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O jogo infinito do texto: Lispector e a aprendizagem do incerto

Abstract

Inspirando-se no conceito de rizoma avançado por Deleuze e Guattari no seu projecto Capitalismo e Esquizofrenia (1972-1980), na distinção de R. Barthes entre texte lisible and texte scriptiblee no conceito de “instante” apresentado por G. Bachelard, o presente artigo pretende encetar uma análise aprofundada da obra Água Viva (1973), de Clarice Lispector. Argumentaremos que o romance de Lispector constitui uma ficção experimental que desafia uma linear categorização temática e estilística, apresentando um novo tipo de escrita que opera através daquilo que a escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol apelidou contundentemente de cenas-fulgor.

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O jogo infinito do texto: Lispector e a aprendizagem do incerto

Author: Soeiro, Ricardo Gil
Publisher: Ediciones Complutense
Year: 2019
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/52939/1/63509-Texto%20del%20art%c3%adculo-4564456563192-2-10-20190705.pdf
Re is a de Filología Románica
ISSN: 0212-999X
h p://dx.doi.o g/10.5209/RFRM.63509
VARIA
Re . ilol. om. 36, 2019: 143-151 143
OJogoIn ini odoTex o:Lispec o eaAp endizagemdoInce o
Rica do Gil Soei o1
Recibido. 29 de diciemb e de 2017/ Acep ado: 20 de junio de 2018
Resumo. Inspi ando-senoconcei ode izomaa ançadopo DeleuzeeGua a inoseup ojec oCapi-
alismo e Esquizo enia(1972-1980),nadis inçãodeR.Ba hesen e ex e lisible and ex e sc ip ible
e no concei o de “ins an e” ap esen ado po G. Bachela d, o p esen e a igo p e ende ence a uma aná-
lise ap o undada da ob a Água Vi a (1973), de Cla ice Lispec o . A gumen a emos que o omance de
Lispec o cons i uiuma icçãoexpe imen alquedesa iaumalinea ca ego ização emá icaees ilís ica,
ap esen ando um no o ipo de esc i a que ope a a a és daquilo que a esc i o a po uguesa Ma ia Ga-
b iela Llansol apelidou con unden emen e de cenas- ulgo . Fá-lo-emos a a és da análise dos seguin es
eixos emá icos:1)omis é iodapala a(oeixolinguís ico),3)a(des)cons uçãodoeu(oeixoiden i-
á io)e3)ape cepçãodoins an e(oeixo empo al).
Pala as-cha e: C. Lispec o (1920-1977); Li e a u a b asilei a; Rizoma; Tempo alidade.
[en]TheIn ini ePlayo  heTex :Lispec o and hePu sui o Unce ain y
Abs ac . D awing upon he concep o hizome as ad anced by Deleuze and Gua a i in hei Capi-
alism and Schizoph enia p ojec (1972-1980), R. Ba hes’ dis inc ion be ween ex e lisible and ex e
sc ip ible, as well as he concep o he “ins an ” pu o wa d by G. Bachela d, he p esen a icle wishes
o p esen an indep h analysis o Cla ice Lispec o ’s Água Vi a(1973).Beinganexpe imen al ic ion
whichno iceablyde iesanyeasy hema ico s ylis icca ego iza ion,wewilla gue ha Lispec o ’so i-
ginal no el p esen s a dis inc i e new ype o w i ing, which ope a es h ough wha Po uguese w i e
Ma ia Gab iela Llansol has poignan ly called cenas ulgo (luminous scenes). In o de o do so, we will
analyse he ollowing hema icaxes:1) hemys e yo  hewo d( helanguage-axis),2) he(de)cons-
uc iono  hesel ( hesubjec i i y-axis),and3) hepe cep iono  heins an ( he empo ali y-axis).
Keywo ds: B azilian li e a u e; C. Lispec o (1920-1977); Rhizome; Tempo ali y.
Cómo ci a :Soei o,R.Gil(2019).OJogoIn ini odoTex o:Lispec o eaAp endizagemdoInce o,
en Re is a de Filología Románica 36, 143-151.
E depois?
- que esc e e ago a? Se íeis ainda capazes de esc e e alguma coisa?
-esc e e-secomodesejoeeunãopa odedeseja .
Roland Ba hes
1 Cen o de Es udos Compa a is as, Uni e sidade de Lisboa (CEC/FLUL)
[email p o ec ed]
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Repo ando-seàli e a u acomo abalhoeà igu adolei o enquan op odu o
do ex o,RolandBa heses abelece,emS/Z (1970),umadis inçãoseminalquenos
podeaquiguia aolongodap esen e e lexão.Adico omiaquealisedesenhadiz
espei oaumaoposiçãoen e ex oesc e í el(sc ip ible)e ex olegí el(lisible).
Enquan oao ex oesc e í el(aquelequeé e dadei amen eplu al)pe enceoen-
can amen odosigni ican eea olúpiadaesc i a( açosquesepodemsu p eende 
deummodooblíquoemalgumasob as-limi e),o ex olegí el,dizendo espei oà
mimesisclássica,éaquelequepodese lido,masnãoesc i o:“Sob e ex osesc e-
í eis al eznãohajanadaadize .[…]O ex oesc e í eléump esen epe pé uo
ace cadoqualnãosepodemani es a nenhumapala aconsequen e;[…]o ex o
esc e í el somos nós ao esc e e ,an esqueojogoin ini odomundo(omundo
comojogo)sejaa a essado,co ado,in e ompido,plas i icadopo qualque sis e-
ma singula (Ideologia, Géne o, C í ica) que ep ima a plu alidade das en adas, a
abe u adas edes,oin ini odaslinguagens”(Ba hes12).Aoqueac escen a,mais
adian e:“Nesse ex oideal,as edessãomúl iplasejogamen esisemquenenhuma
delaspossaencob i asou as;esse ex oéumagaláxiadesigni ican esenãouma
es u u adesigni icações;nãoháumcomeço:eleé e e sí el;acedemosao ex o
po á ias en adas sem que nenhuma delas seja conside ada p incipal; os códigos
queelemobilizape ilam-sea pe de de is a,sãoindecidí eis(osen idonuncaéaí
subme idoaump incípiodedecisão,anãose po umajogadadeso e);ossis emas
desen idopodemapode a -sedesse ex oin ei amen eplu al,masoseunúme o
nuncaé echado, endopo medidaoin ini odalinguagem”(13).
Despedindo-sedomodelo ep esen a i oe isandooin ini odalinguagem,di -
se-iaqueo ex oesc e í eléaquelequeseesc e enolimia .Sendoemce amedida
umli opo  i ,p opo cionandoumaincompulsá elexpe iênciadeloucu a,o ex o
esc e í el é a a essado po uma pala a plu al, ecundada pela mul iplicidade e
peladescon inuidade, açosinequí ocosda eia izomá icaemqueseinsc e ees a
ipologia ex ual.Poucosesc i o es e ãodesa iado ão adicalmen e,comoCla ice
Lispec o , a ideia de mimesisnolabo li e á io.Asuaesc i a,pa icula men eaex-
pe iência da linguagem e do mundo que a ul a nas suas ob as mais a dias, cons i-
uiumexemplopa adigmá icodeumali e a u aque,on ologicamen e,in e ogaos
seus p óp ios limi es.
Pa indoda e lexãoba hesianaem o nodo ex oesc e í el, do concei o deleu-
ziano de izoma e da poé ica do ins an e p opugnada po Bachela d, a p esen e e-
lexão isaap esen a umalei u adeÁgua Vi a(1973),deCla iceLispec o .Ficção
dedi ícilca alogaçãoquedesa iaasleisdogéne o,p e endoa gumen a queoli o
emap eçoap esen aumsingula  ipodeesc i a,p ocedendopo “cenas ulgo ”(a
exp essãoédeMa iaGab ielaLlansol),compulsandoosseguin eseixos emá icos
queaob alispec o iana e ilmen e eequaciona:1)omis é iodapala a(oeixoda
linguagem),2)adescons uçãodoEu(oeixodasubjec i idade)e3)ape cepçãodo
ins an e(oeixoda empo alidade)
Le andoaoex emoas adicaisp emissasquealice çam ex oscla amen eme a-
iccionaiscomoA Ho a da Es ela (1977) ou Um Sop o de Vida (1978), Água Vi a
(1973)éum ex osemcen o.T a a-sedeumli o- icçãoouum omancelí ico,
umagenuínac iaçãoli e á ia,emquese azo ela odasedução e baledop aze 
do ex o:decomoincessan emen easpala ascon aminamou aspala as,decomo
cadapulsa depensamen oseenleiaemsimesmo.Nãocon ahis ó iaalguma–sal o
asuap óp iahis ó ia:ahis ó iadac iaçãoli e á ia.Éo ex odo ex o.Um e da-
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dei oexe cíciosemma gens,umaindómi ain es igaçãodalinguagem.Um eixede
ene gia e bal que unciona po ondas que se p opagam e que al e na en e a pluma
e o pincel.
Água Vi ap ocedepo  agmen osquesea aemmu uamen eequedo amo ex-
odeumacomplexacoe ênciaes u u alesines ésica, azendoeme gi uma e da-
dei a poé ica dos sen idos: o ol ac o (“O que es ou azendo ao e esc e e ? es ou en-
ando o og a a o pe ume”, Lispec o , Água Vi a, 44. Do a an e ci ado como AV),
opalada (“Como ep oduzi empala asogos o?ogos oéunoeaspala assão
mui as”, 38), o ac o (“É o con a o seco e elé ico consigo, um consigo impessoal”,
26),a isão(“Comes a ase izumacenanasce ,comonum lash o og á ico”,20)
eaaudição(“Ou e-me,ou eosilêncio”,13).
É,pois, odaumapale adesensaçõesqueéaquiu ilizadapo  o maacolma a 
a ausência de um en edo omanesco no sen ido adicional. A ma é ia diegé ica é
subs i uídapo uma eia ex ualqueseassemelhaaumapin u aabs ac aouauma
músicaa onal.Eépa aessainsóli ag amá icadac iação,libe adequalque  igu-
a i idadelinea ,queopa a ex oepig á icoapon a:“Tinhaqueexis i umapin u a
o almen eli edadependênciada igu a–oobjec o–que,comoamúsica,nãoilus-
acoisaalguma,nãocon aumahis ó iaenãolançaummi o.Talpin u acon en a-se
em e oca os einos incomunicá eis do espí i o, onde o sonho se o na pensamen o,
ondeo açose o naexis ência”(MichelSeupho ,epíg a edeÁgua Vi a, ci ado na
página 7).
Sondando a “pa e in angí el do eal” (AV 12), a na ado a ousa a as a -se da
lógicaconhecida:aincapacidadedeclassi icaçãonãosódiz espei oàiden idadeda
na ado a, mas ambém do ela o que p oduz: “Que mal po ém em eu me a as a da
lógica?Es oulidandocomama é ia-p ima.Es oua ásdoque icaa ásdopensa-
men o.Inú ilque e meclassi ica :eusimplesmen eescapulonãodeixando,gêne o
nãomepegamais.Es ounumes adomui ono oe e dadei o,cu iosodesimesmo,
ãoa aen eepessoalapon odenãopode pin á-loouesc e ê-lo”(AV 12).
A ideia de dissonância (a que chama a “ha monia sec e a da desa monia”, am-
bémnapágina12)éaqui e dadei amen edecisi a,nãosópelaa inidadeelec i a
com o uni e so musical, mas undamen almen e pelo a as amen o dos códigos ins i-
uídosepelo ompimen ocomaideiadecoe ênciadeumsen idoc is alizado,a inal
um óbice a uma au ên ica libe dade demiú gica. T a a-se de pensa e de esc e e à
ebou s.
Asabedo iadoince oqueaquiseinsinuaenlaça-seaumaesc i aquese econ-
hece como humilde en a i a de in es iga a ealidade: “Que o esc e e - e como
quem ap ende. Fo og a o cada ins an e. Ap o undo as pala as como se pin asse,
maisdoqueumobjec o,asuasomb a.Nãoque ope gun a po que,pode-sepe -
gun a semp e po que e semp e con inua sem espos a: se á que consigo me en-
ega aoexpec an esilêncioquesesegueaumape gun asem espos a?”(AV 13).
Pin a asomb adosobjec ossigni icaes a àescu adessasabedo iadoinde iní el
que i e na essonância de uma pe gun a.
Um al ex oesc e í el,nascidosobascinzasda o alidadedosabe absolu o
hegeliano,nãosedeixaap isiona pelaclássicau didu ado ex oli e á io, u an-
do-seigualmen eaoshabi uaisp o ocolosdelei u a.Enãodeixadese signi ica i o
que Edua do P ado Coelho i esse de endido que Cla ice Lispec o se ia a mais
deleuziana dos esc i o es. O p óp io Ca los Mendes de Sousa, um dos es udiosos
mais ce ei os da ob a lispec o iana, assinala em Figu as da Esc i a (2000) que:
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“É assim que apa ecem os concei os p opos os po Deleuze e po es e e Gua a i
in e sec ando-se com os con os e os omances de Cla ice Lispec o . Tal ez se possa
en ãodize queDeleuzeesc e eucomCla ice(àsemelhançadoquea i mouumdia
José Gil numa lei u a de Pessoa: que es e o a lei o de Deleuze […]”) (Figu as da
Esc i a 41). A en ando em Água Vi a,é,de ac o,possí eldeixa  essoa ape ei a
adequaçãoen e,po umlado,concei osdeleuzianoscomode i , linhas de uga,
des e i o ialização ou dob a e, po ou o lado, a esc i a in e s icial de Lispec o
enquan odemandadeca og a iasimaginá ias.Pa indojus amen eda e lexãode-
leuziana, pode -se-ia dis ingui dois ipos de li o: 1) o li o- aiz e 2) o li o izomá-
ico.Noli o- aiz,“[a]á o ejáéaimagemdomundo,ouen ãoa aizéaimagem
daá o e-mundo.Éoli oclássico,comobelain e io idadeo gânica,signi ican e
e subjec i a (os es a os do li o)” (Mil Planal os – Capi alismo e Esquizo enia 2
23). Re u ando a lógica biná ia da dico omia, o izoma cons i ui uma an igenealogia
eobedeceaosseguin esp incípios:conexão(1),he e ogeneidade(2),mul iplicida-
de(3), up u aassigni ican e(4),ca og a ia(5),decalcomania(6).Es amos,pois,
e dadei amen epe an emul iplicidades izomá icasenãopseudo-mul iplicidades
a bo escen es. O li o izomá ico ap esen a múl iplas en adas: “Esc e e , aze i-
zoma,aumen a o e i ó iopo des e i o ialização,es ende alinhade ugaa éao
pon o em que cob e odo o plano de consciência numa máquina abs ac a” (Mil Pla-
nal os31).O izomaope asob eodesejoenãoconhecelimi es:“Não emcomeço
nem im,mas emsemp eummeio,peloqualc escee ansbo da”(Mil Planal os
43). O izoma é uma memó ia cu a ou uma an i-memó ia. Compulsando Água Vi a,
no amoscomoes aob ap ocede,nãopo capí uloscomosseuspon osculminan es,
mas an es po planal os: “O que é que se passa, pelo con á io, com um li o ei o de
planal os, comunicando uns com os ou os a a és de mic o endas, como num cé e-
b o?” (Mil Planal os44-45).A en emosnoquenosdizo ex o:“Oque eesc e o
não emcomeço:éumacon inuação”(AV 39).
Impo a iasublinha adimensãoin e s icial-copula i a-musicaldo izomaque
podemos islumb a no ex olispec o iano:“Um izomanãocomeçaenãoacaba,
es ásemp enomeio,en eascoisas,in e -se ,in e mezzo.Aá o eé iliação,mas
o izomaéaliança,unicamen ealiança.Aá o eimpõeo e bo»se «,maso izoma
empo  ecidoaconjunção»e…e…e…«”(Mil Planal os48).Ouaindaumade i-
niçãoquepode iase ap amen eaplicadaaÁgua Vi a:“umadi ecçãope pendicula ,
ummo imen o ans e salqueasa as aumaeou a, ibei osemp incípionem im,
que ói as duas ma gens e oma elocidade no meio” (Mil Planal os 49).
O p óp ia na ado a de Água Vi a se epo a ao modo como se p ocessa essa
pin u a-esc i u a de con o nos imp ecisos: “Um ins an e me le a insensi elmen e a
ou oeo emaa emá ico aisedesen olandosemplanomasgeomé icocomoas i-
gu as sucessi as num caleidoscópico” (AV13).Impe aooxímo oea alo izaçãodo
pa adoxocomoomo o damáquinaimpa á eldalinguagem,pis ashe menêu icas
que, de es o, anspa ecem nos p óp ios í ulos de impo an es es udos em o no da
ob a lispec o iana, que é assim pe spec i ada enquan o encoun e be ween opposi es
(Clai e Williams) ou a essia do opos o (Olga de Sá).
Di -se-iaqueap óp iaa qui ec u amo en e,emquesealice çaes a icçãoin e-
ogan e (deco en e de um es ado de inin e up a e p odu i a incomple ude), cons i-
uiama e ializaçãoes u u aldaceleb açãoda empo alidadequeÁgua Vi a ema-
icamen eé.A a e acçãoda amana adacedeluga àpulsaçãodoins an e.Uma
pungen e indecidibilidade é a sei a de que se ece Água Vi a:a ib açãodama é ia
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e balqueescol aumexube an e luxoimagé ico,umencan amen op oduzidopelo
luxodiscu si o,emqueasp omessasdalinguagemcons i uemma é iainesgo á el,
oco po i oondeseinsc e eop aze da ex ualidade.
O ex oencon a-sein s a u nascendi: há semp e uma pala a p es es a nasce ,
a ompe oú e odomundo.Éum abalhope pe uamen einacabado–con ínua
ene gueiaenãome oe gon e minado, adical o e enda que se en ega à mecânica
sensí eldoac odelei u a:“Aha moniasec e adadesa monia:que onãooque
es á ei o mas o que o uosamen e ainda se az” (AV 12). Assim se comp eende a
singula concepçãodosen idoquees aob anosdes enda.Asin uições ulgu an es
queodomdo ex oinaugu ape mi e-noses a semp eà bei a: semp e no limia de
uma e elaçãoo iginá ia,deumdes elamen oepi ânico.Vai ac eandoasma gens
do desconhecido e assim ai seg egando inédi as possibilidade de dize .
Em ce a medida, es amos ambém pe an e um li o impossí el, uma ez que,
explo andooinexp imí el(aquiloquesesi uapa aalémdalinguagem), acassa
jus amen enomomen oemqueasin uiçõessob eoin angí elsãoinsc i asno ex-
o.Eassimseinsinuaadialéc icaen eausênciaep esença,en edes elamen oe
ocul ação,queum ilóso ocomoMa inHeidegge  ãopene an emen eexaminou
na sua ob a. Água Vi a é, pois, um li o que es á a caminho (un e wegs, na cin ilan e
o mulaçãodo ilóso odaFlo es aNeg a),umli oque,mui oblancho ianamen e,
es a á semp e po i .
Toda ia, a despei o da in icada esc i a izomá ica que assoma em Água Vi a, o
ex onãop ocededemodoa bi á io.ComoHélèneCixouslemb anop e ácioà a-
duçãoinglesadeÁgua Vi a, podemos su p eende um conjun o de emas, de núcleos
dein ensidade,de ib açõesi adian es,peseembo ao ex osejap o undamen eo -
gânico.Con on adoscomes amul iplicidadep ismá icade ios emá icos,impo a
indaga comole um al ex o.Aau o adeLe Ri e de la Méduse (1975) esponde á
em e mos e dadei amen elapida es:po queadeso ien açãoéode adei o i odes-
e ex o, es aobedece à espi açãodomis é iodes aesc i a.Escu emosodesa io
he menêu icoquenoslançaes aimpo an eexege adaob adaesc i o ab asilei a:
Is he ex  eadable?Onemayha e o indo he modes,o he wayso app oaching
i :onecansingi .Oneisinano he wo ld.The ex doesno keep,holdback,and
onecanno  e aini .[…]I isha d oimaginea ex  ha wouldbemo e iolen ly
eal, mo e ai h ully na u al, mo e con a y o classical na a ion. Classical na a-
ion is made o appea ances, caugh in codes. He e he e a e no codes. Ye Cla ice
is no mad; he e a e li ing codes wi h a beginning and an end. She says i : Now
Ibegin,nowIclose,Ilea eandIcomeback.The ex  ollowsmo emen so  he
body and enuncia ion, bu i also ollows hema ics. Ra he han a na a i e o de ,
he eisano ganico de (Cixous,1989ix-x).
Tendoemcon aao demo gânicaaquese e e eCixous(queé,no undo,uma
o demdoco po),impo a iaenuncia algunsdoseixos emá icosmaisimpo an es
em edo dosquaisg a i aaob aemap eço.Nomesmolance, oda ia,u ge essal-
a ain e pene açãodasdi e sasiso opias emá icas, ac oquedi icul aaindi i-
dualizaçãopa cela deumúnico ema.
Op imei oeixo emá icoéalinguagem.Todoo ex oépon uadopo in e o-
gações.Comoexp imi oine á el?Comona a ?Comopin a ohalo das coisas? A
na ado adesnudaasua adicalin es igaçãoexis encialquep ocu ale a acaboe
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pa aaqual,admi i á,alinguagemnãoseadequa:“es ouen andoso a ei amen e
emcon a ocomuma ealidadeno apa amimqueaindanão empensamen osco -
esponden esemui omenosaindaalgumapala aqueasigni ique:éumasensação
a ás do pensamen o” (AV 39).
Reconhece -se-á a incapacidade de as pala as sole a em o mundo (“Fal am as
pala as”,lê-senapágina24ou“Es oumeexp imindomui omaleaspala as
ce as me escapam”, AV 33): daí nasce á o desejo po ou as discu si idades como
apin u a,amúsicaoua o og a ia.Aindaassim,aesc i ali e á iaéo i moque
acompanhaacons i uiçãodeumaipseidadeemcons an emu ação:éumaesc i a
doco po.Espaçodoinaugu aledeumgenesíacocons i ui -secomoumeuquese
pensa enquan o mis é io incompulsá el; palco de um can o inicial que, a a és do
labo demasiado humano da linguagem e bal, se cons i ui es emunha de si mesmo.
Que ipo de linguagem é aqui u ilizada? Uma língua de ogo, segundo Clai e Va-
in (1990), uma linguagem em pleno oo, es emecendo, “linguagem ensa” (AV 13),
“ edonda”,“eno elada”e“ épida”,segundoaca ac e izaçãoe ec uadapelape so-
nagem-na ado a.
Se, como que ia Wi gens ein, os limi es da linguagem cons i uem os limi es do
mundo,pode -se-iade ende quea adical ein ençãolinguís icaqueali e a u a
lispec o iana ins au a az consigo um e aze do mundo e um e aze do si. Uma
linguagem-ou a que p ocu a ep esen a o i ep esen á el e aduzi o indizí el. Na
mesmalinhade iolen açãosin ác icadoJe es un au e imbaldiano,o ex odiz:
“Eu é” (AV31),comosesequissesse o ça alinguagemaosseuslimi ese,assim,
e e mais ielmen easpenumb asdopensamen odeumcogi o incompulsá el.
T ansi amosaquipa aosegundoeixo emá icodeÁgua Vi a:oeixodasubjec-
i idade.Con on adocomac iaçãodemundoedelinguagemdequeana ado a
se az simul aneamen e au o , ac o e es emunha, impo a ia pe gun a qual a con-
cepçãodosujei oquedaquideco e?T a a-sedeumsujei oempe manen emu ação
e que, po isso mesmo, se o na impossí el de ap eende : “Es ou me c iando. E anda
naescu idãocomple aàp ocu adenósmesmoséoque azemos.Dói.Masédo de
pa o: nasce uma coisa que é. É-se” (AV 37). A me á o a do nascimen o encon a-se
aquiemplenaac uânciaeenlaça-seà emá icadap ocu adesimesmo.Masédisso
mesmoquese a a:deuma ac ean ep ocu a,nãodac is alizaçãonumaiden idade
ixa.Aquilodequesedácon aéainap eensibilidadedosujei o:“nãocap oomim
p op iamen e di o” (AV16)e,maisadian e:“malexis oeseexis oécomdelicado
cuidado” (AV 16). A na ado a e ela-se conscien e da sua p óp ia subjec i idade-li-
mia e do seu os o e anescen e: “eu sou quase, eu sou nunca” AV 16); ou ainda “Es-
c e o- epo quenãomeen endo”(AV 24). Uma iden idade p ismá ica (“Sou um se
concomi an e”, AV19)quenãoé ecebida,masquesecons ói:“Es oume azendo”
(AV 33).
Es ainde iniçãoiden i á iaala ga-seigualmen eaoâmbi odaesc i a,a ul ando
po di e sas ezesumadimensãooní icaquepon uaaac i idade ex ualdana a-
do a(no e-seomodocomplexocomooseixos emá icosqueapon amosnoinício
sein e pene am):“Ve i icoquees ouesc e endocomosees i esseen eosonoe
a igília” (AV39).Ana ado ape spec i a-seen ãoenquan oumplu aleli e os o
es ilhaçado.Pode -se-iadize queéumapleni udede on ei asimpe cep í eis,cele-
b ando a a en u a de uma libe dade pe igosa. O isco que uma al libe dade ence a
plasma-sena alo izaçãodoinin eligí eledoindecidí el:“Nãoque o e a e í el
limi açãodequem i eapenasdoqueépassí elde aze sen ido.Eunão:que oé
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uma e dade in en ada” (AV19).Nãosedeixandoap isiona peladoxadeumsen-
idop é-es abelecido,oeuqueaquiseassumecomolibe dadee isco ans igu aa
limi ado a ealidade dos ac os numa ealidade-ou a: sonhado a e sonâmbula. Daí
ain e ogaçãopulsan eemquese ans o maana ado a:“Eusouumape gun a”
(AV 32).
O e cei oeúl imoeixo emá icoaquenos epo a emoséoeixoda empo ali-
dade.Como imos,aesc i alispec o ianaalimen a-seda usãoedaambi alência.
Oca ác e insóli odasuasimagens- ases,dassuassen ençaspoé icas,conco em
pa aumaumen oicónicodomundosegundoajus aexp essãodePaulRicoeu .A
esc i o a po uguesa Ma ia Gab iela Llansol, e e indo-se a es a in ensidade da ima-
gemeà ex ualidadepossibili ado adodompoé ico(emde imen odana a i idade
clássica), alou de his ó ias de u o e de sangue (1994, 118) e de cenas ulgo (140).
As ulgu açõesquepo oamÁgua Vi asãoumap ocu apa aap eende o os oina-
ba cá el do ins an e, ans o mando o empo num dos opoi ca deais des a na a i a
lispec o iana, ele ando-o à ca ego ia de pe sonagem cen al.
De ac o,ana ado aéassal adapelau gênciaexis encialdecap a omomen o
p esen e:“Ten een ende oquepin oeoqueesc e oago a.Vouexplica :napin u a
comonaesc i u ap ocu o e es i amen enomomen oemque ejo–enão e 
a a és da memó ia de e is o num ins an e passado. O ins an e é es e. O ins an e
é de uma iminência que me i a o ôlego. O ins an e é em si mesmo iminen e. Ao
mesmo empoqueeuo i o,lanço-menasuapassagempa aou oins an e”(AV 61).
Daíqueaimp o isação(o“imp e is oimp o isadoe a al”como ambémlhe
chama) se cons i ua como o modo p i ilegiado que a na ado a em de p ocu a anu-
la a dis ância en e o ins an e empo al e o sujei o esc e en e, en e o pensamen o e
asua aduçãoa a ésdapala a:“Ago a ouesc e e aoco e damão:nãomexo
noqueelaesc e e .Esseéummododenãoha e de asagemen eoins an eeeu:
ajo no âmago do p óp io ins an e. Mas de qualque modo há alguma de asagem”
(AV43-44).T a a-se,éce o,deuma en a i asemp e us ada,maséda eno ação
dessedesejoquenasce, ágilejubilosa,ainin e up ap omessadosen ido–como
semp e é a p ecá ia a e a da esc i a.
Aes e espei o,pa ece-nos u uosocompulsa aceleb açãolispec o ianadoins-
an e à luz do pensamen o de Gas on Bachela d. designadamen e na sua ob a L’in-
ui ion de l’ins an ,de1932.Sus en aBachela dque:“Seonossoco ação ossesu-
icien emen eamplopa aama a idaem odooseude alhe, e íamosque odosos
ins an essãosimul aneamen edoado eseespoliado esequeumano idade ecen e
ou ágica,semp e epen ina,nãocessadeilus a adescon inuidadeessencialdo
Tempo” (1992, 15). À du ée be gsoniana o au o de A Chama de Uma Vela con a-
po áanoçãodedescon inuidade empo al,elegendooins an ecomooelemen ode-
cisi o,do adocomoes ádeumaespessu a empo al-exis encial.O empoéde inido
como uma ealidade ence ada no ins an e, suspenso en e dois nadas.
Na e dade, já no omance A Paixão Segundo G.H. a p o agonis a se epo a à e-
denção“nohoje,nojá,na ealidadequees ásendoenãonap omessa”(65-66),mas
em Água Vi aademandadeum empo- e ical,ex á ico,queca ac e izaoins an e
poé ico,éabsolu amen ees u u an edoli oemap eço.Ain e ogaçãop emen e
pe manece á, oda ia, in iolá el: como o sole a o ins an e quando as e amen as
e baisdisponí eisse e elaminsu icien espa aap eende oi , a ma é ia p imo -
dial? Comp eende-se, assim, que, ace à linea idade discu si a ínsi a à linguagem
e bal,apin o a-na ado amani es easuainsa is ação ela i amen eàpala a, a-
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o ecendo, do mesmo lance, ou as linguagens supos amen e mais di ec as como a
pin u a,amúsicaoua o og a ia.
Na apo é ica impossibilidade, po ém, de conc e iza esse desejo po ou as dis-
cu si idades,se áa a ésda ulgu açãoimagé ica,dascin ilaçõesdalinguagem,das
inusi adasiluminaçõesepi ânicas,quees e ex o-caleidoscópiop ocu a áa ingi a
semen e i a do ins an e. O objec i o on ológico des a busca-de i a pe manece á,
pois, ina ingí el, na medida em que é da essência do mis é io pe manece i emedia-
elmen ei esolú el.Oenigmaapenassedeixaen e e .Au opiase iajus amen e
pene a , e iginosamen e, o é da coisa, po o ma a cap a a pleni ude do pu o p e-
sen eou,numaou a o mulaçãoigualmen eemblemá ica:aquiloqueseencon a
“A ás do a ás do pensamen o” (AV 53), o p é-pensamen o como ambém se lê em
Um Sop o de Vida.Fazê-losigni ica iaen ende ooblíquoda ida–oacaso;um
quase em que se é de soslaio. Es amos, em suma, pe an e uma ealidade-ou a que
não emaindaco espondêncianopensamen oenalinguagem,comosuge eoma-
gis al epílogo do omance lí ico A mo e de Ve gílio, do aus íaco He mann B och.
Água Vi a enquan o li o- izoma, ao con á io do li o- aiz, comp eende em oda
asuaampli udeaessênciaplu aldamul iplicidadeeasmúl iplasconexõesquenão
se subo dinam a uma unidade hie a quicamen e sobe ana. Se em A Paixão Segundo
G.H.sechegaa ala deuma“deso ganizaçãop o unda”(9),seemSop o de Vida se
con essauma“apa en edesconexão”(63),emÁgua Vi a ejubila-se: “Es ou sendo
an imelódica. Comp azo-me com a ha monia di ícil dos áspe os con á ios” (AV 25).
Renunciandoaosen idoc is alizado,lemosemLispec o oe o ismodo aço,uma
olúpiadaesc i aque,in e sec ando-secoma uiçãodo ex o,celeb aain uiçãodo
queseencon a eladonascoisas.O ex olispec o ianocul i aumalibe dadequase
he óica, hipe bolicamen e desmedida, azendo equi ale o nascimen o da esc i a à
c iaçãodomundo.Nãoes á,noen an o,ampu adodeumaé icaoudeumapoé ica
daob igaçãoqueecoa,pa ece-nos,oGelassenhei heidegge iano e a subjec i idade
passi adeLé inas:“Escu a:eu edeixose ,deixa-mese en ão”(AV 22). Na ob a
de Cla ice Lispec o é possí el le is o e mui o mais. Lemos Ka ka, P ous e Becke ,
lemos Heidegge . Lemo-nos, sob e udo, a nós mesmos. Dessa plêiade de e e ências
cul u aisquep essen imosnes aob anos ala,demodoa eba ado,Cixous,sublin-
handoalgoquenuncadeixoudepulsa nes e ex o–ap esençadodesconhecidoea
sua capacidade de p essen i no as ealidades:
Se Ka ka osse mulhe . Se Rilke osse uma b asilei a judia nascida na Uc ânia.
SeRimbaud i essesidomãe,se i essechegadoaoscinquen a.SeHeidegge 
pudesse e deixadodese alemão,seele i esseesc i ooRomancedaTe a.
[…] É nessa ambiência que Cla ice Lispec o esc e e. Lá onde espi am as ob as
maisexigen es,elaa ança.Lá,maisà en e,ondeo ilóso ope deo ôlegoela
con inua,maislongeainda,maislongedoque odosabe .Alémdacomp eensão,
passoapasso,in il ando-se êmulanaincomp eensí elespessu a emen edo
mundo,ou ido iníssimoes endidopa a ecolhe a éosilêncioen eduasba idas
doco ação.Candeiadomundo.Elanãosabenada.Nãoleuos ilóso os.Con udo,
em-seàs ezesaimp essãodeou i-losmu mu a emsuas lo es as.Eladescob e
udo(Cixous,1999,115).
Elanãosabenada,masdescob e udo.Asuaesc i a, enunciandoàclássicaideia
de mimesis p óp ia da li e a u a ep esen a i a, acolhe um in incado poli onismo,
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o a p ocu ando sonda o inominá el, o a p ocu ando es au a a unidade pe dida do
se . Nela se az o elogio da incomple ude e se ope a uma ap endizagem do ince o:
a inal,a iun alpossibilidadedapoiesis.Enquan o ex oeminen emen eesc e í el
(no sen ido ba hesiano), o li o Água Vi a oi o es emunho luminoso de um De-
aneio poé ico e do di ei o de sonha dequeBachela d ãoinspi adamen e alou.
Nanossaóp ica,es amospe an eumadissonânciaa inada,umadeso demo gânica
ouacong uênciadeumcaosha mónico–ocaosmos neológico in oduzido po
James Joyce na sua ob a e olucioná ia Finnegans Wake. Como Wi gens ein, Lis-
pec o em consciência de que pa a pensa e dadei amen e u ge me gulha no caos
e sen i mo-nos aí como se es i éssemos em casa. Gua a i e Deleuze disse am-no
de o maigualmen elapida :“A iloso ia,aciênciaeaa eque emque asguemos
o i mamen oequeme gulhemosnocaos(1992,177).Noseiodocaosesc e e-se
semp ecomodesejoeCla icenuncadeixoudedeseja .
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