Sé gio Campos Ma os & Ma ia Isabel João (o gs.)
HISTORIOGRAFIA E RES PUBLICA
Lisboa
Cen o de His ó ia da Uni e sidade de Lisboa
Cen o de Es udos das Mig ações e das Relações In e cul u ais da Uni e sidade Abe a
2017
Sé gio Campos Ma os & Ma ia Isabel João (o gs.)
NOS DOIS ÚLTIMOS SÉCULOS
Tí ulo | Ti le
His o iog a ia e Res Publica
Nos dois úl imos séculos
Di ecção da Colecção | Se ies Edi o s
Sé gio Campos Ma os & Co adonga Valdaliso
O ganização | O ganisa ion
Sé gio Campos Ma os & Ma ia Isabel João
Edi o | Edi o
Sé gio Campos Ma os
Assis en es de Edição | Edi o ial Assis an s
Gonçalo Ma os Ramos, Rica do de B i o
Comissão Edi o ial | Edi o ial Boa d
Luís Filipe Ba e o, Valdei A aújo
Capa | F on co e
De alhe da ep esen ação da Di ina Comédia de Dan e Alighie i. Almada Neg ei os, 1961. Pó ico da en ada da
Faculdade de Le as. A e pa ie al, g a u as incisas colo idas sob e pa ede e es ida a can a ia de calcá io, Faculdade
de Le as da Uni e sidade de Lisboa. Fo og a ia de A mando No e.
F on ispício | F on ispiece
De alhe de Cabeça Mecânica (O Espí i o da Nossa E a). Raoul Hausmann, c. 1920. Mon agem. Pa is, Musée Na ional
d’A Mode ne, Cen e Pompidou.
Con a-capa | Backco e
Musa (Clio?) lendo um uolumen. Pin o de Klügmann, c. 435-425 BCE (Beócia?). Leky hos, ce âmica á ica de igu as
e melhas, Museu do Lou e, CA 220.
His o iog a ia – His ó ia Con empo ânea – Memó ia | 930(469) MAT,S
Edi o a | Publishe
Cen o de His ó ia da Uni e sidade de Lisboa & Cen o de Es udos das Mig ações e das Relações In e cul u ais da
Uni e sidade Abe a | 2017
Concepção G á ica | G aphic Design
B uno Fe nandes
Imp essão G á ica | P in ing Shop
Se sili o-Emp esa G á ica Lda.
ISBN 978-989-8068-22-4
Ti agem 300 exempla es
P.V.P. 15.00€
Cen o de His ó ia da Uni e sidade de Lisboa | Cen e o His o y o he Uni e si y o Lisbon
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men ioned license and complying wi h he FCT di ec i e “Polí ica sob e Acesso Abe o a Publicações Cien i icas esul an es de P ojec os de I&D Financiados pela FCT (05/05/2014)”.
ÍNDICE
SOBRE A ESCRITA DA HISTÓRIA NOS DOIS ÚLTIMOS SÉCULOS
Sé gio Campos Ma os e Ma ia Isabel João
I – HISTÓRIA, TEMPO, CIDADANIA
O HISTORIADOR NA CIDADE: HISTÓRIA E POLÍTICA
Fe nando Ca oga
HISTOIRE GLOBALE, HISTOIRE NATIONALE?
COMMENT RÉCONCILIER RECHERCHE ET PÉDAGOGIE
Ch is ophe Cha le
AS FORMAS DO PRESENTE.
ENSAIO SOBRE O TEMPO E A ESCRITA DA HISTÓRIA
Temís ocles Ceza
CONTINUIDADES E RUPTURAS HISTORIOGRÁFICAS:
O CASO PORTUGUÊS NUM CONTEXTO PENINSULAR (C.1834 - C.1940)
Sé gio Campos Ma os
II – DIRECÇÕES DE ESTUDO
MODERNIZAÇÃO E BLOQUEIOS:
PROBLEMAS DO DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO
NA MEMÓRIA HISTÓRICA
José Luís Ca doso
A HISTÓRIA SOCIAL EM PORTUGAL (1779-1974)
ESBOÇO DE UM ITINERÁRIO DE PESQUISA
Nuno Gonçalo Mon ei o
ESPIRITUALIDADE E RELIGIÕES:
UNIVERSOS DE MOTIVAÇÃO E DE CRENÇA
An ónio Ma os Fe ei a
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27
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115
131
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163
183
203
AS MIGRAÇÕES NA HISTORIOGRAFIA PORTUGUESA (1779-1974)
Jo ge Fe nandes Al es
O IMPÉRIO E AS SUAS METAMORFOSES NA HISTORIOGRAFIA
Diogo Ramada Cu o
A HISTORIOGRAFIA NO ÂMBITO DOS ESTUDOS REGIONAIS
Ma ia Isabel João
III – PERIODISMO E HISTÓRIA
HISTÓRIA, OPINIÃO PÚBLICA E PERIODISMO
José Augus o dos San os Al es
DIVULGAR O CONHECIMENTO HISTÓRICO
AS PUBLICAÇÕES COLECTIVAS DA ACL SOB O LIBERALISMO (1820-1851)
Daniel Es udan e P o ásio
O CONTRIBUTO D’O PANORAMA NA DIVULGAÇÃO HISTÓRICA
EM PORTUGAL NO SÉCULO XIX (1837-68)
Rica do de B i o
DIFERENTES CONCEPÇÕES DE HISTÓRIA NA VÉRTICE
DURANTE O ESTADO NOVO (1942-1974)
José de Sousa
OS ARQUIVOS DO CENTRO CULTURAL PORTUGUÊS (1969-1993):
UMA “COLECTÂNEA ERUDITA” AO SERVIÇO DA HISTÓRIA
And eia da Sil a Almeida
A HISTÓRIA DE PORTUGAL NA SEARA NOVA:
A BUSCA NO TEMPO PASSADO PARA A CONSTRUÇÃO
DE UM PRETENDIDO FUTURO
Joaquim Rome o Magalhães
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lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
adminis a i as, as jun as de eguesia não se des acam pelo núme o de publicações
egis adas na Po base, apesa do seu núme o se supe io a ês milha es an es da
úl ima eo ganização do espec i o mapa. A maio pa e dos egis os é pos e io
a 1974 e é equen e que o edi o seja a p óp ia Jun a de F eguesia. Tal ealidade
e idencia a impo ância dos pode es locais como ac o de es ímulo e de apoio a
es e géne o de es udos e publicações.
Ou as á eas que apa ecem nos es udos locais são as ci cunsc ições
eclesiás icas, desde logo a pa óquia que oi objec o de inqué i os no século XIX e é
hoje cen al nos es udos demog á icos, mas ambém a diocese e a abadia. As coma cas
ambém dão luga a alguns abalhos, mas a sua impo ância no caso po uguês não
se compa a com o que assume nos es udos locais em Espanha e, nomeadamen e,
na Galiza, onde “hay decenas de monog a ias his ó icas sob e coma cas y las
pa oquias y ninguna, has a uma época bien ecien e, sob e los municipios”3. Ramón
Ba ei os en a iza na de inição de his ó ia local duas componen es: a e i o ialidade
e a comunidade in eg ada no e i ó io. Nes e sen ido, não se a a somen e de
conside a uma ci cunsc ição adminis a i a ou uma á ea geog á ica de e minada,
mas de e em a enção que o local é um “elemen o o gánico de sociabilidad”4.
Em suma, pa a se pe cebe a o ma como a his ó ia egional e local em
sido ei a, como se ai dis inguindo da massa dos es udos sob e as á eas espaciais
in anacionais e se cons i ui como um pila impo an e das cons uções iden i á ias
das di e en es comunidades e i o iais é necessá io ope a com um concei o la o de
his o iog a ia, si uando-se numa zona de on ei a en e a his ó ia e a memó ia. Além
disso, de um pon o de is a espacial, são á ias as escalas que en o mam os es udos,
mas a maio pa e deles e e e-se a espaços i idos, espaços de sociabilidade e de
p oximidade en e as populações que êm neles as suas aízes e i ências. Po isso,
nes e géne o his o iog á ico i e am semp e um papel mui o impo an e cu iosos,
amado es e igu as das eli es cul as locais que se dis inguiam na ida pública das
suas egiões.
3 Xosé Ramón Ba ei os. «His o iog a ia de la his o ia local gallega». In Joseba Agi eazkuenega, Mikel U quijo (ed.)
- Pe spec i as de his o ia local: Galicia y Po ugal. Bilbao: Se icio Edi o ial Uni e sidad del Pais Vasco, 1996, p. 53.
4 Idem, ibidem.
258 his o iog a ia e es publica
Linhas de desen ol imen o no século XIX
Podemos emon a os es udos egionais e o in e esse pela his ó ia local ao
século XVI. Bas a eco da as Saudades da Te a, de Gaspa F u uoso, a Desc ição da
cidade de Lisboa, de Damião de Góis, ou a His ó ia da An iguidade da cidade de É o a,
de mes e And é de Resende. Con udo, oi no século XVIII que, sob o in luxo
do desen ol imen o das academias, a a enção ao es udo das egiões e localidades
se começou a desen ol e . Na base desse in e esse es i e am ac o es polí icos
e cul u ais. Os p imei os p endiam-se com o conhecimen o do e i ó io e das
suas gen es que e a undamen al pa a o Es ado mode no pode cons i ui -se e
ope a sob e odo o país, o que p opiciou o desen ol imen o das co og a ias, das
opog a ias, da “es adís ica”, de desc ições e memó ias que pe mi iam i conhecendo
o eino5. Os segundos elaciona am-se com o con ex o cul u al do humanismo
e do iluminismo que desencadeou um in e esse no o pelo desen ol imen o do
conhecimen o nos á ios amos do sabe e, em pa icula , em udo que se e e ia
à ida das nações e das suas á ias pa es, ao passado e às p óp ias o igens. Des e
modo, a Academia Real de His ó ia (1720) pa ocinou á ias opog a ias e pelo
menos uma His o ia de San a em, de Ignacio da Piedade e Vasconcelos (1740, 2
omos). A Academia Real das Ciências (1779) não deixou de con empla nas
á ias memó ias que o am publicadas – económicas, da ag icul u a e his ó icas –
di e en es egiões e e as de Po ugal.
Nas p imei as décadas do século XIX, num con ex o pa icula men e ad e so
de ido às in asões ancesas e às gue as ci is, a abo dagem co og á ica, es a ís ica
e opog á ica man ém g ande impo ância no quad o dos es udos egionais, o que
se i á p olonga ao longo da cen ú ia. Podemos e e i como exemplo desse ipo
de es udos a publicação a Memo ia es adis ica sob e o concelho de La ões, de Joaquim
Bap is a (1823) ou a Co og a ia ou memo ia economica, es adis ica, e opog a ica do eino
do Alga e, João Bap is a da Sil a Lopes (1841). Con udo, a his ó ia e a geog a ia
ão pe meando mais esses es udos e en iquecendo-os com no os elemen os. Um
bom exemplo disso é a ob a de Hen iques Seco, p o esso da Uni e sidade de
5 J. Rome o Magalhães e Manuel Lopes de Almeida - As desc ições geog á icas de Po ugal: 1500-1650: esboço de
p oblemas. Sepa a a da Re is a de His ó ia Económica e Social, 1980.
259
lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
Coimb a, Memo ia his o ico-cho og aphica dos di e sos concelhos do dis ic o adminis a i o de
Coimb a (1853). Algumas dessas ob as assumem a o ma de dicioná io, seguindo
o exemplo do pad e Luís Ca doso, Dicciona io geog a ico, ou no icia his o ica de odas as
cidades, illas, luga es, e aldeas, ios, ibei as, e se as dos Reynos de Po ugal, e Alga e, com
odas as cousas a as, que nelles se encon aõ, assim an igas, como mode nas (1747-1751).
En e odas podemos e e i o Po ugal an igo e mode no: dicciona io geog aphico, es a is ico,
cho og aphico, he aldico, a cheologico, his o ico, biog aphico e e ymologico de odas as cidades,
illas e eguezias de Po ugal e de g ande nume o de aldeias, de Augus o Soa es d’Aze edo
Ba bosa de Pinho Leal (1873-1890). Nos Aço es, Gab iel de Almeida publicou, já
pa a o inal do século, o Dicciona io his o ico-geog aphico dos Aço es (1893).
Além das desc ições mais ou menos minuciosas do e i ó io de ipo
co og á ico e geog á ico, com apon amen os his ó icos, um géne o que e e uma
ex ao diná ia o una e que podemos dize que domina o pano ama das publicações
sob e as egiões e as localidades são os ela os de pendo li e á io que i e am nas
Viagens na minha e a, de Almeida Ga e , uma on e de inspi ação (1846). O olha
pa a a di e sidade das paisagens e da gen e, o pi o esco e os edi ícios e monumen os
pon uam essas na a i as, po ezes bas an e ligei as, que não descu am ambém
a no a sob e as an iguidades locais e o egis o his ó ico. Es e ipo de ob as
desen ol eu-se com o p og esso dos anspo es e comunicações, sob e udo com
o caminho-de- e o, e com o u ismo, dando o igem aos guias e o ei os de Po ugal
e das di e sas egiões. Alguns exempla es suges i os: Cin a pin u esca, ou memo ia
desc ip i a da Villa de Cin a, Colla es, e seus a edo es.... , do isconde de Ju omenha
(1838); O Minho pi o esco, de José Augus o Viei a (1886); a coleção Po ugal Pi o esco
e Illus ado, de Al edo Mesqui a, onde se des aca Lisboa, com qua ocen as g a u as
(1903); os á ios abalhos de Albe o Pimen el, nomeadamen e o guia do iajan e
na cidade do Po o e seus a abaldes (1877) e O Po o po o a e po den o (1878).
Em 1924, a Biblio eca Nacional publicou o Guia de Po ugal, di igido po Raul
P oença, pos e io men e p osseguido pela Fundação Calous e Gulbenkian, que é
um monumen o do géne o his ó ico-geog á ico e desc i i o do país6.
6 Guia de Po ugal – Lisboa: O icinas G á icas da Biblio eca Nacional de Lisboa e ou as. 1924-1970. 5 ols em 8
omos. Edição abundan emen e ilus ada com mapas, plan as e g a u as e com a colabo ação po alguns dos
mais ele an es nomes da li e a u a po uguesa: Miguel To ga, Jo ge Dias, Aquilino Ribei o, Jaime Co esão,
Reynaldo dos San os, Diogo de Macedo, Teixei a de Pascoais, Vi o ino Nemésio, Raul B andão, Amo im
260 his o iog a ia e es publica
Ou o ipo de es udos assume um ca ác e mais his ó ico e de eposi ó io de
ac os ele an es pa a as memó ias locais, compilando in o mação de di e sa índole
sob e os sucessos, as igu as, o pa imónio, em especial os monumen os a ís icos e
eligiosos, a que se jun a am lendas e na a i as di e sas. Numa p imei a ase, a base
documen al desses esc i os é udimen a e baseiam-se mui o nas obse ações e nos
es emunhos, em egis os que a memó ia de alguns no á eis locais e as populações
o am conse ando ao longo de ge ações. Os a qui os públicos e am a os, mal
ape echados e ainda pio o ganizados. Além disso, as e amen as me odológicas e
c í icas dos es udiosos e elam-se pa cas e a pene ação de ideias que alo iza am as
on es e o abalho a qui ís ico a u ado, minucioso, de endidas com eemência po
A. He culano e po ou os au o es e udi os an es dele, não encon a am condições
pa a se expandi en e os cul o es da his ó ia local. De ce o modo ep esen a i as
desse ipo de his ó ia são as ob as do olissipóg a o Júlio de Cas ilho (1840-1919)
sob e Lisboa An iga (Bai o Al o – 1879; Bai os O ien ais – 1884-1890).
Po ém, o caminho ai sendo ei o no sen ido de uma his ó ia mais obje i a e a
publicação dos Po ugaliae Monumen a His o ica (1º ol., 1856) não só az documen os
com in e esse pa a a his ó ia local, mas ambém dá um bom exemplo nes e ipo
de publicações. A ob a di igida po A. He culano em na linha de abalhos de
académicos e udi os que pugna am pela sal agua da e di ulgação dos documen os,
como Be na dino J. de Sena F ei as que inha publicado uma Collecção de memo ias e
documen os pa a a his o ia do Alga e (1846) e oi depois incumbido pela Academia Real
das Ciências de o ganiza os a qui os nas ilhas de S. Miguel e Te cei a. Na sequência
desse abalho deu à es ampa uma Memo ia His o ica sob e o In en ado Descob imen o de
uma Supos a Ilha ao No e da Te cei a nos anos de 1649 e 1770, com mui as no as illus a i as
e documen os inedi os (1845). A alo ização dos documen os ap o undou-se ainda
com a di ulgação em Po ugal das co en es his o iog á icas da chamada “escola
me ódica” ou “posi i a” e, po isso, no úl imo qua el do século XIX su gi am aliosas
colec âneas documen ais e his ó ias locais com p eocupação c í ica e de objec i idade.
Gi ão, Fe ei a de Cas o, Egas Moniz, Aa ão de Lace da, José Rod igues Miguéis, Mon al ão Machado,
A onso Lopes Viei a, An ónio Sé gio en e ou os.
A coleção em a seguin e o ganização: 1º olume — Lisboa e A edo es; 2º olume — Es emadu a,
Alen ejo e Alga e; 3º olume — Bei a Li o al, Bei a Baixa e Bei a Al a (2 omos); 4º olume — En e
Dou o e Minho (2 omos); 5º olume — T ás-os-Mon es e Al o Dou o (2 omos). Os ês p imei os olumes
o am publicados pela Biblio eca Nacional e os es an es pela Fundação Calous e Gulbenkian.
261
lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
En e as publicações documen ais e i a-se o A chi o dos Aço es (12 ol, 1878-
1892), di igido po E nes o do Can o e publicado em ascículos, os Documen os
his o icos da cidade de É o a (1885-1891), o ganizados pelo a qui is a Gab iel Pe ei a,
e os Elemen os pa a a his ó ia do município de Lisboa (15 ol., 1882-1911), e ec uados po
Edua do F ei e de Oli ei a que ambém desempenha a o mesmo o ício na Câma a
Municipal. No domínio dos es udos pode des aca -se: Viana do Cas elo: Esboço
his ó ico (1878), de Luís de Figuei edo da Gue a, onde combina o conhecimen o de
au o es clássicos, com o conhecimen o de c ónicas e a ados medie ais e mode nos
e o domínio de documen os epig á icos, a queológicos e documen ais, exis en es
em ca ó ios e a qui os públicos e p i ados7. No ano an e io , Albe o Pimen el
publica a a Memo ia sob e a his o ia e adminis ação do Municipio de Se úbal (1877), que
eúne a iadíssima in o mação sob e a cidade e o concelho, com um alioso supo e
documen al. Também exempla des e ipo de abalhos mais e udi os e undados
nas on es his ó icas são os Es udos Ebo enses, de Gab iel Pe ei a, publicados em
ascículos emá icos en e 1884-1894.
O século XIX dis ingue-se, po conseguin e, pela expansão dos es udos
his ó icos e, no caso em ap eço, pela alo ização da his ó ia egional e local.
Di e sos au o es, en e os quais dois nomes cimei os da cul u a oi ocen is a, A.
He culano e Oli ei a Ma ins, inham de endido em momen os dis in os que o
desen ol imen o da his ó ia local e a undamen al pa a se pode aze a his ó ia
nacional. O úl imo esc e eu no p e ácio a uma ob a sob e Oli ei a do Hospi al8:
“Conside ei semp e que um dos subsídios p incipaes pa a a his o ia ge al do
paiz consis e nas monog aphias locaes, onde se es uda a a queologia e a his o ia, as
biog a ias e as adições, com os documen os á is a e á mão dos a chi os municipaes
e pa icula es.”
Re e e a p opósi o a po a ia de 8 de no emb o de 18479 que inha ins ado
7 A mando da Sil a – O Minho nas Monog a ias (sécs. XIX-XX). No as pa a uma e isão sis emá ica dos
es udos locais. B aca a Augus a. Re is a Cul u al de Regionalismo e His ó ia da Câma a Municipal de B aga, nº. 94-95,
1991/92, p. 30.
8 Adelino de Ab eu - Oli ei a do Hospi al: aços his ó ico-c i icos. Coimb a: Imp ensa da Uni e sidade, 1893.
9 Vide po a ia em A mando da Sil a – O Minho nas Monog a ias (sécs. XIX-XX). No as pa a uma e isão
sis emá ica dos es udos locais. B aca a Augus a. Re is a Cul u al de Regionalismo e His ó ia da Câma a Municipal de
262 his o iog a ia e es publica
as Câma as Municipais a man e um egis o anual dos p incipais acon ecimen os da
ida do concelho, “cuja memo ia seja digna de conse a -se”, de endo pa a o e ei o
nomea uma comissão compos a po e eado es ou ogais do Conselho Municipal
mais ap os. Em empos de ele ados ní eis de anal abe ismo, os esul ados o am
modes os e o abade de Tagilde e e e que somen e conhece onze concelhos onde
alguns abalhos se ize am na sequência dessa p o idência go e namen al10. Nos
Aço es, a ob a Anais do Município das Lajes das Flo es, iniciada po João Augus o da
Sil ei a e con inuada pelo ne o homónimo, é um exemplo desse ipo de abalhos11.
O p óp io Oli ei a Ma ins, no p e ácio e e ido, ci ou a p opósi o a ob a do pad e
An ónio de Macedo e Sil a, Annaes do municipio de Sanc -Yago de Cassem desde emo as
e as a é ao anno de 1853 (1866), como exemplo de uma publicação p oduzida na
sequência dessa medida do go e no.
Também na Uni e sidade de Coimb a o p o esso José F ede ico La anjo
p opunha aos seus alunos que izessem a his ó ia dos concelhos, segundo um
esquema que con empla a capí ulos sob e as o igens e o desen ol imen o,
a população, as indús ias, a Mise icó dia, con a ias e es abelecimen os de
bene icência, as associações e as ins i uições de c édi o12. Daí esul a am pelo
menos duas monog a ias publicadas, uma sob e o concelho de Se pa (José Ma ia da
G aça A eixo, 1884) e ou a sob e Mesão-F io (Ál a o Ma ia de Fo nelos, 1886).
Tudo se oi conjugando pa a uma ideia de monog a ia local que ipicamen e de ia
engloba os múl iplos aspe os opog á icos, geog á icos, his ó icos, a queológicos,
económicos, a ís icos e cul u ais que pe mi iam aça um pano ama do e i ó io
e da ida da sua gen e. A mando Malhei o da Sil a ala de “monog a ia de ipo-
con empo âneo”, ca ac e izada pela di e sidade das abo dagens em oco, mas
ambém pelo “amo da e a e a apologia das suas i udes”13. As ob as mais bem
conseguidas não dispensa am, na u almen e, a consul a de a qui os e a ecolha de
B aga, nº. 94-95, 1991/92, p. 60.
10 Ci . Augus o San os Sil a – Os luga es is os de den o: es udos e es udiosos locais do século XIX po uguês.
Re is a Lusi ana (No a sé ie). 13-14, 1995, p. 70.
11 Ma ia Isabel João - Região, Nação e His o iog a ia Local: O caso dos Aço es. Sé gio Campos Ma os e Ma ia
Isabel João (o gs.), His o iog a ia e memó ias (Séculos XIX e XXI). Lisboa: Cen o de His ó ia da FLUL/CEMRI
da UAb, 2012, p. 81.
12 Ci . P. M. La anjo Coelho – Van agens do es udo das monog a ias locais pa a o conhecimen o da his ó ia ge al po uguesa.
Coimb a: Imp ensa da Uni e sidade, 1926, p. 15.
13 A mando da Sil a – O Minho nas Monog a ias (sécs. XIX-XX)…, p. 30.
263
lisbon his o ical s udies | his o iog aphica
documen os pa a unda as suas na a i as, no que à his ó ia dizia espei o.
Nes e âmbi o dos es udos egionais oi ocen is as e do seu p og esso nas
úl imas décadas do século, não se pode esquece os abalhos de ca ác e e nog á ico
que en ão i e am uma conside á el expansão e ie am a in e liga -se es ei amen e
com a his ó ia. Podemos emon a ao in e esse omân ico pelo es udo das adições
e cos umes dos po os que o am, pos e io men e, desen ol idos no âmbi o das
concepções sociológicas posi i is as, com des aque pa a a ob a de Teó ilo B aga
(1843-1924) sob e O po o po uguês nos seus cos umes, c enças e adições (2 ols., 1885).
No domínio da his ó ia da li e a u a o am publicadas ecolhas e es udos sob e
o cancionei o popula e os con os adicionais po ugueses que esul a am de
pesquisas ei as em di e sas egiões do país. Em Lisboa, es a linha de in es igação
e nog á ica i ia a e um g ande desen ol imen o com Adol o Coelho (1847-
1919) e, sob e udo, J. Lei e de Vasconcelos (1858-1941), e no no e do país com o
g upo que se euniu em o no da publicação de Po ugalia: ma e iaes pa a o es udo do
po o po uguez, Rica do Se e o, (1869-1940), Rocha Peixo o (1866-1909) e A u da
Fonseca Ca doso (1865-1912), en e ou os.
A e e ência aos aspec os e nog á icos não e a uma absolu a no idade nos
es udos egionais e locais, mas ganhou um eno ado in e esse e p o undidade no
inal do século XIX. O e ei o conjugado do desen ol imen o des as á eas do sabe
e das endências cul u ais da época, neo- omân icas e nacionalis as, conjugou-se
pa a que as ge ações inissecula es iessem en iquece os es udos em domínios
como a e nog a ia, a an opologia, a ilologia, a a queologia e a his ó ia. Os u os
b o a am já no século XX. Não são ambém alheios, é cla o, ao desen ol imen o
sociocul u al do país, com o len o c escimen o das classes médias, o p og esso da
educação, a expansão da imp ensa egional e local e dos meios ma e iais suscep í eis
de con ibui pa a que osse possí el p oduzi e publica os abalhos ealizados.
Os es udiosos locais e am mui as ezes pad es, alguns bacha éis e
au odidac as locais, p o esso es, ad ogados, médicos, uncioná ios públicos, que
aziam pa e do es i o cí culo dos no á eis das e as. Nalgumas cidades inha
sido possí el c ia associações e sociedades cul u ais com publicações pe iódicas,
onde iam dando à es ampa os es udos (Ins i u o de Coimb a, 1852; Sociedade
Ma ins Sa men o, Guima ães, 1881). As suas mo i ações são e iden es: o amo
264 his o iog a ia e es publica
da e a, is o é, um pa io ismo local bem a eigado que os desa ia a esc e e a sua
his ó ia e memó ias; a ei indicação da impo ância e alo da egião ou localidade
no con ex o nacional, alo izando-se, inclusi e, a o ma como pa icipa am nos
g andes acon ecimen os da ida da nação ─ a es au ação, a lu a con a as in asões
ancesas, a e olução libe al, e c.; o lamen o em elação à incú ia dos go e nos
e dos se iços públicos e a eclamação de melho amen os indispensá eis pa a a
e a, o que não deixa de apa ece em in oduções e p e ácios ou, na imp ensa, a
p opósi o da ap esen ação das ob as. Os es udos egionais e locais con ibuem,
des e modo, pa a a cons ução de imaginá ios e iden idades, mas ambém pa a
legi ima ei indicações, p opos as polí icas e pode es de âmbi o in anacional.
Con inuidade e mudanças no século XX
A expansão dos es udos egionais e locais no século XIX jus i icou a
elabo ação de bibliog a ias sob e o ema. Assim, em 1900, pa a a exposição uni e sal
de Pa is, B i o A anha publica a p imei a bibliog a ia das ob as po uguesas que
podem se i pa a o es udo das cidades, ilas, monumen os, ins i uições, adições
e cos umes, e c., de Po ugal Con inen al, das Ilhas dos Aço es e da Madei a e
das Possessões Ul ama inas. Edua do da Rocha Dias con inuou esse abalho em
anos pos e io es (1903-06, 1908) e o uncioná io da Biblio eca Nacional, An ónio
Mesqui a de Figuei edo, ez um abalho mais comple o, em 1933. Con udo, ambos
se ci cunsc e e am ao e i ó io do con inen e po uguês na Eu opa. Ao ní el
local, dis inga-se a Biblio heca Aço iana, publicada pelo incansá el E nes o do Can o,
em 1890, onde se incluíam ob as nacionais e es angei as conce nen es às ilhas
dos Aço es.
Po ou o lado, su gem ambém as p imei as e lexões em o no das
me odologias e da o ganização, mais sis emá ica, dos es udos egionais e locais.
Manuel da Sil a, em 1913, na Re is a de His ó ia, ap esen a o Schema d’his o ia
local, numa linha de abo dagem que con empla a iados aspec os: a geologia, a
an opologia ísica e o es udo das populações, a a queologia, a e nog a ia, a legislação
e a adminis ação local, a es a ís ica, a ilologia, a li e a u a adicional, as memó ias
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e no ícias locais, os documen os e a qui os, e po im os monumen os e a a e. O
ideal que se pe segue é de es udos mui o ab angen es que pode íamos classi ica
de globais, não o a o ac o de se a a na e dade de es udos agmen á ios, onde
se coligem ma e iais de di e sa índole sem um quad o eó ico que pe mi a a sua
in eg ação em e mos comp eensi os.
Mais de uma década passada, em 1925, P. M. La anjo Coelho ap esen a num
cong esso luso-espanhol a sua análise sob e as Van agens do es udo das monog a ias locais
pa a o conhecimen o da his ó ia ge al po uguesa e incen i a os es udiosos a desen ol e em
es e ipo de in es igação. A p opósi o aça um o ei o b e e do desen ol imen o
desse géne o de abalhos em Po ugal e p opõe o seu p óp io plano que de e
ab ange “os ac os essenciais pa a o es udo de uma localidade nos seus aspec os
geo- ísico, his ó ico, económico e social.”14. Encon amos nele a mesma ambição
global, ago a com uma sis ema ização e um desen ol imen o mais elabo ado. A
geog a ia, a demog a ia, a e nog a ia, a a queologia e a his ó ia, nas suas á ias
dimensões económica, polí ico-adminis a i a, a ís ica e cul u al, combinam-se pa a
aça um quad o ge al das egiões e localidades. Em 1934, numas lições p o e idas
na Academia das Ciências, ol a ia ao mesmo assun o, mos ando inclusi e es a a
pa do que em F ança se azia nes e domínio15.
A p eocupação com a ecolha de in o mação pa a o conhecimen o mais
ap o undado da ealidade do país inha le ado o minis o das ob as públicas,
comé cio e indús ia, An ónio Al edo Ba jona de F ei as, a lança um concu so
anual de monog a ias das eguesias u ais, em 1909. O ela ó io em que o ap esen a
é explíci o quan o aos obje i os que o o ien am. T a a-se, a inal, de inicia o ão
necessá io inqué i o à ida económica e social da nação po uguesa a pa i da
unidade adminis a i a mais pequena e homogénea, com uma la ga adição his ó ica,
que é a eguesia u al. No mesmo ano, a uni e sidade de Coimb a con idou o
sociólogo Léon Poinsa d pa a p o e i con e ências sob e os mé odos de es udos
das pequenas comunidades en ão usados no âmbi o da ciência social em F ança.
Daí esul a ia uma publicação de di ulgação do chamado “mé odo monog á ico”
e uma ob a de L. Poinsa d, Le Po ugal Inconnu, edi ada no bole im da sociedade
14 Ob. Ci ., p. 17-20.
15 Monog a ias Locais na Li e a u a His ó ica Po uguesa. Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1935.
266 his o iog a ia e es publica
in e nacional de ciência social, em 191016. Se ia publicada a adução po uguesa
em 191217. A desc ição económica e a es a ís ica demog á ica já inham, desde a
segunda me ade do século XIX, impo ância nos es udos egionais e locais, mas a
abo dagem sociológica e, a a és dela, os p imei os passos de uma his ó ia social,
só no início do no o século começa am a se se iamen e conside ados nes e âmbi o.
Na óp ica da alo ização dos es udos egionais e locais, das p imei as
décadas do século XX, de e ainda e e i -se Fidelino Figuei edo que oi um dos
undado es da Sociedade Po uguesa de Es udos His ó icos (1914). Apesa de não
se um his o iado e os seus in e esses se em polimo os, salien ou a impo ância
dos es udos his ó icos locais, chamando a a enção pa a a necessidade de se em
publicados “ olumes de documen os dos a chi os publicos e pa icula es,
elabo ados odos de aco do com um plano p e iamen e es abelecido, quan o à
manei a de ex ac a , de g upa e de classi ica , de aze os índices, e c.”18. Ao
mesmo empo, opina que quando hou esse su icien es es udos locais se ia possí el
inclui nos p og amas do ensino p imá io a his ó ia da egião ou da cidade ou ila
da na u alidade em que a maio ia da população acaba po passa a sua ida. Fidelino
Figuei edo azia pa e de uma ge ação em que o nacionalismo se compagina a
com alo es egionalis as e municipalis as. Não e am is os como opos os ou
con li uan es, mas como pa e do p ocesso de cons ução de uma ideia da nação
que não podia exclui , na u almen e, as suas á ias componen es.
Ainda no campo da eo ia e da me odologia é impo an e des aca a p opos a
que o p o esso Ma cello Cae ano ez aos seus es udan es da cadei a de Di ei o
Adminis a i o pa a ealiza em Monog a ias sob e os Concelhos Po ugueses (Lisboa: 1935).
Cla amen e dominado pela p eocupação didá ica ap esen a ins uções p ecisas sob e
o modo como de e iam se elabo ados os abalhos pa a e em alo académico,
des acando “o mé odo e cla eza da exposição; a p obidade das a i mações; o esc úpulo
na documen ação.” (o i álico é do p óp io au o )19. O plano po meno izado que
16 Sep. Bulle in de la Soc. In . de Science Sociale, 74-75. Pa is: Bu eaux de la Science Sociale, 1910; 1º .: Paysans,
ma ins e mineu s; 2º .: L'indus ie, le comme ce e la ie publique.
17 Po ugal igno ado: es udo social, economico e polí ico seguido de um appendice ela i o aos ul imos acon ecimen os. Po o:
Magalhães & Moniz 1912.
18 Ci . A mando da Sil a – O Minho nas Monog a ias (sécs. XIX-XX)…, p. 34.
19 Ma cello Cae ano. Monog a ias sob e os concelhos po ugueses. Lisboa: Uni e sidade de Lisboa, Faculdade de
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