scieee Science in your language
[po] (orig)

A arte da prataria no Brasil e no Rio da Prata no período colonial: estudo comparativo

Read accessible full text

A arte da prataria no Brasil e no Rio da Prata no período colonial: estudo comparativo

Author: Maria José Goulão
Year: 1999
Source: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/1814/2/46574.pdf
A a e da p a a ia no B asil e no Rio de P a a no pe íodo colonial: es udo
compa a i o*
Ma ia José Goulão
(Faculdade de Belas A es da Uni e sidade do Po o)
GOULÃO, Ma ia José – A a e da p a a ia no B asil e no Rio de P a a no pe íodo colonial:
es udo compa a i o. Anales del Ins i u o de In es igaciones Es é icas. Vol. 21, nº 74, 1999, p.
135-145.
AREGIÃO DO RIO DA P a a, in eg ada nos e i ó ios da Co oa
espanhola, e o B asil, colónia po uguesa, man i e a, du an e odo o pe íodo
colonial, elações mui o es ei as a á ios ní eis. Es a si uação le a a que, em
mui as ocasiões, Buenos Ai es e a sua egião mais pa eçam um
p olongamen o na u al da colónia po uguesa do que uma zona i al. As
semelhanças en e ambas as egiões e elam-se não apenas no plano
geog á ico ou ao ní el das o mas de o ganização social e económica, mas
ambém no domínio cul u al e a ís ico, de al modo que, ao longo de á ios
séculos, encon amos nos enómenos de gos o e nas mani es ações a ís icas
da egião pla ina uma mui o maio ap oximação dos modelos luso-b asilei os
do que dos modelos impo ados di e amen e de Espanha, ou comuns a oda a
zona do Vice-Reino do Pe ú, onde o Rio da P a a se in eg a a polí ica e
ins i ucionalmen e. A acei ação dos modelos a ís icos luso-b asilei os, que
suplan am la gamen e a in luência pe uana ou espanhola, em que e com
oda uma si uação de in e dependência, que p ocu a emos explica e
ca ac e iza em b e es pala as.
A economia e a sociedade do Rio da P a a desen ol e am-se à ol a de dois
g andes cen os de a i idade colonial: o complexo minei o de Po osí e, mais
a de, o po o come cial de Buenos Ai es. Es a cidade o necia a igos de luxo
es angei os e esc a os neg os a Po osí, se indo ambém como um
impo an e cen o ilegal pa a a expo ação da p a a pe uana. Ob iamen e,
como á ea dependen e de Po osí, e o necedo a daquela cidade, a zona do Rio
da P a a man inha um desen ol imen o económico e social co esponden e ao
daquela egião.1
Desde a segunda e de ini i a undação da cidade de Buenos Ai es, em 1580,
da a, igualmen e, da união das duas co oas ibé icas, que es a modes a cidade
cos ei a, si uada numa zona inóspi a e desp o ida de iquezas na u ais, i eu
uma si uação de subal e nidade. A as ada da capi al do Vice-Reino do Pe ú,
onde se inse ia, e dependen e, pa a ins judiciais, da Audiência de Cha cas,
nada pa ecia p edes iná-la a um u u o b ilhan e. A implan ação de um po oado
nessa zona do es uá io do P a a es i e a essencialmen e dependen e de
conside ações es a égicas, e a cidade e a mais uma peça na de esa da zona
me idional dos e i ó ios de Cas ela, e na lu a pela sobe ania naquela egião.
Dep essa a egião oi esquecida pela go e nação espanhola, mais ocupada
com os e i ó ios a no e, onde se si ua a a on e máxima da iqueza, os
cen os minei os conside ados pelo ice- ei Toledo como os eixos onde andam
as odas de odo es e Reino, e a azenda que ossa Mages ade em.2
No en an o, apidamen e os habi an es da cidade, e sob e udo os po ugueses
da zona on ei iça, que logo desde o início passam pa a o Rio da P a a,
pe cebem o in e esse económico da egião, como ligação única e p i ilegiada,
pela ia a lân ica, ao in e io do ice- eino do Pe ú, e sob e udo ao al iplano
andino e às minas de p a a.
Po osí, O u o e la Paz e am abas ecidas po Buenos Ai es, em de imen o de
Lima e do po o de Callao, des inos o iciais dos na ios e ados pela Casa da
Con a ação de Se ilha. A maio pa e dos ês milhões de pesos p oduzidos
anualmen e em Po osí passa am a Buenos Ai es, e a as ezes se conseguia
encon a em Lima um peso po osino. Jun amen e com a p odução de O u o e
la Paz, Chile, Tucumán e Pa aguai, um o al de mais de 4 milhões de pesos
descia com des ino a Buenos Ai es. Des a quan ia, só ezen os mil pesos
iaja am pa a Espanha nos na ios de egis o. O es an e e a le ado pelos
po ugueses.3
A ab icação da p a a podia se in e ompida no es ado da “pinha”, quando o
me al b anco se ap esen a a sob a o ma de um pequeno pão de açúca . Com
duas pinhas, ob inha-se um lingo e. De ido à escassez c ónica de meios de
pagamen o no Pe ú, mui as ezes a pinha ci cula a, escapando à pesagem,
i ulação e ma cação, e ao a ecadamen o de ce ca de 20% da p odução (o
“quin o”). A p a a não quin ada podia ainda ap esen a -se ans o mada em
“p a a la ada” is o é, em obje os li ú gicos, joalha ia, baixela lisa e simples de
p a a ia colonial, usada na ida quo idiana. Pinhas e lingo es, quin ados ou não,
se i am de meio de pagamen o. A p a a não quin ada inha as suas co ações
e o seu me cado neg o, e salda a as aquisições ilegais com o B asil, que
escapa am ao con ole da Casa da Con a ação de Se ilha.4 Não é, pois, de
admi a a e e ência cons an e em es amen os b asilei os dos séculos XVII e
XVIII a eno mes quan idades des e me al, la adas e po la a .
Um bom exemplo da a i idade dos con abandis as luso-b asilei os é o caso do
bispo F ancisco de Vi ó ia, um come cian e po uguês, ing essado a diamen e
na o dem dos dominicanos, em Lima. Em 1577, na al u a de união das duas
co oas, ob ém de Filipe II o bispado do Tucumán. Chegado à egião em 1581,
apidamen e se con essa dececionado com a pob eza da sua ju isdição, mas
quando ai ao e cei o Concílio de Lima, em 1583, de ém-se na egião das
minas de p a a, e ape cebe-se da sua iqueza, e da excelen e posição
es a égica do Tucumán, a meio caminho en e o Al o-Pe ú e o A lân ico.
Ob ém da Audiência de Cha cas licença pa a come cia com o B asil, pa e de
Buenos Ai es, chega a São Vicen e, onde ica 26 dias, e daí uma à Bahía. Na
ol a, seis meses mais a de, pa a no Espí i o San o, no Rio de Janei o, em
São Vicen e. Em 1587, o bispo F ei F ancisco de Vi ó ia en ia pa a o B asil,
a a és dos seus ep esen an es, 1015 ma cos de p a a abalhada que
escapa am ao quin o eal, 215 ma cos de p a a b anca em lingo es sub aídos
à ma cação, e ou o. Em 1588, um dos seus ba cos, ca egado com 45 mil
pesos de p a a, pe de a sua ca ga na iagem pa a o B asil. No mesmo ano, os
seus de a o es denunciam ao ei a expedição de 30 000 pesos de p a a não
quin ada.5
O me cado Diogo Lopes de Lisboa oi igualmen e um dos elos impo an es nas
ansações do P a a com o B asil. Em 1591, passa daí pa a Buenos Ai es, e de
lá pa a o Tucumán, g angeando o una no comé cio. Casou em Lima, o que
lhe de e e abe o g andes possibilidades. A segui , muda-se pa a San iago
del Es e o, p o íncia do Tucumán, a meio caminho en e Po osí e Buenos
Ai es. Es endia as suas a i idades a San a é e Có doba. En iú a, eg essa a
Po ugal, e casa com uma senho a memb o de uma amília de judeus de
É o a. Com as condenações à oguei a de á ios memb os da sua amília,
Diogo Lopes oge no amen e pa a Buenos Ai es, ixando aí esidência com a
sua mulhe e ol ando aos negócios. Em 1614, ele e Diogo da Veiga a an e
con a an en el dicho pue o con naciones y na ios de la cos a del B asil e
Po ugal, e pa ece que ambém da Fland es. Mais a de, ing essa na ida
eclesiás ica, se indo-se das boas elações com o a cebispo, de quem e a
con esso p i ado, pa a p o ege os es an es po ugueses, espalhados ago a
po odo o ice- eino do Pe ú.6
A isi ação do inquisido Hei o Fu ado de Mendonça às capi anias b asilei as
do cen o-les e, em 1591, bene icia as capi anias do sul, não sujei as às
pe seguições aos judaizan es, e sob e udo o po o do Rio de Janei o, cuja
impo ância c esce, a olumando-se as ocas com o Rio da P a a. Me cado es
de ambas as egiões es abelecem-se nos dois po os, aumen ando as ocas
nos dois sen idos.7
Em 1594, é publicado o a o que echa o po o de Buenos Ai es ao comé cio
luso-b asilei o. A co oa espanhola, a a és do seu go e no cen al, p ocu a
ce cea o comé cio ilegal, obje o de inúme as queixas dos g andes
come cian es de Lima e de Se ilha, que êm o seu monopólio ameaçado. Daí
pa a a en e, só podiam a aca em Buenos Ai es os ba cos p o enien es de
Se ilha e en iados pela Casa da Con a ação. Mas a si uação de in enso
con abando e imig ação clandes ina man êm-se, de al modo que, já no século
XVII, num documen o ap esen ado po uma jun a ao ei, p opondo a c iação de
um ibunal da Inquisição no Rio da P a a, se denuncia la en ada de los de la
nación heb ea en las p o incias del Pe u po la ia de Buenos Ay es, já que
con iene i es muy necesa io assi pa a la pu eça de la eligion ca holica, como
pa a la conse azion empo al de las p o incias del Pe u y las ci cun ezinas
a aia quan o ue e posible la em ada y comunicacion que los ch is ianos
nuebos de la nacion heb ea de los eynos de Po ugal hazen po bia de Buenos
Ay es y po odo el Río de la Pla a[…] no solo po la mucha pla a que sacan y
me cade ias p ohibidas que me en po aquellas pa es.8
Em 1613, ha iam pa ido de Buenos Ai es á ios na ios com des ino ao B asil,
e dizia-se publicamen e na cidade que ol a iam com esc a os. Em 1614,
en a am no po o de Buenos Ai es 15 ou 16 na ios de a ibada, p oceden es
de Angola e do B asil. Em 1615, 13 ou 14 na ios en a am da mesma
manei a.9
Segundo José Gonçal es Sal ado , as o as mais u ilizadas, com os seus
cen os nas capi anias b asilei as, no Rio da P a a e em Angola, conjuga am
os po os dos espe i os li o ais en e si, o aleciam a unidade geopolí ica, que
lhes e a comum, e, ao mesmo empo, con ibuíam pa a omen a o in e cu so
de pessoas, de ideias e de p odu os de cada egião. A p óp ia cidade de
Buenos Ai es encaixa a-se melho na á ea po uguesa do que na cas elhana,
pelo menos economicamen e, e sob e udo enquan o du ou a união das duas
Co oas.10
Depois da sepa ação das co oas po uguesa e espanhola, em 1640, as
elações es ei as de in e dependência a ní el económico man êm-se, mesmo
se con a ia am abe amen e o clima de con li o a mado en e ambas as
po ências, nes a zona on ei iça.
No início do século XVII, os a ican es es abelecem ligações a Luanda: mui as
me cado ias que chega am ao e i ó io angolano e am des iadas pa a a
Amé ica espanhola, jun amen e com os esc a os, necessá ios pa a o abalho
nas minas do Pe ú. O go e nado in e ino de Angola, capi ão Manuel Ce ei a
Pe ei a, manda pa a Buenos Ai es, em menos de ês anos, seis na ios com
me cado ias e esc a os, sem licença. O seu sucesso , nomeado po Mad id, o
idalgo Manuel Pe ei a Fo jaz, une-se a um me cado judeu, e explo a uma
ede de negócios que en ol e a Península, as Caná ias, Angola, as Índias de
Cas ela, a Bahía e Pe nambuco. O a ican e Paulo Roiz ecebe esc a os e
ou as me cado ias de Angola, negoceia com Có doba, em in e mediá ios em
Buenos Ai es, em Tucumán e no Al o Pe ú. Os seus negócios es endem-se
desde o Pe ú a Buenos Ai es, B asil, Península Ibé ica e Países Baixos.11
A Colónia do Sac amen o, undada em 1680 pelos po ugueses, na ou a
banda, ace a Buenos Ai es, cedo se o na uma i al come cial des a cidade. O
es uá io a a essa a-se de ba co em apenas seis ho as de na egação, e essa
énue dis ância sepa a a o e i ó io po uguês do da co oa espanhola. A
Colónia ambém es a a numa posição p i ilegiada pa a se i a na egação
es angei a no es uá io, bem como a na egação lu ial ao longo da bacia do io
Pa aná. O po o po uguês a aía aos ecu sos pecuá ios da pampa u uguaia, e
as ca a anas de p a a que inham de Có doba pa a Buenos Ai es. Pequenos
ba cos passa am acilmen e de um po o pa a o ou o com bens de
con abando. Quando a Companhia dos Ma es do Sul (Sou h Sea Company)
pe deu a sanção o icial em Buenos Ai es, os na ios ingleses passa am
simplesmen e a a aca na Colónia, pa a ca ega em p a a e cou os. Um
a aque mili a espanhol à Colónia do Sac amen o, em 1762, su p eendeu aí 27
na ios me can es ingleses.12
Em 1707, en e os habi an es de Buenos Ai es encon a am-se muchas
pe sonas muy benemé i as así po su calidad y sang e como po sus se icios,
nie os y biznie os de po ugueses que inie on a pobla en iempo de los
seño es eyes don Felipe II, don Felipe III y don Felipe IV, eyes que ue on
legí imos de Po ugal en iempo en que es a co ona es aba unida a la de
Cas illa, y aunque después se le an ó es e eino, siemp e queda on los
e e idos y sus ascendien es debajo del asallaje de los dichos eyes cada uno
en su iempo con las mayo es demons aciones de amo y leal ad habiendo
omado las a mas con a la co ona de Po ugal en odas las ocasiones que se
han o ecido del eal se icioy especialmen e en los desalojos que se han
o ecido de los po ugueses que habi aban la nue a Colonia.13
Em 9 de julho de 1753, numa ca a ao minis o espanhol Dom José de Ca ajal
y Lancas e , azem-se á ias acusações con a os po ugueses: Son an os, an
c ecidos, an in e esados, an des e gonzados y an sin emo al Rey, las
in oducciones con inuas de la Colonia y pe mi idas con disolución po es os
O iciales eales que no es posible c ee lo a no es a p esen e. Os come cian es
da cidade acusados de cumplicidade nes e documen o e am odos
po ugueses: Ca los de los San os Balen e, Manuel de Oli e a B aga,
Ba olomé Jacin o de Qui oga e F ancisco Pé ez de Sa a ia.14
Em 1772, o o as ei o F ancisco Millau, de isi a a Buenos Ai es, diz o seguin e:
Hay es ablecido en Buenos Ai es un g an núme o de Po ugueses o
descendien es de ellos, que con o os muchos o as e os de esa nación
compond á como una cua a pa e de sus mo ado es. Se a ienen bien
gene almen e con ellos los demás na u ales, sin el epa o que es común en e
los ex anje os, o sea, po que su indus ia y habilidad en oda sue e de o icios
los hace allí muy ap eciables, o po que la abundancia del país no da luga a
que omen e en idia su adelan amien o o es ación.15
Também do lado po uguês há a consciência cla a da impo ância i al do
con abando. Em ca a do go e nado da Colónia do Sac amen o, An ónio
Ped o de Vasconcelos, ao ei, em 20 de ab il de 1732, a é ago a inédi a, pode
le -se o seguin e: Senho (…) co eo o negocio da ou a banda [Buenos Ai es]
com al ímpe o, e elicidade que se á a po ssão de p a a, na emessa des a
o a, muy a ul ada, ademi ando o consumo, que se em dado às copiozas
pa idas de azenda indas dessa co e, Pe nambuco, Bahia, e Ryo em
dezano e na ios en ados de odos os po os. E mui o mais ha e em ol ado
odos com ca ga, não obs an e a de iculdade do anspo e dos cou os, pella
in ini a dis ançia onde se acha o gado.16
Vemos, pois, como a sepa ação en e o Rio da P a a e o B asil pe du a a
apenas no plano polí ico. À ma gem dos o denamen os ju ídicos e polí icos,
impe a a uma ealidade social e económica de compene ação i me e de

indiscu í el simbiose, que os his o iado es de ambos os países êm
equen emen e igno ado.
O aje o de ba co en e Buenos Ai es e as cos as b asilei as incluía
no malmen e escalas em Pue o San Rod igo, San a Ca a ina, São F ancisco,
Cananeia, e depois, já em e i ó io b asilei o, em São Vicen e, São Sebas ião,
Ang a dos Reis, Rio de Janei o, Cabo F io, Bahia G ande, Espí i o San o e
Bahía de Todos os San os. Po essas egiões cos ei as e á en ado g ande
quan idade de p a a la ada e po la a , como é e e ido no ex o anónimo dos
Diálogos das G andezas do B asil, esc i o em 1618, onde se e e e que do Rio
da P a a cos umam na ega mui os pe ulei os em ca a elas, e ca a elas de
pouco po e, onde azem soma g ande de pa acas de qua o e de oi o eales, e
assim p a a la ada e po la a , em pinhas e em pos as, ou o em pó e em
g ãos, e ou o la ado em candeias, os quais apo am com es as coisas no Rio
de Janei o, baía de Todos os San os e Pe nambuco, e comu am as ais coisas
po azendas das so es que lhes são necessá ias, deixando oda p a a e ou o
que ouxe am na e a, donde o nam ca egados das ais azendas a aze
ou a iagem pa a o io da P a a.17
Es á ainda po aze o es udo ap o undado da o ma como es e comé cio
clandes ino com Buenos Ai es, ia Colónia do Sac amen o, e á e en ualmen e
in luenciado os e i ó ios b asilei os no que diz espei o às a es em ge al, e à
ou i esa ia em pa icula . Com e ei o, os obje os de p a a la ada e alguns
a igos de uso domés ico e eligioso p o enien es do Pe ú e Al o Pe ú que
de am en ada nos po os daquela colónia po uguesa con ibuí am ce amen e
pa a modela a eição de ce os ca a e es o iginais da a e ba oca b asilei a.
Igualmen e, sabemos que de Buenos Ai es se encomenda am mui os obje os
de p a a la ada ao B asil.18
É sob e udo na ou i esa ia, mais ligada a unções de ep esen ação social e
eligiosa, ao luxo, e po an o menos pe meá el a in luências locais de índole
popula ,19 que a ma ca de um ba oco e ococó e udi os, de o igem luso-
b asilei a, é mais no á el.
No início do século XVII, há no ícia da chegada dos p imei os ou i es lusi anos
a Buenos Ai es, alguns indos de Po ugal con inen al, ou os do B asil. A
análise dos censos, pad ões e es a ís icas pos e io es e ela que o seu núme o
oi ex emamen e signi ica i o, e mesmo possi elmen e bas an e supe io ao
egis ado, já que mui os a í ices luso-b asilei os p e e iam ocul a a sua
o igem, cla amen e indiciada nos apelidos. Em Buenos Ai es, os ou i es
po ugueses chega am a se supe io es, em núme o, aos de o igem espanhola:
em 1788, num o al de 46 ou i es egis ados, 24 dão-se como nascidos na
egião pla ina, 5 nasce am em Espanha, e 15 são o iginá ios de Po ugal e do
B asil.20
A p esença e a a i idade des es ou i es é e e ida na documen ação da época.
Em ca a do go e nado da Colónia do Sac amen o, An ónio Ped o de
Vasconcelos, ao ei, em 23 de ma ço de 1726, diz-se: Na ocazião em que se
pe deo a nau ca a ella nes e yo, hindo da a ou a banda os passagei os
nau agados, se deixou ica em Buenos Ay es hum ou i es po nome Joseph
dos Sanc os, que inha pa a es a P aça, es e se acha hoje ahy es abelecido
com bom p incipio, e como a e a o hospedou bem deu o dem a que sua
mulhe passasse das Ilhas ao Rio de Janei o, e daquella cidade a es a P aça, a
qual chegou há poucos dias com dous ilhos, e que endo con inua a iagem
pa a Buenos Ay es, em du ida se cabia na minha alçada, e como me pa esse
que não, e es ou a acado de empenhos pa a es e im, p incipalmen e de ou o
ou i es de bom p epozi o que aly há po nome Aleixo Al a ez em quem os
Po uguezes que passão a ou a banda achão um g ande agazalho, e
consegue a po seu espei o os mayo es negocios, en o a pedi a Vossa
excelencia com odo o enca ecimen o quei a da a licença que se me pede, e
manda ma expedi pella ia do Rio de Janei o no cazo que não saya dahy
emba cação pa a es e po o em empo b e e.21
No domínio da ou i esa ia, se a in luência po uguesa se exe ceu
essencialmen e a a és dos a is as lusos que passa am pa a Buenos Ai es, há
que eco da que quando o Vice-Rei Ceballos ocupou a Colónia, em 1777, o
p odu o do saque de odas as suas ig ejas oi dis ibuído pelos emplos da
capi al do Rio da P a a; uma pa e des es obje os de cul o, p oduzidos po
po ugueses e de ele ado alo a ís ico, man e e-se a é aos nossos dias em
Buenos Ai es e cons i uiu ce amen e uma on e de inspi ação pa a os p a ei os
locais. O li o de in en á ios do Mos ei o de San a Ca a ina de Sena de Buenos
Ai es em egis ados os seguin es obje os p o enien es dos emplos da Colónia
do Sac amen o: P ime amen e una c uz g ande de pla a con has a de
p ocesiones./ I em. O a de lo mismo pa a guión. / I em. Dos candelab os de lo
p op io./ I em. Una cus odia, de í em que puede se i de cálix./I em. Un cálix
de í em con su pa ena y cucha i a./ […] I em. Una lâmpa a de í em./ […] I em.
Cua o palias./[…]I em. Seis pu i icado es. / […] I em. Un juego de sac as.22
Da am do século XVIII, no qual a in luência po uguesa oi mui o ma can e,
á ias peças de ou i esa ia, maio i a iamen e des inadas ao cul o eligioso,
como píxides, ci iais, lâmpadas, ochei os, cálices, u íbulos, cus ódias, sac as,
na e as, co oas, e c. Algumas, a as, ap esen am ma cas de ou i es
b asilei os, a i os no Rio de Janei o.
As es an es li ú gicas são um dos obje os que espelham de o ma mais o iginal
es a in luência, no inal do século XVIII. Conse am-se em Buenos Ai es alguns
exemplos com as o mas e o namen ação do mobiliá io de es ilo D. José, mui o
ap eciado na egião. Em 1773, o iajan e Concolo co o, ao desc e e Buenos
Ai es, não deixa de aze e e ência ao gos o pelo mobiliá io luso-b asilei o em
madei a de jaca andá: Hay pocas casas al as, pe o unas y o as bas an e
desahogadas y muchas bien edi icadas, con buenos muebles, que hacen ae
de la ica made a del janei o, po la Colonia de Sac amen o.23
T a a-se de peças com ele ado peso de p a a, undidas, epuxadas e
cinzeladas, ap esen ando deco ação ocaille, ema es assimé icos e pés
elegan es, com dupla cu a u a, que epe em a o ma ca ac e ís ica dos “pés
de cab a” do mobiliá io da época.
Todas es as peças são ob as impo an es pa a o con ex o local, com g ande
peso de p a a, e pa ecem co esponde a encomendas signi ica i as po pa e
da hie a quia da Ig eja, ou a doações laicas de ul o. No seu conjun o,
ap esen am um g ande p imo de execução e uma boa qualidade écnica, que
co espondem a pad ões eu opeus, e p o am que mui os a í ices nascidos e
educados em Po ugal ou no B asil ansmi i am aos seus ap endizes as
o mas e os p ocessos de abalho aí assimilados. São peças de con o nos
mui o ma cados, com o mas e inadas e uma o namen ação exube an e,
azendo co po com o obje o, onde abundam as olu as, os concheados as
cabeças de que ubim, e oda uma iconog a ia e udi a. A in luência da g amá ica
deco a i a luso-b asilei a ba oca e ococó dema ca es es obje os da es an e
p odução local, e sob e udo da que e a en iada do Al o Pe ú.
A a és de uma análise o mal compa a i a de ob as de p a a ia conse adas
em coleções e museus b asilei os, nomeadamen e no Museu A quidiocesano
de Ma iana, no Museu Minei o de Belo Ho izon e, no Museu do Ou o de
Saba á e na coleção de Má cia Mou a Cas o, de Belo Ho izon e (Minas
Ge ais), bem como de peças da coleção da A quidiocese de Olinda e Reci e,
do Mos ei o de São Ben o de Olinda, e de J. Maciel Ne o, Reci e
(Pe nambuco), e do Museu Ca los Cos a Pin o, do Sal ado (Bahia), com as
suas congéne es iopla enses, p ocu a emos demons a isualmen e como, no
campo das a es deco a i as, se e i icou uma cla a acei ação dos pad ões
es é icos po ugueses, pela ia luso-b asilei a, em de imen o da in luência
pe uana ou al ope uana.
A co en e de gos o c iada acompanha, aliás, o p óp io luxo mig a ó io, mui as
ezes clandes ino, dos po os b asilei os pa a Buenos Ai es, e põe em causa o
clássico modelo eó ico cen o-pe i e ia, que assen a mais em conside ações
polí ico-económicas do que na análise dos enómenos da a e e da cul u a.
Assim, pode íamos a i ma que, se pensássemos num mapa das p o íncias
a ís icas pa a o século XVIII na Amé ica do Sul, e a endendo es i amen e ao
campo das a es deco a i as, a zona co esponden e ao Rio da P a a mais
acilmen e in eg a ia a egião do B asil do que o Sul e Les e da Amé ica do Sul,
se segui mos a di isão p opos a po Geo ge Kuble .
1Jona han C. B own, A socioeconomic his o y o A gen ina, 1776-1860, Camb idge, Camb idge
Uni e si y P ess, 1979, pp. 9-10.

2Ci ado po C is ina Es e as Ma ín, “Ap oximaciones a la pla e ía i einal hispanoame icana”,
em Ramón Gu ié ez (coo d.), Pin u a, escul u a y a es ú iles en Ibe oamé ica, 1500-1825,
Mad id, Cá ed a, 1995, p. 381.

3Rica do Le ene, In es igaciones ace ca de la his o ia económica del i eina o del Pla a, La
Pla a, 1928 (ci . po En ique M. Ba ba, Sob e el con abando de la Colonia del Sac amen o
Siglo XVIII), “In es igaciones y Ensayos”, Buenos Ai es, nº 28, Janei o-Junho 1980, p. 61.

4C . Ma ie Helme , Comé cio e con abando en e a Bahía e Po osí no séc. XVI, “Re is a de
His ó ia”, São Paulo, Ano IV, nº 15, Julho- se emb o 1953, pp. 205- 206.
5C . Idem, ob. ci , pp. 196-199 e 209.
6 José Gonçal es Sal ado , Os c is ãos-no os e o comé cio no A lân ico me idional (com
en oque nas capi anias do Sul 1530-1680), São Paulo, Li a ia Pionei a Edi o a, 1978, p. 68.
7 Idem, ob. ci ., pp. 66-67.
8 A chi o Gene al de Indias, Se illa - Indi e encia Gene al - Reales Dec e os - Años 1618 a
1624 - Es . 140- Caj. 3 Leg. 10 ( ansc i o em José To e Re ello, Nue os da os pa a el es údio
de la Inquisición en el Río de la Pla a (con apéndice documen al), Buenos Ai es, Casa Edi o a
Coni, 1930, pp. 22-23.

9Idem, “Un con abandis a del siglo XVII en el Río de la Pla a”, Re is a de His o ia de Amé ica,
Ins i u o Paname icano de Geog a ía e His o ia, México, nº 45, junio 1958, p. 124.

10José Gonçal es Sal ado , Os c is ãos-no os e o comé cio no A lân ico me idional (com
en oque nas capi anias do Sul 1530-1680), São Paulo, Li a ia Pionei a Edi o a, 1978, p. 337.

11Idem, ob. ci ., pp. 367-368 e 369.
12Jona han C. B own, ob. ci ., p. 26.
13A chi o Gene al de la Nación, Acue dos, sé ie II, . I, pp. 580 a 612 (ci . po José To e
Re ello, La sociedad colonial (Páginas sob e la sociedad de Buenos Ai es en e los siglos
XVI y XIX), Buenos Ai es, Pannedille, 1970, p. 171).

14C . En ique M. Ba ba, Sob e el con abando de la Colonia del Sac amen o (Siglo XVIII),
“In es igaciones y ensayos”, Buenos Ai es, nº 28, Janei o-Junho 1980, pp. 59-60.

15F ancisco Millau, Desc ipción de la p o incia del ío de la Pla a (1772) (ed. y es údio
p elimina de Richa d Kone zke), Buenos Ai es, Espasa-Calpe A gen ina, s/d, p. 43.

16A qui o His ó ico Ul ama ino, Lisboa - No a Colónia do Sac amen o-Caixa 3-Doc. 41, l. 1.
17Diálogos das g andezas do B asil, Rio de Janei o, ed. Academia B asilei a, 1930, p. 144.
