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Como educar depois de Díli, Liquiçá e Baucau?

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Como educar depois de Díli, Liquiçá e Baucau?

Author: Ariana Cosme
Year: 1999
Source: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/6956/2/83282.pdf
a Página da
Educação
www.apagina.p
Como educa depois de Díli, Liquiçá e Baucau?
Um no o mapa do ho o cons ói-se, hoje, a pa i de E me a, Baucau, Liquiçá, Bobona o, Viqueque, Mana u o, Los
Palos ou Díli. Nomes es anhos e dis an es que se nos o am o nando amilia es à medida que íamos ap endendo,
ambém, no os sen idos pa a pala as ão elhas como c ime, ódio, in ole ância e cumplicidade.
Timo Lo osae, o d ama daquele po o digno, co ajoso e má i , oi-se o nando, depois do sonho e à medida que
aco dá amos, num pesadelo insupo á el. Nenhum de nós se sen ia capaz de ac edi a que osse possí el odia
an o, men i de o ma ão desca ada e se capaz de exibi amanho cinismo e hipoc isia como alguns o ize am.
Em odas as igílias e mani es ações de solida iedade ou íamos, ine i a elmen e, as mesmas pe gun as: Como é
possí el? Po que é que a comunidade in e nacional não in e ém? O que pode emos aze ? Hou e, con udo, uma
ques ão que, en e odas as ou as, nos inquie ou pa icula men e. Como é que eu hei-de educa o meu ilho num
mundo como es e? E a a in e ogação a que alguém se expunha, e nos expunha, num dos pequenos g upos de
mani es an es.
Como educa depois de Díli, Liquiçá e Baucau? Alguém ize a, an es, a mesma pe gun a após Auschwi z e é de
admi i que a mesma ques ão possa e sido colocada, desde o p incípio des e século, em inúme os momen os
onde a bes ialidade e a indi e ença humanas iun a am. Vale á en ão a pena con inua a aze essa pe gun a
depois de cada massac e, depois de cada genocídio? An ónio Sé gio deixou de esc e e sob e educação quando a
II Gue a Mundial eclodiu, in e anos depois de ce ca de no e milhões de pessoas e em mo ido num con li o de
g andeza equi alen e.
Face ao d ama de Timo somos ob igados no amen e a pe gun a o que é que a educação em a e com as
chacinas impiedosas e cíclicas que oco em no mundo em que i emos. Não se á uma ingenuidade ei indica a
necessidade de p ojec os educacionais p eocupados com a o mação pa a o espei o po si e pelos ou os, pela
di e sidade, pela pa ilha e a con i ência democ á icas ?
C emos que não. Se é possí el e mos ainda uma és ea de espe ança que nos pe mi a ac edi a , após a do dos
dias de so imen o, que Timo se ai o na na e a do sol nascen e - depois de e sido a e a do sol poen e pa a
Salaza e a igésima sé ima p o íncia pa a Suha o - é po que hou e gen e capaz de lu a po isso, gen e capaz de
en en a a ignomínia, o silêncio mo ibundo dos algozes e a hipoc isia desca ada e sem p incípios dos a iseus.
Gen e que, com ce eza, c esceu e i eu de o ma a comp eende a impo ância dos ou os e da dignidade como
e e ências undamen ais das suas idas.
Não ac edi a que a educação pode con ibui pa a nos humaniza e humaniza o espaço que pa ilhamos se ia um
ac o ão cego quan o injus o. Injus o, po exemplo, pa a pessoas como Luísa Teo ónio Pe ei a que, no âmbi o do
CIDAC (Cen o de In o mação e Documen ação Amílca Cab al), oi denunciando, apesa da hos ilidade e da
indi e ença massi a einan es, a p e ensa sensa ez daqueles que em Po ugal bem dep essa acei a am,
de ende am e silencia am a anexação de Timo -Les e pela Indonésia. Injus o pa a Ba bedo de Magalhães, o
incansá el o ganizado das jo nadas de Timo na Uni e sidade do Po o du an e os anos da ocupação. Injus o
ambém pa a Adelino Gomes, esse au o-in i ulado "malai mu in", que ainda hoje nas páginas do "Público" con inua
a chama os bois pelo nome. Se ia igualmen e injus o pa a Rui A aújo, o jo nalis a que a a és de uma "G ande
Repo agem" memo á el, ansmi ida pela RTP, elançou a causa de Timo jun o da ado mecida opinião pública
po uguesa. Se ia injus o, ambém, pa a Max S all que, co ajosamen e, mos ou ao mundo o massac e do cemi é io
de San a C uz e pa a Noam Chomsky, o linguis a ame icano que logo em 1975 e gueu a sua oz pa a denuncia o
genocídio e a cumplicidade de Kissinge e Ge ald Fo d com a in asão indonésia. Se ia injus o pa a odos os ou os
que não se cala am ao longo des es anos, comba endo a indi e ença e não se subme endo às imposições de um
con enien e ealismo es a égico-polí ico, o qual pe mi iu que um país como a Indonésia, ge ido de uma o ma
di a o ial há mais de in a anos, enha cons uído o qua o maio exé ci o do mundo, apoiado, einado e
alimen ado, en e ou os, pelos E.U.A e pelo Reino Unido. E is o apesa de Suha o e acedido ao pode a a és de
um golpe mili a , eliminando, em poucos meses na sequência desse mesmo golpe, ce ca de 500 000 mili an es e
simpa izan es do Pa ido Comunis a Indonésio (PKI), o ça polí ica que ha ia apoiado Suka no, o p esiden e
depos o e o undado da nação. Se ia injus o, inalmen e, pa a aquela jo em indonésia que, co endo iscos
pessoais inegá eis, ainda há pouco imos apela , na ele isão, pa a uma in e enção u gen e da ONU em Timo
Lo osae, de o ma a pa a o genocídio planeado pelos mili a es indonésios que ela co ajosamen e acaba a de
denuncia .
Sendo ce o que necessi amos de cons ui uma no a o dem mundial, assen e nou os p essupos os polí icos e
num ou o conjun o de di ei os e de e es, é ambém ce o que a sua eme gência mui o ica a de e àquelas
mulhe es e àqueles homens que sabem, ou que um dia soube am, se a oz dos que não êm oz. Aqueles que se
indigna am e agi am em con o midade com essa indignação, sujei ando-se ao os acismo polí ico e social, à
incomp eensão, à calúnia ou à pe seguição que os pode osos lhes mo e am. É po isso que ac edi amos que a
con igu ação e a conc e ização de um p ojec o educacional de inspi ação democ á ica pode aze a di e ença, is o
é, pode con ibui pa a o exe cício de uma cidadania ac i a e subs ancial, condição undamen al pa a que es e
plane a, e odos aqueles que o habi am, nele enham, e possam sonha , um u u o.
O os o e a oz de Ana Gomes êm-nos indo a ensina isso odos os dias. As c ónicas dos dias de e o de José
Vega , Luciano Al a ez, He nâni Ca alho e Jo ge A aújo ou a emissão con ínua e pe sis en e da TSF mos a am-
nos como a co agem e a esponsabilidade cí icas são equisi os undamen ais pa a o exe cício de uma p o issão.
Tal como a angús ia de José An ónio Ce ejo, jo nalis a do "Público" o comp o a ambém, quando, a exemplo de
ou os colegas seus, se ques iona a humildemen e sob e as suas esponsabilidades como homem da imp ensa no
d ama do po o maube e, apenas po que não oi capaz de p e e a men i a, o desca amen o e a b u alidade
consen ida dos assassinos. Pode íamos, igualmen e, eco da Xanana Gusmão, Ramos Ho a, os di igen es do
CNRT ou os gue ilhei os anónimos das FALINTIL pelo seu exemplo de dignidade e de co agem quase suicidas.
Pode íamos eco da , inalmen e, Ca los Ximenes Belo e Basílio do Nascimen o que assumi am de um modo
consequen e e decisi o a sua condição de ca ólicos e bispos con a a b u alidade dos op esso es e o silêncio
cúmplice do Va icano.
Po que é que alguns se echa am na linguagem ambígua, ia e sibilina da diplomacia e ou os assumi am
on almen e as suas esponsabilidades quando e a mais que e iden e es a mos pe an e um c ime que mui os, po
azões di e sas, não que iam enca a como al? Po que é que há quem se in e ogue sob e o sen ido das suas
acções, enquan o ou os se ence am num p agma ismo ca ac e izado pela hipoc isia e pela i esponsabilidade
mo al? Po que é que uns seguem o caminho mais ácil, enquan o ou os en am encon a os pe cu sos mais
jus os? Como é que a educação pode con ibui pa a explica as di e en es a i udes que podemos assumi ace aos
ou os e aos acon ecimen os?
Depois de Díli, Liquiçá e Baucau se á possí el que alguns de nós con inuem a en ende a educação pa a a
cidadania como uma inalidade de um espaço cu icula , sujei o a uma pe spec i a endou inado a ou, na melho
das hipó eses, a uma ques ão pe i é ica? Depois de Díli, Liquiçá e Baucau se á que es a emos dispos os a assumi
o nosso papel de educado es em unção de um p ojec o que não se esconde po de ás da Ma emá ica, da Língua
Ma e na, da Biologia ou da His ó ia pa a iludi o p ocesso de o mação pessoal e social dos apazes e das apa igas
que equen am as nossas escolas?
Depois de Díli, Liquiçá e Baucau se á possí el que não assumamos, de ini i amen e e de o ma consequen e,
ou os sen idos pa a a educação amilia , a educação escola e, de um modo ge al, pa a ou os ipos de
modalidades educa i as? Depois de Díli, Liquiçá e Baucau se á que es a emos dispos os a assumi o nosso papel
de educado es em unção de um p ojec o que a p e ex o das con enções sociais ou de um u u o, que a inal
ninguém pode p e e , inibe os a ec os, a in eligência e as inicia i as humanas dos nossos jo ens ?
Tememos que passado es e momen o de emoção nacional deixemos de es a disponí eis pa a e lec i sob e o
nosso con ibu o pa a o es ado em que se encon a es e mundo e pa a pensa nas possibilidades que islumb amos
pa a agi de o ma coe en e. É que pensa na dimensão é ica e axiológica da educação, alo izando-a
su icien emen e como um eixo incon o ná el e p imei o da nossa ac i idade educa i a, ende a se mui as ezes
en endida como uma a i ude dile an e. Mais do que a do que os nossos lenços b ancos exp imem, é o consolo de
descob i mos que o nosso izinho ambém colocou um lençol na janela que nos pode le a a comp eende como
nada há de g a ui o em de ini o ap ende a econhece o ou o que há em nós, a a és do econhecimen o desse
mesmo ou o, como uma inalidade p imo dial da educação na amília, na escola e nas comunidades em que
i emos. Não oi isso que pudemos i e nes es dias maldi os, quando sen íamos e g i á amos que odos somos
imo enses ?
A iana Cosme/Rui T indade
Faculdade Psicologia Ciências Educação/Uni . Po o