Volume LII
Núme o 106
Dezemb o 2017
Cen o
de Es udos
Geog áficos
FINISTERRA
Re is a Po uguesa de Geog a ia
O HOTEL SANTIAGO DE ALFAMA COMO ALEGORIA
DA POLÍTICA RECENTE DE REGENERAÇÃO URBANA
João Sa a a1
Edua do B i o -Hen iques2
RESUMO – Es e a igo em po obje i o discu i a u is i icação u bana, nas suas ela-
ções com o u banismo neolibe al e a ees u u ação u bana no capi alismo globalizado,
p ocu ando mais pa icula men e a e igua o papel que a inicia i a JESSICA, enquan o ins-
umen o de polí ica neolibe al pa a a egene ação u bana, e e na u is i icação da cidade
de Lisboa. O a igo baseia -se numa me odologia de in es igação mic o -geog á ica, p oce-
dendo a um es udo de caso de alhado, com a econs i uição da biog a ia de um edi ício que
oi ecen emen e con e ido pa a ho el de luxo com inanciamen o JESSICA. O es udo mos-
a que, nessa mudança uncional, oco eu uma eli ização do local, e que a u is i icação eio
ocupa o azio deixado após um longo pe íodo de desin es imen o e abandono g adual do
edi ício. O es udo conclui ainda que a u is i icação de e se is a como uma consequência
e um e lexo da globalização na ans o mação da cidade, e que o undo JESSICA não enca-
minhou mas an es se limi ou a coadju a uma in enção de in es imen o que já es a a la en e.
Pala as -cha e: u is i icação; egene ação u bana; inicia i a JESSICA; biog a ia de
edi ícios.
ABSTRACT – THE SANTIAGO DE ALFAMA HOTEL AS AN ALLEGORY OF THE
RECENT URBAN REGENERATION POLICY. This pape aims o discuss he p ocess o
u ban ou is i ica ion, and i s ela ionship wi h neolibe al u banism and u ban es uc u-
ing in he e a o global capi alism. In pa icula , he pape examines he ole played by he
Jessica ini ia i e, as an ins umen o neolibe al policy o he u ban egene a ion, in he
ou is i ica ion o he Lisbon ci y. This pape is based on a mic o -geog aphical in es iga ion,
in which a de ailed case s udy was conduc ed o econs i u e he biog aphy o a building ha
has ecen ly been con e ed in o a luxu y ho el using Jessica inancing. The s udy shows ha
Recebido: maio 2017. Acei e: agos o 2017.
1 Dou o ando em Tu ismo no Ins i u o de Geog a ia e O denamen o do Te i ó io da Uni e sidade de Lisboa, R. B anca
Edmée Ma ques, 1600 -276, Lisboa, Po ugal. E -mail: joao.sa a [email protected]
2 P o esso Associado e In es igado E e i o do Cen o de Es udos Geog á icos do Ins i u o de Geog a ia e O denamen o do
Te i ó io da Uni e sidade de Lisboa, R. B anca Edmée Ma ques, 1600 -276, Lisboa, Po ugal. E -mail: edua do@igo .ulisboa.p
Finis e a, LII, 106, 2017, pp. 65 -84
doi: 10.18055/Finis12010
A igo
66 João Sa a a, Edua do B i o-Hen iques
unde his unc ional change he e was an eli iza ion o he locale and ha ou is i ica ion
illed he oid le a e a long pe iod o disin es men and a g adual abandonmen o he
building. The s udy concludes ha ou is i ica ion should be seen as a consequence and a
e lec ion o globalizing p ocesses unde lying he ans o ma ion o he ci y. The Jessica
Fund did no guide bu me ely assis he in es men in en ion ha was al eady la en .
Keywo ds: Tou is i ica ion; u ban egene a ion; JESSICA ini ia i e; house biog aphies.
RESUMÉ – L’HÔTEL SANTIAGO DE ALFAMA, EN TANT QUE SYMBOLE DE LA
POLITIQUE RÉCENTE DE RÉGÉNÉRATION URBAINE. On a che ché ici à comp end e
le phénomène de « ou is i ica ion» u baine, dans le cad e de l’u banisa ion néolibé ale e de
la es uc u a ion u baine liée au capi alisme mondialisé. On a che ché en pa iculie quel
u le ôle de l’ini ia i e JESSICA, ce ins umen de la poli ique néolibé ale pou la
éno a ion u baine, dans la « ou is i ica ion» de la ille de Lisbonne. La mé hode de
eche che a é é mic o -géog aphique, pa la éalisa ion d’une é ude de cas dé aillée, la
econs i u ion «biog aphique» d’un immeuble écemmen con e i en hô el de luxe g âce au
inancemen JESSICA. Ce changemen onc ionnel a p o oqué l’ «éli isa ion» d’un lieu qui
é ai demeu é ide ap ès une longue pé iode de désin es issemen e d’abandon p og essi
de l’édi ice. On mon e aussi que la « ou is i ica ion» es une conséquence di ec e de la
mondialisa ion su la ans o ma ion de la ille, le onds JESSICA ayan seulemen appuyé
une in en ion d’in es issemen qui é ai déjà la en e.
Mo s clés: «Tou is i ica ion»; égéné a ion u baine; ini ia i e JESSICA; biog aphie
d’immeuble.
I. INTRODUÇÃO
1. Obje i os do es udo
Es e a igo é sob e a a iculação en e polí icas públicas, u ismo e ees u u ação
u bana no capi alismo globalizado. Um ema sob e o qual se p oduziu as a bibliog a ia
nas úl imas décadas, mas que es á longe de se encon a esgo ado.
Nes e a igo, p opomo -nos examina esse nexo a pa i de um ins umen o de polí-
ica em pa icula : o undo JESSICA e a sua aplicação em Po ugal. A inicia i a JESSICA
ep esen ou a úl ima ge ação de ins umen os de polí ica de egene ação u bana da
União Eu opeia (UE). Foi uma expe iência ino ado a de engenha ia inancei a aplicada
à polí ica de cidades e, nessa qualidade, co esponde a uma solução que encaixa no que,
não sem c í ica, em sido designado de “u banismo neolibe al” (Peck, Theodo , B enne ,
2009). Apesa de e sido concebida como um ins umen o de polí ica pa a o desen ol i-
men o u bano sus en á el, com ações elegí eis que ecob em um as o espec o de domí-
nios desde as mobilidades sua es à e iciência ene gé ica ou às TIC, em Po ugal a inicia-
i a JESSICA oi canalizada maio i a iamen e pa a o u ismo. Nas cidades de Lisboa e do
Po o, mais de 62% dos undos JESSICA o am aplicados em in es imen os u ís icos,
designadamen e alojamen o (dados epo ados no im de 2015 pelo Jessica Holding
67O Ho el San iago de Al ama como alego ia da polí ica ecen e de egene ação u bana
Fund, quando p a icamen e odo o mon an e es a a u ilizado). Embo a se encon em
e e ências à inicia i a JESSICA em es udos ecen es sob e a polí ica de cidades (Ba a a
Salguei o, And é & B i o -Hen iques, 2015), es á po aze uma análise consis en e do uso
des e ins umen o de polí ica e dos seus e ei os e ainda não hou e uma e lexão su icien-
emen e p o unda sob e a sua elação com o u ismo, lacuna que o es udo que aqui se
ap esen a p ocu a sup i .
Sin e icamen e, podemos dize que es e a igo em em is a dois obje i os: i) p i-
mei o – e em e mos mais ge ais –, discu i a u is i icação na sua elação com a ans o -
mação das cidades no capi alismo globalizado, en endendo po “ u is i icação” o p o-
cesso de ansmu ação u bana em que no as in aes u u as, a i idades e ambiências
c iadas pelo e pa a o u ismo omam o luga das unções adicionais u banas (Jansen-
-Ve beke & Lie ois, 1999); ii) e em segundo luga , analisa a inicia i a JESSICA enquan o
ins umen o de egene ação u bana e o seu con ibu o pa a a u is i icação da cidade.
2. Me odologia e o ganização do a igo
O es udo de caso é uma es a égia de in es igação que p ocu a comp eende um
dado enómeno social a a és da examinação de alhada de um caso ou de um núme o
eduzido de casos que são exp essões desse enómeno (S ake, 1995). Subjacen e es á a
ideia de que, a a és de uma desc ição a en i a do caso selecionado, é possí el iden i ica
e expo as causas e os mecanismos que p oduzem o enómeno assim como os agen es
en ol idos.
Nes a pesquisa usa -se um ipo pa icula de es udo de caso inspi ado nas biog a ias de
casas (house biog aphies). Es e e mo desc e e um géne o de es udos mic o -geog á icos que
p ocu a “ilumina a his ó ia de uma casa pa icula a a és das idas dos seus á ios esi-
den es” (Blun & Dowling, 2006, p. 39). As biog a ias de casas di e em das clássicas mono-
g a ias de edi ícios desen ol idas na a qui e u a e na his ó ia da a e na medida em que não
se cen am na c í ica da ma e ialidade do edi icado. Ve sam uma abo dagem mais holís ica
que inclui a dimensão da cul u a ma e ial, mas que se es ende ambém à polí ica e à socio-
logia ao coloca em o oco na elação do imó el com os seus habi an es e p op ie á ios
(Blun , 2008). Pa a Al haus e Glase (2015), a biog a ia de casa pode se desc i a como uma
na a i a das mudanças que um imó el e e ao longo da sua ida, não só em e mos das
condições ísicas ou es u u ais, mas ambém de usos e ap op iações, de expe iências e de
discu sos. O p opósi o úl imo é ap eende as mudanças na cidade usando um p isma de
mic oescala u bana, i.e. a a és de his ó ias pa icula es e da elação das pessoas com imó-
eis em conc e o (Jacobs, Cai ns, S ebel, 2012; Al haus & Glase , 2015).
Embo a ainda a os, começam a su gi es udos des e ipo sob e edi ícios de ho éis ( .
Goh, 2010). Nes e a igo, é uma abo dagem desse géne o que azemos aplicada a um
ho el de luxo si uado no cen o his ó ico de Lisboa – o Ho el San iago de Al ama. T a a-
-se de um pequeno es abelecimen o ho elei o com menos de in e qua os, ins alado
num edi ício his ó ico e pe encen e a uma no a ge ação de ho éis su gidos em Lisboa
nos úl imos anos que bene icia am do undo JESSICA.
68
No p ocesso de ecolha de dados pa a o desen ol imen o des e es udo de caso
usámos uma abo dagem mul imé odo. Es a incluiu análise nos a qui os e egis os his-
ó icos do imó el jun o da Câma a Municipal de Lisboa (CML) e na Conse a ó ia
P edial, mas ambém ecolha di e a de in o mação in si u e a pa i de on es p imá ias.
Realiza am -se isi as ao imó el pa a obse ação di e a, assim como en e is as semies-
u u adas com o (i) a ual p op ie á io do imó el, (ii) o a qui e o esponsá el pelo p oje o
de eabili ação e pela condução das ob as de adap ação do edi ício, (iii) e uncioná ios do
Tu ismo de Po ugal, I.P. (TdP), en idade à qual coube a ges ão do undo JESSICA na
egião de Lisboa.
O co po do a igo es á o ganizado em qua o pa es. Começamos com uma b e e
e isão da li e a u a pa a enquad a eo icamen e o p oblema em deba e. Segue -se uma
secção em que se ap esen a e explica o uncionamen o da inicia i a JESSICA, si uando -a
no con ex o das polí icas de egene ação u bana da União Eu opeia. A pa e seguin e
co esponde ao es udo do caso p op iamen e di o – a biog a ia do edi ício do Ho el San-
iago de Al ama – e a úl ima pa e do a igo é des inada à discussão inal dos esul ados e
à conclusão.
II. ENQUADRAMENTO TEÓRICO: JUNTANDO AS PEÇAS DO DEBATE
1. Reees u u ação u bana, globalização neolibe al e polí icas egene a i as das
cidades
O e mo ees u u ação u bana começou a se usado nos anos 80 pa a designa as
me amo oses p oduzidas nas cidades e me ópoles capi alis as pela c ise do modelo eco-
nómico indus ial - o dis a (Soja, Mo ales, & Wol , 1983). A a és da len e des e concei o,
endências díspa es e a é con adi ó ias de desin es imen o e ein es imen o em di e en-
es se o es da economia das cidades e em di e en es pa es do ecido u bano pude am se
en endidas de o ma conca enada, como exp essões de uma deses u u ação/ ees u u a-
ção da con igu ação espacial da acumulação capi alis a, ou, nos e mos de Ha ey (1982),
de um “ajus e espacial” (spa ial ix). Embo a a eo ia ma xis a e a eo ia neoclássica
di i jam quan o às causas da c ise que espole ou es e ajus e, es á o mado um amplo
consenso na li e a u a quan o ao ac o da desindus ialização, do abandono das á eas
cen ais das cidades e mesmo da con a -u banização numa p imei a ase, como depois
dos mo imen os con á ios de eap op iação da cen alidade pelos g upos mais a luen es
da sociedade (gen i icação), de eno ação e e i alização das en es ibei inhas, ou do
apa ecimen o de no as cen alidades e ciá ias associadas ao se o inancei o, ao con-
sumo e à cul u a, co esponde em a duas aces complemen a es dessa ees u u ação
u bana (Fains ein, 1990; Sassen, 2000; Zukin, 2010).
O nexo en e a ees u u ação u bana e a globalização es á consolidado na li e a u a.
Tal como a ees u u ação u bana, ambém a globalização é in e p e ada como um
co ela o da ees u u ação pós - o dis a e da co espe i a eo ganização do capi alismo à
João Sa a a, Edua do B i o-Hen iques
69
escala mundial (Sassen, 2000). A globalização é ela p óp ia is a como impulso a da
ees u u ação u bana. Essa p esença da globalização na ans o mação das cidades é
isí el e em sido assinalada no ‘u banismo de megae en os’ (Be ia os & Gospodini,
2004; B oudehoux, 2007), no aumen o de escala e inancei ização do imobiliá io e no
in es imen o em p oje os icónicos (Ba a a Salguei o, 1994; Sklai , 2006; Fains ein, 2008),
ou ainda na globalização da gen i icação (Smi h, 2002; Ro e, 2003).
Es á igualmen e bem iden i icada e desc i a na li e a u a a conexão en e globaliza-
ção e neolibe alismo (Sage , 2011). O neolibe alismo o mou o ambien e ideológico e o
apa a o de polí icas necessá io à globalização económica. Peck e al., (2009) assinala am
que es a conexão globalização -neolibe alismo é um enómeno mul iescala que se
exp ime especialmen e nas cidades. Dela esul ou um no o pa adigma de go e no da
cidade que se exp ime em p i a izações, pa ce ias público -p i ado, emulação de mode-
los emp esa iais na ges ão u bana (o que inclui a desc ença e abandono dos planos no -
ma i os de uso do solo e sua subs i uição po planeamen o es a égico), assim como na
p io ização da compe i i idade e do c escimen o sob e a equidade e a edis ibuição
(Hackwo h, 2006; Peck e al., 2009).
A egene ação u bana, o nada a g ande p io idade do planeamen o u bano nos úl i-
mos in a anos, é, pa a Hackwo h (2006) en e ou os, o ins umen o polí ico po exce-
lência de e e i ação da cidade neolibe al. Jus i ica -se discu si amen e pela necessidade de
supe a o ciclo de declínio associado à desindus ialização, de p omo e a ecupe ação
económica adap ando a cidade aos desa ios da no a economia global e de e e e a
eg essão demog á ica e o en elhecimen o a aindo no os esiden es, sob e udo da ‘classe
c ia i a’. A equali icação do edi icado e do ambien e u bano ligadas à compe i i idade da
cidade e ao ma ke ing e i o ial são ques ões c uciais nas polí icas egene a i as e nelas
cos umam es a igualmen e p esen es as no as soluções de planeamen o e de go e nança
associadas ao u banismo neolibe al (Tallon, 2010; Guima ães, 2016).
2. Regene ação u bana, u is i icação e gen i icação
A solução encon ada nas ope ações de egene ação u bana assen a no malmen e
num mix de cul u a, consumo, en e enimen o e capi al imobiliá io, combinado em doses
a iá eis (Hannigan, 1998; Fains ein & Judd, 1999; Lloyd & Cla k, 2001). Os es udos
desen ol idos sob e os espaços e as o mas cons uídas da egene ação u bana, sejam
en es ibei inhas e docas eno adas (Goss, 1996; Edwa ds e al., 2008), cen os das cida-
des e i alizados (Lloyd, 2002; Skoll & Ko s anje, 2014), locais de megae en os (Be ia os
& Gospodini, 2004), ou p oje os de ‘ edesen ol imen o’ u bano em á eas abandonadas
ou com usos obsole os (Tallon, 2010), mos am um o e in es imen o nos aspe os da
memó ia e do design, o que diz mui o sob e o ínculo da egene ação u bana à “economia
dos signos” (Lash & U y, 1994) e, po conseguin e, ao u ismo.
Nos anos 90 pe cebeu -se que o u ismo es a a a eme gi como al e na i a ao desapa-
ecimen o da indús ia nas cidades (Law, 1992). A ans o mação do espaço u bano pelo
u ismo o nou -se especialmen e pa en e nessa no a ca ego ia de espaços u banos que
O Ho el San iago de Al ama como alego ia da polí ica ecen e de egene ação u bana
70
Fains ein e Judd (1999) designa am “cidades con e idas”, assim como na u is i icação
dos cen os his ó icos (Jansen -Ve beke & Lie ois, 1999). Resul ados posi i os dessa liga-
ção do u ismo ao enascimen o das cidades o am desc i os em nume osos es udos
(McCa hy & Pollock, 1997; McCa hy, 1998; O ue a, 2007; Galdini, 2007; Foley &
McPhe son, 2007; Ashwo h & Page, 2011).
Também em Po ugal, e mais conc e amen e em Lisboa, há sinais dessa imb icação
en e econ e são pós -indus ial, polí icas egene a i as, compe i i idade u bana e
u ismo desde os anos 90 (B i o Hen iques, 1996). Da am dessa década os es o ços pa a
o na Lisboa mais a a i a e compe i i a, p omo endo -a como um des ino u ís ico
u bano mode no. O Plano Es a égico de Lisboa de 1992 e e ia qua o obje i os es a é-
gicos, sendo um p ecisamen e o na Lisboa compe i i a no sis ema das cidades eu o-
peias. A cidade iniciou en ão um p og ama ambicioso de alo ização u bana e p omo-
ção da imagem ex e na, que en ol eu a mode nização de in aes u u as ( odo ias e
me opoli ano), c iação e eno ação de equipamen os cul u ais, com in e enções a qui-
ec ónicas de g ande escala e design so is icado, e g andes ope ações de egene ação e
‘ edesen ol imen o’ em á eas indus iais obsole as e na en e ibei inha (Ba a a Sal-
guei o, 2001). A sediação da P esidência das Comunidades Eu opeias, em 1992, oi o
p e ex o pa a uma in e enção u bana de g ande escala em Belém, com a cons ução do
CCB. En endia -se necessá io p oje a in e nacionalmen e a imagem da cidade e, es a e-
gicamen e, os deciso es públicos candida a am (com sucesso) Lisboa a Capi al Eu opeia
da Cul u a (1994) e sede da Exposição Mundial de 1998, e en o que oi mo i o de uma
ans o mação p o unda na Lisboa O ien al, com a econ e são de an igas á eas indus-
iais em espaços de ec eio, de habi ação de pad ão ele ado e de consumo.
Ao longo dos úl imos anos, o u ismo con inuou a se is o pelos deciso es polí icos
(nacionais, egionais e locais) como uma ala anca pa a a egene ação u bana, designada-
men e em Lisboa. Essas elações en e u ismo e egene ação u bana o alece am -se em
especial e ganha am no as o mas desde 2007, po um lado com o apa ecimen o de no os
incen i os e ins umen os inancei os de p omoção de u ismo enquad ados pelas polí i-
cas egionais, po ou o lado g aças a um conjun o de al e ações de lexibilização que se
in oduzi am nos egimes ju ídicos da eabili ação u bana, do a endamen o u bano, e
do p óp io alojamen o u ís ico (Ba a a Salguei o, Guima ães, & Mendes, 2017).
O en usiasmo que as elações en e u ismo e egene ação acima e e idas desc e em
em sido no en an o ma izado po posições que ealçam a al a de au en icidade e o
empob ecimen o das elações sociais e da ida de ua de ido à hípe -secu i ização e es e-
ização das á eas egene adas pelo e pa a o u ismo (Selby e al., 2008; Zukin, 2010).
Ou a c í ica põe em des aque o ac o dos bai os u is i icados e p ecin os u ís icos
se em espaços seg egados e po encialmen e excluden es (Judd, 2003), o que nos úl imos
empos e oluiu pa a uma c escen e a enção às elações en e u ismo e gen i icação.
O concei o de gen i icação u ís ica, abalhado inicialmen e po Go ham (2005),
aplica -se sob e udo a bai os esidenciais his ó icos e coloca em des aque o e ei o do
u ismo na ans o mação desses bai os, com a passagem de usos de habi ação e comé -
cio adicional pa a usos u ís icos e de en e enimen o, que se epe cu em no aumen o
João Sa a a, Edua do B i o-Hen iques
71
do alo das p op iedades imobiliá ias. Tem -se e e ido que a expulsão dos esiden es
pode oco e de o ma di e a, indi e a e induzida, a a és dos mecanismos con a uais e
alo das endas, mas ambém pelo sen imen o de p i ação e exclusão no acesso a bens e
a espaços de uso cole i o e pela pe da do sen ido de pe ença ao luga (Di ksmeie &
Helb ech , 2015; Cócola Gan , 2015). Con udo, pe manecem mal conhecidos os p oces-
sos e mecanismos exa os da gen i icação e os a o es nela en ol idos: Go ham (2005)
conside ou como a o es cha e as cadeias ho elei as e de ca és e es au an es, Glads one e
P éau (2008) puse am em des aque o papel dos abalhado es jo ens dos se iços u ís i-
cos e ec ea i os como gen i icado es, enquan o Fülle e Michel (2014) colocam a ónica
nos pequenos in es ido es que ans e em casas do me cado esidencial con encional
pa a o a endamen o de cu a du ação. Além disso, não há consenso na li e a u a em
elação ao balanço inal dos e ei os do u ismo na cidade e há azões pa a conside a que
demoniza a gen i icação u ís ica é uma o ma simplis a de enca a o p oblema (Skoll
& Ko s anje, 2014). Embo a boa pa e da bibliog a ia ecen e coloque o oco nos con li os
ge ados pela u is i icação do espaço u bano, há es udos que suge em que polí icas es i-
i as do desen ol imen o do u ismo e o ien adas es i amen e pa a as comunidades
esiden es são ine icazes e acabam po inibi a e i alização dos bai os his ó icos
(And ade & Lamela, 2015).
III. A INICIATIVA JESSICA NO QUADRO DOS INSTRUMENTOS DE POLÍTICA
URBANA EUROPEUS
A é aos anos 90 não ha ia no quad o eu opeu p og amas de polí icas especí icas pa a
as cidades. As ope ações em á eas u banas inancia am -se caso i essem enquad amen o
nas p io idades das polí icas egionais e apenas nesses casos. O p imei o ins umen o de
polí ica de inicia i a comuni á ia pensado especi icamen e pa a as cidades – in i ulado
P oje os Pilo os U banos (PPU) – su giu em 1990. Como a inicia i a URBAN, que ep e-
sen ou uma e olução dos PPU, di igia -se à e i alização económica e social de á eas
u banas em c ise e assen a a no apoio a p oje os pon uais ino ado es, o que da a às
ope ações apoiadas um ca ác e de excecionalidade.
Foi já no p esen e século que a Comissão Eu opeia começou a conduzi uma polí ica
mais a i a em p ol das cidades. En e 2000 e 2006, a inicia i a URBAN II iu o seu en e-
lope inancei o e o çado, passando a mobiliza conjugadamen e FEDER e FSE. Com as
assina u as do Aco do de B is ol, em 2005, e da Ca a de Leipzig, em 2007, a au onomia
dos emas u banos na agenda polí ica eu opeia o nou -se mais e iden e. O lançamen o
do P og ama Ope acional URBACT em 2007 insc e eu -se nesse es o ço. No en an o, oi
a a és dos p og amas ope acionais egionais que se con inuou a aze o essencial do
inanciamen o do desen ol imen o u bano (Ba a a Salguei o e al., 2015).
A inicia i a JESSICA – Join Eu opean Suppo o Sus ainable In es men in Ci y
A eas (Apoio Eu opeu Comum pa a o In es imen o Sus en á el em Zonas U banas) oi
c iada po uma decisão delibe a i a da Comissão Eu opeia de 2006 (a igo 44º ao 46º do
O Ho el San iago de Al ama como alego ia da polí ica ecen e de egene ação u bana
72
Regulamen o n.º 1083/2006 e a igo 43º ao 46º do Regulamen o nº 1828/2006, ambos da
Comissão Eu opeia). Con ou com a colabo ação do Banco Eu opeu de In es imen o
(BEI) e do Banco de Desen ol imen o do Conselho da Eu opa (BDCE) e o seu obje i o
oi p omo e a egene ação e o desen ol imen o u bano sus en á el apoiando inancei-
amen e ope ações de emp esas, pa ce ias público -p i ado e undos de in es imen o.
A p incipal no idade da inicia i a JESSICA consis iu no modelo de uncionamen o e
ges ão. A JESSICA assen ou numa lógica de ala ancagem de undos públicos po capi ais
p i ados e de coope ação mul iní el en e ins i uições comuni á ias e dos Es ados-
-memb os, endo sido concebida pa a unciona em moldes semelhan es aos undos de
capi ais das sociedades inancei as, o que e le e uma endência neolibe alizan e da polí-
ica u bana na UE. Pa a a ope acionalização da JESSICA em Po ugal, oi cons i uído um
holding und ge ido pelo BEI e pa icipado simul aneamen e po FEDER, p o enien e
das au o idades de ges ão egionais, e po capi ais nacionais, es es a a és da Di eção-
-Ge al de Tesou o e Finanças. Es e undo de pa icipações oi in es ido na cons i uição
de cinco undos de desen ol imen o u banos (FDU), um po cada egião NUTS II do
Con inen e. A ges ão dos FDU oi a ibuída a en idades inancei as, que podiam se
públicas ou p i adas, selecionadas em concu so público em unção de um plano de negó-
cio ap esen ado, das quais se espe a a que pa icipassem inancei amen e nos FDU ala-
ancando o holding und com capi ais p óp ios ou alheios. Con a ualmen e, os FDU
podem se aplicados a a és de emp és imos, ga an ias, ou de pa icipação no capi al das
sociedades p omo o as dos p oje os u banos (na p á ica em oco ido apenas o inancia-
men o a a és de emp és imos), sendo que a de inição das modalidades conc e as de
in es imen o dos FDU é eme ida pa a os planos de negócio que as en idades ges o as
de inem.
Um pon o ele an e e di e enciado da inicia i a JESSICA quando compa ado com
ou os ins umen os inancei os comuni á ios é a ob iga o iedade dos u ilizado es inais
eembolsa em os apoios concedidos (Kal e e al., 2012). O in es imen o que u ilize
inanciamen o JESSICA e á de se ealizado em ‘p odu o u bano’ que ge e di e amen e
endimen o de modo a que o mon an e eembolsá el pe mi a e inancia no as candida-
u as ( e ol ing cycle). Os in es imen os êm de e uma componen e de capi ais p i ados
(mon an es mínimos en e 15% a 20% do p oje o) e os a i os inanciados pelos FDU
podem e adicionalmen e ala ancagem bancá ia pela ins i uição inancei a ges o a do
p óp io FDU ou po ou a ins i uição inancei a. Os c i é ios de escolha dos p oje os êm
em linha de con a a capacidade e elocidade de eembolso, exis indo simila idade com os
c i é ios come ciais de seleção de p oje os na banca come cial.
Em Po ugal, a ap o ação dos FDU oi delibe ada a a és de concu so público
concluído em se emb o de 2011, endo sido selecionadas ês en idades pa a a sua
ges ão: o Banco Po uguês de In es imen o (BPI), a Caixa Ge al de Depósi os (CGD) e
o Tu ismo de Po ugal, IP (TdP), endo es e úl imo ganho a ges ão dos FDU de Lisboa
e do Alga e. Assim, icou a ibuída ao TdP a esponsabilidade de análise, seleção e
alidação dos p oje os a apoia pelos undos JESSICA nes as duas egiões, a decisão da
concessão dos inanciamen os, a e i icação da elegibilidade das despesas e o acompa-
João Sa a a, Edua do B i o-Hen iques
79
1100000 €, p oje ando um in es imen o o al de 2436934 €, pa a o qual deu como
ga an ia (hipo eca olun á ia) o p óp io imó el. Segundo con i mou o p op ie á io em
en e is a, esse emp és imo oi c ucial pa a o desen ol imen o do p oje o numa al u a
em que Po ugal se encon a a sob um p og ama de esga e inancei o, em ecessão eco-
nómica e com a maio ia da banca adicional a limi a o emen e o c édi o po al a de
ecu sos p óp ios e a conside a o imobiliá io a i idade não inanciá el.
À da a da candida u a ao undo JESSICA, e a ainda a p opos a inicial de c iação de
um ho el de 4 es elas que es a a em cima da mesa. Com o no o p oje o de eabili ação e
a al e ação do p og ama pa a um ho el de 5 es elas, o mon an e do in es imen o o al
dispa ou pa a os 3500000 €. Pa a além das ob as de emodelação do edi ício, oi canali-
zado impo an e in es imen o pa a o design de in e io es e ambiência. Assim, adicional-
men e ao undo JESSICA, a sociedade p omo o a solici ou em ou ub o de 2013 um
inanciamen o jun o da banca come cial, des a ei a ao Banco Popula Po ugal S.A., no
mon an e de 1050000 €, dando no amen e o imó el como hipo eca. Em 2015, oi ob ido
um úl imo e o ço de inanciamen o pelo mesmo banco no alo de 350000 €, com
egis o de uma e cei a hipo eca sob e o mesmo imó el.
Inaugu ado em julho de 2015, o Ho el San iago de Al ama é a ualmen e uma unidade
ho elei a de 5 es elas, com 6 sui es e 13 qua os, es au an e de au o (o Fáb ica de San-
iago, nome que é uma alusão pós -indus ial à memó ia do imó el), cabelei ei o e salão
de massagens, além de uma loja de p odu os egionais gou me . No inal de 2015, segundo
o ela ó io e con as da emp esa p op ie á ia, inha ao se iço 25 abalhado es, com um
cus o médio po emp egado de ce ca de 14000 €/ano.
Em e mos de nicho de me cado, a unidade enquad a -se na ca ego ia de ‘ho el bou-
ique’. Anha (2001) e Agge (2007) desc e em es e géne o de alojamen o como um ho el
de pequena dimensão, único, in imis a, de a qui e u a e deco ação di e enciadas, cus o-
mizado e com ele ada qualidade e pe sonalização do se iço, sendo po no ma mais ca o
que o ho el de cadeia. O me cado al o do ho el bou ique são consumido es com gos o
po design, a en os às ‘ endências e es ilo de ida’ ( ends & li es yle), que se que em sen i
memb os de uma comunidade global que ap ecia expe iências cos umizadas e a so is i-
cação de locais eli izados (S annega d & S annega d, 2012). Tal como sucede aqui, con-
sumido es des e ipo de unidades p ocu am espaços com uma ambiência e es é ica que
e li am ‘es ilo de ida’, iden idade e um posicionamen o de di e enciação e ele ado s a us
social (S annega d & S annega d, 2012).
A a mos e a do Ho el San iago de Al ama é in imis a, so is icada e eclé ica. A p o-
p ie á ia e ambém ge en e do ho el concebeu a deco ação numa in e p e ação p óp ia
da iden idade do luga , in oduzindo po meno es pessoais que c iam um sen ido de
domes icidade. Os pá ios in e io es, com as suas cis e nas de água, êm essonâncias
o ien alizan es que eme em pa a o passado á abe de Al ama. Os qua os são amplos,
com á eas que a iam en e os 22,5 e os 50 m2, de co es sua es e deco ação clean, pon ea-
dos po de alhes únicos, como la gas banhei as de ina pousadas sob e painéis de mosaico
hid áulico, menus de almo adas e pequenas zonas de epouso. Mui o do mobiliá io oi
concebido p oposi adamen e pa a o ho el e a deco ação apos ou em layou s di e en es em
O Ho el San iago de Al ama como alego ia da polí ica ecen e de egene ação u bana
80
cada qua o, de o ma a acomoda uma indi idualidade p óp ia. O in es imen o em
ob as de a e, de á ias o igens e azidas em g ande pa e pela p op ie á ia nas suas
iagens pelo mundo, é no ó io, coexis indo pin u as de a is as con empo âneos com
pequenos mó eis e an iguidades indianos e do sudes e asiá ico, azulejos e má mo es
po ugueses.
O ambien e social do Ho el San iago de Al ama é cosmopoli a. Os hóspedes são em
la ga maio ia es angei os que p ocu am um se iço pe sonalizado, design, cha me e
his ó ia. Como e e ido po S annega d e S annega d (2012), es e ipo de clien es, po
domina em os códigos de gos o e compo amen os cosmopoli as, sen e -se ‘em casa’
nes e ipo de p op iedades, independen emen e de es a em em Lisboa ou nou a cidade
mundial.
Em e mos de ma ke ing e canais de endas, o Ho el San iago de Al ama em um
websi e p óp io com possibilidades de e e ua ese as, página o icial de Facebook e
abalha que com websi es mul io e a e gene alis as, como o www.booking.com e o
www.ho els.com, que com websi es mais di igidos pa a o me cado de luxo e ho ela ia de
cha me, como o www.sec e places.com ou o www.i -escape.com. O ho el em sido al o de
di e sas epo agens em e is as nacionais e in e nacionais dedicadas ao u ismo de luxo,
como a CondéNas T a elle , a Médi e anée Magazine e o Teleg aph T a el. Os p eços de
qua o/noi e com pequeno -almoço a iam en e os 210 e os 340 € – o que signi ica que
cada qua o p oduz hoje, num dia, endimen o supe io ao que p o a elmen e, an es da
con e são do edi ício em ho el, se au e ia num mês in ei o com o o al das endas dos
an igos inquilinos.
V. DICUSSÃO FINAL E CONCLUSÃO
Na biog a ia do edi ício do Ho el San iago de Al ama podemos e e le idas sucessi-
as ases da his ó ia u bana de Lisboa. As me amo oses po que o edi ício passou – de
casa nob e pa a pá io ope á io, de pá io ope á io pa a ho el de luxo – exp imem a adap-
ação do imó el a essas mudanças – a indus ialização, no p imei o caso; a u is i icação
associada à es u u ação u bana pós -indus ial, no segundo – com consequências na
paisagem, ao ní el da ma e ialidade do edi icado e na a mos e a do luga , assim como no
ambien e social. Mui o sin oma icamen e, no mesmo imó el onde exis i am em empos
dezano e apa amen os somb ios e húmidos, des inados a amílias abalhado as pob es,
es ão hoje dezano e qua os e sui es espaçosos e a ejados, bem deco ados, po onde ci -
cula a no a eli e global de iajan es endinhei ados, e um es au an e de che eio ocupa
o luga onde exis iu uma áb ica de camisas.
Analisando a his ó ia des e edi ício, pe cebe -se que as ansmu ações que ele oi
so endo ao longo do empo es i e am associadas a di e en es es a égias de alo ização
do capi al imobilizado no ambien e cons uído, em unção do que em cada momen o
su gia como opo unidade mais iá el de en abilização do in es imen o. O p óp io p o-
cesso de p ole a ização do edi ício, oco ido du an e o ciclo u bano da indus ialização,
João Sa a a, Edua do B i o-Hen iques
81
oi em si uma o ma de en a maximiza o luc o. Po ou o lado, olhando pa a es e caso em
conc e o, é isí el que não se podem en ende as azões da u is i icação u bana desligadas
das es a égias do imobiliá io. A con e são do edi ício em ho el su ge po que, num con-
ex o pós -indus ial e de globalização, isso apa ece como uma o ma de en abilização
ápida e e icien e do capi al imobiliá io. A ala ancagem no c édi o é ou o dado essencial
a e e nes a his ó ia. É ela que ca apul a o p oje o u ís ico -imobiliá io em ques ão pa a
um escalão wo ld -class, pe mi indo ao ho el posiciona -se globalmen e como um p o-
du o di e enciado. A es ei a imb icação das es e as u ismo -imobiliá io -banca essal a
des e es udo de caso como algo essencial pa a comp eende a u is i icação u bana.
O nexo en e globalização, u ismo e ees u u ação u bana, bas an e sublinhado na
li e a u a, su ge em g ande des aque nes a his ó ia. A dimensão global es á p esen e não
apenas pelo ac o do ho el ope a nesse me cado, mas ambém po que p o ie am desse
espaço os p o agonis as essenciais da con e são do edi ício em ho el. O Ho el San iago de
Al ama é po an o, a á ios í ulos, incluindo na a mos e a cosmopoli a que nele se i e,
um encla e da globalização no ecido da cidade. Es e ac o é ele an e po que e ela um
lado menos e e ido na li e a u a sob e globalização e ees u u ação u bana: a in odu-
ção do capi al ansnacional na egene ação u bana es á a se ealizado ambém po
in es ido es p i ados em pequenas p omoções e não apenas po g andes p oje os
imobiliá ios desen ol idos po undos de in es imen o que ope am à escala do qua ei ão,
ou po g andes consó cios de in es ido es ala ancados nos me cados inancei os globa-
lizados, como a li e a u a ende mais equen emen e a e e i . Es e es udo de caso mos a
ainda que são múl iplos os a o es que in e êm na u is i icação da cidade e na gen i i-
cação u ís ica: não apenas as g andes cadeias de ho éis e ca és (Go ham, 2005), não ape-
nas os pequenos in es ido es que deslocam ogos pa a o a endamen o de cu a du ação
(Fülle & Michel, 2014), mas ambém in es imen os ho elei os independen es e di e en-
ciados, conduzidos po in es ido es indi iduais in eg ados nos ci cui os do capi al global
e com bom acesso ao c édi o.
O mix de design, memó ia, consumo e imobiliá io, an as ezes sublinhado na li e-
a u a como sendo a ‘ ó mula mágica’ da ees u u ação u bana pós -indus ial ou
pós -mode na ( ., e.g., Hannigan, 1998; Zukin, 2010), es á bem p esen e ambém no caso
analisado, se bem que aqui numa escala mic o. Esse in es imen o no ambien e cons-
uído, mui o a iculado com a economia dos signos, es á na o igem da eli ização do
local. Mui as das ques ões le an adas na li e a u a a espei o do ca á e excluden e dos
espaços u is i icados êm aplicação aqui. Con udo, a biog a ia do edi ício e o caso
conc e o do ho el es udado mos am ambém que culpa a u is i icação pela expulsão
dos esiden es e como on e de con li os sociais nem semp e é adequado. O in es imen o
u ís ico apa eceu nes e caso após um caminho de deg adação e abandono p og essi o
do edi ício que cla amen e inha de mui o an es das polí icas neolibe ais. Tão -pouco se
pode dize que o capi al globalizado e a u is i icação enham sido esponsá eis po co -
ompe uma ha monia social p é -exis en e. O passado p é - u ís ico do local es a a já
imp egnado de his ó ias pessoais de p i ação, exclusão e injus iça, e ma cado po uma
o e ensão social e con li ualidade en e inquilinos e p op ie á ios.
O Ho el San iago de Al ama como alego ia da polí ica ecen e de egene ação u bana
82
Po úl imo, uma no a ace ca do papel da inicia i a JESSICA nes e p ocesso. Como
ins umen o de polí ica neolibe al que é, pe cebe -se que não e e po inalidade egula
ou o ien a , con a ia ou co igi o me cado, mas sim coadju a -lo subsidia iamen e,
desbloqueado di iculdades de c édi o e acili ando os in es imen os.
O caso em conc e o do Ho el San iago de Al ama mos a que a opção de in es i na
ho ela ia inha sido equacionada an es da inicia i a JESSICA es a no e eno. O undo
JESSICA al ez não de a po an o se is o como causa da u is i icação da cidade de
Lisboa, mas como um elemen o acili ado desse p ocesso, que num pe íodo c í ico de
bloqueio do acesso ao c édi o na banca adicional uncionou como seu subs i u o e, po
isso, oi c ucial.
AGRADECIMENTOS
Os au o es ag adecem aos en e is ados o empo que disponibiliza am e os dados que o nece am
pa a a econs i uição da biog a ia do edi ício, especialmen e ao A q. Luís Rebelo de And ade, que aci-
li ou o acesso ao seu a qui o pessoal, e à di eção do Ho el San iago de Al ama, po ab i as po as pa a
a pesquisa de campo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Agge , M. (2007). Wha has influenced g ow h in he
UK’s bou ique ho el sec o ? In e na ional Jou nal
o Con empo a y Hospi ali y Managemen , 19(2),
169 -177.
Al haus, E., & Glase , M. (2015). Legacies o mode nism.
House -biog aphies o la ge pos -wa esiden ial
complexes in Swi ze land. In F. Zan i & G. Ca a-
mellino (Eds.), Pos -wa middle -class housing:
Models, cons uc ion and change (pp. 243 -262).
Be na: Pe e Lang.
And ade, F. (1948). A eguesia de San iago. Subsídios
pa a a his ó ia das suas uas, edi ícios e ig eja
pa oquial [The eguesia o San iago. Subsidies
o he his o y o i s s ee s, buildings and
pa ish chu ch]. Lisboa: Câma a Municipal de
Lisboa.
And ade, M., & Lamela, C . (2015, agos o). Tou ism
wi hou gen i ica ion? Obs acles o achie e a
“Happy Medium”. Comunicação ap esen ada à
12 h Con e ence o he Eu opean Sociological
Associa ion, P aga, República Checa.
Anha , L. (2001). The de ini ion o bou ique ho els.
Re i ed om: h p://www.hospi ali yne .o g/
news/4010409.h ml
Ashwo h, G., & Page, S. (2011). U ban ou ism
esea ch: ecen p og ess and cu en pa adoxes,
Tou ism Managemen , 32(1), 1 -15.
Ba a a Salguei o, T. (1994). No os p odu os imobiliá-
ios e ees u u ação u bana [Real es a e new
p oduc s and u ban es uc u ing]. Finis e a –
Re is a Po uguesa de Geog a ia, XXIX(57),
79 -101.
Ba a a Salguei o, T. (2001). Lisboa, pe i e ia e cen alida-
des [Lisbon, ou ski s and cen ali ies]. Oei as:
Cel a.
Ba a a Salguei o, T., And é, I., & B i o -Hen iques, E.
(2015). A polí ica de cidades em Po ugal: ins-
umen os, ealizações e pe spe i as [U ban
policy in Po ugal: ools, achie emen s and p os-
pec s]. In P. Ne o & M. M. Se ano (Eds.), Polí i-
cas públicas, economia e sociedade. Con ibu os
pa a a de inição de polí icas no pe íodo 2014 -20
[Public policies, economy and socie y. Con ibu-
ions o he policies de ini ion in he pe iod
2014 -20] (pp. 49 -81). Alcoche e: Sma book
Ba a a Salguei o, T., Mendes, L., & Guima ães, P. (2017).
Tou ism and u ban changes: lessons om Lis-
bon. In M. G a a i -Ba bas, & S. Guinand (Eds),
João Sa a a, Edua do B i o-Hen iques
83
Tou ism and Gen i ica ion in Con empo a y
Me opolises. In e na ional Pe spec i es (pp. 255-
-275). Oxon: Rou ledge,
Be ia os, E., & Gospodini, A. (2004). ‘‘Glocalising’’
u ban landscapes: A hens and he 2004 olym-
pics. Ci ies, 21(3), 187 -202.
Blun , A. (2008). The ‘skysc ape se lemen ’: home and
esidence a Ch is odo a House. En i onmen
and Planning A, 40(3), 550 -571.
Blun , A., & Dowling, R. (2006). Home. Abingdon e New
Yo k: Rou ledge.
B i o -Hen iques, E. (1996). A Lisboa u ís ica, en e o
imaginá io e a cidade. A cons ução de um
luga u ís ico u bano [The Tou is Lisbon,
be ween he image y and he ci y. The build-
ing o an u ban ou ism place]. Lisboa: Edições
Colib i.
B oudehoux, A. -M. (2007). Spec acula Beijing: he
conspicuous cons uc ion o an olympic
me opolis. Jou nal o U ban A ai s, 29(4),
383 -399.
Cócola Gan , A. (2015, agos o). Tou ism and comme cial
gen i ica ion. Comunicação ap esen ada à In e -
na ional Con e ence ‘The ideal ci y. Be ween
my h and eali y’, U bino, I ália.
Di ksmeie , P., & Helb ech , I. (2015). Residen pe -
cep ions o new u ban ou ism: a neglec ed
geog aphy o p ejudice. Geog aphy Compass,
9(5), 276 -285.
Edwa ds, D., G i in, T., & Haylla , B. (2008). Da ling
Ha bou : looking back and mo ing o wa d. In
B. Haylla , T. G i in, & D. Edwa ds (Eds.), Ci y
spaces – ou is places: U ban ou ism p ecinc s
(pp. 275 -294). Ox o d e Bu ling on, MA:
Bu e wo h -Heinemann.
Fains ein, S. S. (1990). The changing wo ld economy
and u ban es uc u ing. In D. R. Judd, & M.
Pa kinson (Eds.), Leade ship and u ban egene-
a ion (pp. 31 -47). Thousand Oaks, CA: Sage.
Fains ein, S. S. (2008). Mega -p ojec s in New Yo k, Lon-
don and Ams e dam. In e na ional Jou nal o
U ban and Regional Resea ch, 32(4), 768 -785.
Fains ein, S. S. & Judd, D. R. (1999). Ci ies as places o
play. In D. R. Judd & S. S. Fains ein (Eds.), The
ou is ci y (pp. 261 -272). New Ha en CT: Yale
Uni e si y P ess.
Foley, M., & Mcphe son, G. (2007). Glasgow’s Win e
Fes i al: can cul u al leade ship se e he com-
mon good? Managing Leisu e, 12 (2), 143 -156.
Fülle , H., & Michel, B. (2014). ‘S op being a ou is !’
New dynamics o u ban ou ism in Be lin-
-K euzbe g. In e na ional Jou nal o U ban and
Regional Resea ch, 38, 1304-1318.
Galdini, R.(2007).Tou ism and he ci y: oppo uni y o
egene a ion. Tou ismos: An In e na ional Mul i-
disciplina y Jou nal o Tou ism, 2(2), 95 -111.
Galha do, J. (2014). As desigualdades on es de dinâmi-
cas u banas no cen o his ó ico de Lisboa
[Inequali ies o sou ces o u ban dynamics in he
Lisbon his o ic cen e]. Cade nos Me ópole,
16(32), 513 -536.
Glads one, D., & P éau, J. (2008). Gen i ica ion in ou -
is ci ies: e idence om New O leans be o e and
a e Hu icane Ka ina. Housing Policy Deba e,
19(1), 137-175.
Goh, D. (2010). Capi al and he ans igu ing monumen-
ali y o Ra les Ho el. Mobili ies, 5(2), 177 -195.
Goss, J. (1996). Disquie on he wa e on : e lec ions
on nos algia and u opia in he u ban a che ypes
o es i al ma ke places. U ban Geog aphy, 17(3),
221 -247.
Go ham, F. (2005). Tou ism gen i ica ion: The case o
new O leans’ ieux ca e (F ench Qua e ).
U ban S udies, 42(7), 1099-1121.
Guima ães, P. (2016). A e icácia dos p oje os especiais
de u banismo come cial. E idências de B aga
[The e ec i eness o he special p ojec s o com-
me cial u banism. E idence om B aga]. Finis-
e a – Re is a Po uguesa de Geog a ia, LI(102),
47 -64.
Hackwo h, J. (2006). The neolibe al ci y. Go e nance,
ideology, and de elopmen in Ame ican u ban-
ism. I haca: Co nell Uni e si y P ess.
Jansen -Ve beke, M. & Lie ois, E. (1999). Analysing he i-
age esou ces o u ban ou ism in Eu opean
ci ies. In D. G. Pea ce, & Richa d W. Bu le (Eds.),
Con empo a y issues in ou ism de elopmen
(pp. 81 -106). Lond es e No a Io que: Rou ledge.
Hannigan, J. (1998). Fan asy ci y: Pleasu e and p o i in
he pos mode n me opolis. Lond es e No a
Io que: Rou ledge.
Ha ey, D. (1982). The limi s o capi al. Ox o d: Basil
Blackwell.
Kal e , T., Vanags, A., & Maniokas, K. (2012). Financial
enginee ing ins umen s: he way o wa d o
cohesion policy suppo ? Recen expe ience
om he Bal ic s a es. Bal ic Jou nal o Economics,
12(1), 5 -22.
O Ho el San iago de Al ama como alego ia da polí ica ecen e de egene ação u bana
84
Jacobs, J., Cai ns, S., & S ebel, I. (2012). Doing building
wo k: me hods a he in e ace o geog aphy
and a chi ec u e. Geog aphical Resea ch, 50(2),
126-140.
Judd, D. R. (2003). Visi o s and he spa ial ecology o he
ci y. In L. Ho man, S. S. Fains ein, & D. R. Judd
(Eds.), Ci ies and isi o s: Regula ing people, ma -
ke s, and ci y space (pp. 23-38). Ox o d: Black-
well.
Lash, S., & U y, J. (1994). Economies o signs and space.
Lond es e Thousand Oaks, CA: Sage.
Law, C. (1992). U ban ou ism and i s con ibu ion o
economic egene a ion. U ban S udies, 27(3),
599 -618.
Lloyd, R. (2002). Neo -bohemia: a and neighbo hood
ede elopmen in Chicago. Jou nal o U ban
A ai s, 24(5), 517 -532.
Lloyd, R., & Cla k, T. N. (2001). The ci y as an en e ain-
men machine. In K. F. Go ham (Ed.), C i ical
Pe spec i es on U ban Rede elopmen (pp. 357-
-378). No a Io que: Else ie .
McCa hy, J. (1998). Recons uc ion, egene a ion and
e -imaging: he case o Ro e dam. Ci ies, 15(5)
338 -341.
McCa hy, J., & Pollock, A. S. (1997). U ban egene a-
ion in Glasgow and Dundee: a compa a i e
e alua ion. Land Use Policy, 14(2), 137 -148.
Mon ei o, N. G. (2003). O c epúsculo dos g andes. A casa
e o pa imónio da a is oc acia em Po ugal (1750-
-1832) [The wiligh o nobili y. The mano and
pa imony o he a is oc acy in Po ugal (1750-
-1832)]. Lisboa: Imp ensa Nacional -Casa da
Moeda
O ue a, D. (2007). Mad id: u ban egene a ion p ojec s
and social mobiliza ion. Ci ies, 24(3), 183 -193.
Peck, J., Theodo , N., & B enne , N. (2009). Neolibe al
u banism: models, momen s, mu a ions. SAIS
Re iew o In e na ional A ai s, 29(1), 49 -66.
Pe ei a, N. T. (1994). Pá ios e ilas de Lisboa, 1870 -1930:
a p omoção p i ada do alojamen o ope á io.
Análise Social, XXIX(127), 509 -524.
Ro e, M. W. (2003). ‘I wan o be global’: heo ising he
gen i ying class as an eme gen éli e global com-
muni y. U ban S udies, 40(12), 2511 -2526.
Sage , T. (2011). Neo -libe al u ban planning policies: a
li e a u e su ey 1990 -2010. P og ess in Plan-
ning, 76(4), 147 -199.
Sassen, S. (2000). Ci ies in a wo ld economy (2ª ed.).
Thousand Oaks, CA: Pine Fo ge P ess.
Selby, M., Haylla , B., & G i in, T. (2008) The ou is
expe ience o p ecinc s. In B. Haylla , T. G i in,
& D. Edwa ds (Eds) Ci y spaces, ou is places:
U ban ou ism p ecinc s (pp. 183 -201). Ams e -
dão: Bu e wo h -Heinemann.
Sklai , L. (2006). Iconic a chi ec u e and capi alis glo-
baliza ion. Ci y, 10(1), 21 -47.
Skoll, G. R., & Ko s anje, M. (2014). U ban he i age,
gen i ica ion, and ou ism in Ri e wes and El
Abas o. Jou nal o He i age Tou ism, 9(4), 349-
-359.
Smi h, N. (2002). New globalism, new u banism: gen i-
ica ion as global u ban s a egy. An ipode, 34(3),
427 -450.
Soja, E., Mo ales, R., & Wol , G. (1983). U ban es uc-
u ing: an analysis o social and spa ial change in
Los Angeles. Economic Geog aphy, 59(2), 195 -230.
S ake, R. E. (1995). The a o case s udy esea ch. Thou-
sand Oaks, CA: Sage.
S annega d, L., & S annega d, M. (2012). Wo ks o a :
aes he ic ambi ions in design ho els. Annals o
Tou ism Resea ch, 39(4), 1995–2012.
Tallon, A. (2010). U ban egene a ion in he UK. Oxon e
No a Io que: Rou ledge.
Zukin, S. (2010). The naked ci y: The dea h and li e o
au hen ic u ban places. No a Io que: Ox o d
Uni e si y P ess.
João Sa a a, Edua do B i o-Hen iques