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Vivências de si na toxicodependência: análise qualitativa de relatos de heroinómanos recolhidos em meio institucional

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Vivências de si na toxicodependência: análise qualitativa de relatos de heroinómanos recolhidos em meio institucional

Author: Rui Pedro Tinoco Carreiro
Year: 2000
DOI: 10.34626/8366-ky52
Source: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/23743/2/29733.pdf
UNIVERSIDADE DO PORTO
FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS
DA EDUCAÇÃO
MESTRADO EM PSICOLOGIA DO
COMPORTAMENTO DESVIANTE
(TOXICODEPENDÊNCIAS)
DISSERTAÇÃO DE CANDIDATURA AO GRAU DE MESTRE:
VIVÊNCIAS DE SI NA TOXICODEPENDÊNCIA
Análise quali a i a de ela os de he oinómanos ecolhidos em meio ins i ucional
Rui Ped o Tinoco Ca ei o
MAIO 2000
UNIVERSIDADE DO PORTO
FACULDADE DE PSICOLOGIA E DE CIÊNCIAS
DA EDUCAÇÃO
MESTRADO EM PSICOLOGIA DO
COMPORTAMENTO DESVIANTE
(TOXICODEPENDÊNCIAS)
DISSERTAÇÃO DE CANDIDATURA AO GRAU DE MESTRE:
VIVÊNCIAS DE SI NA TOXICODEPENDÊNCIA
Análise quali a i a de ela os de he oinómanos ecolhidos em meio
ins i ucional
Sob o ien ação do P o esso Dou o
Luís Fe nandes
Rui Ped o Tinoco Ca ei o
Maio 2000
Ag adecimen os
Um p ojec o como es e só é possí el le a a cabo com a colabo ação de inúme as pessoas
que me ajuda am na depu ação da esc i a e incen i a am o meu in e esse nas á ias ma é ias que
en ei expo ao longo do ex o.
Assim, um especial ob igado ao P o esso Dou o Luís Fe nandes que desde cedo
despe ou em mim o in e esse pela epis emologia e que es e e semp e disponí el pa a as
dú idas que o am apa ecendo ao longo da in es igação.
À P o esso a Dou o a Celina Mani a po me e p es ado ensinamen os indispensá eis na
ealização da análise de con eúdo, aqui ica uma pala a de ag adecimen o.
Que ia deixa ambém uma pala a de ap eço ao D . José Gonzalez cuja abe u a de
espí i o me pe mi iu a ealização das en e is as no C.A.T. onde abalho, en e mui as ou as
coisas.
Ao Filipe Ba bosa pela ajuda da ansc ição das en e is as g a adas pa a supo e
in o má ico.
Um ag adecimen o especial à Ma ia Gab iela
Tinoco,
minha a ó.
À Ma ia José Tinoco pela e isão do ex o.
A An ónio Vasco Bobone pelo apoio " ipog á ico".
E, po úl imo, uma especial pala a de econhecimen o a odos os en e is ados que,
desin e essadamen e, se disponibiliza am à pa icipação nes e es udo.
A Paula, po udo.
11
INDICE
INTRODUÇÃO 1
PARTE A- FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 3
Capí ulo I - Conside ações epis emológicas 7
1 - Sujei o das ciências sociais: mu ações na acionalidade cien í ica 7
1.1 - Racionalidade subme ida a c í ica 8
1.1.1 - P imei o momen o: pe spec i ação da acionalidade no p o isó io 10
1.1.2 - Segundo momen o: acionalidade como ins umen o mul i-usos da ciência 12
1.1.3 - Te cei o momen o: acionalidade como elemen o do epis ema 14
1.1.4 - Sujei o cien í ico: p imei as conside ações 15
1.2 - Racionalidade p o isó ia, agmen ada e comunican e 17
1.2.1 - Ana quismo epis emológico 17
1.2.2 - Logoanálise 18
1.2.3 - Neo-p agma ismo 20
1.2.4 - Condição pós-mode na 21
1.2.5 - Sujei o cien í ico: conside ações inais 23
2 - Objec o das ciências sociais: indi íduo psico-social 24
in
Capí ulo II - In es igação cien í ica das oxicodependências 28
1 - Obs áculos epis emológicos 29
1.1 - Di iculdades concep uais 30
1.2 - Di iculdades his ó icas 31
1.3 - Di iculdades ju ídicopolí icas 33
1.4 - Di iculdades sócio-cul u ais 34
1.5 - Di iculdades pa adigmá icas 37
1.6 - Di iculdades me odológicas 38
2 - In es igações e nobiog á icas 40
2.1 - An eceden es his ó icos 41
2.2 - Wheeling and dealing 48
2.3 - Escola Ca alã 50
2.4 - I.R.E.P 53
2.5 - Nexo d oga-c ime 55
2.6 - Fo mas de ida 57
2.7 - Es ilos de ida 58
3 - Que ciência? 61
Capí ulo III - Vi ências de si na oxicodependência: p oblema ização.... 64
1 - P oblema ização:
a i ência das escolhas indi iduais 64
2 - B e e jus i icação sob e o í ulo 66
i

PARTE B - MONTAGEM DO DISPOSITIVO DE INVESTIGAÇÃO 68
Capí ulo I - Escolhas me odológicas 70
1 - Recolha de dados em con ex o ins i ucional 70
2 - Tipo de en e is a 71
3 - Cons ução do guião 73
Capí ulo II - T a amen o dos dados 75
1 - Análise de con eúdo 75
2 - Disposi i o analí ico de Foucaul 78
2.1 - Pesquisa é imo-his ó ica 80
2.2 - Ní eis analí icos 81
2.3 - Pe inência do uso do disposi i o na oxicodependência 84
3 - Con ex ualização eó ica 86
3.1 - Es udos undado es de Ag a 86
3.2 - Aplicações na p á ica in es iga i a 87
PARTE C - APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS 89
Capí ulo I - Disposi i os 92
1 - Disposi i os conc e os 92
1.1 - Família 92
1.1.1 - Dimensões on ológicas 92
1.1.2 - Dimensões deon ológicas 93
1.1.3 - Dimensões ascé icas 94
1.1.4 - Dimensões eleológicas 96
1.1.5 - Ap eciação global 96
1.2 - Escola 97
1.2.1 - Dimensões on ológicas 97
1.2.2 - Dimensões deon ológicas 97
1.2.3 - Dimensões ascé icas 98
1.2.4 - Dimensões eleológicas 99
1.2.5 - Ap eciação global 100
1.3 - T abalho 100
1.3.1 - Dimensões on ológicas 100
1.3.2 - Dimensões deon ológicas 102
1.3.3 - Dimensões ascé icas 103
1.3.4 - Dimensões eleológicas 104
1.3.5 - Ap eciação global 105
1.4 - G upos in o mais 106
1.4.1- Dimensões on ológicas 106
1.4.2 - Dimensões deon ológicas 106
1.4.3 - Dimensões ascé icas 108
1.4.4 - Dimensões eleológicas 109
1.4.5 - Ap eciação global 110
i
1.5 - Discussão ge al - Disposi i os conc e os 111
2 - Disposi i os no ma i o- acionais 112
2.1 - Disposi i o Ju ídico-penal 112
2.1.1 - Dimensões on ológicas 112
2.1.2 - Dimensões deon ológicas 112
2.1.3 - Dimensões ascé icas 115
2.1.4 - Dimensões eleológicas 117
2.1.5 - Ap eciação global 119
2.2 - Disposi i o Médico-sani á io 120
2.2.1 - Dimensões on ológicas 120
2.2.2 - Dimensões deon ológicas 120
2.2.3 - Dimensões ascé icas 122
2.2.4 - Dimensões eleológicas 123
2.2.5 - Ap eciação global 125
2.3 - Discussão ge al - Disposi i os no ma i o- acionais 126
3 - Disposi i os: sín ese 127
Capí ulo II - Socialização des ian e 128
1 - Relação com os ou os 128
1.1 - Sabe in e subjec i o 128
1.1.1 - Dimensões on ológicas 129
1.1.2 - Dimensões deon ológicas 129
1.1.3 - Dimensões ascé icas 132
1.1.4 - Dimensões eleológicas 132
1.1.5 - Ap eciação global 134
ii
1.2 - Ges ão da imagem de si 135
1.2.1 - Dimensões on ológicas 135
1.2.2 - Dimensões deon ológicas : 135
1.2.3 - Dimensões ascé icas 136
1.2.4 - Dimensões eleológicas 138
1.2.5 - Ap eciação global 140
1.3 - Discussão ge al - Relação com os ou os 141
2 - P á icas e i ências 142
2.1 - Iniciação às d ogas 142
2.1.1 - Dimensões on ológicas 142
2.1.2 - Dimensões deon ológicas 147
2.1.3 - Dimensões ascé icas 152
2.1.4 - Dimensões eleológicas 155
2.1.5 - Ap eciação global 156
2.2 - Ges ão da ca ei a de consumido 157
2.2.1 - Dimensões on ológicas 158
2.2.2 - Dimensões deon ológicas 159
2.2.3 - Dimensões ascé icas 161
2.2.4 - Dimensões eleológicas 163
2.2.5 - Ap eciação global 165
2.3 - Pon os de in lexão 166
2.3.1 - Dimensões on ológicas 166
2.3.2 - Dimensões deon ológicas 167
2.3.3 - Dimensões ascé icas 168
2.3.4 - Dimensões eleológicas 170
2.3.5 - Ap eciação global 171
2.4 - Discussão ge al - P á icas e i ências 172
iii
"O que é ca ac e ís ico da mode nidade não é adopção do no o pelo no o, mas a
p esunção da e lexi idade gene alizada que inclui, e iden emen e, a e lexão sob e a
na u eza da p óp ia e lexão." (Giddens, 1996, p. 27).
O a ais posições exp essas po Giddens o am o p odu o de uma longa e olução
epis emológica das ciências que cump e aqui da con a. Lyo a d (1989) de ende exis i
uma ce a deslegi imização do sabe , um esba imen o das on ei as clássicas en e as
ciências, esul an e de uma ce a pe da de pode heu ís ico de cada uma de pe si. A
ce eza das coisas, a segu ança com que se azia uma pe gun a es a ão inelu a elmen e
comp ome idas. Mais: uma ou a ince eza ad ém da insegu ança da pe gun a, a
insegu ança na espos a. O que é um objec o cien í ico? De ine-se a pa i dele p óp io?
De ine-se a pa i da disciplina que sob e ele se deb uça? Um ou o exe cício de
e lexi idade se impõe. 0) Dedica emos o p imei o capí ulo a um exe cício e lexi o
sob e o binómio sujei o-objec o nas ciências sociais.
P opomo-nos ealiza , es e abalho, uma in e são da in e ogação clássica
p opos a pela clínica, a sabe : como é que o oxicodependen e so e, como é que ele ica
des uído pela subs ância. In e essa-nos, an es, pe sc u a a o ma como o sujei o i e os
seus ac os nessas ci cuns âncias. Chamamos ao nosso p ojec o Vi ências de si na
oxicodependência' po que p i ilegiamos o que o sujei o diz do que i e na sua exis ência
de oxicodependen e, e ambém po que que emos a alia os aspec os is os como de
au o-con ole e descon ole - e is o do pon o de is a exclusi o do sujei o
oxicodependen e.
Vamos, en ão, ap o unda a expe iência da oxicodependência de uma o ma
p ocessual, is o é, que le a em linha de con a o ac o empo, ap oximando-nos, po isso,
da noção de ca ei a des ian e ( al como oi de inida po Faupel, 1991; Becke , 1963)
dando especial ele o aos pon os de escolha do indi íduo nessa ca ei a. Alguns
exemplos podem se acilmen e lis ados: o oubo é ou não é admissí el ao longo da
ca ei a de consumos; o á ico, os pequenos esquemas de anga ia undos no mundo das
d ogas, en e ou os. Mas não se julgue que as dimensões da escolha icam po aqui: há a
dimensão do uso das d ogas; a ap oximação ou a as amen o em elação a ce as
5

subcul u as; o cuidado que o indi íduo dedica ou não à sua imagem social; o
desen ol imen o de mecanismos cogni i os que pe mi am a p ossecução, ou pelo
con á io, a in e upção de ce as condu as.
Nes a p imei a abo dagem emos logo que o p oblema a es uda é de na u eza
compósi a: a i ência de si possui inúme as es e as de análise; di ide-se em di e sas
á eas compo amen ais e cogni i as sob e as quais o sujei o p oduz a sua e lexão.
Po ém, o modo como nos deb uçamos sob e essa p oblemá ica se á abo dado em
secções pos e io es.
Resumindo: a undamen ação eó ica p e ende o enquad amen o epis emológico de
índole ge al - Cap. I - Conside ações epis emológicas - desmon ando qualque
ingenuidade na o mulação de p oblemas cien í icos. Mais: pe mi e-nos a escolha, en e
in ini as in es igações ealizadas na oxicodependência, de uma adição eó ica em
consonância com ce os c i é ios epis emológicos, pe mi e-nos, numa pala a, a
ealização da Paideia ( e no a 1) - Cap. II - In es igação cien í ica das
oxicodependências. Finalmen e no Cap. Ill - Vi ências de si na oxicodependência:
p oblema ização - enquad a a p oblema ização eó ica que p e endemos in es iga
empi icamen e. Es a se á consequen e com o pe cu so a é aqui açado.
A undamen ação eó ica cabe den o de um exe cício de e lexi idade sob e a
p á ica cien í ica cada ez mais comum na ciência con empo ânea (San os, 1987,
denomina al de conhecimen o do conhecimen o; Giddens, 1996, como imos, de
e lexi idade; Ag a, 1986, de epis emologia in e na).
6
CAPÍTULO 1 - Conside ações epis emológicas
A agmen ação da epis emologia que acima a lo ámos de i a de uma ce a
agmen ação do sujei o - en endido aqui como o luga de onde se in e oga.
"O indi íduo não é ou o pode , ealidade ex e io , que é po ele anulado; é um dos
seus mais impo an es e ei os" (Machado, 1992, p.xx).
Os abalhos de Foucaul (1986b, 1987) mas ambém de Cas o iadis (ci . in
Leg and, 1993) des onam o indi íduo do seu luga à pa e de condicionalismos sociais,
cul u ais ou polí icos; ele é is o como um p odu o de udo isso. Numa á ea mais
p óxima, da epis emologia o indi íduo li e, p odu o de axiomas álidos e uni e sais,
ambém é pos o em dú ida - Kuhn (1983) analisa as e oluções cien í icas como p odu os,
pelo menos de modo pa cial, de lu as en e comunidades de in es igado es.
1.
Sujei o das ciências sociais: mu ações na acionalidade cien í ica
Classicamen e, a epis emologia se ia de olha ex e io à p óp ia ciência (Ca ilho,
1989;
Ag a, 1986) p ocu ando de ini a on ei a que sepa a ia o cien í ico do não
cien í ico. Oiçamos San os:
"A e dade, po ém, é que a e lexão ilosó ica que se seguiu a Desca es e a Locke
- po se ei a po ilóso os e po es es es a em obcecados pela ideia do conhecimen o
ce o e objec i o, dis in o da me a opinião - man e e o al dis ância em elação às
issici udes do labo cien í ico, e oi, aliás, dessa dis ância que se alimen ou a
dogma ização da ciência." (San os, 1989, p. 24).
Um mo imen o que se p olongou po séculos, enden e a sepa a as eo ias e a
c í ica dessas mesmas eo ias, elegou pa a segundo plano as possí eis condicionan es,
ex a ou in a cien í icas, que in luencia am esse de i cien í ico. O posi i ismo de
Com e, ao pos ula a exis ência de leis causais e p e isí eis po oda a ealidade - cabendo
à ciência a sua descobe a - é um ma co impo an e nesse p ocesso de dogma ização que
San os e e ia. Na á ea das ciências humanas, a í ulo de exemplo, a ami icação dessas
eo ias implicou a impo ação de esquemas ma emá icos, de p ocedimen os quan i a i os e
a ma ginalização p og essi a de odas as dema ches que escapassem a esses equisi os (p.
e. consul e-se Ma za 1990; 1989).
7
Um ou o ac o impo an e exige se ealçado: o papel do cí culo de Viena. San os
si ua aí o momen o máximo da chamada dogma ização da ciência. O p incípio da
e i icabilidade a as a a da ciência qualque obs áculo que pusesse em causa os seus
undamen os. Não e a cien í ico udo o que não pudesse se e i icado - qualque
p oposição se ia elegada pa a o a da ciência semp e que não pudesse se p o ada
e dadei a.
O a gumen o, hoje, pa ece-nos um pouco ci cula : a ciência em de se exac a e
igo osa, de e exis i além da opinião pessoal, po isso acei a em si o que pode ha e de
exac o e igo oso, ecusando udo aquilo que não o possa se . Só in eg a o que
con i mam os seus p incípios ilosó icos ge ais, é selec i a. Es á cla o que ais posições
de i am de um con ex o social e polí ico especí ico: as po ências eu opeias di idiam en e
si as as á eas do plane a; a e olução indus ial es a a no seu auge, despole ando
p og essos económicos e ecnológicos assinalá eis (Ca ilho, 1989). O homem julga a
que podia des enda comple amen e a na u eza:
"A his ó ia das ciências eme ge assim, es a égica e me odologicamen e, egida
pelas ca ego ias de p og esso e de con inuidade que a ma ca ão du adou a e
p o undamen e: a a aliação do p og esso só é concebí el no âmbi o de uma pe spec i a
con inuis a que, como se ê, pode i a é ao ecu so à pu a icção." (Ca ilho, 1989, p. 16)
Des a ci ação e i amos um complemen o ao que se disse: o de que concei os como
p og esso e con inuidade ma ca am desde o século passado a imagem que a ciência em
de si; e o de que essa imagem não co esponde de odo à e dade. A con iança e o
p og esso, além de imp egna em a o mulação de eo ias num dado momen o,
es ende am-se ao de i cien í ico no seu conjun o. A solidez de al de i global, apoiada
na con iança na acionalidade, oi en e an o pos a em causa.
1.1 Racionalidade subme ida a c í ica
En endemos aqui po acionalidade o modo como a ciência, no seu odo, o ganiza
as eo ias cons uídas ace ca da ealidade que p e ende conhece . Po ou as pala as: os
me a-p incípios que são comuns às á ias ciências.
8
Ao longo do século XIX e início de XX podemos obse a um o e mo imen o de
dogma ização das ciências (San os, 1989; Ag a, 1986). A dogma ização p o inha de uma
época em que a sociedade ociden al a ingia um auge de au o-con iança como acima se
e e iu. Pa a San os, o momen o máximo desse mo imen o obse ou-se nas con e ências
do cí culo de Viena Ca nap (ci . in Ag a, 1986) o mulou dois p incípios egulado es da
ac i idade cien í ica: o da e i icabilidade (mais a de subs i uído pelo da
con i mabilidade); e o da adu ibilidade, que consis iam:
- o p imei o,
" e i iabili é: un énoncé na de signi ica ion scien i ique qu'à la condi ion
d'ê e
e i iable pa
"expe ience."
(Ag a 1986, p. 33)
- o segundo,
"T aduc ibili é: es scien i ique un énoncé suscep ible
d'ê e
adui dans un langage
empi is e (...)
B e ,
pou l'empi isme logique, la science es une aduc ion du monde à
a e s un langage qui puise sa é i é, pa induc ion, dans la é i ica ion de l'ensemble
des énoncés que le cons i uen ." (Ag a, 1986, p. 34)
Na escola epis emológica ancesa obse ou-se um momen o de na u eza dogmá ica
com a p opos a posi i is a de A. Com e. A e olução das capacidades de conhecimen o da
espécie humana ende iam pa a o que se chamou es ado posi i o. Esse es ado ca ac e iza -
se-ia pelo in es imen o na comp eensão dos ac os, p ocu ando enuncia as leis que
subjazem ao seu apa ecimen o; conseguindo, des a o ma, p e e os acon ecimen os de
o ma bem de inida, assim como consegui desencadeá-los/2)
O posi i ismo, como o empi ismo lógico, a as a a o ulando de sem in e esse ou
p oblema não cien í ico, odas as ques ões que não obedecessem a esses p incípios. A
linguagem cien í ica se ia capaz de da con a do eal, a a és de ope ações de na u eza
isomó ica. A ciência se ia capaz de o ganiza a globalidade do eal a a és de eo ias. A
acionalidade implíci a em odas essas posições, a iscamos dizê-lo, é de na u eza
o ali á ia e manie ado a do objec o de es udo - es e só e ia de se deixa obse a , deixa
1e , em si, a linguagem da na u eza e do mundo de que é po ado .
A é aqui a epis emologia p eocupa a-se, essencialmen e, em de ini um conjun o de
eg as que possibili assem a p odução de um sabe que anscendesse o ní el da opinião
pessoal (San os, 1989): azia-se uma análise in e io da acionalidade, en ando o mula
9
leis que de inissem as possibilidades do seu de i ; con udo, no as possibilidades i iam a
ope a di e sas deslocações no p oblema da acionalidade cien í ica.
1.1.1 - P imei o momen o: pe spec i ação da acionalidade no
p o isó io
Da emos con a aqui de uma p imei a agmen ação des a acionalidade dogmá ica,
maciça e sem b echas. Em diálogo com a adição do cí culo de Viena e com o
posi i ismo, su gi iam as p opos as de Poppe e de Bachela d; es e com a ideia da
psicanálise do conhecimen o, aquele com a p opos a da alsi icabilidade.
Ca ilho (1989) conside a que Poppe de ine a epis emologia como a eo ia do
c escimen o do conhecimen o cien í ico. O cí culo de Viena ac edi a a pode descob i
p oposições sin é icas (Ca nap ci . in Ag a, 1986) que, sendo undadas na expe iência
empí ica, possibili assem a indução de no as eo ias. A p opos a da alsi icabilidade
man ém ligações com Viena: a eo ia só pode á se conside ada cien í ica se pude se
con on ada com a ealidade; essa eo ia se á acei e de modo p o isó io a é que con adi a
pelos ac os empí icos en e an o descobe os.
Isso le a-nos a uma ou a
ques ão:
a eo ia cien í ica de e á passa a se o mulada
de modo a que pe mi a se alsi icada, is o é, é necessá io que se de ina com cla eza as
condições da sua aplicabilidade e delimi a as si uações em que possa ha e uma
insu iciência explica i a. Aliás, o p o isó io, em Poppe , ad ém em g ande pa e do seu
concei o do 3o mundo' - o mundo das ideias e dos símbolos que se ege ia po leis
semelhan es às que egem o e olucionismo:
"Tal ealidade - o mundo - que escapa à impe eição das no as de inições, é
múl ipla complexa e in e ac i a. A pa e dela de que Poppe se ocupa, compos a pelas
eo ias cien í icas e pe encen e ao 'mundo
3',
não se pode con undi , nem com a ma é ia
( o 'mundo 1') nem com o espí i o ( o 'mundo 2'), embo a com eles in e aja. Fei as pelo
homem, as eo ias sob e i em aos seus au o es e não se con undem com eles nem com o
seu espí i o. São, po an o, au ónomas e suscep í eis, segundo Poppe , de uma e olução
e selecção na u al idên ica à que Da win pos ula a pa a os se es i os do 'mundo 1'."
(Ab eu, 1995, p. 41)
1 0

As eo ias são, po an o, espos as p o isó ias aos p oblemas, podendo em
qualque momen o se subs i uídas po ou as eo ias melho adap adas/3) O c i é io de
alsi icabilidade con inua a dema ca as ciências das ou as o mas de sabe .
"II (Poppe ) p opose une al e na i e. Celle-ci consis e à emplace les p océdu es
induc i es pa les p océdu es déduc i es, le c i è e de alsiabili é; elle consis e à emplace
empi isme
logique
pa un
a ionalisme c i ique."(Ag a,
1986, p. 35)
Co n Bachela d (1991) man ém-se um diálogo com a adição ancesa do
posi i ismo, embo a exis a igualmen e uma necessá ia dis anciação. A ideia do "no o
espí i o cien í ico" man ém ligações a que ípicas (4) com o es ado posi i o de Com e,
embo a despojada de oda e en e dogmá ica. O no o espí i o cien í ico ca ac e iza -se-ia
po pô em ques ão dados conside ados como adqui idos pa a semp e, en ando ealiza
uma sín ese de con á ios (Ag a, 1986, p. 46), en ando coloca -se en e a eo ia e a
p á ica, en e a ma emá ica e a expe iência.
"Le nou el esp i scien i ique onc ionne su la base
d'une
logique dialec ique qui
cons ui e ai p og esse la science pa la néga ion cons an e de
"
acquis,
pa la up u e
( up u e épis émologique) a ec un passé d'e eu s qui onc ionnen comme des obs acles
(obs acles épis émologiques) e qui son issus du éalisme, du posi i isme e du
a ionalisme. La psychanalyse es T ins umen de mise au jou de ces obs acles e la
dialec ique cons i ue la mé hode qui pe me de les dépasse ." (Ag a, 1986,
p.
47)
A in luência da escola ancesa não se no a apenas na es e a a que ípica mas
ambém na necessidade de en a em up u a com o adqui ido posi i is a. Em Bachela d,
o p o isó io do adqui ido é exp esso de um modo mais abs ac o que em Poppe . Há aqui
uma cons an e oscilação, uma lu a con a os obs áculos epis emológicos, coexis indo
simul aneamen e di e sos g aus de complexidade concep ual - daí a noção de pe il
epis emológico, que da ia con a, num dado cien is a, da coexis ência de di e sos g aus de
concep ualização de um dado concei o. Ou seja:
"De e-se-lhe a ele (Bachela d) uma concepção do sabe en endida não como uma
p og essi a aquisição da e dade com o al expulsão do e o, que se ia um also sabe , ou
da igno ância, que se ia a sua p i ação, mas como um p ocesso em que é p eciso
inco po a o e o e demons a a sua posi i idade no desen ol imen o acional do sabe ."
(Ca ilho, 1989, p. 33)
1 1
Temos aqui exp essa uma espécie de na u eza dual da acionalidade que passa a se
po ado a do p óp io e o. O e e encial da e dade absolu a, como adução exac a do
eal, deixa de e p imazia: con o me a si uação, con o me a a i ude assumida posso e , a
espei o de um mesmo concei o, uma mi íade de eo izações de di e en es complexidades
e consequências. É aqui que nos de emos pensa , ao aze o pe il epis emológico, é a
pa i daqui que de e emos ealiza um le an amen o dos obs áculos que se opõem ao
nosso conhecimen o. A consciência do e o em, assim, e ei os e olu i os assinalá eis.
Passemos a pala a ao p óp io Bachela d:
"O a, as a iações do pensamen o são ac ualmen e nume osas nas ciências
geomé icas e ísicas; são odas solidá ias de uma dialéc ica dos p incípios da azão, de
uma ac i idade da iloso ia do não. É p eciso ex ai mos daqui a lição. Mais uma ez, a
azão de e obedece à ciência. A geome ia, a ísica, a a i mé ica são ciências; a dou ina
adicional de uma azão absolu a e imu á el é apenas uma iloso ia. É uma iloso ia
caduca." (Bachela d, 1991, p. 136)
A acionalidade e á, pois, de se insc e e na dinâmica que p essupõe uma elação
"dialéc ica dos p incípios da azão". É nossa opinião que que Poppe que Bachela d
ope a am um p imei o golpe na acionalidade dogmá ica de Viena e de Com e,
pe spec i ando-a no necessá io p o isó io, ine en e ao de i cien í ico.
1.1.2 - Segundo momen o: acionalidade como ins umen o
mul i-usos da ciência
A acionalidade em Kuhn (1983) pa ece desempenha di e sos papéis con o me o
es ado em que uma dada ciência se encon e. Es e au o , ao p opo a sua eo ia das
e oluções cien í icas, coloca a his ó ia da ciência sob o signo do alea ó io e do ilógico
(Ag a,
1986,
p. 37) e é ambém esponsá el pelo abandono de uma adição his ó ica que
de endia a ideia da acumulação e do p og esso con ínuo das eo ias cien í icas. No ce ne
dessas e oluções, no meio desses ac o es de imponde abilidade, a acionalidade
cien í ica passa a desempenha ou as unções além das es i amen e eó icas: há que
conside a unções de au o- egulação da comunidade cien í ica; de pode ; e a é de
socialização do jo em in es igado à comunidade a que p e ende acede , en e ou as/5)
1 2
Kuhn (1983) conside a a his ó ia da ciência como uma sequência de pa adigmas
que se sucede am a a és de e oluções cien í icas, onde o acaso e o alea ó io
desempenha iam papéis ele an es. A his ó ia de uma ciência passa ia po uma ase p é-
pa adigmá ica, em que que o objec o de es udo, que os mé odos de in es igação não
es ão cla amen e de inidos; a uma ase de o mação de um pa adigma - conjun o de eg as
e p incípios acei es, que egulam oda a ac i idade; a ase seguin e se ia a da ciência
no mal: o pa adigma acei e de ine um campo de in es igação mas ambém os p oblemas
de in es igação legí imos, bem como as suas soluções mais p e isí eis. Nes e con ex o, o
cien is a em o papel de es abelece a adequação dos p incípios pa adigmá icos ge ais a
p oblemas conc e os; a c ise e a e olução su gem quando há um conjun o de p oblemas
ano mais, não esolú eis pelos p incípios pa adigmá icos acei es e que, po algum
mo i o, mui as ezes de na u eza imponde á el, deixam de pode se pos os de pa e. Da
c ise e e olução su gi ia um no o pa adigma
Nes a lei u a, a comunidade cien í ica desempenha um papel impo an e: esis e às
ino ações; às soluções que con a iem p incípios pa adigmá icos idos como inabalá eis;
elega pa a o esquecimen o p oblemas insolú eis; ma ginaliza cien is as que não espei em
os cânones ge ais... A acionalidade é, pois, um ins umen o de pode que no in e io de
uma dada comunidade cien í ica, que en e á ias comunidades cien í icas que es ejam de
alguma o ma em compe ição. Pode se um ins umen o de ascensão ou, pelo con á io,
de isolamen o social do in es igado . Po ou o lado, ao de ini um conjun o de axiomas
inques ioná eis, o pa adigma e a p óp ia acionalidade são ambém um ins umen o de
con ole social das comunidades no seu odo.
Soma-se, en ão, à comp eensão do de i e à o mulação de p incípios eó icos que
egulem esse de i , a unção que a acionalidade, a e emo-nos a dize , pa adigmá ica,
desempenha no in e io da p óp ia comunidade cien í ica. Como e e e San os (1989) a
epis emologia, an o empo p eocupada em de ini as condições da possibilidade
cien í ica, começa a p es a a enção aos con ex os em que a ciência se p oduz.
1 3
1.1.3 - Te cei o momen o: acionalidade como elemen o do
epis ema
Foucaul ope a uma up u a decisi a na his ó ia da epis emologia (Ag a, 1986).
Não se a a já de conhece as condições da cien i icidade, o di ei o ou não à exis ência de
uma de e minada ciência, mas an es de cen a as in e ogações em si mesmas, no ac o
bem palpá el da sua exis ência. Sem nos que e mos de e aqui nos concei os cha e do
pensamen o oucaul iano, como a a queologia e a genealogia do sabe , a a emos daquilo
que é ele an e pa a o que emos indo a analisa a isão da acionalidade cien í ica em
Foucaul . Pa a isso se á indispensá el a de inição do concei o de epis ema, noção, aliás,
que aqui adop amos:
"Mais l'analyse de l'épis émè n'es pas la même chose que analyse
épis émologique. Disons que Tanalyse de l'épis émè es plus engloban e, a comme obje
ous les ni eaux d'éme gence l'analyse épis émologique a comme obje l'analyse
exclusi e du ni eau de la scien i ici é: sa no me, c'es la science. L'épis émè es
l'ensemble des appo s qui peu en uni les p a iques discu si es qui on éme ge des
igu es épis émologiques e les sciences (...) L'épis émè, c'es ce qui end possible
l'exis ence des igu es épis émologiques e des sciences. " (Ag a, 1986, p. 63)
O epis ema é, pois, o luga de onde eme gem as ciências e as epis emologias; o
luga onde se es u u a o dize . E esse luga é de na u eza discu si a e não discu si a
Pela p imei a ez analisam-se ciências e p á icas à luz do binómio ca o a Foucaul
(
1995)
do Sabe -Pode .
Po Pode , en enda-se a elação de o ças sociais que uma sociedade ap esen a num
de e minado momen o (Foucaul , 1995); Sabe é um conjun o he e ócli o de o mações
discu si as que pode ão e á ios ní eis de o mulação - da posi i idade, p imei o
momen o de eme gência de um "sys ème spéci ique de o ma ion d'énoncés" (Ag a,
1986,
p. 62), ao da o malização, co esponden e a enunciações cien í icas p op iamen e
di as.
A noção de epis ema ecob e, pois, o conjun o de udo o que é isí el num dado
momen o e é aqui que se coloca o p oblema da acionalidade cien í ica. A p odução do
sabe cien í ico é, apenas, mais uma eme gência do pode do odo social. A e e ência já
não é a de inição das condições de cien i icidade, nem o papel do sabe na comunidade
cien í ica: mas as ligações que uma o ma discu si a es abelece com o pode /6) Nesse
1 4
As implicações me odológicas são igualmen e no ó ias:
"En an que p agma is es, il nous au nous oppose à deux ques ions
adi ionnelles, on en p opose une ein e p é a ion:'Quel es le con ex e qui con ien à ce
obje 'e 'Quelle es la na u e de ce que nous con ex ualisons?' Pou nous, il n exis e pas
d'obje que ne soi déjà con ex ualisé." (Ro y, 1994, p. 112)
Es amos pe an e a jus i icação da uni o mização epis emológica das di e sas
me odologias: não exis e me odologia que ap eenda sem o ac o subjec i o. Toda a
in es igação se di ige a um objec o num con ex o - a descon ex ualização quan i a i is a
do objec o não consegue, ainda assim, ap eende mais do que isso. É um ipo de mé odo
que cons ói o seu objec o in encional como ou o mé odo qualque . Se não, oiçamos um
dos c í icos des e pensado :
"... is wha Ro y calls he spec a o heo y o h u h. This heo y sees he whole
men al appa a us o belie s and ep esen a ions as e lec ions o eali y. The p agma is
al e na i e is ha belie s a e ools o dealing wi h eali y." (Be n & Jong, 1998, p. 78)
As eo ias são ins umen os pa a lida com a ealidade, conseguindo dela, apenas,
e lexos pa cela es. A sua u ilidade é de o dem p á ica, pe mi indo-nos op imiza a nossa
elação com a ealidade - ealidade que é ambém, como já imos, nós p óp ios e as edes
sociais a que pe encemos.
1.2.4 - Condição pós-mode na
Lyo a d (1989) conside a a ciência como es ando em con li o com as na a i as -
sendo es as au o- e e en es, is o é, legi imam-se po si p óp ias sem eco e a on es de
au o idade ex e io es. Po isso a ciência o jou um discu so de legi imização de si
mesma: a epis emologia. A ânco a desse discu so legi imado si ua a-se nas denominadas
me ana a i as, ago a em anco mo imen o de e ocesso.
"Aqui a legi imização é o p ocesso pelo qual um legislado ', e e indo-se ao
discu so cien í ico, es á au o izado a p esc e e as condições explíci as (em ge al,
condições de consis ência in e na e de e i icação expe imen al) pa a que um enunciado
aça pa e desse discu so e possa se omado em conside ação pela comunidade
cien í ica." (Lyo a d, 1989, p. 25)
Esse legislado , apoiado nas me ana a i as, possuía uma acção légi é an e que
deixa ago a de se possí el. Na pós-mode nidade o sabe cien í ico é apenas um jogo de
2 1

linguagem (concei o impo ado de Wi gens ein) - que se e e e a um conjun o de
enunciados a iculados segundo de e minadas eg as - en e mui os ou os p esen es na
sociedade. Põe-se en ão um p oblema de 'legi imidade' bem isí el na compe ição da
ciência com esses ou os sabe es; mas ambém um p oblema de na u eza epis emológica
po já es a não se consegue legi ima a si p óp ia: "...a ques ão da p o a é p oblemá ica e
que se ia p eciso p o a a p o a" (Lyo a d,
p.
91)
É es a a ilação impo an e a e i a sob e a ideia de acionalidade:
"A es a no a disposição co esponde e iden emen e um deslocamen o impo an e
da ideia de azão. O p incípio de uma me alinguagem uni e sal é subs i uído pelo da
plu alidade de sis emas o mais e axiomá icos capazes de a gumen a enunciados
deno a i os, sendo es es sis emas desc i os numa me alinguagem uni e sal, mas não
consis en e." (Lyo a d, 1989, p. 90)
À pe da de homogeneidade, subjacen e a odo o p ocesso e e ido, soma-se o
c i é io da pe o ma i idade como a máxima einan e den o das ciências. O que dá melho
endimen o é que se e. As eo ias que êm melho es pe o mances écnicas são as mais
in es idas, aumen ando assim as suas capacidades de adminis a p o as. Uma peculia
elação se es abelece com a ealidade: "A ' ealidade' é o que é pe mi ido pelas écnicas."
(Lyo a d, p. 96). (12)
Sob o signo da pe o mance, o mo imen o en e as disciplinas, a conco ência
in e -disciplina azem sen i , assim, as suas consequências:
"A hie a quia especula i a dos conhecimen os dá luga a uma ede imanen e e, po
assim dize , 'plana' de in es igações cujas espec i as on ei as não cessam de se
desloca ." (Lyo a d, 1989, p. 82)
A acionalidade cien í ica passa a se p o isó ia, despojada dos e e en es sólidos
das me ana a i as. Passa a eng enagem de um jogo de linguagem em cons an e
compe ição com ou os que podem nem seque dela se eclama em.
22
1.2.5 - Sujei o cien í ico: conside ações inais
Os epis emólogos que a é ago a ap esen ámos ize am um es o ço de
con ex ualização da acionalidade cien í ica. Vimos ambém que essa con ex ualização se
pode ia es u u a ecologicamen e: ní el empí ico; ní el da comunidade cien í ica e da
sociologia do conhecimen o; ní el do de i social o al. Com es es eó icos, a
acionalidade oi pos a em causa nos seus alice ces in e nos (no ní el eó ico es i o)
sendo que, cu iosamen e, mui as dessas c í icas elacionam-se com ní eis mais ele ados.
Se não, ejamos:
- Feye abend (1993) nega a exis ência de um p ocedimen o eó ico comum a odas
as in es igações cien í icas, de ende que a ciência é apenas um sabe en e ou os e que a
sua alidade coexis e com a de ou os sabe es que de e ão se es udados e acei es;
- Se es (1969) si ua a epis emologia como um luga de legi imização das p óp ias
ciências; ao mesmo empo que es uda as condições das comunicações in o macionais
en e as disciplinas, a acionalidade e ia um no o plano uni e sal pa a se expandi : as
es u u as;
- Ro y (1989) nega a exis ência de uma objec i idade pu a. O objec o da ciência é
in encional de endo a undamen ação da in es igação p ocede de dimensões é icas
indi iduais e comuni á ias;
- Lyo a d (1989) si ua a acionalidade cien í ica num jogo de linguagem exis en e
en e ou os que compe em en e si, a pe o ma i idade a as a p ecisamen e a ideia de uma
acionalidade pu a - a écnica desenha uma ealidade p óp ia e es a, po sua ez,
e o ça-a.
Escolhemos es es pensado es, pode íamos e ac escen ado ou os (p. e. Mo in,
1995).
O ce o é que o p oblema do conhecimen o o nou-se uma á ea a e em con a na
ealização de qualque in es igação cien í ica como, de es o, pensamos e demons ado -
San os
(
1987,
p. 30) denomina-a de "conhecimen o do conhecimen o das coisas" ou seja,
o conhecimen o de nós p óp ios no ac o de conhece .
23
A e lexi idade de o dem epis emológica é, a inal, o único aço dis in i o que
sepa a de o ma de ini i a o sujei o cien í ico do objec o de es udo. E is o é an o mais
p emen e quando se a a de ciências humanas e a elação sujei o-objec o é uma elação de
pa idade. É p ecisamen e do objec o que i emos a a de seguida, e minando es e
exe cício
que,
a inal, p e ende explica o modo como nós podemos enca a o mundo e a
ealidade.
2.
Objec o das ciências sociais: indi íduo psico-social
As implicações do que dissemos a é aqui es endem-se, cla o es á, ao objec o da
in es igação. Ele deixa de se de inido em e mos absolu os ou descon ex ualizados: a
elação sujei o-objec o é a elação en e dois sis emas que se in e pene am e cuja on ei a
é ins á el (Ag a, 1986). O objec o deixa de se impassí el passa a in encional (Ro y,
1989).
Mas acima de udo, a comunicação en e as ciências, a sua cons an e mobilidade, a
combinação disciplina (Lyo a d, 1989; Se es, 1969) implicam uma subjec i ização do
objec o e a sua ans o mação, ele p óp io, em sis ema (Ag a, 1986).
O caso das ciências humanas, con udo, ap esen a nuances especí icas que impo a
sublinha . As c í icas de Ma za (1981) quan o à u ilidade da aplicação da elação sujei o
objec o são pa adigmá icas: nas ciências humanas o objec o não é um se passi o, não
pode de ini -se soco endo-nos apenas da g elha de lei u a do sujei o (exemplo: o objec o
in encional é um objec o ainda de inido pelo sujei o). As coisas não su gem de o ma ão
simples:
"Is o signi ica, em e mos p agmá icos, que a 'na u eza', no p imei o caso (ciências
da na u eza) é o e e en e, mudo, mas ão cons an e como um dado lançado um g ande
núme o de ezes, ace ca do qual os cien is as ocam enunciados deno a i os que são os
lances que ão azendo espec i amen e, enquan o, no segundo caso, sendo o homem o
e e en e, é ambém um pa cei o que, ao ala , desen ol e uma es a égia, inclusi e
mis a, pe an e o sábio: o acaso em que es e esba a não se de e a um objec o ou à
indi e ença, mas ao compo amen o ou à es a égia, ou seja, é agonís ico." (Lyo a d,
1989,
p. 115)
Desde cedo, as c í icas de pendo epis emológico ende am, nas ciências sociais e
humanas, a es abelece uma pa idade en e os dois pólos. Blume (1982) deseja que a
elação passe a se de sujei o a sujei o, econhecendo, en im, ao objec o de in es igação
2 4
das ciências humanas um es a u o epis emológico semelhan e ao do in es igado .
Semelhan e posição é adop ada po Ag a (1986) ao de ende que sujei o e objec o são
ambos edes/ sis emas de comunicação e in o mação, es ando subme idos a semelhan es
p ocessos de uncionamen o:
"Objec i a ion in o ma ionnelle du suje . En Vau es e mes, le suje -suje de ien
obje , la ela ion suje -obje de ien obje -obje . Le monde exis e comme ensemble
d'obje s (éme eu s, conse a eu s e écep eu s d'in o ma ion) e comme milieu géné al
de ansmission d'obje s à obje s de ce lux in o ma ionnel." (Ag a, 1986, p. 78)
A equipa idade sujei o-objec o é aqui p opos a de um modo um pouco mais adical:
a subs i uição do sujei o pelo objec o é o econhecimen o da inexis ência de um luga
especial pa a a ciência no meio desse inex icá el luxo in o macional. As ocas de
in o mação, ins i uídas em ede, impossibili am o econhecimen o de uma única on e
p odu o a de no os inpu s: cada módulo da ede é, à ez, p odu o e ecep áculo de
dados.
Mas em que medida as ciências humanas enca am o seu objec o de es udo? Que
p op iedades lhe a ibuem? Que combinações eó icas engend a am de modo a se
adap a em o melho possí el a esse objec o? É a es as in e ogações que en a emos da
espos a de seguida.
O exe cício eme e-nos pa a o concei o: o indi íduo psico-social. Fa emos aqui uma
pequena e lexão sob e o deba e eó ico exis en e em algumas á eas da sociologia,
pa icula men e na á ea de in es igação das his ó ias de ida (que apidamen e oi
adop ado po ou as disciplinas). (13)
Lipo e sky (1989) de ende es a a obse a -se uma "mu ação sociológica global"
(op ci , p. 8) com o ad en o da pe sonalização: as eg as disciplina es e ígidas con a as
quais a mode nidade semp e lu ou, da ão passo à coabi ação dessas eg as com ou as
mais lexí eis, coexis indo paci icamen e a a és da o mação de sis emas que omen em
a escolha de cada um. A p óp ia sociedade passa ia a incen i a a cons ução de p ojec os
eleológicos da exis ência humana, al como de ine Fe a o i
(
1983,
p.
31-32):
25
"Le compo emen humain au con ai e, mû pa des ins inc s mais aussi pa un
p oje , es éléologique, ce qui signi ie qu il se donne un bu , qu il pose su lui-même un
ega d c i ique accumulan ainsi des sou eni s."
A libe dade pa a a cons ução desse p ojec o passa a deixa de coagi ou es ingi o
indi íduo. Os p ojec os não são deba idos em e mos de e dade e alsidade, em e mos
do colec i o - o indi íduo e a sua ealização pessoal é que são os alo es sup emos:
"Sociedade pós-mode na, manei a de dize a in lexão his ó ica dos objec i os e
modalidades da socialização, colocados hoje sob a égide de disposi i os abe os e plu ais;
manei a de dize que o indi idualismo hedonis a e pe sonalizado se o nou legí imo e já
não depa a com a oposição; manei a de dize que a e a da e olução, da espe ança
u u is a, insepa á el do mode nismo e minou." (Lipo e sky, 1989, p.10)
A indi idualidade, o nada assim alo nuclea de uma no a o ma de socialização,
in es e de maio signi icação á eas como o quo idiano, as up u as dos códigos a ís icos,
e c...
Com a e osão das ins âncias de egulamen ação he e ónoma, a no malidade
agmen a-se na no ma i idade dos mic og upos (noção de Lipo e sky).
É nes e con ex o que a me odologia das his ó ias de ida p incipia po su gi a
pa i dos anos 50, na Eu opa, c ia-se o in e esse pelo es emunho dos "po os do
silêncio" (Poi ie , Valladon & Rayban , 1995). Um in e esse pelo conhecimen o das
idas de po os mino i á ios no odo social - esse in e esse unda-se no con ex o das
mudanças sociais a é ago a e e idas.
Po ques ões de o ganização cen a -nos-emos aqui sob e a e lexão epis emológica
que es as me odologias susci a am - eme e emos pa a o p óximo capí ulo a sua aplicação
na á ea das oxicodependências. Comecemos a a e a po uma ci ação:
"Na psicobiog a ia (uma a ian e das his ó ias de ida sublinhamos nós), a pessoa
con a-se no in e io de uma ama de acon ecimen os. Nes e caso, é a pe sonalidade - é
ce o que ime sa no social, mas in e io izando-o pela a ibuição da sua signi icação
pessoal - que é o objec o da na a i a que o in es igado ai en a escla ece ." Poi ie ,
Valladon & Rayban , 1995, p. 29)
A complexidade do objec o de es udo es abelece-se, pois, na enc uzilhada de duas
á eas que se comunicam: o social e o psicológico. Também Pineau (1995) compa ilha
essa posição, passando a enca a a es e a psicológica como es ando em comunicação com
a es e a social, ao mesmo empo que so e in luências dela. (l4)
26

Sem cai no educionismo sociológico, Fe a o i (1983) conseguiu de ini o meio
e mo, comunican e e in o macional, mais ap op iado à complexidade epis emológica da
ciência con empo ânea, ao enca a as p á icas, compo amen os e a i udes como sín eses
indi iduais das condicionan es sociais em que o sujei o i e.
É o mulada, assim, a complexidade do objec o de es udo em ciências sociais, e
is o pela mão dos eó icos das his ó ias de ida, me odologia a que i emos bebe mais
alguns ensinamen os. (15)
Esse econhecimen o não é, po ém, exclusi o des as á eas, es endendo-se a ou os
au o es, de ou as disciplinas, p. e.: o modelo da iden idade social de Sa bin & Scheibe
(1983) az depende a iden idade indi idual da "his o he alida ed social posi ions" (op
ci , p. 7); a eo ia da e ique agem social p opos a po Becke (1963), em que o momen o
do econhecimen o social da des iância de um indi íduo em p o undas implicações na
manei a como ele se ê a si p óp io; Faupel (1991) ambém sublinha a impo ância da
ca ei a des ian e, na sua dimensão social, na cons ução de signi icados indi iduais.
Fica, pois, aqui esboçada a complexidade psico-social que o objec o da
in es igação possui ac ualmen e nas ciências sociais e humanas.
27
Capí ulo II - In es igação cien í ica das oxicodependências
O caminho pe co ido a é aqui se e-nos ago a de alice ce à p ospecção eó ica que
nos p opomos aze da in es igação cien í ica na á ea das oxicodependências. Visões
es i amen e de e minís icas, da adição posi i is a es ão, pois, o a da nossa alçada.
Ve emos ambém que as in es igações quali a i as ou que combinam as e en es
quan i a i as e quali a i as da in es igação êm a endência gené ica de p i ilegia a
p oximidade da elação sujei o objec o do seu es udo (Blume , 1982); bem como
abandonam a p e ensão de um conhecimen o homogeneizado da ealidade pa a
econhece a di e sidade dos ac os, chamemos-lhe assim, psico-sociais (Tinoco, 1999;
Leg and, 1993).
Uma ou a ca ac e ís ica de impo an e ele o é a da e lexi idade: uma sé ie de
linhas in es iga i as pa em da ealização de uma e lexão c í ica das p opos as exis en es,
pa a depois lança em as suas p óp ias abo dagens (Ag a & Fe nandes, 1993, p. 80). A
e lexão é, ela p óp ia, de ca ác e mul idisciplina , apelando a di e sas á eas do sabe , e
mesmo incluindo posições é icas dos in es igado es (p. e. Escoho ado, 1992; Gonzalez,
Funes, Gonzalez, Mayol, & Romani, 1989). Es as cons a ações, em luga de
escandaliza , são a exp essão de uma ciência eno ada que passa a exp imi -se em
moldes di e en es (San os, 1989; 1987) em que a subjec i idade, em ez de um obs áculo
a i adica , passa a se uma mais alia.
A oxicodependência, como objec o de conhecimen o, passa a se is a como
objec o he e ócli o, que escapa às g elhas pa adigmá icas das disciplinas adicionais que
sob e ela p e endem es ende o seu dize : a economia, a sociologia, a psicologia, a
psiquia ia, en e ou os. Ma os & Ag a (1996) conside am a Escola de Chicago, que
desde os anos 20 do p esen e século se dedicou aos enómenos des ian es, en e os quais
a oxicodependência, como uma co en e que é psico-social. (16)
O concei o de ca ei a des ian e é desen ol ido po Becke
( 1963)
e mais a de po
Faupel (1991) que de ine, como imos, esses duplos ní eis de oco ência: a ca ei a, que
é de inida socialmen e, é ec iada e ac ualizada, den o de de e minados limi es, pelo
indi íduo que a i e em si.
28
Nes e capí ulo p e endemos, en ão, em p imei o luga , da con a de alguma e lexão
eó ica ei a a pa i do objec o de es udo que é a oxicodependência; dos p oblemas que
se le an am especi icamen e nes a á ea. Denomina emos es a secção de - 1. Obs áculos
epis emológicos - u ilizando o conhecido concei o de Bachela d (1991). Num segundo
momen o em - 2. In es igações e nobiog á icas - a emos uma esenha de algumas das
p incipais in es igações que se ize am sob es a égide - e nobiog a ia - que pedimos
emp es ada a Poi ie e ai (1995), ecob indo des e modo uma sé ie de in es igações de
"concep mal de inido" (Ag a & Fe nandes, 1993, p. 73). (17)
Após ais explanações pode emos comp eende como se "pensa", como se
o mulam p oblemas cien í icos numa á ea que, à semelhança das mu ações
epis emológicas que an e io men e demos con a, possui uma iqueza assinalá el: as
his ó ias de ida. Te mina emos, pois, es e pe cu so com um pequeno capí ulo in i ulado
- 3. Que ciência? - onde, pa a além das conclusões que pude mos e i a des a caminhada,
en a emos p oblema iza o es a u o epis emológico des as dema ches. Es a á, só en ão,
abe o caminho ao es udo conc e o que p e endemos le a a bom po o.
1.
Obs áculos epis emológicos
Bachela d (1991) de iniu obs áculos epis emológicos como sendo udo aquilo que
pe u be ou seja passí el de pe u ba o ac o de conhece . É cla o que os obs áculos se
espalhem em di e sas á eas. Pa a começa , encon amos obs áculos epis emológicos na
p óp ia manei a de pensa e concep ualiza o eal (o le an amen o das acionalidades
cien í icas que a é aqui se ealizou é exemplo
disso);
ambém pode ão exis i p op iedades
do objec o de es udo que pe u bem o ac o cien í ico al como o concebemos a p io i. A
oxicodependência, como a segui e emos, é pa icula men e p olixa em le an a es e
ipo de ques ões.^18)
Na á ea da oxicodependência, os obs áculos mul iplicam-se nos mais di e sos
campos, di icul ando a cada passo a in es igação que se que cien í ica. Fa emos, pois,
29
um b e e sumá io dessas con a iedades endo como objec i o o lançamen o de pon es
com o capí ulo que se segue e em que a emos uma esenha das in es igações que de
algum modo en a am supe a esses obs áculos ou que, pelo menos, se puse am em
diálogo com eles.
Aliás,
a p eocupação epis emológica que i emos obse a no pon o seguin e es á em
consonância com os mo imen os de epis emologia in e na que conside ámos pila es da
ciência ac ual. Não é só po aqui que os pa alelismos se es abelecem: os p incípios da
comunicação in e disciplina e a é en a i as de usão ansdisciplina se ão ambém aqui
cons a ados.
1.1 - Di iculdades concep uais
A di iculdade em de ini o concei o de d oga não é, de odo, desca á el: o diálogo
en e a a macologia, a psicologia e a sociologia es á longe de es a acabado. Assim,
Escoho ado
(
1996,
1992) in e oga-se do po quê de ha e dispa idade nas composições
químicas e semelhança nos e ei os:
"Cue pos químicos dis in os p oducen e ec os muy pa ejos, y cue pos a ines en
al o g ado - los llamados isóme os, po ejemplo, que son la misma subs ancia con una
sime ia in e ida - p oducen e ec os muy dis in os." (Escoho ado, 1990. p. 30)
No ou o ex emo, Willis
( 1983)
pa ece quase nega a e en e a macológica da
d oga, ao de ini-la como placebo cul u al - o e ei o das subs âncias depende ia das
expec a i as - cai no adicalismo de pólo opos o. Nes e aspec o, Escoho ado (1990)
al ez alcance uma sín ese:
"Pê o d oga no es solo cie o compues o con p op iedades a macológicas
de e minadas, sino algo que puede ecibi cualidades de o o
ipo."
(op ci , p. 19)
Lau ie (sem da a) ealça a de inição ao de ende que a dependência se c ia não
apenas a pa i da subs ância mas ambém das expe iências que elas p opo cionam que a
ní el do e ei o p op iamen e di o, que nos acon ecimen os biog á icos que podem
desencadea . Mesmo assim a p oblema ização não deixa de exis i
"Es así como en la mayo ia de las cul u as, las cosmo isiones dominan es han
endido a asimila se a la ' o ma na u al'de en ende el mundo, han iden i icado su o den
30
Fe nandes, 1997). O es udo das oxicodependências ambém não pode deixa de e em
con a es a con ex ualização sócio-cul u al.
1.5 - Di iculdades pa adigmá icas
Pa adigma, concei o emp es ado de Kuhn (1983), como já imos, designa um
conjun o de consensos básicos comuns a uma comunidade ala gada de cien is as e que
acabam po en o ma a p a ica in es iga i a dessa mesma comunidade. Sem de ende a
exis ência de um pa adigma na á ea de in es igação das oxicodependências e lec i emos
ago a sob e pos u as me o- eó icas que o am bem sin e izadas po Ma za (1981) sob o
í ulo de "pon o de is a ap ecia i o" e "pon o de is a co ec i o".
O pon o de is a co ec i o pa e de uma pos u a mais dogmá ica, quando p ocu a
compa a os dados que ão sendo ob idos a uma supos a no ma, da qual eles se
des ia am. A acionalidade posi i is a pode se , g osso modo, iden i icada com es a
pos u a me a- eó ica: a in es igação é de e minada, de modo ap io ís ico po concepções
básicas sob e o que é se no mal e des ian e (Ma za, 1990). Também pa a Hamme sley
(1989),
o posi i ismo ca ac e iza -se-ia p ecisamen e pela p eocupação em descob i leis
uni e sais, em eduzi os conhecimen os à expe iência empí ica, na c ença que a ciência é
a o ma álida de conhecimen o.
Na e en e ap ecia i a, pelo con á io, esses a p io i deixa iam de e azão de se .
A in es igação e ia uma pos u a enomenológica, no sen ido que pa i ia do que o
objec o (ou o sujei o, objec o de es udo) da in es igação di ia sob e si.
Blume (1982) é um au o undamen al na elabo ação eó ica des a adição. A
in es igação em ciências sociais de e ia cump i os ês pon os basila es ci ados no
capí ulo an e io , o malizando assim a omada em linha de conside ação do pon o de
is a do sujei o. O es udo dos enómenos humanos e sociais de e á espei a esses
pos ulados do in e accionismo simbólico. Ag a & Fe nandes (1993), ao de ende em a
passagem da "D oga enigma" pa a "D oga no o pa adigma" aconselham, ao im ao cabo,
a passagem do pon o de is a co ec i o ao ap ecia i o.
3 7

Quais as consequências eó icas da adopção da pos u a ap ecia i a? Fa emos aqui
um sucin a lis agem das consequências que julgamos mais impo an es. Clina d & Meie
(1979) conside am que a sociologia con empo ânea se di ide em duas g andes co en es:
a es u u al e a p ocessual. A es u u al, pa a a des iância, conside a os compo amen os
des e ipo como es ando elacionados com uma ce a es u u a - pa e de um pon o de
is a ap ecia i o do ma e ial p oduzido pelo indi íduo conec ando-o p. e. com a es e a
eco-espacial. Pa a a p ocessual, in e essa o es udo das ajec ó ias da des iância, numa
e en e sócio-psicológica, que pe spec i a o sujei o des ian e no de i do empo.
Adian a emos um pouco mais sob e a e en e p ocessual a é po que se á es a a
dimensão p i ilegiada da nossa in es igação. Não nos an ecipemos, po ém. O modo
como en endemos a linha p ocessual, o es udo do de i do sujei o des ian e, não se
coaduna com pos u as posi i is as, medido as de di e enças. Sykes & Ma za (1996)
sin e izam bas an e bem o que que emos dize , se bem que a p opósi o de uma ou a
igu a do compo amen o des ian e:
"In a emping o unco e he oo s o ju enile delinquency, he social scien is has
long since ceased o sea ch o de ils in he mind o s igma in he body. I is now la gely
ag eed ha delinquen beha io , like mos social beha io , is lea ned and ha i is lea ned
in he p ocess o social in e ac ion." (Sykes & Ma za, 1996, p. 206)
Apesa de p imei amen e publicada em 1955, a linha de ac uação de inida nes a
ob a não deixa de aze sen ido ainda nos dias de hoje: não é pe inen e p ocu a
di e enças na psique ou no p óp io co po (posição co ec i a a pa i de uma no ma
de inida a p io i) mas, pelo con á io, se á necessá io p i ilegia o modo como o
compo amen o oxicodependen e é ap endido e desen ol ido num p ocesso de in e acção
social (pon o de is a ap ecia i o). (22)
1.6 - Di iculdades me odológicas
T a a emos aqui e unicamen e das p incipais consequências me odológicas que o
pon o de is a ap ecia i o implica na a e a de in es igação, a é po que se á es a a óp ica
que i emos adop a no nosso abalho. Ingold & Toussi (1998b) conside am que a
necessidade de comp eende , de p e eni e de a alia o p og ama de dis ibuição de
38
se ingas, a p opósi o da p e enção do HIV, le an ou di e sas ques ões me odológicas na
á ea da in es igação das oxicodependências. Po se a a em de populações escondidas,
as «hidden popula ions" de Aga (ci in Ingold, Toussi , Pe i & Cobesque, 1991) são
e ac á ias ao acesso ia ques ioná io; nos casos em que se conseguia u iliza esse
mé odo, a alidade dos esul ados e a pos a em causa. Os mé odos de obse ação di ec a
e mesmo de obse ação pa icipan e o am, assim, elançados (Manila, 1996): p imei o a
p opósi o da in es igação da p opagação do í us HIV e ala gando-se depois à
oxicodependência em ge al.
O a es es mé odos são maio i a iamen e de na u eza quali a i a, u ilizando sabe es e
écnicas de á eas disciplina es díspa es, não p ocu ando o es abelecimen o de leis
uni e sais. Romani (1991), aliás, aconselha que a análise de con eúdo do ma e ial,
ecolhido em con ex o e nog á ico, e lic a a di e sidade dos dados e, mesmo a sua
con adição, quando es a oco e, em ez de os en a eduzi a uma imp o á el
uni o midade. Mais do que as p á icas, es uda-se o de i dessas p á icas, os pe cu sos
assis enciais e des ian es dos sujei os, na sua di e sidade e con adição.*23)
A me odologia quan i a i a clássica es á, pois, pos a p o undamen e em causa. Mas
no e-se que não nos opomos ao seu uso: opomo-nos, isso sim, po conside a mos
obsole o, ao uso de mé odos quan i a i os clássicos com objec i os co ec i os,
no ma i os ou posi i is as.
3 9
2.
In es igações e nobiog á icas
Da emos aqui con a de ce as in es igações que pela sua impo ância - his ó ica,
eó ica e me odológica - assumi am um papel de especial ealce. Essas in es igações
p ocu am de uma manei a implíci a ou mesmo explíci a, con o na as di iculdades
epis emológicas que an e io men e apon ámos. Elas são, de modo gené ico, abe as a
con ibuições dos mais a iados campos disciplina es, ao pon o de os in e liga
concep ualmen e: a me odologia das his ó ias de ida es a ia sensí el à dimensão social e
psicológica das ajec ó ias indi iduais, po exemplo.
An es,
po ém, de expo mos o que p e endemos, de enhamo-nos um pouco sob e o
concei o de e nobiog a ia. A pala a é compósi a, subdi ide-se na pa ícula e no,
e e en e a po os, e a biog a ia. A e en e p ocessual o ganiza a in es igação
empo almen e - as in es igações biog á icas in e essam-se pelo es udo das ajec ó ias
indi iduais, e lec indo sob e as consequências epis emológicas dessa p eocupação. Esse
in e esse é o iginá io da adição de Chicago que combina a essa p ocu a biog á ica com
a in es igação em con ex os na u ais, em suma: azendo e nog a ia.
É es a coexis ência que o e mo e nobiog a ia ilus a, e e enciando, assim, uma
di e sidade de abo dagens: as his ó ias de ida (Pineau & Le G and, 1993 ; Leg and,
1993);
as ajec ó ias assis enciais (Romani,
1991;
Palia es 1995); as ca ei as des ian es
(Adle , 1993; Faupel, 1991; Becke , 1963); ou os es ilos de ida (G apendaal e ai
1995).
"Na e nobiog a ia, o in es igado en a a encon a o ele, o campo ex e io da
pe sonalidade, a en ol en e do na ado num momen o dado, que dize , aquele a quem
a ibuiu um alo pessoal (dando-lhe assim uma exis ência em si e o a de si)." (Poi ie e
ai,
1995, p. 36)
Apesa des e his o ial a co en e biog á ica ou, pa a se mais ab angen e a
p ocessual, em indo a explo a as possibilidades de ou os se ings. Po exemplo, pa a
o se ing das ins i uições assis enciais, emos os abalhos de Macque (1992) e pa a o
alcoolismo, Leg and & Loicq (1991). As combinações de mé odos quan i a i os,
u ilizando ques ioná ios, com abalho de e eno su gem com G apendaal e ai (1995);
Romani (1991) e ambém Ingold e ai (1991) - es e úl imo es udo combina dados
ecolhidos em con ex o na u alis a com dados ecolhidos em con ex o p isional.
40
Após es a b e e, no a amos e e i os an eceden es his ó icos des as abo dagens
e nobiog á icas, pa a depois nos de e mos com mais aga nas p opos as dos au o es que
acabámos de ci a .
2.1 - An eceden es his ó icos
As abo dagens p op iamen e biog á icas, de ca ác e mul idisciplina , só
ecen emen e se desen ol e am a pa i dos abalhos de Be aux (Pineau & Le G and,
1993).
No en an o, a e en e longi udinal da isão e nog á ica é mui o an e io .
"Ces dans ce con ex e allemand que se o men , en e au es, Albion Small (1854-
1926),
William Thomas (1863-1947), Robe Pa k (1864- 1944), ceux qui son pa mi les
pionnie s non seulemen de la sociologie amé icaine mais égalemen de ce qui u appelé
'Ecole de Chicago' e de
Y
usage des his oi es de ie pou le second."
(Pineau & Le G and, 1993, p. 40)
Sublinhemos dois pon os des a ci ação: p imei o, o papel que a in elec ualidade
alemã e e na o mação des es pionei os (p eponde ância que ambém é assinalada po
Hamme sley, 1989); segundo, a impo ância do uso das his ó ias de ida na in es igação
social. Thomas & Znaniecki, no amoso es udo sob e a emig ação do campesina o polaco
pa a os E. U. A., publica am uma au obiog a ia de um emig an e polaco (Hanne z,
1986).
Além de p i ilegia o uso de diá ios, ca as e ou o ma e ial pessoal, Thomas, o
p incipal men o des e es udo, in e essa a-se ainda pela "de inição da si uação" (op ci , p.
32) que o sujei o, sob es udo, ealiza a.
Pa k oi ou os dos g andes ul os da Escola de Chicago. O iundo da á ea do
jo nalismo - onde oi pionei o da chamada epo agem de in es igação - quando
ing essou no depa amen o de sociologia da escola, ad ogou a impo ação de mé odos de
ou as disciplinas pa a o es udo da cidade e dos enómenos u banos. Ingold & Toussi
(1998b) obse a am que Pa k, ao aplica mé odos an opológicos às sociedades
mode nas, o na acessí eis à in es igação g upos sociais bas an e e ac á ios ao uso de
ou os mé odos.
Na es ei a des e au o clássico, nomes como Ande son, com a ob a The Hobo de
1923;
Th ashe , com The Gang em 1927; e Shaw, com The Jack Rolle de 1930,
in e essam-se po conhece as eg as de condu a e no mas des ian es de de e minados
4 1
meios e g upos sociais, nomeadamen e, pa a es es dois úl imos casos, a o mação e
desen ol imen o das dinâmicas dos gangs. A di e ença dos dois es udos é se o p imei o
mais ab angen e con emplando di e sos subg upos e as i alidades en e eles; Shaw, pelo
con á io, p i ilegiou o es udo de caso (biog a ia de caso único) de um memb o de um
de e minado gang.
Também C essey es udou a ida de dança inas de aluge que êm de "baila pa a
come " (Hanne z, 1986, p. 63). O au o desc e e com pa icula a enção o seu pe cu so
mui as ezes descenden e a é se em conside adas ' apa igas áceis', ninguém dança com
elas e acaba em em ac i idades de p os i uição decla ada. Es a 'queda em desg aça', uma
es igma ização subcul u al, po assim dize , ambém se obse a á na oxicodependência
com o junkie ( e pon o 2.5 - Nexo d oga-c ime).
É de no a que, com o essu gimen o da e nog a ia em Chicago, nos inais da
década de 60 início da de 70 - o que ulga men e se denomina a 2a Escola de Chicago -
uma ou a sé ie de monog a ias i ia a su gi pondo já comple amen e de pa e o concei o
de deso ganização social que dominou a Ia Escola. P ocu am-se, abe amen e, as eg as
dos mundo sociais em es udo: Whi e, com S ee come socie y (1943), é o pon o ulc al
dessa mudança, ao en a iza as eg as pa icula es dos gangs e da sociedade de zonas
menos nob es de Chicago. Zou baugh, pelo con á io, no seu es udo The gold coas and
he slum, ainda a ibuía à deso ganização social a mobilidade social obse ada nessas
zonas (Hanne z, 1986).
Foi ainda nes a al u a que au o es com p eocupações mais eó icas, na á ea do que
se chamou sociologia do abalho publica am as suas ob as. Nomes como Go man
Becke e A. S auss i ão pe mance como e e ências de ul o - são, aliás, di e sas ezes
ci ados ao longo des e abalho. De um modo ge al, as p eocupações p ocessuais
man i e am-se semp e p esen es desde a o igem des a adição, cons i uindo-se como
modelos clássicos a odo o es udo quali a i o que p e enda es uda a e olução de um
de e minado g upo social ou mesmo a ealização de um es udo de caso.
42

No que diz espei o p op iamen e à oxicodependência, Ingold & Toussi (1998b)
des acam nomes como Lindesmi h que em 1947, ealiza o p imei o es udo e nog á ico
com consumido es de he oína, p ocu ando p i ilegia a es e a epidemiológica; E. P eble
que,
em 60 e 70, es uda gangs de No a Io que, pa icula men e no B onx e no Ha lem,
cons i uindo o seu abalho uma p imei a oposição aos modelos "psicologizan es";
inalmen e, P. Hughes que, ao longo dos anos 60, p ocu a a icula p og amas de
in es igação epidemiológica, oi pionei o da mic o-epidemiologia, p opondo a noção de
modo de ida pa a a comp eensão de ce as a i udes e compo amen os po pa e dos
he oinómanos.
Também em F ança, ou no mundo ancó ono, se quise mos, Pineau & Le G and
(1993) no am um p og essi o in e esse na me odologia das his ó ias de ida a pa i dos
anos 70, com Be aux. Aos mo i os po eles apon ados (descobe a do magne o one;
azões económicas; sócio-cul u ais, en e ou as...) soma-se, po ce o, a publicação de
ce os abalhos undamen ais de que amos aqui da no ícia: P eble & Casey (1969);
Willis (1983) e Becke (1963). O p imei o au o em uma isão mais ge al do enómeno
(mac o-social); o segundo p i ilegia a subcul u a (mic o-social); de Becke , apesa de e
es udado ní eis mais ab angen es ealça emos aqui somen e a noção de ca ei a des ian e
(que é mic o-social mas ambém indi idual se a enca a mos pelo p isma que
Faupel,1991,
o jou) que se iu de pon o basila a uma sé ie de es udos que, de seguida,
passa emos em e is a.^24)
P eble & Casey
( 1969)
dedica am-se ao es udo dos pad ões de consumo e ca ei as
des ian es dos he oinómanos do slum no a-io quino. Começam, no seu abalho, po
aze uma pe spec i ação his ó ica do uso da he oína naquela cidade ame icana.
Sublinhemos que, nessa his ó ia, a he oína em endência a pe de o seu p es ígio social
a é se o na um es igma; que as subcul u as de consumido es endem a pe de a sua
coesão social; que se es u u a um me cado de á ico bem o ganizado que man ém os
43
consumido es sob p essão mone á ia (os au o es cons oem inclusi e um o ganig ama
com os á ios ní eis de á ico).
É já nes e con ex o que os au o es chegam a de e minadas conclusões e
cons a ações:
- o consumido de he oína p ocu a uma ida signi ica i a em ez de u iliza a
subs ância como um ubo de escape da ealidade;
- a he oína é ão ca a que o consumido se ê o çado a pa icipa numa ca ei a
económica que abso e g ande pa e da sua exis ência (ou seja, come em c imes de o ma
egula );
- exis e uma especialização c iminal baseada em compe ências e p opensões
indi iduais.
"He oin use oday by lowe class, p ima ily mino i a y g oup, pe sons does no
p o ide o hem an eupho ic escape om psychological and social p oblems wich de i e
om ghe o li e. On he con a y i p o ides a mo i a ion and a a ionale o he po sui o
a meaning ull li e, albei a social de ian one. The ac i i ies hese indi iduals engage in
and he ela ionships hey ha e is he cou se o hei ques o he oin a e a mo e han he
minimal analgesic and eupho ic e ec s o he small amoun o he oin a ailable o hem. I
hey can be said o be addic ed, i is no much o he oin as o he en i e ca ee o he oin
use ." (P eble & Casey, 1969, p. 33)
A abo dagem de na u eza e nog á ica com obse ação de campo e ecolha de
ma e ial em con ex o na u alís ico desenha aqui a mul iplicidade eco-social de uma
comunidade de consumido es. Apesa da pe spec i a empo al se aqui con emplada,
que ao ní el his ó ico da cidade p op iamen e di a, que no uncionamen o da dinâmica
das ocas no in e io desse comunidade de consumido es, o ní el indi idual ica po
explo a (se bem que ce as dimensões da mo i ação, po exemplo, es i essem pa en es).
Também a Willis (1983) se pode á assaca c i ica de semelhan e eo . Ao con á io
de P eble & Casey, Willis e a b i ânico. Willis in e essou-se pelas subcul u es ju enis
(25) dos hippies e dos "mo o bikes boys". As d ogas se i iam de mediado es de mui as
expe iências, en e as quais a elação com a música (op ci , p. 106). Nes es meios ala-se
mui o sob e d ogas, nos á ios ipos de d ogas, numa subcul u a que se o ma, en e
ou as coisas, em oposição ao s a us quo social. Nes e con ex o:
44
" he impo ance o d ugs did no lie in hei di ec physical e ec s, bu in he
way hey acili a ed passing h ough a g ea symbolic ba ie e ec ed o e agains
's aigh ' socie y." (op ci , p. 107)
É a amosa ese do e ei o placebo das d ogas. Seguindo o mesmo au o , as d ogas
só ans o mam alguma coisa no co po: a d oga, no seu simbolismo, é que o nece a
cha e pa a a expe iência. O sujei o pode passa a e -se, em de e minados casos, como
uma a iá el de e minada, diminuindo assim a esponsabilidade dos seus ac os e o
sen imen o de culpa.
O es a -se high, sob o e ei o da d oga, é is o como um es ado de consciência
supe io ao no mal da sociedade con encional. Ge ando sen imen os de es a além das
eg as e ci cuns ancialismos do mundo, i endo-se o aqui e ago a, sup ime-se o empo.
A subcul u e hippie ap op iou-se da a macologia: o haxixe o nece ia o seg edo da
ped a, a cha e de en ada pa a no as expe iências; as an e aminas e os ba bi ú icos
ica am de o a do mains eam, limi ando-se a unções ins umen ais p. e. man e -se
aco dado pa a e mina uma ce a a e a; os ácidos se iam pa a demons a que um
de e minado indi íduo e a um e dadei o head, pe encia ealmen e à subcul u e, mas
implica a um exe cício de con enção pa a que o seu u ilizado não passasse a se
conside ado um acid eak; po im, a he oína e a um bilhe e sem eg esso pa a o es ado
head, o mundo das con enções ica a imedia amen e pa a ás.
Willis (1983), apesa de cai num educionismo o e, no sen ido que lhe dá A lan
(1991),
pois conside a que o sócio-cul u al de e mina o p óp io e ei o da d oga, sem que
se lhe econheça explici amen e uma acção a macológica especí ica não explo a ainda a
dimensão indi idual (se bem que o neça algumas pis as p. e. a con enção do uso dos
ácidos). É, po ém de ex ema u ilidade pa a ilus a o modo como uma de e minada
subcul u e pode á ap op ia -se simbolicamen e das subs âncias pa a lhe ein en a
sen idos e signi icados.
Becke (1963) é o au o que o mula a eo ia do labeling ou da e ique agem social,
pondo em causa pe spec i as psicologizan es e as es i amen e a macológicas. A noção
de ca ei a des ian e implica a pe spec i ação longi udinal das mo i ações e i ências do
45
sujei o. Nem odas as 'causas' ope am simul aneamen e, os ac o es azem depende as
suas consequências do pon o da ca ei a des ian e em que um de e minado sujei o se
encon a.
Ia e apa: um ac o des ian e, qualque que seja, mui as ezes é come ido po uma
pessoa que não em especial in enção de o aze . F equen emen e a igno ância da
exis ência de uma eg a az com que o ac o seja come ido sem in enção e dadei amen e
des ian e:
"Ins ead o asking why de ian s wan o do hings ha a e disapp o ed o , we
migh ask why con en ional people do no ollow h ough on de ian impulses hey
ha e..."
(op ci , p. 26)
O desen ol imen o no mal "o people in ou socie y can be seen as a se ies o
p og essi ely inc easing commi men s o con en ional no ms and in i u ions" (op ci , p.
27).
A ca ei a des ian e não escapa ia às mesmas eg as se não hou esse o peso da
e ique a.
2a
e apa: o indi íduo des ian e ap ende na subcul u a o seu calão e um núme o
mínimo de compe ências sociais que lhe pe mi em man e o compo amen o. No plano
indi idual adqui e-se um conjun o de écnicas de neu alização (Sykes & Ma za, 1996) o
que lhe pe mi e lida com a condenação mo al que é impos a a esse compo amen o.
Obse a-se aqui uma e apa c ucial na es abilização da ca ei a: a da descobe a pública do
compo amen o des ian e ou, se quise mos usa os concei os de Becke , a e ique agem
social. A pa i de en ão há uma mudança d ás ica na ac i idade pública do sujei o, ao
mesmo empo que es e se ê excluído de ce as es e as de socialização no ma i a po um
p ocesso de es igma ização (Go man, 1988).
Em suma:"... he beha io is a consequence o he public eac ion o he de iance
a he han a consequence o he inhe en quali ies o he de ian ac ." (Becke , 1963, p.
37).
3a
e úl ima e apa da ca ei a des ian e: " he de ian beha io in ime p oduces
de ian mo i a ion" (op ci , p. 42). O p ocesso de iden i icação ao compo amen o
des ian e mui as ezes desencadeia-se po e ha ido uma pe da de emp ego que o ça a
pessoa a exe ce ac i idades ilegí imas e c iminais - p. e. o homossexual pe de o emp ego
46
2.4 - I. R. E. P.
(Ins i u de Reche che en Epidemiologic de la Pha macodépendance)
Es e ins i u o ancês, di igido po R. Ingold, em desen ol ido abo dagens
ino ado as no âmbi o de campanhas de edução de isco e de p e enção de in ecção pelo
í us HIV e pelos da hepa i e B e C. A e lexão me odológica e ec uada en a da con a de
insu iciências dos es udos quan i a i os nes as á eas: a população oxicodependen e é uma
população escondida (Ingold & Toussi , 1997; Ingold, Toussi , Pe i & Cobesque,
1991) e os hábi os de consumo ou sexuais são di íceis de conhece ealmen e a a és de
inqué i os.
Não se cai, con udo, num undamen alismo quali a i o. A combinação
me odológica, pa indo do p essupos o que as me odologias quan i a i as e quali a i as se
complemen am, é ou o p essupos o essencial. G osso modo, pode emos apon a que a
me odologia não se cons i ui aqui como um a p io i mas como uma ase da in es igação
que e á de a icula -se com os objec i os do es udo:
"... l'adap a ion sys éma ique des mé hodes u ilisées aux objec i s spéci iques des
é udes. Ce de nie poin es essen iel. Il es op habi uel en e e de considé e les
ques ions de mé hode comme au an de con ain es imposées aux che cheu s, con ain es
suscep ibles de P encou age à abandonne ou e ac i i é scien i ique." (Ingold & Toussi ,
1998b)
O p ocedimen o quan i a i o, dominan e na me odologia de in es igação, é
des onado do luga que se con unde com o da p óp ia ciência. Passa a exis i a
possibilidade de ou as ias - a indu i a, p. e. Glase & S auss, 1967 - e de ou os
mé odos que pe mi em a adap ação aos objec i os isados e à na u eza do objec o que se
p e ende es uda . Não aze es e pensamen o, es e ipo de e lexão é que nos pode á guia
mais dep essa a p ocedimen os não cien í icos.
É no abalho de Ingold e ai (1991) que se dá um pano ama ge al da ac i idade
mul imodal do I.R.E.P. P i ilegiam-se dados ecolhidos em con ex o na u alís ico e em
con ex o ins i ucional implicando, em ambos os casos, pon os de pa ida di e sos. Pa a o
p imei o emos que:
"Le a ail de e ain consis e à consolide e à dé eloppe une comunica ion
au hen ique a ec les suje s (...) ce accès au e ain n'es jamais acquis de maniè e
53

dé ini i e: il au enégocie cons ammen sa p ésence su le e ain." (Ingold e al, 1991,
P-21)
No segundo caso:
"... lo s d'un a ail mené dans une ins i u ion, une double nego ia ion es à
l'oeu e: 1. a ec les esponsables de l'ins i u ion; 2. a ec les suje s..." (Ingold e al,
1991,
p. 27)
A cons i uição de his ó ias de ida, in eg adas na abo dagem e nog á ica e mesmo
ins i ucional, pe mi e a econs ução das ca ei as dos consumido es de d ogas, de
p e e ência ao longo de di e sas sessões ou encon os. No con ex o na u alís ico dá-se
p e e ência pelo con á io a ques ioná ios cu os e de passagem ápida, con o me
aconselha P. Hughes (ci . in Ingold e al, 1991, p. 50).
A pe spec i a longi udinal ou p ocessual implica a desmon agem da
oxicodependência como um es ado médico, pa a se ala em p ocesso de dependência.
Passa-se a elega pa a segundo plano a e en e passi a ine en e à oxicodependência,
is a como uma doença, pa a p ocu a pon os em que o sujei o é ac i o e ge e a sua
dependência.
O pe manen e con ac o com o e eno po pa e das equipas de ua e a a iculação
dos dados ecolhidos po ou as equipas, em di e sas cidades ancesas, pe mi e a
elabo ação de es udos com ela i a acilidade. (29)
Assim, Ingold & Toussi (1997), a pa i da e en e e nog á ica, azem um
le an amen o das p á icas e a i udes dos consumido es de d ogas em elação a di e sos
í us comuns nes e ipo de populações (nomeadamen e o HIV, o í us da hepa i e
B
e C).
Os dados e i ados di icilmen e se iam ecolhidos po mé odos quan i a i os do ipo de
ques ioná ios em con ex o ins i ucional. Mui o suma iamen e: descob iu-se que as
campanhas de ocas de se ingas diminui am a pa ilha desse ma e ial, apesa de ou os
u ensílios de p epa ação dos consumos con inua em a se compa ilhados e obse a -se a
eu ilização de se ingas pessoais. A ní el das doenças, obse ou-se uma baixa da
se op e alência do HIV, ao con á io dos índices da Hepa i e C, com a con aminação
massi a dos u ilizado es. No que diz espei o às a i udes, o HIV e a is o como algo que
54
podia se
e i ado,
ao passo que a Hepa i e C e a enca ada como algo na u al e ine en e ao
p óp io es a u o de consumido . Uma no a campanha de sensibilização se ia necessá ia.
Num ou o abalho, Ingold & Toussi (1998a), es uda am os pad ões de consumo
de haxixe em F ança, compa ando o consumo u bano numa cidade ancesa de pequena
dimensão (C é eil) com os pad ões de consumo no meio u al. A dimensão his ó ica - que
dá con a da e olução obse ada quan o ao ipo de come cialização e ipos de
consumido es exis en es - se e de con ex ualização à si uação p esen e dos
consumido es daquele ipo de d oga. Uma das possibilidades é a cons ução de uma
ipologia de igu as des a subcul u a, que ai desde os consumido es i egula es aos mais
egula es e conhecedo es das di e sas a ian es do haxixe.
2.5 - Nexo d oga-c ime
A subcul u a da d oga-c ime, numa pequena cidade no e ame icana oi objec o de
es udo po pa e de Faupel (1991). Inspi ado nalguns clássicos da á ea como P eble &
Casey (1969) e especialmen e em Becke (1963), Faupel u iliza o concei o de ca ei a
des ian e. Me odologicamen e, o au o en ou econs i ui os pe cu sos des ian es de
di e sos consumido es e delinquen es, segundo g andes á eas de análise. O es udo, que
oi inanciado - paga a-se aos en e is ados 5 dóla es po ho a de en e is a - pe mi iu a
ealização de di e sas sessões po sujei o. Vá ios p o issionais de ins i uições de
a amen o ajuda am a cons i ui a amos a.
No que diz espei o ao modo de condução da en e is a, o in es igado abdicou, em
pa e, do con ole dos emas em oca de e ei os posi i os na mo i ação e coope ação do
en e is ado. "The esponden is no longe a esea ch subjec bu is an expe , a eache ."
(Faupel, 1991, p. 17). A a i mação em mui o na linha das posições eó icas iliadas na
adição de Chicago, p i ilegiando ao máximo as a i udes e mo i ações do sujei o e do
mundo que se p e ende es uda . No en an o, essa al e idade que p essupõe o concei o de
des iância é, de algum modo, amenizada pelo concei o de ca ei a:
"... he pubicly labeled addic is o ced o li e a meage exis ence... Bu he c i ical
ea u e o de ian ca ee s is hei lack o clea dema ca ion ela i e o mos espec able
ca ee s." (Faupel, 1991, p. 26)
55
A mobilidade da ca ei a, a p og essão e ascenção, a e i ada são enómenos
comuns à no ma i idade
e
à
des iância.
Da mesma o ma, a ca ei a con igu a uma sé ie
de obs áculos e e apas que de em se ge idos pelos sujei os que nela ing essa am.
Es amos pe an e o papel que a es e a subcul u al pode á e nos indi íduos: ela p e igu a
ajec ó ias que se ão ge idas ao ní el do sujei o, mas que de alguma o ma lhe
p eexis em.
Ou o pon o de in e esse nes e es udo, é a obse ação da e olução das elações
en e a d oga
e
o
c ime
ao
longo
da ca ei a des ian e. No consumido ocasional as duas
es e as su gem de o ma ela i amen e au ónoma - o consumo e a p á ica de c imes não
es ão es u u ados. O mesmo não se obse a em elação ao consumido egula :
su p eenden emen e é uma mais alia inancei a, mui as ezes de o igem c iminal, que
p ecede a escalada nos consumos. É nesse momen o que se desen ol em as
especializações c iminais ou quasi-c iminais; os indi íduos equen emen e man êm
papéis no ma i os a pa dessas ac i idades; há uma acul u ação à subcul u e; há uma
es abilização
dos
consumos à medida
que
a ac i idade c iminal se es u u a.
No "big s ing", a " ezada" na gí ia po uense, o indi íduo consegue um inespe ado
acesso a dinhei o ou d oga - p. e. o deale consome a d oga que de ia a ica , icando
em dí ida pa a com os seus o necedo es; o assal an e de casas e e a "so e" de ganha
mui o dinhei o. Obse a-se, en ão, uma g ande escalada nos consumos, a pa de uma
momen ânea e i ada da ac i idade subcul u al. A úl ima igu a, o junkie de ua, eme ge a
segui ao "big s ing" ou ambém no caso em que o consumido egula não consegue
coo dena já
as
suas
o inas:
nes e caso o consumido
não
consegue e dinhei o ou ou as
o mas de alimen a o seu consumo e começa a soco e -se de ac i idades c iminais não
es u u adas sendo, po isso, mui as ezes de ido ou manipulado pela polícia Es e caso,
o mais isí el socialmen e, se ia o único em que, cla amen e, o consumo "causa" a
ac i idade c iminal.
É de no a que es as igu as podem-se sucede nou a o dem, con o me os
ecu sos e as escolhas do sujei o. Me odologicamen e, Faupel (1991) pa ilha com as
ou as abo dagens aqui mencionadas: a endência pa a p i ilegia o que o sujei o diz e ê
56
do seu p oblema ou da sua ac i idade; o a amen o quali a i o dos dados ecolhidos; uma
a i ude de não di ec i idade na en e is a; uma lei u a que conjuga os ní eis indi iduais e
sociais dos dados ecolhidos, se bem que es e úl imo seja o mais abalhado. No ní el
es i amen e eó ico é in e essan e a sua e lexão sob e a elação d oga-c ime em e mos
p ocessuais. O nexo en e as duas es e as a ia empo almen e no mesmo indi íduo,
con o me o pon o da ca ei a des ian e em que ele se encon e/30)
2.6 - Fo mas de ida
A o mação eó ica de Macque p o ém da sociologia, in e essando-se pelo concei o
de iden idade social na sua complexidade epis emológica. Ku y (1992) in e oga-se bem
sob e esse labi in o no comen á io que ece sob e a ob a que i emos ago a segui um
pouco (Macque , 1992).
"... commen comp end e que Tiden i é soi ce lieu où
s'opè e
à a e s une
mys é ieuse alchimie, la encon e en e les condi ionnemen s sociaux e le sens subjec i
de P ac eu ?" (Ku y, 1992, p. 5)
Na esenha eó ica que o p óp io Macque (1992) ealiza, a au o chama a a enção
pa a a in luência que Simmel exe ceu na Escola de Chicago. Is o pa a con ex ualiza a
u ilização de um concei o desse au o , as o mas de ida: "... la o me p ise pa
l'associa ion de di e s indi idus e qui en e iennen les ac ions de écip oci é en e eux."
(op ci , p. 15). A noção não se opõe ao concei o de es ilo de ida de que ala emos em
G apendaal, Leuw & Nelen (1995) possuindo ou as ca ac e ís icas que são, po assim
dize , es u u ais. Dizemos es u u ais po que, de início não isí eis, são elas que es ão
na génese das u u as ajec ó ias des ian es do indi íduo. A noção p essupõe di e sas
e en es, a sabe :
- p essupõe acções de ecip ocidade "qui son le cimen de la ie en socié é e au
jou au jou " (Macque , 1992, p. 15). O a essa ecip ocidade, que engloba ia con eúdos
psíquicos, emo i os e mesmo económicos, o ganiza -se-ia na p á ica, numa coe ência
uncional;
- p essupõe coe ência uncional: cabe ao in es igado descob i uma ce a es u u a
ou o ma subjacen e aos di e sos con eúdos da ida social do indi iduo;
57
- p essupõe um g adien e de indi iduação, pois cada o ma de ida "...donne accès
à un ce ain g adien de possibili é d'indi idua ion" (op ci , p. 15-16) onde o quo idiano
assume um papel cen al: há nele um subs a o sociológico que condiciona a eme gência
da indi idualidade.
Assim, a noção de indi íduo é despojada da sua homogeneidade pa a desdob a -se
em qua o possibilidades: indi íduo como de e minação objec ai pelos ou os; indi íduo
como o ac o de uma solida iedade que lhe é impos a; indi íduo que in e age com os
ou os sob a égide da sua independência social; indi íduo a omizado/isolado no seu
p óp io plano pessoal.
Ao in es igado cabe, a pa i de dados ecolhidos de modo quali a i o, o ganiza a
in o mação, aze o le an amen o das o mas de ida, de modo a pode comp eende a
cons ução de de e minada indi idualidade. A lei u a é, a iscamos dizê-lo, psico-social,
apesa da con igu ação o iginal das duas e en es. O social o nece as possibilidades de
indi iduação, ao in es igado cump e a a e a con á ia: pa i do indi íduo e da sua
his ó ia, p ocu ando os seus ci cuns ancialismos sociais.
Me odologicamen e, no abalho de 1991, Macque ecolhe os dados no se ing de
uma en e is a bem es u u ada, o ganizando-os empo almen e de modo a cons ui
monog a ias. O o ma o é, pois, o do es udo de caso em ez das his ó ias de ida
c uzadas ( e Poi ie e ai 1995) em que as ajec ó ias indi iduais são ag upadas em
egula idades. É de sublinha a o iginalidade des e abalho no con ex o dos ou os
au o es que aqui ap esen amos: é o único a soco e -se do es udo de casos isolados.
2.7 - Es ilo de ida
O es udo de G apendaal e ai (1995) é uma éplica holandesa de um abalho no e
ame icano de Johnson e ai (1985). Como em sendo hábi o nes e ipo de es udos, os
au o es azem uma e lexão eó ica sob e as p oduções cien í icas na á ea da
oxicodependência ocando, nomeadamen e, a impo ância da pe spec i a ecológica, as
eo ias de labelling e da des iância p imá ia e secundá ia. A noção de ca ei a des ian e é,
58

do mesmo modo, ealçada nas pon es em comum que em com qualque ca ei a
no malizada:
"Finally, i is impo an o ake he subjec i e, psychology side o he ca ee concep
in o accoun . This is de e mined by he indi idual's in e es in he social pa e n o
beha io and by he ex en o wich he is (emo ionally) in ol ed in i . In
b ie ,
his may be
ega ded as he deg ee o wich a pe son de i es iden i y om his ca ee ..." (G apendaal
e al, 1995, p. 35)
Nes e pa icula , o oxicodependen e i e uma ca ei a que lhe impõe ob igações,
de e es e di ei os, a é egalias. A sua iden idade pessoal emana, de uma o ma mais ou
menos in ensa, da sua ac i idade social - como, de es o, acon ece com odos nós.
A ca ei a do consumido de he oína ap esen a ci cuns ancialismos di e en es dos
exis en es pa a os consumido es de ou as subs âncias:
"Con a y o junkies, in he cou se o hei ca ee o addic ion, alcoholics a e able o
keep hei wo lds o ba s and ca es on he one hand and wo k and amily on he o he
sepa a e o qui e a long ime. This allows hem o a oid ha ing hei exis ence
comple ely de e mined by hei addic ion." (G apendaal e
al,
1995, p. 38-39)
O es udo ealizado p ocu a, ao modo e nog á ico das in es igações de campo - com
en e is as es u u adas semp e que su ja opo unidade e com a ealização de diá ios de
bo do pelos in es igado es - conhece as modi icações que os p og amas de me adona
possam e no compo amen o económico dos seus u ilizado es (po compo amen o
económico en ende-se a o alidade dos gas os e das en adas mone á ias dos indi íduos
que equen am os p og amas). Foi possí el, assim, acede a uma sé ie de es ilos de
ida.
O es udo desen ola-se na Holanda, mais conc e amen e na cidade de Ames e dão. A
lexibilidade dos p og amas de a amen o pe mi e uma solução di e en e e mui as ezes
in e média en e a dico omia cu a/pe da, ípica dos acompanhamen os di eccionados
unicamen e pa a o bom diagnós ico (p econizado es da abs inência o al).
Em e mos de ca ei a des ian e, noção que an e io men e já desc e emos, os
es ádios inais oscilam en e o equen ado de p og amas de subs i uição e o "pill eak",
em p ocesso de de e io ação psico-social e que modi ica am um pouco os seus hábi os de
consumos pa a os comp imidos. No que diz espei o à iniciação e desen ol imen o dessa
ca ei a emos, pa a o p imei o, a descobe a em si do sínd ome de p i ação como o
59
passo p imo dial pa a a adesão do sujei o à mi ologia do "es a aga ado" (op ci , p. 61)
e, pa a o segundo, a ac i idade c iminal, a p ocu a de s a us na subcul u a, de in eg ação
num cí culo social p óp io que lhe o nece elemen os pa a a cons ução da sua iden idade
indi idual.
O concei o de ca ei a des ian e não es azia as po encialidades concep uais des a
isão empo al das ajec ó ias dos oxicodependen es:
"The de elopmen o a ca ee in d ugs only pa ly wipes ou he di e ences in li e-
s yle p io o an addic 's i s use o opia es. Fo a la ge majo i y o dope use , c ime is
simply pa o being addic a a ce ain s age in hei ca ee ." (op ci , p. 78)
A his ó ia indi idual de socialização em a sua impo ância pa a nos ape cebe mos
das ajec ó ias des ian es em causa, como imos no pon o an e io . Também o concei o
de es ilo de ida dá con a de pad ões compo amen ais e quo idianos di e sos du an e o
p óp io cu so da ca ei a des ian e, e e e-se a um ce o colo ido indi idual que se opõe à
endência no malizado a que a noção de ca ei a des ian e p essupõe. Assim, descob iu-
se,
endo po base a ac i idade económica dos consumido es, a seguin e ipologia:
- consumido no malizado ("no malized use " - op ci , p. 124) que usa a me adona
com as unções que ela e e o iginalmen e - não consome he oína, consome pouca
cocaína ou comp imidos, não ha endo quan o a idade, sexo, du ação da ca ei a ou ní el
sócio-económico, nenhuma ca ac e ís ica especial. Os seus endimen os p o êm, na sua
maio ia, de ac i idade ilegais;
- a ican e consumido ("dealing use " - op ci , p. 125): os seus endimen os
p o êm de ac i idades no me cado das d ogas; consome g andes quan idade de he oína e
cocaína, assim como uma ele ada pe cen agem de comp imidos; não se insc e eu em
nenhum p og ama de me adona mas comp a-a, po ezes, no me cado ilíci o;
- consumido c iminoso ("c iminal use " - op ci p. 125): os endimen os são
o iginá ios maio i a iamen e de c imes de na u eza aquisi i a; o seu pad ão de consumo
inclui a he oína, cocaína, á macos de di e sos ipos e álcool. Insc e eu-se no p og ama
de subs i uição, endo a me adona pa a ele um signi icado diame almen e opos o aos
p opósi os o iciais: é uma o ma ba a a e acessí el de ob e d oga.
60
O deba e e as conclusões des e es udo cen am-se ao ní el social e mesmo polí ico:
quais as an agens de man e um p og ama de subs i uição de baixo limia ? qual o
impac o da polí ica de apoio social na ida dos consumido es?
Não nos alonga emos mais, ealçámos já os ins umen os concep uais que achámos
impo an es. Deixa emos a e lexão sob e a globalidade dos es udos ap esen ados a é aqui
pa a o pon o seguin e.
3.
Que ciência?
Os es udos a é ago a ap esen ados sob e o p o isó io í ulo de e nobiog a ias
esul am de in incadas combinações disciplina es: coexis em p á icas semelhan es em
an opólogos, psicólogos, e nóg a os. Temos um sociólogo, como Macque , a in e essa -
se pelo es udo de monog a ias indi iduais; emos um psicólogo, como G apendaal, numa
equipa in e disciplina cons i uída po c iminologis as e ad ogados, in e essando-se pelos
compo amen os económicos dos consumido es.
Há em comum a pe spec i ação da his ó ia do consumido ao longo de um eixo
empo al que se in e essa po coo dena a es e a indi idual da ecolha de dados com
ou os ní eis de ab angência supe io - o comuni á io, o social e nalguns casos, mesmo o
polí ico. Mas que p á ica cien í ica é es a? que ciência é es a? Pa a desen ol e mos es a
linha e lexi a u iliza emos a co en e das his ó ias de ida, co en e eó ico-me odológica
de adição maio i a iamen e ancó ona. (31)
As his ó ias de ida, con udo, não nos a as am dessa p o usão disciplina , an es a
complexi icam sob o signo do psico-social. Além da aplicação da me odologia em
con ex o e nog á ico, emos a aplicação da me odologia em con ex o de o mação
p o issional com Vassile (1995); da in e enção psicológica com Leg and (1993). As
in es igações biog á icas são ainda usadas como mé odo de in es igação sociológica e
mesmo an opológica com Fe a o i (1983). Exis em possibilidades de e olui pa a uma
au onomia p óp ia:
"F.
Fe a o i à la sui e de J.-P. Sa e e de L. Sè e, dé end
Vau onomie
de
This oi e de ie comme science de p oduc ion de
Vhomme
conc e ." (Pineau & Le G and,
1993,
p. 56)
6 1
Aliás,
oi em Fe a o i que ob i emos uma isão globalizan e sob e es a linha e
sob e o es o ço in e disciplina que ela implica Es a complexidade p incipia logo no
objec o de es udo:
"... ou e p a ique indi iduelle humaine es une ac i i é syn hé ique, une o alisa ion
ac i e de ou le con ex e social. Une ie es une p a ique qui s app op ie des appo s
sociaux (les s uc u es sociales) les in é io ise e les e ans o me en s uc u es
psychologiques pa son ac i i é de dés uc u a ion- es uc u a ion." (Fe a o i, 1983, p.
50 - sublinhado pelo au o )
Tal o mulação dilui a cla eza da dis inção en e o social e o indi idual: o indi íduo
que ala é uma sín ese psicológica das suas condicionan es sociais. Aqui se cump em as
obse ações que izemos sob e o es ado ac ual da ciência, no que se e e e à
complexidade do objec o de es udo (Pa e A, Capí ulo I).
O mesmo au o i a, con udo, mais ilações des a
cons a ação:
con a ia a p imazia da
elação sujei o- objec o em e mos bipola es, em a o de uma in es igação pa icipação.
O sujei o p odu o de ciência não es á, do a an e, isolado do que es uda: in es iga
implica ans o ma , pa icipa e essa pa icipação de e se pensada. O es a u o da elação
sujei o objec o passa a se de pa idade (Fe a o i, 1983, p. 85-85).
A complexidade econhecida ao objec o de es udo é acompanhada ao ní el
me odológico: Poi ie e ai (1995) chama a a enção pa a a possibilidade de ealização de
his ó ias de ida de modo di ec o - en e is as com os p óp ios sujei os - de modo
indi ec o - a a és de documen os ou de en e is as a pessoas que conhecem a ealidade
que se p e ende conhece ; as biog a ias podem ainda se gene alis as ou emá icas - p. e.
his ó ia de ida cingida ao ema da oxicodependência; exis e ambém a al e na i a da
his ó ia de ida única ou his ó ias de ida c uzadas ou acumuladas.
Es a úl ima me odologia ab e passo a no a e lexão:
"...nenhum inqué i o e e como p ojec o da con a da exis ência mul i o me e
poli ónica de um objec o de es udo - aldeia, bai o u bano, áb ica e c - a a és da
compa ação sis emá ica e me odologicamen e pe inen e das in o mações ob idas."
(Poi ie , 1995, p. 39)
A acionalidade cien í ica que subjaz a al p ojec o não pode á se posi i is a e
igo osa, an es maleá el e complacen e com as con adições da ealidade. Pode emos
en ão e e as lições de Romani (1991) quando de ende que a análise de con eúdo das
62
PARTE B - MONTAGEM DO DISPOSITIVO DE INVESTIGAÇÃO
Numa abo dagem quali a i a o disposi i o de in es igação en ol e uma e lexão
dupla sob e os dois momen os que na in es igação posi i is a no malmen e se dão po
adqui idos, são eles: o modo de ecolha dos dados e o seu a amen o. O ques ioná io
quan i icá el esol e a si uação sem que o ques ionemos: a passagem do ques ioná io
desen ola-se no malmen e sem p oblemas de maio e o seu a amen o é uma a e a
es a ís ica de maio ou meno complexidade. Aqui não pode emos aze o mesmo. (34)
Temos, en ão, o Capí ulo I consag ado a esol e Escolhas me odológicas que
ao ní el de 1 - Recolha de dados em con ex o ins i ucional; que ao ní el da
pos u a 2 - Tipo de en e is a a p i ilegia ; que , pa a e mina , os moldes de 3 -
Cons ução do guião. Cump i emos, assim, o nosso p imei o pólo de p eocupação: o
de pensa e undamen a o modo de ecolha dos dados.
Em elação ao Capí ulo II - T a amen o dos dados o nosso p opósi o se á
desdob ado em 1 - Análise de con eúdo, onde e lec i emos no modo como se a á o
p imei o a amen o dos dados ecolhidos; 2 - Disposi i o analí ico de Foucaul ,
que se á a nossa g elha de lei u a dos dados já ag upados em emas; 3 -
Con ex ualização eó ica, em que a emos uma b e e esenha da impo ância que as
ob as de Foucaul êm indo a assumi como ins umen os de análise quali a i a nas
ciências sociais.
Apenas uma b e e no a: es e desdob amen o das nossas posições eó icas e da
nossa p oblema ização, ambém ela eó ica, an ecede a pa e p á ica da in es igação mas,
mui as ezes, é-lhe simul ânea e se á inclusi e pos e io . Não osse a análise quali a i a
uma dema che in e ac i a en e o campo onde se ecolhem os dados e a eo ia.
69

Capí ulo I - Escolhas me odológicas
Des ina emos es e capí ulo a uma b e e undamen ação do modo como os dados
se ão ecolhidos. Pa a al, p ocede emos a uma sucin a e lexão sob e o con ex o dessa
ecolha; o ipo de pos u a que en a emos adop a nas en e is as; e, inalmen e, num
úl imo pon o, da emos con a do modo como se cons uiu o guião pa a as en e is as e o
que p e endemos com ele. Es a á assim undamen ada a cons ução do nosso disposi i o
de ecolha dos dados.
1 - Recolha de dados em con ex o ins i ucional
Sil e man (1993) conside a indispensá eis pa a a condução de uma in es igação o
uso de á ios ipos de sensibilidades: a his ó ica, a cul u al, a polí ica e a con ex ual. Tal
uso não e á de se ex ensi o a odas es as sensibilidades, usadas de modo simul âneo:
"Howe e , i we a e no sensi i e o any o hese issues, hen we un he dange o
lapsing in o a 'social p oblem'- based way o de ining ou esea ch opics." (p. 8)
Explici ando os ipos de sensibilidades e e idos e emos, pa a a his ó ica, o
cuidado de não oma po absolu a a ealidade que obse amos; adop a emos a cul u al,
uma ez que es a p ocu a ob iga à comp eensão de dinâmicas cul u ais di e en es
daquelas em que o in es igado es a á habi uado a i e ; a polí ica de algum modo
o nece -nos-á um enquad amen o a ce as in il ações ideológicas; a con ex ual po que
possibili a á a in e p e ação dos dados de aco do com o se ing em que são ecolhidos.
A adição em que nos inc e emos p eocupa-se, pois, em a icula a eo ia
p oduzida com o modo como o sujei o p oblema iza a sua si uação e, como consequência
des a p eocupação, desmon a o objec o de es udo, dis anciando-se da o mulação
p oblema-social-a-comba e , imbuída em es e eó ipos, pa a a edi ini mais além - a pa i
da comp eensão ín ima do mundo des ian e em es udo. (35)
Um segundo p oblema le an a-se ago a: como concilia ce os p essupos os
eó icos o iundos da e nog a ia com uma in es igação que, longe de p e ende sai pa a o
campo, deseja obse a , a pa i desse subs a o epis emológico, o que os sujei os dizem
de si p óp ios em con ex o ins i ucional? Há an eceden es de ou as in es igações que se
70
insc e em na linha das his ó ias de ida (me odologia explanada po Poi ie & Clapie -
Valladon, 1995; Fe a o i, 1983) em que, a pa i de uma sé ie de en e is as, no caso das
his ó ias de ida c uzadas, se pode á econs ui o pe cu so do sujei o em ques ão
p ocu ando encon a -se ce as egula idades. Conhecemos igualmen e aplicações des e
mé odo, que é e sá il, na á ea das oxicodependências (Ma os &Ag a, 1996; Palia es,
1995;
Faupel,
1991;
Ingold e ai,
1991;
Romani & A iaga, 1985) o que p o ege de algum
modo os nossos p opósi os, nomeadamen e no que diz espei o à aplicação des e ipo de
me odologias em con ex os ins i ucionais. De ende -nos-emos ambém de ou o modo:
"... he opposi ion be ween a i icial and na u ally occu ing da a is a ed be ing.
Nei he kind o da a is in insically be e han he o he ; e e y hing depends on he
me hod o analysis." (Sil e man, 1993, p. 106)
A ecolha de dados não induzidos, ca ac e ís ica da e nog a ia não é, pois,
in insecamen e melho ou pio do que a p o ocada em en e is as ins i ucionais ou de
ou o ipo. Após es a pequena undamen ação da pe inência epis emológica dos dados
ecolhidos em en e is a, açamos um b e e pe cu so sob e o que ela de e se pa a
obedece aos equisi os eó icos que a ás eclamámos. (36)
2 - Tipo de en e is a
Vá ios au o es ad ogam uma posição mais humanis a da en e is a, dis anciando-se
de uma isão mecanicis a que ê no sujei o o deposi á io da in o mação a se ex aída
(Bake , 1997; Hagan, 1986). Também Holds ein & Gub ium (1997) ejei am o " essel o
answe s model" (p. 113) em nome de uma ap oximação mais c ia i a da en e is a, ao
mesmo empo que suge em que a implicação do sujei o en e is ado numa e lexão sob e
si pode á o nece dados di e en es dos ecolhidos em con ex o na u al.
S a on (1997), numa posição epis emológica bas an e a ançada, de ende que o
obse ado /en e is ado in luencia o que obse a, endo is o de se le ado em con a na
in e p e ação dos dados - o que se ia uma ap oximação epis emológica in e essan e das
ciências sociais à ísica mode na. (37) Nos úl imos anos e, de uma manei a ge al, sucedeu
uma e e escência dos mé odos quali a i os em psicologia, que a a és da impo ação de
mé odos o iundos da sociologia como a G ounded Theo y (Pidgeon & Henwood, 1997);
7 1
que adop ando pos u as enomenológicas (Gio gi, 1986); que c i icando
epis emologicamen e o es ado da ciência:
"Whils in physics esea ch o a quali a i e na u e goes on, mos o he esea ch in
social science does no seem o ge beyond a New onian phase, in wich he me hod mo e
o less de e mines he ques ions asked and he hemes o in es iga ion a e limi ed o
phenomena wich lend hemsel es o a quan i a i e me hod o esea ch." (Konnig, 1986,
p.
iii)
A en e is a, é nosso c e , e ela-se um meio ú il na supe ação des e a a ismo
epis emológico, a pa i do momen o em que deixe de se de inida com base em
p essupos os posi i is as:
"... such p inciples, de i ed om cons uing in e iewing as an objec i e elici ing
de ice, a e no enable and in oduce g oss dis o ions in he in e iew i sel - he only
hing hey a e mean o o e coming in he po sui o unbiased da a." (Hagan, 1986, p.
332)
A au o a que ci amos, alinhando numa posição enomenológica, de ende a
en e is a como o modo de eleição pa a se acede ao mundo do sujei o en e is ado. O a
al só pode á se ealmen e a ingido quando se consegue a seguin e si uação:
"The in e iew si ua ion hen equi es he esponden o see he sel as an objec
wo hy o s udy, who holds opinions and iews on (in his case) mo he hood, wich she
is only oo willing o di ulge." (Hagan, 1986, p. 340)
Consegui essa empa ia p essupõe, pois, uma posição de não julgamen o e de ce a
ap oximação com o mundo do en e is ado e com ele p óp io que, não dispensando o
disposi i o analí ico pa a o a amen o dos dados, não coloca o inqui ido no pon o cen al
da en e is a à qual udo se de e ia subme e (como em indo a se cons a ado em
abo dagens de pendo posi i is a). O empenhamen o pessoal do p óp io in es igado
assume uma no a impo ância
"This cen e lies in he humanis ic commi men o he quali a i e esea che o s udy
he wo ld always om he pe spec i e o he indi idual." (Lincoln & Denzin ci in
Sil e man, 1997, p. 247)
Es e emp eendimen o chama-nos a a enção pa a o ac o que só p i ilegiando a
elação e a empa ia com o en e is ado é que se pode á ob e a sua coope ação plena.
Todos os pa icipan es de em es a bem cien es dos objec i os do es udo em que são
colabo ado es, a ques ão da con idencialidade dos dados de e es a bem escla ecida e
72
assegu ada. O consen imen o pa a a g a ação da en e is a
é
condição sine qua non pa a o
aze . Sublinhamos ambém a o al libe dade de in e ompe a g a ação semp e que o
colabo ado ache necessá io, ou não se sin a à on ade com o egis o de de e minado ema
da en e is a. (38)
3.
Cons ução do guião
A cons ução do guião pe mi e-nos a objec i ização do p oblema Vi ências de si na
oxicodependência an e io men e abo dado em e mos eó icos. Vimos já que as i ências
de si implicam duas posições:
- uma p imei a, se á a de econhece no in o man e que é en e is ado um sujei o
que é possuido de uma pa idade epis emológica em elação ao in es igado ,
in e essando-nos, po isso, o modo como o sujei o enca a a ealidade em que i e;
- uma segunda, se á a pe spec i a longi udinal, o que implica o es udo das escolhas
e a i udes que os di e sos consumido es ão azendo ao longo da sua ca ei a, no
desen ol imen o do seu pe cu so enquan o oxicodependen es.
A p imei a ilação e lec e-se já no ipo de en e is a a adop a mas ambém nas
adap ações que se pode ão aze no p óp io guião à medida que a ecolha de dados se o
ealizando. A en e is a é semi-es u u ada; o g au de impo ância do guião ai lu uando
con o me o cu so da sessão de ecolha de dados. A í ulo de exemplo, descob iu-se numa
sessão um ela o sob e a modi icação das p á icas de consumo de he oína ia endo enosa;
sen iu-se a necessidade de e i ica essa mudança nou as sessões.
Quan o à segunda ilação pode -nos-emos soco e das noções de ca ei a des ian e
e de es ilo de ida, nomeadamen e no desdob amen o p agmá ico que au o es como
A iaga & Romani (1985); Palia es (1995); G apendaal e ai (1995); Faupel (1991) e
Fe nandes & Ag a (1991) ize am desses concei os. A p eocupação aqui se á a de
cons ui um guião que seja sensí el a essa e olução, a essa dimensão empo al.
Sendo assim, p es amos especial a enção ao modo como o sujei o desen ol e a sua
elação com as di e sas subs âncias: con ac o ocasional, consumo i egula , consumo
egula , bem como pe íodos e en uais de consumo desmesu ado. Do mesmo modo
73
ele amos: os mo i os ou azões que os sujei os in ocam pa a jus i ica o seu g au de
en ol imen o com uma dada subs ância; as ca ac e ís icas a ibuídas a cada uma; os
con ex os de consumo e e olução desses con ex os ao longo da ca ei a de consumido ; a
ap endizagem e e olução das écnicas de consumo u ilizadas e não u ilizadas; po úl imo,
a capacidade que o sujei o e e ou em de ge i a sua imagem em ce as es e as
socializado as como a escola, o abalho, a amília.
Também nos in e essa analisa o papel que as ins âncias no malizado as, que
ju ídico penais que sócio-sani á ias, i e am na ajec ó ia do indi íduo. Uma ou a á ea
de ges ão se á o que Ingold e ai (1991) denomina am ges ão da dependência: quais os
ecu sos que o sujei o lança mão e quais os que conside a inadmissí eis - á ico, oubo
p os i uição, pequenos sub e úgios no me cado das d ogas, a umado de ca os, en e
ou os. (39) Quais as p oblema izações que os sujei os desen ol em nes as á eas?
In e essa-nos o sabe das d ogas que os indi íduos possuem e qual é o uso que
azem deles em si. Semp e que possí el en a emos susci a a e lexão do sujei o sob e si
mesmo: o uso do sabe das d ogas em si; quais os mo i os e os objec i os des e ou
daquele uso; qual o es ado ou os es ados que se alcançam.
O guião oi en ão cons uído pa indo des as p eocupações e consul ando guiões de
ou os es udos semelhan es - eme emos o lei o pa a a consul a dos Anexos
1
e3.
7 4

Capí ulo II - T a amen o dos dados
Nes e capí ulo a emos uma b e e pe spec i ação do pe cu so de a amen o dos
dados ecolhidos. Finda a cons ução de al pe cu so, es a emos, en ão, p epa ados pa a a
ap esen ação dos esul ados da análise de con eúdo e pa a a sua pos e io con on ação
com o disposi i o analí ico de Foucaul .
1 - Análise de con eúdo
É en ende de Robe s (1983) que a adição posi i is a, cen ando-se demasiado
sob e écnicas, pode a as a o in es igado do seu objec o de es udo. Também Bu e s
(1983) apon a a necessidade de p oximidade do in es igado em elação à subcul u a que
p e ende es uda .
Es as posições le an am uma sé ie de ques ões que impo a medi a , nomeadamen e
no que diz espei o ao binómio objec i idade-subjec i idade:
"Não se a a aqui de se se objec i o po meio da depu ação das medidas e po
aco do in e subjec i o, a a-se sob e udo de se se objec i o pelo econhecimen o da
subjec i idade e pela objec i ação dessa mesma subjec i idade."
(Van De Ma en ci in He be , Goye e & Bou in, 1994, p. 67)
Ki k & Mille (1985) en a am e lec i sob e o p oblema da objec i idade - aqui
en endida pela capacidade que uma dada eo ia possa e de con on a -se com os ou os
conhecimen os e com o mundo empí ico - a a és de dois concei os: a idelidade e a
alidade.
A idelidade acon ece quando há pe sis ência de um p ocedimen o de medida em
ob e uma mesma espos a. É o p incipal oco de p eocupação, de oda a écnica dos
ques ioná ios; a análise de con eúdo ambém en a sa is aze es a p eocupação como
e emos adian e.
Mas,
se esol ido o p oblema da idelidade, o pe cu so não es á e minado, com a
alidade es uda-se a capacidade que um dado p ocedimen o possui de desencadea uma
espos a co ec a (is o é, se a espos a ob ida em ealmen e a e com o que p e endemos
es uda ).
7 5
Numa pala a: e emos a p eocupação que o p ocedimen o desencadeie a mesma
espos a independen emen e de ci cuns ancialismos ( idelidade) mas ambém não
escapa emos ao cuidado de con ola se os dados que ob i emos es ão mesmo em elação
ao que p e endemos es uda ( alidade).
Toda a undamen ação eó ica já ealizada dispensa-nos de mais comen á ios em
elação à alidade. Fiquemo-nos apenas com es a ci ação:
"...e en wi h sophis ica ed s a is ical analysis, o en lea e unasnswe ed - o e en
unad essed - such basic ques ions as 'how?' and 'why?', e en as hey p o ide sound
es ing concep ual models." (Hea h, 1995, p. 753)
Toda a nossa p oblema ização - as i ências de si - se di ige a ques ões como o
Po quê? e o Como? Achamos, pois, undamen adamen e, que uma me odologia
quali a i a se adequa melho aos nossos objec i os. Es á en ão esol ida a ques ão da
alidade.
É sob e a idelidade que nos deb uça emos com mais de alhe. Sabemos que uma
análise de con eúdo é uma a e a que nunca se pode á da po e minada, e que com o
mesmo ma e ial pode ão se ei as di e sas análises. Também de algum modo é quase
impossí el que dois in es igado es, a pa i dos mesmos dados, p ocedam a idên ica
ca ego ização da in o mação.
O p oblema da subjec i idade es á aqui pa en e ao pon o de le an a p oblemas de
idelidade. É ce o que a p odução de um guião pe mi e, a um en e is ado azoa elmen e
einado, a ealização de en e is as semelhan es - em suma, cons i ui-se como o p imei o
passo em di ecção da idelidade. C40)
Um segundo e decisi o passo da -se-á na análise dos dados p op iamen e di a,
nomeadamen e na ques ão da codi icação dos dados e no es abelecimen o de sen idos do
ex o (Vala, 1986).
É es e mesmo au o que ealça a impo ância dos p ocedimen os o ganiza i os e
classi ica i os das his ó ias de ida:
7 6
"Em mui os des es es udos, o in es igado não dispõe de hipó eses de pa ida,
eúne dados de o ma con olada e sis ema izada que depois o ganiza e classi ica." (Vala,
1986,
p. 106)
As ca ego ias que pe mi em essas ope ações são cons uídas a pa i dos dados - a
ques ão da idelidade não se põe aqui - mas elas de em se de inidas com igo em
di e sos ní eis:
"... uma ca ego ia é habi ualmen e compos a po um e mo cha e que indica a
signi icação cen al do concei o que se que ap eende , e de ou os indicado es que
desc e em o campo semân ico do concei o." (Vala, 1986, p. 111)
A de inição de uma ca ego ia o na a análise de con eúdo independen e do
in es igado que a ealiza. In oduz-se assim uma impo an e dimensão de idelidade na
pesquisa. A objec i ização dos p ocedimen os, a segmen ação de dados e a sua
ca ego ização são indispensá eis a uma análise de con eúdo que se quei a cien í ica - se
bem que Ba din (1995) chame a a enção pa a o ac o de nem odas as análises de
con eúdo passa em ob iga o iamen e po es a ase.
"A ca ego ização é uma ope ação de classi icação de elemen os cons i u i os de um
conjun o, po di e enciação e, seguidamen e, po eag upamen o segundo o géne o
(analogia), com os c i é ios p e iamen e de inidos. As ca ego ias, são ub icas ou
classes, as quais eúnem um g upo de elemen os (unidades de egis o, no caso da análise
de con eúdo) sob um í ulo gené ico, ag upamen o esse e ec uado em azão dos ca ac e es
comuns des es elemen os." (Ba din, 1995, p. 117)
Os c i é ios que p esidem à ca ego ização podem se de á ias o igens mas es as,
pa a se em uncionais, de em obedece a uma sé ie de p incípios, segundo Ba din (1995,
p.
117):
- a exclusão mú ua: as ca ego ias de em se cla as e não pe mi i a sob eposição de
classi icações - a si uação em que um de e minado ma e ial pode ia se incluído em duas
ou mais ca ego ias é de e i a ;
- a homogeneidade: a ca ego ia de e possui apenas um p incípio que gi a a sua
o ganização - es e p incípio anda a pa com o da exclusão mú ua;
- a pe inência dá con a da adap ação da ca ego ia ao ma e ial sob análise;
- a objec i idade e idelidade: na ase de análise de con eúdo es es p incípios
aduzem-se po uma codi icação c i e iosa e igo osa do ma e ial, obedecendo semp e ao
modus ope andi de inido à pa ida;
77
- a p odu i idade: escu emos a au o a:
"Um conjun o de ca ego ias é p odu i o se o nece esul ados é eis: é eis em
índices de in e ências, em hipó eses no as e em dados exac os" (Ba din, 1995, p. 120-
121)
Temos en ão aqui os p incípios que de em se a endidos no p ocesso da condução
de uma análise de con eúdo. Es a pe mi e des enda as p incipais egula idades em
elação a dadas ca ego ias (41). As in e ências que a au o a e e e pe mi em a indução de
conclusões e a é, em alguns casos, de eo ias elabo adas a pa i da análise do ma e ial. É
ainda Ba din que chama a enção pa a o ac o de não nos p ende mos apenas às
egula idades:
"Po ezes o na-se necessá io dis ancia mo-nos da c ença sociológica na
signi icação da egula idade. O acon ecimen o, o aciden e e a a idade, possuem, po
ezes um sen ido mui o o e que não de e se aba ado." (op ci , p. 116)
A sensibilidade do in es igado de e es a abe a pa a a excepção, pa a o i egula .
Mas nes e caso não é o p ocedimen o objec i o e igo oso que nos dá acesso a esse
campo: é o insigh , o subjec i o que nunca de em se esquecidos.
Pa a consul a do nosso ins umen o de ca ego ização bem como pa a o acesso a
uma b e e explicação sob e a sua cons ução eme emos o lei o pa a o Anexo 2.
2.
Disposi i o analí ico de Foucaul
Foucaul (1986), ao p e ende es uda a sexualidade na G écia an iga, não pensa a
aze uma his ó ia clássica dos ac os e da sucessão de p á icas mas, an es pelo con á io,
coloca a sexualidade no cen o das con ingências cul u ais e sociais. Ten a ia ealiza
"Uma his ó ia que não se ia aquela do que pode ia ha e de e dadei o nos
conhecimen os; mas uma análise dos 'jogos da e dade',
dos
jogos en e o e dadei o e o
also,
a a és dos quais o se se cons i ui his o icamen e como expe iência, is o é, como
podendo e de endo se pensado." (p.12)
Aliás,
a eme gência da noção de sexualidade coloca-a o au o no início do século
XIX, elacionando-a com o desen ol imen o de ou as á eas cien í icas, como a biologia
e o ape eiçoamen o de um sis ema de o opedia social cen ado no indi íduo e nas suas
á ias es e as de ida. O emp eendimen o se ia, pois, ambicioso: a a a-se de analisa o
78
di ije. Os desejos homossexuais são ilegí imos, bem como as p á icas he e ossexuais
ex e io es à ins i uição do casamen o ou as que elegem como objec o a in ância.
A es é ica da exis ência, í44) ine en e à p oblema ização das p á icas sexuais na
G écia an iga, não se cen a, como imos, an o no desejo e na ilici ude de ce as p á icas
mas no que o sujei o az delas. As no ma i as deon ológicas cen am-se em o no do
con ole do desejo em ez de se di igi em à sua na u eza. É aqui que encon amos um
p imei o pa alelismo com o ipo de in es igação sob e a oxicodependência que
p e endemos aça . Pa ece-nos que a in es igação maio i á ia nes e campo oi
condicionada mais pela he menêu ica do sujei o, e de odas as cons uções daí de i adas,
do que pelo es o ço de comp eensão da es é ica da exis ência ine en e a uma ida
o ganizada em o no dos consumos de d ogas.
U ilizando a e minologia oucaul iana, a he menêu ica do sujei o coloca à
oxicodependência as ques ões: quais os desejos? quais os ac os? quais os p aze es? - em
ez de, com a es é ica da exis ência, se analisa a o ça com que se é le ado pelos p aze es
e desejos, mais: como o sujei o se posiciona ela i amen e a essa o ça. A in es igação
maio i á ia nes a á ea p eocupa-se mais com o que acon ece de mal, de dis up i o ao
oxicodependen e (Ag a & Fe nandes, 1993) do que com o exis en e, no meio desse
e en ual so imen o, de au o-con ole e au o-ges ão.
Quan o ao segundo pon o de conexão des e ipo de análise com a á ea da
oxicodependência ad ém do ac o de se em semelhan es as p op iedades a ibuídas aos
aph odisia
e às d ogas ilegais como a he oína e cocaína (Fe nandes, 1998). A ambas,
aph odisia e d ogas ilegais, são a ibuídas g andes p op iedades hedónicas; sendo que
essas p op iedades azem consigo semen es de descon ole que pode ão in adi , po
assim dize , o sujei o. Es á cla o de e que o sujei o se á con on ado com a dico omia
con inência-incon inência, empe ança-in empe ança que p e endemos aqui es uda nas
nuances especí icas que po en u a e ão no con ex o de uma subcul u a pa icula .
Po es as azões, pa ece u í e o aplica es e ipo de ní eis de análise como,
di emos assim, espinha do sal da nossa u u a g elha de análise de con eúdo. An es,
po ém, de a aplica mos ao ma e ial ecolhido, de enhamo-nos em in es igações nes a á ea
85

que se soco e am de semelhan e escalonamen o analí ico pa a o ganiza em os seus
dados.
Tal a e a é a que nos p opomos aze no pon o seguin e.
3 - Con ex ualização eó ica
Os abalhos de Ag a
(1991;
1990) ab em a possibilidade a uma sé ie de
in es igações na á ea dos compo amen o des ian es que mais a de se desen ol e am em
o no da oxicodependência po si só; nas conexões que es a úl ima es abelece com a
se oposi i idade, ou ainda no es udo nexo d oga-c ime. Sem se uma ansladação di ec a
dos ní eis analí icos de Foucaul an e io men e ap esen ados, os abalhos de Ag a sob e
o concei o de sujei o au opoié ico de em a esses ní eis uma das suas in luências mais
e iden es.
3.1 - Es udos undado es de Ag a
No abalho de 1990, Ag a o ja a noção de sujei o au o-poié ico na en a i a de
comp eensão da ansg essão, nomeadamen e elacionando-a com uma ou a noção, a de
ac o social. De ende en ão a na u eza sis émica do sujei o, compos o pelos ec o es de
acção e pe sonalidade, sendo na con luência dos dois que eme ge o seu elacionamen o
com as no mas e sua ang essão - plano de signi icações. E é logo no sis ema de acção
que a in luência de Foucaul se az sen i
"Soi , pa example Pac e sexuel el que M. Foucaul Ta analysé dans sa subs ance -
implique une hié a chie de nou eaux ac es (de sa oi , de maî ise de soi). Pa
géné alisa ion je di ais que ou ac e sui ce chemin: ac e subs ance é hologique, ac e-a ec ,
ac e-exp ession, ac e-sa oi , ac e-pou oi , ac e-p oje ." (p. 419)
Sis ema e ológico e sis ema de pe sonalidade - ambos são cons i uídos po di e sos
es a os que, g osso modo, se co espondem (uma e lexão mais cuidada des es sis emas
se á deixada em suspenso). (45) O mais impo an e a sublinha é que os sis emas e ológico
e de pe sonalidade se elacionam como con eúdo e o ma que, in e agindo, p oduzem
sen ido, o ganizando-se num sis ema au ónomo. O sis ema o ganizado do sen ido, ou
planos de signi icação, es u u a-se nos ní eis on ológico, deon ológico, lógico e
eleológico, cujo pa alelismo com Foucaul é e iden e.
86
O plano on ológico e e e-se ao "mode de signi ica ion posi i is , ac uel de soi e
du monde" (p. 422); no plano deon ológico "le suje se pe çoi comme obje de
dé e mina ion" (p. 422), co espondendo a uma es u u ação causal de si mesmo e da sua
elação com mundo; no plano lógico "le suje é abli un appo de signi ica ion cogni i e
de soi à soi e de soi au monde" (p. 422) numa p ocu a de coe ência pu amen e indi idual
nesses dois mo imen os; no plano eleológico o sujei o "se comp end comme p odui e
p oduc eu de ci cons ances, comme agi e comme ac eu , comme dé e mina ion e
indé e mina ion, à la ois." (p. 422)
Aplicados à ansg essão p op iamen e di a e seguindo o mesmo abalho, os planos
de signi icação acima expos os aduzem-se nas posições subs an i a, solidá ia, soli á ia e
p ojec i a. Na p imei a, o sujei o p eocupa-se com o "simple ai e
objec i "
(p.423); na
posição seguin e, lidamos com o de e minismo social, as eg as sociais o necem ao
sujei o a base pa a a sua iden idade indi idual. A e cei a posição e e e-se à descobe a
"pa le suje lui-même, de la logique du psychique" (p. 424) sendo que a ansg essão
obedece à con inuidade, digamos, p á ica dessa lógica. Po úl imo, a posição p ojec i a
pe mi e a e o mulação, pelo sujei o, do seu con eúdo biopsicossocial, que consegue
es abelece um enquad amen o é ico-polí ico pa a a sua ansg essão.
3.2 - Aplicações na p á ica in es iga i a
As posições ansg essi as cedo pe mi i am a cons i uição de uma g elha ca ego ial
das ajec ó ias des ian es, con o me a p edominância de uma ou ou a posição
ansg essi a ao longo do pe cu so indi idual. Assim, pa a o es udo das de e minações e
signi icações que os p óp ios sujei os a ibuem às suas acções e a sua elação com
e en uais posições de signi icação ansg essi a que simples, que de na u eza
compósi a, emos o abalho de Mani a, Ca alho & Ag a (1996); ambém Gue a (1994)
es udou a au o-o ganização psicológica e a se oposi i idade, aplicando as posições de
signi icação a qua o combinações possí eis de duas dimensões ele an es da
adap abilidade do sujei o: a au o ac ualização e o supo e social.
87
Exis em, pois, di e sos abalhos que aplicam à á ea das d ogas as posições de
signi icação ansg essi a que, como imos, de i a am pa cialmen e de Foucaul , po
in e médio das e lexões epis emológicas de Ag a í46) . Con udo, obse ámos que es es
es udos p eocupa am-se mais em ealça a p edominância ela i a de cada um dos ní eis
de ansg essão, numa p eocupação ca ego ial, em de imen o da análise mais minuciosa
da coexis ência das componen es on ológicas, deon ológicas, ascé icas e eleológicas
ine en es à expe iência con inuada de consumos.
Numa pala a, pa ece-nos e undamen ado o objec i o que nos p opúnhamos: há
iabilidade eó ico-p á ica pa a aplicação do desdob amen o analí ico gizado po Foucaul
à oxicodependência.
Aliás,
es a u ilização de concei os oucaul ianos no âmbi o dos es udos quali a i os,
começa a es a cada ez mais em oga. São exemplos disso P io (1997) que usou o
cons uc o de "A queologia" pa a es uda o mas de delimi ação do discu so (linha já
desen ol ida po Foucaul , 1997); ambém Kendall & Wicham (1999), num manual com
ins didác icos, dão uma ideia ge al sob e es e mo imen o c escen e nas ciências sociais.
88
PARTE
C
APRESENTAÇÃO
DOS
RESULTADOS
89
PARTE C
-
APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
Chegou o momen o da ap esen ação dos esul ados p op iamen e di os.
Começa emos po desc e e a es u u ação da análise de con eúdo e ec uada.
Depois da ansc ição dos dados pa a compu ado , di idimos as á ias opiniões e
i ências assim egis adas em emas, ca ego ias e subca ego ias, con o me se pode á
obse a no Anexo
2.
Após á ias lei u as e con ac os com o ma e ial assim es u u ado,
ob i emos uma p imei a ideia das egula idades e excepções signi ica i as pa a cada uma
delas.
Ab imos caminho pa a a segunda ase da análise de con eúdo que se ia a
ope acionalização do disposi i o de Foucaul an e io men e explanado. O modo como
p ocedemos a essa ope acionalização pode á se consul ado no Anexo 5.
Assim, cada subca ego ia cons uída na p imei a ase da análise se á decompos a
nas dimensões on ológica, deon ológica, ascé ica e eleológica. De seguida, a emos a
ap esen ação dos esul ados assim es u u ados. De igual o ma p ocede emos nos casos
em que essas subca ego ias se ag upem em ca ego ias mais as as e em emas.
A ca ego ia An eceden es pessoais co esponde a uma excepção na aplicação da
g elha de Foucaul . Dada a sua na u eza mais gene alis a, op ámos po apenas p ocede a
um le an amen o sucin o das suas ca ac e ís icas sem aplica a segunda ase da análise de
con eúdo.
Como es amos já na ase de ap esen ação de esul ados, uma ase p á ica po
excelência, as e e ências eó icas es ão eduzidas ao mínimo, quando não mesmo
excluídas po comple o. Espe amos, des e modo, se mais di ec os e cla os na explanação
dos dados ob idos na nossa in es igação. Adiamos pa a um momen o pos e io do nosso
ex o uma isão in eg a i a desses dados.
- An eceden es pessoais -
Os an eceden es pessoais, em conjun o com um b e e le an amen o quan i a i o de
ce as a iá eis dos en e is ados (consul e-se Anexo 4) se em pa a a ca ac e ização da
amos a des e es udo.
9 0

A ca ego ia dos an eceden es pessoais encon a-se o çosamen e sub ep esen ada -
eco damos que o mé odo elei o oi o das his ó ias de ida emá icas, logo o que é
egis ado a es e p opósi o é um con eúdo subsidiá io nes e nosso es udo. Ainda assim
podemos o nece algumas imp essões quali a i as sob e es e pe íodo da exis ência dos
nossos en e is ados.
An es mais nada egis amos alguns hábi os alcoólicos, algumas ezes pa ilhados
com a amília. O meio de p o eniência dos sujei os ambém pode á explica a aquisição de
ce as compe ências, mais a de ú eis na ajec ó ia de consumido de d ogas: com e ei o,
a ida nos bai os deg adados da cidade amilia iza os nossos en e is ados com uma
sé ie de possibilidades c iminais ou quasi-c iminais. Um dos sujei os que pa icipa am no
es udo ala-nos p ecisamen e nisso:
"se c iado
na
ua,
não
é,
uma pessoa ap ende
semp e
nada
que
seja
legal".
As pe das p ecoces e as sepa ações dos pais ambém são esponsá eis po
pe íodos de ins abilidade, a é inadap ação numa ase de desen ol imen o p ecoce das
ajec ó ias de ida.
Os hábi os alcoólicos que nunca são admi idos como alcoolismo ambém se
egis a am com alguma equência num pe íodo an e io à en ada nas d ogas.
No caso de uma en e is ada, um pe íodo is o como de au o-conhecimen o
an ecede o seu pe cu so de consumido a. Essa e apa de ida p endeu-se ambém com
alguma di iculdade de adap ação às no mas da sociedade.
Rui Tinoco (RT)- an es das d ogas le es acon eceu alguma coisa que a enha
ma cado,
a sua ida?
En e is ado (E)- Hou e uma ase que me ma cou um bocado e me
ez.
despe a da
ealidade das coisas, o que me chocou um bocado. Ti e pe íodos de mui a dep essão,
mui a e ol a in e io mas depois acabou po passa
não
oi isso que me le ou a ... (às
d ogas)
Apesa de odos es es an eceden es, a que se somam a ca ac e ização quan i a i a do
Anexo 4, odos os en e is ados sublinham que nenhum deles e e que e com a sua
en ada nas d ogas. Obse amos uma des alo ização da impo ância dos an eceden es
pessoais na explicação do início, manu enção e desen ol imen o dos consumos.
9 1
Capí ulo I - Disposi i os
Es e ema ag upa as ca ego ias de Disposi i os conc e os e os No ma i o acionais.
Pa a os p imei os, conside ámos a Família; a Escola (47); o T abalho e os G upos
in o mais; pa a os segundos conside ámos a es e a ju ídico-penal e a es e a médico-
sani á ia. In e essa-nos, pois, o es udo dos ipos de con ac os que os di e sos
en e is ados es abelece am com as a iadas es e as no ma i as da i ência social.
Como nos ensina Fe nandes (1990), disposi i o é um concei o que "apa ece assim
como um mecanismo que a icula uma he e ogeneidade de p á icas discu si as e não
discu si as" (op ci , p.10) podendo assumi di e sos g aus de es u u ação e
complexidade desde os mais in o mais aos que de i am de uma a qui ec u a do pode já
mais ma e ializada X48)
1 - Disposi i os conc e os
Conside ámos aqui os disposi i os mais quo idianos, is o é, as supe ícies
no ma i as com as quais os en e is ados êm que lida con inuamen e. Quais as
modi icações, ap endizagens, con li os que se põem aos consumido es quando em
con ac o com es e as no malizado as como a amília, a escola, o abalho e os g upos
in o mais?
1.1 - Família
Conside amos aqui a amília de o igem e a p óp ia amília do en e is ado caso es a
es eja cons i uída. Englobamos aqui ambém as elações a ec i as mais signi ica i as
e ocadas nas en e is as.
1.1.1 - Dimensões on ológicas
Ausen es nes a subca ego ia es ão as dimensões des e ipo. A amília é is a pelos
en e is ados de um modo deon ológico - eg as a cump i , p essões e c.. - ou como um
obs áculo que implica de alguma o ma um exe cício ascé ico dos consumos.
92
1.1.2 - Dimensões deon ológicas
As dimensões deon ológicas da subca ego ia Família di idem-se no que se pode
chama eg as de uncionamen o amilia de âmbi o ge al e eacções po pa e da amília
ao descob i um seu memb o como oxicodependen e.
As p imei as não êm an o in e esse, exemplos: mãe gua da dinhei o; pais cas igam
se e amen e; pais con ola am o o denado; exis ência de ou os memb os na amília com
p oblemas de consumos como i mãos cunhados e pais. Vamos, en ão, concen a -nos
com mais de alhe na eacção da amília à descobe a do es a u o de oxicodependen e nos
en e is ados. An es de mais nada ealçamos o demo ado empo que le a a econhece -se
um ilho, um ma ido como consumido . Po ezes deco em anos a é que essa e elação
se consume. Tal ac o em o igem no desconhecimen o dos "sinais da d oga", po assim
dize , nos seus aspec os compo amen ais mas ambém ísicos (p. e. con acção das
pupilas na he oína; e melho dos olhos no haxixe), sendo que a ap endizagem, po pa e
dos pais, dos sinais de consumo se ai azendo de um modo p og essi o, ha endo
alguns desencon os:
RT- quando éque os pais
descob i am
a d oga?
E- há
dois anos
a ás,
que
dize começa am
a
descon ia nessa al u a
RT- como é
que
descon ia am?
E-
po que começa am a no a que eu chega a com os olhos e melhos a casa que
embo a na al u a que eles começa am a descon ia eu inha deixado a he oína
p ecisamen e, inha conseguido deixa a he oína, ui a esse psiquia a es i e mais seis
meses sem consumi e inha deixado a he oína e comecei a uma haxixe ou a ez, e o
haxixe deixa os olhos e melhos dá mais bandei a no a-se mais ica-se com os olhos
caiados E oi nessa al u a que os meus pais começa am a descon ia que eu uma a
d oga. Chega a com os olhos e melhos a casa.
E como é que se dá essa descobe a? Os indícios de que algo es á mal ão-se
acumulando: po compo amen os, dinhei os que desapa ecem de casa, de con as
pessoais ou pelos di os da izinhança que ão a olumando as suspei as ( eco de-se que
uma pa e signi ica i a da amos a i e em bai os sociais) como de seguida se ilus a:
E-... mas o meu cunhado abalha a na Caixa Ge al de
Depósi os,
começou a e
le an amen os de qua en a con os
hoje,
amanhã ou os
qua en a,
oi ala com a minha
mãe mas a minha mãe pensou que e am
mulhe es,
a minha
namo ada
que na al u a
es a a
a abalha em
Lisboa,
em
Caxias,
lá
pe o de
Cascais quando
já e a
aspi an e e
já inha
mais libe dade pa a sai , já não azia ginás ica, eles i am que e a isso que i e uma
semana in ei a
que não con ac ei ninguém, ainda inha algum dinhei o. Uma ez i e de
ica lá um im de semana e só inha
le ado
pa a uma semana e i lá um p e o que inha
ca a de consumido e le ou-me ao Casal Ven oso
93
O momen o da descobe a pode se ambém um momen o em que a amília começa
a pe de o con ole da si uação:
RT- e depois deles sabe em?
E- deles sabe em eles não deixa am dinhei o à disposição. A é me
diziam
pa a eu
me ecupe a que deixasse essa d oga no amen e ou a ez. Eu peguei insis i que não
que ia ão cedo, anda a bem no ício ia semp e
abalha ,
e eles não disse am nada. A
minha mãe chegou a
um
pon o que me da a o
dinhei o
pa a o ício, da a-me
dia iamen e
dinhei o
pa a o ício a é eu pensa em me
ecupe a .
Pa a não anda aí a aze asnei as
com
ninguém,
anda aia
essaca ,
a minha mãe andou assim ês ou qua o anos assim a
da -me dinhei o dia iamen e
Se bem que is o nem semp e acon eça, podemos obse a a si uação opos a em que
a p essão pa a o a amen o é ealmen e o e e o aumen o de con ole po pa e da amília
é um ac o ele an e. Esse aumen o de con ole aduz-se pela edução do dinhei o
disponí el e moni o ização a en a das desin oxicações. Po ém, o p olongamen o dos
a amen os, as ecaídas, podem desmobiliza es as a i udes iniciais:
RT- mas con e-me mais ou menos es es ciclos de pa agem e de
ecai
a eacção da
amília?
E- a eacção da amília, não sei se e a bem cada ez pio , cada ez mais mole da
pa e
deles.
A minha mãe e o
meu
pai iam pe dendo a o ça, a
con iança,
da p imei a ez
oi assim aquele choque b u al mas cheios de ene gia pa a ajuda e da segunda e da
e cei a ez oi pio ando oi pio ando já
não
oi aquele choque ão g ande, mas que se
calha
ainda so e am
mais, mas i e am menos ene gia pa a ajuda e cada ez menos
con iança.
A um dos en e is ados chegou a se pos a ques ão:
"ou
cu as- e e
ens
pa a casa
ou
ais
con inua a
a ica mas
ais pa a
ou o
lado".
O sujei o em ques ão escolheu es a
úl ima al e na i a, a amília man e e-se i me, inha já adqui ido bas an es conhecimen os
sob e a oxicodependência.
1.1.3 - Dimensões ascé icas
A dimensão ascé ica é a con inuação na u al do que dissemos no i em an e io , só
que mais cen ada no aze , nos compo amen os dos en e is ados. A ascese, na
subca ego ia Família, cen a-se sob e udo nas a i udes e nos compo amen os que os
sujei os êm an es do momen o do econhecimen o do seu es a u o de oxicodependen e -
esse pe íodo, como imos, pode se de á ios anos. Acon ece, nomeadamen e, uma
con enção nos compo amen os e uma ges ão das omas de modo a que ninguém se
ape ceba. É equen e se a pessoa mais p óxima, mui as ezes a mulhe , a p imei a a
94
O abalho é is o po mui os en e is ados como uma ob igação, uma dimensão
on ológica da ida. Nes es casos há uma con enção da ac i idade de consumos que é
p emen e em unção da conse ação da p o issão, mas nem semp e é assim... No caso do
haxixe há uma con enção inicial, os consumos são eduzidos à al u a da noi e. Não se ai
abalha sob o e ei o, mas à medida que os en e is ados se ão amilia izando com a
subs ância e se adap am ao e ei o, isso deixa de passa -se dessa manei a:
E- coisa assim eu umo o haxixe e ou abalha e ando naquela de abalha
abalho não abalha à bu o mas abalha ce inho
de aga inho
mas ce inho que o
abalho ende mais enquan o
du a
pelo menos aquelas ês, qua o ho as eu es ou ali
dis aído
ce inho pumba pumba
RT- abalha a melho ?
E-sim não é abalha melho mas abalho desp eocupado mui o mais à on ade
não é com
mui a mais a enção a i a-me
mais a
memó ia
pa a
aquilo
que
es ou
a aze
Com a he oína as coisas assumem ou a g a idade. O sínd ome de p i ação é já um
obs áculo de mon a que exige um maio es o ço aos sujei os. Mui os deles, po longos
pe íodos, ão aguen ando a essaca, abalhando com es o ço. Mas isso nem semp e
acon ece.
E- sim, mas na al u a já não se pensa nisso na al u a pensa-se que já não se
consegue i
abalha .
P on o eu aco do digo assim: eu hoje não ou abalha não me
ape ece i abalha es ou mal dispos o es ou cha eado es ou is o es ou aquilo. A é ao
pon o em que aco da e diz:
ei,
eu hoje es ou mesmo a
essaca ,
não enho dinhei o aonde
é
que
eu ou
busca a
he oína pa a i
abalha ?
Não
a anjo
dinhei o,
não
ou
abalha .
Es e ipo de exemplos ilus a casos em que os con eúdos on ológicos são c uzados
com aspec os ascé icos. A p i ação põe aos indi íduos ques ões p agmá icas do seu dia a
dia que en am em con ac o di ec o com o sabe aze , a ascese indi idual. Aqui emos
casos em que indi íduos ge em a sua p i ação de modo a man e em a sua p o issão e
ou os que não conseguem aze essa conciliação. Es a coexis ência depende do modo
como os sujei os enca am a p i ação e o abalho mas, equen emen e es á condicionada
po ac o es ex e nos como os aciden es ou qualque ou o mo i o que in e ompa a
ac i idade p o issional: no malmen e nes es pe íodos de pa agem obse a-se escaladas
nos consumos que di icul am depois o eg esso à ocupação.
Pode emos dize ambém que o e ei o da he oína, especialmen e nas ases iniciais,
pode se is o como uma ajuda à ac i idade p o issional.
101

1.3.2 - Dimensões deon ológicas
Mui os dos nossos en e is ados, nomeadamen e os que i em em bai os,
possuem uma his ó ia p o issional de incompa ibilidades com as en idades pa onais que
no malmen e são esol idas de o ma pouco asse i a - con li os, ísicos a é, com o
pa ão; abandono do emp ego de o ma impulsi a; em caso de aciden e, mui os
en e is ados são ludib iados e não ecebem indemnização.
Os pe íodos de ins abilidade p o issional são ambém equen es, especialmen e
após a pe da de uma ocupação man ida há algum empo. Gene icamen e, pode emos
adian a que após a pe da de uma ocupação es á el, pe da essa no malmen e o iginada
di ec a ou indi ec amen e pela d oga, mui os en e is ados iniciam um pe íodo de
ocupações ins á eis, in e ompidas po incu sões em ac i idades ilíci as no mundo das
d ogas. Nos casos em que a ca ei a des ian e e olui, é o p incípio das ac i idades de
á ico, oubo e mesmo p oxene ismo que o necem um endimen o segu o que es á na
o igem do abandono mais ou menos de ini i o da ac i idade p o issional p op iamen e
di a.
Em elação ao p óp io ambien e de abalho, a ideia que a descobe a do es a u o de
oxicodependen e possa le a ao despedimen o nem semp e se obse a. Nos abalhos
indi e enciados, no malmen e a cons ução ci il em que o ambien e de abalho é mais ou
menos amilia , podemos obse a di e sos pa ões a en a em ajuda os consumido es a
a a -se e a é azendo es o ços pa a moni o iza em os consumos.
E- depois o pa ão começou a pe cebe mas ele comp eendia. Naquele empo já
começou
a ha e mais um bocadinho de in o mação e ainda bem que oi logo o início o
pa ão passado um ano ou quê que a gen e começou as coisas e am di e en es ele como
es a a connosco
odos
os dias ele conhecia-nos bem a gen e mudou de um momen o pa a
o ou o. De dia pa a dia pedíamos eu pedia hoje amanhã e a o meu colega, depois e a
ou a
ez.
o meu colega e e a assim
"Al o
is o não anda bem", ele ambém não e a o á io
pa a não pe cebe e ele alou connosco e a gen e con ou-lhe: "Sem isso a gen e não
consegue abalha e al" e ele:
"de
manhã às se e e meia na minha casa", que e a pa a
busca um con o cada um, que e a pa a i mos comp a , pa a consegui mos abalha .
Po que se ele nos desse à noi e ele da a-nos um con o mas se ele nos desse pa a
comp a mos
de manhã a gen e
consumia
à noi e e
depois
de amanhã já
inha
de da ou o.
E ele decidiu que ica a mais
segu o
na mão dele.
En e colegas de p o issão ambém podem ge a -se solida iedades e coni ências
acili ado as dos consumos. Es e ipo de con i ências pací icas não é uni o me em odos
os casos. A descon iança, a mudança na elação p o issional pode le a a si uações de
102
up u a e despedimen o, que o despedimen o clássico, po inicia i a da en idade pa onal,
que po pa e do en e is ado:
RT- oi ocê que se despediu
E- ui eu que me despedi. Cheguei lá pa a abalha e am qua o pa ões e eles
gos a am de mim e depois ão sabe daquilo ica am naquela eles gos a am bas an e de
mim,
eles diziam que inha de lhes chama pad inho e ica am assim, e semp e que
passa am po mim já não e a aquilo que e a e eu
es a a
a
abalha
e
sabia
que eles
ago a
iam anda semp e com o pé
a ás,
peguei na
mochila
ui aos cabides i ei a oupa oda,
deixei lá o meu a o as bo as que eles da am e im embo a, cheguei à bei a dele e disse:
'Senho
Manuel,
eu não me sin o
bem,
ou-me embo a'
O pe íodo de "igno ância" po pa e dos pa ões ende a eduzi -se, pois mui os
deles adqui i am já compe ências de econhecimen o dos es ados ganzado ou ped ado. O
despedimen o do consumido ou a con i ência median e pagamen os diá ios ende a se
es abelecida mais cedo, como nos diz um en e is ado: "... an es não
iam
pela
ca a ago a
já olham pa a uma pessoa já êem pela
ca a...
"
1.1.3 - Dimensões ascé icas
As dimensões ascé icas egis adas na subca ego ia T abalho são, mui as ezes,
desdob amen os em p á icas indi iduais das no mas ou egula idades deon ológicas a ás
ap esen adas.
Obse amos um es o ço inicial na sepa ação en e abalho e d ogas. Esse es o ço
egis a-se mesmo no que diz espei o às subs âncias inge idas:
RT- o Fe nando quando não gos a a dos d un os ia
mais
pa a os speeds
E- ambém es i e com d un os
RT- isso p ejudica a a sua ida de abalho
E- não po an o eu
no malmen e sepa a a
as coisas o abalho e a o
abalho
e o a
do abalho é que no malmen e me me ia nisso mui o poucas
ez.es
ui abalha sob o
e ei o do haxixe en ão d un os éque não ui mesmo
RT- e speeds
E-
speeds cheguei
a
i às ezes
eu inha uma
noi ada
e ia
abalha no
dia seguin e
RT- p ejudica a-o
E-
p ejudica não p ejudica a julgo eu não
inha e ei o nenhum
no meu abalho
RT- bene icia a
E- eu às ezes julgo que sim eu
no malmen e
azia um se iço mais pe ei o não é
inha mais a enção às coisas p on o na minha opinião bene icia a mas no meu pa ão
p ejudica a
po que eu pe dia mais empo e a sei lá mais miudinho, não
é,
e a
mais isso
O haxixe ambém é usado com uma cla a delimi ação empo al dos con ex os lúdico
e p o issional. Com a he oina as á eas começa am a se mais di íceis de sepa a , como já
obse ámos an e io men e. A p i ação exige um equilíb io di ícil e semp e ins á el. A
103
si uação acaba po se de inida pela nega i a: se i e o p odu o não há p oblemas no
abalho.
Aos poucos, udo começa a gi a em o nos dos consumos: gas a-se à noi e o que
se ganhou du an e o dia. Vá ios en e is ados começa am a ecebe ao dia,
consubs anciando uma si uação p ecá ia que colide com a p óp ia amília (a mãe ou a
mulhe espe am o o denado in ei o ao im do mês). Também egis ámos si uações de
coexis ência en e a ac i idade p o issional e os negócios de d oga em pa ime.
RT-e
conseguia abalha
E-aí
abalha a
bem não inha do es não inha essaca es a a semp e bem
inha
pó
no bolso pa a
quando que ia
RT-e depois em que al u a do dia azia os negócios
E-à
noi e
à noi e e
endia àqueles
que
abalha am comigo endia
Es a si uação pode le a os indi íduos a abandona o emp ego po "impossibilidade
ísica". Esse abandono pode se planeado, com a en ada subsequen e no á ico, u o ou
p.
e. p oxene ismo; ou pode se casual, u o de um impulso epen ino que po en u a
pode e bons esul ados em e mos de diminuição de consumos.
RT- is o
de
pe de o emp ego que e ei o e e nos consumos?
E- al a de
dinhei o
RT- e isso o que é que modi icou?
E- modi icou, a
ida
oi andando, já não consumia
an o,
oi o que
acon eceu
oi
isso RT- diminuiu mui os os consumos?
E- sim. Não ha ia an o dinhei o consumia menos.
1.3.4 - Dimensões eleológicas
As dimensões eleológicas encon am-se pouco nes a subca ego ia e, quando são
egis adas, es ão semp e em con ac o ín imo com a e en e ascé ica A endendo a que a
dimensão T abalho se encon a equen emen e numa ase an e io a um en ol imen o
mais sé io com a ca ei a de consumido , pensamos que es e sublinhado é especialmen e
signi ica i o:
RT- oi em que
al u a?
No en a,
na al u a em que decidiu sai do
abalho
E- sim is o e á sido em oi en a e no e, oi en a e oi o quando saí do Sal ado
Cae ano
andei a abalha mais uns empos não inha hipó eses anda a semp e a discu i
com os pa ões ou chega a mui o a de ou al a a ou es a a doen e p on o não inha
hipó ese não
cump ia
os
ho á ios
e en ão não
alia
a pena
con inua
a
abalha pa a
quê?
anda a semp e
a
oca
de
abalho
104
A in e ogação de si mesmo az-se no con ex o de uma c escen e incompa ibilidade
en e a ida dos consumos e a ida p o issional. As ac i idades c iminais e quasi-
c iminais se iam uma solução mais a ac i a a cu o p azo, como e emos.
Em elação aos indi íduos mais no ma i os, classi icámos a sua p eocupação em
man e o abalho em ní eis mais baixos. Não encon ámos uma e lexão eleológica pa a
as ac i idades p o issionais dos nossos en e is ados mas on ológica (p. e. "a ida é ei a
pa a abalha "). Po en u a não egis amos posições eleológicas aqui po que os
indi íduos mais no ma i os não es ão su icien emen e amilia izados com as ac i idades
des ian es. Po ou o lado, a indi e enciação p o issional pa en e na amos a p es a-se
pouco a es e ipo de e lexões.
1.3.5 - Ap eciação global
Sublinhamos os seguin es esul ados:
- a noção de que o haxixe e a he oína podem en abiliza as ocupações dos nossos
en e is ados e que não são consumidas com o objec i o de alienação e descon ole a
médio e longo p azos;
- que a ins alação da dependência exige aos indi íduos uma ges ão, po ezes
dolo osa, de o ma a consegui em compa ibiliza consumos e p o issão;
- que essa ges ão po ezes e olui pa a ocupações c iminais e quasi-c iminais,
coexis indo com as ac i idades p o issionais mas, em g ande pa e dos casos,
in e ompendo-as;
- inalmen e, a si uação de e ique agem social ambém se egis a nes a subca ego ia.
O sabe -se que o emp egado é oxicodependen e pode ge a si uações de despedimen o e
de al a de con iança ou, pelo con á io, si uações em que os pa ões en am ajuda o
a amen o ou, pelo menos, con i e com a no a si uação começando a paga ao dia e,
nalguns casos, en ando eles p óp ios ge i os consumos dos seus subo dinados. A
si uação é p ecá ia e apidamen e ende pa a a esolução en e as al e na i as do a amen o
ou despedimen o.
105
Aqui, como na subca ego ia Família, a descobe a dos consumos po pa e dos
ou os pode cons i ui -se como um passo decisi o na e olução da ca ei a de consumido
de d ogas.
1.4 - G upos in o mais
Nes a subca ego ia p e endemos es uda o papel que as edes in o mais
desempenham no pe cu so indi idual. Es as edes o ganizam-se segundo uma disjun i a:
as edes des ian es, po assim dize , e as edes no ma i as; ou seja, aquelas com quem o
en e is ado pa ilha a cumplicidade das d ogas e dos consumos e aquelas em que, pelo
con á io, ela é uma coisa es anha.
1.4.1 - Dimensões on ológicas
As dimensões on ológicas não es ão mui o ep esen adas e quando su gem, es ão
associadas a aspec os deon ológicos. Os memb os dos g upos in o mais aqui e e idos
começa am a consumi ao mesmo empo. Tal i ência con ibui pa a o ac o de se c ia em
pe cepções e adas sob e o núme o de oxicodependen es (mui os dos nossos
colabo ado es acham que quase oda a gen e no a consome) isso é acili ado po um dado
on ológico: "...a maio ia
do
pessoal que expe imen a
gos a.
É que aquilo é
bom.
"
As implicações que ce as subs âncias pode ão e na e olução das p óp ias edes
in o mais são p on amen e de ec adas, p o ocando cisões e desencon os:
RT-
po quê,
sepa a am-se?
E- eles anda am odos em g upo, odos jun os, odos os dias, consumíamos
haxixe, depois quando se começou a consumi he oína nós es á amos odos jun os
aquele
inha,
chama a-me ejá não
ia
pa a o sí io que
cos uma a
i ,
depois é
que
ia e
apa ecia
lá.
Os que não consumiam diziam,
"olha
que isso ai sepa a os
amigos.
"
Pela na u eza des a subca ego ia a maio pa e dos dados encaixa-se en e os
aspec os deon ológicos e ascé icos, quando não em combinação en e os dois.
1.4.2 - Dimensões deon ológicas
En e is ados mais idosos, que começa am a sua ca ei a nos anos se en a,
ap esen am uma dimensão de con a-cul u a que se dilui nos consumido es mais ecen es
106

já que nes es são os objec i os mais hedonis as que p edominam, sem ou as cons uções
ideológicas.
RT- como é
que
explica isso de não gos a e depois consumi ?
E- po que acaba a po en a naquela do g upo e depois pensa a que podia se
melho
RT- consumiam odos em conjun o?
E- sim
RT- os ou os ambém es a am
e ol ados
como a Ma ia?
E-
sim,
ha ia um bocado de e ol a con a ou as coisas na
sociedade,
a hipoc isia,
um bocado de educação de aze em a cabeça às pessoas sem mui as opções de ida...
Num caso mais ecen e, após se e "aga ado" à he oína, essas cons uções
ideológicas es ão ausen es:
RT-o que é
que
acon eceu com o g upo de amigos do haxixe
E-é
o mesmo só me sepa ei do ambien e o g upo pa ou mesmo, o g upo que a
gen e inha que e a aqueles ês ou qua o que uma am haxe, acabámos odos po nos
me e mos na he oína e o g upo con inua na mesma o mesmo po que oi udo pa a o
mesmo caminho oi deixa acompanha ce as companhias que nós ínhamos aqui do
Ma quês po
isso
e am os amigos que a gen e
encon a a
no ca é amigos da ua, o nosso
g upo e a
aqueles ês
que conheciam um depois mais ou o passa a lá um colega nosso
qualque
um que a gen e conhecesse con i íamos assim mudei oi de sí io de ambien e,
inha um
ambien e
que eu
acha a
que e a po ei o que e a bom
De onde podemos e i a mais algumas ilações: o desen ol imen o da ca ei a de
consumido implica uma selecção de amigos, uma associação a uma subcul u a especial.
Não que is o dize que os laços com o meio no ma i o se pe cam, mas há
indubi a elmen e uma dis anciação. A associação com ou os consumido es a o ece uma
ap endizagem de compe ências ú eis a quem consome mas ambém o nece pis as sob e
modos de pa agem e enco ajamen os po ezes ambíguos:
E- os conselhos que os oxicodependen es dão uns aos ou os sabe quais são? A
ase é semp e a mesma:
"es ou
cheio
dis o,
que o la ga
is o,
que o la ga
is o,
is o não é
ida
pa a
mim".
São es as ases, mas é di ícil oma a
decisão,
há quem a quei a oma
mesmo e há
quem
não a quei a
oma .
Ou
po que es á
bem,
po que es á a
le a
o seu dia a
dia mais ou menos que é o caso de um que eu es ou
a
ala , es ou a pensa num colega
meu que quise am-lhe da me adona e udo e ele só não
compa eceu
pa a i busca a
me adona, uma cunha. Ele anda a a es aciona ca os e uma das senho as a quem ele
es aciona mui as ezes em uma sob inha na me adona e acho que lhe a anja a uma
cunha:
"Vais
lá e só ens que aze os exames e não sei quê e começas logo a oma
me adona, ens de i é
segunda- ei a.
E ele não
apa eceu,
não
apa eceu
po quê? Po que
ele deixa-se anda po que ele anda ali odos os dias e sabe que odos os dias ganha,
aquele dinhei inho é
ce o,
não é
semp e
o mesmo mas é
na
média mais ou menos
O con ex o é o de uma in e ajuda mais ins umen al (i. e. associação pa a comp a ou
pa a ac i idades c iminais) do que an e io men e. Mui os en e is ados nos dizem que
an es ha ia mais solieda iedade na pa ilha do p óp io p odu o do que a que se egis a
107
ago a. O g upo in o mal desempenha um impo an e papel nas ases de expe imen ação e
ap endizagem do uso de di e sas subs âncias - que ao ní el didác ico p op iamen e di o,
que no au o-con ole dos seus memb os (p. e. "não anda a o g upo odo o a de si,
ha ia
semp e
um a inado que
en a a
compo as coisas").
Em elação ao meio no ma i o, especialmen e nos casos dos bai os sociais, a
expe iência de ejeição deixou de se sen i com an a in ensidade em a o de um
equilíb io de algum modo ins á el.
E- i am que no undo nós não azíamos mal a ninguém não é nós não nos
me íamos com ninguém as apa igas anda am ali não e am
mal a adas
podiam es a
pe ei amen e à nossa ol a e es a am mui as ezes apa igas connosco que nem seque
uma am e nunca e am mal a adas nem nada assim e
essas
pessoas i am depois mais
a de quando es á amos na he oína con inuámos a se os mesmos não é con inuámos a
se
espei ados
RT- isso oi com oda a gen e do g upo
E- não, não acon eceu com odos não somos odos iguais mas uma g ande maio ia
deles acon eceu isso não é mui os deles con inua am a se bem is os na izinhança
inclusi e izinhos que de am gua ida a alguns amigos meus independen emen e deles...
eles consomem não é
1.4.3 - Dimensões ascé icas
Mui as das ap endizagens ascé icas dão-se em con ex os po nós classi icados como
deon ológicos.
RT-es á-me semp e a dize que mui as coisas é
semp e
com os amigos que ap ende
não é? os seus amigos ala am semp e de d ogas?
E-naquela al u a acompanhá amo-nos odos e es a am odos a i pelo mesmo
caminho não é e en ão es á amos odos a ap ende inha que ab i o olho po que nes a
ida não podemos se nem mui o espe os nem mui o o á ios emos é que não se o á ios
e
en ão
aí é
que
a
gen e começa
a
ab i
os olhos
A en eajuda in o mal passa ambém po uma passagem céle e de in o mação
ela i a aos locais de comp a, qualidade do p odu o, dados sob e a polícia, en e ou os.
Fa o ece-se o conhecimen o cada ez mais ape eiçoado do mundo da d oga: "... ui
assim conhecendo no os sí ios, ui semp e conhecendo no os
sí ios...
"
Os g upos de consumido es azem p essão pa a aumen o dos consumos semp e
que alguém enha mais dinhei o ou um ca o. Essa p essão nasce da necessidade de
associações que pe mi am um mais ácil acesso ao p odu o. Nalguns casos es e é o
con ex o pa a uma espécie de desânimo ap endido, como um en e is ado nos e e e que
lhe dizem:
" ais a a - e
pa a quê? daqui a uns meses
ol as- e
a
me e ...
"
108
A si uação e á mesmo de, num p ocesso de ecupe ação, se de inida ao con á io:
se an es os en e is ados selecciona am os amigos consumido es, ago a, na ecupe ação,
e ão ou e iam de aze a escolha in e sa:
E-... não e a do abalho e a o ambien e de lá da bei a, mais pesado, onde eu
con i ia mui o. Andei mui o empo a e i a que umasse, mas depois não consegui.
Recaí,
ecomecei a uma . O po o com quem a gen e con i e, isso é que é o mais
in e essan e, depende das pessoas com quem a gen e con i e , pode uma pessoa uma
uma ez e ol a a uma , ou pode uma duas ezes e não ol a
a
uma . Mas é mui o
a o
uma pessoa
do meu
bai o
não que e
ol a
a uma mais.
A es e a ascé ica conduz ao jogo en e os g upos in o ma i os e des ian es. Po
ezes,
ce os ínculos no ma i os man êm-se po in e esses ins umen ais (p. e. man e
con ac o com colegas de abalho ambém consumido es). Nou os casos, a a i mação da
p á ica de si az-se em up u a com ce as p essões o iundas da ede in o mal dos
en e is ados (p. e. " ambém quis consumi mas eles da am conselhos pa a que eu não
consumisse, não quis sabe ").
As p essões, que da ede no ma i a que da p óp ia ede de consumido es, azem
com que alguns dos en e is ados op em po soluções mais adicais. Essas decisões
aduzem-se na p á ica po um ce o isolamen o que do meio em si que na sua ida de
oxicodependen e (p. e.
"ando
semp e sozinho").
Es e dois ipos de escolhas ilus am um isolamen o comum num pe íodo mais
a ançado da ajec ó ia dos consumido es, e is o especialmen e nos casos em que depois
se obse a o início de p ocessos de e i ada ou de a amen o. Tudo se passa como se no
início se obse asse uma associação a g upos des ian es, com aquisição de compe ências
básicas pa a a ida de consumido e, depois dessa ase de ap endizagem e o a oluma de
p oblemas, comece a exis i uma ce a dis anciação.
1.4.4 - Dimensões eleológicas
As p oposições eleológicas ambém não abundam no que diz espei o a es a
subca ego ia. Mesmo os exemplos que aqui co ámos encon am-se, á ias ezes, em
con ac o com a e en e ascé ica.
RT- e lá na
zona
ambém ha ia a mesma c í ica po pa e das pessoas mais elhas
E- ai
isso
oi semp e po an o desde que eu me eco de não é nós é amos semp e
c i icados
ou e a po causa do cabelo ou
naquela
ase do haxixe nós usá amos o cabelo
109
comp ido eu acho que oi isso udo que ez com que a gen e
en asse
naquela onda não é
é amos semp e c i icados
en ão
chegou
a uma al u a em que a gen e an o mais c i icados
ôssemos mais sa is ei os nos sen íamos
No desen ola da his ó ia de ida de consumido es, aquando de ce as desilusões,
e ocessos e mesmo nos p imei os esboços de pa agem, a dimensão eleológica é
a lo ada. A si uação é mui as ezes exp essa em e mos de desencan o em elação aos
meios de oxicodependen es. Uma sé ie de acon ecimen os desag adá eis, de aições que
acabam po le a mui os indi íduos a
"co a
com os amigos". Não que is o dize que
esse a as amen o signi ique uma "cu a" ou mesmo uma edução dos consumos. É comum
casos em que o consumido ande sozinho, azendo as comp as e os consumos isolado,
e i ando ao máximo qualque associação.
O a as amen o é ambém uma c ise social: as edes in o mais o am desen ol idas
no sen ido de acili a consumos e, no momen o de deixá-las, um p oblema de supo e
social epe idamen e se le an a.
1.4.5 - Ap eciação global
Sem menosp eza uma ce a isão on ológica das d ogas (p. e.
"quem
expe imen a
gos a"),
exis em ce os aspec os de adap ação aos e ei os que êm implicações na elação
que os indi íduos es abelecem com os g upos que in eg am. Em ce os casos egis ámos
mo imen os de e i amen o dos g upos no ma i os (sen imen os de e gonha, alguma
in e io idade) e ambém nos g upos des ian es (p. e. não deixa injec a em-se no ca o de
ce o en e is ado).
Na deon ologia iden i icámos as eacções puni i as da sociedade no ma i a e a
cons i uição de edes in o mais des ian es. Fizemos um le an amen o de uma
selec i idade de amizades de oxicodependen es à medida que se desen ola o pe cu so de
consumido de mui os dos nossos en e is ados.
As associações op imizam a e icácia dos con ac os necessá ios à p ossecução da
ida de consumido es. Mais a de, algumas in e ogações eleológicas podem inicia
momen os de a as amen o dessas edes.
1 10
RT- como é que o am os consumos em
Cus óias
pa ou consumia menos consumia
mais E- não. a anjei logo um esquema conheci lá um sujei o e a um dos que
chamá amos Ba ões e a um dos g andes da d oga e e a mui o mulhe engo e en ão
gos a a de o e ece às
mulhe es
poemas lo es e al e eu
esc e ia
poemas pa a a mulhe
dele e
ca as
e al
e enquan o es i e
na cadeia não me al ou
consumo
não é
RT-
consumia
a pa i
desse
esquema di e en e
E-
consumia
mas não me injec a a
RT- en ão po quê pa ou de se
injec a
E- pa ei na en ada da cadeia hou e aquele choque não é en a a a consumi e
depois i e depa a uma semana duas semanas mais ou menos e a
aquela al u a
à
base
de
pas ilhas na
en e ma ia
a so o uma espécie de a amen o só que não deu g ande sucesso
quando me passa am pa a o pa ilhão eu
comecei
logo a .... enquan o não i e o esquema
comecei logo a inha um io de ou o
uma
pulsei a inha um
elógio
que e a
bas an e
ca o
e i e logo algum
dinhei o
pa a e algum consumo depois oi logo esse esquema com um
moço que
es e e
p eso comigo e que conhecia o senho que eu não
conhecia
e quando sai
da
en e ma ia ele ap esen ou-me
ao senho
RT- nunca injec ou mas
inha
possibilidades disso
E- inha
possibilidades
ha ia máquinas e
d oga
inha eu
RT-
en ão
po que é
que
não injec ou
E-
p on os
inha
d oga su icien e pa a não p ecisa de
injec a naquela al u a
em que
es i e
na en e ma ia p on os so i à b a a mas depois quando cheguei ao pa ilhão já não
inha assim g ande coiso já não necessi a a de injec a o uma oi su icien e pa a me
man e mais ou menos
A adap ação no malmen e é ápida, esul an e de um bom conhecimen o do meio.
Esse conhecimen o é u o de um con ac o pe manen e que mui os en e is ados man êm
com o mundo da d oga e os "esquemas" que u ilizam quo idianamen e, quando em
libe dade, pa a ob e o p odu o.
Um ou o aspec o impo an e é a saída da p isão. Enquan o em alguns casos,
quando exis e um bom enquad amen o amilia essa saída implica uma mudança, pelo
menos empo á ia, das suas ac i idades nou os casos isso não se passa assim. O
es emunho seguin e e e e-se a um consumido com di iculdades de adap ação social
desde quase a nascença e que não consegue aze a sua ida o a dos esquemas c iminais
e quasi-c iminais do mundo da d oga.
E- não pude não i e hipó eses não é ácil sai da
cadeia
e
a anja
logo
abalho
eu
saí da cadeia e não inha abalho não me
a anja am
nada nada ize am pa a que eu
en asse p on os le a uma ida no mal não é
eles
puse am-me cá o a e
desen asca- e
e
eu
desen asquei-me
da
manei a
que
sabia
p on os aquela manei a que me podia da logo
di ec amen e dinhei o
2.1.4 - Dimensões eleológicas
A con on ação que mui os dos nossos en e is ados i em que com os ibunais,
que nos con ac os com a polícia e nas e en uais de enções a que es ão sujei os,
1 17

despe am in e ogações sob e o seu des ino e sob e a o ganização dessas ins i uições.
Cu iosamen e a si uação con á ia não se e i ica, is o é: a indi e ença à polícia, aos
ibunais, egis ados an es do con ac o mais p óximo com essas ins i uições não se aduz
em e lexões eleológicas.
Passemos, po ém, à ap esen ação do ma e ial ecolhido. A in e ogação eleológica
pode sucede -se sem con ac o di ec o com disposi i os ju ídico-penais, mas isso só
acon ece nos casos de e aimen o a ce as ac i idades des ian es e não quando se egis a
a indi e ença necessá ia à p ossecussão de ac i idades como o á ico o oubo.
E- no sí io onde es i e começou a apa ece mui a polícia e eu comecei a ganha
medo,
po que e a a minha
libe dade
que
es a a
em
causa e
decidi pa a
mesmo
(o á ico)
Também é equen e a ecusa ou semi- ecusa, passe a exp essão, da jus iça das
de enções. A e lexão di ige-se à incong uência do sis ema penal e "esquece-se" da
e en e pessoal. De alguma o ma são u ilizações de écnicas de neu alização, a negação
da esponsabilidade, o que ilude um e en ual mal es a o iundo dessas condenações.
RT- o que é
que
a p isão
in luenciou?
Pa ou?
E- não ha ia lá mui a coisa lá den o. Há an a coisa lá den o como cá o a, ou
ainda
mais.
É uma coisa que eu não
en endo,
é uma pessoa ai p eso po
causa
da d oga e
chega lá den o e há mais d oga do que cá o a. Não digo que haja mais, mas que há
d oga
bas a uma pessoa e
dinhei o,
não en endo, se não é uma isi a que le a a d oga
pa a aquela gen e
oda,
a d oga em que se passada po
ou os
meios,
não
sei,
não são as
isi as
que
le am
a
d oga
pa a
sus en a aquela
gen e
oda,
uma
pessoa pede
pa a
se
cu a
e sai de lá pio . Eu
conheço
pessoas que não uma am e saí am de lá a uma .
Nem semp e a ques ão é pos a desse modo, depende ambém dos es abelecimen os
p isionais, como acon ece com es a nossa en e is ada que a é econhece, a pos e io i, o
papel bené ico que as de enções desempenha am na ida dela:
RT- ago a olhando pa a ás, as duas de enções i e am alguma in luência na sua
ida de
consumido a,
ou não?
E- em p incípio boa, po que oi semp e pe íodos de pa agem de consumi e com
aqueles sus os a causa em-me p oblemas pa a pensa um bocado, se ol asse ao mesmo
sis ema de
ida,
inha
acabado
po i pa a lá
den o.
Assim
acabou
po se bom.
Em jei o de conclusão, da emos uma ilus ação sob e o modo como a de enção
pode e e ei os pe u bado es na au o-imagem dos sujei os. O caso egis a-se numa ase
em que a en e is ada ainda não é capaz de econhece -se como oxicodependen e. A
p isão, po á ico, somada à i ência o çada da p i ação enca ega -se-iam de o çá-la a
con on a -se com ealidades que e am negadas há algum empo.
1 18
RT- oi
di ícil? (a
pa agem na p isão)
E- oi
RT-
es a a
a
consumi mui o
e a?
E- oi mui o di ícil passei
mesmo
mal, depois na al u a não ha ia a
assis ência
que
há já oi há mui os anos.
RT- não ha ia aqueles p og amas de
desin oxicação
E-
não ha ia
nada disso
RT- pa ou
assim,
na p isão?
E- a é po que eu não
que ia
dize que
consumia,
ainda
po cima não que ia assumi
isso e ainda oi
pio .
Mas consegui
ul apassa
e como eu não inha
mui as
possibilidades
de consumi , nem inha dinhei o e na al u a e a um bocado di ícil de
a anja ,
mesmo lá
den o. Acabei po deixa mesmo.
RT- o que é que
pensou,
pensou que não ia consumi mais?
E- ao im de algum empo de es a lá,
ao
im de dois anos,
acabei
po
men aliza
que não que ia mais.
2.1.5 - Ap eciação global
A ní el deon ológico a subca eg ia ju ídico-penal demons a que ambém aqui exis e
uma o e in e subjec i idade que engloba i ências e p á icas p on as a se em
ap op iadas pelos di e sos indi íduos, nomeadamen e no que diz espei o à con i ência,
mais ou menos con li uosa com a polícia, e no modo como os en e is ados sabem o que
lhes pode acon ece em e mos judiciais p op iamen e di os.
Esses conhecimen os deon ológicos são p on amen e ac ualizados no dia a dia da
ua: o ac o de engoli o p odu o em caso de p oblemas em o con apon o policial de
aga a o pescoço semp e que se ensaia uma de enção po suspei a de á ico.
Em e mos de incon inência nos consumos, ela aduz-se po uma indi e ença,
an as ezes exp essa em elação a es e ipo de disposi i os. Nes es casos, o ní el
co esponden e em e mos eleológicos não é exp esso.
Pa a e mina , as expe iências de in e upções o çadas da ca ei a de consumido
são pon os de e lexão eleológica do sujei o sob e si mesmo e sob e o sis ema, como
acabámos de e (se bem que is o nem semp e se obse e com odos os en e is ados
de idos).
1 19
2.2 - Disposi i o médico-sani á io
Analisamos, nos disposi i os médico-sani á ios, os ipos de con ac o que os nossos
en e is ados es abelece am, ao longo das suas his ó ias de ida de consumido es, com
di e sas ins i uições de cuidados.
2.2.1 - Dimensões on ológicas
Es a dimensão es á cla amen e eduzida nes a subca ego ia. Os únicos con eúdos
aqui classi icados e e em-se a um caso em que a medicação o necida pelo C.A.T. pa a
desin oxicação
"dápa a
a pessoa em
causa sai de casa
e
ecai ".
Mais uma ez a negação
da esponsabilidade é isí el, com a ibuição de p op iedades condicionan es de
compo amen os às p óp ias subs âncias (é uma éplica de os d un os se i em pa a
ouba , como e emos mais à en e).
Ou o con eúdo que me ece se sublinhado diz espei o a casos de incompa ibilidade
com ce os se iços de saúde. Um nosso en e is ado, com um p oblema gás ico não
esol ido, usa a he oína pa a esol e p o iso iamen e as suas do es (combinação de um
p oblema co po al de ca ac e ís icas on ológicas com uma p á ica de si, ascé ica).
Há algumas explicações e e en es a ecaídas e a pe íodos de abs inência que
endem à on ologia. A on ade de sen i no amen e os e ei os da subs ância, po ezes, é
a ibuída à p óp ia subs ância ou à dinâmica da dependência em si mesma.
2.2.2 - Dimensões deon ológicas
Nes a subca ego ia, a deon ologia dá con a de uma ce a in e subjec i idade e a é de
ce as ep esen ações cons uídas ace ca dos a amen os, ins i uições de cuidado e a é de
a iculações en e se iços de saúde e da jus iça - nomeadamen e o I. R. S. Da mesma
o ma, pode emos aqui ecolhe in o mação sob e os equisi os pa a um a amen o da
bom esul ado e sob e as consequências gené icas das ecaídas.
Uma das e lexões in e essan es sob e o uncionamen o dos se iços ei indica
uma ce a especi icidade no a endimen o de oxicodependen es:
RT- ejá
se
inha
decidido
a
a a an es
E- o a bem eu
inha
decidido
a a
em
1990 mui o
an es
120
RT- quando
começou
na agulha
E- sim já
inha en ado an es
só que oi po in e médio de pessoas só que na al u a
não
ha ia assim
mas
ambém ha ia aquela coisa
de uma pessoa o a se a a ago a ou não
a a uma pessoa em aquele consumo diá io e em de anda a ás dela uma pessoa não
pode
chega
e
es a
um dia in ei o num sí io à espe a que lhe dêem uma
consul a
po que
uma pessoa an es de i lá em que i buscá-la quando a p io i uma di iculdade que as
pessoas
inham
em se
a a e a
a demo a que
ha ia
em
se em a endidos
não é p on o uma
pessoa em que e que isso é no mal mas pa a um oxicodependen e não é po que ou se
em aquele
consumo
ou en ão
ai-se
pa a a
consul a ca egados
dela e depois e de i ao
qua o de
banho
pa a pode em consumi e ica em ali se não não icam depois em 90
en ei
en a pa a a
me adona
Uma cons an e nos dados ecolhidos é o ecu so a médicos p i ados, no caso dos
en e is ados com mais posses, ou a ida a se iços de u gência quando se desencadeia
uma on ade de a amen o - mui as ezes o iginada po ac o es ex e nos ao p óp io
indi íduo. A ida a um cen o de a endimen o especializado só acon ece após inúme os
acassos an e io es.
Em en e is ados mais elhos, ecolhemos es emunhos que eplica am uma
ep esen ação das ins i uições de cuidado al como o am es udadas po Fe nandes &
Ag a (1991): 'C.A.T. Boa is a dá me adona; C.A.T. Cedo ei a dá con e sa'. A
ep esen ação nega i a da me adona ainda exis e e, po ezes, ainda é associada àquela
ins i uição:
E-que ele disse ó pá ai pa a o
C.A.T.
pa a a me adona mas eu já
inha
ou ido ala
na
me adona
que a me adona que é
um ício
pio que é uma d oga que subs i ui a ou a e
eu disse não pa a que é
que
eu não ou oma a
ou a d oga
só po
causa
de
se d oga?
RT- oi logo no início?
E-logo no início
RT-mas
es a a-se
a
sen i
aga ado pa a
ele aconselhá-lo
i pa a o CAT?
E- ais lá azes um a amen o de in e e um dias não sei quê
Uma ou a ideia bas an e incada é a da desin oxicação domiciliá ia se bas an e
di ícil em elação ao in e namen o, po que em casa pode-se sai quando se quise . O
in e namen o o nece o ensejo pa a a sepa ação do meio e implica um sen imen o de maio
segu ança.
De um modo ge al, egis amos a ideia de que um equisi o indispensá el pa a o
bom e mo do a amen o é a mo i ação do p óp io implicado:
RT- como é que são os a amen os no
C.A.T.?
E- oi um bocado uma ábua de sal ação, e de e alguém com quem ala das
coisas, e sei que ali posso
encon a
ajuda se quise , mas se uma pessoa não quise , não
adian a
nada,
nem
aqui,
nem em mais lado
nenhum,
nem Pa ia che nem REMAR.
121
2.2.3 - Dimensões ascé icas
Como emos obse ado a é aqui, a dimensão ascé ica eplica na p á ica do
en e is ado mui as das i ências a ibuídas aos ou os. Es a subca ego ia não é
excepção. A ep esen ação nega i a da me adona in e e e di ec amen e nas decisões de
ce os en e is ados:
RT-o A onso quan os a amen os ez?
E-dois mini
a amen os
RT-no
C.A.T.
da Boa is a
E-isso não oi a amen os oi aquela
asnei a
que eu iz na minha ida
RT-po quê?... a me adona?
E-sim dou o po que se eu es i e de e ias enho de ob iga a i
a
amília pa a um
sí io onde haja um
sí io
onde possa i oma a
me adona
é
assim aquilo
é
ou a
d oga uma
pessoa só
anda
lá po que não gas a dinhei o não gas am enquan o não em enquan o em
gas a não
é dou o ?
Cu iosamen e, ecolhemos ambém alguns casos em que a abs inência é alcançada
num pe íodo an eceden e ao início do acompanhamen o ins i ucional. O que se sabe de
medicamen os e o que se ai ap endendo nas di e sas en a i as de desin oxicação
domiciliá ia é u ilizado mui as ezes em en a i as de pa agem.
Es as ap endizagens podem e e ei os con ap oducen es, a o ecendo pos u as
que endem a ag a a a si uação do en e is ado.
RT- an es já inha ei o pa agens com médicos (p i ados)
E- a bem dize aquilo nem oi pa agem nenhuma, eles da am-me Se enai, aquilo
punha-me a
do mi ,
e a Se enai e não sei que mais, que emédios e am
aqueles,
peguei
naquilo e
dei ei
oi
udo
o a. Uma ez omei um
e
já es a a a ica iciado no Se enai
pa a
do mi ,
po que já não conseguia do mi sem aquilo. E eu pa a
do mi ,
pois sim, e
Paxil a es ambém me
de am,
ecei a am-me
Paxil a es,
Se enai e ou os.
As en a i as de o nea o a amen o com an agonis a í50) - que impede a acção da
he oína com o uso de ou as subs âncias - é comum, nomeadamen e com a cocaína e
ambém com álcool ou o uso de pas ilhas (menos equen e). Em elação às ecaídas, es e
uso de cocaína é um dos mo i os mais equen es que as desencadeiam. Mas a
con inência ace à he oína es á associada com o in e di o o necido pelo medicamen o.
Quando se deixam as omas, as ecaídas apidamen e acon ecem.
E- e inha isso no pensamen o e e a essa ideia semp e de aze só que nem que
passasse dois ês meses às ezes inha aquela ideia naquele dia ó pá
ape ecia-me
uma
uma ez gos a a hoje de da um
umo,
e um
não
az mal a ninguém e e a isso e ia uma
ez pa a a de oma o An axone po que pa a consumi uma ez inha que pa a qua o
dias ou cinco, inha de espe a qua o dias ou cinco pa a consumi uma ez e depois eu
122

dizia bem consumo hoje ao im do quin o dia consumo ao sex o dia omo a An axone
como é só um paco e não az mal p on os mas às ezes o paco e que eu consumia não
azia e ei o não
ba ia
po que com o e ei o do An axone sei lá não sen ia nada e em ez de
oma o An axone dizia ou espe a mais um a e se sin o alguma coisa que on em não
sen i
nada
iquei ca e a iquei mesmo us ado e en ão ia busca e
depois
já ica a com
medo iii já consumi dois paco es se á que posso oma o An axone se á qual é a eacção
que ou e ? e en ão ica a com medo e dizia não não omo ou
espe a cinco
dias quando
i e cinco
dias ao im de cinco dias
RT-pensa a naquilo e
não
pensa a no mais à en e...
E-pois e a isso pensa a semp e naquela al u a o a bem umo depois omo o
An axone e es á na mesma udo bem mas o p imei o ba ia depois o ou o
dia
já ia busca
depois inha medo de oma o An axone po que já inha consumido dois ou es a cinco
dias abs inen e e depois omo o An axone mas... e es a esses cinco dias? é g upo e a
capaz de es a um dia e no ou o dia bem ou só busca mais hoje um em ez de es a
cinco
e a
ês
dias e
e a
assim
Sucede-se uma melho ia das condições de ida depois de um pe íodo de
desemp ego e a amen o o çado. O sen i -se melho , com mais dinhei o e com mais
ecu sos sociais p ecipi a a ecaída.
Uma cons a ação, po ém, é quase commumen e obse ada em odos os casos com
quem i emos con ac o: a ideia de uma p og essi a di iculdade em aze mais a amen os
ao mesmo empo que aumen am as consequências nega i as das ecaídas. Os pe íodos de
pa agem aduzem-se em ganha peso; e melho aspec o; come mais. Mas as ecaídas
acabam p o assumi p og essi amen e consequências mais g a es.
RT-e as ecaídas como é
que
e am? e a po i pa a os amigos ou...
E-de i pa a os amigos pois
apanha a-me
com
dinhei o
e depois ainda ica a pio a
p imei a
desin oxicação
não
cus ou
mui o a
segunda
já cus ou mais um bocado a e cei a
mais um bocado depois a ou a depois a ou a um gajo só dizia assim dá-me um
a amen o
a comp imidos no Magalhães Lemos senho a dou o a e a minha mãe ambém
não ale a pena da -lhe mais
medicação
po que ele ol a ao mesmo
ele
pode anda bem
du an e quinze
dias
2.2.4 - Dimensões eleológicas
As in e ogações sob e si mesmo são bem equen es no con ac o que os
en e is ados es abelecem com as ins i uições de cuidado. O exemplo das ecaídas é uma
das ilus ações mais e iden es do que dissemos.
RT- e diga-me, sen i que esse a amen o não ez esul ados o que é que o ez
sen i ?
E- deu-me p essen imen os que nunca mais ia sai dis o
RT- pensou isso?
E- depois pensei:
"is o
ao im ao
cabo
ai se
oda
a
ida
a abalha pa a a
d oga"
e
que ia deixa só não sabia de que
manei a.
Dei a a-me na cama e pensa a em mais oi o
con os ou dez
que
já inham ido, e a assim mas no ou o dia que ia e a
dinhei o
pa a i
busca
a
dose.
A
essaca
é
uma
coisa
ho o osa
123
Es e ipo de si uações es á bem desc i o na li e a u a, nomeadamen e no abalho de
Ma la & Go don (1985) onde é denominado E ei o de Violação da Abs inência
(E.V.A.).
O choque psicológico des e ipo não é, con udo, semp e obse ado: di e sos
en e is ados ela am-nos ecaídas sem sen imen os de a ependimen o ou
desapon amen o consigo mesmos, an es pa ecem e sido p emedi ados.
O p imei o con ac o com um cen o de assis ência pode se i pa a que di e sos
indi íduos inalmen e admi am pa a si mesmos a sua dependência:
RT-demo ou mui o
a
pensa ,
a no a que
es a a
iciado?
E-não ainda le ei dois anos ou ês a e que es a a iciado consumia de ez em
quando oi a p imei a ez que ui pa a o Magalhães Lemos oi em
91
ou 92 oi quando ui
pa a o
Magalhães
Lemos aze
a p imei a desin oxicação
aí é que eu
e lec i
que já es a a
iciado po que eu
que ia deixa
a
he oína
e
i e
que
con a à minha
mãe que ela não sabia
que eu
consumia
he oína
Os pe íodos de abs inência o necem a opo unidade pa a e lexões sob e o que se
passou e o que se i á passa um en e is ado diz-nos que há mui o empo só u iliza a a
he oína pa a i a as do es; ou os sen em-se e éns das eco dações -
"ainda
sonho com
aquilo" - achando que, com o empo, se ão esquecendo das pa es nega i as da d oga.
Uma en e is ada cujos consumos acon eciam semp e com o namo ado, desc e e-
nos des a manei a um dos seus p imei os pe íodos de abs inência:
RT- mas depois hou e es as coisas das ecaídas, como é que explica es as coisas
dos
a amen os,
depois uma
ecaída
a
segui depois
mais
ou o
( a amen o)
E-
p imei a ecaída
eu acho que o que me in luenciou
mui o
oi o Be na do po que
an o
eu como o Be na do es á amos limpos e acho que na al u a do Modelo es á amos
limpos mas acho que as coisas en e nós não e am a mesma coisa. Pa ece que não
ínhamos
nada
pa a aze
quando
es á amos jun os
(...)
pa ecia que o empo
não
passa a
O exemplo aduz com cla eza que as dimensões eleológicas, mui as ezes não
e balizadas nas en e is as, encon am-se p esen es, is o é: a ida de consumido além
de implica uma i ência di e en e, um exe cício ascé ico especí ico, inclui ambém uma
eleologia p óp ia A eleologia que de i a da ocupação inin e up a do ciclo de ac os do
a anja dinhei o-comp a a subs ância-consumi-la... Um emp ego monó ono do empo
( e no a 43).
Mesmo nos casos em que o p oblema da d oga pa ece já es a ul apassado, a
i ência da d oga é indelé el e inclusi e es á ligada a uma ase de c escimen o de ce os
en e is ados:
124
RT- e no seu caso especí ico como éque se sen e depois de is o udo? Sen e-se uma
mulhe di e en e?
E- sin o-me mui o di e en e ap endi coisas que eu acho que não de ia e ap endido
po que me ab i am os olhos mas não me
a ependo
de nada po que eu ago a consigo e
a ida de ou a manei a que não ia, consigo da alo a coisas que eu dan es não da a
alo
nenhum
e ago a dou mui o mais alo
RT- em quê?
E- a é uma simples e eição eu lemb o-me que depois das desin oxicações e udo
po que não posso dize que passei ome mas comi mui as ezes sopa pa a gas a o
dinhei o naquilo que não de ia e depois das
desin oxicações
eu comia uma boa e eição e
sen ia um p aze eno me em come aquela comida, coisa que a é aos in a anos eu não
sen i aquele
p aze .
Come aquela comida com aquela sa is ação, is o é um exemplo
mínimo há
ou as
coisas
RT- em mais p aze na
ida,
é isso?
E-
exac o
há
ou as coisas
RT- mas há bocado disse o acho na ase
E- pois po que es a
úl ima en e adela
não
e a
pa a e
acon ecido
e
acon eceu.
Po
isso é que eu ponho o acho an es é como aquele di ado nunca digas que des a água não
bebe ás, não
se
pode dize isso
RT- mas
sen e
que es á mais ágil em
elação
a ou as pessoas?
E-
não,
não
Aliás a é me sin o o e nes e momen o, digamos que es a é a ase que
eu me sin o mais o e e eu de a dize que nunca mais me ia me e em
d ogas,
mas eu não
digo isso, eu acho que nunca mais me ou
me e ,
acho. Já são quase qua en a anos, já
es ou apensa mui o no
u u o.
2.2.5 - Ap eciação global
A dimensão médico-sani á ia é p ocu ada pelos indi íduos que po espon ânea
on ade, que po p essão da amília, que ainda po uma combinação complexa des es
dois ac o es. Mui as ezes as edes in o mais dos en e is ados o necem in o mações
sob e os a amen os das di e sas ins i uições. O exemplo da me adona é clássico nes e
aspec o, mas em ans o mação - a ca ga nega i a associada à subs ância pa ece mais
diluída que no es udo de Fe nandes & Ag a (1991).
O con ac o com os a amen os é ambém uma opo unidade de ap endizagem em
elação aos medicamen os. Regis ámos alguns casos em que se obse a um pe íodo de
abuso de benzodianzepinas após as p imei as consul as no
C.A.T.
O a amen o com
an agonis as opiácios implica ambém uma p a ica de si, uma ascese especí ica que se
concen a na oma da medicação mas semp e que es a alha, a on ade consumi eapa ece
e, equen emen e, a ecaída acon ece.
Po úl imo, que o ac o de se es a em consul as numa ins i uição pa a
oxicodependen es, que os pe íodos de abs inência, que os de ecaída são os p incipais
125
ac o es que desencadeiam e lexões e, po ezes, p ojecções do indi íduo no seu u u o
(se bem que nem semp e em e mos posi i os, como imos).
A dimensão médico-sani á ia dá con a de um conjun o con adi ó io de i ências
que se egis a a é nos p óp ios mo i os pa a p ocu a es as ins i uições. Não de emos e
medo da di e sidade, azendo en a i as de uni o mização: dependendo dos objec i os
dos sujei os, a ecaída em es e ou aquele e ei o ou não em nenhum; dependendo das
i ências pio es ou melho es do pe cu so de consumido os en e is ados só se lemb am
da pa e nega i a da d oga ou, pelo con á io, a pa e nega i a ai "desapa ecendo" com o
empo, só icando a on ade de ol a a consumi ...
2.3 - Discussão ge al - Disposi i os no ma i o- acionais
Os disposi i os no ma i o- acionais o mam duas g andes á eas que co espondem
ambém à ambi alência einan e na polí ica das d ogas, um mis o de ep essão e ajuda.
Ambas conco em pa a a consubs ancialização do es a u o de oxicodependen e pe an e o
odo social e, como imos, pe an e os sujei os pa a si mesmos. A igu a do c iminoso e
do doen e são as e ique as sociais com as quais os en e is ados êm que lida .
Pa a os disposi i os ju ídico-penais imos como as dimensões ascé icas e
eleológicas são ac i adas: des alo ização da polícia; i ência dos inúme os p ocessos
penden es quase como algo no mal; in e ogação sob e a jus iça da de enção uma ez que
"há mais d oga
lá
den o
do que cá o a
".
No médico-sani á io izemos o le an amen o de
uma he e ogeneidade de si uações em que a dimensão eleológica es á p esen e que na
econcep ualização e e lexão do seu p óp io passado - mais equen e em en e is ados
em p ocesso de consolidação da abs inência - que no e -se e e namen e como
oxicodependen e, mais comum em en e is ados com um p ocesso mais ou menos longo
de ecaídas.
Regis amos o ac o de que ambos os disposi i os o necem um con ex o de
ap endizagem que pode se ia ogénico nos seus esul ados: mui os en e is ados
adap a am-se acilmen e à p isão, conhecendo no os esquemas, adqui indo no os
con ac os e conhecimen os; os cen os de a amen o ambém se em pa a a aquisição de
126
mesmo sí io". Pelo que a ep essão policial é semp e pa cela e ine icaz. A es a isão
soma-se, em mui os casos, uma isão pessimis a do enómeno.
RT-
en ão acha
que
is o
em
endência
a
alas a ?
E- eu acho que sim ou põem e mo à p óp ia polícia a
começa em
po baixo e em
cima não é pelo meio.
Um
p édio começa-se a
cons ui
po
baixo,
udo o que se de e
aze épo
baixo
é
i
às on es aí
co am
o mal pela aiz não
es ou
a
dize
pa a pega neles
e uzilá-los, eles sabem mui o bem o que de em aze quando que em...
RT-
co a am en ão
o
g ande á ico
e a
si uação
ica a
esol ida?
E- sim, aqui nes e nosso país pode-se aze
isso,
nós não i emos da d oga como é
ipo
a
Colômbia,
po que aí es á o es ado en ol ido ambém, aqui es ou a dize que ão
mais
dep essa
a casa de quem a ende e apa ece em no jo nal odos con en es e êm à
ele isão dize que apanha am
a
senho a
que
inha
pa a aze
cem
doses ou
duzen as
doses
mas
não
se
impo am
em i
busca quem
lhe deu
essa d oga
pa a ela ende . Sabem mui o
bem que a d oga e a pa a se
dis ibuída
no
Po o,
Guima ães
e Pó oa do Va zim como é
que eles sabem isso, como é que eles podem dize isso, mas de ce eza que ao dize em
isso sabem de quem e a a d oga e quem a ia
dis ibui .
Quem apanha é semp e a aia
miúda, como udo. Se eles quisessem acaba ...
Sabemos já da mobilidade dos a ican es e dos comp ado es. Em elação às
p opos as p op iamen e di as emos dois g andes ipos de ideias: a libe alização das
d ogas le es e a despenalização ou, pelo menos, a enda da he oína moni o izada pelo
Es ado.
E- eu digo-lhe
eu
p on os não sei se o senho dou o é ou não é mas eu sou
a
a o
das d ogas le es acho que a é o nosso go e no de ia libe alizá-las eu po mim digo que
eu ui pa a as
d ogas
du as po
causa
das
d ogas
le es po que senão me al asse o haxixe
e a liamba eu enho a ce eza absolu a que eu hoje não consumia he oína ou nunca inha
consumido he oína nem ou as d ogas po que a
liamba p incipalmen e
a liamba a gen e
com um ciga o icá amos bem o dia odo...
A polí ica das d ogas é, po ezes, is a como hipóc i a e con ap oducen e uma ez
que os mecanismos de ep essão - como a polícia e ou os, os "mais g aúdos" - es ão
pessoalmen e in e essados na manu enção da enda de p odu os ilíci os. A solução
passa ia pela egulamen ação do me cado, mo men e a assumpção, po pa e do Es ado,
do o necimen o das omas dos oxicodependen es.
RT- e como é que acha que is o ai
e olui ,
o mundo da d oga e udo mais?
E- eu acho que enquan o o Es ado não puse qualque coisa na a mácia pa a
des ui a
d oga,
não é com cen os que conseguem compo is o
RT- e a polícia e udo o mais?
E- ambém não consegue, po que a polícia ambém es á me ida nis o, o p óp io
polícia ambém
es á me ido
nis o,
não é a polícia que
anda
po aí com
cães,
são os
g andes
que
es ão
me idos.
Enquan o
não
puse em
qualque coisa
nas a mácias não digo que seja
d oga, qualque coisa nas a mácias ou uma pessoa pode i lá com um ca ão ipo
mul ibanco, chega lá e pedi uma dose enquan o não ize em isso não
conseguem
pa a
com is o e se ize em is o eu ac edi o que há mais pessoas a deixa em a d oga do que
133

senão ize em isso. Se puse em is o mais li e de e ha e pessoas a deixa em mais
dep essa
a d oga.
Essa moni o ização po pa e do Es ado e ia como i ude o con ole das
ac i idades de á ico e uma melho ia de ida de g ande pa e dos consumido es. A
de e io ação psico-social admi ida po um segmen o impo an e dos en e is ados se ia
assim obs ada:
RT- como é
que
acha que is o das d ogas ai
e olui ?
Falou-me numa mudança que
e a ago a
a
cocaína?
E- eu penso que eles ão e de acaba po legaliza , po que legalizando e
começando a e o p oblema des e ício de uma manei a di e en e ... ão
acaba
po
legaliza aliás
há
an as d ogas
legais.
RT- e
legalizando
o que é
que
acha que muda a?
E-
si uações
de mui a
decadência,
de mui a misé ia humana po que eu po exemplo
i e apoio
e
i e
alguma o ça pa a pa a em que
inha
de pa a
mesmo
mas há pessoas que
não
êm,
há pessoas que icam comple amen e sozinhas. E acho que se as
coisas
ossem
legais que não acon ecia isso, ha ia semp e um úl imo ecu so, sem e que eco e a
si uações de p os i uição e de oubo de sob epo a d oga a
alo es
humanos.
1.1.5 - Ap eciação global
O sabe in e subjec i o possui uma o e componen e deon ológica onde
in o mações e conhecimen os sob e o mundo das d ogas indiciam um o e conhecimen o
do meio e das possibilidades biog á icas à disposição. A mudança das p á icas de
consumo endo enoso é uma pis a impo an e pa a a comp eensão da dinâmica da
p opagação dessas in o mações.
A posse dessas in o mações ab e po as às dimensões ascé icas do conhecimen o do
es a u o de consumido num ou o - econhecimen o esse que ambém po encializa,
p agma icamen e, as possibilidades de aze associações com ou os indi íduos,
acili ando a comp a do p odu o. Os conhecimen os es endem-se ambém à iden i icação
dos ipos de consumido es en e os que se impo am e os que nada êm já a pe de .
Os en e is ados mos a am-se p ódigos na e lexão c í ica sob e o meio em que
i em, p ocu ando soluções, desc e endo a dinâmica subjacen e ao me cado neg o de
come cialização das d ogas du as. Cons a amos uma o e mo i ação pa a a ap endizagem
de no os dados do mundo das d ogas, u o de uma necessidade de ges ão da ida
quo idiana de consumido es que analisa emos adian e. Po im, uma e lexão sob e as
134
implicações e consequências que o ac ual s a us quo das d ogas az consigo e ela
análises elabo adas das si uações ao mesmo empo que se a en am soluções que me ecem
a enção cuidada.
1.2 - Ges ão da imagem de si
Jun amen e com a subca ego ia an e io , a Ges ão da imagem de si cons i ui pa e
in eg an e da ca ego ia Relação com os ou os. Nes e caso, conside amos aqui odo o
ma e ial e e en e ao que o indi íduo az ou acha que de e ia aze em unção da
manu enção de um ce o s a us pessoal que no que diz espei o à subcul u a de que az
pa e, que em elação com o meio no ma i o.
1.2.1 - Dimensões on ológicas
Es ão p a icamen e ausen es nes a ca ego ia. Regis ámos, po ém, a ibuições à
subs ância - especialmen e a he oína - e elado as de uma ce a incon inência Ce os
en e is ados dizem que, num dado momen o dos seus pe cu sos, deixa am de se
impo a com o seu aspec o, com o seu s a us po que oi a p óp ia d oga que os pôs
assim.
Não são classi icações on ológicas pu as, mas sim combinações en e es e ní el e o
ascé ico, pelo que são ambém écnicas de negação de esponsabilidade.
1.2.2 - Dimensões deon ológicas
A deon ologia dá con a nes a subca ego ia da eacção do meio no ma i o aos
"d ogados", quais as eg as, as di iculdades e quais os pon os essenciais nessa ges ão da
imagem social dos indi íduos. É a p óp ia exclusão, na sua dimensão social e psicológica
que es á aqui
em
jogo.
RT- mas es a a ala nas pessoas
E- bem as pessoas no malmen e as pessoas azem...bem a p io i põe logo um
oxicodependen e
de
lado
não éali na Co doa ia já i inclusi e pessoas a
enega em
copos
de água e
isso
az com que as pessoas se e ol em e en ão
isso
az com que as pessoas
não se impo em se os ou os os êem mal ou os êem bem isso é igual depois i em na
135
d oga
e
passam
a ma imba -se pa a o que as
ou as
pessoas pensem e p on o a pa i daí
já
não
êm p oblemas se i e em de ouba alguém oubam, não é, po an o eu acho que
eles pe dem
aquele
sen ido
sei lá deixam de se pessoas
no mais
a p io i
sen em-se à
pa e
O que é ape cebido pelos en e is ados, em ce os casos, desencadeia eacções de
maio a as amen o, enquan o que nou os, as espos as aduzem-se em en a i as de
ap oximação. A ges ão da imagem de si pa ecia mais acili ada an igamen e do que ago a
an es,
a maio ia das pessoas não no a a, não sabia 1e os sinais da d oga. Ac ualmen e já
não é bem assim.
De qualque modo, o econhecimen o de uma pessoa como oxicodependen e inicia
equen emen e um p ocesso de exclusão que é desencadeado de ambos os lados.
RT- e depois como é que oi a sua ida quando começou a sen i que es a a
dependen e
E- a minha ida já
e a
di ícil mas mais di ícil icou
depois
da d oga
RT- di ícil como?
E- udo de i ado da minha in ância eu semp e ui c iado pelos meus ios, odos
homens, eu não es a a com a minha mãe, são assim essas coisas odas que icam na
cabeça,
a
minha
já e a di ícil. Quando me me i en ão aí é que pio ou
mesmo,
p oblemas
amilia es em casa, uma desconside ação eno me das
pessoas,
eu sen ia que as pessoas
me es a am a desconside a , embo a não o dissessem e p oblemas com os ibunais e
essas coisas odas.
RT- como é
que
sen ia que
as
pessoas o es a am a desconside a ?
E- e i a am ala pa a a
gen e,
e i a os con í ios
que a gen e inha e que depois de
uma
pessoa se me e na
d oga
já não e am possí eis de ealiza já não se podia con i e
com esse ipo de pessoas po que nunca ba ia
ce o.
À
uma
po que elas ugiam de nós mas
nós ambém ugíamos delas po ezes é amos nós que p ocu á amos ou as pessoas,
ou os
meios,
ou os caminhos onde a gen e se sen isse bem.
RT- ugiam
po quê,
po que não
gos a am
de es a à sua bei a?
E- sim po a gen e se calha e a nossa manei a de se . Anda -se a d oga , uma
pessoa p ocu a a semp e esses meios onde se sen isse bem
O maio con í io in o mal com pessoas que consomem ai o necendo aos
indi íduos no ma i os pis as, sinais pa a que esse econhecimen o seja mais ápido. Os
momen os de a as amen o e "desconside ação" endem a p ecipi a -se desde que esse
econhecimen o público passe a se e ec uado. Esse a as amen o, como imos, ambém é
incen i ado pelo p óp io indi íduo, epe imos: "... mas nós ambém ugimos deles..."
1.2.3 - Dimensões ascé icas
As dimensões ascé icas aduzem-se po um es o ço que os di e sos en e is ados
azem, de modo a man e o seu es a u o de oxicodependen e escondido, mas ambém no
136
cuidado em man e em um bom nome no mundo das d ogas. Os con ex os de ida de cada
en e is ado azem com que es e exe cício assuma inúme as con igu ações.
-Face ao meio no ma i o -
Desde logo, em indi íduos mais no ma i os, emos o exe cício de con enção
p esen e ace a es e as socializado as mais p óximas, como a amília e o abalho.
RT-com o haxixe nunca descon ia a se ocê
apa ecesse
lá umado?
E-hou e uma al u a que ela descon iou só que eu disse que oi álcool que oi
ce eja uma
ez
com a ganzá que eu
inha
umado
ado meci
de joelhos no qua o
iquei
de
joelhos com álcool e com ganzá ado meci nem sei como é
que
iquei de joelhos a do mi e
aí a minha mãe já icou com pé
a ás
ogo es e gajo a do mi de joelhos o que é que se
passa? aqui não ba e nada ce o p on o eu disse oi uma es a de anos bebemos mais
álcool p on os ado meci de joelhos nem sei po que é que eu es ou de joelhos a mãe a
pa i daí icou com um pé a ás e ia-me semp e com os olhos e melhos com a ganzá
po que já anda a com o haxixe e quando passei pa a a he oína anda a com os olhos
e melhos
da ganzá
disse:
al o que es eja es á a i pelo bom
caminho
Exis em ambém uma sé ie de si uações em amília em que os sujei os êm de lida
de modo a esconde a "moca" ou a "ped a" pe an e os pais. A a e a e a acili ada pelo
desconhecimen o dos amilia es ace ca das d ogas, como já imos na espec i a
subcago ia.
Esse exe cício de con enção aduz-se ambém, nalguns casos, po um es o ço
diá io em alimen a -se, la a -se, man e uma ce a apa ência ísica A p i ação é ou o dos
obs áculos a ge i de modo a
"não
da mui o nas is as". A di iculdade é mino ada pelo
soco o a medicações (benzodiazepinas e analgésicos especialmen e). No en an o, mesmo
assim chega o momen o em que não dá pa a esconde mais:
RT- e essas pessoas que não anda am na d oga sabiam que ocê
es a a
a
consumi ?
E- É ób io que uma pessoa se pode esconde mas chega a um ce o pon o que é
semp e descobe o. Eu, po exemplo andei na d oga, escondi-me o máximo que pude,
escondi o medo...
RT- o que é que azia pa a se
esconde ?
E- e i a a anda mal
pa ecido,
en a a se o mais limpo possí el, coisa que uma
pessoa na d oga ao longo do empo ai esquecendo de aze a ba ba, e de come , a é
disso uma pessoa se esquece. Foi quando eu comecei a da po ela ambém, o pessoal
soube que eu anda a me ido de i ado às más companhias com quem eu anda a, àquilo
que eu anda a a aze e à minha
manei a
de
se ,
de me
es a
a deixa
i
abaixo.
Em pe íodos de consumo desmesu ado, ou após ecaídas, sucedem-se momen os
de descon ole e
de "não que e
sabe "
que são, as mais das ezes, bas an e con li uosos.
137
-Face ao meio des ian e -
Em elação ao mundo des ian e é necessá io pa a o a ican e, pelo menos pa a
ce os a ican es, man e um bom nome. As eg as de socialização das subcul u as não
são mediadas po um e cei o elemen o egulado . Os con li os são esol idos de o ma
iolen a e os mecanismos de seg egação uncionam com cele idade: "quem não é de
con iança"
em pouco empo se ê em maus lençóis.
RT- po quê (não ouba clien e)
E- po que se
oubasse ouba a
hoje amanhã já
não ouba a
só podia aze isso uma
ez enquan o se osse hones o inha semp e oi assim que eu andei
RT- comp a pa a os ou os e man e os clien es
E- e a uma
espécie
de
á ico di e en e
não
deixa a
de se
á ico
Também, em ce os casos de g ande amilia idade com o mundo da d oga, o não
deixa -se ouba e engana é pon o de hon a de uma ce a con i ência in o mal. E is o
aplica-se no con í io in o mal com ou os oxicodependen es, nos ac os de comp a, e em
ce os jogos de in imidação equen es nos bai os.
O caso do en e is ado com ac i idades mais al amen e c iminais oi ambém o caso
em que a epu ação desempenhou um papel mais ele an e:
E-cheguei a e p oblemas com ce os segu anças que eu não sabia que e am
segu anças
e eu
da a-lhes cabo
da
ca a
e al e ambém eu ambém ui ganhando um ce o
espei o uma
ce a ama as pessoas começa am a ganha um ce o espei o eu em se e ou
oi o ba es já
oda
a
gen e
me
inha espei o
e eu ui andando já
e a casado
inha da opa e
al ui pô
a moça
a
abalha
O mundo da p os i uição, dos ba es de al e nadei as exige ge en es que imponham
" espei o" e sejam capazes de esol e odo o ipo de con li os. O nome do ge en e pode
po si só e i a mui as complicações. Ac escen e-se que, associados a es e ca go de
p oxene a di e enciado, passe a exp essão, somam-se os ca gos de a ican e, cob ado de
dí idas di íceis, en e ou os...
1.2.4 - Dimensões eleológicas
A es e a eleológica, se bem que nalguns dos exemplos u ilizados su ja em
combinação com aspec os p agmá icos, é ela i amen e equen e nes a subca ego ia Em
138

elação ao mundo no ma i o, a con i ência quo idiana pode le an a uma sé ie de
sen imen os con adi ó ios que chega, inclusi e, a um e i amen o de ce as á eas. Os
exemplos são de combinações de e lexões sob e o es ado de si mesmo ( eleológico) com
a ges ão das p á icas (ní el ascé ico).
RT- o Jaime ambém se
es e e
a sen i
à
pa e
E- sim conce em eu sen ia que as pessoas olha am pa a mim inclusi e às ezes
insul a am-me
ou ou ia a ala mal não de mim
mas...
e a ge al e isso ambém doía não é
apesa de eu nunca e ei o o que ejo os ou os a aze não é
no
undo ambém es ou
englobado
neles
às
ezes
e a igual e isso doía as pessoas au oma icamen e ao po em-nos
de lado isso az com que au oma icamen e eles não se impo em com essa his ó ia das
pessoas
RT- o Jaime e e de aze um
es o ço
pa a as pessoas não o po em de lado
E- o meu es o ço oi... bem eu espei ei semp e as pessoas os izinhos
con inua am
a
não
e de dize de mim hou e aquela al u a em que as pessoas olha am
de lado nós umá amos haxixe...
Os sen imen os de e gonha, o não sen i -se bem no con í io com amigos não
consumido es são alguns sinais que consubs anciam o se -se di e en e - consumido de
subs âncias ilegais, de alguma manei a um ou o que é menos digno e que es á em al a
pe an e o social.
A negação da esponsabilidade pode ambém e lai os eleológicos, nomeadamen e
na jus i icação de ac i idades como o p oxene ismo e o á ico. O nosso p oxene a "e a
dos bons": não e a como os ou os; não ba ia às p os i u as; da a-lhes mais oupas; não
ob iga a ninguém.
A in empe ança pode ambém es a p esen e em algumas es e as de um
oxicodependen e, nomeadamen e na di iculdade que a maio pa e dos en e is ados
passou pa a admi i pe an e si mesmo que es a a dependen e da he oína. Há uma
di iculdade e iden e na econcep ualização de si mesmo como ou o di e en e como um
oxicodependen e. Es e ac o em unções impo an es na p ossecussão da ac i idade de
consumo, mas sublinha a p eponde ância inicial das dimensões lúdicas e de iden i icação
social que as subs âncias o necem, pois o consumo desmesu ado pode ambém e
unções de epu ação den o do g upo de pa es:
RT-como é que o Júlio se ia
E-e
bebia mui o oi quando comecei a bebe bebia às in e ce ejas e e a como o
senho
dou o
disse
há bocado pa ece que a gen e inha assim um bocado de o gulho em
139
bebe aquelas in e ou in a ce ejas e uma aqueles se e ou oi o
cha os
po que ha ia
aquela i alidade en e g upos e en ão o nosso g upo e a o g upo que depois a é oi
conhecido como o g upo mais consumi do
an o
em álcool como em d oga ó pá aqueles
gajos poça a gen e
le an a a-se
da
mesa
ica a udo a
olha
pa a a mesa cheia de
ce eja
iiii, só que a idade ai a ançando a gen e ai pensando de ou as manei as po que o
pensa
eu
pa a mim o pensa eu quando inha
dezasseis,
dezoi o ou in e anos pensa a de
uma
manei a
e ago a penso de uma manei a o almen e di e en e não é já sou um homem
ei o já enho ou a manei a de pensa enquan o e a no o é
ai
pa a a en ex ai
pa a
a
en ex não que ia sabe não
inha p eocupações
na ida ago a não a idade, a gen e ai
pa a mais elho ai endo que
não,
não pode se assim
Apenas num caso o uso de he oína oi jus i icado em e mos psicológicos, is o é, o
consumo se ia pa a o en e is ado o na -se um ou o que não e a, numa ges ão p ecá ia,
ins á el, mas de alguns anos:
RT- po que acha que azia
esse géne o
de
coisas?
E- lá
es á,
acho que e a um pouco pela imidez que sen ia, po que ica a mais à
on ade ou seja ajuda a-me a que
eu
osse o que que ia se , a agi consoan e a imagem
que inha de
mim,
que eu que ia
se .
O álcool oi a
minha
p imei a
bengala,
depois eio o
haxixe nes a al u a
eu le a a uma ida um bocado dupla que e a aqui no Po o que ia às
aulas
décimo,
décimo
p imei o,
décimo segundo já comecei a se bom aluno. No décimo
ano a
ma emá ica
no p imei o pe íodo
i e seis
e só i e uma posi i a du an e o ano odo,
depois quando es udei e ui aze o úl imo es e i e dezoi o e depois desde esse es e a é
ao décimo segundo nunca mais i e menos de
dezasseis
a
ma emá ica,
i e não sei quan os
in es no décimo segundo i e dezoi os a química. To nei-me bom aluno e depois deu-me
a
aidade,
o meu ego nessa al u a subiu bas an e.
A es e a eleológica é palco do que os en e is ados dizem de si mesmos no
deco e das suas di e sas ac i idades e in e acções di idindo-se em duas g andes
a i udes: de empe ança e de in empe ança, es a a mais di ícil de assumi numa en e is a.
1.2.5 - Ap eciação global
A ges ão de si em eg as deon ológicas, especialmen e nas zonas de comp a mais
ligadas ao mundo das d ogas, embo a nem odos os en e is ados possuam o mesmo g au
de amilia idade com
elas.
Também nes e ní el se encon a a ges ão das apa ências ace às
á ias es e as do mundo no ma i o.
No ní el ascé ico, emos exempli icadas as p á icas ealizadas em unção da
manu enção de um ce o s a us na subcul u a, com ins ins umen ais cla o es á, bem
como a in e acção es abelecida com amigos não consumido es. O a as amen o que se
140
obse a em elação a di e sas es e as no ma i as é dual po que de exclusão e, a pa i de
ce o momen o, de au o-exclusão, com implicações eleológicas bem e iden es.
Po im, o ní el eleológico pe mi e-nos ilus a essas in e acções com os indi íduos
não consumido es no que isso implica pa a os en e is ados - sen imen os de mal es a ,
e gonha
e c...
- mas ambém nas implicações ascé icas da si uação - compo amen os de
e i amen o e exclusão. As jus i icações que os en e is ados u ilizam pa a os seus ac os
cons i uem ambém um alice ce impo an e pa a o ní el ascé ico, cons i uem uma espécie
de ges ão da imagem de si pa a si mesmo.
1.3 - Discussão ge al - Relação com os ou os
A ca ego ia Relação com os ou os oi di idida, como imos, em duas g andes
á eas:
uma mais impessoal, po assim dize ; uma ou a indi idual po excelência. Na sua
globalidade, es a ca ego ia o nece-nos a i ência de se se po ado de um es igma
(noção de Go man, 1988) nas suas implicações sociais e indi iduais.
As implicações sociais englobam a necessidade de conhecimen os especí icos e de
in o mações indispensá eis à con inuação da ac i idade de consumido de d ogas. As
implicações indi iduais dão-nos a obse a a ges ão de "apa ências" e de con ac os, que
em elação ao odo no ma i o - en ando ocul a o máximo de empo possí el o es a u o de
consumido - que no in e io da subcul u a das d ogas: imos que a impo ância da
epu ação é p opo cional, po assim dize , ao g au de especialização da ca ei a des ian e.
A elação com os ou os despole ou um maio g au de p oposições classi icadas po
nós como eleológicas. Isso é signi ica i o, na medida em que a con inuação de uma
ac i idade não acei e socialmen e impõe cons angimen os incon o ná eis que necessi am
se ge idos ao ní el indi idual de modo a que a ca ei a de consumido seja possí el.
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2 - P á icas e i ências
P á icas e i ências cons i ui a segunda ca ego ia do ema Socialização des ian e.
P e endemos analisa ago a com ela as i ências, expe iências e p á icas dos indi íduos
en e is ados ao longo de ês g andes momen os c uciais nas suas his ó ias de
consumido es de d ogas, a sabe :
- iniciação às d ogas, que enbloba os momen os de ap endizagem e p imei o
con ac o com as á ias subs âncias;
- ges ão da ca ei a de consumido , que engloba as escolhas, decisões, numa
pala a, o pe cu so de oxicodependen e dos á ios en e is ados;
- po im, os pon os de in lexão que azem o le an amen o dos momen os de
e i ada das ac i idades ligadas ao mundo das d ogas e/ou momen os em que o indi íduo
decide ou é compelido a eduzi os consumos ou mesmo es a abs inen e em elação a
ce os p odu os.
2.1 - Iniciação à d ogas
Nes a subca ego ia analisa emos o con ex o dos p imei os con ac os com as
subs âncias, a desc ição dos e ei os e os p imei os momen os de ap oximação a es a ou
aquela subs ância nas dimensões que emos indo a u iliza .
2.1.1 - Dimensões on ológicas
Gene icamen e dizemos que a p incipal po ção de ma e ial que cabe nes a dimensão
6 a dos e ei os das á ias d ogas. Ra amen e se conside a o e ei o como algo de
manejá el, é an es desc i o em e mos absolu os. Is o dá-se com mais ele ância pa a a
he oína do que pa a a cocaína e o haxixe. Há mais conco dância em elação às
p op iedades daquela d oga do que a es as duas úl imas.
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