E nog á ica
Re is a do Cen o em Rede de In es igação em
An opologia
ol. 25 (1) | 2021
Incluidossiê"Desa iosdo'Tu ís ico'naA ualidade"
En e as p á icas cinema og á icas e as p á icas
u ís icas: um olha e nog á ico sob e a p odução
de ilmes u ís icos po ugueses na década de 1960
Be ween ilmmaking p ac ices and ou is p ac ices: an e hnog aphic look on he
p oduc ion o Po uguese ou ism ilms in he 1960s
So iaSampaio
Ediçãoelec ónica
URL: h p://jou nals.openedi ion.o g/e nog afica/9976
DOI: 10.4000/e nog afica.9976
ISSN: 2182-2891
Edi o a
Cen o em Rede de In es igação em An opologia
Ediçãoimp essa
Paginação: 193-210
ISSN: 0873-6561
Re ê enciaele ónica
Sofia Sampaio, «En e as p á icas cinema og áficas e as p á icas u ís icas: um olha e nog áfico
sob e a p odução de filmes u ís icos po ugueses na década de 1960», E nog áfica [Online], ol. 25
(1) | 2021, Online desde 05 ma ço 2021, consul ado em 07 ma ço 2021. URL: h p://
jou nals.openedi ion.o g/e nog afica/9976 ; DOI: h ps://doi.o g/10.4000/e nog afica.9976
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License.
En e as p á icas cinema og á icas
e as p á icas u ís icas: um olha
e nog á ico sob e a p odução de ilmes
u ís icos po ugueses na década
de 1960
So ia Sampaio
O a igo explo a a elação en e p á icas cinema og á icas e p á icas u ís icas na
p odução de ilmes u ís icos po ugueses da década de 1960. Pa a além da análise
de imagens deposi adas no A qui o Nacional das Imagens em Mo imen o (ANIM)
da Cinema eca Po uguesa-Museu do Cinema, eco o ao es emunho de p o is-
sionais do cinema e seus amilia es pa a en a ecupe a os con ex os e as p á icas
de p odução des es ilmes, numa espécie de e nog a ia e ospec i a do campo de
p odução cinema og á ica desse empo. Ainda que equen emen e elegados (pelos
p óp ios ealizado es) pa a uma posição secundá ia ou ma ginal, es es e ou os il-
mes de u ilidade desempenha am um papel impo an e na ca ei a des es p o issio-
nais, pe mi indo-lhes desen ol e uma p áxis p o issional econhecida den o e o a
do meio cinema og á ico e, em ge al, pe manece den o de uma p o issão ma cada
po uma ele ada p eca iedade labo al. Na linha de eo ias “não- ep esen acionais”
ou “mais-do-que- ep esen acionais”, analiso a p odução de imagens em mo imen o
u ís icas à luz da sob eposição de expe iências cinema og á icas e u ís icas inca -
nadas e si uadas, e não an o da imposição di ec a de um “olha u ís ico” po pa e
que da indús ia que do Es ado.
PALAVRAS-CHAVE: ilmes u ís icos, p á icas, Po ugal (anos 60), a qui o de ima-
gens em mo imen o, e nog a ia e ospec i a.
Be ween ilmmaking p ac ices and ou is p ac ices: an e hnog aphic look
on he p oduc ion o Po uguese ou ism ilms in he 1960s This a icle
explo es he ela ionship be ween ilmmaking p ac ices and ou is p ac ices in
he p oduc ion o Po uguese ou ism ilms in he 1960s. Besides analysing he
images deposi ed in he Na ional A chi e o he Mo ing Images (ANIM) o he
Po uguese Film Museum (Cinema eca Po uguesa-Museu do Cinema), I d aw
on in e iews wi h ilmmake s and hei ela i es o e ie e he p oduc ion con-
ex s and p ac ices o he ilms, in a kind o e ospec i e e hnog aphy o he ilm
p oduc ion ield o hose imes. F equen ly elega ed (by he ilmmake s hem-
sel es) o a seconda y o ma ginal posi ion, hese and o he u ili y ilms played an
impo an pa in he ca ee s o hese p o essionals, allowing hem o de elop a
p o essional p axis ecognised inside and ou side he ield and, in gene al, emain
in a p o ession shaped by g ea ins abili y. In line wi h “non- ep esen a ional” o
“mo e- han- ep esen a ional” heo ies, I analyse he p oduc ion o ou ism mo -
ing images in he ligh o embodied and si ua ed ilmmaking and ou is expe i-
e nog á ica e e ei o de 2021 25 (1): 193-210
194 SOFIA SAMPAIO e nog á ica e e ei o de 2021 25 (1): 193-210
OS DESENVOLVIMENTOS TEÓRICOS MAIS RECENTES SOBRE TURISMO
êm p ocu ado ecupe a dimensões co po ais e senso iais que es i e am
ausen es ou pe maneciam ma ginais em g ande pa e dos es udos (Ob ado
2008).1 A ên ase ecai ago a no aze – no aze u ismo – daí a impo ância
que concei os como “pe o mance”, “co po alidade”, “ime são” e “p á ica” êm
indo a adqui i na li e a u a (Veijola e Jokinen 1994; Edenso 2000; Coleman
e C ang 2002; C ouch e Des o ges 2003; Ob ado 2003). Sob o impulso de
eo ias “não- ep esen acionais” (Th i 2007) ou “mais-do-que- ep esen acio-
nais” (Lo ime 2005), as ma e ialidades do u ismo, es udadas em p ocesso
(C ouch 2002), êm indo a assumi um maio ele o, complemen ando ou
ul apassando as abo dagens pu amen e semió icas e discu si as que domi-
na am es a á ea de conhecimen o (Hald up e La sen 2006; Sampaio 2013).
A e lexão que enho indo a ealiza sob e as in e secções en e o u ís ico e
o isual – endo como base um co pus de imagens em mo imen o ealizadas
em Po ugal ao longo do século XX2 – pa ilha e bene icia de algumas des as
endências eó icas. O isionamen o em sé ie de imagens de a qui o de á ias
épocas ale ou-me pa a o que ha ia de pa ecido e de di e en e nessas imagens,
mas ambém me enco ajou a des ia a a enção da ques ão das ep esen ações
1 Es e abalho esul a de in es igação enquad ada no p og ama In es igado FCT (IF/00313/2013)
e desen ol ida en e Janei o de 2014 e Dezemb o de 2018, no Cen o em Rede de In es igação em
An opologia (CRIA). Ve sões p elimina es o am ap esen adas ao colóquio “Modos de aze , modos de
se : p á icas a ís icas na e com a an opologia” e ao 2.º Encon o do G upo de In es igação P á icas
e Polí icas da Cul u a do CRIA, que deco e am, espec i amen e, em Ma ço e Ou ub o de 2017, no
CRIA (UID/ANT/04038/2013). Ag adeço ao Nuno Domingos, que discu iu a minha comunicação, como
deba edo , no segundo e en o. Ag adeço ambém, com especial ap eço, aos p o issionais de cinema
en e is ados, bem como ao Gonçalo Mo a e ao Sé gio Bo dalo e Sá, que pa icipa am na p epa ação e
condução das en e is as ilmadas. O a igo segue a g a ia an e io ao aco do o og á ico (AO90).
2 O co pus em causa é compos o po imagens em mo imen o analógicas de não- icção, em á ios
o ma os, que azem pa e do ace o do A qui o Nacional das Imagens em Mo imen o (ANIM)
da Cinema eca Po uguesa-Museu do Cinema. Foi elabo ado no âmbi o do p ojec o explo a ó io
“A ás da Câma a: P á icas de Visualidade e Mobilidade no Filme Tu ís ico Po uguês” (EXPL/IVC-
-ANT/1706/2013), inanciado pela FCT, acolhido pelo CRIA, e implemen ado en e Ab il de 2014 e
Se emb o de 2015.
ences ha o e lap and no so much o he di ec imposi ion o a “ ou is gaze” by
he indus y o he S a e.
KEYWORDS: ou ism ilms, p ac ices, Po ugal (1960s), mo ing image a chi es,
e ospec i e e hnog aphy.
SAMPAIO, So ia ([email p o ec ed]) – Ins i u o de Ciências Sociais,
Uni e sidade de Lisboa, Po ugal.
ENTRE AS PRÁTICAS CINEMATOGRÁFICAS E AS PRÁTICAS TURÍSTICAS… 195
pa a a ques ão das p á icas. Ou seja, em ez de e nessas i e acções a p o a da
esiliência de ideologias que, nou as épocas e egimes polí icos, e ão ins u-
men alizado o u ismo e as suas ep esen ações, p ocu ei indaga sob e aquilo
que pode ia de e -se às p á icas u ís icas e cinema og á icas que es i e am na
aiz dessas imagens. Po ou as pala as, como hipó ese de abalho assumi
que as imagens que me chega am a a és do a qui o ca ega iam em si ma cas,
não apenas de uma ideologia dominan e, mas ambém da con e gência que
i e a luga , du an e a p odução des as imagens, des es dois ipos de p á icas.
Es a hipó ese o igina a-se num p essupos o eó ico e aca e a a implicações
me odológicas. O p essupos o eó ico e a a insa is ação com o concei o de olha
u ís ico, p opos o e ulga izado pelo sociólogo b i ânico John U y (2002
[1990]), que em exe cido g ande in luência sob e o es udo da isualidade
u ís ica. Ainda que subme ido a eap eciações (U y 2002 [1990]: 145-156;
U y e La sen 2011), o ca ác e endencialmen e de e minis a (MacCannell
2001), es á ico e abs ac o do olha u ís ico (de edo do concei o de “olha
clínico” de Foucaul , eo icamen e es imulan e, mas endencialmen e escopo-
óbico) em di icul ado o apa ecimen o de análises mais inas e ma izadas da
isualidade em con ex os u ís icos conc e os. Na e dade, se o concei o de
olha u ís ico cons i ui um obs áculo à análise de imagens conc e as, impe-
dindo-nos de e como se ê, ele é ainda menos ú il quando se a a de anali-
sa imagens em mo imen o, em elação às quais a eo ia de U y é, em la ga
medida, omissa (Sampaio 2015, 2020).
Es udos na á ea da o og a ia êm desa iado as implicações de e minís icas
do olha u ís ico, ao salien a em a qualidade pe o ma i a da o og a ia u ís-
ica amado a, uma p á ica que esul a an o da ci ação de modelos p eexis en-
es (“quo a ion”) como da p odução co eog a ada de no os planos (“ aming”),
o que az com que es as o og a ias enham que se en endidas como pe -
o madas pa a além de p é- o madas (La sen 2005, 2006). Es a p opos a é
acilmen e aplicá el aos ilmes amado es ei os po u is as, que esul am de
p á icas inca nadas e i idas em p imei a mão,3 o que lhes aleu já a desig-
nação de “ ilmes de possessão” (Mo a 2017: 98). A g ande dú ida é sabe se
pode se igualmen e aplicada a ilmes de p omoção u ís ica. À p imei a is a,
um ilme de iagem ei o po um u is a deno a uma expe iência mais pessoal,
di ec a e pe o ma i a do que um ilme de p omoção u ís ica. Po ou o lado,
po quê assumi que os cineas as p o issionais são p a ican es menos inca na-
dos do que os u is as que azem ilmes amado es? Não pode ão essas ou as
p á icas se ão inca nadas e ão de inido as das imagens quan o o são as p á-
icas dos cineas as amado es?
3 O e mo “inca nado” é a minha opção de adução pa a embodied, po me pa ece menos ambíguo
do que a al e na i a “inco po ado”, habi ualmen e usado no sen ido de “mis u ado”, “admi ido como
memb o” ou “incluído”.
196 SOFIA SAMPAIO e nog á ica e e ei o de 2021 25 (1): 193-210
A p incipal consequência me odológica des a hipó ese de abalho consis-
iu na ealização de en e is as semies u u adas a p o issionais do cinema
que inham es ado en ol idos, du an e a década de 60, na p odução de algu-
mas das imagens u ís icas isionadas. A pa i do c uzamen o das imagens
do a qui o e dos depoimen os ecolhidos, en ei desen ol e uma espécie de
“e nog a ia e ospec i a” ou “po ecuo” (Almeida 2007, 2009: 46; Fe ei a
e Almeida 2017) 4 do campo cinema og á ico po uguês desse empo, com o
objec i o de ecupe a , na medida do possí el, as p á icas e os con ex os de
p odução das imagens isionadas.5 Assim, en e No emb o de 2014 e Maio
de 2015, en e is ámos cinco ealizado es, um amilia de um ealizado , um
ope ado de câma a, um di ec o de o og a ia e um músico (na qualidade de
composi o de música pa a cinema). Mais ecen emen e, en e is ei um sex o
ealizado .6
Os anos 60 são conhecidos, na his ó ia do cinema po uguês, como um
pe íodo excepcional, que iu o su gimen o e a consolidação de apoios à p o-
dução de ilmes e à o mação de écnicos no es angei o po pa e do Es ado e
de p i ados;7 o e o ço da pa icipação em ci cui os in e nacionais (sob e udo
ao ní el da co-p odução e da exibição em es i ais); e, em ge al, o desen ol-
imen o de um clima p opício à expe imen ação a ís ica, que culminou na
p odução de um ipo de cinema que se passou a ap esen a e a se is o como
“no o” (c . Cunha 2018). O apa ecimen o e a expansão de ac i idades a ins,
ais como a ele isão (a pa i de 1957) e a publicidade, ambém desempe-
nha am um papel de ele o nes as ans o mações. Todos os p o issionais que
en e is ei (excep o dois casos, que pe enciam a ge ações mais an igas) es a-
am a da os p imei os passos nes e meio.
4 No abalho des as au o as, o objec o de es udo é o p óp io p ocesso de ememo ação, o o ja-
men o da memó ia (indi idual e colec i a) e a a iculação en e o público e o p i ado, a g ande e a
pequena his ó ia. Apesa de e em assomado na in es igação, es as ques ões não cons i uí am uma
p eocupação cen al, pelo que não se ão abo dadas nes e a igo.
5 A p opos a de “desen e a ” p á icas a pa i de ep esen ações (os ilmes) e discu sos (as en e-
is as) deco e da impossibilidade da obse ação di ec a e p esencial. O que se ecupe a são semp e
indícios, daí o eio conjec u al que a a essa a minha análise.
6 O uso da p imei a pessoa do plu al, em pa es des e a igo, não é majes á ico: as p imei as 12 en e-
is as o am p epa adas, conduzidas e ilmadas com o apoio de dois bolsei os de in es igação. Ainda
que a in enção osse en e is a um leque ab angen e de p o issionais, as en e is as acaba am po
incidi sob e ealizado es. A du ação de cada en e is a oi a iá el (de uma a ês ho as), ocasionando
eencon os apenas quando o en e is ado mani es ou in e esse, o que sucedeu em ês casos. A cu a
du ação des e p ojec o explo a ó io, a decisão de ilma as en e is as, e a idade a ançada dos nossos
in e locu o es (com uma média de 80 anos) di a am a não ealização de encon os múl iplos. Em Junho
de 2018, ealizei duas no as en e is as, ago a g a adas em supo e áudio. Todas as en e is as i e am
luga em Lisboa ou a edo es.
7 Designadamen e, o Fundo do Cinema Nacional (c iado em 1948) e, a pa i de 1961, a Fundação
Calous e Gulbenkian.
ENTRE AS PRÁTICAS CINEMATOGRÁFICAS E AS PRÁTICAS TURÍSTICAS… 197
O que eme giu des as en e is as oi um e a o complexo das elações en e
p á icas cinema og á icas e u ís icas que se es abelece am no momen o da
odagem de alguns ilmes. Foi possí el, po um lado, e i ica que, du an e a
p odução das imagens, o am ei as opções i idas e inca nadas que se e ela-
am c uciais pa a o o ma o inal dos ilmes, sendo possí el ala de um e o ço
mú uo e ha monizado en e os dois ipos de p á icas. A análise do ilme Albu-
ei a (1968), do ealizado An ónio de Macedo, que desen ol o na p imei a
pa e des e a igo, ilus a bem esse p ocesso.8 As en e is as ouxe am ainda a
lume incompa ibilidades de undo en e os campos u ís ico e cinema og á ico
– en endidos nos e mos desc i os e ope acionalizados po Pie e Bou dieu,
nomeadamen e nos seus esc i os sob e o campo li e á io (1993). A ideia de
que pudesse e ha ido uma sob eposição (ou um con ágio) en e p á icas cine-
ma og á icas e p á icas u ís icas du an e a p odução dos ilmes discu idos cau-
sou equí ocos e descon o o em alguns dos meus in e locu o es, que explo o
na segunda pa e do a igo. Po im, os ela os que ecolhi suge em um campo
cinema og á ico ca ac e izado po uma g ande ins abilidade, onde os ilmes
u ís icos, jun amen e com ou os ilmes “u ili á ios ou de u ilidade” (Hedige
e Vonde eau 2009), desempenha am um papel impo an e na ida des es p o-
issionais. Es e aspec o em sido desconside ado na maio pa e dos es udos
sob e cinema po uguês e me ece se al o de ea aliação. Disso da ei con a na
e cei a e úl ima pa e do a igo.
IMAGENS PRATICADAS: ALBUFEIRA (1968)
Em 2015, o isionamen o, nas ins alações do ANIM, de uma cópia do ilme
Albu ei a oi um dos mo i os pa a solici a uma en e is a a An ónio de
Macedo e a Elso Roque, espec i amen e, ealizado e di ec o de o og a-
ia des e ilme. P oduzida po F ancisco de Cas o 9 pa a p omo e u is ica-
men e a egião alga ia pouco empo depois da abe u a do ae opo o de Fa o
(1965), es a cu a-me agem de 35 mm, ilmada a co es, adop a o om ligei o
e bem-dispos o, en ão mui o em oga num ce o ipo de cinema na a i o,
pa a con a as expe iências de ês apa igas ame icanas que se encon am de
isi a a Albu ei a pa a esc e e um a igo ilus ado pa a uma e is a ame icana.
É, pois, num o ma o iccional, na ado na p imei a pessoa e em oz-o po uma
das pe sonagens (que, na e são po uguesa, ala com so aque es angei o) e,
8 P ocu ei man e o anonima o dos meus in e locu o es quando discu o aspec os ge ais (e enden-
cialmen e especula i os), mas não quando analiso ilmes especí icos que o am abo dados du an e as
en e is as. Es a opção algo he e odoxa esul ou da necessidade de iden i ica os ilmes, que es ão no
domínio público e podem se is os.
9 F ancisco de Cas o e a um dos nomes mais espei ados do sec o documen a is a, nes a década
e na seguin e. A sua emp esa de p odução p opo cionou abalho a ealizado es como An ónio de
Macedo, Fonseca e Cos a, An ónio Escudei o, en e ou os.
198 SOFIA SAMPAIO e nog á ica e e ei o de 2021 25 (1): 193-210
po an o, a a és da mediação das ês u is as, que Albu ei a nos é dada a
descob i . Apesa de e en ol ido pa ocinado es meno es, como es au an-
es, ba es noc u nos e ou os comé cios locais, o ilme oi uma encomenda da
Câma a Municipal e da Jun a de Tu ismo que, segundo Macedo, ize am eco-
mendações sob e os sí ios e e en os que deseja am e no ilme. A encomenda
pedia que o ilme mos asse os momen os al os da ida de Albu ei a ao longo
de um ano, a im de inclui a acções como as amendoei as em lo (em Fe e-
ei o); os es ejos da Páscoa; a celeb ação do “Dia do Tu is a” (25 de Ab il); a
apanha do mo ango (em Maio) e, na u almen e, a es ação balnea , nos meses
de Ve ão. Pa a além de pe mi i um e a o mais comple o da localidade (que
ia ao encon o do adicional “ ilme egional”, de ca iz monog á ico, mui o do
ag ado das au o idades locais), a adopção de um ciclo longo isa a ambém
con a ia a sazonalidade do sec o u ís ico, ao mos a o Alga e como uma
egião de clima ameno ambém nos meses mais ios.10 A es u u a iccional,
que con emplou ecu sos e ó icos como a analepse e a ci ação de diá ios e
“no as de campo”, oi a solução que o ealizado encon ou pa a jun a es a
di e sidade de e en os, espaços e empo alidades e, desse modo, sa is aze os
equisi os da encomenda.
Macedo con i mou que a equipa de odagem e e que iaja pa a Albu ei a
á ias ezes; mas ambém e e iu uma es adia mais longa, de duas semanas,
du an e o Ve ão, quando ele e o di ec o de o og a ia, “pagos pela p odução do
ilme” [en e is a 7, 12/03/2015], aluga am uma casa de é ias com as espec i-
as amílias. Es a ocasião e á pe mi ido à equipa expe imen a Albu ei a como
um des ino de é ias em p imei a mão, o que e á esul ado numa ep esen a-
ção dos u is as e do u ismo mais ime si a e ino ado a. Com e ei o, longe de
se em um p e ex o ou uma ânco a pa a a inse ção de is as pi o escas (como
acon ecia na maio pa e dos ilmes u ís icos dos anos 40 e 50 – c . Sampaio
2014), as ês u is as, modelos de p o issão, eme gem nes e ilme como co -
pos a aen es que in e agem isicamen e com o espaço en ol en e. Vemo-las a
desen ol e p á icas ão di e en es como pe co e a egião ao olan e de um
jipe, sai à noi e, dança numa boî e ao som de uma banda yé-yé, come em es-
au an es e esplanadas, isi a o me cado, i à p aia, in e agi com a população
local, e c. É p o á el que o p óp io Macedo se enha en ol ido em mui as des-
as p á icas du an e a sua es adia em Albu ei a. O ilme o e ece-nos momen-
os de cu iosa imb icação de p á icas cinema og á icas e p á icas u ís icas:
10 Es a lógica climá ica aplica a-se ambém ao es o do país, como suge em os á ios ilmes que
incluem “Ab il” no í ulo (ex.: Ap il in Po ugal, ealizado po Euan Lloyd, no Reino Unido, em 1956)
ou que si uam a isi a a Po ugal nesse mês. Macedo mos ou-se c í ico des e aspec o do seu ilme: “[…]
aquela coisa que ha ia na al u a, ‘Ab il em Po ugal’, que dize , ‘Po ugal é um país ão bom u is i-
camen e, que a é em Ab il…’ que nou os países é um mês impossí el de io, e chu a e não sei quê…
‘Ab il em Po ugal é uma ma a ilha!’ Não é e dade.” [En e is a 1, 02/03/2015]
ENTRE AS PRÁTICAS CINEMATOGRÁFICAS E AS PRÁTICAS TURÍSTICAS… 199
as apa igas são equen emen e is as a o og a a e a ilma com uma câma a
amado a os objec os e as paisagens que apa ecem no ilme. Numa écnica
an iga que emon a ao cinema mudo, é inse ida uma moldu a em alguns des es
planos, que isa dis ingui en e as imagens subjec i as mediadas pelas câma-
as des as u is as e as imagens objec i as (e p e ensamen e não-mediadas) do
p óp io ilme. As expe iências das p o agonis as são, des e modo, ap esen adas
como ac i as e pessoais, e não ge ais e “ ecebidas”. A possibilidade, cada ez
mais eal, de iaja a é Albu ei a, ab e-se aos espec ado es do ilme que, com
câma as amado as suas, pode ão i a que e expe imen a as mesmas p á icas
isuais u ís icas.
Macedo mencionou ambém dois episódios que suge em a “con aminação”
de ep esen ações iccionais po p á icas eais inca nadas. O p imei o diz es-
pei o à cena em que uma das apa igas (pe soni icando uma epó e p o is-
sional) en e is a, com o seu g a ado , um pescado na p aia. O ealizado
desc e eu a cena como uma “men i a”, já que esul a a da mon agem de exce -
os de uma en e is a que ele p óp io conduzi a:
“[…] aquelas cenas dos pescado es que lá apa ecem, aquilo oi g a ado
mesmo… os pescado es é que esponde am àquelas pe gun as. As pe gun as
que lá apa ecem, ui eu que as iz […] depois iz uma mon agem em que
pus a oz da locu o a es angei a a epe i as pe gun as que eu inha ei o
e a cola com as espos as que eles da am. Po an o, aquilo que ocês êem
no ilme é uma ald abice pegada do p incípio ao im. Aliás, pa a isso é que
se e o cinema, da ealidade es amos nós a os. Po an o aquelas en e-
is as que elas azem, que os pescado es espondem, é udo men i a, não
oi nada assim. Fui eu que iz as en e is as aos pescado es, ap o ei ei das
espos as que eles de am só os bocados que me in e essa am. Mais ainda:
de algumas coisas que eles disse am, eu in en ei pe gun as pa a aquilo.”
[En e is a 7, 12/03/2015]
Apesa do om dep ecia i o, que em po al o uma isão idealis a do cinema,
es e episódio coloca em e idência a dedicação e habilidade p o issionais do ea-
lizado , que lançou mão a um ol de a e as demo adas e elabo adas (incluindo
uma espécie de pesquisa e nog á ica sob e os pescado es da localidade), pa a
p oduzi uma sequência de imagens ela i amen e b e e. O exce o dá oz
à c ia i idade e agencialidade do ealizado , que eme gem ambém nou as
en e is as como duas das componen es iden i á ias mais impo an es des e
g upo p o issional.
O segundo episódio elaciona-se com a odagem de imagens subaquá icas.
Num dos momen os cen ais do ilme, as ês u is as chegam à p aia, despem
a oupa e me gulham de a o de banho no ma . É en ão que as emos a nada
debaixo de água, num egis o documen al ino ado que consegue ansmi i ,
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de o ma ime si a, os aspec os senso iais mais sub is des a ac i idade balnea .
Segundo o ealizado e o di ec o de o og a ia, o am as p imei as imagens
subaquá icas do cinema po uguês. Em en e is as sepa adas, ambos os p o is-
sionais desc e e am, com algum po meno , a cons ução imp o isada e a e-
sanal de uma câma a à p o a de água a pa i de uma panela de p essão, bem
como os es es ealizados na p aia e no labo a ó io pa a se ob e em os esul a-
dos écnicos desejados. A sequência – uns 30 segundos de imagens ao som de
uma música jo ial – o e ece uma ep esen ação sines ésica do p aze associado
ao banho de ma (e à obse ação do co po eminino). Es as e ou as imagens
do ilme são ilus a i as da deslocação, que se azia sen i em Po ugal, de ac i-
idades u ís icas cen adas no e as is as (ge almen e associadas à isi a de
monumen os his ó icos nacionais), pa a ac i idades u ís icas desen ol idas
em o no da íade ma -a eia-e-sol, onde o co po do(a) u is a e ou os sen idos
que não a isão assumem algum des aque (Sampaio 2017).
“JÁ LEVÁVAMOS A COISA A SÉRIO”: AS PRÁTICAS DO SABER-FAZER
A a e a de ecupe a , a a és de en e is as, as p á icas e os con ex os de p o-
dução das imagens isionadas conheceu algumas di iculdades que me ecem se
analisadas po si só, já que lançam luz sob e as ques ões em es udo. Em p i-
mei o luga , icou cla o que os ilmes em causa es a am consignados ao esqueci-
men o, em esul ado do es a u o de meno idade e ma ginalidade a que g ande
pa e da his ó ia e da his o iog a ia do cinema, dominadas po p incípios es é-
icos e au o ais, êm indo a elega as imagens em mo imen o de não- icção,
os o ma os cu os e os géne os amado es e “de u ilidade” ( Sampaio, Sche e e
Blank 2016). Ou seja, as en e is as inham como al o p i ilegiado memó ias
des alo izadas e “subexpos as” (c . Fe ei a e Almeida 2017), o que nem susci-
a a o in e esse dos po enciais in e locu o es nem azia an e e esul ados ani-
mado es.11 O p imei o desa io consis iu, po an o, em con ence os con ac os
que ínhamos a ala em sob e ilmes conside ados – po si e po ou os – como
ilmes meno es, com as di iculdades ine en es a um exe cício de ememo ação
que sucede a um pe íodo de desin e esse p olongado.
O en oque colocado nas p á icas ambém se e elou inespe ado. Com a
excepção de algum episódio mais ma can e – al como a já e e ida ilmagem
subma ina, ela ada a p opósi o do ilme Albu ei a – as minhas inqui ições sob e
p á icas cinema og á icas ecebiam espos as b e es, e asi as ou de ca ác e
11 Um exemplo disso oi o longo diálogo que man i e ao ele one com um dos meus con ac os, que
du ida a da pe inência de ala mos sob e ilmes que ele p óp io des alo iza a. Ao mesmo empo que
en a a con ence -me da i ele ância desses ilmes, ia des elando pequenas his ó ias que me suge iam
o con á io. A en e is a oi inalmen e ma cada e ealizada, mas sem que o en e is ado abandonasse
a sua a i ude. Encon ei a mesma eacção nou os con ac os, que acaba am po não conduzi a uma
en e is a.
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dado às dimensões isual, semió ica e cul u al do u ismo, que ez com que
es e enha sido es udado sob e udo como um sis ema de signos, discu sos e
ep esen ações. Es a ausência es ende-se aos es udos de cinema, pa a os quais
o ealizado (quando conside ado) é um au o , nunca um co po em labo ação.
O abalho que enho ealizado sob e as imagens em mo imen o u ís icas em-
me con on ado com a necessidade de as comp eende ambém à luz das p á i-
cas que lhes de am o ma. Tomando a sé io o a gumen o de que o impulso da
iagem acompanha o cinema desde as suas o igens (Cos a 2017: 7), enho p o-
cu ado inqui i de que modo é que os dois ipos de p á icas (cinema og á icas e
u ís icas) con e gi am na p odução de imagens u ís icas conc e as a pa i da
análise das ma cas ou dos aços que essa con e gência e á deixado em imagens
de a qui o. A a e a nem é de ácil implemen ação nem ga an e esul ados con-
clusi os. A p emissa de que essas imagens exis em e azem sen ido em elação a
um campo cinema og á ico não chega, po si só, pa a e oca a o alidade desse
campo, que conseguimos islumb a apenas em agmen os. Um labo ioso a-
balho de cons ução de es udos de caso a iculados, capaz de liga ní eis de
mac o-, meso- e mic o-análise, pe manece, em la ga medida, po aze .
O isionamen o de imagens de a qui o e a sua análise à luz de dados eco-
lhidos em en e is as suge em que a ep esen ação inca nada e ime si a dos
u is as e do u ís ico que emos su gi nos anos 60 esul ou não an o da
imposição de um olha u ís ico po pa e da indús ia ou do Es ado (apesa de
es e ac o não pode se des alo izado) como da sob eposição e imb icação de
expe iências cinema og á icas e u ís icas conc e as. Se aze u ismo en ol e
semp e um co po que ê, come, iaja, expe imen a, aze cinema en ol e sem-
p e um co po que ilma. Po ou o lado, al ez po se a a de uma p á ica
co en e, a encomenda nunca nos oi ap esen ada como uma imposição à qual
os cineas as se inham de subme e . Na e dade, ela equen emen e su gia
po inicia i a das p odu o as e não das en idades u ís icas ou indus iais.
A p odu o a de F ancisco de Cas o inha pelo menos um anga iado de enco-
mendas, i.e., uma pessoa que iaja a pelo país a sonda o in e esse que as
á ias câma as municipais, jun as de u ismo e áb icas podiam e num ilme
de p omoção. Foi essa a o igem do ilme Albu ei a, de inido pelo ealizado
como “uma encomenda p o ocada” [en e is a 7, 12/03/2015]. Do mesmo
modo – sal o em episódios ela ados como excepcionais – nenhum dos nossos
in e locu o es e e iu a exis ência de cons angimen os à sua ac i idade. Mui o
pelo con á io: o am-nos o necidos á ios exemplos de expe imen ação c ia-
i a, e os ealizado es não deixa am de sublinha a o al esponsabilidade pelas
decisões omadas, mesmo em si uações de con li o. Po conseguin e, di icil-
men e podemos en ende a p odução des as imagens u ís icas como pa e
de um “cí culo he menêu ico” (Hald up e La sen 2003; La sen 2006), onde
as mesmas ep esen ações são passi amen e ecebidas (i. e., “consumidas”) e
ep oduzidas, alheias à mediação de agen es inca nados e si uados.
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No en an o, ambém é e dade que os á ios in e locu o es nos de am con a
da exis ência de um conjun o de noções p á icas e es é icas que os guia a na
escolha dos mo i os de in e esse u ís ico que deseja am aze pa a os seus
ilmes. Ainda que nele a i icado, es as noções ul apassam o campo u ís ico,
admi indo sob eposições com ideias e p á icas polí icas dominan es e ex a-
asando pa a uma espécie de senso comum que as az pa ece ób ias. É nes e
quad o que de emos comp eende as chamadas “ob igações do Tesou o” – um
e mo que um dos nossos in e locu o es usou com i onia pa a designa a ade-
são ac i a, da pa e de alguns p o issionais (insuspei os p a ican es do egime
eelance ), ao modelo de documen á io o icial ideologicamen e ma cado, com
is a a dele capi aliza em na enda dos seus ilmes u ís icos aos o ganismos
públicos.
À medida que a es e a do u ís ico se au onomiza a da es e a do Es ado,
es e p ocesso pe dia e eno ou diluía-se, com esul ados con adi ó ios, ainda
an es da queda do egime salaza is a-ma celis a. O obus ecimen o do campo
cinema og á ico ambém con ibuía pa a as con adições, já que, como imos,
as noções es é icas e cinema og á icas nem semp e es a am em sin onia com
as noções do u ís ico. A p odução de ilmes u ís icos cons i ui um ângulo
de análise p i ilegiado sob e es a iangulação de olha es e sabe es p á icos.
O seu es udo é essencial pa a uma melho comp eensão não apenas des as ima-
gens, mas ambém da o ma como a isualidade u ís ica em sido abs aída,
mobilizada e ei icada pa a a ança e e o ça de e minados en endimen os do
u ís ico, em de imen o de ou os.
ENTRE AS PRÁTICAS CINEMATOGRÁFICAS E AS PRÁTICAS TURÍSTICAS… 209
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