Cade nos His ó icos, VIl (2006), 79-94
A
AUSENCIA
DO
MARIDO
E
«DES-GOVERNO»
DA
CASA
NA
ÉPOCA
DOS
DESCOBRIMENTOS.
Algumas
imagens
da
li e a u a
e
da
a adís ica
mo al
ibé ica.
MARIA DE LURDES
CO
RREIA FERNANDES
(Faculdade de
Le as-
Uni e sidade do Po o)
Fala da «ausência do
ma idO>>
eme e-nos, necessa iamen e,
pa a di e sas ci cuns âncias
do
i e social que se p endem, unda-
men almen e, com as exigências e as con ingências,
po
um lado,
da
ida económica e social
e,
po
ou o, da
ida
amilia e domés ica e com
o
«go e no>>
ou, em alguns casos, com o «des-go e no'' de um espaço
cujo campo semân ico é, conc e amen e nos séculos XVI e XVII
(embo a não só), o da «casa». Sem esquece que es e campo semân-
ico pode
e
di e sas ocalizações de signi icado, nomeadamen e as
que esul am
da
di e enciação dos g upos sociais, p i ilegia emos a
sua dimensão
de
espaço domés ico sob a au o idade e esponsabili-
dade do núcleo conjugal, semp e con ando com a ad e ência do nosso
D . João de Ba os no seu Espelho de Casados, edi ado em 1540,
segundo a qual «pe a se go e na huma casa ha mis e Homem,
Molhe . C iados. Bes as e ou as cousas» 1•
' BARROS, João, Espelho de Casados, ed. de Ti o de No onha e An ónio Cab al,
Po o, 1874, i. XXV (ci a emos semp e po es a edição).
79
Es a noção co en e, ao empo, de «go e no
da
casa» 2 p essu-
põe - e i ia a p essupo , cada ez mais -concepções básicas e
pa ilhadas dos «o ícios» - pa a usa um e mo da
época-
an o
do
ma ido como da mulhe , que João de Ba os ambém lemb a quando
diz que «Con em ao ma ido Negoçea . T a a , Ganha . De ende .
Demanda e aze ou as cousas que som necessa ias pe a man e sua
casa. E aa molhe con em gua da udo e manda conce a sua casa,
e come e mesa p es es a seu ma ido. E ainda dizem os eólogos que
lhe há-de la a os pés e a cabeça, mas es o en ende-se de amo e não
de
necessidade
...
••,
no ando uma di e enciação de de e es, po que
«O
uso e ezão epa ia o o icio a cada um•• 3•
A lemb ança des es «O icias•• e
do
de e
do
seu cump imen o
su ge, naquela ob a, no con ex o
da
enume ação das 12 azões a a o
do
casamen o que Ba os con apõe
às
12 azões con a o casamen o
supos amen e alegadas po um seu «amigo de Salamanca
••
numa
ca a da ada de 1529 4. Ou seja, apa ecem na sequência da eelabo ação
2 Sob e es a ques ão, pe mi imo-nos eme e pa a o nosso abalho Espelhos, Ca as
e Guias. Casamen o e Espi i ualidade na Península Ibé ica, 1450·1770, Po o, Ins i u o de
Cul u a Po uguesa, 1995.
3 BARROS, Espelho, i. XXV . Es a mesma ideia es a a p esen e em di e sos ex os
an e io es, como o ilus a, po exemplo, o Espelho de C is ina (a adução po uguesa do
Li e des ois e us de C is ina de Pisano, edi
ada
em Lisboa em1518), a p opósi o das
«mulhe es d'es ado e bu guesas»:
«C
a o o içio do homem he busca os bens e p o isões
pe
suas indus ias e abalhos. E as molhe es
os
de em o dena com muy a deligençia e
despende pe hones a desc içom assy que hy nom aja escacês e gonçosa nem aqueza
passe
os
e mos da ezom nem do siso ..... (c . edição ac-similada, Lisboa, Biblio eca
Nacional, 1987, i. xxxx ij .).
4 O Espelho de Casados es á di idido em 4 pa es, sendo a p imei a cons i uída po
uma
<<
ca a
»,
da ada de 1529 e supos amen e'en iada po um seu «amigo de Salamanca»
que nela ap esen a 12 azões con a o casamen o, e as 3 es an es po uma ou a espécie
de «ca a» de espos a, isando não só e u a os a gumen os do «amigo», mas ambém,
e no essencial, de ende o casamen o e
as
mulhe es con a á ios dos a aques con idos
nessa «Ca a» do seu
"a
migo». Ainda que a o ganização o mal des a ob a enha sido
inspi ada na Syl a Nup ialis de Ne izan - à qual de e ambém mui os dos seus a gu-
men os (c . Eugenio ASENSIO, «Les sou ces de I' Espelho de Casados du D . João de
Ba os
«,
in E
s
udios Po ugueses, Pa i
s,
F.C.G., 1970,
259-284)-
al ac o não diminui a
impo ância de algumas di e enças, nomeada
men e-
como ambém no ou E. ASENSIO
(ibid.,
275)-
no clima e no om da mesma, que es e diga espei o à imagem do casamen o,
que às e e ências à mulhe , di e enças que al ez alha a pena, explo ando di e sas
passagens
da
ob a, eme e pa a o seu con ex o ibé ico, bem conhecido do au o ... Além
disso, pa ece-nos pa icula men e signi
i
ca i o-
ainda que al possa obedece a c i é ios
eminen emen e e ó icos -que João de Ba os enha dis inguido ão cla amen e a sua
«ca a» (ou seja, o que cons i ui, e dadei amen e -pela in enção e
objec i os-
a sua
ob a) da «ca a» do seu «amigo», como que assim e i ando ambiguidades de p opósi os
que um «
a ado,
podia susci a , como, aliás, sucede a com di e sas ob as an e io es,
nomeadamen e a Syl a Nup ialis, que esg imiam a gumen os idên icos e não explici a am
com cla eza a posição dos seus au o es
..
.
80
e discussão
dos
ópicos mais co en es,
sob e udo
desde
inais
do
século
XV,
em
o no
da
ques ão
ma imonial
(e não
só
daquilo
que
sob e udo a his o iog a ia ancesa
di ulgou
como
a «que elle
des
emmes>>
),
ques ão
em que pa icipa am,
como
é
sobejamen e
conhe-
cido, á ios humanis as
(nomeadamen e
alguns
dos
mais amosos,
mas
não
só) e di e sos li e a os,
eólogos
e au o es espi i uais.
Na u almen e
que
não é
essa
ques ão
que
aqui in e essa discu i ,
mas
algumas
das
consequências
que
a
e olução
do
deba e
eio
aze ,
em
pa icula a
que
esul ou
das
mui as
discussões
sob e
a «na u eza»
e
sob e
o compo amen o
da
mulhe ,
nomeadamen e
da
mulhe
casa-
da. A li e a u a medie al,
desde
as
ob as
mo ais à lí ica, ha ia
já
explo ado
os
emas
da
mal ma ídada e
das
in elicidades
dos
casados
(das i onicamen e
chamadas
«aleg ias
do
casamen o» 5
).
As
suas
causas
e
os
seus
modos
são
ambém
conhecidos,
embo a os con ex-
os
e
os
objec i os
do
seu
a amen o
possam
e
sido
di e enciados
ou
e
obedecido
a di e sos
pon os
de
is a. Con udo,
às
imagens
do
mau
casamen o
es ão, com mui a equência,
senão
mesmo
semp e
, liga-
dos
os
mui os « ícios e male ícios»
das
mulhe es, em especial, a
sua
in idelidade e al a de cas idade. aduzidas,
no
caso
das
casadas, na
p opensão pa a o adul é io -
uma
pe spec i a
que,
desde
cedo, Gil
Vicen e
anspôs pa a o ea o,
conc e amen e
,
na
mui o conhecida
Fa sa chamada Au o
da
Índia-,
explo ando, jus amen e, a exis ência
de
condições mui o en ado as: a
ausência
de
ma ido -nes e
caso
,
uma ausência
que
se
p e ia p olongada e, logo, ainda mais acili ado a
da
«libe dade»
eminina
.
..
Come
dissemos
, a ocalização des e
ema
nes a a sa mos a-se ainda mui o,
digamos
assim,
«medie al»-
num
sen ido
que se
p ende
não
só
com
o ipo
de
linguagem u ilizada,
como
ambém
com a
maio
equência
e
a iedade
de
ex os
que
enume am
ou
explo am li e a iamen e
os
«Vícios» conside ados mais equen es
nas
mulhe es. Todos nos
lemb amos
que
do
modo
como
a ama e a
moça
se
e e em à pa ida
da
a mada
e
do
ma ido que nela ai,
que
dos
apa es
da
moça
ela i os à
pouca
idelidade
da
sua
ama,
que
da
hipoc isia -especialmen e
acen uada
nes e pon o -
com
que
o
ma ido
é ecebido
quando
eg essa
..
.
De
qualque
modo, Gil Vicen e
acabou
po
acen ua
ambém,
mais
se iamen e,
nes a
a sa,
apesa
daquela
ocalização mais sa í ica
-ou
po que pa iu
de
um
enquad amen o
que
salien a a
alguns
dos
5 Como o ilus am,
na
linha
de
ou as composições poé icas, de se mões, deba es
e «lamen os», ex os longos como
Les
quinze
joyes
du
ma
iage ( ex o anónimo
do
s
éc
. XV
- c . ed. de J. Rychne , Gene e, 1967) ou pequenas
compo
sições poé icas egis adas nos
cancionei os peninsula es (
c .
Pi
e e LE GENTIL,
La
poésie Ly uque Espagnole
e
Po ugaise
à la in du Moyen Age, Pa is, 1981 , esp. 155-160 e 419-20).
81
9
p oblemas
da
ausência
do ma ido
-,
as ci cuns âncias e as
consequências da p olongada ausência, o p oblema da subsis ência
da mulhe e a sua libe dade de acção: p oblemas que a a adís ica
mo al pos e io i ia no ó ia e assumidamen e a acen ua , sob e udo
depois que, na sequência dos deba es eológicos e humanis as sob e
o casamen o (sob e a ins i uição e sob e o
«es ado>>},
se
o am
len amen
e
mul iplicando as ob as mais didác icas isando o compo -
amen o eminino em ge al e o da mulhe casada
em
pa icula -
desde
ex os (só pa a ci a alguns dos mais céleb es) como o colóquio Vxo
Mempsigamos
de
E asmos a é ob as mais ex ensas como a lns i u io
Foeminae Ch is ianae de Vi es, ambos aduzidos e edi ados nos anos
20-30 em Espanha e la gamen e in luen es, di ec a e indi ec amen e,
em ob as pos e io es6, ou ainda como, bas an e mais a de, La Pe ec a
Casada (1583} de F ay Luis de León. Mas se essas ob as didác icas se
ão mul iplicando e di e si icando
-lemb ando
os de e es, as ob iga-
ções e as ocupações, nomeadamen e da casada, e o necendo mode-
los ou pau as de compo amen o emininos
-,
poucas são as que
lemb am ou salien am os «de e es do ma ido». Con udo, alguns
au o es -sob e udo os que se di igem di ec amen e aos ma id
os-
ão aludindo, mais ou menos de alhadamen e, às ob igações des e em
elação não só à mulhe , mas ambém
ao
«go e no da casa» (e, à
medida que o século XVI a ança, cada ez mais à esponsabilidade da
educação especialmen e mo al e eligiosa dos ilhos 7
}.
Um dos p imei-
os ex os que, sob e udo
ao
ní el do
í ulo-
mas pouco ainda ao ní el
do con eúdo ...
-,
incidi am sob e aquelas oi o De O icio Ma i i de Luis
Vi es, edi ado pela p imei a ez
em
1529 (mas que, signi ica i amen-
e?, não oi aduzido na Península Ibé ica 8
}.
Cu iosamen e, na ca a
dedica ó ia dessa ob a, di igida a Don Juan de Bo ja, Duque de Gandía,
Vi es con essou a
<<no idade»
des a, mesmo pa a si:
<<Cuando,
anos
a ás, iba esc ibiendo el a ado ace ca
de
la o mación de la muje
c is iana, poco podía
yo
pensa que en lo sucesi o no habian de al a
6 C . Augus in REDONDO, An onio de Gue a a (1480
?-
1545)
e
/'Espagne de son
Temps. De la Ca ie e O icielle
aux
Oeu
es Poli ico-Mo ales, Gené e, 1976, esp. 622-29
e Ma ia de Lu des Co eia FERNANDES, Espelho, Ca as e Guias
...
, esp. 1.• pa e, 46-142.
7 Ma ia
de
Lu des C. FERNANDES, Espelhos, Ca as e Guias .
..
, esp. 163-198 e
338-40
2.
8 De ac o,
não
é conheci
da
nenhuma edição
espanhola-
em la im ou
em
adução
-do
De O icio Ma i ide Vi es, ao con á io
do
que sucede em ou os países,
es
pecialmen-
e em F ança, que ê a sua adução igu a na edição
da
adução
da
lns i u io (a pa i de
1542)
po
Pie e
de
Changy. C . A. BONILLA y SAN MARTÍN, Luis Vi es y la Filoso ía de/
Renacimien o, Mad id, 1929, o
l.
III, 196-198.
82
quienes
me
exho asen a esc ibi un a adillo análogo ace ca de los
debe es dei ma ido, y aun h e de con esa que al idea no me i no jamás
a las mien es
>>
9•
Cla o que o ac o de
e
sido, num p imei o momen o, impensá el,
pa a Vi es e ce amen e pa a amaio pa e dos seus con empo âneos,
ala dos de e es do ma ido se liga à si uação de senho que, como
ambém disse o D . João de Ba os, ele inha, po
«USO>>
e po
« azão>>,
na «casa» (aqui no sen ido do amplo espaço domés ico). E, po isso,
um
dos p incipais aços ca ac e izado es desses (poucos) conselhos
aos
ma idos-
dados po homens, casados ou
não-
é o do econhe-
cimen o e ea i mação do seu es a u o inques ioná el de «senho da
casa>>
e,
logo, ambém do seu luga p eeminen e no núcleo conjugal.
A e e ência conc e a
ao
«o ício
>>
do
ma ido posiciona-se quase sem-
p e desde o pon o de is a da pe manência e au o ização
de
um pode
p e iamen e (milena men e ... )
consag ado-
mesmo apesa
de
algu-
mas c í icas (que são apenas a í ulo
de
excepção e como que de
p e enção),
como
as
que az F . An ónio de Gue a a no seu Relox de
P íncipes (1529) a «algunos ma idos an de amados en el gas a y an
dissolu os en el i i que no sólo no se ía bueno sus muje es obedece
a su mandamien o, mas aun se ia cosa saludable y les a la
mano>>
10
•••
Po ou o lado, o mesmo Gue a a a i mou numa ca a ao alenciano
Mosén Puche (incluída no Lib a P ime o de las Epís olas Familia es,
edi ado em 1539 11) que
"EI
ma ido que con o me a
sues ado
man iene
su amilia y sus en a a su casa, jus a y jus ísimamen e puede e ii a su
muje los descuidos que iene, y aun a ea le los excesos que hace; y
donde no, ha de su i lo que le dixe e,
pasa
po
lo que oye e, calla lo
que sospecha e y aun disimula lo que
ie e>>
... 12• Es e ex o, sem oca
di e enças
de
g upos sociais -ainda que saibamos quais inha
9 U ilizamos a adução
do
De O icio Ma i i (Oebe es
dei
Ma ido) incluída nas Ob as
Comple as, ed.
de
Lo
enzo Ribe ,
11
omos, Mad id, Aguila , 1947,
Tomo
I, 1259 ss.
1° Ci amos pela ecen e edição
de
Emílio Blanco,
ABL
Edi o es, 1994, cap. VI, 435-
-436. Gue a a ac escen a, con udo, mais
adian e-
e em e o ço
do
p incípio
da
submissão
eminina que inha de endendo - que «no
ay
cosa en que mas
una
muge mues e su
p udencia, que su i a un ma ido imp uden e, no
ay
cosa en que mas mues e su co du a,
que es
en
dissimula con un ma ido loco, no
ay
en
que
mas mues e su hones idad, que es
en su i a un ma ido dissolu o ... " (Relox ... , ed. ci .., 437).
" U ilizamos aqui a edição
de
José Ma ia
de
Cossío, Mad id, 1950, 2 ols., O Lib o
Segundo de las Epís olas Familia es oi edi ado
em
1541. A Le a pa a Mosén Puche,
alenciano, en la cua/ se oca la gamen e cómo e/ ma ido con la muge y la muge con e/
ma ido se han de habe . Es le a
pa a
dos ecién casados, da ada de 1524, é
uma
ex ensa
ca a que enume a, sin e izando,
as
ideias undamen ais, ao empo, ela i as ao compo a-
men o e de e es
dos
casados, especialmen e
da
mulhe casada (ed. ci .,
11,
363-390).
12 Lib a
P
ime o de las Epís olas Familia es, ed. ci .,
11
, 385.
83
p esen es o seu au o ... 13
-,
coloca di ec amen e a ques ão do
cump imen o das ob igações do ma ido enquan o o ma e meio pa a
man e
e,
como disse a ás, au o iza o seu pode ambém no espaço
domés ico: ob igações que esul am do que se conside a a se o seu
o ício p óp io e que a insis ência, em á ios ex os da época, nos
de e es da mulhe pa ece e ob igado a elemb a ... Ob igações,
igualmen e, de conse a a hon a e a azenda, de de ende a «paz,,, de
es imula e conse a o «amo » conjugal que, na época, se pensa a
adica , sob e udo, no cuidado exe cício da au o idade do ma ido ... Daí
ambém as pala as
do
anciscano Juan
de
Due ias no seu Espejo de
Conso/ación de T is es (1546 e segs.)
14
: «en es o les quie o haze
p eheminencia: que ellos sean los que manden y ijan
la
casa assi como
se io es y ellas les sean obedien es con emo e e encial, po que assi
aya siemp e en e ellos amo , ca idad y paz, po que de
lo
con a io se
seguian enojos, u baciones y ebuel as ...
''
15•
Es e con ex o pe mi e comp eende melho o alcance das e e ên-
cias, em ex os mo ais e em ex os li e á ios, à ausência do ma ido: um
aspec o que, po exemplo, o D . João
de
Ba os expôs pa a eba e o
a gumen o
da
«incon inência
das
mulhe es». « ... po ou a azão a
incon inência das molhe es em po culpa dos ma idos. Po que som as
ezes alguns ão loxos que deixam udo à disposição da na u eza, e
não olham o modo que nis o se de e e , e deixam
em
sua casa aze
a molhe o que
que >>.
Só que, a i ma-o, «a negligencia g ande é causa
de mui o mal.
..
>>.
Po isso explicou que
<<Não
em o ma ido necessidade
de anda de noi e
o a
de
sua casa e deixa a molhe imaginando o que
ele az pe a que o cuiéle ela. Não em o homem necessidade depois de
casado de o dena mui os cas elos
de
en o e anda dous e ês anos
o a
de
casa e deixa a molhe só, maio men e sendo moça, mas de e
oma
ca ga com que possa». Ainda que o au o econheça que «haja
mui as e uosas que espe am seus ma idos ausen es na Co e, nas
lndias e na Gue a, con udo -acen ua
-es as
em mui os incon e-
nien es pe a o não se em com mui as empo unações e necessidades
que lhe oco em ... " 16•
13
Mas uma coisa é con ex o eligioso, social e polí ico do Bispo de Mondoiíedo e
o público de 1539-41, ou a é o público e o con ex o cul u al da segunda me ade do
século XVI e do século XVII, que e e acesso a di e sas edições que das Epís olas
Familia es (uma
das
ob as mais edi adas do século XVI ibé ico) que do Relógio de
P íncipes (c .
A.
REDONDO, An onio de Gue a a, passim).
14 Es a ob a, compos a po 6 pa es, e e di e sas
edições-
mui as delas de apenas
algumas
pa es-
na segunda me ade do século XVI e oi compos a, segundo pala as do
seu
au o ,
pa a
«consolacion
de
los
que
en
es a
ida
padecen
ibulacion».
15
Juan de DUENAS, Espejo
de
Consolación de T is es, Mad id, 1550, i.
XC.
16 Espelho de Casados, 3.ª pa e, i. XLII.
84
Es as e e ências di ec as às ausências p olongadas dos ma idos
-acen uando
os consequn es pe igos
-,
es ando olun a iamen e
enquad adas, como disse, na discussão do a gumen o da incon inên-
cia eminina, ealçam, conc e amen e, as si uações de «desp o ecção>>
o,
logo, de exposição (que a é pode e alguma jus i icação, como a da
necessidade) aos di e sos a aques, nomeadamen e à ama e hon a da
mulhe -
que o mesmo é dize , ambém, à hon a do ma ido e de oda
a sua
«Casa»-.
De
ac o, os quad os men ais (aliás, mui o explo ados
pela li e a u a) que en e ma am as concepções do compo amen o
eminino não ole a am com acilidade (ou sem azões socialmen e
jus i icadas ou ole adas) que a «libe dade» de mo imen os da mulhe
o a do espaço conside ado seu, especialmen e da donzela e da
casada-
a iú a inha, na u almen e, ou as
p e oga i as-,
que o
p e ex o da necessidade, semp e pe igoso e acilmen e in ocá el nas
si uações de incump imen o do «o ício»
do
ma ido ... Lemb emos no a-
men e de
um
dos diálogos iniciais do
Au o
da Índia en e a
ama
e a
moça:
Ama
E que alas u lá só?
Moç. Falo cá co'es a cama.
Ama
E essa cama, bem, que há?
Mos a-m'essa oca cá:
sique ia ei um io.
Leixou-me aquele as io
sem cei il.
Moç. Ali, e amá!
Todas icassem assi.
Leixou-lhe pe a ês anos
T igo, azei e, mel e panos.
Ama
Mau pesa eja eu de i!
Tu cuidas que não 'en endo?
Moç. Que en endeis? ando dizendo
que quem assi ica sem nada,
coma ós, que é ob igada ...
Já me ós is en endendo 17.
A ób ia e p oposi ada i onia des a passagem, em pa icula da
úl ima ala da moça, não necessi a de g andes comen á ios ... Tal i onia
17 Gil Vicen e, Fa sa
Ch
a
mad
a Au o da lndia in Ob as Comple as, ed. de Ma ques
B aga, Lisboa, 1978, 92-93.
85
é ainda e o çada po
um
ou o diálogo,
já
mais no inal, no qual a ama
alude à pouca espe ança (acompanhada do pouco desejo) do eg esso
do ma ido:
Ama Mas que g aça, que se ia,
se es e neg o meu ma ido
o nasse a Lisboa i o
pe a a minha companhia!
Mas is o não pode se ;
qu'ele ha ia de mo e
somen e de e o ma .
Que o ia e can a ,
segu a de o nunca e
18
•
Uma segu ança que esul a a do ac o de, como di ia mais a de
Síl ia na Comédia Eu osina (1555), e em
••i
an os e o na ão
pOUCOS» ...
19
Con on emos ago a as passagens des es ex os como
um
ou o
bas an e di e en e mas, nes e aspec o, complemen a , já não de
um
li e a o nem de
um
«humanis a,, (ou in luenciado po algumas co en-
es humanis as), mas
um
au o espi i ual: o anciscano F ancisco de
Osuna, o mes e do « ecogimien o», ão in luen e nas co en es de
espi i ualidade ibé icas do século XVI, na sua ob a No e de los
Es ados, edi ado pela p imei a ez em 1531 20• A sua condenação de
odos os ma idos que se ausen a am, quan as ezes sem o consen i-
men o da mulhe , du an e longos espaços de empo ou pa a longes
e as, como as Índias (es a designação adap a a-se, gene icamen e,
não
só
às Amé icas, mas ambém à Índia e a ce as egiões de Á ica),
é mais du a e mais po meno izada que a que eio a oma o D
.
João
de Ba os, ainda que admi a a legi imidade (aliás, socialmen e consa-
g ada}, em ce as si uações, de algumas ausências, como as dos
«homb es de gue a» e as dos «me cado es pob es». Mesmo assim,
conside ou não se «lici o a odos los homb es de gue a es a apa a-
dos de sus muje es la go iempo aun que gua den cas idad si
no
a los
que casa on siendo conoscidos po ales. Ni es lici o a odos los
18
Au o da Índia, ed. ci ., 109.
19
Jo ge Fe ei a de VASCONCELOS, Comédia Eu osina, ed. de Eugén
io
Asensio.
Mad id, 1951, 119.
20
Reedi ado em 1541 e 1550. C . Fidêle de
AO
S, Un
mai
e de sain e Thé ése. Le
P
é
e ançois d'Osuna. Sa ie,
son
oeu
e,
sa
doc ine spi i ual/e, Pa i
s,
Beauchesne, 1936.
86
me cado es si no los ( ... ) que no ienen que come si no de aquella
ganancia: y aun es os de e ian muda de a o ...
».
Seguindo uma
pe spec i a mui o dependen e dos mé odos da eologia mo al
21
, ousou
mesmo a i ma que «ningun casado puede lici amen e y la go camino,
ni de ene se medio ano sin peca g a issimamen e:
el
y quien lo
absuel e quando se con essa»: uma a i mação que o le ou mais longe
de que ou os au o es que oca am o assun o, p opondo ainda que se
izesse uma lei «que ningun ma ido ausen e dexasse cada ano de
esc i e a su muje ( ... ) y es a ca a a ia de se de an a i meza que
hiziesse e do quie a que uesse: y si en es o el mal c is iano ma ido
al asse, que le diessen cien aço es: po que no queb an asse o a ez
el
ma imonio c is iano que equie e
de
mucha cong uydad mo ada
comum en e los dos: y no
se
puede gua da es ando el uno en las
lndias; y el o o en Cas illa ...
>>
22
•
Cla o que nes as a i mações, que podemos quali ica de mui o
«mode nas>>
(no seu sen ido his ó ico), es ão p essupos as (e indi ec-
amen e ea i madas) as bases dou inais do casamen o c is ão (me-
lho , ca ólico), nomeadamen e o seu ca ác e sac amen al, a sua
unção de
« emédio>>
pa a a concupiscência ca nal e o p incípio
da
indissolubilidade, delimi ado es an o das p opos as de modelos
compo amen ais como do p óp io a amen o li e á io dos emas ela-
cionados com o casamen o -uma ea i mação que em an o mais
signi icado quan o aqueles aspec os o am dos mais con es ados pelos
Re o mados, nomeadamen e po Lu e o. O a, a de esa
ou
a insis ência
no
ca ác e sac amen al do casamen o, ep esen ando a união de
C is o com a Ig eja, p essupunha e ob iga a, consequen emen e, a
uma simila digni icação que, ob iamen e, não de ia ole a a in idelida-
de ou o adul é io, os maus a os (se excessi os
ou
abusi os) e o não
cump imen o dos de e es (nomeadamen e o do débi o conjugal) que a
dou ina e o uso social ha iam gene icamen e consag ado. Comple-
men a men e, a indissolubilidade ambém não au o iza a, excep o em
casos mui o p ecisos, a anulação do con a o que, aliás, odos sabiam
de e se de ini i o.
Des e modo, os luga es ela i os, na casa e na amília, do ma ido
e da mulhe p essupunham uma
«p esença>>
daquele po o ma a
ga an i não
só
a au o idade, mas ambém uma ce a comple-
men a idade, ainda que baseada num desní el en e o pode e o de e
de cada qual e en e os modos de pa ilha dos espaços ex e io es e
2' Como, aliás, sucede
em
oda a ob a ... (c . Fidêle de AOS, Un mai e de sain e
Th
é ese, esp. 46 e ss.).
22
F ancisco de Osuna, No e de los Es ados, Se illa, 1531, ls. 148 .-150 .
87
Independen emen e da especi icidade des a lenda ão ao gos o
omân ico, a ob igação ou a en ação das
<<Índias,,
pa ece, como
dissemos, e ma cado, no seu quo idiano, mui os po ugueses do
século XVI
e,
mesmo, do século XVII
e,
po udo o que icou di o
ou
pelo
que a li e a u a dessas épocas egis ou, a iu ez (com odas as suas
complicações) oi
um
enómeno, com equência, associado às iagens
dos descob imen os. Lemb emos, como conclusão, uma passagem do
Au o do Mou o Encan ado de An ónio P es es, aquando da en ada em
cena de uma iú a:
Fe não Senho a, onde alecêo?
Viú a Falecêo, po meus pecados, nessa lndia.
G imaneza Lá mo êo?
Viu a Lá
G imaneza Vi o se á no cêo:
ah! quan os homens em gas ados
es a lndia!
Fe não Como o ma ;
á bo é, molhe senho a,
se não ô a o eme . e o a ecea
de en iu a des alguma ho a,
na lndia andá a eu ago a 39 •
39 An ónio PRESTES, Au o do Mou o Encan ado (2
.ª
pa e
do
Au o
da
Ciosa),
in
Au os, ed. de Ti o de No onh
a,
Po o, 1871, 386-387.
94