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Crónica escolar de uma Trânsfuga...

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Crónica escolar de uma Trânsfuga...

Author: Ariana Cosme,Rui Trindade
Year: 2000
Source: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/21349/2/85301.pdf
a Página da
Educação
www.apagina.p
C ónica Escola de uma T âns uga...
Magda e a a p imogéni a da amília. O pai e a mo o is a de uma dis ibuido a de jo nais e e is as, a mãe e a
domés ica, mais po o ça da p eca iedade das ocupações que lhe iam su gindo do que po on ade p óp ia, e o seu
único i mão equen a a o qua o ano de escola idade na escola p imá ia da zona. A sua ida académica só
começa a, de ac o, a se á dua e di ícil a pa i do 10º ano que começa a a equen a pa a um dia pode i a se
en e mei a, p ojec o que acalen a a de o ma um pouco soli á ia, já que na amília ninguém sabia bem pa a que é
que a apa iga con inua a a i à escola.
Fize a o 1º Ciclo do Ensino Básico sem di iculdade, demons ando a é alguma queda pa a a ma emá ica e pa a a
esc i a. En en a a com sucesso o 2º Ciclo, embo a não deixasse de se o que uma das suas di ec o as de u ma
designa a po aluna mediana. F equen ou o 3º Ciclo sen indo as p imei as di iculdades sé ias a Inglês e algumas
di iculdades a His ó ia, enquan o nas es an es disciplinas man i e a a mesma bi ola de semp e. A opção que ize a
pelo ag upamen o 1 inha di ec amen e a e com o sonho de equen a o cu so de En e magem. Ten a a ugi do
Inglês, mas a escola não inha pa a lhe o e ece a opção F ancês e como nunca pensou na possibilidade de se
ma icula nou o es abelecimen o de ensino, decidiu que ha ia de se sa a dessa emb ulhada, al como se inha
conseguido desen asca com sucesso nou as si uações igualmen e a li i as. Os esul ados ob idos no 10º ano
pa ece am con i ma al palpi e. Consegui a não ep o a , à jus a, a Inglês, enquan o a sua média escola passou a
onda a casa dos 11 alo es.
No 11º ano as di iculdades aumen a am. No 1º pe íodo i e a nega i a a Inglês, a Filoso ia e a Físico-Química.
Consegui a um dez às es an es disciplinas e des oa a com um doze a T.L.Q. e um eze a T.L.B., g aças aos
ela ó ios que elabo a a em conjun o, num caso, com a Te esa e nou o com a Ana. Quando o 2º pe íodo se inicia a
sabia que se encon a a no limia de um desa io pessoal decisi o. Ou conseguia melho a as suas no as nega i as
ou co ia o isco de oma con a de um quiosque lá pa a os lados da Boa is a. Dias an es o pai pe gun a a-lhe,
mansinho, se es a ia dispos a a acei a esse emp ego, de que um dos seus clien es lhe inha alado po acaso.
Recusa a a p opos a, a gumen ando que se conseguisse aze o Ensino Secundá io e ia mais possibilidades de
encon a ou os ipos de emp ego, com ou as pe spec i as e melho emune ados. A é hoje nunca ep o ei,
po que é que não me deixam con inua a es uda ? Se com es a pe gun a inha a ce eza que conseguia ganha o
apoio da mãe e azia acila o pai na p e ensão de lhe a anja abalho à o ça, ambém sabia que no dia em que
não a pudesse aze , o seu des ino es a a açado, decidido po uma ocupação de e cei a ca ego ia num can o de
um shopping ou num supe me cado qualque . E isso e a o que ela não que ia. Olha a pa a a mãe, pa a as amigas
de in ância, pa a as suas izinhas e essa isão chega a pa a p essen i o que lhe es a a ese ado no u u o, caso
icasse com o Secundá io po aze . Ingenuamen e ac edi a a que o 12º ano a esga a ia de uma ida obscu a e
impiedosa, onde o p esen e deco e ao i mo de um o olo o em cujos alga ismos mágicos odos espe am ace a ,
en eco ado aqui e ali pelas aleg ias b e es e as ei as de uma i a que, po con e ocasionalmen e o núme o ce o,
pe mi e man e aco dada a espe ança num des ino abençoado algu es pela P o idência. Valesse o que alesse o
diploma do Ensino Secundá io, o ce o é que no caso de Magda esse mesmo diploma inha-se o nado na única
azão que jus i ica a aquela espécie de uga pa a a en e que a apa iga, de algum modo, sabia e começado a
emp eende . Nes e momen o não inha no as pa a en a numa escola de En e magem, mas isso já pouco lhe
impo a a. Vi ia o p esen e como se o u u o não exis isse, passo a passo, desb a ando di iculdades a a és de
odos os meios possí eis ao seu alcance. A seu empo e ia o que pode ia ob e com a média de um Ensino
Secundá io que espe a a, apesa de udo, ealiza . Assim, de aco do com a es a égia de genuína sob e i ência
que adop a a pa a o ealiza , inha-se p eca ido e decidido assumi algumas decisões undamen ais, em unção das
quais passou a o ien a a sua ida na escola.
Acolhe a-se, po isso, debaixo da asa p o ec o a da Ana e da Te esa. Já e a a companhei a de ambas nas
disciplinas que en ol iam abalhos labo a o iais ou abalhos de g upo. Assedia a-as cons an emen e pa a i a
dú idas e copia a po elas, o mais que lhe e a possí el. O di ec o de u ma, seu p o esso de Ciências da Te a e
da Vida, conhecia a sua ida de io a pa io, e ocada aqui e ali po alguns oques de maio d ama icidade,
necessá ios pa a compo um quad o su icien emen e ágico pa a me ece os bene ícios da piedade daqueles que
podiam decidi o umo das suas no as. A p o esso a de Inglês o e ece a-se pa a lhe da explicações de bo la, mas
ela não acei a a. Tinha abalho que chegasse e sob asse na escola, em casa e a é, po ezes, de mad ugada a
ajuda o pai a dis ibui jo nais pela cidade quando o ajudan e lhe al a a. Não p ecisa a po isso de e mais
abalho, p ecisa a de um dez eden o e es o ça a-se po ob ê-lo. Com a ajuda da Ana, o seu alen o pa a copia e
alguma indulgência po pa e da p o esso a ac edi a a que podia consegui uma no a posi i a. Pa a já inha de
consegui passa do cinco e do seis onde se a ola a nos úl imos es es pa a, pelo menos, um oi o que lhe ab isse as
po as da comp eensão da "s ô a" Helena. Em Filoso ia e em Físico-Química a a e a e a al ez mais complicada. A
Be a não admi ia copianços e, pa a além disso, não se como ia mui o acilmen e. Res a a-lhe a ác ica do elogio
sub il e de se capaz de p epa a algumas ques ões ce ei as pa a u iliza na sala. Não sabia se e a ácil azê-lo,
mas a Ana e a Te esa pa a alguma coisa se iam. Em Físico-Química não podia nem da mui a con iança à p o e
nem p o ocá-la como alguns dos seus colegas aziam. Apos a a na sua in isibilidade e no ac o da Física es a a
e mina pa a da o luga à Química, á ea onde acaba a, apesa de udo, po sob e i e melho . Na Ma emá ica e
no Po uguês sa a a-se com mais ou menos à on ade. É que o p o esso de Ma emá ica embo a se julgasse mui o
espe o, não passa a de um anso que se não conseguia descob i uma cábula mal amanhada, mui o menos
consegui ia apanha uma que osse bem ei a e ainda melho dis a çada. O homem ou azia de con a que não ia
ou e a mesmo cegue a de odo, ão ácil e a copia nos seus es es. Semp e o p e e ia à Judi e, a p o esso a de
Po uguês, que e a oda alinhas mansas, mui o comp eensi a com os alunos mas que, apesa daquele a de ada
mad inha, não da a baldas a ninguém. Punha-os a e ilmes, explica a udo com de alhe e a enção, a anja a-lhes
os apon amen os das aulas e a é inha em con a, na no a que da a no im de cada pe íodo, as classi icações que
eles, os alunos, ob inham nos abalhos ei os em g upo. Apesa disso, ob iga a-os a esponde a uns pon os com
pe gun as cheias de pala as esquisi as e com ci ações complicadas, e a exigen e na o ma como co igia as
espos as, pa a além de e a mania de aze es es di e en es, de modo a que os alunos não copiassem uns pelos
ou os. Se se sa a a em Po uguês e a po que apesa de udo lá conseguia sabe de co e sal eado os
apon amen os das aulas, conseguia a boleia das boas no as dos abalhos de g upo e, segundo a p o esso a, e a
capaz de alinha a duas ideias num ex o esc i o. O p o esso de Educação Física e a como que uma espécie de
ca a o a do ba alho. Não implica a com ninguém e a no a dele não con a a pa a nada.
Nes e a iscado jogo de es a égia, Magda não se sen ia an o como um peixe na água como, po ezes, pa ecia
que e da a en ende . Cada dia e a i ido, po si, como um dia mais ou menos decisi o. Cada p o esso cons i uía
um desa io ao qual e a necessá io da a melho ol a possí el. Cada colega e a a aliado em unção da u ilidade
que pode ia e . Apesa de não comp eende me ade das discussões e dos discu sos que ou ia da boca da Ana, da
Te esa ou do Ví o sabia, al ez melho do que eles odos jun os, qual o alo de me cado que essas mesmas
discussões e esses discu sos pode iam i a a ingi . Tinha ap endido, a inal, que a unção da escola não se a alia
pela u ilidade do que lá se ap ende, mas pela espe ança que o e ece a odos os que são capazes de papaguea , ou
de mos a que sabem papaguea , o que lá se ensina. Ac edi a a, po isso, no que cos uma a esponde à mãe
quando es a pe gun a a pa a que lhe se ia anda a es uda . De ac o, não me se e de nada se não pode
con inua a azê-lo.
Rui T indade/A iana Cosme
Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação - Uni e sidade do Po o