O HORIZONTE DA ETICIDADE
EM NIETZSCHE
Vânia Du a de Aze edo
(Pon i ícia Uni e sidade de Campinas)
Mesmo hoje, um século depois da in e upção das in es igações ilo-
só icas de Nie zsche, sua ob a pe mi e a in odução de um lei mo i pou-
co in es igado ou mesmo não ema izado pela maio pa e dos in é p e es.
É o caso da a i mação da p esença de uma é ica, mesmo que encobe a
pelo peso da c í ica aci ada à mo al. Se há um ce o consenso quan o ao
econhecimen o de que a e en e iconoclas a do ilóso o pe passa sua
abo dagem ace ca do agi , exis em poucas conside ações e e en es a
uma possí el posi i idade no sen ido da en a i a de elabo ação de uma
no a pe spec i a é ica. Ainda assim, em nossa ó ica, conside amos se
esse o mo i o condu o an o de sua c í ica eemen e à mo alidade quan o
da in odução de no os concei os, especialmen e, o de além-homem.
Em Pe e Be kowi z1, encon amos uma lei u a que conside a a p o-
posição de uma é ica como ques ão cen al no pensamen o de Nie zsche.
Denominada de uma é ica da c ia i idade, sua exposição ap esen a uma
o ma de ida à qual de em ajus a -se os que que em se c iado es em
i endo, ao mesmo empo, uma é ica de c ia i idade e de au odei icação.
Mas é de ou a o ma que in e p e amos uma é ica na iloso ia do au o de
Ecce homo, pois conside amos que a e isão do signi icado con e ido ao
ágico conduz Nie zsche ao é ico. Reconhecemos que o ilóso o subs i ui
o elo en e dionisíaco e e icidade pelo enunciado p e iamen e em elação
à a e. Se a comp eensão es é ica do mundo possibili a a des encilha -se
da mo al em O nascimen o da agédia, se á sua comp eensão é ica que
pe mi i á dissol e a mo al da esponsabilidade, da au o- enúncia e do
sac i ício de si em p ol da acei ação/a i mação da ida enquan o a i ude
é ica a pa i de Assim ala a Za a us a. Ao pa i mos do ágico, ap o-
1 Pe e BERKOWITZ, Nie zsche he E hics o an Inmo alis , Massachuse s, Ha a d
Uni e si y P ess, 1996, p. 208.
Philosophica, 32, Lisboa, 2008, pp. 149-166
150 Vânia Du a de Aze edo
ximamo-nos da pe spec i a de Haa 2 enquan o econhece a p esença de
uma é ica no pensamen o de Nie zsche desde a a i mação dionisíaca do
mundo. Mas dele nos dis anciamos quando iden i ica nela algo de sag a-
do, o ideal de uma humanidade u u a bem como a udo que po a o po -
i , exp essando, assim, uma eligião do sim3. Conside amos a dimensão
do ágico como caminho que conduz ao é ico enquan o e ê o sen ido do
dionisíaco e, com isso, supo a a cons ução de uma isão é ica do mundo.
Comecemos po ca ac e iza o ágico em Nie zsche median e a p o-
posição do ca á e i es i o de a i mação da ida: “[o] dize Sim à ida
mesma ainda em seus p oblemas mais es anhos e mais du os” (EH. O
nascimen o da agédia, § 3). Nele o pensado inco po a a p oblema ici-
dade do exis i em uma dimensão de necessidade posi i a. É p óp io do
i -a-se o c ia e o des ui ; logo, o aden a-lo e o comp eende-lo p essu-
põem de início a sua a i mação. A elação es abelecida en e o p aze , ao
mesmo empo, no i -a-se e no des ui eme e à assimilação a i ma i a
do ca á e p oblemá ico da exis ência. Ao ap eendê-la a pa i da pe spec-
i a de uma e e nidade de c iação e de des uição cons an es, ao a i ma ,
ao mesmo empo, as belezas e os ho o es da ida e da condição humana,
Nie zsche es a ia, pela p imei a ez, p omo endo a abe u a pa a o i -a-
-se e, com isso, ealizando a “ ansposição do dionisíaco em pa hos ilo-
2 Michel Haa , Pa -delà le nihilisme, Pa is, PUF, 1998, p. 2.
3 Exis em ou as o mas de econhecimen o da p esença, não p op iamen e de uma
é ica, mas de uma eg a p á ica ou de um ipo de impe a i o no pensamen o do au-
o de Assim ala a Za a us a, mas são pau adas exclusi amen e pela dou ina do
e e no e o no. A o mulação ap esen ada po Nie zsche em A gaia ciência: ‘ “Você
que isso mais uma ez e po incon á eis ezes?”‘ (GC § 341) se i ia de base, po
exemplo, pa a a in odução de uma lei p á ica no seu pensamen o na isão de Gilles
Deleuze (Nie zsche e la philosophie, Pa is, PUF, 1970, 77-82) e de um impe a i o
exis encial na ó ica de Magnus (C . B end Magnus, Nie zsche exis encial impe a i-
e, Bloming on & London, Indiana Uni e si y P ess, 1978, pp. 112-153). Ao en en-
de mos o e e no e o no como cí culo mundano de in e p e ações, emos sua inclu-
são na iloso ia de Nie zsche se de e minada pela suspensão da p og essão da idéia
na His ó ia da Filoso ia. De a o, o ilóso o p ocu a sup imi a dis inção mundo
e dadei o/mundo apa en e a im de si ua o agi em ou a dimensão, pois econhe-
ce na ins i uição da idéia a des alo ização do mundo exp essa iloso icamen e em
e mos eó ico e p á ico. Ainda assim, em nossa lei u a, al o mulação não eme e-
ia a uma lei pa a o agi , mas a um es ado de assimilação do que e enquan o acei-
ação de udo: do que se quis, do que se que e á, do que oi que ido. Redimi o pas-
sado no homem não é aze-lo al e a o passado na escolha do p esen e que
e o na á, mas amá-lo como aquilo que oi. Se o homem é impo en e pa a que e
pa a ás, não é o lamen o que conduzi á seu momen o p esen e, mas sua po ência
maio mani es a-se jus amen e em a i ma o que oi. Essa é a edenção da on ade
do lamen o, do so imen o e da do . Uma al a i mação, en e an o, não supõe, em
nossa a aliação, nem uma eg a p á ica nem um impe a i o exis encial, pois não há
decididamen e in e enção, delibe ação, ou ans o mação do momen o. Somen e a
a essia soli á ia de pô -se a si mesmo a pa i de uma no a pe spec i a.
O ho izon e da e icidade em Nie zsche 151
só ico”4. Uma al ansposição em implicações ilosó icas p o undas, já
que se a a, po um lado, de ex ai de uma o al g a uidade con e ida ao
mundo e ao homem um edimensionamen o de ambos e, po ou o, de
exp essa , a a és de uma iloso ia que diz não às in e p e ações p ece-
den es, uma sup ema a i mação.
Reconhecemos, no es abelecimen o de uma complemen a idade en-
e si e não e c ia e des ui , o aço dis in i o da ansposição do dionisí-
aco em pa hos ilosó ico em Nie zsche. P ocessa-se, de a o, uma ans-
o mação no concei o de negação anunciada a a és da p edicação de
complemen a idade a pa es disjun i os. Em sua pe spec i a, “o nega e o
des ui são condição pa a o a i ma ”5. A negação das pe spec i as an e-
io es é condição pa a o ad en o de ou as. Ao aze do mo imen o aço
dis in i o dos exis en es e ao con e i às suas p oduções, en endidas como
in e p e ações, a mobilidade, ele a es ende igualmen e à negação e à des-
uição. E, nesse sen ido, pode-se incula a Nie zsche o des inculamen o
da negação do p incípio de con adição6, median e a sua inse ção no e-
gis o dos impulsos, o ças e on ade de po ência.
Quando a i mamos que Nie zsche e i a a negação do p incípio de
con adição e a si ua no egis o dos impulsos, o ças e on ade de po ên-
cia, que emos esga a a comp eensão nie zschiana do i -a-se enquan o
lui cons an e que pode se e não se . Nie zsche segue He ácli o ao en-
ende que o se não deixa de se o que é pa a se o na ou a coisa, mas é
em luxo. Na base do p incípio de con adição, es á a solução pa menídi-
ca ao p oblema me a ísico segundo o qual o se é e o não-se não é. E e-
i amen e, Nie zsche busca dissol e , simul aneamen e, os p incípios de
iden idade e não-con adição po en ende que eles sus en am a imu abili-
dade do se que emon a a Pa mênides7.
An es de in oduzi a on ade de po ência como in e p e ação e en-
ende oda p oposição desde esse p isma, Nie zsche esc e e em Humano,
demasiado humano sob e a ausência de co espondência en e a lógica e
o mundo eal de ido à p essuposição da iden idade das coisas. Pos e io -
4 F. NIETZSCHE, Ecce homo, O nascimen o da agédia, § 3.
5 Idem, ibidem, Po que sou um des ino, § 4.
6 É impo an e menciona que a p imei a c í ica e en a i a de dissolução dos p incí-
pios de não-con adição e iden idade oi ealizada po Hegel ao a i ma que al
p incípio enuncia ão-somen e a lei do en endimen o abs a o e não uma lei uni e -
sal do pensa (C . Hegel, Enciclopédia das ciências ilosó icas. A ciência da lógica,
T ad. Paulo Menezes, São Paulo, Loyola, 1995, § 115). Toda ia essa au o ia não é
expos a e explo ada po Nie zsche.
7 Apesa de Nie zsche pe cebe em A is ó eles o econhecimen o de que a exis ência
não az pa e da essência e, como não pe ence à na u eza das coisas, não é possí el
deduzi do concei o de se a sua exis ência (C . FT § 10), ecusa igualmen e o p in-
cípio de con adição a is o élico an o em sua o mulação on ológica quan o lógica.
152 Vânia Du a de Aze edo
men e, em 1888, ê o p incípio de con adição como um esquema que
sus en a o mundo e dadei o, indicando, com isso, que os p incípios da
lógica são imposições pe spec i as que pe mi em ao homem i ma o i -
-a-se a im de domina-lo, não sendo de e minações daquilo que exis e.
Na sua in e p e ação da e e i idade como campo de ba alha das o ças, a
a i mação e a negação são insepa á eis e podem se colocadas ao mesmo
empo.
Sob um aspec o, en endemos que a negação na iloso ia nie zschiana
exp essa a pe manência da desag egação em de e minada conc eção o -
gânica e, sob ou o, indica o necessá io abandono dessa conc eção pa a o
apa ecimen o de uma ou a. A i ma a p esença da negação e a sua neces-
sidade enquan o supo e pa a a c iação esul a numa isão de ex ema
complexidade da ida, pois se passa a assimila as suas con adições co-
mo mo imen o necessá io, embo a não p og essi o. Em Nie zsche, não
há passagem de um es ádio in e io pa a um supe io median e concilia-
ções ou supe ações da negação. Di e enciamos a isão de Nie zsche, que
en ende a negação como mo imen o necessá io no sen ido da negação de
uma pe spec i a pa a a a i mação de ou a, da negação na dialé ica hege-
liana que supõe um mo imen o p og essi o da ese à an í ese.
Se em Hegel a ese con ém a an í ese, que é sua negação, e na sín ese
coexis em os dois opos os, em Nie zsche o ala gamen o de pe spec i as
eque a sup essão de ou as mais es ei as. Assim, a negação não se sepa-
a da a i mação embo a ejei e a sua supe ação como na iloso ia de He-
gel. Em is a disso, Nie zsche con apõe-se à a i mação hegeliana de que:
“[c] cons i ui um dado capi al da lógica a in elecção de que a na u eza do
pensa mesmo é dialé ica, de que o pensa enquan o en endimen o de e
necessa iamen e cai no nega i o de si mesmo – na con adição”8. É em
sen ido di e so que o au o de Assim ala a Za a us a en ende o pensa ,
não o sepa a do sen i e do que e , bem como a negação – não eque a
sua supe ação como mó el do mundo4.
Reconhecemos como especi icidade da abo dagem nie zschiana
ace ca da negação a impossibilidade de nega a negação e de des ui a
des uição. No limi e, elas ence am uma posi i idade em um duplo sen-
ido: condicionan es do pa c iação/a i mação e a i mação da negação.
T anspo uma al comp eensão da ida e dos exis en es, em discu so ilo-
só ico, signi ica comp eende agicamen e o p óp io aze -se da iloso ia
enquan o aze -se da ida que iloso ia demandando, po isso, um ou o
ipo de discu so. O ex o de Ecce homo, em que Nie zsche se conside a o
p imei o imo alis a9, exp ime, em ce a medida, essa in enção ao elacio-
8 HEGEL, Enciclopédia das ciências ilosó icas. A ciência da lógica, T ad. Paulo
Menezes, São Paulo, Loyola, 1995, § 11.
9 A ecusa de um ipo de mo al e de homem es á p esen e, ia de eg a, nos ex os em
O ho izon e da e icidade em Nie zsche 153
na a sua na u eza dionisíaca à impossibilidade de sepa a : “o dize Sim
do aze o Não”10. A p óp ia alcunha de imo alis a, enquan o des uido
pa excellence encon a nessa medida de alo o seu sen ido maio .
De a o, o imo alismo nie zschiano es á ligado, indissolu elmen e, à
des uição. Ainda assim consoan e à sua na u eza dionisíaca, não pode
dissocia des ui e c ia . Ao a i ma a elação p esen e en e o p aze de
des ui e a o ça que lhe pe ence pa a a des uição e, igualmen e, ao
ea i ma o elo exis en e en e Sim e Não, o ilóso o asse e a a co es-
pondência en e o ça pa a des ui e des ui , ecusando, con o me sua
pe spec i a ilosó ica, di e encia o ça e p odu o da o ça e a ibui ao
Sim a medida do Não e ao Não a medida do Sim. Eis o pon o cha e de
nossa a gumen ação ace ca do ma iz p incipal de sua iloso ia posi i a
es a em p omo e a des uição ao mesmo empo em que p ocede à cons-
ução. Desse modo, é que o mais e í el pode se , simul aneamen e, o
mais bené ico, mesmo sen o “o des uido pa excellence”.
Seguindo de pe o suas decla ações, são duas as negações que Nie-
zsche ence a enquan o imo alis a11. Em Ecce homo, diz nega “um ipo
de homem que a é ago a oi ido como o mais ele ado, os bons, os bené-
olos, os bené icos”12 e ac escen a nega ainda “uma espécie de mo al
que alcançou igência e domínio como mo al em si – a mo al da déca-
dence, alando de modo mais angí el, a mo al c is ã”13. É nelas que en-
con amos a con apa ida da cons ução. Tomando-se a p opo ção en e
Sim e Não e C ia e Des ui como pa âme o, a negação de um ipo de
homem eque um ou o ipo, a negação de uma espécie de mo al deman-
que Nie zsche in i ula Imo alis a. Veja-se o pa ág a o 2 [185] do ou ono de
1885/ou ono de 1886 e ainda 19 [9] do se emb o de 1888, 22 [25] do se emb o de
1888.
10 F. NIETZSCHE, Ecce homo, Po que sou um des ino, § 2.
11 Há um e cei o sen ido exp esso na pala a imo alis a que é ca o a Nie zsche, qual
seja, o de psicólogo. Ele se conside a como sendo o p imei o psicólogo que hou e,
o p imei o a descob i as amas da mo al judaico-c is ã e a ealiza a psicologia do
sace do e ascé ico. Em Ecce homo, Nie zsche a i ma: “– Mas ainda em um ou o
sen ido escolhi pa a mim a pala a imo alis a como dis in i o, dis inção; o gulho-
-me de possui essa pala a, que me dis ingue de oda humanidade. Ainda nin-
guém sen iu a mo al c is ã como abaixo de si: isso eque ia uma al u a, uma lon-
ge idade, uma a é en ão inaudi a p o undidade ou ‘abissalidade’ psicológica. (...)
Quem, en e os ilóso os, oi an es de mim psicólogo, e não o seu opos o, ‘supe io
embus ei o’, ‘idealis a’? An es de mim não ha ia absolu amen e psicologia. ...”
(EH, Po que sou um des ino, § 6). Com elação à ques ão da psicologia em Nie-
zsche, ale ci a o es udo de P. Wo ling: “De Weg zu den G undp oblemen. S a-
u e s uc u e de la psychologie dans la pensée de Nie zsche”. In: Nie zsche-
-S udien, 26, Be lin, Wal e de G uy e & Co, (1997), 1-33.
12 Idem, ibidem, Ecce homo, Po que sou um des ino, § 4.
13 Idem, ibidem.
154 Vânia Du a de Aze edo
da uma ou a espécie, ainda que a sua cons ução exija a comple a disso-
lução das in e p e ações an e io es e o assen amen o de uma mo al e de
um sujei o em ou as bases. Nesse caso, comp eendemos a inse ção do
ágico no âmbi o ilosó ico enquan o supo e de um edimensionamen o
do sujei o em e mos é icos. Há, na iloso ia de Nie zsche, uma elação
en e o ágico e é ico, cuja elucidação em no elemen o dionisíaco p e-
sen e nes a iloso ia à cha e de in e p e ação.
Ainda que a p imei a oco ência do dionisíaco es eja ligada à elabo-
ação de uma me a ísica de a is a, si uando-se, assim, na exposição e e-
en e ao nascimen o da agédia Á ica, passa po e isões que esul am
em uma ampliação do seu uso e sen ido nos ex os subseqüen es. No en-
saio Ten a i a de au oc í ica, cujo obje i o p incipal es á na e omada de
algumas ques ões pos as em O nascimen o da agédia, Nie zsche admi e
ha e sido pouco cau eloso ao elabo a uma espos a sob e o sen ido do
dionisíaco, conside ando que al ez de esse se mais p uden e com e e-
ência a essa ques ão: “Tal ez eu alasse ago a com mais p ecaução e
com menos eloqüência ace ca de uma ques ão psicológica ão di ícil co-
mo é a o igem da agédia en e os g egos”14. Pode íamos pe gun a po
que o ilóso o p edica, ao mesmo empo, “sabedo ” e “p ecaução” ao seu
discu so. As aspas em “sabedo ” indicam que um sen ido opos o pode se
con e ido ao e mo15. P ecaução, po seu u no, não é uma ca ac e ís ica
que se possa a ibui a Nie zsche, apesa de o au o eque e a companhia
da p udência na igu a da se pen e, “o animal mais p uden e debaixo do
sol”16. Que ques ões pe passam a ausência de sabedo ia e de p ecaução
pe mi indo que se ap eenda o dionisíaco17 e, ademais, sua elação com o
é ico em Nie zsche? O a, al ez o ilóso o esponda à pe gun a ao anun-
cia uma ques ão de undo p esen e em O nascimen o da agédia:
14 Idem, Ten a i a de au oc í ica, § 4
15 Compa imos com E ic Blondel a comp eensão ace ca do uso das aspas nos ex os
de Nie zsche. Realmen e, não se a a de um uso pa cimonioso, já que encon a-
mos esse sinal g á ico em p a icamen e odos os ex os de Nie zsche e, ia de e-
g a, como assinala Blondel, eles eco am campos de signi icação, que endo sepa-
a do discu so nie zschiano algo que a ele não pe ence. Em is a disso,
obse amos aqueles e mos que eme em à ixidez, à mo al e à causalidade apa e-
ce em, ge almen e, en e aspas. (E ic Blondel, “As aspas de Nie zsche: ilologia e
genealogia” in: Nie zsche hoje?, seleção e ap esen ação de Sca le Ma on, B asi-
liense, 1985).
16 F. Nie zsche, Assim ala a Za a us a “P e ácio” § 10.
17 Em sua e isão de O nascimen o da agédia, Nie zsche enciona des incula suas
pe spec i as, po um lado, da iloso ia de Schopenhaue e, po ou o, da música
wagne iana, is o é, das expec a i as que deposi a a no composi o alemão. Con-
o me, p incipalmen e, o pa ág a o quin o do ensaio Ten a i a de au oc í ica e o
ex o de Ecce homo e e en e ao Nascimen o da T agédia.
O ho izon e da e icidade em Nie zsche 155
“[o] que signi ica, is a sob a óp ica da ida – a mo al?”18.
Não se pode se po acaso que o pa ág a o qua o inicie pe gun ando
pelo sen ido do dionisíaco e e mine jus amen e com a ques ão ace ca do
signi icado da mo al em sua elação com a ida. Em que pese a p oli e a-
ção de in e ogações ace ca dos g egos, da agédia, da do , do pessimis-
mo, e c. que o pa ág a o concen a, há um elo en e comp eensão do á-
gico, a a és de Dioniso, que pe mi e suplan a a mo al. Na p óp ia
a aliação de Nie zsche, ao p opo uma me a ísica de a is a em O nasci-
men o da agédia, ele e mina po elabo a uma con a alo ação, que
a i ma a ida e nega a igência da mo al: “Con a a mo al, po an o, ol-
ou-se en ão, com es e li o p oblemá ico, o meu ins in o, como um ins-
in o em p ol da ida, e in en ou pa a si, undamen almen e, uma con a-
dou ina e uma con a alo ação da ida, pu amen e a ís ica, an ic is ã”19.
Na seqüência do ex o, Nie zsche denomina á de dionisíaca es a p imei a
con aposição en e a in e p e ação mo al da exis ência, que consis e na
negação da ida e, de ou o, a sua a i mação, que enquan o isão a ís ica
denominada po Nie zsche de dionisíaca, ul apassa a mo al.
Como nesse momen o a a e igu a como a i idade p op iamen e
me a ísica do homem, o deu, na isão do ilóso o, é um “deus-a is a
inconside ado e amo al”. C iando e des uindo sem esponsabilidade
pessoal, pois é inconside ado e amo al, a inge simul aneamen e au oc a-
cia e dis ância dos so imen os. O a, enquan o em O nascimen o da a-
gédia é a ia da a e que se põe con a a signi icação mo al con e ida à
exis ência, se á o edimensionamen o do ágico que eme e á a uma
comp eensão é ica possibili ado a, en ão, da dissolução da mo al da es-
ponsabilidade, da au o- enúncia e do sac i ício de si em a o de uma
acei ação incondicional da ida enquan o a i ude é ica.
Nesse sen ido, é in e essan e analisa o ex o de 1885 em que Nie z-
sche a i ma que e esga a a inocência do i -a-se desde há mui o empo,
e omando as cons uções po ele elabo adas com al in ui o: “Há quan o
empo já enho en ando demons a a inocência do i -a-se ! E que ca-
minhos es anhos i e de passa pa a aze-lo!”20. Inicialmen e, comp een-
de a a e como ia possí el; na seqüência, concilia a des alo ização
obje i a da culpa e a impu ação subje i a do injus o e alógico à exis ência
e, po im, a i ma a ausência absolu a de obje i os ligados a conexões
causais como ia de acesso ao seu p óp io obje i o. O ilóso o des incula
a exis ência da ju isdição da mo al e a i ma se a ida injus a e alógica.
Mas qual o sen ido de uma al a i mação senão p ocede à supe ação das
18 F. Nie zsche, Ten a i a de au oc í ica, § 4.
19 Idem, ibidem.
20 Idem, F agmen os Pós umos de 1885, 36 [10].
156 Vânia Du a de Aze edo
in e p e ações que an ecedem a sua, ao mos a que, a elada ao i -a-se ,
a ju isdição da mo al e mina po e i a -lhe a inocência? Seu i ine á io
e lexi o busca ul apassa essas p e oga i as e de ol e a inocência,
ca a ao i -a-se , po se en endida como sua condição. Assim, po exem-
plo, a a e apa ece como con a-pon o inicial. Toda ia, não é o e mo da
exposição, mas a p imei a ia de acesso ao p oblema. Em nossa ó ica, as
o mulações que o ilóso o e oma pe mi em, simul aneamen e, iden i i-
ca o eixo emá ico de suas inquie ações, qual seja, a inocência do i -a-
-se e a in e p e ação mo al da exis ência e a necessidade de o mula
uma in e p e ação que dê con a, ao mesmo empo, da inse ção a uan e do
homem no mundo e do mundo enquan o inocência in ínseca.
Ap esen amos o edimensionamen o do sujei o em e mos é icos,
como uma espos a que pe mi e des incula a a aliação da culpa, já que
em, na agicidade do i -a-se , a eme gência do acon ece . Nesse caso, à
ma gem de qualque elogio e de qualque acusação. Po isso, lemos a
i esponsabilidade que o ilóso o se a ibui enquan o pon e pa a seu obje-
i o como uma ejeição mais ampla, po concen a a ecusa das in e p e-
ações que de i am o de e do se . A inal, na base de sua in e p e ação
es á o i -a-se , po si mesmo, inocen e, e é no âmbi o des a inocência
que se pode impu a i esponsabilidade mo a. Res a, po ém, uma ques ão:
como é possí el pensa em um sujei o é ico sem a impu ação da espon-
sabilidade mo al? Eis uma ques ão de di ícil solução caso se o ne a ação
na pe spec i a da decisão pessoal, pois, nesse caso, o co olá io é a es-
ponsabilidade do agen e. A cons ução de Nie zsche, en e an o, p escin-
de dessa condição ao pensa o sujei o em uma dimensão de a alidade
ágica que em, nos sen idos do dionisíaco, sua ia de acesso.
A pa i da elabo ação de Assim ala a Za a us a, Nie zsche passa a
con e i ao deus g ego ou o des aque, ao inco po a a e en e eminen e-
men e posi i a da sua iloso ia, no sen ido de uma up u a com a adição,
ao pa hos dionisíaco. Desde en ão, em maio ou meno in ensidade e oco -
ência, esse pa hos domina á a sua cena ilosó ica21. É eco endo a Dioni-
so que o ilóso o de Sils Ma ia p opõe a a i mação da ida como medida de
sua acei ação e exp essão ascenden e. Ao comen a es a ob a, Nie zsche
a i ma: “Meu concei o de ‘dionisíaco’ o nou-se ali a o sup emo”22. O a,
Za a us a, enquan o po a- oz do discu so nie zschiano, ecebe a incum-
bência de inco po a , ao mesmo empo, a des uição e a c iação sup emas.
21 Nossa e e ência ende eça-se, especialmen e, aos ex os esc i os a pa i de Assim
ala a Za a us a, já que, nesses ex os, Nie zsche elabo a sua iloso ia posi i a.
Ainda assim, o ilóso o a ibui ao pe íodo que o an ecede, pa icula men e à elabo-
ação de A Gaia ciência, po in oduzi , no qua o li e, “o pensamen o básico de
Za a us a” a mani es ação em si de uma e en e excessi amen e a i ma i a.
22 F. Nie zsche, Ecce homo, “Assim ala a Za a us a”, § 6.
O ho izon e da e icidade em Nie zsche 157
A ele coube, po um lado, dissipa a mo al, o ideal de um homem mode no,
a eleologia no mundo, mas, po ou o lado, oi aquele que anunciou o ad-
en o do além-do-homem, a ida enquan o on ade de po ência, a dou ina
do e e no e o no e, em nossa ó ica, a é ica do amo a i. Conside ando
Za a us a o a i mado pa excellence, Nie zsche o ê como aquele que
cons ói sob e escomb os, ex ai do mais pesado dos pesos à le eza. Em
suas pala as, “[e]le con adiz com cada pala a, esse mais a i ma i o dos
espí i os; nele odos os opos os se undem numa no a unidade”23. Mais
impo an e usão que se possa imagina é, segundo Nie zsche, a p omo ida
po Za a us a, qual seja, a da empo alidade. É a dou ina do e e no e o -
no, que condiz com sua aspi ação mais p o unda. Toda ia, a é o seu anún-
cio ou as usões se p ocessam, no as pe spec i as apa ecem, en e elas, a
do além-do-homem como sujei o é ico. Dioniso, deus g ego da me amós-
phosis, é mais do que uma inspi ação é uma espécie de on e pa a a ge ação
do no o. Po isso, Nie zsche chega a conside a -se seu discípulo.
Dioniso apa ece, nos ex os de Nie zsche, o a como um deus, o a
como um ilóso o; po ezes, ainda, como seu al e ego24. Essas o mas
de exp imi Dioniso es ão condensadas na lei u a mi ológica que o pen-
sado alemão az do deus g ego e são exp essas nas pe sonagens do seu
discu so ilosó ico, especialmen e em Za a us a. Mas há uma ejeição
pa a si e pa a Za a us a da alcunha de p o e a, en endido enquan o cons-
u o de um no o ídolo ou melho ado da humanidade, pois não é nesse
iés que se pode ap oxima Nie zsche, Za a us a e Dioniso. Em á ias
oco ências, o ilóso o ejei a essas in enções. Com elação à humanida-
de, a i ma jamais deseja melho á-la. Em e mos de edi icação de ideais,
eme e semp e ao seu o ício de des uido de ídolos. Assim iden i icamos
na o dem de uma aquiescência p o unda a ligação en e Nie zsche, Za a-
us a e Dioniso. O ilóso o alemão ap esen a-se como o espí i o a i ma-
do po excelência, a pe sonagem Za a us a ejei a odo ipo de objeção à
ida e Dioniso enca na ambas as a i udes no p aze i es i o de c ia e
des ui que, em Nie zsche, o ca ac e iza. Daí o ilóso o, ao se e e i a
Za a us a em Ecce homo, iden i ica na pe sonagem, apa en emen e em
duas dimensões, a “idéia do Dioniso”.
P imei amen e, enquan o singula idade do ipo, como uma espécie
de aços de ca á e que em no acesso aos ex emos a sua ca ac e ís ica
básica; na necessidade do acaso a singula idade de inido a, assim como
23 Idem, ibidem.
24 Dioniso apa ece, em di e sos ex os, ligado ao g ande meio-dia e à iloso ia do
e e no e o no. Obse em-se, po exemplo, os seguin es agmen os: 34 [191],
[192], [201] do ab il/junho de 1885. Meio-dia, e e no e o no e aquiescência p o-
unda es ão in e ligados na iloso ia de Nie zsche e êm, em nossa isão, elação
di e a com a é ica do amo a i.
164 Vânia Du a de Aze edo
nem não-se , en endido desde a ausência de se , e ampouco um domínio
incondicionado que ocul e o se , a oposição se / i -a-se pe de o e e en-
cial de sua p o eniência, pe de a e icácia em e mos de cons ução do
conhecimen o e do mundo, em suma, pe de o sen ido e o alo . Imp imi
ao i -a-se o ca á e de se é, em Nie zsche, des i ui , ao mesmo empo, o
alo do se e do não-se con o me a his ó ia da iloso ia. Como a exis-
ência, nessa isão, não é uma ca ego ia da unidade do se mas mani es-
a -se do i -a-se enquan o se , há uma impossibilidade de encon a a
pe manência, a o dem, o im e o absolu o em quaisque domínios exis en-
es, possibili ando in oduzi o é ico em no o domínio.
Consoan e as pala as de Za a us a, à humanidade al a um al o,
cuja p i ação de e mina a sua ausência: “Mas dizei-me, meus i mãos: se
à humanidade ainda al a um al o, não se á po que al a, ainda, a p óp ia
humanidade?”40. Reco endo à do ação de um duplo sen ido à pala a
humanidade, Nie zsche dis ingue duas pe spec i as ace ca das ábuas
alo a i as, pois, embo a enha ha ido mui os al os, al a o al o único.
De um lado, concen a, na p imei a oco ência do e mo humanidade, os
di e sos cul os ha idos no decu so da his ó ia em o no dos alo es bem
e mal: “Mui as e as iu Za a us a, e mui os po os; nenhum pode mai-
o encon ou Za a us a, na Te a, do que as ob as dos homens aman es:
‘bem’ e ‘mal’ é o seu nome”41. De ou o, o al o al an e, cuja p esença
iabiliza ia ao e mo humanidade uma dimensão posi i a.
Vale ac escen a que o concei o de humanidade, ci ado po Nie z-
sche em Assim ala a Za a us a, que designa mais o econhecimen o de
uma condição do que de uma igualdade cons i u i a dos homens exp essa
na eunião de odos eles. A al a de uma humanidade de e, po conse-
guin e, indica a inexis ência de um ipo de p ocedimen o. Se os po os se
de am, a é en ão, seu bem e seu mal e, ainda assim, não ence a am o al o
único, de e minando uma ausência da humanidade, en ão a sua possibili-
dade es á no encon o desse al o. O que es á em ques ão é a pe cepção de
si enquan o se mais, enquan o se a aliado , des uido , em suma, c ia-
do . O que al a é um edimensionamen o de comp eensão e ação e, po
conseguin e, o en endimen o do sujei o em uma ou a dimensão. Um al
al o, ao se ence ado, apon a pa a o começo da humanidade po ma ca
uma up u a com os cul os an e io es que se p ocessa á a pa i do além-
-do-homem, is o é, ele pode á e de e á i ê-lo, esga ando, po um lado,
o sen ido de es imado pe encen e ao Mensch, mas, po ou o, ul apas-
sando o modo de a alia ealizado a é o seu p óp io ad en o, po conse-
guin es, o Übe mensch. No concei o de além-do-homem, Nie zsche ex-
p ime a condição humana de inco po ação do pa hos a i ma i o po
40 Idem, Assim ala a Za a us a, I, Dos mil e um al os.
41 Idem, ibidem.
O ho izon e da e icidade em Nie zsche 165
excelência. É ele que ealiza a a essia que conduz do ágico ao é ico,
de inido-se pela supe ação concomi an e do pessimismo e do niilismo.
No limi e, ao dize sim à ida, ele exp ime a abe u a ao i -a-se eco-
nhecendo a agicidade do acon ece : “se em si mesmo o e e no p aze
do i -a-se – esse p aze que az em si ambém o p aze no des u-
i ...”42.
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que possí el, epo amo-nos a es a on e.
RESUMO
Es e a igo p ocu a mos a que a ansposição do dionisíaco em pa hos
ilosó ico eme e a iloso ia posi i a de Nie zsche pa a a exp essão do ágico e
iabiliza ap eende , nessa dimensão, a cons ução do é ico. In oduz o concei o de
Übe mensch enquan o ho izon e da e icidade no sujei o desde a inco po ação do
ágico enquan o expõe um edimensionamen o em e mos de comp eensão do agi
e do p óp io agi .
Pala as-cha e: ágico, é ico, dionisíaco, além-do-homem
42 Idem, Ecce homo, O nascimen o da agédia, § 3.
166 Vânia Du a de Aze edo
ABSTRACT
This pape aims a showing ha he ansposi ion o he Dionysian in o
philosophical pa hos leads Nie zsche’s posi i e philosophy o he exp ession o he
agic and gi es way o he app ehension o he cons uc ion o he e hic. I posi s
he concep o Übe mensch as he ho izon o he e hici y o he subjec by he
embodimen o he agic. A he same ime, his pape ad ances a shi in e ms o
unde s anding he ac ing and he ac ing i sel .
Key wo ds: he agic, he e hic, Dionysian, o e man.