o e in isibilidade do indi íduo que se dilui na g ande
me ópole. Nes e âmbi o, é incon o ná el e e i aqui que Benjamin, no seu ensaio “O lâneu ”, associa igualmen e
es a igu a ao de e i e, não deixando de des aca a o ma como o poe a ancês, o mais impo an e adu o de
algumas his ó ias e ensaios de Poe, inco po a o policial na sua ob a, nomeadamen e em Les Fleu s du mal (c . 2006:
44-45), chegando mesmo a e e i que “Baudelai e não esc e eu his ó ias policiais po que a sua es u u a pulsional
não lhe pe mi ia a iden i icação com o de ec i e (…) Baudelai e leu bem de mais Sade pa a pode conco e com
Poe” (2006, 45). Num ou o ensaio an e io , “O eg esso do lâneu ”, a p opósi o de Passea em Be lim (Spazie en in
Be lin) de F anz Hessel, publicado em 1929, Benjamin, pa a além da associação en e de e i e e lâneu a pa i de
Poe, e e e igualmen e o Fa he B own de G. K. Ches e on (c . 2006: 201-202).
Po ou o lado, o lâneu é igualmen e cono ado com o o óg a o de ua po Vic o Fou nel em Ce qu'on oi dans les
ues de Pa is (c . 1867: 268), e não é po acaso que Benjamin inicia o seu ensaio “O lâneu ” com a e e ência ao
pano ama (mé odo an ecesso do cinema que consis ia na p ojeção de imagens), ideia que se á ecupe ada po Susan
Son ag em 1977, no seu es udo On Pho og aphy, e onde su gem associados lâneu , o óg a o e de e i e (c . 2008:
55-56). Es a associação, a que jun a emos a igu a do ealizado , se á de ex ema ele ância pa a es a p imei a pa e.
28
o ime’s elen less mel ” (2008: 15). E um es emecimen o in ade o sujei o que obse a elhas
o og a ias (c . K acaue , 1993: 431), como imagens de cadá e es. A es e p opósi o, elemb e-se,
aliás, que a p á ica de o og a a cadá e es ou pessoas no seu lei o de mo e e a mui o equen e
no século XIX, especialmen e nas décadas de 1860 e 1870, e um dos e o es da a i idade onde os
o óg a os in es iam mui o. Como salien a Ma ga ida Medei os, “a mo e es e e semp e mais ou
menos p esen e na his ó ia da o og a ia” (2010: 18), associada, no século XIX, essencialmen e à
expe iência o og á ica, e à o og a ia em si no século XX.
Es a consciência de mo alidade, mu abilidade e inexo abilidade do empo pa en eia-se
igualmen e, não apenas nos se es o og a ados, mas nas p óp ias o og a ias enquan o obje o (ou
sujei o) em si: a o og a ia, “como um o ganismo i o, nasce nos p óp ios g ãos de p a a que
ge minam, i e po um momen o, depois en elhece. A acada pela luz, pela humidade,
empalidece, gas a-se, desapa ece” (Ba hes, 2009: 104). Nos omances de Viegas, à medida que o
in en á io da ida ai ecuando cada ez mais no empo, as o og a ias mos am igualmen e o seu
en elhecimen o, como um condenado aco en ado ao seu cadá e . Encon amos, po di e sas
ezes, e e ências a o og a ias a p e o e b anco, a sépia e, quando a co es, a co es que não
passam de “[u]ma lemb ança desbo ada e ingida de azul Ag a” (Viegas, 2005: 341).
Assim, à imagem da his ó ia da in es igação no omance policial de de eção, a o og a ia
ep esen a, de igual o ma, uma p esença de uma ausência, luz sob e papel que é ambém somb a
ou spec um, como os an asmas que os de e i es Filipe Cas anhei a e Jaime Ramos pe seguem e
buscam con ínua e incessan emen e ao longo das suas idas e das idas dos ou os. Ela, a
o og a ia, é o eg esso do mo o (c . Ba hes, 2009: 17).
Philipe Dubois, no seu es udo O Ac o Fo og á ico, ala mesmo da o og a ia como
ana og a ia (1992: 169), es abelecendo uma elação en e o ob u ado e a guilho ina que co a
(découpe) um agmen o de empo e de espaço. Vale a pena aqui elemb a odo o jogo semân ico
que se es abelece en e o ob u ado e um e ól e , nos a os de ‘apon a ’, ‘p emi ’ ou ‘ca ega ’,
‘dispa a ’, en e ou os, onde o a o o og á ico é cono ado com o homicídio, ansmu ando-se o
o óg a o, enquan o caçado de imagens, em c iminoso, e o o og a ado em í ima, em cadá e .
31
Des a o ma, a o og a ia pode se acilmen e associada ao policial, enquan o disposi i o
mo í e o. A o og a ia é, nes e sen ido, p o ocação, p edação, iolação, mo e. Como assinalou
Susan Son ag,
31
O que nos con oca Peeping Tom (em ancês, Le Voyeu ), ealizado em 1960 po Michael Powell, sob e um
caçado de imagens de mulhe es pa alisadas pelo medo e pelo e o e onde a mo e se az na insc ição ílmica. No
ilme, um cineas a demen e ma a mulhe es ao mesmo empo que as ilma, com a ajuda de uma a ma dissimulada na
câma a de ilma . São mulhe es mo as po aquilo que as ixa na película, mas ambém mulhe es mo as que se eem
mo e , a a és de um espelho colocado sob e a câma a. Como salien a Philippe Dubois, são mulhe es mo as ês
ezes: pelo punhal, pela câma a e pelo espelho.

29
The came a/gun does no kill, so he ominous me apho seems o be all blu (…) S ill, he e is some hing
p eda o y in he ac o aking a pic u e. To pho og aph people is o iola e hem, by seeing hem as hey
ne e see hemsel es, by ha ing knowledge o hem hey can e e ha e; i u ns people in o objec s ha
can be symbolically possessed. Jus as he came a is a sublima ion o he gun, o pho og aph someone is a
sublima ed mu de – a so mu de , app op ia e o a sad, igh ened ime. (2008: 14-15)
Repa e-se que passamos ago a pa a o plano da o og a ia, não enquan o obje o, de lei u a
e/ou obse ação, como ínhamos is o a é aqui, mas enquan o sujei o ou ação, o que nos
encaminha á pa a o pon o seguin e.
Se a o og a ia nos een ia incessan emen e pa a a mo e, pa adoxalmen e ela ambém
espelha a ida, ala como memó ia, com um con eúdo e e encial que nos een ia pa a uma
pessoa que es e e lá num de e minado ‘aqui’ e ‘ago a’.
32
E, apesa de ela p óp ia en elhece com
o empo, ao o e ece -nos um ins an e pe pé uo, conse a nela e e namen e o as o do que oi uma
p esença e a sua obs inação em es a semp e lá, como uma assomb ação:
É disso que se a a em oda a o og a ia: co a na ca ne i a pa a pe pe ua o mo o. Com um golpe de
bis u i, decapi a o empo, e i a o ins an e e embalsamá-lo com as ligadu as da película anspa en e,
a umado e bem à is a, pa a o conse a e p ese a da sua p óp ia pe da. (…) E assim, de ce a o ma – é
isso o jogo pa adoxal – sal á-lo da desapa ição no mesmo ges o que o az desapa ece . (Dubois, 1992:
171)
Impo a salien a que, pa a Philippe Dubois, Pei ce, pa a quem, an es de se ícone, a
o og a ia é p imei amen e índice – e, po an o, a sua on ologia es á, em p imei o luga , não numa
elação de mimesis, mas de con iguidade –, coloca a ónica no ac o de a o og a ia se uma
emanação do eal, se um es ígio de exis ência, já que “ oma em conside ação não o p odu o
icónico acabado mas o p ocesso de p odução des e” (1992: 43), ou seja, o seu pon o de pa ida é a
na u eza écnica do p ocedimen o o og á ico e não a imagem o og á ica em si. Diz-nos Pei ce:
Pho og aphs, especially ins an aneous pho og aphs, a e e y ins uc i e, because we know ha hey a e in
ce ain espec s exac ly like he objec s hey ep esen . Bu his esemblance is due o he pho og aphs
ha ing been p oduced unde such ci cums ances ha hey we e physically o ced o co espond poin by
poin o na u e. In ha aspec , hen, hey belong o he second class o signs, hose by physical connec ion.
(2.281)
Indícios de e idência, p o as da exis ência, as o og a ias são assim igualmen e agmen os
de ida e, po an o, agmen os de na a i a, a uando como es ígios de uma his ó ia que se
demanda, como as o ou uma espécie de imp essão digi al, mesmo que essa mesma his ó ia,
como i emos e , não co esponda à his ó ia eal ou nem semp e assegu e a e dade (ou
e dades) da ida. A associação da o og a ia ao policial o na-se de no o incon o ná el – e
mui o em pa icula nos omances em es udo – des a ez pelo seu es a u o indiciá io. Como pu o
32
Roland Ba hes e e e-se po di e sas ezes ao noema da o og a ia, “Is o oi”, que ep esen a simul aneamen e o
eal e o passado.
30
es ígio, a o og a ia é es emunha, a es a on ologicamen e a exis ência do que dá a e e pode se
ambém p o a, cons i ui um elemen o nuclea num p ocesso de in es igação c iminal e a é
mesmo se decisi a no des endamen o do c ime. As o og a ias dão-nos, po an o, in o mação
(c . Son ag, 2008: 22).
33
Rele e-se que, sob e udo a pa i de As Duas Águas do Ma , as
o og a ias cons i uem obje o da in es igação e o de e i e assume-se como um colecionado de
o og a ias. Além disso, se a o og a ia se e como meio de iden i icação ci il, ela se e ambém
como meio de iden i icação c iminal, ins i uindo-se como um dos mecanismos de policiamen o
da sociedade. E não deixa de se cu ioso, como no ou Wal e Benjamin, que a o og a ia, o
omance policial e a cons i uição de a qui os de iden i icação policiais enham su gido
p ecisamen e na mesma al u a:
No começo do p ocesso de iden i icação, cujo pad ão, na época, e a o mé odo de Be illon, encon a-se a
classi icação da pessoa a a és da assina u a. A in enção da o og a ia ep esen ou um co e decisi o na
his ó ia des e p ocesso. Pa a a ciência c iminal, oi um passo ão impo an e como a in enção da imp ensa
pa a a li e a u a. A o og a ia pe mi e, pela p imei a ez, ixa os es ígios de uma pessoa de o ma
inequí oca e de ini i a. O omance policial nasce no momen o em que essa conquis a – a de maio es
epe cussões – acaba com o es a u o incógni o do se humano. Desde en ão, não se sabe a é onde pode ão
i os es o ços de o p ende às suas acções e pala as. (2006, 49-50)
34
Dos agmen os dispe sos nas casas das í imas, o de e i e ecolhe semp e duas ou ês
o og a ias que lhe pe mi i ão, a pa com ou os es emunhos e on es, aça a biog a ia daqueles
que mo e am, e, po ex ensão, des ela ambém alguns dos mis é ios da sua mo e: as duas
o og a ias escolhidas po Filipe Cas anhei a em Mo e no Es ádio, apesa de apenas uma se
desc i a; as dezoi o o og a ias po ele e eladas a pa i do olo da máquina encon ada num
qua o do Ho el Bahia Palace, em Pon a Delgada, e mais duas encon adas, uma no esc i ó io da
casa do Po o de Rui Ped o Ma im da Luz, ou a na sua casa em Finis e a, em As Duas Águas
33
Sublinhe-se, po exemplo, a impo ância nuclea que as o og a ias, a pa de ou os disposi i os, como câma as,
ídeos, scanne s ou ecu sos á ios do mundo i ual, assumem na ilogia Millennium do esc i o sueco S ieg
La sson, ao pe mi i em c ia um io in es iga i o (c . Sampaio, 2011b: 74-75).
34
O c iminologis a ancês Alphonse Be illon undou, em 1870, o p imei o labo a ó io de iden i icação c iminal
baseada nas medidas do co po humano, c iando a an opome ia judicial, conhecida como “sis ema Be illon”, que
se á u ilizada na Eu opa e nos Es ados Unidos a é à década de 70 do século passado. Pa a além da an opome ia,
ambém se de e a Be illon o desen ol imen o e aplicação da o og a ia de iden i icação c iminal e da “ o og a ia
mé ica”, que e a usada sob e udo pa a econs ui as dimensões e odos os obje os encon ados nas cenas do c ime.
(Sob e os mé odos desen ol idos po Be illon eja-se igualmen e o ensaio de Ca lo Ginzbu g, “Clues: Mo elli,
F eud, and She lock Holmes” (1988), especialmen e as pp. 105-106).
A p opósi o da o og a ia enquan o p o a ou indício, Benjamin e e e o o óg a o pa isiense Eugène A ge (1857-
1927), cujas o og a ias de uas dese as da capi al ancesa são amosas. Diz Benjamin em “A ob a de a e na época
da sua possibilidade de ep odução écnica”: “Com azão se disse que ele as o og a ou como o local do c ime, onde
ambém não se ê ninguém. (…) Com A ge , as ep oduções o og á icas começam a o na -se p o as no p ocesso
his ó ico. (…) Elas exigem já uma ecepção num sen ido p eciso. (…) Inquie am o espec ado , que sen e e de
p ocu a um de e minado caminho pa a as comp eende .” (2006: 218)
Rela i amen e às o og a ias de cadas o, eja-se ambém o a igo de Fe nando Gue ei o que a elas se e e e como
“Pho oma ons da mo e – que uma ez i ados («des lashados») com a sua luz b anca (di ec a, ex e io ),
imedia amen e nos designam o luga do culpado” (1992: 126), mais do que a ep esen ação icónica do se
o og a ado.
31
do Ma ; as ês o og a ias que Jaime Ramos ecolhe da casa de Manaus de Ál a o Se e iano
Fu ado, uma ep esen ando o p óp io Fu ado, ou a Ma a e ou a ainda Fu ado e Ri a Pe ei a
Gomes (e que nos een iam, simbolicamen e, pa a o iângulo es abelecido na elação Po ugal-
Angola-B asil, de que nos ocupa emos na segunda pa e des e abalho).
Con udo, ao nega a con inuidade, o lui do empo e do espaço, a o og a ia mos a-nos um
mundo ap eendido em pa ículas, a omizado e pa cial, dando-nos a e , não o eal, mas um eal,
po que agmen ado e po que sob um olha especí ico. Como no ou Wal e Benjamin (c . 2006:
210-211) e sublinhou Ped o Miguel F ade, a o og a ia, desde logo quando su ge no século XIX,
ao insis i nos de alhes, pequenas insigni icâncias, minúsculos nadas, i á da -nos a e a
ealidade de uma ou a o ma nunca an es is a, um es a o in isí el a olho nu, ins i uindo, des a
o ma, um no o olha sob e esse eal:
35
e uma o og a ia co espondia en ão ao encon o, mais do que ao eencon o, com uma o alidade
desconhecida (…) nesse sen ido, mais do que de um e o no do is o, ou um eg esso ao is o, a o og a ia
e a en ão expe imen ada como a ap esen ação, sob eca egada de de alhes, do que no isí el pe manece a
não- is o (F ade, 1992:103).
Se á p ecisamen e o seu ca ác e a omizan e, descon ínuo e agmen á io que lhe con e i á
uma dimensão mis e iosa (c . Son ag, 2008: 22-23), num mo imen o oscilan e en e a
anspa ência e a opacidade, en e o posi i o e o nega i o, en e aquilo que e ela e aquilo que
esconde. Ela é o que se mos a, nada pode á se -lhe ac escen ado, não compo a em si qualque
azio. A sua ca ac e ís ica p incipal é a e idência, a pe ceção, mas não o conhecimen o. Roland
Ba hes, no seu es udo de 1980 sob e a o og a ia p ecisamen e in i ulado A Câma a Cla a,
chama a a enção pa a o a i ício da linguagem con ido na exp essão “ e ela uma o o” já que
“aquilo que a acção química e ela é o «i e elá el», (…) aquilo que não pode ans o ma -se
mas apenas epe i -se sob a o ma de insis ência” (2009: 58). A o og a ia pode, assim, se
decompos a, ampliada, pe sc u ada a a és do olha insis en e, mas udo o que nos pode á
de ol e se á semp e o que já lá es á, ela é câma a cla a, e é p ecisamen e es a sua
inacessibilidade ao nosso olha que p o oca a sensação de anspo a uma ealidade escondida,
elada e, po an o, passí el de se e elada. A o og a ia é, simul aneamen e, e idência e
mis é io. Des a o ma, a ealidade ap eendida pela câma a esconde semp e mais do que e ela.
Enquan o hia o ou up u a, a o og a ia seduz-nos pelos mis é ios e enigmas que ence a,
ins igando-nos a des ela , camada a camada, os seus seg edos: “In a pho og aph a pe son's
his o y is bu ied as i unde a laye o snow” (1993: 426), diz-nos K acaue . T aços biog á icos (e
35
Daqui deco e o en edo do ilme Blow-Up (1966) de Michelangelo An onioni, onde um céleb e o óg a o, Thomas,
i á descob i (ou não) um homicídio a a és de sucessi as ampliações de o og a ias apa en emen e inocen es.
Reco de-se que es e é um ilme baseado num con o de Julio Co áza , “Las Babas del Diablo” (1959), e na ida do
amoso o óg a o da época da Swinging London, o b i ânico Da id Bailey.
32
ana og á icos), as o og a ias ep esen am, en ão, nos omances de Viegas, biog a emas ( e mo
emp es ado de Ba hes) que se cons i uem como pon o de pa ida pa a a cons ução de uma
biog a ia. Elas ep esen am, po an o, o mis é io a pa i do qual se pode ( e)cons ui uma ida,
a a és do qual se pode ( e)cons ui um c ime e, em úl ima ins ância, a a és do qual se pode
cons ui um omance. O p óp io Viegas, em en e is a ao Mil Folhas conduzida po Isabel
Cou inho, e e e-se ao ac o de começa os seus omances a pa i de o og a ias an igas que ai
encon ando “[e]m pos ais ilus ados, em o o-biog a ias, em li os ilus ados, em colecções de
o og a ias de pessoas amigas”, exempli icando com o capí ulo 64 de Longe de Manaus em que
uma pe sonagem mis é io, um e o nado que nunca deixou Á ica e ainda lá es á a olha pa a o
Ca umbela, ala da sua ida em Angola: “A ce a al u a do li o apa ece um e o nado a con a na
p imei a pessoa como é que e a a ida no Lobi o e em Benguela. Aquelas o os exis em. (…) É
uma o o publicada num li o sob e Angola. P ocu o esses ma e iais dispe sos. Ou ou lá, aos
sí ios, e o og a o”. E se o p óp io au o se e ela um apaixonado pela o og a ia, não deixa de se
cu iosa a e e ência a Filipe Cas anhei a no p imei o omance como um aman e da o og a ia a
p e o e b anco e ele p óp io po ado de uma Rolex an iga só pa a es e ipo de o og a ias (c .
Viegas, 1989: 86).
A cli agem en e o ‘aqui’ e o ‘lá’, o ‘ago a’ e o ‘en ão’ unciona, des a o ma, como uma
espécie de in e alo que se ab e ao pensamen o e à imaginação (se bem que e iden e, ale a pena
aqui elemb a a p óp ia aiz e imológica de imaginação, do la im imagina iōne, «imagem»
36
),
ligando-se a uma consciência mais iccional, mais p oje i a, mais cinema og á ica. Ao da -nos a
e uma ausência exis encial de um ‘aqui’ e ‘ago a’ que nunca es ão lá, inci a-nos a um
mo imen o con ínuo e e á ico que ai do ‘aqui’ do que obse a ao ‘lá’ do e e en e. São des-
locamen os, al e idades, ai éns, ansmu ações, iagens no empo e no espaço, e são sob e udo
azios, abismos e silêncios, que o de e i e en a p eenche . Filipe Cas anhei a, ao e i a do bolso
do sob e udo as duas o og a ias que ouxe a da casa do u ebolis a, pe gun a-se: “De que ilme
se iam e i adas essas o og a ias de papel Kodak, co es a i iciais?” (Viegas, 1991: 147); e, no
mesmo omance, con idencia a Alexand a Soa es, a esposa da í ima, que abalha po his ó ias
(c . Viegas, 1991: 164). O que o de e i e az se á en ão ac escen a às o og a ias uma dimensão
na a i a. E, assim, da cons a ação do eal pa imos pa a a icção, do olha pa a a c iação, do
silêncio pa a o som, da o og a ia pa a o cinema.
Na e dade, nos omances de Viegas, as desc ições das o og a ias e idenciam semp e um
mis o de desc ição e imaginação, ou ão-só de imaginação. Aquele que obse a e desc e e a
o og a ia, o de e i e, ao mesmo empo que dá sup emacia ao de alhe e acen ua a impo ância do
36
Aliás, é cu ioso que, ao consul a mos o e mo imago no dicioná io da Po o Edi o a, enhamos encon ado, en e as
á ias aceções p opos as, as ideias de “somb a de um mo o, isão, an asma”.
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olha , imp ime a sua isão na desc ição, al e ando o p óp io obje o, ou mesmo “c iando-o” – o
de e i e é, des a o ma, um con ado de his ó ias, só ele pode á assegu a a na ação, essa é a sua
unção. De aco do com Robe Cas el,
La lec u e d’une pho og aphie es donc oujou s la pe cep ion d’une in en ion conscien e, même si elle
n’es pas oujou s consciemmen soupçonnée. C’es pou quoi la pho og aphie es ou au e chose qu’un
décalque de la éali é. C’es exac emen le con ai e: la pho og aphie «dé éalise» cela même qu’elle ixe.
L’image es li é alemen le néga i de la p ésence. (1965: 294-295)
A en emos, en e as inúme as passagens que pode íamos aqui des aca , na desc ição de ês
o og a ias, a p imei a de Mo e no Es ádio, a segunda de As Duas Águas do Ma e a úl ima de
Longe de Manaus:
Escolheu apenas uma, a que mos a a os seios de Alexand a Soa es quase en ol os numa oalha de p aia,
o os o do homem so ia, dis aí am-se os seus olhos e ixa am-se na a eia no ins an e em que a máquina
o og á ica dispa ou. A madeixa cob ia-lhe a es a, Alexand a Soa es ia, iam-se os den es alinhados
como um io b anco en e os dois lábios demasiado co ec os, um b aço do homem aga a a-a pela
ba iga, apando-lhe o umbigo. (…). Um iso. Uma imagem de elicidade? Um momen o quase de adei o
nesse Ve ão de 1990, passado em pa e numa p aia do Alga e, jo nais espalhados em ol a, econhecia-se
a co da p imei a página de um jo nal despo i o, a capa de um li o a sai de um ces o onde, encos ada a
um dos lados, se ia uma ga a a de água. E ou o homem, que econhecia ambém como um ou o
u ebolis a, ma ido de Susana. Quem es a a a ás da máquina o og á ica? Quem ixou aquele momen o, o
so iso do ma ido de Alexand a Soa es, os seios de Alexand a Soa es? Tal ez a p óp ia Susana. Qual dos
dois es á mais ocado? Alexand a ou o ma ido? Não se no a. Como se naquele ins an e os dois ossem
pa e de um mesmo olha . Como se ia o olha de Susana, caso osse ela a u iliza a máquina o og á ica?
Te ia ela já do mido com ele? Alexand a sabe ia? Te ia suspei ado, po um olha ? Te iam os dois
do mido, a inal?, ou e -se-iam encon ado clandes inamen e num apa amen o nos a edo es da cidade, ou
num can o daquela mesma p aia? (Viegas, 1991: 147-148)
Ti ou en ão o paco e de o og a ias do bolso e começou po olhá-las uma a uma pela qua a ou quin a
ez nesse dia. (…)
Nada de especial, à p imei a is a. Das dezoi o o og a ias, oi o o am i adas em São Miguel e e am
ela i amen e banais. No e, e am o og a ias do in e io de uma casa. Uma, a es an e, e a a o og a ia de
um homem, um e a o escu ecido pela al a de luz que ha ia no cená io ci cundan e.
Um namo ado, pensou. Obse ou-o mais uma ez. Um homem de qua en a e cinco anos pa a a en e,
ainda que não chegasse aos cinquen a, al ez, oupa despo i a, iso de im-de-semana, ba ba po aze , o
olha di ec amen e ixado na câma a, a ás da qual, com oda a p obabilidade, se encon a a Ri a Calado
Gomes. Uma camisola de algodão azul comp ada ao acaso nos saldos, quando se ai pela ua o a, numa
loja de ci cuns ância, o b aço do homem pousado sob e o b aço do so á, um so á cas anho. Da sua mão
pendia um li o mais ou menos escondido pela penumb a, in e ompida pela luz que en a a, il ada, po
uma janela ao undo da sala. (Viegas, 1992: 55-56)
Do bolso da camisa, húmida do suo p o ocado pelas pimen as do Pa á, Jaime Ramos e i ou as duas
o og a ias que escolhe a de en e as que ouxe a da casa de Ál a o Se e iano Fu ado. (…) A ou a
o og a ia, inspec o Jaime Ramos, ah, como és mau a imagina , mos a uma mulhe de pé, de b aço
es endido. Ma a, 1973. Um ma luminoso ao undo, uma linha de coquei os, uma duna, um ca o
es acionado à bei a da es ada ao lado de uma Vespa azul-cla a. O es ido de Ma a é liso, quase b anco, a
o og a ia pe deu a co das p imei as o og a ias a co es, nas cos as lê-se Ag acolo , Ma a, 1973. Nenhum
luga , nenhuma cidade pa a econhece ao longe. O ca o é um Mo is Mini Coope -S cuja co e de oi
desapa ecendo a é ica cinzen a. Ma a em cabelo escu o comp ido, quase p e o, um cola , o es ido cai-
lhe sob e os joelhos, apon a pa a um pon o qualque o a da o og a ia, e que exis ia em 1973. Mas a
Vespa, ol ada pa a a linha de coquei os, em a ma ícula AAM-09-76, e qualque po uguês com mais de
qua en a anos e com ca a de condução sabe que essa ma ícula em de uma e a onde o ma é azul sua e
como a somb a de um Agos o eu opeu, onde a co das dunas se ap oxima po ezes do ala anjado, onde os

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coquei os são escu os e as uas la gas, poei en as, onde o ne oei o e a calo oso e ambulan e, descendo dos
ba ancos de e a e empu ado po si p óp io, dos planal os pa a as colinas das cidades, dos mo os pa a
os ales de algodão. (Viegas, 2005: 340-341)
No p imei o agmen o ep oduzido, salien e-se a e e ência à máquina o og á ica como
um disposi i o que dispa a e ixa um ins an e, uma ação de empo e de espaço, um es ígio e
indício, es o e as o de ida, e, igualmen e, como um disposi i o he menêu ico que az dispa a
uma sé ie de ques ões e que a á da na a i a uma na a i a abe a, ou, se quise mos, uma
na a i a conje u al. A o og a ia anspo a consigo o mis é io da sua p óp ia p odução, do olha
que ela e ela ou esconde, bi u cando-se em ou os enigmas e mis é ios que co espondem aos
mis é ios da ida, e o çados pela u ilização do ad é bio dubi a i o e pelas cons uções
condicionais que acen uam, ao mesmo empo, a ince eza e a conje u a.
Na segunda o og a ia, Filipe Cas anhei a obse a ( epa e-se na insis ência do olha que
obse a o conjun o das dezoi o o og a ias pela qua a ou quin a ez nesse dia) e desc e e a
imagem de um homem cuja iden idade desconhece na al u a, daí um e a o escu ecido pela al a
de luz, cuja desc ição minuciosa e de alhada se mis u a com in e ências á ias (um namo ado, a
idade ap oximada, um iso de im de semana), mas ambém com a imaginação pu a (Uma
camisola de algodão azul comp ada ao acaso nos saldos, quando se ai pela ua o a, numa loja
de ci cuns ância), e idenciando assim um discu so mais imagé ico e, ambém, de na u eza mais
dig essi a.
No e cei o agmen o, Ma a apon a pa a um pon o qualque o a da o og a ia que não
exis e ago a mas que exis ia em 1973. Apon a pa a um espaço o a-de-campo, o a da ela, do
ec ã, um espaço cuja exis ência é lu uan e, mas ao mesmo empo a es u u ação dessa mesma
lu uação, mos ando-nos, assim, que “o que uma o og a ia não mos a é ão impo an e como o
que ela dá a e ” (Dubois, 1992: 182).
37
No e-se que o espaço o og á ico enquan o co e, pa cela
ou agmen o implica cons i u i amen e um es o, um esíduo, um ou o, mos ando-nos uma
p esença i ual do es o e es abelecendo, campo e o a-de-campo, uma elação ine i á el en e
in e io e ex e io , incluído e excluído, p esen e e ausen e, isí el e in isí el. Nes e caso, oda ia,
mais do que a noção de o a-de-campo o og á ico, a o og a ia implica um o a-de-campo
cinema og á ico, já que o cinema baseia o seu o a-de-campo na con inuidade e na na a i idade,
con e indo-lhe uma dinâmica imaginá ia, insc e endo-o no mo imen o e inse indo-o na
37
No mesmo omance, no capí ulo 64 já aludido an e io men e, o mis e ioso e o nado desc e e uma o og a ia
incluindo p ecisamen e o seu o a-de-campo:
Repa e nes a o og a ia, inspec o . E a a minha amília. Quan as pessoas es ão ali? Imaginemos, doze aqui à en e,
são os meus p imos, os meus ios, os meus pais. E duzen os à ol a, no Lobi o. Quan os p e os se êem na o og a ia?
Eu ejo só qua o, con ei-os du an e mais de dez anos, inspec o . Es a mulhe , aqui, à somb a da á o e, es as duas
apa igas na água, ao lado das c ianças b ancas, e aquele ali, es á a e ?, aquele p e o a segu a no ba co de bo acha.
(Viegas, 2005: 376-377)
35
du ação.
38
Ma a apon a pa a a necessidade de econs i uição e de imaginação: de econs i uição
das co es que o am desbo ando com o empo, de imaginação de uma Angola que Jaime Ramos
desconhece, mas in ui pelo seu p óp io conhecimen o da Guiné. Salien e-se ainda que se a co e,
po an o, a isão é, de ac o, a sensação que p edomina nes a desc ição, há já uma énue
e e ência às es adas poei en as e ao ne oei o que implicam ambém uma sensação ác il; e o
p óp io mo imen o, que da poei a, que do ne oei o que desce, imp ime uma dimensão
na a i a, como se, len amen e e sem da con a, o nosso olha se desp endesse da o og a ia e
acompanhasse uma sé ie de imagens sucessi as p oje adas num ec ã imaginá io. Des a o ma, a
passagem da o og a ia ao cinema, da desc ição à na ação, não passa apenas po da mo imen o,
mas igualmen e pela imp essão de uma dimensão senso ial, ão impo an e em Viegas, e que a
o og a ia não pode cap a , mas apenas as his ó ias po ela dispa adas ou suge idas. Só a
imaginação das his ó ias como elas pode iam e sido ganha es a dimensão senso ial, esga ando
ao mesmo empo o seu luga nas na a i as do mundo e passando assim a se eais ( epa e-se
como aqui se c ia uma ensão en e a icção e o eal, pois se a dimensão senso ial apon a pa a o
eal, a sua a ibuição às o og a ias é do domínio do iccional), mesmo que esse eal seja
econs i uído ou mesmo imaginado.
Paula Simões, num pequeno a igo de 1999, “O Olha , os luga es e as pessoas (uma lei u a
imp essionis a da ob a de F ancisco José Viegas)”, ele a p ecisamen e essa mesma dimensão
senso ial e cinema og á ica da esc i a de Viegas:
A esc i a de F ancisco José Viegas é uma esc i a sen ida e de sen idos, mas, na sua essência, do olha (…)
A ideia de de inição não é, con udo, supé lua, na medida em que es a é uma esc i a de ni idez
cinema og á ica – o ex o demo a-se em de alhes, como uma câma a á ida de nos mos a udo, sem que
se abs aia da sua economia. Es a é, ambém, a ep esen ação de um mundo e das suas múl iplas
dimensões, com co es, o mas, chei os e sabo es. (1999: 163)
É pa icula men e no ó ia a imp egnação desse mundo senso ial numa das o og a ias de As
Duas Águas do Ma , onde se a ibui uma oz a um os o e a um co po, p ecisamen e a ando-se
da o og a ia que es abelece á a ligação en e Luísa Salles e Rui Ped o Ma im da Luz e que
pe mi i á des enda a mo e de Ri a Calado Gomes, ou seja, quando a his ó ia daquela ida e
daquela mo e já oi econs i uída, imaginada, e, po an o, na ada:
E es e os o, o os o da o og a ia, azia imagina uma oz, al ez a oz suspei ada po Jaime Ramos, ou
a é ou a que iludisse o mo imen o da mão em di ecção à objec i a, os óculos de sol sob e o cabelo,
segu os como é habi ual segu a em-se na cabeça, ou sob e a es a, a camisa azul demasiado cla a pa a não
se con undi com o céu que ha ia po de ás, demasiado céu. Foi nesse os o que Filipe Cas anhei a
econheceu uma oz obscu a e g a e, exac amen e um e ou a pe encendo a uma mesma pessoa, mas não
38
Na o og a ia, ao in és, o o a-de-campo dá-se numa pa agem, num co e empo al e espacial que queb a a
con inuidade e não em o alo dinâmico nem o de uma peça que se a icula ia com o conjun o e o odo. De aco do
com Dubois, “na o og a ia o o a-de-campo é li e al, no cinema é me a ó ico” (1992: 183).
36
a Ma a Rod íguez Cano. Ma a Rod íguez Cano acon ece ia depois na ida de Rui Ped o Ma im da Luz.
O os o e a oz, ambos, e o co po, e a pequena es a u a do co po da mulhe – neles econheceu Filipe
Cas anhei a a imagem mis e iosa de ou a mulhe , uma mulhe apa en emen e dis an e. Os úl imos dias de
Magnus Pym. (Viegas, 1992: 323)
Um exemplo con á io e que em co obo a es a ideia é o ac o de, po exemplo, Ál a o
Se e iano Fu ado se apon ado como uma pe sonagem de um ilme mudo p ecisamen e pela
di iculdade de Jaime Ramos em aça a sua biog a ia, numa demanda que já se a as a há mui o
(c . cap. 67).
39
A na a i a e a in es igação a ançam, assim, a pa i des as in e ogações, di agações,
hipó eses e conje u as que conduzi ão a um p ocesso análogo ao da mon agem cinema og á ica.
Da o og a ia pa a o cinema, do de e i e como ealizado .
40
Reco de-se que já em 1941, Al ed
Hi chcock, na in odução à an ologia de con os policiais The Pocke Book o G ea De ec i es,
ealça a es a analogia en e o de e i e e o ealizado :
The challenge o his [ he de ec i e’s] came a eye is in he eco ding o he ex ao dina y. The challenge o
his wi s is in he making o one mo ing pic u e o he disjoin ed nega i es.
I is essen ially a di ec o ´s p oblem. The componen pa s o he s o y a e he e; he job is o make a
pic u e o hem. (1941: i)
Os p ocedimen os na a i os em Viegas e idenciam bem a pe inência da analogia de
Hi chcock en e mon agem cinema og á ica e na a i a policial, e que su ge, nos omances em
es udo, especialmen e e o çada pela impo ância da imagem em ge al – e não apenas da
o og a ia, salien e-se – no p ocesso de in es igação/descobe a, que da his ó ia das pe sonagens,
que do c ime, e que mo i am deslocações di e sas, in e io es e ex e io es, no empo e no espaço.
Pode íamos mesmo dize que o de e i e em Viegas ime ge obsessi amen e numa espécie de mise
en image, de imagem em imagem, de o og ama em o og ama,
41
de mon agem em mon agem.
39
A í ulo de cu iosidade, no e-se que a adução checa de Longe de Manaus i á ado a o í ulo de Muz bez minulos i
(Homem sem passado), di ecionando o omance pa a Ál a o Se e iano Fu ado como pe sonagem enigmá ica e
mis e iosa e pa a o ângulo de des endamen o e e elação do omance policial. Segundo nos con idenciou a adu o a,
Lada Weisso a, es a oi uma decisão edi o ial que e e em con a a possí el al a de e e ências dos lei o es checos
ela i amen e à cidade de Manaus, assim como e i a qualque ap oximação com o omance Daleko o Mosk y
(Longe de Mosco o), de 1948, do esc i o so ié ico Vasily Azhaye .
40
A na a i a e o cinema, apesa de se em géne os a ís icos ou dois sis emas semió icos di e en es, es ão ambos
cen ados no en edo ou, se quise mos, na na a i idade, como e e e Umbe o Eco (c . 1981) e insis e Pe e Gim e e
(c . 2005: 11-50), e não é po acaso que And é Bazin, embo a num con ex o di e so, associe a igu a do ealizado à
do omancis a (c . 1967: 39-40). Há já inúme os es udos que se deb uçam sob e as elações (complexas) que es es
dois géne os es abelecem en e si, mos ando, ao longo da sua his ó ia, como um in luenciou o ou o (alguns a é
mesmo apoiados no chamado p é-cinema). O nosso p opósi o nes a disse ação não é, oda ia, mos a in luências ou
con aminações, nem p op iamen e o diálogo, inegá el, que os omances de Viegas es abelecem com o cinema, mas,
p incipalmen e, ele a a po encialidade desse diálogo, ou seja, mos a como o cinema – aliás, como a o og a ia,
sublinhe-se – pe mi e ilumina algumas ques ões cen ais dos seus omances ( eja-se, a es e p opósi o, a in odução
de Jacqueline Nacache ao olume Cinéma ismes. La li é a u e au p isme du cinéma).
41
En enda-se aqui o og ama no domínio do cinema, como cada uma das imagens imp essas na película e depois
p oje ada a um i mo 24 segundos, e não da o og a ia, como imagem que, do pon o de is a écnico, é ob ida pela
simples ação da luz sem in e médio do apa elho.
37
Releia-se a seguin e passagem de As Duas Águas do Ma , signi ica i a desse mise en image a que
o de e i e se en ega, imp imindo um i mo excessi amen e len o à in es igação que, a pa de um
mo imen o de in e io ização e in ospeção, acen ua e in ensi ica o pendo melancólico do
de e i e (c . Son ag, 1992, 11):
Dois passos mais, pensa nou a coisa. Pensa na casa de Rui Ped o Ma im da Luz, abandonada à
escu idão, às in asões ocasionais de gen e como u que nela p ocu a uma explicação pa a a ida que a
mo e acabou po explica de ou a manei a, mui o mais adical. Nenhuma memó ia senão os ascos na
casa-de-banho, a mancha de ca é num pano b anco na mesa de cozinha, os e sos ga a ujados em papéis
sol os, uma nu em de empos a empos, pa a descansa os olhos, noi e de lua cheia, noi e imensa de lua
cheia, a mesma paisagem escu a o can o e assis e à mo e da ciga a, a mesma paisagem, exac amen e, a
mesma paisagem. (…) Onde es á a ciga a? Que sob a do seu can o? Onde es a iam os cade nos em que
Rui Ped o Ma im da Luz esc e ia sob e as es elas, sob e a Cos a da Mo e, sob e si p óp io, pe sonagem
ugidio, i ecupe á el nos poucos sinais que dele sob am? Uma lua de cinza no céu, uma nu em que passa
de empos a empos como um an oche e guido po dedos insegu os numa ep esen ação de palco de
p o íncia. Lua de cinza. Uma nu em pa a descansa os olhos. Es anha sedução de uma imagem, es anho
peso que uma imagem le an a sob e nós e nos in en a e nos az in en a ou as, sucessi amen e, semp e
sucessi amen e, semp e ugazmen e. (Viegas, 1992: 227-228)
Mas o de e i e sabe que não pode demo a -se nes e es ado de de aneio, quase do domínio
do sonho ou do delí io, acabando po imp imi às imagens um mo imen o p oje i o e uma lei u a
sin agmá ica, em suma, abandonando os o og amas e ime gindo no ilme. Eis o p ocesso
explici ado po Filipe Cas anhei a já no p imei o omance, C ime em Pon a Delgada, em duas
passagens di e en es, a p imei a ela i amen e à ( e)cons ução das biog a ias, a segunda dos
c imes, e que oco e á em odos os ou os:
Filipe inha-lhe pedido um pequeno ela ó io, mas minucioso, de qualque modo, sob e Isabel. Coisas sem
impo ância: nome, mo ada, nascimen o, ninha ias que acabam po e impo ância se coladas, como ele
azia mui as ezes, às o ocópias de no ícias sob e o mesmo assun o, no ícias publicadas nos jo nais.
Reco a a-as com cuidado, com uma esou a g ande que gua da a numa ga e a, e manda a aze
o ocópias. Depois, jun a a á ias no ícias numa mesma olha, azia uma mon agem; no as o ocópias.
Um dossie pe ei o de onde mui as ezes podia conclui algumas coisas com in e esse pa a um caso que
andasse a a a . Fize a o mesmo com Ja dim: inha lido udo o que se publica a nos jo nais, sob e o
assun o. P ocede a dessa o ma, o denada e sé ia. Tinha, um dia, is o como azem os mon ado es e
paginado es de um jo nal. Cola-se is o aqui, aquilo ali, ão-se unindo as peças a é o ma um odo mais ou
menos belo, mas semp e coe en e. Fo a esse o seu ma e ial inicial de abalho, esse dossie que alinha a
numa pas a ama elo-caná io, que es a a po de ás dele, na es an e de madei a, naquele mó el elho,
an iquado, que se epe ia po odos os gabine es da co po ação. (Viegas, 1989: 168-169)
42
Ha ia coisas que, po á ios mo i os, ele gos a a de imagina , de con inua a imagina , de e e
du an e mui o empo consigo. Mais a de e am essas coisas que explica am mui as das suas descobe as.
Não sabia exac amen e como se p ocessa a udo isso, como explica esse p ocesso complicado de espalha
in o mações, de as conse a , de, inalmen e, as conduzi pa a aquilo que lhe in e essa a. Imagina a is o.
Depois aquilo. Um dia, aquilo que ele imagina a o na a-se e dade. Sen ia-o, pelo menos.
42
Não é po acaso que se az aqui uma analogia com os mon ado es e paginado es de jo nal, uma ez que a o ma
como o de e i e o ien a as suas in es igações é mui o semelhan e ambém ao jo nalismo in es iga i o, a é na p óp ia
len idão, mui o mais acei á el num jo nalis a que num inspe o da Polícia Judiciá ia que não pode de e -se
demo adamen e no mesmo caso. A es e p opósi o salien e-se igualmen e o capí ulo 38 de As Duas Águas do Ma
(pp. 299-305) onde Filipe Cas anhei a se encon a com um elho jo nalis a, e que unciona como uma espécie de
mise en abyme dos p óp ios omances de Viegas, ao e le i mui as das ques ões explo adas nes a disse ação.
44
p óp ia ealidade, se o p eciso” (idem: 344), deixando semp e suspensa a dis inção en e aquilo
que é eal e aquilo que é imaginado, que ela i amen e à his ó ia dos sí ios e dos libaneses no
B asil, que ela i amen e à his ó ia de Salim Fu ado, que ela i amen e à sua p óp ia his ó ia.
Tal como Jaime Ramos, ambém ele é um colecionado de his ó ias, Ramos de po ugueses,
Osma de b asilei os.
48
O aciocínio do de e i e, ao con á io do que mui os de e i es da adição do dedu i o
eo izam (mais do que p a icam), pa e, assim, do que Ch. S. Pei ce chamou de abdução (ou
e odução), p ecisamen e aquele que assen a na o mulação de hipó eses,
49
suposições e
conje u as e o único capaz de, a pa i dos ac os, c ia uma no a ideia:
Abduc ion is he p ocess o o ming an explana o y hypo hesis. I is he only logical ope a ion which
in oduces any new idea; o induc ion does no hing bu de e mine a alue, and deduc ion me ely e ol es
he necessa y consequences o a pu e hypo hesis.
Deduc ion p o es ha some hing mus be; Induc ion shows ha some hing ac ually is ope a i e;
Abduc ion me ely sugges s ha some hing may be. (Pei ce: 5.171)
Now, ha he ma e o no new u h can come om induc ion o om deduc ion, we ha e seen. I can
only come om abduc ion; and abduc ion is, a e all, no hing bu guessing. We a e he e o e bound o
hope ha , al hough he possible explana ions o ou ac s may be s ic ly innume able, ye ou mind will
be able, in some ini e numbe o guesses, o guess he sole ue explana ion o hem. Tha we a e bound o
assume, independen ly o any e idence ha i is ue. Anima ed by ha hope, we a e o p oceed o he
cons uc ion o a hypo hesis. (idem: 7.219)
Nas á ias eo ias que o am su gindo ao longo do século XX ela i amen e ao
conhecimen o e à in es igação, que seja cien í ica, c iminal, médica, e c., econhece-se já que a
in es igação unciona igualmen e como uma lógica de descobe a que se az ambém a pa i de
in uições. O ilóso o ame icano, no capí ulo p ecisamen e designado de “Ins inc and Abduc ion”,
apon a o papel do insigh na descobe a cien í ica pa a se chega a uma no a eo ia a pa i dos
ac os, combinado com aquilo a que pode emos chama de easonable, e que nos pe mi e
escolhe , en e milhões de hipó eses, a hipó ese co e a (c . Pei ce: 5.171-174). Em Viegas, não
encon amos a pala a insigh , mas ou as que com ela pa ilham o mesmo campo semân ico,
como p essen imen o, es emecimen o, inquie ação:
E al ez ele ap enda ou as coisas, alguns sen idos, poucos sen idos, o peso de um mis é io que seja como
o peso dos cobe o es numa cama acolhedo a, apenas isso, ou nem isso seque , nem a suspei a da mo e,
embo a seja esse o seu o ício, o de in en a hipó eses, pe co e caminhos desconexos, pis as i isó ias,
p essen imen os. (Viegas, 1991: 122)
48
Vol a emos a es a ques ão na segunda pa e des a disse ação.
49
O p óp io au o se e e e, em en e is a, à in enção de hipó eses como uma das ca ac e ís icas do omance policial
e de oda a li e a u a, e não a dedução que, segundo Viegas, “é uma emenda cha ice” (2003a: 49).

45
- Aga o-me ao que posso aga a -me, se me de coisas pa a me aga a . Há coisas que se sabem,
coisas que se sen em e coisas que se p essen em. Não acho que udo se explique po ope ações de
a i mé ica básica, de dois mais dois. Se osse assim, udo se ia simples. (idem: 163)
Rui Ped o Ma im da Luz sen a -se-ia a es a mesa a oma ca é pela manhã, sozinho, com Ma a ou a é
com Ramón, quem sabe, e Filipe es emeceu a essa ideia que o assal ou de epen e e que omou con a dele
à medida que a lan e na o guia a pelas pa edes (Viegas, 1992: 209)
Só qua o dias depois, quando Jaime Ramos eencon ou na sua sec e á ia as páginas manusc i as do
p ocesso ela i o à in es igação do homicídio de Rui Ped o Ma im da Luz, é que Filipe Cas anhei a se
decidiu a ap essa o eg esso aos Aço es, às suas ilhas, não sem que an es osse assal ado po uma
inquie ação na qual ganha a peso e o ma uma imagem de papel desbo ado e ama elecido, que e a já a sua
memó ia do cadá e de Ri a Calado Gomes, en egue à passagem dos dias e à decisão de um ela ó io que
a da a como aciden almen e alecida jun o à Pon a do A nel, em São Miguel. (idem: 250)
Às ezes, essas in uições são mesmo e eladas sob a o ma de sonhos, delí ios, de aneios, lashes
que oco em numa ação de segundo apenas, e que nos mos am que es amos bem longe dos
p ocessos eo izados nos ensaios p incipais sob e o géne o policial em inícios do século XX ou
da adição de esc i a da Golden Age:
E, num agmen o de empo que nunca consegui ia iden i ica , po que oi udo demasiado ápido,
demasiado u i o e passagei o, soube que os sonhos o pode iam ajuda , po que neles udo se escla ece, e
iu ambém um céu cheio de es elas jun o da água do ma onde o a encon ado o co po da mulhe , e iu
subi amen e, pedida po emp és imo a ou a imagem, a uma imagem qualque que gos a ia de aze
consigo du an e mui o empo, a mão di ei a de Ri a Calado Gomes, uma mão abandonada ao io, à mo e,
ao silêncio, como se eco dasse, minu o a minu o, as imagens daquela manhã em que o seu co po o a
encon ado, e udo isso izesse pa e de um ilme, um ilme comple amen e mudo, onde não se ou ia
seque o uído p o ocado pela máquina de p ojec a , não se ou ia nada, e e e pena en ão, mas po pouco
empo po que sabia que i ia ado mece de seguida e po que en endeu que os sonhos são absolu amen e
silenciosos, mudos, e i elmen e silenciosos, e sem co . (idem: 136)
Com ma izes ligei amen e di e en es, ambém Ca lo Ginzbu g, Umbe o Eco, Thomas
Sebeok e Jean Umike Sebeok, en e ou os, num conjun o de ensaios publicados sob o í ulo de
The Sign o Th ee: Dupin, Holmes, Pei ce (1983), a gumen am que o policial i e sob e udo, não
da dedução (do ge al pa a o pa icula ) ou da indução (do pa icula pa a o ge al), mas sim da
abdução, chegando mesmo a mos a que mui as das “deduções” de She lock Holmes (como ele
p óp io as chama) são, na e dade, abduções c ia i as. Umbe o Eco p opõe no seu ensaio,
“Ho ns, Hoo es, Ins eps…”,
50
ês ipos de abdução, a abdução hipe codi icada, a abdução
hipocodi icada e a abdução c ia i a: a p imei a co esponde a uma in e ência pa a a melho
explicação, ealizada de o ma au omá ica ou semiau omá ica; a segunda a uma in e ência
selecionada como sendo a mais plausí el ou e osímil en e á ias eg as a que Eco designa de
equip o á eis e que deco em do nosso conhecimen o do mundo; e a e cei a à c iação da eg a
que “ em de se in en ada ex no o” (1992: 270). Po ou o lado, a me a-abdução, um me a-ní el
de in e ência, i á se undamen al, especialmen e no que espei a às abduções c ia i as, mas
50
Uma ez que exis e uma adução po uguesa des e ensaio, incluída no olume Os Limi es da In e p e ação,
op ámos po ci a a pa i dela.
46
ambém hipocodi icadas, ambas “mecanismos c iado es de mundos” (idem: 279), já que é a a és
dela que pode emos e i ica se a hipó ese ou o mundo possí el que selecionámos co esponde ao
uni e so da nossa expe iência, ou seja, ao uni e so eal, o que nos pe mi i á alida a eg a e,
pos e io men e, le a à al e ação de pa adigma. De aco do com Eco, a me a-abdução é
undamen al não só na descobe a cien í ica, como ambém na in es igação c iminal, embo a na
p imei a ope em as abduções de ac o a lei e na segunda de ac o a ac o.
51
Diz Eco que a me a-
abdução “é a que cos uma elabo a o de ec i e: «O indi íduo possí el que delineei como
habi an e do mundo das minhas c enças é o mesmo indi íduo do mundo eal de que anda alguém
à p ocu a»” (idem: 279-280). Con udo, como deixa en ende , es e me a-ní el de in e ência nem
semp e oco e nos omances policiais e as hipó eses suge idas pelos de e i es, mui o mais do
domínio da in uição, pode iam se , em mui os casos, acilmen e desmon adas e e u adas (c .
1992: 290).
De ac o, como podemos comp eende , se nos omances policiais o pa adigma indiciá io é
undamen al, ele não é, no en an o, o único dos pa adigmas u ilizado, mesmo nos omances de
inais do século XIX e inícios do século XX, e, em Viegas, se os indícios e es ígios ainda
pa icipam, ou ão pa icipando episodicamen e, na descobe a do c ime, na maio pa e das ezes
não há uma explicação lógica pa a os mesmos. Tal ez po que os c imes, nos seus omances, são
passionais ou al ez po que os c imes não se explicam: êm de um luga sec e o que habi a a
escu idão de cada um de nós. Todos somos po enciais assassinos, de uma o ma ou de ou a.
Tal ez “o sabo es anho da mo e seja o sabo do sangue, salgado e inóspi o, adical, e í el,
espan oso como o oo das a es” (Viegas, 1991: 121-122).
Reco demos como são des elados os casos nos seus omances. No p imei o omance, C ime
em Pon a Delgada, a mo e de An ónio Gomes Ja dim é in uída sob a o ma de uma descobe a
e í el pa ilhada po Filipe Cas anhei a e Isabel, um ulcão abe o, um sismo que abala ia oda a
ilha, e e á de se adi inhada pelo lei o , uma ez que a iden idade do assassino não é di e amen e
e elada, icando an es suspensa. Em Mo e no Es ádio, a indicação de quem come eu o
homicídio do jogado de u ebol e depois do p óp io homicida é-nos dada po Filipe Cas anhei a
que aça, dos dois homicídios, um e a o em uga, al como o de odas as biog a ias ao longo de
odos os omances. No omance seguin e, As Duas Águas do Ma , se Jaime Ramos e Filipe
Cas anhei a ap esen a ão uma sé ie de indícios e e idências pe an e Luísa Salles – uma o og a ia,
os óculos g aduados, as passagens de a ião –, as ês pegadas que simbolizam o iângulo Rui
51
A di e ença en e ambas, diz-nos Eco,
es á na lexibilidade me a-abdu i a, ou seja, na co agem de desa ia sem e i icações pos e io es o alibilismo de base
que go e na o conhecimen o humano. É esse o mo i o po que na ida « eal» os de ec i es come em e os com maio
equência (ou de modo mais isí el) do que os cien is as. Os de ec i es são emune ados pela sociedade pela sua
impudícia no apos a me a-abdu i amen e, enquan o os cien is as são emune ados pela sua paciência em e i ica as
abduções que azem. (1992: 289)
47
Ped o Ma im da Luz-Rámon-Ma a Rod íguez Cano não se ão su icien es pa a p o a o c ime,
pois se á necessá ia uma con issão, a con issão de Ma a. Em Um Céu Demasiado Azul, a mo e
de João Al es Lopes é a ibuída quase de ce eza a Amélia Lobo Co eia, mas ela apaga os aços
da sua exis ência, encena a sua p óp ia mo e e desapa ece pa a a A gen ina ou pa a o México. O
mesmo acon ece com Hen ique P aia Po oca e o, em Longe de Manaus, cujo c ime é imaginado
ou in uído e cujo as o se pe de no inal da in es igação, e com Adelino José Fon ou a, em O Ma
em Casablanca, que, apesa de pode e sido o assassino, em odo o caso ele e a uma pe sonagem
que não exis ia (de es o, pe manece semp e a incógni a se oi ele ou a sua ilha, Ma iana Se a,
que en e an o se e ugia a em Casablanca, ou ambos).
Des a o ma, e pelo que a ás oi expos o, se o p ocesso abdu i o é u ilizado na c iação de
biog a ias possí eis, as hipó eses e conje u as c iadas pelo de e i e não são p o adas, não são
e i icadas po qualque ipo de me a-abdução, o que em co obo a no amen e a ideia de que o
de e i e em Viegas é um con ado de his ó ias. Ac esce ainda que, a pa i do momen o em que os
de e i es conseguem c ia um mundo possí el, os an asmas pe dem o seu es a u o espec al, já
êm a sua na a i a e, po an o, libe am o de e i e das suas somb as. Tal ez po isso mesmo, em
Longe de Manaus, o caso de Daniela e Helena não seja des endado, a é po que elas nunca
cons i uí am os an asmas de Jaime Ramos, e o de Shi lei ambém não i á se e elado, mos ando
que nem udo na ida é passí el de se explicado. O de e i e não em a cha e pa a odos os
mis é ios. A alibilidade az pa e, po an o, do se humano. É signi ica i o o diálogo que se
es abelece en e Jaime Ramos e Isal ino nes e omance e que ale a pena aqui ep oduzi :
«A mo e de Shi lei não em a e com a do Ál a o Se e iano Fu ado. Não há uma ligação. Se e pa a
e mos a que o que acon ece é só uma possibilidade. É um a e imen o dian e das leis da ísica.»
«Da ísica?»
«A acção de co pos. Numa in es igação, eúnes odos os dados que são ele an es. Jun as udo o que
acon ece. E en as p o a que há uma ligação en e esses ac os, o que acaba po se no mal. É o p oblema
das cagani as dos pombos: se há uma cagani a de um pombo, é po que um pombo passou po ali, apesa de
não e es nenhum no céu. Mas passou lá. Eu sou pela eliminação dos pombos, em ge al.» (Viegas, 2005:
434-435)
Assim, se há um c ime a des enda , esse mesmo c ime é uma pa e de uma his ó ia den o da
co en e de odas as his ó ias que cada omance nos dá a le , az pa e de uma biog a ia, da
his ó ia de uma ida, que é, ambém ela, mo e, po que “[l]as cosas de la ida y las de la mue e
son las mismas, solo que unas suceden a las sie e e las o as a las sie e y media” (Élme Mendoza,
esc i o mexicano ambém ele de omances policiais, em epíg a e a O Ma em Casablanca).
Numa ecensão c í ica a C ime em Pon a Delgada, publicada no JL em 1989 e in i ulada
“Alibis pa a uma e igem”, Luísa Mellid-F anco, designando o omance de “pseudopolicial”,
e e ia que, se o mé odo emp egue po Filipe Cas anhei a obedecia aos elhos cânones policiais,
48
a solução do c ime se diluía algu es, já que o omance se impõe “pela cumplicidade e pela
e nu a, não pelo desmasca a do assassino” (1989: 14), e concluía:
E icamos, no echa do li o, com uma es anha sensação de não e sido necessá io, nem encon a o
e dadei o assassino nem o e dadei o «policial»; que, no undo, udo oi inexis en e, inexplicá el, po que
o impo an e é que «um ulcão não sussu a apenas: ai a dendo, consumindo a e a a é lhe deixa um
chei o que sen i a (…)». (ibidem)
Também Luís Fo jaz T iguei os, em 1991, assinala que “[lhe] al a, pa a se ob a policial, (no
sen ido co en e da pala a) o clássico, e a almen e inespe ado ou al ez não, des echo e elado
(…) o omance – que pode ia se conside ado al ez com mais azão, uma no ela, deixa a solução
em suspense” (1991). De o ma simila , ela i amen e a As Duas Águas do Ma , Fe nando
Mendonça inicia a sua ecensão a i mando que es e, apesa de possui odos os elemen os de uma
his ó ia policial, não é, e e i amen e, um omance policial, classi icando-o como um omance de
in ospeção ou de in es igação in ospe i a: “à medida que a his ó ia caminha pa a o seu inal, ela
ai icando cada ez menos pa ecida com um omance policial e cada ez mais igual a uma
econs ução de almas, das suas paixões, das suas especulações” (1996: 305).
52
E Ca los Câma a
Leme, a p opósi o de O Ma em Casablanca, salien a igualmen e que
o núcleo du o (…) não passa an o pela esolução dos c imes que ão su gindo, mas pela a i ude nos álgica
e melancólica que Jaime Ramos (…) em pe an e o mundo: ele é apenas um «bióg a o incomp eendido» de
pe sonagens, das suas his ó ias e das in es igações, que se c uzam no(s) seu(s) caminho(s). (2009: 227)
53
Numa pe manen e ensão en e o eal e o iccional, os omances de Viegas iluminam e
obscu ecem, a i am e des anecem, eanimam e apagam os con o nos da ida e da mo e a a és
da imaginação, dos sonhos, de delí ios e de aneios, num jogo cons an e de somb as e de luz,
mos ando-nos que a ida não se explica jun ando episódios po o dem c onológica, e, sim,
deso denando o que nunca chegou a acon ece . E se a ida e a mo e que em nos li os é que é a
e dadei a, a ealidade imi a mui as ezes a icção: “[a] ida imi a mui o as no elas, Isal ino”
(Viegas, 2005: 441), diz Jaime Ramos, como “os úl imos dias de Magnus Pym” (Viegas, 1992:
323), “[c]omo [os] omances de Camilo Cas elo B anco, como [as] no elas an igas, como [os]
olhe ins passados nos con en os” (Viegas, 2005: 419), como “um ilme cheio de coisas que
52
Apesa de se no a nele implíci o um en endimen o do géne o policial como meno , ence ando a sua ecensão com
seguin e in e ogação: “É possí el e i ica ago a que não se a ou, (…) p op iamen e de um caso policial. Se ia
uma injus iça que o Au o não me ece. Como se pode ia diminui um ão belo e p o undo omance?” (1996: 306)
53
Repa e-se que a a i ude de menosp ezo ela i amen e ao omance policial já não se encon a em Ca los Câma a
Leme, como no c í ico an e io , que az a é ques ão de essal a que se a a de “um géne o que não pode se
subes imado ou a ado como li e a u a de segunda.” (2009: 227)
49
nunca exis i am” (Viegas, 2009: 222).
54
Des a o ma, não se a a de comp eende ou explici a a
ida ou a mo e, mas an es de as esga a , na ando-as, e é esse a o de pe pe ua as his ó ias que
pa ece da sen ido ao mundo. No undo, é a p óp ia li e a u a, e a esc i a, que dão sen ido ao
mundo, que o sal am do caos e das e as. Nes e sen ido são signi ica i as as pala as do p óp io
Viegas, não sem alguma (ou mui a) i onia, no discu so da ce imónia do p émio da APE po
Longe de Manaus: “Ag adeço o p émio, sim senho a, mas a esponsabilidade é a mesma. Não
ou passa a aze li e a u a. É is o que eu aço: his ó ias” (2006a). Tal como o p óp io de e i e,
ambém o au o se assume como um con ado de his ó ias, acen uando a ideia de que “[o] homem
é um animal abulado po na u eza” (Eco, 1991: 16), ou i e con a azem pa e da sua unção
biológica e de que “a na a i a começa com a p óp ia his ó ia da humanidade” (Ba hes, 1987:
95). Assim, os omances de Viegas con ocam as eo ias de Umbe o Eco, onde es e a lo a, a
p opósi o do seu omance O Nome da Rosa, o omance policial: ep esen ando uma his ó ia de
conje u a no seu es ado pu o, os espaços das conje u as do omance policial são espaços em
izoma, aqueles onde cada caminho pode comunica com os ou os, pois “não em cen o, nem
pe i e ia, nem saída, po que é po encialmen e in ini o” (1991: 47). E, ac escen a íamos nós, um
caminho que se pe co eu, ou á ios, que pode iam e sido semp e ou os, na ados de ou a
o ma, c iado ou as his ó ias: “[s]abia que as his ó ias em seu edo se acumula iam, se ossem
puxadas como um io de uma peça de enda, um io luminoso e incandescen e que bas a ia pa a
ilumina umas quan as idas, e al ez mesmo a sua. Pelo menos iluminá-las de imaginação, de
uma imaginação que não se impo a a que osse deli an e” (Viegas, 1992: 336). Po que eles são
ambém espaços de p ocu a da esc i a, habi ados pela po encialidade do p ocesso c ia i o. E
po que, não de emos esquece , “as melho es biog a ias são as incomple as” (Viegas, 1991: 161).
54
Sublinhe-se a insis ência nes a ensão en e ealidade e icção a p opósi o do ilme Casablanca nos diálogos en e
Jaime Ramos e Rosa.

50
Pa e II
Segundo andamen o: Ca og a ias iden i á ias
É isso que buscamos, um luga pa a i e , um luga pa a mo e
F. J. Viegas, Se me como esse o amo
Se é e dade, como mos ámos nas páginas an e io es, que o de e i e em Viegas é um
de e i e-bióg a o, elabo ando biog a ias incomple as e in en adas, ambém as p óp ias
pe sonagens po ele biog a adas, po sua ez, andam em demanda da sua p óp ia iden idade ou
de um no o umo pa a a ida. T a a-se de iden idades pe didas no empo e na memó ia e em
espaços que nos eme em insis en emen e pa a ou os espaços e ou os empos e ou as memó ias
e ou as his ó ias, e que o de e i e en a pe pe ua ao ( e)cons ui a ida, esga ando-as da
somb a e do esquecimen o. Os omances de Viegas es ão eple os de pe sonagens que não sabem
qual o seu luga no mundo, que buscam incessan emen e a sua iden idade e uma casa pa a
habi a . São pe sonagens que en am ecupe a um passado pe dido, p ocu ando um luga onde
possam esga a uma me ade de ida que não se i eu, mesmo que esse luga seja ago, di uso,
dispe so ou no im do mundo, “que pa ece se um luga in en ado pa a os po ugueses” (Viegas
2005: 316-317). A cons ução da iden idade a igu a-se, assim, nos omances de Viegas,
indissociá el da geog a ia: o exílio de Filipe Cas anhei a nos Aço es, de Rui Ped o Ma im da
Luz em Finis e a ou de Ál a o Se e iano Fu ado em Manaus, Jo ge Alonso, um po uguês de
T ás-os-Mon es que i e como i landês, Co sá io, um mes iço de nacionalidade po uguesa e
alma cabo- e diana, Salim Fu ado, um po uguês in en ado b asilei o.
A in es igação da ida e da mo e se á, des a o ma, a o ça mo iz que le a á à deslocação
do de e i e que se ol e igualmen e em de e i e-geóg a o, da geog a ia in e io das casas dos
mo os à geog a ia no sen ido p óp io de esc i a da e a. De ac o, não pode íamos ala dos
omances de Viegas sem equaciona a ques ão da iagem e do espaço, ou melho , das iagens e
dos espaços. O p óp io au o , em en e is a ao No ícias Magazine, em 2003, a p opósi o do
omance Lou enço Ma ques, dizia que quase odos os seus omances nasciam de uma iagem,
salien ando a impo ância que os espaços aí adqui em, e, em en e is a ao Mil Folhas,
51
con essa a: “Tenho a en ação de p imei o p ocu a a paisagem, o cená io, e só depois escolhe a
his ó ia. Foi semp e assim. E ai ol a a se assim de no o” (2005).
55
De al o ma as imagens o nadas paisagens são impo an es que pode íamos mesmo dize
que elas êm um es a u o semelhan e ao de pe sonagens: le os omances de Viegas é le ambém
a sua geog a ia, é le o Po o e o Minho, T ás-os-Mon es e os Aço es, a I landa e a Galiza, Cuba e
México, Angola, Guiné-Bissau e Cabo-Ve de, B asil e Ma ocos.
56
Ca los Câma a Leme in ui,
p ecisamen e, es a impo ância das paisagens ao e e i , na sua ecensão a O Ma em Casablanca,
que, “[m]ais do que um omance de pe sonagens, es amos pe an e um «ma » de ambien es, a
ma é ia-p ima de que é ei o o li o: Vidago, Po o, Dou o e Luanda. As paisagens, na e dade,
são a g ande pe sonagem de O Ma em Casablanca” (2010: 227). De igual o ma, Fe nanda
Bo elho, em ecensão c í ica a Um C ime Capi al, já ha ia ei o es a lei u a ela i amen e à
cidade do Po o: “é o Po o, aqui mais que um espaço geog á ico, ambém, e sob e udo,
pe sonagem p eponde an e” (2001). Os p óp ios í ulos dos omances nos apon am, odos eles,
pa a espaços ísicos, mais ou menos agos, mais ou menos e e enciais. Salien e-se igualmen e
que quase odos os omances ab em com a ideia da imagem que se ol e em paisagem: C ime em
Pon a Delgada com a imagem da ilha húmida e quen e de São Miguel, Mo e no Es ádio do
ae opo o de Pon a Delgada sob o céu da ilha, As Duas Águas do Ma com a de adei a paisagem,
a úl ima imagem que se e á do ma e da aldeia de Finis e a, Longe de Manaus com a do en o
enso e quen e e da poei a da ilha de Luanda, O Ma em Casablanca com Jaime Ramos
deb uçado sob e o azio, en e as águas do ma e as do io. Des a o ma, e conside ando que a
paisagem implica semp e um obse ado – de que deco e, no amen e, uma poé ica do olha – e,
po an o, um pon o de is a especí ico e a ap eensão do mundo em e mos indi iduais, insinua-se,
assim, a p esença de uma geog a ia sen imen al, um mapa de a e os.
E colocam-se-nos, de no o, mas po ou os p ismas, as ques ões da ep esen ação e da
iden idade. Michel On ay, em Teo ia da Viagem. Uma Poé ica da Geog a ia, de ende que dize
o mundo é uma a e a quase impossí el po que “o mundo esis e às en a i as de se aduzido em
pala as” (2009: 112). Assim, segundo o ilóso o ancês, só a a és de uma geog a ia co emá ica
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A en e-se igualmen e na ad e ência inicial de C ime em Pon a Delgada – “Fac os ou pessoas são icção, aqui
como em ou os luga es. Quan o aos luga es, e emos” – e elado a, ambém ela, da impo ância dos espaços nos
seus omances, ou nas pala as p o e idas aquando da ce imónia da en ega do p émio da APE po Longe de Manaus
– “E es ou g a o, e iden emen e, aos luga es que apa ecem no li o – o Po o, T ás-os-Mon es, o Dou o, a Guiné,
Cabo-Ve de, Angola e, na u almen e, o B asil. Se não exis issem esses luga es, não e ia podido esc e e .” (2006a)
56
Es as lei u as á ias, que não se ão aqui ensaiadas, pode iam cons i ui o pon o de pa ida pa a ou os abalhos de
in es igação a p opósi o da ob a omanesca, ou mesmo poé ica, de F. J. Viegas. Há já dois a igos, de Pila Vázquez
Cues a e de Elias To es Feijó, que se e e em à p esença da Galiza em As Duas Águas do Ma , conside ando,
oda ia, que o au o não az jus à Galiza, que nas desc ições, que nas pe sonagens c iadas, que pelo espanhol
u ilizado (c . Vázquez, 1995), que pelo desconhecimen o ace ao e i ó io espanhol, apoiado no passado em e mos
mí icos e imaginá ios e, po an o, acen uando a dis ância Po ugal-Galiza (c . To es Feijó, 1999). Ca los Qui oga,
po sua ez, e e e-se, a p opósi o do omance, a “um a de po ugalidade pe i é ica” (c . Qui oga, 2007).
52
o mundo pode se lido, deci ado e comp eendido a a és da isão, onde o iajan e ope a como
um de e i e, a a és de um p ocesso dedu i o que lhe pe mi e e ela os signos e co emas que
obse a, passando do eal sensí el ao in eligí el, e ap eendendo o mundo de o ma “global e
pa icula , uni e sal e singula ” (idem: 118).
57
Des a o ma, a educação e p oeminência do olha
na lei u a do mundo e descodi icação dos seus signos acen ua uma ligação es ei a en e a
iagem/deslocação e o policial.
58
Sublinhe-se ainda que as á ias deslocações a que os de e i es
em es udo se en egam não são apenas mo i adas pela necessidade de in es igação p op iamen e
di a, mas igualmen e po uma necessidade em ec ia os ambien es e os espaços que azem pa e
das biog a ias que eles en am aça e que se cons i uem essencialmen e como paisagens
in e io es, olhadas de den o a a és da p ojeção do eu no ou o, mani es ações da alucinação ou
delí io do bióg a o, nas pala as de Ad iano Bebiano (c . 2003: 159-164).
A es e p opósi o, gos a íamos de con oca aqui uma c ónica de Viegas, ele p óp io um
iajan e e c onis a de luga es e de iagens, publicada na e is a Vol a ao Mundo, p ecisamen e
in i ulada “O iajan e enquan o espião”, onde e oma as ideias de dis a ce, de iden idade e
al e idade, de mis é io e suspeição, de p oeminência do olha , de a qui o, de a en u a e de eção,
de libe dade e ans o mação, comuns a ambos:
Em ce a medida, o iajan e é um espião, um a en u ei o que iaja dis a çado e sem a pele que o cob e
du an e um ano de abalho ou mais. O e dadei o iajan e (p ocu amos semp e essa igu a, não é?) oca
de iden idade e espe a não se econhecido enquan o espe a po um a ião ou se pe de numa es ada. Tal
como nos li os de a en u as do nosso século passado – em que os he óis, na maio pa e das ezes, são
espiões –, o iajan e é semp e ou a pessoa, é semp e o ou o: do me nos ho éis e i ando olha -se nos
espelhos, ano a po meno es que nou as ci cuns âncias lhe pa ece iam inú eis e i ele an es; le a o seu
cade no pa a esc e e imp essões que e ia e gonha de edigi um mês an es; as suas o og a ias
p ocu am o mis é io de um luga – um luga pa a iaja , um luga inclinado sob e nós e sob e a elicidade
–, as somb as de um me cado ao inal da manhã (cheio de co es, de ozes), a passagem do empo, a a eia
de uma p aia, a poei a de uma es ada que não ol a á a pe co e .
Pe encendo a um mundo em que cada minu o em um p eço e uma medida exac a, o iajan e ecupe a
a poesia, a inu ilidade, os monumen os em uínas, os papéis que hão-de se a qui ados o a da memó ia, as
a andas dos ho éis, os ins an es ugidios de p aze e de sexo e de clandes inidade. Ele é e dadei amen e
um espião que ai e eg essa pa a aze um ela ó io ace ca de um mundo suspei ado, amá el, desejado.
Nunca mais se á o mesmo, ainda que se compo e da mesma manei a, ainda que não possa muda –
57
A geog a ia co emá ica, desen ol ida nos anos 1980 no âmbi o dos p oblemas colocados pela ca og a ia, su ge a
pa da necessidade de pensa o espaço e as o mas de o ep esen a , conside ando as suas mu ações. Seguindo os
p incípios de uma semiologia g á ica, p e ende-se ep esen a g a icamen e as es u u as ( o es ou con ingen es) dos
e i ó ios, a que
He é
Thé y dá o nome de g amá ica do e i ó io. Po ou o lado, ao o nece -nos a iden idade de
cada e i ó io, um modelo único, a geog a ia co emá ica ab e possibilidades de compa ação en e di e en es
e i ó ios e modelos (c . Thé y, 2004).
58
Diogo Alco o ado des aca a, num elogio ao policial enquan o lei o , “Po que gos o do policial… Po que gos o do
policial?”, p ecisamen e, a cons ução de ambien es: “Com Maig e habi o, ainda ago a…, um Pa is ão mí ico como
obsessi o; com Miss Ma ple descob i aldeias inglesas onde nunca es i e; com Ne o Wol e en e i No a Yo k pela
janela do luxuoso apa amen o (…), com Phillip Ma lowe ou Glen Bowman e -me-ei a en u ado em espaços
ame icanos que, in imamen e pe co idos, e assim is os, jamais espe o conhece ” (2001: 216). Se ia de e as
in e essan e, aliás, le a a cabo um abalho de in es igação sob e as elações en e o géne o policial e a li e a u a de
iagens. E, não deixa de se cu iosa, a es e p opósi o, a campanha de ma ke ing pensada pela Esca a elho de Ou o
que, em 1950, pensa a publica os p imei os 12 olumes da sua coleção de policiais com senhas e o e ece uma
iagem à cidade ou país onde deco ia a ação do omance a quem i esse a senha p emiada (c . Sampaio, 2007: 174).
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ealmen e – de pe sonalidade. Mas mudou. Lá po den o, onde as coisas impo an es acon ecem, ele
mudou mesmo. Ap endeu a se espião. (Viegas, 2008c)
E iden emen e que a igu a do espião é di e sa da do de e i e, mas ambos pa ilham
algumas ca ac e ís icas comuns, como o des endamen o de mis é ios que se ol e em e dadei a
a en u a, o clima de suspeição e de in en a iação de hipó eses, a lei u a e in e p e ação dos
ín imos de alhes, os egis os e a qui os men ais e ma e iais, as p o as, as deslocações.
59
Além
disso, é de conhecimen o ge al a admi ação de F. J. Viegas po John Le Ca é e de emos eco da
que duas das pe sonagens biog a adas nos seus omances inham sido espiões que pe ence am às
In o mações, como Rui Ped o Ma im da Luz de As Duas Águas do Ma , ou à Legião
Es angei a, como Adelino José Fon ou a de O Ma em Casablanca, “[e]spiões de pequeno
po e” (Viegas, 2009: 224), “[e]spionagem de pequeno país” (ibidem).
Po ou o lado, se aça mos um mapa dos seus omances, cedo nos ape cebemos que,
apesa de uma geog a ia sen imen al, ela ai-se o nando cada ez mais he e ogénea e cen í uga,
e, pa adoxalmen e, mais cen ípe a, po que se a a ambém de ca og a a a iden idade
po uguesa. Po que encon a uma no a (ou elha) geog a ia é ambém en en a o passado, um
passado gua dado na memó ia a p e o e b anco, en ol o no ne oei o, e po que, a inal, os
an asmas de cada um são ambém os an asmas do país, e as his ó ias das pessoas sem
impo ância nenhuma são ambém as his ó ias das nações. Tal como o de e i e assegu a o sen ido
da his ó ia da ida e da mo e, na ando-a, buscando as os e indícios dos seus an asmas, as
á ias pe sonagens com que se c uza (e os seus mo os) cons i ui ão, po sua ez, e igualmen e,
os es os e as os de um (ex-) impé io em uínas e os seus es emunhos assegu a ão ambém a
na ação de e sões e a iações da His ó ia, desde os an asmas da gue a colonial,
60
passando
pela época pós-Re olução e o seu e lexo na sociedade e na polí ica em Po ugal con inen al e
insula , a é a uma e lexão sob e o mundo hodie no e, essencialmen e, sob e a ida e iden idade
po uguesas den o e o a dos limi es do pequeno e ângulo.
59
Hen i Pageaux, num ensaio sob e o omance de espionagem onde dis ingue es e do omance policial em e mos
es u u ais, ambém ap oxima aquele géne o da li e a u a de iagens: “Le oman d’espionnage es bien une ce aine
li é a u e de oyage du XXème siècle (…) Il peu d’ailleu s ou ne au aux epo age. Qu’on songe aux « iches
echniques» p ésen ées dans le bu eau du Che pou enseigne l’agen su le pays où il a en mission; qu’on songe
aussi que l’agen es oujou s un aux ou is e” (1996: 159-160), diz-nos.
60
É mui o cu ioso que Robe o Vecchi, em Excepção A lân ica. Pensa a Li e a u a da Gue a Colonial, p oponha,
en e ou os, o pa adigma indiciá io de Ca lo Ginzbu g como um ou o modo pa a ele e epensa os ex os poé icos
ou iccionais de gue a, a a és da con igu ação do eixo es o/ as o-na ação e onde a na ação su ge como o único
meio possí el pelo qual o es o/ as o pode ão aze sen ido (c . 2010: 43-46). Po ou o lado, Jo Labanyi, epu ada
hispanis a, con ocando Os Espec os de Ma x de Jacques De ida e a lei u a que deles ez o c í ico ma xis a F ede ic
Jameson em “Ma x’s Pu loined Le e ”, ecupe a a ideia que aí se ap esen a de que o apa ecimen o dos an asmas é
um e en o não na a i o e, po an o, “os an asmas – al como o auma, com que se elacionam – ep esen am uma
alha da na a i a: a incapacidade de con a uma his ó ia” (2003: 64). Toda ia, ela i amen e aos an asmas
impe iais, con a a sua his ó ia é apaga a sua qualidade an asmá ica, e daí que, como conclui Jo Labanyi,
econhece os an asmas da his ó ia signi ica “encon a o mas de ep esen ação baseadas, não em na a i a, mas em
co po ização e ac uação” (ibidem: 68).
60
Ap ende a aí a ela i idade das coisas, po que, e i ado de um con inen e onde a uga e a iagem são mais
possí eis ou mais equen es, econhece a a impo ância da sujeição ao equilíb io, de uma expe iência de
anquilidade e de submissão àquilo que pode iam se os g andes ciclos do seu co po, da sua saúde, do seu
p óp io empo. (Viegas, 1992: 31-32)
Pa a Filipe Cas anhei a, as ilhas ep esen am, po an o, a ecupe ação de um idílio, de uma
ida simples ei a de o inas, de paisagem, de ma e de na u eza, de no ícias insigni ican es do
Aço iano O ien al, da humidade que desce, dos ciga os Além-Ma , da Tabaca ia Aço eana,
sen ado a uma mesa anquila, olheando jo nais e li os, esc e endo pos ais aos amigos, elendo
o Vi o ino Nemésio de Mau Tempo no Canal ou As Ilhas Desconhecidas de Raul B andão:
Duas semanas depois de e chegado, quase, começa a a se aço iano naquilo que a ilha lhe podia
o e ece . Saiu do edi ício e oi em caminhada calma, a olha as mon as das lojas, os a igos que já quase
não se endiam em Lisboa. A humidade do a , que e a i i an e a p incípio, já não o incomoda a mui o,
embo a quando chegasse a casa sen isse uma sonolência pouco habi ual, uma on ade ano mal de do mi ,
de se es ende ao comp ido na cama, enquan o punha um disco a oca . P epa a a en ão uma bebida, lia o
jo nal, olha a as palmei as do pá io em en e, jun o ao campo de u ebol de uma escola. Nesses ins de
a de, sen ia-se eliz. Depois do duche que oma a an es do jan a , sen indo que acaba a o dia de abalho,
coisa que nunca acon ecia em Lisboa, sen ia-se eliz, não ha ia mais nada a dize sob e is o. (Viegas,
1989: 48)
No malmen e, descia a pé a sua ua, po ol a das no e ho as, pa a a alguns minu os na Tabaca ia
Aço eana pa a comp a os jo nais e os ciga os – Aço iano O ien al, Co eio dos Aço es e Além-Ma . (…)
Rese a a o ca é pa a o inal da a de, sob e udo se e a Ve ão, e ugiado na sala in e io da Tabaca ia
Aço eana, sen ado a uma mesa anquila, olheando jo nais, li os, uma e is a, umando um ciga o, ida
pequena, ida simples, encon os ocasionais, esc e e ca as aos amigos, gas a o empo, ão pouco, an o
empo. (Viegas, 1992: 38)
Mas a a-se de um mundo mí ico ambém ele pe passado po uma is eza sua e e ín ima,
pela melancolia da né oa que cai sob e as ilhas, pelas nu ens que escu ecem o céu e ins alam um
o po ine i á el, pelo a pesado e húmido, pelas uas is es, pelos elhos sen ados às po as da
casa, umando o empo que esco e. Nos omances de Viegas, diz-se que as ilhas a o ecem as
dep essões, a solidão e o isolamen o, pa celas de e a “onde só se podia sonha a é ao limi e da
e a, sob o isco de enlouquece , se se imaginasse, algum dia, o luga onde o ma acaba, po que o
ma não acaba nunca” (Viegas, 1989: 191), onde as angús ias emoem o se de aga inho e os
an asmas são a somb a de cada um:
O senho em de onde? De onde cho e odo o ano. Pode ia esponde isso mesmo. De onde cho e odo o
ano. De onde a chu a cai sob e a e a e nós não nos ape cebemos. De onde cho e odo o ano mesmo que
aça sol, um sol g andioso e húmido, e í el, ab asado , luminoso, b anco ou il ado de e de e azul. (...)
Pode ia dize isso mesmo. Venho de onde cho e odo o ano, de onde os céus se c uzam com a e a e
p o ocam a chu a, uma chu a que não desapa ece nunca e que p o oca o mais in enso desejo de ou a
coisa. E onde udo p o oca, ao im de algum empo, um desejo ão agudo de is eza que se ap ende a não
se i e sem ela, sem a chu a, sem as nu ens que cob em as lagoas e os elhados elhos de Pon a Delgada.
Nessas al u as, (...) o desejo de melancolia é ão o e como o desejo de con inua ali, azão po que um
ilhéu não é senão ilhéu, nunca há-de se senão ilhéu, conse ando a é ao im o seg edo de um limi e que
não ai pode desc e e nunca senão como o sabo i equie o e pe u bado de uma imp essão ligei a. E o

61
en o que se aglome a nos decli es que descem pa a as lagoas, mesmo chegando a se io, ou em pleno
Ve ão, az consigo an asmas e medos, eceios de mo e , medo de mo e . (Viegas, 1991: 48-49)
Assim, se as ilhas ep esen am mi icamen e a p ocu a de um pa aíso o iginal, numa espécie
de iniciação adâmica, é ambém e dade que o mi o da ilha u ópica e longínqua como espaço
pa adisíaco e opos o às limi ações do con inen e é des ei o. Há, nas pe sonagens de C ime em
Pon a Delgada, uma a ação de ilhéu que é ambém uma a ação pelo abismo, simbolizada pela
elação en e Isabel da Câma a Ne es e An ónio Gomes Ja dim, pelo assassina o de Ja dim e pela
p óp ia elação en e Isabel e Filipe Cas anhei a, como um ulcão ou um sismo que a dem
silenciosamen e e, um dia, inespe adamen e, explodem:
a ilha a o ece os encon os, as e elações, as paixões – da mesma o ma que despe a nos con inen ais um
es o ço mís ico pa a comp eende a o igem das coisas e os mis é ios sob e o silêncio dos ou os. É um
luga es anho, uma ilha, um e i ó io onde as emoções se ac escen am sem di iculdade, onde o
isolamen o su ge como uma espécie de des ino desejado com iolência, olúpia e ambém isco. Deseja-se
o isco e a a en u a como uma condição necessá ia pa a ompe o isolamen o e o medo da mo e; e essa
pe manen e linha de luz que sepa a a e a do ma , a oda a ol a da ilha, pode po ezes ganha um
sen ido di ícil de abso e . (idem: 15)
Fenómenos o a do alcance e en endimen o dos homens, um sismo ou um ulcão não se
explicam, não se p e eem, simplesmen e acon ecem; eles são do domínio da con ingência, do
acaso. Toda ia, na sua dimensão cíclica e implacá el, são igualmen e espe ados. E são o ças
simul aneamen e des u i as e egene ado as, que pe mi em ambém ecomeça udo de no o.
Des a o ma, pa a Filipe Cas anhei a, as ilhas ep esen am, a um só empo, o exílio e uma o ma
de começa uma ou a ida, como uma úl ima en a i a de se sal a da ida e de si p óp io, no
meio do oceano A lân ico:
Pe co eu com os dedos, len amen e, o con o no do mapa que lhe in e essa a, ap oximou essa página da
luz do candeei o e so iu. Sozinho, sen ia que podia so i , da -se ao abalho de e ideias que nunca
ealiza ia. Mas um dia sonha a i -se embo a de Lisboa, e ago a es a a udo p epa ado pa a a sua pa ida.
(…) Ago a ia começa ou a ida. Uma no a ida? Tal ez, se hou esse empo. Mas não e a isso que ele
espe a a des a mudança de cidade, de e i ó io, de gen es, quase que de país. (Viegas, 1989: 29-30)
Nes e sen ido, é in e essan e e mos como nes e omance eme ge já uma espécie de
mac o ema da ob a omanesca de Viegas – a pa ida ou o sonho po uguês de pa i , mas
ambém uma noção simbólica de eg esso, não ainda no espaço, mas no empo. De ac o,
enquan o luga da u opia, de pa aíso almejado, as ilhas podem simboliza ambém um desejo de
e o no à in ância (c . Diegues, 1999: 173). Assim se comp eende que Pon a Delgada, ence ada
nas suas “qua o pa edes de água” (Viegas, 1989: 78), lemb e a Filipe Cas anhei a a B agança da
sua in ância, de onde ugi a pa a não mais eg essa . Pa adoxalmen e, es a associação não de i a
62
de um espaço u ópico, mas de um espaço in e io isolado e echado, que ap isiona ao mesmo
empo que libe a:
Filipe Cas anhei a ou ia udo aquilo como a desc ição de uma paisagem que conhecia bem. Uma
pequena ila do in e io , a ilha. Relações sociais demasiado cla as. Ricos e pob es, gen e que anda a a
igia os cos umes dos ou os, a c i ica is o e aquilo, a i e pa a isso. Lemb a a-lhe B agança, ambém
uma cidade do in e io em que semp e pensou que e a impossí el i e . Es a a ape ado, quando i ia lá,
semp e limi ado po udo. Os izinhos igia am as isi as de casa. Depois do 25 de Ab il, passou a se
comunis a, e en ão a igilância edob ou, aumen ou, o nou-se as ixian e. Um dia saiu de B agança pa a
semp e, num dia de chu a em que a elha es ação já mal supo a a o peso de um comboio à espe a de
pa i . Lemb a a-se de que se sen a a num banco de uma ca uagem quase azia e que se despediu da
cidade sem pena nenhuma. Semp e a acha a eia e demasiado elha pa a se e dade. (idem: 40)
Desen aizado, quando Enes lhe diz que ele é lisboe a, ele e u a dizendo que é do No e (c .
Viegas, 1989: 173) e, em Mo e no Es ádio, eco da um episódio em que uns es angei os lhe
pe gun a am, de o ma ocasional, num es au an e, de onde e a, e a o ma como ele hesi a a,
acabando po e e i os Aço es (c . Viegas, 1991: 149). O exílio de Filipe Cas anhei a a igu a-se,
assim, como um exílio simbólico, na medida em que se a a de um des e o su gido po on ade
p óp ia e alheio a quaisque conjun u as his ó icas, cujas dimensões mais ele an es são as da
pe da, da solidão e da melancolia. Ele es á in imamen e elacionado com o sen imen o de não
pe ença à cidade de Lisboa ou ao No e, onde nasce a, e com a busca desse mesmo sen imen o,
deco en e, não do encon o com uma pá ia, mas de uma casa a habi a :
Ele sen ia-se po uguês? Tal ez sim. Nunca se sen i a de nenhuma pá ia. Sen i a-se de uma casa, dos seus
li os a umados em es an es o denadas, do olume dos seus discos alinhados jun o ao hi- i, dos
co inados e des das janelas da sua casa, onde que que ela osse. Isso e a se de algum lado. Também ele
esquece a o No e, onde nasce a. Desen aizado? Tal ez sim. Não se econhecia em lado nenhum. (Viegas,
1989: 94)
Con udo, a p ocu a de uma casa a habi a – e elemb emo-nos que uma casa é um analogon
ou p ojeção de nós p óp ios – é sob e udo a p ocu a de um sen ido pa a a ida. As suas e lexões
su gem semp e sob o pon o de is a de uma pe spe i a exis encial ou on ológica – do enigma do
se humano, ele p óp io uma ilha (ques ão a que ol a emos na e cei a pa e) –, acusando uma
me ade de ida que nos pe ence e uma ou a ida que não pode emos nunca i e , po que é
apenas do domínio do sonho, da imaginação, da in enção. A saudade é-lhe, po isso, um es ado
de espí i o p edominan e, sob e udo do que nunca oi e, sabe-se, nunca se á. São inúme as as
passagens onde Filipe Cas anhei a sonha e imagina uma ida di e en e. Veja-se, a í ulo de
exemplo, o seguin e agmen o de Mo e No Es ádio:
76
76
Pa a ou as passagens, eleia-se a p. 74 de C ime em Pon a Delgada ou as pp. 143 ou 158-159 de Mo e no
Es ádio. Sob e a saudade, eja-se o conjun o de ensaios de Edua do Lou enço publicados em Po ugal como Des ino
seguido de Mi ologia da Saudade e incluídos na segunda pa e, “Mi ologia da Saudade”, onde o pensado po uguês
se deb uça, en e ou os, sob e a nos algia, a melancolia e a saudade.
63
Vi e na p o íncia, numa ila com um co e o pin ado de e de onde as a es se ab igassem nas a des
de In e no ou de Ou ono, e uma banda ocasse em noi es de e bena, ma chas simples, an igas ou ecen es
(...) De ia exis i um sí io assim, uma lei que pe mi isse a exis ência de sí ios assim, não um pa aíso, nem
uma ci cuns ância a ec i a, nem uma uga ins an ânea, um ab igo, po que os ab igos são semp e
empo á ios. Um luga insigni ican e egis ado num mapa de es adas que o sepa asse de oda a memó ia,
dos desenlaces o çosamen e iolen os ou con o e sos daquilo que assus a na noi e e nos o na pesados.
(...)
Vi e na p o íncia e Isabel aze compo as (...) Isabel esquece ia as suas do es, pequenas e g andes
e idas. (...) Comp a ia os ins umen os pa a pesca no io, mesmo sem ha e peixes. Ganha ia hábi os,
cul i a ia ho á ios, i mos, adi inha ia o empo da geada. Um luga assim, pe e so e inocen e, obscu o e
doce, le e (...) ida simples, sem nome, sem i ine á ios, i ia aos mi adou os mais p óximos, es uda ia
o og a ia, al ez iesse a e ilhos a quem ensina ia pouco e gos a ia que eles b incassem na e a de um
ja dim ou na bei a de um io, e que e ia que eles ossem elizes. E gos a ia, a inal, que Isabel iesse com
ele, não po que osse absolu amen e necessá io, e iden emen e, mas po que se de e elege uma
companhia, um co po, um chei o, uma manei a ce a de come connosco à mesa, de a uma a oupa nas
ga e as e os li os nas es an es. (Viegas, 1991: 119-121)
Comp eendemos, assim, po que e e e que não se sen e de nenhuma pá ia nem se
econhece em luga nenhum, pois ele es á mui as ezes o a do luga , numa posição de e e na
al e idade en e aquém e além, e num es ado de pu a de i a en e o que pode ia e sido e não
oi.
77
O que lhe es a é, po an o, uma incapacidade de insc ição, semp e e con inuamen e
acompanhada da en a i a de a comba e . Tal ez, po isso mesmo, a de adei a imagem de Filipe
Cas anhei a que nos é dada em As Duas Águas do Ma é a da chegada a casa, da sal ação, e com
ela conco a igualmen e a imagem da mo e:
Filipe le ou o au omó el pela es ada que acompanha o li o al da ilha a a essando com len idão os
ec ângulos e des que azem on ei a com as alésias e as baías de Vila F anca do Campo. (…) A ilha
con inua ia a p ende -se à pele, à memó ia do que hou esse pa a eco da de cada c epúsculo, e os ca os
con inua iam a passa na es ada que pe u a cu a a ás de cu a, ondando o li o al, isi ando o os o do
ma .
O céu pode se um ins umen o de sal ação, se o olhamos daqui, pa a onde descem das nu ens os
ilamen os de luz que sob am de um dia azul, limpo, anquilo. Mas o man o de calo man ém-se desde há
semanas inin e up amen e, en ol e a ilha, man ém-se sob e ela, ans igu a-a como um co po que se
imobiliza no meio do ma , das águas do ma . De qualque modo, a úl ima imagem, a de adei a imagem a
que se eco e quando se chega à ilha no oo das oi o da noi e, é a da mo e. (Viegas, 1992: 341-342)
A imagem da mo e é-nos igualmen e o necida pelo assassínio de An ónio Gomes Ja dim,
de ol endo-nos uma dimensão mais eal e ambém mais c ua da ealidade. Face ao homicídio, a
imagem mí ica dos Aço es é, en ão, des ei a no con on o com uma sociedade echada e isolada,
onde os elhos alo es c iam eg as de con i ência e onde p e alece o pode e e no das amílias
adicionais desde empos imemo iais. O p óp io Filipe Cas anhei a é en e is o como um in uso
nas ilhas, um con inen al que não pa ilha da iden idade aço iana; daí o silêncio que se c ia à sua
ol a du an e a in es igação do homicídio de An ónio Gomes Ja dim. Como o elemb a Ped o
No onha: “Não se esqueça de que lhe ão ocul a semp e me ade das coisas. Ou mais. Você é um
con inen al, em de Lisboa, é de ou o país, de ou a e a” (Viegas, 1989: 74).
77
Rele e-se que Isabel Alleg o de Magalhães salien a es a ma ca como uma cons an e ao longo dos séculos na
li e a u a po uguesa, inclusi e na icção pós 25 de Ab il (c . 1995: 192-195/2002: 173).
64
Não obs an e, é a pa i do con on o en e o eu e o ou o, en e Filipe Cas anhei a e os
aço ianos, que no as imagens dos Aço es su gem, mul iplicando-se, e que cons i ui ão
ep esen ações imagé icas das no e ilhas. De ac o, se as ilhas ep esen am uma insc ição no
espaço pa a as á ias pe sonagens do omance – An ónio Gomes Ja dim, Isabel da Câma a
Ne es, a p óp ia Ca a ina Ja dim –, esse mesmo espaço é enca ado como à ma gem do e i ó io
po uguês con inen al, acusando uma não-iden i icação, em e mos iden i á ios, com ele. Em
á ias passagens e a á ias ozes ou imos es a não-iden i icação en e aço ianos e po ugueses,
como se es i éssemos pe an e dois po os, dois países, duas nações, apenas ligados po um
passado e uma língua comuns:
Sabe, há nos aço ianos uma coisa que nós, po ugueses, não emos: é o amo , c eio que o amo e dadei o
à sua e a. Amo de e dade, sem ingimen os. Pa a mui os, os Aço es são uma segunda mulhe . (...)
Você julga que quando o Mo a Ama al oi à ele isão ala do sismo de Ang a ingiu, quando cho ou. Eu
sei que cho ou de e dade. Já o i am cho a nou as al u as po mo i os idên icos. Hoje a é eu p óp ia
cho a ia. (idem: 61-62)
Hoje, os aço ianos são mui o po ugueses, mui o mais po ugueses que há alguns anos a ás. Não sei se já
epa ou, mas é di ícil pensa -se que se es á em Po ugal, aqui. (idem: 85)
es a em Pon a Delgada é apenas es a numa cidade onde se ala po uguês e se lêem jo nais po ugueses.
(idem: 94).
Repa e-se no p óp io epúdio, não só dos aço ianos, mas de Filipe Cas anhei a, pela Te cei a, po
Ang a, uma cidade desca ac e izada p ecisamen e pela sua semelhança a Lisboa: “Conhece
Ang a? Bela cidade, inspec o . Tem quase udo: pu as, ba es, es au an es, ca os. Pa ece Lisboa
em minia u a. A gen e ai a Ang a e esquece-se de que es á nas ilhas” (idem: 70); “Nunca
consegui ia explica , nem ago a nem anos mais a de o pode ia aze , a azão des a an ipa ia pela
Te cei a. Mas inha-a: uma espécie de ecusa de um luga pouco singula , uma cópia de Lisboa.
Mesmo no açado de algumas uas” (idem: 138).
Em C ime em Pon a Delgada, a iden idade aço iana su ge, des a o ma, como uma
iden idade a lân ica, mais ampla, po an o, e não como uma iden idade po uguesa, embo a
ligadas uma e ou a. Se á a pa i des e desencon o iden i á io que a pesquisa e in es igação do
inspe o Filipe Cas anhei a conduzi ão o lei o ao ano de 1975 e ao im de uma e a de mais de
cinco séculos de colonização, e o mo i o pelo qual a biog a ia de An ónio Gomes Ja dim que o
de e i e-his o iado i á aça se á essencialmen e uma biog a ia polí ica, anco ada em ac os
his ó icos. Recua emos, po an o, a uma época onde mul idões agi adas g i a am pala as de
o dem a a o da au onomia e independência dos Aço es, em mani es ações da FLA, onde os
comunis as e am pe seguidos, onde as bandei as azuis e b ancas ondea am ao sabo do en o em
desa io ao Go e no Colonialis a da República de Po ugal, quando os Aço es e am is os como
65
uma colónia po uguesa, uma colónia que se que ia p ese a após odas as ou as e em sido
de ini i amen e pe didas. A en e-se, a es e p opósi o, nas pala as de Ca a ina Ja dim, ambém
ela uma con inen al, a Filipe Cas anhei a:
Tal ez não en enda ainda o que é isso, mas é di ícil a um ilhéu, aço iano, sen i -se po uguês de pleno
di ei o. Po isso é que eu lhe disse que comp eendia coisas como o independen ismo, a independência, a
FLA. (...) No con inen e, as pessoas e ol am-se mui o quando alam em au onomia. Os con inen ais, eu
sou con inen al ambém, semp e gos a am mui o de e colónias. Depois de e mos pe dido udo aquilo em
Á ica, os Aço es e a Madei a passa am a subs i ui essa isão do impé io. (idem: 83-84)
O desejo e a lu a pela au onomia ou pela independência são enca ados, assim, nas pala as
de An onino Pon e e de An ónio Gomes Ja dim no seu li o A Au onomia Insula : isolamen o e
u u o, publicado em 1977 e que começa a simbolicamen e com uma ci ação de Gaspa F u uoso
de Saudades da Te a, “a imagem de uma colonização” (idem, 154),
78
como consequência do
isolamen o e do esquecimen o a que a ilhas inham sido ol adas, que pela sua p óp ia posição
geog á ica (mais pe o da Amé ica do que Po ugal), que pela sua p óp ia condição de ilhas, que
pelas polí icas ado adas pelo Go e no. Salien emos duas passagens:
- Das no e ilhas, só o Faial nunca oi e dadei amen e independen is a. Chegam odos os dias pessoas
de á ios pon os do mundo, nunca sen i am necessidade de pensa sob e a independência. O isolamen o é
que p o oca esse desejo de independência. (idem: 127)
O isolamen o insula , i ido com do e mágoa nos Aço es, du an e anos, não é senão o esul ado de uma
e ada polí ica da go e nação con inen al que, du an e anos seguidos, du an e o an e io egime, apos ando
cla amen e no es a u o colonial das an igas possessões ul ama inas a icanas, igno a a o papel
p eponde an e do a quipélago aço iano no con ex o do seu e i ó io, sal o quando, e iden emen e, inha a
e ei o a ex ema impo ância das bases aé eas ame icana e ancesa, na Te cei a e em San a Ma ia.
Assim, não é es anho que, mesmo a í ulo jocoso, os Aço es sejam conside ados colónias po uguesas,
is o é, e i ó io po uguês igno ado, ao ní el daquilo que ce o colonialismo incipien e e suicida p a ica a
em elação a de e minadas possessões a icanas. (idem: 154-155)
E se é e dade que o c ime não e á nada a e com os mo imen os independen is as, com a
FLA, ou ou os, mas sim pe pe ado po mo i os passionais que, apenas em úl ima ins ância, se
pode ão elaciona com uma sociedade ipicamen e insula e isolada,
79
se é e dade que es es
empos con u bados passa am, é necessá io salien a que a his ó ia dos Aço es é ambém a
his ó ia des es empos eneb osos de pe seguições polí icas, u opias, desejo de au onomia e
independência, e mesmo que (apa en emen e) não exis iam já, não o am, não pode iam se ,
78
Gaspa F u uoso (Pon a Delgada, c. 1522 – Ribei a G ande, c. 1591) oi um his o iado , humanis a e sace do e
aço iano que se des acou pela sua ob a Saudades da Te a, cons i uída po 6 olumes e onde o c onis a az uma
de alhada desc ição his ó ica e geog á ica dos a quipélagos dos Aço es, Madei a e Caná ias, pa a além de múl iplas
e e ências ao de Cabo Ve de e a ou as egiões a lân icas.
79
No e-se que es e isolamen o insula pode se equacionado, não apenas no âmbi o do a quipélago no seu conjun o,
mas igualmen e no âmbi o de cada uma das ilhas que cons i uem esse mesmo a quipélago.

66
o almen e esquecidos, pe manecendo ainda sob a o ma de es os e as os, como um au ocolan e
azul e b anco de um ele one, lemb ando “au onomia, semp e!” (idem: 152).
Pa es de Á ica
Á ica, mais p ecisamen e Angola e Guiné-Bissau, su ge sob e udo como uma Á ica
po uguesa, um mosaico cons i uído po pequenos agmen os de memó ias, de imagens
simul aneamen e ixas e lu uan es, cons uídas e econs uídas, a a és do empo e das paisagens,
pelas á ias pe sonagens com quem o de e i e se c uza ao longo das suas in es igações ou u o
dos seus p óp ios de aneios. As des-locações que aí são ei as são semp e des-locações a a és
da memó ia, e isi ações i eais e imaginá ias de um espaço ín imo, de um impé io pe dido e de
um mundo desapa ecido, ans o mado em pó.
80
Á ica sob e ém, po an o, de um espaço que
i e no passado e lhe sob e i e, um passado a p e o e b anco, di uso e en ol o em ne oei o,
como o é o da his ó ia dos po ugueses de um impé io em uínas e da gue a colonial. Des a
o ma, aduzindo um espaço cuja na u eza é a agmen ação, que as imagens que assomam à
men e de Jaime Ramos, que as das á ias pe sonagens que a a essam ao longo da sua
in es igação, cons i uem-se ambém elas como agmen os que nunca pe mi i ão acede à
o alidade, po que a memó ia, sabemo-lo, não é o al, e se anspo a consigo o es emunho, a
exo cização e a e abulação, az ambém colada a si a ecusa, a ocul ação e o esquecimen o. Dos
omances eme gem imagens g a adas em papel, na memó ia e ambém na pele, como a a uagem
no b aço esque do de Jaime Ramos: Á ica dos soldados, Á ica das p e as, Á ica das mulhe es
dos soldados, Á ica dos po ugueses na iminência de se ansmu a em em e o nados ou
imig an es, Á ica como cu a, Á ica como doença, Á ica-gue a. E, sob e udo, imagens da ida
dos po ugueses num impé io à bei a do abismo, de po ugueses que se pe dem e se encon am
em Á ica.
É pa icula men e o omance Longe de Manaus que nos ala da memó ia po uguesa de
Á ica, a igu ando-se como um omance-caleidoscópio, espelhando agmen os de imagens á ias
que a cada mo imen o se dissol em e se ansmu am em imagens ou as, econs i uídas, na adas
e ec iadas a uma e a á ias ozes, p oje ando-se num ec ã imaginá io sob o céu de Luanda,
80
Apesa de não nos deb uça mos nes a disse ação sob e o omance Lou enço Ma ques, salien e-se que se há, nes e
omance, e e i amen e uma deslocação ísica a Moçambique, é oda ia uma deslocação ao impé io po uguês, a
Lou enço Ma ques e não a Mapu o, como o p óp io í ulo nos indica, uma deslocação a um mundo des ei o que não
exis e mais, a não se disseminado em uínas. Como o p óp io Viegas con idenciou em en e is a ao Mil Folhas, es e
omance oi p imei amen e a qui e ado pa a mais uma e ância de Jaime Ramos, mas o au o acabou po desis i
des a ideia uma ez que que ia que o p o agonis a i esse uma ligação a e i a a Moçambique, endo pa a isso c iado
a pe sonagem Miguel que pa e em busca de uma mulhe pe dida, mas sob e udo em busca das suas p óp ias
memó ias e eco dações e de uma Á ica pa a semp e desapa ecida. No e-se ainda que, como já e e imos, es e
omance i á se publicado no B asil com o í ulo de A Luz do Índico dado o ac o de o nome colonial da cidade de
Mapu o não se conhecido no imaginá io b asilei o.
67
Bissau, São Sal ado do Congo: imagens do solo ala anjado e e melho de Ba a á, de Gabu e de
Cachéu, da água do ma dos Bijagós, das camisas b ancas dos mili a es po ugueses ao domingo,
de Cuca e Sag es nas esplanadas jun o ao qua el-gene al; dos mosqui os e das ba a as, da
malá ia; da espe a; das “p e as [que] passa am mui o jun as, indo, a caminho da ig eja e do
me cado, es idas de panos colo idos” (Viegas, 2005: 74); dos po ugueses indi e en es à gue a,
como Ál a o Se e iano Fu ado e Ri a Pe ei a Gomes que so iam pa a a câma a, “numa pose de
eu opeus em Á ica (…) [um] so iso dis an e da me ópole, dis an e do uído da gue a em
Angola, dis an e da mo e” (idem: 392); dos “pequenos-almoços nos ca és, nas a andas das
casas, [onde] o mundo dos b ancos es á pe o do im, desmo onando-se de aga , longe da gue a,
mas en e i os e explosões à bei a das es adas, azendas de algodão, minas pa a lá das
mon anhas” (idem: 439); do capi ão Hen ique José P aia Ne es Po oca e o, na amu ada do
na io-pa ulha Diogo Cão, bêbado, omi ando sob e as águas do impé io, alucinado, dispa ando
i os na di eção da sua mulhe , nua e algemada à cama, e pa indo num jipe pa a longe de Bissau;
do al e es Jaime da Fonseca Ramos i ando-lhe as cos as, “beba-lhe an es que um i o lhe des aça
os co nos” (idem: 74); de Raul Gomes, “o elho a icanis a” (idem: 408), pe co endo as es adas
de Angola, en iquecendo à cus a do cimen o, cons uções e a mazéns; de Lu des Noguei a de
Cas o sob e oando o céu azul de Luanda num pequeno Cessna ou no meio das uas poei en as
de Luanda; da sua ia “ es ida de Y es Sain -Lau en no meio dos p e inhos do me cado, das
lojas, das uas, como se osse uma imagem a ancada a um ilme” (idem: 438); de Ri a Pe ei a
Gomes, descendo de um No da las em São Sal ado do Congo, no meio do ma o, a as ando as
malas pela pis a do ae opo o; de Ál a o Se e iano Fu ado, de me alhado a, dispa ando em
odas as di eções, um dedo p eso ao ga ilho.
Longe de Manaus de ol e-nos, po an o, a memó ia po uguesa de Á ica do im do
impé io po uguês e do pe íodo que imedia amen e lhe an ecede, e, embo a não o possamos
conside a como um omance de gue a colonial, que de ini i amen e não é, é inegá el que
pa ilha com es e « ipo de li e a u a»
81
uma sé ie de quad os que o ap oximam das inúme as
mani es ações li e á ias que sob e es e ema se deb uça am, sob e udo a pa i dos anos 80: a
81
Di e sos eó icos sus en am quan o à classi icação de li e a u a de gue a colonial á ias posições, sin e izadas po
Ma ga ida Cala a e Ribei o:
só a pa i de 1988, com o pionei o es udo in odu ó io de João de Melo, em Os Anos da Gue a, é que se abandona o
es ilo de ecensão, dando o igem a uma linha ensaís ica que em indo a e lec i sob e es a li e a u a como um co pus
em c escimen o, conside ando a exis ência de uma «ge ação li e á ia da Gue a Colonial» (Melo, 1988; Teixei a,
1998) e mesmo de «um no o concei o do li e á io» (Melo, 1988), de um subgéne o li e á io (Mou inho, 2000) ou de
um « ipo de li e a u a» ca ac e izado pela p á ica da anamnese a que subjaz um sen imen o de melancolia (Vecchi,
1995) sob a o ma de es emunho (Vecchi, 1995). A isão de João de Melo é con es ada po Pi es La anjei a (1991) e
po Al edo Ma ga ido, que, não encon ando nes a li e a u a nada de no o, a de ine como «a úl ima mani es ação do
luso opicalismo» (1989: 37). De uma o ma ou de ou a, es as lei u as c í icas pa ecem-me unidas pela ideia de que
es a li e a u a cons i ui um impo an e ins umen o anamnesis que ege con a uma espécie de collec i e amnesia
(Medei os, 2000: 202-203), o que de imedia o lhe a ibui uma in enção ap io ís ica, ípica das li e a u as de momen os
de up u a ou de gue a (2004: 250).
68
indi e ença dos po ugueses em Á ica ela i amen e à gue a, mili a es ou não; o quo idiano
azio das bebedei as dos mili a es e as elações humanas como e asão e escape; os in e esses
especí icos em bene ício p óp io e a explo ação das e as e po os a icanos, ep esen ada po
Raul Gomes ou pelo capi ão Hen ique P aia Po oca e o que en iquece am à cus a da explo ação
de negócios pelos e i ó ios a icanos do impé io po uguês e á ico de in luências; a ausência
de uma noção de esponsabilidade indi idual e cole i a, ou de culpa; o acimo; a co upção e
deg adação que a gue a ope a nos mili a es isí el não apenas nos excessos e numa
ag essi idade p imi i a, mas igualmen e na sua p óp ia ans o mação e pe da de si, associados à
alienação e à deg adação mo al e sexual dos po ugueses em Á ica.
82
Das inúme as passagens e
imagens que o omance nos dá a le / e , salien em-se os seguin es agmen os:
Em 1972, Luanda e a o sí io em mais se odia em odo o impé io lusi ano. Ha ia mui as mulhe es, mui os
homens sozinhos, mui a imp essão de que es a a udo a acaba e que o melho e a ap o ei a . Nesse
capí ulo, sim, Luanda e a a capi al da pá ia in ei a. Mui o se odia em Angola, mas alguma coisa e ia de
bom o impé io, senho inspec o , nem udo e a como na Guiné, ba a as, mosqui os, eb e-ama ela, malá ia,
cóle a e chu as opicais. (idem: 81-82)
Fo a de Po ugal, e en endendo que Angola não e a p op iamen e Po ugal, os po ugueses êm
compo amen os mui o mais g egá ios, mui o mais emocionais e mos am-se sensí eis, amigos. Em
Luanda, além do mais, a gue a empu ou as pessoas pa a compo amen os mui o mais adicais que nunca
e iam oco ido em empo no mal. O senho es e e na gue a. O que não se desculpa com a gue a? Sexo,
aições, negócios ilegais, a en u as que se iam impossí eis na Eu opa, odo o géne o de g osse ias, odo o
géne o de gen e. (idem: 386)
Assim, e nas pala as sumá ias de Jaime Ramos, “Á ica se ia um aspec o da his ó ia do
impé io colonial (…) que ica ia pe dido en e eco dações de amílias des ei as, adul é ios,
aições, a en u as, en ações” (idem: 87-88). Um ou o aspe o se ia o da gue a colonial, das
explosões das minas, das bombas, dos i os dispa ados, dos co pos desmemb ados. Te emos
acesso a es as imagens essencialmen e a a és de Ál a o Se e iano Fu ado, uma pe sonagem
ep esen a i a de mui as igu as eais do país di a o ial: dese o do exé ci o po que não que ia i
à gue a, inha es ado escondido du an e dois anos no elhado da sua casa, em Sambade, como um
animal acossado, assis indo, como espe ado , ao cu so dos acon ecimen os. Acaba po se en ega
no qua el-gene al em Cha es e az se iço mili a em Angola, Luanda, en e 1969 e 1973, duas
comissões de dois anos sem lou o es nem dis inções, sem licenças, no meio do ma o, na baixa da
cidade, cump indo uma ingança con a a p óp ia ida:
Cambada de panelei os, disse o pai. Ah, Joaquim, deixa-me mija na ua, que eu já es ou com a ida oda
odida, disse ele pa a o dono da abe na, às ês da mad ugada, quando oi ap esen a -se a Cha es, ao
82
Es es mesmos quad os são e e idos po Ma ga ida Cala a e Ribei o, no seu es udo em Uma His ó ia de
Reg essos…, a p opósi o de á ias na a i as que ema izam a gue a colonial.
69
qua el. Venho ap esen a -me, sou um dese o . Fui um dese o , ago a que o i à gue a. Que o i à gue a
onde a gue a é mais gue a e onde se mo e bas an e, enho a ida oda odida.(…)
Cambada de panelei os, disse a o pai, com oda a p obabilidade. Mo ei os, ajadas, i os dispe sos, minas
que subiam no a e eben a am à al u a do es ômago, mais ajadas, a a a a a a, explosões, a iões Fia
ondando os campos de algodão, despejando bombas, a a a a a a, um elho Lockheed PV-2, os a iões de
anspo e Douglas C-54, pá a-quedis as oando no céu como pombos, pelo ões incendiando palho as e
ab indo cla ei as na lo es a jun o de Tembo Aluma, ele es a a ali em baixo, ah, Joaquim, deixa-me mija
na ua, que eu já es ou com a ida oda odida, b ancos, p e os e mes iços, a a a a a a, homens e mulhe es,
adul os e c ianças, odos aos pedaços nas es adas que ão pa a o ma o, explosões, bazucas, lança-chamas,
pis olas de 9 mm, a a a a a a (idem: 143-144)
Rele e-se que o exce o acima ansc i o nos mos a a gue a de Ál a o Se e iano Fu ado
al como a in en a Jaime Ramos, de modo análogo à cons ução e econs ução das biog a ias
dos mo os a pa i de o og a ias, es emunhos, pequenos aços de ida. Mas o ago a de e i e
Jaime Ramos ambém oi ou o a um al e es do exé ci o mili a e as imagens po ele in en adas
azem a si aco en adas ou as, as da sua p óp ia gue a na Guiné e que não são senão,
me onimicamen e, a gue a de odos ou de uma pa e dos po ugueses. Como podemos e no
agmen o ansc i o, são imagens que des ilam de o ma e iginosa, caó ica e agmen á ia. São
imagens de gue a e da gue a – signo de do , de iolência e de auma – apenas é possí el
ecolhe alguns es ilhaços, mas não é possí el o dená-los, explicá-los, con á-los, a é mesmo
imaginá-los. Jaime Ramos con on a-nos com ques ões c uciais: Como se pode dize a gue a?
Como se pode dize a mo e? A gue a é indizí el, in aduzí el; po isso, a cena aumá ica dos
e imen os em comba e do p óp io Jaime Ramos, numa explosão de uma mina ao longo da
es ada de Ba a á, é desc i a como um ilme sem som, a sépia, en ol ido pela neblina, um ilme
com um diálogo in en ado:
Dois helicóp e os ap oxima am-se indos de No e, baixa am sua emen e sob e o capim seco, b anco,
ama elo, ondulan e, Jaime Ramos es a a su do. O ilme deco ia à sua en e, dois soldados ecolhiam
a mas e munições abandonadas pela gue ilha – mas e a um ilme sem som, a sépia, uma nu em
a a essa a-se-lhe à en e, ambém não ia bem. Ceguei a e su dez, pancadas na cabeça. Le ou a mão
di ei a ao bolso, p ocu ando ciga os. Encon ou e a, e a, pó, os ciga os me gulhados na e a que inha
en ado po oda a oupa.
Ag adecia aquela su dez que o impedia de escu a as o dens, os gemidos, os isos, o uído dos
helicóp e os, os mo o es dos ca os a olados nas be mas, e mesmo aquela nu em nos olhos, aquela
neblina, não o deixou pe cebe quem e a a umado nas macas que en a am nos helicóp e os. Sen ia
apenas a en ania inda das g andes hélices que não pa a am de oda , le an ando poei a, capim, amos
sol os das á o es, uma camisa manchada de sangue. Alguém se sen a a à sua en e e lhe ala a, o os o
meio escondido po uma pas a de poei a e suo . Mas Jaime Ramos não ou ia nada, o ciga o ao can o da
boca, apagado. O capi ão Po oca e o i ou-lho da boca e acendeu-lho, depois es endeu-lho, Jaime Ramos
não se mo eu, en ão o ou o le ou-lho à boca e disse qualque coisa. Jaime Ramos não ou ia, en ou
explica : es ou su do, meu capi ão. O capi ão acenou, comp eensi o, sen ado, encos ado à á o e e
pa eceu dize -lhe qualque coisa: «Vida de uzilei o.» Não sou uzilei o, meu capi ão. Sou de in an a ia.
Companhia mis a, caçado es e mo ei os. Po isso é que iquei su do, os mo ei os es a am mesmo a ás
de mim. «Vou-me embo a, al e es. Vou-me embo a des a me da. Pa a a semana já es ou em Luanda,
que o que se oda a Guiné, que o que se odam os uzilei os, as companhias de caçado es e os pelo ões de
mo ei os.» (idem: 136)
83
83
Há já e e ência a es a cena no p imei o omance onde Jaime Ramos su ge, embo a a sua ca ga emo i a seja bem
mais acen uada em Longe de Manaus (c . Viegas, 1991: 59-60).
76
Nes e omance aça-se a biog a ia de Adelino José Fon ou a que mo e a há mui o, numa
es ada en e São Domingos e Sucujaque, dian e do Cabo Roxo, en ando pelo ma “ a ado po
uma ajada de me alhado as (…) a cabeça explodindo a meio do ajec o, um b aço des ei o po
uma ajada” (Viegas, 2009: 73), en e ado em Á ica e nas p óp ias memó ias de Jaime Ramos.
Es a é uma pe sonagem- an asma que su ge do mundo dos mo os pa a assomb a o de e i e
Jaime Ramos e, sob e udo, o homem, despe ando em si memó ias da gue a da Guiné e dos
acon ecimen os que se segui am ao seu eg esso. É um passado dolo oso que se az p esen e, “de
ce a o ma, pa a puni Jaime Ramos” (idem: 133), e que o de e i e en a exo ciza :
Passou duas semanas num hospi al, os médicos ala am de auma de gue a, mas ele sabia que e a su dez
apenas (…) Ele passa a os dias sen ado, su do, en ol ido po essa imagem ala anjada, de e a le e e
ala anjada que nunca o abandona a: nu ens ala anjadas pe co endo odos os ângulos de isão, odos os
pon os ca deais, odos os objec os ingidos po aquela nu em que de o a a a memó ia e apenas lhe
de ol ia coisas sem impo ância apa en e: co pos de mo os es endidos na be ma da es ada de Missi á, o
os o de uma en e mei a neg a num hospi al de Bissau, um maço de an igos ciga os Sag es pousado na
mesa-de-cabecei a (ele eco da aquela embalagem e melha, o escudo, as quinas, as a mas de Po ugal),
a p imei a manhã em que andou a pé pela P aça do Go e nado , o p imei o passeio de ba co a é ao ilhéu
dos Pássa os, um c epúsculo onde não chega am emboscadas, nem colunas incendiadas, nem uído das
ope ações especiais, nem ca as da amília. (idem: 64-65)
Às ezes pe gun o-me: como e as u em 1972? Um des oço chegado de Á ica. Uma espécie de ese a
mo al da Pá ia, esgo ada numa gue a sem im nem co a dia. Ves ias calças de e ylene e camisas
Regojo, usa as oupa po medida, a os de um al aia e que desenha a a giz sob e peças de azenda ba a a
(…) Como e as em 1972? Eu não que o ol a a 1972. (idem: 160)
Mas mais do que memó ias e aumas de gue a, Adelino Fon ou a, cuja “his ó ia (…)
le a a a ás de si, a ancada como uma segunda pele, uma pa e da sua p óp ia ida” (idem: 207),
e oca sob e udo a de o a da ida – do pa ido comunis a, da e olução, do p imei o casamen o –
ob igando-o a e isi a , a econs i ui e a e ela a sua p óp ia biog a ia (ou, se quise mos, uma
pa e dela). Po esse mesmo mo i o, emos um Jaime Ramos que, a dada al u a, “não sabia que
his ó ia inha pa a con a . A de Adelino Fon ou a. A de Isabel Cas o. A de Ma iana Se a. A de
Jaime Ramos” (idem: 203). Des a o ma, con a a his ó ia de um se á semp e con a a his ó ia de
ou os e, nes e sen ido, são signi ica i as as pala as com que Adelino Fon ou a lhe deixou an es
de pa i pa a o No e, an es de pa i pa a a mo e: “’Vou se a ua somb a, Ramos. Mesmo
depois de deixa de se a ua somb a, eu ou se a ua somb a. Acon eça o que acon ece . Depois,
um dia, ais se u a minha somb a’” (idem: 207). Pe sonagem-espec o, a sua somb a b ilha num
qualque luga escu o da sua men e, a i ando-lhe a memó ia de á ios acon ecimen os desse
pe íodo como uma a de em que Adelino Fon ou a menciona a pela e cei a ez o pa ido e lhe
indica a um con ac o no Po o, ou uma ou a a de, em que Adelino Fon ou a lhe le a, em oz
al a, A Es ado do Tabaco de E skine Caldwell, apesa da sua su dez, e quando se encon a a
num hospi al em Bissau. Jaime Ramos su p eendia-se semp e com as suas camisas b ancas,

77
“onde nunca caía uma nódoa, onde nunca poisa a um g ão de poei a, e com a sua oz anquila”
(idem: 71), e in eja a-lhe a disciplina, o comedimen o, a de e minação, embo a descon iasse das
suas ce ezas absolu as (c . Viegas, 2009: 71/206).
A sua biog a ia ai se essencialmen e econs i uída e na ada pela oz de ês na ado es –
Jaime Ramos, um na ado omniscien e e po ele p óp io –, e es a pe sonagem em a
pa icula idade de se simul aneamen e pe seguido e pe seguido . De ac o, se na p imei a pa e
do omance, «Onde se escondem as pessoas que não que em se is as?», José Fon ou a assume
essencialmen e o papel de al o de de eção, omando a o ma de um agen e duplo ou iplo das
in o mações, ope ando essencialmen e em Á ica du an e a gue a colonial e ec u ando memb os
pa a o pa ido comunis a, mo endo uma p imei a ez, “com um passado pa a esconde e ou o
pa a descob i ” (idem: 138), numa al u a em que “não ha ia ichei os e não sabíamos o que e a
uma iden idade” (idem: 137), na segunda pa e, p ecisamen e in i ulada de «O li o das
eco dações», assumi á o papel de de e i e, dos ou os, limpando biog a ias enquan o pequeno
espião po uguês da Legião Es angei a, mas sob e udo de si mesmo, em busca de um amo
pe dido e de uma ilha cuja exis ência desconhecia, calco eando os luga es mais ecôndi os e
imp o á eis da Venezuela e A gen ina – Ca acas, Ma acaibo, Mé ida, Pue o Ayacucho, Chaco,
Co ien es, Buenos Ai es –, “p ocu ando o (…) pai, imaginando como se ia a (…) mãe” (idem:
196), encon ando uma i mã desconhecida.
90
Nascido em 1950 na A gen ina, Adelino Fon ou a o a le ado pa a T ás-os-Mon es aos dois
anos de idade pa a casa de uma ia, mas uma g ande pa e da sua ida es a ia pa a semp e ligada a
Á ica, al como o amo que nunca esquece ia, Isabel Cas o B i o. A igu a des a pe sonagem
eminina, que inha ido pa a Angola aze uma e olução que es a a a alha no p óp io país,
pa indo quando odos os ou os eg essa am, i á essal a os mo imen os dos que ica am e dos
que pa iam de eg esso a Á ica, e idenciando a ins abilidade daqueles empos e dos p oblemas
iden i á ios de odos, empos ambém de desapo uguesamen o e de a icanização:
91
Ela passa a uma pa e da in ância ou da adolescência em Luanda, uma b anca de pele mo ena, e que ia
eg essa a Angola quando odos os ou os chega am a Lisboa, os e o nados, com oupas gas as e elhas,
em a iões supe lo ados, em na ios sujos, espi ando o a eu opeu como se ele es i esse ca egado de pes e
e de maldição. (idem: 178)
90
Repa e-se como o de e i e em um papel meno na na ação des a biog a ia, que é ans e ida na sua quase
o alidade, que pa a um na ado omniscien e, que pa a a p óp ia pe sonagem biog a ada que na a a sua his ó ia. O
p óp io omance, que começa in medias es, ai ob iga a uma na ação e ospe i a dos acon ecimen os que le a am
à cena inicial e que es ão ambém in imamen e ligados com o passado de Jaime Ramos.
91
Es a pe sonagem mui o bem pode ia se Si a Valles, mili an e do PCP que e á sido assassinada na sequência dos
acon ecimen os de maio de 1977, como eco da Isabel Cou inho na sua en e is a ao esc i o a p opósi o do omance
(c . 2009:29).
78
Po que que ia aze a e olução lá. Aqui já se inha pe cebido que não ia ha e e olução nenhuma,
que es á amos a sal o, nós, a bu guesia. Mas ela não que ia se sal a, que ia aze pa e da His ó ia,
en a na gale ia dos he óis, e o ma ag á ia em Á ica, odo o pode aos so ie es, essa li e a u a que o
senho não sei se conhece. (idem: 144)
A minha ilha oi aze a e olução pa a Luanda, que não e a a e a dela. Mas, en e os doze e os
dezasseis anos de e e ei o uma ans usão de sangue angolano. Acho eu. (idem: 146-147)
Adelino Fon ou a i á em sua demanda e pa e pa a Luanda dois anos depois, onde a
encon a á já mo a, ol ando os nossos olhos pa a uma Angola pós-independência e pa a a
gue a ci il que imedia amen e se lhe seguiu e pa a os acon ecimen os ágicos do 27 de maio de
1977. A sua es adia na p isão da -nos-á con a das a ocidades come idas nesses anos eneb osos
e bá ba os, “onde a loucu a já não inha luga – po que esse luga inha sido ocupado pela
demência da e olução à p ocu a da mo e, ajus ando con as” (idem: 171), de ol endo-nos uma
imagem que con as a in ensamen e com a imagem mí ica de Longe de Manaus. Reco demos
dois echos dessa passagem:
O os o daquela mulhe , o sangue pisado nas pálpeb as, as cica izes que nunca sa a am, a seminudez que
en a a esconde com as mãos e os b aços dian e dos soldados que se iam. O co po abandonado na sua
queda, escadas abaixo, p os ado du an e ho as a é se ecolhido po um soldado que chama a ou os
p esos pa a o me e em, já mo o, num ca inho de mão. O homem que mo e a sen ado no amon oado de
esgo o, lixo, es os de oupa queimada, ao undo do co edo . O homem a quem co a am uma mão com
uma ca ana an es de o ma a em com uma bala na cabeça. A mulhe iolada du an e ho as po um g upo de
soldados que iam depois dança no pá io da p isão (idem: 166)
Fechou os olhos e sen iu o enjoo p e enindo-o da mo e que se ap oxima a, um es ado de o po
ins an âneo, uma desis ência de que só despe ou quando ou iu o som do b aço esque do a se queb ado, e
depois não ou iu mais nada, não ou i ia nada du an e mui o empo. E quando despe ou, dei ado sob e um
cha co de u ina numa cela que já não e a a sua, ou iu o uído de pés nus a chapinha , passando, passando,
um g i o ao longe, e sen iu o chei o da u ina, en ou le an a -se, ou iu os passos de pés nus chapinhando
no chão, e só en ão iu que os pés chapinha am – no co edo dian e da cela – num ma de sangue, escu o,
neg o, sujo, cujo chei o lhe chega a como se osse a as ado po odos os en os de Luanda. (idem: 168)
O Ma em Casablanca ecupe a, des a o ma, uma ealidade a icana desconhecida pa a
mui os po ugueses que eg essa am a Po ugal após a queda do impé io,
92
e se o olha que aí se
ins i ui é um olha po uguês (o de Adelino Fon ou a), desco inamos igualmen e nes e omance
um olha que não se cons i ui como um olha da Á ica po uguesa, mas da Á ica a icana, onde
“Moçâmedes já não é Moçâmedes, é Namibe” (idem: 117).
93
Se á nes a Luanda que Adelino
Fon ou a i á mo e pela segunda ez, ao som de uma espécie de equiem que se epe e
92
Em 2003, em en e is a ao No ícias Magazine, salien a a F ancisco José Viegas, a p opósi o de Moçambique: “Os
po ugueses êm memó ia da gue a colonial mas não da gue a ci il. Não emos ideia da iolência da gue a ci il em
Moçambique, dos miúdos que o am ob igados a ma a os pais pa a p o a a sua lealdade ao mo imen o, a denunciá-
los, a bebe o seu sangue” (54).
93
Moçâmedes é a an iga designação colonial da cidade angolana de Namibe e da p o íncia do mesmo nome que
pe du a á, desde a undação da cidade em 1840, a é 1985.
79
insis en emen e: “Coi ado do b anco, coi ado do po uguês que ai mo e daqui a pouco” (idem:
169).
Também a ilha des a pe sonagem, Ma iana B i o Cas o Se a, assumi á o papel de
de e i e da his ó ia dos seus pais, que se mis u a com a His ó ia desses anos de Luanda, mas em
nome da ingança. Ela é uma en e á ias “c ianças que nunca encon a am os pais, que não
conhece am os pais, que só conhece am aqueles que lhes ma a am os pais” (idem: 130). A
Angola desses empos su ge como uma nebulosa, ime sa em ho o , massac es e escu idão, e
ep esen ando ainda “a his ó ia po con a e a his ó ia con ada em soluços, agmen os” (idem:
213).
Mas O Ma em Casablanca a lo a ambém, de o ma i ónica e bas an e c í ica, a elação
Po ugal-Á ica hodie na, sob o pon o de is a luso. Se já encon á amos no omance an e io ,
embo a de o ma énue, a imagem de um Po ugal ainda colonizado , acis a,
94
supe io , e de uma
Á ica que não consegue hoje p og edi sem os po ugueses, como suge em as seguin es
passagens ex uais:
Vol ou à Guiné, inspec o ? (…)
Eu ol ei. Es á igual, udo pa ado no empo, mas com mais mo os e mais ome e mais casas caídas que
nunca mais ão econs ui -se. Mas en im. É a Guiné, já não se bebia Cuca, ha ia uma ou a ce eja, uma
al Pampa, de ó ulo azul, não como no nosso empo. (Viegas, 2005: 56)
Bissau, sem o ensa, e a um caixo e de lixo. Luanda e a a gala dos Ósca es, pelo menos segundo ejo na
ele isão. P édios, es au an es, a ilha, as ce eja ias. E as gajas, senho Ramos, as gajas. Gajas de odo o
lado. B ancas, mula as, a é p e as. Um p imo meu es e e lá no ano passado e alou-me daquela misé ia.
P édios que deixámos a meio, pois a meio ica am, a apod ece . Ho as nas asei as das casas, ja dins,
udo, udo desg açado. Mas aqueles anos es a a-se mesmo a e . Es e e em comba e, senho Ramos? (…)
mas nós ganhá amos aquilo, não que me in e esse. Cada um na sua e a, não é e dade? Mas que eles
ica am a pe de , lá isso ica am. (idem: 152-153)
Ramos, inspec o Ramos, limi ei-me a en iquece . Limi ei-me a se um ilho da pu a, nem melho nem
pio do que os ou os. (…) Desde o século XVI, sal o e o, que somos ilhos da pu a, jun amen e com os
ingleses, os holandeses, os espanhóis, os anceses. A p incípio omos ilhos da pu a com a mania das
g andezas. Depois, omos só ilhos da pu a. No mal. Soldados bêbados, come cian es no ma o. Sob e udo
soldados desleixados, como me disse am, na al u a da e i ada. (idem: 406)
Em O Ma em Casablanca, i emos encon a ecos desse acismo e do saudosismo impe ial,
acen uados pela e gonha da elha me ópole a se comp ada pelos p e os:
En e nós. Fica en e nós, não di ei nada lá o a, na ua. Não di ei que es a amília ilus e aluga casas a
p e os. (…)
94
Se o acismo su ge como uma pa e subs ancial da ep esen ação dos po ugueses, salien e-se que esse mesmo
acismo não é ge al nem essa ep esen ação gene alizada, nem na ealidade, nem na icção de Viegas. Releia-se, a
í ulo de exemplo, o seguin e agmen o: “Depois, olhou em ol a, pa a as o og a ias pendu adas na pa ede (…) –
como se dissesse, eja, senho polícia, não há o og a ias de Luanda, não emos o og a ias de c iados p e os a limpa
o ca o, não emos o og a ias de senzalas em plan ações de algodão, não omos mo os no Cassanje” (Viegas, 2009:
144).
80
E a angolano, mas e a um homem de negócios mui o, digamos, concei uado. Hoje em dia emos de nos
habi ua a udo. Onde há dinhei o, há uma possibilidade de negócio. E o dinhei o não em co . (Viegas,
2009: 91)
in es imen os pa a pa icula es, gen e do MPLA que em dinhei o, gen e do go e no que gos a ia de
comp a qualque coisa o a de Angola, e já ago a que seja aqui po que me dá gozo e a elha colónia a
se comp ada pelo dinhei o dos elhos colonizados. Imagine o quad o: banquei os que em p i ado êm
ho o aos p e os, e que con am piadas sob e o assun o, mas ob igados a negocia com eles e espe o não
es a a o ende ninguém. O che e ambém se di e i ia com is o (…) G andes amílias que se undem
com amílias, digamos, do Lubango, de Benguela ou da Maianga. Da Maianga, che e. (idem: 113)
E a um homem que se lamen a a po udo e po nada e que p o es ou pelo ac o de os p e os já i em pa a
o Dou o na empo ada da caça. O pequeno acismo da p o íncia. (idem: 156)
Como podemos dep eende , O Ma em Casablanca é essencialmen e um omance de
pe das e de o as, do impé io, da gue a, da e olução e da ida, como imos, mas igualmen e de
um país ambém ele de o ado, um Po ugal que con inua a e di iculdades em ol a -se pa a si
mesmo, em pensa -se a si mesmo, que alhou mesmo quando se ol ou pa a a Eu opa, que não
consegue libe a -se do seu passado nem dos seus an asmas, e que con inua a e e -se num
Po ugal-lá, on em como hoje:
95
Pob e país que se in e essa pelo seu passado, e i e pendu ado numa pa ede como um quad o elho e
impopula que as isi as êm de e . Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Ve de, São Tomé e P íncipe,
Timo , Macau, pob e memó ia, pob e país que i e suspenso da ap o ação dos ou os, com medo de e
alhado onde alhou. O impé io, o co ação do impé io. Al e es Ramos, elho al e es Ramos: u p óp io
que es eg essa à Guiné, onde a mo e es e e p óxima de i, ado mecendo no eu omb o, mui o
amiguinha, onde a ida es a a suspensa de um io, onde ha ia o chei o que não esqueces. Fugis e da
Guiné e olha ago a o que e acon ece: Á ica em e con igo, êm aí as p o íncias ul ama inas, uma a
uma, o caminho-de- e o de Benguela e o po o de Moçâmedes, a linha-de- e o da Bei a chegando ao
Malawi, o sisal, o ca é e o algodão, a Companhia Colonial de Na egação e o paque e In an e Dom
Hen ique, o paque e Niassa e João Ma ia Tudela can ando «Lou enço Ma ques», cada inqué i o pe segue-
e com o chei o de Á ica e os que dizem «ah, o chei o de Á ica», mas nunca es i e am dian e dos eus
chei os de Á ica – o da me da, o da pob eza, o do lixo, o das coisas apod ecendo ao a li e nos
subú bios, o dos mo os acumulados no ma o, esquecidos, endidos. Me da pa a Á ica, «adeus Guiné,
se ás semp e Po ugal». E quase qua en a anos depois de ou i es essa canção, «adeus Guiné, se ás semp e
Po ugal», qua en a anos depois es ás no hospi al, sen ado dian e da ida in ei a, e apa ece- e Angola de
no o, e ou os comba en es, e o chei o a Á ica, a ladainha do colonizado e do colonizado, o da Á ica
oda, embo a Á ica não seja a e a p ome ida. (idem: 119-120)
Es as são e lexões do p óp io Jaime Ramos, acusando o papel ma ginal, meno , a é mesmo
in e io de Po ugal ela i amen e aos ou os países seus pa es, mas ambém ainda e icen e em
assumi as suas esponsabilidades e e os, ol ando-se pa a o saudosismo das colónias
po uguesas e da memó ia eliz de Á ica do empo an e io à dissolução do impé io. A p óp ia
95
No e-se que Po ugal é ambém ca ac e izado pela mesquinhez aduzida pela p esença das elhas amílias que
dominam, semp e e e e namen e, a cena polí ica e económica po uguesa, já isí el em á ios omances an e io es
como C ime em Pon a Delgada, Mo e no Es ádio ou Longe de Manaus, e que e elam um país minado pela
endogamia e, po isso, mo endo len amen e na sua p óp ia es agnação. Mas não é apenas Po ugal o único al o de
c í ica e de uma isão desencan ada. Também Á ica, e mais p ecisamen e Angola, não é poupada às c í icas e
denúncias de á ias pe sonagens, desde o dinhei o sujo à co upção, passando pelo á ico de diaman es e pela
ascensão na cena polí ica e económica de c iminosos de gue a como Benigno Mendonça.
81
ligação de Jaime Ramos a Á ica, como podemos e no exce o acima ansc i o, é con adi ó ia,
en e o desejo de eg essa a um luga mí ico e a denúncia da pod idão e misé ia desse mesmo
luga .
Toda ia, in e p e a es e saudosismo e a ime são do país no passado como uma másca a do
colonialismo ou como uma incapacidade de nos ol a mos pa a nós mesmos é apenas olha pa a
um lado da ques ão. Os omances de Viegas ale am-nos que é p eciso ambém que
comp eendamos a sua ine i abilidade e, mesmo, a sua na u alidade. Não podemos esquece
Á ica, não podemos ugi de Á ica, não podemos simplesmen e asu á-la da nossa His ó ia e
das nossas idas, po que ela az pa e de nós e apagá-la ou enunciá-la se ia ambém apaga -nos
ou enuncia -nos a nós mesmos. Po que as memó ias de Á ica po oam ainda a men e de mui os
po ugueses, azem pa e das his ó ias de amília, es ão mis u adas com as suas p óp ias
genealogias, es ão-lhes no sangue e na pele. O p óp io Jaime Ramos, como imos, não ca ega
consigo qualque sen imen o de culpa, os seus an asmas são os mo os, sim, mas não os mo os
de gue a. Mas o passado eg essa semp e, “a memó ia ai e ol a” (idem: 153), não po que i a
suspenso na memó ia de Á ica – eliz ou culposa –, mas po que há semp e alguém que es e e
em Á ica, que lá icou pa a semp e, que lá mo eu, que de lá eg essou, há semp e alguém cuja
his ó ia não anspo a apenas a his ó ia de Po ugal, mas, ine i a elmen e, a his ó ia de Á ica,
po que ambas são ambém uma e ou a. O p óp io Isal ino, longe de Á ica e da gue a e dos anos
de e olução, a es a es a ealidade: “Toda a gen e es e e em Á ica, pensou Isal ino. Qualque
coisa, po que es i e em Á ica. Is o e aquilo, po que es e e em Á ica” (idem: 157).
Ac escen e-se ainda que, se os sonhos e a memó ia nos omances de Viegas são semp e a
p e o e b anco, a sua ealidade não o é, e, como al, não pode se pe spe i ada em e mos
dualis as, linea es ou simplis as. Se é ce o, como imos, que o mo imen o de eg esso dos
soldados e dos e o nados à pá ia ouxe consigo, po que den o de si, uma pa e de Á ica, uma
ou a pa e, ex e io , eio ambém com ele sob a o ma, não de eg esso, mas de chegada, o que
nos ob iga, hoje, não apenas a epensa a iden idade po uguesa e as imagens que dela deco em,
mas igualmen e a pensa uma no a iden idade que é po uguesa, mas ambém angolana e
guineense e cabo- e diana e moçambicana e são- omense. É des a ealidade híb ida, miscigenada,
mul i ou in e cul u al no e i ó io geopolí ico po uguês que nos alam ambém os omances de
Viegas em es udo. Po ugal passa á a engloba , assim, na sua sociedade uma Ma iana B i o
Cas o Se a (Ma iana da G aça Ma eus du an e cinco anos), ilha de uma po uguesa e um
mula o, c iada po uns ios angolanos, e que acaba á po se exila em Casablanca, a menos de
uma ho a de Lisboa; um José Co sá io das Ne es, um cabo- e diano de Lisboa com saudades do
Mindelo, a u ando Jaime Ramos “com a sua paciência de cabo- e diano” (idem: 35), pe encendo
à amília, mas sonhando com Cabo-Ve de, “aquela espécie de Á ica cheia de mula os” (Viegas,

82
2005: 177), sonhando com o seu casamen o com Fá ima, “o p imei o casamen o a icano da
amília” (Viegas, 2009: 83); uma Fá ima, angolana de Benguela, que eio de Angola em 1975,
com a mãe e duas i mãs – odas elas pe sonagens ex-cên icas que i em num in e s ício en e cá
e lá, que pe encem ao dois lados e a nenhum deles, “[g]en e sem e a (…) gen e de ou a e a
(Viegas, 2005: 193), e onde a hib idez é assumida simul aneamen e num mo imen o de inclusão,
no caso das pe sonagens mencionadas, mas ambém de exclusão, como se pode dep eende do
azio que p eenche Co sá io ou em pe sonagens anónimas, espécie de igu an es do cená io
po uguês, como podemos le nas seguin es passagens ex uais, a p imei a e a segunda de Longe
de Manaus e con ocando o olha de Co sá io, as duas úl imas de O Ma em Casablanca, sob o
olha de Jaime Ramos:
96
o Mindelo co ia en ão num a elling demo ado, musical, c epuscula , como uma cidade que descob i a
no inal da adolescência, já adul o, e com um a aso de á ios anos – o que nem assim jus i ica a que um
cabo- e diano mula o, ilho de dois cabo- e dianos mula os que i iam em Lisboa na al u a da
independência, i esse saudades. (…) Tudo is o acon eceu em 1972 e José Co sá io inha apenas dois
anos. Nunca e e passapo e cabo- e diano e can ou semp e, como seu, aquele hino que ala a de canhões,
ma chas, he óis do ma , ibombando como uma ameaça mili a e pa ió ica que ninguém le a a a sé io.
Fez o liceu em Lisboa, mis u ando-se com os colegas de pele b anca e dizendo que e a ão po uguês como
os ou os. Quando ala a dos a ós que não conheceu, dos ios elhos de que sabia lendas, colecções de
anedo as, nomes de amília mui o agos e dis an es, ha ia um azio cla o na sua genealogia, a ancada a
São Vicen e e a San o An ão (idem: 173-174)
Os p e os e as p e as anda am semp e com sacos plás icos de um lado pa a o ou o, anspo a am sacos
plás icos cheios de coisas in isí eis, sacos de lojas, sacos de supe me cados, á ios sacos nas pa agens de
au oca os. Coisa de pob e. Essa gen e não inha icha na polícia, não inha ele isão nem máquina de
la a loiça, mas inha sacos plás icos cheios de coisas a ulsas, anspo adas de um lado pa a o ou o,
a das de emp egos, comida pa a um dia o a de casa, papéis que inha de en ega nas epa ições, pão do
dia an e io . (idem: 178)
Ele i a cadá e es de neg os nos bai os pob es do Po o, nos subú bios, em becos onde se assinala am
os luga es de comé cio de d oga, de ixas en e bandos, de con as ajus adas en e cabo- e dianos dos
a edo es, ou guineenses que i iam no limi e dos bai os, em casas co oídas pelo lixo e pela humidade,
onde chei a a a i os e as pessoas passa am na ua alando mui o al o, em c ioulos que desconhecia.
(Viegas, 2009: 103-104)
96
Es a exclusão não é apenas social, polí ica ou acial, mas ambém li e á ia. Isabel Alleg o de Magalhães, e e indo-
se à al a de abe u a dos po ugueses em elação ao ou o e à elisão da sua oz, no a ambém es a ausência na
li e a u a po uguesa das décadas de 80 e 90, sob e udo su p eenden e quando esses mesmos omances se e e em a
si uações e épocas mui o pos e io es a es as chegadas (c . 2002: 220, n. 29).
Po ou o lado, é p eciso ambém não esquece que, com a es abilidade polí ica e económica e melho ia das
condições de ida que se azem sen i a pa i dos anos 80, Po ugal deixa de se unicamen e um país de emig ação e
passa a se igualmen e des ino de imig ação, o que, ine i a elmen e, a e a á o seu mundo social e cul u al,
apon ando pa a uma sociedade cada ez mais miscigenada, mais mul icul u al, mais plu al e pa a a ques ão da
hib idez de iden idades, espelho de um Po ugal de hoje e, ao mesmo empo, ab indo janelas pa a o ou o e pa a
no as elações e iden idades su gidas des es con ac os. Embo a não nos i emos deb uça , nes a disse ação,
especi icamen e sob e a ques ão das mig ações, não podemos deixa de essal a aqui que os omances de Viegas
ambém nos dão con a des es des-locamen os e plu alidades, ala gando a sua geog a ia ( eco de-se, a í ulo de
exemplo, o pa ão i landês de Jo ge Alonso em Mo e no Es ádio ou os ussos A kady Ta aso e Mikhail Poliano e
a uc aniana I ina, pe sonagens ulc ais no seu úl imo omance, O Colecionado de E a). A es e p opósi o eja-se a
en e is a “Não podemos ans o ma a língua num mons o”, conduzida po Isabel Cou inho pa a o jo nal Público
(c . 2013b: 27).
83
Angolanos de negócios em Lisboa, angolanos de Angola, angolanos da gue a, angolanos pob es,
angolanos dos bai os dos no os musseques de Lisboa, angolanos is es, angolanos que cho a am po
Angola, angolanos que nunca inham is o Angola. A ia-sac a dos pequenos emig an es angolanos, a
adolescência do quizomba, do kudu o, angolanos dos diaman es mis u ados com pu as de Benguela e
diploma as a icanos que sabiam ala usso. (idem: 212-213)
Isabel Fe ei a Gould, num a igo dedicado às na a i as con empo âneas que se deb uçam
sob e Á ica, “Decan ing he Pas : A ica, Colonialism, and he New Po uguese No el”, ealça a
di e ença en e as na a i as dos anos 70 e 80 e uma no a ge ação li e á ia que se inicia nos anos
90, no seio da qual se si ua, sem dú ida, F ancisco José Viegas (apesa de apenas Lou enço
Ma ques igu a na bibliog a ia). Segundo a in es igado a, es as na a i as que se cen am no
ema da colonização, abo dam-no essencialmen e sob uma pe spe i a iden i á ia, mas ala gando-
se ao pon o de is a dos colonizado es e, sob e udo, das ge ações nascidas em e i ó io colonial,
e, igualmen e, sob uma pe spe i a de pe ença, sublinhando a longa p esença dos po ugueses nas
colónias e os legados dessa p esença, c iando, des a o ma, um espaço de decan ação – e mo
que, ao eme e pa a a expu gação de sedimen os, nos pa ece mais cla i iden e do que o já
mencionado e isão – a a és do qual a iden idade po uguesa é eexaminada num p ocesso
simul âneo de “ il e ing and se ling memo ies” (2008: 184):
In he ein o he ic ion o he 1970s and 1980s, his ecen body o li e a u e e eals a p eoccupa ion, i
no obsession, wi h memo y and ememb ance. Ye , in he new no el memo y is ac u ed by he ensions
among hose who emembe . Mo eo e , while he hema ic oci o he 1970s and 1980s we e wa ,
edemp ion, and ca ha sis, in he new no el impe ial agen s and he hemes o iden i y, legacy, and decay
s and a he cen e . (…)
Mainly h ough ic ional o ms o li e-w i ing, he new no el e isi s A ica and he colonial si es o ilial
memo y in an a emp o decan Po ugal's colonial pas . Many con empo a y w i e s do so by ejec ing a
uni y o pe spec i e and hus in es ing in na a i es o he sel – ic ional au obiog aphies, biog aphies,
memoi s, and dia ies – as a means o eco e pa icula e sions o colonialism. (idem: 191-192)
De ac o, nos omances de Viegas que acabámos de abo da , a memó ia, ou melho , as
memó ias, i ão desempenha um papel undamen al enquan o elemen os de con li o, aba cando
pe spe i as múl iplas e di e sas, en e um Po ugal colonial e pós-impe ial, e, ao mesmo empo,
uni á ios, en ando na a his ó ias, es abelece biog a ias. Mas, sob e udo, dando con a de
iden idades ambi alen es, híb idas e des-locadas, ao en a aça os pe cu sos daqueles cujas
idas se en ec uzam en e Po ugal e Á ica, en e um país colonizado e países colónias, e en e
países de egimes democ á icos e li es. Po ugueses, angolanos ou cabo- e dianos, odos eles
ambém são, con ocando a imagem de Ana Paula Cou inho Mendes, a um só empo, es angei os
ín imos, anco ados ou à de i a numa e cei a ma gem.
Podemos, assim, conclui que, al como nas na a i as de gue a, a memó ia da gue a
colonial e, sob e udo, a memó ia po uguesa de Á ica nos omances de Viegas cons i uem o
pon o de pa ida pa a uma econ igu ação da iden idade po uguesa e pa a uma e lexão sob e “o
84
modo eu opeu/po uguês de es a em Á ica (pa icula men e no c epúsculo do impé io)”
(Ribei o, 1998: 149), mas, p incipalmen e, e nes e pon o des iam-se ni idamen e das na a i as
de gue a, “peças indispensá eis pa a en ende o modo de es a hoje em Po ugal” (ibidem) e que
ligações ou pon es pode á Po ugal es abelece com as suas ex-colónias. “Que Po ugal se pode
imagina a pa i daqui?” (ibidem) é a ques ão colocada po Ma ga ida Cala a e Ribei o no inal
do seu ensaio de 1998, “Pe cu sos A icanos…” e a que os omances de Viegas p incipalmen e
ilus a ão e equaciona ão. Reg essemos no amen e a Longe de Manaus onde, a a és da igu a de
Ál a o Se e iano Fu ado, se es abelece o iângulo Po ugal-Á ica-B asil, ao mesmo empo que
se ope a uma pon e en e uma elha isão dada pelas elações en e a me ópole e as ex-colónias
e uma no a isão ol ada pa a o p esen e (e u u o) e pa a a he ança de uma memó ia his ó ica e
cul u al comuns.
B asil
Tal como Angola e Guiné-Bissau, ambém o B asil, e especialmen e a capi al da Amazónia,
su ge como um espaço de memó ia anco ado no passado, não só po uguês, mas igualmen e
b asilei o. Po ugal, como e emos, é apenas uma pa e de uma ealidade mais as a que
comp eende ou os po os e ou as his ó ias. Toda ia, ao con á io do espaço a icano, há o
impe a i o de uma deslocação ísica ao B asil,
97
como se a e isi ação desse passado não osse
possí el sem uma p esen i icação, como se se a asse de um passado e de uma memó ia já mui o
longe e escondidos, como se Manaus e o B asil ossem uma espécie de sonho que se e e num
passado mui o emo o e do qual já ninguém se lemb a, o que suge e, desde logo, uma maio
ap oximação en e Po ugal e Á ica do que en e Po ugal e o B asil.
98
De ac o, e apesa de um passado comum, o B asil su ge como uma ealidade dis an e e
desconhecida, com con o nos des ocados; e, di -se-ia que só a a és de uma edescobe a
consegui emos hoje alcança um B asil despido de mi os c iados pa a nos econ o a e
eng andece , de um ex-impé io imaginado, longe do cunho colonialis a e do imaginá io c iado
97
Na e dade, o B asil su ge como uma espécie de des io na in es igação, já que a e elação se encon a a
p ecisamen e Longe de Manaus, como o p óp io í ulo o indica. Jaime Ramos desloca-se ao B asil mais po uma
obsessão biog a is a, pa a pode pene a na in imidade de Ál a o Se e iano Fu ado e inalmen e acede à sua casa,
já que o apa amen o em San o O ídio e a apenas uma base, um e úgio, apesa de se aí que ele ai encon a a
o og a ia que o le a á a elaciona Ál a o Se e iano Fu ado com Ri a Pe ei a Gomes, se bem que nunca se chega a
sabe de onde eio exa amen e essa o og a ia. Po ou o lado, epa e-se que o de e i e não i á p ocu a Salim, apesa
de e ido a Educandos, essa é uma ou a his ó ia que não cabe nas obsessi as buscas de Jaime Ramos.
98
E é na u al que assim seja uma ez que Á ica, como imos, sonhada ou eal, é um e i ó io bem í ido e p esen e
no imaginá io po uguês, ou, pelo menos, numa pa e signi ica i a da população po uguesa.
85
em o no da igu a do b asilei o, mas ambém do “b asilei o”,
99
esul an e da in ensi a emig ação
po uguesa pa a o B asil po ce ca de um século, e mais pe o de uma ealidade con empo ânea.
Como sublinha Edua do Lou enço, o B asil “há mui o que não az pa e da nossa icção i ida,
mas ele a do pu o mi o. Há mui o que sabemos e que acei amos que o B asil é um ou o, mesmo
quando o pensamos, pa a e o ço da nossa iden idade oní ica, como o ou o sublimado de nós
mesmos” (2004: 117). E Viegas a i ma es e e e i o desconhecimen o mú uo a a és de uma
elação que oscila en e a ap oximação e o a as amen o, cons uída na base de um passado, de
uma cul u a e de uma língua simul aneamen e comuns e di e sos. Des a o ma, apesa de odos
os emig an es, da mi ologia amilia de mui os po ugueses, das inúme as p esenças b asilei as
em Po ugal e po uguesas no B asil, u ge e o B asil com um no o olha que não se p ende com
um empo passado, mas, sem o escamo ea , essencialmen e com um empo p esen e. Do passado,
dep eendemos de Longe de Manaus, apenas gua damos uma imagem exó ica, des ocada,
desconhecida e silenciada, como o suge e simbolicamen e a igu a do io-a ô Diniz Ramos que
emig a a pa a o B asil e aí desapa ece a, dissol endo-se e diluindo-se numa e a es anha:
Ele não sabia se inha an epassados i os no B asil mas e a p o á el que ainda i esse, pelo menos um
io desapa ecido, um io que enlouqueceu no meio de p e as do Pe nambuco ou que se pe deu pa a semp e
nas on ei as do Pa á, não sabia. Mas inha. Ti e a. No B asil desapa ece-se equen emen e, é da
adição, há his ó ias an ás icas que passam de ge ação em ge ação e compõem a mi ologia amilia . Ele
conhecia os nomes: Pa á, Ma anhão, Amazónia, São Paulo, Rio, Minas Ge ais, Ma o G osso, Bahia. Há
semp e um io dis an e que oi pa a o B asil, uma e a de ugi i os, de emig an es an igos, de eg essados
a uma quin a do Minho ou a uma aldeia nas mon anhas. (…) Dizia-se que enlouquece a. Ou i a ala dele
mais algumas ezes, alguém le a uma ca a que chega a do Rio de Janei o. Pa á e Pe nambuco e am
imaginação pu a. O io i e a no Rio de Janei o, ninguém sabia se es a a i o ou se mo e a indigen e,
pob e como os pob es do B asil, ou elho e abandonado po uma mulhe mais jo em que lhe ouba a as
con as bancá ias – um cená io mui o di e en e daquele e a o dos po ugueses que en iquecem e con am
a en u as do Rio de Janei o. Caí a sob e o io uma poei a de silêncio que ninguém se a e e a a sop a . E
ele sabia que não e a assun o seu. E a mui o a de pa a e p oblemas amilia es. (Viegas, 2005: 222-223)
Conse am-se algumas ca as dos anos seguin es e en iadas de São Paulo. E am en elopes ama elos ou
ama elados que nunca inham sido asgados e a que nunca o am e i ados os selos, ucanos, á o es da
Amazónia, a a as, ios, o e a o do Impe ado , o os o de Juscelino Kubi schek, ba cos, San os Dumon e
os p imó dios da a iação, índios seminus. (Viegas, 2005: 226)
Recuando a um passado comum, um passado ainda colonial, o omance ab e com uma
epíg a e de James Mu phy de T a els in Po ugal, de 1795, dando con a das melho es ligações
en e a me ópole e a en ão colónia b asilei a, em con apon o com a ealidade que se azia sen i
den o do p óp io país: “Um po uguês pode e a um na io pa a o B asil com menos di iculdade
do que lhe é p eciso pa a i a ca alo de Lisboa ao Po o”. Não c emos, oda ia, que es a epíg a e
enha como p opósi o acen ua um passado supo ado po uma elação en e me ópole e colónia,
mas an es e idencia a necessidade de c ia elos de ligação en e os dois países, diminuindo as
99
Emig an e po uguês no B asil que e o na a Po ugal e aí se ins ala de ini i amen e, ge almen e olhado pelos
po ugueses com desp ezo e i onia.
92
amília ie am econhece uma ou ou a, mas que iam sabe se inham dinhei o com elas, em
algum lado, numa bolsa, numa mochila, na calcinha, no sapa o. Mais nada. São pu inhas de
Manaus” (idem: 272). Des a o ma, o “mi o sola ” do B asil cai po e a e o que es a é um B asil
da mons uosidade e abe ação, desajus ado, sem sen ido.
106
Ao olha de Jaime Ramos, o B asil a igu a-se, assim, como um enigma, uma e a que
simul aneamen e se conhece e desconhece, um país de con adições e abismos, imp ecisões e
di e sidades e cuja o alidade não pode á se aba cada, pois nunca pode emos alcança uma
imagem ixa do B asil, mas apenas islumb a a iadíssimos e lexos. Es a inde inição de uma
e a mó el, lu uan e e imp ecisa é ainda e o çada simbolicamen e po Osma San os, uma
pe sonagem cuja p óp ia his ó ia é mis e iosa, inde inida, aga e con usa. Mãe índia, pai á abe,
caboclo po an o, Osma ai con ando a sua his ó ia e dos seus an epassados a Jaime Ramos,
al e ando e sões, ac escen ando po meno es, eliminando ou os:
«Mas ocê é libanês ou índio?»
«Não in e essa, isso oi um negócio en e minha mãe e meu pai e ha ia ainda o ac o de D. Ped o II
sabe ala á abe. Mas olhe pa a eles. Libaneses como eu, Ramos, êm an epassados que e am masca es e
inham sido pas o es lá no sul do Líbano. Se chamam Yusse , Fadil, Malik, Khalid, Ra iq, Nazim, ou
nomes assim. Meu nome de e ia se Oma , mas icou Osma po dis ação. Algumas mulhe es da amília
deles são p imas da minha mãe, Madiá, Jawad, Fá ima, Riana, A ub. Minha mãe é o esul ado de um
ex ao diná io c uzamen o en e um bisa ô á abe, cump ido de suas ob igações eligiosas, e uma mulhe
gen ia, po uguesa a icana inda do Ma ocos no século dezoi o. Ac edi a? Sua amília inha de
Mazagão, no Ma ocos po uguês e inham um assen amen o na sel a. (idem: 297)
Meu pai me con ou seis his ó ias di e en es de minha amília, ao longo da ida. Poupa ei ocê. São mui as
his ó ias, his ó ias de mais. Os únicos po meno es que con e em em odas elas são os nomes dos meus
a ós, os dos meus pais e o meu. O nome da minha i mã ambém a ia a bas an e. Ainda hoje não sei se a
minha amília em de Damasco ou de Amã. Ou de Bei u e. Sei agamen e que chega am. (idem: 274)
Espécie de sibila, a sua his ó ia p ende-se e pe de-se com a his ó ia de Manaus e, po ex ensão,
do B asil, em aízes libanesas ou sí ias ou jo danas, apon ando pa a uma iden idade aga e
híb ida,
107
cujas aízes se ão en elaçando e dissol endo, al como a iden idade do p óp io po o
b asilei o:
Manaus, delegado Ramos, é uma e a de exilados. Po ugueses ugidos da jus iça ou à Inquisição (…).
Á abes ugindo à pob eza ou ao me cado limi ado de Bei u e. Ou ao dese o. Gen e que quis i e em paz
e que sonhou en iquece com a bo acha e com o comé cio ge al. A bo acha desapa eceu. Ficou o exílio.
106
Signi ica i a des a descons ução mí ica é igualmen e uma ou a passagem onde os hinos po uguês e b asilei o
são e e idos de o ma bas an e i ónica p ecisamen e pela sua não-exp essão de ma cas iden i á ias do seu po o (c .
Viegas, 2005: 277-278).
107
Rele e-se ainda que, em Longe de Manaus, as pe sonagens Daniela e Helena es abelecem en e si uma elação
ambém ela ambígua e pa ecem es a em p ocesso de descobe a da sua iden idade sexual. Em dois omances
an e io es, As Duas Águas do Ma e Um Céu Demasiado Azul, há ambém e e ência a iden idades sexuais híb idas
no iângulo amo oso Rui Ped o Ma im da Luz-Ma a Rod íguez Cano-Ramón ou na ligação en e Au o a Gomes e
Ma ia Amélia Lobo Co eia, que o au o deixa á suspensas, e que se ão e omadas no úl imo omance na elação
en e Olí ia e Béni ou en e Béni e Flo a.

93
Muçulmanos, judeus, sei as c is ãs, uncioná ios de Es ado, e ago a gen e da Zona F anca. Is o é Manaus,
de a o. O es o é indiagem, ba és, passés, a oaquis, ju is e, cla o, os manaus. Tudo indiagem desapa ecida.
(idem: 274-275)
Como podemos comp eende , o B asil ep esen a assim no imaginá io de Viegas uma e a
ainda po acha , uma e a que se conhece pa a se comp eende , a inal, que se desconhece,
po que o B asil ence a em si uma ealidade mui o mais as a do que o imaginá io po uguês e do
que o p óp io imaginá io b asilei o. A sua ep esen ação ele a, pois, de uma na u eza oní ica,
como um sonho que se e e e um sonho que se pe deu, como uma alucinação e uma loucu a
des ei os e de o ados pelas águas neg as do io, como Fi zca aldo, subindo e descendo pelos ios
neg os da Amazónia possuído pelos demónios, como uma a uação de Ca uso ou Callas que nunca
exis iu. Po que, a inal, udo es á longe de Manaus.
***
Após a pe da do impé io colonial que du ou mais de cinco séculos e a libe ação de um
egime de di adu a que se es endeu po qua en a e oi o anos, Po ugal e ia de abdica da sua
ocação a lân ica, esigna -se ao seu pequeno e i ó io na cauda – ou na cabeça, como alguns
de endem – da Eu opa e ol a pa a es a o seu olha . Toda es a conjun u a pa ece e ins alado no
seio da sociedade po uguesa uma c ise de iden idade que se i á espelha de o ma bas an e
in ensa na li e a u a a pa i da década de 80 e que em acen ua a necessidade de epensa ,
eexamina e decan a a culpa e aumas do país ex-colonizado , a in e io idade do país ex-
colónia da Eu opa e as imagens da sua p óp ia ep esen ação que cons i uí am simbolicamen e a
sua iden idade. Vá ios são os esc i o es, c í icos e pensado es que se êm deb uçado nas úl imas
qua o décadas sob e ques ões elacionadas com es a c ise de iden idade, e alguns chegam
mesmo a a i ma que es amos pe an e um excesso de p eocupação com a iden idade
po uguesa.
108
É bem conhecida de odos a posição de Edua do Lou enço ace a es as ma é ias
que de ende que o nosso p oblema não de i a de uma ques ão de iden idade, ou seja, de
nacionalidade ou de insc ição no espaço ísico e cul u al, mas de hipe iden idade, sin oma da
nossa obsessão pelo ema e pela ixação no passado, que, eco de-se, se a a de um passado
mí ico, daí que, po um lado, enhamos di iculdade em pensa -nos em e mos p oje i os, e, po
ou o, a imagem que emos de nós p óp ios não co esponda a uma imagem e dadei a ou eal,
108
A es e p opósi o eja-se, po exemplo, Onésimo Teo ónio Almeida que az uma sín ese dos au o es e es udos
sob e o ema em “A Ques ão da Iden idade Nacional na Esc i a Po uguesa Con empo ânea” (1991). Des e excesso e
sa u ação, eco dem-se igualmen e as pala as de Luísa Cos a Gomes à laia de in oi o a O Pequeno Mundo (1988):
“Lei o ! Es e li o não ala do 25 de Ab il. Não se e e e ao 11 de Ma ço e es á-se nas in as pa a o 25 de No emb o.
Pio , não menciona em luga nenhum a gue a em Á ica. Não e lec e sob e a nossa iden idade cul u al como po o,
o nosso u u o como nação, o nosso luga na comunidade eu opeia. Supo a á o lei o um li o assim?”
94
mas a uma imagem imaginada (c . 1990:10), embo a essal ando que a imagem deco e da
imaginação, assim como, e iden emen e, o p ocesso de c iação iden i á ia. Des a dimensão
oní ica e mí ica nos dá igualmen e con a Isabel Alleg o de Magalhães e e indo-se a uma das
ma cas de ep esen ação do se po uguês: “pa ece es a semp e p esen e nos po ugueses o
inelu á el desejo de um ailleu s, de um ou o luga , esul an e da insa is ação em pe manece
aquém – quem sabe, um aço messiânico, de ma iz judeo-c is ã, que sem dú ida pe meia oda a
cul u a po uguesa” (2002: 173).
Em g ande pa e das pe sonagens que po oam os omances de Viegas, po uguesas ou não,
salien e-se, embo a essencialmen e po uguesas, como imos, a sua ida ambém se anco a
sob e udo na memó ia e no passado – embo a nem semp e mí ico –, e ambém elas acusam,
simul ânea e pa adoxalmen e, uma necessidade de insc ição no espaço e o desejo de um ailleu s.
Assim, as suas his ó ias encon am-se in imamen e ligadas à His ó ia de Po ugal, ou à His ó ia
dos seus países que o am insc i as ambém elas po Po ugal, e a uma sé ie de pa idas e
chegadas. Uma das p incipais imagens dos po ugueses que os omances de Viegas nos dão a e
é a de um po o cujo mo imen o é de pe manen e ânsi o, a essias e pe eg inação, como uma
condenação a uma e ância con ínua e cons an e em demanda de si p óp io e de um sen ido pa a a
ida, mas ambém como uma bênção ou libe ação, “a aleg ia de não e pá ia” (Viegas, 2009:
197). Dando-nos con a de inúme os desen aizamen os, des-locamen os e ex a e i o ialidades
pela ia da in es igação c iminal, encon amos neles imagens do se po uguês sob um olha de
den o, mas essencialmen e sob um olha de o a, a a és de uma sé ie de comunidades-ilhas –
mui as ezes apenas uma ilha –, espalhadas pelos qua o can os do mundo. Sob e es e assun o
gos a íamos ainda de con oca aqui as pala as do au o em en e is a conduzida po Ma co
Pe e i e publicada em 2007 no jo nal i aliano Libe azione, assim como uma ou a passagem de
um a igo do au o já mencionado, “Uma pon e sob e a língua a lân ica”:
[I po oghesi] [ ]i ono una dimensione ex a e i o iale, pe ci a e Geo ge S eine . Sono s a i capaci di
g andi cose, o o i e cose me a igliose. La diaspo a ci ha esi miglio i. Una lezione con o il azzismo,
l’e nocen ismo, l’a oganza della ecchia Eu opa. I po oghesi di Lon ano da Manaus non conoscono il
cen o del mondo, pe che hanno scope o che qualsiasi pos o può esse e la lo o casa. Siamo s a i
mul icul u al p ima del mul icul u alismo a uale. Solo che non lo sape amo. (2007b)
109
Podemos p ocu a es abelece , ao longo da his ó ia do nosso País e da nossa cul u a, o papel dos
es angei ados, dos exilados, e dos emig ados. E podemos, sob e udo, a a és dos seus esc i os, e i ica
como essa dis ância oi saudá el e con ibuiu gene osamen e (…) pa a que nascessem uma ideia de
Po ugal o a de Po ugal, no as ha monias pa a a nossa língua, ou as ideias sob e o passado e o p esen e.
Não se a a, po ém, de cosmopoli ismo. Na maio pa e das ezes, essa ma ca é subs i uída pela
ex a e i o ialidade mais pu a. No mundo in ei o (…) há mui o mais ideias de Po ugal do que os
po ugueses podem imagina . Pa a o p o a , não é necessá io i busca exemplos ao Renascimen o, à
Expansão ou ao século XVIII: o nosso século e, sob e udo, a segunda me ade des e século, o necem
109
Posição semelhan e encon amos numa en e is a mais ecen e, conduzida po Isabel Cou inho pa a o jo nal
Público (c . 2013b: 27).
95
abundan es p o as e casos que dessa pe eg inação que , ambém, dessa ex a e i o ialidade. Acon ece,
po ém, que a ideia de uma iden idade po uguesa não é ecen e – mas a ideia de uma comunidade de po os
que alam a língua po uguesa, espalhada pelo mundo e po á ios con inen es, essa, é no a, ão no a, e
ão es anha, que quase não exis e.
O excesso de iden idade de que padecem os po ugueses ou, pelo menos, o excesso de p eocupações
com a sua iden idade, não é – em g ande pa e – senão o e lexo das p oblemá icas ge adas pela exis ência
dessa comunidade ão as a quan o di e sa. A e dade é que, ao inicia em mais um ciclo eu opeu da sua
his ó ia, depois de 1977, os po ugueses, na sua gene alidade, inham um conhecimen o de icien e dessa
as idão e dessa di e sidade. (1998c: 7)
Re omando o concei o de hipe iden idade p opos o po Edua do Lou enço, Viegas
ans e e-o pa a o domínio da as idão e di e sidade das á ias comunidades-ilhas de
po ugueses espalhadas pelo mundo in ei o.
110
Assim, o que pa ece eme gi dos seus omances
não é an o uma en a i a de esboça aços de iden idade po uguesa, embo a eles nos sejam
o necidos a a és dos di e sos agmen os a á ias ozes que se cons i uem como me onímias de
uma cole i idade, mas an es da con a da sua di e sidade e, mais impo an e ainda, gua da a
memó ia dessa e ância e plu alidade, ans o mando-a ambém em memó ia cole i a. Nes e
pon o, que Osma San os, que Jaime Ramos, assumem-se como pe sonagens ulc ais na medida
em que uncionam como uma espécie de al e -egos da en idade esc i o – eles são, pa a além de
de e i es ou ão-só pe sonagens, colecionado es e con ado es de his ó ias.
111
Como con a Osma
San os a Jaime Ramos, “[ ]enho jei o pa a con a his ó ias e uma g ande capacidade pa a colo i-
las, como os á abes” (Viegas, 2005: 273) e Jaime Ramos a Isal ino em O Ma em Casablanca,
“[e]s a é uma his ó ia de po ugueses que nunca comple a am a sua ida, que deixa am episódios
po con a e que são po ugueses de um impé io desapa ecido. Nós somos os que êm a segui ,
pa a con a a his ó ia comple a, mesmo que não seja a e dadei a” (Viegas, 2009: 228). A es e
p opósi o ale a pena aqui eco da as pala as de Viegas na ce imónia da en ega do p émio da
APE, a que já ha íamos aludido no inal da p imei a pa e, e a que gos a íamos ago a, no im
des a segunda pa e, de imp imi uma no a luz:
Eu esc e o his ó ias. De alguma manei a, imagino his ó ias que me como em e que gos a ia que
como essem os meus lei o es. Se há alguma de inição, em eo ia da li e a u a, pa a o géne o de omance
110
Es a não é a posição de Edua do Lou enço que ale a que a nossa dispe são pelo mundo pode cai na en ação ou
inclinação “de con undi a pa icula idade [da nossa iden idade] com a uni e salidade, o de não se capaz, senão à
supe ície, de se ab i e dialoga com o ou o, o de nos imagina mos na cisicamen e o cen o do mundo, c iando
assim uma espécie de uni e so de e e ências au is as onde nau aga o nosso sen imen o da ealidade e da
complexidade do mundo” (Lou enço, 1990:14) e mais um sin oma da nossa incapacidade de nos pensa mos a nós
p óp ios, emig ando: “O p oblema que emos connosco é en e Minho e Guadiana que se á esol ido, ou não.
P ecisamen e, é a p imei a ez há quinhen os anos que nos es á edado esol e o nosso p oblema, emig ando”
(2009:126). Toda ia, o pensado po uguês apon a a c iação de laços como uma das o mas de lida mos com as
comunidades po uguesas pelo mundo lusó ono: “Tal ez o pon o que buscamos e que engloba na u almen e as ilhas-
comunidades dispe sas pelo mundo se encon e sob e udo na descobe a de no os laços com os po os de exp essão
po uguesa, ão mal explo ados, po enquan o” (ibidem).
111
Como, aliás, um g ande leque de pe sonagens nos omances de Viegas que ão con ando pequenas his ó ias em
agmen os, numa mul iplicação de ozes, olha es e pon os de is a, e que Jaime Ramos ai jun ando, jun ando, a é
desenha o seu e a o inal.
96
que eu gos o de esc e e , ac edi o que se ia essa. E que a ase decisi a se ia essa ambém: “Eu esc e o
his ó ias.” (…) Esc e o his ó ias po que não ac edi o num mundo sem his ó ia, sem memó ia e sem
pe u bação. (2006a)
Os seus omances ilus am, po an o, o ascínio do au o pelas his ó ias de po ugueses
dispe sos pelo mundo, po ugueses da diáspo a com idas mis e iosas e su p eenden es: “[h]á
gen e su p eenden e, não damos nada po ela e um dia su p eendem-nos, i e am em luga es
es anhos, conhece am e angélicos na China, caça am leões, pe de am-se a ol a pa a casa e
nunca mais ol a am, consegui am le Sa amago ou ganha am um p émio de li e a u a” (Viegas,
2005: 201). Assim, al como Osma nos con a a his ó ia de Jaqub Yusse , o endedo de
quinquilha ia que saí a de Bei u e em Julho de 1893, do xeique Yusse , do seu io Suleyman, um
se a di a que ie a de Ma ocos pa a Manaus, de Fá ima, Osma e Ma a, de Yasi , Mil on e Ma a,
e de Salim, de ge ações de á abes, sí ios, libaneses que a a essa am ios e ma es e ie am
e ugia -se em Manaus, Jaime Ramos in en a his ó ias de po ugueses pe didos pelo mundo, a de
Rui Ped o Ma im da Luz, ab igando-se em Finis e a, onde oda a e a acaba, a de Ál a o
Se e iano Fu ado, e ugiando-se em Manaus, a de Jus ino das Ne es Fon ou a, a a essando a
Venezuela e a A gen ina, a de Adelino Fon ou a c uzando o dese o, pe co endo os caminhos do
pai e de um amo pa a semp e desapa ecido, a de Ma iana Se a B i o, exilando-se em
Casablanca, cidade mí ica de á ios encon os e desencon os, luga de diáspo a e, sob e udo, de
espe a de passagem pa a a Te a P ome ida. Mas Jaime Ramos i á con a -nos ambém uma ou a
his ó ia – a dele p óp io. E essa é, em pa e e igualmen e, a his ó ia dos mui os po ugueses
anónimos que nunca emig a am.
97
Pa e III
Te cei o andamen o: Em di eção do abismo. Ou al ez não.
Se me como esse o amo como me como e
a mo e dos que amei, eu i e ia eliz.
F. J. Viegas, Se me como esse o amo
Se é ce o, como ilus ámos na p imei a pa e, que as biog a ias das á ias pe sonagens
cons i uem o e dadei o enigma dos omances de Viegas, não é menos e dade que esse mesmo
enigma, sob e udo a pa i de Longe de Manaus, é concen ado igualmen e na igu a de Jaime
Ramos, cuja unção de de e i e ai sendo esba ida pa a da luga ao mis é io do homem,
ansmu ando-se o de e i e-bióg a o em bióg a o de si p óp io.
112
A ele ância que Jaime Ramos ai g adualmen e adqui indo nos omances é, como já
aludimos na in odução, no ada po Miguel Real que, em dezemb o de 2009 – e após a publicação
de O Ma em Casablanca, o omance sob e Jaime Ramos –, o conside a a pe sonagem mais
consis en e da década da li e a u a po uguesa. O de e i e po uense, como imos ambém,
p ende igualmen e a a enção de al e hugo mãe que a ele eco e, a pa com Isal ino de Jesus,
pa a des enda ês mo es mis e iosas num la de idosos, no seu omance a máquina de aze
espanhóis, que i ia a lume em e e ei o de 2010.
113
Fac o cu ioso é ainda o con essado pelo
p óp io au o , em en e is a ao Jo nal i, a p opósi o do seu úl imo omance, segundo o qual uma
equipa de epo agem alemã o p ocu ou pa a aze uma epo agem, não sob e ele, o au o , mas
p ecisamen e sob e Jaime Ramos (e não podemos, aqui, deixa de eco da She lock Holmes,
pe sonagem lendá ia que ul apassou o seu c iado ): “a ealizado a leu os li os odos e, quando
112
Adenize F anco ala-nos, a p opósi o de Filipe Cas anhei a, Jaime Ramos e Isal ino de Jesus, de he óis
desmasca ados, “enquan o he óis que enca nam a másca a do de e i e (…) ma cados pela ca ac e ís ica do
deslocamen o” (2012: 167), já que o desmasca amen o do assassino é deslocado pa a o desmasca amen o de si
p óp ios. Também Ca los Câma a Leme, na ecensão a O Ma em Casablanca, e e e que encon amos nes e
omance “o las o da ins ospecção de Jaime Ramos à p ocu a de si p óp io, como se esse osse o e dadei o «c ime»
po escla ece ” (2009: 228). No en an o, sublinhe-se, es a é uma ma ca dos omances policiais con empo âneos,
como apon a Vog , onde a ida p i ada e p o issional dos de e i es su ge como uma impo an e linha na a i a (c .
2012: 173-174).
113
Salien e-se que al e hugo mãe, ao homenagea des a o ma F ancisco José Viegas, inco po a Jaime Ramos e
Isal ino de Jesus (nos capí ulos cinco e dezasse e, “Teo ilo Cubillas” e “A máquina de aze espanhóis”, os únicos
onde as maiúsculas su gem a pa das minúsculas, ca ac e ís icas des e esc i o ), ele ando essencialmen e a emá ica
do en elhecimen o, do abandono e do esquecimen o d amá ico e ágico, po que em ida, o ado àqueles de “ eliz
idade” (nome i ónico do la ), já que o seu papel de de e i es não i á se de e minan e pa a o des endamen o dos
c imes.

98
chegou, disse que não que ia aze um documen á io sob e mim, mas sob e o Jaime Ramos. Foi
di e ido po que omos e a casa dele, (…) os sí ios onde ele ia às comp as” (2013a, 39), ela a-
nos Viegas. O esc i o dá-nos ainda con a do conhecimen o minucioso e de alhado de alguns dos
seus lei o es ela i amen e ao de e i e, mesmo quando ele, o au o , se esquece desse mesmos
de alhes, ac o já e e ido em algumas das suas en e is as e que o ob iga, enquan o bióg a o de
Jaime Ramos, a e egis ados, num cade ninho, odos os po meno es que dizem espei o à sua
ida.
114
Desde o seu nascimen o, em 1991, em Mo e no Es ádio, a é ao úl imo omance a é ago a
publicado, O Colecionado de E a, o lei o con i e á com Jaime Ramos ao longo de mais de
duas décadas,
115
acompanhando as suas in es igações e deambulações, iniciando-se nos seus
iques e manias, p imei o, con i endo com a sua c escen e in ospeção, depois, e pe seguindo,
nesse a o, a sua p óp ia biog a ia, ou, di -se-ia, pseudoau obiog a ia. Desse pe cu so nos
ocupa emos de seguida nes a úl ima pa e do nosso abalho.
Jaime Ramos mo a no p imei o anda esque do de um apa amen o na Rua Ba ão de No a
Sin a, uma ua anónima e sem his ó ia, jun o ao bai o de Campanhã, ideal pa a um homem
ambém ele anónimo e, apa en emen e, sem his ó ia. Con udo, pa ece se p ecisamen e es a
dimensão au ên ica, eal ou o diná ia um dos a o es que alimen am a p oximidade en e Jaime
Ramos e os seus lei o es. De ac o, não é di ícil a qualque um de nós, lei o es de Viegas,
imagina -nos na pele de Jaime Ramos. A sua essência ele a, pois, não de um he ói, nem mesmo
de um an i-he ói, mas de um comum e ulga mo al. Não há nada de ex ao diná io nele, um
pequeno-bu guês conse ado , cé ico, cínico e pessimis a, como an os po uenses, en e gando
“blusões de ecido de gaba dina azul ou c eme, de In e no ou de Ve ão, com os bolsos
ans o mados em humidi icado es de cha u os” (Viegas, 2005: 52), e um simples inspe o da
Policia Judiciá ia que subiu a pulso na hie a quia da ins i uição, como an os ou os, depois de
uma b e e passagem no Banco Pin o de Magalhães e da inda da Guiné: “ o a agen e, che e de
114
O p o agonismo e idenciado pelos de e i es é ambém isí el nas p óp ias edições dos omances: epa e-se que
em odos os omances publicados pela chancela da Asa (com exceção de Um C ime Capi al que su giu sob o o ma o
de bolso) su ge, após o í ulo, a exp essão “Uma in es igação dos de ec i es Jaime Ramos e Filipe Cas anhei a”,
acompanhada po duas silhue as que ep esen am os dois de e i es. Si uação semelhan e obse a-se igualmen e nas
edições alemãs e i alianas. Salien e-se, con udo, que, ao mesmo empo que e le em o in e esse o a de Po ugal em
conhece -se o policial po uguês como, aliás, o a es a o í ulo alemão De Le z e Fado (O Úl imo Fado) com que oi
publicado Um Céu Demasiado Azul (a es e p opósi o, eja-se a en e is a conduzida po José P a a em 2003), es a é
ambém uma e idência do p o agonismo dos de e i es na icção policial con empo ânea que apos a na dimensão
pessoal e humana do he ói.
115
No e-se que esse pe cu so, em e mos diegé icos, e á uma du ação de sensi elmen e dez anos, desde os 45 anos
de Jaime Ramos em Mo e no Es ádio (c . Viegas, 1991: 39) aos 56 em O Colecionado de E a (c . Viegas, 2013:
126).
99
b igada, subinspec o e, inalmen e, há dez anos, o a nomeado inspec o depois de e
equen ado alguns cu sos” (Viegas, 1995: 116).
É nes e seu e úgio, “ligado ao mundo po um ele one que se abs inha de usa mui as
ezes, uma caixa de co eio e uma po a de en ada e de saída com pouco uso, ambém, po que
a amen e inha isi as e, às que ecebia, da a semp e um a de excepção” (Viegas, 1991: 36),
pa a onde se muda a depois do seu p imei o di ó cio e de uma casa pa ilhada em Vila No a de
Gaia, que Jaime Ramos i á conhece Rosa, uma sua izinha do anda de cima e com quem i á
man e uma elação du adou a mas nunca in ei a, ao mesmo empo ín ima e dis an e, empenhada
e descomp ome ida, cúmplice e soli á ia:
Não pa ilha am amigos, conhecimen os ou amílias. Vi iam o a do empo de cada um deles, da am o
que inham, numa espécie de elação zangada e desencon ada, pul e izada pelo in e esse em negocia a
ca ne de cada um, num desa io quase pe manen e de se ul apassa em a si p óp ios em imaginação, delí io,
pe da de on ade, de p aze , de au onomia. (...)
T ês anos inha es a ida, sem desa ios, sem up u as. E a apenas uma elação pausada, de inida pela
on ade e pelo desejo de co upção das suas p óp ias idas, en egues ao des ino de celiba á ios,
o icialmen e, e de aman es ince os, delicados e sensuais, em e mos pa icula es, que e am os únicos
admi idos en e eles. (idem: 39-40)
É ambém pa a esse espaço que Jaime Ramos con ida alguns dos seus amigos – Filipe
Cas anhei a, Rami o, Jo ge Alonso – pa a quem cozinha, numa e dadei a homenagem à
p esença, à lealdade e à amizade que subsis em ao longo do passa dos anos.
Que Adenize F anco, que Miguel Real, que Pie e-Michel P an ille sublinham
p ecisamen e os aços comuns, banais e o diná ios de Jaime Ramos, classi icando-o, a p imei a,
como he ói desmasca ado, como imos em no a an e io , como an i-he ói, o segundo (c . Real,
2012: 126), e como um híb ido he ói/an i-he ói, o e cei o (c . P an ille, 2012: 282). Se
conco damos com odos no p imei o pon o, ou seja, com a a ibuição de um ca ác e banal e
ulga a Jaime Ramos, já a classi icação como he ói ou an i-he ói p o oca-nos algumas ese as.
De ac o, se en ende mos os concei os de he ói ou de an i-he ói imbuídos de cono ações
alo a i as, nem um nem ou o pa ecem espelha Jaime Ramos que nem se assume, como imos
na p imei a pa e, como modelo é ico, mo al ou génio iun al no des endamen o dos c imes, de
quem he da o pendo e a is a e psicológico dos luga es e pe sonagens de um Maig e ou Poi o
ou a ace a de bon i an de Ne o Wol e ou Pepe Ca alho, nem pa ilha das ca ac e ís icas do
ha dboiled de ec i e, com exceção pa a o ce icismo e melancolia he dados de Ma lowe. De ac o,
Jaime Ramos es á mui o dis an e da imagem do ca alei o e an e em demanda da jus iça e da
mo al e da e elação de uma sociedade só dida e mesquinha, embo a ela ambém es eja p esen e,
mas mais como e a o que como denúncia. Aliás, o p óp io au o salien a di e sas ezes es a não
iden i icação com o modelo do an i-he ói ame icano o nado cliché. En e os inúme os exemplos
100
que pode íamos con oca , sublinhemos apenas uma passagem que conside amos bas an e
exempli ica i a e que e ela que a sua dimensão de oyeu não es á imune a um ce o pudo e
ese a pe an e o ou o: em Longe de Manaus, o de e i e, ao inqui i Fá ima, namo ada de
Co sá io e p os i u a numa casa de al e ne, diz-lhe: “Eu não enho nada a e com a mo al, nem
sou juiz” (Viegas, 2005: 240), asse ção logo imedia amen e seguida pela seguin e conside ação
em jei o de monólogo: “Ia a dize «eu não sou polícia», mas ele e a polícia, sim” (ibidem).
Po ou o lado ainda, se en ende mos o concei o de he ói despojado de cono ações
alo a i as, conside ando-o segundo uma “concepção an opocên ica da na a i a” (Ceia/Lopes,
2000: 193), apenas O Ma em Casablanca, pode íamos a i ma , espelha es a cen alidade de
Jaime Ramos, já que ele assume um papel bas an e passi o ao longo dos dois p imei os omances
(salien e-se a p eponde ância de Filipe Cas anhei a, que em e mos de e lexão exis encial, que
em e mos de in es igação dos c imes e das biog a ias dos mo os) e, em Longe de Manaus, que
pode íamos classi ica p ecisamen e como um omance de pe sonagens, não é ácil es abelece
esse p o agonismo ou cen alidade, di iculdade pa a a qual ambém con ibui o ecu so nos seus
omances a um na ado omniscien e, como e idenciou Paul Cas o em “’Ainda bem que
chegas e’…”:
In Viega’s no els an omniscien hi d pe son na a i e oice is used, c ea ing he sense o an all-inclusi e
ableau in which Cas anhei a and Ramos a e no undamen ally di e en o supe io o he cha ac e s hey
ques ion and a e subjec o and a ec ed pe sonally in simila ways by he same o ces (2006: 128).
Como podemos dep eende , a a ibuição de aços he oicos ou an i-he oicos a Jaime Ramos
despole a mui as dú idas e não é de ácil consenso. No en an o, a sua cen alidade pa ece se
inques ioná el já que, nos úl imos cinco omances, apesa da plu alidade de ozes que os
omances nos o e ecem, é ambém essencialmen e a a és do seu olha que emos e lemos o
mundo. Po ou o lado, a sua essência pa ece ele a an es de um an i-he ói ágico, um encido
da ida cuja agédia ad ém de odas as idas i idas a a és dos ou os e de oda a ida que não
se i eu, como i emos mos a ao longo des a e cei a pa e.
De ac o, a sua casa, de que conhecemos, é ce o, alguns po meno es – uma cama que
ange, uma cadei a de lona ama ela numa a anda que dá pa a um pá io, um so á, alguns li os
que o ajudam a passa o In e no, uma ep odução de Hoppe –, pa ece es a sob e udo p eenchida
po uma g ande ausência, ausência de si mesmo e dos mo os que, não obs an e, com ele
con i em. Há, na e dade, a sensação de que Jaime Ramos apenas i e obsessi amen e a ida
dos ou os, dos seus mo os, de al o ma que, mais do que a ideia a que alguma c í ica
jo nalís ica e en e is as êm aludido de um Jaime Ramos como um al e -ego de F. J. Viegas, nos
pa ece pe inen e a ideia de um Jaime Ramos, que “sabia mais da ida dos ou os do que da sua”
101
(Viegas, 2009: 110),
como al e -ego das á ias pe sonagens sob e as quais ai açando
biog a ias incomple as, imaginadas e in en adas, como uma espécie de demanda de um sen ido
pa a a ida e pa a a sua ida:
Is o e a o que acon ecia equen emen e a Jaime Ramos: i e a ida dos ou os como se osse a sua e
como se pa icipasse da ida dos que não es ão ali sen ados, à sua en e, con ando como as coisas se
passa am, passo a passo, dia a dia. (…) Ele e a um bióg a o de ausen es e de desapa ecidos, de mo os, de
somb as, de gen e que conhecia mal. Podia esc e e a biog a ia de mui os deles, de gen e que amou em
silêncio, que odiou com mé odo, que de es ou com aplicação, que admi ou com a e icácia de um cép ico
ou com a ulga idade de um obse ado (idem: 206).
E, pode íamos ac escen a , um esquecimen o de si mesmo: i e a ida dos ou os é uma
o ma de não i e a p óp ia ida. Ele p óp io, aquando da in es igação da biog a ia de Ál a o
Se e iano Fu ado, chega a exp essa o desejo de se como os seus mo os, sem biog a ia: “Eu
gos a a de e uns anos assim, anos sem his ó ia, sem documen os, nem papéis, nem con as
bancá ias. Nem biog a ia” (Viegas, 2005: 380). Con udo, ele e-se, i e a ida dos ou os é
ambém i e mui as idas: en e a ida i ida e as idas imaginadas, a p ojeção do eu nos
ou os pe mi e-nos igualmen e, como o izemos já na p imei a e segunda pa es, equaciona a
igu a de Jaime Ramos como um al e -ego da en idade esc i o . Des a o ma, o mundo de Jaime
Ramos é ans e ido pa a um mundo de paixões, inganças, aições, c imes e mo e. Não o dos
casos de cola inho b anco, c imes limpos, ios, b ancos e me ódicos, mas dos casos passionais,
de i os a queima- oupa, de cadá e es po iden i ica , de co pos e idas anónimos que não deixam
as o, de c imes sem impo ância pa a os con ibuin es, edu o dos elhos in es igado es:
«Ramos, elho Ramos», um dos di ec o es olhando-o da po a. «Gos a do chei o dos seus mo os?»
Ele so i a, so i a apenas um pouco, meio encos ado à po a, segu ando as olhas de um p ocesso.
Jaime Ramos nunca lhe esponde a, mas a e dade é que sen ia saudade, saudades dos seus mo os an es
de a ele isão e banalizado o homicídio, ulga izado a mo e, os cadá e es po iden i ica , egados com
gasolina e incendiados num pinhal den o de um ca o oubado nos subú bios, em E mesinde, S. Mamede
de In es a ou Fânze es. E inha saudade de casos passionais, dos locais do c ime, dos casos que não
inham nos jo nais e lhe deixa am empo pa a p ocedimen os i egula es, decisões a iscadas, desleixos
inquali icá eis, p ocessos sem explicação. (Viegas, 2009: 49)
Toda ia, e apesa des a en ação, encon amos em Jaime Ramos a necessidade de se
sal agua da e p o ege des e mundo, de p ese a um pouco de si pu o e in ac o, daí a paixão
pela cozinha, pelos cha u os, pela ce eja, pelo u ebol, pelas mad ugadas de pesca na ia de
A ei o, e que ele am de dois aspe os undamen ais: po um lado, eme em-nos pa a um pendo
hedonis a dos pequenos e simples p aze es da ida e pa a a ecupe ação de um passado, de um
mundo e de uma adição que se es ão len amen e a pe de – “ hey a e endu ing gua an o s o
iden i y and alues in a dehumanizing, disin eg a ing oo less wo ld” (Cas o, 2006: 136); po
ou o, su gem sob a o ma de e úgio, edu o ou simplesmen e obsessão, a que o de e i e se
108
(idem: 68), é sob e udo um encido da ida, de oda a ida. A us ação, o desencan o, o
ce icismo, o pessimismo são es ados de espí i o que domina ão es a pe sonagem em odos os
omances, que se assume como um alhado em á ias si uações e que en a li a -se da nos algia
e do acasso do passado, “como de uma o og a ia que se a anca da pa ede” (idem: 220). Logo
no p imei o omance em que su ge, Jaime Ramos admi e o seu acasso no casamen o: “Também
alhei no casamen o, se é que não se alha semp e em alguma coisa do casamen o” (Viegas, 1991:
163); em As Duas Águas do Ma , quando Isal ino lhe elemb a que ele já se inha di o ciado,
Jaime Ramos não hesi a em eplica : “Mas eu não sou ninguém, Isal ino. Sou um mau exemplo.
Falhei em udo. Bom, em quase udo” (Viegas, 1992: 255); e, em O Ma em Casablanca, assume,
pe an e Rami o, odo o acasso da sua ida – “Sou um alhado” (Viegas, 2009: 201) –,
elemb ando os empos quando eg essa a de Bissau, o seu en ol imen o e o comp ome imen o
com o pa ido, o casamen o b e e e logo des ei o com Emília, o abandono do banco.
Jaime Ramos é ambém um de o ado pelas insónias, pelos pesadelos, pelo cansaço, pela
idade e pela doença, já en e is as nos omances iniciais e que se ão adensando à medida que o
empo ai passando e Jaime Ramos ai en elhecendo.
123
Repa e-se como, em Longe de Manaus,
a exp essão “I -me embo a” ecoa como uma cadência que não lhe sai dos ou idos, acusando um
imenso cansaço de um homem que já não é o mesmo, que em pena de si mesmo, com do es
inespe adas que o ameaçam a meio da manhã, quando se le an a da cadei a, quando sobe
escadas, quando se ajoelha dian e dos seus mo os, um AVC que o su p eende a meio de uma
in es igação, a meio da ida. São á ios os monólogos in e io es que Jaime Ramos ai man endo
consigo mesmo em jei o de au ognose, e lexões que azem pa e de uma e lexão maio e que se
p ende com a ida oda, com uma ida in ei a po cump i ou com uma ida oda que não se
cump iu, com, a inal, uma me ade de ida:
Ele não espe a a uma ida pe ei a, nem seque uma ida melho . Nem seque uma ida. Bas a a-lhe
aquela me ade de ida, lu a em o no de mialgias, do es nos músculos, e ib omialgia, a sensação de
adiga que em com a idade e do es que ninguém sabe de onde êm. «São sínd omes complexos», disse o
médico, «às ezes ica-se sem ene gia, à noi e não se consegue do mi , há sonhos, e ado mece-se e ol a-
se a aco da .» (Viegas, 2005: 363)
Ele p óp io con essa a Isal ino: “Um homem (…) de e ap ende a en elhece e a pe cebe que o
seu empo passou. Se en elhecemos bem é po que somos elizes, ou omos elizes quando
começámos a en elhece . É a g ande a e. A única coisa em que ale a pena se -se mui o bom,
ealmen e bom” (Viegas, 1992: 255). Con udo, “[s]e olhasse bem pa a a sua ida pode ia
123
Des e en elhecimen o é signi ica i o um sem-núme o de passagens em odos os seus omances que não amos
ep oduzi aqui, mas gos a íamos de e oca , a í ulo de exemplo, a in idelidade com Vi ó ia, em Um Céu Demasiado
Azul, que lhe az sen i que ela lhe de ol e, po uma noi e, uma ju en ude que se es á a pe de .

109
pe gun a , «o que izes e a é ago a?», e não e ia espos a nenhuma a da ” (Viegas, 1991: 192).
Como se a ida que lhe i esse passado ao lado, dis aído:
po que Jaime Ramos se sen iu, sen ado em en e de Helena Lopes, in adido po uma dep essão miúda,
ligei a, a do agudíssima de quem chega a asado à sua ida e a ê ep esen ada na dos ou os, os que
amam, os que se apaixonam, os que sac i icam a e dade aos seg edos que p ocu a a des enda e e ela
como uma ameaça e um alí io (Viegas, 2001: 89)
Ao longo dos anos cho e a bas an e nas colinas a ás deles, em Ce ei a, Moledo, Vila P aia de Ânco a, e
ha ia zonas onde os pinhais a de am du an e o Ve ão, deixando à is a ochedos eneg ecidos no al o da
se a. Ha ia lo es as. Á o es em que nunca epa a a. E, se ha ia uma sensação de pleni ude, ou ele não a
conhecia ou semp e a i e a e não se de a con a da sua exis ência. Es e e ocupado com ou as coisas.
Ha ia um caso, ou o caso, uma in es igação. E a um mau polícia, e a um homem dis aído. (Viegas,
2005: 443)
Acusando mesmo a necessidade de si p óp io: “Lemb as- e dis o ago a, po quê? Lemb as- e da
ua ida ago a, po quê? Po que enho a sensação es anha de p ecisa de mim p óp io, uma
sensação ão g ande de cansaço, que udo me lemb a o im de a de à bei a do io há mui os anos”
(Viegas, 2001: 180).
A passagem do empo e o en elhecimen o con ibuem, des a o ma, pa a um
ensimesmamen o cada ez mais o e e pa a a in ensi icação da melancolia, “a p imei a e mais
aguda exp essão da empo alidade” (Lou enço, 1999: 92).
124
É en ão que as imagens e os sonhos,
inespe ados, su p eenden es e ugidios, o ão assal ando uma e ou a ez, cada ez mais ezes.
Rele e-se a dimensão que os sonhos adqui em em O Ma em Casablanca, ou os capí ulos 31 de
As Duas Águas do Ma ,
125
o 23 de Longe de Manaus ou o 32 de O Ma em Casablanca, onde as
imagens esco em e es alam ab up amen e, condensando uma ida in ei a – “A ida oda, ão
cu a. A ida oda, ão longa” (Viegas, 1992: 243), ecoando como um e ão ao longo da sua ida,
“A minha ida oi ão longa, ão b e e” (Viegas, 2009: 141). A al pon o que, a dada al u a, Jaime
Ramos su ge como um homem ence ado em si mesmo, “limi ado a memó ias” (Viegas, 1992:
79) e a eco dações, “qualque coisa que já não o emociona a nem lhe ac escen a a g ande coisa
à biog a ia” (idem: 80), mas que dói, e e e magoa, como uma e ida semp e abe a:
Aos cinquen a anos, a nos algia e e como uma lâmina quase mo í e a, as lemb anças magoam mais do
que libe am. Acon ece a odos – dedicamos às lemb anças uma espécie de medo ou de ap eensão, po que,
ao albe gá-las e ao alimen á-las, podemos pe de udo de um minu o pa a o ou o. Sob e udo o equilíb io.
(Viegas, 2001: 179)
124
Sob e a melancolia, eja-se o já mencionado “Mou ning and Melancholia” de S. F eud, assim como os ensaios de
E. Lou enço já e e idos na no a 76 a p opósi o de Filipe Cas anhei a.
125
C . pp. 239-243. Fe nando Mendonça acen ua aqui a p oximidade en e Jaime Ramos e o lei o , e e indo-se a
es a sucessão de imagens como “segmen os que pode iam pe ence à ida de qualque mo al. Di ícil o lei o não
associa esses segmen os à sua expe iência pessoal” (1996: 305).
110
Que eco dações e doem mais? P ocu a bem no passado, há semp e um comboio que a a essa um
caminho en e as mon anhas, uma do que sen es e que não exis e em nenhum ca álogo, em nenhum
momen o da ua ida. P ocu as e não ês. (Viegas, 2009: 87)
E que es ão lá pa a acen ua que o excesso de memó ia aumen a ambém a p oximidade da mo e,
ideia semp e p esen e e que su ge já no omance inicial, po que a memó ia ambém ma a:
Sabia que as pessoas mo em na u almen e, mui o elhas. Têm memó ias de mais e não podem
supo a a memó ia du an e mais empo, po isso mo em. (…) Um dia emos a cabeça mui o cheia de
his ó ias, de eco dações que nos en is ecem, de aleg ias que acaba am. En ão mo e-se po que as
memó ias já são maio es que nós p óp ios e não é possí el sabe udo sem que se mo a. (Viegas, 1989:
95-96)
Assim, com a passagem dos anos e das es ações, “ele apenas se o na ia mais cép ico, mais
in eliz e mais soli á io como as pessoas sozinhas” (Viegas, 2009: 68). E o que es a é uma imensa
e ín ima solidão que se aga a às pa edes da nossa ida. E o medo de mo e sozinho, “que é
aquilo de que hei-de e medo semp e” (Viegas, 1991: 76). Mas ambém o p aze de se sozinho,
de uma solidão que ida e desejada, como apon a Miguel Real (c . 2012: 123), que se insinua
como um espaço in e médio en e a p esença e a ausência. No e-se como eco da, comen ando-as,
as pala as de Emília, sua ex-mulhe :
«Vais mo e sozinho.»
Ele mo e ia sozinho. Ele se ia Jaime Ramos, aquele que ai mo e sozinho, aquele que se despede
sem que ninguém saiba. Se ia Jaime Ramos, aquele anónimo que i ia numa ua sem his ó ia. O único
agmen o de his ó ia pe encia a Rosa, não a ele. Ele e a um objec o lu uan e, como os papéis da ua, os
amos queb ados das á o es, o umo dos au oca os que a a essam as pon es – não inha ninguém que
lhe pe encesse. Alí io. T anquilidade. (…)
«Quem ai cuida de i? Vais mo e sozinho.»
Mas ainda não mo e a sozinho. (Viegas, 2009: 62)
Signi ica i o des a passagem do empo é ambém o seu gabine e, que a es a a mudança de
ins alações, a mobília an iga subs i uída po ou a mais mode na, uma sec e á ia e uma cadei a, o
cabide onde nunca pendu a o blusão, o compu ado que nunca usa. Apenas o pos e de Teo ilo
Cubillas, o jogado pe uano, subsis e ao longo dos anos: quase já sem co , “e a ago a uma
mancha de azul, b anco e cinza colada à pa ede” (Viegas, 2005: 19), “uma memó ia dos anos que
não eg essam e das ezes em que mudou de gabine e e em que subiu na hie a quia” (idem: 18-
19), a sua cola aga ada à pa ede nua e eneg ecida pelo umo dos cha u os de que Jaime Ramos
não p escinde, e onde Isal ino “nunca i a um e a o de amília” (idem: 187). Po ou o lado, a
sua incapacidade de se p ende aos ou os, p incipalmen e a Rosa, em acen ua o p aze da
solidão e do equilíb io emocional, ele é um homem que não se deixa a eba a pelas paixões, dele
e dos ou os, essa é ambém uma o ma que encon ou de sob e i ência. Como salien ou Viegas
em en e is a, “o que pa a mim se e elou excepcional no seu ca ác e , oi a sua capacidade de
111
pe manece ulga , cép ico, dedicado, anquilo, apesa da ida in ei a, a sua e a dos ou os”
(2006). É es e seu ca ác e eden o e esis en e que o ap oximam de Vic o Laszlo, po que o que
o mo e não é o excesso, mas as paixões mode adas, as paixões (im)pu as dos cha u os, das
ce ejas, da comida.
126
Rele e-se ainda que encon amos nos omances de Viegas ou os capí ulos cons i uídos po
imagens que condensam a ida in ei a de ou as pe sonagens: Filipe Cas anhei a, Ál a o
Se e iano Fu ado, Helena, Daniela, Salim, Adelino José Fon ou a, Ma iana B i o Cas o. Em
Filipe Cas anhei a encon amos, aliás, mui as das p eocupações de Jaime Ramos – a cons an e
ea aliação e in e ogação da ida, a p ocu a de um sen ido pa a a ida, o en elhecimen o, uma
ligação amo osa descomp ome ida, en e ou os –, que nos pode ão le a a pensa num
desdob amen o ou, mesmo, em Filipe Cas anhei a como um p o o Jaime Ramos (c . Real, 2012:
124) – eco de-se o seu nome inicial, Filipe Ramos Cas anhei a (c . Viegas, 1989: 179). Quan o a
es a ques ão, não podemos adian a uma explicação única, só o p óp io au o a pode á des enda ,
mas pa ece-nos e iden e que não se a a de um “implacá el duelo de p o agonismo” (c . 2012:
124-125), como e e e Miguel Real, mas sim, essencialmen e, de uma homenagem à amizade que
pe sis e e subsis e ao longo dos anos. E, se pensa mos que es e laço a e i o ambém se es ende a
ou as pe sonagens que po oam os seus omances, a insis ência na lealdade e na amizade pa ece
indica -nos um caminho que é o da o dem on ológica.
127
Assim, como podemos comp eende , os omances de Viegas não são apenas sob e a pe da,
a melancolia, a solidão ou a de o a po uguesas (como, aliás, o suge e a indicação na capa de
Longe de Manaus como O omance da solidão po uguesa e Miguel Real insis e) – são ambém e
igualmen e omances sob e a pe da, a melancolia, a solidão e a de o a do se humano.
Re omando as pala as de Fe nando Mendonça, são omances de in es igação in ospe i a, “uma
in es igação do o o ín imo de cada pe sonagem, que dos que in es igam, que dos que são
in es igados” (1996: 305), uma espécie de a ado das paixões e elações humanas e do homem
como uma ilha no meio da as idão do ma ou do dese o. São omances como os de Camilo
Cas elo B anco, “[n]o elas omân icas de gen e pe dida de amo es. Ca alei os escondidos numa
e eda. Assal an es que chegam de aldeias do século XIX no cume das mon anhas. Á o es
126
De aco do com Eco, a his ó ia de Casablanca “é ambém uma his ó ia de um u bilhão de Desejos dos quais
apenas dois são sa is ei os, o de Vic o Laszlo, o he ói pu íssimo, e o dos dois noi inhos búlga os. Todos aqueles que
êm paixões impu as alham” (1986: 200). A es e p opósi o eja-se a en e is a conduzida po Ma ia Te esa Ho a ou
a em anexo a es e abalho.
127
Salien e-se, a es e espei o, o a igo de Paul Cas o já e e ido, “’Ainda bem que chegas e’…”, que ai explo a
es a ia. Quan o a es e assun o, não pode íamos ainda deixa de e e i que a amizade é um dos emas que es á ligado
às o igens do omance policial, iniciado com o che alie Augus e Dupin e o seu amigo, em The Pu loined Le e de
E. A. Poe, adição e omada po Conan Doyle com a dupla She lock Holmes/D . Wa son ou po Aga ha Ch is ie
com He cules Poi o /Cap . Has ings, en e ou os. Em Viegas, a he ança mais explíci a pa ece, no en an o, ad i
sob e udo da ligação en e Philip Ma lowe e Te y Lennox em The Long Good-bye, onde a amizade ganha con o nos
mais exis enciais e mais con adi ó ios ambém.
112
emendas, escu as, agi adas pelo en o” (Viegas, 2005: 416). São omances de encon os e
desencon os, e são, sob e udo, omances sob e as pessoas sozinhas, como um quad o de
Hoppe :
128
Julgamos semp e que não exis em. Julgámos que não exis iam. Elas êm e connosco. Vi em sozinhas ou
não. Vi em numa casa que ninguém conhece e um dia apa ecem mo as. Vi em com uma amília pe ei a
e um dia o passado apa ece pa a de o á-las e pedi sa is ações. (…)
As pessoas alam da solidão mas julgam que é um p oblema delas. Apenas delas. Os esc i o es
in en am uma his ó ia e acham que a li e a u a é ob a da solidão. E os músicos, os cineas as, os de ec i es
p i ados que in es igam adul é ios nos subú bios, os indus iais de ce âmica, os con abilis as. Mas não é
e dade. Aqui ou em qualque ou o luga . Também somos gen e soli á ia. Gen e assim. (idem: 428-429)
E, de epen e, Jaime Ramos su ge à bei a do abismo, como uma es á ua, “abandonado à
en ania sob a luz ala anjada dos candeei os da pon e” (Viegas, 2009: 10), deb uçado sob e si
mesmo, sob e as águas do io, sob e as suas memó ias, sob e a ida oda que se es ai, sob e a
mo e. O Ma em Casablanca é ambém o seu adeus, o seu longo adeus. Des a o ma, à medida
que ai e elando o seu passado, Jaime Ramos começa a es uma -se e a des aze -se em poei a,
129
numa espécie de elação ín ima en e a e elação e ausência, quase num mo imen o quiasmá ico:
se, enquan o de e i e, essusci a os seus mo os à medida que lhes ai ec iando a ida, enquan o
homem, ai mo endo à medida que ecupe a a sua p óp ia ida.
Ou al ez não. Ele é um encido da ida, sim, mas um encido da ida esignado,
apaziguado mesmo. O seu pessimismo e desencan o su gem ainda, lado a lado, com o ce icismo e
a pe sis ência. Em O Ma em Casablanca, o seu lema – “Falha , en a de no o, acassa melho ,
mas sem mise icó dia, sem nos algia, sem nada” (Viegas, 2005: 59) –, pa ece indica esse
mo imen o de ai ém en e a desis ência e a esis ência, e, em O Colecionado de E a, Jaime
Ramos, “[d]eb uçado sob e a água, pa ece uma es á ua – mas há de mo e -se, caminha , sen a -se
no mu o onde a luz da a de e mina” (Viegas, 2013: 8). Toda ia, nes e como no omance
an e io , ele pa ece ica suspenso, numa espécie de in e s ício en e a ida e a mo e.
128
Edwa d Hoppe é o g ande pin o da solidão, da is eza, da desolação, da esignação: “uma mulhe sen ada nas
escadas de uma casa dian e das p ada ias” (Viegas, 2005: 47) é a desc ição de uma ep odução de um quad o seu que
Jaime Ramos gua da em sua casa.
129
Es a é uma das me á o as de Viegas e oi, aliás, a pala a po ele escolhida pa a igu a na cole ânea a minha
pala a a o i a (2007), edi ada po Jo ge Reis-Sá e que inclui a pa icipação de 90 esc i o es po ugueses. Dois anos
mais a de, em 2009, es a ideia se á e omada no B asil e se á lançado o olume Dicioná io Amo oso da Língua
Po uguesa, edi ado pela Casa da Pala a e o ganizado pelo esc i o b asilei o Ma celo Mou inho e pelo edi o
po uguês Jo ge Reis Sá, um desa io p opos o a 35 au o es de cinco países de língua po uguesa o iundos dos qua o
con inen es.
113
Conclusão
Como sublinhámos na in odução a es e abalho, o nosso obje i o oi mos a uma imagem
do uni e so omanesco de F. J. Viegas que o a se expandisse e o ab angesse em pano ama, o a
nele se de i esse e o ocasse num mo imen o de zoom. Es e obje i o oi açado, como e e imos,
po que en ámos le a a cabo um es udo de maio ôlego da sua ob a omanesca, mas igualmen e
po que os seus omances, ao cons i uí em uma sé ie, e, po an o, um con inuum, ab em a lei u as
á ias pa indo de alguns denominado es comuns. Na e dade, se cada omance cons i ui um
uni e so em si e pode, ele mesmo, cons i ui o pon o de pa ida pa a uma ou á ias abo dagens, a
p esença das mesmas es u u as e disposi i os na a i os, dos mesmos emas e mo i os, dos
mesmos de e i es e algumas pe sonagens, pe mi em-nos delinea alguns ios comuns que
cons i uem a essi u a do conjun o da sua ob a omanesca. Des a o ma, e ao longo de ês
andamen os, pa indo do eixo ida-mo e e se indo-nos da imagem, nos seus múl iplos
con o nos e aceções, enquan o enquad amen o ans e sal, en ámos ilus a e pe spe i a esses
mesmos ios ou in a ian es e que podem se conside ados como cons i u i os de uma poé ica da
ob a omanesca de Viegas. Simul aneamen e, é impo an e salien a mos que se a a de uma en e
ou as ou á ias unidades possí eis, uma ez que essa mesma unidade é cons uída a pa i de um
uni e so sem cen o nem pe i e ias, de múl iplos cen os ou de cen os mul iplamen e
disseminados que se p oje am numa plu alidade de imagens, de ozes, de empos e espaços, de
pe sonagens, de memó ias e de his ó ias, ao modo agmen á io de um caleidoscópio.
Des a plu alidade, agmen ação, disseminação e hib idez são signi ica i os omances que,
em e mos mac oes u u ais, po um lado, inco po am em si, dissol em e diluem on ei as en e
o omance e a poesia, o policial e a biog a ia, a li e a u a de iagens e o omance de gue a, e, po
ou o, dialogam e se cons oem a a és de um p ocesso in e a ís ico a pa i da expe iência da
imagem, da sua i ualidade, ensão e elação, en e a li e a u a, a o og a ia e o cinema. Em
e mos mic oes u u ais, a mesma plu alidade, agmen ação, disseminação e hib idez e le e-se
na c iação, cons ução e in e ação de á ios mo imen os de ai ém, ans e ência e des-
locamen o: do enigma da mo e pa a o enigma da ida, do de e i e-bióg a o que se des-loca
pa a/no ou o e pa a/em si, ol endo-se em bióg a o de si mesmo, do de e i e-geóg a o que se
des-loca no espaço e ca og a a iden idades do eu e do ou o, da demanda iden i á ia indi idual
que se ol e em cole i a, da pe spe i ação e do olha de den o pa a o a e de o a pa a den o,
da insc ição ao desen aizamen o, do ânsi o pe manen e das pe sonagens que i e do

114
c uzamen o de empos, espaços e memó ias em jei o de labi in o, das á ias comunidades-ilhas
pa a o homem/se humano como um ilha.
Po ou o lado, o eixo ida-mo e pe mi e-nos le nos omances de F. J. Viegas uma ensão
pe manen e en e a p esença e a ausência que, se em e mos mac o e mic oes u u ais pa ece
ende pa a a p esença ou excesso, pela plu alidade, mul iplicidade e hib idismo, em e mos
igualmen e mic oes u u ais, pende cla amen e pa a a ausência ou azio, pela agmen ação,
diluição e dissolução. Assim, se pode íamos conside a que há um equilíb io en e a p esença e a
ausência ou en e a ida e a mo e, a igu a-se-nos an es um excesso de mo e ou de ausência que
se en a comba e pela con ocação da p esença e ( e)c iação da ida. Como ealçámos no início
des e abalho, a obsessão pela mo e em Viegas é, de ac o, des-locada pa a a obsessão pela ida,
sendo que es a, oda ia e como omos mos ando ao longo de ês andamen os, aduz e az a si
aga ada a mo e. Po es e mo i o, uma imensa melancolia, po an os e di e sas ezes apon ada,
é o es ado que melho aduz a esc i a e a a mos e a dos seus omances, de onde essal am a
pe da, o desencon o, o exílio, a solidão, o desencan o, a uína, a pul e ização, o azio, a mo e.
Jaime Ramos é, sem dú ida, a pe sonagem que melho enca na o espí i o de Sa u no que
pe co e a ob a iccional (e poé ica) do esc i o , que enquan o de e i e, que enquan o homem.
Susan Son ag, no seu belíssimo ensaio sob e o empe amen o melancólico de Wal e Benjamin
in i ulado “Sob o signo de Sa u no”, apon a á ias ca ac e ís icas do homem melancólico que
acilmen e pode emos a ibui a Jaime Ramos. Enquan o de e i e-bióg a o é nele ealçada a
len idão com que conduz a in es igação da ida e da mo e, como um oyeu que acede à
in imidade dos mo os e um lâneu que ai e ando pelas suas casas, colecionando pequenos
agmen os de ida e de mo e – o og a ias, es emunhos, his ó ias e memó ias –, em
mo imen os de de i a ou de aneio, ou a o ma como conduz a in es igação e deci ação do
mundo, a a és de desc ições minuciosas, demo adas e de alhadas, e de onde essal a, sob e udo,
uma geog a ia ou opog a ia sen imen al. Enquan o homem, o ensimesmamen o num p ocesso de
au ognose, de um eu (e de um ou o) como ex o que se ab e cons an emen e ao mis é io e à
en a i a de deci ação – o e dadei o enigma e inquie ação dos seus omances é, de ac o, o se
humano –, as paixões (im)pu as de i adas dos cha u os, da ce eja, da comida, a obsessão com o
abalho e necessidade de se sozinho, não se deixando a eba a pelas paixões iolen as nem se
p ende demasiado aos ou os. De pendo cla amen e sa u nino, nele encon amos igualmen e o
e a o singula de uma ce a ge ação de homens, como nunca oi ei o, pelo menos de o ma
ei e ada e sis emá ica, na li e a u a po uguesa, uma ge ação, como salien a Miguel Real, que
i eu a gue a colonial, que se empenhou na e olução e oi mili an e de esque da, que se
desiludiu com o comunismo imedia amen e a segui e, sob e udo, que pa ece e alhado na ida,
115
es ando apenas o desencan o, o ce icismo, o pessimismo e uma imensa solidão, que é a
po uguesa, mas ambém humana, p incipalmen e nos al o es des e no o século.
Não deixa de se cu ioso que Ma ia Te esa Ho a apon e, já em 1992, a solidão masculina
como um dos emas de Viegas, e é ambém es a pe spe i a que Paul de Cas o explo a no seu
a igo “’Ainda bem que chegas e’...”. De ac o, é signi ica i o que que os de e i es, que as
pe sonagens biog a adas, são odas elas masculinas. Des a o ma, a p osa de Viegas pode
o e ece -se igualmen e como obje o de es udo impo an e pa a indaga sob e a exis ência ou não
de uma esc i a eminina ou masculina. Vis o po ou o ângulo, se pensa mos que há ambém um
g ande in es imen o na cons ução de pe sonagens emininas, e não podemos deixa de e e i as
pe sonagens Helena e Daniela de Longe de Manaus, cuja ligação complexa me ece um es udo à
pa e, ou a c iação da de e i e Olí ia no úl imo omance, O Colecionado de E a, que, seguindo
as endências mundiais, pa ece passa o es emunho a uma mulhe ( al ez num pisca de olhos à
he oína de S ieg La sson, Lisbe h), sob e udo endo em con a a endência pa a o ma ial ismo, a
p oblema ização da exis ência de uma esc i a eminina ou masculina ganha con o nos ainda mais
con o e sos e, a é, p o ocado es.
Ao longo des a disse ação omos lançando, sob e udo em no a, ou as pis as de análise e
in e p e ação, en ando ab i ou as lei u as possí eis do uni e so omanesco de F. J. Viegas.
Te minamos, assim, com um olha pa a ou os ho izon es que nos pode ão encaminha pa a
ou as p oblema izações, ou os emas, ou os deba es, com a consciência de que cada omance,
nas pala as de Umbe o Eco em Po quê “O Nome da Rosa”?, “é uma máquina de c ia
in e p e ações” (1991: 10), de que á ios omances podem mul iplica exponencialmen e esse
labi in o ou ede in e p e a i os, e de que os caminhos que o am pe co idos ao longo dos ês
andamen os aqui delineados pode iam e sido ou os, p oblema izados de ou a o ma, ge ado
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2004 “Li e a u a Policial”, Jo nal de Le as, A es e Ideias, Ano XXIII, n.º 872, de 3 a 16 de ma ço,
pp. 14-21.
PRATA, José/COELHO, Te eza
2003 “Dossie Policiais”, Os Meus Li os, ano 1, n.º 9, ma ço, pp. 36-47.

Anexos
i
Sinopses dos omances∗
∗∗
∗
C ime em Pon a Delgada (1989)
O assassínio de um homem público, An ónio Gomes Ja dim, di igen e do PSD, cujo co po é encon ado
abandonado jun o a uma p aia da ilha de São Miguel, Aço es, é um dos p e ex os pa a o de e i e da
Polícia Judiciá ia, Filipe Cas anhei a, inicia um mo oso abalho de in es igação sob e o c ime e,
undamen almen e, sob e a geog a ia sen imen al das ilhas. O que pode ia se apenas um omance policial
ans o ma-se, assim, numa no ela ascinada pela magia insula – po aquilo que é designado como «um
dos úl imos luga es do mundo», as ilhas aço ianas – ‘a a essada pela biog a ia obscu a’, con o e sa e
ascinan e do polí ico assassinado, pelas azões e con adições da ques ão independen is a e da au onomia
insula es. C ime em Pon a Delgada cons i ui o i ine á io de um deslumb amen o e de um abandono,
en ando p o a , ao longo das suas páginas, que são as coisas que não exis em que, de uma o ma ou de
ou a, melho ga an em a nossa sob e i ência. Ou seja: que é necessá io c ia ilusões pa a não mo e mos.
Mo e no Es ádio (1991)
Um u ebolis a amoso, pon a-de-lança do F. C. Po o, é assassinado num ba i landês em plena Foz. O
de e i e Jaime Ramos, da Polícia Judiciá ia do Po o, é enca egado das in es igações, e a ele se jun a
Filipe Cas anhei a, indo de um exílio olun á io nos Aço es, onde se dedica aos pequenos c imes
insula es e a um amo di ícil com Isabel da Câma a Ne es. As a e iguações en ol em, numa complexa
eia de paixões, seduções e aições, Alexand a Soa es, mulhe do u ebolis a, Susana, mulhe de um ou o
u ebolis a e aman e do mo o, Se a im de Mo ais e Sil a, aman e de Susana, e ou as pe sonagens que
e ocam as elações somb ias e obscu as do mundo do u ebol. Mas es e ai se um caso ma cado
igualmen e pela paixão de Jaime Ramos e de Filipe Cas anhei a pela comida, e de Jo ge Alonso, o dono
do ba i landês, pela I landa – na e dade, o u ebol é um mundo es i o e simbólico que acaba po da
sen ido à al a de sen ido da ida.
As Duas Águas do Ma (1992)
Duas mo es oco em simul aneamen e em luga es jun o ao ma – uma, de Ri a Calado Gomes, em S.
Miguel, nos Aço es; ou a, de Rui Ped o Ma im da Luz, no Finis e a galego. A p incípio me a
coincidência, essas mo es acabam po liga -se, passo a passo, a a és da in es igação da dupla Jaime
∗
As sinopses a segui ep oduzidas são, com pequenas adap ações, as que cons am nas con acapas dos omances.
ii
Ramos/Filipe Cas anhei a, e elando pe sonagens ou as como Luísa Salles, Rámon ou Ma a Rod íguez
Cano – uma in es igação omân ica, melancólica, po oada de somb as e de insónias, que nos le a à
doçu a das ilhas do A lân ico e às neblinas do li o al da Galiza.
F ancisco José Viegas cons ói, em As Duas Águas do Ma , uma his ó ia emocionan e, onde nos
con on amos com os caminhos da paixão e da mo e. Pa odiando um géne o e adamen e conside ado
“meno ” (o policial), es e omance con i mou o seu au o como uma das ozes mais o iginais da mode na
icção po uguesa.
Um Céu Demasiado Azul (1995)
Um homem, João Al es Lopes, é encon ado mo o no po a-bagagens do seu p óp io ca o, dois dias
depois de eg essa de uma iagem ao México e a Cuba. As in es igações di igidas pelo inspe o Jaime
Ramos apon am uma pis a – Ma ia Amélia Lobo Co eia, uma a is a de s ip- ease que a ua, jun amen e
com Luísa Be na do Paulos, na p o íncia, de ila em ila, de cidade em cidade. Po ém, po de ás des e
homem mo o e des a mulhe cujo pa adei o se desconhece, c uzam-se os des inos que a as am consigo a
memó ia de paixões nunca esol idas nem consumadas, e o essen imen o de um país medíoc e, no o- ico
e dissimulado. É uma his ó ia de coincidências e de aza , es a que le a Jaime Ramos a Cuba e os dois
de e i es a p ocu a não o au o de um homicídio, mas os sinais do desapa ecimen o, da men i a e da
solidão.
Um C ime na Exposição (1998)
No cená io an asmagó ico da úl ima exposição uni e sal do século, a Expo’98, ealizada em Lisboa,
oco em ês c imes: Rosa de Almeida Mendes, uma a qui e a paisagis a, Paulo Vi ei os Cos a, um
biólogo aço iano, e Elena Ca e e , uma oceanóloga mexicana, apa ecem mo os. Pa a di igi as
in es igações é nomeado o inspe o Jaime Ramos, ans e ido pa a Lisboa – que con a com a colabo ação
do seu adjun o Isal ino de Jesus e de Filipe Cas anhei a, o polícia soli á io de São Miguel, Aço es. No
cená io da Expo’98, onde o mundo in ei o se az ep esen a e onde Po ugal mos a a sua ace de
mode nidade, os c imes são um escândalo nesse ambien e cheio de no as ecnologias, ciência, ino ação –
e onde o conhecimen o dos oceanos unciona como uma me á o a ap op iada pa a es e «di e imen o
policial», o iginalmen e publicado como olhe im nas páginas do Diá io de No ícias.
Um C ime Capi al (2001)
No cená io an ás ico do audi ó io ao a li e da Fundação de Se al es, um homem e uma mulhe ,
An ónio Júlio dos Reis Lopes e Magda Gomes da Luz, são encon ados mo os depois de um conce o
iii
in eg ado na p og amação da Po o 2001, Capi al Eu opeia da Cul u a. Jaime Ramos eg essa en ão às
páginas de um omance pa a se ocupa do caso, que, no dia seguin e, em no o desen ol imen o
d amá ico – a mo e de Illan Le an, um judeu b asilei o écnico de in o má ica que abalha a na Po o
2001, encon ado baleado numa ua anquila de Pa anhos. Qua o dias depois, um no o cadá e , des a
ez no cená io omân ico do Cais das Ped as. No meio des es c imes apa ece en e an o um ad ogado do
Rio de Janei o, Mand ake, cu iosamen e o mesmo nome do pe sonagem do esc i o b asilei o Rubem
Fonseca. C uzamen o de ealidade com delí io, de icção com não- icção, de uma esc i a poé ica e
emocional com a maio ieza do géne o policial, Um C ime Capi al é um di e imen o que não deixa de
oca o mundo emá ico dos an e io es li os do au o : a p oximidade da mo e, o di ícil e pe igoso
uni e so das paixões, a ilusão do pode . E que é ambém, cla o, uma homenagem à cidade do Po o.
Longe de Manaus (2005)
Depois de inicia uma in es igação sob e a mo e de um homem desconhecido, Ál a o Se e iano Fu ado,
encon ado num apa amen o jun o à Ro unda de S o. O ídio, Jaime Ramos é le ado a pe co e caminhos
que o anspo am en e Po ugal, o B asil e a memó ia de Angola. Nesse iângulo i em pe sonagens
soli á ias – Ri a Pe ei a Gomes, Ma a Salimah, Salim Fu ado – que desapa ecem sem deixa as o e cujas
biog a ias o de e i e en a econs ui a pa i do nada, soco endo-se apenas da sua imaginação. Esse
pe cu so anspo a á o lei o da Bei u e do século XIX a é ao co ação da Amazónia e à Manaus
con empo ânea, do Po o a São Paulo, de Luanda ao Rio de Janei o e ao Amapá, da gue a de Angola e da
Guiné aos apa amen os azios onde são ecolhidos cadá e es, memó ias e silêncios. Há homens sem
biog a ia nem memó ia, mulhe es que desa iam o con o mismo e a medioc idade do seu pequeno mundo,
se es humanos que pe de am odas as ilusões e se limi am a p ocu a não mo e .
Es e c uzamen o de geog a ias e de ipos humanos p o oca alucinações no p óp io na ado , que o a
esc e e em po uguês de Po ugal, o a em po uguês do B asil, e no in es igado Jaime Ramos, que é
ob igado a in en a his ó ias de pe dição pa a que o mundo enha algum sen ido. Recons uindo a p óp ia
linguagem do omance policial, sub e endo as suas eg as, esc i o em ons e linguagens dis in os, Longe
de Manaus é o omance da solidão po uguesa, o e a o dis an e e des ocado de um país abandonado às
suas memó ias e ao seu desapa ecimen o.
O Ma em Casablanca (2009)
O que une um cadá e , do jo nalis a po uguês Joaquim Seab a, encon ado nos bosques que odeiam o
belo Palace Vidago e um homicídio, do diploma a angolano Benigno Mendonça, no cená io deslumb an e
do Dou o? O que une ambos os c imes às eco dações umul uosas dos acon ecimen os de maio de 1977
em Angola? Jaime Ramos eg essa pa a uma no a in es igação onde eencon a a sua p óp ia biog a ia, as