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A indústria do branqueamento em Lisboa: uma etnografia das práticas e produtos para o branqueamento da pele e seus riscos para a saúde dermatológica

Abstract

Por meio de um exercício de walking ethnography, pretendemos apresentar uma etnografia da oferta cosmética destinada à despigmentação da pele no coração de Lisboa, focando num fragmento da cidade que junta diferentes propostas e produtos estéticos: spas chineses, salões de beleza e cabeleireiros africanos, lojas do comércio dito “étnico” ligado a imigrantes e portugueses descendentes de populações asiáticas ou africanas. Definimos esse passeio como “caminho do branqueamento” – parafraseando ironicamente o título de um dos mais famosos livros de Michael Jackson, Paths towards a clearing (1989). Considerando o corpo como um projeto em construção, pretendemos mostrar que os imaginários e os desejos ligados ao consumo desses tratamentos, assim como os padrões de beleza veiculados pelo marketing dos produtos de clareamento da pele, refletem e reproduzem variáveis sociais de género, classe e raça. Queremos também evidenciar como a maior parte dos produtos branqueadores, vendidos no centro da cidade, são proibidos pela legislação europeia de regulamentação de cosméticos, devido às altas concentrações de substâncias tóxicas. Essas substâncias, que circulam livremente nas redes do comercio informal, podem ser muito prejudiciais para a saúde dos consumidores, comportando severos riscos dermatológicos.

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A indústria do branqueamento em Lisboa: uma etnografia das práticas e produtos para o branqueamento da pele e seus riscos para a saúde dermatológica

Author: Pussetti, Chiara,Pires, Isabel
Publisher: Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. Associação Paulista de Saúde Pública
Year: 2020
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/43183/1/ICS_CPussetti_Industria_Branqueamento.pdf
Saúde Soc. São Paulo, .29, n.1, e200018, 2020 1
DOI 10.1590/S0104-12902020200018
Dossiê
A indús ia do b anqueamen o em Lisboa:
uma e nog a ia das p á icas e p odu os pa a
o b anqueamen o da pele e seus iscos pa a a
saúde de ma ológica
The indus y o whi ening in Lisbon: an e hnog aphy o
p ac ices and p oduc s o skin bleaching and i s isks o
de ma ological heal h
Co espondência
Isabel Pi es
Rua Anibal Be encou , 9. Lisboa, Po ugal. CEP 1600-189.
Chia a Pusse ia
h ps://o cid.o g/0000-0002-2146-3587
E-mail: [email p o ec ed]
Isabel Pi esa
h ps://o cid.o g/0000-0002-4324-8220
E-mail: [email p o ec ed]
aUni e sidade de Lisboa. Ins i u o de Ciências Sociais. Lisboa,
Po ugal.
Resumo
Po meio de um exe cício de walking e hnog aphy,
p e endemos ap esen a uma e nog a ia da o e a
cosmé ica des inada à despigmen ação da pele no
co ação de Lisboa, ocando num agmen o da cidade
que jun a di e en es p opos as e p odu os es é icos:
spas chineses, salões de beleza e cabelei ei os
a icanos, lojas do comé cio di o “é nico” ligado a
imig an es e po ugueses descenden es de populações
asiá icas ou a icanas. De inimos esse passeio como
“caminho do b anqueamen o” – pa a aseando
i onicamen e o í ulo de um dos mais amosos
li os de Michael Jackson, Pa hs owa ds a clea ing
(1989). Conside ando o co po como um p oje o em
cons ução, p e endemos mos a que os imaginá ios
e os desejos ligados ao consumo desses a amen os,
assim como os pad ões de beleza eiculados pelo
ma ke ing dos p odu os de cla eamen o da pele,
e le em e ep oduzem a iá eis sociais de géne o,
classe e aça. Que emos ambém e idencia como a
maio pa e dos p odu os b anqueado es, endidos
no cen o da cidade, são p oibidos pela legislação
eu opeia de egulamen ação de cosmé icos, de ido
às al as concen ações de subs âncias óxicas. Essas
subs âncias, que ci culam li emen e nas edes do
come cio in o mal, podem se mui o p ejudiciais
pa a a saúde dos consumido es, compo ando se e os
iscos de ma ológicos.
Pala as-cha e: Walking E hnog aphy; B anqueamen o
da Pele; Imig ação; Co po; Es é ica É nica.
Saúde Soc. São Paulo, .29, n.1, e200018, 2020 2
Abs ac
Th ough a walking e hnog aphy exe cise, we
in end o p esen an e hnog aphy o he cosme ic
o e aimed a depigmen ing he skin in he hea
o Lisbon, ocusing on a agmen o he ci y ha
b ings oge he di e en p oposals and aes he ic
p oduc s: Chinese spas, beau y salons and A ican
hai d esse s, shops o he so-called “e hnic” ade
linked o immig an s and Po uguese descendan s
o Asian o A ican popula ions. We de ined his
ou as a “whi ening pa h” – i onically pa aph asing
he i le o one o Michael Jackson’s mos amous
books, Pa hs owa ds a clea ing (1989). Conside ing
he body as a p ojec unde cons uc ion, we in end
o show ha he imagina y and desi es ela ed o
he consump ion o hese ea men s, as well as
he beau y s anda ds con eyed by he ma ke ing
o skin whi ening p oduc s, e lec and ep oduce
social a iables o gende , class and ace. We also
wan o highligh how mos whi ening p oduc s,
sold in he ci y cen e , a e p ohibi ed by Eu opean
cosme ics egula ion legisla ion due o he high
concen a ions o oxic subs ances. These subs ances
– which ci cula e eely in he ne wo ks o in o mal
comme ce – can be e y ha m ul o he consume s’
heal h, ca ying se e e de ma ological isks.
Keywo ds: Walking E hnog aphy; Skin Whi ening;
Immig a ion; Body; E hnic Aes he ics.
B anqueamen o e hipe pigmen ação
acial
O uso cosmé ico de subs âncias de b anqueamen o
da pele é uma p á ica ex emamen e comum em
Á ica, Ásia e Ca ibe. Nos úl imos dez anos o am
p oduzidos mui os abalhos (Blay, 2009, 2011;
Cheong; Kau , 2019; Glenn, 2008; Ha is, 2014; Hope,
2011; Hun e , 2011; Lewis e al., 2011; Li e al., 2008;
Maycock, 2017; Rondilla, 2009; Sa aswa i, 2010; Ta e,
2016; Venka aswamy, 2013) dedicados ao impac o
desses a amen os pela saúde pública da população
desses países. Essas p á icas, mui as delas iniciadas
nos países de o igem, es ão a ganha c escen e
impo ância en e imig an es e já oi amplamen e
ealçada a dimensão ician e
1
do b anqueamen o
olun á io da pele. Toda ia, poucos são os abalhos
e nog á icos que analisam a p ocu a, o consumo e os
iscos desses a amen os. Na Eu opa, essa p á ica
a e a p incipalmen e mulhe es e c ianças, sendo
ex emamen e p ejudicial pa a a saúde de ambas. A
exis ência desses p odu os no con ex o po uguês e
as suas epe cussões pela saúde são comple amen e
igno adas: os consumido es di icilmen e admi em
o emp ego dessas subs âncias e os p o issionais de
saúde
2
desconhecem a p á ica. Sem qualque ipo de
a maco igilância, au o ização ou moni o ização
do pon o de is a da segu ança dos componen es,
p odu os p o enien es p incipalmen e da Índia,
da China ou da Á ica Ociden al conseguem se
comp ados acilmen e em qualque loja no cen o
de Lisboa.
Nes e a igo, p e endemos ap esen a uma
e nog a ia de ua, ou melho , de umas uas do
co ação “es angei o” do cen o da cidade de Lisboa.
3
Nos úl imos anos, assis imos ao su gimen o em
Po ugal de um no o me cado de p odu os e p á icas
es é icas e ci ú gicas de inidas como “é nicas”. Os
1 Um dos p incipais a o es de isco ligado à u ilização desses p odu os é a necessidade de uso con ínuo, uma ez que sua in e upção
p o oca o eapa ecimen o do pigmen o, mui as ezes mais in enso do que inicialmen e, le ando a que a p á ica não seja suspensa, mas
sim epe ida de o ma c ônica.
2 A p á ica do b anqueamen o cosmé ico da pele na população imig an e na Eu opa (Mahé, 2014) es á a aumen a exponencialmen e.
Mui os a igos e ó uns na in e ne apon a am a al a de conhecimen o dessa si uação po pa e dos médicos e, em 28 de maio de 2019,
o jo nal diá io i aliano La S ampa dedicou suas páginas cen ais à u gência da in e enção médica pa a a ques ão do b anqueamen o
olun á io da pele (Simoncelli, 2019).
3 Es e a igo coloca-se no âmbi o do p oje o EXCEL “The pu sui o excellence: bio echnologies, enhancemen and body capi al in Po ugal” (PTDC/
SOC-ANT/30572/2017), coo denado pela P o esso a Dou o a Chia a Pusse i, disponí el em: <www.excelp ojec .eu>. Nos úl imos ês anos o am
conduzidas, no o al, 54 en e is as sob e p á icas, desejos, imaginá ios e modelos de beleza: 12 com homens e 42 com mulhe es.
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p o issionais da medicina es é ica en e is ados
de inem como “é nica” qualque in e enção
es é ica di ecionada à al e ação de aços “ aciais”
conside ados socialmen e indesejá eis segundo
pad ões de beleza eu o-cen ados, pa a p oduzi
co pos socialmen e alo izados de aco do com
ideais de beleza, mode nidade e sucesso da
con empo aneidade.4 O uso do e mo “é nico”
no con ex o médico pa a desc e e qualque
p ocedimen o es é ico des inado a “pessoas não
b ancas” le an a ques ões in e essan es do pon o
de is a an opológico.
O me cado da cosmé ica é nica es á ligado a uma
indús ia milioná ia em cons an e c escimen o:
dados es a ís icos in e nacionais mos am o aumen o
exponencial, nos úl imos 20 anos, da p ocu a de
p odu os e p á icas ci ú gicas e de ma ológicas
des inadas a modi ica os ma cado es “ aciais”.
Segundo a Sociedade In e nacional de Ci u gia
Plás ica Es é ica e a Sociedade Ame icana de
Ci u giões Plás icos (Asaps, 2015), a p ocu a de
al e ações es é icas “é nicas” aumen ou 243%
en e 2005 e 2015 em odo o mundo. O c escimen o
desse me cado de e-se, possi elmen e, às ápidas
mudanças cul u ais e ao ma ke ing em escala
global de imagens hegemónicas de “beleza e es ilo
de ida ociden al”. De igual o ma, o c escimen o
demog á ico das populações imig an es, as
necessidades de in eg ação, a pe ceção mais posi i a
da ci u gia es é ica de ido ao aumen o exponencial
de ansmissões ele isi as que publici am
“ex eme makeo e s” e a maio democ a ização
dos p ocedimen os es é icos ambém iabilizam
esse aumen o.
De aco do com Glenn (2008) e Hun e (2011), o
c escimen o desse especí ico me cado cosmé ico
em odo o mundo pode se a ibuído ao cons an e
ma ke ing de massa de imagens posi i ada de
“beleza e es ilo de ida b ancos” que se baseiam em
ideologias coloniais ainda a uais que alo izam a
cul u a, o es ilo de ida e a es é ica eu opeus, bem
como os seus undamen os mo ais.
Desde a in e p e ação da medicina colonial de
ca a e ís icas como o om e a ex u a da pele neg a
como p o as de in e io idade e olu i a, degene ação
acial, al a de higiene co pó ea, des ios da es u u a
mo ológica, hipe pigmen ação ou hipe melanização
pa ológica, ou de ícios mo ais, a é ao nascimen o e
ao lo esce da indús ia de b anqueamen o, a pele
b anca con inua a cons i ui uma cha e exclusi a
de acesso ao p i ilégios cul u ais e econômicos da
eli e (Ta e, 2016).
Nas en e is as ealizadas, os ci u giões plás icos
e de ma ologis as es é icos da á ea u bana de Lisboa
usa am ac i icamen e os e mos “é nico” ou “ acial”
pa a se e e i em às ca a e ís icas ísicas po eles
de inidas como “não caucasianas”. As in e enções
mais p ocu adas, segundo os médicos en e is ados,
são des inadas à al e ação da o ma dos olhos e do
na iz ou ao acla amen o da co da pele. Repo am em
pa icula a ble a oplas ia ou ci u gia da pálpeb a
asiá ica (pálpeb a dupla), que pode se acompanhada
po epican oplas ia (co e dos can os das pálpeb as)
e a inoplas ia, an o em pacien es “neg os” como
em “asiá icos”, pa a maio a inamen o, p ojeção e
de inição da pon a e pa a edução das asas nasais.
A p imei a ci u gia, ci ando um p o issional de uma
das mais conhecidas clínicas p i adas da cidade:
Se e pa a c ia um olha mais abe o, i az,
a a i o, menos cansado, e pe mi e aplica a
maquilhagem com mais acilidade. A inoplas ia
é nica melho a o aspe o la go e acha ado do na iz,
eduzindo a desa monia de um na iz excessi amen e
la go, c iando um aspe o mais elegan e e delicado.
(M., 43 anos, médico de ma ologis a)
Em elação à pele, e e e:
Exis em p oblemas de hipe pigmen ação ípicas
das peles neg as, que ende a e manchas e
i egula idades no om da pele, com escu ecimen os
excessi os. Con udo, as clien es que pedem pa a
eduzi as manchas ou as pin as escu as da pele
(de ma ose papulosa nig a) em ge al que em que lhes
deem uma boa “acla ada”. O pescoço em pa icula …
pa ece algo sujo, não acha? (M., 43 anos, médico
de ma ologis a)
4 Po exemplo, b anqueamen o da pele; alisamen o dos cabelos; ociden alização ci ú gica dos olhos o ien ais, do na iz e dos lábios
neg oides; e ede inição dos con o nos co po ais, en e ou os.
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No discu so dos médicos en e is ados, é
equen e o uso de exp essões como: “na iz
neg oide”, “hipe pigmen ação da aça neg a”
ou “ aços aciais excessi os ou exage ados”
em con aposição à “beleza clássica eu opeia”.
O discu so médico e a linguagem es e izan e da
indús ia cosmé ica na u alizam e ei icam a ideia de
“ aça”, deslocando as suas implicações dos p ocessos
his ó icos, polí icos e sociais que lhe de am o igem.
Dialogando com a li e a u a que se desen ol eu
em o no das noções de e nia e de aça na p odução
de conhecimen o médico e a macológico, a nossa
abo dagem nes e a igo dis ancia-se de o ma c í ica
das a uais endências de ebiologização do concei o
de aça na p á ica clínica es é ica e na indús ia
cosmé ica.5
I emos, em p imei o luga , delinea os con o nos
desse me cado, ap esen ando as condições his ó icas
e sociocul u ais que jus i icam a impo ância das
p á icas de b anqueamen o da pele. Em segundo
luga , i emos ap esen a a me odologia da pesquisa
e o campo: o an igo gue o á abe de Lisboa, ainda
hoje espaço mul icul u al ca a e izado po g ande
i acidade come cial. Po im, ap esen a emos
b e emen e os p imei os esul ados alcançados,
epo ando as p incipais p eocupações pa a a saúde
pública ligadas ao uso desses p odu os.
A indús ia global do b anqueamen o
da pele
A p eocupação com a colo ação da pele é
algo mui o an igo na his ó ia da humanidade –
encon am-se egis os de p á icas que isa am
alcança uma pele mais b anca no An igo Egip o, na
Eu opa Medie al e, especialmen e, na época colonial
em locais como Ca aíbas, Amé ica do No e ou Á ica
(Hun e , 2011).
A ualmen e, podem se encon adas di e en es
mani es ações desse enómeno ao longo de oda a
ex ensão do globo e es e, desde o Médio O ien e
(Hamed e al., 2010), Eu opa (Pe i e al., 2006),
Ca aíbas (Hope, 2011), Amé ica do No e (Cha les,
2011), Á ica (Blay, 2011) e Ásia (Sa aswa i, 2010), não
es ando ci cunsc i o a um g upo, mas oco endo em
odos os g upos aciais e é nicos, independen emen e
de classe social, géne o, ní el de escola idade ou de
p o issão.
Skin bleaching, skin whi ening ou skin ligh ening –
usados com equência como sinónimos e aduzidos
pa a po uguês como “lixi iação”, “b anqueamen o”
ou “acla amen o” – são os e mos u ilizados pa a
desc e e o a o de emo e a melanina da pele com
o uso de p odu os cosmé icos, de ma ológicos ou
ab icados de o ma a esanal.
As azões pa a exis i o b anqueamen o de pele
são mui o a iadas e dependem essencialmen e
do indi íduo que as p a ica. A co da pele é a mais
p oeminen e das ca ac e ís icas eno ípicas, que
du an e séculos dec e ou a “supe io idade gené ica”
(Blay, 2009), sendo ainda usada como escala de
e olução social, sabendo-se que quan o mais se
ap oxima do b anco, maio os p i ilégios ese ados
pa a es es: educação, emp ego, po encial inancei o,
localidade onde i e e escolha de pa cei o a e i o
(Hun e , 2002).
A beleza associada a uma pele cla a, e com
os seus bene ícios in e ligados, di undidos pela
cul u a popula endem um li es yle: b anco,
mode no, so is icado, de beleza, saúde e pode .
Es udos que co elacionem om de pele com s a us
socioeconómico co obo am a a i mação an e io
(Kei h; He ing, 1991).
Segundo a e isão his ó ica da li e a u a e e uada
po Dye (1997), o es a u o de pele b anca nos países
asiá icos, bem como nos países eu opeus, indica a a
pe ença a classes sociais ele adas, que não inham
necessidade de abalha debaixo do sol. Du an e os
séculos de XVII a XIX, a is oc a as e bu gueses mais
a o unados aplica am alco pa a p ese a a sua
pele cla a, sendo que esse enómeno caiu em desuso
quando, no século XX, su ge na Eu opa um no o ideal
de beleza que liga o om b onzeado à ida saudá el ao
a li e e à possibilidade económica de passa é ias
em locais exó icos (Fea he s one, 1982).
Se as peles mais escu as o am du an e
séculos associadas à pob eza e ao abalho u al
(Li e al., 2008), oda ia, a ques ão da onalidade da
5 Pa a e lexões sob e a ein odução da aça como uma en idade biológica na p á ica clínica e na indús ia cosmé ica, eja-se, en e
ou os, Robe s (2011).
Saúde Soc. São Paulo, .29, n.1, e200018, 2020 5
pele não se elaciona apenas com a classe social,
mas ambém com “ma cado es é nicos”, es a u o
social e disc iminação acial, como na esc a a u a
(Ta e, 2016) ou no sis ema de cas as na Índia
(Venka aswamy, 2013).
Lewis e al. (2011) assumem que a maio
mo i ação pa a o cla eamen o de pele es á
elacionada não apenas com a ideia de beleza,
mas com a ap oximação a um ideal eu opeu, cuja
emanescência da esc a a u a, colonização e
ecen e globalização es á ainda mui o p esen e.
Ha is (2014) salien a que baixa au oes ima,
sel -ha e e c ise de iden idade du an e o domínio
colonial são esponsá eis pela ideia eu ocên ica de
beleza. No en an o, essa ideia oi sis ema icamen e
e u ada po mui os au o es (en e ou os, Ta e,
2016), que p opõem que as análises de em se
mais di e si icadas e ap o undadas, alo izando
di e en es his ó ias, cul u as e p á icas sociais, bem
como posicionamen os polí icos, es ilos cul u ais
(Fe guson, 1999) e expe iências indi iduais.
Se o ideal da b anqui ude e a consequen e
endência de u ilização de p odu os de b anqueamen o
é mais ma cada em países que i e am p esença
colonial, oda ia, não é desp ezí el o seu c escimen o
de u ilização em ou os países. Glenn (2008) suge e
que o aumen o do uso de acla ado es de pele pode
se a ibuído ao ma ke ing cons an e e global, que
di unde imagens de beleza associadas à b ancu a,
em que as ep esen ações des a são hegemónicas e
disseminadas po ins i uições sociais ão di e sas
como massa média, cul u a popula e ins i uições
eligiosas ou de educação.
No en an o, a li e a u a (Li e al., 2008) indica
que a dominação colonial eu opeia em países
asiá icos não oi di e amen e ligada à alo ização
da b anqui ude como um ideal de beleza. De igual
o ma, a in luencia que a Índia em em odo o
sudoes e asiá ico é mui o ele an e: nos seus mi os e
his ó ias a b ancu a da pele é associada a um es ado
impolu o de espí i o e a compleição cla a simboliza
a ju en ude e a “al a qualidade” das mulhe es, que
lhes concede iam um casamen o de ele ado es a u o
social (Sa aswa i, 2010). Baumann (2008) salien a
que a colo ação da pele es á ambém elacionada
com o compo amen o sexual espe ado. Assim, a
pele b anca numa mulhe o na-se uma cono ação de
“ i uosidade”, “pu eza”, “modés ia” e “inocência”,
con as ando com a pele mais escu a – de p e e ência
associada ao homem –, que inco po a a “ i alidade,
exposição, sexualidade e expe iência” (Baumann,
2008, p. 18-19). Nos an igos ex os eligiosos
hindus, a compleição cla a e a sinónimo de i ude
– ese ada aos indi íduos supe io es –, em oposição
aos demónios de pele escu a.
O ideal de beleza b anca ambém não é nada de
no o na China – indi íduos de classes sociais ele adas
possuíam a ez mais cla a e as mulhe es chinesas
já p a ica am écnicas de b anqueamen o “mais
adicionais”, como inge i pó de pé ola ou aplica giz
na pele, pa a ob e a assim denominada milk-whi e
skin, pele b anca como o lei e (Li e al., 2008).
Apesa de exis i ambém en a i as de
acla amen o de pele em homens, é nas mulhe es
que essa p á ica em maio exp essão. A g ande
exceção e i ica-se na India (Venka aswamy, 2013),
mas ambém ecen emen e na Malásia (Cheong;
Kau , 2019) e no Nepal (Maycock, 2017).
Blay (2009, p. 55), na sua análise da in luência
do colo ismo na mobilidade social e p o issional,
assim como no me cado ma imonial, a i ma que
his o icamen e hou e uma associação da pele cla a
com o ideal de beleza eminina e da pele escu a com
as ca a e ís icas masculinas de i ilidade e o ça.
Mulhe es neg as de pele mais cla a êm emp egos
melho es e salá ios maio es que se aduzem em
possibilidades educacionais melho es pa a si e pa a
suas amílias, quando compa adas com mulhe es
cuja pele seja mais escu a. O mesmo es udo e ela
que no caso masculino não há elação ão di e a
en e a co de pele e essas a iá eis sociais.
Alcança o ideal de beleza pa a as mulhe es
não é apenas po uma ques ão es é ica, mas an es
um a o mui o signi ican e pa a melho a as suas
espe anças de mobilidade social e p o issional. Os
p odu os de b anqueamen o p ome em isso mesmo:
al e ando a sua apa ência, pode-se al e a a condição
socioeconómica de uma mulhe .
En ão, se pa a uma mulhe “beleza é pode , pa a
uma mulhe neg a a pele cla a mais do que beleza,
é pode ” (Blay, 2009, p. 52). Po an o, a beleza não
é só capi al co po al, mas sob e udo capi al social:
uma “ o ma de p es ígio que se elaciona com s a us,
epu ação e ede social, que são con e í eis em

Saúde Soc. São Paulo, .29, n.1, e200018, 2020 6
capi al económico” (Hun e , 2002, p. 177) em que o
pode de uma mulhe es á in imamen e elacionado
com sua beleza e sua eminilidade, que de em se
a aliadas e ap o adas pela sociedade em que se
encon a.
Uma ez que os p odu os cosmé icos não são bens
de p imei a necessidade, mas são conside ados um
luxo, e o ac o de um indi íduo os consegui comp a
demons a o seu po encial económico (Rondilla,
2009): a capacidade de adqui i a igos de beleza é
símbolo de pode e con e e à mulhe a sensação de
p i ilégio e de empode amen o (Ta e, 2016).
Mais do que isso, signi ica que as mulhe es êm
a possibilidade económica de escolhe a co da sua
pele e, consequen emen e, de de e mina o impac o
que sua apa ência i á e no con ex o social e,
e en ualmen e, de aumen a as suas possibilidades
de mobilidade e sucesso p o issional. Como al, uma
pele escu a que não é abalhada não apenas não se
coaduna com a es é ica eminina p opagada, mas
ambém ep esen a uma alha – um não con olo do
seu co po e do seu s a us social.
É indiscu í el que ele isão, publicidade e
in e ne p omo em ideais de beleza “b anqueados”.
A indús ia de en e enimen o p oje a mais mulhe es
com pele cla a do que com pele mais escu a. Um
exemplo bas an e no ó io em de Bollywood, onde,
na sua quase o alidade, as es elas êm não só uma
pele cla a como ambém publici am o uso de c emes
acla ado es.
A p odução, o ma ke ing e o consumo de p odu os
que le am a uma pele “mais b ilhan e, mais b anca”
o nou-se uma indús ia que compo a ci cui o
ansnacional de capi ais, pessoas e bens. Po um
lado, as companhias mul inacionais o na am-se
elos undamen ais nessas cadeias globais; pelo
ou o, a o es de economias in o mais e ilegais – que
incluem con abando, negócios ilegais e mig an es
ansnacionais – cons oem boas opo unidades de
negócio.
As publicidades aos cla eado es de pele são uma
apologia à elicidade. Ahmed (2007, p. 127) deixa bem
cla o que “alguns obje os inco po am a p omessa de
elicidade”. Mas quais as espe anças e as ambições
de quem comp a e u iliza subs âncias pa a acla a
a pele, hoje, em Lisboa? Quem são os consumido es
desses p odu os? Onde se endem? De onde chegam?
Po que é essa p á ica é ão la gamen e di undida e
con inua a aumen a em odo o mundo?
Segundo a li e a u a consul ada (en e ou os,
Glenn, 2008; Hun e , 2011), são múl iplas as azões
pelas quais an as pessoas no mundo acla am a pele.
Alguns eem esses p ocedimen os como passos em
di eção à igualdade de opo unidades (Baumann,
2008; Cha les, 2011), ou os ealçam que a pele neg a
é his o icamen e ma cada po uma e ó ica nega i a
da hie a quia colonial e da esc a idão (Blay, 2011;
Hun e , 2002; Kei h; He ing, 1991; Lewis e al., 2011).
Ou os, po im, suge em que o acla amen o da pele é
uma p á ica es é ica como uma ou a qualque , como
b onzeamen o ou alisamen o de cabelo: uma ques ão
de es ilo que nada em a e com “ aça” (Ta e, 2016).
F., uma mulhe a o-eu opeia de na u alidade
angolana, a i ma:
Comecei pa a emo e umas manchas da pele e
umas ma cas de acne. Depois começas a ica mais
cla inha e nas o os no Facebook já não p ecisa a
de me e oca assim an o. Mui a gen e usa, mui a
gen e ende, encon as isso em qualque loja no
cen o da cidade, em Ma im Moniz, na Almi an e
Reis… (F., 34 anos)
Con i ma as suas pala as C., ou a mulhe
a odescenden e, de nacionalidade po uguesa, que
abalha numa loja de design:
Eu nasci em Po ugal, mas como sou neg a as
pessoas me pe gun am semp e: de onde ocê
em? E eu espondo: de Oei as. E eles pe gun am
imedia amen e: ok, mas de onde ocê em
“ ealmen e”… Nunca pus pé na Á ica, é que sou
mesmo de Oei as! Mas cla o, pe cebo… Nos li os
da escola, nos desenhos animados, nas lojas de
b inquedos, udo aqui é pensado pa a meninas
b ancas. O lápis “co da pele” é co de osa, as
meias “co na u al” são beges, assim como o “nude”.
Po an o, mudei, abalhei a minha apa ência,
sim, ambém acla ei bas an e a pele, mas não po
e gonha. E po que assim é udo mais simples…
(C., 28 anos)
C. não é a única mulhe a en a iza os bene ícios
de um ipo de apa ência mais adequada aos gos os
Saúde Soc. São Paulo, .29, n.1, e200018, 2020 7
eu opeus, mesmo que isso signi ique: “so e um
pouco e usa p odu os pa a acla a a pele e es ica
o cabelo”. “A beleza é meia iqueza” – a i ma R., uma
jo em moçambicana:
se eu não i esse mudado um pouco a minha
apa ência não e ia abalhado em emp esas como
Sepho a ou Pe umes & Companhia. Os eu opeus
gos am de mulhe es mag as, com a pele não ão
escu a. As neg as que não se adap am aos gos os
eu opeus icam a aze hambú gue es no McDonald’s,
mas não a se i , mesmo a ás, na cozinha, onde as
pessoas não e podem e . (R., 26 anos)
L., mulhe de o igem angolana, que pela escolha
da oupa de al a cos u a e ela um es a u o
económico ele ado, a i ma:
Quando eu e a c iança, além da minha mãe – que eu
ado a a po que e a mais linda, mais cla a do que eu
–, odos os ou os modelos posi i os de eminilidade
aos quais aspi a a não e am nada pa ecidos comigo.
Todas onaliza am a pele, com ce eza, como a
minha mãe azia. (L., 39 anos)
Mui as das en e is adas alam em onalização
da pele em ez de b anqueamen o, e elando assim
um dis anciamen o da dico omia b anco/neg o,
assim como p e e em ala em escolhas de es ilo
e não em ques ões que enham a e com “ aça”
(Pusse i, 2019). A maio pa e das en e is adas diz
que elas o am in oduzidas à p á ica pela p óp ia
mãe ou po memb os p óximos da amília ou do
g upo es i o de amigas. C esce am a e mulhe es
cuida do co po, epe indo de e minados ges os, com
p odu os simila es, os mesmos elogios pa a quem
conseguia uma pele mais uni o me e luminosa.
Usei pela p imei a ez es es c emes a a és de uma
amiga que i e cá, mas é de Daka . Ela dizia que
se ia a melho a o aspe o das cica izes da acne. A
minha ca a começou a muda de co . Pensei: Es ou
a ica b anca! [ isada]. Pa ei um pouco e logo ol ei
a ganha co . E, po an o, ol ei a coloca , pa a não
es aga os esul ados. (D., 44 anos)
“In o he whi e”: os pe cu sos do
b anqueamen o no co ação de Lisboa
Onde há o e a é po que há p ocu a. Podem a é e
dize que não usam es es c emes, ou que usa só a
amiga ou a amiga da amiga. Mas se odas as lojas
êm e em g ande quan idade, que dize que alguém
comp a. Ou há ou as que e ão dize que usam só
aqui ou aí pa a umas manchinhas. Ac edi a que is o
icia. Começas com uma manchinha e de epen e é
na ca a in ei a, no pescoço… (S., 38 anos)
A a i mação é de S., mulhe de P aia (Cabo Ve de),
dona de salão de beleza, com a qual con e samos
na Mou a ia.
A Mou a ia, que se coloca bem no cen o his ó ico
da cidade, é o bai o com maio concen ação de
es angei os de Lisboa e de e o seu nome ao ac o de,
após a econquis a c is ã da cidade, o p imei o ei de
Po ugal, D. A onso Hen iques (século XII), e con inado
nessa zona da cidade os muçulmanos. Nesse espaço
limi ado, que cons i ui um dos p imei os gue os da
his ó ia eu opeia, es ende-se um ema anhado de uas,
uelas, a essas e becos. Hoje, a Mou a ia é um bai o
ep esen a i o de uma Lisboa popula , adicional
e mul icul u al, que expe iencia uma condição
u bana a a essada po inúme as con a iedades e
he e ogeneidades: en elhecimen o da população a pa
da eno ação azida com os imig an es, p eca iedade
das condições de habi abilidade, comé cio o mal e
in o mal, á ico e consumo de d ogas, p os i uição,
sendo ambém um bai o exp essi o da poli onia
da con empo aneidade. Com a chegada da g ande
a alancha de imig ação – chineses, indianos, b asilei os,
paquis aneses, bengalis, nepaleses, a icanos –, a
Mou a ia hospeda a maio população esiden e e ede
come cial mul ié nica da cidade.
Mesmo que as p á icas de b anqueamen o den o
da população que i e e equen a a Mou a ia sejam
pouco os en adas, ou que exis a ce o pudo ou eceio
em con essa o uso desses cosmé icos, os p odu os
de acla amen o da pele são ex emamen e comuns,
económicos e de ácil acessibilidade em odos os
ho spo s do cen o da cidade.
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A., ou a mulhe de P aia (Cabo Ve de), clien e do
mesmo salão, in e ém na nossa con e sa:
Nas lojas indianas há bons p odu os, melho es do
que nos salões a icanos. Os indianos êm boas
a macêu icas e sabem aconselha o que usa . Eu
ponho o c eme duas, ês ezes ao dia no meu os o.
Acla a bem, mas pode da i i ação e o na a pele
mui o sensí el ao sol… Depois de uns meses con ém
pa a . Mas não mui o, senão a pele escu ece ou a ez.
Se quise es a pele que ês nas o os da publicidade,
con ém não pa a es de usa . (A., 31 anos)
O ma ke ing baseia-se em imagens que p omo em
pad ões de beleza “eu opeia” – mulhe es b ancas,
al as, mag as, com cabelos longos e lisos, olhos
g andes, na iz pequeno, so is icadas, com a ino e
cosmopoli as. Em nenhuma das lojas exis e qualque
ipo de ad e ência ou sensibilização em elação
aos e en uais iscos elacionados com os p odu os
cosmé icos cla eado es pa a a saúde. A e e escência
do comé cio do Ma im Moniz é o ea o ideal pa a
um me cado pa alelo de me cado ias impo adas
ilegalmen e e é, po an o, nessa zona que conduzimos
a nossa pesquisa de e eno, po meio da me odologia
do walking e hnog aphy, escolhendo desc e e o
passeio de um dia especí ico como ep esen a i o do
que se pode encon a em elação à pesquisa. O a o de
caminha só ecen emen e oi deba ido como mé odo de
pesquisa no âmbi o da an opologia (Ingold; Ve guns ,
2008), apesa de se uma p á ica já em uso na a e
con empo ânea, nos es udos u banos e nas abo dagens
enomenológicas e expe iências da an opologia do
embodimen . Caminha não signi ica apenas o a o de
pe co e a cidade a pé, mas ambém inclui p ocessos
como in e ação casual e obse ação pa icipan e.
Desse modo, selecionando os eixos p incipais que
compõem a á ea do Ma im Moniz e, en ando egis a
udo o que os nossos sen idos pe mi iam, isi amos
algumas lojas de come cio di o “é nico” que igu am na
zona. Pe co endo de o ma alea ó ia a a enida p incipal
Almi an e Reis, azemos nossas as pala as de Ma luci
Menezes (2004, p. 1) “o lado […] mais isí el da Mou a ia
pa ece e le i -se numa espécie de jogo de espelhos que
ep oduz imagens que ansi am en e a ideia do ípico,
adicional, popula , mul icul u al, mul ié nico, como
um no o Casal Ven oso, Texas ou a é B onx”.
Omb eando lojas de sou eni es que se mul iplicam
dia iamen e na pe spe i a de a ai ca ei as
es angei as, há odo um comé cio que se dedica a se i
quem i e e e i amen e na zona. Foi p ecisamen e
essas lojas, que não a aem olha es u ís icos, que
p ende am a nossa a enção: o supe me cado dos
imig an es do Nepal, a loja de especia ias dos indianos
na saída do me ô, o cabelei ei o a icano ou a loja de
másca as guineenses sua izinha. Não deixamos de
lado o Cen o Come cial da Mou a ia, esse monóli o
u bano que pe az os encan os de qualque an opólogo
ou cu ioso: no en an o, esse já não esconde mis é ios
e apenas uma loja – de con eção a icana – alia pa a
o p opósi o da nossa pesquisa.
As lojas de comé cio a icano igu a am na sua
mon a alguns cosmé icos amosos no mundo do
bleaching, mas com poucas embalagens disponí eis
(embalagens de Ca o Ligh , Clai Men, Beau iOn,
Rapid’Clai e c.). Con udo, oi na loja de másca as
guineenses, um aljube labi ín ico numa ua
secundá ia da Almi an e Reis, que encon amos odo
um ace o digno de ca álogo: Ca o Whi e, Ca oLigh ,
Black/Whi e Bleaching C eam, Sup eme Whi e
In ense, Beneks’ Fashion Fai , C usade Medica ed
Soap ou os bes -selle s Whi enicious (p oduzidos e
p omo idos pela modelo e emp eendedo a de o igem
cama onense Dencia, amosa pelo slogan publici á io
“whi e means pu é”), Vi -Fée, Clai Men, Beau iOn,
Rapid’Clai , Chon, Skin-Ligh , Bel Dam, en e ou os –
embalagens de co es ga idas com os os eno ípicos
a icanos e peles esb anquiçadas com so isos
en ado es –, que pa ilha am espaço no in e io da
loja com elaxan es pa a cabelo a icano, a i ado
de cachos, cabelos pos iços, másca as de madei a
da Guiné-Bissau, ins umen os musicais do Mali ou
sacos de mui os quilos de a inha de mandioca.
A si uação epe iu-se no minime cado indiano. O
amosíssimo Fai & Lo ely – p uden emen e si uado
a ás da caixa egis ado a – coexis e com incensos
di e sos, óleos pa a o cabelo e especia ias dis in as.
A sua imagem osa e b anca, com uma cadeia de
DNA a en ol e uma ace eminina escu a e is e, e
numa décalage c omá ica, sob epõe uma so iden e
e con ian e mulhe de pele cla a, é aqui o único
exemplo a igu a .
Em con apa ida, no supe me cado nepalês,
umas uas depois e com uma dimensão maio , os
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p odu os cosmé icos e de higiene disponí eis es ão
em ambém núme o ele ado: sabone es Himalaya,
p o e o es sola es Baba ia, boiões de Ni ea So , gel
de aloé- e a, óleos Va ika, numa mescla de p odu os
que conco em o imaginá io de consumo O ien e-
Ociden e. Aqui, não só Fai & Lo ely se encon a à
disposição, mas ambém o seu homónomo masculino,
Fai & Handsome. De o ma su p eenden e, não só
em quan idade supe io como ambém na e são
minia u a de c eme hid a an e, mas igualmen e
o gel de limpeza pa a a ace – di ecionados
especi icamen e pa a os consumido es masculinos.
Uma embalagem osa o e p ende-nos a a enção.
Com a o ma de embalagem de ca ão, semelhan e
a uma pomada de a mácia, uma ace eminina
ociden al igu a no can o esque do. O nome não
é e elado (Sca -Li e, Clea & Clean C eam),
mas sabemos que é “E e yone’s 1
s
Choice”. Não
p ecisamos p ocu a os ing edien es na bula in e io
ou na pa e pos e io do ca ão: esc i o anuncia
que em “hyd oquinone, e inoine & mome asone
u oa e c eam”. É um c eme de b anqueamen o
de pele com ing edien es que não são pe mi idos
na Eu opa, supondo ambém que não seja al o de
qualque ipo de a maco igilância pelo In a med.
Em qualque dos locais não alamos com os
endedo es, po enciais comp ado es ou equen ado es
do local: o nosso obje i o p imá io nesse dia de
exe cício e nog á ico e a apenas egis a que é possí el
comp a se enamen e qualque p odu o que enha
como p opósi o cla ea a pele em lojas de comé cio
“é nico” – mui o ol adas pa a a população mig an e
ou descenden e de países o a da Eu opa. Do mais
ino ensi o Fai & Lo ely (e po ino ensi o omamos as
ca ac e ís icas dos seus ing edien es a i os, e não o seu
p opósi o) a p odu os com ca ac e ís icas ne as as pa a
a pele e a saúde ge al, udo é passí el de se adqui ido
em locais de ácil acesso, ao alcance de qualque um,
a p eços acessí eis a á ios ipos de ca ei as (cinco
eu os, no máximo, po p odu o).
A cu iosidade an opológica le ou-nos de no o à
pequena con eção, úl imo edu o a icano de um Cen o
Come cial que em sido e a o da ans o mação
cons an e que a cidade em ope ado po si.
Se an es obse amos, como que pe dido no
meio dos panos mul icolo idos, poucos p odu os
de b anqueamen o, a si uação com que depa amos
passados escassos meses oi e elado a da
impo ância da ques ão que le an amos. Nesse
momen o, igu a cen al na loja e alhis a é o núme o
ele ado de cosmé icos que i alizam em co com
os ecidos expos os: Epide m Lo ion, Dip oson,
Be asol Lo ion, Fai & Whi e, Rapid’Clai , Beau iOn,
Clai men, Miki Clai , Neop osone-Gel Fo e,
Whi e Exp ess, Labigjan, Cha ms, en e ou os,
acompanham o Ca o Ligh e o Bel Dam já conhecidos.
As embalagens com imagens de indi íduos
eno ipicamen e a icanos exibem pele mais cla a.
Os ex os imp essos são ambém inequí ocos:
Ligh ening e Nou ishing ep esen am-se como
obje i os a cump i . Repe idamen e, c eme após
c eme, e i icamos que nenhum dispõe de ex os
em po uguês, mas o ancês é p esença absolu a.
Aliás, mui os deles, ligados ao comé cio senegalês,
são apenas desc i os em ancês: C ème de
Beau é Éclai cissan e, Une Me eilleuse Beau é,
Supe Éclai cissan , Soyez Belle au Quo idien. Os
ing edien es não a iam e, apesa de p oibidos,
são des acados como o ma de a ai clien es que
sabem o que e e i amen e unciona: hyd oquinone,
allan oin, be ame hasone, clobe asol… Não podemos
deixa de ques iona esse aumen o na o e a. Se á
um me cado em expansão em Lisboa?
Conside ações inais
Nes e a igo p opomos algumas e lexões sob e
as p á icas de b anqueamen o e a come cialização
dos p incipais p odu os pa a esse im ocacionados
no cen o de Lisboa, a pa i de um co pus de
en e is as ealizadas no âmbi o de uma pesquisa
an opológica mais ampla sob e p á icas es é icas,
ealizada nos úl imos ês anos. Se ainda mui o
es á em abe o, oda ia podemos a i ma que – po
quan o as mo i ações, as his ó ias e as expe iências
possam se di e en es – ce o é que nas sociedades
ma cadas po hie a quias e dis inções de classe
ígidas (a é ao exemplo das cas as na Índia), ou
ainda pela colonização eu opeia, a condição de
b anco implica múl iplos p i ilégios es u u ais,
como mais ácil acesso a uma sé ie de an agens
sociais, económicas e de s a us.
Ob iamen e, exis em di e sas nuances de
“b anqui ude” e, ao ala de “pele b anca”, es amos a