Saúde Soc. São Paulo, .29, n.1, e200018, 2020 1
DOI 10.1590/S0104-12902020200018
Dossiê
A indús ia do b anqueamen o em Lisboa:
uma e nog a ia das p á icas e p odu os pa a
o b anqueamen o da pele e seus iscos pa a a
saúde de ma ológica
The indus y o whi ening in Lisbon: an e hnog aphy o
p ac ices and p oduc s o skin bleaching and i s isks o
de ma ological heal h
Co espondência
Isabel Pi es
Rua Anibal Be encou , 9. Lisboa, Po ugal. CEP 1600-189.
Chia a Pusse ia
h ps://o cid.o g/0000-0002-2146-3587
E-mail: [email p o ec ed]
Isabel Pi esa
h ps://o cid.o g/0000-0002-4324-8220
E-mail: [email p o ec ed]
aUni e sidade de Lisboa. Ins i u o de Ciências Sociais. Lisboa,
Po ugal.
Resumo
Po meio de um exe cício de walking e hnog aphy,
p e endemos ap esen a uma e nog a ia da o e a
cosmé ica des inada à despigmen ação da pele no
co ação de Lisboa, ocando num agmen o da cidade
que jun a di e en es p opos as e p odu os es é icos:
spas chineses, salões de beleza e cabelei ei os
a icanos, lojas do comé cio di o “é nico” ligado a
imig an es e po ugueses descenden es de populações
asiá icas ou a icanas. De inimos esse passeio como
“caminho do b anqueamen o” – pa a aseando
i onicamen e o í ulo de um dos mais amosos
li os de Michael Jackson, Pa hs owa ds a clea ing
(1989). Conside ando o co po como um p oje o em
cons ução, p e endemos mos a que os imaginá ios
e os desejos ligados ao consumo desses a amen os,
assim como os pad ões de beleza eiculados pelo
ma ke ing dos p odu os de cla eamen o da pele,
e le em e ep oduzem a iá eis sociais de géne o,
classe e aça. Que emos ambém e idencia como a
maio pa e dos p odu os b anqueado es, endidos
no cen o da cidade, são p oibidos pela legislação
eu opeia de egulamen ação de cosmé icos, de ido
às al as concen ações de subs âncias óxicas. Essas
subs âncias, que ci culam li emen e nas edes do
come cio in o mal, podem se mui o p ejudiciais
pa a a saúde dos consumido es, compo ando se e os
iscos de ma ológicos.
Pala as-cha e: Walking E hnog aphy; B anqueamen o
da Pele; Imig ação; Co po; Es é ica É nica.
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Abs ac
Th ough a walking e hnog aphy exe cise, we
in end o p esen an e hnog aphy o he cosme ic
o e aimed a depigmen ing he skin in he hea
o Lisbon, ocusing on a agmen o he ci y ha
b ings oge he di e en p oposals and aes he ic
p oduc s: Chinese spas, beau y salons and A ican
hai d esse s, shops o he so-called “e hnic” ade
linked o immig an s and Po uguese descendan s
o Asian o A ican popula ions. We de ined his
ou as a “whi ening pa h” – i onically pa aph asing
he i le o one o Michael Jackson’s mos amous
books, Pa hs owa ds a clea ing (1989). Conside ing
he body as a p ojec unde cons uc ion, we in end
o show ha he imagina y and desi es ela ed o
he consump ion o hese ea men s, as well as
he beau y s anda ds con eyed by he ma ke ing
o skin whi ening p oduc s, e lec and ep oduce
social a iables o gende , class and ace. We also
wan o highligh how mos whi ening p oduc s,
sold in he ci y cen e , a e p ohibi ed by Eu opean
cosme ics egula ion legisla ion due o he high
concen a ions o oxic subs ances. These subs ances
– which ci cula e eely in he ne wo ks o in o mal
comme ce – can be e y ha m ul o he consume s’
heal h, ca ying se e e de ma ological isks.
Keywo ds: Walking E hnog aphy; Skin Whi ening;
Immig a ion; Body; E hnic Aes he ics.
B anqueamen o e hipe pigmen ação
acial
O uso cosmé ico de subs âncias de b anqueamen o
da pele é uma p á ica ex emamen e comum em
Á ica, Ásia e Ca ibe. Nos úl imos dez anos o am
p oduzidos mui os abalhos (Blay, 2009, 2011;
Cheong; Kau , 2019; Glenn, 2008; Ha is, 2014; Hope,
2011; Hun e , 2011; Lewis e al., 2011; Li e al., 2008;
Maycock, 2017; Rondilla, 2009; Sa aswa i, 2010; Ta e,
2016; Venka aswamy, 2013) dedicados ao impac o
desses a amen os pela saúde pública da população
desses países. Essas p á icas, mui as delas iniciadas
nos países de o igem, es ão a ganha c escen e
impo ância en e imig an es e já oi amplamen e
ealçada a dimensão ician e
1
do b anqueamen o
olun á io da pele. Toda ia, poucos são os abalhos
e nog á icos que analisam a p ocu a, o consumo e os
iscos desses a amen os. Na Eu opa, essa p á ica
a e a p incipalmen e mulhe es e c ianças, sendo
ex emamen e p ejudicial pa a a saúde de ambas. A
exis ência desses p odu os no con ex o po uguês e
as suas epe cussões pela saúde são comple amen e
igno adas: os consumido es di icilmen e admi em
o emp ego dessas subs âncias e os p o issionais de
saúde
2
desconhecem a p á ica. Sem qualque ipo de
a maco igilância, au o ização ou moni o ização
do pon o de is a da segu ança dos componen es,
p odu os p o enien es p incipalmen e da Índia,
da China ou da Á ica Ociden al conseguem se
comp ados acilmen e em qualque loja no cen o
de Lisboa.
Nes e a igo, p e endemos ap esen a uma
e nog a ia de ua, ou melho , de umas uas do
co ação “es angei o” do cen o da cidade de Lisboa.
3
Nos úl imos anos, assis imos ao su gimen o em
Po ugal de um no o me cado de p odu os e p á icas
es é icas e ci ú gicas de inidas como “é nicas”. Os
1 Um dos p incipais a o es de isco ligado à u ilização desses p odu os é a necessidade de uso con ínuo, uma ez que sua in e upção
p o oca o eapa ecimen o do pigmen o, mui as ezes mais in enso do que inicialmen e, le ando a que a p á ica não seja suspensa, mas
sim epe ida de o ma c ônica.
2 A p á ica do b anqueamen o cosmé ico da pele na população imig an e na Eu opa (Mahé, 2014) es á a aumen a exponencialmen e.
Mui os a igos e ó uns na in e ne apon a am a al a de conhecimen o dessa si uação po pa e dos médicos e, em 28 de maio de 2019,
o jo nal diá io i aliano La S ampa dedicou suas páginas cen ais à u gência da in e enção médica pa a a ques ão do b anqueamen o
olun á io da pele (Simoncelli, 2019).
3 Es e a igo coloca-se no âmbi o do p oje o EXCEL “The pu sui o excellence: bio echnologies, enhancemen and body capi al in Po ugal” (PTDC/
SOC-ANT/30572/2017), coo denado pela P o esso a Dou o a Chia a Pusse i, disponí el em: <www.excelp ojec .eu>. Nos úl imos ês anos o am
conduzidas, no o al, 54 en e is as sob e p á icas, desejos, imaginá ios e modelos de beleza: 12 com homens e 42 com mulhe es.
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p o issionais da medicina es é ica en e is ados
de inem como “é nica” qualque in e enção
es é ica di ecionada à al e ação de aços “ aciais”
conside ados socialmen e indesejá eis segundo
pad ões de beleza eu o-cen ados, pa a p oduzi
co pos socialmen e alo izados de aco do com
ideais de beleza, mode nidade e sucesso da
con empo aneidade.4 O uso do e mo “é nico”
no con ex o médico pa a desc e e qualque
p ocedimen o es é ico des inado a “pessoas não
b ancas” le an a ques ões in e essan es do pon o
de is a an opológico.
O me cado da cosmé ica é nica es á ligado a uma
indús ia milioná ia em cons an e c escimen o:
dados es a ís icos in e nacionais mos am o aumen o
exponencial, nos úl imos 20 anos, da p ocu a de
p odu os e p á icas ci ú gicas e de ma ológicas
des inadas a modi ica os ma cado es “ aciais”.
Segundo a Sociedade In e nacional de Ci u gia
Plás ica Es é ica e a Sociedade Ame icana de
Ci u giões Plás icos (Asaps, 2015), a p ocu a de
al e ações es é icas “é nicas” aumen ou 243%
en e 2005 e 2015 em odo o mundo. O c escimen o
desse me cado de e-se, possi elmen e, às ápidas
mudanças cul u ais e ao ma ke ing em escala
global de imagens hegemónicas de “beleza e es ilo
de ida ociden al”. De igual o ma, o c escimen o
demog á ico das populações imig an es, as
necessidades de in eg ação, a pe ceção mais posi i a
da ci u gia es é ica de ido ao aumen o exponencial
de ansmissões ele isi as que publici am
“ex eme makeo e s” e a maio democ a ização
dos p ocedimen os es é icos ambém iabilizam
esse aumen o.
De aco do com Glenn (2008) e Hun e (2011), o
c escimen o desse especí ico me cado cosmé ico
em odo o mundo pode se a ibuído ao cons an e
ma ke ing de massa de imagens posi i ada de
“beleza e es ilo de ida b ancos” que se baseiam em
ideologias coloniais ainda a uais que alo izam a
cul u a, o es ilo de ida e a es é ica eu opeus, bem
como os seus undamen os mo ais.
Desde a in e p e ação da medicina colonial de
ca a e ís icas como o om e a ex u a da pele neg a
como p o as de in e io idade e olu i a, degene ação
acial, al a de higiene co pó ea, des ios da es u u a
mo ológica, hipe pigmen ação ou hipe melanização
pa ológica, ou de ícios mo ais, a é ao nascimen o e
ao lo esce da indús ia de b anqueamen o, a pele
b anca con inua a cons i ui uma cha e exclusi a
de acesso ao p i ilégios cul u ais e econômicos da
eli e (Ta e, 2016).
Nas en e is as ealizadas, os ci u giões plás icos
e de ma ologis as es é icos da á ea u bana de Lisboa
usa am ac i icamen e os e mos “é nico” ou “ acial”
pa a se e e i em às ca a e ís icas ísicas po eles
de inidas como “não caucasianas”. As in e enções
mais p ocu adas, segundo os médicos en e is ados,
são des inadas à al e ação da o ma dos olhos e do
na iz ou ao acla amen o da co da pele. Repo am em
pa icula a ble a oplas ia ou ci u gia da pálpeb a
asiá ica (pálpeb a dupla), que pode se acompanhada
po epican oplas ia (co e dos can os das pálpeb as)
e a inoplas ia, an o em pacien es “neg os” como
em “asiá icos”, pa a maio a inamen o, p ojeção e
de inição da pon a e pa a edução das asas nasais.
A p imei a ci u gia, ci ando um p o issional de uma
das mais conhecidas clínicas p i adas da cidade:
Se e pa a c ia um olha mais abe o, i az,
a a i o, menos cansado, e pe mi e aplica a
maquilhagem com mais acilidade. A inoplas ia
é nica melho a o aspe o la go e acha ado do na iz,
eduzindo a desa monia de um na iz excessi amen e
la go, c iando um aspe o mais elegan e e delicado.
(M., 43 anos, médico de ma ologis a)
Em elação à pele, e e e:
Exis em p oblemas de hipe pigmen ação ípicas
das peles neg as, que ende a e manchas e
i egula idades no om da pele, com escu ecimen os
excessi os. Con udo, as clien es que pedem pa a
eduzi as manchas ou as pin as escu as da pele
(de ma ose papulosa nig a) em ge al que em que lhes
deem uma boa “acla ada”. O pescoço em pa icula …
pa ece algo sujo, não acha? (M., 43 anos, médico
de ma ologis a)
4 Po exemplo, b anqueamen o da pele; alisamen o dos cabelos; ociden alização ci ú gica dos olhos o ien ais, do na iz e dos lábios
neg oides; e ede inição dos con o nos co po ais, en e ou os.
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No discu so dos médicos en e is ados, é
equen e o uso de exp essões como: “na iz
neg oide”, “hipe pigmen ação da aça neg a”
ou “ aços aciais excessi os ou exage ados”
em con aposição à “beleza clássica eu opeia”.
O discu so médico e a linguagem es e izan e da
indús ia cosmé ica na u alizam e ei icam a ideia de
“ aça”, deslocando as suas implicações dos p ocessos
his ó icos, polí icos e sociais que lhe de am o igem.
Dialogando com a li e a u a que se desen ol eu
em o no das noções de e nia e de aça na p odução
de conhecimen o médico e a macológico, a nossa
abo dagem nes e a igo dis ancia-se de o ma c í ica
das a uais endências de ebiologização do concei o
de aça na p á ica clínica es é ica e na indús ia
cosmé ica.5
I emos, em p imei o luga , delinea os con o nos
desse me cado, ap esen ando as condições his ó icas
e sociocul u ais que jus i icam a impo ância das
p á icas de b anqueamen o da pele. Em segundo
luga , i emos ap esen a a me odologia da pesquisa
e o campo: o an igo gue o á abe de Lisboa, ainda
hoje espaço mul icul u al ca a e izado po g ande
i acidade come cial. Po im, ap esen a emos
b e emen e os p imei os esul ados alcançados,
epo ando as p incipais p eocupações pa a a saúde
pública ligadas ao uso desses p odu os.
A indús ia global do b anqueamen o
da pele
A p eocupação com a colo ação da pele é
algo mui o an igo na his ó ia da humanidade –
encon am-se egis os de p á icas que isa am
alcança uma pele mais b anca no An igo Egip o, na
Eu opa Medie al e, especialmen e, na época colonial
em locais como Ca aíbas, Amé ica do No e ou Á ica
(Hun e , 2011).
A ualmen e, podem se encon adas di e en es
mani es ações desse enómeno ao longo de oda a
ex ensão do globo e es e, desde o Médio O ien e
(Hamed e al., 2010), Eu opa (Pe i e al., 2006),
Ca aíbas (Hope, 2011), Amé ica do No e (Cha les,
2011), Á ica (Blay, 2011) e Ásia (Sa aswa i, 2010), não
es ando ci cunsc i o a um g upo, mas oco endo em
odos os g upos aciais e é nicos, independen emen e
de classe social, géne o, ní el de escola idade ou de
p o issão.
Skin bleaching, skin whi ening ou skin ligh ening –
usados com equência como sinónimos e aduzidos
pa a po uguês como “lixi iação”, “b anqueamen o”
ou “acla amen o” – são os e mos u ilizados pa a
desc e e o a o de emo e a melanina da pele com
o uso de p odu os cosmé icos, de ma ológicos ou
ab icados de o ma a esanal.
As azões pa a exis i o b anqueamen o de pele
são mui o a iadas e dependem essencialmen e
do indi íduo que as p a ica. A co da pele é a mais
p oeminen e das ca ac e ís icas eno ípicas, que
du an e séculos dec e ou a “supe io idade gené ica”
(Blay, 2009), sendo ainda usada como escala de
e olução social, sabendo-se que quan o mais se
ap oxima do b anco, maio os p i ilégios ese ados
pa a es es: educação, emp ego, po encial inancei o,
localidade onde i e e escolha de pa cei o a e i o
(Hun e , 2002).
A beleza associada a uma pele cla a, e com
os seus bene ícios in e ligados, di undidos pela
cul u a popula endem um li es yle: b anco,
mode no, so is icado, de beleza, saúde e pode .
Es udos que co elacionem om de pele com s a us
socioeconómico co obo am a a i mação an e io
(Kei h; He ing, 1991).
Segundo a e isão his ó ica da li e a u a e e uada
po Dye (1997), o es a u o de pele b anca nos países
asiá icos, bem como nos países eu opeus, indica a a
pe ença a classes sociais ele adas, que não inham
necessidade de abalha debaixo do sol. Du an e os
séculos de XVII a XIX, a is oc a as e bu gueses mais
a o unados aplica am alco pa a p ese a a sua
pele cla a, sendo que esse enómeno caiu em desuso
quando, no século XX, su ge na Eu opa um no o ideal
de beleza que liga o om b onzeado à ida saudá el ao
a li e e à possibilidade económica de passa é ias
em locais exó icos (Fea he s one, 1982).
Se as peles mais escu as o am du an e
séculos associadas à pob eza e ao abalho u al
(Li e al., 2008), oda ia, a ques ão da onalidade da
5 Pa a e lexões sob e a ein odução da aça como uma en idade biológica na p á ica clínica e na indús ia cosmé ica, eja-se, en e
ou os, Robe s (2011).
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pele não se elaciona apenas com a classe social,
mas ambém com “ma cado es é nicos”, es a u o
social e disc iminação acial, como na esc a a u a
(Ta e, 2016) ou no sis ema de cas as na Índia
(Venka aswamy, 2013).
Lewis e al. (2011) assumem que a maio
mo i ação pa a o cla eamen o de pele es á
elacionada não apenas com a ideia de beleza,
mas com a ap oximação a um ideal eu opeu, cuja
emanescência da esc a a u a, colonização e
ecen e globalização es á ainda mui o p esen e.
Ha is (2014) salien a que baixa au oes ima,
sel -ha e e c ise de iden idade du an e o domínio
colonial são esponsá eis pela ideia eu ocên ica de
beleza. No en an o, essa ideia oi sis ema icamen e
e u ada po mui os au o es (en e ou os, Ta e,
2016), que p opõem que as análises de em se
mais di e si icadas e ap o undadas, alo izando
di e en es his ó ias, cul u as e p á icas sociais, bem
como posicionamen os polí icos, es ilos cul u ais
(Fe guson, 1999) e expe iências indi iduais.
Se o ideal da b anqui ude e a consequen e
endência de u ilização de p odu os de b anqueamen o
é mais ma cada em países que i e am p esença
colonial, oda ia, não é desp ezí el o seu c escimen o
de u ilização em ou os países. Glenn (2008) suge e
que o aumen o do uso de acla ado es de pele pode
se a ibuído ao ma ke ing cons an e e global, que
di unde imagens de beleza associadas à b ancu a,
em que as ep esen ações des a são hegemónicas e
disseminadas po ins i uições sociais ão di e sas
como massa média, cul u a popula e ins i uições
eligiosas ou de educação.
No en an o, a li e a u a (Li e al., 2008) indica
que a dominação colonial eu opeia em países
asiá icos não oi di e amen e ligada à alo ização
da b anqui ude como um ideal de beleza. De igual
o ma, a in luencia que a Índia em em odo o
sudoes e asiá ico é mui o ele an e: nos seus mi os e
his ó ias a b ancu a da pele é associada a um es ado
impolu o de espí i o e a compleição cla a simboliza
a ju en ude e a “al a qualidade” das mulhe es, que
lhes concede iam um casamen o de ele ado es a u o
social (Sa aswa i, 2010). Baumann (2008) salien a
que a colo ação da pele es á ambém elacionada
com o compo amen o sexual espe ado. Assim, a
pele b anca numa mulhe o na-se uma cono ação de
“ i uosidade”, “pu eza”, “modés ia” e “inocência”,
con as ando com a pele mais escu a – de p e e ência
associada ao homem –, que inco po a a “ i alidade,
exposição, sexualidade e expe iência” (Baumann,
2008, p. 18-19). Nos an igos ex os eligiosos
hindus, a compleição cla a e a sinónimo de i ude
– ese ada aos indi íduos supe io es –, em oposição
aos demónios de pele escu a.
O ideal de beleza b anca ambém não é nada de
no o na China – indi íduos de classes sociais ele adas
possuíam a ez mais cla a e as mulhe es chinesas
já p a ica am écnicas de b anqueamen o “mais
adicionais”, como inge i pó de pé ola ou aplica giz
na pele, pa a ob e a assim denominada milk-whi e
skin, pele b anca como o lei e (Li e al., 2008).
Apesa de exis i ambém en a i as de
acla amen o de pele em homens, é nas mulhe es
que essa p á ica em maio exp essão. A g ande
exceção e i ica-se na India (Venka aswamy, 2013),
mas ambém ecen emen e na Malásia (Cheong;
Kau , 2019) e no Nepal (Maycock, 2017).
Blay (2009, p. 55), na sua análise da in luência
do colo ismo na mobilidade social e p o issional,
assim como no me cado ma imonial, a i ma que
his o icamen e hou e uma associação da pele cla a
com o ideal de beleza eminina e da pele escu a com
as ca a e ís icas masculinas de i ilidade e o ça.
Mulhe es neg as de pele mais cla a êm emp egos
melho es e salá ios maio es que se aduzem em
possibilidades educacionais melho es pa a si e pa a
suas amílias, quando compa adas com mulhe es
cuja pele seja mais escu a. O mesmo es udo e ela
que no caso masculino não há elação ão di e a
en e a co de pele e essas a iá eis sociais.
Alcança o ideal de beleza pa a as mulhe es
não é apenas po uma ques ão es é ica, mas an es
um a o mui o signi ican e pa a melho a as suas
espe anças de mobilidade social e p o issional. Os
p odu os de b anqueamen o p ome em isso mesmo:
al e ando a sua apa ência, pode-se al e a a condição
socioeconómica de uma mulhe .
En ão, se pa a uma mulhe “beleza é pode , pa a
uma mulhe neg a a pele cla a mais do que beleza,
é pode ” (Blay, 2009, p. 52). Po an o, a beleza não
é só capi al co po al, mas sob e udo capi al social:
uma “ o ma de p es ígio que se elaciona com s a us,
epu ação e ede social, que são con e í eis em
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capi al económico” (Hun e , 2002, p. 177) em que o
pode de uma mulhe es á in imamen e elacionado
com sua beleza e sua eminilidade, que de em se
a aliadas e ap o adas pela sociedade em que se
encon a.
Uma ez que os p odu os cosmé icos não são bens
de p imei a necessidade, mas são conside ados um
luxo, e o ac o de um indi íduo os consegui comp a
demons a o seu po encial económico (Rondilla,
2009): a capacidade de adqui i a igos de beleza é
símbolo de pode e con e e à mulhe a sensação de
p i ilégio e de empode amen o (Ta e, 2016).
Mais do que isso, signi ica que as mulhe es êm
a possibilidade económica de escolhe a co da sua
pele e, consequen emen e, de de e mina o impac o
que sua apa ência i á e no con ex o social e,
e en ualmen e, de aumen a as suas possibilidades
de mobilidade e sucesso p o issional. Como al, uma
pele escu a que não é abalhada não apenas não se
coaduna com a es é ica eminina p opagada, mas
ambém ep esen a uma alha – um não con olo do
seu co po e do seu s a us social.
É indiscu í el que ele isão, publicidade e
in e ne p omo em ideais de beleza “b anqueados”.
A indús ia de en e enimen o p oje a mais mulhe es
com pele cla a do que com pele mais escu a. Um
exemplo bas an e no ó io em de Bollywood, onde,
na sua quase o alidade, as es elas êm não só uma
pele cla a como ambém publici am o uso de c emes
acla ado es.
A p odução, o ma ke ing e o consumo de p odu os
que le am a uma pele “mais b ilhan e, mais b anca”
o nou-se uma indús ia que compo a ci cui o
ansnacional de capi ais, pessoas e bens. Po um
lado, as companhias mul inacionais o na am-se
elos undamen ais nessas cadeias globais; pelo
ou o, a o es de economias in o mais e ilegais – que
incluem con abando, negócios ilegais e mig an es
ansnacionais – cons oem boas opo unidades de
negócio.
As publicidades aos cla eado es de pele são uma
apologia à elicidade. Ahmed (2007, p. 127) deixa bem
cla o que “alguns obje os inco po am a p omessa de
elicidade”. Mas quais as espe anças e as ambições
de quem comp a e u iliza subs âncias pa a acla a
a pele, hoje, em Lisboa? Quem são os consumido es
desses p odu os? Onde se endem? De onde chegam?
Po que é essa p á ica é ão la gamen e di undida e
con inua a aumen a em odo o mundo?
Segundo a li e a u a consul ada (en e ou os,
Glenn, 2008; Hun e , 2011), são múl iplas as azões
pelas quais an as pessoas no mundo acla am a pele.
Alguns eem esses p ocedimen os como passos em
di eção à igualdade de opo unidades (Baumann,
2008; Cha les, 2011), ou os ealçam que a pele neg a
é his o icamen e ma cada po uma e ó ica nega i a
da hie a quia colonial e da esc a idão (Blay, 2011;
Hun e , 2002; Kei h; He ing, 1991; Lewis e al., 2011).
Ou os, po im, suge em que o acla amen o da pele é
uma p á ica es é ica como uma ou a qualque , como
b onzeamen o ou alisamen o de cabelo: uma ques ão
de es ilo que nada em a e com “ aça” (Ta e, 2016).
F., uma mulhe a o-eu opeia de na u alidade
angolana, a i ma:
Comecei pa a emo e umas manchas da pele e
umas ma cas de acne. Depois começas a ica mais
cla inha e nas o os no Facebook já não p ecisa a
de me e oca assim an o. Mui a gen e usa, mui a
gen e ende, encon as isso em qualque loja no
cen o da cidade, em Ma im Moniz, na Almi an e
Reis… (F., 34 anos)
Con i ma as suas pala as C., ou a mulhe
a odescenden e, de nacionalidade po uguesa, que
abalha numa loja de design:
Eu nasci em Po ugal, mas como sou neg a as
pessoas me pe gun am semp e: de onde ocê
em? E eu espondo: de Oei as. E eles pe gun am
imedia amen e: ok, mas de onde ocê em
“ ealmen e”… Nunca pus pé na Á ica, é que sou
mesmo de Oei as! Mas cla o, pe cebo… Nos li os
da escola, nos desenhos animados, nas lojas de
b inquedos, udo aqui é pensado pa a meninas
b ancas. O lápis “co da pele” é co de osa, as
meias “co na u al” são beges, assim como o “nude”.
Po an o, mudei, abalhei a minha apa ência,
sim, ambém acla ei bas an e a pele, mas não po
e gonha. E po que assim é udo mais simples…
(C., 28 anos)
C. não é a única mulhe a en a iza os bene ícios
de um ipo de apa ência mais adequada aos gos os
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eu opeus, mesmo que isso signi ique: “so e um
pouco e usa p odu os pa a acla a a pele e es ica
o cabelo”. “A beleza é meia iqueza” – a i ma R., uma
jo em moçambicana:
se eu não i esse mudado um pouco a minha
apa ência não e ia abalhado em emp esas como
Sepho a ou Pe umes & Companhia. Os eu opeus
gos am de mulhe es mag as, com a pele não ão
escu a. As neg as que não se adap am aos gos os
eu opeus icam a aze hambú gue es no McDonald’s,
mas não a se i , mesmo a ás, na cozinha, onde as
pessoas não e podem e . (R., 26 anos)
L., mulhe de o igem angolana, que pela escolha
da oupa de al a cos u a e ela um es a u o
económico ele ado, a i ma:
Quando eu e a c iança, além da minha mãe – que eu
ado a a po que e a mais linda, mais cla a do que eu
–, odos os ou os modelos posi i os de eminilidade
aos quais aspi a a não e am nada pa ecidos comigo.
Todas onaliza am a pele, com ce eza, como a
minha mãe azia. (L., 39 anos)
Mui as das en e is adas alam em onalização
da pele em ez de b anqueamen o, e elando assim
um dis anciamen o da dico omia b anco/neg o,
assim como p e e em ala em escolhas de es ilo
e não em ques ões que enham a e com “ aça”
(Pusse i, 2019). A maio pa e das en e is adas diz
que elas o am in oduzidas à p á ica pela p óp ia
mãe ou po memb os p óximos da amília ou do
g upo es i o de amigas. C esce am a e mulhe es
cuida do co po, epe indo de e minados ges os, com
p odu os simila es, os mesmos elogios pa a quem
conseguia uma pele mais uni o me e luminosa.
Usei pela p imei a ez es es c emes a a és de uma
amiga que i e cá, mas é de Daka . Ela dizia que
se ia a melho a o aspe o das cica izes da acne. A
minha ca a começou a muda de co . Pensei: Es ou
a ica b anca! [ isada]. Pa ei um pouco e logo ol ei
a ganha co . E, po an o, ol ei a coloca , pa a não
es aga os esul ados. (D., 44 anos)
“In o he whi e”: os pe cu sos do
b anqueamen o no co ação de Lisboa
Onde há o e a é po que há p ocu a. Podem a é e
dize que não usam es es c emes, ou que usa só a
amiga ou a amiga da amiga. Mas se odas as lojas
êm e em g ande quan idade, que dize que alguém
comp a. Ou há ou as que e ão dize que usam só
aqui ou aí pa a umas manchinhas. Ac edi a que is o
icia. Começas com uma manchinha e de epen e é
na ca a in ei a, no pescoço… (S., 38 anos)
A a i mação é de S., mulhe de P aia (Cabo Ve de),
dona de salão de beleza, com a qual con e samos
na Mou a ia.
A Mou a ia, que se coloca bem no cen o his ó ico
da cidade, é o bai o com maio concen ação de
es angei os de Lisboa e de e o seu nome ao ac o de,
após a econquis a c is ã da cidade, o p imei o ei de
Po ugal, D. A onso Hen iques (século XII), e con inado
nessa zona da cidade os muçulmanos. Nesse espaço
limi ado, que cons i ui um dos p imei os gue os da
his ó ia eu opeia, es ende-se um ema anhado de uas,
uelas, a essas e becos. Hoje, a Mou a ia é um bai o
ep esen a i o de uma Lisboa popula , adicional
e mul icul u al, que expe iencia uma condição
u bana a a essada po inúme as con a iedades e
he e ogeneidades: en elhecimen o da população a pa
da eno ação azida com os imig an es, p eca iedade
das condições de habi abilidade, comé cio o mal e
in o mal, á ico e consumo de d ogas, p os i uição,
sendo ambém um bai o exp essi o da poli onia
da con empo aneidade. Com a chegada da g ande
a alancha de imig ação – chineses, indianos, b asilei os,
paquis aneses, bengalis, nepaleses, a icanos –, a
Mou a ia hospeda a maio população esiden e e ede
come cial mul ié nica da cidade.
Mesmo que as p á icas de b anqueamen o den o
da população que i e e equen a a Mou a ia sejam
pouco os en adas, ou que exis a ce o pudo ou eceio
em con essa o uso desses cosmé icos, os p odu os
de acla amen o da pele são ex emamen e comuns,
económicos e de ácil acessibilidade em odos os
ho spo s do cen o da cidade.
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A., ou a mulhe de P aia (Cabo Ve de), clien e do
mesmo salão, in e ém na nossa con e sa:
Nas lojas indianas há bons p odu os, melho es do
que nos salões a icanos. Os indianos êm boas
a macêu icas e sabem aconselha o que usa . Eu
ponho o c eme duas, ês ezes ao dia no meu os o.
Acla a bem, mas pode da i i ação e o na a pele
mui o sensí el ao sol… Depois de uns meses con ém
pa a . Mas não mui o, senão a pele escu ece ou a ez.
Se quise es a pele que ês nas o os da publicidade,
con ém não pa a es de usa . (A., 31 anos)
O ma ke ing baseia-se em imagens que p omo em
pad ões de beleza “eu opeia” – mulhe es b ancas,
al as, mag as, com cabelos longos e lisos, olhos
g andes, na iz pequeno, so is icadas, com a ino e
cosmopoli as. Em nenhuma das lojas exis e qualque
ipo de ad e ência ou sensibilização em elação
aos e en uais iscos elacionados com os p odu os
cosmé icos cla eado es pa a a saúde. A e e escência
do comé cio do Ma im Moniz é o ea o ideal pa a
um me cado pa alelo de me cado ias impo adas
ilegalmen e e é, po an o, nessa zona que conduzimos
a nossa pesquisa de e eno, po meio da me odologia
do walking e hnog aphy, escolhendo desc e e o
passeio de um dia especí ico como ep esen a i o do
que se pode encon a em elação à pesquisa. O a o de
caminha só ecen emen e oi deba ido como mé odo de
pesquisa no âmbi o da an opologia (Ingold; Ve guns ,
2008), apesa de se uma p á ica já em uso na a e
con empo ânea, nos es udos u banos e nas abo dagens
enomenológicas e expe iências da an opologia do
embodimen . Caminha não signi ica apenas o a o de
pe co e a cidade a pé, mas ambém inclui p ocessos
como in e ação casual e obse ação pa icipan e.
Desse modo, selecionando os eixos p incipais que
compõem a á ea do Ma im Moniz e, en ando egis a
udo o que os nossos sen idos pe mi iam, isi amos
algumas lojas de come cio di o “é nico” que igu am na
zona. Pe co endo de o ma alea ó ia a a enida p incipal
Almi an e Reis, azemos nossas as pala as de Ma luci
Menezes (2004, p. 1) “o lado […] mais isí el da Mou a ia
pa ece e le i -se numa espécie de jogo de espelhos que
ep oduz imagens que ansi am en e a ideia do ípico,
adicional, popula , mul icul u al, mul ié nico, como
um no o Casal Ven oso, Texas ou a é B onx”.
Omb eando lojas de sou eni es que se mul iplicam
dia iamen e na pe spe i a de a ai ca ei as
es angei as, há odo um comé cio que se dedica a se i
quem i e e e i amen e na zona. Foi p ecisamen e
essas lojas, que não a aem olha es u ís icos, que
p ende am a nossa a enção: o supe me cado dos
imig an es do Nepal, a loja de especia ias dos indianos
na saída do me ô, o cabelei ei o a icano ou a loja de
másca as guineenses sua izinha. Não deixamos de
lado o Cen o Come cial da Mou a ia, esse monóli o
u bano que pe az os encan os de qualque an opólogo
ou cu ioso: no en an o, esse já não esconde mis é ios
e apenas uma loja – de con eção a icana – alia pa a
o p opósi o da nossa pesquisa.
As lojas de comé cio a icano igu a am na sua
mon a alguns cosmé icos amosos no mundo do
bleaching, mas com poucas embalagens disponí eis
(embalagens de Ca o Ligh , Clai Men, Beau iOn,
Rapid’Clai e c.). Con udo, oi na loja de másca as
guineenses, um aljube labi ín ico numa ua
secundá ia da Almi an e Reis, que encon amos odo
um ace o digno de ca álogo: Ca o Whi e, Ca oLigh ,
Black/Whi e Bleaching C eam, Sup eme Whi e
In ense, Beneks’ Fashion Fai , C usade Medica ed
Soap ou os bes -selle s Whi enicious (p oduzidos e
p omo idos pela modelo e emp eendedo a de o igem
cama onense Dencia, amosa pelo slogan publici á io
“whi e means pu é”), Vi -Fée, Clai Men, Beau iOn,
Rapid’Clai , Chon, Skin-Ligh , Bel Dam, en e ou os –
embalagens de co es ga idas com os os eno ípicos
a icanos e peles esb anquiçadas com so isos
en ado es –, que pa ilha am espaço no in e io da
loja com elaxan es pa a cabelo a icano, a i ado
de cachos, cabelos pos iços, másca as de madei a
da Guiné-Bissau, ins umen os musicais do Mali ou
sacos de mui os quilos de a inha de mandioca.
A si uação epe iu-se no minime cado indiano. O
amosíssimo Fai & Lo ely – p uden emen e si uado
a ás da caixa egis ado a – coexis e com incensos
di e sos, óleos pa a o cabelo e especia ias dis in as.
A sua imagem osa e b anca, com uma cadeia de
DNA a en ol e uma ace eminina escu a e is e, e
numa décalage c omá ica, sob epõe uma so iden e
e con ian e mulhe de pele cla a, é aqui o único
exemplo a igu a .
Em con apa ida, no supe me cado nepalês,
umas uas depois e com uma dimensão maio , os
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p odu os cosmé icos e de higiene disponí eis es ão
em ambém núme o ele ado: sabone es Himalaya,
p o e o es sola es Baba ia, boiões de Ni ea So , gel
de aloé- e a, óleos Va ika, numa mescla de p odu os
que conco em o imaginá io de consumo O ien e-
Ociden e. Aqui, não só Fai & Lo ely se encon a à
disposição, mas ambém o seu homónomo masculino,
Fai & Handsome. De o ma su p eenden e, não só
em quan idade supe io como ambém na e são
minia u a de c eme hid a an e, mas igualmen e
o gel de limpeza pa a a ace – di ecionados
especi icamen e pa a os consumido es masculinos.
Uma embalagem osa o e p ende-nos a a enção.
Com a o ma de embalagem de ca ão, semelhan e
a uma pomada de a mácia, uma ace eminina
ociden al igu a no can o esque do. O nome não
é e elado (Sca -Li e, Clea & Clean C eam),
mas sabemos que é “E e yone’s 1
s
Choice”. Não
p ecisamos p ocu a os ing edien es na bula in e io
ou na pa e pos e io do ca ão: esc i o anuncia
que em “hyd oquinone, e inoine & mome asone
u oa e c eam”. É um c eme de b anqueamen o
de pele com ing edien es que não são pe mi idos
na Eu opa, supondo ambém que não seja al o de
qualque ipo de a maco igilância pelo In a med.
Em qualque dos locais não alamos com os
endedo es, po enciais comp ado es ou equen ado es
do local: o nosso obje i o p imá io nesse dia de
exe cício e nog á ico e a apenas egis a que é possí el
comp a se enamen e qualque p odu o que enha
como p opósi o cla ea a pele em lojas de comé cio
“é nico” – mui o ol adas pa a a população mig an e
ou descenden e de países o a da Eu opa. Do mais
ino ensi o Fai & Lo ely (e po ino ensi o omamos as
ca ac e ís icas dos seus ing edien es a i os, e não o seu
p opósi o) a p odu os com ca ac e ís icas ne as as pa a
a pele e a saúde ge al, udo é passí el de se adqui ido
em locais de ácil acesso, ao alcance de qualque um,
a p eços acessí eis a á ios ipos de ca ei as (cinco
eu os, no máximo, po p odu o).
A cu iosidade an opológica le ou-nos de no o à
pequena con eção, úl imo edu o a icano de um Cen o
Come cial que em sido e a o da ans o mação
cons an e que a cidade em ope ado po si.
Se an es obse amos, como que pe dido no
meio dos panos mul icolo idos, poucos p odu os
de b anqueamen o, a si uação com que depa amos
passados escassos meses oi e elado a da
impo ância da ques ão que le an amos. Nesse
momen o, igu a cen al na loja e alhis a é o núme o
ele ado de cosmé icos que i alizam em co com
os ecidos expos os: Epide m Lo ion, Dip oson,
Be asol Lo ion, Fai & Whi e, Rapid’Clai , Beau iOn,
Clai men, Miki Clai , Neop osone-Gel Fo e,
Whi e Exp ess, Labigjan, Cha ms, en e ou os,
acompanham o Ca o Ligh e o Bel Dam já conhecidos.
As embalagens com imagens de indi íduos
eno ipicamen e a icanos exibem pele mais cla a.
Os ex os imp essos são ambém inequí ocos:
Ligh ening e Nou ishing ep esen am-se como
obje i os a cump i . Repe idamen e, c eme após
c eme, e i icamos que nenhum dispõe de ex os
em po uguês, mas o ancês é p esença absolu a.
Aliás, mui os deles, ligados ao comé cio senegalês,
são apenas desc i os em ancês: C ème de
Beau é Éclai cissan e, Une Me eilleuse Beau é,
Supe Éclai cissan , Soyez Belle au Quo idien. Os
ing edien es não a iam e, apesa de p oibidos,
são des acados como o ma de a ai clien es que
sabem o que e e i amen e unciona: hyd oquinone,
allan oin, be ame hasone, clobe asol… Não podemos
deixa de ques iona esse aumen o na o e a. Se á
um me cado em expansão em Lisboa?
Conside ações inais
Nes e a igo p opomos algumas e lexões sob e
as p á icas de b anqueamen o e a come cialização
dos p incipais p odu os pa a esse im ocacionados
no cen o de Lisboa, a pa i de um co pus de
en e is as ealizadas no âmbi o de uma pesquisa
an opológica mais ampla sob e p á icas es é icas,
ealizada nos úl imos ês anos. Se ainda mui o
es á em abe o, oda ia podemos a i ma que – po
quan o as mo i ações, as his ó ias e as expe iências
possam se di e en es – ce o é que nas sociedades
ma cadas po hie a quias e dis inções de classe
ígidas (a é ao exemplo das cas as na Índia), ou
ainda pela colonização eu opeia, a condição de
b anco implica múl iplos p i ilégios es u u ais,
como mais ácil acesso a uma sé ie de an agens
sociais, económicas e de s a us.
Ob iamen e, exis em di e sas nuances de
“b anqui ude” e, ao ala de “pele b anca”, es amos a