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A utopia da palavra ou a demanda do idiolecto impossível: sobre Servidões, de Herberto Helder

Abstract

O presente artigo visa apresentar uma leitura da obra Servidões (2013), da autoria do poeta português Herberto Helder. Analisa-se o contexto crítico da recepção de Servidões, sublinhando-se a dimensão final e testamentária da obra em apreço, embora se aponte igualmente para o propósito radical da poética herbertiana, a criação de uma língua dentro da língua.

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A utopia da palavra ou a demanda do idiolecto impossível: sobre Servidões, de Herberto Helder

Author: Soeiro, Ricardo Gil
Year: 2014
DOI: http://dx.doi.org/10.17851/2359-0076.34.52.29-38
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/52942/1/8353-23687-2-PB.pdf
Re is a do CESP, Belo Ho izon e, .34, n.52, p. 29-38, 2014
ISSN 1676-515X
A u opia da pala a ou a demanda do idiolec o impossí el:
sob e
Se idões
, de He be o Helde
The u opia o he wo d o he demand o he impossible
idiolec : on Se idões, by He be Helde
Rica do Gil Soei o
Uni e sidade de Lisboa, Lisboa, Po ugal
[email p o ec ed]
Resumo: O p esen e a igo isa ap esen a uma lei u a da ob a Se idões
(2013), da au o ia do poe a po uguês He be o Helde . Analisa-se o
con ex o c í ico da ecepção de Se idões, sublinhando-se a dimensão
inal e es amen á ia da ob a em ap eço, embo a se apon e igualmen e
pa a o p opósi o adical da poé ica he be iana, a c iação de uma língua
den o da língua.
Pala as-cha e: He be o Helde ; língua den o da língua; mo e; poesia
po uguesa con empo ânea
Abs ac : The p esen a icle wishes o p esen a eading o he wo k
Se idões (2013), by he Po uguese poe He be o Helde . An analysis
o he c i ical con ex o he ecep ion o Se idões is o e ed and he
emphasis is placed upon he inal and es amen a y dimension o he wo k
unde e iew, whe eas s essing, a he same ime, he adical in en o he
he be ian poe ics, namely he c ea ion o a language wi hin a language.
Keywo ds: He be o Helde , Language wi hin a language, Dea h,
Po uguese con empo a y poe y
Recebido em 10 de ma ço de 2014.
Ap o ado em 20 de ab il de 2014.
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quem pode ainda ecomeça seja o que o ?
O poema que se esc e e – longo ex o luindo,
denso e enenoso, a imi a a subs ância ao
mesmo empo i i ican e e co up o a do sangue
– não é seque uma o e a di igida a Deus. É a
i onia, onde desliza a a ma da nossa obscu idade.
T emenda o ça, essa. Esc e o o poema – linha
após linha, em edo de um pesadelo do desejo,
um mo imen o da e a, e o b ilho somb io
da minha ida pa ece ganha uma unidade
onde udo se con i ma: o empo e as coisas.
He be o Helde
Num empo de a il amen o mo al e de uni o mização
banalizado a, em que os meios de comunicação social
se ilmen e se encon am sob o jugo de uma no ilíngua
empob ecedo a, a publicação de um no o li o de poesia, como ocasião
de libe dade da língua e do espí i o, cons i ui um ób io mo i o de
celeb ação e egozijo. Quando esse li o é da au o ia de um poe a da
en e gadu a de He be o Helde , um al mo i o de júbilo é edob ado.
Na e dade, somen e a dimensão maio de um poe a como
He be o Helde explica que Se idões (2013) se enha o nado num
acon ecimen o incon o ná el no pano ama li e á io po uguês, que,
no malmen e insípido, não conhece, de ac o, g andes sob essal os
mediá icos. Não assim com Se idões. No suplemen o “Ípsilon” (14 de
junho de 2013), po exemplo, a ensaís a Rosa Ma ia Ma elo des aca o
li o como “um lance úl imo”, ex o es amen á io que se singula iza ia
pelo en en amen o da ini ude do sujei o poé ico que aí se encena, pela
co agem inaudi a de olha a mo e. Diz-nos a au o a de A o ma in o me
(2010): “Há em Se idões um eu que o a ala a pa i desse mundo,
o a mede os 80 anos de idade e os limi es ísicos do co po. Imagina-
se a mo e , concebe o co po mo o a a a essa as ansmu ações da
ma é ia”.1 E se An ónio Gue ei o, no a igo “He be o Helde , poe a da
au a”, se epo a a um e ei o de eau a ização, na senda das e lexões
benjaminianas, já Diogo Vaz Pin o, ci ado po Luís Miguel Quei ós, alude
a essa o ça es amen á ia, a i mando que: “Não impo a se esc e e á
ou não ou os li os, es e se á semp e um li o inal”.2 Também no
1 MARTELO, 2013, p. 9.
2 PINTO apud QUEIRÓS, 2013, p. 11.
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suplemen o “A ual”, do semaná io Exp esso (1º de junho de 2013), se
assis e a ês ap oximações a es a ob a ímpa . Cla a Fe ei a Al es coloca
a ónica, uma ez mais, no ac o de es e se um li o inal, e minal,
“con endo uma sal ação mais do que uma edenção de uma ida di e en e
das ou as. E uma descobe a ísica: a mo alidade banal das humanas
c ia u as”.3 José Má io Sil a chama-lhe um li o c epuscula ,4 ao passo
que Ped o Mexia, no a igo “Luzes odas acesas”, p e e e salien a uma
poesia “a essa à cos u a g ama ical, esqui a à sin axe comum”.5
Em odo o caso, independen emen e do ângulo de análise
que se decida p i ilegia , ce o é que a c í ica se e elou unânime em
elação à pujança imagé ica e ao conseguimen o poé ico des e no o
li o de He be o Helde . De ac o, pe gun a -se-ia: em que é que se
aduz um al sucesso? Na e dade, o que Se idões em aze à ac ual
paisagem li e á ia po uguesa é, sem dú ida, uma poé ica p o undamen e
amadu ecida, que na o ma, que nos seus con eúdos p oposicionais.
A despei o da unidade es u u al em o no da iso opia mo uá ia,
obse a-se uma iqueza p ismá ica de emas e uma di e sidade de
egis os discu si os que se aliam, de o ma magis al, aos ins umen os
p osódicos u ilizados: des acamos, a í ulo me amen e ilus a i o, a
mes ia e elada ao ní el do i mo e da luidez e si ica ó ia. Repa e-se,
ainda, no ex o in odu ó io em p osa que enquad a os es an es ex os
poé icos e que condensa, in nuce, oda uma mundi idência poé ica,
sus en ada po um e e no ecomeça da Pala a: “Mas penso que udo
is o é uma in e miná el p epa ação, uma ap oximação. Po que o p es ígio
da poesia é menos ela não acaba nunca do que p op iamen e começa .
É um início pe ene, nunca uma chegada seja ao que o ”.6 E o modo
pe cep i o que esul a des e olha pe pe uamen e inicial, o modo como
o sujei o cognoscen e se elaciona com o mundo, aduz-se numa espécie
de oximó ica ap endizagem da desap endizagem:
[…] é p eciso apanha a ocasional dis acção das coisas,
e desapa ece ; ugi pa a o ou o lado, onde elas nem
suspei am da nossa consciência; e apanhá-las quando
echam as pálpeb as, um momen o, ápidas, e apidamen e
3 ALVES, 2013, p. 7.
4 SILVA, 2013, p. 9.
5 MEXIA, 2013, p. 8.
6 HELDER, 2013a, p. 12.
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pô-las sob o nosso senho io, apanha as coisas du an e a sua
o ui a dis acção, um in e egno, um ins an e oblíquo.7
O dís ico inicial (“dos abalhos do mundo co ompida/que
se idões ca ega a minha ida”8) apon a pa a uma indagação do eu,
uma espécie de súmula exis encial, em que o si-mesmo que se con empla
ao espelho é o mesmo que examina o os o desenhado pelas pala as.
A componen e isce almen e exis encial e mesmo biog á ica deixa-se,
desde logo, en e e na ano ação ei e ada da idade do sujei o esc e en e
(80 anos), incluída, po exemplo, na da ação da seguin e composição
poé ica: “saio hoje ao mundo,/co dão de sangue à ol a do pescoço,/e
ão sô ego e delicado e u ioso,/de um lado ou de ou o pa a semp e
num su ôco,/iminen e pa a semp e. 23.XI.2010: 80 anos”.9 Ou ainda na
e e ência explíci a: “oc agená io apenas, e a mo e só de pensá-la calo”.10
A consciência da p óp ia mo alidade do sujei o é canden e, ma cando a
sua p esença na ace isí el e nas issu as do ex o, o a de o ma explíci a,
o a de o ma elada: “e eu sei quan o dep essa mo o”.11
Se idões encena ce amen e o opos dos ul ima e ba, as úl imas
pala as com que se inaliza uma exis ência. Esse eu que he oicamen e se
in e oga pa a, a inal, se descob i mo al o na-se me o p e ex o pe ecí el
nas mãos de deuses abso os. No magní ico li o Mo es imaginá ias,
Michel Schneide p ocu a jus amen e compulsa as de adei as pala as
p o e idas po céleb es esc i o es e pensado es. Cada capí ulo ec ia,
com indesmen í el e udição, os úl imos momen os daqueles que, na
iminência da sua p óp ia ex inção, enca am a p oximidade angí el da
mo e. De Pascal a Kan , passando po Flaube , F eud ou Naboko (ao
odo, são 36 au o es), o om oscila en e a ama gu a e a consolação,
en e a bea i ude e o desencan o. A seguin e passagem a es a as múl iplas
i adiações simbólicas dos de adei os ins an es, apon ando igualmen e
pa a a cen alidade da p oblemá ica linguís ica pa a a au o- ana o-g a ia
que, em ce a medida, o no o li o he be iano é:
7 HELDER, 2013a, p. 12.
8 HELDER, 2013a, p. 19.
9 HELDER, 2013a, p. 20.
10 HELDER, 2013a, p. 109.
11 HELDER, 2013a, p. 29.
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Úl ima mani es ação de um eu que em b e e deixa á
de o se , essas pala as chegam demasiado a de,
quando inalmen e chegou a ho a a espei o da qual nos
in e ogámos se se ia en ão de dia ou não, se es a ia io
ou não. Po ezes, azemos en ão de olo, de néscio que
se i a da lama pa a se me e no a olei o. Como po ezes
nos ma amos pa a não mais se mos ob igados a mo e ,
alamos pa a pode mos cala -nos. Senhas, pala as de
passe, pala as de passagem. Como as que lançamos à
Es inge. Não obs an e, c en e ou desc en e, jus o ou also,
doen io ou anedó ico, al i o ou queixoso, de cada um, e
seja como o , a úl ima pala a se á de o ada pelo mons o
jus amen e com o co po que a exala. Não sei se no p incípio
e a o e bo; emo bem que, no inal, o e bo deixe de se ,
pa a sob a apenas um co po desabi ado pela pala a.12
Como ex o maio ace ca do im, o que Se idões em, a inal, aze
é ilumina , de no o, a absolu a necessidade de nos con on a mos com
a ín ima possibilidade da nossa p óp ia mo e. Impo a ia, sem dú ida,
auscul a o inigualá el con ibu o de um ilóso o como Ma in Heidegge
pa a a ema ização do se -pa a-a-mo e (Sein-zum-Tode) que odo o se -aí
(Da-sein) genuinamen e é (e os hi ens como que compa ecem pa a ma ca
g a icamen e a inex icabilidade en e esses elemen os cons i u i os:
se e mo e, aí e se ). De aco do com a lei u a heidegge iana, acei a
a ini ude do p ojec o exis encial (que odo o se -aí é) signi ica, mui o
simplesmen e, es a à al u a da esponsabilidade de uma exis ência
au ên ica (aqui escu am-se os ecos da in luência kie kegaa diana sob e
o pensado da Flo es a Neg a). A ou a possibilidade se ia o abandono
a uma ida inau ên ica, alheada da angús ia (Angs ) e me gulhada no
quo idiano ni elado do das man. É na no a de odapé n. 140 do § 51 da
ob a monumen al Sein und Zei (1927) que Heidegge , no âmbi o da sua
analí ica exis enciá ia, se epo a à na a i a A mo e de I an Ili ch (1886),
de Le Tols oi, a gumen ando que es a ob a do omancis a usso e a a
o enómeno do abalo e do colapso desse “a gen e mo e” (man s i b ).
Uma al in e pelação on ológica eme e-nos ine i a elmen e
pa a Rilke e pa a a dis inção que o poe a alemão ope a en e mo e
p óp ia (de eigene Tod) e a mo e alheia (de emde Tod), sendo que
aquela co esponde jus amen e à mo e que nos diz espei o e que nos
12 SCHNEIDER, 2011, p. 28-29.

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é insubs i uí el (em Die Au zeichnungen des Mal e Lau ids B igge,
de 1910, Rilke ins au a uma ou a díade: a mo e pequena – de kleine
Tod – e a mo e g ande – de g osse Tod). Como humanos, demasiado
humanos, somos – na óp ica ilkiana – Todgebä e , aqueles que em si
mesmos albe gam a mo e, e elando-se es a como ealidade unda que
exis e, desde semp e, em emb ião no nosso en e.13
E ec i amen e, a mo e es e e p esen e, ab ini io, na poesia
he be iana. No p escien e ensaio “Em que língua esc e e He be o
Helde ?” (2009), Rosa Ma ia Ma elo a gumen a que:
A mo e semp e e e pa e na poesia de He be o Helde .
A mo e e os mo os. A p óp ia manei a como o poe a
desde semp e implicou na esc i a uma in ensi icação da
subjec i idade ao mesmo empo sol en e e expansi a, a é
no plano da condição da au o ia, é em si mesma ei a de
encon os com a mo e.14
Também aqui, no p óp io co ação neg o de Se idões, Tana os
compa ece, ocupando um luga es u u al na esc i a de He be o Helde ,
mas, como na sua es an e ob a, a con ap esença an i é ica de E os
ambém se az sen i com indis a çá el acu ilância. À semelhança de
olumes an e io es, aqui o desejo deba e-se com a al a, o júbilo do
cona us digladia-se com a dimensão ágica do exis i . Em suma, com a
poesia he be iana es amos semp e pe an e a complexidade da ida ou,
em e mos icœu ianos, a aleg ia do sim na is eza do ini o.
Toda ia, pese embo a a iniludí el dimensão ana ológica,
es amos em c e que a dimensão u u an e des a ob a como que nos
ob iga a eposiciona o selo es amen á io e inal que, indubi a elmen e,
lhe podemos ou o ga . Manuel de F ei as e ela-se pa icula men e
pe suasi o quando, em “Baixa biog a ia”, se epo a ao i ine á io mais
ecen e da ob a poé ica he be iana, mos ando como Se idões em
ap o unda a i agem ino ado a que A aca não co a o ogo (2009)
e dadei amen e signi icou. F ei as de ende que Helde inha chegado em
13 C . Raine Ma ia Rilke, Das Buch on de A mu und om Tode (1903), e cei o li o
do ciclo poé ico S unden-Buch (1905). O p imei o li o do ciclo em ap eço in i ula-se
Das Buch om mönchischen Leben (1899), e o segundo, Das Buch on de Pilge scha
(1901). A edição po nós u ilizada é a seguin e: RILKE, Raine Ma ia. Gesammel e
Gedich e. F ank u am Main: Insel-Ve lag, 1962. p. 103.
14 MARTELO, 2009, p. 153.
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Do mundo (1994) a um al es ado de a eba amen o alquímico, a um g au
de in ensidade imagé ica ão ele ado, que uma al assomb osa alquimia
e bal – a e igem p omo ida po uma al g amá ica ex ema – o e ia
conduzido a um beco sem saída: “Não e a possí el le a mais longe
ão pe ei a e compac a ‘massa de beleza’ em que as ‘es elas sísmicas’
adqui iam um b ilho cegan e e adioac i o”.15 O excesso de beleza e ia
encon ado um pon o de i agem que lhe e ia pe mi ido espi a de no o
poe icamen e. Esse “can o in ei o” (exp essão que encon amos em Do
mundo) e ia, assim, dado luga àquilo a que o c í ico apelida de “i upção
dis ó ica”,16 is o é, a um ce o om c epuscula que pon ua de desencan o
o júbilo incon ido de uma ou o a esc i a ansbo dan e. É nes e sen ido
que Manuel de F ei as ala á de ecomeço e classi ica á es e “inusi ado
enascimen o lí ico”17 da o ma escla ecedo a que se segue: “Ape ece,
pois, conclui que o ‘can o in ei o’ oi b u almen e subs i uído po uma
‘ ala can an e’, mais en e à linguagem di a comum e ao mundo, num
sen ido his ó ico e já não exul an emen e a empo al”.18
Seja como o , a in e ogação sob e a pala a e sob e o o ício
poé ico pe sis e. Nesse ges o e lexi o, o poema é ca ac e izado como
sendo “ émulo” e “ emen e”, apon ando, pois, pa a a dimensão
dinâmica e ib á il da poiesis he be iana. Toda ia, mais do que is o, o
que Se idões pa ece i a ap o unda é a aspi ação do sujei o poé ico a
uma ala mais económica, mais ab e iada, o que se obse a no seguin e
exemplo: “con udo quando aco dei a minha mão es a a em b asa,/con udo
esc e i o poema cada ez mais cu o pa a chega /mais dep essa”,19 ou,
num ou o poema, “num poema ápido ão ápido que não doa”.20 Não
su p eende, com e ei o, a u ilização abundan e da exclamação (“ah! um
poema ei o sob e udo de ogo o e e silêncio”21) ou da in e jeição (“oh
se á que um poema en e odos pode se absolu o?/: esc e ê-lo, e ele se
a nossa mo e na pe eição de poucas/linhas”22), na medida em que ais
aços exp essi os deno am o anelo do sujei o em ap eende “um só nome
15 FREITAS, 2013, p. 35-36.
16 FREITAS, 2013, p. 36.
17 FREITAS, 2013, p. 41.
18 FREITAS, 2013, p. 36.
19 HELDER, 2013a, p. 49.
20 HELDER, 2013a, p. 56.
21 HELDER, 2013a, p. 57.
22 HELDER, 2013a, p. 58.
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pa a a e a oda”,23 a busca da pala a absolu a que ambém encon amos,
com ou os ma izes, po exemplo, em Lispec o ou em Bo ges.
Na senda das e lexões deleuzianas em o no da li e a u a como
gaguez c iado a e da li e a u a meno , pode -se-ia a i ma que a poesia
de He be o Helde cons i ui um exe cício de esis ência que con ida a
língua a desca ila . A expe iência de despe ence alia-se a um idioma,
a uma língua den o da p óp ia língua, como lemos em A aca não co a
o ogo,24 poesia como sangue esc i o. Ensaiando um “poema pe ei o
p ome ido que não nunca”,25 o poe a exp ime o seu desejo impossí el:
“que o c ia uma língua ão es i a que só eu saiba,/e ala nela de udo o
que não az sen ido/nem se pode aduzi no pânico de ou as línguas”.26
U opia poé ica se ia, assim, deli a , la a o a do sulco, escapando ao
uso maio com que, po oda a pa e, nos ce ca o quo idiano en o pecido.
Já em “(guião)”, incluído em Pho oma on & ox (1995), He be o
Helde nos ala da “des uição de uma sin axe es i a”.27 Também no
segmen o sin oma icamen e in i ulado “(mo imen ação e á ica)”, lemos
a e en e des uido a-c iado a a que se p e ende subme e a linguagem:
“Le a a linguagem à ca ni icina, liquida -lhe as e e ências à ealidade,
acaba com ela – e epo en ão o silêncio”.28 Nesse ges o adical, na busca
de um idiolec o singula que aça a língua eme , sacudindo a canga que
semp e op ime a es ei eza do linguaja ep esen a i o, a oz he be iana
ci a-se no apelo a uma ala híb ida e a uma mes içagem discu si a que
en iquecem es a poesia e que a o nam p o undamen e poli ónica. A g ande
poesia em esse condão: o de pe mi i islumb a in uições e pa celas de
eal que, de ou o modo, esul a iam desbo adas e insípidas. Edga Allan
Poe colocou a ques ão de o ma magis al nos seguin es e mos:
quando a a és da Poesia – ou pela Música – o mais
a eba ado dos modos poé icos – nos encon amos
des ei os em lág imas – cho amos en ão – não […] po
um excesso de p aze , mas po uma ce a do , pe ulan e,
impacien e, ace à nossa inabilidade de aga a , ago a,
o almen e, aqui, na e a, de uma ez pa a semp e, essas
23 HELDER, 2013a, p. 61.
24 HELDER, 2009a, p. 572.
25 HELDER, 2013a, p. 69.
26 HELDER, 2013a, p. 57.
27 HELDER, 2013b, p. 132.
28 HELDER, 2013b, p. 126.
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aleg ias di inas e ex asian es, das quais conseguimos
alcança a a és do poema, ou a a és da música, apenas
b e es e inde e minados islumb es.29
P incípio de incêndio, ulgo no escu o, a poesia de He be o
Helde não cessa de nos ap esen a esses ágeis e p o undamen e
necessá ios islumb es. Um jogo de espelhos, li e almen e.
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