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O exercício da revisão e seu tratamento editorial: para uma edição da poesia de Pedro Homem de Mello

Abstract

Este artigo debruça-se sobre alguns poemas de Pedro Homem de Mello (1904-1984) que foram sujeitos a processos de reescrita profunda. Segundo a argumentação aqui exposta, por mais divergentes que possam ser, essas versões, resultantes de revisão vertical, não podem ser separadas e devem editar-se em simultâneo. Neste sentido, as abordagens digitais surgem como as mais adequadas, para cotejar, editar e reorganizar automaticamente os testemunhos, explorando a natureza dinâmica da condição textual.

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O exercício da revisão e seu tratamento editorial: para uma edição da poesia de Pedro Homem de Mello

Author: Pereira, Elsa
Publisher: UFSCar - Universidade Federal de São Carlos
Year: 2017
DOI: http://dx.doi.org/10.5380/rabl.v16i1
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/27768/1/ELSA%20PEREIRA_O%20exerc%c3%adcio%20da%20revis%c3%a3o%20e%20seu%20tratamento%20editorial.pdf
© Re is a da ABRALIN, .16, n.1, p. 139-154, Jan./Fe ./Ma ./Ab il de 2017.
O exe cíciO da e isãO e seu a amen O
edi O iaL: Pa a uma ediÇãO da POesia de
Ped O HOmem de meLLO
Elsa PEREIRA
FCT (SFRH/BPD/92155/2013)1; – Cen o de Linguís ica da Uni e sidade de
Lisboa (CLUL)
RESUMO
Es e a igo deb uça-se sob e alguns poemas de Ped o Homem de Mello (1904-1984) que
o am sujei os a p ocessos de eesc i a p o unda. Segundo a a gumen ação aqui expos a, po
mais di e gen es que possam se , essas e sões, esul an es de e isão e ical, não podem se
sepa adas e de em edi a -se em simul âneo. Nes e sen ido, as abo dagens digi ais su gem
como as mais adequadas, pa a co eja , edi a e eo ganiza au oma icamen e os es emunhos,
explo ando a na u eza dinâmica da condição ex ual.
ABSTRACT
This a icle deals wi h a ew poems by Ped o Homem de Mello (1904-1984), which we e
subjec o ew i ing h ough e ical e ision. I a gues ha , no ma e how di e en hey may
seem o be, e sions canno be unlinked om one ano he and should be b ough oge he in
a gene ic-c i ical edi ion. In o de o explo e diach onic e ision, elec onic s a egies mus
be de ised, so ha new pa e ns and ela ionships may be ea anged h ough au oma ic
p ocessing, hus explo ing he dynamic ex ual condi ion.
1 Es e abalho oi desen ol ido no âmbi o do p oje o de Pós-dou o amen o “Poesia de Ped o
Homem de Mello: edição c í ico-gené ica”, apoiado po uma bolsa de in es igação da Fundação
pa a a Ciência e a Tecnologia (SFRH/BPD/92155/2013), compa icipada pelo Fundo Social
Eu opeu e po undos nacionais do MCTES de Po ugal.
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PALAVRAS-CHAVE
Edição c í ico-gené ica. Digi al. Re isão. Ve sões.
KEYWORDS
Digi al. Gene ic-c i ical edi ion. Re ision. Ve sions.
in odução
A apologia de um abalho a u ado de ape eiçoamen o dos ex os,
que se p olongue mui o pa a lá do momen o da composição, emon a,
como sabemos, à An iguidade Clássica. Em a igo ecen emen e
publicado (PEREIRA, 2016), i emos opo unidade de obse a que
o e bo e e apa ecia já no Vocabulá io Po uguês & La ino (1720), de
Raphael Blu eau, com um sen ido p óximo da eesc i a de um ex o pelo
seu au o , mas oi com o Mode nismo que es a aceção se consolidou,
coincidindo com uma impo an e mudança no pa adigma edi o ial:
Du ing he ea ly wen ie h cen u y, mos books wen
h ough he ollowing s ages: manusc ip , ypesc ip ,
galley p oo , e ised p oo , page p oo , i s edi ion. […]
The impo an poin abou his mul is age p ocess is
ha i s imula ed, a he han me ely enabled, he ac o
e ision (SULLIVAn, 2013: 38).
Segundo Hannah Sulli an, a plu alidade de supo es ma e iais a que se
subme ia a p odução de um li o em inícios do século XX, aliada à maio
abundância de papel e ao apa ecimen o da máquina de esc e e , esul ou
numa mul iplicação dos es ádios edacionais e no p olongamen o do
p ocesso composi i o, mui as ezes pa a lá do momen o da publicação.
Tal ci cuns ância es imulou os esc i o es mode nis as a emp eende em
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um ipo de e isão mais audaz do que o p a icado a é à al u a. Em ez
das habi uais subs i uições ocabula es e sin á icas (com o p opósi o de
e ina a exp essão), oi-se gene alizando um exe cício de eesc i a mais
p o undo, ob ido po p ocessos de excisão ou in e polação de sequências
ex uais, com o in ui o de al e a a es u u a discu si a e o con eúdo
in ínseco dos ex os. Seguindo a céleb e máxima de Ez a Pound –
make i new – es a modalidade e isó ia, que passou a exe ce -se ao ní el
es u u al, es á na o igem de uma sé ie de endências de es ilo ligadas
ao expe imen alismo dos ex os (como a agmen ação, a jus aposição,
a exp essão elíp ica, a opacidade, a descon inuidade discu si a, e c.) e
pode á elaciona -se com aquilo que G. Thomas Tanselle denomina de
e isão e ical:
wo ypes o e ision mus be dis inguished: ha which
aims a al e ing he pu pose, di ec ion, o cha ac e o a
wo k, hus a emp ing o make a di e en so o wo k
ou o i ; and ha which aims a in ensi ying, e ining, o
imp o ing he wo k as hen concei ed […] hus al e ing
he wo k in deg ee bu no in kind. I one may hink o
a wo k in e ms o a spacial me apho , he i s migh be
labelled “ e ical e ision,” because i mo es he wo k o
a di e en plane, and he second “ho izon al e ision,”
because i in ol es al e a ions wi hin he same plane
(TAnSELLE, 1990: 53).
Pa indo de alguns exemplos na ob a de um poe a do Segundo
Mode nismo po uguês, es e a igo p ocu a e le i sob e as abo dagens
edi o iais mais adequadas à na u eza dinâmica das composições e a um
concei o de ex ualidade lu uan e, que se ans o ma e amplia, a a és
de múl iplas mani es ações.
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1. e isão e ical na poesia de P. Homem de mello
Ped o Homem de Mello (1904-1984) é um dos poe as p oeminen es
na lí ica po uguesa do séc. XX, cuja ex ensa ob a se encon a, em pa e
inédi a (e dispe sa po manusc i os ou dac ilosc i os), em pa e dis ibuída
po uma a iedade de publicações imp essas (como pe iódicos, pos ais
ilus ados e li os de poesia), bem como es emunhos áudio, onde se
egis am algumas adap ações musicais pa a o ado.2
Além da na u eza mul imédia que ca ac e iza esses egis os (e, só
po si, cons i ui ia um desa io edi o ial), a ob a do au o coloca-nos um
p oblema pa icula men e es imulan e em e mos ilológicos: o ac o de
os seus poemas e em sido sujei os a p ocessos de eesc i a p o unda,
esul ando equen emen e em e sões díspa es.
Em elação a es as, podemos dis ingui um p imei o g upo em que
o pa en esco é mais ou menos e iden e, já que o p ocesso de e isão
assen a em ope ações de excisão, ex ensão ou subs i uição de pa es
do poema, man endo oda ia in ac o o ce ne da composição. A í ulo
ilus a i o, con on em-se, na ig. 1, dois dos oi o es emunhos coligidos
pa a o poema “E e nidade”, que Ped o Homem de Mello publicou no
jo nal Sobe ania do Po o (A – MELLO, 1947, n.º 5435; B – MELLO, 1947,
n.º 5436).
2 Es as adap ações musicais o am já obje o de uma comunicação que ap esen ámos à 12. h
In e na ional Con e ence o he Eu opean Socie y o Tex ual Schola ship (De Mon o
Uni e si y, Leices e , 19-21 no emb o 2015): “When poems become songs: uses o an edi ion
o Ped o Homem de Mello’s poe y”.
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FIGURA 1: Colação au omá ica de dois es emunhos a a és da
e amen a Jux a.
Casos há, no en an o, em que, en e as á ias e sões, pa ece exis i
uma elação mais de ipo ilial, do que p op iamen e de descendência.
A en e-se, nes e sen ido, ao co ejo en e “Saudade” (MELLO, 1961:
49) e “Apolo” (BNP, E14, cx. 22 [pas a 125]), ilus ado na ig. 2, onde
é possí el iden i ica alguns e sos pa cialmen e comuns, que aliás
apa ecem dispos os em posição di e gen e. no exemplo em ap eço,
a di iculdade se á an o maio , se pensa mos que as ansc ições

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ap esen adas co espondem apenas a dois dos dezano e es emunhos a é
ago a coligidos pa a um conjun o ex ual mais as o, em que é possí el
iden i ica á ias e sões, com enómenos ex emos de a iação en e si.
FIGURA 2: Colação au omá ica de dois es emunhos a a és da
e amen a Jux a.
Em si uações des e ipo, pode íamos al ez pe gun a qual o g au
de a iação necessá io pa a que se ins au e uma no a e são, e se duas
e sões ão díspa es pode ão se enca adas como ex os independen es:
O he p oblems conce ning he concep o e sions
[…], he e a e wo ha should be men ioned […]. The
i s is he p oblem o de e mining when he de eloping
e sion has eached a deg ee o coalescence ha can
be iden i ied as an essayed e sion. The second is he
p oblem o de e mining i and when a second e sion
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has coalesced ha should be conside ed as sepa a e om
he i s . To discuss hese p oblems we need se e al
ela ed concep s: ime, con en , unc ion, and ma e ial. One
should also no e ha concep s o in en ion and au ho i y
a e c ucial o he idea o e sions (SHILLInGSBURG,
2000: 69-70).
Pa a esponde à p imei a pe gun a, Pe e Shillingsbu g iden i icou
qua o a o es que nos podem ajuda a a e i o g au de a iação ex ual
(i.e. empo, con eúdo, unção e supo e ma e ial). A segunda ques ão,
no en an o, é mais sensí el, e em susci ado posições disco dan es.
Alguns c í icos admi em que uma e são pode da o igem a no o ex o,
semp e que se queb e um ce o g au de con inuidade en e dois es ádios
edacionais (MCLAVERTY, 1991: 138). Ou os conside am que, po
mui o di e en es que possam se , duas e sões nunca se o nam ex os
dis in os, e em ci cuns ância alguma pode ão se edi adas sepa adamen e
(BRYAnT, 2005: 85). John B yan inclui-se no segundo g upo e
ecomenda que edi emos á ias e sões em simul âneo (ibidem: 94),
assinalando a a iação en e di e en es es emunhos e conduzindo os
lei o es a a és desses i ine á ios ex uais (ibidem: 123). Em ez de um
apa a o ma ginal, que eme a a in o mação pa a o odapé ou pa a o
inal do olume, de e ão concebe -se es a égias inclusi as, capazes de
a icula o ex o c í ico com o apa a o, de modo a en ol e o lei o ,
despe ando-o pa a os chamados p aze es do ex o luído (ibidem: 133).
Se é ce o que a ecomendação de B yan az odo o sen ido
(sob e udo quando lidamos com e sões au o ais), a e dade, po ém, é
que ais obje i os são di íceis de alcança em edição imp essa. Mesmo
que a ideia de um apa a o in eg ado es eja subjacen e a á ias inicia i as
em papel – desde as p opos as de Hans Zelle , em inícios dos anos 70
(ZELLER, 1995: 41), a é à edição de Hans Wal e Gable pa a o Ulysses
(JOYCE, 1984) – poucos são os lei o es capazes de deci a um pe cu so
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de a iação a a és de apa a os codi icados, sob e udo quando as e sões
sejam o malmen e mui o di e en es. Em si uações de a iação es u u al
que en ol am apenas duas e sões, a al e na i a mais iá el pode á passa
po uma edição sinóp ica. no en an o, os cons angimen os ma e iais
ine en es ao supo e imp esso o nam-se especialmen e lag an es,
se em causa es i e em múl iplas e sões des e ipo. no caso acima
mencionado, po exemplo, e íamos de edi a os dezano e es emunhos
em páginas consecu i as. Fica iam os lei o es impossibili ados de al e a
a o dem pela qual escolhêssemos ap esen a as e sões, ou seque de
emp eende um co ejo simul âneo de odos os es emunhos – a não
se que eco êssemos a um gigan esco desdob á el, semelhan e ao
p opos o po Giuseppe Ta ani ( d. BOCHICCHIO, 2008).
Pelo que ica assim expos o, somos le ados a conclui que a
semió ica pa icula do códice é demasiado es i i a, pa a edi a ex os
sujei os a enómenos ex emos de a iação es u u al, como a obse ada
em mui os au o es mode nis as e, conc e amen e, na poesia de Ped o
Homem de Mello:
The p inciples ou lined abo e can bes be ealized, pe haps
only ealized, h ough he ex ao dina y hype ex ual
ea u es o he elec onic medium (BRYAnT, 2005: 145).
2. abo dagens digi ais
Pa a ul apassa os cons angimen os desc i os e i a pa ido
da lexibilidade hipe ex ual3, êm su gido nos úl imos anos á ios
p oje os de edição ele ónica, sob e udo na Eu opa e nos Es ados
Unidos (FRAnZInI e al., 2016: 171), ao pon o de alguns especialis as
3 “Hype ex , a e m coined by Theodo H. Nelson in he 1960s, e e s […] o […] ex ha
b anches and allows choices o he eade , bes ead a an in e ac i e sc een. As popula ly
concei ed, his is a se ies o ex chunks connec ed by links which o e he eade di e en
pa hways” (LAnDOW, 1997: 3).
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admi i em que, num u u o p óximo, a gene alidade das edições c í icas
e gené icas de e á passa po es e supo e:
We a e […] p obably only a ew yea s away om he day
when e-publica ion will become he p ima y o ma o
choice o schola ly edi ions, wi h p in on demand, in a
mo e sophis ica ed o m han i exis s a p esen , se ing
as he seconda y o ma o hose pa s o he edi ion
equi ed by he eade (EGGERT, 2009: 74).
Enquan o as p imei as inicia i as na á ea enca a am o meio
digi al como me a pla a o ma de publicação (não se a as ando mui o
do concei o de e-book), a mais ecen e ge ação de edições ele ónicas
ep esen a já uma e dadei a mudança de pa adigma:
Schola ly digi al edi ions a e schola ly edi ions ha a e
guided by a digi al pa adigm in hei heo y, me hod
and p ac ice. […] The schola ly edi ion unde goes
a undamen al change ha is igge ed by he new
possibili ies o digi al echnologies o desc ip ion,
encoding and publica ion (SAHLE, 2016: 28, 37-38).
T a a-se, na e dade, de um ipo de edição adicalmen e di e en e,
baseado numa lógica abs a a de codi icação semân ica4 e na ecíp oca
in eg ação do ex o com o apa a o, “ econs elando as elações ex uais
num espaço não coinciden e com a o dem bibliog á ica” (PORTELA,
2003). A an agem mais e iden e des e ipo de abo dagem, no que diz
espei o ao a amen o da a iação es u u al, eside na possibilidade
4 no emos, po con as e, a ambiguidade dos símbolos usados em edições adicionais, onde
p eponde a uma lógica isual, assen e em o ma ações ou ca a e es especiais, e po isso ambém
mais sujei a a pe das de in o mação, nomeadamen e na passagem de p ocessado es ex o, como
Mic oso Wo d, pa a p og amas de paginação, como Adobe InDesign (a ualmen e usado pelas
edi o as, na p odução de li os).
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