Volume LII
Núme o 106
Dezemb o 2017
Cen o
de Es udos
Geog áficos
FINISTERRA
Re is a Po uguesa de Geog a ia
TEORIAS NÃO -REPRESENTACIONAIS NA GEOGRAFIA I:
CONCEITOS PARA UMA GEOGRAFIA DO QUE ACONTECE
Daniel Pai a1
RESUMO – As eo ias não - ep esen acionais são incon o ná eis na geog a ia cul u al
con empo ânea, pelo que se jus i ica uma e isão c í ica dos p incipais con ibu os que em
o necido à disciplina. Com isso em men e, o obje i o des e a igo é abo da o desen ol i-
men o das eo ias não - ep esen acionais na geog a ia, e p o idencia uma lei u a c í ica do
seu impac o na geog a ia cul u al. As eo ias não - ep esen acionais podem se ca ac e iza-
das como uma pe spe i a eó ica que oca os aspec os p ocessuais e dinâmicos do quo i-
diano – as p á icas, as expe iências, as pe o mances – p ocu ando i pa a além de lei u as
segmen adas da ealidade e da expe iência humana. Pa a a ingi o p opósi o do a igo, abo -
da ei as genealogias eó icas das eo ias não - ep esen acionais e os seus p incipais unda-
men os em ês pa es: (i) subje i idade, a e os, e sensações; (ii) ma e ialismo elacional; e
(iii) mo imen o, empo, e e en os.
Pala as -cha e: Teo ias não - ep esen acionais; geog a ia cul u al; a e o; assemblage; e en o.
ABSTRACT – NON -REPRESENTATIONAL THEORIES IN GEOGRAPHY I: CON-
CEPTS FOR A GEOGRAPHY OF WHAT HAPPENS. Non - ep esen a ional heo ies a e
cen al in con empo a y cul u al geog aphies, and o his eason a c i ical e iew o i s
con ibu ions is pe inen . Wi h ha in mind, he objec i e o his a icle is o app oach he
expansion o non - ep esen a ional heo ies in geog aphy, and o p o ide a c i ical eading o
i s impac in cul u al geog aphy. Non - ep esen a ional heo ies may be cha ac e ized as a
heo e ical pe spec i e ha ocuses on he p ocessual and dynamic aspec o e e yday li e
– p ac ices, expe iences, and pe o mances – and ha seeks o go beyond segmen ed analysis
o eali y and human expe ience. In o de o each his a icle’s goal, I will app oach he
genealogy o non - ep esen a ional heo ies and hei main concep s in h ee segmen s:
(i) subjec i i y, a ec , and sensa ion; (ii) ela ional ma e ialism; and (iii) mo emen , ime,
and e en s.
Keywo ds: Non - ep esen a ional heo ies; cul u al geog aphy; a ec ; assemblage; e en .
Recebido: ou ub o 2016. Acei e: e e ei o 2017.
1 In es igado Associado do Cen o de Es udos Geog á icos do Ins i u o de Geog a ia e O denamen o do Te i ó io da
Uni e sidade de Lisboa, R. B anca Edmée Ma ques, 1600 -276, Lisboa, Po ugal. E -mail: daniel.pai [email protected]
Finis e a, LII, 106, 2017, pp. 159 -168
doi: 10.18055/Finis10196
Sín ese bibliog á ica
160 Daniel Pai a
RÉSUMÉ – LES THÉORIES NON -REPRÉSENTATIONNELLES EN GÉOGRAPHIE I:
DES CONCEPTS ADAPTÉS À UNE GÉOGRAPHIE DE «CE QUI SE PASSE». La Géog a-
phie cul u elle con empo aine ne peu igno e les héo ies non - ep ésen a ionnelles. C’es
pou quoi on p ésen e ici l’é olu ion de leu usage en Géog aphie ainsi qu’une lec u e c i i-
que de leu in luence su la Géog aphie cul u elle. Ces héo ies appo en une ision nou-
elle su le p ocessus e la dynamique du quo idien, su les usages, les expé iences e leu s
ésul a s. On essaie ainsi de dépasse une p ésen a ion pa cellai e de la éali é e des expé-
iences humaines. Pou cela, on p ésen e les généalogies de ces héo ies e leu s bases p in-
cipales : 1. la subjec i i é, l’a ec e les sensa ions, 2. le ma é ialisme ela ionnel, 3. le mou e-
men , le emps, les é énemen s.
Mo s clés: Théo ies non - ep ésen a ionnelles; Géog aphie cul u elle; a ec ; assemblage;
é énemen .
I. INTRODUÇÃO
Desde o início do século, as eo ias não - ep esen acionais êm omado uma posição cada ez mais
in luen e na geog a ia cul u al. A sua expansão es á ligada a um in e esse c escen e en e os geóg a os
em pe cebe e explica os aspe os p ocessuais e pe o ma i os da ida quo idiana, c iando uma “geog a-
ia do que acon ece” (Th i , 2008, p. 2). Na sequência do in e esse da geog a ia sob e as es u u as sócio-
-espaciais (Ha ey, 1973), a iden idade pessoal em elação ao luga (Tuan, 1977) ou o papel dos símbolos
e dos discu sos (Soja, 1996), o in e esse das eo ias não - ep esen acionais passa a se comp eende os
p ocessos da ida quo idiana e explica como os espaços, es u u as, p á icas, iden idades e elações
sociais p oduzem expe iências e a e ações no dia a dia que po enciam ou são ge adas pelos acon eci-
men os mundanos. Apesa do desen ol imen o das eo ias não - ep esen acionais não es a ligado ape-
nas à Geog a ia, com con ibuições signi ican es de ou os cien is as sociais (Vannini, 2015), é po exce-
lência no seio da Geog a ia que es as eo ias se êm desen ol ido (Lo ime , 2005; Th i , 2008; Ande son
& Ha ison, 2010), mui o de ido ao ac o de que as elações en e o se humano e odo o ambien e que
o odeia são a p eocupação cen al da p óp ia disciplina.
O obje i o des e a igo é discu i os p incipais undamen os das eo ias não - ep esen acionaisi. As
eo ias não - ep esen acionais êm como oco a expe iência e a p á ica da ida quo idiana, mas p e en-
dem analisa mais do que aquilo que é conscien emen e pe cepcionado pelos sujei os (Th i , 2008).
Pa a isso, as eo ias não - ep esen acionais abalham com um en endimen o ala gado do sujei o e da sua
capacidade de ação, conside ando -os como elacionais, sendo a sua ação po enciada ou cons angida
pelas ma e ialidades com que se elaciona (Ande son & Ha ison, 2010; Simpson, 2015). Nesse âmbi o,
são os luxos a e i os en e co pos e ma e ialidades que combinam aspe os de signi icação ep esen a-
cional e aspe os pe o ma i os não - ep esen acionais que são p incipalmen e ocados (McCo mack,
2013; Ande son, 2014). É jus amen e es e oco nos aspe os que es ão pa a além da ep esen ação na
pe o ma i idade do dia a dia que le am ao desígnio de ‘ eo ia não - ep esen acional’. No en an o, es e
mesmo desígnio em sido sujei o a c í icas, is o que o oco em aspe os não - ep esen acionais não
implica a exclusão da ep esen ação, que é undamen al na pe o ma i idade do dia a dia, le ando
alguns au o es a p opo a designação ‘mais -do -que - ep esen acional’ (Lo ime , 2005). Es e oco ende a
esba e alguns dos limi es adicionais nas ciências sociais, como as di isões social/biológico ou men e/
co po, ala gando assim o espe o de análise do que é ‘cul u al’, passando ago a a inclui o biológico, o
na u al, e o ísico.
161Teo ias não- ep esen acionais na Geog a ia I: concei os pa a uma geog a ia do que acon ece
Es e a igo di ide -se nas seguin es secções. P imei o, começa ei po discu i as genealogias eó icas
das eo ias não - ep esen acionais. De seguida, abo da ei os seus p incipais undamen os em ês pa es:
(i) subje i idade, a e os, e sensações; (ii) ma e ialismo elacional; e (iii) mo imen o, empo, e e en os.
Po úl imo, a ei um b e e comen á io sob e o impac o des a i agem concep ual.
II. UMA GENEALOGIA DO NÃO -REPRESENTACIONAL NA GEOGRAFIA
Ande son e Ha ison (2010) a gumen am que as eo ias não - ep esen acionais eme gem na Geo-
g a ia Humana p incipalmen e na sequência da in luência do cons u i ismo social du an e os anos 80
e 90 do século passado. Pa a es es au o es, o cons u i ismo social oi o modo dominan e de análise
social e cul u al na Geog a ia Humana, sendo o p incipal undamen o eó ico do que icou conhecido
como a No a Geog a ia Cul u al. Nes e campo, o in e esse de in es igação incidia p incipalmen e numa
ques ão de ep esen ação, e em especial no que espei a às es u u as de signi icado simbólico de uma
sociedade ou cul u a. São seminais nes e aspe o os abalhos sob e paisagens de Cosg o e e Daniels
(1988), Duncan (1990) e Zukin (1991). Os abalhos in luenciados pelo cons u i ismo social, pa a
Ande son e Ha ison (2010), deixa am na Geog a ia Cul u al duas ideias -cha e. P imei o, que as o dens
simbólicas socie á ias são socialmen e cons uídas e a bi á ias. Em segundo luga , que a in e p e ação
des as mesmas o dens simbólicas é plu al e con es ada, e di e e de luga pa a luga . Pode -se -ia ac es-
cen a uma e cei a ideia -cha e, que já es á na pon e en e o in e esse da No a Geog a ia Cul u al nas
o dens simbólicas e o in e esse das eo ias não - ep esen acionais na pe o mance polí ica, que é a
impo ância das dinâmicas de pode e in luência das es u u as simbólicas na p á ica quo idiana
(Agnew, 1987; Massey, 1994).
Vol ando à lógica de Ande son e Ha ison (2010), os mesmos a i mam que as eo ias não-
- ep esen acionais ompem com o cons u i ismo social ao c i ica a sepa ação que es e az en e o
mundo e os signi icados que lhe são a ibuídos. As eo ias não - ep esen acionais êm con es a essa
di isão, a i mando que o conhecimen o não é di isí el da ealidade no qual eme ge, con a iando a
clássica di isão ca esiana en e ep esen ação e ealidade, en e men e e co po. Nes e sen ido, a p odu-
ção de conhecimen o passa a p eocupa -se não apenas com as ep esen ações men ais da ealidade
(e.g. signi icados, sen imen os, discu sos, es u u as), mas ambém com o modo como essas ep esen a-
ções são p oduzidas e p a icadas co po eamen e no deco e das acções e in e acções de que o mundo é
cons i uído (incluíndo p á icas, hábi os, a e os). A pe o mance o na -se assim numa pala a -cha e.
Um momen o -cha e nes a ansição é a c í ica de Th i e Dewsbu y (2000) às ‘geog a ias mo as’.
Num seminal edi o ial na e is a En i onmen and Planning D, os au o es a gumen a am que as análises
geog á icas dominan es nesse momen o, assen es na ep esen ação, ap esen a am a ealidade geog á ica
como uma ealidade es á ica e imu á el, negligenciando a na u eza con ínua e p ocessual dos enóme-
nos geog á icos, e aça am as p incipais linhas do que de e ia se uma geog a ia pe o ma i a, com
g ande ên ase no não - ep esen acional.
Mas a e olução das eo ias não - ep esen acionais na Geog a ia Humana não pode se apenas a i-
buída ao cons u i ismo socialii. O impac o da iloso ia pós -es u u alis a (Doel, 2010) e da pós-
- enomenologia (Ash & Simpson, 2014) são inescapá eis quando se ala de eo ias não - ep esen acionais.
Nes e sen ido, as eo ias não - ep esen acionais podem ambém se is as como descenden es da linha-
gem c í ica das geog a ias es u u alis as e da linhagem he menêu ica das geog a ias humanis as que se
desen ol e am na década de 1970, embo a con igu em os emas de pesquisa de um modo di e en e. Po
um lado, se o in e esse nas es u u as sociais pe manece, o oco passa ago a po pe cebe como é que
essas es u u as sociais a e am a ação social (Ande son, 2014). Po ou o lado, o in e esse na subje i i-
dade e na pe cepção dos enómenos pelos indi íduos pe manece cen al nas eo ias não - ep esen acionais,
162
mas abalhos ecen es no âmbi o da pós - enomenologia êm al e ado a manei a como se abo da esses
aspe os. Enquan o a geog a ia humanis a de base enomenológica se oca a na ep esen ação men al do
mundo pelo sujei o, as eo ias não - ep esen acionais de base pós - enomenológica abo dam o modo
como o sujei o em si eme ge elacionalmen e com o mundo (Ash & Simpson, 2014).
Impo a ambém salien a a impo ância da eo ia a o - ede, desen ol ida po sociólogos como
Law (2004) e La ou (2005), e cujos p ecei os signi ican es pa a a geog a ia o am essencialmen e abso -
idos pelas eo ias não - ep esen acionais. A noção ala gada de agênciaiii que La ou (2005) de ende é
al ez a peça cen al des a abso ção. As e lexões de La ou (2005) o am pa icula men e elizes em
descen aliza a noção de agência do se humano, passando -se a conside a a agência como um luxo no
qual pa icipam não só humanos (e se es i os não -humanos), mas ambém di e sos ac an es, nomea-
damen e obje os, ecnologias ou a p óp ia mo ologia do espaço. Es a pe spe i a em sido pa icula -
men e ú il em es udos u banos pa a analisa a ação social em elação com o espaço e os seus obje os
(Bende & Fa ías, 2010; McFa lane, 2011).
Es as ês co en es ( iloso ia pós -es u u alis a, iloso ia pós - enomenológica, e eo ia a o - ede)
êm em comum a des abilização de noções undamen ais como a de es u u a, sujei o, co po, ou agên-
cia, passando a en endê -los de uma manei a luída e p ocessual, e é po esse mo i o que se o na am
ins umen ais pa a o obje i o de oca os aspe os pe o ma i os da expe iência do mundo. Na p óxima
secção, discu i -se -ão os p incipais undamen ais das eo ias não - ep esen acionais na Geog a ia,
abo dando -se alguns undamen os eó icos, nomeadamen e: (i) subjec i idade, a e os e sensações; (ii)
ma e ialismo elacional; e (iii) mo imen o, empo e e en os.
III. SUBJETIVIDADE, AFETOS E SENSAÇÕES
A noção de sujei o e subje i idade é cen al pa a um p og ama de in es igação ocado na expe-
iência pe o ma i a do mundo. No en an o, a ele ância dos p ocessos não - ep esen acionais nessa
expe iência pe o ma i a ob iga am a uma e o mulação da noção de sujei o e subje i idade (Wylie,
2010; Simpson, 2015).
Numa p imei a ins ância, as eo ias não - ep esen acionais êm des abiliza e descen aliza o sujei o.
Es a descen alização em á ias o igens, desde as e lexões no campo da iloso ia pós -es u u alis a
(Deleuze, 1988) e da pós - enomenologia (Böhme, 1995; S iegle , 1998; Nancy, 2007) a no as eo ias da
psicologia social (B ennan, 2004). Têm es as em comum a noção que não é possí el, ou pelo menos não
é p oducen e, sepa a em absolu o o sujei o e o seu ex e io , bem como não o é sepa a a men e (ou
psicologia) e o co po (ou isiologia) do sujei o. O concei o comum que a icula es as noções em sido o
concei o de a e oi . A lei u a mais adicional de a e o se á a de Espinosa, que é ecupe ada e epensada
po Deleuze (1988), sendo a e o de inido como o conjun o de capacidades de um o ganismo pa a a e a
ou os o ganismos e se ele p óp io a e ado. Pensa a pa i da noção de a e o implica pe cebe que a
ação humana não é apenas de e minada pelo pensamen o conscien e. Ela é ambém de e minada po
á ios p ocessos não - ep esen acionais, como sensações ou sen idos, sen imen os, pulsões, hábi os,
e lexos isiológicos au omá icos, en e ou os (Massumi, 2002; Th i , 2008). O sujei o é cons an emen e
a e ado po di e sos es ímulos ambien ais pe cebidos pelo sis ema neu ológico, e as eo ias não-
- ep esen acionais na Geog a ia êm ocado es a in e acção cons an e que coloca em causa a ideia de um
sujei o con ido, is o é, que o sujei o se esume ao seu co po e que es e pode se en endido sem se en ende
o ambien e em que i e (B ennan, 2004; Th i , 2008). A pa i da lei u a do a e o, esba em -se as dis inções
en e o social e o biológico, en e cul u a e na u eza, e en e men e e co po (B ennan, 2004).
Nes e âmbi o, em ido pa icula impo ância pa a a geog a ia o concei o de a mos e as a e i as, o
qual em po enciado á ios es udos empí icos (Bissel, 2010; Edenso , 2012; Ash, 2013b; Bille, 2015).
Daniel Pai a
163
Ande son (2014) de ine a mos e as a e i as como o que es á “en e” no espaço u bano, o e eno pa i-
lhado onde os a e os se ansmi em. No en an o, es es não se ansmi em apenas en e co pos. Como
Th i a i ma, a ansmissão a e i a é ambém “uma p op iedade de espaços pa icula es embebidos
num a e o ou numa combinação de a e os ao pon o de espaço e a e o se em egula men e coinciden es”
(2008, p. 222), is o é, as ma e ialidades êm um papel ele an e. Pa a au o es como S ewa (2011), os
indi íduos são in a ia elmen e o çados a sin oniza em -se com as a mos e as dos luga es onde se
encon am, pelo impac o no seu co po.
Apesa dis o, em sido a gumen ado que descen aliza comple amen e a agência do sujei o se á i
longe demais. Tendo em con a que os p ocessos não - ep esen acionais uncionam em diálogo com o
pensamen o e lexi o (Long & Moo e, 2012; Blackman, 2012), em -se es abelecido um en endimen o do
sujei o enquan o sujei o elacional mas e lexi o, enquan o p esença au ocien e no mundo (Wylie, 2010;
Simpson, 2015).
Na sequência da impo ância dada aos p ocessos que es ão pa a além da ep esen ação, êm su -
gido á ios es udos que se deb uçam sob e sen idos menos explo ados, como a audição (Du y & Wai ,
2011; Gallaghe & P io , 2014), o ac o (Pa e son, 2009) ou o ol ac o (Henshaw, 2014), eme gindo assim
uma linha de in es igação geog á ica sob e paisagens senso iais, ou sensescapes (Degen, 2008; Middle-
on, 2010), que dá seguimen o ao in e esse da geog a ia humanis a sob e sen idos (Tuan, 1977), e que se
in e liga com uma senso ial u n ao ní el das ciências sociais que e o mula mé odos e nog á icos pa a
o es udo social, an opológico e geog á ico dos sen idos (Howes, 2005; Pink, 2009; Pink, 2013).
IV. MATERIALISMO RELACIONAL
Relacionado com a descen alização do sujei o e da agência, e com a pe spe i a a e i a sob e o
co po, es á uma maio impo ância dada ao papel das ma e ialidades na ação social. O concei o mais
cen al des e ma e ialismo elacional se á o de assemblage. Es a impo ância é he dada da eo ia a o -
- ede e da sua conside ação do ‘social’ não como uma en idade p é -dada, mas como o mações ou
associações na qual pa icipam não só humanos (denominados a o es), mas oda uma sé ie de en idade
não -humanas (denominadas ac an es), como ex os, objec os, ecnologias, en e ou os (La ou , 2005).
Assemblage, po an o, e e e -se à mobilização, ou encon o, de á ios a o es e ac an es na ação social.
Todas as o mações sociais são is as como uma mon agem de elemen os especí icos que de e minam a
ação social a a és do seu elacionamen o. Pa a além do pensamen o de La ou (2005), é ambém a
de inição de Deleuze e Gua a i (1987) de assemblage que em sido mobilizada . Es a em a an agem de
os ilóso os conside a em dois ní eis em cada assemblage: um ní el de a i idade, de o mação ísica, e
um ní el de exp essão, associado aos enómenos a e i os.
A pa icipação de di e en es ma e ialidades na ação social em sido conside ada de di e en es
modos na Geog a ia (Ande son & Wylie, 2009), não sendo possí el classi ica de o ma simplis a esses
modos de ido à p óp ia mul iplicidade de o mas que as ma e ialidades assumem e os modos como elas
se diluem na ação social (Ande son & Ha ison, 2010). Mas é possí el dis ingui duas e en es nos
es udos sob e os modos de elacionamen o que es as ma e ialidades p o ocam.
Uma linha signi ican e de abalhos que eme ge nes e con ex o é a explo ação da agência da mo -
ologia espacial e da a qui ec u a nas p á icas, nas sensações, nos i mos e na ap op iação do espaço. Po
exemplo, Kä holm (2007; 2008; 2009), Amin (2008) e Dewsbu y (2015) êm a gumen ado que a mo -
ologia espacial do espaço público é de e minan e pa a a ap op iação do espaço na medida em que
de e minadas ma e ialidades como o mobiliá io u bano in luenciam a localização e os i mos dos indi-
íduos. Po ou o lado, ou os es udos êm apon ado pa a a in luência a e i a da mo ologia espacial e
as suas a iações, como o de Adey (2008) que mos a como espaços como os ae opo os são desenhados
Teo ias não- ep esen acionais na Geog a ia I: concei os pa a uma geog a ia do que acon ece
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pa a induzi uma de e minada mobilidade no seu in e io , sendo a expe iência espacial planeada ao
de alhe dos a e os, pa a assegu a con olo sob e os indi íduos nesses espaços, ou o es udo de Edenso
(2012) sob e iluminação no es i al Blackpool Illumina ions que mos a a pa icipação da luz nas a mos-
e as a e i as de Blackpool. Ou os es udos semelhan es êm analisado cen os come ciais (Mille , 2014),
edi ícios (K a l & Adey, 2008), p aias (Lobo, 2014), ou anspo es (Bissell, 2010).
Ou a linha signi ican e sob e ma e ialidades incide sob e obje os, e em pa icula no as ecno-
logias digi ais. Des es, des acam -se os es udos de Ash (2012a; 2012b; 2013a) sob e ideojogos que
mos am como o co po se adap a e sin oniza com as ma e ialidades das no as ecnologias à medida
que as u iliza. Um concei o essencial nes e âmbi o é o concei o de a o dance, ap esen ado po Gibson
(1979) pa a se e e i às possibilidades de elação en e o ganismos e obje os que são ape cebidas
a a és de es ímulos que os obje os p o ocam nos o ganismos (Th i , 2008). Mais conc e amen e,
a o dances são “con i es ou signi icados ecológicos que es ão on ologicamen e en aizados em coisas
ou quasi -coisas” (G i e o, 2014, p. 51). Simpli icando, a amen e um obje o é inexp essi o, e as suas
qualidades são – nem semp e conscien emen e – pe cebidas pelos sujei os que daí e i am um possí-
el uso pa a o obje o. Pa a G i e o (2014), exis em á ios ipos de a o dances, que ão desde indica-
ções p á icas que a e imos dos obje os a es ímulos emocionais que deles emanam. Es e é um ní el que
as eo ias não - ep esen acionais êm ac escen a às elações de signi icação ep esen acional (Th i ,
2008). No en an o, a o dances apenas explicam pa e da elação pe o ma i a não - ep esen acional
com o mundo. Como Dewsbu y (2015) e Bissel (2015) a gumen am, os hábi os co po ais êm um
papel cen al na pe o mance do dia a dia, e os á ios espaços em que es amos e os obje os que usa-
mos são ap op iados e manuseados a a és de ges os que azemos au oma icamen e a a és de hábi os
es abelecidos.
V. MOVIMENTO, TEMPO, E EVENTOS
No ce ne das eo ias não - ep esen acionais es á o in ui o de pe cebe os aspe os p ocessuais dos
enómenos, de desc e e e explica o que acon ece. Pa a al, impo a especialmen e pe cebe como é
que as elações se desen ol em na p á ica, os luxos e mo imen os das coisas e os seus esul ados. Es a
in enção ad ém de duas pe cepções. P imei o, a ideia de que a p óp ia ida é cons i uída po mo i-
men o, que se em es abelecido an o po ia da a ec i e u n, cujos p incipais au o es ap esen am os
luxos a e i os como mo imen os espaço - empo que al e am cons an emen e o es ado dos co pos
en ol idos (Massumi, 2002; Clough, 2007), como po ia da ecologia polí ica, que em ap esen ado a
ida social e polí ica como assemblages ib an es compos os po mo imen os que al e am o es ado de
coisas cons an emen e (Benne , 2010; Goodman, 2010). Es as pe spe i as êm animado abo dagens
i alis as, as quais se ocam na sob eposição de aspe os geocul u ais e ísico -biológicos na ação social
(Pløge 2006; G eenhough, 2010; Pløge , 2015). Po ou o lado, a pe cepção de que no mundo a ual
os mo imen os de pessoas, bens e in o mação aumen am cada ez mais, e que mui os desses mo i-
men os, especialmen e os de in o mação, passam despe cebidos, le a a um maio in e esse nos espaços
de mo imen o (Th i , 2008).
Es e in e esse espelha ambém uma ansição mais as a no campo da Geog a ia no sen ido da
in odução da a iá el empo em á ios dos concei os undamen ais da disciplina. Desde o im do
século XX, a noção de espaço passou egula men e pa a uma noção de espaço - empo (C ang, 2012), o
luga passou a se is o como um e en o e não como uma en idade es á el (Massey, 2005), e a noção de
e i o ialização em des abilizado a noção de e i ó io enquan o en idade pe ene (B ighen i, 2010), de
modo semelhan e a como o concei o de egionalidade se deb uça sob e a p odução da ideia de egião e
os p ocessos subjacen es (Campbell, 2016).
Daniel Pai a
165
Na sequência des e in e esse, as eo ias não - ep esen acionais êm explo ado e desen ol idos os
concei os de i mo. O pon o de pa ida comum des es es udos em sido as e lexões de Le eb e (2004)
em o no da i manálise. Le eb e (2004) p opôs o es udo da espacialidade a pa i dos i mos, a gu-
men ando que a i micidade é algo que é comum a udo: ao humano, ao social, ao biológico, ao espacial.
Pa a o au o , o es udo dos i mos, começa no co po, po que é es e que os cap a, mas o obje i o de e se
pe cebe como os di e en es i mos dos elemen os espaciais se conjugam pa a o ma conjun os poli-
í micos, sendo necessá io comp eende as in e acções espácio - empo ais den o des es conjun os. Es a
pe spe i a em sido aplicada com especial in e esse na á ea dos es udos u banos, em pa icula no
es udo da ap op iação do espaço público (Simpson, 2008; Leh u uo i & Koskela, 2013; Wunde lich,
2013; Pai a, 2016) e na mobilidade u bana (Vannini, 2012), mas ambém na ap op iação de ou os
espaços como espaços digi ais (Ash, 2015) ou lúdicos (Hen iques, 2010).
Ou o concei o undamen al que em es u u ado es udos não - ep esen acionais é o concei o de
e en o. Es e concei o apon a pa a o es udo de acon ecimen os, ocando o modo como a ans o mação
do mundo é ei a a a és de ins âncias de agência elacional que incluem elemen os humanos e não-
-humanos, e que p oduzem e ei os e signi icados ace ca desses e ei os (Shaw, 2012). É pa icula men e
impo an e como alguns dos elemen os dos e en os são capazes de ‘ o ça ’ ou os elemen os, seja a a és
da c iação ou des uição de elemen os, da a e ação ou do con olo (Shaw, 2012). E en os des acam -se
po p oduzi em in a ia elmen e signi icados ace ca do que acon ece. Nes e âmbi o, e en os são uma
pa e impo an e da pe ença dos sujei os ao mundo e da p esença do mundo pe an e o sujei o, is o que
o co po humano es á semp e en ol ido num e en o e ende a sin oniza -se com ele (S ewa , 2011;
Pløge , 2015). Pelo seu oco na ans o mação social, o concei o de e en o apon a ambém pa a um
modo de comp eende como aspe os ep esen acionais ou es u u ais como signi icados sociais ou ins-
i uições nascem a pa i da ação social e a moldam (Shaw, 2012).
VI. CONCLUSÃO
As eo ias não - ep esen acionais eme gi am nes e século como uma das p incipais pe spe i as na
geog a ia cul u al, assumindo -se como um ompe com o momen o pós -mode no na geog a ia (pa a
uma c í ica do pós -mode nismo a pa i das eo ias não - ep esen acionais, e Ande son, 2014). A sua
eme gência não implica a desconside ação de elemen os undamen ais pa a ou as pe spe i as no
âmbi o da disciplina, como es u u as sociais, sen ido de iden idade ou signi icados cole i os, mas a
lei u a des es elemen os passa a aze -se a pa i da len e do a e o, o que possibili a um en endimen o
pe o ma i o, elacional e p ocessual des es elemen os, sendo o oco ala gado pa a a sua p odução,
con eúdo e in luência na ação social. A geog a ia a pa i das eo ias não - ep esen acionais p ocu a
obse a p incipalmen e o que se mo e, o que acon ece, ou o que muda, a as ando -se de lei u as que
abo dam a dis ibuição de elemen os humanos e não -humanos no espaço e o e i ó io como es u u as
es á eis.
AGRADECIMENTOS
A in es igação conducen e a es e a igo oi inanciada pela Fundação pa a a Ciência e a Tecno-
logia a a és da bolsa de dou o amen o pa a o p oje o “Som U bano: Te i ó ios, A mos e as A e-
i as e Polí icas Públicas” (SFRH/BD/108907/2015). O au o ag adece ao P o esso He culano
Cachinho pela o ien ação cien í ica e a dois e iso es anónimos pelos comen á ios e suges ões de
melho ia.
Teo ias não- ep esen acionais na Geog a ia I: concei os pa a uma geog a ia do que acon ece
166
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