scieee Science in your language
[po] (orig)

Monarquia e República

Abstract

O presente volume reúne comunicações apresentadas no III Seminário de História e Cultura Política, que se realizou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no dia 15 de Março de 2011, ao que se juntou textos inseridos dentro do perfil científico dos temas em debate. O objectivo deste Seminário, iniciativa da Linha de Investigação Memória & Historiografia do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, era o aprofundamento critico do conhecimento sobre pensadores portugueses e estrangeiros através das doutrinas políticas que perfilharam em relação à Monarquia e à República. Desenvolvendo o trabalho científico iniciado com o I Seminário de 2009, pretende-se anualmente dar continuidade a este projecto de Seminário de História e Cultura Política – com um tema de base – e que as perspectivas analíticas comunicadas sejam feitas através de vários olhares disciplinares, em particular a partir da História, da Filosofia e da Ciência Política. A reflexão crítica e o debate produzidos visam continuar a estimular a vivificação da memória da cultura política e a construção historiográfica das ideias políticas e sociais, dentro da área do pensamento europeu, ibero-americano e português, um mundo aberto, plural e conflitual, onde há um grande campo de investigação crítica a desenvolver, para percepcionar fundamentos filosóficos, dinâmicas históricas e expressões ideológicas e políticas.

Read accessible full text

Monarquia e República

Author: Leal, Ernesto Castro
Publisher: Centro de História da Universidade de Lisboa
Year: 2012
Source: https://repositorio.ulisboa.pt/bitstream/10451/43936/1/e-book_2012_Monarquia%20e%20Republica.pdf
C
O
O
R
D
E
NA
Ç
Ã
O
E
R
N
ES
T
O
C
A
S
T
R
O
L
E
A
L
M
O
N
A
R
Q
U
I
A
,
E
R
E
P
U
B
L
I
C
A
C
R
I
S
T
I
A
N
A
L
U
C
A
S
S
I
L
V
A
•
E
R
N
ES
T
O
C
A
S
T
R
O
L
E
A
L
J
O
S
É
E
S
T
E
V
E
S
PE
R
E
I
R
A
•
J
O
S
É
M
A
U
R
Í
C
I
O
D
E
C
A
R
VA
L
H
O
M
A
NU
E
L
M
.
C
A
R
D
O
S
O
L
E
A
L
•
R
I
C
A
R
D
O
V
É
L
E
Z
R
O
D
R
Í
G
U
E
Z
A
N
T
Ó
N
I
O
V
E
NTU
R
A
mona quia e epública
Coo denação
E nEs o Cas o LEaL
mona quia e epública
an ÓnIo VEn U a • C Is Iana LUCas sILVa
E nEs o Cas o LEaL • José Es EVEs PE EI a
José MaU ICIo DE Ca VaLHo • ManUEL M. Ca Doso LEaL
ICa Do VéLEz oD ígUEz
Coo denação
E nEs o Cas o LEaL
mona quia e epública
an ÓnIo VEn U a • C Is Iana LUCas sILVa
E nEs o Cas o LEaL • José Es EVEs PE EI a
José MaU ICIo DE Ca VaLHo • ManUEL M. Ca Doso LEaL
ICa Do VéLEz oD ígUEz
Lisboa
Cen o de His ó ia da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa
2012
FICHa éCnICa
TíTulo
Mona quia e epública
auTo es
an ónio Ven u a, C is iana Lucas sil a, E nes o Cas o Leal, José Es e es Pe ei a, José Mau icio de Ca alho,
Manuel M. Ca doso Leal, ica do Vélez od íguez
coo denação
E nes o Cas o Leal
copy ighT
Cen o de His ó ia da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa e au o es dos ex os
capa
se sili o – Maia
daTa de edição
Ma ço de 2012
imp essão
se sili o – Maia.
depósiTo legal
339075/12
isbn
978-989-8068-09-5
Ti agem
500 exempla es
ediTo
Cen o de His ó ia
Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa
alameda da Uni e sidade 1600-214 LIsBoa – Po UgaL
el. : + 351 217 920 000 • Fax: 351 217 960 063
Email: cen o. [email p o ec ed]
U L: h p://www. l. ul. p /unidades/cen os/c_his o ia/index. h ml
disT ibuido
DInaP Ess – Dis ibuido a nacional de Li os, Lda.
ua João o igão amos, 17 a
1500-363 Lisboa
el. : + 351 217 122 210 • Fax: 351 217 153 774
Email: come cial@dinali o.p
U L: h p://www. dinali o.p
FinanciamenTo
P og ama ope acional Ciência e Ino ação 2010 do III Quad o Comuni á io de apoio (QCa III)
UNIÃO EUROPEIA
FUNDOS ESTRUTURAIS
UNIÃO EUROPEIA
FUNDOS ESTRUTURAIS
GOVERNO DA REPÚBLICA PORTUGUESA

sUMá Io
7 inT odução
E nes o Cas o Leal
I – MONARQUIA
11 anselmo JosÉ b aamcamp: cheFe pa TidÁ io da esque da
monÁ quica
Manuel M. Ca doso Leal
33 anTónio sa dinha e a mona quia: uma Teo ia da nacionalidade
C is iana Lucas sil a
49 Joaquim nabuco, mona quisTa e abolicionisTa
ica do Vélez od íguez
II – REPÚBLICA
65 hen iques noguei a e a epública
José Es e es Pe ei a
81 emílio cosTa e a epública
an ónio Ven u a
93 anTónio JosÉ de almeida e a epública
E nes o Cas o Leal
117 o Tega y gasseT: c ise da espanha e p oblemas políTicos
José Mau icio de Ca alho
In oDUÇÃo
Es e olume eúne comunicações ap esen adas no III Seminá io de His ó ia
e Cul u a Polí ica, que se ealizou na Faculdade de Le as da Uni e sidade de
Lisboa, no dia 15 de Ma ço de 2011, ao que se jun ou ex os inse idos den o
do pe il cien í ico dos emas em deba e. O objec i o des e Seminá io, inicia i a
do G upo de In es igação Memó ia & His o iog a ia do Cen o de His ó ia da
Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa, e a o ap o undamen o c i ico do
conhecimen o sob e pensado es po ugueses e es angei os a a és das dou inas
polí icas que pe ilha am em elação à Mona quia e à República.
Desen ol endo o abalho cien í ico iniciado com o I Seminá io de 2009,
p e ende-se anualmen e da con inuidade a es e p ojec o de Seminá io de His ó-
ia e Cul u a Polí ica – com um ema de base – e que as pe spec i as analí icas
comunicadas sejam ei as a a és de á ios olha es disciplina es, em pa icula a
pa i da His ó ia, da Filoso ia e da Ciência Polí ica. Assim se explica a pa ici-
pação de especialis as desses sabe es.
A e lexão c í ica e o deba e p oduzidos isam con inua a es imula a i i-
icação da memó ia da cul u a polí ica e a cons ução his o iog á ica das ideias
polí icas e sociais, den o da á ea do pensamen o eu opeu, ibe o-ame icano e
po uguês, um mundo abe o, plu al e con li ual, onde há um g ande campo
de in es igação c í ica a desen ol e , pa a pe cepciona undamen os ilosó icos,
dinâmicas his ó icas e exp essões ideológicas e polí icas.
Um ag adecimen o é de ido a odos os au o es dos ex os aqui publicados, à
di ecção do Cen o de His ó ia da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa,
à di ecção da Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa, ao sec e a iado do
Seminá io e aos pa icipan es, po e em p opiciado o bom êxi o des a ac i idade
cien í ica, dando assim espe ança na sua conc e ização anual.
E nes o Cas o Leal
14 Mona QUIa E EPÚBLICa
ansELMo José B aaMCaMP: CHEFE Pa IDá Io Da EsQUE Da Moná QUICa 15
e a homogéneo, sob e udo desde que passou a in eg a elemen os que inham
apoiado Cos a Cab al, um deles, An ónio José de Á ila, minis o do go e no
de ubado em 1851. E a p esença des es minis os, idos como compe en es mas
« eaccioná ios», incomoda a mui os elemen os his ó icos, sob e udo quando
su gi am p oblemas com maio ca ga ideológica, como oi o da inda das I mãs
da Ca idade ancesas, em 1857, no con ex o da epidemia que assola a Lisboa.
Nes e mesmo ano, a assina u a da Conco da a com a San a Sé p o ocou a saída
do único elemen o his ó ico que azia pa e do go e no.
Anselmo B aamcamp ecupe ou o luga de depu ado (po Lisboa) nas elei-
ções de 1856, um luga que con i mou em 1858 e em p a icamen e odas as
eleições a que conco eu, depois, a é ao im da ida. Mas não e a um depu ado
que se dis inguisse pelo b ilho dos discu sos nem pela o ça da oz; no o iamen e
p e e ia o abalho disc e o das comissões pa lamen a es, in eg ando em ge al as
mais impo an es, como a da Fazenda, e, aí sim, dis inguia-se pela dedicação e o
es udo sé io das ques ões. Quan o ao seu abalho no pa ido, e a o que chama
um «homem do apa elho»; no inal de 1859, in eg ou a Comissão Cen al P o-
g essis a (His ó ica)8, na mesma eunião em que o ma quês de Loulé assumiu a
espec i a p esidência.
Nesses anos quase semp e es e e em unções um go e no p esidido po
Loulé, com a mesma ca ac e ís ica de in eg a Á ila e ou os an igos cab alis as
em pas as-cha e. A agudização da ques ão das I mãs da Ca idade ancesas, que
e am is as como uma ameaça da «Reacção» an ilibe al, c iou o con ex o pa a
que José Es ê ão (an igo adical de esque da que passa a os anos 50 alinhado
com o Pa ido Regene ado ) eeme gisse, em 1861, com enções de o ma um
no o pa ido, con ando a ai uma boa anja de his ó icos descon en es. En ão
Loulé p escindiu de Á ila e dos «a ilis as», subs i uindo-os pelas di e sas sensi-
bilidades do Pa ido His ó ico. E assim se es eou B aamcamp no go e no, no
início de 1862, logo na pas a do Reino, endo como colega, na pas a da Gue a,
o seu «pad inho», ma quês de Sá da Bandei a.
A pas a do Reino e a no malmen e a mais polí ica, u elando a adminis a-
ção pública e as au o idades de odo o pais, bem como os p ocessos elei o ais, a
ins ução pública, e c. Toda ia, com a sua ípica modés ia, B aamcamp decla ou
que a sua a enção incidi ia essencialmen e no campo adminis a i o, pa a ealiza
8 José Miguel Sa dica, A Regene ação sob o signo do Consenso, p. 324

16 Mona QUIa E EPÚBLICa
ansELMo José B aaMCaMP: CHEFE Pa IDá Io Da EsQUE Da Moná QUICa 17
e o mas há mui o empo agua dadas
9
. Na e dade, a sua ac uação acabou po e
um indiscu í el alcance polí ico. Desde logo a ou de esol e a melind osa ques-
ão das I mãs da Ca idade, elabo ando uma p opos a que p oibia as co po ações
eligiosas de se ocupa em do ensino: a p opos a oi ap o ada pelos depu ados,
icou e ida na Câma a dos Pa es, acabando a ques ão po se esol ida quando o
p óp io go e no ancês mandou um na io a ecolhe as eligiosas. Toda ia, o seu
« í ulo de gló ia», assim como do go e no, que Oli ei a Ma ins conside ou «o
mais ecundan emen e ac i o […] an es e depois dele»10, oi a abolição de ini i a
dos mo gadios em Po ugal, comple ando idên ica medida que, 30 anos an es,
ab ange a apenas os pequenos mo gadios. A seu c édi o icou ainda a abolição
dos passapo es no in e io do país, assim como uma e o ma adminis a i a
(com in ui os descen alizado es11, ípicos da esque da libe al), cuja ap o ação
no pa lamen o oi p ejudicada pela sua saída do go e no. Foi um conjun o de
medidas que, ac escidas de ou as de ou os minis os (abolição do monopólio do
abaco, abolição do p i ilégio do Dou o, c édi o p edial, e c), con ibuí am pa a
o aumen o da iqueza pública não menos do que os ão alados in es imen os
em ias de comunicação.
Es es sucessos, po ém, não o na am mais o e o go e no nem o Pa ido
His ó ico, um e ou o a ec ados po agudas di isões. Além da saída de B aam-
camp do go e no, no início de 1864 (em solida iedade com Sá da Bandei a,
po que uma e o ma do exé ci o, po ambos p epa ada, não me eceu, quando
a acada, o apoio dos colegas), ou as demissões de minis os oco e am e a é uma
emodelação, já no ano seguin e, en endida como isando a as a o minis o da
Fazenda, Joaquim Lobo de Á ila, che e da ala adical do pa ido, «unha p e a».
O pa lamen o, apesa da la ga maio ia que os his ó icos nele de inham, icou
pa alizado com discussões polí icas, o que le ou à subs i uição do go e no de
Loulé po um ou o em que, pela p imei a ez desde a Regene ação, o pode
oi en egue o a dos dois pa idos dominan es.
O no o go e no e a o malmen e p esidido po Sá da Bandei a, um his-
ó ico algo desalinhado, mas quem e ec i amen e o di igia e a uma igu a do
polo opos o, conse ado , An ónio José de Á ila. E enquan o Á ila manob a a
pa a aze uma usão com os egene ado es, deixando de lado os his ó icos, Sá
da Bandei a con ida a B aamcamp a in eg a o go e no, o que es e ecusou, po
9 Discu so de Anselmo B aamcamp, Diá io da Câma a dos Depu ados, 22/02/1862, p. 588
10 Oli ei a Ma ins, «Elogio his ó ico de Anselmo José B aamcamp», p. 70
11 P opos a de lei nº 23 C, Diá io da Câma a dos Depu ados, 05/02/1863, pp. 343-344
16 Mona QUIa E EPÚBLICa
ansELMo José B aaMCaMP: CHEFE Pa IDá Io Da EsQUE Da Moná QUICa 17
lhe epugna se minis o e po e desconside ada a maio ia his ó ica que ainda
exis ia12. Te á sido o eceio dos his ó icos, de ica em isolados e de en en a em
eleições en aquecidos com a oposição in e na da «unha p e a», que os le ou a
aze um aco do de usão com os al e nan es egene ado es. Ou e á sido, segundo
José Miguel Sa dica, uma «au ode esa» dos pa idos cen ais « ace às no as p es-
sões cen í ugas»13. Ce o é que es a usão signi icou um ecuo no p ocesso de
di e enciação pa idá ia que se inha desen ol endo.
O ac o de B aamcamp e apos o a sua assina u a, em nome dos his ó icos,
nesse aco do da usão não deixa de se uma con adição com o papel que ele
desempenha a de a i mação do Pa ido His ó ico. Jus i icou-a pelo desejo «de
odos os depu ados da maio ia», de e em ap oxima -se «duas acções do mesmo
pa ido, pa a jun a as suas o ças e do a o país com odas as e o mas de que
ele ca ece»14. Foi como um eg esso ao pa ido quase único do início dos anos
50, que ele acei ou, segundo Oli ei a Ma ins, «sem en usiasmo, po disciplina
pa idá ia apenas»15.
Dian e da usão dos pa idos p incipais, o go e no Sá/Á ila pe deu as elei-
ções, e essa oi a p imei a e única ez em que um go e no da Mona quia Cons-
i ucional pe deu cla amen e as eleições. Com mais igo , oda ia, pode dize -se
que hou e ou as eleições – p a icamen e odas as o ganizadas o a dos pa idos
al e nan es, ou o a i os – em que os go e nos ob i e am i ó ias só apa en es,
com maio ias e alhadas e incapazes de sus en a go e nos es á eis.
Anselmo B aamcamp não oi p o agonis a no «go e no da usão», que se
seguiu, desde logo dominado pelos egene ado es sob e udo a pa i da emo-
delação de 1866, mas oi nomeado, po desejo do ei, pa a o g upo es i o do
Conselho de Es ado.
O «au o echamen o do ci cui o polí ico no cen o»16, como oi o «go e no
da usão», deixou o sis ema sem al e na i a sé ia, ace à con es ação que se
le an ou con a as medidas impopula es adop adas (impos o ge al do consumo
e uma e o ma que ex inguia g ande núme o de dis i os, concelhos e eguesias),
desembocando na e ol a da Janei inha, de 1868, e ab indo um ciclo de ins abi-
lidade que, em menos de qua o anos, consumiu se e go e nos e cinco eleições.
12 Discu so de Anselmo B aamcamp, Diá io da Câma a dos Depu ados, 10/05/1865, p. 1233
13 José Miguel Sa dica, A Regene ação sob o signo do Consenso, p. 304
14 Discu so de Anselmo B aamcamp, Diá io da Câma a dos Depu ados, 10/05/1865, p. 1233
15 Oli ei a Ma ins, «Elogio his ó ico de Anselmo José B aamcamp», p. 74
16 José Miguel Sa dica, A Regene ação sob o signo do Consenso, p. 304
18 Mona QUIa E EPÚBLICa
ansELMo José B aaMCaMP: CHEFE Pa IDá Io Da EsQUE Da Moná QUICa 19
O pe íodo de 1868 a 1871 oi de impo ância c ucial pa a a de inição
do modelo de o ação bipa idá ia, ou o a i ismo, que eio a ca ac e iza a
Mona quia Cons i ucional. Po um lado, a agmen ação pa idá ia e a ingo e -
nabilidade em que se caiu o am, em g ande medida, consequência da al a de
al e na i as ao «go e no da usão». Po ou o lado, essas mesmas agmen ação
e ingo e nabilidade mos a am como os pa idos da usão e am indispensá eis
pa a o uncionamen o do sis ema polí ico – desde que não em usão, mas em
compe ição como pa idos al e nan es.
Após a e ol a da Janei inha, não podendo con inua o «go e no da usão»,
o ei con idou An ónio José de Á ila a o ma um go e no que mode asse os
impulsos adicais que inham da ua e que nele o am ep esen ados po José
Dias Fe ei a; mas e a uma coligação ão disc epan e que, mesmo endo ganho
olgadamen e as eleições, não esis iu mais do que poucos meses. En ão o ei
en ou ol a aos pa idos da usão, con idando o ma quês de Loulé; o Pa ido
His ó ico não es i e a ão en ol ido no «go e no da usão», Loulé chega a a se
con idado pa a che ia a con es ação às suas medidas. Mas, pe an e a eacção da
ua, Loulé hesi ou e o ei e e de acei a ou o go e no mais de aco do com o
espí i o da Janei inha: oi p esidido pelo elho Sá da Bandei a e dominado po
An ónio Al es Ma ins, bispo de Viseu, em o no do qual se o mou o u u o
Pa ido Re o mis a, ambém chamado «Pa ido de Janei o»; na ealidade, não
e a um pa ido, mas um «mo imen o social he e ogéneo, posicionado à esque da
do Pa ido His ó ico, na on ei a limí o e do sis ema moná quico»17, nascido
do p o es o con a as medidas do «go e no da usão», o ien ado pa a o lema
simplis a de «mo alidade e economias». Es e go e no o ganizou eleições, em
1869, que enceu, ou melho , que pa eceu ence , pois ez elege como «minis-
e iais» depu ados na e dade «independen es», po exemplo, os ex-his ó icos
B aamcamp e José Luciano. A sua supos a maio ia oi-se esbo oando ace à
g a idade da ques ão da azenda e ace às di e gências in e nas susci adas pelas
p essões espanholas pa a que D. Fe nando, pai do ei D. Luís, ocupasse o ono
de Espanha com is a à união ibé ica.
Depois sim, conseguiu o ma quês de Loulé o ma go e no, ap o ei ando
pa a a ança com a in enção de econs ui o Pa ido His ó ico18, eunindo as
17 José Miguel Sa dica, Duque de Á ila e Bolama. Uma Biog a ia, p. 432, no a 13
18
Pouco empo depois da Janei inha, os di igen es his ó icos já enciona am econs ui o pa ido – c . Ca a de
Anselmo B aamcamp a José Luciano de Cas o, de 08/04/1868, in José Luciano de Cas o, Co espondência Polí ica,
o g. de Fe nando Mo ei a, Lisboa, Que zal Edi o es, 1998, p. 80
18 Mona QUIa E EPÚBLICa
ansELMo José B aaMCaMP: CHEFE Pa IDá Io Da EsQUE Da Moná QUICa 19
duas alas desa indas, «unha b anca» e «unha p e a». Chegou a o ganiza eleições
e a ob e uma la ga maio ia, em 1870, a qual, oda ia, em dois meses, oi de -
ubada pelo golpe mili a de Saldanha, suspei o de es a associado às p essões
pa a coloca D. Fe nando no ono de Espanha. Nesse go e no «his ó ico» coube
a Anselmo B aamcamp a pas a da Fazenda, a mais di ícil nas ci cuns âncias da
época. Tinha sido ele o con idado pelo ei a o ma go e no, mas logo puse a
como condição que a espec i a p esidência e ia de compe i ao che e do pa -
ido, Loulé – mais uma p o a da sua lealdade. A banca o a es a a iminen e:
B aamcamp e e de acudi ao «pagamen o de le as que se enciam den o de
cinco dias»19, subsc e endo-as «com o seu nome de pa icula » e a é pagou do
seu bolso as despesas de uma missão inancei a que en ia a às bolsas es angei-
as20. Depois en ou pô o dem nas inanças públicas, com as medidas clássicas
de e o ma impos os pa a aumen a as ecei as e de eduzi as despesas com o
uncionalismo, endo os consequen es «a olamen os» de ac ualização das ma izes
p ediais causado umul os em á ios pon os do país, de que esul a am mo os.
O golpe mili a de Saldanha, que pôs e mo à segunda expe iência go e -
na i a de B aamcamp, oi pa a mui os um sinal de ale a, um a iso, de que
aquela sucessão de go e nos cu os e eleições inconclusi as e a pe igosa pa a a
sob e i ência do egime e do país, quando se ecea a a é uma in asão de Espa-
nha. T ês meses du ou a di adu a saldanis a, a que se segui am mais dois cu os
go e nos, a é se chega ao longo go e no egene ado de 1871-1877. P imei o,
oi uma no a e são do go e no Sá/Viseu, sob o domínio dos e o mis as, que
gozou da an agem de o ganiza eleições, ob endo uma maio ia pouco cla a,
que es anhamen e oi malba a ada a a o do mino i á io Á ila. Depois, oi
ou o go e no p esidido po Á ila, que igualmen e o ganizou eleições que de am
esul ados mui o epa idos, do qual os his ó icos se dis ancia am pa a não se em
engolidos numa no a « usão» com egene ado es e a ilis as.
Os egene ado es inham ecupe ando dos maus esul ados consequen es ao
alhanço do «go e no da usão», sem nunca e em pe dido o seu núcleo, pequeno
mas consis en e, em o no de Fon es Pe ei a de Melo. Fo ma am en ão go e no,
com o apoio dos a ilis as, que e a como que um bloco conse ado , con ando
ainda com o pequeno Pa ido Cons i uin e, de Dias Fe ei a, pa a comple a em
a maio ia pa lamen a .
19 Discu so de José Luciano de Cas o, Diá io da Câma a dos Depu ados, 19/01/1870, p. 70
20 Oli ei a Ma ins, «Elogio his ó ico de Anselmo José B aamcamp», p. 77
20 Mona QUIa E EPÚBLICa
ansELMo José B aaMCaMP: CHEFE Pa IDá Io Da EsQUE Da Moná QUICa 21
Os di igen es his ó icos pe cebe am o desa io que lhes e a ei o de o ma-
em um bloco al e nan e no espaço da esque da. No p óp io dia em que Fon es
ap esen ou o seu go e no no pa lamen o, José Luciano de Cas o de endeu que
ao lado do go e no hou esse semp e uma oposição que se p epa asse pa a o
subs i ui : «Que da exis ência do go e no ac ual esul e pa a o país a o ganização
de dois pa idos […] um mais ou menos conse ado , o ou o mais a ançado,
mais libe al, mais democ á ico»21. Não e a o almen e o iginal es a ideia (que
B aamcamp subsc e eu
22
), aliás p a icada em alguns países eu opeus e alada
ambém em Po ugal, onde a expe iência an e io ao «go e no da usão» podia
se in e p e ada como le ando a esse modelo. Mas e a uma solução lógica, a
pa i do alhanço da usão dos dois pa idos al e nan es e da consequen e ingo-
e nabilidade em que o país inha caído.
Só que enquan o à di ei a ha ia um Pa ido Regene ado já com uma ideia
e uma p á ica de go e no e um núcleo coeso e uma che ia o e, à esque da
ha ia dois pa idos, o His ó ico e o Re o mis a, a gladia em-se na dispu a do
mesmo espaço. A união des es dois pa idos ha e ia de e ela -se demo ada; os
his ó icos deseja am-na, B aamcamp chegou a p esidi a uma comissão mis a
de depu ados, no início de 187223; mas os e o mis as hesi a am, iludidos al ez
com o pode que ecen emen e lhes passa a pelas mãos.
3. A o mação do Pa ido P og essis a
À en ada em unções do p imei o go e no de Fon es Pe ei a de Melo, poucos
imagina iam que i ia se o mais du adou o go e no de oda a Mona quia Cons-
i ucional, en e Se emb o de 1871 e Ma ço de 1877. Bene iciou, é cla o, da boa
conjun u a económica que ajudou a esol e os a li i os p oblemas inancei os.
Além disso, o ei D. Luís ap eciou o es ilo p agmá ico de Fon es, a habilidade
com que euniu e man e e es á el uma escassa maio ia no pa lamen o e a e icácia
com que dominou uma en a i a e olucioná ia, em 1872.
Os his ó icos, eme idos a uma oposição que se p olonga a mais do que o
habi ual, dedica am-se na u almen e a inca as suas di e enças ideológicas em
elação ao go e no, que classi ica am de «conse ado » – pa a al con ibuiu
21 Discu so de José Luciano de Cas o, Diá io da Câma a dos Depu ados, 13/09/1871, p. 627
22 Discu so de Anselmo B aamcamp, Diá io da Câma a dos Depu ados, 18/09/1871, p. 702
23 Ca los Guima ães da Cunha, A «Janei inha» e o Pa ido Re o mis a, Lisboa, Edições Colib i, 2003, p. 247

20 Mona QUIa E EPÚBLICa
ansELMo José B aaMCaMP: CHEFE Pa IDá Io Da EsQUE Da Moná QUICa 21
ambém uma en ol en e ex e na na qual a ul a am as epúblicas na Espanha e
na F ança. Mas não o am ão longe como os e o mis as, cujo p ojec o de e isão
da Ca a ameaça a aze de ol a a ques ão cons i ucional que e ol e a o país
an es de 1851. B aamcamp conside ou-o «inopo uno» e suscep í el de aze
incon enien es «mui o supe io es às an agens»24. O p ojec o dos his ó icos, da
au o ia de José Luciano, e a mais selec i o quan o às al e ações a in oduzi ,
das quais se des aca am: o ala gamen o do di ei o de o o (na p á ica, o su á-
gio uni e sal masculino) e duas ei indicações da esque da não acolhidas no
Ac o Adicional de 1852: a sup essão da he edi a iedade dos pa es do Reino e a
limi ação do «pode mode ado » do ei25. Es es p ojec os, po ém, nunca o am
admi idos à discussão no pa lamen o, a é ao inal dessa década de 1870, quando
o p agma ismo de Fon es encon ou con ex o adequado pa a as p óp ias e o mas.
Em 1874, Anselmo B aamcamp ecusou a hon a ia de se nomeado pa
do Reino, po p opos a do go e no, em coe ência com a ese a adicional da
esque da ela i amen e à Câma a dos Pa es. Foi um ges o que eng andeceu a au a
de hon adez que odea a o seu nome e que oi decisi a pa a que osse acei e,
como che e comum, pelos his ó icos e pelos e o mis as, quando inalmen e
chega am a aco do, em 1876, pa a se undi em o mando o Pa ido P og essis a.
Vá ias en a i as inham sido ei as, nos anos an e io es, de ap oximação
en e os pa idos His ó ico e Re o mis a, sem esul ados p á icos, pa a além da
conce ação mú ua de posições no pa lamen o. A g ande de o a que ambos
so e am nas eleições de 1874, icando em conjun o eduzidos a 15 depu ados,
oi mais um a iso de que só unidos pode iam cons i ui uma al e na i a c e-
dí el ao Pa ido Regene ado . Os e o mis as, se inicialmen e se julga am com
ascenden e sob e os his ó icos, o am com o empo pe dendo a o ien ação e a é
a azão de se (ou po e em desapa ecido as azões de p o es o com a melho ia
económica, ou pela insu iciência do seu lema «mo alidade e economias», ou pelas
di isões in e nas ou pelo apagamen o polí ico do seu che e, o bispo de Viseu),
de al modo que Anselmo B aamcamp se ques iona a: «não sei o que é ei o de
al pa ido. Ninguém o ê, ninguém sabe dele»; «po mui o que ba alhemos não
há usão possí el»26. Já en ão o duque de Loulé inha alecido. A pa icipação de
alguns impo an es e o mis as, como La ino Coelho e Elias Ga cia, na c iação
24 Discu so de Anselmo B aamcamp, Diá io da Câma a dos Depu ados, 29/08/1871, pp. 446-447
25 P ojec o de José Luciano de Cas o, Diá io da Câma a dos Depu ados, 24/01/1872, pp. 120-125
26 Ca a de Anselmo B aamcamp a José Luciano de Cas o, de 11/10/1875, in José Luciano de Cas o, Co espondência
Polí ica, pp. 86-87
22 Mona QUIa E EPÚBLICa
ansELMo José B aaMCaMP: CHEFE Pa IDá Io Da EsQUE Da Moná QUICa 23
do Cen o Republicano Democ á ico mais os en aqueceu, le ando B aamcamp
a escla ece que, nas euniões man idas en e os dois pa idos, não admi ia con-
usões com os epublicanos27. Ha ia eceio de que essa união com a «esque da
adical» (imagem de que os e o mis as nunca se inham li ado) não co esse
bem e osse mal is a pelo ei como al e na i a de go e no.
Em Se emb o de 1876, na p aia da G anja onde B aamcamp passa a é ias,
ep esen an es dos dois pa idos ace a am a c iação do Pa ido P og essis a. Não
ha ia dú idas quan o a quem de ia assumi a lide ança: os p óp ios e o mis as
quise am B aamcamp como seu che e e José Luciano p opôs «uma p esidência
dupla pa a não deixa esquecido o bispo de Viseu»28. Aos mili an es his ó icos oi
p eciso explica que es a usão não azia os mesmos incon enien es que a usão
de 1865 que só ap o ei a a aos egene ado es. Na e dade, a usão ago a ei a
à esque da e o ça a a o ação, ao passo que a usão de 1865, ei a ao cen o,
anula a a o ação.
A o malização do no o pa ido oi ei a numa assembleia-ge al em Lisboa,
em Dezemb o, endo ap o ado um p og ama en e an o edigido po José Luciano
(con endo as ei indicações adicionais da esque da moná quica, das quais as mais
emblemá icas cons a am já do seu p ojec o de e o ma cons i ucional de 1872),
e um modelo o ganiza i o suge ido po Ma iano de Ca alho (o elemen o mais
des acado indo dos e o mis as) p e endo uma comissão execu i a e assembleias-
ge ais anuais. Tan o o p og ama como o modelo o ganiza i o coloca am o no o
pa ido num pon o mais a ançado do que e a co en e na época e mui o à en e
do Pa ido His ó ico que nem seque assumia um p og ama p óp io quando
su gi a, in e anos an es.
Assim se ap esen ou o Pa ido P og essis a como a al e na i a de esque da
ao já longo domínio egene ado , con ian e de ob e em b e e o a o égio de
o ganiza o go e no. Mas Fon es Pe ei a de Melo acolheu o p og ama p og essis a
com a acusação de signi ica a «dissolução» e a «des uição dos undamen os do
egime»29, de al modo que B aamcamp se decla ou «o endido» no seu b io e
no seu pa io ismo30. Depois, como o go e no oscilasse dian e da eno ada c ise
27 Ca a de Anselmo B aamcamp a José Luciano de Cas o, de 27/03/1876, in José Luciano de Cas o, Co espondência
Polí ica, pp. 89-91
28 Ca a de José Luciano de Cas o a An ónio Enes, de 11/09/1876, in José Luciano de Cas o, Co espondência Polí ica,
pp. 102
29 Discu so de Fon es Pe ei a de Melo, Diá io da Câma a dos Pa es, 26/01/1877, pp. 57-63
30 Discu so de Anselmo B aamcamp, Diá io da Câma a dos Depu ados, 27/01/1877, pp. 186-187
22 Mona QUIa E EPÚBLICa
ansELMo José B aaMCaMP: CHEFE Pa IDá Io Da EsQUE Da Moná QUICa 23
inancei a, Fon es manob ou pa a que a sua subs uição osse ei a a a o do aliado
Á ila e pa a que, em menos de um ano, o pode lhe caísse ou a ez nas mãos.
A us ação dos p og essis as aduziu-se numa campanha u iosa de a aques
ao ei – que excede am mesmo em iolência as dos socialis as e dos epublicanos31
– po pa e nomeadamen e de Ma iano de Ca alho e de Emídio Na a o; icou
céleb e uma ase de Ma iano: «O man o eal o nou-se capa de mal ei o es e
ab igo de mele ícios»32. Pelo con á io, ou os di igen es do pa ido, nomeada-
men e José Luciano, ecomenda am «dedicação pela mona quia e espei o pela
pessoa e pela on ade do ei»33. E a como se hou esse dois pa idos den o do
pa ido, um adical quase epublicano e ou o ins i ucional, icando a dú ida
se B aamcamp e a um che e incapaz de e mão na ala « adical» do pa ido ou
se e a um calculis a que, p ese ando a sua imagem, deixasse o « abalho sujo
pa a os ou os»34.
Ce o é que os p og essis as g anjea am uma eno me popula idade en e a
população de Lisboa e do Po o, onde ob i e am i ó ias nas eleições de 1878,
deixando abalado o go e no egene ado , que, além disso, já inha di iculdades em
en en a a con es ação pública à sua polí ica colonial, em pa icula à concessão
p i ada de um as o e i ó io no Zambeze. En ão, sim, o am os p og essis as
con idados a o ma go e no, assumindo B aamcamp a espec i a p esidência,
endo José Luciano, seu «b aço di ei o», na pas a polí ica do Reino, mas sem
in eg a qualque elemen o da linha adical do pa ido que se i esse des acado
a a aca o ei.
Como p esiden e do Conselho de Minis os, Anselmo B aamcamp a ingiu,
po an o, o pon o mais al o da sua ca ei a polí ica, em 1879. As expec a i as
e am al as no elei o ado da esque da, ao im de no e anos de jejum. Tão al as
que B aamcamp logo en ou mode á-las, na ap esen ação do go e no, a isando
que a ques ão da azenda e a a «mais ins an e e u gen e» e que as e o mas,
inancei as e polí icas, cons an es do p og ama do pa ido, não podiam se
ealizadas «de epen e. Ten á-lo se ia imp udência, que pode ia comp ome e a
ealização delas»35.
31 José Tenga inha, «P og essismo», Es udos de His ó ia Con empo ânea de Po ugal, Lisboa, Edi o ial Caminho, 1983,
pp. 104-108
32 Diá io Popula , 30/01/1878, p. 1
33 «O pa ido p og essis a», in O P og esso, 29/01/1878, p. 1
34 C ., po exemplo, Rui Mon ei o Ramos, «Anselmo José B amcamp, um nome à esque da», Público Magazine,
19/05/1991, p. 44
35 Discu so de Anselmo B aamcamp, Diá io da Câma a dos Depu ados, 02/06/1879, p. 1944
24 Mona QUIa E EPÚBLICa
ansELMo José B aaMCaMP: CHEFE Pa IDá Io Da EsQUE Da Moná QUICa 25
De início co eu bem. Pe an e o desa io, que desde logo os egene ado es
lhe coloca am ap o ando uma moção de censu a com o in ui o de p ecipi a
eleições enquan o a máquina adminis a i a em odo o país lhes e a a ec a, o
no o go e no soube al e a essa «máquina» a seu a o e conquis a uma g ande
maio ia de depu ados nas eleições de 1879, ob endo ambém do ei uma « o -
nada» de no os pa es.
Toda ia, o go e no B aamcamp icou ma cado pela ques ão colonial, em
especial pelo T a ado de Lou enço Ma ques celeb ado com a Ingla e a, do
qual só omou conhecimen o mais a de, po um jo nal inglês36. Esse a ado,
que o a assinado pelo minis o And ade Co o no seu úl imo dia de unções,
enquad a a-se numa ce a isão de Po ugal sob a p o ecção da aliança com a
Ingla e a, con endo cláusulas que a opinião pública epudia a, po exemplo: os
di ei os de opas b i ânicas passa em pelo e i ó io po uguês e de policia em
as águas po uguesas, bem como a in e enção inglesa na o ganização da pau a
colonial. B aamcamp, que acumula a a p esidência do Conselho com a pas a
dos Negócios Es angei os, chegou a pedi a demissão após o pa lamen o e
adiado a ap o ação do a ado, em Junho de 1880, num con ex o em que os
epublicanos comanda am a con es ação pública, i ando pa ido das comemo-
ações do T icen ená io de Camões. E a con es ação não diminuiu nem pe an e
as al e ações ao a ado que B aamcamp conseguiu, em melind osas negociações,
limi ando os e e idos di ei os a doze anos e sujei ando-os à au o ização p é ia
do go e no po uguês.
No seu úl imo mês de unções, Ma ço de 1881, o go e no p og essis a
en en ou mee ings odos os dias, ca egando sob e mui os dos seus elei o es que,
além disso, se sen iam us ados po não e em ealizadas as e o mas p ome idas.
De pouco lhe aleu lemb a que a e o ma da ins ução p imá ia o a ealizada,
que a e o ma elei o al se ia ap esen ada «em poucos dias» ao pa lamen o e que
ou as e o mas – sob e execuções iscais, sob e o ibunal de con as, sob e o
ec u amen o e a e o ma adminis a i a – es a am «penden es» do exame na
Câma a dos Pa es, p o a de que a oposição des a câma a não o deixa a abalha 37.
A inal, os egene ado es, que p imei o inham assinado o T a ado de Lou-
enço Ma ques, deixa am-no ado mecido na Câma a dos Pa es, a é que a p óp ia
Ingla e a dele se des inculou ambém. E assim e minou Anselmo B aamcamp a
36 Co eio da Noi e, 15/09/1881, p. 1
37 Discu sos de José Luciano de Cas o, Diá io da Câma a dos Depu ados, 17/01/1881, p. 142, e 16/03/1881, p. 287;
e de Anselmo B aamcamp, Diá io da Câma a dos Depu ados, 26/03/1881, p. 1134
30 Mona QUIa E EPÚBLICa
ansELMo José B aaMCaMP: CHEFE Pa IDá Io Da EsQUE Da Moná QUICa 31
Anselmo B aamcamp não exe cia a polí ica com paixão, mas como se osse
um de e he dado da amília. Nem seque gos a a do pode , como ele mesmo
con essou, sen ia « epugnância» em se minis o 62. Como e a di e en e de José
Luciano que, po essa mesma al u a, sendo mais jo em, não escondia a ambição
de «alcança , em nome do di ei o sac a íssimo, do p i ilégio indispu á el do
alen o, um luga no minis é io»63. Nes a al a de paixão, B aamcamp e a pa ecido
com Loulé, «O duque, que nunca em p essa…»64), ambém po não gos a de
discu sa no pa lamen o. Só que Loulé, não só não sen ia epugnância pelo pode
como goza a da an agem de e nascido na al a nob eza, o que naquele empo
e a impo an e, além da in luência que exe cia sob e o ei, de quem e a io. Já
José Luciano e a um polí ico da no a ge ação, desde os 20 anos no pa lamen o
a desen ol e oda uma a imba necessá ia pa a a lu a polí ica e que, depois,
demons ou um g ande ca isma como che e do Pa ido P og essis a65.
Em conclusão: Sem se um génio polí ico e escasseando-lhe algumas das
qualidades decisi as pa a ence na «mais b a a das ac i idades humanas»,
Anselmo José B aamcamp deu o seu nome a algumas g andes e o mas mode -
nizado as do país e à o mação do sis ema pa idá io, deixando uma ma ca, ao
longo de qua o décadas de ca ei a, de g ande dignidade, ec idão de p opósi os
e de consis ência em o no do desígnio de esque da mode ada que en endia se
melho pa a o seu país.
62 Discu so de Anselmo B aamcamp, Diá io da Câma a dos Depu ados, 10/05/1865, p. 1233
63 Discu so de José Luciano de Cas o, Diá io da Câma a dos Depu ados, 10/03/1865, p. 635
64 Ca a de Anselmo B aamcamp a José Luciano de Cas o, de 25/12/1869, in José Luciano de Cas o, Co espondência
Polí ica, p. 85
65 Sob e o pe il polí ico de José Luciano de Cas o, c . Manuel Ma ia Ca doso Leal, José Luciano de Cas o, na Cons-
ução e na De esa da Mona quia Pa lamen a , Disse ação de Mes ado em His ó ia Con empo ânea, Faculdade de
Le as da Uni e sidade de Lisboa, 2010, pp. 116-127

an ÓnIo sa DInHa E a Mona QUIa:
UMa Eo Ia Da naCIonaLIDaDE
c is iana lucas sil a*
In odução
An ónio Ma ia de Sousa Sa dinha, nascido em 1887, pe ence àquela ge a-
ção de in elec uais que i e am os momen os con u bados da implan ação da
República e ainda a p imei a gue a mundial. Faleceu em 1925, com apenas 37
anos. Vi eu, po an o, p a icamen e oda a 1.ª República, de cuja implan ação
o a um de enso , mas com a qual, mais a de, se iu desiludido, indo a o na -
se um moná quico e an i-ibe is a1 a aigado e uma das p incipais e e ências
dou iná ias do In eg alismo Lusi ano2. An ónio Sa dinha dis inguiu-se como
polí ico, poe a e ensaís a, endo publicado um núme o conside á el de ob as (pa a
* Dou o anda em His ó ia Con empo ânea na Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa. CLEPUL – Uni e sidade
de Lisboa.
1 An ónio Sa dinha ia no Ibe ismo (na c iação de uma ede ação ibé ica) um pe igo pa a Po ugal, que co ia o isco de
se abso ido pela Espanha, de endendo an es uma aliança peninsula , ealizada en e as duas mona quias. T a a -se-ia,
mais do que de uma aliança polí ica, de uma aliança cul u al e mo al: “a melho ga an ia do «nacionalismo» po uguês
na sua elação com a Espanha-i mã não passa a po a ados de comé cio ou po ede ações polí icas em que se íamos
semp e meno izados dada a desp opo ção nesses domínios. Ao con á io, de e íamos acen ua sob e udo o domínio
em que com a Espanha nos igualamos: a nossa alma, o nosso génio, a nossa cul u a” (Cala a e, 2006: 307)
2 O In eg alismo Lusi ano começou po se um mo imen o cul u al de eacção ao an icle icalismo da 1.ª República,
undado po ca ólicos e moná quicos exilados na Bélgica. To nou-se depois um mo imen o polí ico, undado em
Po ugal em o no da Re is a Nação Po uguesa (1914) e cons i uído em g ande pa e po an igos epublicanos,
como An ónio Sa dinha, mas ambém po Hipóli o Raposo, Pequi o Rebelo e F ancisco Rolão P e o. T a a-se de
um mo imen o que de endia o nacionalismo, o ca olicismo e uma mona quia adicional e an i-pa lamen a , em
p ol da “lusi ana an iga libe dade” e assen e no municipalismo. Embo a equen emen e associado à Re olução de
28 de Maio de 1926 e ao ideá io do Es ado No o, na e dade á ios in eg alis as opuse am-se ao e e ido egime,
conside ando-o de inspi ação ascis a, nomeadamen e Pequi o Rebelo, Luís de Almeida B aga e F ancisco Rolão
P e o. Ci ando Ped o Cala a e, o In eg alismo Lusi ano “ inha na sua base uma ideia: a de ee gue o ins in o de
solida iedade em que os po os se apoiam, a de encon a uma ideia cí ica, nascida dos de e minismos é nicos eco-
nhecidos como ais, capaz de i ma uma comunhão a ec i a «po cujo meio se e empe a o ese a ó io de ene gias
a que se chama a alma de uma aça»” (Cala a e, 2006: 304).
34 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo sa DInHa E a Mona QUIa: UMa Eo Ia Da naCIonaLIDaDE 35
a ida cu a que e e)3. Du an e o pe íodo em que cu sou Di ei o em Coim-
b a, Sa dinha e elou-se um epublicano ac i o, mas acabou expulso do Cen o
Republicano de Coimb a, po se du ida da sua e dadei a posição polí ica. De
ac o, a co espondência ocada com a noi a em 1910 e ela alguma oscilação
ideológica, mo i ada sob e udo pela ince eza quan o ao seu u u o p o issional.
A 2 de Se emb o de 1910 esc e e:
“Como epublicano, não posso acei a a o es da Mona quia. Mas comp eendes ambém que
um moná quico po a enção pessoal, sem que isso en ol a qualque coa c ação da libe dade
polí ica, pode in e essa -se pelo bom êxi o de oda a p e ensão de um epublicano, desde
que ela se baseie na equidade do di ei o.” (Des ignes, 2001: 26)
Mais a de, pouco depois da implan ação da República, esc e e:
“Sabes? On em eio-me ambém uma ideia eliz. Eu conheço de há mui o o Teó ilo
B aga, enho mesmo com ele ce a in imidade. Lemb ou-me i a Lisboa aí pa a a Páscoa,
cump imen á-lo e dize -lhe que ia acaba o meu cu so, como epublicano punha-me ao
dispo do go e no na ce eza de que o se i ia como se se e um ideal que p o essamos,
e c., e c. Conco das?” (Des ignes, 2001: 143)
Uma ez e minado o cu so em Coimb a, em Julho de 1911, e isando
uma ca ei a docen e na Faculdade de Le as de Lisboa4, en e an o undada,
Sa dinha começa a p epa a a sua disse ação com a qual p e endia conco e às
agas abe as pa a e e ida Faculdade. É ambém po meio epis ola que An ónio
Sa dinha ai dando no ícia ace ca da ese que es á a p epa a :
“Es ou e o çando e e ocando o p ólogo da disse ação. Aquilo é que é; nem bem com
moná quicos, nem com epublicanos.” (Des ignes, 2001: 505)
“A segui i á o p imei o capí ulo. Pa a ele p eciso de ecapi ula umas lei u as e aze ou as.
Chama -se-á O Génio Ociden al e se á o es udo do empe amen o das aças oceânicas como
modelos ci ilizado es ca ac e ís icos.” (Des ignes, 2001: 511)
Chamado a p es a p o as em No emb o de 1914, a ese de An ónio Sa -
dinha oi ep o ada, endo o jú i (de que azia pa e Teó ilo B aga) alegado al a
de solidez cien í ica. Es a ese oi publicada em 1915, com o í ulo de O Valo
3 En e a sua ob a poé ica, des acamos Epopeia da Planície (1910), Na Co e da Saudade (1922) e Chu a da Ta de
(1923); quan o aos seus ensaios, além daquele de que nos ocupa emos, oi au o de Ao P incípio e a o Ve bo (1924),
Ao Ri mo da Ampulhe a (1925) e A Aliança Peninsula (1925).
4 “O meu desejo é coloca -me na Faculdade de Le as que ainda es á po cons i ui , e eu pode ei ins ala -me logo lá
[…].” (Ca a de 4 de No emb o de 1910, apud Des ignes, 2001).
34 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo sa DInHa E a Mona QUIa: UMa Eo Ia Da naCIonaLIDaDE 35
da Raça: In odução a uma campanha nacional5. T a a-se de uma ob a de lei u a
di ícil, cla amen e di igida a um público especí ico, na qual o seu au o exp essa
o seu pensamen o polí ico-ideológico, que em ce os aspec os não é ino ado ,
mas que mos a uma in es igação es o çada.
A ob a é cons i uída po cinco capí ulos, p ecedidos po um p ólogo in i-
ulado “A e dade po uguesa”, no qual o au o ap esen a as linhas mes as da
ese que desen ol e á, po ezes de o ma epe i i a e pouco linea , ao longo
dos seguin es capí ulos: “A hipó ese do Homo Eu opaeus”, “O génio ociden al”,
“O espí i o da A lân ida”, “A eo ia da Nacionalidade” e “In eg alismo Lusi ano”.
É sob e o p ólogo, “A e dade po uguesa”, e o qua o capí ulo, “A eo ia da
nacionalidade”, que nos i emos deb uça , p ocu ando demons a a eo ia de
Sa dinha não só quan o à génese da nacionalidade po uguesa e à espec i a
impo ância do ac o é nico, mas ambém quan o àquelas que ele julga se em
as causas da decadência na nacionalidade.
Tendo como base, po um lado o pensamen o polí ico, de ca iz naciona-
lis a, de endido po in elec uais como Cha les Mau as
6
, e po ou o es udos
a queológicos e an opológicos e uma as o conhecimen o de His ó ia, An ónio
Sa dinha ap esen a-nos a sua “Teo ia da nacionalidade”, que desen ol e em o no
dos concei os-cha es de aça e g ey e em o no das ideias que ai epe indo ao
longo da ob a de que a “nacionalidade é um ac o biológico” (p. XXII), que
“a i ude p imacial do Luso eside na sua p edilecção localis a” (p. X) e que “o
Rei é o agen e cen ípe o, sem o qual o país omba ia” (p. V).
A cons ução da nacionalidade
O concei o polí ico de aça não é ecen e, diz Sa dinha, endo sido in odu-
zido en e nós pelo cis e ciense F ei Be na do B i o
7
, au o dos p imei os olumes
5 De ido às inúme as ci ações de pa es des a ob a, op ámos po simpli ica a iden i icação das mesmas indicando
apenas o núme o da página en e pa ên esis. Ainda em elação a O Valo da Raça, op ámos ambém pela ac ualização
da o og a ia nas ci ações, com a excepção da pala a “g ey”, que man i emos com es a g a ia, pelo ac o de se a a
de uma das pala as-cha e des a ob a.
6 Cha les Mau as (1868-1952), poe a e jo nalis a moná quico, oi o co- undado do Jo nal nacionalis a e an i-semi a
Ac ion F ançaise.
7 F ei Be na do de B i o (1569-1617) é conside ado o undado da his o iog a ia cis e ciense. Nomeado c onis a-mo
do eino, deu início a um p ojec o de edacção de uma His ó ia de Po ugal, da qual apenas chegou a publica
o p imei o e o segundo olumes (Mona chia Lusi ana). Foi acusado po Alexand e He culano de e in e p e ado
ac os his ó icos à luz de mi os e lendas e ainda de ep oduzi documen os o jados, nomeadamen e aqueles que
comp o a iam a e acidade do Milag e de Ou ique.
36 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo sa DInHa E a Mona QUIa: UMa Eo Ia Da naCIonaLIDaDE 37
da Mona chia Lusi ana. Com D. João II (O P íncipe Pe ei o, 1455-1495)8 e á
su gido a concepção ju ídica “dum odo uno”: a a-se do concei o polí ico de
G ey, nascido da sociologia omis a de i ada do De egimine p incipium ad Regem
Cyp i9 (S. Tomás de Aquino) e que ganha o ça no séc. XV.
Mas qual se á a o igem dessa aça? Segundo o au o , do Homo-A lan icus de i a
o subs a o indígena da população po uguesa, que se mani es a no “dolicóide
meão, de c ânio longo, cabelos escu os, co mo ena e al u a média” (p. 105),
e elado em Mugem. Sa dinha conside a a classi icação de Homo-Medi e anensis
menos exac a e, embo a ap esen ando a hipó ese do Homo-Eu opaeus, dep essa
conclui que es e úl imo, iden i icando-se com o homem lou o, de pele cla a e
“ empe amen o lin á ico” (p. 22), o iundo da zona do Bál ico (po an o, o cha-
mado Indo-eu opeu, ou a iano), não pode ia se o “p imogéni o po uguês”. O
Homo-Eu opaeus pene a ia no ac ual e i ó io po uguês sob e udo no séc. V, com
as in asões isigó icas, e depois du an e a Reconquis a do e i ó io aos Mou os,
iniciada a pa i das As ú ias (nes e caso, o Homo-Eu opaeus é ep esen ado pelo
“in anção leonês”). Quan o ao Homo-A lan icus, es e se ia o iginá io da lendá ia
A lân ida, be ço da ci ilização ociden al e, mais especi icamen e, do e i ó io
ociden al da Península Ibé ica, uma eo ia que An ónio Sa dinha ap esen a de
o ma e udi a e bem documen ada10.
Não nos que endo alonga em aspec os an opológicos, cen emo-nos po
enquan o no “homem de Mugem”, ou “habi an e ípico de Mugem” (p. V), que
se ia en ão o descenden e di ec o dos habi an es da A lân ida. A denominação
de i a do ac o de em 1863 o geólogo Ca los Ribei o e descobe o na ma gem de
um a luen e do io Tejo, na egião de Muge11, os céleb es Conchei os de Muge12,
es u u as umula es nas quais es a a concen ado um núme o conside á el de
esquele os do pe íodo mesolí ico. O ac o de es es se encon a em em sepul u as
co obo a a ese que de ende o ca ác e seden á io do po uguês p imi i o, que
8 No e-se que a di isa das A mas de D. João II e a “Pola lei e pola g ey”.
9 Tex o de ca ác e polí ico, dedicado ao Rei do Chip e, que a a da melho o ma de go e no e do pe igo da i ania.
Nes a ob a, S. Tomás de Aquino de ine o Homem como um se polí ico e sociá el po na u eza, de endendo que
apenas em comunidade a humanidade se p ese a e que o de e do go e nan e é assegu a a unidade e o bem-es a
do po o e p o egê-lo de ameaças ex e nas.
10
An ónio Sa dinha undamen a a sua eo ia com base em a iadíssimos es udos de his o iado es, an opólogos,
a queólogos, paleon ólogos, po ugueses e es angei os, cujas ob as ai e e indo em no as de odapé ao longo de
oda a disse ação.
11 Ou Mugem, si uada no concelho de Sal a e a de Magos, dis i o de San a ém.
12 Conside ados o maio complexo mesolí ico da Eu opa e uma das mais impo an es es ações a queológicas da p é-
-his ó ia po uguesa.

36 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo sa DInHa E a Mona QUIa: UMa Eo Ia Da naCIonaLIDaDE 37
“an es de p a ica a ag icul u a já se ixa e já en e a os seus Mo os” (p. 105). O
ac o de en e a os mo os es á, assim, ligado à ixação do po o à e a, dando
o igem à aldeia; só depois chega a ag icul u a, que in ensi ica esse en aizamen o,
ainda mais o alecido pelo ínculo de sangue – é o gé men da pá ia, que se
encon a no “habi an e ípico de Mugem”. Po sua ez, esse en aizamen o con-
duz ao apa ecimen o de mancomunidades (ou ci ânias), as quais são a o igem
do Município. Es as comunidades p imi i as são cons i uídas po um g upo de
indi íduos que são eles p óp ios “elos de uma cadeia que não se des az. Com
iliação espon ânea no pa en esco e no cul o dos Mo os, o ag egado de ine-se
e hie a quiza-se g adualmen e […]. Assim se comp eende a índole comuni á ia
do Ociden al” (p. 106).
Com a omanização da Península, su gi am as ins i uições, “o pesado apa-
elho adminis a i o do Lácio” (p. IV). Pa a An ónio Sa dinha, a submissão dos
po os au óc ones ao domínio omano e e um e ei o cons u i o, na medida em
que o çou a unidade que a é en ão não exis ia en e as ci ânias (que se encon-
a am isoladas umas das ou as), a im de se o e ece ao elemen o in aso uma
esis ência mais o e:
“Con inados no mais echado pa icula ismo, o am exac amen e as pugnas sob e-humanas
a que Roma os cons angeu que despe a am neles como que a pe cepção de ho izon es
no os, e elando-lhes o ca ác e sag ado duma causa que, sendo duns, se amos a a de odos,
no im de con as. Tinham que se encidos pa a que não eg essassem ao pe íodo an e io
de descon iança, com b igas cons an es de limi es e psicologia ín ima de ibo. Sujei os a
uma se ada uni o midade demog á ica pelo ape ado sis ema ibu á io do Impe io, pelas
exigências miúdas do censo o Impe io ob iga a a uma comunicação quo idiana as elações,
cada ez mais es ei as, dos que se ha iam is o coagidos a oca a co oa amu alhada dos
mon es pelo assen o anquilo e p odu i o das eigas. Quando essa ede co ical se ompeu
e o génio ocul o do Luso ol ou a a lo a , a uni icação consuma a-se”. (p. IX)
Passa a-se de um es ado de na u eza pa a um es ado de sociedade. Es a am
assim açados os alice ces inabalá eis da Pá ia, que não deixa am esmo ece o
génio pe sis en e do Luso quando os isigodos (dolicocé alos lou os, ap o o bis)
ie am subs i ui os omanos ou quando os mou os inicia am a ocupação do
e i ó io, em 71113. A pos e io econquis a c is ã da Península Ibé ica, ence-
13 Os isigodos pe manecem no e i ó io hispânico du an e ce ca de ês séculos, einando de 418 a 711, ano em que
os muçulmanos a a essam o es ei o de Gib al a e encem a ba alha de Guadale e, con a os isigodos lide ados
pelo ei Rode ico.
38 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo sa DInHa E a Mona QUIa: UMa Eo Ia Da naCIonaLIDaDE 39
ada a pa i da egião das As ú ias, le a á ao con on o, no e i ó io lusi ano,
en e duas e nias dis in as: a do nosso p imi i o dolicóide meão, pacho en o
e seden á io, e a do dolicóide al o, lin á ico, de cabelei a lou a, impe ialis a e
de as ado , descenden e do Homo-Eu opaeus e ep esen ado, como já oi e e ido,
no “ba ão no i-gó ico”, ou “in anção leonês”. Desse con on o, diz Sa dinha, sai
a eposição das o ças na u ais da Nacionalidade:
Em ez de um acumulado de senho es e se os, dizimando-se em in e miná eis b igas
p i adas, nós emos en ão, pelo iun o do habi an e indígena, a Pá ia apoiada nas man-
comunidades ag á ias da Raça, com o município po exp essão ju ídica e social duma
i mandade que se nu e da e a e que não p a ica ou a nob eza que não seja a da selecção
pelo abalho e pela alen ia”. (p. 110)
Se o leonês p e endia domina pelo di ei o de conquis a, o luso ence ia
pelo di ei o do sangue e da e a.
Em odo o empo que p ecedeu a undação de Po ugal, oi a p edilecção
localis a do luso que p e aleceu. Com o desen ol imen o p og essi o da ag i-
cul u a, “a eguesia i ompe consag ando a sede das á ias explo ações ag íco-
las”, assis e-se à o mação e ao inc emen o da p op iedade e ao su gimen o de
uma espécie de a is oc acia, cons i uída pelos chamados domini, que i ão a
co esponde aos e eado es dos concelhos. São os homens-bons do município,
descenden es do pequeno dolicóide e que deba e -se-ão com o homem lou o no
momen o da Reconquis a.
De ac o, “quando um elemen o es anho, ad indo de Cas ela na comi i a do
Bo gonhês, p e ende sob epuja a Nação nascen e, são os concelhos e as po oas,
– é o e cei o-es ado quem odeia o Rei e o anima na lu a con a a a ogância
dos dona á ios e das p ela u as” (p. 109). Esse ei é D. A onso Hen iques, que
apoiado nos concelhos libe a o Condado Po ucalense do domínio do seu p imo
A onso VII de Leão e Cas ela, o nando-o um eino independen e. O Concelho
é, po an o, a célula-mãe da Pá ia, de que o Rei cons i ui o agen e cen ípe o,
sem o qual a agmen ação de Po ugal e ia sido ine i á el e o equilíb io da
comunidade impossí el. A Realeza ai se o ó gão essencial de con e gência e
esponsá el pela du ação da unidade pá ia. Sem uma ins i uição he edi á ia
que o o ganizasse, o Luso não e ia o ma de se de ende “das e en ualidades da
posição geog á ica” e sob e udo das “cobiças nunca a as do izinho de ao pé da
po a” (p. 106). Foi com base na au o idade do ei, que em as ins i uições em
si concen adas, que a Nacionalidade se cons i uiu. Mas Sa dinha de ende ainda
38 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo sa DInHa E a Mona QUIa: UMa Eo Ia Da naCIonaLIDaDE 39
que e á sido, ambém, pela C uz e pelo Al a que Po ugal sob e i eu enquan o
nação independen e: “O Al a e o T ono são as duas o midá eis disciplinas que
o hão-de aguen a in ac o nos abalhos cus osos” (p. V).
Uma ez que as o igens da Nação, logo da Mona quia, são de ca iz localis a
ou municipalis a, cabe ao Es ado, na igu a do Rei, se i os Municípios, mas
sem que o pode do mona ca assuma um ca ác e absolu is a e cen alizado ,
con o me de endia S. Tomás de Aquino no De egimine p incipium:
“Os o ais acusam a base con ac ual da Mona quia Po uguesa, que não é uma mona quia
i mada na ideia ge mânica de posse, mas uma magis a u a espei á el, em que o Rei
não é um sobe ano […] mas simplesmen e um cabeça em que odos, g osso e miúdo, se
econhecem à uma”. (p. XI)
Mani es ações do “pequeno dolicóide” ao longo da his ó ia
Assim, pa a o nosso au o oda a his ó ia de Po ugal epousa sob e o mo i o
é nico e p onuncia-se pela “boca dos homens-bons do Município”, elegendo a
e a de Qua ocen os como o pe íodo de excelência, du an e o qual a e dadei a
Pá ia se ge a a “no espei o dos nossos limi es e pelo exe cício das i udes sób ias
da G ey” (p. 108). Ap esen amos os momen os da His ó ia nacional em que o
pequeno dolicóide se mani es a, comba endo pela libe dade pá ia e con a a
ameaça de domínio es angei o:
1. Na ba alha de Ou ique, em 1139, a ada en e as opas c is ãs coman-
dadas po A onso Hen iques e as muçulmanas. É nes e con on o que o pequeno
dolicóide, que se encon a a ado mecido, “ eapa ece na pe sis ência indebelá el
do seu e hos comuni á io”. Na sequência da de o a dos mou os, A onso Hen i-
ques é aclamado Rei de Po ugal. Mas impo a ainda e e i um aspec o ao qual
Sa dinha a ibui ele ância e in luência na his ó ia u u a, e que se á ecupe ado
no séc. XVII, com F ei Be na do de B i o, e o emen e con es ado no séc. XIX,
com Alexand e He culano: a a-se do denominado “Milag e de Ou ique”, que
pa a o au o de O Valo da Raça “consag a em ínculos de p omessa di ina a é
que a Nação de e possui no seu u u o imo al” (p. 124).
An ónio Sa dinha a ibui ao mi o um alo incomensu á el, pois do mi o
p ocede a Espe ança, que conside a o ac o dinâmico da cons ução e da esis-
ência da Nacionalidade:
40 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo sa DInHa E a Mona QUIa: UMa Eo Ia Da naCIonaLIDaDE 41
“Pa a mim, segundo os di ames p agma is as da minha cul u a, a é nacional que se ece
em ol a da Visão de Ou ique é o documen o ep esen a i o não só de quan o pode o
alo dos mi os, como ainda de que os po os que i em e são g andes não são os que mais
discu em, mas sim os que mais c êem.” (p. 119)
De ac o, o Milag e de Ou ique oi mo i o de espe ança e de é, na medida
em que induziu um sen imen o de p edes inação his ó ica, uma ce eza do des ino
in encí el de uma Nação “que inha o Senho po Pad inho” (p. 121). An ónio
Sa dinha acusa Alexand e He culano de, ao oma es e episódio como uma aude
u dida po monges, não medi “o alcance da ques ão”, pois descons uindo um
mi o que ize a de Po ugal uma nação p edes inada, He culano punha em
causa “um dos aços incon undí eis do alo da Raça”, o da Espe ança, que é a
“a alma-ma e das nações pa icula is as que subi am pelo ínculo do pa en esco
à consciência mais la ga de Pá ia” (p. 117).
2. Du an e c ise de 1383-1385 e na consequen e ba alha de Aljuba o a
(1385), cuja i ó ia po uguesa assegu ou a sua independência, ameaçada po
Cas ela. No con li o que se desencadeia com a mo e de D. Fe nando14 assis e-se
à in luência decisi a do mo i o é nico: “são os Concelhos que sol am a oz pelo
Mes e” – a a-se de D. João I, Mes e de A is, que em 1385 oi aclamado Rei de
Po ugal pelas Co es eunidas em Coimb a. “E é assim que a lo ação magní ica
de Qua ocen os se inaugu a” (p. 112), com as Co es a mani es a em o génio da
Pá ia: “1384 é pa a nós a epopeia dos Concelhos […]. São os municípios que
expulsam os cas elhanos” (p. 118). O séc. XV e á sido, en ão, a idade de Ou o
da his ó ia da Nacionalidade, de que oi símbolo a chamada “Íncli a Ge ação”15.
É com D. João I que em 1415 se conquis a Ceu a. Apesa de An ónio Sa -
dinha, como e emos adian e, condena a expansão além- on ei as, conside a
14 A mo e de D. Fe nando em 1383 colocou Po ugal em isco de pe de a independência: a ainha D. Leono não
goza a de popula idade em Po ugal; sem ilhos a ões, o ono ecaía sob e D. Bea iz, casada com o ei de Cas ela,
que ansia a o na -se ei de Po ugal. D. João, ilho ilegí imo de D. Ped o I, com o apoio de D. Nuno Ál a es
Pe ei a, decide dispu a o ono, sendo aclamado ei em 1385, depois de as suas opas e em encido as cas elhanas
na ba alha de Aljuba o a.
15
Designação po que ica am conhecidos os ilhos de D. João I: D. Dua e, u u o ei de Po ugal, D. Ped o,
D. Hen ique, D. João e D. Fe nando, o In an e San o. A espei o des a ge ação esc e eu Oli ei a Ma ins a ob a
his o iog á ica in i ulada Os Filhos de D. João I, publicada em 1891. O au o esc e eu no capí ulo XI: “Um ca ác e
bem es udado ale po um mundo is o. Quando os ca ac e es são como os dos ilhos de D. João I, eminen emen e
acen uados e p o undamen e di e enciados, a gale ia o na-se um e dadei o cu so da alma indi idual nos seus
enómenos mais suges i os. E, quando, inalmen e, a plêiade é, como es a oi pa a nós, a iniciado a da ida no a
que i emos na Renascença, a psicologia his ó ica ele a-se à al u a de uma in e p e ação das causas de e minan es
do nosso he oísmo passado – mais milag oso que mui os milag es pe an e os quais os homens oda ia ajoelham
con undidos” (pp. 345-346).
46 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo sa DInHa E a Mona QUIa: UMa Eo Ia Da naCIonaLIDaDE 47
Encon amos em O Valo da Raça ecos dos nossos in elec uais do século XIX
que pensa am a si uação do país e as causas da sua decadência, sendo e iden e
a lei u a a enda que An ónio Sa dinha ez das suas ob as. Salien amos os nomes
de Alexand e He culano, An e o de Quen al, Oli ei a Ma ins e Teó ilo B aga,
nomes que, de es o, encon amos epe idas ezes en e os á ios au o es que
cons am do ca álogo da biblio eca memo ial de An ónio Sa dinha (in eg ada na
Biblio eca João Paulo II, da Uni e sidade Ca ólica Po uguesa). Embo a An e o
de Quen al seja o único daqueles in elec uais que Sa dinha não nomeia na ob a
em ap eço, é sabido que es e admi a a o au o das Tendências Ge ais da Filoso ia
na Segunda Me ade do Século XIX,18 que na sua ase de ma u idade se ol a a pa a
a iloso ia budis a e que ia numa e olução mo al a espe ança de sal ação da
sociedade con empo ânea. Ac escen e-se a isso a possibilidade de se es abelece
um pa alelo en e as causas da decadência da nacionalidade indicadas pelo in e-
g alis a lusi ano na sua ese e aquelas enume adas pelo g ande impulsionado das
Con e ências Democ á icas do Casino Lisbonense, no dia 27 de Maio de 1871,
sendo a ma é ia eligiosa o pon o de desencon o en e ambos.19 Na e dade,
al como An e o, Sa dinha acusa o absolu ismo égio e as conquis as longínquas
como causas da decadência nacional. No en an o, o segundo ai mais longe (e
nes e pon o eside, no nosso in e esse pa icula 20, o aspec o mais in e essan e
da sua ob a) ao esponsabiliza , po um lado, o Es angei o e a sua in luência
pelo in o únio lusi ano e, po ou o, a Espe ança enquan o ac o dinâmico de
esis ência do Luso à sujeição de além- on ei as. Nes e caso, po Es angei o
en enda-se os Mou os, os Visigodos, os Cas elhanos (o “ izinho cobiçoso”), os
Judeus (o “es angei o do in e io ”), os po os asiá icos e a icanos (que ao se
mis u a em com os po ugueses in ecciona am a “pu eza da Raça”), os F anceses
e a Maçona ia (os “clubs sec e os”).
Embo a de a se lido com sen ido c í ico e com a consciência de que se
a a de um abalho de ju en ude, O Valo da Raça não deixa de ap esen a um
pensamen o com uma ce a coe ência na sua c í ica ao libe alismo, ao absolu ismo
18 Vide, a es e espei o, o a igo de Luís Reis To gal (“An e o e o ‘In eg alismo’: in e p e ação e ideologia”), p o e ido
num ciclo de con e ências o ganizado pela Sociedade Ma ins Sa men o, de homenagem a An e o de Quen al, e
publicado na Re is a de Guima ães.
19
Na sua con e ência As causas da decadência dos Po os Peninsula es nos úl imos ês séculos, An e o esponsabiliza o Ca o-
licismo pós- iden ino pelo desai e peninsula (po que do Concílio de T en o saiu da Con a-Re o ma, a Inquisição
ep essi a e os Jesuí as…). An ónio Sa dinha, pelo con á io, conside a a a Ig eja um dos “admi á eis sus en áculos
da nossa independência” (p. V).
20 Es e in e esse pa icula de e-se à in es igação que ence ámos no âmbi o do nosso dou o amen o em His ó ia, que
isa a p ospecção dos á ios discu sos sob e o Es angei o na cul u a po uguesa.

48 Mona QUIa E EPÚBLICa
di a o ial e ao indus ialismo: An ónio Sa dinha e a an ilibe al, mas condena a
de igual o ma a di adu a, impedi i a das libe dades ances ais do po o lusi ano;
con a um indus ialismo des ai ado, de endia o desen ol imen o da ag icul u a
(po que es a a na na u eza do país); com o e o no do egime moná quico,
p e endia que Po ugal e omasse o “ io in e ompido da adição”, po que
“o indi íduo só se explica como elo de uma cadeia que nunca se desa a”.
Re e ências Bibliog á icas
Fon es
Espólio de An ónio Sa dinha. Biblio eca Uni e si á ia João Paulo II, Uni e sidade Ca ólica
Po uguesa.
Es udos
BOAVENTURA, Rui, (2008): “An ónio Sa dinha, a queólogo? O ec u amen o do poe a de
Mon o e pelo «Pae Rocha»”, in A Cidade, Re is a de Cul u a de Po aleg e, No a Sé ie, n.º 15,
Po aleg e, pp. 111-140.
CALAFATE, Ped o (o ganização edi o ial), (2006): Po ugal como P oblema, ol. IV (Século XX
– Os d amas de Al e na i a). Lisboa: Fundação Luso-Ame icana e Público, Comunicação
Social, SA.
DESVIGNES, Ana Isabel Sa dinha, (2001): Nas O igens do In eg alismo Lusi ano. An ónio Sa dinha:
Aspec os de um Pe cu so In elec ual no Século (1903-1915). Disse ação de dou o amen o,
ol. I, . 2. Lisboa: ISCTE, pp. 26-31.
FERREIRA, Da id, (1981): “In eg alismo Lusi ano”, in Joel Se ão (Di ): Dicioná io de His ó ia
de Po ugal, ol. III. Po o: Li a ia Figuei inhas, pp. 332-336.
MARTINS, Oli ei a, (1891): Os Filhos de D. João I. Po o: An iga Li a ia Cha d on.
MATTOSO, José (Di .), [s.d.]: His ó ia de Po ugal, 8 ols. Lisboa: Edi o ial Es ampa.
QUENTAL, An e o de, (1926): P osas, ol. II. Coimb a: Imp ensa da Uni e sidade.
QUINTAS, José Manuel, O Valo da Raça segundo An ónio Sa dinha e o In eg alismo Lusi ano, URL:
www.angel i e.com/pq/unica/ o um_a qui o_3_o_ alo _da_ aca.h m (acedido a 01-07-2011).
MELLO, José An ónio Gonçal es de, (1981): “Sa dinha”, in Joel Se ão (Di ): Dicioná io de
His ó ia de Po ugal, ol. V. Po o: Li a ia Figuei inhas, pp. 493-494.
TORGAL, Luís Reis, (1992): “An e o e o ‘In eg alismo’: in e p e ação e ideologia”, in Re is a
de Guima ães, n.º 102, pp. 119-141.
VENTURA, An ónio, LADEIRA, Raúl, (1988): “Pa a uma o obiog a ia de An ónio Sa dinha”,
Sepa a a de A Cidade, Re is a de Cul u a de Po aleg e, No a Sé ie, n.º 2, Po aleg e.
48 Mona QUIa E EPÚBLICa
JoaQUIM naBUCo, Mona QUIs a
E aBoLICIonIs a1
ica do Vélez od íguez*
P e endo, nes e comen á io, desen ol e dois aspec os ela i os ao pensamen o
de Joaquim Nabuco, que me pa ecem ele an es pa a a medi ação b asilei a: 1
– O que idinho dos salões e o ideal moná quico; 2 – Uma pau a pa a a polí ica
pa lamen a : O abolicionismo.
Fa ei, an es, um b e e esco ço biobibliog á ico do nosso au o . Joaquim
Au élio Ba e o Nabuco de A aújo oi o qua o ilho de José Tomás Nabuco de
A aújo e Ana Benigna de Sá Ba e o, sendo que os seus i mãos e am: Sizenando,
Ri a de Cássia (Iaiá), Vi o e a caçula, Ma ia Ca olina (Sinhazinha). Nasceu no
Reci e, em 19 de agos o de 1849. Em dezemb o desse ano, Nabuco de A aújo,
elei o depu ado, mudou-se com a amília pa a o Rio de Janei o. O menino Joa-
quim (Quincas) icou com os pad inhos, no engenho Massangano, no Reci e.
Em 1857, em deco ência da mo e da mad inha, Nabuco oi pa a o Rio mo a
com os seus pais. No ano de 1859 es udou, in e no, no colégio do Ba ão de
Tau phoeus, em No a F ibu go. No ano seguin e, ing essou no Colégio Ped o
II, endo se bacha elado em le as, em 1865.
Em 1866 ing essou na Faculdade de Di ei o de São Paulo, onde es udou
du an e ês anos, des acando-se pelos seus pendo es de o ado e pelo a o de
o ganiza o jo nal A Independência. No ano seguin e, Nabuco o ganizou o jo nal
es udan il A T ibuna Libe al, e esc e eu Es udos His ó icos. Em 1868, o nosso
au o aduziu, pa a o pai, documen os do jo nal An i-Sla e y Repo e , ó gão da
B i ish and Fo eing An i-Sla e y Socie y. Em 1869, ans e iu os seus es udos pa a
a Faculdade de Di ei o do Reci e. Em no emb o desse ano, Nabuco o mou-se
1 Es e ensaio oi ap esen ado na semana comemo a i a do cen ená io da mo e de Joaquim Nabuco, ealizada pelo
Ins i u o His ó ico e Geog á ico B asilei o (Rio de Janei o), em Junho de 2010.
* Uni e sidade Fede al de Juiz de Fo a (B asil). Coo denado do Cen o de Pesquisas Es a égicas “Paulino Soa es de
Sousa” e do Núcleo de Es udos Ibé icos e Ibe o-Ame icanos da Uni e sidade Fede al de Juiz de Fo a.
50 Mona QUIa E EPÚBLICa
JoaQUIM naBUCo, Mona QUIs a E aBoLICIonIs a 51
em ciências sociais e ju ídicas, endo ol ado ao Rio de Janei o, onde começou
a sua ida de dandy, eqüen ando os salões do Impé io.
Lemb emos que em se emb o de 1871 oi p oclamada a Lei do Ven e Li e.
Em 1873, ano da o mação do Pa ido Republicano de São Paulo, o nosso au o
ealizou a sua p imei a iagem à Eu opa. Conheceu, no na io, a jo em e ica
a is oc a a Eu ásia Teixei a Lei e, com quem i eu umul uado noi ado, que e e
como palco a Eu opa e o bai o da Tijuca, no Rio. Nabuco, já madu o, em 1889,
p e e iu casa com uma ilha da a is oc acia emediada, de p endas domés icas,
E elina To es Soa es Ribei o. Com ela e e cinco ilhos: Ma ia Ca olina, Mau ício,
Joaquim, Ana Ma ia e José Thomaz. Em 1875, undou, com Machado de Assis,
a e is a A Época. No ano seguin e, ocupou o seu p imei o emp ego, como adido
da Legação B asilei a nos Es ados Unidos. Em 1878, o nosso au o oi ans e ido
pa a Lond es, ocupando o mesmo pos o de adido de Legação. Tendo alecido o
pai, Nabuco eg essou ao B asil. Elegeu-se depu ado e undou, em 1880, no Rio de
Janei o, com And é Rebouças, a Sociedade B asilei a Con a a Esc a idão e lançou, a
segui , o jo nal da Sociedade, O Abolicionis a, edigido, na ín eg a, po ele mesmo.
Em 1881, o nosso au o candida ou-se pa a a Câma a dos Depu ados pelo
1º dis i o da Co e, mas não se elegeu. Mudou-se pa a Lond es, como co es-
ponden e do Jo nal do Comé cio. Em 1882, o nou-se memb o da B i ish and
Fo eing An i-Sla e y Socie y. Em 1883, publicou o seu li o O Abolicionismo. Em
1887, em Lond es, conheceu o g ande e o mis a William Glads one, po quem
inha admi ação p o unda. No inal desse ano, elegeu-se depu ado e passou a
desempenha , na Câma a, o papel de líde do mo imen o abolicionis a. Es e
pe íodo ep esen ou a culminância do p es ígio pa lamen a de Nabuco.
Em se emb o de 1890, desgos oso com os umos posi i is as e jacobinos po
que en e eda a a República, o nosso au o publicou o mani es o in i ulado: “Po
que con inuo mona quis a”, endeu a sua casa em Paque á e passou a esidi em
Lond es. Nabuco o nou-se co esponden e do Jo nal do B asil. Residindo em
Pe ópolis, pa a onde se muda a com a amília em 1893, ecebeu á ias p opos as
pa a ade i à República, endo-as ecusado. Ao ensejo de uma dessas nega i as,
esc e eu o seu mani es o in i ulado: O de e dos mona quis as. Em 1896, o nosso
au o ade iu ao ecém- undado Pa ido Mona quis a. Em is a de que não oi indi-
cado pa a con inua di igindo o jo nal dessa ag emiação, A Libe dade, a as ou-se
do pa ido. Em 1897, oi elei o sec e á io ge al da Academia B asilei a de Le as.
En e 1898 e 1899, Nabuco publicou os dois olumes de Um es adis a do Impé-
io. In eg ou, a pedido do p esiden e da República, a missão pa a es uda a ques ão
50 Mona QUIa E EPÚBLICa
JoaQUIM naBUCo, Mona QUIs a E aBoLICIonIs a 51
das Guianas, que se ia a bi ada em a o da Ingla e a, a o que o abo eceu p o-
undamen e. Em 1900, o nosso au o assumiu a embaixada b asilei a em Lond es
e publicou Minha o mação. Em 1901, publicou os seus Esc i os e discu sos li e á ios.
Em 1905, endo sido c iada a ep esen ação diplomá ica do B asil em Washing on,
Nabuco assumiu o ca go de embaixado . Em 1906 p esidiu, no Rio de Janei o, a
Con e ência Pan-ame icana. Recebeu o í ulo de dou o hono is causa das Uni e si-
dades de Columbia e de Yale. Em 17 de janei o de 1910, Joaquim Nabuco mo eu
em Washing on, í ima de conges ão ce eb al. O seu co po oi anspo ado pa a o
Rio de Janei o, onde oi elado no Palácio Mon oe e, depois, en e ado no Reci e.
1. O que idinho dos salões e o ideal moná quico
A ida nas co es eu opéias gi a a em o no dos salões, no adamen e na
F ança, ao longo do século XIX. Já desde os empos do P imei o Impé io, logo
após a Re olução F ancesa, eles lo esce am. Napoleão Bonapa e ap ecia a mui o
a sun uosidade dos bailes palacianos e o bu bu inho de belas mulhe es, homens de
negócios, go e nan es, embaixado es e nob es que acudiam aos mesmos [c . Lé y,
1943: 35]. Madame de S aël, a co ajosa oposi o a ao absolu ismo bonapa is a
em ascensão, conside a a que a pio coisa que pode ia lhe sucede e a i e o a
dos salões pa isienses. De a o, o seu inimigo mais e oz, o Impe ado , baniu-a
da co e e dos salões, a o que ensejou a esc i a dessa magní ica ob a de lamen o
e c í ica mo daz ao seu algoz, in i ulada Dez anos de exílio [c . S aël, 1996].
Na co e de Luís Filipe, en e 1830 e 1848, o b ilho dos salões cons i uía
ainda a mola mes a da sociedade, o que le ou Vic o Cousin, o maio ilóso o da
co e, a dedica os seus úl imos anos de ida a his o ia a ida desses memo á eis
ecin os de cul u a, in igas palacianas e o ocas co esãs, num momen o iden i i-
cado pelos his o iado es como “La Belle-Époque de la mona chie de juille ” [c .
Ca on, 1993: 117]. Na co e po uguesa ansplan ada pa a o Rio de Janei o em
1808, no P imei o Reinado, na Regência, mas especialmen e no Segundo Reinado,
não podia se di e en e: a ida dos salões e a como que o co ação social da cidade.
Joaquim Nabuco, o jo em Quincas, como o chama am amilia es e amigos mais
ín imos, expe imen ou, de o ma mui o i a, o ambien e dos salões do Segundo
Reinado. Único país la ino-ame icano a e ins i uído ida de co e (as en a i as
mexicanas o am mui o cu as e sanguinolen as), o B asil cons i uiu palco p i i-
legiado, nas Amé icas, pa a essa expe iência social. A p opósi o da ida cul u al
52 Mona QUIa E EPÚBLICa
JoaQUIM naBUCo, Mona QUIs a E aBoLICIonIs a 53
do Rio de Janei o, no início da década de 1870, esc e eu Angela Alonso: “A boa
sociedade se encon a a nos ea os, como o de São Ped o, na p aça do Rossio. No
Casino Fluminense dança am-se quad ilhas; scho ish; polca; mazu ca e alsa. O
clube Moza inha se ões, com a p esença da amília impe ial, e no clube Bee ho en
ha ia eci ais de música de câma a de Chopin, Webe , Mendelssohn – mas a moda
e am os i alianos, suas ópe as e especialmen e Rossini. O epicen o da ida social
e am os salões. Neles, Quincas, o Belo, einou. Os do es na u ais, o jei o acei o e
o equin e da úl ima moda ize am dele um pa ido desejado. Reci a a mad igais
às moças e ganha a a ama de sedu o , como Juca Pa anhos, ilho do isconde de
Rio B anco, o en ão odo-pode oso che e de gabine e” [Alonso, 2007: 32].
É bem e dade que algo de aci u no odea a a co e de Dom Ped o II, aus-
e o po na u eza e pela impo ância que o Impe ado con e ia à ida amilia e
aos es udos. Mais do que g andes es as no Palácio Impe ial, o Mona ca p e e ia
pequenas euniões com amilia es e amigos ín imos. Mesmo assim, ou al ez
jus amen e po essa ca ac e ís ica de aus e idade impe ial, a sociedade ab ia luga
pa a que, nos salões man idos pela nob eza e pelos al os uncioná ios do Impé io,
se i essem as pequenas gló ias da ida de co e. “Essa abdicação da sun uosidade
co esã pela amília impe ial – isa Angela Alonso – pul e izou a ida social em
salões pa icula es. A pequena en e gadu a da boa sociedade ob iga a a uma o ação
dos dias da semana en e os an i iões, de modo a minimiza a compe ição pelos
con i as. A condessa de Ba al, p ecep o a das p incesas e aman e do impe ado ,
di igia uma pequena co e, pa a onde a luíam polí icos em busca de a o es impe iais.
No salão da ma quesa de Ab an es, em Bo a ogo, bailes, conce os, jogos, ep e-
sen ações e e úlias a aíam diploma as, polí icos, homens de le as e de negócios.
Ha ia dis inções pa idá ias. Os conse ado es iam ao ba ão de Co egipe encon a
a is as e diploma as, em jan a es seguidos de ol a e e, dança, poesia e música.
Os libe ais isi a am F ancisco Oc a iano, aonde os le ados – José de Alenca ,
Joaquim Manuel de Macedo, Be na do Guima ães, Al edo Taunay, Machado de
Assis – iam le echos de ob as em andamen o” [Alonso, 2007: 33].
Como se si ua a a ida da amília Nabuco nesse con ex o de co e? Di íamos
que com uma dignidade aus e a, que lemb a a os hábi os impe iais. Mas sem des-
cuida o e inamen o da melho adição a is oc á ica. Os Nabuco não e am icos.
O Senado Nabuco de A aújo, pa ia ca da amília, e a conse ado pe nambucano
de longa da a, e oi juiz de di ei o e depu ado (en e 1843 e 1851), p esiden e da
p o íncia de São Paulo (em 1851), minis o da Jus iça do gabine e Pa aná (en e
1853 e 1857) e do gabine e Abae é (en e 1858 e 1859), e, po im, senado do

52 Mona QUIa E EPÚBLICa
JoaQUIM naBUCo, Mona QUIs a E aBoLICIonIs a 53
Impé io (em 1857). O pai de Quincas semp e desejou, como culminância da sua
ca ei a polí ica, chega ao ca go de Che e de Gabine e. Nunca conseguiu, em
deco ência do p edomínio dos denominados “empe ados” na che ia do Pa ido
Conse ado . Nabuco de A aújo, e o mis a, não encon ou o luga almejado na
cúpula do Pa ido. Desgos oso, a as ou-se da sigla adicional e, jun o com Zaca-
ias de Góes, undou no o pa ido, a Liga P og essis a, em aliança com os libe ais
mode ados. Embo a não possuísse í ulo de nob eza, o senado Nabuco de A aújo
pode ia se a olado en e os que Oli ei a Vianna iden i ica a como “Homens de
Mil”, iéis e inco up í eis uncioná ios do Impé io [c . Vianna, 1987: I, 300].
A p incipal bióg a a de Quincas ca ac e iza da seguin e o ma a inse ção da
amília do nosso au o no con ex o dos salões da época: “Compa a i amen e pouco
abas ados, os Nabuco ecebiam num salão meno , às quin as. Compensa am com
elegância e aus e idade, man endo seu o a ó io abe o du an e as ecepções. Ali
despon a am Sinhazinha e Iaiá, mui o ap eciadas como can o as lí icas, e debu ou
o Quincas. Foi assim, em casa, que ele conheceu os polí icos b asilei os de p oa,
diploma as es angei os e a al a sociedade. Vi ou habi ué de odos os salões. Com
o amigo A hu , ambém eben o libe al, ia às soi ées de Co egipe. Apesa das
ma cas pa idá ias, a polidez com os ad e sá ios se impunha, uma exigência de
bom- om. A inal, como di ia em sua au obiog a ia, acima de quaisque pa idos es á
a boa sociedade. Nesse mundo eina a a e ique a, e a moeda o e e am a elegância
e a a e da con e sação. A maes ia nesses quesi os ele ou Quincas a es ela de
p imei a g andeza. Solidi icou-se como sedu o inco igí el e i esis í el. Vol ou-se
especialmen e pa a as mulhe es madu as (…)” [Alonso, 2007: 33-34].
Com uma delas oco eu o seu p imei o a ai e omân ico. T a a a-se de uma
senho a casada (Ca olina Del im Mo ei a). A paixão começa a nos salões ca iocas
e p olongou-se no pa aíso de Pe ópolis. Comple amen e enamo ado, Quincas
con essa a ao amigo Sancho, em se emb o de 1871: “Quise a que a elicidade me
enha semp e sob a o ma que omou pa a mim e que eu suponho a de ini i a”
[apud Alonso, 2007: 34]. A im de e i a o escândalo, o ma ido aído iajou pa a
a Eu opa com a amília. Quincas e ia gos ado de segui a amada. Fo mado em
Ciências Sociais e Ju ídicas pela Faculdade do Reci e, em 1870, o jo em bacha el
não quise a p a ica a p o issão à en e de um esc i ó io de ad ocacia. P e e ia
emp eende uma iagem – mesmo que omân ica – à Eu opa, como, aliás, aziam
os jo ens a is oc a as da época. Mas os ecu sos amilia es e am pa cos, pa a lhe
ga an i longa pe manência no Velho Con inen e. A hegemonia dos conse ado es
no pode , de ou o lado, diminuía as chances de consegui algum emp ego o icial
54 Mona QUIa E EPÚBLICa
JoaQUIM naBUCo, Mona QUIs a E aBoLICIonIs a 55
digno da sua es i pe. P ocu ou, jun o ao minis o do Impé io, o conse ado João
Al edo Co eia de Oli ei a, ob e uma bolsa de es udos pa a “ap o unda seus
es udos na Eu opa”. O minis o ecusou a concessão da bolsa a Quincas com um
a gumen o a asado : “Sei que o moço que p e ex o pa a uma iagem omân ica,
acompanhando pessoa que já pa iu, ou ai pa i ; e se eu não i esse ou os mo i os
pa a ecusa a p opos a, es e se ia pe emp ó io” [apud Alonso, 2007: 35-36]. De
nada ale am os bons o ícios do di e o da Inspe o ia da Ins ução Pública P imá ia
e Secundá ia do Rio de Janei o, Homem de Mello, amigo do senado Nabuco de
A aújo, nem seque a in e mediação do p óp io Impe ado . O aus e o minis o
impôs a sua on ade. Funcioná io público impe ial e a ou a coisa.
Em 31 de agos o de 1873, o nosso au o pa iu pa a a sua p imei a iagem à
Eu opa. No na io conheceu a jo em a is oc a a, sob inha do conse ado Ba ão
de Vassou as, Eu ásia Teixei a Lei e, com quem iniciou umul uado namo o,
que se p olonga ia po anos a io, sem que i essem chegado ao casamen o. Ela,
he dei a de g ande pa imônio. Ele, a is oc a a emediado. As di e enças econô-
micas e iam sido o mo i o das di iculdades que o namo o e e. A p imei a escala
do jo em iajan e oi Pa is. Ali, pela mão de a is oc a as b asilei os, amigos de
seu pai, como o ba ão de I ajubá, ci culou pelos mais impo an es salões, endo
ido a opo unidade de conhece igu as impo an es como Adolphe Thie s, Jules
Simon, Vic o Schoelche , Edmond Sché e , Édoua d de Laboulaye, Cha les
Edmond, Sain -Hilai e, Renan, Hipóli o Taine e a já elha senho a Geo ge Sand,
com quem con e sou animadamen e sob e amenidades li e á ias e polí icas.
Em junho de 1874, o nosso au o chegou a Lond es. A majes ade da ci y
imp essionou o emen e Nabuco. No en an o, ele icou balançado en e a eminina
Pa is e a máscula capi al b i ânica, Meca do capi alismo. Mas a balança pendia,
no pei o do jo em iajan e, em a o da me ópole ancesa. Quincas a alia a es a
com o co ação e Lond es com a azão. Como, aliás, azia com os seus inúme os
amo es pa isienses. Eu ásia, adicada na capi al ancesa, e a a p ima donna das
suas p e e ências a e i as. As namo adas b i ânicas que e e, du an e as á ias pe -
manências em Lond es, e am p agmá icas demais pa a o jo em ad ogado.
Em A minha o mação esc e eu a espei o dessa ambigüidade, anspo ada
pa a os espec i os po os, o ancês e o inglês: “Às ezes me dis aio a pensa que
po o eu sal a ia, podendo, se a humanidade se de esse eduzi a um só. Minha
hesi ação se ia en e a F ança e a Ingla e a – aliás, sei bem que no começo do
século quem eliminasse a Alemanha do mo imen o das idéias, da poesia, da a e,
elimina ia o que ele e e de melho . En e a F ança e a Ingla e a, po ém, ico
54 Mona QUIa E EPÚBLICa
JoaQUIM naBUCo, Mona QUIs a E aBoLICIonIs a 55
semp e ince o. O meu de e se ia, al ez, soco e a F ança. Se madame Récamie
e eu es i éssemos a nos a oga , qual de nós duas o senho sal a ia? – pe gun ou uma
ez madame de S aël ao seu amigo Talley and. Oh! Madame, ous sa ez nage .
A Ingla e a, ambém, sabe nada ” [Nabuco, 2005: 70].
Mesmo a Ingla e a sabendo nada , ou al ez po isso, desde o início a p e e-
ência p á ica de Nabuco oi po Lond es e não po Pa is. Foi na ci y onde o nosso
au o passou a maio pa e dos anos i idos na Eu opa, an es da sua inal des inação
es ado-unidense. Vale a pena acompanha o aciocínio de Nabuco em elação à sua
ap eensão de ambas as me ópoles, que é uma ap eciação das duas cul u as, a inglesa
e a ancesa, mui o semelhan e, aliás, à que já inha e e i ado F ançois Guizo nessas
duas magis ais lições (13 e 14) da sua His oi e de la ci ilisa ion en Eu ope. O nosso
au o esc e eu, a espei o: “O gênio ancês em odos os aios do espí i o humano,
p incipalmen e os aios es é icos; o gênio inglês não os em odos, em a é uma opa-
cidade singula nos ocos do espí i o, que me ecem o nome de anceses, em quase
odos os que me ecem o nome de a enienses. A Ingla e a – a associação de idéias
em sido mui as ezes ei a – é a China da Eu opa; is o é, em uma indi idualidade
inamolgá el, incapaz de oma a isionomia comum. La inos, alemães esla os o -
ma ão uma só amília, po mui íssimos aços comuns, an es que o inglês deixe de
se um ipo sui gene is, à pa e do ipo cole i o eu opeu. Po esse mo i o, a F ança,
só, ep esen a ia melho a humanidade do que a Ingla e a; há nela mais a ibu os
uni e sais, maio núme o de aculdades c iado as, de qualidades de onco, maio
soma de he edi a iedade humana, de possibilidades e olu i as po an o, do que no
pa icula ismo e no exclusi ismo inglês. Em compensação, a aça inglesa pa ece se
mais sã, mais elás ica; e maio igo mesmo de gênio e de c iação; maio p o isão
de ida e de o ça – ainda que a o ça sem a imaginação e a cul u a (que na Ingla e a
em sido, em g ande pa e pelo menos, es angei a) possa degene a em b u alidade
e egoísmo. Es ão aí as azões da minha hesi ação, quando imagino um no o dilú io
uni e sal e me pe gun o que país, nos mais al os in e esses da in eligência humana,
me ece ia o p i ilégio de cons ui a a ca” [Nabuco, 2005: 70].
Lond es, pa a Nabuco, e a g ande como g ande oi a Roma dos Césa es.
“Qualque que seja a explicação, – esc e eu em A minha o mação – o a o é que
nunca expe imen ei esse p aze de i e em Pa is, que oi e é a paixão cosmopoli a
dominan e em edo de nós. A g ande imp essão que ecebi não oi Pa is, oi Lon-
d es. Lond es oi pa a mim o que e ia sido Roma, se eu es i esse en e o século II
e o século IV, e um dia, anspo ado da minha aldeia ansalpina ou do undo da
Á ica Romana pa a o al o do Pala ino, isse desen ola aos meus pés o ma de ou o
56 Mona QUIa E EPÚBLICa
JoaQUIM naBUCo, Mona QUIs a E aBoLICIonIs a 57
e b onze dos elhados das basílicas, ci cos, ea os, e mas e palácios; is o é, pa a
mim, p o inciano do século XIX, oi, como Roma pa a os p o incianos do empo
de Ad iano ou de Se e o: a Cidade. Essa imp essão uni e sal, da cidade que campeia
acima de odas, senho a do mundo pelo millia ium au eum, o qual no século inha
de se ma í imo; essa imp essão sobe ana, i e-a ão dis in a como se a humanidade
es i esse ainda oda cen alizada. O e ei o dessa imp essão de domínio oi uma
sensação de inalidade, que somen e Lond es me deu (…)” [Nabuco, 2005: 70-71].
Po ém, não oi a Ci y, como monumen o, o am as ins i uições polí icas
inglesas, odas elas c iadas pa a ga an i a libe dade dos cidadãos, as que mais
o emen e imp essiona am Nabuco. Após a sua pe manência em Lond es, o
nosso au o passou a de ende , com a do , o modelo b i ânico de mona quia
cons i ucional como o mais ci ilizado da Te a. As ins i uições do go e no ep e-
sen a i o, a magis a u a e o papel simbólico da mona quia: eis os ês elemen os
que cons i uíam a ped a de oque das ins i uições b i ânicas. A p opósi o, esc e e
Nabuco: “O que deixa ão unda imp essão na Ingla e a é, an es de udo, o
go e no da Câma a dos Comuns: a susce ibilidade daquele apa elho, ainda
pe an e as mais ligei as oscilações do sen imen o público, a apidez dos seus
mo imen os e a o ça, em epouso, da ese a, que ele concen a. Mais ainda,
po ém, do que a Câma a dos Comuns, é a au o idade dos juízes. Somen e na
Ingla e a, pode-se dize , há juízes. Nos Es ados Unidos a lei pode se mais o e
do que o pode ; é isso que dá à Co e Sup ema de Washing on o p es ígio de
p imei o ibunal do mundo, mas só há um país no mundo em que o juiz é
mais o e do que os pode osos: é a Ingla e a. O juiz sob ele a à amília eal, à
a is oc acia, ao dinhei o e, o que é mais do que udo, aos pa idos, à imp ensa,
à opinião; não em o p imei o luga no Es ado, mas em-no na sociedade (…).
Es a é, a meu e , a maio imp essão de libe dade que ica da Ingla e a. O sen-
imen o de igualdade de di ei os ou de pessoa na mais ex ema desigualdade de
o una e condição é o undo da dignidade anglo-saxônia” [Nabuco, 2005: 83].
Fazendo especial e e ência à ins i uição moná quica, eis a ap eciação en usias-
mada de Nabuco, con e ido, após a sua p imei a iagem a Lond es, em incondicional
de enso da mona quia cons i ucional: “Foi na Ingla e a que sen i que nunca a
nossa aça a ingiu o mesmo pon o de al i ez mo al que em uma Mona quia. Com
o p i ilégio dinás ico, que ambém o meu adicalismo ejei a a, eu ago a o ia bem,
não se azia no século XIX senão ap o ei a a adição nacional mais an iga e mais
glo iosa pa a neu aliza a p imei a posição do Es ado. A concepção moná quica
ica a sendo es a: a do go e no em que o pos o mais ele ado da hie a quia ica o a
62 Mona QUIa E EPÚBLICa
II – EPÚBLICa

HEn IQUEs nogUEI a E a EPÚBLICa
José es e es pe ei a*
1. Po ugal e a Eu opa em 1848
Hen iques Noguei a apa ece, a é hoje, como a au o do socialismo e do epu-
blicanismo, em Po ugal, mas se á um e o insc e e as suas p opos as como algo
que e oceda, linea men e, do 5 de Ou ub o ao seu ideá io. Em odo o caso,
na e lexão noguei iana in oca-se, e ec i amen e, de modo exp esso, a República
como Es ado ei o “pelo po o e pa a o po o” em con as e, no mais imedia o
da ci cuns ância his ó ica, com o “ egime espoliado , aiçoei o e accioso da
mona quia cons i ucional”1. Nesse sen ido, pode dize -se que exis e sin onia
ideológica do epublicanismo subsequen e, não só enquan o desejada mudança
de egime mas, ambém, como ideal pe manen e além da impo ância de que
se e es e a sua a gumen ação pa a os p ojec os ede alis as e ibe is as2.
Quan o ao socialismo, o au o dos Es udos sob e a Re o ma em Po ugal, ilia-o
nos g andes p incípios da igualdade e da a e nidade, desa iando a hegemonia
do libe alismo económico e insinuando uma a e a dou inado a consubs anciada
numa exo ação cla a: “Ensine a mode na economia polí ica os icos a se em
iquíssimos, que a ciência social guia á, modes amen e, o ope á io pela e eda
di ícil mas segu a do abalho, da economia e da mo ige ação, a é o ele a à
desejá el independência”3.
O eo exo a ó io noguei iano, com algo de impe a i o, a i ma-se como
exp essão omân ica em que o indi idualismo ca ac e ís ico da ideia de p og esso,
* Uni e sidade NOVA de Lisboa / Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
1
J.F. Hen iques Noguei a, Ob as Comple as (O ganizada po An ónio Ca los Leal da Sil a), Lisboa, Imp ensa Nacional-
Casa da Moeda, 1976-1979, I, 22. A pa i de ago a ci adas como O. C.
2 Magalhães Lima, La Fédé a ion Ibé ique, Pa is, Imp ime ie Gau he in & Cie, 1892, pp. 145 e ss.
3 O. C., I, 172.
66 Mona QUIa E EPÚBLICa
HEn IQUEs nogUEI a E a EPÚBLICa 67
enquan o eixo de uma eleologia libe al, se ansmuda nas p eocupações sociais
em que uma ce a lei u a egene ado a do c is ianismo em o seu luga 4. En am
em cena e são a en amen e lidos po Noguei a, que Lama ine, que Mazzini,
ambos en ol idos no mo imen o epublicano da segunda me ade da década de
40 de Se ecen os a culmina na “p ima e a dos po os” que, no que espei a a
Pa is, ansco eu du an e os ugazes meses e olucioná ios de Fe e ei o a Junho
de 1848. De salien a , igualmen e, a pe cepção exac a da conjun u a polí ica
po uguesa desse pe íodo, po pa e de Noguei a, e a consciência das abissais
di e enças exis en es en e o seu país e os de maio desen ol imen o ag ícola e
indus ial na Eu opa.
De e a ende -se, ainda, a que Hen iques Noguei a, embo a se dis ancie do
libe alismo eó ico e p á ico, nem po isso deixou de lou a algumas das ideias de
pe sonalidades como Richa d Cobden (1804-1865) nomeadamen e as que diziam
espei o ao deba e an i-p o ecionis a em o no das co n-laws e ao in es imen o
excessi o em despesas mili a es pondo em causa a paz eu opeia.
“Libe dade de comé cio com odos os po os, paz du adou a, que pe mi a o comple o
desa mamen o de odos eles, di ei o in e nacional undado na máxima independência de
cada um compa í el com os p incípios da jus iça, cong esso de á bi os de odas as nações
pa a decidi em odas as pendências, que hajam de susci a -se, pode cen al compos o de
con ingen es de odas elas pa a execu a as sen enças do g ande jú i, p o ecção e bene olência
ecíp oca de odos os po os, ha monia uni e sal, numa pala a, en e odos os memb os
da espécie humana – eis os g andes pensamen os que p eocupam os polí icos eminen es
que, como Cobden, êem a elicidade do seu país, não no a aso, não na misé ia, não nas
desg aças dos ou os po os, mas no seu adian amen o, na sua opulência, no seu bem-es a ”5 .
4 Pa a um enquad amen o do ema e das suas di e sas exp essões e Ma ia Manuela Ta a es Ribei o, Po ugal e a
Re olução de 1848, Coimb a, Mine a, 1990.
5 O. C., I, pp. 235-236. Como em ou as e lexões Hen iques Noguei a es a a mui o bem in o mado. Assim como
acon ece a com Sil es e Pinhei o Fe ei a é bem p o á el que o con ac o mais di ec o com o admi ado incon-
dicional de Adam Smi h ( he lumina y) enha sido ei o a a és da ob a de F édé ic Bas ia , Cobden e la Ligue oú
l`agi a ion anglaise pou la libe é des échanges, que eio a lume, em Pa is, em 1845, depois inco po ado na ob a
comple a do au o ancês. A ob a é compos a po uma in odução de Bas ia seguida da publicação de discu sos de
Cobden, in e enções pa lamen a es e documen ação da polémica em que o economis a inglês se en ol eu, ao lado
de ou os pa icipan es en e os quais B igh, Fox, e Rica do. Cons i uindo um clássico do pensamen o económico
libe al encon a-se acessí el em h p://oll.libe y und.o g/?op ion=com_s a icx &s a ic ile=show.php%3F i le=2344.
Sob e a necessidade de um sis ema de a bi agem in e nacional acompanhada da edução ecíp oca dos a mamen os
eja-se a ca a de Cobden sob e a polí ica es angei a, di igida aos seus elei o es de Wes Riding (Richa d Cobden.
No es su ses oyages, co espondances e sou eni s ecueillis pa Mme Salis Schwabe, Pa is, Lib ai ie Guillaumin e Cie,
1879, pp. 128-135. Es a ob a a a, mui o impo an e pa a a comp eensão das ideias e da mo imen ação eu opeia de
Cobden con ém, igualmen e, um apon amen o no á el da o ganizado a do li o sob e os acon ecimen os eu opeus
de 48.Ve pp. 118-128.
66 Mona QUIa E EPÚBLICa
HEn IQUEs nogUEI a E a EPÚBLICa 67
En e an o, o publicis a po uguês acompanha ia com a en o cuidado odos
os mo imen os e olucioná ios e de aspi ação nacionalis a eu opeus na sequência
dos acon ecimen os oco idos em F ança.
Em meados de Ma ço e i ica am-se, ambém, suble ações em Viena, Pes ,
Milão e Veneza. Em Junho, quando a e olução pa isiense pe de o ça, P aga e
Buca es e mo imen am-se e a Polónia pa ece ac edi a na sua au onomia. No
espaço ge mânico, na P ússia, na Ba ie a, em Baden e em F ank u as ideias
polí icas de F ança alimen a am a e ol a.
O discu so noguei iano não me pa ece comp eensí el sem a ende a odas
es as ci cuns âncias eu opeias ma cadas po o e pulsão nacionalis a. En e-
an o, em F ança, na sequência de um p ocesso plebisci á io, seguido do golpe
de Es ado, o “Pe i Napoléon” encaminha a-se, pa a um longo ajec o polí ico
de ca iz au o i á io.
O que se me a igu a de mais signi ica i o na ap eciação que Hen iques
Noguei a em a aze de igu as como as de Led u-Rollin, Mazzini, Kossu h,
Raspail ou Louis Blanc, mui as ezes u ilizando os seus pensamen os pa a epí-
g a es de alguns capí ulos ou mesmo ci ações no co po do ex o, é o signi icado
polí ico-ideológico que lhe anda associado. Supe ando a pu a e ocação dos
acon ecimen os que, e en ualmen e, chega am à inis e a po uguesa – onde se
i iam as consequências deco en es da Con enção de G amido6 impos a pelas
po ências eu opeias – o publicis a po uguês si ua de modo p oblema izado ,
mesmo que em no as ugazes, acon ecimen os e pe sonagens eu opeus. Em
Po ugal o impac o p á ico de 48 oi bas an e ela i o. Em odo o caso, po essa
da a, su gem os p imei os jo nais epublicanos (O Republicano e A República
en e ou os). O Eco dos Ope á ios e A Esme alda se ão, igualmen e, indicado es
de no os desa ios sociais e Hen iques Noguei a da ia a lume os seus Es udos sob e
a Re o ma (1851) a que se segui am os Almanaques Democ á icos e do Ag icul o
e, em 1856, O Município no século XIX.
A si uação do país polí ico deco ia, como disse, das consequências da Con-
enção assinada em G amido7, no concelho de Gondoma , em 29 de Junho de
1847.
A es u u a social do país ca ac e iza a-se, nesse des echo his ó ico, que puse a
e mo a meio século de lu as a icidas, po um lado, pelo peso, ainda signi ica-
6 C . José Es e es Pe ei a, Hen iques Noguei a e a conjun u a po uguesa (1846-1851), Coimb a, Ins i u o de His ó ia
e Teo ia das Ideias, 1976, pp. 2-5 (Sep. da Re is a de His ó ia das Ideias, ol. I (1976), pp. 160-163.
7 h p://www. lick .com/pho os/9480263@N02/2577733328
68 Mona QUIa E EPÚBLICa
HEn IQUEs nogUEI a E a EPÚBLICa 69
i o, da an iga nob eza, do cle o e de es a os da bu guesia ag á ia, inancei a e
come cial, po uncioná ios supe io es do es ado cons i uindo a o ça de apoio
do cab alismo endo po oposição, a pequena bu guesia u bana, semiu bana e
u al acompanhada po acções, bas an e pequenas, de p ole a iado u bano e de
in elec uais. Es a a dis an e, em odo o caso, a p esença de uma o mação social
ope á ia esul an e da e olução indus ial e i icada na Ingla e a e na F ança
e lec ida nas condições d amá icas dos mui os que i iam pa a não mo e .
O ludismo e o ade-unionismo são ealidades gene alizadamen e ausen es de
Po ugal como acon ece ia, igualmen e, com o ipo de p oblemas analisados em
La misè e des classes labo ieuses en Angle e e e en F ance (1840)8 de Eugène Bu e
(1810-1842) ou em Les classes ou iè es pendan l´année de 1848 en F ance9, de
Adolphe Blanqui (1798-1854). No en an o, Hen iques Noguei a es a a a pa
dessas análises como o demons a um a igo inse o no Almanaque Democ á ico
pa a 1853 quando dizia que a e olução que oco e a em F ança, em 1848,
podia se conside ada como um “g i o dolo oso das classes pob es naquele país”10,
a i mação in luenciada pela lei u a da céleb e ob a de Bu e que conhecia bem
e ha e ia de in oca ao longo da sua ob a.
Os acon ecimen os de 1848 conjuga am dois aspec os que se e lec i am no
andamen o da si uação polí ica ancesa e que es ão igualmen e p esen es nas
e lexões de Noguei a. Temos, po um lado, o p oblema do su ágio uni e sal
e, po ou o lado, a o ganização do abalho e a p omoção da associação que,
nos o os de An hime Co bon11 (1808-1891), ci ado em epíg a e pelo publicis a
po uguês, conduzi ia à emancipação de ini i a da classe ope á ia. Os esul ados,
oda ia, não se iam ão posi i os como se espe a a. Sabemos como o deside a o
do su ágio uni e sal comp ome eu de ini i amen e a ma cha dos acon ecimen os
8
h p://books.google.lu/books?id=5OdCAAAAIAAJ&p in sec= on co e &hl=p -BR&sou ce=gbs_ge_summa y_ &
cad=0# =onepage&q& = alse
9 h p://gallica.bn . /a k:/12148/bp 6k863257
10 O. C., II, p. 215.
11 Edi o do jo nal socialis a ope á io, L’A elie , que se publicou en e 1840 e 1850, con ibui á, depois de 1871, pa a
a consolidação da III República ancesa. Sob e a associação, no con ex o de 1848, An hime Co bon conside ando
em 1863, ês sis emas: a associação ope á ia, o di ei o ao abalho e à ins i uição co po a i a, di á o seguin e:”Des
ois sys èmes en e lesquels la classe ou iè e pou ai choisi celui de l´associa ion dans le a ail es , à coup sû , le
plus adical e le plus con o me aux endances mode nes. Les ou ie s le considé aien comme el. Il a eu même,
pendan la pé iode de 1848, le p i ilège d´a i e o emen l´a en ion populai e e il a pu dé e mine des e o s
considé ables pou ê e mis en p a ique. Cependan je dois econnaî e que l´en housiasme pou les associa ions
c´es bien ô e oidi, qu`a beaucoup p ès les e o s n´on pas é é pe sis an s su ou e la ligne, e que ce beau mou-
emen n`a guè e é é qu´un eu olle (A. Co bon, Le Sec e du Peuple de Pa is, Pa is, Pagine ez, Lib ai e-Édi eu ,
1863, p.121). Em 1863, Co bon e a de opinião que se de e ia e como mais adequado a ei indicação do di ei o
ao abalho.

68 Mona QUIa E EPÚBLICa
HEn IQUEs nogUEI a E a EPÚBLICa 69
ais como Lama ine ou Led u-Rollin os inham auspiciado nos dias ios do
Fe e ei o da capi al gaulesa. Sabemos, igualmen e, que a hipó ese socialis a se
a i ma ia, em 1848, mui o mais como p oblema eó ico do que impulso pa a
uma up u a.
Em odo o caso, que a dimensão uni e sal do su ágio que apon a pa a
República, que a libe dade de associação conjugada com a o ganização do a-
balho, que se anuncia, cons i uem e e ências de base do p ojec o e da na a i a
polí ica, social e económica noguei iana.
A p imazia da uni e salidade do su ágio e a inques ioná el pa a o publicis a
luso, embo a osse pe emp ó io em dis ingui o socialismo acional, ilus ado e
humani á io do comunismo absu do, i ânico e con á io á na u eza e sen imen os
do homem”12. Es a omada de posição, consequen e com o que é, ambém, a
sua abo dagem da p op iedade, con lui na simpa ia que nu ia po Mazzini. A
seguin e passagem que ci a do au o i aliano ei e a as suas con icções:
“As pala as de comunismo e de socialismo, con a as quais pa ece enca niça -se oda a i a
papal, não são na Encíclica
13
senão um a i ício o a ó io pa a p e eni os espí i os imo a os
e igno an es, que êem nes as pala as sinónimo de ana quia, de di isão iolen a das e as,
de abolição da p op iedade e, mais ainda, são os bodes emissá ios sob e os quais de em
cai odas as iniquidades de Is ael “ (…) ” O papa sabe ou de e sabe que o comunismo,
desconhecido na I ália e epelido pela maio pa e dos epublicanos, é olhado po nós
como uma decepção inimiga do p og esso, hos il á libe dade humana e de uma aplicação
impossí el; ele sabe ou de e sabe que o socialismo, mais aspi ação do que sis ema, não
p e ende ou a coisa senão subs i ui á ana quia desen eada dos di ei os e dos p i ilégios
indi iduais que es ão hoje me lu a, a associação p og essi a, consequência p á ica da a e -
nidade ensinada po C is o”14
2. O panóp ico espe ançoso da e olução us ada
A ideia de República e do Socialismo, à luz da associação, embo a “sem
e ol e os undamen os da sociedade” nem os “p incípios san os da amília e
12 Idem, p. 176.
13 Encíclica Nosci is e Nobiscum, de 8 de Dezemb o de 1849 (h p://digilande .libe o.i /magis e o/p9nosci .h m). Pio
IX inc epa os “pe e sos sis emas do socialismo e do comunismo”. C . Giuseppe Mazzini, Il papa nel secolo XIX,
Bas ia, 1850, p.5.
14 O. C., I, p. 176.
70 Mona QUIa E EPÚBLICa
HEn IQUEs nogUEI a E a EPÚBLICa 71
da p op iedade”15, an o na men e de Hen iques Noguei a, como em alguns da
sua ge ação alimen a-se, como e e i, de uma in luência di ec a e e lec ida dos
acon ecimen os eu opeus. Daí a impo ância que de o da a essas ci cuns âncias
mesmo que sem o ap o undamen o que po en u a o ema me ece ia.
No Almanaque Democ á ico pa a 1852, dedicado especi icamen e aos demo-
c a as po ugueses mas, gene icamen e, aos de odos os países como es emunho
de simpa ia, a e nidade e penho de aliança, há um conjun o de a igos assi-
nados po Hen iques Noguei a, ou a ele a ibuí eis, em que des ilam pe is de
ac o es signi ica i os da his ó ia eu opeia do seu empo de cujas ideias comunga.
En e eles, Alexand e Augus e Led u-Rollin (1807-1874), in eg an e do
go e no p o isó io da F ança, es abelecido em 25 de e e ei o de 1848, na sequên-
cia da dissolução da Câma a, numa coalizão que deco e de um comp omisso
dos que se ag ega am em o no do jo nal Na ional. E a o caso de Alphonse de
Lama ine (1790-1769), de Dupon de l´Eu e, (1767-1865), de F ançois A ago
(1786-1853), de Adolphe C émieux (1796-1880), de Ma ie (Pie e Ma ie de
Sain -Geo ges (1795-1870), de Louis An oine Ga nie -Pagès (1803-1878). Mas
ha ia, con apola men e, o g upo dos que, ins alados no Ho el de Ville, se au o-
p oclama am go e no socialis a: Fe dinand Flocon (1800-1866), Louis Blanc
(1811-1882), o ope á io mecânico Albe (Alexand e Ma in Albe (1815-1895)
e A mand Ma as (1801-1852), apoiados pelo jo nal La Ré o me.
Hen iques Noguei a i á a aça um pe il bem in o mado sob e as ci cuns-
âncias em que se eclamou a nomeação do go e no p o isó io e a con ocação
da con enção nacional em F ança. A cu a ap eciação que dedica á decisi a
impo ância pa a que o egime epublicano osse conc e izado é ocasião, ambém,
pa a a alia o malog o de “espe anças po p ema u as e injus i icá eis exigências”16
conducen es á ac uação de Ca aignac e ao desen ola ep essi o imedia o17.
Noguei a, quando esc e e sob e Led u-Rollin já es e se encon a no exílio,
em Ingla e a, não encon ando nada de mais simbólico pa a o elogia do que
in oca a ilogia de Dan on. audácia, audácia e semp e audácia18. À homenagem
a um dos encidos anceses de 48 segue-se a admi ação pelo “Ca ão da mode na
Roma”, Giuseppe Mazzini (1805-1872). O au o de O papa no século XX, exi-
15 Idem, I, p.174.
16 Idem, p. 188.
17 Idem, ib.: “caídas uma a uma odas as conquis as da democ acia na Eu opa, o pa ido epublicano não pode sus e
a ca ei a e óg ada duma assembleia imo a a e a polí ica insidiosa de um p esiden e, an igo aspi an e à co oa
impe ial”.
18 Idem, ib.
70 MONARQUIA E REPÚBLICA
HENRIQUES NOGUEIRA E A REPÚBLICA 71
lado em Lond es, como Led u-Rollin, me ece de Noguei a, o ap eço pela sua
lu a, que em p ol da epública, que pela abolição do pode empo al do papa.
T a a-se, quan o ao segundo aspec o, de um p oblema que ambém se e lec ia
sob e a si uação po uguesa, onde um egalismo es u u al p olonga a a p o ecção
da Ig eja e a discu í el legi imidade de imiscuição des a na ac i idade polí ica.
O a igo de Hen iques Noguei a sob e Lajos Kossu h (1802-1894) é oca-
sião pa a lemb a “a mais bela e espe ançosa de quan as p ima e as em lo ido
pa a os po os”19. Luis Kossu h simbolizando a e olução da Hung ia eco da a
a mesma ideia e a mesma pala a saudada em Pa is, Viena, Milão, Be lim e em
Mad id. O he ói magia que passou em Lisboa, em 18 de Ou ub o de 1851,
ep esen a a, como Mazzini, uma espe ança de esga e epublicano no in en o
de subs i ui o “pac o egoís a e an i-humani á io dos eis” na medida em que se
conc e izasse “a aliança a e nal e ci ilizado a dos po os”20.
Hen iques Noguei a não esquece á, igualmen e, o papel de Robe Blum
(1807-1848), p ecu so da c iação de um es ado nacional alemão. Em ex o que
lhe dedica no Almanaque Democ á ico pa a 1853 a i ma á: “Nós companhei os
nas c enças, nos comba es e nas espe anças, solidá ios com a causa da demo-
c acia, que nossos b aços hão- de um dia aze iun a na esc a izada Eu opa,
imos humedece com uma lág ima sen ida a co a do amigo do po o, que no os
a iseus assassina am pa a que não e elasse o alcance polí ico da máxima c is ã,
an as ezes epe ida e nunca aplicada- ós odos sois i mãos”21.
En e an o, no Almanaque Democ á ico pa a 1854, se iam in ocados Vic o
Hugo (1802-1885), Guiglielmo Pepe (1783-1855) e Da id d´Ange s (1788-1856).
Vic o Hugo que apoiou, espe ançado, a candida u a de Luiz Napoleão
cons a a na sequência do golpe de es ado de 2 de Dezemb o de 1851 que caiu
num embus e que denuncia á em His oi e d´un C ime22. Hen iques Noguei a,
ilho de uma ge ação que cul ua o au o de He nani não pode esquece o seu
céleb e pan le o Napoléon, le Pe i 23, de gene alizada di ulgação, dele ecolhendo
um conjun o de ideias e p ecei os de que, since amen e, pa ilha e signi ica i-
amen e ansc e e:
19 Idem, p. 193.
20 Idem, p. 196.
21 Idem, p. 232.
22 h p://www.a chi e.o g/de ails/his oi edunc im04hugogoog
23 h p://www.gu enbe g.o g/ebooks/22048
72 Mona QUIa E EPÚBLICa
HEn IQUEs nogUEI a E a EPÚBLICa 73
“A comuna sobe ana egida po um che e elei o; o o o uni e sal po oda a pa e, subo -
dinado, unicamen e que oca à adminis ação. Os sindica os e os pe i os egulando as
con endas pa icula es das associações e das indús ias, o ju ado, o magis ado de ac o,
escla ecendo o juiz, magis ado de di ei o, o juiz elei o, eis aqui pelo que oca á jus iça.
O pad e o a de udo, excep o da ig eja, i endo com os olhos pos os sob e o seu li o e
sob e o céu, es angei o ao o çamen o, igno ado do Es ado, conhecido só dos seus c en es,
não exe cendo mais a au o idade, mas endo a libe dade, eis aqui pelo que oca á eligião.
A gue a limi ada à de esa do e i ó io, a nação gua da nacional, di idida em ês bandos,
e podendo le an a -se como um só homem; eis aqui pelo que oca á o ça. A lei semp e,
o di ei o semp e, o o o semp e, o sab e em pa e nenhuma. O a pa a es e u u o, pa a
es a magní ica ealização do ideal democ á ico, quais são os obs áculos? Exis em qua o
obs áculos ma e iais, ei-los aqui. O exé ci o pe manen e, a adminis ação cen alizada, o
cle o uncioná io, a magis a u a inamo í el”24.
A e mina o e be e, Noguei a augu a melho es dias pa a o esc i o : “Ac u-
almen e V. Hugo i e com a sua amília em Je sey. Dali pode á a is a ao menos,
no longínquo ho izon e, as cos as da sua F ança, que um dia, acabada a du a
p o ação po que es á passando, há-de acolhê-lo e aos seus companhei os de
exílio, com o espei o de ido aos inabalá eis p opugnado es de suas libe dades”25.
Hen iques Noguei a p es a á a enção, igualmen e, ao Gene al Guglielmo
Pepe que, já em
1799
, pa icipa a do mo imen o epublicano, em Nápoles,
endo desempenhado um papel impo an e na mobilização da Ca boná ia, com
a qual man e e pe manen e con ac o. Em 1848, depois de longo exílio, Pepe
é enca egado de assegu a a lu a napoli ana con a as opas aus íacas não se
endo o nado o ecuo polí ico do ei impedimen o pa a que ele ajudasse, em
seguida, Veneza e o seu he ói Daniele Manin (1804-1857) na acção mili a que,
in elizmen e, se i ia a salda pela de o a en e aos exé ci os ad e sá ios.
Manin, com quem o publicis a po uguês se encon ou em Pa is, apa ece
e e enciado no Almanaque pa a 185526, com uma g a u a de Da id d´Ange s
pe sonalidade que me eceu, ambém, a a enção de Noguei a. É mui o impo -
an e a ende á no ícia do encon o de Noguei a com Daniele Manin sendo-nos
mesmo possí el desco ina algo da con e sa que i e am. Mui o na u almen e,
na comunhão de ideias de quem não ap ecia a a ma cha dos acon ecimen os
24 Idem, p. 247.
25 Idem, p. 248.
26 C . Idem, pp. 273-275.
78 Mona QUIa E EPÚBLICa
HEn IQUEs nogUEI a E a EPÚBLICa 79
de ei e a o lado posi i o das medidas e o mado as de Mousinho da Sil ei a
que impo a a conc e iza .
A in ensi icação da ag icul u a
45
de e ia es a ligada à indús ia, que no
que espei a à u ilização de ma é ias-p imas, que no que espei a ao consumo,
indo o comé cio, po seu u no, a es abelece o alo do p odu o ag ícola e
ab il sem esquece os en a es es u u ais pe sis en es no âmbi o do come cio
in e no e/ou ex e no. Também aqui, é o p incípio e a p á ica associacionis a
possí el que de e á iabiliza o ci cui o mais adequado en e a p odução ag ícola
a sua come cialização:
“Associe-se quan o possí el o p odu o e o come cian e, em pequenas e g andes companhias
sem nenhuma espécie de p i ilégio. Não só po es e meio os luc os e e em em maio
quan idade a a o da indús ia, mas ambém, os p odu o es se li am da op essão e e-
quen es queb as dos negocian es. Tal ez o c édi o dos nossos géne os, da inha, sob e udo,
ganhasse em que os p óp ios la ado es ossem os come cian es”46.
Em conclusão, Hen iques Noguei a p opõe uma lógica associacionis a pa a
a dinamização do ecido económico que, po ol a de 1850, se e ia numa
es u u a, p edominan emen e ag á ia, de imp e isí el indus ialização e, quan o
ao comé cio, de eição ma cadamen e dispe si a com a plena consciência dos
obs áculos aos seus quise a ag a ados que es a am po uma conjun u a polí ica
que não se islumb a a p omisso a:
“A Regene ação, amálgama de di e sas pa cialidades e esul an e de o ças opos as, não em
pensamen o polí ico nem economia de um ce o alcance. Daqui de i am, p incipalmen e, os
seus desace os e a quase es e ilidade da sua passagem no egimen do País. A Regene ação,
mos a eleidades e o mado as, que p e ende oca em udo e apenas agi a a supe ície
do p o undo lago dos abusos. É que Ihe al a o a ojo, o desp endimen o a consciência
da p óp ia o ça, a since idade de is as, que são essenciais a um go e no e dadei amen e
e o mado ” (…) ” En e an o, à al a de ou os me ecimen os a Regene ação possui em
subido g au o ins in o da conse ação e a esse ins in o sac i ica udo o mais, incluindo os
seus mesmos p ojec os”47.
Pa ecia es a mui o longe a República e o Socialismo – sonho de mui os dos
que na Eu opa do meio século de Oi ocen os assumi am as suas con icções
45 Idem, pp. 80-81.
46 Idem, p. 91.
47 Idem, III, p. 120. T a a-se de uma passagem de um a igo publicado, em 1856, no jo nal O P og esso (3.ª sé ie).

80 Mona QUIa E EPÚBLICa
e p ojec os. An e o de Quen al, nas páginas de O Ope á io, de 30 de Maio
de 1880, num a igo dedicado a An ónio Ped o Lopes de Mendonça (onde
lemb a Lama ine, A ago, Hugo, e mui os ou os que acima mencionei), en a
comp eende a ge ação omân ica de que Hen iques Noguei a pa icipa “mais
en usias a que e lec ida, poé ica e acilmen e c en e”48 que iu os seus sonhos
o na em-se pesadelos. Mas, em odo o caso, o gene oso exemplo, na a aliação
inal de An e o, pa ecia ep esen a um pon o de e e ência pa a as soluções a
p azo que, como sabemos, e iam des echos mui o mais p oblemá icos do que
a since a c ença do poe a micaelense suge e:
“O espí i o inexo á el da gue a social sop ou sob e a Eu opa e é pa a gue a que caminha-
mos, é só pela gue a que se á co ado o nó dos p oblemas que a mão sua e da a e nidade
não ingou desa a . A e olução socialis a, que se ap oxima, não se á uma poé ica masca ada
epublicana como a e olução de 1848, mas uma sé ia agédia his ó ica. As classes não se
con e em: podem mo e , mas mo em impeni en es”49 .
48 An e o de Quen al, P osas, Coimb a, Imp ensa da Uni e sidade, 1926, ol. II, p. 303.
49 Idem, p. 305.
80 Mona QUIa E EPÚBLICa
EMíLIo Cos a E a EPÚBLICa
an ónio Ven u a*
O nome de Emílio Cos a pouco di á, hoje em dia, aos es udiosos da P imei a
República e do mo imen o epublicano em Po ugal, mas, nos anos que an ece-
de am a mudança de egime, ele oi um dos mais ca ego izados p opagandis as
inse idos no chamado «ana quismo in e encionis a», is o é, naquele co en e
do mo imen o libe á io luso que, sem abdica dos seus ideais úl imo de cons-
ução de uma sociedade sem explo ado es nem explo ados, conside a a que a
República ep esen a ia uma e olução posi i a na senda do p og esso e da jus iça
social. Po isso mesmo, con a iando um dos p incípios básicos do ana quismo,
não enjei a am a lu a polí ica. Con e giam ac icamen e com os epublicanos,
mas não se con undiam com eles. A p oclamação da República se ia uma e apa,
enquan o pa a os epublicanos ela se ia o im úl imo.
Nes a nossa comunicação analisa emos apenas as ideias de Emílio Cos a
expos as en e 1902 e 1903, eme endo o lei o in e essado pa a um es udo mais
ap o undado que publicámos há anos1.
O pe iódico onde o au o em ap eço expôs inicialmen e as suas ideias polí icas
e sociais oi o semaná io po aleg ense O Amigo do Po o (1901–1903) O Pa ido
Republicano não e a hos ilizado nas suas páginas, mas a a i ude demons ada
pa a com ele es a a longe do aplauso incondicional. Conside a a us adas as
espe anças deposi adas no cong esso de Coimb a, em 1902. Em éspe as do início
dos abalhos, Emílio Cos a esc e ia: «Os nossos o os são pa a que o pa ido
e olucioná io i e mais alguns esul ados do que dos ou os cong essos em
i ado (…). Agua demos as esoluções do cong esso com o maio desejo de as
aplaudi , o que a emos se assim o de jus iça»2. Mas não oi. A di ulgação dos
* Faculdade de Le as da Uni e sidade de Lisboa. Cen o de His ó ia da Faculdade de Le as da Uni e sidade de
Lisboa.
1 An ónio Ven u a, En e a República e a Ac acia. O Pensamen o e a Acção de Emílio Cos a (1897 – 1914), Lisboa,
Colib i, 1944, 318 p.
2 Demé io, «Cong esso Republicano», O Amigo do Po o, nº 4, de 5 de Janei o de 1902, p. 2.
82 Mona QUIa E EPÚBLICa
EMíLIo Cos a E a EPÚBLICa 83
esul ados do concla e, que ap o ou a no a lei o gânica do PRP, causou p o undo
desapon amen o. Emílio esc e ia a p opósi o: «A única coisa que os e dadei os
democ a as êm a aze , é supo a não exis ência de semelhan e o ganização do
Pa ido Republicano, e abalha e olucioná ia e conscien emen e pa a a queda
de ini i a do egime ac ual, subs i uindo -o po ou o que possa o e ece mais
ga an ias de expansão às ideias pu amen e sociais, do que aquela que os magna as
poli iquei os do epublicanismo sem ideais nos êm magnanimamen e concede ,
como uma esmola dada egiamen e: de co oa e man o de a minho3. Es a é, sem
dú ida, uma posição in e encionis a, mas com uma dema cação ní ida ace à
di ecção do PRP, acusada de al a de i meza pe an e o egime, nomeadamen e
du an e a discussão do Con énio – «O Pa ido Republicano excep uando indi-
idualidades que não se ap o ei am dele – em enganado o po o»4. A dis inção
en e «pe sonalidades hones as» e es u u a pa idá ia não deixa de se in e es-
san e. Aí esidia a azão do elogio de João de Meneses, a inclusão de a igos de
João Chagas e de Heliodo o Salgado. O Amigo do Po o caminha a pa alelamen e
ao PRP, censu ando o que lhe pa ecia nega i o e apoiando o que en endia se
me i ó io. Ha ia uma iden idade de opiniões en e O Amigo do Po o e a Fede-
ação Socialis a Li e, uma o ganização animada po socialis as e ana quis as
in e encionis as, embo a aquele se mos asse menos seguidis a em elação aos
epublicanos. Em 1903, ace, po um lado, à discussão da o ien ação do Pa ido
Republicano iniciada pelo jo nal de Coimb a A Resis ência e, po ou o, pe an e
o deba e que na imp ensa ope á ia se a a a em o no do in e encionismo,
O Amigo do Po o publica a uma pequena no a do seguin e eo : «Nós, que não
pe encemos ao núme o dos que julgam inú il uma mudança de ins i uições, que
olham com indi e ença a queda da Mona quia e o es abelecimen o da República,
apoia emos os epublicanos, semp e que se a e do a aque ao inimigo comum,
a Mona quia»5. E p ome ia abo da o p oblema em b e e e de alhadamen e nas
páginas do jo nal. No núme o seguin e, Emílio Cos a desen ol ia o seu pensa-
men o, analisando as di e en es posições em con on o, dos socialis as au o i á ios
e dos libe á ios ace aos epublicanos. Reconhecia que em ambos os campos se
deba iam duas co en es, a abs encionis a na lu a pela República, e ou a, onde
ele p óp io pa cialmen e se in eg a a, que acei a a uma colabo ação com os
epublicanos, mas não a qualque p eço – «A queda da Mona quia é condição
3 Demé io, «Cong esso Republicano», O Amigo do Po o, nº 6, de 19 de Janei o de 1902, p. 1.
4 Demé io, «Os Sal ado es», O Amigo do Po o, nº 27, de 15 de Junho de 1902, p. 1.
5 «República», O Amigo do Po o, nº 54, de 31 de Dezemb o de 1902, p.1.
82 Mona QUIa E EPÚBLICa
EMíLIo Cos a E a EPÚBLICa 83
indispensá el pa a o p og esso do po o po uguês; com a con inuação do egime
au oc á ico -oligá quico que nos go e na, só podem con inua os desas es de
que o po o é í ima; o econhecimen o des a e dade é o econhecimen o da
necessidade de ac ua o mais ene gicamen e possí el, pa a a cons i uição de um
egime melho »6.
No en an o, a sé ie de a igos que o au o p ome ia não con inuou, quedando-
-se pelo p imei o. Aquele ex o o a publicado no nº 55, de 11 de Janei o de
1903, num momen o em que, desde o nº 51, já e am isí eis di iculdades na
publicação do semaná io. O nº 53 saiu a 21 de Dezemb o de 1902 e não a 18
como de ia. O nº 55 so eu um a aso de 3 dias, o mesmo sucedendo ao seguin e.
Os in e alos passa am a se de 11 dias. O nº 59 e a publicado 15 dias depois
do an e io . No de adei o núme o, in o ma am -se os lei o es de que «nº 62
des e jo nal publica -se -á no dia 25 do co en e» 66, o que não eio a sucede .
Em Junho de 1903, ês meses após o desapa ecimen o de O Amigo do
Po o, saía o li o É P ecisa a República?, de Emílio Cos a7, o maio con ibu o
eó ico p oduzido no âmbi o do deba e en e ana quis as in e encionis as e an i-
-in e encionis as. O li o sin e iza o pensamen o de mui os in eg an es daquela
p imei a co en e, mas, acima de udo, do p óp io au o , que pa ia de um ema
la gamen e cul i ado desde as úl imas décadas de oi ocen os – a decadência de
Po ugal. Esse es ado de debilidade ge al da sociedade e da nação in luencia a
os p óp ios go e nos, mesmo aqueles que o ulgo o ula a de i ânicos. E, que,
em sua opinião, «eles não passam de medíoc es i ane es de comédia, que ao
meno p o es o sé io cai ão com uma acilidade que há -de causa espan o aos
que os inham na con a de i anos a ale » (p. 2). Es a desc ição an ecipada do
5 de Ou ub o, se e anos an es da sua oco ência, não deixa de se cu iosa. No
Capí ulo I, «A República impõe -se», o au o ez uma exaus i a análise da ida
po uguesa, com aquele í ulo como co olá io lógico. O maio mal nacional
e a o alheamen o – «à g ande massa da população é -lhe absolu amen e indi e-
en e que os negócios públicos co am des a ou dou a manei a». O po uguês
insensibilizou -se e a as ou -se da polí ica como «se ugia da pes e»; não a aca a o
mal – a as a a -se dele. E ado se ia culpabiliza a polí ica em ge al – como mui os
ana quis as aziam – desp ezando -a, mas e a igualmen e e ado sob e alo iza
as ques ões polí icas. A ealidade não podia, po ém, se igno ada: «enquan o
6 Demé io, «A República», O Amigo do Po o, nº 56, 21 de Janei o de 1903, p. 2.
7 Emílio Cos a, É P ecisa a República? Lisboa, Imp ensa Libânio da Sil a, 1903, 104 p.
84 Mona QUIa E EPÚBLICa
EMíLIo Cos a E a EPÚBLICa 85
exis i em go e nos – o que há -de acon ece du an e mui as ge ações ainda – a
polí ica há -de exis i ». Mas ha ia que conside a que a si uação di e ia de país
pa a país, pelo que não exis iam ó mulas uni e sais. O maio pe igo con inua a
a se o desalen o – «de desc en es es ão semp e cheias as épocas de decadência,
p incipalmen e dos desc en es que nunca ac edi a am em coisa alguma» (p.
10). Pa a encon a as aízes his ó icas da nossa decadência – iagem que ou os
au o es p eceden es, como An e o ou Oli ei a Ma ins, já inham e ec uado –
Cos a soco eu -se p ecisamen e daquele úl imo, mas ambém de Teó ilo B aga,
concluindo que udo quan o a nação em so ido se de ia, no essencial, a “ ês
g andes desas es de que o am esponsá eis D. Manuel e D. João III, a sabe – a
expulsão dos judeus, o es abelecimen o da Inquisição e a in odução da Compa-
nhia de Jesus. A é en ão, «o po o é g ande com os eis; Cos a chega a mesmo a
elogia a acção in eligen e e hones a dos di igen es a é D. João I». Depois, udo
se ag a ou, com a as excepções. Cas elo Melho e Pombal «são dois homens
de alo (…) po que dois eis acos se lhes en ega am nas mãos» (p. 15). A
dinas ia de B agança, conside a a -a a pio de odas, ci ando a p opósi o o céleb e
discu so de Gue a Junquei o no comício de 27 de Julho de 1897, em Lisboa,
p omo ido pelo G upo Republicano de Es udos Sociais. Apenas uma essal a
posi i a pa a D. Ped o V, com o comen á io – «se é bom i e pouco». Tudo
isso ge a a um po o sem capacidade c iado a, me amen e « ep odu o de ideias
assimiladas com a acilidade de quem não em ideias p óp ias».
Emílio Cos a c i ica a o libe alismo moná quico, em especial o cen alismo
que ca ac e izou a ida nacional depois de E o amon e – «e a indispensá el
abso e , cen aliza odos os pode es, odas as a ibuições de impo ância, pa a
acos uma o po o a e no go e no cen al o único dispensado de bene ícios,
o senho sup emo sem o qual nada se pode consegui (…). E a p eciso habi ua
o po o a eco e ao pode cen al» (p. 17). Es a opinião, quan o ao ca ác e
pe e so da cen alização, i á man ê -la no u u o, não poupando a República
quando ela en e edou po um caminho, não de up u a com o passado libe al,
mas de con inuidade. Emílio Cos a semp e apoiou as inicia i as locais, as ligas
egionais, como a Liga Alen ejana, assumindo o es a u o de homem da p o íncia.
An e o e a ou o dos au o es azidos à colação a p opósi o da decadência
nacional, ambém e iden e no campo das le as e das a es. Mesmo países como a
Tu quia e a Rússia es a iam, em seu en ende , numa si uação mo almen e supe io
à nossa, apon ando como exemplos as igu as da his ó ia pá ia que conside a a
exempla es – Camões e Nun’Ál a es. A p oximidade do abismo pode ia e um

84 Mona QUIa E EPÚBLICa
EMíLIo Cos a E a EPÚBLICa 85
e ei o posi i o, possibili ando um pon o de i agem – «quando um po o chega
ao es ado de indi e ença, de inconsciência em que o po o po uguês se encon a,
en a -se na ase e olucioná ia, na acção ené gica pa a o sal a ». Mas essa sal a-
ção passa ia pela implan ação da República? Não necessa iamen e. Nes e pon o,
Cos a ap oxima a -se de alguns socialis as, como An e o, pa a quem a ques ão
do egime não e a ele an e. A Mona quia mos a a -se inope an e, incapaz de
melho a a si uação do país, sob e udo no plano mo al, o que ge ou uma com-
ple a incompa ibilidade en e o quad o ins i ucional igen e e a possibilidade de
uma adminis ação sé ia e hones a das coisas públicas sob aquele egime. «Se à
mona quia (…) osse possí el ans o ma -se (…), bem dispensá el se o na a a
mudança de egime» (p. 27). Mas, al não sucedeu. «Ou se az a República em
pouco empo (…) ou o po o po uguês deixa á de se um colabo ado au ónomo
e conscien e da g ande ci ilização uni e sal. A República impõe -se». Respondia
assim à pe gun a que escolhe a pa a í ulo do li o.
Tinha como ine i á el que «a e ol a há -de a almen e su gi ; mas ela se ia
di igida pelo PRP? O pa ido ep esen a ia odos os epublicanos? Es as ques ões
o am analisadas no Capí ulo 11, in i ulado «Os Republicanos Po ugueses».
Impiedoso pe an e o egime, Emílio Cos a não o oi menos ace ao Pa ido
Republicano, censu ando -lhe o p o undo silêncio que gua da a sob e mui as
ques ões públicas essenciais e o ac o de não se cons i uído po «homens que
o país econheça apa e 4 ou 5 pessoas da elha gua da) como capazes de o
sal a » (p. 32). O ecuo do PRP a igu a a -se -lhe cla o – «a e olução das ideias
epublicanas pa ece e -se ei o pela o dem na u al da ma cha do ca anguejo» –,
his o iando as azões desse e ocesso – o 31 de Janei o, o exílio e a p isão dos
p incipais di igen es. Dis inguia o PRP dos epublicanos, po que « epublicanos
de que ninguém du ida que sejam elemen os de p imei a o dem sob odos os
pon os de is a, nada que em em ge al com o pa ido». Uma das soluções pa a
ul apassa a c ise se ia a discussão in e na – acusa a o pa ido de al a de deba e
de ideias e uma depu ação ge al – «co a e queima à la ga onde e quando o
p eciso» (p. 34). O PRP não e a anspa en e no seu uncionamen o in e no –
«como é que um pa ido que se diz do po o e pa a o po o, p ocede pa a com ele
usando os mesmos mis é ios de que se e es em os moná quicos?». Mais ainda
– o PRP e a incapaz de ap esen a um p og ama go e na i o c edí el. A única
excepção nesse pano ama ca as ó ico o a a cons i uição do G upo Republicano
de Es udos Sociais, que, como imos, coincidiu com o despe a de Emílio Cos a
pa a a polí ica. Mas o GRES alhou po que e a «um ag upamen o de homens
86 Mona QUIa E EPÚBLICa
EMíLIo Cos a E a EPÚBLICa 87
e dadei amen e a is oc á ico, ainda que da a is oc acia de papel selado». Os
p o es os e as p omessas do Pa ido Republicano se iam, a inal, pa a masca a
uma is e ealidade – o PRP exis ia apenas de nome, não es a a o ganizado, e a
incapaz de sus en a a mais pequena lu a, descu a a comple amen e os meios
de p opaganda. Condicionado des a manei a, o que podia o po o espe a dele?
Limi a -se -ia a assis i aos discu sos demagógicos dos seus che es «que lhes êm
epe i pela milésima ez que só o PR pode sal a a pá ia?». E a adesão que po
ezes se no a a às inicia i as do pa ido, demons a ia que o po o apoia a as
suas p opos as? Emilio Cos a pensa a que não – «se o país pa ece es a epubli-
canizado, é pelo ódio a homens que o explo am e não pelo amo à epública,
que não sabe o que é. Odeia -se a mona quia sem se ama a epública, quando
de ia acon ece o con á io, se o po o es i esse ci icamen e educado pelos epu-
blicanos. Ama -se a epública, sem se odia a mona quia, po que as ins i uições
não se odeiam» (p. 39).
No cong esso epublicano de Coimb a, ealizado há ano e meio, epe i am-
-se «as mesmas i adas pa ió icas e democ á icas». As euniões pe iódicas eali-
zadas pelo Pa ido Republicano e am pouco mo i ado as. Nada p oduziam de
conc e o, e ela am -se es é eis. «Mil cong essos que se p omo am, hão -de e
os mesmos esul ados, enquan o neles hou e a p eocupação de a a exclusi a
e o inei amen e de me a polí ica pa idá ia» (p. 40). Po ou o lado, o PRP
mos a a -se incapaz de ap o ei a o descon en amen o popula , como sucede a
em 1901 com a onda an i -cong eganis a, «quando uma g ande pa e do país
se encon a a, se não comple amen e e olucionado con a a pe manência das
cong egações, pelo menos bas an e in e essado pelos acon ecimen os» (p. 44). O
mesmo acon eceu po ocasião do Con énio. Emílio Cos a po meno iza a: «nunca
al a am os epublicanos nas ocasiões em que a sua in e enção é necessá ia; quem
nunca apa ece é o PR». Es a dis inção que o au o equen emen e ez en e
epublicanos e PRP e ela a uma a e são isce al pela o ganização pa idá ia,
qualque que ela osse, posição que semp e conse a á no u u o. Pa a ela, o
«espí i o de pa ido» e a pe nicioso e ce ceado da libe dade indi idual; ecusa a
o jugo pa idá io – «quem se sujei a à disciplina pa idá ia, quem segui a sua
o ien ação, es á pe dido. «Deixa de se um homem e passa a se uma máquina»
(p. 47). Des alo iza a, po isso, os di ec ó ios e os pa idos o ganizados, «onde
exis e a bes i ican e disciplina». Ou a das consequências da ida pa idá ia e a
a exis ência de di ecções, onde o exe cício do pode empe a a os ânimos mais
e olucioná ios – «pa ece condição a al: em en ando pa a a di ecção do pa ido,
86 Mona QUIa E EPÚBLICa
EMíLIo Cos a E a EPÚBLICa 87
qualque bom epublicano ica imedia amen e a acado pelo mal da p udência e
do es udo. Deixa de se o mesmo; az -se logo epublicano, mas sem epública,
e olucioná io, mas sem e olução» (p. 46). Es a si uação consag a a um ce o
« e oluciona ismo» olcló ico, ino ensi o, em úl ima ins ância, pa a o pode .
E a -se e olucioná io «como se é habi ué do S. Ca los». Conspi a a -se, mas
inocen emen e, de modo a não se se incomodado se o go e no iesse a sabe
alguma coisa. «Con am -se aos milha es os e olucioná ios… que não que em
a e olução». Mas se á que Emílio Cos a desp eza a odo e qualque ipo de
es u u a o ganiza i a? De modo nenhum. De endia a exis ência de uma o ga-
nização «en e homens conscien emen e li es, que sabem po onde e pa a onde
caminham, espondendo cada um pelo que az», mas onde não exis isse a disci-
plina de pa ido a que odos se de em subme e sob pena de, em caso con á io,
se em a ados como ebeldes. Reconhecemos naquela de inição os p incípios
que de am co po à FSL, com uma g ande coincidência de pon os de is a com
os de endidos po José do Vale nos a igos publicados em 1902.
O caminho a segui e a a p epa ação do po o a a és da educação, mas,
con a iamen e àqueles que de endiam se necessá io ins ui p e iamen e as
massas como condição pa a o ad en o da República, Emílio Cos a mani es a -se
a o á el a uma acção e olucioná ia u gen e – «é mais ú il es abelece p imei-
amen e a epública e educa -se depois o po o» (p. 48). Uma das consequências
do en aquecimen o do PRP oi o c escimen o, embo a modes o, das co en es
socialis as, an o au o i á ia como libe á ia, não obs an e os en a es le an ados
pelas au o idades. O epublicanismo já i e a a sua época de p opaganda. Ago a
e a necessá io passa a uma ou a ase, e olucioná ia, pa a a qual o pa ido não
es a a p epa ado. Não esqueçamos que es e li o oi esc i o em 1903. Po isso
mesmo, não deixa de se escla ecedo a a a i mação de Cos a de que «o e olu-
ciona ismo sec e o, a conspi ação, há -de su gi a almen e, como única solução
de ca ác e p á ico, pa a a queda de ini i a dum egime que nos esmaga, que nos
ouba e que nos ende» (p. 52). De ac o, sabemos como oi decisi a a acção da
Ca boná ia Po uguesa a pa i de 1907 nos p epa a i os e olucioná ios, bem
como o papel undamen al que lhe coube no ad en o do no o egime.
Emílio Cos a enuncia a as ca ac e ís icas essenciais que de e iam, em sua
opinião, no ea a u u a República, a qual não podia se , de modo nenhum, a
me a subs i uição do ei po um p esiden e, objec i o sec e amen e acalen ado po
mui os pseudo - epublicanos. Embo a o PRP se conse asse silencioso quan o ao
modelo a adop a e o po o desconhecesse qual o seu p ojec o de adminis ação
88 Mona QUIa E EPÚBLICa
EMíLIo Cos a E a EPÚBLICa 89
al e na i o, ou se a u u a República se ia uni á ia ou ede a i a, Cos a de endeu
a cons ução de uma democ acia o ien ada segundo as mode nas co en es sociais,
que p epa asse o e eno pa a a edi icação de «ou os monumen os sociais mais
ele ados» (p. 55). E a um p imei o es ádio. As ins i uições democ á icas se iam
e olu i as. Se pe manecessem inal e á eis e não acei assem as no as ó mulas
sociais, acaba iam po se o na imp og essi as e a é eaccioná ias. A u u a
República Po uguesa de ia, quan o a ele, assen a em ês pila es undamen ais.
O p imei o e a a descen alização adminis a i a, que pe mi i ia ao no o egime
des ui oda a ob a cen alizado a da mona quia, ga an indo plena libe dade
indi idual e uma g ande au onomia às ins i uições locais. E apon a a o mau
exemplo da Espanha, onde as p o íncias mais icas e am adicionalmen e p e-
judicadas pelo sis ema cen alis a de Mad id, que i ia à cus a delas. O modelo
de endido pa a Po ugal e a o de uma República ede alis a, descen alizada, com
amplo espei o pela au onomia egional.
O segundo ec o que Cos a inha como essencial e a a sepa ação da Ig eja
e do Es ado, p eocupação que e lec ia ainda os ecos do clima an icle ical i ido
desde 1901, com a sob e alo ização do p oblema. O au o o na a -se p isionei o
do seu empenhamen o pessoal naqueles e en os, ao a i ma que «a ques ão
eligiosa é ainda a que mais se impõe, de cuja solução dependem as ques ões
polí ica e económica» (p. 64). Es e exage o do p oblema, a ado em algumas
páginas, sin e iza -se na ó mula simplis a e que con as a com a gene alidade do
li o – «elimina o pad e é sanea o po o» (p. 67)… o e cei o pon o e a uma
consequência dos dois an e io es. Se as no as au o idades epublicanas le assem
a cabo a descen alização e esol essem o p oblema eligioso, elas não podiam
deixa de a ende à ques ão económica e social. De iam assegu a plena libe dade
de imp ensa, de eunião e de ensino, auxiliando ao mesmo empo as inicia i as
indi iduais, mas com uma o al libe dade de ac uação. O Es ado de ia a o ece
a c iação de odas as ins i uições que ouxessem algum bem -es a à população,
sem in e i no seu uncionamen o. Limi a -se -ia a aze despe a a inicia i a
indi idual e, quando mui o, a colabo a com ela. Mas logo que a sua acção se
o nasse dispensá el, o Es ado de ia e i a -se, sob pena de se con e e num ac o
de es agnação: «Quan o meno é a in e enção do Es ado na ida do indi íduo,
isolado ou associado, maio é o bem -es a e o p og esso dum po o» (p. 71).
O e cei o e úl imo capí ulo de É P ecisa a República? in i ula -se «Socialis as
e Libe á ios». Nele se az um comple o pon o da si uação em Po ugal an o
do socialismo au o i á io como do ana quismo, analisando o au o , ao mesmo
94 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 95
pa a a ida cí ica mui as consciências, incluindo a dele – «golpe de paixão que
me le ou à polí ica»3 –, com des aque pa a as ac i idades das ju en udes acadé-
micas de Lisboa, Coimb a e Po o. Pa icipan e ac i o nesses p o es os públicos,
iniciou um pe cu so de di igen e associa i o académico, indo a se um dos
undado es em 1891 da Fede ação Académica Po uguesa e um dos p omo o es
da g e e académica de 1892.
O momen o p imo dial da p ojecção polí ica e da gló ia epublicana des e
aluno já adul o do p imei o ano de Medicina acon eceu em 28 de Ma ço de
1890, com a publicação do a igo «B agança, o úl imo», no jo nal académico O
Ul ima um (núme o p og ama), edi ado em Coimb a, que da ia o igem a um
essonan e p ocesso judicial4. A i e e ência de opinião pe an e a Mona quia e o
Rei D. Ca los, acusado de «la ápio», «ga uno», «in eligência medíoc e», «b u o» ou
«pacó io», chega ia ao pon o de suge i que o melho se ia, «quando os canhões
começa em aos u os e quando o sangue p incipia a co e , me ê-lo numa das
gaiolas cen ais do Ja dim Zoológico, aze -lhe aí uma cama de palha e deixá-lo ica
mui o anquilo e mui o descansado», inalizando eemen emen e o a igo: «Mais
a de a His ó ia epe i á iamen e, como um eco: Úl imo animal de B agança!…».
O p ocesso judicial oi ins uído po abuso de libe dade de imp ensa con a
An ónio José de Almeida, mas ambém con a A onso Augus o da Cos a, es udan e
do segundo ano de Di ei o e au o do a igo «Fede ação Académica», publicado
igualmen e nesse pe iódico e conside ado suspei o de con e injú ias ao sis ema
ep esen a i o cons i ucional, e con a Ped o Augus o Ca doso, p op ie á io da
Tipog a ia Ope á ia, onde inha sido compos o e imp esso o e e ido pe iódico.
Na audiência de julgamen o, a de esa de An ónio José de Almeida oi p oduzida
pelo ad ogado epublicano Manuel de A iaga (p imei o P esiden e da Repú-
blica elei o), que ap esen ou, como a enuan es, as «ci cuns âncias singula men e
dolo osas em que se encon a a o país, logo após o Ul ima um da Ingla e a», a
« iolência com que o am ioladas as libe dades públicas», o ca ác e pu amen e
li e á io e dou iná io do a igo, a ausência de in enção de causa dano e de
inju ia ou o seu excelen e compo amen o como es udan e e como cidadão.
3 João Chagas, T abalhos Fo çados, edição de ini i a [1.ª ed., 1900], ol. III, Lisboa, Li a ia Aillaud e Be and, 1927,
pp. 224-228.
4 Pa a acompanha o a igo de An ónio José de Almeida, a de esa p oduzida pelo ad ogado Manuel de A iaga, a
sen ença p onunciada pelo juiz F ancisco de Assis Caldei a de Quei oz e o a igo solidá io do depu ado epublicano
José Ma ia La ino Coelho, c . An ónio José de Almeida, Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. I, Lisboa, J.
Rod igues & C.ª, 1933, pp. 35-52.

96 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 97
A sen ença de 25 de Junho de 1890, e ocando algumas a enuan es impo an es
que a de esa ap esen ou, condenou-o na pena de ês meses de p isão co eccional
em Coimb a, la ando-se algo de bas an e o iginal num ac o ju ídico: «[…] o R.
[Réu] oi alcançado pela ne ose que acome eu po ocasião do ul ima um inglês
g ande pa e do nosso po o, e a que as g andes colec i idades es ão po ezes
ambém sujei as, desno eado no meio da exci ação pública que se aduziu em
pa oxismos de i i ação pa ió ica, em cóle as des ai adas, em ódios sem objec o
de inido, pe deu ansi o iamen e o equilíb io das suas aculdades e se achou
colocado num es ado de espí i o pe ei amen e ano mal […]»5.
Na eacção pública à sen ença, a a és do pan le o Pala as de um in ansigen e6,
An ónio José de Almeida con i ma a as ap eciações ei as sob e o Rei, edigidas
com « i me anquilidade», e insis ia no diagnós ico de p o unda c ise nacional,
do «nosso o ganismo en aquecido e gas o, onde o emo habi a», exclamando:
«Vasco da Gama! Albuque que! Camões!… Nada emos com eles. O po o que eles
simbolizam pe an e a His ó ia há mui o que mo eu. Não somos mais que um
ebanho de co dei os que usu ui o espólio de um leão ou o pei o doen e onde
já não pulsa um co ação he óico. Que desg açados nós somos!…»7. A espos a
encon a a-a na u gência eden o a da República em Po ugal.
A sua acção polí ica inicial en aizou-se nessa mobilização es udan il de Coim-
b a con a o «Ul ima um», mas apidamen e se a iculou com ou os ní eis da
o ganização académica e das causas epublicanas. Assim, pa icipou no Cong esso
undado da Fede ação Académica Po uguesa em 1890, es e e comp ome ido
com a e ol a epublicana do Po o de 31 de Janei o de 1891, p omo eu com
mais 45 es udan es8 a g e e académica de Coimb a de Maio de 1892 e, em 15
de Janei o de 1893, a i ma a-se de ini i amen e na sua á ea polí ica ao discu sa
no une al do len e epublicano de Coimb a, José Falcão, p o esso de Mecânica
Celes e e As onomia e au o da mui o lida Ca ilha do Po o. Su gia, nessa ce i-
mónia, o o ado eloquen e e gal anizado , dimensão que o há-de ca ac e iza no
5 An ónio José de Almeida, Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. I, 1933, p. 45.
6 An ónio José de Almeida, Pala as de um in ansigen e. Aos pa io as, aos since os, Coimb a, [Tipog a ia Ope á ia],
1890. Es e pan le o oi esc i o na Cadeia de Coimb a e em as da as de 1 e 4 de Julho de 1890, o e ecendo o au o
e o edi o o p odu o líquido da enda à Filan ópica-Academia e ao Cen o Elei o al Republicano de Coimb a.
7 An ónio José de Almeida, Pala as de um in ansigen e, p. 7.
8 De en e os 45 es udan es, essal e-se, ambém, A onso Cos a, Paulo Falcão ( ilho de José Falcão) e João de F ei as
(alunos de Di ei o), Pi es de Ca alho (aluno de Medicina), Fe nando B ede ode, Alexand e Vasconcelos e Sá e
Mal a do Vale (alunos de Filoso ia).
96 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 97
longo p ocesso de desgas e polí ico da Mona quia, cons uindo a ca ac e ís ica
dominan e de « ibuno da República».
Cul i ou ambém o publicismo, di igido o a aos epublicanos, o a a uma
ala gada opinião pública. Quase semp e de ca iz adical, nes a p imei a ase é de
salien a a colabo ação na Via La ina (1889), O Ul ima um (1890), A República
Po uguesa (1890), de João Chagas, O Ala me (1891), de Ped o Ca doso, O Raio
(1894), de João de F ei as e Ca los de Lemos ou na Resis ência (1895), publicando
nes a uma signi ica i a sé ie de a igos sob a denominação de «Diá io de um
ebelde». Es e ebelde epublicano acaba ia o cu so de Medicina em 1895, sendo-
lhe o e ecido a 31 de Julho desse ano, pela edacção da e is a Resis ência, um
banque e de homenagem onde es i e am p esen es, en e ou os, os p o esso es
Guilhe me Mo ei a e José B uno Cabedo, A onso Cos a, Joaquim Ma ins de
Ca alho, An ónio Ce quei a Coimb a, José Bessa de Ca alho ( ep esen an e
do diá io epublicano po uense A Voz Pública) e mui os des acados epublicanos
da época.
De Pa is, onde se encon a a em missão de es udo médico, en iou o impo -
an e a igo «Pa ido Republicano» pa a o diá io O Mundo, que o publica ia
em 21 de No emb o de 19039. O Pa ido Republicano Po uguês a a essa a,
nessa época, uma ase c í ica a exigi econs i uição10 e An ónio José de Almeida,
adep o da me odologia e olucioná ia – simulando se um sans-culo e luso –,
nesse a igo, apon a a a u gência de a icula a «ob a da p opaganda» e a «ob a
da o ganização», ope ando-se uma igo osa escolha dos di igen es polí icos epu-
blicanos, e expunha, des a manei a, a sua concepção de e olução: «Os elhos
empos passa am. A espada omân ica que nos pendia da cin a, há mui o que a
ans o mámos na ude e pesada pica e a, com que, na luz ou na e a, emos
eng andecido o ilão gene oso do nosso c edo. E o ba e e ígio só dá alo a
quem o le a, quando a cabeça que ele cob e em ideias e ponde ação».
Dois anos depois, num ou o a igo, com o mesmo í ulo de «Pa ido
Republicano», publicado ago a no diá io A Luc a, em 14 de Janei o de 1906,
ol a a a diagnos ica o «es ado caó ico» das es u u as pa idá ias epublicanas
e a p opo a sua u gen e eo ganização que de ia se concluída num cong esso
pa idá io, ad e indo, sem equí ocos: «De e conside a -se passado o empo
da declamação. Sendo p eciso, semp e, ins ui , educa , e angeliza , chegou o
9 An ónio José de Almeida, Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. I, 1933, pp. 79-86.
10 Amadeu Ca alho Homem, A P opaganda Republicana (1870-1910), Coimb a, [Coimb a Edi o a], 1990, pp. 51-64.
98 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 99
momen o de aze mais alguma coisa. […] ba eu o minu o implacá el em que
é p eciso sacudi as almas…»11.
Em 1905, já adicado em Lisboa, se á p opos a a sua candida u a a depu ado
pelo cí culo de Azambuja, mas não oi elei o. A pa i de 1906 ala gou a á ea de
in e enção ao se elei o depu ado pelo cí culo o ien al de Lisboa. O agi ado da
ua umul uosa e do jo nal incendiá io ac escen a a, assim, a ibuna pa lamen a
como mais um palco de comba e polí ico. No eou semp e a p opaganda epu-
blicana po um con ic o «plano mo al», como obse ou o p o esso de Filoso ia
da Uni e sidade de Coimb a, Joaquim de Ca alho.
A sua o a ó ia pa lamen a exp imiu-se, em pa e, a a és das eg as discu -
si as dos comícios – uma das g andes excepções oi o undamen ado discu so
de espos a ao discu so da Co oa, p o e ido em 18 de Ou ub o de 1906 –, pois,
como ambém nos comunicou Joaquim de Ca alho, «a eloquência de An ónio
José de Almeida oi acima de udo lí ica. Não hesi ou nunca em pa en ea o seu
“eu” p o undo, e an es de conquis a as in eligências p ocu ou semp e a eba a
os co ações. As imagens poé icas inundam os seus discu sos e pan le os de p e-
dicado ; di -se-ia um poe a, pelo apelo equen e à sensibilidade e pelo i mo
da linguagem […]»12.
Em 10 de No emb o de 1906, den o da Câma a dos Depu ados, em cima
de uma das ca ei as, clamou pa a os soldados, chamados a expulsa os depu ados
epublicanos, a p oclamação da República. Nas legisla u as de 1906-1907 e 1908
a ou como depu ado algumas ques ões públicas essenciais: emune ação dos
mili a es (23 de No emb o de 1906), libe dade de imp ensa (14 de Janei o de
1907), descanso semanal (1 de Fe e ei o de 1907), saúde pública (26 de Fe e ei o
de 1907), g e e académica nacional (9 de Ab il de 1907), p o esso ado do ensino
p imá io (6 de Ab il de 1907) ou a si uação polí ica, social e económica nacional
(3 de Junho de 1908)13. Con inua a, no en an o, a anima as concen ações do
«po o epublicano», icando céleb es os discu sos p o e idos no Bai o And ade
em Lisboa (ac ual zona dos Anjos) assim como os elogios úneb es – depois do
já e e ido a José Falcão – a Ra ael Bo dalo Pinhei o (1905) e a Cândido dos
Reis e Miguel Bomba da (1910).
11 An ónio José de Almeida, Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. I, 1933, pp. 111-116.
12 Pa a uma análise da sua o a ó ia polí ica, c . P e ácio de Joaquim de Ca alho (Coimb a, Dezemb o de 1933), in
An ónio José de Almeida, Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. II, 1933, pp. V-XVIII.
13 Es e úl imo discu so se ia publicado po um g upo de epublicanos, com dis ibuição g a ui a – c . An ónio José de
Almeida, A mona quia «no a», Lisboa, [Tipog a ia Edua do Rosa], 1908.
98 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 99
A dimensão pública de An ónio José de Almeida como pedagogo cí ico do
ideal epublicano, po ia do ex o jo nalís ico, do elogio úneb e, do discu so
em comício ou do discu so pa lamen a , e elou um e icaz pan le á io e ibuno
p o é ico, mui o popula nas massas epublicanas ci adinas (pa icula men e de
Lisboa) mas ambém espei ado jun o das eli es polí icas do Pa ido Republicano
Po uguês e na classe polí ica da época. Con ibuiu ambém pa a a c iação de
algumas publicações pedagógicas, como, po exemplo, o Bole im da Escola Li e
(Coimb a, 1907), dinamizado po Campos Lima, ou A Higiene Popula (Lisboa,
1909-1910), di igida po D. An ónio de Lencas e, Rica do Jo ge e Al edo Luís
Lopes, sem con udo e publicado nelas qualque a igo.
A p io idade educa i a a ibuída ao ensino p imá io, na linha dominan e
do pensamen o pedagógico epublicano, adqui iu g ande exempla idade com
o longo discu so que p o e iu na Câma a dos Depu ados, em 6 de Ab il de
1907, o qual, se ia, du an e mui os anos, « eco dado» aos go e nan es da I
República Po uguesa pelas associações de p o esso es. Veja-se alguns exce os:
«À mona quia con ém a igno ância e o boçalismo do po o. Depois dos c imes
que ela em p a icado, ins ui o po o é o mesmo que inci á-lo a que se e ol e
[…]. É indispensá el i de an emão açando o umo que há-de segui a Pá ia
No a e esse umo há-de e po baliza capi al a educação do po o […]. O s .
João F anco disse que não da a aumen o de o denado, po que se os p o esso es
po ugueses es ão mal pagos, […] os de Lisboa e Po o, no seu sapien e dize
podiam, nas ho as agas, dedica -se a qualque géne o de abalho pa icula que
lhes osse emune ado e os da p o íncia, endo em ge al uma ho a onde cul i-
am ba a as, que con inuassem nesse cul i o, que alguma coisa ep esen a […].
O desp ezo da mona quia não signi ica o desp ezo da nação. Pelo con á io, a
Pá ia, es ando com odos os que abalham, com maio ia de azões se encon a
iden i icada com os p o esso es p imá ios que, de endo já hoje se um alen o de
p opaganda pa a a ans o mação polí ica, se ão depois um o midá el elemen o
de econs i uição nacional […]»14.
Iniciado maçon po comunicação no ano de 1907, adop ou o nome simbólico
de Ál a o Vaz de Almada (companhei o do In an e D. Ped o e com ele mo e a
na ba alha de Alba obei a) e iliou-se na céleb e Loja «Mon anha», n.º 214, de
Lisboa, à qual ambém pe enciam A u Luz de Almeida, undado e ene á el,
14 An ónio José de Almeida, Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. II, pp. 123-160.
100 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 101
ou An ónio Machado San os15. An ónio José de Almeida oi elei o G ão-Mes e
do G ande O ien e Lusi ano Unido pa a o iénio de 1929-1932, po ém o seu
g a e es ado de saúde impediu-o de oma posse. Nas éspe as da e olução
epublicana de 5 de Ou ub o de 1910, azia pa e da Al a Venda da Ca boná ia
Po uguesa – o ganização undada po Luz de Almeida –, endo sido elei o após
o Cong esso Republicano de Se úbal de 1909 pa a o comi é ci il e olucioná io,
ao lado de João Chagas e de A onso Cos a.
An ónio José de Almeida en ol eu-se no mo imen o e olucioná io de 28
de Janei o de 1908, planeado po epublicanos e dissiden es p og essis as, e po
isso oi p eso a é 6 de Fe e ei o seguin e. Em 10 de Fe e ei o de 1910, undou
e di igiu em Lisboa a e is a Alma Nacional, que inha Ca los Babo como sec e-
á io de edacção. A e is a e minou publicação em 29 de Se emb o desse ano,
após a saída de 34 núme os, onde publica am a igos des acados epublicanos
po ugueses: An ónio José de Almeida (34 a igos), Raul P oença (24 a igos),
Tomás da Fonseca (13 a igos), Manuel de Sousa Pin o e A. de Ma os Sil ei a
(10 a igos cada um), Leão Azedo (7 a igos), An ónio Fe ão (5 a igos), Basí-
lio Teles e José Ba bosa (4 a igos cada um), Gue a Junquei o, Teó ilo B aga,
Miguel Bomba da, Aquilino Ribei o, Emílio Cos a e An ónio Au élio da Cos a
Fe ei a (1 a igo cada um)16.
3. Republicano mode ado: egime polí ico e e olução
No Go e no P o isó io da I República Po uguesa ocupou o luga cen al
de Minis o do In e io , cabendo-lhe p epa a o p imei o ac o elei o al do no o
egime – oi elei o depu ado à Assembleia Nacional Cons i uin e pelo cí culo
de Lisboa o ien al –, es abeleceu a semana ob iga ó ia de seis dias e, como os
se iços de Ins ução Pública pe enciam a esse Minis é io, in luenciou algumas
impo an es e o mas desse sec o : a do Ensino Médico, em 22 de Fe e ei o de
1911; a das Escolas No mais Supe io es, em 21 de Ma ço de 1911; a do Ensino
Supe io , c iando a Uni e sidade de Lisboa e a Uni e sidade do Po o com no os
planos de es udos, em 22 de Ma ço de 1911; a da Ins ução In an il, P imá ia
15 A. H. de Oli ei a Ma ques, Dicioná io de Maçona ia Po uguesa, Lisboa, Edi o ial Del a, 1986, ol. I, cols. 43-45,
ol. II, cols. 1293-1295.
16 Fe nando Pi ei a San os, Raul P oença e a «Alma Nacional». Da colabo ação com An ónio José de Almeida à up u a,
Mem Ma ins, Publicações Eu opa-Amé ica, [s.d.].

100 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 101
e No mal, em 29 de Ma ço de 1911; a da Cons i uição Uni e si á ia, em 19
de Ab il de 1911, ala gando a au onomia; ou a do Ensino A ís ico, em 26 de
Maio de 191117.
O ideal pedagógico de An ónio José de Almeida en aiza a-se nos g andes
p incípios da cul u a cí ica epublicana – al abe ização, laicismo, descen aliza-
ção e au onomia indi idual –, colocando algumas ese as à « epublicanização
in eg al» do ensino, o que conduziu a um con on o polí ico-pedagógico com
João de Ba os, en ão di ec o -ge al da Ins ução P imá ia, que se demi i ia do
ca go a 13 de Ma ço de 191118. Valo izou a e o ma do ensino médico, o que
se comp eende, dada a sua condição sociop o issional, e em 2003 dois p oemi-
nen es p o esso es uni e si á ios e cien is as de Medicina, João Lobo An unes e
Manuel Sob inho Simões, conside a am essa e o ma «de al mode nidade que,
sob mui os aspec os, se man ém ac ual um século depois […]»19. En e as no as
disposições, encon amos as seguin es: uni o mização do modelo das Faculdades
de Medicina, cu so único de seis anos e es ágio de um ano, abolição do Cu so de
P epa a ó ios Médicos (subs i uído po Es udos de Física e Química Biológicas
e Ciências Na u ais), maio ca ga ho á ia expe imen al em labo a ó ios, no as
especialidades clínicas, ob iga o iedade de ese apenas pa a ob e g au de dou o ,
e o mulação da ca ei a docen e.
Re i a-se a ci cuns ância de An ónio José de Almeida u ela poli icamen e um
as o sec o de médicos ci is, de médicos mili a es e de p o esso es de Medicina,
des acando-se alguns que, a pa i de 1912, o acompanha am na eli e polí ica
di igen e do Pa ido Republicano E olucionis a, mos ando o pode polí ico dos
17 C . «Reo ganização dos es udos médicos» (a igo de 24 de Fe e ei o de 1911), «A e o ma da ins ução p imá ia»
(a igo de 30 de Ma ço de 1911) e «A e o ma uni e si á ia» (discu so na Assembleia Nacional Cons i uin e), in
An ónio José de Almeida, Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. III, 1934, pp. 31-35, 53-65 e 73-87. Uma
pe sonalidade moná quica ha ia de alo iza o abalho minis e ial de An ónio José de Almeida na á ea da Ins ução
Pública: «Quem quise conhece azoa elmen e o que oi a aná quica ida do egime [ epublicano], no seu conjun o,
du an e a pouco mais do que a p imei a década da sua exis ência, excep uando o abalho ú il de A onso Cos a, nas
Finanças, e o de An ónio de José de Almeida, na Ins ução, leia a ob a de Jesús Pabón A Re olução Po uguesa e as
hones as Memó ias de Cunha Leal […]» – c . Luís Cab al de Moncada, Memó ias. Ao longo de uma ida. (Pessoas,
ac os, ideias), 1888-1974, [s.l.], Edi o ial Ve bo, s.d. [1992], p.76.
18 Es a e o ma e e de início a colabo ação écnica do di ec o -ge al da Ins ução P imá ia, João de Ba os (com
apoio de, en e ou os, João de Deus Ramos e José Lopes de Oli ei a), odos de enso es in ansigen es de uma
« epublicanização in eg al» – c . A pedagogia e o ideal epublicano em João de Ba os. Selecção de ex os de Ma ia
Alice Reis, no a in odu ó ia de Joaquim Rome o Magalhães, Lisboa, Edições Te a Li e, 1979; E nes o Cas o
Leal, «Almeida, An ónio José de», e Albe o Filipe A aújo, «Ba os, João de», Dicioná io de Educado es Po ugueses
(di ecção de An ónio Nó oa), Po o, Edições Asa, 2003, pp. 58-59, 138-145.
19 João Lobo An unes e Manuel Sob inho Simões, «Exigi , a alia , dis ingui , p emia », Público, Lisboa, 21 de Se emb o
de 2003, p. 11.
102 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 103
médicos, que se a i ma a desde os inais do século XIX, den o da di ulgação
do cien ismo pelo epublicanismo dominan e no en ão Pa ido Republicano
Po uguês: Abílio Ba e o, Ad iano Pimen a, Albe o da Rocha B i o, Alexan-
d e Vasconcelos e Sá, An ónio Au élio da Cos a Fe ei a, An ónio Egas Moniz,
Celes ino de Almeida, Edua do Al edo de Sousa, Fe nando Bissaya Ba e o,
José Al edo Mendes de Magalhães, José Paulo Lobo, José Simões Raposo, Júlio
Ma ins, Júlio de Lima Duque ou Leão Azedo.
Em 1911, aos 44 anos, casou ca olicamen e com D. Ma ia Joana de Mo ais
Quei oga, ilha de um ico p op ie á io alen ejano, e cada ez mais se sen ia espi-
i ualmen e um «li e-pensado eligioso» ou um «pan eís a c is ão», cul i ando
o espí i o ole an e e endo encon ado em S. F ancisco de Assis uma e e ência
essencial. Anos mais a de, em Fe e ei o de 1927, di ou, po que já não conseguia
esc e e , um ex o sob e «S. F ancisco de Assis», publicado pos umamen e em
1932 e que se ia pa e do seu li o Em lou o de S. F ancisco, onde a i ma a:
«Toda a ob a de p oseli ismo, de aliciação e de é ale pelas ideias que são a
sua essência, pelas ci cuns âncias que a de e minam e pela o ça suges i a do
e bo que p oclama. Es a e dade obse a-se de uma manei a esplandescen e
na ida de S. F ancisco de Assis. […] p oclamo o desejo de que o nome de S.
F ancisco de Assis seja e e no e e e namen e glo i icado, na memó ia ag adecida
dos homens»20. Po pouco, anos an es, não se ia linchado, em 20 de Ou ub o de
1911, no Rossio, em Lisboa, po um g upo de ca boná ios epublicanos adicais,
mui o c í icos da sua no a pos u a mode ada e conciliado a: «Vi-o quase a se
mo o pelos que na éspe a o ado a am», eco dou Raul B andão21.
Momen o decisi o pa a o desen ol imen o da up u a en e as á ias acções
polí icas den o do Pa ido Republicano Po uguês oi o da eleição do p imei o
P esiden e da República, Manuel de A iaga (121 o os), no dia 24 de Agos o
de 1911 (e ocando a já longínqua e olução libe al po uguesa de 24 de Agos o
de 1820), que inha sido indicado po An ónio José de Almeida e apoiado pela
sua acção polí ica e pelas acções polí icas de Manuel de B i o Camacho e de
An ónio Machado San os. Cons i uí am o Bloco, con a o ou o candida o,
Be na dino Machado (86 o os), apoiado pela acção polí ica de A onso Cos a22.
20 E a No a, Lisboa, ano I, n.º 2, 6 de Fe e ei o de 1932, p. 2.
21 Raul B andão, Memó ias. Vale de Josa a , ol. III, Lisboa, Pe spec i as & Realidades, [s.d.], p. 47.
22 Pa a a e olução ideológico-polí ica pa idá ia, c . E nes o Cas o Leal, Pa idos e P og amas. O Campo Pa idá io
Republicano Po uguês (1910-1926), Coimb a, Imp ensa da Uni e sidade de Coimb a, 2008.
102 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 103
En e 27 e 30 de Ou ub o seguin e euniu-se o Cong esso do Pa ido
Republicano Po uguês, em Lisboa, sendo elei o um Di ec ó io a ec o aos ami-
gos polí icos de A onso Cos a, e con i ma a-se o domínio pa idá io po essa
acção polí ica e o a as amen o i e e sí el das acções polí icas de An ónio José
de Almeida, de Manuel de B i o Camacho e de An ónio Machado San os, o que
o malizou, na p á ica, o im do his ó ico Pa ido Republicano Po uguês, c iado
a pa i de Cong esso Republicano de Junho de 1883, ealizado em Lisboa.
A con e gência pa lamen a dos bloquis as, que elegeu o P esiden e da Repú-
blica, Manuel de A iaga, e oluiu du an e os meses de Se emb o e Ou ub o de
1911, já sem o apoio da acção polí ica de An ónio Machado San os, pa a uma
aliança pa lamen a nomeada de União Nacional Republicana, com p og ama
polí ico comum e alguma hesi ação quan o à sua ans o mação em pa ido,
inda pa icula men e da acção polí ica de Manuel de B i o Camacho. Apesa
da p omoção nacional de um amplo mo imen o de adesão e da es u u ação
de algumas comissões municipais e pa oquiais, a União Nacional Republicana
sob e i eu apenas en e No emb o de 1911 e Fe e ei o de 1912, dando depois
luga à o ganização polí ica sepa ada das duas acções polí icas.
A 15 de Fe e ei o de 1912, na Câma a dos Depu ados, An ónio José de
Almeida e Manuel de B i o Camacho euni am-se e escla ece am que a União
Nacional Republicana não ep esen a a a usão das duas acções polí icas, mas
ão-só uma aliança pa lamen a , acei ando An ónio José de Almeida, ansi o ia-
men e, o P og ama da União [Nacional] Republicana, que, de ac o, e a o p og ama
da acção polí ica de Manuel de B i o Camacho23. Em espos a, An ónio A es a
B anco, sec e á io da União e ambém co-au o do p og ama, en iou uma ca a
aos dois, demons ando a sua mágoa24. Es a a c iado o ambien e pa a a cons i-
uição au ónoma dessas duas á eas polí icas: a 24 de Fe e ei o su giu o Pa ido
Republicano E olucionis a, de An ónio José de Almeida, e a 26 de Fe e ei o
anunciou-se a União Republicana, de Manuel de B i o Camacho
25
. Desse modo,
se ins i ucionaliza a pa ida iamen e as duas mais impo an es dissidências o iun-
das do his ó ico Pa ido Republicano Po uguês, as quais, nes a p imei a ase do
no o egime, não consegui iam uma e icaz polí ica de con e gência.
23 A Luc a, Lisboa, ano 7.º, n.º 2215, 17 de Fe e ei o de 1912, p. 1.
24 A Luc a, Lisboa, ano 7.º, n.º 2220, 22 de Fe e ei o de 1912, p. 1.
25 O nome idên ico des e no o pa ido polí ico com o da an e io aliança pa lamen a e idencia a sua au o ia inicial
na acção polí ica de Manuel de B i o Camacho.
104 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 105
Em 1925 Manuel de B i o Camacho, aquando do anúncio aos seus elei o es
do dis i o de Beja da in enção de abandona a ac i idade polí ica, leu assim os
empos p imo diais do egime epublicano: «Como lu a e icazmen e, no campo
da legalidade, con a o despo ismo do Pa ido Democ á ico, exe cendo o Pode
em monopólio de ac o? Fundindo os dois ou os pa idos, o unionis a e o e o-
lucionis a, usão que nada e ia de a i icial ou de absu do, is o ambos se em
ou se dize em conse ado es […]»26. A usão só su gi ia em 1919 com o Pa ido
Republicano Libe al, apesa da g ande esis ência ei a pelo g upo e olucionis a
de Júlio Ma ins que cons i ui ia em 1920 o Pa ido Republicano Popula .
O Pa ido Republicano E olucionis a p olongou a sua exis ência en e 1912
e 1919, ealizando ês Cong essos pa idá ios na cidade de Lisboa: Agos o de
1913, Ab il de 1915 e Se emb o/Ou ub o de 1919. Dispôs do jo nal República
(n.º 1, 15 de Janei o de 1911), que p olonga ia a sua exis ência a é depois de
25 de Ab il de 1974, como o mais impo an e ó gão de imp ensa e e e uma
signi ica i a ede de imp ensa local e egional que lhe e a a ec a. Os e olucionis as
ou almeidis as pe ilha am um mé odo e o mis a e conciliado de ans o mação,
e endo An ónio José de Almeida a an e io colocação ideológica de pendo
e olucioná io, p omo iam acções sob e a necessidade de co igi o excessi o
pendo pa lamen a is a, ecusa am o adicalismo de algumas medidas do Go e no
P o isó io (em pa icula o an icle icalismo adical), e p omo iam a «polí ica de
a acção», com «selecção e subo dinação» à República, daqueles que, po azões
de Es ado e guiados po uma é ica de esponsabilidade, apesa de não se em
epublicanos, se dispunham a uma colabo ação ins i ucional27.
Sin omá ico é o a igo-p og ama «Paz», publicado no p imei o núme o do jo nal
República, em 15 de Janei o de 1911, onde An ónio José de Almeida a i ma a que,
pa a que a «República i a com se enidade e p og ida na labo ação pací ica do seu
es o ço e olucioná io, é p eciso que ela seja o dei a e conciliado a. No caso con á-
io, ela i e á, mas de uma ida exígua e es é il, e den o da qual nem se á possí el
o p og esso nem se á e icaz o abalho […]. Se iolen o não cus a coisa nenhuma.
Bas a pa a isso e o empe amen o impulsi o que dá a ceguei a no a aque e a o ça
b u a que e ec i a os desmandos da ag essão. Se conciliado é mais di ícil. Essa
qualidade é já uma ciência al a das almas educadas na escola da solida iedade […]»28.
26 A Luc a, Lisboa, 20.º ano, n.º 5486, 6 de Se emb o de 1925, p. 1.
27 C . «A aminis ia a c imes polí icos» (discu so pa lamen a de 5 de Ma ço de 1912), in An ónio José de Almeida,
Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. III, 1934, pp. 103-123.
28 An ónio José de Almeida, Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. III, 1934, pp. 12-13.
110 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 111
além de se a da g ande maio ia dos po ugueses, em po sup ema di indade o mesmo
C is o que […], não é só o Deus dos ca ólicos, mas ambém, na His ó ia de Po ugal, o
companhei o de a mas de Nun’Ál a es […]»43.
Após in e anos de in e upção, na ce imónia diplomá ica de imposição do
ba e e ca dinalício ao Núncio Apos ólico, ago a na pessoa de Achilles Loca elli,
no Palácio Nacional da Ajuda, a 3 de Janei o de 1923, o P esiden e An ónio
José de Almeida ol ou a ea i ma a impo ância do ca olicismo na sociedade
po uguesa e na de inição da iden idade nacional, essal ando o simbolismo da
«C uz de C is o», p esen e nalguns momen os iden i á ios da cons ução de
Po ugal, em e a, no ma e no a :
«[…] a quase o alidade da Nação segue o c edo ca ólico e o Es ado epublicano, sem
desdou o pa a os p incípios neu ais, ou menoscabo das suas leis, já decla ou um dia, po
meu in e médio, e com aplauso unânime, na soleníssima ce imónia pa ió ica em hon a
dos Soldados Desconhecidos, que em especiais de e ências pa a com essa mesma eligião,
que é adicionalmen e a da g ande maio ia dos po ugueses […].
[…] os ossos o os pa a que es e belo país conse e, con o me dizeis, a nob e ca ac e ís-
ica c is ã do seu ca ác e e do seu génio, e ão ácil ealização, po que, como sem es o ço
e i icais, os in ui os c is ãos da g ande massa dos po ugueses são e iden es e ão assina-
lados que a c uz de C is o apa ece semp e com um p es ígio a cada momen o e igo ado,
a a és da sua his ó ia, ou nos épicos acon ecimen os que de e mina am a o mação da
nacionalidade, ou nos nossos amosos emp eendimen os ma í imos de há séculos, ou nos
nossos magní icos ei os aé eos de há meses […]»44.
Es a a i ude insc e ia-se no a qué ipo p ome eico do humanismo laico
epublicano em busca do ideal do «homem no o», que inco po ou a i ualização
cí ica sociolá ica aos «g andes homens» e aos «g andes acon ecimen os», como
p o a a epublicanização de Luís Vaz de Camões a pa i do icen ená io da
sua mo e comemo ado em 1880, o no o calendá io de e iados ci is o iciais
da República (1 de Janei o/F a e nidade Uni e sal, 31 de Janei o/P ecu so es e
Má i es da República, 3 de Maio/Descob imen o do B asil45, 5 de Ou ub o/
43 An ónio José de Almeida, «Em Hon a dos He óis Desconhecidos», Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol.
IV, 1934, pp. 106 e 107.
44 An ónio José de Almeida, «A Imposição do Ba e e Ca dinalício ao Núncio Apos ólico», Qua en a Anos de Vida
Li e á ia e Polí ica, ol. IV, 1934, pp. 293 e 294.
45 Uma adição secula a ibuía, e adamen e, ainda em 1912, ao dia 3 de Maio, o dia do descob imen o do B asil.
Ce o é que a amosa Ca a a el- ei dom Manuel sob e o achamen o do B asil, de Pê o Vaz de Caminha, em esc i a
a da a inal de 1 de Maio de 1500, e no dia seguin e a a mada le an ou e o pa a Calecu e e a nau de Gaspa de

112 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 113
He óis da República, 1 de Dezemb o/Au onomia da Pá ia Po uguesa e 25 de
Dezemb o/Família), a panóplia discu si a pa ió ica sob e a P imei a Gue a
Mundial ou a li u gia cí ica e laicis a aos Soldados Desconhecidos, que se á
eca olizada após a e olução de 28 de Maio de 192646.
Em Maio de 1925, An ónio José de Almeida, no ex o «Dois P o ec o es»,
publicado no ó gão o icial da C uzada Nacional D. Nuno Ál a es Pe ei a, ol ou
a e lec i sob e a undamen ação he óica do des ino po uguês, colocando Nuno
Ál a es Pe ei a e Luís Vaz de Camões em luga u ela da Pá ia: «Nun’Ál a es e
Camões são as mais al as exp essões da nacionalidade po uguesa. Do p imei o
se cos uma dize que ele é o nosso pa ono; do segundo é uso a i ma -se que ele
é o nosso p óp io génio em incandescência e e na. Qual é o maio ? Impossí el
sabê-lo. Sem Nun’Ál a es não se íamos, al ez, po ugueses. Sem Camões não
se íamos como somos, no mundo, a mais su p eenden e enca nação do e bo
he óico […]»47.
A posição de An ónio José de Almeida pe an e o mo imen o e olucioná io
epublicano adical de 19 de Ou ub o de 1921, di igido pelo co onel Manuel
Ma ia Coelho, oi o ac o polí ico, enquan o P esiden e da República, que ge ou
mais dú idas e incomp eensões, chegando a elabo a um p ojec o de enúncia
p esidencial di igido ao P esiden e do Cong esso da República
48
, in iabilizada pela
iagem o icial ao B asil. O p oblema coloca a-se na legi imação cons i ucional
do ac o e olucioná io ou ub is a, a a és do econhecimen o do no o Go e no
de Manuel Ma ia Coelho, após algumas hesi ações iniciais, e na assina u a do
dec e o que adia a as eleições ge ais ma cadas pa a 11 de Dezemb o de 1921.
Os assassina os de «A Noi e Sang en a» do dia 19 de Ou ub o de 1921
muda am a a i ude polí ica de An ónio José de Almeida: «Co i ao ele one e
Lemos seguiu pa a Lisboa a da no ícia do ei o. Apesa de e sido publicada pela p imei a ez, pelo Pad e Manuel
Ai es Casal, na sua Co og aphia B asilica, em 1817, de e ido a 2.ª edição em 1826, no n.º III do omo IV da
Colecção de No ícias pa a a His ó ia e Geog a ia das Nações Ul ama inas, publicada pela Academia Real das Ciências de
Lisboa, e de e á ias ou as edições no B asil e em Po ugal, con inua a a pe sis i o e o nos inícios da I República
Po uguesa.
46
Amadeu Ca alho Homem, A Ideia Republicana em Po ugal. O con ibu o de Teó ilo B aga, Coimb a, Li a ia Mine a,
1989, pp. 171-206; Fe nando Ca oga, O Republicanismo em Po ugal. Da Fo mação ao 5 de Ou ub o de 1910,
Coimb a, Faculdade de Le as da Uni e sidade de Coimb a, 1991, pp. 441-464; E nes o Cas o Leal, «Na a i as e
Imaginá ios da 1.ª G ande Gue a. “O Soldado-Saudade” po uguês nos “ne oei os de mo e”», Re is a de His ó ia
das Ideias, ol. 21, Coimb a, Ins i u o de His ó ia e Teo ia das Ideias da Faculdade de Le as da Uni e sidade de
Coimb a, 2001, pp. 441-460.
47 An ónio José de Almeida, «Dois P o ec o es», Re is a Nacional, Lisboa, ano I, n.º 1, 15 de Maio de 1925, p. 7.
48 Pa a es a ques ão, c . An ónio José de Almeida, Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. IV, 1934, pp. 129-
207.
112 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 113
in es i o cidadão Manuel Ma ia Coelho na p esidência do Minis é io, conce-
dendo-lhe os pode es mais amplos e desc icioná ios pa a que, sob a minha in ei a
esponsabilidade, a o dem osse, a odo o anse, man ida. Depois, a segui , sem
descansa , nomeei minis os e ou as au o idades, pelo ele one, comuniquei com
o Go e no Ci il, com a Gua da Republicana […]. O co onel Manuel Ma ia
Coelho, esse não desmen iu, na sua impe uosa, mas ale an ada con o é sia do
dia 19 [de Ou ub o de 1921], aquela linha de co ecção que semp e ca ac e izou
o modo de se do b a o insu ec o de 31 de Janei o [de 1891]. Que o saiba odo
o mundo. Eu não me e guei aos homens; queb ei pe an e a b u al imposição
dos acon ecimen os […]»49.
A iagem o icial ao B asil em Se emb o de 1922 e a ce imónia de imposição
do ba e e ca dinalício ao Núncio Apos ólico, no Palácio da Ajuda, em Janei o de
1923, ep esen a iam a consag ação iun al e de ini i a do magis é io p esidencial
de An ónio José de Almeida. No dia 1 de Ou ub o de 1923, a qua o dias do
inal do manda o de P esiden e da República, con ocou a Imp ensa ao Palácio
Nacional de Belém e, no seu discu so, ad e iu: «O mundo es á passando po
uma ans o mação p odigiosa e ai le ado po um g ande en o de ince eza
e e ol a. Mais do que nunca se pode dize que quem en a esis i aos seus
mo imen os, que azem em si a o ça dos ca aclismos, se á de ubado ou pelo
menos b u almen e en ol ido po eles. Po ugal não pode ugi a esse impulso
e iginoso e a al. A sua ans o mação, ou melho dizendo, a ans igu ação do
seu modo de se polí ico e social, que já se es á azendo bem pe cep i elmen e,
en a á po en u a den o em pouco na sua ase decisi a.
Qual se á a in ensidade e a ex ensão dessa coisa o midá el? Ninguém o pode
sabe […]. Calculo que a nossa c ise nacional, à semelhança das c ises dos ou os
po os, ai e o seu quê de o men oso e d amá ico, embo a enha a ce eza de
que no im há-de esul a bené ico pa a a causa da Libe dade e da O dem […]»50.
Engana -se-ia, An ónio José de Almeida, quan o ao bene ício pa a a causa
da Libe dade. Os ês anos seguin es conduzi am ao colapso da I República
Po uguesa, donde su gi ia, a pa i da e olução de 28 de Maio de 1926, não a
e undação da República, em sen ido democ á ico, p og essis a e de compe ição
plu ipa idá ia, mas sim uma República au o i á ia, co po a i a, conse ado a e de
pa ido único. A O dem iun a ia, de ac o, mas e ida em «di adu a ins i ucio-
49 An ónio José de Almeida, Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. IV, 1934, pp. 133-134.
50 An ónio José de Almeida, Qua en a Anos de Vida Li e á ia e Polí ica, ol. IV, 1934, pp. 310-311.
114 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 115
nalizada». O a, como e lec iu Fe nando Pessoa, nos anos 30 do século XX, uma
«di adu a, apesa de ilegal, pode se oda ia jus i icada pelas ci cuns âncias, […]
somen e quando não há escolha en e ela e a ana quia, exis e, po isso mesmo,
só pa a pô im a ana quia. O seu papel é po an o limi ado à manu enção da
o dem a é que a ana quia desapa eça; desapa ecida es a, es á indo o papel da
di adu a» que é, «po assim dize , a suspensão do legisla i o pelo execu i o; não
é a subs i uição do execu i o ao legisla i o […]»51.
O inal de ida de An ónio José de Almeida oi de g ande so imen o ísico
de ido à go a. O seu jo em a ilhado Alexand e Babo, ilho do ad ogado Ca los
Babo, que com ele con i eu nos dois anos an e io es à sua mo e, deixou-nos
um o e depoimen o: «Cabelo e ba ba de uma b ancu a de ne e, a ma a ilhosa
cabeça exp essando o ça, desassomb o, in eligência, cabeça leonina de comba en e,
ago a mais bela al ez, os o co ado pela eb e e um olha ascinan e, mis o de
domínio e de e nu a. Fui beijá-lo como an igamen e. Ao segu a -me es emeci.
As suas mãos de o madas, con o cidas, dedos encu ados sem pode dis ende -
se. Mos ou-mas com mágoa e e ol a. A go a, disse. O pio não e am as mãos,
mas as do es e a eb e, anos seguidos, ali enca uado. Fiz es o ços desespe ados
pa a não cho a , pa a não se no ado o meu desgos o. Sen ei-me jun o dele,
alei, alei. A pouco e pouco habi ua a-me a enca á-lo só como homem […]»52.
Um dos úl imos encon os, que An ónio José de Almeida e e, oi com
Raul B andão, dois dias an es da mo e, e que es e ano ou quando ecebeu a
no ícia do seu alecimen o: «Mo eu hoje, 31 de Ou ub o [de 1929], às 2 e
meia da manhã. Poucas ho as an es ainda a go a o ma i izou. Foi a é ao úl imo
suspi o. An eon em inha ido p ocu á-lo. Esse homem, que conheci he cúleo e
com uma oz o e e magné ica, es a a eduzido à múmia duma c iança, com
uma ba bicha b anca, e disse-me, num sop o: – Vou mo e . I esis i elmen e
beijei-lhe as mãos. Desci as escadas. No pa ama , ao ab i a po a, oca a duas
pala as com o Ca alho Mou ão, quando sen i que alguém descia a oda a
p essa. Vol ei-me: e a a mulhe , que me disse: – Ou iu a sua oz e manda-lhe
dize que, quando mo e , diga a oda a gen e que aça jus iça ao seu ca ác e .
Todos ês desa ámos a cho a . O seu en e o oi uma apo eose – a maio a que
assis i na minha ida»53.
51 Pessoa Inédi o (coo denação de Te esa Ri a Lopes), Lisboa, Li os Ho izon e, 1993, p. 372-373; o og a ia ac ualizada.
52 Alexand e Babo, Reco dações de um caminhei o. I – En e duas gue as, Fundão, Jo nal do Fundão, Edi o a, Lda,
1984, p. 22.
53 Raul B andão, Memó ias. Vale de Josa a , ol. III, no a 1, p. 47.
114 Mona QUIa E EPÚBLICa
an ÓnIo José DE aLMEIDa E a EPÚBLICa 115
O cul o cí ico a An ónio José de Almeida, conside ado po la go sec o
do epublicanismo po uguês uma espécie de «Moisés da nação epublicana»,
con inuou pa a além da mo e ísica, de endo salien a -se a edição em 1933 e
1934 da colec ânea de a igos e discu sos, eunida em qua o olumes e in i ulada
Qua en a Anos da Vida Li e á ia e Polí ica, que oi o ganizada po um g upo de
amigos e p e aciada po Cae ano Gonçal es ( olumes 1 e 4), Joaquim de Ca alho
( olume 2) e He nâni Cidade ( olume 3). Momen o al o pa a a e i o ialização
da sua memó ia cí ica e polí ica oi a inaugu ação, em Lisboa, no ano de 1937,
do Monumen o a An ónio José de Almeida, da au o ia do escul o Leopoldo
de Almeida e do a qui ec o Pa dal Mon ei o, localizado en e o Ins i u o Supe-
io Técnico e a Casa da Moeda. T ans o ma -se-ia esse local a qui ec ónico de
memó ia, ao longo do «Es ado No o» salaza is a e ma celis a, num espaço de
pe eg inação cí ica e polí ica em lu a pela Libe dade e pela Democ acia, a a és
das ce imónias e oca i as da e olução epublicana de 5 de Ou ub o de 1910.
4. Conside ação inal
Num olha longo sob e a ida con empo ânea po uguesa, acilmen e desco -
inamos que An ónio José de Almeida oi um dos a os di igen es epublicanos
(com au éola de caudilho) que, no empo da P opaganda epublicana, es e e
po den o dos p incipais planos da es a égia mul i udiná ia: o de ua, o da
imp ensa, o elei o al, o conspi a i o ci il e o conspi a i o mili a . Po ou o lado,
de e eco da -se que oi, no empo do Regime epublicano, o único P esiden e
da República que exe ceu de o ma con inuada e comple a o seu manda o (5 de
Ou ub o de 1919 a 5 de Ou ub o de 1923).
Seguindo as suges ões do his o iado Raoul Gi a de
54
quan o aos a qué-
ipos do «Sal ado », den o dos mi os e mi ologias polí icas, pode a i ma -se
que es amos, no caso de An ónio José de Almeida, essencialmen e, pe an e uma
sucessão de qua o modelos: Moisés (o p o e a) – o empo da agi ação académica,
da mobilização de ua e da in e enção no pa lamen o moná quico; Alexand e (a
a en u a) – o empo da p epa ação e olucioná ia clandes ina; Sólon (o legislado )
– o empo minis e ial do Go e no P o isó io e do Go e no da «União Sag ada»;
e Cincina o (a o dem) – o empo ins i ucional da P esidência da República.
54 Raoul Gi a de , My hes e My hologies Poli iques, Pa is, Seuil, 1986.

o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E
P oBLEMas PoLí ICos
José mau icio de ca alho*
1. Conside ações iniciais
A Eu opa começou o século XX sob o impac o de mudanças signi ica i as.
Tais ans o mações semp e causam inquie ação nos homens po que os colocam
dian e do inespe ado que po oa sua exis ência. A ida o inei a, as ins i uições
consolidadas e as o mas de pensamen o ins aladas não êm uma espos a p on a
pa a os no os desa ios quando eles su gem no ho izon e. Eme ge, na consciência
das pessoas, a pe cepção de que além daquilo que planejam algumas coisas lhes
chegam e exigem mudança no seu modo de i e e pensa , que endo elas ou não.
A elação en e c ises his ó icas e uma deso ien ação p o ocada pelas mudanças
p o undas da ida oi um ema ca o à O ega y Gasse 1 pelas implicações polí icas
e ez pa e de suas análises sob e a conjun u a his ó ica. Foi de alhado em ensaios
como Ideas y c eencias e em li os como En o no a Galileo onde a i ência nega i a
e deso ien ação com as no idades “deixa o homem sem sabe a que aga a -se nem
o que aze ” (MIÚDO, 2007, p. 123). Nessas ocasiões é p eciso busca um no o
en endimen o das coisas e ambém no os modos de o ganização social e polí ica. É
* Uni e sidade Fede al de São João del-Rei (B asil). Depa amen o de Filoso ia.
1 José O ega y Gasse , esc i o e ilóso o espanhol, nasceu e mo eu em Mad id, espec i amen e nos anos de 1883
e 1955. Começou seus es udos no Colégio Jesuí a p óximo à Málaga (Andaluzia). Mais a de es udou nas Uni e si-
dades de Ma bu go, Leipzig e Be lin (Alemanha). Vol ando à pá ia em 1914 o nou-se p o esso na Uni e sidade
de Mad id. Em 1923 undou a conhecida Re is a do Ociden e. Em 1931 e e b e e expe iência polí ica, elegendo-se
depu ado da República. En e os anos de 1920 e 1933 desen ol e suas p incipais ideias polí icas que examina emos
nes e abalho. Com a explosão da Gue a Ci il em 1936 é ob igado a deixa a cá ed a e e ugia -se no ex e io .
Reside mui o empo longe de seu país em á ios países: F ança, Holanda, Po ugal e Alemanha, ol ando à Espa-
nha em 1948. No mesmo ano unda com Julián Ma ías o Ins i u o de Humanidades. Suas ob as mais impo an es
são: Medi ações do Quixo e, A Desumanização da A e, A ebelião das massas e O Homem e a Gen e. O ega y Gasse
desen ol eu uma iloso ia da ida, pa indo de on e di e sa da emp egada po Unamuno. Ele oi discípulo de He -
man Cohen, mas e ela in luência de á ios au o es como obse a Sciacca (1968): “No am-se nele, além da escola
neokan iana, as in luências do his o icismo de Dil hey, do ela i ismo de Simmel, do in uicionismo de Be gson e
do i alismo em ge al” ( . III, p. 199).
118 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 119
o que O ega y Gasse p ocu a á aze com sua a uação polí ica pela qual espe a a
al e a a ci cuns ância e cons ui uma no a Espanha e uma no a Eu opa.
No início do século XX su gi am di iculdades que a e a am não só os indi-
íduos ou nações isoladamen e, mas oda a oda a Eu opa cujos domínios cul-
u ais iam além dos limi es geog á icos do con inen e. Po esse mo i o, quando
Edmund Husse l começou a ala de c ise da consciência eu opéia po ol a de
1930, podemos en ende que as di iculdades que ele pe cebia e am pe cep í eis,
ao menos, em odo o ociden e. O des ino de g ande pa e da humanidade es a a
como que suspenso naqueles dias de ans o mação, pedindo que se in es igasse
o signi icado do mundo e a ealidade do homem. O ilóso o ancês Roge
Ga audy coloca a aiz da mencionada di iculdade num duplo malog o (1966):
“O malog o de um duplo dogma ismo: o da eligião e do cien i icismo” (p. 11).
A sín ese do pensado ancês pa a os p oblemas de en ão az sen ido po que
aba ca a e isão que se segue do conhecimen o da na u eza, da his ó ia e de nossa
esponsabilidade com a exis ência que emos pa a i e . Esses acabam sendo os
p oblemas ma can es da iloso ia e da ciência na con empo aneidade, encon a
espos as pa a os p oblemas que eme gi am dessa c ise.
Os p oblemas su gidos com a mudança p o unda na ida du an e as p imei as
décadas do século XX a e a am não só a o ma de pensa , mas ambém a o ganização
social e polí ica das sociedades nacionais. Embo a a Eu opa ap esen asse di iculdades
comuns a odas as nações, os di e sos países cons uí am espos as pa icula es,
ece am uma espécie de oupagem p óp ia pa a en en a as di iculdades amplas
que se aba e am sob e o ociden e. O a o deu a sensação de uma pa icula ização
da c ise, pelo menos oi o que começou a pensa o ilóso o espanhol O ega y
Gasse , cada nação de e ia busca suas espos as p óp ias, sem p ejuízo dos seus
in elec uais busca em ambém explicações mais amplas do enômeno.
Nes e abalho amos começa abo dando a comp eensão o eguiana da c ise
da Eu opa, p i ilegiando o en endimen o das soluções polí icas que p opôs pa a
ela. Nossa a enção p i ilegia á os esc i os polí icos pos e io es a 1920 quando seus
comen ado es conside am que o ilóso o alcança a a ma u idade in elec ual. Há
ainda um ou o mo i o pa a oma mos a da a como e e ência ge al: os desa ios
polí icos ica am po encializados com o é mino da Iª Gue a Mundial e a Re o-
lução Socialis a na Rússia em 1917. Mudou a ealidade polí ica do con inen e
o que pedia que as nações se posicionassem no no o quad o.
Todas as mudanças não passa am despe cebidas ao ilóso o que nelas enxe gou
inspi ação pa a pensa os p oblemas da Espanha e p opo uma o ma hispânica
118 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 119
de pensa os desa ios daqueles dias
2
. Examina os elemen os polí icos da p opos a
o eguiana pa a a Espanha en en a os p oblemas de en ão, no adamen e as
in es igações in elec uais deco en es de sua a uação pa lamen a , é o p opósi o
p incipal des e abalho. Nos olumes de El Espec ado o ilóso o desen ol eu
medi ação imp escindí el pa a en ende seu pensamen o polí ico. Ali ez um
balanço da discussão polí ica pa a o co po de suas ideias3.
Mesmo não sendo a polí ica o núcleo da ida in elec ual das pessoas, boa
pa e dos p oblemas i idos naqueles dias passa a pela polí ica, escla ece O ega
y Gasse . Es a am nela as espe anças de en en a as a e as diá ias que su gem
no con í io social. A ida em g upo é mui o mais impo an e na sociedade
con empo ânea que oi nou os empos de nossa his ó ia, azão pela qual a p o-
blemá ica polí ica ganhou des aque. O ínculo en e a polí ica, inspi ação mo al
e os p oblemas sociais le a O ega y Gasse a conclui que o des ino humano
es á associado à capacidade das pessoas de pensa a ida social e aze polí ica.
Chega a es a comp eensão em An i ópicos do seguin e modo (1931): “o des ino
2 A espos a de O ega y Gasse pa a os p oblemas daquele empo a pa i da sensibilidade hispânica é um pensamen o
me a ísico que ap oxima o eu e a ci cuns ância. Consis e nisso o núcleo de seu pensamen o ilosó ico. O assun o oi
elabo ado nas Medi ações do Quixo e e nos li os que compõem a coleção El Espec ado . Os aspec os undamen ais da
me a ísica o eguiana o am es udados no a igo publicado na Re is a de Ciências Humanas da UFSC. Ali esc e emos
(2009): “É impo an e en ende o que signi ica ci cuns ância pa a se chega ao obje o cen al da iloso ia o eguiana:
a ida. A ida é única e não se con unde com ci cuns ância, pois ela não é pu a ecepção do que se passa em ol a
do eu, explica O ega y Gasse em Temas de iaje (1922). A ida é o que cada pessoa az com a ci cuns ância como já
comen amos (CARVALHO, 2002, p. 71): “mesmo que ossem iguais os elemen os da habi ação, não se iam iguais
as idas de dois gêmeos uni i elinos que i essem jun os no mesmo local”. Di o de ou o modo, ida é ealidade
adical que ap oxima eu e ci cuns ância. A conhecida passagem o eguiana eu sou eu e minha ci cuns ância encon ada
nas Medi ações do Quixo e une o eu e a ci cuns ância de modo insepa á el. A ealidade i al é a ida, eu es ou aqui no
meio de mui as coisas: sen imen os, ideias, alo es, época, sociedade, com as quais pe maneço em elação enquan o
i o. Eu e ci cuns ância in e agem e se comple am. A ida é o esul ado des a elação, mas não se con unde com ela, eu
e ci cuns ância só se deixam e de e dade na ida que é a ealidade conc e a e eal. O p incipal es udioso da iloso ia
o eguiana p ecisa es e núcleo me a ísico do seguin e modo (1991): Encon o-me, pois, desde logo, na ida, encon o-
me i endo, na ida encon o as coisas e me encon o a mim mesmo; is o é, a ida é o p imá io, é an e io as coisas e
a mim, me é dada, sem suma, e an o o eu como as coisas são secundá ias a ela, ing edien es seus, ealidades de i adas,
ou, se se p e e e, ealidades adicadas nela, que é, ao con á io, a ealidade adical (MARÍAS, 1991; p. 27). Conside a
a ida como o núcleo da me a ísica o eguiana exige que a conside emos como algo maio do que um enômeno
biológico, exige enxe gá-la como exp essão de alo es: “apon a a ida como o g ande p oblema a se in es igado não
signi ica me gulha numa o ma de i e p imi i a, an e io à es u u ação da cul u a e seus alo es” (CARVALHO,
2004; p. 69). E di íamos ainda mais. Segundo O ega y Gasse a si uação conc e a, nuclea e i al do sujei o é o pon o
de onde se pa e pa a pensa oda a ealidade: “o ilóso o olha a ida como um p incípio, e um p incípio é de na u eza
acional, é uma o ma de escla ecimen o da azão” (p. 332-333). O esumo do núcleo da me a ísica o eguiana nes a
no a é su icien e pa a a comp eensão do assun o, azão pela qual não amos conside a à ques ão no co po do ex o.
3 No p imei o ensaio de El Espec ado in i ulado Ve dad y Pe spec i a, O ega y Gasse exp essa con icção que o ien a
sua medi ação sob e polí ica. Pa a ele as ideias polí icas são impo an es, mas não são o cen o de nossa ida men al.
Se elas assumem al condição es abelecem uma doença g a e em nossa ida in elec ual. A i ma (1998): “A polí ica
ou o pensamen o ú il é uma saudá el o ça de que não podemos p escindi (…), mas quando a polí ica en a na
consciência e p eside oda nossa ida men al, se con e e em uma doença g a íssima” (p. 16).
120 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 121
é a polí ica e ice- e sa. Polí ica é o conjun o de p oblemas que é p eciso acei a
(…) a ida não ole a o cap icho, ela é uma coisa mui o du a, mui o sé ia, com
que é o çoso lida ” (p. 152).
2. Raiz da c ise i ida na España: as elações en e maio ias e mino ias
no li o España In e eb ada
O li o La ebelión de las masas
4
p oje ou o ilóso o como g ande nome do
pensamen o uni e sal. A ob a apa eceu em 1930 e a a da c ise da Eu opa e dos
sis emas o ali á ios su gidos naquele empo. O li o in es iga ainda a aiz mo al da
c ise e dos p oblemas polí icos que eme gi am naquele momen o his ó ico. Exami-
namos o conhecido li o o eguiano em In odução à iloso ia da azão i al de O ega
y Gasse onde escla ecemos que a c ise da Eu opa inha, pa a o pensado (2002):
Uma aiz mo al e polí ica, ela nascia de um ipo de homem que a sociedade da abundân-
cia ha ia c iado na Eu opa. Essa sociedade que pe mi iu ao homem médio en iquece e a
democ acia o nou esponsá el pelo p ocesso polí ico (p. 416).
A p epa ação de La ebelión de las masas oco eu na es ei a da cuidadosa
análise da ealidade espanhola e e i ada quase dez anos an es em España In e -
eb ada (1921). Como no ou Julián Ma ías (1991):
4 La ebelión de las masas é uma ob a magní ica. Ela con ém uma análise da cul u a eu opéia nas p imei as décadas do
século XX, momen o ma cado pela p esença das massas. Foi o li o de O ega y Gasse mais di ulgado e conhecido.
Nele o ilóso o desen ol e o seu mé odo de undo his o icis a necessá io pa a pensa a ealidade humana que só é
comp eendida na ci cuns ância. Ele examina a elação en e o su gimen o de uma sociedade de massa e a des uição
da ida esponsá el e singula . No li o o ilóso o ap o undou o signi icado da c ise polí ica eu opéia daqueles dias. Ele
deixa de busca os mo i os no uncionamen o da ep esen ação ou na agilidade dos go e nos libe ais e passa a a á-los
como ques ão de signi icado ilosó ico. As maio ias con empo âneas já não são como an es e não se con en am com os
an igos mecanismos de ep esen ação da sociedade cons uídos pelo sis ema libe al. O li o suge e que a mudança de
a i ude da maio ia, bem como da mino ia, es á na aiz da c ise iden i icada naqueles dias. Como é o homem massa que
O ega y Gasse ê su gi no seu empo? Ele não é apenas o indi íduo de uma g ande aglome ação. Sua ca ac e ís ica
mais ma can e é a i esponsabilidade em i e sua ocação, acompanhada da al a de comp eensão das di iculdades de
ida. O homem massa não se p eocupa em melho a a cul u a, udo lhe pa ece de pouca impo ância exce o seu bem
es a . Ele não pe cebe que as comodidades que encon a pa a i e não nasce am senão do es o ço e abalho dedicado
de seus an epassados. Po isso desen ol e ou as ca ac e ís icas: i esponsabilidade e ing a idão pa a com as ge ações
passadas que é compo amen o ípico de uma c iança mimada. Eis aí ou a de suas ca ac e ís icas: ele é mimado. E o
que é mima ? O ega y Gasse escla ece no amoso li o que (1994): “mima é não limi a os desejos e da imp essão a
um se que udo lhe es á pe mi ido e a nada es á ob igado” (p. 178). As massas não sen em nenhum cons angimen o
em sa is aze seus gos os, ac edi am que podem udo ealiza . Nas pala as do ilóso o sen em que “ i e é não encon a
limi ação alguma; po an o abandona -se anquilamen e a si mesma. P a icamen e nada é impossí el, nada é pe igoso
e, em p incípio, nada é supe io a nada” (idem, p. 180). O undamen al do que disse O ega y Gasse é que o homem
massa não econhece uma cla a hie a quia de alo es, a indi e ença é undamen almen e axiológica.
126 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 127
Ou o aspec o do libe alismo omân ico que necessi a a se supe ado pela no a
polí ica e a, na comp eensão do ilóso o, a ideia de Es ado mínimo. Conside ando
que o Es ado daqueles dias lida a com g upos e co po ações pode osas e não indi-
íduos pa icula es, ele não podia se mínimo ou aco, nem uma coisa, nem ou a.
O Es ado é chamado a desempenha unções cada ez mais complexas pa a uma
sociedade c escen emen e exigen e e o mada po o ças pode osas. O desa io, ele
explica em Rec i icación de la República, é que “o Es ado hoje não se encon a, como
na idade omân ica em que su giu a democ acia libe al, dian e de indi íduos, mas
se acha en e a o ganizações pode osas de odo gêne o” (p. 376). A modi icação
do papel do Es ado democ á ico se á mais bem de alhado um pouco mais adian e
onde a i ma que a o ganização es a al não é a pu a exp essão de um con a o ou
pac o social, mas uma ealidade p óp ia que se soma à sociedade. A i ma-o do
seguin e modo: “Dizia eu que a Democ acia é algo mais que o po o nas uas. Não,
a democ acia não é po o, é o Es ado do po o e não o po o sem Es ado” (idem, p.
379). O pon o mais impo an e do que pa ece se um libe alismo com o e iés
social que su ge dessas e lexões é a de esa das in e enções es a ais no p ocesso
p odu i o. Essa ese se explici a na Ci cula de 1932, eiculada pela Ag upación al
Se iço de la República, onde o ilóso o esc e eu (1994): “Vamos a uma economia
o ganizada – mais além do capi alismo e socialismo – em que as linhas ge ais do
p ocesso econômico são eguladas pelo Es ado a im de que den o delas possa se
ap o ei a o es o ço insubs i uí el da emp esa p i ada” (p. 428).
O libe alismo o eguiano possui uma o ganização mui o p óp ia. Ele conside a
os desa ios da his ó ia, mas não ica p eso no passado; de ende o Pa lamen o e
o mecanismo da ep esen ação, mas não ac edi a numa ins i uição a as ada da
sociedade, ejei a a ese de um Es ado que nasce do con a o social e, sob e udo,
de ende um Es ado no ma izado das a i idades econômicas com o e iés
social. Es a ia o Es ado comp ome ido com os ideais humanis as concebido pela
adição ociden al.
A supe ação do libe alismo clássico po O ega y Gasse oi ema do a igo
El libe alismo de O ega y Gasse mas allá del indi idualismo onde Suay comen a
o pensamen o o eguiano e encon a na sua c í ica ilosó ica à mode nidade a
aiz úl ima da e isão que p opõe ao libe alismo, no adamen e pelos limi es
que iden i ica na subje i idade indi idualis a. A i ma Suay que a mode nidade
p omo eu a adicalização do libe alismo, pois pensa a o sujei o (2003): “como
c i é io absolu o e independen e de qualque e e en e ex e no, um ipo de
homem que ac edi a a não de e nada a ninguém: nem à his ó ia, nem a seus

128 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 129
concidadãos” (p. 170). A subje i idade mode na e a a subje i idade de um indi-
íduo descon ex ualizado, o a de pa e signi ica i a da ci cuns ância humana.
Suay pa ece co e o em sua a aliação do libe alismo o eguiano po que o es o ço
undamen al de O ega y Gasse oi a a o sujei o na ci cuns ância. Ele se e e e à
ida sem sepa a o eu da sua his ó ia pessoal ou do g upo, mui o menos sem e i a
o sujei o do con í io social e polí ico i ido num Es ado nacional. A inse ção do
homem na his ó ia oi ema do Discu so en León p onunciado no Tea o Nacional
em 26 de junho de 1931 onde o ilóso o chama a enção pa a o a o de que a ida
humana se desen ol e num ho izon e. Ele a i ma (1994): “o ho izon e é quem nos
o ien a, po que nossa ida es á semp e ci cunsc i a, de e minada e ap isionada po
um ho izon e” (p. 307). Com essa a i mação O ega y Gasse que dize que os
p oblemas que uma sociedade de e en en a são aqueles que ela encon a em sua
ida mesma num dado momen o do empo. Logo, não cabe aos homens elege
que ipo de di iculdade eles en en a ão. A ida polí ica encon a seus desa ios
nos emba es da sociedade que su gem num ce o momen o do p ocesso his ó ico,
assun o ao qual ol a em Rec i icación de la República onde a i ma (1994): “A ida
que se em que i e é semp e, e po o ça, es a da ho a – que dize , aquela de
um empo de e minado – quei a ocê ou não” (p. 342). Mais adian e no mesmo
ex o comple a a ese a i mando “que uma idade, uma época, é um clima mo al
que i e do p edomínio de ce os p incípios dissol idos no a ” (p. 405).
4. Teses polí icas
Vimos nos i ens an e io es que, pa a o ilóso o, o enômeno das massas e sua
insubo dinação espi i ual es a am na aiz das di iculdades espanholas. Ve emos ago a
como isso se deu. Também indicamos que não se a a de um enômeno es i o a
uma classe social ou pa ido polí ico, mas que e a uma ci cuns ância ab angen e e
di usa onde o a o mo al inconsis en e se o na a acasso polí ico. C i ica a elha
polí ica e mode niza a Espanha são os ideais que p esidem sua a uação polí ica, como
obse a D ogue em seu li o O ega y Gasse ; uma c í ica da azão pedagógica (2002):
O ema do a aso oi desen ol ido po ele a a és da c í ica polí ica da elha o dem pa la-
men a e moná quica, enquan o que a mudança cul u al eu opéia o le ou a se o in é p e e
da mode nidade cul u al. Ambas as e en es de seu pensamen o não es a am sepa adas,
pois conside a a a e o ma polí ica nacional como uma dimensão da necessidade u gen e
de seu país de o ma pa e da his ó ia eu opéia (p. 26).
128 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 129
Examina emos, a segui , como o ilóso o se p opõe a e e e a si uação do
a aso polí ico da Espanha. Abo da emos a c ise que é maio que a polí ica, mas
olhando-a sob a pe spec i a polí ica.
Vamos examina o que pa ecem se as ideias e o mas de ação polí ica que o
ilóso o desen ol eu pa a en en a o a aso polí ico-adminis a i o da Espanha.
A polí ica esc e e em a igo de 1922 (1994): “não se de ine po con eúdos de e -
minados. Consis e simplesmen e em aze o que em um país há de se ei o” (p.
18). Polí ica é ambém o esul ado de um conjun o de o ças, azão pela qual a
ação polí ica p ecisa iden i icá-las co e amen e e u ilizá-las pa a ob e esul ados.
Tal comp eensão explica a as di iculdades do Pa lamen o espanhol, não das leis
que o egulamen a am ou do seu esquema ju ídico, mas de sua dinâmica. O ega
y Gasse denuncia o a as amen o que o Pa lamen o espanhol em da sociedade.
O Pa lamen o, a i mou em Mau a o la polí ica (1925): “é um an asma, um en e
me a ísico, o sepulc o de Maomé. Não se apóia em o ças nacionais su icien es.
Uns quan os g upos p o issionais o man ém” (p. 76).
Pa a en en a os polí icos da Espanha e a necessá io começa a mexe na
ida pública das P o íncias. O que necessi a a se ei o? P imei o “do a o Muni-
cípio de meios de au onomia, que dize , aze seu abalho local independen e
do Pode Cen al” (idem, p. 84). A mudança pa ece-lhe necessá ia como o ma
de en en a o endi idamen o dos Municípios, cuja azão e a “ oda pod idão
adminis a i a dos caciques que o ma am a en anha do egime” (idem, p. 84).
A au onomia municipal que o ilóso o deseja a e conc e izada, caso o osse,
p omo e ia a e iciência ges o a e diminui ia o pode dos caciques. A au onomia
não signi ica a isola o Município das ou as ins âncias polí icas, mas o ma
a pa i dele uma sólida unidade P o incial, pois “ma e ial e mo almen e seu
olume é demasiado eduzido pa a que nele su jam co en es de ida pública,
aspi ações, depu ações” (idem, p. 86). Mesmo a P o íncia não é ainda g ande
e o e o bas an e, sendo necessá io cons i ui um pode in e mediá io en e o
Município e o Pode Cen al que o ilóso o denomina a Coma ca. Em sín ese
seu p oje o polí ico con empla a: assegu a a au onomia municipal dian e do
Pode Cen al, euni os municípios em P o íncias e cons ui , a pa i delas, um
pa lamen o in e mediá io nas Coma cas com o es capi ais egionais.
A o ganização adminis a i a da Espanha p opos a po O ega y Gasse ep esen-
a a g ande mudança polí ica, pois a no a o ma de o ganização das egiões o na a
possí el a cons i uição do Pa lamen o egional ol ado pa a os emas egionais.
Nesse modelo de o ganização adminis a i a, o Pa lamen o nacional se dedica ia
130 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 131
a poucos assun os, apenas aqueles de ca á e e dadei amen e ge al e do in e esse
de oda a República, como ele explicou pouco adian e no mesmo abalho (1994):
“Nas mãos do Pode Cen al e seu Pa lamen o nacional ica iam poucos assun os, a
sabe : os p oblemas e unções es i amen e nacionais, inclusi e o di ei o de in e i
nas egiões quando algumas delas padecesse de si uação ano mal” (idem, p. 88).
Esse mecanismo polí ico pe mi i ia que o Pa lamen o Nacional osse cons i uído
de um pequeno núme o de depu ados escolhidos nas Assembléias egionais.
Eis, esumidamen e, os p opósi os de O ega y Gasse com as al e ações
adminis a i as que p opôs: a) a a a ida local localmen e, pois o Go e no
Cen al es á longe das egiões, a ação de seus ep esen an es é ine icien e, c ia
o caciquismo e a co upção; b) o na a população local mais esponsá el, pois
ela escolhe á e acompanha á o abalho das lide anças egionais; c) da o ça aos
pode es p o inciais pa a en en a o caciquismo polí ico.
As di iculdades pa a implan ação das e o mas p opos as inham po cená io
úl imo a acele ada decomposição e decadência do Es ado eu opeu es u u ado
no século an e io , p ocesso que gua da a peculia idades nos di e en es países.
Assim, as mudanças p opos as inham em is as os p oblemas espanhóis e não
os de ou os po os, pois con o me escla ece em Dislocación y Res au ación de
España (1994): “não de emos, nem podemos oma ou os po os como modelo.
Temos que in en a nosso p óp io u u o” (p. 92). Assim, como a decadência
mo al culminou em decadência polí ica, ema de La ebelión de las masas, a
e o ma polí ica, assim espe a a o pensado , p omo e ia uma mudança nos
alo es pessoais. A i mou: “Jun o à e o ma polí ica em que se ei a a e o ma
da sociedade, das o mas p i adas de ida” (idem, p. 93). E o p opósi o é que se
o me uma mino ia ex ao diná ia e que essa in lua na massa de modo a o na
o cidadão comum alguém mui o mais e icien e e p odu i o. In e e -se-ia assim
o p ocesso pelo qual a c ise mo al des uiu a ida pública e a polí ica. A i ma-o
em Seleccion, a igo de 1926 (1994):
Uma nação pa a ascende sob e o ho izon e his ó ico em que con a , ao menos, com umas
dezenas de cabeças cla as, capazes de ace a com animada disciplina ascensional e que
ex aia de cada cidadão íplice endimen o habi ual (p. 99).
No Discu so em Sego ia, p onunciado em 14 de e e ei o de 1931, no p imei o
a o público da Ag upación al Se iço de la República, O ega y Gasse a i mou
que a Mona quia não inha o ça ou desejo de p omo e odas as mudanças
necessá ias. Sem elas a Espanha não en en a ia os desa ios daquele momen o
130 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 131
inaugu ando uma no a o ma de aze polí ica. Aliás, a Mona quia e a a maio
esponsá el pela cen alização adminis a i a da Espanha. A i mou (1994): “A
polí ica da Mona quia consis iu em inu iliza os es o ços, as inquie udes e os
en usiasmos dessas g andes capi ais ap o ei ando a iné cia P o incial” (p. 133).
Eis a azão pela qual ele passa a de ende a o ma de go e no epublicana. Pelo
expos o ica cla o que não se a a de simples mudança na o ganização polí ica,
mas de uma p o unda mudança de oda a es u u a adminis a i a e da o ma
de a ua do Es ado espanhol. Não se a a simplesmen e de oca o Mona ca
pelo P esiden e, man endo-se inal e ada a ida polí ica do país. Ao con á io da
Mona quia, a República, como ele explica no Mani es o (1994) é “o símbolo de
que os espanhóis esol e am po im oma b iosamen e em suas mãos seu p óp io
e in ans e í el des ino” (p. 128), is o é, aze odas as mudanças já anunciadas e
necessá ias pa a supe a a elha polí ica. República signi ica a al e ação p o unda
na ida polí ica do país, a i mou: “A pala a República signi ica pa a mim não
só a eliminação da Mona quia, mas a e o ma adical de odas as ins i uições
adicionais” (idem, p. 135).
Nos a igos já mencionados e eunidos em La Redención de las P o íncias
y la decência nacional (1994) ele diz que os ep esen an es da elha polí ica
não se empolga am com as mudanças necessá ias pa a al e a o que o ilóso o
denomina ia “de ei os do Es ado e da sociedade” (p. 185), is o é: “os de ei os
da ida espanhola, os de ei os ípicos do indi íduo espanhol e de suas o mas de
con i ência na aldeia, na p o íncia e na capi al” (idem, p. 185).
A p eocupação com a con i ência humana e com as limi ações mo ais do
homem espanhol não é assun o es anho à polí ica. O pensado escla ece que:
“a ida polí ica é conc eção da ida pública, po ém es a em uma dupla aiz,
uma cujos ne os se alimen am na p aça, enquan o a ou a es á ligada na ida
p i ada” (idem, p. 177). Com al en endimen o da ida polí ica, o ilóso o se
inse e en e aqueles que pensam que não bas a e o ma a es u u a ex e io do
Es ado espanhol se ambém não se “ e o ma o co po da sociedade espanhola,
da ida nacional em odas as suas o dens” (idem, p. 189), ou melho , ac edi a
que é necessá io assim p ocede pa a que a e o ma polí ica a inja elemen os da
ida pública e p i ada.
Dian e das mudanças necessá ias pa a se adap a aos desa ios da his ó ia os
po os e elam a i udes di e en es. Há aqueles que se mo em com eno me aci-
lidade e ou os pa a os quais as mudanças são demo adas e di íceis. Os países
sul-ame icanos exempli icam o p imei o g upo e a Espanha ipi ica o segundo.
132 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 133
Ambas as a i udes são conside adas inadequadas pelo ilóso o que não espe a nem
excesso de quie ude, nem g ande ímpe o pa a mudanças. Ele diz: “se uma aça
é demasiado inquie a, se pul e iza. Po ém, se é demasiado es á ica se escle osa”
(idem, p. 190). O p oblema da Espanha é jus amen e a pa alisação da ida pública.
Nos a igos que compõem La Redención de las P o íncias y la decência nacional o
cen alismo adminis a i o, caciquismo e p oblemas do Pa lamen o Cen al são
nomeados de elha polí ica e são esponsabilizados pelo engessamen o do país.
Ali diz: “A elha polí ica é mad ilenha. Desde que comecei a esc e e comba i
a elha polí ica” (p. 202).
No mesmo ex o o ilóso o explica po que o habi an e das p o íncias e a indi-
e en e ao que se passa a no Pa lamen o Cen al. O deba e pa lamen a se limi a a
aos p incípios de go e nação ge al que con apunha Libe alismo e Socialismo,
Mona quia e República, mas desconside a a os assun os conc e os. Deixa a de lado
os aspec os adminis a i os que mais in e essa am ao homem do in e io pouco
in e essado nas ques ões eó icas sob e o ma de go e no. En im, os espanhóis
es a am pouco in e essados em discussões ideológicas po que “a imensa maio ia
dos dis i os elei o ais e a compos a pela população u al” (p. 217). Como e am
mui o di e en es os in e esses dos espanhóis, os assun os que chama am a enção do
p o inciano não e am os mesmos que empolga am os mad ilenos e esses, po sua
ez, não conseguiam ele a os in e esses da população u al pa a a a de emas de
maio ab angência. Os p o incianos se in e essa am pouco po ques ões ideológicas,
mas es a am mui o a en os à a uação dos ep esen an es do Pode Cen al e dos
bene ícios que de Mad i podiam chega a é eles. O pode dos ep esen an es do
Go e no Cen al lhes con e ia dignidade, ama e lide ança egional, denominada
pelo ilóso o de caciquismo. Esse enômeno e a um dos p oblemas undamen ais
da elha polí ica esponsá el pela ine iciência e co upção. Em ou as pala as, o
homem da p o íncia não escolhia um ep esen an e local pa a o Pode legisla i o,
mas alguém hábil e capaz de aze mui os bene ícios de Mad i. Di o pelo pensa-
do : “não o a am num ep esen an e pa a o Pode Legisla i o, mas num agen e
de a o es do Es ado” (idem, p. 222). O es abelecimen o de uma no a polí ica
exigia a a i mação da ida p o incial e uma no a manei a de le a a é lá o deba e
polí ico, is o é, cons ui um no o Es ado que osse a aen e pa a aquela gen e.
O Es ado e o mado con o me o p oje o o eguiano não e ia apenas uma
no a o ganização adminis a i a com a in odução de um ní el in e mediá io de
pode . Nos a igos de Re i icación de la República (1931), o ilóso o mos a que
espe a a não apenas al e a a consciência mo al e polí ica do homem espanhol,

132 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 133
mas modi ica a sua o ma de p oduzi . O eo denamen o polí ico-adminis a i o
oca ia no co po nacional “pa a e o ma seus ecidos celula es mais p o undos,
po exemplo, o econômico” (p. 344). Não pa ece ao pensado que e a possí el
encon a um modelo p on o pa a se aplicado ao co po nacional, ao con á io,
os modelos exis en es passam po adap ações nos di e sos países não se podendo
ala de o mas pu as de capi alismo ou socialismo. Ele assim se e e e aos modos
de p odução exis en e naquele momen o:
Hoje é coisa sabida que em odas as pa es, em odos os mo imen os sociais do mundo, e
se en enda com igo minhas pala as, inclusi e na Rússia, que não exis e capi alismo como
igo oso p incípio que egula a ida econômica; po ém ampouco o cole i ismo, como
exclusi o p incípio, como no ma abs a a que impeça as modi icações do u u o econômico,
senão que en e ambos os p incípios, que como p incípios são semp e penden es, eio aloja
a inexo á el lei da economia (p. 353).
A busca de equilíb io en e os di e en es sis emas econômicos pa ece se a
a i ude mais adequada não só po que nenhum deles possui uma espos a de ini i a
pa a os desa ios do pe íodo, mas po que o homem espanhol não apenas ap ecia a
libe dade, mas “ eage an e a condu a socialis a com admi ação e espei o” (idem,
p. 364). A p ocu a de uma solução in e média pa a alguns dos mais desa iado es
p oblemas de nossos dias o nece ia elemen os mais con incen es pa a o en en-
amen o das angús ias que su gem com os desa ios do u u o. Esses desa ios do
de i são ep esen ados pelos mis é ios con idos na igu a de Pã – o deus dos
pas o es da A cádia, ilho de He mes e da nin a D íope. A polí ica, lemb a nosso
ilóso o, “consis e em deci a an ecipadamen e es e g i o emendo do g ande
deus em o ma de bode” (idem, p. 365). Po con a da in luencia dos es óicos,
o deus Pã passou a pe soni ica oda a ida uni e sal com udo o que nela há
de imponde á el. Pa ece se is o o que o ilóso o que dize quando se e e e ao
deus g ego pa a a a dos mis é ios con idos no u u o que chega a nós com
incon á eis su p esas. A cons i uição espanhola p ocu a aduzi a o ma na u al
de eagi da sociedade dando ce a es abilidade ao que de su p eenden e possa
i das ações e eações. “T a a-se de in en a aquela sé ie de apa elhos, que si a
melho pa a ob ê-lo (o u u o)” (idem, p. 368).
O u u o da Espanha es á insc i o no que há de mais undo na alma espa-
nhola e o que nela há de mais empolgan e: “a e dadei a Espanha, aquela de
que depende o u u o, é essa ou a Espanha, la en e, p o unda, aga ada à e a,
que é a P o íncia” (idem, p. 371). É na o ganização da P o íncia que de e a ua
134 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 135
a polí ica espanhola. A cons i uição que exp ime a ida nacional de e exp essa
os elemen os mais ín imos da ida do po o. A cons i uição p ocu a da -lhe uma
o dem ela i a: “a democ acia é um po o o ganizado, não é po o sol o, e semp e
que seja possí el, de e a Cons i uição eco e não a es e po o sol o, não a es a
mul idão ino gânica, (…), mas ao po o o ganizado” (idem, p. 379).
A expe iência conc e a do go e no epublicano ecém ins alado começa a
o nece ao pensado um sen imen o de descon o o, pois a República c iada em
meio a an as espe anças de ans o mação não pa ece caminha na di eção do que
O ega y Gasse apon a como caminho de mudança necessá ia pa a ans o ma
a elha polí ica. Além de não emp eende as ans o mações necessá ias, o iló-
so o pe cebeu, que a República se compo a a como o an igo egime, deixando
pe cebe o desencan o que pouco depois a as a á o ilóso o da ida pa lamen a .
O ega y Gasse acabou pos e gando seu a as amen o da a i idade polí ica
pa a pa icipa das discussões pa lamen a es susci adas pelo Es a u o da Ca aluña
em 1932. As aspi ações da egião não se iam de idamen e en endidas, a alia, o a
da ensão que exis e en e o sen imen o de in eg ação à nacionalidade espanhola e
a iden idade egional. T a a-se da ques ão que examina a eo icamen e em España
In e eb ada onze anos an es. Ele econhece a exis ência de duas endências na
ida polí ica p o incial: “uma sen imen al que impulsiona i e à pa e, ou a,
em pa e ambém sen imen al, po ém, sob e udo de azão, de hábi o, que o ça
a con i e com as ou as egiões na unidade nacional” (p. 460). Algumas ezes
du an e a his ó ia uma endência p e alece e ou a pe de o ça. A ques ão não se
esol e olhando-se o assun o só a pa i da ó ica egional, da ensão ín ima, pois
há ou os espanhóis que sen em a egião da Ca alunha como pa e essencial da
Espanha, in eg an e da “unidade his ó ica, dessa adical comunidade de des inos,
de es o ços, de ilusões, de in e esses, de esplendo e misé ia, na qual a êm pos o
esses espanhóis inexo a elmen e sua emoção e sua on ade” (idem, p. 462).
O ega y Gasse não é con á io à au onomia das P o íncias, en enda-se dos
cos umes locais, de uma jus iça municipal, do a amen o dos p oblemas locais
po uma Assembléia egional, mas obse a que au onomia adminis a i a e polí ica
não é equi alen e à independência. Ele explica a sobe ania como um concei o
ju ídico que se e e e ao pode nacional en e aos demais Es ados nacionais e a
cidadania como elação com o Pode cen al de um Es ado. Esse úl imo e e e-
se à pe ença ao Es ado e sua pa icipação nele. Concebidos os concei os dessa
o ma não se pode admi i a noção de pode que nasça do po o ca alão, mas do
po o espanhol ao qual pe ence o po o ca alão. Eis o que diz o ilóso o:
134 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 135
Não podemos, po isso, acei a que se diga: o Pode da Ca alunha emana do po o. A ase
pa ece pe ei a, exempla , de ine exa amen e nossa eo ia ge al da polí ica, po ém não se
a a sem dis inção, que o am emp egados, do po o da Ca alunha apa e, sem o po o
espanhol, den o do qual e com o qual con i e, na aiz, o po o ca alão (idem, p. 467).
A au onomia da Ca alunha, nos e mos acima mencionados, e a acei a pelo
ilóso o e e ia cus os signi ica i os pa a se e e i ada. Ele não se opunha a ais
gas os desde que eles não deso ganizassem a economia espanhola ou dessem à
egião um a amen o mui o di e so do con e ido à ou as á eas do país. A i mou:
“o que digo é que não é possí el en ega à Ca alunha nenhuma con ibuição
impo an e, ín eg a, po que isso a desconec a ia da economia ge al do país” (idem,
p. 472) e comple a ia “não podemos admi i é que isso se aça em de imen o
da economia espanhola” (idem, p. 472).
Os comen á ios de O ega y Gasse ao Es a u o da Ca alunha p o oca am
g andes deba es pa lamen a es e apa en emen e algumas incomp eensões. O a o
o le ou a aze um Discu so de Re i icación na sessão pa lamen a de 2 de junho
de 1932, onde escla ece melho algumas de suas ideias an e io men e expos as na
ibuna do Pa lamen o. Re oma, naquele discu so, a noção de Pode Sobe ano pa a
des aca sua undamen alidade, is o é, econhece se ele a base dos ou os pode es do
Es ado, jus i icando, po isso, a a -se de pode nacional. A i mou (1994): “Diz-se
exclusi amen e que um pode é sobe ano quando ele é o pode sup emo e unda-
men al do qual emanam odos os demais e que, po se o p imei o, não nasce po
sua ez de ou o pode an e io e p é io, senão que nasce de si mesmo” (p. 478).
O pode sobe ano e e e-se à capacidade de oma as decisões de adei as, o
pode de c ia e anula os ou os pode es, não impo a qual sejam eles. T a a-se do
pode maio do Es ado que na Idade Média dizia-se p o i de Deus e que depois
do iluminismo ancês se a ibuiu ao po o do Es ado. A sobe ania ap oxima os in e-
g an es da mesma nacionalidade e lhes des aca o des ino comum. No caso espanhol
ele o alece “a solida iedade dos espanhóis an e a ida e suas icissi udes” (p. 481).
Ou o pon o e is o do discu so inicial é o papel da uni e sidade, ema de
uma segunda in e enção no plená io da Assembléia da República ealizada em
27 de julho do mesmo ano. Naquela ocasião o ilóso o conside a como possí el
a Ca alunha adminis a uma uni e sidade egional que unciona ia ao lado da
uni e sidade nacional. Embo a o assun o pa ecesse complicado a di iculdade lhe
pa ece se menos complicada do que cons ui uma única uni e sidade bilíngüe.
Os mo i os apon ados são: uma uni e sidade bilíngüe elimina ia, na p á ica, o
136 Mona QUIa E EPÚBLICa
o Ega Y gassE : C IsE Da EsPanHa E P oBLEMas PoLí ICos 137
uso da língua espanhola e a língua ca alã não é imp escindí el pa a assegu a a
au onomia egional. A isso se soma o a o da Espanha não se um país bilín-
güe e de de e p ese a o uso co e o do idioma o icial. Eis o que diz em seu
discu so (1994): “o Es ado não pode abandona em nenhuma egião o idioma
espanhol, pode inclusi e, se lhe pa ece opo uno, ainda que pa adoxal, pe mi i
e a é omen a o uso de línguas es angei as e e nacula es” (p. 505).
Todas as mudanças no modo de i e e de o ganização do po o de em se
len as pa a não p o oca um cu o-ci cui o his ó ico. Só mudanças aga osas
pene am na alma nacional e a ans o mam de modo du adou o.
As eses acima ap esen adas cons i uem as úl imas mani es ações da a uação
polí ica de O ega y Gasse . Em ou ub o de 1932 des ez-se a denominada Ag u-
pación al se iço de la República. A pa i de en ão O ega y Gasse a as a -se-ia
dos assun os polí icos. An es de azê-lo de modo de ini i o ma ca sua p e e ência
pela o ma epublicana de go e no, ainda que não conco dasse com os umos que
a ida polí ica epublicana es a a omando na Espanha. A azão da p e e ência é
que a República é a única o ma de go e no que se co ige. A i ma-o em Vi a la
República (1933) do seguin e modo (1994): “Mui as ezes, uma delas em plena
di adu a, a i mei que a República é o único egime que au oma icamen e se co ige
a si mesmo, não ole a o p incípio da alsi icação” (p. 578). Nesse mesmo a igo
anuncia o im do nazi- ascismo com mais de uma década de an ecedência e a i ma
que a opção o ali á ia seguida pela I ália e Alemanha não e a a melho e eda
pa a a Espanha e que essa o ma de go e no não inha u u o na Eu opa. No
a igo denominado En nomb e de la nación, cla idad (1933) de ende a o ganização
polí ica epublicana que e a “a ealidade his ó ica em que ago a es á e que ago a é
o po o espanhol” (p. 532). Assim e a po que o po o pe cebeu que a Mona quia
não e ia o ças pa a aze as mudanças necessá ias na ida polí ica espanhola. Na
jus i ica i a do sis ema epublicano a i ma ainda que a Mona quia es a a exau ida
e que não ha ia al e na i a pa a a Espanha “mais since a que p ocu a i e , aze -
se e log a -se se a endendo a si mesma” (p. 533). Embo a ac edi asse na o ma de
go e no epublicano seu desencan o com a a i idade polí ica deco eu da decepção
que e e com o compo amen o dos polí icos.
A classe não emp eendeu as mudanças necessá ias pa a muda o país e que
uma guinada inicial pa a a esque da no Go e no de Alcalá Zamo a p o ocou
uma Gue a Ci il que le ou a Di ei a ao Pode . No início do con li o em 1936
O ega y Gasse já não inha espaço no país. Ele es a a descon o á el en e a
Di ei a e a Esque da e e e que se exila com a amília umando inicialmen e