VOLUME 1, Nº3. NOVEMBRO/DEZEMBRO 1999
Edi o ial
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“A INOCÊNCIA É
IGNORÂNCIA”
KIERKEGAARD
Nes e núme o da Saúde Men al 4 a igos ecob em o ema ANSIEDADE, enómeno
que é econhecido como sendo um enómeno ac ual, habi ualmen e associado às
condições de ida nas sociedades ociden ais dos empos mode nos.
Não sendo de odo e ada es a cono ação de e á, con udo, se cla i icada.
Em 1º luga a expe iência da ansiedade é uni e sal, endo sido ajus ada, ao longo
da e olução, às unções de mobilização do o ganismo pa a lida com si uações de
pe igo e, assim, ajuda a adap a o o ganismo a no as si uações bem como a
assegu a a sua sob e i ência. Na pe spec i a e ológica, a ansiedade ep esen a
a “ e en e anímica de si uações de con li o mo i acional in e io izado” (Viei a, 1983),
aduzindo uma espécie de equi alen e an opológico da expec a i a ace a con li os
de endências an agónicas simul âneas. Os es udos e ológicos ajudam-nos a pe cebe
como em si uações de su p esa e indecisão podem su gi compo amen os como
o “coça de subs i uição” (coça da cabeça, es ega os olhos, e c.), ou nou as
ocasiões, “compo amen os alimen a es de deslocamen o”, como po exemplo,
mo disca , mas iga , suga objec os, e c. Po an o, a ansiedade, nes e ní el de análise
ep esen a um compo amen o adap a i o, seleccionado ao longo do p ocesso
e olu i o e egulado biologicamen e. Nes e sen ido o enómeno ansioso não é
nem do homem de hoje nem do homem de ou o a; é do homem de odas as
épocas po que é uma aquisição e olu i a da sua p óp ia espécie.
Em 2º luga , como não podemos conside a que o homem de ou as épocas não
so ia de es ados de ansiedade e emos de analisa a ques ão da maio incidência
(se á maio incidência?) ou, pelo menos, a maio a enção que hoje é dada à e en e
ansiosa do compo a -se. Se e i ica mos que o homem de ou as épocas inha
desen ol ido uma cosmo isão e uma ideia do seu p óp io des ino, as quais
unciona am como um au ên ico sis ema palia i o da ansiedade, pe cebemos como
es e enómeno não ansbo da a na ida quo idiana. Foi, mui o p o a elmen e, a
ans o mação da sociedade e a concomi an e queda daquele mundo de ideias,
que acabou po conduzi o homem à pe da da capacidade de canaliza , po ou os
meios, a ansiedade ine en e à sua condição. Tal ez po isso se assimile a ansiedade
à ida mode na.
Mas, co ec amen e, o que acon ece é que es a ansiedade desmesu ada dos empos
mode nos aduz uma alência mais básica do se humano: a alência de um sis ema
de alo es que lhe pe mi a da sen ido à sua exis ência.
A ansiedade enquan o condição humana não apenas do homem ac ual mas ambém
de odos os homens de odas as épocas, a ansiedade di a no mal não é um enómeno
de moda, como alguns que em aze que e , mas an es uma expe iência p esen e,
p óp ia da condição de exis ência ep esen ando a sua g ande issu a. Mas é ambém
uma expe iência de supe ação, de au o- egulação já que, o se angus iado ou ansioso,
só pelo ac o de o es a , ap o unda a sua exis ência.
Eis-nos ace a uma condição, como mui as ou as da exis ência humana, que sendo
ao mesmo empo sinal de ala me e de up u a do eu, ambém é condição de
conhecimen o de si e de anscendência. A es e espei o não posso deixa de e e i
Kie kegaa d, o ilóso o que se ocupou do concei o de angús ia. Dis inguindo-a
cla amen e do medo (es e é semp e e e ido a uma coisa p ecisa) de ine-a como
sendo a ealidade da libe dade (Kie kegaa d, 1948) que não deixa o homem indi e en e
pe an e a sua p óp ia condição de exis en e. Se a inocência é igno ância (Kie kegaa d,
1948) a angús ia da exis ência é on e de conhecimen o dessa condição humana.
Nas pala as do au o a angús ia é uma an ipa ia simpa é ica e uma simpa ia an ipa é ica
em consonância com o es ado de espí i o em que ela é i ida. A doce angús ia que
az o homem a ança na senda das suas in e ogações ou uma angús ia es anha
que o inquie a a é às en anhas. É p ecisamen e es e ca ác e an agónico, ão bem
desc i o po Kie kegaa d, que ca ac e iza a angús ia; simul aneamen e um mo imen o
de a acção e um mo imen o de epulsão. Es e ca ác e ambi alen e, insóli o, aduz
a indecisão ace ao caminho a segui . O mesmo au o ala-nos da angús ia enquan o
e igem da libe dade. Ouçamo-lo: ...a angús ia é a ealidade da libe dade como
possibilidade an es da possibilidade (ibidem).
Di o de ou o modo, qualque con igu ação que a angús ia possa assumi , indica
semp e si uações nas quais o sujei o, insa is ei o pela escolha e pela e ec i idade
exis encial da possibilidade, deixa ins ala -se uma ensão, uma quan idade de exci ação
que apidamen e o ul apassa e o pa alisa. E o núcleo do pe igo eside mais na
incapacidade de con ole de uma si uação suscep í el de se epe i que numa
ausência de um objec o em elação ao qual o sujei o ica ia apenso.
Es ou a ala da ansiedade de odos os se es humanos, aquela que ulga men e se
chama ansiedade no mal e, em alguns casos – o dos escla ecidos – angús ia
exis encial. Mas a ansiedade do homem doen e, aquela que es e núme o se ocupa á,
ap esen a ao médico um ou o desa io: o desa io da cu a. Não signi ica is o que
oda a ansiedade do homem doen e de a se cu ada já que a o ma como cada um
lida com a ansiedade é mui o a iá el: uns sucumbem, en egam-se a ela, enquan o
que ou os a con e em numa au ên ica on e de alo es mo ais. Signi ica que em
ce as ci cuns âncias a ansiedade cons i ui um es ado ão pe u bado da exis ência
cujo so imen o e desadap ação não só de e mina, po pa e do doen e, o pedido
de ajuda como de e mina ambém uma espécie de necessidade, po pa e do
médico, em ali ia o seu doen e desse so imen o.
Em elação a es e ipo de es ados é possí el que a ida mode na c ie um es ado
de ansiedade di usa e que, po isso mesmo, a sua c is alização mó bida seja mais
equen e. É nes e sen ido que en endo que a ansiedade pa ológica em mais
exp essão hoje que em empos idos.
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A ansiedade pa ológica pe encem à qualidade dos sen imen os aos quais Jaspe s
designa a como sen imen os inde e minados; ou seja, apesa de o doen e e e i -se
a algo como de e minan e ou p o ocado da sua ansiedade de ac o esse algo não
exis e. É an es o medo con igu ado sob qualque o ma, quase semp e ema izado
em o no do medo em pe de o con ole. A expe iência da angús ia é i ida das
mais a iadas o mas que aduzem a peculia e subjec i a adução des e es ado
de alma, como desc e ia, po exemplo, uma doen e sen indo que “a pa e in eligen e
da minha pessoa ica eduzida a uma con emplação do d ama in e no” ou en ão como
“do de alma – padecendo de uma manei a ísica – e so imen o do co po – com uma
paciência e uma en ega quase mo ais”. Qualque uma des as si uações aduz a
passi idade (imobilismo) ine en e à expe iência de ansiedade, passi idade (imobilismo)
ace ao desconhecido. Es a passi idade aduz, po sua ez, a des egulação da acção
po al a de inalidades, po deso ien ação. A acção opeça em algo que a ul apassa
e e ocede. Nes e sen ido, o ansia cons i ui um modo gené ico de mudança ou
de abalo da ac i idade da pe sonalidade o qual pode co esponde apenas a
espos as às ci cuns âncias ex e io es, como a si uação amilia , social, económica,
e c. ou as espos as às ci cuns âncias in e nas (como po exemplo, con li os ín imos,
en e ou os). No sen ido an opológico co esponde a o mas de pa icipação
pessoal pe u badas (Baha ona-Fe nandes, 1998) nos di e en es acon ecimen os
que a ec am o Homem e acabam po o pe u ba . Se es e ipo de ansia do
Homem não cons i ui ainda uma on e de so imen o – e po isso se pode conside a
como sendo uma das o mas de pe u bação dos g adien es si ua i os e dos
g adien es da pessoa cul u al, como Ba ahona-Fe nandes (1998) deixou di o -
ou as o mas há em que essa pe u bação assume um colo ido gené ico de
so imen o pessoal. Di o de ou o modo, o mesmo p ocesso – ansia – pode
e es i -se de uma unção pe ei amen e no mal, uni e sal, adap a i a, como pode
modela ce as o mas ge ais da pe sonalidade se pe u ba . A onalidade ansiosa
nes es casos imp ime uma eição penosa e desag adá el às i ências do indi íduo,
acompanhada de so imen o, p eocupação e de um sen imen o de incapacidade
de se libe a des as i ências po si p óp io.
É só nes as ci cuns âncias que o p ocesso de se ansia de e se omado como
pa ológico – quando in e e e com o bem es a ge al e a ac i idade. E aqui começa
a e dadei a saga clínica: a cap ação da expe iência subjec i a do doen e ansioso,
a descodi icação dos pad ões de compo amen o associados a essa expe iência.
Não ha endo p a icamen e nenhum doen e que consul e o seu médico sem es a
ela i amen e ap eensi o ou ansioso (mos ando-se enso e ne oso ou obsequioso
e ímido ou, em alguns casos, insolen e e ag essi o) is o signi ica que o médico
acaba po se con on a com as mais a iadas si uações ansiosas em elação às
quais e á de decidi qual a melho a i ude a oma : conside a esse es ado ansioso
como um dado no mal da exis ência daquele doen e pa icula , conside a que
esse essa ansiedade e lec e um p o undo eceio ace à ameaça da doença que o
doen e p essen e e comunica a a és dos sin omas á ios, ou conside a que essa
ansiedade é, em si p óp ia, um quad o clínico a necessi a de uma in e enção
especí ica. Um e dadei o exe cício clínico passado nas anjas énues que delimi am
o no mal e o ano mal em saúde.
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No en an o, a ansiedade nes e con ex o clínico pode ambém ap esen a uma ou a
con igu ação: pode desempenha um papel de e minado no compo amen o do
p óp io médico e in luencia , assim, o compo amen o do seu doen e e po isso
as elações médico-doen e. O medo de alha , ão equen e quando se inicia a
ac i idade clínica, sendo uma on e de ansiedade do médico não cons i ui, em si,
uma si uação de isco pa a o doen e – a consciência da inexpe iência é uma ga an ia
de maio cuidado e de sageza na p ocu a de apoios que assegu em os melho es
cuidados aos doen es. O medo de alha mais pe igoso nes e domínio, esul a da
ambição de melho a o es ado do doen e pelos a amen os que lhes minis amos,
a qual esul a, mui as ezes, da aidade e do desejo de p o a o seu p óp io pode
e domínio. Es as mo i ações, quase nunca consciencializadas, p o ocam medo. Medo
de pe cebe que a inal, como qualque um, não se é capaz de aze odas as coisas
bené icas que se p e endia aze . A omada de consciência que aze udo isso não
é mais de que aze o melho possí el (que engloba o conhecimen o médico mais
ac ual, a dedicação mais desin e essada, a comp eensão e ole ância ace à do e
ao so imen o) é o g ande sal o que pe mi e ao clínico o na -se mais ap o pa a
comp eende e ajuda os seus doen es.
A ansiedade, no inal de con as, é uma expe iência ão comum que co e iscos
de se pe de na azá ama do quo idiano dos médicos – apesa dos g i os de do
dos seus doen es –. Le an e-se a oz da consciência e ad inhe-se o sen ido p o undo
desses g i os. A inal, “o que mais dói numa do não é essa do que dói, mas o código
do sen i que lhe acescen emos” (Ve gílio Fe ei a, 1992).
BIBLIOGRAFIA
Viei a, B. (1983): E ologia e Ciências Humanas. Lisboa: Imp ensa Nacional Casa da Moeda
Kie kegaa d, S. (1948): Le Concep de l’Angoisse. Pa is: Gallima d
Baha ona-Fe nandes, H. (1998): An opociências da Psiquia ia e da Saúde Men al.
O Homem Pe u bado. Lisboa: Fundação Calous e Gulbenkian
Fe ei a, V. (1992): Pensa . Lisboa: Be and Ed., p. 292.
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Médico Psiquia a
(P o . Associado da Uni e sidade do Po o)