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Entre as práticas cinematográficas e as práticas turísticas: um olhar etnográfico sobre a produção de filmes turísticos portugueses na década de 1960

Abstract

O artigo explora a relação entre práticas cinematográficas e práticas turísticas na produção de filmes turísticos portugueses da década de 1960. Para além da análise de imagens depositadas no Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM) da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, recorro ao testemunho de profissionais do cinema e seus familiares para tentar recuperar os contextos e as práticas de produção destes filmes, numa espécie de etnografia retrospectiva do campo de produção cinematográfica desse tempo. Ainda que frequentemente relegados (pelos próprios realizadores) para uma posição secundária ou marginal, estes e outros filmes de utilidade desempenharam um papel importante na carreira destes profissionais, permitindo-lhes desenvolver uma práxis profissional reconhecida dentro e fora do meio cinematográfico e, em geral, permanecer dentro de uma profissão marcada por uma elevada precariedade laboral. Na linha de teorias “não-representacionais” ou “mais-do-que-representacionais”, analiso a produção de imagens em movimento turísticas à luz da sobreposição de experiências cinematográficas e turísticas incarnadas e situadas, e não tanto da imposição directa de um “olhar turístico” por parte quer da indústria quer do Estado.

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Entre as práticas cinematográficas e as práticas turísticas: um olhar etnográfico sobre a produção de filmes turísticos portugueses na década de 1960

Author: Sampaio, Sofia
Publisher: CRIA
Year: 2021
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/47084/1/ICS_SSampaio_Entre.pdf
E nog á ica
Re is a do Cen o em Rede de In es igação em
An opologia
ol. 25 (1) | 2021
Incluidossiê"Desa iosdo'Tu ís ico'naA ualidade"
En e as p á icas cinema og á icas e as p á icas
u ís icas: um olha e nog á ico sob e a p odução
de ilmes u ís icos po ugueses na década de 1960
Be ween ilmmaking p ac ices and ou is p ac ices: an e hnog aphic look on he
p oduc ion o Po uguese ou ism ilms in he 1960s
So iaSampaio
Ediçãoelec ónica
URL: h p://jou nals.openedi ion.o g/e nog afica/9976
DOI: 10.4000/e nog afica.9976
ISSN: 2182-2891
Edi o a
Cen o em Rede de In es igação em An opologia
Ediçãoimp essa
Paginação: 193-210
ISSN: 0873-6561
Re ê enciaele ónica
Sofia Sampaio, «En e as p á icas cinema og áficas e as p á icas u ís icas: um olha e nog áfico
sob e a p odução de filmes u ís icos po ugueses na década de 1960», E nog áfica [Online], ol. 25
(1) | 2021, Online desde 05 ma ço 2021, consul ado em 07 ma ço 2021. URL: h p://
jou nals.openedi ion.o g/e nog afica/9976 ; DOI: h ps://doi.o g/10.4000/e nog afica.9976
E nog áfica is licensed unde a C ea i e Commons A ibu ion-NonComme cial 4.0 In e na ional
License.
En e as p á icas cinema og á icas
e as p á icas u ís icas: um olha
e nog á ico sob e a p odução de ilmes
u ís icos po ugueses na década
de 1960
So ia Sampaio
O a igo explo a a elação en e p á icas cinema og á icas e p á icas u ís icas na
p odução de ilmes u ís icos po ugueses da década de 1960. Pa a além da análise
de imagens deposi adas no A qui o Nacional das Imagens em Mo imen o (ANIM)
da Cinema eca Po uguesa-Museu do Cinema, eco o ao es emunho de p o is-
sionais do cinema e seus amilia es pa a en a ecupe a os con ex os e as p á icas
de p odução des es ilmes, numa espécie de e nog a ia e ospec i a do campo de
p odução cinema og á ica desse empo. Ainda que equen emen e elegados (pelos
p óp ios ealizado es) pa a uma posição secundá ia ou ma ginal, es es e ou os il-
mes de u ilidade desempenha am um papel impo an e na ca ei a des es p o issio-
nais, pe mi indo-lhes desen ol e uma p áxis p o issional econhecida den o e o a
do meio cinema og á ico e, em ge al, pe manece den o de uma p o issão ma cada
po uma ele ada p eca iedade labo al. Na linha de eo ias “não- ep esen acionais”
ou “mais-do-que- ep esen acionais”, analiso a p odução de imagens em mo imen o
u ís icas à luz da sob eposição de expe iências cinema og á icas e u ís icas inca -
nadas e si uadas, e não an o da imposição di ec a de um “olha u ís ico” po pa e
que da indús ia que do Es ado.
PALAVRAS-CHAVE: ilmes u ís icos, p á icas, Po ugal (anos 60), a qui o de ima-
gens em mo imen o, e nog a ia e ospec i a.
Be ween ilmmaking p ac ices and ou is p ac ices: an e hnog aphic look
on he p oduc ion o Po uguese ou ism ilms in he 1960s  This a icle
explo es he ela ionship be ween ilmmaking p ac ices and ou is p ac ices in
he p oduc ion o Po uguese ou ism ilms in he 1960s. Besides analysing he
images deposi ed in he Na ional A chi e o he Mo ing Images (ANIM) o he
Po uguese Film Museum (Cinema eca Po uguesa-Museu do Cinema), I d aw
on in e iews wi h ilmmake s and hei ela i es o e ie e he p oduc ion con-
ex s and p ac ices o he ilms, in a kind o e ospec i e e hnog aphy o he ilm
p oduc ion ield o hose imes. F equen ly elega ed (by he ilmmake s hem-
sel es) o a seconda y o ma ginal posi ion, hese and o he u ili y ilms played an
impo an pa in he ca ee s o hese p o essionals, allowing hem o de elop a
p o essional p axis ecognised inside and ou side he ield and, in gene al, emain
in a p o ession shaped by g ea ins abili y. In line wi h “non- ep esen a ional” o
“mo e- han- ep esen a ional” heo ies, I analyse he p oduc ion o ou ism mo -
ing images in he ligh o embodied and si ua ed ilmmaking and ou is expe i-
e nog á ica  e e ei o de 2021  25 (1): 193-210
194  SOFIA SAMPAIO e nog á ica  e e ei o de 2021  25 (1): 193-210
OS DESENVOLVIMENTOS TEÓRICOS MAIS RECENTES SOBRE TURISMO
êm p ocu ado ecupe a dimensões co po ais e senso iais que es i e am
ausen es ou pe maneciam ma ginais em g ande pa e dos es udos (Ob ado
2008).1 A ên ase ecai ago a no aze – no aze u ismo – daí a impo ância
que concei os como “pe o mance”, “co po alidade”, “ime são” e “p á ica” êm
indo a adqui i na li e a u a (Veijola e Jokinen 1994; Edenso 2000; Coleman
e C ang 2002; C ouch e Des o ges 2003; Ob ado 2003). Sob o impulso de
eo ias “não- ep esen acionais” (Th i 2007) ou “mais-do-que- ep esen acio-
nais” (Lo ime 2005), as ma e ialidades do u ismo, es udadas em p ocesso
(C ouch 2002), êm indo a assumi um maio ele o, complemen ando ou
ul apassando as abo dagens pu amen e semió icas e discu si as que domi-
na am es a á ea de conhecimen o (Hald up e La sen 2006; Sampaio 2013).
A e lexão que enho indo a ealiza sob e as in e secções en e o u ís ico e
o isual – endo como base um co pus de imagens em mo imen o ealizadas
em Po ugal ao longo do século XX2 – pa ilha e bene icia de algumas des as
endências eó icas. O isionamen o em sé ie de imagens de a qui o de á ias
épocas ale ou-me pa a o que ha ia de pa ecido e de di e en e nessas imagens,
mas ambém me enco ajou a des ia a a enção da ques ão das ep esen ações
1 Es e abalho esul a de in es igação enquad ada no p og ama In es igado FCT (IF/00313/2013)
e desen ol ida en e Janei o de 2014 e Dezemb o de 2018, no Cen o em Rede de In es igação em
An opologia (CRIA). Ve sões p elimina es o am ap esen adas ao colóquio “Modos de aze , modos de
se : p á icas a ís icas na e com a an opologia” e ao 2.º Encon o do G upo de In es igação P á icas
e Polí icas da Cul u a do CRIA, que deco e am, espec i amen e, em Ma ço e Ou ub o de 2017, no
CRIA (UID/ANT/04038/2013). Ag adeço ao Nuno Domingos, que discu iu a minha comunicação, como
deba edo , no segundo e en o. Ag adeço ambém, com especial ap eço, aos p o issionais de cinema
en e is ados, bem como ao Gonçalo Mo a e ao Sé gio Bo dalo e Sá, que pa icipa am na p epa ação e
condução das en e is as ilmadas. O a igo segue a g a ia an e io ao aco do o og á ico (AO90).
2 O co pus em causa é compos o po imagens em mo imen o analógicas de não- icção, em á ios
o ma os, que azem pa e do ace o do A qui o Nacional das Imagens em Mo imen o (ANIM)
da Cinema eca Po uguesa-Museu do Cinema. Foi elabo ado no âmbi o do p ojec o explo a ó io
“A ás da Câma a: P á icas de Visualidade e Mobilidade no Filme Tu ís ico Po uguês” (EXPL/IVC-
-ANT/1706/2013), inanciado pela FCT, acolhido pelo CRIA, e implemen ado en e Ab il de 2014 e
Se emb o de 2015.
ences ha o e lap and no so much o he di ec imposi ion o a “ ou is gaze” by
he indus y o he S a e.
KEYWORDS: ou ism ilms, p ac ices, Po ugal (1960s), mo ing image a chi es,
e ospec i e e hnog aphy.
SAMPAIO, So ia ([email p o ec ed]) – Ins i u o de Ciências Sociais,
Uni e sidade de Lisboa, Po ugal.
ENTRE AS PRÁTICAS CINEMATOGRÁFICAS E AS PRÁTICAS TURÍSTICAS…  195
pa a a ques ão das p á icas. Ou seja, em ez de e nessas i e acções a p o a da
esiliência de ideologias que, nou as épocas e egimes polí icos, e ão ins u-
men alizado o u ismo e as suas ep esen ações, p ocu ei indaga sob e aquilo
que pode ia de e -se às p á icas u ís icas e cinema og á icas que es i e am na
aiz dessas imagens. Po ou as pala as, como hipó ese de abalho assumi
que as imagens que me chega am a a és do a qui o ca ega iam em si ma cas,
não apenas de uma ideologia dominan e, mas ambém da con e gência que
i e a luga , du an e a p odução des as imagens, des es dois ipos de p á icas.
Es a hipó ese o igina a-se num p essupos o eó ico e aca e a a implicações
me odológicas. O p essupos o eó ico e a a insa is ação com o concei o de olha
u ís ico, p opos o e ulga izado pelo sociólogo b i ânico John U y (2002
[1990]), que em exe cido g ande in luência sob e o es udo da isualidade
u ís ica. Ainda que subme ido a eap eciações (U y 2002 [1990]: 145-156;
U y e La sen 2011), o ca ác e endencialmen e de e minis a (MacCannell
2001), es á ico e abs ac o do olha u ís ico (de edo do concei o de “olha
clínico” de Foucaul , eo icamen e es imulan e, mas endencialmen e escopo-
óbico) em di icul ado o apa ecimen o de análises mais inas e ma izadas da
isualidade em con ex os u ís icos conc e os. Na e dade, se o concei o de
olha u ís ico cons i ui um obs áculo à análise de imagens conc e as, impe-
dindo-nos de e como se ê, ele é ainda menos ú il quando se a a de anali-
sa imagens em mo imen o, em elação às quais a eo ia de U y é, em la ga
medida, omissa (Sampaio 2015, 2020).
Es udos na á ea da o og a ia êm desa iado as implicações de e minís icas
do olha u ís ico, ao salien a em a qualidade pe o ma i a da o og a ia u ís-
ica amado a, uma p á ica que esul a an o da ci ação de modelos p eexis en-
es (“quo a ion”) como da p odução co eog a ada de no os planos (“ aming”),
o que az com que es as o og a ias enham que se en endidas como pe -
o madas pa a além de p é- o madas (La sen 2005, 2006). Es a p opos a é
acilmen e aplicá el aos ilmes amado es ei os po u is as, que esul am de
p á icas inca nadas e i idas em p imei a mão,3 o que lhes aleu já a desig-
nação de “ ilmes de possessão” (Mo a 2017: 98). A g ande dú ida é sabe se
pode se igualmen e aplicada a ilmes de p omoção u ís ica. À p imei a is a,
um ilme de iagem ei o po um u is a deno a uma expe iência mais pessoal,
di ec a e pe o ma i a do que um ilme de p omoção u ís ica. Po ou o lado,
po quê assumi que os cineas as p o issionais são p a ican es menos inca na-
dos do que os u is as que azem ilmes amado es? Não pode ão essas ou as
p á icas se ão inca nadas e ão de inido as das imagens quan o o são as p á-
icas dos cineas as amado es?
3 O e mo “inca nado” é a minha opção de adução pa a embodied, po me pa ece menos ambíguo
do que a al e na i a “inco po ado”, habi ualmen e usado no sen ido de “mis u ado”, “admi ido como
memb o” ou “incluído”.
196  SOFIA SAMPAIO e nog á ica  e e ei o de 2021  25 (1): 193-210
A p incipal consequência me odológica des a hipó ese de abalho consis-
iu na ealização de en e is as semies u u adas a p o issionais do cinema
que inham es ado en ol idos, du an e a década de 60, na p odução de algu-
mas das imagens u ís icas isionadas. A pa i do c uzamen o das imagens
do a qui o e dos depoimen os ecolhidos, en ei desen ol e uma espécie de
“e nog a ia e ospec i a” ou “po ecuo” (Almeida 2007, 2009: 46; Fe ei a
e Almeida 2017) 4 do campo cinema og á ico po uguês desse empo, com o
objec i o de ecupe a , na medida do possí el, as p á icas e os con ex os de
p odução das imagens isionadas.5 Assim, en e No emb o de 2014 e Maio
de 2015, en e is ámos cinco ealizado es, um amilia de um ealizado , um
ope ado de câma a, um di ec o de o og a ia e um músico (na qualidade de
composi o de música pa a cinema). Mais ecen emen e, en e is ei um sex o
ealizado .6
Os anos 60 são conhecidos, na his ó ia do cinema po uguês, como um
pe íodo excepcional, que iu o su gimen o e a consolidação de apoios à p o-
dução de ilmes e à o mação de écnicos no es angei o po pa e do Es ado e
de p i ados;7 o e o ço da pa icipação em ci cui os in e nacionais (sob e udo
ao ní el da co-p odução e da exibição em es i ais); e, em ge al, o desen ol-
imen o de um clima p opício à expe imen ação a ís ica, que culminou na
p odução de um ipo de cinema que se passou a ap esen a e a se is o como
“no o” (c . Cunha 2018). O apa ecimen o e a expansão de ac i idades a ins,
ais como a ele isão (a pa i de 1957) e a publicidade, ambém desempe-
nha am um papel de ele o nes as ans o mações. Todos os p o issionais que
en e is ei (excep o dois casos, que pe enciam a ge ações mais an igas) es a-
am a da os p imei os passos nes e meio.
4 No abalho des as au o as, o objec o de es udo é o p óp io p ocesso de ememo ação, o o ja-
men o da memó ia (indi idual e colec i a) e a a iculação en e o público e o p i ado, a g ande e a
pequena his ó ia. Apesa de e em assomado na in es igação, es as ques ões não cons i uí am uma
p eocupação cen al, pelo que não se ão abo dadas nes e a igo.
5 A p opos a de “desen e a ” p á icas a pa i de ep esen ações (os ilmes) e discu sos (as en e-
is as) deco e da impossibilidade da obse ação di ec a e p esencial. O que se ecupe a são semp e
indícios, daí o eio conjec u al que a a essa a minha análise.
6 O uso da p imei a pessoa do plu al, em pa es des e a igo, não é majes á ico: as p imei as 12 en e-
is as o am p epa adas, conduzidas e ilmadas com o apoio de dois bolsei os de in es igação. Ainda
que a in enção osse en e is a um leque ab angen e de p o issionais, as en e is as acaba am po
incidi sob e ealizado es. A du ação de cada en e is a oi a iá el (de uma a ês ho as), ocasionando
eencon os apenas quando o en e is ado mani es ou in e esse, o que sucedeu em ês casos. A cu a
du ação des e p ojec o explo a ó io, a decisão de ilma as en e is as, e a idade a ançada dos nossos
in e locu o es (com uma média de 80 anos) di a am a não ealização de encon os múl iplos. Em Junho
de 2018, ealizei duas no as en e is as, ago a g a adas em supo e áudio. Todas as en e is as i e am
luga em Lisboa ou a edo es.
7 Designadamen e, o Fundo do Cinema Nacional (c iado em 1948) e, a pa i de 1961, a Fundação
Calous e Gulbenkian.

ENTRE AS PRÁTICAS CINEMATOGRÁFICAS E AS PRÁTICAS TURÍSTICAS…  197
O que eme giu des as en e is as oi um e a o complexo das elações en e
p á icas cinema og á icas e u ís icas que se es abelece am no momen o da
odagem de alguns ilmes. Foi possí el, po um lado, e i ica que, du an e a
p odução das imagens, o am ei as opções i idas e inca nadas que se e ela-
am c uciais pa a o o ma o inal dos ilmes, sendo possí el ala de um e o ço
mú uo e ha monizado en e os dois ipos de p á icas. A análise do ilme Albu-
ei a (1968), do ealizado An ónio de Macedo, que desen ol o na p imei a
pa e des e a igo, ilus a bem esse p ocesso.8 As en e is as ouxe am ainda a
lume incompa ibilidades de undo en e os campos u ís ico e cinema og á ico
– en endidos nos e mos desc i os e ope acionalizados po Pie e Bou dieu,
nomeadamen e nos seus esc i os sob e o campo li e á io (1993). A ideia de
que pudesse e ha ido uma sob eposição (ou um con ágio) en e p á icas cine-
ma og á icas e p á icas u ís icas du an e a p odução dos ilmes discu idos cau-
sou equí ocos e descon o o em alguns dos meus in e locu o es, que explo o
na segunda pa e do a igo. Po im, os ela os que ecolhi suge em um campo
cinema og á ico ca ac e izado po uma g ande ins abilidade, onde os ilmes
u ís icos, jun amen e com ou os ilmes “u ili á ios ou de u ilidade” (Hedige
e Vonde eau 2009), desempenha am um papel impo an e na ida des es p o-
issionais. Es e aspec o em sido desconside ado na maio pa e dos es udos
sob e cinema po uguês e me ece se al o de ea aliação. Disso da ei con a na
e cei a e úl ima pa e do a igo.
IMAGENS PRATICADAS: ALBUFEIRA (1968)
Em 2015, o isionamen o, nas ins alações do ANIM, de uma cópia do ilme
Albu ei a oi um dos mo i os pa a solici a uma en e is a a An ónio de
Macedo e a Elso Roque, espec i amen e, ealizado e di ec o de o og a-
ia des e ilme. P oduzida po F ancisco de Cas o 9 pa a p omo e u is ica-
men e a egião alga ia pouco empo depois da abe u a do ae opo o de Fa o
(1965), es a cu a-me agem de 35 mm, ilmada a co es, adop a o om ligei o
e bem-dispos o, en ão mui o em oga num ce o ipo de cinema na a i o,
pa a con a as expe iências de ês apa igas ame icanas que se encon am de
isi a a Albu ei a pa a esc e e um a igo ilus ado pa a uma e is a ame icana.
É, pois, num o ma o iccional, na ado na p imei a pessoa e em oz-o po uma
das pe sonagens (que, na e são po uguesa, ala com so aque es angei o) e,
8 P ocu ei man e o anonima o dos meus in e locu o es quando discu o aspec os ge ais (e enden-
cialmen e especula i os), mas não quando analiso ilmes especí icos que o am abo dados du an e as
en e is as. Es a opção algo he e odoxa esul ou da necessidade de iden i ica os ilmes, que es ão no
domínio público e podem se is os.
9 F ancisco de Cas o e a um dos nomes mais espei ados do sec o documen a is a, nes a década
e na seguin e. A sua emp esa de p odução p opo cionou abalho a ealizado es como An ónio de
Macedo, Fonseca e Cos a, An ónio Escudei o, en e ou os.
198  SOFIA SAMPAIO e nog á ica  e e ei o de 2021  25 (1): 193-210
po an o, a a és da mediação das ês u is as, que Albu ei a nos é dada a
descob i . Apesa de e en ol ido pa ocinado es meno es, como es au an-
es, ba es noc u nos e ou os comé cios locais, o ilme oi uma encomenda da
Câma a Municipal e da Jun a de Tu ismo que, segundo Macedo, ize am eco-
mendações sob e os sí ios e e en os que deseja am e no ilme. A encomenda
pedia que o ilme mos asse os momen os al os da ida de Albu ei a ao longo
de um ano, a im de inclui a acções como as amendoei as em lo (em Fe e-
ei o); os es ejos da Páscoa; a celeb ação do “Dia do Tu is a” (25 de Ab il); a
apanha do mo ango (em Maio) e, na u almen e, a es ação balnea , nos meses
de Ve ão. Pa a além de pe mi i um e a o mais comple o da localidade (que
ia ao encon o do adicional “ ilme egional”, de ca iz monog á ico, mui o do
ag ado das au o idades locais), a adopção de um ciclo longo isa a ambém
con a ia a sazonalidade do sec o u ís ico, ao mos a o Alga e como uma
egião de clima ameno ambém nos meses mais ios.10 A es u u a iccional,
que con emplou ecu sos e ó icos como a analepse e a ci ação de diá ios e
“no as de campo”, oi a solução que o ealizado encon ou pa a jun a es a
di e sidade de e en os, espaços e empo alidades e, desse modo, sa is aze os
equisi os da encomenda.
Macedo con i mou que a equipa de odagem e e que iaja pa a Albu ei a
á ias ezes; mas ambém e e iu uma es adia mais longa, de duas semanas,
du an e o Ve ão, quando ele e o di ec o de o og a ia, “pagos pela p odução do
ilme” [en e is a 7, 12/03/2015], aluga am uma casa de é ias com as espec i-
as amílias. Es a ocasião e á pe mi ido à equipa expe imen a Albu ei a como
um des ino de é ias em p imei a mão, o que e á esul ado numa ep esen a-
ção dos u is as e do u ismo mais ime si a e ino ado a. Com e ei o, longe de
se em um p e ex o ou uma ânco a pa a a inse ção de is as pi o escas (como
acon ecia na maio pa e dos ilmes u ís icos dos anos 40 e 50 – c . Sampaio
2014), as ês u is as, modelos de p o issão, eme gem nes e ilme como co -
pos a aen es que in e agem isicamen e com o espaço en ol en e. Vemo-las a
desen ol e p á icas ão di e en es como pe co e a egião ao olan e de um
jipe, sai à noi e, dança numa boî e ao som de uma banda yé-yé, come em es-
au an es e esplanadas, isi a o me cado, i à p aia, in e agi com a população
local, e c. É p o á el que o p óp io Macedo se enha en ol ido em mui as des-
as p á icas du an e a sua es adia em Albu ei a. O ilme o e ece-nos momen-
os de cu iosa imb icação de p á icas cinema og á icas e p á icas u ís icas:
10 Es a lógica climá ica aplica a-se ambém ao es o do país, como suge em os á ios ilmes que
incluem “Ab il” no í ulo (ex.: Ap il in Po ugal, ealizado po Euan Lloyd, no Reino Unido, em 1956)
ou que si uam a isi a a Po ugal nesse mês. Macedo mos ou-se c í ico des e aspec o do seu ilme: “[…]
aquela coisa que ha ia na al u a, ‘Ab il em Po ugal’, que dize , ‘Po ugal é um país ão bom u is i-
camen e, que a é em Ab il…’ que nou os países é um mês impossí el de io, e chu a e não sei quê…
‘Ab il em Po ugal é uma ma a ilha!’ Não é e dade.” [En e is a 1, 02/03/2015]
ENTRE AS PRÁTICAS CINEMATOGRÁFICAS E AS PRÁTICAS TURÍSTICAS…  199
as apa igas são equen emen e is as a o og a a e a ilma com uma câma a
amado a os objec os e as paisagens que apa ecem no ilme. Numa écnica
an iga que emon a ao cinema mudo, é inse ida uma moldu a em alguns des es
planos, que isa dis ingui en e as imagens subjec i as mediadas pelas câma-
as des as u is as e as imagens objec i as (e p e ensamen e não-mediadas) do
p óp io ilme. As expe iências das p o agonis as são, des e modo, ap esen adas
como ac i as e pessoais, e não ge ais e “ ecebidas”. A possibilidade, cada ez
mais eal, de iaja a é Albu ei a, ab e-se aos espec ado es do ilme que, com
câma as amado as suas, pode ão i a que e expe imen a as mesmas p á icas
isuais u ís icas.
Macedo mencionou ambém dois episódios que suge em a “con aminação”
de ep esen ações iccionais po p á icas eais inca nadas. O p imei o diz es-
pei o à cena em que uma das apa igas (pe soni icando uma epó e p o is-
sional) en e is a, com o seu g a ado , um pescado na p aia. O ealizado
desc e eu a cena como uma “men i a”, já que esul a a da mon agem de exce -
os de uma en e is a que ele p óp io conduzi a:
“[…] aquelas cenas dos pescado es que lá apa ecem, aquilo oi g a ado
mesmo… os pescado es é que esponde am àquelas pe gun as. As pe gun as
que lá apa ecem, ui eu que as iz […] depois iz uma mon agem em que
pus a oz da locu o a es angei a a epe i as pe gun as que eu inha ei o
e a cola com as espos as que eles da am. Po an o, aquilo que ocês êem
no ilme é uma ald abice pegada do p incípio ao im. Aliás, pa a isso é que
se e o cinema, da ealidade es amos nós a os. Po an o aquelas en e-
is as que elas azem, que os pescado es espondem, é udo men i a, não
oi nada assim. Fui eu que iz as en e is as aos pescado es, ap o ei ei das
espos as que eles de am só os bocados que me in e essa am. Mais ainda:
de algumas coisas que eles disse am, eu in en ei pe gun as pa a aquilo.”
[En e is a 7, 12/03/2015]
Apesa do om dep ecia i o, que em po al o uma isão idealis a do cinema,
es e episódio coloca em e idência a dedicação e habilidade p o issionais do ea-
lizado , que lançou mão a um ol de a e as demo adas e elabo adas (incluindo
uma espécie de pesquisa e nog á ica sob e os pescado es da localidade), pa a
p oduzi uma sequência de imagens ela i amen e b e e. O exce o dá oz
à c ia i idade e agencialidade do ealizado , que eme gem ambém nou as
en e is as como duas das componen es iden i á ias mais impo an es des e
g upo p o issional.
O segundo episódio elaciona-se com a odagem de imagens subaquá icas.
Num dos momen os cen ais do ilme, as ês u is as chegam à p aia, despem
a oupa e me gulham de a o de banho no ma . É en ão que as emos a nada
debaixo de água, num egis o documen al ino ado que consegue ansmi i ,
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de o ma ime si a, os aspec os senso iais mais sub is des a ac i idade balnea .
Segundo o ealizado e o di ec o de o og a ia, o am as p imei as imagens
subaquá icas do cinema po uguês. Em en e is as sepa adas, ambos os p o is-
sionais desc e e am, com algum po meno , a cons ução imp o isada e a e-
sanal de uma câma a à p o a de água a pa i de uma panela de p essão, bem
como os es es ealizados na p aia e no labo a ó io pa a se ob e em os esul a-
dos écnicos desejados. A sequência – uns 30 segundos de imagens ao som de
uma música jo ial – o e ece uma ep esen ação sines ésica do p aze associado
ao banho de ma (e à obse ação do co po eminino). Es as e ou as imagens
do ilme são ilus a i as da deslocação, que se azia sen i em Po ugal, de ac i-
idades u ís icas cen adas no e as is as (ge almen e associadas à isi a de
monumen os his ó icos nacionais), pa a ac i idades u ís icas desen ol idas
em o no da íade ma -a eia-e-sol, onde o co po do(a) u is a e ou os sen idos
que não a isão assumem algum des aque (Sampaio 2017).
“JÁ LEVÁVAMOS A COISA A SÉRIO”: AS PRÁTICAS DO SABER-FAZER
A a e a de ecupe a , a a és de en e is as, as p á icas e os con ex os de p o-
dução das imagens isionadas conheceu algumas di iculdades que me ecem se
analisadas po si só, já que lançam luz sob e as ques ões em es udo. Em p i-
mei o luga , icou cla o que os ilmes em causa es a am consignados ao esqueci-
men o, em esul ado do es a u o de meno idade e ma ginalidade a que g ande
pa e da his ó ia e da his o iog a ia do cinema, dominadas po p incípios es é-
icos e au o ais, êm indo a elega as imagens em mo imen o de não- icção,
os o ma os cu os e os géne os amado es e “de u ilidade” ( Sampaio, Sche e e
Blank 2016). Ou seja, as en e is as inham como al o p i ilegiado memó ias
des alo izadas e “subexpos as” (c . Fe ei a e Almeida 2017), o que nem susci-
a a o in e esse dos po enciais in e locu o es nem azia an e e esul ados ani-
mado es.11 O p imei o desa io consis iu, po an o, em con ence os con ac os
que ínhamos a ala em sob e ilmes conside ados – po si e po ou os – como
ilmes meno es, com as di iculdades ine en es a um exe cício de ememo ação
que sucede a um pe íodo de desin e esse p olongado.
O en oque colocado nas p á icas ambém se e elou inespe ado. Com a
excepção de algum episódio mais ma can e – al como a já e e ida ilmagem
subma ina, ela ada a p opósi o do ilme Albu ei a – as minhas inqui ições sob e
p á icas cinema og á icas ecebiam espos as b e es, e asi as ou de ca ác e
11 Um exemplo disso oi o longo diálogo que man i e ao ele one com um dos meus con ac os, que
du ida a da pe inência de ala mos sob e ilmes que ele p óp io des alo iza a. Ao mesmo empo que
en a a con ence -me da i ele ância desses ilmes, ia des elando pequenas his ó ias que me suge iam
o con á io. A en e is a oi inalmen e ma cada e ealizada, mas sem que o en e is ado abandonasse
a sua a i ude. Encon ei a mesma eacção nou os con ac os, que acaba am po não conduzi a uma
en e is a.
ENTRE AS PRÁTICAS CINEMATOGRÁFICAS E AS PRÁTICAS TURÍSTICAS…  207
dado às dimensões isual, semió ica e cul u al do u ismo, que ez com que
es e enha sido es udado sob e udo como um sis ema de signos, discu sos e
ep esen ações. Es a ausência es ende-se aos es udos de cinema, pa a os quais
o ealizado (quando conside ado) é um au o , nunca um co po em labo ação.
O abalho que enho ealizado sob e as imagens em mo imen o u ís icas em-
me con on ado com a necessidade de as comp eende ambém à luz das p á i-
cas que lhes de am o ma. Tomando a sé io o a gumen o de que o impulso da
iagem acompanha o cinema desde as suas o igens (Cos a 2017: 7), enho p o-
cu ado inqui i de que modo é que os dois ipos de p á icas (cinema og á icas e
u ís icas) con e gi am na p odução de imagens u ís icas conc e as a pa i da
análise das ma cas ou dos aços que essa con e gência e á deixado em imagens
de a qui o. A a e a nem é de ácil implemen ação nem ga an e esul ados con-
clusi os. A p emissa de que essas imagens exis em e azem sen ido em elação a
um campo cinema og á ico não chega, po si só, pa a e oca a o alidade desse
campo, que conseguimos islumb a apenas em agmen os. Um labo ioso a-
balho de cons ução de es udos de caso a iculados, capaz de liga ní eis de
mac o-, meso- e mic o-análise, pe manece, em la ga medida, po aze .
O isionamen o de imagens de a qui o e a sua análise à luz de dados eco-
lhidos em en e is as suge em que a ep esen ação inca nada e ime si a dos
u is as e do u ís ico que emos su gi nos anos 60 esul ou não an o da
imposição de um olha u ís ico po pa e da indús ia ou do Es ado (apesa de
es e ac o não pode se des alo izado) como da sob eposição e imb icação de
expe iências cinema og á icas e u ís icas conc e as. Se aze u ismo en ol e
semp e um co po que ê, come, iaja, expe imen a, aze cinema en ol e sem-
p e um co po que ilma. Po ou o lado, al ez po se a a de uma p á ica
co en e, a encomenda nunca nos oi ap esen ada como uma imposição à qual
os cineas as se inham de subme e . Na e dade, ela equen emen e su gia
po inicia i a das p odu o as e não das en idades u ís icas ou indus iais.
A p odu o a de F ancisco de Cas o inha pelo menos um anga iado de enco-
mendas, i.e., uma pessoa que iaja a pelo país a sonda o in e esse que as
á ias câma as municipais, jun as de u ismo e áb icas podiam e num ilme
de p omoção. Foi essa a o igem do ilme Albu ei a, de inido pelo ealizado
como “uma encomenda p o ocada” [en e is a 7, 12/03/2015]. Do mesmo
modo – sal o em episódios ela ados como excepcionais – nenhum dos nossos
in e locu o es e e iu a exis ência de cons angimen os à sua ac i idade. Mui o
pelo con á io: o am-nos o necidos á ios exemplos de expe imen ação c ia-
i a, e os ealizado es não deixa am de sublinha a o al esponsabilidade pelas
decisões omadas, mesmo em si uações de con li o. Po conseguin e, di icil-
men e podemos en ende a p odução des as imagens u ís icas como pa e
de um “cí culo he menêu ico” (Hald up e La sen 2003; La sen 2006), onde
as mesmas ep esen ações são passi amen e ecebidas (i. e., “consumidas”) e
ep oduzidas, alheias à mediação de agen es inca nados e si uados.

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No en an o, ambém é e dade que os á ios in e locu o es nos de am con a
da exis ência de um conjun o de noções p á icas e es é icas que os guia a na
escolha dos mo i os de in e esse u ís ico que deseja am aze pa a os seus
ilmes. Ainda que nele a i icado, es as noções ul apassam o campo u ís ico,
admi indo sob eposições com ideias e p á icas polí icas dominan es e ex a-
asando pa a uma espécie de senso comum que as az pa ece ób ias. É nes e
quad o que de emos comp eende as chamadas “ob igações do Tesou o” – um
e mo que um dos nossos in e locu o es usou com i onia pa a designa a ade-
são ac i a, da pa e de alguns p o issionais (insuspei os p a ican es do egime
eelance ), ao modelo de documen á io o icial ideologicamen e ma cado, com
is a a dele capi aliza em na enda dos seus ilmes u ís icos aos o ganismos
públicos.
À medida que a es e a do u ís ico se au onomiza a da es e a do Es ado,
es e p ocesso pe dia e eno ou diluía-se, com esul ados con adi ó ios, ainda
an es da queda do egime salaza is a-ma celis a. O obus ecimen o do campo
cinema og á ico ambém con ibuía pa a as con adições, já que, como imos,
as noções es é icas e cinema og á icas nem semp e es a am em sin onia com
as noções do u ís ico. A p odução de ilmes u ís icos cons i ui um ângulo
de análise p i ilegiado sob e es a iangulação de olha es e sabe es p á icos.
O seu es udo é essencial pa a uma melho comp eensão não apenas des as ima-
gens, mas ambém da o ma como a isualidade u ís ica em sido abs aída,
mobilizada e ei icada pa a a ança e e o ça de e minados en endimen os do
u ís ico, em de imen o de ou os.
ENTRE AS PRÁTICAS CINEMATOGRÁFICAS E AS PRÁTICAS TURÍSTICAS…  209
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