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Continuidade e Rupturas Historiográficas: O caso português num contexto peninsular (c.1834 - c.1940)

Abstract

Na modernidade difundiu-se na escrita da história uma exigência de distanciação crítica (que aliás não era nova) em relação às fontes e ao próprio objecto de estudo, quando não um corte entre presente e passado. Mas o presente irrompe a cada passo no trabalho do historiador que sempre selecciona temas, problemas, balizas temporais, conceitos, interpretações - mesmo quando alimenta a ilusão de que, no seu trabalho, reconstitui ou ressuscita o passado tal como teria sucedido. Neste sentido, quem investiga e escreve um trabalho historiográfico não pode evitar que também a sua prática se situe num tempo específico, tenha uma historicidade. O historiador não está fora da história. Também não está no tempo a que se refere a sua narrativa, como poderiam sonhar alguns: tem por isso que lidar com a alteridade. E, naturalmente, todas as sociedades humanas, todos os indivíduos cultivam atitudes diferenciadas em relação ao passado. Centrando-me no caso português e estabelecendo nexos com outras culturas históricas europeias, pretendo neste texto 1. Caracterizar dois momentos em que, no campo historiográfico, se afirmaram intenções de ruptura com o passado próximo e em que se delinearam projectos de futuro, estabelecendo uma relação entre história e Res publica. Não esquecendo que as intenções de corte com o passado próximo exprimem por vezes vontade de regressar a um passado mais distante (caso do medievalismo dos historiadores românticos). 2. Situar as mudanças que se operaram nos dois últimos séculos na escrita da história numa escala transnacional, europeia mas sobretudo peninsular.

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Continuidade e Rupturas Historiográficas: O caso português num contexto peninsular (c.1834 - c.1940)

Author: Matos, Sérgio Campos
Publisher: Centro de História da Universidade de Lisboa
Year: 2017
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/34642/1/Historiografia%20e%20Res%20Publica%202017_Campos%20Matos.pdf
Sé gio Campos Ma os & Ma ia Isabel João (o gs.)
HISTORIOGRAFIA E RES PUBLICA
Lisboa
Cen o de His ó ia da Uni e sidade de Lisboa
Cen o de Es udos das Mig ações e das Relações In e cul u ais da Uni e sidade Abe a
2017
Sé gio Campos Ma os & Ma ia Isabel João (o gs.)
NOS DOIS ÚLTIMOS SÉCULOS
Tí ulo | Ti le
His o iog a ia e Res Publica
Nos dois úl imos séculos
Di ecção da Colecção | Se ies Edi o s
Sé gio Campos Ma os & Co adonga Valdaliso
O ganização | O ganisa ion
Sé gio Campos Ma os & Ma ia Isabel João
Edi o | Edi o
Sé gio Campos Ma os
Assis en es de Edição | Edi o ial Assis an s
Gonçalo Ma os Ramos, Rica do de B i o
Comissão Edi o ial | Edi o ial Boa d
Luís Filipe Ba e o, Valdei A aújo
Capa | F on co e
De alhe da ep esen ação da Di ina Comédia de Dan e Alighie i. Almada Neg ei os, 1961. Pó ico da en ada da
Faculdade de Le as. A e pa ie al, g a u as incisas colo idas sob e pa ede e es ida a can a ia de calcá io, Faculdade
de Le as da Uni e sidade de Lisboa. Fo og a ia de A mando No e.
F on ispício | F on ispiece
De alhe de Cabeça Mecânica (O Espí i o da Nossa E a). Raoul Hausmann, c. 1920. Mon agem. Pa is, Musée Na ional
d’A Mode ne, Cen e Pompidou.
Con a-capa | Backco e
Musa (Clio?) lendo um uolumen. Pin o de Klügmann, c. 435-425 BCE (Beócia?). Leky hos, ce âmica á ica de igu as
e melhas, Museu do Lou e, CA 220.
His o iog a ia – His ó ia Con empo ânea – Memó ia | 930(469) MAT,S
Edi o a | Publishe
Cen o de His ó ia da Uni e sidade de Lisboa & Cen o de Es udos das Mig ações e das Relações In e cul u ais da
Uni e sidade Abe a | 2017
Concepção G á ica | G aphic Design
B uno Fe nandes
Imp essão G á ica | P in ing Shop
Se sili o-Emp esa G á ica Lda.
ISBN 978-989-8068-22-4
Ti agem 300 exempla es
P.V.P. 15.00€
Cen o de His ó ia da Uni e sidade de Lisboa | Cen e o His o y o he Uni e si y o Lisbon
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ÍNDICE
SOBRE A ESCRITA DA HISTÓRIA NOS DOIS ÚLTIMOS SÉCULOS
Sé gio Campos Ma os e Ma ia Isabel João
I – HISTÓRIA, TEMPO, CIDADANIA
O HISTORIADOR NA CIDADE: HISTÓRIA E POLÍTICA
Fe nando Ca oga
HISTOIRE GLOBALE, HISTOIRE NATIONALE?
COMMENT RÉCONCILIER RECHERCHE ET PÉDAGOGIE
Ch is ophe Cha le
AS FORMAS DO PRESENTE.
ENSAIO SOBRE O TEMPO E A ESCRITA DA HISTÓRIA
Temís ocles Ceza
CONTINUIDADES E RUPTURAS HISTORIOGRÁFICAS:
O CASO PORTUGUÊS NUM CONTEXTO PENINSULAR (C.1834 - C.1940)
Sé gio Campos Ma os
II – DIRECÇÕES DE ESTUDO
MODERNIZAÇÃO E BLOQUEIOS:
PROBLEMAS DO DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO
NA MEMÓRIA HISTÓRICA
José Luís Ca doso
A HISTÓRIA SOCIAL EM PORTUGAL (1779-1974)
ESBOÇO DE UM ITINERÁRIO DE PESQUISA
Nuno Gonçalo Mon ei o
ESPIRITUALIDADE E RELIGIÕES:
UNIVERSOS DE MOTIVAÇÃO E DE CRENÇA
An ónio Ma os Fe ei a
11
25
27
89
115
131
161
163
183
203
AS MIGRAÇÕES NA HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA (1779-1974)
Jo ge Fe nandes Al es
O IMPÉRIO E AS SUAS METAMORFOSES NA HISTORIOGRAFIA
Diogo Ramada Cu o
A HISTORIOGRAFIA NO ÂMBITO DOS ESTUDOS REGIONAIS
Ma ia Isabel João
III – PERIODISMO E HISTÓRIA
HISTÓRIA, OPINIÃO PÚBLICA E PERIODISMO
José Augus o dos San os Al es
DIVULGAR O CONHECIMENTO HISTÓRICO
AS PUBLICAÇÕES COLECTIVAS DA ACL SOB O LIBERALISMO (1820-1851)
Daniel Es udan e P o ásio
O CONTRIBUTO D’O PANORAMA NA DIVULGAÇÃO HISTÓRICA
EM PORTUGAL NO SÉCULO XIX (1837-68)
Rica do de B i o
DIFERENTES CONCEPÇÕES DE HISTÓRIA NA VÉRTICE
DURANTE O ESTADO NOVO (1942-1974)
José de Sousa
OS ARQUIVOS DO CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS (1969-1993):
UMA “COLECTÂNEA ERUDITA” AO SERVIÇO DA HISTÓRIA
And eia da Sil a Almeida
A HISTÓRIA DE PORTUGAL NA SEARA NOVA:
A BUSCA NO TEMPO PASSADO PARA A CONSTRUÇÃO
DE UM PRETENDIDO FUTURO
Joaquim Rome o Magalhães
217
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253
283
285
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135
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in ocando como causas o despo ismo, o ca olicismo da con a- e o ma (Inquisição,
expulsão dos judeus) e a expansão no ul ama . Po seu lado, La uen e em um
pon o is a mui o c í ico em elação à Inquisição e à expulsão dos Judeus, mas apaga
uma esponsabilidade dos eis nas polí icas adop adas a es e espei o. No campo
do adicionalismo po uguês hou e quem negasse a possibilidade de se p o a que
i esse ha ido decadência. Fundamen almen e p ocu a a nega -se que o século
XVII osse um empo de decadência como suge ia a his o iog a ia libe al e, já nos
anos 20, o ensaís a An ónio Sé gio9. O que implica a uma e isão da unção do
ibunal da Inquisição – ago a is o mui o posi i amen e como ac o de unidade
e de pu i icação nacional em elação a he esias – da Companhia de Jesus, da Ig eja
da Con a-Re o ma e da acção dos mona cas que ha iam expulsado os judeus e
in oduzido a Inquisição (os eis ca ólicos e D. João III). No en an o, o século
XVII e a o empo de a i mação do jusna u alismo mode no, do neo- omismo e da
segunda escolás ica, bem como da oga da eo ia da o igem popula do pode eal
e das es ições aos excessos do pode despó ico da mona quia ibé ica10. Do lado
espanhol, pa a Menéndez Pelayo a g andeza da Espanha assen a a na de esa da
é ca ólica como essência da nação e da mona quia adicional do An igo Regime
(dos Reis Ca ólicos e dos Áus ias). O declínio e ia esul ado das de o as mili a es,
e sob e udo da acção daqueles que inham queb ado a unidade c is ã: anglicanos,
p o es an es, a F ança dos Bou bons 11. Pa a mui os au o es adicionalis as, o
declínio da Espanha inha começado no século XVIII, com a disseminação das
ideias do Iluminismo e o despo ismo escla ecido. Também pa a adicionalis as
po ugueses como An ónio Sa dinha e os seus companhei os de A Nação Po uguesa
assim o a, no espei an e a Po ugal.
No que espei a a ópicos undamen ais como a explicação da o mação dos
Joel. Lisboa: INCM, s.d., pp.255-296.
9 SÉRGIO, An ónio − “O Reino cada e soso ou o p oblema da cul u a em Po ugal”, Ensaios II. Lisboa:
Sá da Cos a, 1977 ( ex o da ado de 1926), pp.27-57. Pa a ese adicionalis a, negando que i esse ha ido
decadência, eja-se MÚRIAS, Manuel − O Seiscen ismo em Po ugal, Lisboa: s.n., 1923, p.21. O que da ia luga
a uma polémica en e o in eg alis a Manuel Mú ias e o acionalis a An ónio Sé gio. Anos depois, Má io de
Albuque que, na sua ese de dou o amen o ap esen ada na Uni e sidade de Lisboa ambém po ia em causa
o concei o de decadência, c . O signi icado das na egações e ou os ensaios. Lisboa, s.n., 1930.
10 Veja-se Ped o CALAFATE, Ped o e MANDADO, Ramón E. − “In odução”, Escola Ibé ica da Paz 1511-
1694. San ande : Ed.Uni e sidad Can ab ia, 2013, pp.112-154.
11 ANDRÉS-GALLEGO, José − “El p oblema (y la posibilidad) de en ende la His o ia de España », His o ia
de la his o iog a ia española. Mad id: Ed. Encuen o, 1999, p.303.

136 his o iog a ia e es publica
es ados e nações, a eo ia da decadência ou os concei os de adição e p og esso, as
na a i as libe ais e as na a i as adicionalis as e conse ado as con igu a am em
la ga medida isões an agónicas do passado. E se as p imei as domina am la gamen e
no século XIX, a pa i dos inais des e século, nacionalismos é nicos en ão mui o
em oga es imula am usos his o icis as e e ospec i os de concei os como pá ia,
nação, aça, p og esso, degene escência (en e ou os) que, embo a não ossem no os,
se usa am ago a no quad o de discu sos polí icos an ilibe ais, an idemoc á icos e
an ipa lamen a es. Pode -se-á dize que hou e lei u as e isionis as, ou ão-só de
e isões do passado?
A noção de e isionismo oi impo ada do ocabulá io polí ico e con ém,
nes e con ex o, exp imi p e enções c í icas a seu espei o. Segundo Enzo
T a e so, pe an e os abusos de algumas das suas oco ências de e p ecisa -se o
seu signi icado endo em con a os con ex os especí icos em que é emp egue. Na
e dade, há um juízo de alo nes a pala a que é um aná ema. Quando se alude a
e isionismo não a o p essupõe-se uma “his ó ia o icial”. Como suge e T a e so,
ala de e isionismo eme e pa a uma his ó ia de “ eologizada”. É po isso que
es e his o iado conside a a noção de e isionismo “al amen e p oblemá ica e,
mui as ezes ne as a”12. Comp eende-se pois que di e sos his o iado es enham o
cuidado de di e encia e isionismo de e isão do passado13. Re isão é e-análise
das on es pa a o es udo do passado, à medida que no as in es igações a isso ão
ob igando, o que ob iga a uma elei u a his o iog á ica, e en ualmen e com no a
in o mação, po ezes ambém numa di e en e pe spec i a eó ica. Re isionismo
é elei u a ou ein e p e ação do passado, comandada po negacionismos - ou seja
negando acon ecimen os como o Holocaus o ou a p imei a iagem do homem à
lua, ge almen e no âmbi o de ideologias sec á ias, exclusi is as e dogmá icas. Se
é ce o que o es udo do campo his o iog á ico não pode eduzi -se a ca ego ias
polí icas que di e enciam di e en es sec o es polí icos e ideológicos14, con ém en ão
12 TRAVERSO, Enzo − Le passé, modes d’emploi. His oi e, mémoi e, poli ique. Pa is : Ed. La Fab ique, 2005, p. 109 e
119. Uma ou e pe spec i a: HUGHES-WARRINGTON, Ma nie Re isionis his o ies, New Yo k-Abingdon:
Rou ledge, 2013.
13 Po exemplo, TUCKER, A ieze − “Re isión his o iog a ica y e isionismo. Di e gencias en la
conside ación de la e idencia”, FORCADELL, Ca los PEIRÓ, Ignacio y YUSTA, Me cedes (eds.) − El
pasado en cons ucción...,p. 31 e RUIZ TORRES, Ped o − “La con o e sia de los his o iado es sob e la
memo ia his ó ica en España”, Idem, p. 94.
14 Na e dade, em his ó ia da his o iog a ia es a p oblemá ica da elação en e campo his o iog á ico e campo
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pe gun a que aplicação pode e a noção de e isão do passado ao século que
medeia en e os decénios de 1840/50 e os anos 40 do século XX – en e o momen o
He culano e o momen o do In eg alismo Lusi ano?
O momen o He culano
As condições da esc i a da his ó ia so e am p o undas ans o mações, na
passagem da sociedade do Ancien Régime pa a a mode nidade: a e olução libe al
in oduziu uma consciência de up u a, de descon inuidade. A i mou-se a pe cepção
de que esse empo de i agem, que coincide com a e a das e oluções (dos inais do
séc. XVIII às p imei as décadas do século XIX), co espondeu a uma acele ação da
elocidade das mudanças15. Ka l Jaspe s e e iu-se a um no o ipo de consciência
his ó ica a pa i da época da Re olução F ancesa: a do empo p esen e, po
oposição a ou os empos, an e io es à e olução. Em F ança e nou os países, os
his o iado es assumi am a unção social de ideólogos da consciência nacional16.
E pode -se-á dize que hou e épocas de con inuidade e up u a com o passado:
e omo aqui uma pe inen e dis inção que O ega y Gasse es abeleceu nos modos
como di e en es ge ações se elacionam com o passado, os modos como se
polí ico em sido po ezes mal en endida. Alguns his o iado es limi a am-se a classi ica os seus an ecesso es
(e os seus con empo âneos) median e ca ego ias polí icas. Como se as na a i as his ó icas pudessem
subsumi -se à ca ego ia de g andes opções polí icas. Di undi am-se ca ego ias como “his o iog a ia
libe al”, “his o iog a ia epublicana”, “his o iog a ia adicionalis a”, “his o iog a ia ca ólica conse ado a”,
“his o iog a ia do Es ado No o”. G osso modo, pode -se-á es abelece es e ipo de classi icações, eu
p óp io a elas enho eco ido. O que se a igu a edu o é limi a o es udo do pensamen o his ó ico e da
his o iog a ia a ipologias polí icas. É que, de ac o, elas podem se equí ocas, sob e udo se nos cen a mos
no e eno das eo ias e p á icas his o iog á icas. Hou e adicionalis as em e mos polí icos que o am
ino ado es: lemb em-se os casos de Lúcio de Aze edo – que deu um con ibu o ele an e pa a eno ação
da his ó ia económica (po exemplo, no que espei a aos concei os de mona quia ag á ia e de ciclo) e Abúndio
da Sil a (A his ó ia a a és da his ó ia, 1903), que in oduziu em Po ugal os concei os de memó ia o gânica (no
po o, ao ní el do ins in o) e memó ia consciência (no escol social). Em Espanha, o adicionalis a Menéndez
Pelayo é unanimemen e conside ado um g ande his o iado , au o de uma ob a ma can e a di e sos í ulos.
E, ol ando a Po ugal, em 1970, inespe adamen e, um his o iado de o mação ma xis a, An ónio Bo ges
Coelho, desen ol eu uma c í ica a Vi o ino Magalhães Godinho que incide no alegado “economismo” de
alguns ensaios des e úl imo his o iado . Os ó ulos é o que menos in e essa em his ó ia da his o iog a ia
( eja-se Ques iona a His ó ia, ol.I, Lisboa: Ed.Caminho, 1983, pp. [ ex o o iginalmen e na Sea a No a, nº1494,
Ab il de 1970] e a espos a de Magalhães GODINHO em “P e ácio”, Ensaios III, Lisboa: Sá da Cos a, 1971,
pp.XI-XXXII).
15 Sob e es a p o unda mu ação, eja-se FERNÁNDEZ SEBASTIÁN, Ja ie “Cabalgando el co cel del diablo.
Concep os polí icos y acele ación his ó ica en las e oluciones hispánicas”, Concep os polí icos, iempo e his o ia:
nue os en oques en his o ia concep ual, coo d. po FERNÁNDEZ SEBASTIÁN e CAPELLÁN DE MIGUEL,
G. San ande : McG aw Hillm – Uni e sidad de Can ab ia, 2013, pp.423-462
16 NORA, Pie e − P ésen , na ion, mémoi e. Pa is : Gallima d, 2011, p. 377.
138 his o iog a ia e es publica
elaciona a he ança do passado com aquilo que é p óp io de uma ge ação. Nes a
pe spec i a, O ega di e encia “épocas cumula i as” (de con inuidade) e “épocas
elimina ó ias ou polémicas” (de up u a) – ge ações de comba e17. São endências
ge ais que, e iden emen e, não ab angem odos os au o es. Toda ia, a dis inção é
ú il na iden i icação de duas conjun u as em que de e minados au o es in en a am
ins au a um co e com a consciência his ó ica dominan e: o momen o He culano
e o momen o do In eg alismo Lusi ano.
Nessa p imei a conjun u a (decénios de 1840-50), a in luência de ou as
his o iog a ias eu opeias é bem pa en e, especialmen e da his o iog a ia ancesa
cuja in luência oi dominan e na Penísnsula Ibé ica (Augus in Thie y, Guizo ), mas
ambém da his o iog a ia alemã (Moese , Humbold , Niebhu , Sa igny, Ranke),
sem esquece oda ia a ma ca do omance his ó ico b i ânico. No e-se que po essa
época, após a p imei a gue a ci il em Espanha e Po ugal, en a a cons ui -se na
península es ados cen alizados e uni á ios, de inspi ação ancesa. Em Po ugal,
alguns his o iado es mos a am-se mui o c í icos em elação a es e modelo, adep os
do municipalismo, da descen alização (He culano, Pinhei o Chagas) e alo izando
a expe iência dos municípios medie ais como o an ecesso a da democ acia
mode na. Mas não em Espanha Modes o La uen e, que e a um seguido de um
es ado cen alizado. O momen o libe al do século XIX, numa p imei a e apa, pa a
os anos de 1840-50, os es ados peninsula es saídos de sang en as gue as ci is
en e libe ais e absolu is as, es a am en ol idos em p ocessos de cons ução da
nação-es ado, en ol endo p oje os de mode nização. He culano a gumen a a em
p ol da necessidade de uma his ó ia c í ica, com base em documen os, longe das
adições mí icas que inham dominado no an igo egime. Embo a os his o iado es
con inuassem a se au odidac as, sem o mação especí ica, o seu abalho já se
legi ima a usando equisi os heu ís icos e he menêu icos que di e encia am
cla amen e a his ó ia da li e a u a e da e ó ica. Nes e con ex o comp eende-se a
ejeição dos an igos mi os de undação ( adições de Ou ique, Túbal, e Lusi anos)
17 ORTEGA Y GASSETT − El ema de nues o iempo. Mad id: Calpe, 1923, pp.24-26. E iden emen e, a
pe spec i a de O ega é discu í el, sob e udo quando iden i ica es as épocas, espec i amen e, com
“sene ude” e “ju en ude” - essonâncias de um en anhado o ganicismo. E, como é sabido, a sua eo ização
do concei o de ge ação, que e igiu em “mé odo his ó ico” (que an o ma cou o jo em Fidelino de Figuei edo),
oi subme ida a uma pe inen e e isão c í ica em que se des acam con ibuições ão di e sas como as de
Julian Ma ias ou Manuel Tuñon de La a.
139
lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
que en o ma am uma “his ó ia abulosa”. A up u a polí ica com o passado
en ol ia uma up u a com a sua memó ia ei a, em la ga medida, de adições
mí icas e de um sen ido de excepcionalidade pá ia que passa a pelo jusdi inismo
e pelo p o idencialismo.
Numa mudança de pa adigma em que a his ó ia se au onomizou como
disciplina comandada po um mé odo c í ico, He culano assumiu um papel
lide an e. Tinha começado a sua ac i idade como omancis a, poe a e jo nalis a.
Só num segundo empo se o nou his o iado – acaba a de le Thie y e Guizo ,
e os his o iado es alemães. E com ele a i ma am-se g andes ca ac e ís icas da
his o iog a ia libe al: uma in enção nacionalizado a elacionada com su gimen o
de uma no a o dem – a do es ado libe al – uma acionalidade secula baseada nos
concei os de pá ia, nação e o p og esso, e, acima de udo, um sen ido de au onomia do
au o -his o iado em elação aos pode es ins i uídos, bem e iden e na consciência
c í ica que o his o iado cul i ou em elação ao seu empo. Na explicação da
independência de Po ugal ope a a uma o ação de g ande signi icado: uma
legi imidade acional – a on ade polí ica da eli e que acompanha a D. A onso
Hen iques - subs i uía uma legi imidade adicional, dinás ica. He culano in e ompe
a sua His ó ia de Po ugal no inal do século XIII pa a dedica -se à His o ia da o igem e
es abelecimen o da Inquisição em Po ugal (3 ols., 1854-59)18. Es a úl ima e a uma ob a
de in encionalidade p agmá ica e polí ica, em que que ia iden i ica as causas e as
consequências da acção do T ibunal sob e a sociedade po uguesa do século XVI.
Não hou e em Po ugal, no século XIX, nenhuma al e na i a a es e abalho -
nenhuma e são apologé ica e desen ol ida da Inquisição p o enien e do campo
ca ólico e conse ado . Nem hou e nenhum his o iado ca ólico adicionalis a da
es a u a de Balmes, Donosco Co és ou de um Menéndez Pelayo em Espanha. O
que, como bem obse ou Edua do Lou enço, não deixa ia de e consequências
pa a o u u o 19.
Em nome de uma his ó ia da nação e das g andes endências do seu
desen ol imen o, He culano, bem como La uen e, inha a in enção de deixa a
18 Veja-se MACEDO, Jo ge Bo ges de − “A en a i a his ó ica ‘Da o igem e es abelecimen o da Inquisição
em Po ugal’ eas insi ências polémicas”, His o ia da o igem e es abelecimen o da Inquisição em Po ugal, .1. Lisboa:
Be and, 1975, pp.XL-XLII.
19 LOURENÇO, Edua do, Cul u a e polí ica na época ma celis a. En e is a de Má io Mesqui a, Lisboa: Cosmos, 1996 [1972], pp.43-44.
140 his o iog a ia e es publica
dimensão indi idual e ac ual20 pa a en ende as g andes ans o mações his ó icas.
Toda ia nem semp e o conseguiu ou quis: eja-se po exemplo a sua explicação
ace ca da sepa ação polí ica de Po ugal, cen ada na on ade da eli e que odea a
o p imei o ei po uguês. Ou o modo como alo iza his o icamen e o papel de
alguns dos mona cas da p imei a dinas ia. De qualque modo, o au o da His ó ia
de Po ugal exp ime assim uma in enção de up u a com a his o iog a ia an e io que
undamen a a o An igo Regime polí ico21. Mas não deixa de con inua os es o ços
de his o iado es ligados à Academia Real das Ciências como João Ped o Ribei o
e An ónio Cae ano do Ama al22. Num sen ido es i o, de He culano não ica am
discípulos. Mas a sua in e p e ação do pe cu so his ó ico nacional ma cou um
conjun o de di ulgado es que esc e e am ou as his ó ias de Po ugal, omances
his ó icos e cu as na a i as que o am adop adas no ensino público: e i am-se,
en e ou os, Rebelo da Sil a, Pinhei o Chagas, An ónio Enes Vilhena Ba bosa e
Sil ei a da Mo a23. Po ou o lado, o mé odo c í ico do g ande his o iado deixou
ma cas signi ica i as na a i mação de uma his ó ia ciência cul i ada po his o iado es
a qui is as, ecnólogos, a queólogos – uma eli e cul u al p eocupada em cul i a a
memó ia da nação. Com eles se di undiu a ideia de que a his ó ia, quando undada
numa base documen al, pode se objec i a e impa cial, mas ambém a ilusão de
que a p á ica da his ó ia az e i e o passado e as i udes de um empo o e,
an e io ao declínio. Com os inais do século, du os comba es ideológicos aziam
eme gi a ca ego ia dos in elec uais enquan o g upo: em F ança com o a ai e
D ey us, em Espanha com a ge ação de 98 e oda uma e lexão da nação como
p oblema. A eme gência das massas no espaço público, o desgas e das ins i uições
he dadas dos es ados libe ais da p imei a me ade do século, a dis anciação c í ica
em elação ao libe alismo clássico e a a i mação de nacionalismos é nicos e
conse ado es, bem como de modelos de ep esen ação o gânica dos in e esses
20 A pa e na a i a da sua His ó ia de Po ugal (1845-1856) pe manece cen ada nas acções indi iduais, com
des aque pa a a acção dos mona cas.
21 An ónio Sé gio e Joaquim Ba adas de Ca alho acen ua am es a upu a na p óp ia ob a he culaniana. Vd.,
espec i amen e, Sob e his ó ia e his o iog a ia (da "His ó ia de Po ugal e dos "Opúsculos"), Lisboa, Tip. da "Sea a
No a", 1937 e Da his ó ia-c ónica à his ó ia ciência, Lisboa: Li os Ho izon e, 1972.
22 Jo ge Bo ges de Macedo no ou bem os seus an eceden es na his o iog a ia ligada Academia das Ciências. C .
Alexand e He culano, polémica e mensagem, Lisboa: Li a ia Be and, 1980.
23 A es e espei o, eja-se o meu es udo His o iog a ia e memó ia nacional no Po ugal do século XIX (1846-1898).
Lisboa: Colib i, 1998.

141
lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
sociais cons i uíam ins an es desa ios. An e as p essões do p esen e, podia a his ó ia
alcança a objec i idade e man e -se neu a? Com os his o iado es e udi os dos
inais do século e p incípios do século seguin e (caso de B aamcamp F ei e, Es e es
Pe ei a, ou a é mesmo Lei e de Vasconcelos) apa en emen e, podia. Essa e a uma
das p eocupações que p esidia aos seus abalhos. Mas na p á ica não. É ce o
que, pa a eles, assumi um pon o de is a de his ó ia nacional e nacionalis a e a
absolu amen e na u al - não punha consequen emen e em causa a impa cialidade
e a objec i idade que ei indica am pa a si. Não pa a nós, his o iado es dos
inais do século XX e p incípios do século XXI. P imei o po que os emas que
es uda am com base em on es documen ais esul a am de de e minadas escolhas.
Além disso, po que uma ideologia nacional – ou a é nacionalis a – conscien e ou
inconscien emen e p esidia a essas escolhas. Finalmen e po que pode ha e modos
subjec i os – mui o pessoais a é - de undamen a uma in enção de objec i idade.
Nes e sen ido, a subjec i idade pode á cons i ui um undamen o de uma in enção
de alcança uma his ó ia objec i a24. Signi ica i a a es e espei o é a posição dos
men o es da Re ue His o ique Gab iel Monod em 1876, em de esa de uma his ó ia
posi i a que não abdica a con udo de assumi uma unção ins umen al no uso
da his ó ia nacional. Ou de um Al edo Pimen a que sus en a a uma in enção de
objec i idade no quad o de uma ex ema pa cialidade.
O momen o do In eg alismo
O empo da p imei a República Po uguesa, undada em Ou ub o de
1910, conci ou con a si á ios sec o es polí icos, do cle o ca ólico a sec o es de
abalhado es in luenciados pelo ana co-sindicalismo, passando po moná quicos
e adicionalis as, jo ens in elec uais o mados na Uni e sidade de Coimb a. En e
es es, An ónio Sa dinha, que começou como epublicano, apidamen e se o nou
um dos mais des acados c í icos do no o egime. Ma co signi ica i o na a i mação
pública do seu ideá io oi a publicação da e is a po uguesa in eg alis a Nação
24 ASSIS, A hu Al aix, A obje i idade his ó ica no século 19: eo ias e p á icas [ ex o policopiado], B asília: s.n.,
2016, p.5
142 his o iog a ia e es publica
Po uguesa (1914-1938). Sa dinha, mes e do In eg alismo Lusi ano, não e a em igo
um his o iado , mas e e um papel decisi o na o mação in elec ual de um conjun o
de jo ens do seu empo e na cons ução da na a i a his ó ica conse ado a. T a a a-
se de, nas suas pala as, es i ui aos po ugueses a “in eg idade da sua consciência
his ó ica”, ou seja e oma o io da adição e uma essência pá ia pe manen e que
se e ia obnibulado com a desnacionalização dos po ugueses. Os in eg alis as e am
ealis as, adicionalis as e de enso es de um es ado descen alizado. Como Jacques
Ma i ain, conside a am-se “an imode nos” e “ul a-mode nos” 25.
Sa dinha oi um con unden e c í ico da democ acia e de um indi idualismo
que conside a a dissol en e. Responsabiliza a o sis ema libe al e, em especial,
a na a i a his ó ica libe al pela c ise, decadência e es ado de desnacionalização
da sociedade po uguesa 26 (no e-se que expunha as suas ideias no empo da I
República, he dei a do pa adigma libe al e que p omulga a a sepa ação o Es ado da
Ig eja). Quali ica a es a na a i a de “ alsi icada” e “sec á ia, oda ei a de men i as
e dos so ismas da men alidade libe alis a”, si uando-a na linha da pombalina Dedução
c onológica e analí ica27. Pa a An ónio Sa dinha e pa a os seus amigos in eg alis as,
e e e co igi a esc i a da his ó ia median e a elabo ação de “e a as” – ou seja,
co ecções de e os - e a uma p io idade es a égica. Is o po que a e olução libe al
oi ocen is a e o Cons i ucionalismo e iam desnacionalizado os po ugueses. O
in e nacionalismo e olucioná io le a a ao desen aizamen o. O a a pá ia e ealeza
adicionais inham uma o igem na u al e his ó ica, medie al: ilia am-se na adição
c is ã. Ao in és, a Renascença es a ia associada ao espí i o e olucioná io omano;
e o absolu ismo e ia p epa ado e eno pa a a a i mação do espí i o democ á ico.
No plano eó ico, Sa dinha dis ancia a-se de duas concepções de his ó ia
equen es em Po ugal, a a is oc á ica e a democ á ica: a que a de e mina a a
pa i da acção de “uma mino ia es i a ( eis, nob es, sace do es) e a que a o na o
p odu o espon âneo duma ins in i a massa acé ala”. É que a seu e , es as o dens
cons i uiam um “bloco homogéneo” do ado de uma mesma alma – uma g ei, e mo
que os in eg alis as pa icula men e ap ecia am. Assim, con a na a i as que, a
25 SARDINHA, An ónio − Ao i mo da ampulhe a. Lisboa: ‘L men’, 1925, p.XII.
26 Id., “A p ol do comum...”. Dou ina e his ó ia. Lisboa: Li a a ia Fe in, 1934,p.142.
27 Id., “A eo ia das co es ge ais” in SANTARÉM, Visconde de − Memó ias e alguns documen os pa a a His ó ia e
eo ia das co es ge ais”. Lisboa: Imp. de Po ugal e B asil, s.d. [1924], p.VI.
143
lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
seu e , di idiam a sociedade po uguesa em op esso es e op imidos, adop a a
uma concepção holís ica um ideia de his ó ia de Po ugal “ ilha de odos”28. Is o
no plano eó ico.
Mas, na e dade, há dois aspec os que con ém no a na eo ia da his ó ia de
Sa dinha. Em p imei o luga a alo ização da acção dos mona cas, que e iam sido
os g andes agen es de con inuidade his ó ica. A mona quia, de o igem di ina, se ia
o p odu o de um “la go mo imen o populacional”, e ia emanado da nação, mas
não es a ia dependen e do pac um subjec iones - ou seja, não inha o igem popula nem
es a a dependen e da sobe ania popula (embo a admi ado dos eó icos jesuí as
neo- omis as, Sa dinha não ade ia ao seu con a ualismo). Assim, Po ugal e ia
o igem em dois elemen os: a aça (elemen o dinâmico) e a mona quia (elemen o
es á ico). Sa dinha a as a a-se pois da eo ia popula que domina a a na a i a
libe al e epublicana. Exemplo maio des a úl ima e a a ob a de Teó ilo B aga.
Em segundo luga , Sa dinha acen ua a a alegada p io idade de Po ugal na
his ó ia eu opeia: ao in és da Espanha, da F ança ou da Alemanha, a o mação
da nação e ia sido an e io à cons i uição do Es ado. Mais, Po ugal se ia a nação
mais an iga da Eu opa. E e omando uma ideia oi ocen is a que já se encon a no
Visconde de San a ém, a i ma a igualmen e o pionei ismo do caso po uguês no
que espei a à ep esen ação do elemen o popula em co es, ela i amen e a ou as
nações eu opeias (Ingla e a, F ança, Alemanha)29. Sendo a an iguidade conside ada
um c i é io de nob eza e i ude30, comp eende-se a p eocupação de Sa dinha em
sublinha es e alegado pionei ismo nacional.
O men o do In eg alismo Lusi ano enca ou a sua ge ação como uma
ge ação de « edenção» e e igia-se em líde do g upo31. Comp eende-se assim a sua
c í ica on al a duas associações que conco iam com os in eg alis as na República
das Le as: a Liga de Acção Nacional e a Renascença Po uguesa. T a a a-se de
dispu a a hegemonia in elec ual a es es g upos, especialmen e ao úl imo, en e
as eli es nacionais. Embo a mui o di e sas na sua composição e in encionalidade,
ambas es as sociedades isa am, no campo polí ico epublicano, o essu gimen o
28 Id., “Os Gamas”, Da he a nas colunas, Lisboa: “A lân ida” Li . Edi o a, 1929, pp.304-314.
29 Id., Idem, pp. XXXI-XXXII e pp. LIV-LXIX.
30 CARO-BAROJA, Julio − El mi o del ca ac e nacional. Medi aciones a con apelo. Mad id: Semina ios y Ediciones, 1970.
31 SARDINHA, A. − “A p ol do comum...”. Dou ina e his ó ia. Lisboa: Li a a ia Fe in, 1934, pp.3-20.
144 his o iog a ia e es publica
nacional po meio da acção cul u al e da in e enção polí ica. O a Sa dinha ia nelas
“um ício g a e de o igem, a sua in ei a subal e nização ao p econcei o inadmissí el
do egimen” [ e e ia-se à I República]32. Mas se p o undas di e gências polí icas
sepa a am o In eg alismo Lusi ano des es g upos, num pon o es a iam de aco do:
na necessidade de p epa a eli es. Já no que espei a à in e p e ação do passado
nacional e aos caminhos u u os, as di e gências acen ua am-se.
Sa dinha alimen a a um juízo mui o nega i o sob e o século XIX, dominado
pelo indi idualismo libe al e pelo pa lamen a ismo. Pa ia da ideia de que hou e uma
queb a na adição com o Ma quês de Pombal e especialmen e com a e olução
libe al de 1820 (mas es a ideia de up u a com o passado em elação ao pe íodo
que começa com o es abelecimen o do egime libe al, após a gue a ci il em 1834,
encon a a-se já em He culano e em Oli ei a Ma ins). Não su p eende que enha
dedicado a enção especial à eabili ação de eis da dinas ia de B agança como D.
João IV, D. João V e D. João VI - os dois úl imos especialmen e amaldiçoados
pela his o iog a ia libe al. Donde, a insis ência na necessidade de um p og ama
sis ema icamen e dou iná io da e isão da his ó ia nacional:
“Um necessá io abalho de e isão se impõe simul aneamen e – espécie de
b e iá io de co ecções ou e a as, em que se ins ua o p ocesso das di e sas lendas-neg as
que dep imem a ace augus a do nosso Passado. Com o objec i o de mos a Po ugal,
sob e udo, como uma pe sonalidade mo al, p olongando-se no espaço e no empo, uno e con ínuo,
essa His ó ia, a aze -se, sem cai no de alhe excessi o, não de e ambém esquece
a e isão co esponden e dos juízos e concei os p é-concebidos...”33.
Em nome des a in enção de e e e “depu a ” uma na a i a que conside a a
co ompida pelos p econcei os do libe alismo, Sa dinha chama a a si a au o idade
de Fus el de Coulanges ( ambém mui o in ocado pa Cha les Mau as e pela
Ac ion F ançaise). Fus el, adep o de uma his ó ia ciência, inha sido um c í ico
dos his o iado es libe ais Thie y e Guizo . Sa dinha ci a a-o ex ensamen e pa a
desquali ica a his o iog a ia pa idá ia do século XIX:
32 Id., “Tes emunho duma ge ação”, Idem, p.6.
33 SARDINHA, A. − “Ques ões de his ó ia”, Nação Po uguesa, II sé ie, nº5, 1922, p.234. Sublinhados nossos.
151
lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
p olongada polémica). Pimen a chega a a i ma :
“Hoje, ninguém, de senso, põe em dú ida a exis ência dos milag es. O
milag e – in e enção excepcional de Deus nas coisas da na u eza, de modo a
p oduzi ce os e ei os que não são, em nada, ob a da mesma na u eza – o milag e é
um enómeno cien i icamen e a e iguado. O milag e de Ou ique, is o é, o apa ecimen o de
C is o a A onso Hen iques oi possí el? Absolu amen e. Há p o as his ó icas do ac o?
Não há, a é ago a. Mas de não ha e p o as his ó icas do ac o, não se conclui que
es e seja uma ilusão (...) Onde He culano e ou, oi em chama -lhe ábula, adição
absu da. Fábula – po quê, se não es á demons ado, his o icamen e, que ábula o a?
(...) A e dade é que He culano não demons a que o milag e de Ou ique não exis iu,
com o chama -lhe nomes, os nomes que lhe chama no deco e da polémica céleb e.
A única posição líci a pa a um homem de ciência é a con issão da sua igno ância”
(sublinhado nosso)59.
Readmi indo a possibilidade do milag e de Ou ique e e ia-se assim a um
empo e a uma elação com as adições mí icas não só an e io à His ó ia de Po ugal
de He culano mas an e io a João Ped o Ribei o – que ainda nos p incípios do
séc. XIX a puse a em causa. A e isão adicionalis a da his ó ia le a a assim a
uma posição cép ica e solipsis a de abs enção ela i amen e ao econhecimen o da
e dade ou não e dade em his ó ia 60.
Po essa época, con a a desnacionalização libe al e ma iniana, con a a
de o mação, o “ eneno”, o “c ime”; con a os his o iado es “desnacionalizados”
e “co ompidos” um p o esso nacionalis a p opunha a eabili ação da his ó ia
nacional61. T a a a-se de e oma a adição, e oma o io da his ó ia. Ou a
exp essão des a endência oi João Ameal, um dos mais ep esen a i os his o iado es
o iciais do Es ado No o, que adop a um c i é io linea de pe iodização cen ado
em dinas ias e einados e conside a que “his o ia é julga (...) em nome das e dades
59 Id., Es udos ilosó icos e c í icos. Coimb a: IU, 1930, 194-195.
60 Em Espanha, um au o de li os didá icos ca ólicos como Me y y Colón (P o esso da Uni e sidade de
Se illa, au o de um Compendio de la His o ia de España) incluia ambém na sua na a i a his ó ica he óis
mí icos: Cid, Túbal, San iago, a apa ição da Vi em del Pila . Veja-se BOYD, C. Op.ci ., pp. 492-493.
61 Amé ico Pi es de Lima − Assim e a ensinada a His ó ia... Sep. de Ociden e, ol.X, Lisboa: Ed. Impé io, 1940

152 his o iog a ia e es publica
uni e sais e e e nas de que os po ugueses soube am se após olos insupe á eis” 62.
E mani es a-se con a a alsi icação e da co upção do passado nacional. Ameal
e e ia-se, cla o es á, à na a i a libe al e, sob e udo, à lei u a ma iniana da his ó ia
de Po ugal :
“com uma espécie de sadismo nega i is a e demolido ” (...) “des ez-se a his ó ia
de Po ugal”, “Repudia am-se ou con es a am-se as undas azões da nossa jo nada
de Po o c en e e gue ei o. A ob a de apos olado oi con e ida em ob a de cobiça e
apina. As igu as dos eis o am amesquinhadas com anco osa sanha. A ida de uma
Nação que de e ia explica -se à luz dos E angelhos, dos Ro ei os e das C ónicas – oi esc i a à
luz da Decla ação dos Di ei os do Homem ou da eo ia do ma e ialismo his ó ico”63.
Pa a Ameal, al como pa a Rod igues Ca alhei o ou Al edo Pimen a (mas
não an o pa a An ónio Sa dinha), Oli ei a Ma ins o a a exp essão sup ema da
negação e de o mação da nação e da sua his ó ia. Em al e na i a, João Ameal
cons ói uma e são épica do passado nacional cen ada na acção dos mona cas
e de he óis mais des acados, semp e iden i icados com o po o que não é mais do
que um cená io de undo. E que, de algum modo, eadmi e a plausibilidade de
mi os an e io es à e olução libe al: a iden i icação en e Po ugueses e Lusi anos
ou a adição mí ica de Ou ique. A acei ação da ascendência lusi ana é en endida
como ideia- o ça adop ada desde o século XV que, ao mesmo empo, se ia “um
sin oma – uma espécie de plebisci o nacional”64 (Ameal e oma a ideia de E nes
Renan mas descon ex ualiza-a, aplicando-a ao ac o é nico). Também em elação à
adição p o idencialis a de Ou ique, sem nega a au en icidade da apa ição, Ameal
deixa em abe o a sua possibilidade65. Como de es o – e imos acima - p ocede a
Al edo Pimen a, e e indo-se à impossibilidade de encon a p o as que negassem
a e acidade do milag e de Ou ique, is o num manual escola de la ga di usão nos
p imei os anos do Es ado No o66. No e-se aliás que o ac o eligioso es á não a o
62 AMEAL, João − His ó ia de Po ugal, 2ª ed. Po o: Li . Ta a es Ma ins, 1962 (1ª ed., 1940), p.X.
63 Id., Idem, pp.XI-XII.
64 Id., Idem, p.14.
65 Id., Idem, pp.60-61
66 PIMENTA, Al edo − Elemen os de His ó ia de Po ugal, p.21, no a 2.
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p esen e pa a explica momen os signi ica i os da his ó ia de Po ugal – caso dos
descob imen os e da expansão ul ama ina67. Ou o aspec o que ale a pena no a
na es a égia na a i a adicionalis a é a quali icação dos muçulmanos de Tânge ,
em 1438 (aquando da en a i a de conquis a da cidade), como sel agens68.
Es a es a égia na a i a nacionalis a e exclusi is a não ecolhe ia con udo
a unanimidade dos pedagogos ligados ao Es ado No o. Exemplo disso oi, já em
1945, A.Ma ins A onso, um au o de li os escola es ap o ados pelo egime que se
dis ancia a de uma his ó ia sis ema icamen e apologé ica: a seu e an o se podia
ap ende coma gló ias nacionais como com aquezas e ícios. O pa io ismo não
de e ia se incompa í el com a e dade his ó ica. Es a posição c í ica di igida a
um dos au o es mais em oga na li e a u a escola da época – An ónio Ma oso –
susci a ia uma du a polémica e a p oibição do manual da au o ia do c í ico69. O que
mos a bem que, no p óp io campo ideológico do egime, ha ia di e gências nas
es a égias de consciência his ó ica a adop a em elação à ju en ude.
Uma consciência his ó ica adicionalis a?
No anscu so de um século, en e o momen o He culano, de a i mação de
uma consciência libe al do pe cu so his ó ico nacional, e o momen o do In eg alismo
Lusi ano, e i icou-se uma e iden e descon inuidade. Além da e olução libe al que se
desen ol eu em di e sos momen os de co e com o passado de sen ido di e so, mas
odos eles comandados po um ideal de p og esso (1820, 1836, 1851), a e olução
epublicana de 1910 ambém se eclamou desse ideal e de uma genealogia libe al.
E oda ia, os in eg alis as não deixa am de cons ui uma genealogia em que se
eclamam das g andes igu as do pensamen o oi ocen is a: Ga e , He culano,
Oli ei a Ma ins, e a é Eça de Quei oz, conside ados “desiludidos” e, de algum modo,
ligados à adição70. No caso de He culano, os in eg alis as ap op ia am-se do seu
67 Idem, p.122.
68 AMEAL, João − Op. ci ., p.208.
69 Veja-se o meu es udo His ó ia, mi ologia, imaginá io nacional. A His ó ia no cu so dos liceus (1895-1939). Lisboa,
Li os Ho izon e, 1990, pp.128-131.
70 SARDINHA, An ónio − “A eo ia das co es ge ais”, p.CCX.
154 his o iog a ia e es publica
pensamen o sob e udo no que espei a ao ópico da c í ica em elação ao modelo
cen alis a que dominou no cons i ucionalismo oio cen i s a e ao ideal municipalis a.
A consciência his ó ica in eg alis a ap esen a as seguin es ca ac e ís icas:
1. Uma consciência mui o ol ada pa a o passado, sem no en an o esquece
a necessidade de acção no p esen e com is a numa expec a i a de u u o.
Como suge e Paulo A che de Ca alho, o In eg alismo Lusi ano a i mou
uma “u opia eg essi a”71. E iden emen e não um passado p óximo, o dos
anos de igência da República, nem os 80 anos da mona quia cons i ucional,
libe al, que se impunha e e . Nem ão pouco o passado do despo ismo
escla ecido do pombalismo. A e a adição nacional encon a a-se na
mona quia “pu a”, medie al. Os adicionalis as i e am uma consciência
de c ise que coincide com a I República, c ise que Sa dinha classi icou,
sob e udo, como c ise de go e no. Pa icipa am em en a i as de de ube
do egime epublicano, po exemplo em 1919. E alguns – caso de Sa dinha
- exila am-se em Espanha. A essa expe iência de exílio não se á alheia a
eo ização de Sa dinha sob e o hispanismo e o peninsula ismo, um ho izon e
de expec a i a que ambém se en aiza a na nos algia dos impé ios po uguês
e espanhol de Quinhen os. Foi a inal essa i ência em Mad id que ab iu
ho izon es no os ao men o do In eg alismo, no sen ido do pan-hispanismo
– bem con as an es com a geog a ia mais es i a de Salaza . Como obse ou
Luís da Almeida B aga, “A adição não é um cas elo ce ado, não é um
pon o imó el na his ó ia. É uma c iação cons an e. O passado é o ça que
nos a as a, não é cadeia que nos p ende”72.
2. O abalho dos In eg alis as ep esen ou um co e na consciência his ó ica
nacional que se o ja a desde a e olução libe al. Que consequências e e
es e co e? Uma ou a noção de empo? Sem dú ida. En 1921, Raúl P oença
in e p e ou a isão e ospec i a dos in eg alis as: “... os homens de hoje (...)
que em ica e e namen e a olha pa a ás, e é pa a ás que se mo em ambém os seus
71 CARVALHO,Paulo A che de Nação e nacionalismo. Mi emas do In eg alismo Lusi ano. Coimb a: Uni e sidade
de Coimb a, 1993 e Id., “Ao p incípio e a o e bo: o e e no e o no e os mi os da his o iog a ia in eg alis a”,
Re is a de His ó ia das Ideias, ol. 18, Coimb a, 1996, pp. 231-244.
72 BRAGA, Luís de Almeida - Posição de An ónio Sa dinha. Lisboa: Ed.Gama, s,d., p.108.
155
lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
emos meio queb ados nas suas mãos meio mo as”73. Como que pa a compensa
uma descon inuidade empo al ins alada pelas e oluções mode nas, os
in eg alis as p ocu a am no passado uma ou a idade de ou o. “Os po os
i em do Passado. Nega o Passado é um suicídio”, di á em 1935 Al edo Pimen a,
subs an i ando o passado com maiúscula74. O passado como subs ância
e e na. Os adicionalis as ei ica am o Passado em sim mesmo – ade indo
à ideia mau asiana de uma ciência nacionalis a. E deplo a am a pe da: pa a
além da deg adação causada pela e olução libe al, deplo a am a pe da
do Passado, a pe da da sociedade adicional. Também o p incipal im do
anquismo não e a an o o de c ia uma no a Espanha mas de p ese a
a an iga (Ca olyn Boyd). Ao in és, um ensais a que cul i ou a his ó ia
como An ónio Sé gio – um idealis a acionalis a, he dei o do iluminismo –
desen ol eu uma consciência his ó ica ol ada pa a o p esen e e o u u o.
P e endia e -se li e das ama as do passado, nos seus a a ismos.
Os adicionalis as não pensa am o u u o em e mos de um p og esso linea
e cons an e – coincidindo ambém, nes e pon o, com Cha les Mau as. Pelo
con á io, já nos anos 60, João Ameal con inuou a in en a ia os mesmos
males ameaçado es: o libe alismo, a plu oc acia e o comunismo. Num
om apocalíp ico, ia en ão pesadas ameaças no ho izon e: o ala gamen o
da in luência comunis a no mundo, a descolonização, o pan-esla ismo, o
ecnicismo e o “ acismo neg o, índio ou ama elo”75. Só a idelidade a um
passado e is o – e comandado en e ou os pelo ópico da c uzada - pode ia
ga an i a anquilidade do u u o.
3. Pode ala -se de dois ‘p og amas’ de e isão his ó ica pa a es es dois empos
his ó icos sepa ados po ce ca de um século – o momen o Alexand e
He culano e o momen o do In eg alismo Lusi ano? No p imei o momen o,
o e bo e e nunca é u ilizado pelos his o iado es empenhados na cons ução
de uma no a na a i a libe al – o que al ez se explique pelo p óp io declínio
73 PROENÇA, Raúl − “Ao u u o”, Páginas de Polí ica. Lisboa: Sea a No a, 1972 ( ex o da ado de 1921), p.25.
74 PIMENTA, Al edo − No os es udos..., p.120.
75 AMEAL, João − Op.ci ., p.736.
156 his o iog a ia e es publica
das adições mí icas e pelo ca ác e não sis emá ico da his o iog a ia di a
libe al. Na e dade, di icilmen e pode á ala -se de uma mas e na a i e ou
de uma na a i a canónica libe al – melho se á conside a uma es a égia
na a i a libe al com múl iplas a ian es. Um exemplo só: se He culano
ejei a as adições mí icas dos Lusi anos, de Ou ique e das Co es de
Lamego pa a o passado, ou os his o iado es he dei os da adição libe al
acei am essas adições e o seu alo ins umen al: Luz So iano ou José de
A iaga. Donde, não se á adequado ala -se de um ‘p og ama’ de e isão
his o iog á ica. Quando mui o, a ou-se de uma in enção de ein e p e a
o passado no sen ido de uma es a égia na a i a libe al.
Já no que espei a ao segundo momen o, no século XX, em que se a i ma
a na a i a adicionalis a, a a a-se sob e udo de ompe a hegemonia da
in e p e ação libe al e laica, dominan e desde a e olução libe al. A his o iog a ia
adicionalis a de iniu-se po oposição à his o iog a ia libe al e epublicana e
sob e udo po oposição aquela que e a conside ada a exp essão mais acabada e
in luen e de pessimismo em elação ao passado: a na a i a de Oli ei a Ma ins
(que, aliás, sendo um c í ico da na a i a libe al, coincide com ela, no essencial da
sua eo ia da decadência). Não su p eende pois que os adicionalis as abusassem
de e bos como e e e eabili a pa a comba e e os, alsi icações, a negação e
des uição. Pode -se-á concebe uma na a i a canónica adicionalis a? Pode -se-á
ala de uma his ó ia o icial do Es ado No o? A espos a é e iden emen e a i ma i a.
Essa his ó ia o icial oi adop ada po um p og ama sis emá ico de endou inação a
pa i do Es ado que não se eduziu ao campo da ins ução, an es mobilizou a es
plás icas, comemo ações his ó icas, exposições, monumen os públicos, oponímia,
museus, cinema, ea o, música, e c. Mas não de e esquece -se que no seio des a
na a i a hou e a ian es signi ica i as. Dois exemplos: 1) sob e a e dade his ó ica
que con inha à nação 2) sob e a de inição do ei legí imo em 1826, aquando da
mo e de D. João VI: D. Ped o IV ou D. Miguel?
Ao in és do que se passou em Espanha, onde no século XIX o in eg ismo
ca ólico ganhou in luência signi ica i a como eacção à cul u a libe al – e azendo
a apologia da Inquisição no campo da his ó ia – em Po ugal a na a i a libe al do

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lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
passado oi indiscu i elmen e hegemónica a é aos anos 20. E a na a i a ca ólica
oi, no campo his o iog á ico, esidual. Mui o escassas são as ob as his ó icas
oi ocen is as que aba cam o conjun o do passado nacional na pe spec i a
adicionalis a e ca ólica. Como explica is o? Dece o po uma conjugação de
ac o es, en e os quais impo a des aca : 1. secula ização da his ó ia, dos p o esso es,
dos p og amas, dos li os escola es; 2. p es ígio e in luência de ês his o iado es que
ambém o am polí icos: He culano, Oli ei a Ma ins e Teó ilo B aga (es e úl imo
o p imei o che e de go e no da República, em 1910); 3. ausência de uma con a-
na a i a ca ólica que osse apela i a; 4. o ac o de o adicionalismo não se jus i ica
an o com ecu so à his ó ia (a memó ia adicional e a ine en e à sua dou ina),
an es in ocando a gumen os é icos - o que ambém sucedeu em Espanha76.
No empo das di adu as, se no caso da Espanha pode á e sucedido um
“holocaus o cul u al” 77 - uma e dadei a ho a ze o no campo his o iog á ico - no
caso do salaza ismo, a censu a e a cla a hegemonia da na a i a adicionalis a e
ca ólica - dominan e no discu so o icial e nos di e sos g aus do sis ema de ensino
– não impedi am con udo que se exp imisse, ma ginalmen e embo a, e mui o
p essionada pela censu a, a co en e libe al e epublicana. E se é e dade que á ios
his o iado es que e am p o esso es uni e si á ios o am pe seguidos, expulsos da
Uni e sidade (sob e udo em 1935 e em 1947)78 e ob igados a exila -se, ambém
é um ac o que ou os se man i e am na Uni e sidade po uguesa, ob igados (ou
au o ob igando-se) a um pac o de silêncio em elação à Respublica.
Como no ou Al a ez Junco, há uma sequência na a i a nas his ó ias
nacionais em Espanha que é pa aíso-queda- edenção79. O mesmo pode á aplica -se
ao caso po uguês. Es e modelo c is ão es á p esen e nas duas es a égias na a i as,
a libe al e laica e na adicionalis a. Toda ia, no quad o des as na a i as há a aliações
mui o di e en es dos séculos XVII, XVIII e XIX – ou seja da mode nidade. Há
uma e iden e descon inuidade en e a consciência his ó ica de 1840 a 1920/30,
76 GARCIA CARCEL, Rica do − La he ancia del pasado. Las memo ias his ó icas de España, 3ª ed. Ba celona:
Galaxia Gu enbe g/Ci culo de Lec o es, 2013, p.392.
77 PEIRÓ MARTÍN, I. − His o iado es en España. His o ia de la His o ia y memo ia de la p o esión. Za agoza: P ensas
de la Uni e sidad de Za agoza, 2013, p.195.
78 Veja-se ROSAS, Fe nando e SIZIFREDO, C is ina − A Pe seguição aos P o esso es: Es ado No o e Uni e sidade.
Lisboa : Tin a-da-China, 2013.
79 ALVARÉZ JUNCO, Jose − Ma e Dolo osa, La idea de España en el siglo XIX. Mad id: Tau us, 2001, p. 214.
158 his o iog a ia e es publica
en e uma in e p e ação libe al e democ á ica do passado das nações peninsula es
e a in e p e ação adicionalis a e conse ado a que se a i ma sob e udo a pa i
dos anos 20. T a a-se de duas lei u as opos as da mode nidade. Mas não apenas
da mode nidade das luzes (séc. XVIII) e do século XIX (pa a uns empo de odas
as dissoluções, pa a ou os empo de p og esso e edenção). T a a-se a inal de
dois modos memo iais de con i e com a pe da, com a decadência. Uma mais
i ada pa a o u u o – a libe al e epublicana - ou a mais i ada pa a o passado
– a adicionalis a. No en an o, es a úl ima não deixou de se p ojec a num de i
que pode ia se p omisso se e omasse o io de uma e a adição. E se (caso de
An ónio Sa dinha), se ol asse pa a o mundo hispânico.
Se é um ac o que mui os dos his o iado es que p oduzem as suas ob as
no século que ai de 1840 a 1940 o am in elec uais engagés, comp ome idos com
a es publica, ambém é e dade que ou os, sob e udo a pa i dos inais do século
XIX, cul i a am um ipo de his ó ia documen al en endida como ciência-pu a,
supos amen e imune às p essões do espaço público do seu empo p esen e. Digo
supos amen e pois mesmo es es, ge almen e cen ados no e e en e nação ou no
e e en e local, não deixa am de se sensí eis aos alo es pa ió icos, num egis o
apologé ico. Como se osse possí el o his o iado , desligado do seu empo, abalha
apenas den o dos pa âme os do passado - p e e encialmen e de um passado
dis an e, medie al ou mode no, mas e i ando o passado p óximo -, num abalho
assép ico, imune a eo ias e ideologias.