Baltų kalbų naminių gyvulių pavadinimai (jų kilmė ir santykis su atitinkamais slavų kalbų pavadinimais)
Full text
BALTŲ IR SLAVŲ KALBŲ RYŠIAI
LIETUVOS TSR MOKSLŲ AKADEMIJA
ALGIRDAS SABALIAUSKAS
NOMES DE ANIMAIS DOMÉSTICOS NAS LÍNGUAS BÁLTICAS
(sua origem e relação com os nomes correspondentes nas línguas eslavas)
Ao esclarecer as relações linguísticas entre as línguas bálticas e eslavas, além do estudo dos fenômenos fonéticos, morfológicos e sintáticos, também é importante analisar mais detalhadamente o léxico dessas línguas. Um trabalho mais amplo, de caráter geral, sobre o léxico das línguas bálticas e eslavas e suas relações mútuas só poderá ser escrito quando o léxico de grupos semânticos específicos tiver sido estudado com maior profundidade. Que a investigação desses grupos também produz resultados interessantes, por vezes inteiramente inesperados, pode ser visto claramente no livro de O. Trubachov, «Terminologia dos ofícios nas línguas eslavas»1: a análise da terminologia dos ofícios têxteis, da marcenaria, da cerâmica e da ferraria mostrou que o léxico eslavo nesse campo tem muito mais elementos em comum com o germânico e o latim do que com as línguas bálticas. Naturalmente, não se podem tirar conclusões gerais com base na análise de um único grupo lexical desse tipo; ainda assim, os dados dessa análise constituem uma contribuição valiosa para o conjunto da investigação das relações linguísticas entre as línguas bálticas e eslavas.
Neste trabalho, procurou-se também analisar um grupo lexical desse tipo: os nomes dos animais domésticos. A atenção principal volta-se aqui para o material das línguas bálticas, enquanto os fatos das línguas eslavas são abordados apenas na medida em que têm relação direta com os fatos correspondentes das línguas bálticas. Esse caráter do trabalho foi determinado, em parte, pelo fato de que a terminologia da criação de animais nas línguas eslavas já foi estudada mais detalhadamente: o estudo de O. Trubachov, «A origem dos nomes dos animais domésticos nas línguas eslavas», é dedicado a essa questão2.
Ao tratar dos nomes de animais domésticos específicos, o trabalho aborda brevemente também a história desses animais — sua domesticação, seu aparecimento no território atual dos povos bálticos e outras questões que, por vezes, podem ter certa relação com o surgimento de nomes específicos. Além disso, como não há trabalhos mais abrangentes desse tipo em lituano, essas informações podem constituir fragmentos de uma espécie de história da criação de animais nos países bálticos.
CÃO
Atualmente, ao que parece, não há dúvida de que o cão foi o primeiro animal domesticado pelo ser humano. Um intervalo de tempo imensamente longo nos separa do início da amizade entre o ser humano e o cão; por isso, hoje é difícil esclarecer mais concretamente essa amizade
1 О. Н. Трубачев, Ремесленная терминология в славянских языках, Москва, 1966.
2 O. N. Trubachov, A origem dos nomes dos animais domésticos nas línguas eslavas, Moscou, 1960.
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a história, esclarecer as razões que levaram o ser humano a aproximar-se do cão antes de qualquer outro animal.
Nos achados arqueológicos do Neolítico, ossos de cães domésticos são encontrados em quase toda a Europa e, por vezes, são encontrados até mesmo em lugares onde não há vestígios de nenhum outro animal doméstico.1.
Vários desenhos atestam que os sumérios, que conheciam o cão desde os tempos mais remotos2. Os cães são representados como companheiros dos deuses babilônicos. Todos os tipos de figuras de cães tinham poderes mágicos em sua terra3. Desenhos de cães são encontrados nas mais antigas vasilhas egípcias. A importância do cão na vida dos antigos egípcios também é atestada pelo fato de que esqueletos de cães são encontrados em túmulos antigos ao lado de seus donos. Os faraós egípcios das dinastias I e II amavam tanto seus cães que, depois de enterrá-los em seus próprios túmulos, também lhes ergueram lápides, nas quais, ao lado dos próprios nomes, gravaram os nomes dos cães, que, tendo suportado talvez cinco milênios, chegaram até os nossos dias4. Os antigos assírios, gregos e romanos criavam diversas raças de cães5. Sobre os antigos iranianos, Heródoto escreveu que seus «sacerdotes matam com as próprias mãos tudo, exceto cães e seres humanos»6.
A grande variedade de raças de cães, por vezes muito diferentes umas das outras, já permitia aos zoólogos, no início do século XIX, concluir que o cão doméstico não descendia em toda parte do mesmo antepassado7.
É muito mais difícil esclarecer a questão da domesticação do cão. Em geral, são objetivos utilitários que levam o ser humano a domesticar animais. Antigamente, tentou-se explicar também por esses objetivos a domesticação do cão, considerando-o um auxiliar do ser humano — caçador e pastor. Essa concepção, como veremos adiante, refletiu-se também na explicação da origem do nome indo-europeu do cão. Contudo, numerosos fatores importantes obrigam a abandonar essa concepção. Em primeiro lugar, contradiz-lhe o fato de que, como se observou, o cão foi domesticado antes de o ser humano começar a praticar a criação de animais. Os aborígenes da América do Sul e Central não se dedicavam à criação de animais, mas haviam domesticado o cão como seu único, por assim dizer, animal doméstico. Em geral, o papel do cão na vida dos aborígenes americanos ajuda a esclarecer a questão de sua domesticação também no continente europeu. Para os aborígenes americanos, o cão está estreitamente ligado à religião e à mitologia. Durante diversas cerimônias religiosas, comia-se carne de cão na América8. Também se comia na Europa antiga, onde esse costume, a princípio, parece ter tido igualmente um caráter mais ritual9. Os vestígios da veneração do cão como animal dotado de poder divino persistiram até o aparecimento dos monumentos escritos indo-europeus, e algumas
1 M. Hilzheimer, Haustier, – M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, V, Berlin, 1926, p. 219; O. Schrader, Reallexikon der indogermanischen Altertumskunde, I, Berlin—Leipzig, 1917—1923, p. 516.
2 M. Hilzheimer, ibid., p. 219.
3 Ebeling, Hund, – M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, V, p. 410.
4 M. Hilzheimer, ibid., p. 220; Ranke, Hund, – M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, V, p. 409; C. Keller, Die Abstammung der ältesten Haustiere, Zürich, 1902, p. 41—42.
5 C. Keller, ibid., p. 42—45.
6 O. Schrader, Dicionário enciclopédico da Antiguidade indo-europeia, I, p. 516.
7 C. Keller, ibid., p. 46—80; E. Hahn, Hund, – M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, V, p. 403.
8 F. Termer, Revista de Etnologia, 82, Braunschweig, 1957, p. 1.
9 O. Schrader, Dicionário enciclopédico da Antiguidade indo-europeia, I, p. 516.
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Os vestígios do papel religioso do cão, a bem dizer, perduraram até os nossos dias10. Portanto, se os antigos escritores romanos estavam certos ao classificar os cães, segundo sua função utilitária, em cães de caça, de pastor e de quintal11, de modo algum se pode transpor esse esquema para épocas anteriores, para o início da domesticação do cão, pois tanto a função de caça quanto a de pastoreio, surgida com o florescimento da criação de animais, e sobretudo a de guardar a casa apareceram muito depois da domesticação do cão.
Provavelmente é preciso concordar com os pesquisadores que, rejeitando o caráter utilitário da aproximação entre o ser humano e o cão, afirmam que o cão se aproximou do ser humano, antes de tudo, como parasita. Os restos de comida e o fogo aceso nos acampamentos humanos atraíam os cães. Assim, o cão acostumou-se a permanecer perto dos assentamentos humanos, aproximando-se gradualmente cada vez mais das pessoas. É possível que os filhotes, em particular, se acostumassem com facilidade aos seres humanos. Já no início da domesticação, o ser humano talvez tenha usado ocasionalmente o cão também para certas necessidades próprias. Por exemplo, acredita-se que as mulheres deixavam os cãezinhos sugar o excesso de leite. Sobreviveram representações das deusas da morte da Babilônia e de Cartago que têm, junto a cada seio, um animal mamando, provavelmente um cãozinho e um leitão. Entre alguns povos, esse costume também ocorre em nossos dias12.
Assim, não há dúvida de que os indo-europeus já conheciam bem o cão durante os seus primeiros contatos mais próximos. Os antepassados dos bálticos e dos eslavos também não constituíram exceção nesse aspecto. Nos atuais territórios habitados pelos bálticos, o cão foi o primeiro animal domesticado13. O cão também deixou marcas profundas no folclore e na visão de mundo dos povos lituano e letão14.
As línguas indo-europeias conservaram muito bem a antiga denominação do cão; compare-se o sânscrito śvá, genitivo singular śunah, avéstico spā, genitivo singular sūno, grego κύων, genitivo singular κυνός, latim canis «cão, cadela», armênio šun, irlandês antigo cú, genitivo singular con, hitita šuwana, tocariano ku, lituano šuo, genitivo singular šuñs. Entre os exemplos citados, a denominação latina do cão se distingue pelo vocalismo de sua raiz. Contudo, parece possível explicar a alteração da raiz da palavra latina com base nos dados do latim. Tanto pelo significado quanto pela origem, também suscita dúvidas o hitita šuwana15.
O significado original da denominação indo-europeia do cão não é inteiramente claro, embora tenham sido propostas muitas interpretações, mais ou menos convincentes. H. Osthoff tentou relacionar a denominação indo-europeia do cão à denominação indo-europeia do gado (inicialmente, talvez, da ovelha) *peku (compare-se o sânscrito paśáh, lat.
10 O. N. Trubachov, A origem das denominações dos animais domésticos nas línguas eslavas, Moscou, 1960, p. 5 (doravante: Происхождение…).
11 C. Keller, Die Abstammung der ältesten Haustiere, p. 44.
12 E. Hahn, Hund, — M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, V, p. 403; O. H. Трубачев, ten pat, p. 5.
13 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, Lietuvos archeologijos bruožai, Vilnius, 1961, p. 79; Latvijas PSR vēsture, I, K. Strazdiņa, J. Zuša, J. Krastiņa, A. Drizula red., Rīgā, 1953, p. 9; K. Паавер, Формирование территории и изменчивость млекопитающих Прибалтики в голоцене, Тарту, 1965, р. 361—362, 364—365, 367—372.
14 P. Šmits, Latviešu tautas ticējumi, IV, Rīgā, 1941, p. 1745—1776.
15 A. Walde, Vergleichendes Wörterbuch der indogermanischen Sprachen, I, Berlin und Leipzig, 1930, p. 465—466 (toliau: VrgI. Wb.); A. Walde, Lateinisches etymologisches Wörterbuch, I, Heidelberg, 1930, p. 152—153 (toliau: Et. Wb.); E. Fraenkel, Litauisches etymologisches Wörterbuch, II, Heidelberg—Göttingen, 1966, p. 1033—1035 (toliau: Et. Wb.); F. Kluge, Etymologisches Wörterbuch der deutschen Sprache, Berlin, 1957, p. 320 (toliau: Et. Wb.); J. Pokorny, Indogermanisches etymologisches Wörterbuch, Bern, 1949, p. 632—633 (toliau: Et. Wb.); H. Kronasser, Vergleichende Laut- und Formenlehre des Hethitischen, Heidelberg, 1956, p. 229; В. В. Иванов, Хеттский язык, Москва, 1963, p. 90—92.
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pecus), reconstruindo a forma proto * (p)kyōn, cujo significado original teria sido “cão de pastor de ovelhas ou, em geral, de pastor”. Contudo, além da falta de fundamento fonético dessa explicação, a história do próprio animal contradiz essa hipótese. Também não há fundamento algum para afirmar que esse nome do cão fosse secundário, tendo substituído um nome anterior de origem indo-europeia para “cão”.
V. Georgiev explica que o nome indo-europeu do cão deriva da forma proto indo-europeia *keu- “gritar, uivar, ganir, ladrar”. Portanto, o cão teria recebido seu nome por causa de seu ladrar e uivar característicos, e o significado original do nome teria sido “animal que ladra, que uiva”. Segundo V. Georgiev, a forma original do nominativo singular era *keu̯ōn, que, sob a influência da forma *ku-n-ós, foi muito cedo substituída pela forma *ku̯ōn (gr. κύων) ou *ku̯ōn (sânscr. śvá, av. spā). O paradigma original desse nome do cão teria sido aproximadamente o seguinte: sing. nom. *keu̯ōn > *ku̯ō(n) e *ku̯ō(n), sing. acus. *ku̯én-m, sing. gen. *kun-ós, sing. loc. *ku̯én-(i), pl. instr. *kun-bhis etc. V. Georgiev também deriva dessa forma proto, além dos nomes do cão já mencionados por nós, o sânscr. śvakaḥ “lobo”, o med. (Heródoto) σπάχα “cão”, let. kuna “cadela”, esl. kó-ka-h “lobo”, búlgaro куче “cão”, russo сука “cadela” e polonês suka¹⁶.
Do ponto de vista semântico, a explicação de V. Georgiev seria plenamente aceitável. Contudo, o esquematismo de seu tratamento fonético suscita muitas dúvidas e, a nosso ver, é totalmente impossível relacionar alguns dos exemplos que ele cita com o antigo nome indo-europeu do cão.
Merece atenção a tentativa de F. Specht de explicar esse nome do cão, relacionando-o à raiz indo-europeia *keu-, que designaria alguma cor; cf. sânscr. śonah “vermelho” < indo-europeu *keu-no¹⁷. Semanticamente, essa explicação também seria possível, pois nas línguas indo-europeias encontram-se numerosos nomes desse animal, de diferentes épocas, derivados do nome correspondente de uma cor. Até mesmo o lituano kiáunė, o letão caūna e o prussiano caune, como variantes velares dessa raiz, poderiam ser relacionados a tal nome indo-europeu do cão¹⁸. Entretanto, outras palavras da raiz indo-europeia *keu-no (cf. av. savahī “nome de uma região situada a leste”, av. sūram “de madrugada”, arm. šukh “brilho, fulgor”, arm. šol “raio”) não corroboram muito a etimologia de F. Specht, pois o significado principal dessa raiz é, afinal, “brilhar, resplandecer”. O lituano švankūs “decente, honrado; alegre, ágil”, que F. Specht, segmentando-o como *šū-an-k-us, compara às palavras deste grupo, não pode ser associado às palavras do grupo mencionado, tanto pelo significado quanto pela forma mais antiga šankūs.
Houve tentativas de relacionar o nome do cão à mesma raiz indo-europeia *keu-, mas com o significado não de alguma cor, e sim de “inchar, intumescer, aumentar, crescer”, argumentando que o significado original do nome do cão teria sido mais ou menos próximo das noções de “poderoso” (cf. sânscr. śaviraḥ “poderoso”) ou “concebido, cria de animal” (cf. sânscr. śi-šu “criança”, nórdico antigo húnn, gr. χύος). Contudo, essas explicações são duvidosas sob todos os aspectos¹⁹.
Além desse nome indo-europeu do cão, já discutido por nós, em grande parte da Europa e da Ásia também se usa amplamente outro nome, encontrado não só nas línguas indo-europeias, mas também nas línguas fino-úgricas e turco-tártaras. Em todas essas línguas, ele é muito semelhante e é usado sobretudo com o sentido de “cachorrinho”, e, mais raramente, com os sentidos de “cadela” ou “cão” em geral. Encontram-se especialmente numerosas variantes nas línguas eslavas: russo кутёнок “cachorrinho”, кутя, куток,
¹⁶ B. И. Георгиев, Исследования по сравнительно-историческому языкознанию, Москва, 1958, p. 46—47, 117, 139, 151.
¹⁷ F. Specht, Der Ursprung der indogermanischen Deklination, Göttingen, 1947, p. 32, 121—122.
¹⁸ A. Walde, Vrgl. Wb., I, p. 368; J. Pokorny, Et. Wb., p. 594.
¹⁹ A. Walde, Vrgl. Wb., I, p. 446; J. Pokorny, Et. Wb., p. 592—594.
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kyтиха «cadela», кучко «cão», ucraniano котюга, eslovaco kot’uha, búlgaro куче «cadela», sérvio куче, esloveno kūčak, polonês Kucziuk «nome de cão». Eis exemplos de outras línguas: albanês kutsh «cão», letão kuce «cadela», kuçens «cãozinho», osseta куз/куј «cão» < iraniano oriental *kuti, cf. curdo kūčik, húngaro kutya, komi kitši, kytsi «cãozinho»²⁰. Apesar da coincidência de significado e da semelhança externa, este nome não se presta a uma análise fonética precisa. Tampouco é fácil explicar sua difusão por meio de empréstimos. Por isso, parece justificável que muitos pesquisadores considerem esse nome de cão como derivado de uma palavra imitativa usada para chamar o cão; cf. russo куть-куть, polonês kuciu-kuciu. É possível que se devam associar a essas palavras imitativas o russo ццу, o lituano ciù-ciù, ciū-ciū, bem como os nomes de cão delas derivados, usados sobretudo na linguagem infantil.
É bastante estranho que nas línguas eslavas não tenham sobrevivido vestígios mais confiáveis do antigo nome protoindo-europeu do cão (lituano šuo etc.). Contudo, nelas são comuns outros nomes de cão, desconhecidos nas demais línguas indo-europeias. Alguns desses nomes são bastante antigos, remontando ainda ao protoeslavo. Um dos mais antigos e difundidos é: eslavo antigo pbsǫ «cão», russo antigo пъсь, russo dialetal пѐс, ucraniano пес, bielorrusso пес, búlgaro пъс, пес, servo-croata nàc, esloveno pěs, eslovaco pes, polonês pies, cassúbio pjes, alto sorábio pos, baixo sorábio pes, pjas, polábio pasai (< *pbsǫ) «cão»²¹.
Entre os etimólogos, este nome eslavo para «cão» é extremamente popular, e para explicá-lo foram aplicadas quase todas as variantes semânticas imagináveis quanto à origem do nome do cão.
A etimologia de V. Schulze encontrou o maior número de adeptos: o eslavo pisǫ é relacionado ao sânscrito piśāṅgah «avermelhado, castanho» (também nome de cão), piśāh «gamo», grego ποικίλος «malhado», russo пестрый, lituano paišas etc.²².
Até hoje tampouco foi esclarecida a origem de outro nome de cão, difundido sobretudo nas línguas eslavas orientais; cf. russo antigo собака, russo собака, bielorrusso сабака, ucraniano собака, polonês dialetal sobaka, cassúbio sobaka «cadela, cão, pessoa depravada», esloveno sobaka, eslovaco dialetal sobaka «mulher brigona». Nas línguas eslavas ocidentais, sobretudo onde a palavra é usada em sentido figurado, ela pode também ter sido introduzida a partir do russo, do bielorrusso ou do ucraniano. Alguns consideram esse nome de cão um empréstimo das línguas iranianas, outros das línguas turcas, e outros ainda tentam tratá-lo como palavra de origem eslava²³.
Parte das línguas eslavas compartilha um nome para «cadela»: russo antigo сука, russo сука, bielorrusso сука, ucraniano сука, polonês suka, cassúbio sëka, polábio saukó «mulher licenciosa, devassa». Na explicação da origem dessa palavra, persiste, desde os tempos de H. Osthoff, a tendência de procurar de algum modo vestígios do antigo nome protoindo-europeu do cão (lituano šuo etc.) nas línguas eslavas. Até
²⁰ O. H. Трубачёв, Происхождение…, p. 25—26; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 705—706; В. И. Абаев, Историко-этимологический словарь осетинского языка, I, Москва—Ленинград, 1958, p. 605.
²¹ O. H. Трубачев, Происхождение…, p. 19; M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 346—347.
²² M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 346—7; O. H. Трубачев, Происхождение…, p. 19; M. Mayrhofer, Kurzgefasstes etymologisches Wörterbuch des Altindischen, II, Heidelberg, 1963, p. 288—289 (doravante: Et. Wb.).
²³ O. H. Трубачев, К этимологии слова собака, — „Краткие сообщения Института славяноведения АН СССР“, 15, Москва, 1955, p. 48—55; J. Holub, F. Kopečný, Etymologický slovník jazyka českého, Praha, 1952, p. 344 (doravante: Et. sl.); V. Machek, Etymologický slovník jazyka českého a slovenského, Praha, 1957, p. 462 (doravante: Et. sl.); O. H. Трубачев, Происхождение…, p. 32.
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e, nos últimos anos, muitos pesquisadores têm seguido esse caminho24. No entanto, tanto o caráter pan-eslavo dessa denominação da cadela quanto, sobretudo, sua relação com o antigo nome indo-europeu do cão não estão suficientemente comprovados25.
O antigo nome indo-europeu do cão foi preservado nas três línguas bálticas.
Liet. šuo < *švuō (< ide. *kuō-n). A queda facultativa de v diante de ō, fenômeno semelhante, também é atestada nas línguas bálticas em alguns outros casos; cf. liet. dū < *dvuo, liet. guōlis, let. guõla < *guōl, žem. torà < *tvōr, liet. kólyti ao lado de kvõlyti < bielorrusso хваліць, polonês chwalić etc.26. Ao lado da forma šuo, já encontrada nos primeiros documentos da língua lituana, também ocorrem, nos dialetos e em vários textos, outras formas desse nome, cuja origem se explica por mudanças fonéticas ou morfológicas; cf. šuvà (a forma mais difundida nos dialetos: Dusetos, Joniškėlis, Joniškis, Kapsukas, Pandėlys, Obeliai, Rokiškis, Ukmergė, Utena, Varėna, Vilkaviškis, Zarasai etc.)27, šunė (Gataučiai, Karsakiškis, Kuldūnai, Pabiržė, Nemunėlio Radviliškis, Saločiai, Smilgiai, Šleideriškės, Užušiliai etc.), šuŏj (Leipalingis, Liškiava), šuon (Varėna, Vaiguva)28, šunis (Kučiūnai, antigo distrito de Seinai)29. Na literatura linguística, menciona-se com muita frequência também a forma šū30. No entanto, essa forma provavelmente surgiu de uma transcrição imprecisa dos sons do dialeto žemaitiano dünininkai31. A forma da língua padrão šuo é usada sobretudo na Samogícia e em parte dos dialetos aukštaitianos ocidentais (Bitenai, Kriūkai, Jurbarkas, Smalininkai, Šakiai, Veliuona), e às vezes aparece espontaneamente também em outros dialetos.
Em sua variedade de formas, esse nome do cão não difere dos demais substantivos lituanos de antigo tema consonantal; cf. sesuo ao lado de sesuvà, šešva, šešė, sesuõj etc.
A forma letã suns, correspondente ao liet. šunis, apresenta vestígios de declinação consonantal em alguns documentos escritos antigos; contudo, não se atestam em letão formas correspondentes ao liet. šuŏ32.
O nome do cão foi registrado duas vezes também nos documentos prussianos. No vocabulário de Elbing encontramos: Sunis Hunt (palavra 703). Essa forma corresponderia ao let. suns, liet. šunis. No entanto, não podemos afirmá-lo categoricamente, pois no vocabulário de Elbing a terminação -is
24 H. M. Шанский, В. В. Иванов, Т. В. Шанская, Краткий этимологический словарь русского языка, Москва, 1961, p. 324; В. И. Георгиев, Исследования по сравнительно-историческому языкознанию, p. 47; M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 42.
25 O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 21—22.
26 J. Endzelīnas, Baltu kalbų garsai ir formos, Vilnius, 1957, p. 46, 141; J. Endzelīns, Latviešu valodas gramatika, Rīgā, 1951, p. 484; J. Otrebski, Gramatyka języka litewskiego, I, Warszawa, 1958, p. 385—386; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 81, 176, 1033.
27 Os dados dialetológicos são geralmente extraídos do fichário do Atlas da língua lituana do Instituto de Língua e Literatura Lituanas.
28 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, Vilnius, 1958, p. 588; II, Vilnius, 1959, p. 354; V. Vitkauskas, Baltistica, II(2), p. 203—207.
29 Pr. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, Vilnius, 1941, p. 50.
30 J. Endzelynas, Baltų kalbų garsai ir formos, p. 127; J. Otrebski, Gramatyka języka litewskiego, III, Warszawa, 1956, p. 58, 62; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1033.
31 V. Vitkauskas, Baltistica, II(2), p. 203—207.
32 J. Endzelīns, Latviešu valodas gramatika, p. 440—441; K. Mülenbach, Latviešu valodas vārdnīca, III, Rīgā, 1927—1929, p. 1122—1123 (doravante: EM). EH: J. Endzelīns un E. Hauzenberga, Papildinājumi un labojumi K. Mülenbacha Latviešu valodas vārdnīcai, I—II, Rīga, 1934—1946.
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acrescenta-se também a terminação -as > em lugar de -s. Aqui encontramos também deywis «deus»³, e dagis «verão» (cf. lituano dāgas), e stogis «telhado», e snaygis «neve», e taukus «gordura», etc.
Algumas dúvidas suscita outro nome de cão encontrado nos monumentos da língua prussiana: a palavra 42 do glossário de Simon Grunau songos hundt. R. Trautmann considera essa palavra uma grafia deturpada da forma sunis (songos...aus sunis verd e rbt)³⁴. J. Endzelīnas também tende a ler songos como *sunus³⁵. E. Benveniste reconstrói, a partir da grafia songos, a forma *sunko³⁶. E. Benveniste justifica essa forma pelo fato de que no glossário de S. Grunau há também outras palavras que diferem, pelo formante -k-, das formas das mesmas palavras encontradas em outros monumentos da língua prussiana. Por exemplo, ao lado de Geytye do glossário de Elbing (que provavelmente deveria ser lido Geytys)³⁷ «pão», e de geits dos catecismos, no glossário de S. Grunau há a forma geytko. Ao lado de Pepelis do glossário de Elbing «pássaro», e da forma de genitivo plural pippalins dos catecismos, no glossário de S. Grunau encontramos a forma pip elko. De qualquer modo, porém, a forma songos é, ainda assim, provavelmente uma variante do mesmo nome de cão, correspondente ao prussiano sunis e ao lituano šuo, e não algum nome novo de cão exclusivo da língua prussiana.
O nome de cão da língua prussiana acabado de discutir deixou vestígios bastante claros também na toponímia prussiana. Podem estar relacionados com ele alguns nomes de cursos de água e topônimos encontrados em vários documentos históricos: Sonne, Sonnaw, Sonnekaym, Suna, Sunegowe, Sunecolowach, Sunike, Zunloszkeim³⁸.
Segundo F. Lorentz, até o nome da aldeia Schönau, situada perto de Gdańsk, está relacionado com o prussiano sunis (Schönau < Sunowo «aldeia dos cães»)³⁹.
As línguas bálticas não têm um nome comum para a cadela. Em lituano, essa noção é expressa pela palavra kalė (também se usa paralelamente a forma kālė). Esse nome para a cadela ocorre em todos os dialetos lituanos e já está registrado nos textos antigos (Daukša, Širvydas).
Apesar dos esforços empreendidos, a origem da palavra lituana kalė ainda não foi suficientemente esclarecida. Tentou-se relacionar o lituano kalė com o antigo islandês hvelpr «cão jovem», o albanês keliuš «animal jovem, sobretudo cão», o grego σκύλαξ «cão, cão jovem, animal jovem», κύλλαξ, o irlandês médio culén «cão jovem», o galês colwyn, o córnico coloin e o bretão kolen⁴⁰. Todas essas palavras teriam origem na raiz indo-europeia *kel- «chamar, gritar, soar». Parece-nos que o lituano kalė é provavelmente uma palavra de formação recente, exclusiva da língua lituana, sem relação direta com os nomes de cão mencionados, que designam sobretudo filhotes. Outra questão é que o lituano kalė pode de fato ter se originado de palavras geneticamente relacionadas com a raiz indo-europeia *kel-, cf. o letão kalkuot «tagarelar», kalit.
Há, porém, outra explicação possível para a origem da palavra kalė, baseada nos próprios dados do lituano. Observamos anteriormente que, do ponto de vista semântico, alguns
33 Nos catecismos prussianos, escreve-se deiws, deiwas. Ao apresentar exemplos dos glossários da língua prussiana, neste trabalho normalmente se indica primeiro a forma prussiana.
34 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, Göttingen, 1910, p. 433.
35 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, Rīgā, 1943, p. 259.
36 E. Benveniste, StB, 2, p. 78.
37 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 87.
38 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, Berlin—Leipzig, 1922, p. 168, 176.
39 F. Lorentz, ZfSI, XI, 2, p. 245.
40 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 208; M. Vasmer, Et. Wb., II, 642; J. Pokorny, Et. Wb., p. 550.
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Os nomes indo-europeus do cão são explicados relacionando-os com os nomes correspondentes das cores. De modo semelhante, parece-nos, poder-se-ia explicar também a origem do lituano kalė. Esta palavra deveria ser relacionada com os adjetivos lituanos kalýbas «branco (a respeito do pescoço de um cão)», kalýbkaklis «de pescoço branco», kalývas «branco», kalýnas. Esse adjetivo encontra-se em alguns dialetos samogícios (Mosėdis, Plateliai, Salantai, Alsėdžiai), bem como nos dicionários de J. Brodovskis, G. H. F. Neselmanas e J. Juška⁴¹. Os adjetivos kalývas, kalýbas são derivados secundários com os sufixos -ybas, -yvas. Portanto, assim como ao lado de senyvas, senýbas ou ankstyvas, ankstybas há os adjetivos primários sėnas, ankstùs, também ao lado de kalývas, kalýbas deve ter existido a forma *kalas. Dessa forma poderiam ter surgido os nomes de cães *kalis, kalė e kūlė, cf. márgas→mãrgis, mãrgė. O adjetivo *kalas talvez não tenha significado originalmente «branco»; cf. gr. κελαυνός «preto», χαλκός «cinzento», irl. caile «mancha». Essa última etimologia do lituano kalė parece-nos também apoiada pelo fato de que há, em várias línguas indo-europeias, um número considerável de nomes de animais derivados da raiz indo-europeia *kel-, *kāl, cf. sânscrito karkáḥ «cavalo branco», gr. κίλλος «jumento», sueco dialetal hjälm «boi ou cavalo de pelagem clara», alemão suíço helme «vaca de pelagem clara», entre outros.⁴² O significado original do adjetivo *kalas poderia ter sido «com manchas brancas, malhado». A circunstância de os adjetivos kalývas, kalýbas serem usados apenas a respeito de cães apoia especialmente a etimologia que propomos. Pode-se observar certa analogia — em que um nome de animal derivado de alguma característica se torna o nome específico da fêmea dessa espécie — na história do lituano kėvė «animal magro e de má qualidade; rocim», que, ao passar para o letão, adquiriu o significado de «égua».
A possibilidade de relacionar o lituano kalė com o lituano kalývas já havia sido mencionada de passagem por F. Specht⁴³.
Como mencionamos, kalė é uma denominação especificamente lituana para a fêmea do cão. É verdade que K. Būga tentou identificar vestígios dessa palavra em alguns antropônimos e topônimos prussianos: relacionou com o lituano kalė o nome de aldeia Kalis e o antropônimo Kalioth⁴⁴. No entanto, parece-nos mais correto relacionar o prussiano Kalis, Calyen, Kalcz (nome de lago) com o prussiano kalis «bagre (peixe)»⁴⁵.
Em letão, são amplamente usados dois nomes para a fêmea do cão: kuce e kuņa. Já mencionamos a origem do primeiro e nomes de cães surgidos de modo semelhante em outras línguas, ao tratar dos nomes eslavos desse tipo (russo кученок «cachorrinho» etc.). A origem onomatopaica do letão kuce, kuca «cadela» é corroborada por numerosos outros nomes de cães usados em letão, relacionados com o chamamento onomatopaico do cão kuč, cf. kuča «cadela», kuča «cachorrinho (na linguagem infantil)», kučāte «cadelinha», kučka «cadela», kučēns «cachorrinho», kučēns, kucans, kucenis, kucentiņš, kuceļēns, kucļēns, kucis «cão», kuciņš, kučiņš, kucans «cachorrinho», kuceļēns, kucins «denominação depreciativa para cão», kuculēns «cachorrinho» (EM, II, 298; EH, I, 666).
41 Lietuvių kalbos žodynas, V, p. 135–137, 141 (toliau: LKŽd.).
42 Ē. Fraenkel, Et. Wb., p. 209; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 506; J. Pokorny, Et. Wb., p. 547–548; M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 171.
43 F. Specht, Der Ursprung der indogermanischen Deklination, p. 122; A. Sabaliauskas, Baltistica, III(1), p. 109–110.
44 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 524–525.
45 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 54; R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 351.
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Quanto à origem do letão kuņa, existem várias opiniões. Muitos pesquisadores não distinguem essa palavra das demais cognatas do antigo nome indo-europeu do cão46. Eis o que K. Būga escreveu sobre a origem do letão kuņa: «Também eu, seguindo K. Jaunius, pensei inicialmente que o letão kuņa ‘cadela’ (III 33) era etimologicamente da mesma família que šunim, mas renunciei publicamente a essa opinião em novembro de 1909, na crítica mimeografada de “Estudos bálticos” (p. 10). Kuņa, juntamente com o letão kuce ‘cadela’... e kucens ‘cãozinho’..., pertence às palavras de origem desconhecida. Compare o cassúbio kuna ‘cadela’ e o búlgaro kűče ‘cão’, o albanês kutš, o otomano küčük ‘cão’47. J. Endzelīns48 explicou de duas maneiras a origem do letão kuņa: considerou-a resultante da contaminação de *suna e kuca, ou então de origem estrangeira, como o cassúbio kūnā, que E. Berneker49 associava ao russo кѵна ‘marta’. Parece-nos mais provável o primeiro caso. Também o elemento onomatopaico kuč (kuč *suna > kuč kuņa). pode ter desempenhado algum papel.»
Em todas as línguas bálticas encontramos também muitos outros nomes de cão, de uso mais restrito. Em geral, designam raças específicas de cães ou são usados ao lado do nome genérico (da espécie) do cão, com alguma nuance emocional ou outro matiz distintivo de significado.
O lituano kūrtas ‘cão de caça muito veloz’ é uma palavra de origem eslava. Como demonstrou K. Būga, essa palavra deve ter entrado na língua lituana até o século XII, o mais tardar. O lituano kūrtas deriva da forma não palatalizada do russo antigo *хъртъ, da qual também deve ter surgido a forma atual do russo хорт50.
Slavų kalbose šis šuns pavadinimas labai plačiai vartojamas. Be minėto rus. хорт, plg. ukr. хорт, bulg. хрът, хрътка, serb.-chorv. хрът, slov. hrt, ček. chrt, slovk. chrt, lenk. chart, aukšt. luž. khort, žem. luž. chart. Kaip matyti iš pateiktų pavyzdžių, esama pakankamo pagrindo šį šuns pavadinimą laikyti bendraslavišku žodžiu. Tačiau kaip jis atsirado slavų kalbose, ligi šiol nėra išaiškinta, o aiškintojų ir aiškinimų skaičius yra tiesiog rekordinis. Kai kurie tyrinėtojai (H. Hirtas, E. Bernekeris) šį šuns vardą laikė skoliniu iš germanų, plg. vok. Rüde „šuo, medžioklinis šuo“, sen. vok. aukšt. rudio „didelis šuo“. Kiti jį siejo su rus. скорый „greitas“, treti su skr. kharah „grubus, šiurkštus, aštrus“, gr. χάραρος „aštrus, smailus“. V. Machekas, iš pradžių mėginęs sieti jį su liet. kūrti „greitai bėgti“, vėliau šį šuns pavadinimą kartu su vok. Rüde laikė „praindoeuropietišku“, t. y. indoeuropiečių paveldėtu iš kažkokios nežinomos kalbos. J. Mikola mėgino čia gretinti ir vok. hurtig „greitas, skubus, vikrus“. K. Mošynskis slaviškąjį šuns pavadinimą kildino iš χɍtъ < ide. *sɍ-to- < *ser-, „greitai bėgti“. O. Trubačiovas neseniai paskelbė naują slav. χɍtъ kilmės aiškinimą, siedamas jį su liet. sartas51.
É difícil dizer algo sobre a confiabilidade das etimologias enumeradas: quase todas têm tanto um núcleo racional quanto pontos fracos. Do ponto de vista semântico, parece-nos bastante convincente a explicação de O. Trubachov. É verdade que aqui nos deparamos com
46 В. И. Георгиев, Исследования по сравнительно-историческому языкознанию, p. 47; В. В. Иванов, Хеттский язык, p. 92; J. Pokorny, Et. Wb., p. 633.
47 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 220.
48 EM, II, p. 316.
49 E. Berneker, Slavisches etymologisches Wörterbuch, Heidelberg, 1908—1913, p. 644.
50 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 430; III, p. 497, 763, 769; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 318; M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 265.
51 M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 265; O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 23; Вопросы славянского языкознания, вып. 2, Москва, 1957, p. 38—41; V. Machek, Et. sl., p. 163; J. Holub, F. Kopečný, Et. sl., p. 143; F. Slawski, Słownik etymologiczny języka polskiego, I, Kraków, 1952—1956, p. 60—61 (doravante: Sl. et.).
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com algumas dificuldades de caráter fonético, mas elas não são maiores do que as dificuldades fonéticas de outras etimologias desta palavra.
Além do lituano, este nome de cão também passou para o letão e o prussiano. Let. kurts «galgo, cão de caça, cão magro», tal como lituano kurtas, deriva da mesma fonte — russo antigo *хърть52.
Uma forma eslava semelhante deve ter existido também no pr. curtis (palavra 700 do vocabulário de Elbing): Curtis Wynt (Windhund), na fonte53. Os prussianos podem ter recebido esta palavra através dos polacos.
K. Būga tentou relacionar lituano skalikas «um cão de caça deste tipo» com let. skaļš «sonoro»54. Seria, porém, mais correto relacioná-lo com o verbo skālyti «ladrar enquanto persegue uma lebre ou um animal selvagem». O verbo skālyti, por sua vez, seria de origem eslava55; cf. polaco skolić «ganir (referindo-se a um cão)», russo сколить «ladrar, ganir (a respeito de um cão ou lobo)», checo skoliti «ladrar».
De modo semelhante se explica também a formação do pr. scalenix (palavra 702 do vocabulário de Elbing: Scalenix Vorlouf (Vorstehhund). Já A. Brückner o fazia derivar do verbo *skalīt, cuja fonte teria sido o polaco skolić56.
Em algumas variedades do russo, usam-se também nomes de cão derivados do verbo сколить; cf. russo сколуха, сколушка «cão de caça»57.
Na língua letã não existe um nome de cão de origem semelhante.
Em algumas variedades do lituano e em diversos textos escritos, entre eles os de J. Bretkūnas, ocorre o nome de cão de caça de origem eslava gončas, gončius, gončiakas, gončakas (LKŽd., III, 482). Estas palavras entraram no lituano a partir do polaco ou do bielorrusso; cf. polaco gończy, goniec, gończak, bielorrusso гонец. Os nomes eslavos de cão derivam de um verbo da mesma raiz que lituano ganýti, ginti «apascentar, conduzir (o gado)»; cf. polaco gonić, russo гнать «impelir, perseguir, afugentar, enxotar», russo antigo гонати58.
Na língua lituana há também numerosos nomes de cão de origem onomatopaica: ãmas, ciūčė, ciūcis, ciuciūkas, ciūčius, ciuckà, ciūckis, ciūlis, ciūlius, čiūčė, čiūčia, čiūčiukas, čiūčius, čiūčką, čiūčkis, čiūčkus (LKŽd., I, 96, II, 29—30, 92—3); cf. a onomatopeia am; ciu, ciū, čiū, čiū, čiū, ciuciū, čiūčiū e outras palavras usadas para chamar o cão. Provavelmente também lituano čiūra «cadela» (LKŽd., II, 116) é de origem onomatopaica; cf. čiūr, čiurà «quem urina na cama», čiurà «chorão».
Os nomes que surgem em lituano devido à cor do cão ou a outras características da pelagem são, na maioria das vezes: márgis, mārgis, rūdis, kūdlius, kūdlis.
Lituano sābalas «cão preto de pelo brilhante», sābalis; cf. sābalas «animal da família dos mustelídeos» < bielorrusso соболь59.
52 EM, II, p. 326; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 318; K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 45, 766.
53 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92, 366; J. Endzelīns, Senprūšų valoda, p. 199.
54 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 564.
55 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 794.
56 A. Brückner, AfslPh, 20, p. 505; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 248—249; R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92, 428.
57 O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 34.
58 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 279; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 152.
59 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 754.
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Nomes de cães de origem semelhante também são numerosos em letão:
Lat. klaučis «um cão, um ladrador» (EH, I, 611), cf. let. klaudzēt «bater, chocalhar, fazer barulho; repreender».
Lat. klīva «um cão perdido» (EH, I 620), cf. let. klīvāt «andar errante».
Lat. krancis «nome comum para cães que têm uma faixa branca no pescoço», cf. let. krancis «grinalda ou faixa» < alem. Kranz (EM, II, 259).
Lat. kuželis «um cão desgrenhado» (EM, II, 331), cf. let. kuželains «desgrenhado».
Lat. lamāka «um cão grande» (EM, II, 417), cf. let. lamāns «uma pessoa ou um cão grande, desajeitado e guloso» (EM, II, 530).
Lat. leīmuris «um cachorrinho muito novo, ainda inseguro sobre as patas» (EM, II, 449), cf. let. leīmma «uma pessoa apática e sem energia».
Lat. pakans «um nome de cão» < alem. Packan (EM, III, 40).
Lat. piksis «um cão pequeno» (EH, II, 231), cf. let. piks «um aglomerado, um torrão».
Lat. rakstiņš «um cão malhado» (EM, III, 473), cf. let. rakstaīns «ornamentado com padrões, bordados».
Lat. rūdiņš «nome de cão, segundo a cor» (EM, III, 554), cf. let. ruds «avermelhado, castanho-avermelhado, cinzento».
Lat. rūsis «nome de um cão de cor ferrugem» (EM, III, 573), rūzis «um cão castanho, de cor ferrugem» (EM, III, 574), cf. let. rūsains «avermelhado, acastanhado, ferrugento».
Lat. sabulis «um nome de cão»; sabulītis, sabalītis «epíteto do cão», sabalis «o cão (na linguagem infantil)» < rus. соболь «zibelina» (EM, III, 599; EH, II, 395).
Let. sebris „um cão grande, gordo, mas feroz; uma espécie de doninha“ (EM, III, 810), cf. let. sebris „um ser vivo frágil e degradado“⁶⁰.
Considerando a pequena dimensão geral do léxico prussiano antigo que chegou até nós, deve-se dizer que esse léxico é muito rico em designações para cão. De facto, no glossário de Elbing, organizado por temas, há como que uma secção separada de termos de caça, constituída por nomes de cães. Além dos já discutidos por nós Sunis, Curtis, Scalenix, encontramos ali ainda um par de nomes para cão.
Pr. Slidenikis (palavra 701 do glossário de Elbing) Leethunt (Leithund)⁶¹. A. Brückner e, concordando com ele, R. Trautmann derivaram o pr. slidenikis do pol. slednik „cão de faro“⁶². J. Endzelīns tendia a relacionar o pr. slidenikis com o let. sliede „rasto“, esl. slědъ „vestígio“. A circunstância que lhe deu motivo para duvidar da explicação de A. Brückner e R. Trautmann foi que, no caso de um empréstimo do polaco, seria de esperar sled-, e não slid-⁶³. No entanto, A. Brückner deriva o pr. slidenikis da forma pré-polaca *sliednik. O facto de uma parte considerável do léxico desta área em prussiano antigo ser de origem eslava, sobretudo polaca, também favorece parcialmente a explicação de A. Brückner.
Pr. Wyysis (palavra 704 do glossário de Elbing) Wacker (cão de guarda). Os linguistas parecem considerar unanimemente o pr. wuysis (cuja forma verdadeira provavelmente é wyyzis) um empréstimo do pol-
60 E. Blese, KZ, 75, p. 96.
61 al. Leithund „Canis venaticus, o cão conduzido pelo caçador por uma longa trela, utilizado especialmente para farejar rastos de cervídeos e javalis“.
62 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 431; A. Brückner, AfslPh, 20, p. 505.
63 J. Endzelins, Senprūšu valoda, p. 251.
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kų64, cf. pol. wyżel “cão farejador”, russo выжлец, checo vyžel etc. A origem da denominação eslava para “cão” não é clara: alguns tendem a considerá-la um empréstimo do alemão, outros do húngaro, e ainda outros explicam seu surgimento com base em material eslavo65.
Depois de examinar as denominações de “cão” nas línguas bálticas e, em parte, também nas eslavas, podemos tirar algumas conclusões de caráter mais geral. As três línguas bálticas conservaram a antiga denominação ide de “cão”. Nas línguas eslavas, essa denominação não existe, e as tentativas de encontrar vestígios dela até agora não foram bem-sucedidas. Tanto nas línguas bálticas como nas eslavas são usadas também denominações de “cão” de origem mais recente, características de línguas ou grupos linguísticos específicos. Algumas denominações eslavas de “cão” também passaram para as línguas bálticas.
OVELHA
A ovelha é um dos primeiros, ou talvez até mesmo o primeiro, dos animais domésticos úteis que o ser humano domesticou. Isso é demonstrado por achados arqueológicos e numerosos dados históricos, e os fatos da linguística tampouco o contradizem.
K. Keller, que pesquisou amplamente as questões da origem dos animais domésticos, distingue três focos de domesticação de ovinos. Um deles teria sido na Europa, em algum lugar nas margens orientais do Mediterrâneo; outro, na Ásia, talvez na Mesopotâmia; e o terceiro, na África. Desses focos originaram-se diferentes raças de ovinos. Os muflões (Ovis musimon), ancestrais dos ovinos domésticos mais difundidos na Europa, ainda hoje são encontrados na Córsega e na Sardenha.
Vestígios de ovelhas domésticas são encontrados com muita frequência em achados arqueológicos do Neolítico em várias regiões da Europa e também em algumas regiões da Ásia e da África2.
A criação de ovinos era muito difundida no antigo Egito. Os antigos egípcios já criavam várias raças de ovelhas domésticas. Desenhos de ovelhas são encontrados em antigas peças de cerâmica egípcias. Os egípcios adornavam seus templos com estátuas de ovelhas esculpidas em pedra. No Egito, o carneiro era considerado um animal sagrado3.
A antiga Palestina também era célebre por seus enormes rebanhos de ovinos. Sabe-se que o rei de Moabe tinha de entregar anualmente a Israel um tributo de 100 mil cordeiros e 100 mil ovelhas. Se os antigos egípcios criavam ovelhas sobretudo pela carne, para os judeus elas forneciam carne, leite, lã, couro e até chifres. Com os chifres dos carneiros, fabricavam recipientes para guardar óleo e instrumentos musicais4. Até mesmo em muitas línguas do mundo, a palavra usada hoje para o conceito de jubileu (cf. lituano jubilejus) está relacionada com a antiga palavra hebraica para “carneiro”, jobel. Assim, os judeus chamavam tanto o carneiro como o chifre do carneiro, que sopravam durante certas festividades — o ano jubilar (celebrado a cada cinquenta anos). Mais tarde, a própria festividade também recebeu o nome do carneiro. Para os antigos judeus, o carneiro era ainda um animal sacrificado durante rituais de culto.
64 A. Brückner, AfslPh, 20, p. 505; R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92, 466; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 277.
65 O. Трубачев, Происхождение…, p. 24; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 239; V. Machek, Et. sl., p. 579; A. Brückner, Słownik etymologiczny języka polskiego, Warszawa, 1957, p. 640 (toliau: Sl. et.).
1 C. Keller, Die Abstammung der ältesten Haustiere, p. 176—183.
2 O. Schrader, Reallexikon der indogermanischen Altertumskunde, II, p. 285; M. Hilzheimer, Schaf, — M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, XI, Berlin, 1927/1928, p. 220—221.
3 Ranke, Schaf, — M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, XI, p. 221—222; C. Keller, ten pat, p. 172—173.
4 P. Thomsen, Schaf, — M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, XI, p. 221.
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O sacrifício de ovelhas nos ritos de culto de vários povos podia ser cruento ou incruento. Neste último caso, sacrificava-se a lã das ovelhas. Os seres humanos aprenderam muito cedo a utilizar a lã para suas necessidades na Ásia e na Europa. Acredita-se que os babilônios foram os primeiros a tosquiar ovelhas. A tosquia de ovelhas difundiu-se na Babilônia, ao que parece, entre 1300 e 600 a. C., em conexão com a importação de ferro. Da Ásia Anterior, a tosquia de ovelhas chegou também à Europa. Conservou-se o testemunho de que, por volta de 300 a. C., os primeiros tosquiadores de ovelhas se deslocaram da Sicília para a Itália.5 Contudo, seria equivocado pensar que o ser humano só começou a utilizar a lã de ovelha depois de aprender a tosquiá-la. Antes disso, as ovelhas eram depiladas à mão. Com base nessa circunstância, como veremos adiante, tentou-se explicar também alguns nomes indo-europeus da ovelha.
A ovelha, um dos primeiros animais domesticados pelo ser humano, já se encontrava também nos territórios atuais dos bálticos e dos eslavos. Os habitantes da faixa florestal da Lituânia, da Letônia e também das regiões vizinhas começaram a dedicar-se à criação de animais por volta do início do II milênio a. C. Conheceram a criação de animais por intermédio de seus vizinhos do sul, onde a agricultura e a pecuária eram praticadas muito antes. No território atualmente habitado por lituanos e letões, ossos de animais domésticos, entre eles os de ovelhas, são encontrados em escavações arqueológicas das culturas da cerâmica cordada e dos machados de batalha em forma de barco6. Encontram-se também numerosos ossos de ovelhas em escavações de castros lituanos datados dos séculos I—IV d. C.7.
Em todos os assentamentos pesquisados, tanto dos eslavos do sul como dos do norte, entre os restos de cozinha sempre se encontram muito mais ossos de animais domésticos, inclusive de ovelhas, do que de animais selvagens8. J. Paiskeris cometeu um grave erro ao afirmar, com base em alguns termos eslavos da criação de animais que, segundo ele, eram de origem germânica e turco-tártara, que os eslavos não se dedicavam à criação de animais até o século X d. C.9.
A importância da criação de ovelhas para os povos antigos da Ásia, da Europa e também da África é demonstrada ainda pelo fato de que, nas famílias linguísticas indo-europeia, turco-tártara e semítica, encontram-se denominações da ovelha comuns a cada uma dessas famílias.
A antiga denominação indo-europeia da ovelha conservou-se bem em muitas línguas indo-europeias, tanto mortas como vivas: sânscr. áviḥ, gr. ὄϊς, lat. ovis, alto-al. ant. ou, isl. ant. áer, gót. awistr «ovelha», awēpi «rebanho de ovelhas», arm. hoviv (< *ou̯i-pa-) «pastor de ovelhas», irl. óí «ovelha», galês ewig, rus. овца, lituano avis etc.
Como ocorre com muitas outras palavras indo-europeias antigas, o significado original de *ou̯is é muito difícil de esclarecer. Talvez seja um pouco mais plausível a tentativa de relacionar o indo-europeu *ou̯is à raiz indo-europeia *eu̯ «vestir, cobrir, calçar» (cf. lituano aūti, rus. обуть «calçar», lat. exuo, -ere «despojo, retiro»). Assim, o significado original de *ou̯is seria «animal que tem uma vestimenta (pele)» ou «animal que fornece uma vestimenta (pele)». Evidentemente, essa interpretação também é muito duvidosa. Do ponto de vista semântico, essa etimologia seria parcialmente apoiada por algo já bastante
5 O. Schrader, Reallexikon der indogermanischen Altertumskunde, II, p. 285.
6 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, Lietuvos archeologijos bruožai, p. 79; Latvijas PSR vēsture, I, p. 11; K. Паавер, Формирование териофауны и изменчивость млекопитающих Прибалтики в голоцене, p. 367.
7 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, ten pat, p. 252—253; K. Paaveri P. Kulikauskas, Acta Baltico-Slavica, 2, p. 268—270; K. Паавер, ten pat, p. 368—369, 371.
8 П. Н. Третьяков, Восточнославянские племена, Москва, 1953, p. 271.
9 Л. Нидерле, Славянские древности, Москва, 1956, p. 319—320; О. Н. Трубачёв, Происхождение…, p. 17—18.
8. Baltų ir slavų kalbų ryšiai
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um nome indo-europeu mais recente para «ovelha», encontrado no grupo de línguas indo-iranianas: sânscr. mēśáh «carneiro; pele», avést. maēša- «ovelha», maēši, persa média mēš, persa mēš. Esses nomes para «ovelha» são associados ao russo мех «pele», ao lituano maišas, ao prussiano moasis «fole», ao russo мешок «saco» etc.10 O significado original desta palavra teria sido «pele»: nas línguas indo-iranianas, desse significado surgiu o novo significado «ovelha», enquanto noutras línguas surgiu o significado «saco».
Nas línguas eslavas usa-se uma forma já um tanto modificada do antigo nome indo-europeu para «ovelha», que, ao que se pensa, surgiu pela adjunção do sufixo diminutivo *-ikā ao antigo tema em -ī indo-europeu. Além das línguas eslavas, a forma avikā «ovelha» também se encontra em sânscrito. Aí, tal como nas línguas eslavas, é usada sem valor diminutivo, ao lado da forma habitual áviḥ. O protoeslavo *ovbca (< *ovbka) está bem conservado em todas as línguas eslavas: eslavo antigo ovbca, russo antigo овьца, russo овца, ucraniano вівця, bielorrusso авечка, búlgaro овца, sérvio-croata овца, esloveno ovca, checo ovce, eslovaco ovca, polaco owca, cassúbio woeca, alto sorábio wowca, baixo sorábio wejca11.
Casos em que nomes de animais formados com sufixos diminutivos perderam o valor diminutivo e são usados simplesmente como termo de espécie ocorrem com bastante frequência em várias línguas. Por exemplo, nos dialetos lituanos, a forma diminutiva avėlė é amplamente usada com o significado de «ovelha» (LKŽd., I, 422). A palavra lituana kumėlė também é usada sem qualquer matiz diminutivo.
O. Trubačiovas procura discernir vestígios da antiga forma indo-europeia *oui- também nas línguas eslavas, derivando o russo antigo овядь «moscardo» e o russo овод de *ov-adъ, em que ov- seria a raiz-tema pura do antigo nome indo-europeu para «ovelha», e *ād- (*ōd-) uma variante ablaut da raiz indo-europeia *ed- «comer, alimentar-se»12.
Nas línguas bálticas, o antigo nome indo-europeu para «ovelha» foi bem conservado.
O lituano avis já se encontra nos primeiros monumentos da língua lituana. Essa forma também é usada na maioria dos dialetos lituanos atuais. Muito menos frequente é a forma com tema em -ė avė (LKŽd., I, 421). Além das formas avìs, avė, ocorre também a forma que designa o macho da ovelha, ávas (LKŽd., I, 421). Do antigo nome da ovelha deriva também a palavra de chamamento avià, usada para chamar as ovelhas de volta ao rebanho (LKŽd., I, 423).
Em letão, o lituano avis corresponde exatamente à forma avs, ao lado da qual ocorre também a forma com tema em -ė ave (EM, I, 232; EH, I, 189). Contudo, o letão avs, encontrado sobretudo em monumentos letões mais antigos e em canções populares (EM, I, 232; EH, I, 190), é quase completamente substituído pela forma mais recente, própria apenas do letão, aita. Esta última surgiu, por meio de formas diminutivas, do antigo nome para «ovelha» avs. Da forma avs derivaram as formas diminutivas avitiņa, avētiņa, avatīņa, avēteņa, aventiņa (EM, I, 232; EH, I, 190). Assim como da forma zuvitiņa «peixinho» surgiu a forma zuitiņa, também de avitiņa surgiu aitiņa13. Foi desta última forma diminutiva que se «reconstituiu» a forma sem valor diminutivo aita.
10 O. Н. Трубачев, Происхождение..., р. 70—71; M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 127; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 397; F. Specht, Der Ursprung der Indogermanischen Deklination, p. 52—53; M. Mayrhofer, Et. Wb., II, p. 689.
11 О. Н. Трубачев, Происхождение..., р. 69; M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 251; R. Trautmann, Baltisch-slavisches Wörterbuch, Göttingen, 1923, p. 20—21 (toliau: B-sl. Wb.).
12 О. Н. Трубачев, Происхождение..., р. 71.
13 J. Endzelīns, Latviešu valodas gramatika, p. 155, 214; EM, I, p. 14.
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Além de àita, nos dialetos letões também ocorrem por vezes as formas àiča, aite, bem como as formas diminutivas àitele, aitene, aitēns (EM, I, 14; EH, I, 4, 5).
Nos monumentos da língua prussiana não encontramos um nome para «ovelha» correspondente ao lit. avis e ao let. avs.
Nas línguas bálticas e, em parte, nas eslavas, ao lado do antigo nome indo-europeu específico para «ovelha», emprega-se um nome comum para o carneiro, formado a partir do nome da ovelha *ovi-s e do sufixo -na-; compare-se o russo antigo овьнь, russo овен, búlgaro овен, sérvio-croata овan, esloveno oven, checo oven, polonês antigo owien, lituano ãvinas, letão auns e prussiano awins14.
O lituano ãvinas já se encontra nos mais antigos monumentos da língua lituana.
Em letão, além da forma mencionada auns, usada na língua literária e na maioria dos dialetos, encontram-se também as formas: avins, avēns, avans, avēns (EM, I, 225, 232; EH, I, 190). A forma auns deriva da forma mais antiga avins; compare-se o letão auza «aveia» < *aviza, letão càula ao lado do lituano kėvalas, letão vecs «velho» ao lado do lituano vėtušas, etc.15
A forma awins também se encontra nos monumentos da língua prussiana (a palavra 679 do glossário de Elbing — Awins Ster16). Ao que parece, o nome prussiano do carneiro também está presente no topônimo Awynemedien < de um documento de 1326: prussiano awins «carneiro» + prussiano median «floresta»17.
O nome báltico do carneiro, juntamente com alguns outros termos da criação de animais e da agricultura, passou às línguas fino-bálticas; compare-se o finlandês oinas, o estoniano oinas, õinas, o careliano oinas, o livônio oin e o vepsiano oinas18.
Nas línguas eslavas, o antigo nome do carneiro correspondente ao lituano ãvinas foi em muitos lugares substituído por um nome mais recente para esse animal: russo баран, ucraniano баран, checo beran, eslovaco baran, polonês baran, cassúbio barõn, alto-sorábio boran e baixo-sorábio baran. A origem desse nome ainda não foi esclarecida. Tentou-se relacioná-lo ao grego βάρχος, ao albanês berr «ovelha», ao dialetal italiano bero «carneiro», bèra «ovelha», ao dialetal francês berri e até ao russo боров «porco castrado». Alguns pesquisadores consideram esse nome para ovelha e carneiro um antigo termo da Europa Central; outros, uma palavra de origem pré-indo-europeia; outros ainda o relacionam à raiz imitativa ber-19; compare-se o russo барь, o ucraniano бирь, o russo барбар, бырыр. A formação incomum desse nome do carneiro para as línguas eslavas leva, contudo, muitos etimólogos a considerá-lo um empréstimo. É bastante difícil, porém, determinar a fonte do empréstimo. Em seu tempo, F. Miklošič levantou a hipótese de que a fonte do russo баран poderia ser o tártaro de Kazan bärän «cordeiro»20. No entanto, parece mais provável que o próprio tártaro bärän derive do russo баран. Recentemente
14 M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 248; A. Brückner, Sl. et., p. 387; O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 69; R. Trautmann, B-sl. Wb., p. 21; K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 171.
15 J. Endzelīns, Latviešu valodas gramatika, p. 71 – 72; K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 463; II, p. 89.
16 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92, 309; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 149.
17 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 14.
18 V. Thomsen, Beröringer mellem de finske og de baltiske (litauisk-lettiske) Sprog, Köbenhavn, 1890, p. 160; J. Kalima, Itämerensuomalaisten kielten balttilaiset lainasanat, Helsinki 1936, p. 142–143; Y. H. Toivonen, E. Itkonen, A. J. Joki, Suomen kielen etymologinen sanakirja, II, Helsinki, 1958, p. 422; Л. Акулинин, Развитие и структура финского языка, II, Москва, 1955, p. 41; K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 171.
19 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 53–54; V. Machek, Et. sl., p. 29; F. Slawski, Sl. et., I, 27; A. Brückner, Sl. et., p. 15; H. M. Шанский, Этимологический словарь русского языка, 1, 2, Москва, 1965, p. 39–40 (toliau: Эт. сл.).
20 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 54.
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O. Trubačiovas tende a derivar dos idiomas orientais esta denominação eslava do carneiro. Ele reconstrói a forma turca *baran «aquele que anda»21. Embora, do ponto de vista semântico, tal explicação seja possível com base em alguns nomes de animais relacionados a verbos que exprimem movimento, ela está longe de resolver os problemas de origem do russo баран e de formas afins. O. Trubačiovas considera secundárias as interjeições eslavas usadas para chamar as ovelhas que lembram o russo баран e outras denominações do carneiro com essa raiz. No entanto, parece-nos pouco provável que essa circunstância pudesse contrariar a origem onomatopaica do russo баран e de formas afins. Em primeiro lugar, dificilmente se podem considerar secundárias interjeições como бирь, барь. Sua antiguidade pode ser confirmada por dados de outras línguas. Há muitas interjeições semelhantes para chamar as ovelhas em lituano: barė, būre, burė, buriā, buriū, būri, buri. Também se encontram interjeições semelhantes para tocar as ovelhas: bar (škius, bar, namon, baltosios avelės!), buriūkš, būrum (būrum būrum būkšt, assim o pastor incita os carneiros a se chifrarem). De tais interjeições derivam os verbos barinuoti «chamar as ovelhas», burénti «balir (a respeito da ovelha)». Das interjeições surgiram também numerosas denominações de ovelhas usadas em diversos dialetos lituanos: bariūkas «nome carinhoso do carneiro, do cordeirinho», bariūtė «nome carinhoso da ovelhinha», biriūtė «ovelha (palavra de enigma)», būrė «ovelha (na linguagem infantil)», burėlė «ovelhinha», burėlis «cordeirinho, cordeirinho burinėlis», burikė «buriutė, ovelhinha», būrinas «carneiro ou ovelha (geralmente na linguagem infantil)», buriniūkas «cordeirinho», burýtė «ovelhinha, buriutė», burýtis «cordeirinho», buriūkas «cordeirinho, ovelhinha», buriūtė «ovelhinha», buriūtis «cordeirinho», burūlis «carneiro (geralmente na linguagem infantil)», burūtė «buriutė, ovelhinha» (LKŽd., I, 535, 536, 691, 966, 968, 969, 970, 971, 984).
Provavelmente têm a mesma origem também as denominações de ovelha, cordeiro ou carneiro que aparecem ocasionalmente nas canções folclóricas letãs: birite, berulīte, beritis, biritina, birēnis (EH, I, 220), que A. Gāteris22, em nossa opinião23, associa sem fundamento ao nome próprio Birgita (Santa Brígida pode ter sido considerada protetora dos animais). A diferença no vocalismo entre as interjeições isoladas e as denominações de ovelha delas derivadas só pode ser explicada pela alternância vocálica da raiz, característica das interjeições; comparem-se as variantes eslavas dessa interjeição: бер, бир, бар, бор, бр24.
É verdade que em alguns dialetos lituanos também se usa a denominação do carneiro tomada do eslavo barōnas. Nos escritos de J. Bretkūnas também ocorre a forma barankas (LKŽd., I, 530), proveniente de uma forma diminutiva eslava. No entanto, não há fundamento para relacionar com ela as interjeições usadas em lituano para chamar ou tocar as ovelhas. No máximo, a palavra barōnas pode ter influenciado apenas o vocalismo da raiz de algumas interjeições. Por outro lado, deve-se também ter em conta o fato de que uma interjeição semelhante para chamar ovelhas se encontra até mesmo em línguas não indo-europeias; compare-se a interjeição árabe usada para chamar ovelhas e cabras: bir bir25. Assim, parece-nos que a melhor explicação é considerar a denominação eslava do carneiro (russo баран e outras) uma palavra de origem onomatopaica. Seria um fenômeno perfeitamente análogo à origem do russo кутёнок «cachorrinho» e do letão kucēns.
Do russo баран deriva também o nome de ovelha baraniņa, barenīte, barankīte (EH, I, 205), que aparece ocasionalmente nas canções folclóricas letãs.
21 O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 75–76.
22 A. Gāters, Ceļi, 12, Lundā, 1965, p. 32–36.
23 A. Sabaliauskas, Baltistica, II(1), p. 89.
24 A. И. Германович, Междометия и звукоподражательные слова русского языка. Автореферат докторской диссертации, Симферополь, 1961, p. 89.
25 M. Niedermann, Tauta ir žodis, 2, p. 443.
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Uma parte considerável das línguas indo-europeias, entre elas também as eslavas, tem um nome comum para a cria da ovelha — o cordeiro. Nas línguas eslavas, esse nome foi muito bem preservado; compare-se o eslavo antigo agne, agnbcb, o russo ягнёнок, o tcheco jehně etc.26
Nas línguas bálticas não há vestígios desse nome para o cordeiro. Para expressar esse conceito, é mais comum aqui outro nome, cuja relação com os nomes correspondentes de natureza semelhante nas línguas eslavas suscita dúvidas bastante sérias.
Na língua lituana, esse nome báltico apresenta diversas variantes fonéticas e morfológicas: ėras, ėrelis, ėraitis, ėris, ėryš, ėriščias, ėrištis, ėrytìs, ėriukas, erikas geraitis, geralis, gėras, gėrėlis, gėriokas, gėriukas, jėras, jėraitis, jėrelis, jėris, jėrytìs, jėriūkas (LKŽd., II, 824, 826, 828, 832; III, 241, 246, 251, 257, 258; IV, 340, 341), vėras, vėraitis27. A forma mais antiga, ao que parece, deve ser considerada jėras. Tanto o acréscimo de j como sua perda são fenômenos comuns nas línguas bálticas; compare-se o lituano jėknos: ėknos, jėmiau: ėmiau, jėibė: ėibė, jėrubė: ėrubė etc. A alternância de j- e g- no início da palavra também se encontra por vezes nos dialetos lituanos; compare-se jėrubė: gerubė, jāura: gidūrė, judrė: gudrė, jėdras: gėdras etc. A consoante v costuma ser acrescentada antes das vogais posteriores, mas também há exceções28. Parece-nos infundada a tentativa de E. Fraenkel de relacionar o lituano vėras, separando-o de ėras, com o sânscrito ūranaḥ «carneiro, cordeiro», o armênio garn «cordeiro» etc.29. Dificilmente se pode considerar o lituano vėras um fato linguístico tão antigo. Também é muito duvidoso que a influência da palavra vilna tenha provocado o surgimento de v- na palavra vėras.
Em lituano, cordeiro corresponde exatamente à forma letã cordeiro. Também se usam formas diminutivas dessa palavra: jērulis, jē rēns, jērelis, jēriņš, jēruks. As formas jērulis, jērelis são usadas com matiz depreciativo (EM, II, 114; EH, I, 565).
A partir dos nomes mencionados para o cordeiro, surgiram em letão novas palavras, usadas não com o sentido de «cordeiro», mas com o de determinado tipo de ovelha: jēre «ovelha de um ano, ovelha de seis meses; ovelha-mãe; uma ovelha velha», jērēne, jērniece «ovelha com cordeiro», jērene «quando a ovelha tem cordeiros pela primeira vez, então é uma j.» (EM, II, 114; EH, I, 564–5).
No glossário de Elbing também encontramos o nome prussiano para o cordeiro: Eristian Lam (palavra 681)30. O nome prussiano do cordeiro contém o sufixo diminutivo -ist- e a terminação -an do nominativo singular do gênero neutro31, enquanto a raiz er- corresponderia ao lituano jēr-as e ao letão jēr-s. J. Gerullis tende a identificar o nome prussiano do cordeiro também em alguns topônimos prussianos: Eren, Iragarbis (Iregarbis, Iregaps, Ergarbin) < pr. er-istian + pr. garbis «montanha» (em alguns dialetos da língua prussiana, ē > ī)32.
Na busca por cognatos desse nome báltico para o cordeiro em outras línguas indo-europeias, a questão do j- desempenha um papel muito importante. Se de fato as línguas bálticas preservaram desde antigamente um j- nessa palavra, o mais apropriado seria relacioná-la ao russo antigo ярѣ «cordeiro», ярька «ovelha jovem», ao russo ярка «ovelha de um ano que ainda não teve cordeiros» e ao ucraniano ярота «ovelhas com menos de um ano»,
26 M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 481; O. H. Трубачев, Происхождение…, p. 71–72; F. Slawski, Sł. et., I, p. 488.
27 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 172.
28 J. Endzelynas, Baltų kalbų garsai ir formos, p. 46, 50; J. Endzelīns, Latviešu valodas gramatika, p. 211–212, 236–237; K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 172; J. Otrębski, Gramatyka języka litewskiego, I, p. 379.
29 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 121; M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 108.
30 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92.
31 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 53, 60.
32 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 33, 50.
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ярча “cordeiro”, ярка “ovelha de um ano”, pol. dial. jarczuk, jarlak “ovelha de um ano”, tcheco dial. jarka “ovelha que pariu na primavera”, eslovaco dial. jarča “ovelha jovem”. Além disso, todos esses nomes de cordeiro e ovelha poderiam ser relacionados com o rus. яра “primavera”, tcheco jaro, pol. ant. jarz, av. yār- “ano”, gr. ὥρα “estação do ano, tempo”, gótico jēr “ano”, alem. Jahr³³. Por outro lado, porém, sobretudo se se considerar como forma básica o lituano ėras, os nomes bálticos de cordeiro podem ser relacionados com o gr. ἔριφος “cabrito”, úmbrio erietu “carneiro”, lat. aries, arm. erini “bezerro”, irl. earb “corço, cabra”. E. Frenkelis, distinguindo as formas lituanas jėras e ėras, relaciona a última (juntamente com o pr. eristian) com as palavras recém-enumeradas, enquanto relaciona jėras (juntamente com o letão jērs) com os nomes eslavos desse animal (rus. ярка) e seus cognatos³⁴. Assim, E. Frenkelis considera o lituano ėras, jėras e vėras três palavras de origens distintas. Contudo, seria muito difícil acreditar em tal separação dessas formas; portanto, apesar do >j- v- bastante “anormal”, todas essas formas, assim como a forma gėras mencionada anteriormente, devem ser consideradas variantes fonéticas de uma única palavra, surgidas na língua lituana.
O nome báltico de cordeiro também passou para as línguas fino-bálticas, cf. finlandês jääru “carneiro”, estoniano jää̈r etc.
O. Trubačiovas³⁵ também parece estar certo ao censurar aqueles etimólogos que, de modo parcialmente semelhante a E. Frenkelis, separam o rus. ярка “ovelha jovem”, relacionando essa palavra com o rus. яра “primavera” etc., do rus. ярина “lã de ovelha”, no qual reconhecem um vestígio de algum antigo nome de ovelha, aparentado, segundo eles, com o lituano ėras, gr. ἔριφος, lat. aries³⁶. Desta vez, eles podem ter sido induzidos a isso pelo fato de que o rus. ant. язьно “pele” também é um vestígio de um nome de cabra que, de resto, não se encontra nas línguas eslavas (lituano ožys, sânscrito ajáḥ etc.).
Do ponto de vista semântico, a relação do rus. ярка, e provavelmente também dos nomes bálticos de cordeiro, com o rus. яра etc. é muito plausível. Existem paralelos semelhantes em várias línguas indo-europeias, cf. pol. ant. latos, latosek “bezerro, cordeiro nascido neste ano”: pol. lato “verão”, alem. Jährling “animal de um ano, sobretudo cordeiro”: Jahr “ano”, dinamarquês dial. gimmerlam “cordeiro de um ano”, islandês ant. gymbr “cordeiro”, norueguês gimber: lituano žiemā, lat. hiems etc.³⁷
Tanto nas línguas eslavas quanto nas bálticas há numerosos nomes de ovelha de uso mais restrito. Muitos desses nomes são de origem mais recente e são usados, em geral, ao lado do nome genérico da ovelha para destacar alguma raça, idade ou outra característica do animal. Sem nos determos nos numerosos nomes desse tipo nas línguas eslavas³⁸, examinaremos os nomes desse animal de uso mais restrito nas línguas bálticas.
Nos monumentos da língua prussiana não encontramos o antigo nome indo-europeu da ovelha correspondente ao lituano avis e ao letão avs. Ao lado de uma palavra dessa raiz, awins “carneiro”, encontramos ali um nome de ovelha desconhecido nas outras línguas bálticas: camstian (Camstian Schoff 678, palavra do glossário de Elbing). A origem do pr. camstian ainda não foi esclarecida. A. Becenberger relacionou essa palavra
33 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 170; O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 77—78.
34 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 121.
35 O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 77—78.
36 M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 493.
37 F. Slawski, Sl. et., I, 502; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1306; M. Vasmer, Et. Wb., p. 455—456; C. D. Buck, A Dictionary of Selected Synonyms in the Principal Indo-European Languages; Chicago, 1949, p. 155, 163 (doravante: Dict.).
38 O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 78—83.
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com o gr. ζεμάς «corça», R. Trautmann com o rus. комолый «sem chifres», tcheco komolý «rombo»⁹. Se a etimologia de R. Trautmann estivesse correta, pr. camstian poderia ser um exemplo de como uma denominação surgida recentemente para assinalar uma característica particular acaba por substituir o antigo nome da espécie animal, pois tanto as outras línguas bálticas como o nome prussiano do carneiro, awins, permitem supor que os prussianos também conheciam o nome indo-europeu da ovelha, correspondente ao lit. avis, let. avs. Relaciona-se com pr. camstian também o topónimo prussiano Komstegallen (< pr. camsian + pr. galwo «cabeça»)⁴⁰.
Além dos nomes de ovelha de origem onomatopaica mencionados a propósito da origem do rus. баран e de outros termos, encontramos ainda em lituano vários nomes de ovelha de origem onomatopaica e de outras origens:
Lit. bākanis «carneiro (termo carinhoso)» (LKŽd., I, 470), que provavelmente deve ser relacionado com lit. bākinti «dar socos, bater, cutucar, enfiar à força», cf. bākjasis (lutam) os carneiros; os carneiros dão cabeçadas ao se aproximarem, isto é, batem (Juška; LKŽd., I, 471).
Lit. bāsis «cordeiro», basiukas, basiulis, bāsė «ovelha» (LKŽd., I, 551, 552), cf. as onomatopeias usadas em lituano para chamar a ovelha: bās, bās, basia, bās, bāši.
Lit. bazūkas «cordeiro (na linguagem infantil)», bazūlis, baziūtė «ovelha, buriutė» (LKŽd., I, 568), cf. as onomatopeias usadas para chamar a ovelha: bazė, bazı.
Lit. bicė «ovelha», bıcītė (Ylakiai), cf. a onomatopeia usada para chamar a ovelha bice (Ylakiai), let. bice «ovelha». Este nome da ovelha e a onomatopeia provavelmente entraram no lituano vindos do letão.
Lit. būkė «ovelha» (LKŽd., I, 931) provavelmente deve ser relacionado com lit. būkinti «bater, golpear», cf. as crianças ensinaram o carneiro a būkinti (lutar), e ele então būkina (LKŽd., I, 931–2). Também é possível que būkė < buriūkė.
Lit. busiūkas «cordeirinho», busiūtė «cordeirinha», būsinas «carneiro (termo carinhoso)» (LKŽd., I, 988), cf. as onomatopeias busia, būsė.
Lit. kūcė «ovelha (na linguagem infantil)», kūciūkas «cordeirinho», kūciūnūkas (LKŽd., VI, 755, 757, 758), cf. as onomatopeias kūcā, kūciū.
Lit. kuriūtė «ovelha, buriutė (na linguagem infantil)» (LKŽd., VI, 952), cf. a onomatopeia kuriù-kuriù usada para chamar a ovelha (Adutiškis, Tverečius, Vidiškės). Esta última onomatopeia, como uma espécie de palavra rimada, pode ter surgido ao lado da onomatopeia buriù-buriù, cf. būre – kūre – šiūre «onomatopeias usadas pelos pastores para chamar ou conduzir a ovelha» (Šakyna).
Nas variedades dialetais do letão, o nome vuška para «ovelha» é muito difundido (EM, IV, 677; EH, II, 799). J. Endzelīns tendia a derivar esta forma de *avuź-ka (quanto à formação, cf. lit. avužė, let. Amuža e rus. овечка). Além de vuška, encontra-se também a forma uška (EM, IV, 310; EH, II, 716), bem como os nomes do carneiro vuçens, vucins, vucans, vucuns (vuçens também é usado com o sentido de «cordeirinho») (EM, IV, 675; EH, II, 798), e uçens, ucenis, ucins, ucītis «cordeirinho» (EM, IV, 293; EH, II, 711). A relação desses nomes com a palavra avs parece-nos muito duvidosa: a forma *avuźka, afinal, é muito pouco característica do letão. Talvez seja melhor explicar esses nomes como surgidos diretamente de onomatopeias, sem os relacionar de modo algum com o antigo nome da ovelha. Há em letão onomatopeias às quais se poderiam relacionar os nomes de ovelha mencionados; cf. vuc, que J. Endzelīns, assim,
³⁹ R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92, 352. ⁴⁰ G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 69, 233; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 189.
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também parece, sem razão, ter estado inclinado a derivar de *a-vuc(e)41, a palavra onomatopaica usada para tanger porcos uš; compare-se também a palavra onomatopaica lituana usada para tanger ovelhas uš-uš (Grobštai, Kojeliai). O sufixo -k(a) é usado em letão na denominação de animais; comparem-se os nomes de vacas račka ao lado de raibala, piecka ao lado de piektala, seska ao lado de šeštala, etc.42
Em letão encontramos também vários nomes de ovelha cuja origem onomatopaica parece indubitável:
Lat. bice «termo carinhoso para uma ovelha», biča, bidze, badze, bicainīte, bicis «um cordeirinho; um carneiro (na linguagem infantil)» (EM, I, 293; EH, I, 217, 218), compare-se com o lituano bice «bur; ciba» (Ylakiai, LKŽd., I, 657).
Lat. bika (diminutivo bikiņš «carneirinho»), bikus «o carneiro» (EH, I, 218, 219), compare-se com o letão bika «chamamento habitual ao carneiro e ao bode».
Lat. buce «a ovelha» (EH, I, 248). J. Endzelīns tende a relacioná-lo com o lituano būkas «rombo», letão bukt «ficar rombo» e lituano būkė «ovelha». Parece-nos, porém, mais apropriado relacioná-lo com uma palavra onomatopaica; compare-se o letão buc «interj. butz, para designar o som produzido quando bodes e carneiros se chocam com os chifres», budž «interjeição dirigida às ovelhas», buč «interjeição usada para enxotar» (buč, aitiņ, EM, I, 344).
Também têm origem onomatopaica:
Lat. bēja «a ovelha (na linguagem infantil)» (EH, I, 216), compare-se com bē.
Lat. mēja «a ovelha (na linguagem infantil)» (EH, I, 805), compare-se com mē, mējināt «fazer (uma ovelha) balir».
Em letão há muitos nomes de ovelha, surgidos na maioria dos casos em referência a uma ou outra característica deste animal:
Lat. amuls «uma ovelha de lã macia» (EH, I, 69), compare-se com o letão amuols «visco (viscum album); trevo».
Lat. atpīlis «o tardio, nascido tarde, cria nascida tardiamente, sobretudo cordeiros de ovelhas que parem no outono, depois de já terem parido um cordeiro no mesmo ano», atpīlis, atpīlis, atpīlēns, atpīlītis «o menor cordeiro», atpīles «ovelhas (ou cabras) que parem cordeiros no fim do outono» (EM, I, 181—2; EH, I, 158), compare-se com o lituano pilti, lat. pilt «gotejar»; quanto à semântica, compare-se com o russo ото́рошыш «nado-morto antes do termo» (В. Даль, III, 711), выкидыш «aborto, prematuro, bebé e, em geral, cria nascida tão prematuramente que não pode viver» (В. Даль, I, 292—3), alemão Wurf «lançamento; (de crias) parto»43.
Lat. atzīdīte «cordeiro, vitelo desmamado» (EM, I, 213), atzīdītis (EH, I, 182); compare-se com o letão atzīdīt «desmamar (animais)».
Lat. bakris «um carneiro grande» (EM, I, 252). J. Endzelīns tende a considerar como sua origem o alemão Bock (> lyv. bokā), cujo sufixo teria mudado sob a influência do letão vepris «javali». Recentemente, porém, P. Aristē publicou uma etimologia aparentemente convincente do letão bakris. Ele considera o letão bakris um empréstimo do romani bakró44 «carneiro».
Lat. belis «uma ovelha de orelhas curtas» (EH, I, 212), compare-se com o letão belis «nome de cão».
41 EM, IV, p. 675.
42 J. Endzelīns, Latviešu valodas gramatika, p. 356.
43 EM, I, p. 182.
44 P. Aristė, Acta Baltico-Slavica, 3, p. 23.
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Letão bene «uma ovelha com orelhas pequenas e patas curtas» (EM, I, 279), benausis «um cordeiro com orelhas pequenas e curtas» (EH, I, 212), cf. letão bene «um gorro de menino, a boina, o capuz», cf. baixo-alemão médio benit «chapéu adornado».
Letão billene «uma ovelha atordoada» (EH, I, 219), cf. letão billene «dulna sievete».
Letão buks «um carneiro com chifres grandes» (EH, I, 250), cf. letão buks «o bode» < baixo-alemão médio buck.
Letão cigurs «um cordeiro pequeno» (EH, I, 269), cf. letão cigiņš «o potro», cigus, ciga, cigulis (EM, I, 379), cigina «o porco (na linguagem infantil)» (EH, I, 269), ciga «chamado para atrair potros e cavalos».
Letão cirka «uma ovelha de lã encaracolada» (EH, I, 273), cf. letão cīrkas «cachos», cīrstas.
Letão cone «carneiro», cf. letão sonis < livônio sonn (EM, I, 397).
Letão daplis «um cordeiro do ano anterior» (EH, I, 307), dapelis «uma ovelha nascida no outono» (EM, I, 438) deve antes ser derivado da forma *dapilis, cf. letão atpīlis, uzpīlis.
Letão geida «uma ovelha indomável» (EH, I, 426), cf. letão geida «uma moça exuberante e travessa» (EM, I, 695).
Letão kupe «uma ovelha com focinho curto e orelhas pequenas e curtas; uma ovelha sem chifres» (EM, II, 392; EH, I, 708), cf. letão kup̄s nazis «uma faca com a ponta quebrada», kup̄s «rombo» (EM, II, 319).
Letão lāmma «uma ovelha grande, apta a ser ordenhada», lamenica «uma ovelha com cauda longa e lã comprida», cf. estoniano lammas «ovelha» (EH, I, 718).
Letão mikulis «o carneiro» (EM, II, 626), cf. letão mikāt «bater com os punhos; espancar (sem muita seriedade), grūstit», letão Mikus «garanhão».
Letão piuka «designação jocosa para carneiro» (EM, III, 229), cf. letão piūka «um peixinho colorido, qualquer peixe pequeno».
Letão pūpalina «termo carinhoso para ovelhas» (EH, II, 342), cf. letão pūpuōls «o amentilho do salgueiro; também no feminino, usado como termo carinhoso».
Letão ragana «uma ovelha com chifres» (EM, III, 464), cf. letão rags «o chifre».
Let. rāmulīte «uma designação para ovelhas» (EM, III, 496), cf. let. rāms «manso, calmo».
Let. ruogulīte «epíteto da ovelha» (EM, III, 578), cf. let. rags «o chifre».
Let. skrube «uma ovelha com orelhas curtas e cortadas» (EM, III, 898), cf. let. skrubis «a faca curva para escavar», skrubulis «uma faca curva para fazer colheres de madeira».
Let. skrule «um nome depreciativo para ovelhas» (EH, II, 513), cf. let. skrule «um nome depreciativo para pessoas; um nome de cão; uma mulher que anda errante», let. skrulēt «andar de um lado para o outro».
Let. soņķis < soņnis (EM, III, 980).
Let. soņnis «um carneiro» (EM, III, 980) < liv. sonn.
Let. šķēlis «o carneiro» (EM, IV, 32; EH, II, 633) < baixo-alemão médio žem. schele «reprodutor»⁴⁵.
Let. špidilka «uma ovelha teimosa e errante» (EH, II, 655), cf. let. špidilka «uma mulher leviana», spidelīgs «alegre, feliz, bem-disposto».
45 J. Sehwers, Sprachlich-kulturhistorische Untersuchungen, Leipzig, 1936, p. 131.
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Let. špullinš “um cordeiro” (EH, II, 655), cf. let. spulligs (?) “alegre, vivaz, ágil”, spulung'is “um rapaz vivaz e indomável, também um boi jovem”.
Let. uzpilis “um cordeiro do ano anterior” (EM, IV, 365), cf. let. atpilis, daplis.
Let. vemelis (?) “um carneiro castrado” (EM, IV, 536) talvez deva ser relacionado com let. vembele “uma mulher gorda, não muito alta; um insulto em geral (por exemplo, dirigido a vacas)”, cf. est. vemmel (deriv. vemble) “porrete” (EM, IV, 536).
Let. viēnmitis “o único cordeiro de uma ovelha” (EM, IV, 661), cf. let. mist “alimentar-se, viver, permanecer”.
Let. viēnžālis “um cordeiro que mamou sozinho na mãe” (EM, IV, 668), cf. let. zīst “mamar”.
Let. vizbulina “epíteto da ovelha” (EM, IV, 630), cf. let. vizbulis “a anémona”, let. vizbulis “o caracol (?)” (augat, mani gari mati, vizbuḷuos, EM, IV, 630).
Após examinar as denominações de ovelha nas línguas bálticas e eslavas, podemos tirar as seguintes conclusões. Nessas línguas, conserva-se bem a antiga denominação indo-europeia da ovelha; dessa denominação deriva também a designação de carneiro, característica apenas das línguas bálticas e eslavas. Nas línguas eslavas encontramos antigas denominações de cordeiro de duas origens, uma das quais provavelmente coincide com o nome báltico do cordeiro. Tanto nas línguas bálticas como nas eslavas há muitas denominações mais recentes de ovelha, carneiro e cordeiro. A denominação prussiana da ovelha, também de origem mais recente, não tem cognatos em outras línguas.
CABRA
A cabra é uma companheira muito antiga do ser humano, embora talvez não tão popular quanto os outros animais domésticos. A cabra doméstica (Capra hircus) descende de espécies de cabras selvagens, que ainda vivem em algumas regiões montanhosas da Ásia, Europa e África1.
Como animal doméstico, a cabra já era conhecida por muitos povos antigos da Ásia, Europa e África. Representações de cabras encontram-se em desenhos sumérios2. Vários povos usavam cabras em rituais religiosos. Por exemplo, a expressão bode expiatório, ainda hoje usada em muitas línguas do mundo, tem origem no antigo ritual judaico mencionado no Antigo Testamento (Lev. 16), no qual o sumo sacerdote “colocava” sobre um bode os pecados do seu povo e o enviava ao deserto para o demônio Azazel.
Na “Odisseia” menciona-se que Odisseu, além de outros animais, possuía também doze rebanhos de cabras. Plínio, o Velho (23/24–79 d.C.), em sua “História Natural”, afirma que os gauleses fabricavam um excelente sabão com gordura de cabra: “O sabão também é útil; foi inventado pelos gauleses para tingir os cabelos de ruivo. É feito de gordura e cinzas, sendo o melhor o feito com gordura de cabra e cinzas de faia. Há dois tipos: sólido e líquido. Ambos são mais usados pelos homens do que pelas mulheres nas regiões germânicas”3.
1 C. Keller, Die Abstammung der ältesten Haustiere, p. 203–209; O. Keller, Thiere des classischen Altertums in Culturg eschichtlicher Beziehung, Innsbruck, 1887, p. 37–52.
2 M. Hilzheimer, Haustier, — M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, V, p. 220; V. I. Avdijevas, História do Oriente Antigo, Vilnius, 1954, p. 39, 40, 43.
3 “Prodest et sapo, Gallorum hoc inventum rutilandis capillis. fit ex sebo et cinere, optimus fagino et caprino, duobus modis, spissus et liquidus, uterque apud Germanos maiore in usu viris quam feminis”, Hist. nat., XXVIII, 191, cf. O. Schrader, Reallexikon der indogermanischen Altertumskunde, II, p. 693.
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Vestígios de cabras são encontrados em achados arqueológicos do Neolítico em muitos países europeus. Nos vestígios das habitações lacustres da Suíça, foram encontrados até mais vestígios de cabras do que de ovelhas4.
Nos territórios bálticos e eslavos, a cabra também é um animal conhecido desde há muito. Isso é demonstrado tanto por dados históricos como linguísticos5. No entanto, faltam dados históricos sobre qualquer importância econômica mais significativa desse animal. É verdade que um fato linguístico indica que, nos países eslavos, a cabra foi um animal valorizado em certo aspecto, precisamente por causa de sua pele. Com efeito, em muitas línguas eslavas usa-se a denominação da pele (cf. eslavo antigo koža, russo кожа, ucraniano кожа, bielorrusso кожа, búlgaro кожа, servo-croata кожа, esloveno koža, tcheco kůže, eslovaco koža, polonês koža, alto sorábio koža, baixo sorábio koža), cujo significado original era “pele de cabra”; koža “pele” <.*koziję: koza “cabra”6, de modo semelhante ao gr. φώ “pele de ovelha”: ὄϊς “ovelha”, sânscrito ajñam “pele”: ajáḥ “bode”.
Nos atuais territórios da Lituânia e da Letônia, ossos de cabra já são encontrados em achados arqueológicos de assentamentos neolíticos7. Os ossos de cabra constituem uma parcela bastante significativa dos ossos de animais domésticos encontrados nos achados dos montes fortificados de Nemenčinė, Migoniai e Bačkininkėliai. Esses achados são atribuídos aos séculos I—IV d. C. As tribos bálticas também utilizavam bodes em rituais de culto8.
Em uma carta de 24 de janeiro de 1409 ao mestre da Ordem, o grão-duque da Lituânia, Vytautas, queixa-se de que o administrador da Samogícia proibira os aukštaitianos de “comprar mel, cavalos, cabras e gado” na região da Samogícia9. Contudo, em geral, a cabra é mencionada raramente nos antigos documentos históricos lituanos, em comparação com outros animais domésticos10.
Tanto no folclore lituano como no letão, a cabra é vista sobretudo de maneira negativa11.
Aparentemente, essa visão da cabra também existia entre os antigos indo-europeus. A. Meillet parece afirmar com razão que, por esse motivo, no léxico das línguas indo-europeias, as denominações da cabra e do bode não apresentam a unidade que, em maior ou menor grau, caracteriza as denominações de outros animais domésticos12. Além disso, a diversidade das denominações da cabra pode ter sido influenciada pelas funções cultuais desse animal — a essas funções estavam associadas várias proibições de mencionar o nome do animal13.
Nas línguas indo-europeias, podem-se distinguir várias áreas de distribuição mais características das denominações da cabra. Além disso, deve-se dizer que, em algumas línguas, uma denominação de mesma origem é usada para animais de ambos os sexos, enquanto em outras, geralmente devido a mudanças ocorridas em épocas relativamente recentes
4 O. Schrader, ten pat, p. 692.
5 Л. Нидерле, Славянские древности, p. 320; W. Hensel, Die Slawen im frühen Mittelalter, Berlin, 1965, p. 77—79.
6 W. Hensel, ten pat, p. 380; A. Brückner, St. et., p. 263; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 589.
7 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, Lietuvos archeologijos bruožai, p. 79; Latvijas PSR vēsture, I, p. 11.
8 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, ten pat, p. 252—253; A. Kamiński, Jaćwież, Łódź, 1953, p. 126—127; K. Паавер, Формирование териофауны и изменчивость млекопитающих Прибалтики в голоцене, p. 368.
9 Lietuvos TSR istorijos šaltiniai, I, Vilnius, 1955, p. 64.
10 Ten pat, p. 575.
11 EM, II, p. 182—183; K. Straubergs, Latviešu buramie vārdi, II, Rīga, 1941, p. 799 (índice); Patarlės ir priežodžiai, Vilnius, 1958, p. 468 (índice); Lietuvių tautosakos apybraiža, vyr. red. K. Korsakas, Vilnius, 1963, p. 373; Latviešu sakāmvārdi un parunas, sast. E. Kokare, Rīga, p. 324, 330 (índice).
12 A. Meillet, Wstęp do językoznawstwa indoeuropejskiego, Warszawa, 1958, p. 327.
13 H. Kronasser, Handbuch der Semasiologie, Heidelberg, 1952, p. 172.
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Após as mudanças, distinguem-se as denominações da fêmea e do macho; empregam-se para eles palavras de origens inteiramente diferentes.
Nas línguas eslavas, está difundido um nome para «cabra» cuja origem e relação com os nomes correspondentes de outras línguas indo-europeias permanecem, por enquanto, muito obscuras. Na verdade, há várias explicações aparentemente bastante bem fundamentadas, mas, na maioria das vezes, contradizem-se entre si. Uma coisa é certa: esse nome já existia no protoeslavo. Também são protoeslavos os nomes derivados para «cabrito» e «bode»; compare-se o eslavo antigo koza «cabra», o russo коза «cabra», козёл «bode», козлёнок «cabrito» etc.14
Esse nome eslavo para «cabra» também passou ao letão; compare-se o letão kaza, onde substituiu o antigo nome báltico letão para «cabra», correspondente ao lituano ožką e ao prussiano wosee. A difusão da palavra na língua letã pode ter sido favorecida pela circunstância de que, para os outros animais domésticos, os nomes do macho e da fêmea são, em sua maioria, palavras de raízes diferentes. Assim, ao lado do nome báltico para «bode», āzis, surgiu em letão o nome de origem eslava para «cabra», kaza, que substituiu completamente o báltico *āz(k)a ou *āze.
Além da forma kaza, encontramos em letão também kazlēns «cabrito; cabra pequena», kazlēniņš, kazelēns, kazulis «cabrito», kazulēns, kazuls, kaza «cabra», kazla (EM, II, 183—4; EH, I, 597). Formas como kazuls, kazla provavelmente derivam do russo козёл «bode», enquanto as outras surgiram na própria língua letã a partir da forma kaza.
Em lituano, a forma kaza quase não ocorre. É verdade que essa forma aparece no dicionário de M. Miežinis. No entanto, M. Miežinis provavelmente a tomou do letão (LKŽd., V, 458). Às vezes, essa denominação para «cabra» também é usada meio em tom de brincadeira em alguns dialetos lituanos da região próxima à Letônia.
Como mencionado, o eslavo kaza admite várias explicações. H. Peterson, apoiando-se numa analogia semântica indo-europeia muito pouco convincente, *ghaid- «cabra»: sânscrito jihīte «corre, dá um salto», relacionou o eslavo koza, como «animal que salta», ao lituano kėžoti «andar lançando as pernas para os lados; andar aos saltinhos», e ao lituano kėža «perna, coxa, p黹⁵. Contudo, a associação feita por H. Peterson é totalmente infundada, pois as palavras lituanas mencionadas são, sem dúvida, de origem mais recente, e seu sentido original não se relaciona com o ato de andar ou saltar.
Tentou-se relacionar o eslavo koza com outros nomes indo-europeus para «cabra». Alguns linguistas (K. Uhlenbeck, E. Zupitza) relacionaram o sânscrito chūgah «bode» ao nome eslavo para «cabra». No entanto, o sânscrito chāgah, cf. também o sânscrito chāgā «cabra», chagalāḥ «bode», e o osseta sāy «cabra», são palavras de origem obscura; além disso, sua associação com o nome eslavo para «cabra» também apresenta dificuldades de natureza fonética¹⁶.
Muito duvidosa, embora conte com numerosos adeptos, é a associação do eslavo koza, reconstruindo-se a forma protoindo-europeia *kog(a), com o albanês kedh «cabrito», o inglês antigo hæcen e o islandês antigo hōhen¹⁷.
V. Georgiev¹⁸ vai ainda mais longe. Ele reconstrói as formas protoindo-europeias *(s)kag-, *(s)kōg’, *(s)kēg-, relacionando entre si não apenas o eslavo koza e o albanês kedh, mas também o sânscrito chāgah mencionado anteriormente, bem como os nomes próprios trácios Κοζας, Κοζείλας etc. Essa última tentativa é igualmente muito hipotética.
14 О. Н. Трубачев, Происхождение…, p. 86; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 589—590.
15 H. Petersson, IF, 35, p. 272.
16 M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 406; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 589; O. Н. Трубачев, Происхождение…, p. 86.
17 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 589; H. Pedersen, KZ, 36, p. 335; O. Schrader, Reallexikon der indogermanischen Altertumskunde, III, p. 692.
18 В. Георгиев, Исследования по сравнительно-историческому языкознанию, p. 121.
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Parece-nos que são mais bem-sucedidas as tentativas de relacionar o esl. koza com outro nome indo-europeu para «cabra», a saber, o sânscr. ajāḥ «bode», ajā «cabra», o lituano ožys, ožka etc. E. Brückner19 tende a identificar uma metátese no nome eslavo para «cabra» (koza < *ozka). No entanto, a hipótese de E. Brückner é dificultada pela circunstância de que encontramos o nome para «cabra» com o formante -k- apenas em lituano — as outras línguas bálticas e, em geral, as línguas indo-europeias que têm nomes para «cabra» dessa origem não apresentam nelas o formante -k-. Portanto, o formante -k- na palavra lituana é provavelmente uma criação mais recente.
A. Meillet20, com base no esl. kostb «osso»: sânscr. ásthi «osso, perna», gr. ὀστέον, julgava que o k- do nome eslavo para «cabra» era uma adição. V. Machek21 também sustentava essa opinião. A explicação de A. Meillet seria, de resto, muito convincente, mas faltam outros casos semelhantes de acréscimo consonantal para confirmá-la (a relação entre sânscr. áśru, lituano ašara e gr. δάκρυ, irl. dér é muito obscura22), exceto, naturalmente, i, u, que são frequentemente acrescentados tanto nas línguas eslavas como nas bálticas. De todo modo, é característica das línguas eslavas a tendência de iniciar palavras com consoante. Além disso, o tabu também pode ter desempenhado aqui um papel. Que nas línguas eslavas tenha existido anteriormente um nome para «cabra» que correspondia diretamente ao sânscr. aja seria indicado pelo russo antigo язъно «pele», язънарь «curtidor, trabalhador de peles», язъненъ «de couro»23 (quanto ao significado, compare avést. izaēna «de couro»: gr. αἴξ «cabra», sânscr. ajīnam «pele»: sânscr. ajāḥ «bode», esl. koža «pele»: esl. koza «cabra»), e talvez também pelo russo язь «um peixe, Idus melanotus, Cyprinus rutilus», que, como veremos mais adiante, se tenta relacionar com o sânscr. ajā etc.
Também se relaciona com o nome para «cabra» dessa raiz o afluente da margem esquerda do Dniepre Ажовка. Essa associação é especialmente confirmada pela circunstância de que, nas proximidades desse rio, há outro rio chamado Козелинка. No entanto, o russo Ажовка é provavelmente um baltismo, e não um vestígio do antigo nome eslavo para «cabra»24.
Há opiniões segundo as quais o esl. koza é um empréstimo de línguas orientais. Recentemente, O. Trubačov25 tem tentado sustentar essa opinião com novos argumentos. Apoiando a ideia já proposta por F. Korsch, segundo a qual o esl. koza poderia derivar do turco kaza (cf. turco keči, tártaro de Kazan kājā, bashkir ), ele supõe que também os cognatos do lituano ožkà, do sânscr. ajā etc. podem ser de origem turca, pois, nas línguas turcas, ao lado dos nomes para «cabra» com k- mencionados acima, também há nomes sem k- inicial, que lembram de forma surpreendente os nomes indo-europeus para «cabra», sobretudo o lituano; compare uigur äčкü, öčkä, uzbeque äčкi, cazaque äśкі, quirguiz äčкі, karaim äčкі. Parece-nos que o ponto fraco da hipótese de O. Trubačov é considerar muito antigo o -k- do nome lituano para «cabra». O. Trubačov compara o lituano ožkà com o sânscr. ajikā e o persa médio azak. No entanto, os formantes -k- nessas palavras surgiram, sem dúvida, de forma independente.
19 A. Brückner, Sl. et., p. 262.
20 A. Meillet, Études sur l’étymologie et le vocabulaire du vieux slave, Paris, 1902–1905, p. 246; A. Meje, Общеславянский язык, Москва, 1951, p. 396.
21 V. Machek, Et. sl., p. 229–230.
22 J. Zubatý, BB, 18, p. 159–160; J. Pokorny, Et. Wb., p. 23, 179; M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 61.
23 И. И. Срезневский, Материалы для словаря древнерусского языка, III, Петербург, 1912, p. 1650; M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 485; J. Zubatý, AfslPh, 16, p. 396.
24 В. Н. Топоров и О. Н. Трубачев, Лингвистический анализ гидронимов Верхнего Поднепровья, Москва, 1962, p. 175.
25 О. Н. Трубачев, Происхождение..., 87–89.
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Em sânscrito, ajikā, ajakā são formas diminutivas da palavra ajá “cabra”; em lituano, como mostram os dados do prussiano, o elemento ožkà -k- da palavra deve ter surgido já no próprio lituano. E. Fraenkel tende a considerar que -k- é aqui um sufixo que expressa movimento26. Que o lituano ožkà tenha derivado da forma ožikā, como supõem alguns pesquisadores27, é difícil de acreditar28. Assim, ainda assim, o mais plausível seria considerar o sânscrito ajā, o lituano ožkà e seus demais cognatos como antigos nomes indo-europeus da cabra, característicos das línguas indo-europeias orientais.
Essas designações são bastante difundidas nas línguas indo-europeias; compare-se o sânscrito ajáḥ «bode», ajā «cabra», o persa médio azak «cabra», o persa novo azg, o albanês dhi «cabra» (supõe-se que derive de *adhi, assim como sy «olho» < asii29), o lituano ožys, ožkà, o prussiano wosee «cabra», wosux «bode», o letão āzis «bode». Já mencionamos vestígios desse nome da cabra nas línguas eslavas. O. Haas tende a encontrar vestígios desse nome indo-europeu da cabra também no território da Grécia: traduz a inscrição da moeda frígia Zeus Aseis como «deus do bode»30 e explica também o significado original do grego ἀσκός «recipiente» como «recipiente feito de pele de cabra»31. É provável que encontremos esse nome da cabra também em tocariano; compare-se o tocariano A ās «cabra» e o tocariano B asiye «cabras, caprino». Contudo, ao que parece, ele terá entrado no tocariano a partir de algum dialeto iraniano32. Tenta-se relacionar esse nome indo-europeu da cabra também com um nome eslavo de peixe: russo язь «tal peixe, Idus melanotus, Cyprinus rutilus», polonês jaź «Leuciscus idus», tcheco jazek, alto sorábio jazyca, baixo sorábio jaz, jazk. A. Janzén33, o primeiro a propor essa etimologia, baseia-se no fato de que, em alemão, essa espécie de peixe é chamada Ziege «cabra», devido aos barbilhões peculiares do peixe; compare-se o alemão Bartkarpfen. Outros linguistas também tendem a concordar com a etimologia de A. Janzén34. Nos dialetos lituanos da Prússia Oriental e da região de Klaipėda, ožkà também é usado com o sentido do peixe mencionado, mas aqui provavelmente se trata de um decalque do alemão.
O lituano ožys e outros nomes indo-europeus da cabra com essa raiz são por vezes relacionados com o sânscrito ájati «conduz», o grego ἄγω «conduzo» etc.35 Contudo, é difícil comprovar tal relação.
Como vemos, o lituano conservou bem tanto o antigo nome do macho desse animal quanto o da fêmea. Das palavras ožys, ožkà formam-se também vários nomes para as crias desse animal: ožiukas, ožkiukas etc. Assim, em lituano, a cabra é o único animal doméstico de criação cujo nome não apresenta o supletivismo característico; compare-se ovelha — carneiro — cordeiro, cavalo — égua — garanhão — potro, vaca — boi — vitelo — bezerro etc. O supletivismo tampouco é característico do nome eslavo da cabra. O. Trubačiovas36 aponta essa circunstância como argumento de que o eslavo koza pode ser um termo emprestado. É claro que essa circunstância parece distinguir o nome da cabra dos nomes de outros animais domésticos, mas não constitui argumento que indique se ele é antigo ou recente.
26 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 519; Glotta, 34, p. 307.
27 R. Trautmann, B-sl. Wb., p. 22.
28 Pr. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, p. 122.
29 J. Pokorny, Et. Wb., p. 7; H. Pedersen, KZ, 36, p. 320, 335.
30 O. Haas, Lingua Posnaniensis, 3, p. 87.
31 O. Haas, Lingua Posnaniensis, 7, p. 74.
32 A. J. Van Windekens, Orbis, XII, 2, p. 590—591.
33 A. Janzén, ZfslPh, 18, p. 29—32.
34 M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 486; V. Machek, Et. sl., p. 172; F. Sławski, Sl. et., I, p. 532—533; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 519.
35 C. D. Buck, Dict., p. 165.
36 O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 89.
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A partir das palavras ožys, ožka, formaram-se em lituano muitos nomes de lugares e de cursos de água37.
Lat. āzis também ocorre em numerosos nomes de lugares e de cursos de água da Letónia38. É característico que na toponímia letã não exista de todo o antigo nome báltico da cabra (: lit. ožka, pr. wosee), ao passo que há numerosos topónimos derivados do empréstimo eslavo kaza39. Esta circunstância indicaria que o nome eslavo da cabra entrou no letão em tempos muito antigos.
Este nome indo-europeu da cabra conservou-se bem na língua prussiana. Além dos já mencionados pr. wosee (verbete 676 do glossário de Elbing), wosux (verbete 675 do glossário de Elbing — Wosux Bok)40, os monumentos da língua prussiana contêm ainda outros dados que confirmam a autenticidade das formas deste nome da cabra. Em primeiro lugar, o verbete 677 do glossário de Elbing Wolis-tian Zickel, que, sem dúvida, deve ser corrigido para Wosistian («cabrito»)41. No glossário de Elbing encontra-se também a palavra Wosigrabis Spilbōm (verbete 611)42. Que o primeiro componente desta palavra é inseparável do nome prussiano da cabra é demonstrado pelo lit. ožėkšnis, usado com o significado do alemão Spindelbaum. O segundo componente da palavra prussiana, -grabis, relaciona-se com o russo гра́б «carpino»43.
Vestígios evidentes deste nome da cabra encontram-se também na toponímia prussiana: Wō-sebirgo, Wosispile (< pr. wosee + cf. lit. pilis), Wozekaym (< pr. wosee + pr. caymis «aldeia»), Wozie44.
A relação destes topónimos com o nome da cabra não deixa dúvidas. O topónimo Wosepille tem até um equivalente alemão, Ciginburg.
Também seria possível relacionar com o nome prussiano da cabra o topónimo documental de 1374 Woselowken, que J. Gerulis explica de outra maneira45.
Os segundos componentes dos topónimos prussianos mencionados são, em geral, claros: pr. *pilis (: lit. pilis, let. pils), pr. caymis «aldeia», pr. laucks «campo, terreno». Só o componente -birgo, -birge suscita dúvidas. As explicações existentes — a associação com o lit. brìgis «pavimento do estábulo dos cavalos» e o checo brh «caverna, gruta»46 — são muito pouco convincentes. Será que se trata simplesmente de uma grafia incorreta do alemão -burg? Assim, Wosebirge seria apenas uma variante «germanizada» do pr. Wosepille.
O nome prussiano da cabra apresenta sempre um v- acrescentado, que por vezes também aparece em dialetos na mesma palavra lituana. No entanto, nos exemplos da língua prussiana não encontramos em parte alguma o -k- característico do nome lituano da cabra (ožkà).
As línguas fino-bálticas também tomaram emprestado das línguas bálticas o nome do bode; cf. fin. vuohi, est. voho, etc.
37 Lietuvos TSR administracinis-teritorinis suskirstymas, Vilnius, 1959, p. 839—840; Lietuvos TSR upių ir ežerų vardynas, Vilnius, 1963, p. 112—113.
38 J. Endzelīns, Latvijas PSR vietvārdi, I, 1, Rīgā, 1956, p. 72—73.
39 J. Endzelīns, ten pat, I, 2, Rīgā, 1961, p. 72—76.
40 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92; Prūsų kalbos paminklai, p. 73.
41 R. Trautmann, ten pat, p. 92.
42 R. Trautmann, ten pat, p. 91; Prūsų kalbos paminklai, p. 71.
43 R. Trautmann, ten pat, p. 466; R. Trautmann, B-sl. Wb., p. 94; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, 277; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 301.
44 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 208, 209, 234.
45 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 211; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 277.
46 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 208.
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Em lituano, o nome da cabra cibà, de origem onomatopaica e usado muito amplamente, geralmente com conotação carinhosa ou jocosa, compare também cibė, cibkė, cibaragė, cibūkas «cabrito», cibūtis, ciubė «cabra» (LKŽd., II, 9, 10, 11). Essas palavras não se distinguem das formas onomatopaicas usadas para chamar ou conduzir cabras, por exemplo: cibà - cibà, cibė - cibė, cibū - cibū, cib - cib, ciubà - ciubà; para conduzi-las, por exemplo: cibiks, cibikš, cibekšt. Essas formas onomatopaicas são usadas em quase todo o território da Lituânia.
Alguns consideram germanismo a forma onomatopaica cibà, bem como os nomes de cabra dela derivados47, pois os alemães baixos prussianos usam a palavra zibbe com o sentido de «ovelha», «cabra», «cadela», «lebre (fêmea)»48; compare o alemão da Prússia Oriental Zibbe «Mutterschaf»49. Na verdade, palavras de origem semelhante são frequentemente emprestadas dos vizinhos. No entanto, o nome da cabra e, ao mesmo tempo, a forma onomatopaica mencionada também podem ter surgido espontaneamente na própria língua lituana. Uma forma onomatopaica desse tipo, usada para chamar diversos animais e aves, bem como os nomes desses animais e aves derivados dela, são encontrados em muitas línguas; compare letão cib - cib, cibu - cibu, cibū - cibū «forma onomatopaica para chamar pintinhos», letão ciba «galinha (na fala infantil)», cibe, cibina, cibuks «pintinho» (EM, I, 378, 379; EH, I, 269), tcheco cip - cip «forma onomatopaica para chamar galinhas, gansos e cabras», cibi - cibi, cib - cib, ci - ci, cic - cic; tcheco cibuška «nome carinhoso para um ganso», cibunka, cibenka, ciba «galinha»; eslovaco cipa «galinha», cipka, ciperka, cipūška, cipulienka50; bávaro alemão zib - zib «forma onomatopaica para chamar aves domésticas»51; lituano čip - čip, čipà «forma onomatopaica para chamar pintinhos» (LKŽd., II, 23).
Um nome de bode de origem onomatopaica e estrutura fonética semelhante é amplamente usado na área alpino-carpática; compare ucraniano цап, tcheco cap, eslovaco cap, polonês cap, romeno țap, albanês cjap, italiano tsappo, gótico da Crimeia stap52.
Também é de origem onomatopaica o letão kizikis «eine Ziege (geringschätzig und scherzweise)» (EH, I, 607); compare kiz, kiza, kize (EM, II, 387).
Nas variedades do letão, usa-se bastante um nome de bode de origem alemã; compare letão buks «der Bock, das Männchen mancher Vierfüssler», bucis, bucēns «ein junger Ziegenbock», bucēns, bucins, buciņš, bucītis, bukelis (EM, I, 344, 346–7; EH, I, 248, 250), bucīte «die Ziege» (EH, I, 248). A fonte desses nomes é o alemão baixo buck «Bock»53. Um nome de bode com essa raiz é bastante difundido nas línguas indo-europeias, mas sua origem não é clara54.
A palavra būkas «bode selvagem (corço macho)» (LKŽd., I, 930) também se encontra em lituano. A distribuição geográfica da palavra lituana indicaria que ela entrou no lituano através do letão.
Como vemos, as três línguas bálticas conservaram o antigo nome indo-europeu do bode. O letão não conservou o nome de cabra dessa raiz: em seu lugar se estabeleceu um empréstimo do eslavo. A relação entre o nome eslavo da cabra e os nomes indo-europeus conservados nas línguas bálticas é uma questão muito complexa. É possível que sejam palavras da mesma origem, mas que o nome eslavo tenha sofrido alterações fonéticas.
47 LKŽd., II, p. 9.
48 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 69.
49 H. Frischbier, Preussisches Wörterbuch, II, Berlin, 1883, p. 492.
50 V. Machek, Et. sl., p. 57–58.
51 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 69.
52 V. Machek, Et. sl., p. 54; M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 281; C. D. Buck, Dict., p. 165; O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 89.
53 J. Sehwers, Sprachlich - kulturhistorische Untersuchungen, p. 20.
54 J. Pokorny, Et. Wb., p. 174; F. Kluge, Et. Wb., p. 87.
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GADO BOVINO
A história da domesticação dos bovinos, como a de muitos outros animais domésticos, é muito complexa. Acredita-se que as raças de bovinos domésticos mais disseminadas na Europa descendam dos auroques (Bos primigenius), que, como demonstram os achados arqueológicos e várias fontes escritas, eram bastante numerosos nesta região ainda em épocas relativamente recentes. Havia especialmente muitos auroques nos territórios da Polônia e também da Lituânia e da Letônia. Na Polônia, os auroques só se extinguiram definitivamente no início do século XVII (a última fêmea morreu em 1627). Considera-se que o foco da domesticação dos bovinos europeus se situava na região entre as costas do Mediterrâneo e a Índia. O processo de sua domesticação, sem dúvida, foi muito longo; é possível que tenha começado já no VI milênio a. C. e se estendido até o II milênio a. C.1
Muitos povos antigos criavam bovinos para diversos fins. As representações mostram que os sumérios já criavam bovinos desde tempos remotos. Na escrita suméria, a palavra «touro» costumava ser escrita por meio de um desenho linear que representava a cabeça de um touro2. O desenho esquemático da cabeça de touro, posteriormente modificado por vários povos, tornou-se o primeiro sinal de muitos alfabetos, e o nome hebraico do touro, aleph, tornou-se o nome desse sinal — em grego, alfa.
Já antes da época dos faraós, criavam-se bovinos no Egito. O touro também desempenhava um papel muito importante na religião dos antigos egípcios3.
A criação de bovinos também começou muito cedo na China antiga. Touros e vacas eram amplamente utilizados na China para fins rituais. Há relatos de que, durante cerimônias religiosas solenes, por vezes eram sacrificados aos deuses 40 touros, e uma inscrição afirma que, de uma só vez, foram sacrificadas 300 vacas. O próprio rei às vezes inspecionava os touros destinados ao sacrifício4.
A vaca também desempenhava um papel muito importante na religião dos antigos indianos. Na mais antiga poesia religiosa, os deuses e as deusas indianos são comparados sobretudo a touros e vacas. A popularidade e a importância dos bovinos também são bem ilustradas pelo fato de que, por exemplo, a palavra da língua dos antigos indianos gāviṣṭiḥ, «luta, desejo» (< gāuḥ, «vaca, gado» + eṣati, «procura»), tinha originalmente o sentido de «desejo de obter vacas»5.
Também encontramos ossos de bovinos em achados arqueológicos do período neolítico em muitos lugares da Europa. Para os povos indo-europeus, os bovinos, sobretudo as vacas, constituíam a principal medida de valor e de troca. O preço de compra de pessoas era calculado em bovinos. No «Avesta» indica-se que o tributo era pago em bovinos-
1 C. Keller, Die Abstammung der ältesten Haustiere, p. 116–168; E. A. Богданов, Происхождение домашних животных, Москва, 1937, p. 110–167; O. Keller, Tiere des classischen Altertums, p. 57–62; K. Пававер, Формирование тернофауны и изменчивость млекопитающих Прибалтики в голоцене, p. 307–340; K. Paaver e P. Kulikauskas, Acta Baltico-Slavica, 2, p. 264–265.
2 M. Hilzheimer, Haustier, – M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, V, p. 219; V. I. Avdijevas, Senovės rytų istorija, p. 95; Д. Дирингер, Алфавит, Москва, 1963, p. 64.
3 C. Keller, ten pat, p. 119–121; M. Hilzheimer, ten pat, p. 219; V. I. Avdijevas, ten pat, p. 171.
4 V. I. Avdijevas, ten pat, p. 576, 582.
5 C. Keller, ten pat, p. 123; V. I. Avdijevas, ten pat, p. 543–544; M. Mayrhofer, Et. Wb., p. I, 331.
9. Baltų ir slavų kalbų ryšiai
129
raras para médicos e clérigos. Os antigos irlandeses pagavam multas com vacas, tributos etc.6
Tanto os achados arqueológicos como os diversos documentos escritos mostram que, nas terras eslavas, os bovinos também eram animais domésticos muito difundidos. Os bois constituíam a principal força de tração nas atividades agrícolas7.
Nos assentamentos do território da Lituânia datados do início do II milênio a. C., encontram-se mais ossos de bovinos do que de outros animais domésticos. Também em achados de períodos posteriores, por exemplo, dos séculos I—IV d. C., nos castros de Nemenčinė, Migonys, Dovainonys e Bačkininkėliai, os ossos de bovinos representam a maior percentagem entre os ossos de animais domésticos encontrados8.
Vestígios de bovinos também são encontrados em achados do II milênio a. C. no território da atual Letônia9.
Os bovinos, sobretudo os bois, são frequentemente mencionados também em diversas fontes históricas da Lituânia10.
A antiga denominação indo-europeia do bovino, reconstruída como a forma proto-*guou-, está bem preservada em muitas línguas indo-europeias, cf.: sânscr. gauḥ «gado», av. gauš, gr. át. βοῦς «gado, vaca», lat. bōs, -vis «boi, touro, vaca», alto-al. ant. chuo «vaca», arm. kov, irl. ant. bō, toc. A ko, toc. B kau, russo ant. говядо «boi», let. gūovs «vaca»11.
O significado original do indo-europeu *guou- é bastante incerto. Alguns investigadores consideram esta denominação indo-europeia do bovino um empréstimo de línguas não indo-europeias; outros tentam explicar sua origem com base em dados indo-europeus. Os primeiros relacionam o indo-europeu *guou- ao sumério gu (forma mais antiga gud) «gado, touro», ao chinês ngú, ao tibetano go-lang «touro» e ao ket (ostiaco do Ienissei) kuos «gado». Por exemplo, G. Ipsen considera que os indo-europeus receberam dos sumérios, por volta de três mil anos a. C., a denominação do bovino como animal de culto.12 Os segundos relacionam o indo-europeu *guou- com o gr. βόσκω «pastoreio, alimento», βοσκή «forragem, pastagem», βοτόν «pastor», lituano gaujà, gùiti, guotas «rebanho, grupo»13. O. Trubačiovas, concordando em parte com essa explicação da origem do indo-europeu *guou-, considera que tanto a denominação do bovino como as palavras aqui mencionadas há pouco são resultado da evolução do indo-europeu *gue-/*guo- «ir» (cf. gótico giman, gr. βαίνω, lat. venio, hitita wem-). Assim, o significado original do indo-europeu *guou- seria «(rebanho) que se desloca»; cf. palavras com origem semântica semelhante e usadas com sentido parecido: gr. πρόβατα, nórdico antigo gandandi fē14. M. Budimir tentou relacionar o indo-europeu *guou- com o indo-europeu *gueā «curvar», baseando-se sobretudo no fato de que algumas raças de bovinos selvagens se caracterizam por
6 O. Schrader, Reallexikon der indogermanischen Altertumskunde, I, p. 161—162, 255, 371—372; C. Keller, ten pat, p. 123.
7 Л. Нидерле, Славянские древности, p. 320; W. Hensel, Die Slawen im frühen Mittelalter, p. 85—91.
8 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, Lietuvos archeologijos bruožai, p. 79, 252—253; K. Паавер, ten pat, p. 368, 371; K. Paaver i P. Kulikauskas, ten pat, p. 268.
9 Latvijas PSR vēsture, I, p. 11; K. Паавер, ten pat, p. 367—370.
10 Lietuvos TSR istorijos šaltiniai, I, p. 575.
11 J. Pokorny, Et. Wb., p. 482—483.
12 G. Ipsen, IF, 41, p. 175—177; H. Wagner, KZ, 75, p. 58—75; O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 38; J. Pokorny, Et. Wb., p. 483.
13 J. Pokorny, Et. Wb., p. 483.
14 O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 39.
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corcovas salientes¹⁵. A. Brückner relacionou este nome indo-europeu do bovino com o sânscrito gu „cacare“, gūhah „esterco, excrementos“, polaco gówno¹⁶. Admitindo uma origem indo-europeia *gʷou-, talvez a associação mais plausível seja com o indo-europeu *gʷe-/*gʷo- „ir“. Semanticamente, porém, parece-nos que este nome do animal deveria ser explicado melhor não como „aquele que vai“, mas como „nascido“. Esta interpretação seria apoiada pelo lituano kėltuva „bovino“: lituano kė́lti, kilti, kiltis; grego πόρτις „bezerro, vaca jovem“, arménio ort „bezerro“, osseta firton „bovino“: lituano perėti, latim pario, -ere „dar à luz“¹⁷.
O indo-europeu *gʷou-, com o novo sufixo -ed-, característico apenas das línguas eslavas, foi conservado em todas as línguas eslavas. É verdade que, em algumas línguas, as palavras desta raiz já não são usadas com o significado de „ruminante de grande porte“, tendo sobrevivido apenas na denominação da carne desse animal; cf.: eslavo antigo goveždb „bovino“, russo antigo говядо „touro“, russo говядина „carne de vaca“, ucraniano гов’ядина, bielorrusso гаўяда „bovino“, búlgaro говедо, servo-croata говедо „touro“, esloveno govẹdo „bovino“, checo hovado, eslovaco hovado, polaco owiezina „carne de vaca“, alto sorábio howjado „bovino“, baixo sorábio gowedo¹⁸.
A antiga denominação indo-europeia do bovino foi provavelmente conservada também noutra palavra composta das línguas eslavas — eslavo antigo gumъno „celeiro“, russo гумно, checo humno e outras. < *gu- „bovino“ + *meti „pisar“, russo мять. Portanto, o significado original de gumъno era „lugar onde o gado pisa (as espigas)“¹⁹.
Alguns investigadores tendem a identificar vestígios da antiga denominação do bovino também no eslavo: russo говно „esterco, excrementos“, checo hovno e outras formas. Assim, o significado original do russo говно seria „esterco de bovino“²⁰. No entanto, a palavra eslava mencionada tem também outra etimologia bastante credível: é relacionada com o sânscrito gūthah „excrementos“²¹. É verdade que A. Brückner, como referimos, relacionou também a denominação indo-europeia do bovino aqui em análise com o sânscrito gūthah, gu- „cacare“²². Mas tal etimologia é difícil de fundamentar.
Também não é convincente a explicação de V. Machek, segundo a qual se tenta relacionar a forma gov- da denominação eslava do bovino com o lituano galvijas e o alemão Kalb „bezerro“²³.
Assim, o indo-europeu *gʷou- foi bastante bem conservado nas línguas eslavas.
Entre as línguas bálticas, esta denominação do bovino foi muito bem conservada em letão: o letão gùovs corresponde exatamente às denominações do bovino com esta raiz noutras línguas indo-europeias. Contudo, em letão, gùovs é usado apenas com o significado de „vaca“. Além de gùovs, são amplamente usadas formas diminutivas e outras formas com sufixos: guōtiņa, guōsniņa, guostina, guovīte, guoliņa, guoča, guosnele, guošnele, guotele, guovīņa, guōtele, guōtelēns, guotulēns (EM, I, 692–3; EH, I, 424).
É bastante incerto se o indo-europeu *gʷou- existe em lituano. K. Būga relacionou com esta raiz indo-europeia o lituano guotas „manada, grupo, bando“, explicando que o significado original do lituano guotas teria sido „manada de vacas; grupo de vacas“²⁴. E. Fraenkel relaciona o lituano guotas não diretamente
¹⁵ M. Булдимир, Южнославенски филолог, 6, Београд, 1926–1927, p. 171; nurodoma iš O. Trubačiovo, ten pat, p. 39.
¹⁶ A. Brückner, Sl. et., p. 154.
¹⁷ J. Pokorny, Et. Wb., p. 818.
¹⁸ О. Н. Трубачев, Происхождение…, p. 35–36.
¹⁹ M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 321; V. Machek, Et. sl., p. 150; О. Н. Трубачев, Происхождение…, p. 37; F. Slawski, Sl. et., I, p. 377–378.
²⁰ H. Hirt, IF, 37, p. 236; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 282.
²¹ F. Slawski, Sl. et., I, p. 331; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 282.
²² A. Brückner, Sl. et., p. 154.
²³ V. Machek, Et. sl., p. 141.
²⁴ K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 353.
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com ide. *gʷou-, mas com gr. βόσκω “pasto, alimento” e outros seus cognatos²⁵, que, como vimos, por sua vez também são associados ao antigo nome ide. do bovino. No entanto, em lituano existem palavras usadas com o sentido de vaca cuja fonética mostra que não podem ser separadas do nome ide. do bovino aqui discutido; são elas lituano guõtė “vaca”, guõtena “vaca jovem” (LKŽd., III, 740–1), gūtė “nome carinhoso da vaca” (LKŽd., III, 764). Mas essas palavras lituanas têm uso muito restrito e, além disso, não está claro se não são empréstimos. Em primeiro lugar, o lituano guõtena, a julgar por sua distribuição geográfica (Šatės), pode ter origem no letão guotina ou em outra forma semelhante. O lituano guõtė está registrado numa canção, também anotada na fronteira da Letônia (“Šiu namo, guote, šiu namo, raguote!”). O letão guota provavelmente é uma formação recente a partir da forma diminutiva guotene (EM, I, 692). No entanto, em lituano, além das palavras aqui mencionadas, usadas na fronteira da Letônia, a forma guõtė “mulher imprestável; desleixada”, cujo sentido original pode ter sido “vaca”, ocorre nas proximidades de Liškiava e Veisiejai, de onde não poderia ter passado diretamente do letão.
Também é bastante obscura a relação do lituano guõtė “cogumelo comestível da família Hygrophorus” com as palavras mencionadas anteriormente. K. Būga associou esse nome de cogumelo diretamente ao lituano guõtas “rebanho, grupo”, pois, segundo K. Būga, o cogumelo recebeu esse nome por crescer em grupos, isto é, em guotai (“Chamamos guõtė os cogumelos que crescem em guõtais, ‘em grupos, em pontes, em bandos’”, Slnt; guõtės crescem em grupos, “em montes” Jnš, Kp, Šiauliai)²⁶. No entanto, a origem do lituano guõtė também pode ser explicada como “cogumelo de vaca”; compare-se também o letão guotenes ou guovju pekas “Kuhpilz (agaricus cinnamomus)” (EM, I, 692).
Em “Aistiškuose studijuose”, K. Būga apontou o topônimo lituano Guovainiai, que associou ao letão guovs²⁷. E. Frenkelis também repetiu essa ideia de K. Būga²⁸. No entanto, não encontramos a forma Guovainiai em outras fontes de topônimos da Lituânia. K. Būga provavelmente tinha em mente a aldeia Gūvainiai, no distrito de Šilalė, a partir da qual talvez tenha sido reconstruída a forma Guovainiai.
O nome do riacho Gūragjis < guovs + rāgas (Kuršėnai) provavelmente está relacionado ao antigo nome da vaca; dele surgiu o nome da aldeia Gūragiai²⁹. No território da Letônia, há muitos topônimos que podem ser relacionados à palavra guovs³⁰.
Portanto, também é possível encontrar vestígios do antigo ide. *gʷou- em lituano. Nos monumentos da língua prussiana não há vestígios desse nome ide. do bovino.
De todas as línguas bálticas e eslavas, esse nome foi mais bem conservado no letão. Mais tarde, aparentemente, quando a fêmea do bovino passou a desempenhar o papel mais importante na economia, o nome genérico do bovino em letão foi transferido para a fêmea — a vaca. Enquanto isso, nas línguas eslavas e em lituano prevaleceu um novo nome para a vaca: russo корова, ucraniano корова, bielorrusso kapoba, búlgaro крава, servo-croata krava, esloveno kráva, checo kráva, eslovaco krava, polonês krowa, cassúbio karva, krova, alto-sorábio kruwa, baixo-sorábio krowa³¹, lituano karvė, prussiano kurwis “touro”. Esse nome parece ter
²⁵ E. Fraenkel, Et. Wb., p. 177.
²⁶ K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 353.
²⁷ K. Būga, Aistiški studijai, Peterburgas, 1908, p. 25.
²⁸ E. Fraenkel, Et. Wb., p. 177.
²⁹ Nomenclatura dos rios e lagos da RSS da Lituânia, p. 55.
³⁰ J. Endzelīns, Topônimos da RSS da Letônia, I, 1, p. 343–344.
³¹ M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 629–630; О. Н. Трубачев, Происхождение..., p. 40.
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uma etimologia confiável: muitos pesquisadores o relacionam ao lat. cornu “chifre”, gr. κεραός “cornudo”. Também têm a mesma origem o lat. cervus “veado”, o galês carw, o bretão karo, o pr. sirwis “corça” etc. É possível que, nas línguas bálticas e eslavas, o nome do veado ou de algum outro animal selvagem com chifres tenha sido transferido para a designação da vaca, talvez inicialmente para alguma raça de vacas de chifres largos. É interessante que um processo semelhante também ocorreu em outras línguas; compare-se igualmente o lat. cornu e o gr. κεραός com o alemão Rind “gado”, o alb. ka (< *k’ru) “touro”32.
V. Machek não concordava com essa explicação da origem do lituano karvė, do russo корова etc. Ele relacionava essa designação da vaca ao sânscrito cárvati “esmaga, mastiga”, explicando que seu significado original teria sido “ruminante”33. Essa etimologia, contudo, não obteve ampla aceitação. É particularmente pouco confiável porque o próprio sânscrito cárvati é uma palavra de origem muito obscura34.
Na língua letã não há vestígios claros de cognatos da palavra lituana karvė: o letão karva “uma vaca velha e magra; designação depreciativa de uma mulher; insulto dirigido a vacas” (EM, II, 165; EH, I, 590) é provavelmente um empréstimo do lituano.
Na língua prussiana, como já mencionamos, a palavra dessa raiz é usada com o significado de “touro”. Além do vocabulário de Elbing (palavra 672 – Curwis Ochze), no terceiro catecismo aparece a forma do acusativo singular kurwan. Alguns pesquisadores35 consideram o pr. curwis um empréstimo do polonês (nos textos poloneses mais antigos, karw significa mais frequentemente “touro velho e preguiçoso”). Contudo, é mais provável que o pr. curwis seja uma palavra autóctone36. Essa raiz também ocorre com bastante frequência na toponímia prussiana: Corwedompne < pr. curwis + dompne: let. dubens “o fundo, o chão, a profundidade”, Korwelaucken < pr. curwis + pr. laucks “campo”, Kurwingen < pr. curwis + -ing-, Curwin37.
As línguas bálticas e eslavas têm uma designação própria para o filhote de bovino, a saber: eslavo antigo telice, russo теленок, ucraniano теля, bielorrusso цяля, búlgaro теле, servo-croata теле, esloveno tele, tcheco tele, eslovaco tel’a, polonês cielę, cassúbio celą, alto sorábio čelo, baixo sorábio šele, lituano tėlias, teliūkas, letão telš, teļēns38. Tanto nas línguas bálticas quanto nas eslavas encontramos muitas palavras derivadas dessa raiz; compare-se o lituano telinga, teliuotis, o letão telidze “vaca prenhe”, teļuoties “parir”, o russo стельная “prenhe”, o russo телиться “parir” etc.
Deve ser difícil encontrar outra designação de animal nas línguas bálticas e eslavas que tenha tantas explicações para sua origem quanto esta. Infelizmente, até agora nenhuma dessas explicações é particularmente convincente.
32 J. Pokorny, Et. Wb., p. 574–577; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 225; F. Kluge, Et. Wb., p. 600; H. Hirt, Indogermanische Grammatik, II, Heidelberg, 1921, p. 117, 130; A. Bezzenberger, BB, 17, p. 216; B. Порциг, Членение индоевропейской языковой области, Москва, 1964, p. 259–260; R. Trautmann, B-sl. Wb., p. 119; A. Brückner, Sl. et., p. 271.
33 V. Machek, Et. sl., p. 233; V. Machek, KZ, 64, p. 262–263.
34 M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 379.
35 A. Brückner, Sl. et., p. 271; J. Pokorny, Et. Wb., p. 577.
36 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 366; K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 129; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 225.
37 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 30, 70–71, 77; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 199.
38 M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 90; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1077–1078; O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 44.
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H. Petersonas associou essa denominação ao arm. t’alun «gordo», ao sânscrito tilvilah «próspero, fértil»⁹. Contudo, entre os demais pesquisadores, essa etimologia não obteve grande aceitação.
J. Mikola relacionou o lituano tėlias e outras formas ao lituano talokas «filha adulta; menina jovem», lituano lokyš, prussiano clokies⁴⁰.
G. Ilinskis relacionou-o ao latim stolidus «estúpido, sem sentido; sem força», stultus, ao alto-alemão antigo stilli «silencioso, calmo» e ao lituano tylus⁴¹.
Smiešek relacionou o eslavo telę ao latim tollo, -ere «levantar», ao alto-alemão antigo dolēn «sofrer, suportar»⁴². Outros pesquisadores também tendem, em parte, a concordar com essa explicação. O significado original do nome desse animal poderia ser «nascido», cf. gótico barn «criança»: *bher- «carregar»⁴³.
A. Becenberger tentou relacionar o lituano tėlias ao grego πέλεας «porco reprodutor»⁴⁴.
V. Machekas explicou a origem da palavra telę de maneira muito original. Em sua opinião, as formas eslavas telę, lituanas tėlias e outras derivam de uma forma mais longa (de modo semelhante ao tcheco Řina < Kateřina), correspondente ao latim vitulus «bezerro, novilho» e ao grego ἔπαλον, formas que devem ser relacionadas à raiz indo-europeia *uet- (grego ἔτος) «ano». Assim, o significado original de telę seria «anual»⁴⁵.
K. Būga também tentou explicar a origem do lituano tėlias e do eslavo telę: tendia a relacionar essas palavras ao eslavo tělo «corpo»⁴⁶.
Há, portanto, muitas explicações, mas todas suscitam sérias dúvidas⁴⁷. Parece-nos que a etimologia de V. Machek é a que mais merece atenção. Ela é apoiada por um conjunto considerável de nomes indo-europeus de animais, justamente relacionados à raiz indo-europeia *uet- «ano»; compare-se o sânscrito vatsáh «animal de um ano; bezerro; bovino», vatsakāh «bezerrinho», albanês vjetë «bezerro», gótico wiprus «cordeiro de um ano» etc.⁴⁸. O ponto fraco da etimologia de V. Machek é a fonética. Ainda assim, também aqui, parece-nos que não se pode negar categoricamente a possibilidade de que de *uet-elo- tenha surgido a forma *tel-.
O lituano telyčia «vaca jovem que ainda não teve bezerro», como mostra o sufixo dessa palavra, deriva do russo телица ou de sua forma bielorrussa⁴⁹. O letão telica também tem a mesma origem⁵⁰.
Nas línguas bálticas também é amplamente usada outra denominação para o bovino, cujo significado em lituano é bastante próximo ao da que acabamos de mencionar. Trata-se do lituano veršis, letão vērsis, prussiano werstian. Não há vestígios dessa denominação nas línguas eslavas. Atualmente, o lituano veršis é usado na língua literária e em grande parte dos dialetos com o significado de animal bovino jovem; compare-se também veršinga, veršiuotis, cujo uso não difere do das formas mencionadas anteriormente-
39 H. Petersson, Arische und armenische Studien, Lund, 1920, p. 29; M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 505.
40 J. Mikkola, BB, 22, p. 245.
41 Г. Ильинский, РФВ, 60, p. 421–424.
42 Smieszek, Materiały i Prace Komisji Językowej Akademii Umiejętności, IV, p. 397–401, plg. M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 90.
43 J. Pokorny, Et. Wb., p. 1061; C. D. Buck, Dict., p. 155.
44 A. Bezzenberger, BB, 27, p. 176.
45 V. Machek, Et. Sl., p. 524.
46 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 318, 625.
47 M. Vasmer, Et. Wb., III, p. 90; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1077; F. Slawski, Sl. et., I, p. 99; O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 44–45.
48 J. Pokorny, Et. Wb., p. 1175.
49 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1078.
50 EM, IV, p. 160.
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Essas formas incluem telinga e teliuotis. Contudo, em parte dos dialetos (sobretudo nos dzūkai), a palavra veršis é usada com o sentido de «touro, boi». Esse sentido aparece no dicionário de K. Širvydas («Stadnik/taurus. Wierśis», 1.ª ed., 174; «Byk. Taurus/Werbis», 5.ª ed., 22). O letão veršis é usado apenas com o sentido de «boi, touro». O prussiano werstian (palavra 674 do vocabulário de Elbing), que provavelmente deriva da forma *werstian, na qual -ist- é um sufixo diminutivo⁵¹. Está registrado com o sentido de «bezerro (Kalb)». Assim, o sentido original do lituano veršis é «touro, boi». S. D. Bakas estava equivocado ao ver no letão veršis «boi» um paralelo da mudança de sentido do inglês bullock, de «touro jovem» para «boi» < «bezerro»⁵².
O lituano veršis, o letão vērsis e o prussiano werstian são relacionados ao latim verres «varrão, porco reprodutor», ao sânscrito vṛṣah «touro, boi», vṛṣṇih «masculino; carneiro» e vṛṣaṇah «testículos». Esses vocábulos são, por sua vez, relacionados ao indo-europeu *auer- «umedecer, molhar, fluir», cf. sânscrito vār «água», tocário A wăr etc. Assim, o sentido original do lituano veršis e dos vocábulos afins seria «que ejacula, que urina». Para essa etimologia podem-se apontar numerosos paralelos semânticos, cf. russo вепрь «varrão»: sânscrito vāpati «ejacula (sêmen)»; gótico auhsa «touro», sânscrito ukṣā «touro»: sânscrito ukṣáti «borrifa»; latim ūrus «auroque», dialetal sueco ure «touro»: islandês antigo úr «chuva fina». É verdade que alguns desses paralelos suscitam dúvidas, mas a maioria dos pesquisadores concorda com a explicação da origem do lituano veršis que acabamos de mencionar⁵³.
Em lituano também se usa o nome jautis para o macho bovino, exclusivo dessa língua. Em parte dos dialetos, essa palavra não é usada com o sentido geral de macho bovino, mas com o de animal castrado empregado nos trabalhos agrícolas. Provavelmente esse era também o sentido original da palavra. Assim como, ao lado de žirgas, surgiu arklys, o animal usado para arar, também ao lado de veršis surgiu jautis, «bezerro atrelado ao jugo». Inicialmente, a palavra jautis pode até ter sido usada apenas na combinação com veršis. A etimologia do lituano jautis não oferece dúvidas: relaciona-se ao sânscrito yāuti «amarra, atrela», ao lituano jungas, jaug tas «correia com que se prende o jugo aos chifres do boi de trabalho» etc.; cf. ainda o islandês antigo eykr «animal de trabalho, cavalo» e o sânscrito yōgyaḥ «animal de trabalho», relacionados à mesma raiz indo-europeia⁵⁴.
O hidrônimo prussiano Jautin indicaria que os antigos prussianos também tinham uma palavra que correspondia exatamente ao lituano jautis⁵⁵.
De modo semelhante ao lituano, nas línguas eslavas o touro de raça e o boi de trabalho também têm nomes distintos, cf. russo бык «touro» e russo вол «boi (de trabalho)». Esses nomes, porém, nada têm em comum com os nomes bálticos correspondentes para touro ou boi. Além disso, provavelmente são de origem relativamente recente e exclusivos das línguas eslavas⁵⁶. É verdade que o russo бык, relacionado por muitos pesquisadores a um verbo que significa «mugir, berrar» (cf. tcheco býkati), tem um correspondente exato também em lituano, cf. lituano būkas «Bota u rus stellaris»⁵⁷: lituano būkti «mugir, berrar», baūkti. A origem do lituano būkas é muito bem confirmada por seus sinônimos — baūblys: lituano baūbti, rėklys: lituano rėkti.
51 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 53. 52 S. D. Buck, Dict., p. 153. 53 J. Pokorny, Et. Wb., p. 80–81; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1228–9; K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 652; EM, IV, p. 565; F. Kluge, Et. Wb., p. 518; R. Trautmann, B-sl. Wb., p. 353; F. Specht, Der Ursprung der indogermanischen Deklination, p. 234. 54 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 191; J. Pokorny, Et. Wb., p. 508–510; R. Trautmann, B-sl. Wb., p. 110. 55 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 51, 233. 56 M. Vasmer, Et. Wb., I, 158, 216; O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 41–44; F. Sławski, Sl. et., I, p. 52. 57 И. Эндзелин, Lingua Posnaniensis, 1, p. 3.
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Na língua literária lituana, bem como em alguns dialetos, usa-se o nome do touro reprodutor būlius. Esta palavra, assim como o letão būlis, foi emprestada do alemão; compare-se o alemão da Prússia Oriental boll, bull e o baixo-alemão médio bulle58. O nome alemão do touro reprodutor é associado ao indo-europeu *bhel- «inchar, soprar, intumescer»; compare-se o inglês ballock «testiculus»; o grego φαλλός «pênis», o irlandês antigo ball etc. 59 Portanto, o touro reprodutor teria recebido esse nome devido aos seus órgãos sexuais.
Como mencionamos, as línguas bálticas não conservaram o significado indo-europeu *guou «gado». No entanto, encontramos nelas vários nomes de gado de outra origem.
Nas línguas lituana e prussiana antiga, conservou-se bem o indo-europeu *peku-, cujo significado original, segundo muitos pesquisadores, era «animal tosquiado, animal lanígero, ovelha», tendo depois desenvolvido o sentido geral de «gado». O indo-europeu *peku- é associado ao grego πέκω «tosquio, penteio», ao latim pecto, -ere «pentear», ao lituano pėšti, ao grego πέκος «lã» etc. Muitas línguas indo-europeias têm um nome de gado derivado desta raiz; compare-se o sânscrito páśuh «gado, animal», o avéstico pasu- «gado, animal pequeno», o latim pecū «gado», o alto-alemão antigo fihu «gado» (gótico faihu «riqueza»)60.
O lituano pėkus ocorre com frequência em textos antigos. Como mostra o fichário do dicionário acadêmico da língua lituana, ainda há relativamente pouco tempo essa palavra era corrente nos arredores de Švenčionys. Atualmente, o lituano pėkus continua vivo apenas nas ilhas linguísticas lituanas da RSS da Bielorrússia (Zietela). Nos arredores de Švenčionys também foi registrada a forma pėkas, usada não só no sentido de «gado», mas também, figuradamente, no sentido de «tolo».
Este nome de gado também está bem preservado nos monumentos da língua prussiana: nos catecismos, registrou-se cinco vezes a forma do acusativo singular pecku e duas vezes a forma do mesmo caso peckan61.
Antigamente, alguns linguistas, entre eles K. Būga, consideravam germanismos esses nomes de gado das línguas bálticas. Segundo K. Būga, os prussianos receberam sua palavra dos godos, e ela chegou também à língua lituana através dos prussianos62. A principal razão para o surgimento dessa opinião era o fato de que, nas formas bálticas desta palavra, aparece k em lugar do esperado (š)s. No entanto, nas línguas bálticas, a velar também aparece em lugar da sibilante esperada em outras palavras, que ninguém tenta considerar empréstimos63. Ao defender a origem não emprestada do lituano pėkus, E. Hermann apoiou-se sobretudo na especificidade do significado da palavra («gado, animal pequeno, ovelha»)64.
O indo-europeu *peku- «gado» não se conservou em letão, e tampouco há vestígios desta palavra nas línguas eslavas.
Na língua lituana, usa-se bastante um nome de gado próprio desta língua, associado ao verbo kėlti65: kėlta, kėltai (forma plural), kėltava, kėltuva, keltuvà, kėltos «manada de vacas», kėltuvė «vaca», keltuvė, kėltuvės «gado, rebanho». Às vezes, a palavra kėltuva também é usada no sentido geral de animal, inclusive de animal doméstico
58 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 64; EM, I, p. 348; K. Alminauskis, Die Germanismen des Litauischen, Kaunas, 1934, p. 37; J. Sehwers, Sprachlich-kulturhistorische Untersuchungen, p. 20.
59 F. Kluge, Et. Wb., p. 110; J. Pokorny, Et. Wb., p. 120–121; C. D. Buck, Dict., p. 154.
60 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 564; J. Pokorny, Et. Wb., p. 797; F. Kluge, Et. Wb., p. 822.
61 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 392.
62 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 85, 86; III, p. 496, 897.
63 E. Fraenkel, Die baltischen Sprachen, Heidelberg, 1950, p. 13–18.
64 E. Hermann, AfslPh, 40, p. 161; Chr. S. Stang, Vergleichende Grammatik der baltischen Sprachen, Oslo–Bergen–Tromsö, 1966, p. 93; J. Otrębski, Die Sprache, 12, p. 50–51.
65 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 238.
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com o significado de “ave” (cf. Kėltuvos “vacas, cavalos, ovelhas, porcos, gansos”, K. Būga (Ad.), Ožka negadna kėltuva etc.) (LKŽd., V, 530–1, 551–2). A forma kėltuva também é usada com o significado de “grupo de gado, rebanho”. Os nomes de gado mencionados são usados nos dialetos orientais do lituano, bem como em alguns textos antigos; por exemplo, K. Širvydas usa com bastante frequência a forma kėltuva, que também ocorre nos escritos de M. Mažvydas e J. Bretkūnas.
A palavra galvijas “animal (geralmente doméstico, bovino); fera” também é exclusiva do lituano. V. Machek, como vimos, tentou relacionar o lituano galvijas ao eslavo gov- (russo говядо etc.) e ao alemão Kalb “bezerro”. Contudo, é difícil fundamentar tal relação: o significado lituano de galvà, “uma pessoa ou um animal individual” (cf. Karvių su telyčiom peržiem aštuonios galvos reiks išliūobti, LKŽd., III, 79), mostra que galvijas não pode ser separado de galvà; cf. pekui galvui, da Postila de Wolfenbüttel, e também o alemão so und soviel Haupt Rindvieh66.
O letão luõps “gado, animal”, que é inteiramente isolado tanto nas línguas bálticas quanto nas eslavas, tem um correspondente em albanês: alb. lopë “vaca”. Trata-se de uma das poucas isoglossas lexicais entre as línguas bálticas e o albanês. Também se tenta relacionar a essas palavras o alemão suíço loobe, lioba “vaca”67. Contudo, essas formas também podem ser designações da vaca surgidas mais recentemente e de uso restrito.
J. Mikkola tentou derivar o letão luõps de *lampas, relacionando este último ao gótico lamb “cordeiro”68. No entanto, parece-nos mais plausível relacioná-lo ao alb. lopë “vaca”.
Provavelmente também deriva do letão luõps o lituano lūopas “pessoa desajeitada, bronca, tola” (LKŽd., VII, 692).
O significado de “gado” do lituano lopas encontra-se nos escritos de S. Daukantas (LKŽd., VII, 648), onde a palavra entrou, sem dúvida, do letão.
Muito obscuro e isolado no léxico da pecuária das línguas bálticas é o nome prussiano da vaca klente (entrada 673 do glossário de Elbing), clynth (entrada 4 do glossário de Grunau). Em ambos os monumentos da língua prussiana, está registrado com o significado de “vaca”69. Além disso, esse nome da vaca parece ter deixado vestígios também na toponímia prussiana; cf. o topônimo Clynteyne, < pr. clynth + suf. -ein70. Assim, a autenticidade do referido nome prussiano da vaca não deixa dúvidas.
A origem do prussiano klente tem sido explicada de maneiras bastante diversas.
A. Bezzenberger relacionou o prussiano klente (que, em sua opinião, provém de *tlentē) ao gr. πτέλας “varrão” e ao lituano tėl̃ias71.
L. Geitler relacionou o nome prussiano da vaca ao russo кляча (< *кле́тя) “cavalo magro, égua ruim”72. J. Mikkola também concordou com o linguista tcheco73.
A. Brückner derivou o prussiano klente do polonês klępa “vaca velha”74; cf. também o esloveno klęka “vaca magra, cavalo ruim”.
A etimologia de A. Bezzenberger parece ser a menos convincente.
66 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 132.
67 EM, II, p. 528; J. Pokorny, Et. Wb., p. 654.
68 J. Mikkola, BB, 21, p. 219–220.
69 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 360.
70 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 66, 233.
71 A. Bezzenberger, BB, 27, p. 176.
72 L. Geitler, Litauische Studien, Prag, 1875, p. 65.
73 A. Mikkola, AfslPh, 39, p. 12.
74 A. Brückner, AfslPh, 20, p. 504.
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Outros pesquisadores, ao explicarem a origem do pr. klente, talvez estejam no caminho certo.
Parece-nos que tal denominação da vaca na língua prussiana pode ter surgido na própria língua prussiana a partir de um verbo correspondente, não atestado, porém, nos monumentos dessa língua; compare o lituano klẽnkti «andar com dificuldade, penosamente», o letão klencēt. Nas línguas eslavas, a partir de um verbo da mesma raiz — cf. russo клякать «tropeçar», eslavo antigo klẽčati, esloveno klẽkati «tropeçar, oscilar, manter-se com dificuldade» etc.75 —, também surgiram independentemente denominações correspondentes para o animal. De todos os animais domésticos, é justamente a vaca que se caracteriza pela marcha lenta e pesada.
Assim, as três línguas bálticas têm denominações diferentes para a vaca. O letão conservou a denominação mais antiga. Nas línguas lituana e prussiana, essa denominação, correspondente ao letão giòvs, foi substituída por uma mais recente (lituano kárvė, prussiano curwis). Na língua prussiana, a denominação da vaca correspondente ao lituano kárvė provavelmente não se firmou porque a palavra dessa raiz era usada no sentido de «touro».
Nas línguas bálticas há muitos nomes diferentes para o gado, sobretudo para a vaca, relacionados a alguma característica desse animal; encontramos muitos desses nomes especialmente nos dialetos letões. O grupo mais numeroso está ligado à cor correspondente do animal.
Letão aûbe «uma vaca com a cabeça branca» (EH, I, 183), cf. letão aûbe «touca» < alemão Haube76.
Letão bale «nome de uma vaca branca» (EH, I, 200), cf. letão bāls «pálido, descorado».
Letão bāltaste «nome de uma vaca com a cauda branca» (EH, I, 201) < bālts+aste «cauda».
Letão bāltkāja «nome de uma vaca com as pernas brancas», baltkājena (EH, I, 202) < bālts+kāja «perna».
Letão bāltāna «um nome de vaca», baltanīte (EH, I, 202) < bālts+sānis «lado».
Letão bęnga «nome de uma vaca malhada» (EH, I, 212), cf. letão bęngulis «(como termo carinhoso) uma criança»?
Letão brūklene «nome de uma vaca castanho-avermelhada» (EH, I, 246), cf. letão brūkle, brūk-lene «a baga-de-urze, airela (vaccinium vitis idea); por causa de sua cor vermelha, é frequentemente comparada a meninas de faces rosadas».
Letão brūnala «uma vaca marrom», brūnala, brūnale, brūnuļa, brūnava, brūne, brūnce (EM, I, 341; EH, I, 245, 246), brūnķe «designação depreciativa para uma vaca marrom» (EH, I, 245), cf. letão brūns «marrom» < cf. baixo-alemão brün77.
Let. ciēlava «nome de vaca; uma vaca de cabeça branca» (EH, I, 277), cf. let. ciēlava «alvéola-amarela».
Let. ciruole «uma vaca de cabeça branca» (EM, I, 392), cf. let. cīrulis «cotovia», cirulgalvas «grandes flocos de neve» (EM, I, 392).
Let. drīzala «um nome de vaca (a listrada?)» (EH, I, 335), cf. let. drīzena «um raio», drīksnains «radiante, riscado». Se o significado deste nome de vaca não fosse «a listrada», também poderia ser relacionado com let. drīzs «rápido», cf. let. drīzuļi «frutos de maturação precoce».
75 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 576.
76 J. Sehwers, Sprachlich-kulturische Untersuchungen, p. 4.
77 J. Sehwers, ibid., p. 19.
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Let. dūkala «nome de uma vaca castanho-escura», dūkale, dūkala, dūkana, dùkaṇa, dùce «uma vaca castanho-escura com cabeça preta; nome de uma vaca cinzenta» (EM, I, 523; EH, I, 345, 346), cf. let. dūkans «castanho-acinzentado».
Let. dūmala «uma vaca escura, castanho-escura, uma vaca vermelha de cabeça castanha», dumala «uma vaca castanho-escura», dùmula (EM, I, 514, 527, 528; EH, I, 347, 348), cf. let. dūmals «cor de fumo, cinzento-escuro».
Let. gulbene «nome de uma vaca branca» (EH, I, 416), gūlbis (EM, I, 676), cf. let. gūlbis «cisne».
Let. īrbe «nome de uma vaca finamente mosqueada» (EH, I, 431), cf. let. īrbe «perdiz».
Let. juosle «uma vaca branca, com as partes dianteira e traseira escuras» (EH, I, 571), cf. let. juōslains «listrado», juōslene «um porco com uma faixa semelhante a um cinturão em volta do meio do corpo» (EM, II, 127).
Let. kruonala «nome de uma vaca vermelha (escura); nome de uma vaca», kruōnula, krùonale, krùonala (EM, II, 295; EH, I, 664), cf. let. kruōnis «a coroa; a grinalda» < ver também o dialetal. lituano krōne78.
Let. krustala «nome de uma vaca», krustala (EM, II, 288; EH, I, 660), cf. let. krusts «a cruz».
Let. kūtala «uma vaca com uma faixa branca no dorso», kūtala (EM, II, 393; EH, I, 709), cf. let. kūtāins «listrado (diz-se do gado)» < est. küüt «listrado; animal com uma faixa branca no dorso» (EM, II, 393).
Let. làuce «uma vaca com uma mancha branca na testa», làučā, lauka, làukala, làukala, làukàża, laùcika (EM, II, 425, 426; EH, I, 722), cf. let. làuks «com uma mancha branca na testa».
Let. màntale «nome de uma vaca preta» (EH, I, 782), cf. let. mañdala «nome de uma vaca que pariu numa segunda-feira» (?).
Lat. māralina “nome de uma vaca” (…a que era malhada — raibalina, a que era vermelha — māralina…), mārala (EM, II, 583; EH, I, 792), cf. letão mārani “erva vermelha com que se tinge de vermelho” (EH, I, 792).
Lat. melle “uma vaca preta”, melne, mellika, meļļuža, mellene (EM, II, 596; EH, I, 798), cf. letão meļns “preto”.
Lat. mice “nome de uma vaca de cabeça branca”, mička (EH, I, 811), cf. letão mice “um gorro feminino; um gorro em geral”, mička < compare o lituano samogiciano müttse.
Lat. mugrina “nome de uma vaca com o dorso de cor diferente” (EM, II, 661), cf. mugura “o dorso”.
Lat. mustala “uma vaca de lábios pretos; vaca com a cabeça mais escura (castanho-escura)”, mustala “vaca de focinho escuro”, mustika “uma vaca preta” (EM, II, 672; EH, I, 835), cf. letão mustis “um cão preto”, < estónio must “preto”, livónio mustā. A forma mustika deriva do estónio mustik (EH, I, 835).
Lat. nakča “nome de uma vaca preta”, naktala (EH, II, 3), cf. letão nakts “a noite”.
Lat. pālne “nome dado a vacas cinzentas como cinza” (EH, II, 152), cf. letão pēlni “a cinza”, palss “pálido” (?).
Lat. pālse “nome de uma vaca baia” (EH, II, 152), cf. letão palss “baio”.
Lat. plaṇke “uma vaca branca com as partes dianteiras e traseiras pretas ou vermelhas; uma vaca malhada de preto ou uma vaca preta com a região inguinal branca; uma
78 J. Sehwers, ten pat, p. 59.
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“vaca malhada ou vaca de cabeça branca” (EH, II, 283), cf. letão plaṅks «malhado» (EM, III, 319), plaṅkene «um pano colorido» (EH, II, 283).
Letão punika «nome de uma vaca castanha» <est. punik «vaca vermelha» (EM, III, 413).
Letão raibe «uma vaca malhada», raibala, raibala, raibala, raibala, raìbala, raibula, ràibula, raibule, raibulīte, raibelīte, raibalīte, raibele, raibene, ràibale, raibuolina-reibulīte (EM, III, 467, 468, 505; EH, II, 350), cf. letão rāibs «malhado, manchado, mosqueado».
Letão raicka «uma vaca malhada», raiča (EM, III, 469; EH, II, 351) também deve provavelmente ser relacionado aos nomes que acabaram de ser enumerados.
Letão rāine «nome de uma vaca» (EH, II, 351), cf. letão raìns «malhado, listrado».
Letão salnika «uma vaca de cor cinzenta-azulada» (EM, III, 675), cf. letão salns «de cor cinzenta-azulada».
Letão sāntala «nome de uma vaca preta», santene «nome de uma vaca» (EH, II, 433–4), cf. letão sants «o veludo».
Letão sārke «nome de uma vaca (vermelha, castanha)», sārke, sārkene «nome de uma vaca vermelha», sarkane, sarkala, sarče «uma vaca castanha» (EM, III, 722; EH, II, 441, 443), cf. letão sarks «ligeiramente avermelhado».
Letão sārtala «nome de uma vaca», sārtala, sārtite «nome de uma vaca vermelha» (EM, III, 807; EH, II, 473), cf. letão sārts «vermelho».
Letão sārmule «uma vaca cinzenta» (EH, II, 444), cf. letão sārma «a geada».
Letão sēmale «uma vaca cinzenta-clara» (EH, II, 481), cf. letão *šēms «cinzento-claro com manchas pretas».
Letão sīrmala «uma vaca cinzenta», sirmala, sirmula, sirmule (EM, III, 846, 847; EH, II, 488, 489), cf. letão sīrms «cinzento».
Letão sīrsniņa «nome de uma vaca com uma mancha em forma de coração na testa» (EH, II, 489), cf. letão sirds «o coração».
Letão skudre «vaca preta», skudrite, cf. letão skudre «a formiga»⁷⁹.
Letão slauna «nome de uma vaca preta; vaca malhada; vaca suja; vaca com os flancos vermelhos e brancos ou pretos e brancos», slāune «uma vaca com o ventre branco; uma vaca preta com o ventre branco; uma vaca com os flancos brancos»; slāunala «vaca malhada», slāunene «nome de uma vaca», slaunike, slaunuža, slaunīs «uma vaca com o ventre e os flancos malhados», slaure «uma vaca manchada», šļaune «uma vaca malhada nas ancas ou nas coxas», šļāune (EM, III, 919, 220; IV, 67; EH, II, 521, 522), cf. letão slauns «malhado nas ancas ou nas coxas, mosqueado», šļāuns.
Letão sniedze «nome de uma vaca branca» (EM, III, 977), cf. letão sniegs «a neve».
Letão spīdala «nome de uma vaca de pelo brilhante», spīdala «um nome de vaca» (EM, III, 1000; EH, II, 552), cf. letão spīdēt «brilhar».
Letão stripala «nome de uma vaca listrada» (EM, III, 1092), cf. letão stripā «a listra».
79A formiga também é associada à vaca em várias crenças populares letãs, cf.:
«Tenho apenas uma vacazinha, Dei-lhe o nome de Formiguinha, Que as bezerras se multipliquem Como as formiguinhas no formigueiro» (LD, 28960).
«Costumam fazer as vacas dar três voltas em torno de um formigueiro antes de as levar ao mercado para vender, na esperança de que assim haja muitos compradores, como formigas» (J. Alūnāns, Mājas Viesis, 1857, 270) e outros; cf. P. Šmits, Latviešu tautas ticējumi, p. 551.
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Letão škūtala «nome de uma vaca cujo dorso tem cor diferente da do resto do corpo» (EH, II, 641), cf. letão skūt «barbear» (?).
Letão trese «nome de uma vaca que tem uma mancha branca (trese)» (EM, IV, 231), cf. letão trese «a mancha branca».
Letão tūmšsārke «a vermelho-escura» (dito de uma vaca) (EM, IV, 263), cf. letão tūmšsārkans «vermelho-escuro».
Letão ūbele «uma vaca cinzenta» (EM, IV, 403), cf. letão ūbels «cinzento-escuro».
Letão uōgra «nome de uma vaca preta» (EH, II, 743), cf. letão uōgle «o carvão» (?).
Letão vabule «nome de uma vaca preta; nome de uma vaca castanha», vabuole, vabala «nome de uma vaca preta» (EM, IV, 428; EH, II, 746), cf. letão vabule «o besouro»⁸⁰.
Letão valgīs «um boi branco» < estónio valgu (EM, IV, 455).
Letão zale «uma vaca castanho-avermelhada» (EM, IV, 684; EH, II, 800), cf. letão zals «amarelo-avermelhado».
Letão zeltere «?» (guosniņas – uma é zale, a outra zeltere) (EM, IV, 705), cf. letão zēlts «o ouro», zeltenes «um arbusto de flor amarela».
Letão ziēdala «nome de uma vaca malhada», ziēdala, ziēdala, ziēdele, ziēča, ziēdaine, ziēduone (EM, IV, 737, 738; EH, II, 810, 811), cf. letão ziēds «a flor».
Letão zile «nome de vaca», zilene «uma vaca azul», ziluža «uma vaca cinzenta (?)» (EM, IV, 719, 721; EH, II, 806), cf. letão zils «azul».
Letão zīmala “uma vaca com uma marca (na testa)”, zimala, zīmala, zīmala, zīmala, zīmala, zīmala, zīmala, zīmēle, zīmule, zīmala, zīmālite, zīmāle, ziemala (EM, IV, 734, 735, 736, 742; EH, II, 810), cf. letão zīme “o sinal”. A forma ziemala pode também ter outra origem, cf. letão ziema “o inverno”.
Letão zvaigala “uma vaca com uma mancha branca em forma de estrela na testa”, zvaigale, zvaigala (EM, IV, 761; EH, II, 813, 814), cf. letão zvaigzne “a estrela”.
Na língua letã, são amplamente usados nomes de vacas derivados da designação do dia ou, em geral, do período em que a vaca nasceu⁸¹. Nomes dessa origem são alheios à língua lituana. Encontram-se nas línguas eslavas, cf. russo полднёха, вечареха, вторёха, понеделка, baixo-sorábio pónžela⁸², mas são usados com muito menos frequência do que os nomes de vacas semelhantes da língua letã.
Letão cẹtala “nome de uma vaca que nasceu na quinta-feira”, cẹtalina, cẹtala, cẹtula, cẹture, cẹturtale, cẹtuža, cẹkula “designação de uma vaca que nasceu na quinta-feira ou que tem uma marca na testa”, cẹkula, cẹkule, cẹkata, cẹka “uma vaca nascida na quinta-feira” (EM, I, 368, 376, 409; EH, I, 262, 267), cf. letão cẹtūrtais “o quarto”, cẹtūrtdiena “a quinta-feira”.
Letão dienala “uma vaca que nasceu durante o dia” (EM, I, 483), cf. letão diena “o dia”.
Letão laūnadżite “uma vaca que nasceu por volta da época do launags” (EH, I, 723), cf. letão laūnags “o meio-dia”, laūnadżite “a menina que nasceu por volta da época do launags”.
Letão maņdala “nome de uma vaca que nasceu na segunda-feira”, maņdala, maņčka, mandža, maņčka, maņdža (EM, II, 560; EH, I, 782, 783), cf. alemão Montag.
⁸⁰ P. Šmits, Latviešu tautas ticējumi, p. 550.
⁸¹ P. Šmits, ibid.
⁸² О. Н. Трубачев, Происхождение…, p. 46.
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Lat. mārika «nome de uma vaca nascida no dia de Santa Maria» (EH, I, 792), cf. let. Māra «a Virgem Maria; padroeira das vacas»83.
Lat. pirmala «uma vaca nascida numa segunda-feira», pirmala, pirmaliņa, pirmula, pirmuža (EM, III, 225, 227; EH, II, 237), cf. let. pirmais «o primeiro», pirmdiena «a segunda-feira».
Lat. piektala «nome de uma vaca que pariu numa sexta-feira», piektala, piektuļa, piektuža, piekūža, piekala, piekča (EM, III, 260, 261; EH, I, 253, 254, 256), cf. let. piektis «o quinto», piektdiena «a sexta-feira».
Lat. pustala «nome de uma vaca nascida num sábado (pussvēta)», pustuža (EM, III, 435; EH, II, 334), cf. let. pussvēta «o sábado».
Lat. rītala «nome de uma vaca que pariu de manhã», rītala, rītula (EM, III, 540, 541; EH, II, 377), cf. let. rīts «a manhã».
Lat. sestala «nome de uma vaca nascida num sábado», sestala, sestuļa, seška, šeške, sestika (EM, III, 820, 821; EH, II, 478, 479), cf. let. sestais «o sexto», sestdiena «o sábado».
Lat. svētala «nome de uma vaca que pariu num domingo», svētala, svētula, svētula, svētuža (EM, III, 1154, 1157; EH, II, 616), cf. let. svēts «sagrado», svētdiena «feriado; domingo».
Lat. trešala «nome de uma vaca nascida numa quarta-feira», trešala, trešele, treška, treške, trešula, trešula, treštala, trese (EM, IV, 231, 232; EH, II, 693), cf. let. trešais «o terceiro», trešdiena «a quarta-feira».
Lat. uotraļa «nome de uma vaca que pariu numa terça-feira», uotruļa, uortuļa, uotala, uōtala, uōtala, uōtala, ūtala (EM, IV, 423, 424, 426; EH, II, 741, 743, 744, 745), cf. let. uōtrs «o outro, o segundo», uōtrdiena «a terça-feira».
Lat. vakare «nome de uma vaca que pariu à noite» (EM, IV, 447; EH, II, 751), cf. let. vakars «a noite».
Em letão há também muitos nomes de vacas de uso mais ou menos restrito, associados a alguma característica física deste animal, ao seu comportamento, à ordenha, etc.
Lat. briedale «nome de uma vaca com chifres altos e pontiagudos», briedaļa, briēdele (EH, I, 243), briēdala «uma vaca de pelagem cinzenta semelhante à do alce», briedule (EM, I, 336, 337), cf. let. briēdaļa «a fêmea do alce», briēdis «o alce»84.
Lat. pipaste «uma vaca de cauda curta» (EH, II, 235), cf. let. pipis «a esquina, a ponta de um saco de cereais; o órgão sexual masculino» (+aste «a cauda»).
Lat. puškala «nome de uma vaca que tem um tufo de pelos entre os chifres» (EH, II, 336), cf. let. puškains «franjado».
Lat. radze «uma vaca com chifres», raguolite «a vaca», stāvradze «um nome de vaca» (EM, III, 463; EH, II, 350, 574), cf. let. rags «o chifre».
Lat. sīkala «um nome de vaca», sikala «uma vaca com pequenas manchas; um nome de vaca» (EM, III, 851), cf. let. sīks «pequeno, insignificante», sikaļa «uma rapariga de baixa estatura».
Letão staltēne «nome de uma vaca corpulenta e bem alimentada» (EM, III, 1042), cf. letão stalts «corpulento, vistoso».
83 K. Straubergs, Latviešu buramie vārdi, I, Rīgā, 1939, p. 397–402.
84 P. Šmits, Latviešu tautas ticējumi, p. 550.
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Letão żemala «nome de uma vaca (de pernas curtas); žema guovs», žemala, žemula, žemlūze «uma vaca de patas baixas (curtas)», zemlūza «uma vaca de orelhas largas como pás» (EM, IV, 707, 712; EH, II, 805), cf. letão žems «baixo».
Letão barvede «uma vaca que costuma ficar à frente do rebanho» (EH, I, 206), cf. letão barvedis «o primeiro ceifeiro, o líder».
Letão blānde «uma vaca que costuma afastar-se do rebanho» (EH, I, 226), cf. letão blāndīties «vaguear».
Letão dīkuļa «uma vaca que muge baixinho» (EH, I, 326), cf. letão dīkuļōt «chorar alto repetidamente».
Letão dūķna «uma vaca que muge com frequência (baixinho)» (EM, I, 525), cf. letão dūkt «ressoar oco, zunir».
Letão duša «chamamento tranquilizador dirigido às vacas durante a ordenha, interpretado como nome de uma vaca», duše, dušina (EH, I, 345), cf. letão duš «chamamento às vacas».
Letão ellīka «designação de uma vaca indomável» (EH, I, 368), cf. letão elle «o inferno» < compare-se o vocábulo da Livónia helle (EM, I, 568).
Letão graule «a vaca que graulē», grāule (EM, I, 639), cf. letão graulēt «comer devagar, de boca cheia».
Letão idāla «uma vaca que muge» (EH, I, 499), cf. letão īdēt «mugir baixinho».
Letão kruva «uma vaca inquieta» (EM, II, 291), cf. letão krūtīes «impor-se».
Letão kuodala «uma vaca mordedora» (EM, II, 340), cf. letão kuōdīt «morder repetidamente».
Letão mīstāvniča «uma pessoa ou vaca inquieta» (EH, I, 822), cf. letão mistīt «quebrar o linho (propriamente, pisar repetidamente)».
Letão rāmala «nome de uma vaca» (EM, III, 496), cf. letão rāms «manso, quieto».
Letão ramūle «uma vaca» (EM, III, 476), cf. lituano rambūs «lento» (?).
Letão spārdala «uma vaca que dá coices» (EM, III, 980), cf. letão spārdīt «dar repetidamente coices violentos, escoicear (dos cavalos)».
Letão zibsna «uma vaca que abana rapidamente a cauda» (EM, IV, 717), cf. letão zibsīt «fazer brilhar, cintilar».
Letão žauga «uma vaca que, repetidamente, sai do rebanho e vai para o cereal, salta valas, etc.», žaukle «uma vaca que brinca», žāuste «uma vaca brincalhona», žāusteve «uma vaca que às vezes faz o papel de um boi» (EM, IV, 790, 791, 792; EH, II, 817), cf. letão žauties «trepar, cair, precipitar-se», žautava «uma rapariga que costuma andar pela vizinhança e brincar com os rapazes».
Letão žņerga «uma vaca que não quer comer como deve ser» (EM, IV, 825), cf. letão žņerģāt «ser esquisito com a comida, comer sem apetite».
Letão agraine «vaca que é ordenhada cedo» (EH, I, 4), cf. letão agrs «cedo».
Letão atdiene «uma vaca que pare já no segundo ano; uma vaca jovem que ainda não dá leite», atdienīte, a(t)daine (EM, I, 154; EH, I, 139), cf. letão dēt «mamar», lituano pirmdēle «uma vaca que pariu pela primeira vez», sânscrito dhāyati «mama» (EM, I, 154, 465). Nome de vaca de origem muito antiga.
Letão ciētala «uma vaca que fica sem dar leite durante bastante tempo» (EH, I, 278), cf. letão ciēts «duro», cf. guovs cieta slaukt «difícil de ordenhar».
Letão garpiēna guovs «uma vaca que fica sem dar leite durante mais tempo (do que o habitual)» (EH, I, 386), cf. letão gars «longo» + piēns «o leite».
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Lat. pārslaucene «uma vaca que, após uma única cobrição, dá leite durante dois anos consecutivos», pāršlaucine (EM, III, 176; EH, II, 211); compare lat. pāršlàukt «ordenhar mais uma vez».
Lat. pil(n)piēne «uma vaca que começou há pouco a dar leite» (EM, III, 216); compare lat. pilns «cheio» + piēns «o leite».
Lat. pirm pien e «uma vaca que começou a dar leite pela primeira vez», pirmpiena (EM, III, 227; EH, II, 238); compare lat. pirmais «o primeiro» + piēns «o leite».
Lat. riētala «nome de uma vaca (que dá muito leite)», riētaliņa, riētala, riēča «nome de chamada para vacas» (EM, III, 544, 549; EH, II, 379); compare lat. riētēt «tornar-se mais cheio; afluir», guovs neriet «a vaca não dá leite».
Lat. semilše (??) «uma vaca que não voltou a dar leite» (EM, III, 816).
Lat. vadala «vaca que esteve prenhe» (EM, IV, 429); compare lat. vadāt «estar grávida, prenhe».
Lat. ciemala «nome de uma vaca», ciemala «nome de uma vaca comprada ou trazida de outra quinta», ciemuļa (EM, I, 393; EH, I, 277); compare lat. ciems «a propriedade rural, a aldeia».
Lat. pirceniša «uma vaca comprada» (EH, II, 236); compare lat. pirkt «comprar».
Lat. blūzga «uma vaca desleixada, um cavalo desleixado» (EM, I, 319); compare lat. blūzēt «ser desleixado».
Lat. kabele «nome carinhoso para vacas e éguas» (EH, I, 572); compare lat. kabele «uma égua velha e magra» <rus. кобыла (EM, II, 129).
Lat. kaika «uma vaca magra e feia, de pernas longas, ou um cavalo ou uma ovelha semelhantes» (EM, II, 132); compare lat. kaikt «choramingar, fazer algo desajeitadamente», kaikaris «um indivíduo andrajoso; uma égua de carga».
Lat. kandava «uma vaca grande e magra» (EM, II, 154); compare lat. kañdavāt «chicotear, espancar; bater estrondosamente em algo durante um trabalho, sem contudo trabalhar seriamente» (?).
Lat. kocala «termo depreciativo para uma vaca» (EH, I, 637); compare lat. kocis «um saco pequeno» (?).
Lat. kranka «uma vaca fraca e magra» (EM, II, 259); compare krānkāins «magro (de animais); de pelo eriçado». J. Endzelīnas tende a relacionar o lat. kranka com o alemão krank «fraco».
Lat. kvęp̄pa «um animal grande e gordo (por exemplo, uma vaca)» (EH, I, 690); compare lat. kvempis «um leitão gordo e roliço ou uma criança assim».
Lat. mitala «nome de uma vaca ou égua ruim» (EM, II, 648) provavelmente deve ser relacionada com o lat. mīt ene «couro curtido» ou com o lat. mīt «trocar». Para esta última relação, compare o lat. mītenis «um cavalo obtido por troca; uma égua de carga» (EM, II, 649).
Lat. pūpala «um nome de vaca», pūpalina «termo carinhoso para vacas» (EM, III, 448); compare-se o letão pūpūols «o amentilho do salgueiro; também usado no feminino como termo carinhoso».
Lat. skrepstīte «uma vaca magra» (EM, III, 891); compare-se o letão skreblis «um homem velho e debilitado», skreble «uma solteirona ou mulher velha», skrebulis «um casaco de pele velho».
Let. mūja «a vaca (na linguagem infantil)», mūmiņa (EM, II, 678) — nomes de origem de vogal longa.
Let. nūža «uma vaca» (EM, II, 755; EH, II, 29); compare-se o letão nūž «interjeição usada para acalmar as vacas».
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Let. tprucina «nome carinhoso para uma vaca», tpruka, tprušina, tprutala, tprutaliņa (EM, IV, 216, 217; EH, II, 689); compare-se o letão trū «interjeição usada como chamado para as vacas».
Let. àrkalė «um nome de vaca» (EH, I, 129); compare-se o letão arkulītis (?), cf. mazākais brālis, kuru sauca par arkulīti (?).
Let. dolkata «nome de uma vaca» (EM, I, 488); compare-se o letão dalkata «um tagarela», dolkata. Palavras de origem incerta.
Let. jurika «o nome de uma vaca, žemkājīte» (EM, II, 120); compare-se o letão Juris «Georg», Jura diena «dia de São Jorge», jurītis «uma pessoa débil e simplória; tabaco de má qualidade; o lobo» (?).
Let. maile «um nome de vaca» (EH, I, 777); compare-se o letão maile «o peixe-branco» (?).
Let. pugala «um nome de vaca» (EH, II, 321); compare-se o letão puga «um botão», pugulains «arredondado, saliente, em forma de botão», pugažiņa «uma mocinha» (?).
Let. purala «um nome de vaca», puralina (EM, III, 416; EH, II, 327); compare-se o letão purene «calta», purainīte (?).
Let. rege «um nome de vaca» (EH, II, 363) é uma palavra de origem incerta.
Let. rīgala «nome de uma vaca» (EM, III, 536) é uma palavra de origem incerta, talvez relacionada com o letão Rīga «Riga».
Nas variedades dialetais do lituano, os nomes de vacas mais difundidos estão relacionados com a cor do animal:
Lit. balnė, bálnė, balnugàrė, balgalvė; compare-se o lituano bálnas «branco, com o dorso branco (referente a um touro ou a uma vaca)».
Lit. baltóji, baltė, baltūika, baltmairgė, baltasnikė, baltakaktė, baltazūbė, balkójė; compare-se o lituano báltas «branco».
Lit. blizgė, cf. lit. blizgėti.
Lit. būròji, būrùtė, cf. lit. būras «malhado, cinzento» < pol. bury, bielorrusso буры.
Lit. ciėkė, ciekkākė (LKŽd., II, 13), cf. lit. ciėkis «sinal, mancha» < al. zechen «Zeichen, marca para os cavalos»⁸⁵.
Lit. cinkė, cinkakaktė (LKŽd., II, 22), cf. lit. cinkas «malhado de pintas miúdas, com pequenos pontinhos».
Lit. čėkė (LKŽd., II, 41), cf. lit. čėkas «malhado», cf. al. zächen «Zeichen».
Lit. čirvė, cf. lit. čirvas «naipe de cartas, copas, ouros».
Lit. degùtė «vaca preta», cf. lit. degùtas.
Lit. dūmė, dūmė «vaca de cor escura» (LKŽd., II, 590), cf. lit. dūmas «da cor da fumaça».
Lit. dvylė, dvylóji, dvylūtė, dvylka, dvylmargė, dvylaušė, cf. lit. dvylas «avermelhado-escuro, castanho-avermelhado».
Lit. juodóji, júodė, juõdė, júočkė, júodenka, juodùtė, juodõlė, juodoika, juodìlė, juodùlė, juodzénkė, juodbalte, júodmargė, juodmárgė, juodmàrgė, juodžalė, juodaušė, juodšõnė, juodarágė, juodnugàrė, cf. lit. júodas.
Lit. kéršė, keršóji, kéršmargė, kéršlaunė, cf. lit. kéršas «preto mesclado com branco, malhado, listrado».
Lit. laũkė, laukóji, laukkaktė, laukakaktė, cf. lit. laũkas «animal de focinho branco ou com a testa branca».
85 K. Alminauskis, Die Germanismen des Litauischen, p. 40.
10. Baltų ir slavų kalbų ryšiai
145
Lituano margóji, márge, márge, margùtė, margùlė, cf. lituano márgas.
Lituano pálšė, palšóji, cf. lituano pálšas «cinzento-claro».
Lituano pelėkė, cf. lituano pelėkas «da cor do pelo de rato».
Lituano pilkė, pilknugùrė, pilksmiltė; cf. lituano pilkas.
Lituano raūdė, cf. lituano raūdas.
Lituano šėmoji, šėmė, šėmutė, šėmargė, šėmargė, cf. lituano šėmas «cinzento-claro, azulado (geralmente a respeito do gado)».
Lituano vābuolė «vaca preta» (Šakyna), cf. lituano vābalas, dial. vābuolas. Os lituanos podem ter tomado emprestado este nome de vaca também do letão, onde é especialmente comum chamar assim uma vaca preta86.
Lituano žalóji, žalė, žalė, žaliukė, žaliukė, žaliamargė, žalausė, cf. lituano žalas «avermelhado (a respeito do gado)».
Lituano žirnė «vaca cinzenta com pintinhas pretas», cf. lituano žirnis.
Lituano žvaigždė «tal nome de vaca», cf. lituano žvaigždė.
São bastante frequentes nomes lituanos de vacas derivados de vários nomes de plantas, especialmente de flores:
agràstė (cf. lituano agràstas), aguona, aguonė, avietė, bijūnė (cf. lituano bijūnas), dobilė, eglė, grūšė, grūšnė (cf. lituano grūšnė «pereira»), jazminė (cf. lituano jazminas), jurginė (cf. lituano jurginas), kanapė, kvietka, kvietkė (cf. lituano kvietka «flor»), lelija, lelijė, liepa, margarita (cf. lituano margarita «tal flor»), nastūrta, nastūrtka (cf. lituano nastūrta), pienė, ramùinė, ramùlė, razetė, rožė, rūtà, rūtė, serbenėte (cf. lituano serbenitas), slyvė (cf. lituano slyva), spañguolė, vaivōrė (cf. lituano vaivōrė «mirtilo»), vijuolė (cf. lituano vijuolė «violeta»), vyšnia, vyš nė, žalrūtė, žemčiūgė (cf. lituano žemčiūgas), žėmuogė, žibutė, žibė, žibkė.
Há nomes derivados de outros seres vivos, sobretudo de nomes de aves: cýrule (LKŽd., II, 28; cf. lituano cýru lis «cotovia»), gegùtė, genẽlis (cf. lituano genỹs), krėgždė, musýtė (cf. lituano mùšė), pémpė, stirna, šárka, šárkė, širšė, vijūnas.
Eis outros nomes de vacas, de várias origens:
Lituano gražūlė «vaca bonita» (LKŽd., III, 543), gražuolė, gražūlė, cf. lituano gražis.
Lituano kryžótė «vaca cujo pelo cresceu em cruz» (LKŽd., VI, 678), cf. lituano kryžius.
Lituano dūrklė “vaca que dá chifradas” (LKŽd., II, 641), cf. lituano dūrti.
Lituano stūmà “vaca pouco ágil”, cf. lituano stūmti.
Lituano rìeklė “vaca magra”, cf. lituano rìeklės “sarrafos para secar roupa ou lenha”.
Lituano berǧzdinė “vaca que está sempre estéril”, cf. lituano bergždžias.
Lituano žlibė, cf. lituano žlibas.
Lituano bùčké “vaca, tprukė” (LKŽd., I, 914), cf. lituano bùčki “interj. tpruk (chamando a vaca)”.
Lituano bùkšė “vaca, tprukė”, cf. lituano bùkšė “interj. tpruk (chamando a vaca)”.
Lituano bùbė “vaca (na linguagem infantil)” (LKŽd., I, 908), cf. lituano baūbti.
Lituano bùžė “vaca (na linguagem infantil)”, bùžė, bužiùkas “bezerro”, bužiùlis (LKŽd., I, 1005, 1006), cf. lituano buzà “buiza”.
Lituano švàika “vaca magra”, cf. alemão da Prússia Oriental schweike, alto-alemão antigo sweiga “rebanho de gado”87.
86 P. Šmits, Latviešu tautas ticējumi, p. 550.
87 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1037; E. Schwentner, IF, 70, p. 113.
146
Em geral, há muitos nomes de vacas tanto nos dialetos lituanos como nos letões. Alguns deles são usados de forma muito restrita, e há até nomes inteiramente individuais. A lista de nomes de vacas que apresentamos aqui está longe de ser completa, mas, ainda assim, reflete as tendências gerais de formação e uso dos nomes deste animal.
Um grupo específico de nomes de vacas — e, em geral, de bovinos — nas línguas bálticas é constituído pelas denominações de animais sem chifres88.
Ao concluir a análise das denominações dos grandes bovinos, cumpre constatar que, em geral, as línguas bálticas conservaram relativamente bem os seus antigos nomes indo-europeus desses animais. Contudo, as línguas bálticas individuais conservaram-nos de maneira desigual. Parte das línguas bálticas (lituano e prussiano) e as línguas eslavas têm em comum uma denominação da vaca de origem um tanto mais recente. As línguas bálticas e eslavas têm uma denominação do animal bovino jovem que lhes é própria. Tanto nas línguas bálticas como nas eslavas há numerosas denominações novas de grandes bovinos, características apenas desses grupos linguísticos ou de línguas individuais.
CAVALO
O cavalo doméstico (Equus caballus) descende de raças de cavalos selvagens. É provável que tenham existido vários centros de domesticação de cavalos selvagens: na Ásia Central, no sul da Sibéria e no leste da Europa. Cavalos de tipo mais leve podem ter descendido do cavalo selvagem Equus Przewalski1. Em 1879, o viajante russo N. Pševalskis encontrou cavalos selvagens desse tipo na Ásia Central. Até muito recentemente, também havia cavalos selvagens no leste da Europa. Por exemplo, em 1878, foi abatido na Ucrânia o último cavalo selvagem, o «tarpan» (russo: тарпан < quirguiz tarpan «cavalo selvagem»). Também houve cavalos selvagens dessa espécie na Lituânia2. No entanto, eles também podem ter descendido de cavalos domésticos que se tornaram selvagens, como aconteceu na América do Sul3. Foram encontrados vestígios de cavalos selvagens cuja natureza selvagem não suscita dúvidas nos territórios das atuais RSS da Estónia e da Letónia. Esses vestígios datam do VII ao II milénio antes da nossa era4. Os cavalos selvagens podem ter sido domesticados no V–IV milénio a. C., ou talvez ainda mais tarde, portanto depois dos outros animais domésticos aqui analisados.
A julgar pelos desenhos sumérios, poder-se-ia afirmar que os cavalos eram conhecidos na sua região desde meados do III milénio a. C.5. Outros investigadores tendem a situar o aparecimento do cavalo nessa região ainda mais tarde — no II milénio a. C.6
Na antiga Babilónia, os cavalos não eram criados, mas por vezes eram importados das regiões montanhosas vizinhas. O cavalo é mencionado pela primeira vez num texto religioso escrito em 2300 a. C. Os cavalos eram tão raros que nem sequer são mencionados no Código de Hamurábi. A partir de 1750 a. C., os cavalos difundiram-se amplamente nessa região7. Em versões posteriores de fragmentos de obras literárias babilónicas, ao lado de
88 A. Sabaliauskas, Da história da terminologia da criação de animais nas línguas bálticas, — «Problemas da linguística indo-europeia», Moscovo, 1964, p. 59–65.
1 C. Keller, A origem dos animais domésticos mais antigos, p. 93.
2 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, Aspectos da arqueologia da Lituânia, p. 110.
3 S. Mastaukis, Taikomoji zoologija, Kaunas, 1947, p. 697; K. Паавер, Формирование тернофауны и изменчивость млекопитающих Прибалтики в голоцене, p. 183.
4 К. Паавер, ibidem, p. 180–194.
5 M. Hilzheimer, Haustier, — M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, V, p. 220.
6 V. I. Avdijevas, História do Antigo Oriente, p. 43.
7 B. Meissner, Haustier, — M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, V, p. 221.
10*
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Além do boi, surge também outro animal de trabalho — o cavalo. Desse período data igualmente a fábula «A disputa entre o cavalo e o boi», em que os dois discutem a superioridade da sua raça8.
Os antigos egípcios terão conhecido os cavalos pela primeira vez quando tribos asiáticas, os «hicsos», invadiram o seu território. Com efeito, os hicsos já utilizavam carros de guerra nas suas campanhas. Os hicsos invadiram o Egito no fim do Império Médio e no início do Novo Império, entre os séculos XVIII e XVI a. C.9. Na crónica das campanhas do faraó Tutmés III (1525 — 1491 a. C.) na Síria, entre os demais despojos de guerra, destacam-se especialmente os cavalos, mencionados ao lado de «prisioneiros vivos», carros de guerra, ouro e prata10.
A criação de cavalos tinha especial importância para os hititas. Os cavalos são mencionados num dos mais antigos registos hititas, a inscrição do rei Anitta. As leis hititas do século XIV a. C. estabelecem que o roubo de um bovino de grande porte, de um cavalo ou de um carneiro era punido com uma multa quinze vezes superior ao valor do animal roubado11.
Na arte assíria antiga, nenhum animal doméstico é representado com tanta frequência como o cavalo12.
O cavalo também desempenhou um papel importante na Índia antiga. Era particularmente utilizado para fins militares, atrelado a carros de guerra. Durante as festas populares, organizavam-se corridas de cavalos13.
Nos poemas de Homero, alguns heróis — reis — dedicam-se à criação de cavalos com especial prazer. Homero atribui-lhes frequentemente os epítetos «ricos em cavalos» e «domadores de cavalos». A criação de cavalos também está vivamente representada na arte figurativa grega14.
Mais tarde, quando o cavalo se tornou uma montada de combate, surgiu em vários países o costume de sepultar o cavaleiro juntamente com o cavalo. Os cavalos também passaram a ser sacrificados aos deuses por ocasião de diversas festas. Esse costume era próprio dos antigos indianos, iranianos, gregos, eslavos, germanos e romanos15. Num passado relativamente recente, como veremos adiante, os cavalos também eram sacrificados nas terras bálticas.
Tanto os achados arqueológicos como diversas fontes escritas fornecem informações interessantes sobre a criação de cavalos nas terras eslavas. Entre os vestígios encontrados no território da Polónia, datados já do século VI d. C., contam-se esporas. O viajante árabe Ibrahim Ibn-Jakub escreve que, no século X, se fabricava em Praga um excelente equipamento para cavalos de montaria. Quanto à criação de cavalos na Rússia antes do século X, faltam informações mais precisas. Por exemplo, algumas fontes árabes e bizantinas indicam que havia poucos cavalos na Rússia e que só os príncipes os possuíam. Contudo, já existem dados fiáveis referentes à segunda metade do século X. Nessa época, nas terras eslavas, os cavalos já eram utilizados até mesmo nos trabalhos agrícolas16.
8 V. I. Avdijevas, ten pat, p. 102.
9 H. Ranke, Haustier, — M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, V, p. 220; M. Hilzheimer, Haustier, — ten pat, V, p. 220; C. Keller, Die Abstammung der ältesten Haustiere, p. 89.
10 V. I. Avdijevas, Senovės rytų istorija, p. 225.
11 V. I. Avdijevas, ten pat, p. 310—311.
12 C. Keller, Die Abstammung der ältesten Haustiere, p. 90.
13 V. I. Avdijevas, Senovės rytų istorija, p. 544.
14 C. Keller, Die Abstammung der ältesten Haustiere, p. 89; V. S. Sergejevas, Senovės Graikijos istorija, Vilnius, 1955, p. 104—105.
15 O. Schrader, Reallexikon der indogermanischen Altertumskunde, I, p. 172, 175; V. I. Avdijevas, Senovės rytų istorija, p. 544.
16 W. Hensel, Die Slawen im frühen Mittelalter, p. 81—85; Л. Нидерле, Славянские древности, p. 319.
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– No território da Lituânia, entre os ossos de outros animais domésticos, ossos de cavalos são encontrados num assentamento da Idade do Bronze perto de Palanga17. No achado de Baudžiai (distrito de Prienai), as placas circulares de bronze encontradas são, segundo os arqueólogos, ornamentos de freios. Esse fato indicaria que, naquela época, os cavalos eram criados na Lituânia não apenas para carne, mas também para montaria18.
Entre os achados datados dos séculos I–IV d.C., ossos de cavalos são encontrados com bastante frequência ao lado de ossos de outros animais domésticos. É verdade que, em comparação com os ossos de outros animais domésticos, representam uma percentagem bastante pequena: no castro de Nemenčinė, 2,5%; no castro de Migoniai (distrito de Kaišiadorys), 3%; no castro de Dovainonys, 18,8%19.
Entre os antigos bálticos, era muito difundido o costume de enterrar o cavalo junto com seu falecido dono. No território da Lituânia encontram-se numerosos túmulos em que, ao lado do cavaleiro, há também os restos mortais de um cavalo cremado ou não cremado, bem como vestígios de seus arreios20.
P. Dusburgas, ao descrever a religião dos prussianos, observa que os lituanos e outros infiéis de sua tribo queimavam a vítima mencionada segundo seus ritos, em algum lugar sagrado, mas, antes de queimarem os cavalos, extenuavam-nos tanto, cavalgando-os, que mal conseguiam manter-se de pé.
No tratado de Christburg de 1249, está registrado que os prussianos prometiam não queimar os mortos nem enterrá-los com cavalos. Hermanas Wartbergė escreve que o príncipe lituano Algirdas foi solenemente cremado com 18 cavalos de guerra. Vygandas Marburgietis relata a cremação de Kęstutis junto com cavalos, roupas, armas, cães de caça e outros bens21.
Uma certa competição de cavaleiros, ligada a funerais, ocorrida em terras bálticas por volta de 887–901 d.C., é descrita pelo viajante Vulfstanas22.
Os latgálios e curônios subjugados pela Ordem Teutônica tinham de pagar tributos regulares «por cada cavalo» ou «por cada cavalo que puxa a grade»23.
Os indo-europeus tinham um nome comum para o cavalo. Em algumas línguas, esse nome foi preservado; em outras, restaram apenas vestígios dele; e em outras ainda não restou sequer vestígio. Em geral, as diversas línguas indo-europeias têm muitos nomes novos para esse animal, frequentemente próprios de línguas específicas. Isso se aplica até mesmo às línguas que conservaram o antigo nome indo-europeu. Essa variação dos nomes do cavalo está, na maioria das vezes, relacionada às mudanças nas funções do cavalo como auxiliar do ser humano.
Eis os antigos nomes indo-europeus do cavalo, que podem ser reconstruídos numa forma ancestral *eku̯o-s: sânscrito áśvaḥ, avéstico aspa-, persa antigo asa-, osseta yæfs (com o v acrescentado), grego ἵππος, latim equus; nórdico antigo iór, inglês antigo eoh, irlandês antigo ech, galês epo- (Eporēdia, Epona «deusa dos mulões»),
17 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, Lietuvos archeologijos bruožai, p. 109–110; P. Kulikauskas, Lietuvos TSR MA Darbai, S. A, 2(7), p. 33–41.
18 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, Lietuvos archeologijos bruožai, p. 110.
19 Ten pat, p. 252–253; K. Paaver i P. Kulikauskas, Acta Baltico-Slavica, 2, p. 271–272.
20 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, ten pat, p. 394–400; J. Jaskanis, Acta Baltico-Slavica, 4, p. 29–65.
21 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, Lietuvos archeologijos bruožai, p. 400.
22 Lietuvos TSR istorijos šaltiniai, I, p. 22–23.
23História da RSS da Letônia, I, p. 42.
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toch. A yuk, gen. sg. ykes, toch. B yakwe (assim como no osseta, com y- adicionado), lit. ašvà «égua»²⁴.
H. Pedersen tentou relacionar também o arm. ēš, gen. sg. išoy «jumento»²⁵ aos nomes de cavalo mencionados.
O het. aswa «cavalo» é, muito provavelmente, um empréstimo das línguas indo-iranianas²⁶.
Este nome indo-europeu do cavalo era usado tanto com o sentido de «cavalo» como com o de «égua». Sânscr. aśvá «égua», lat. e qua, lit. ašvà, ao lado do nome genérico do cavalo, surgiram independentemente em todas essas línguas, como parece indicar corretamente A. Meillet²⁷.
Como vemos pelos exemplos apresentados, esse nome indo-europeu do cavalo não existe nas línguas eslavas.
Poder-se-iam discernir certos vestígios do indo-europeu *ēḱuos na hidronímia eslava; compare-se o russo Осва, Освей, Освея, Освица, Освина, Осевка, Осова, Осовка. Contudo, esses topônimos são, muito provavelmente, baltismos²⁸.
O desaparecimento desse nome indo-europeu do cavalo nas línguas eslavas pode ser explicado de duas maneiras. Em primeiro lugar, pode ter influído o fato de os eslavos terem conhecido os cavalos domésticos um pouco mais tarde do que seus vizinhos. A terminologia dos vizinhos, que praticavam a criação de cavalos de forma mais intensiva, pode ter suplantado a eslava. Em segundo lugar, o desaparecimento do antigo nome indo-europeu do cavalo nas línguas eslavas também pode ser explicado por fatos de natureza linguística. O indo-europeu *ēḱuos, sendo um nome genérico para cavalo, não se ajustava aos outros termos eslavos da criação de animais, ligados à diferenciação sexual²⁹.
O indo-europeu *ēḱuos não está atestado em nenhuma língua báltica com seu sentido original de cavalo em geral.
Com o sentido de «égua», a forma ašva aparece no dicionário de K. Širvydas, mas em todas as suas edições essa palavra vem depois da palavra kumelė:
Klãžá equa, kumelė||Ąbwa (I ed., 54; III ed., 104, 109; V ed., 91, 95)³⁰.
A palavra ašva também aparece nos dicionários de P. Ruigys e Chr. G. Mielcke. Nesses dicionários, distinguem-se os significados das palavras ašva e kumelė:
Aßwa, wós, f. uma égua de grande porte (P. Ruhig, Lex., I, 8; Chr. G. Mielcke, Wb., I, 12)³¹.
Kummélé, és, f. uma égua (P. Ruhig, Lex., I, 70; Chr. G. Mielcke, Wb., I, 134).
Gestütt, Aßwos weislininė, Weislei (P. Ruhig, II, Lex., 174; Chr. G. Mielcke, Wb., II, 231).
Égua comum, Kummélé, és, f.
24 J. Pokorny, Et. Wb., p. 301; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 20.
25 H. Pedersen, KZ, 50, p. 311.
26 M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 62; H. Kronasser, Vergleichende Laut- und Formenlehre des Hethitischen, p. 229.
27 A. Meillet, Wstęp do językoznawstwa indoeuropejskiego, p. 239–240; BSL, 29, LXIV.
28 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 500; III, p. 536; B. H. Топоров, О. Н. Трубачев, Lietuvių kalbotyros klausimai, 4, p. 197; cf. também J. Rozwadowski, Studia nad nazwami wód słowiańskich, Kraków, 1948, p. 176–177; M. Rudnicki, Lingua Posnaniensis, 1, p. 268–269; J. Endzelin, ZfslPh, 11, p. 119.
29 О. Н. Трубачев, Происхождение..., p. 51.
30 Dictionarium trium linguarum... Constantino Szyrwid... Quinta editio... Vilnae, 1713 (I leid. 1629 m., III leid. 1642 m.).
31 Ph. Ruhig, Littauisch-Deutsches und Deutsch-Littauisches Lexicon, Königsberg, 1747; Chr. G. Mielcke, Littauisch-deutsches und Deutsch-littauisches Wörter-Buch, Königsberg, 1800.
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Stutte, große, Abwa, wôs f. (P. Ruhig, Lex., II, 346; Chr. G. Mielcke, Wb., II, 463).
A palavra ašva de F. Kuršaitis já não é conhecida na língua viva. Ele escreve: «Stute, die, égua, grande é., segundo Mielcke, abwà (caso contrário, desconhecida)» (F. Kurschat, Wb., II, 217).32
[ašžwa, substantivo feminino: égua de tipo maior, em M. (= Mielcke A. S.) e Bd. (= Brodowski A. S.), já não é usada de modo algum. Daí derivam-se abutai, abutinis, ver s. d.] (F. Kurschat, Wb., 24).33
Assim, os textos lituanos mostram o processo de desaparecimento desta palavra: inicialmente, ašva é usada ao lado da palavra kumėlė, sem qualquer diferença de significado; depois, ašva adquire um significado específico e, por fim, desaparece por completo. É verdade que a palavra ašva, no sentido de «égua», aparece por vezes também em textos posteriores, por exemplo, na poesia de A. Jakštas34, mas aqui foi tomada de textos antigos, e não da língua viva. Tais ocorrências da palavra ašva levaram alguns linguistas à impressão errada de que, no lituano atual, se usa a forma ašva em vez da forma dos textos antigos ešva35. A forma ešva encontra-se apenas nos escritos de J. Bretkūnas: «Como o garanhão relincha entre todas as éguas» (LKŽd., II, 844). A julgar pela frase, é usada no sentido de «égua», sem qualquer distinção de espécie.
Os nomes de cavalo com esta raiz em outras línguas indo-europeias mostram que a forma mais antiga é ešva. Contudo, não se pode afirmar categoricamente que a forma ešva de J. Bretkūnas seja uma herança direta do indo-europeu *eku̯a, pois essa forma também pode ser de origem secundária, surgida ao lado da forma ašva, como em ešis: ašis, ežeras: ažeras, ešerys: ašerys, eš(u)onis: aš(u)onis36, etc.
Nos dialetos samogícios (Alsėdžiai, Kvėdarna, Luokė, Rietavas), usa-se a palavra ašvienis no sentido de «cavalo de trabalho» (também ocorre a forma ašvienỹs, LKŽd., I, 283). Trata-se, provavelmente, de um adjetivo antigo, formado a partir das formas ašva ou *ašvas com o sufixo -einja-; compare bulbėnis «caule da batata», ropienis «folha do nabo», miežienis «de cevada», etc.37
De origem provavelmente semelhante é também a forma ašviena, encontrada na tradução da Bíblia de S. B. Chilinskis — acusativo singular aszwi(eną), «uma égua», 41813 38.
Na imprensa lituana tentou-se usar a palavra ašvienis no sentido de «burro»; compare: «…passou por um ašvienis (burro) mágico» (Ūkininkas, 1902, n.º 10, p. 30).
O antigo nome indo-europeu do cavalo deixou também certos vestígios na toponímia lituana; compare os nomes de cursos de água Ašvà, Ašvijà, Ašvinė39 e os topónimos Ašvėnai, Ašva-raistė40
Algumas outras palavras lituanas também são relacionadas com o lituano ašva. Como vimos, F. Kuršaitis relacionava com ašva o lituano ašutai, «pelos da cauda ou da crina do cavalo». Tais derivações-
32 F. Kurschat, Deutsch-littauisches Wörterbuch, I–II, Halle, 1870–1874.
33 F. Kurschat, Littauisch-deutsches Wörterbuch, Halle, 1883.
34 LKŽd., I, p. 283.
35 M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 62.
36 Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, Vilnius, 1966, p. 121–124; W. R. Schmalstieg, Instituto Orientale di Napoli, Annali, sezione Linguistica, VII, p. 53–59.
37 Pr. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, p. 13, 289; J. Otrębski, Gramatyka języka litewskiego, II, p. 213.
38 Cz. Kudzinowski, Biblia Litewska Chylińskiego, III, Poznań, 1964, p. 10.
39 Lietuvos TSR upių ir ežerų vardynas, p. 9.
40 Lietuvos TSR administracinis-teritorinis suskirstymas, p. 623.
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Muitos sustentam a origem do lituano ašutai, entre eles F. Specht41. No entanto, recentemente, muitos linguistas têm relacionado o lituano ašutai com o eslavo antigo осъто «cardo», o russo осот etc., a partir do indo-europeu *ak- «afiado»42. Por enquanto, é difícil tanto refutar quanto confirmar qualquer uma das duas etimologias.
É possível que também estejam relacionados ao antigo nome indo-europeu do cavalo os termos lituanos «Ribės rubrum; groselha-vermelha», ašóklis, ašóklė, ašvóklė, ašvokšlė, vašóklė, vašóklšlė. K. Būga, que explicou assim a origem do lituano ašvóklis, baseou-se em paralelos semânticos: avis: avietė, o alemão Bocksbeere «groselha (preta)»: Bock «bode»43. A esses paralelos ainda se podem acrescentar o alemão Roßbeere, perdsbier, bem como o gótico aihvatundi «espinheiros» (supõe-se que o primeiro componente do gótico aihvatundi seja o indo-europeu *eḱu- «cavalo»)44.
Na língua letã, esse nome indo-europeu do cavalo não foi preservado. Contudo, também ali existem alguns vestígios, cf. os topônimos Asva, Asvenieks, Aswing, o nome do lago Asva45. Com pouca probabilidade, pode-se conjecturar que também o letão aški «crina», aste «cauda» esteja relacionado a esse nome do cavalo.
Vestígios bastante claros do antigo nome indo-europeu do cavalo encontram-se na língua prussiana. No vocabulário de Elbing está registrado o vocábulo Aswinan Kobilmilch (vocábulo 694)46. O prussiano aswinan foi provavelmente formado com o sufixo -in- a partir do prussiano *asva «égua». O prussiano aswinan, aparentemente, era usado como adjetivo junto ao vocábulo dadan «leite». Assim, aswinan dadan significa «leite de égua»; cf. o prussiano Ructandadan Suwermilch (= Sauermilch «leite azedo») (vocábulo 690 do vocabulário de Elbing). Vários documentos históricos testemunham a importância do leite de égua entre os prussianos.
Também se deveriam relacionar alguns topônimos prussianos a esse nome do cavalo, cf. Asswaylen, Asswene, Assuenus, Asswin, Eswiten47.
No vocabulário de Elbing encontramos ainda outro vocábulo que também se tenta relacionar ao nome do cavalo em discussão — Arwaykis Volle (vocábulo 434) (Volle «isto é, um cavalo jovem do sexo masculino»). Alguns pesquisadores relacionam esse vocábulo ao russo опь «cavalo, corcel» (arwaykis < ar- «cavalo» + waykis «criança»). Também se tentou derivar de arwaykis a forma *aswawaykis. Contudo, talvez a correção mais aceitável seja a de A. Bezzenberger: ele corrige arwaykis para aswaytis. R. Trautmann também tende a concordar com essa correção. Portanto, o prussiano arwaykis teria derivado de *asva+aitis; cf. o lituano Póvilas: Povílaitis, brólis: brólaitis «irmãozinho», kiaulė: kiaulaitė etc. Naturalmente, também a explicação de A. Bezzenberger suscita dúvidas; em particular, é problemática a substituição de s por r48.
Como vemos, o processo de desaparecimento do antigo nome indo-europeu do cavalo, iniciado há muito tempo nas línguas bálticas, ainda continua, por assim dizer, até hoje na língua lituana. Um processo semelhante de desaparecimento desse nome ocorreu em muitas línguas indo-europeias: os antigos nomes do cavalo—
41 F. Specht, Der Ursprung der indogermanischen Deklination, p. 36.
42 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 18–19; M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 285; J. Pokorny, Et. Wb., p. 19.
43 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 20; Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, p. 189.
44 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 19; J. Pokorny, Et. Wb., p. 301.
45 J. Endzelins, Latvijas PSR vietvārdi, I, 1, p. 45; J. Endzelin, ZfslPh, II, p. 119.
46 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92, 305; Prūsų kalbos paminklai, p. 73.
47 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 12, 34; K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 536; J. Endzelins, Senprūšu valoda, p. 145–146.
48 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 88, 302; J. Endzelins, Senprūšu valoda, p. 144.
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Os nomes eram frequentemente substituídos por vários neologismos ou empréstimos. Nas línguas eslavas, como mencionámos, não restou sequer vestígio deste nome. No ramo das línguas germânicas, apenas o inglês antigo, o islandês antigo e, em parte, o gótico conservaram tal nome. Aqui difundem-se: alto-alemão antigo (h)ros, alemão Roβ, inglês horse, islandês antigo hross etc., associados ao indo-europeu *(s)ker- «saltar»⁴⁹; alemão Pferd < e latim medieval paraverēdus «cavalo postal para serviço em linhas secundárias»⁵⁰; alemão Gaul, que inicialmente significava, na maioria das vezes, um cavalo ruim⁵¹. Em grego surge φάρας, φαρίον < árabe fāris «cavaleiro»⁵²; em latim, a palavra equus é suplantada por caballus, que inicialmente significava cavalo de trabalho ou simplesmente um cavalo ruim⁵³. Nas línguas indianas aparecem formas de origem incerta: sânscrito ghoṭaḥ, ghoṭakah, páli ghoṭaka — «cavalo ruim», hindi ghoṛā «cavalo»⁵⁴. Os novos nomes do cavalo parecem ter surgido, na maioria dos casos, juntamente com a mudança das funções deste animal: o seu uso para montar, para o trabalho agrícola etc.
Nas línguas bálticas, ao lado do antigo indo-europeu *ek̑ua, surgiu um novo nome do cavalo, característico apenas das línguas bálticas: lituano žirgas, letão zirgs, prussiano sirgis. O significado destas palavras difere um pouco em cada língua: o lituano žirgas significa um cavalo bonito e bom; o letão zirgs designa o cavalo em geral; e o prussiano sirgis significa «garanhão». Em letão, o significado desta palavra é o mais recente. É bastante frequente que uma palavra usada numa língua tenha uma conotação poética, enquanto noutra seja um termo genérico comum; compare-se o arménio ji «cavalo» < e o sânscrito hāya, que se encontra apenas nos Vedas e tem uma conotação poética⁵⁵. Não é inteiramente claro se a palavra prussiana, que conservou o significado mais antigo, ou a lituana o fez, embora, em geral, os significados de ambas sejam bastante próximos. Por exemplo, mesmo em lituano, žirgas é usado em algumas variedades dialetais (Dieveniškės, Trakai) no sentido de «garanhão»⁵⁶. Este último nome do cavalo provavelmente se estabeleceu nas línguas bálticas na época em que as antigas tribos bálticas começaram a usar amplamente os cavalos para fins bélicos. Esta hipótese talvez também fosse confirmada pela etimologia existente deste nome báltico do cavalo. A. Leskynas⁵⁷, R. Trautmanas⁵⁸, H. Hirtas⁵⁹, V. Tomsenas⁶⁰ e K. Būga⁶¹ relacionam o lituano žirgas com o lituano žirgti, žėrgti; compare-se também žirgis «cavalo de madeira em forma de cruz no telhado», žirgės, žirgiai «árvore bifurcada onde se pendura e seca um casaco de pele; varas para secar trevo e feno». O ponto fraco desta etimologia é a semântica. O significado original do lituano žirgas etc. teria sido «que corre depressa»; compare-se o lituano žirgt, uma palavra imitativa que exprime uma passada larga. Paralelos semânticos para este nome do cavalo nas línguas bálticas seriam o russo antigo клюся «potro», o polaco antigo klusie «cavalo», o checo klisna «égua»: gótico hlaupan «correr», alemão laufen, russo antigo скокъ «cavalo de corrida», russo скакун, polábio skocáika «garanhão»: russo скакать «saltar»⁶², e também
⁴⁹ F. Kluge, Et. Wb., p. 608; J. Pokorny, Et. Wb., p. 934.
⁵⁰ F. Kluge, Et. Wb., p. 542–543.
⁵¹ F. Kluge, Et. Wb., p. 236.
⁵² C. D. Buck, Dict., p. 168.
⁵³ A. Walde, Et. Wb., I, p. 125.
⁵⁴ M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 361–362.
⁵⁵ B. Порциг, Членение индоевропейской языковой области, p. 239.
⁵⁶ A. Lyberis, Kalbos kultūra, 7, p. 60.
⁵⁷ A. Leskien, Der Ablaut der Wurzelsilben im Litauischen, Leipzig, 1884, p. 358.
⁵⁸ R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 427.
⁵⁹ H. Hirt, BB, 24, p. 259.
⁶⁰ V. Thomsen, Beröringer mellem de finske og de baltiske (litauisk - lettiske) Sprog, p. 249.
⁶¹ K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 260.
⁶² О. Н. Трубачев, Происхождение…, p. 55–57; V. Machek, Et. sl., p. 205.
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também já mencionado nome germânico do cavalo — al. Roß, ingl. horse etc.: indo-europeu *(s)ker- «saltar».
J. Mikola relacionou o lituano žirgas com o latim grex «rebanho, grupo, bando»⁶³. Também houve tentativas de relacionar este nome do cavalo nas línguas bálticas com o lituano žėrti e com o arménio jar «crina de cavalo»⁶⁴. No entanto, todos estes três últimos casos parecem muito pouco plausíveis. A primeira etimologia (žirgas: žergti) é mais aceitável.
Parece-nos que o lituano žirgas, o prussiano sirgis e o letão zirgs, considerando que o seu significado original também poderia ter sido «garanhão», como indicaria o prussiano sirgis, poderiam ainda ser relacionados com o nórdico antigo graar «não castrado», graðungr «touro reprodutor, touro», grieðung⁶⁵. O sufixo -ga- no nome báltico do cavalo (ou, mais precisamente, do garanhão) poderia ter surgido por analogia com adjetivos como *dveigas (: dveigys «animal de dois anos»), *treigas (: treigys «animal de três anos»). Nesse caso, o prussiano sirgis seria apenas uma inovação do glossário de Elbing, em lugar do mais antigo *zirgas; cf. no glossário de Elbing deywis, dumis, caymis, ragis, snaygis, wilkis etc., em lugar dos substantivos que se esperaria terminarem em -as⁶⁶.
Além do glossário de Elbing (Sirgis Hengest, palavra 430), esta palavra ocorre com bastante frequência também na toponímia prussiana; cf. Sirgelawck (< sirgis + laucks «campo, terreno»), Sirgite, Sirgun, Czirgelawken⁶⁷.
Este nome do cavalo é frequentemente encontrado também na toponímia lituana e letã⁶⁸. É possível que deste vocábulo báltico tenha derivado também o nome do touro nas línguas fino-bálticas; cf. o finlandês härkä, o estónio härg etc.
Como vimos, o nome indo-europeu comum do cavalo foi substituído por um novo nome, característico apenas das línguas bálticas. Tentámos relacionar este processo com a mudança das funções atribuídas ao cavalo. Em lituano, o processo foi ainda mais longe: surgiu aí um nome característico apenas desta língua, arklys. Esta palavra surgiu quando se começou a lavrar a terra também com cavalos, além de bois. Inicialmente, arklys terá significado, ao que parece, um cavalo de qualidade inferior, atrelado ao arado e usado para lavrar, e poderia ser empregada na combinação arklys žirgas, cf. dūonriekis peilis.
Da palavra arti deriva também outro nome do cavalo que ocorre ocasionalmente em lituano — artùvas «cavalo de trabalho» (LKŽd., I, 261).
Em letão, em geral, não se encontra um nome do cavalo com esta raiz: as palavras ārkls, ārklis e a forma diminutiva ārkliņš são usadas apenas com o sentido de «arado». Contudo, nos textos letões registados por A. B ecenberger encontramos a forma ārkls, também usada com o sentido de «cavalo». Neste caso, não se pode pensar num empréstimo do lituano, pois o exemplo em questão foi registado na região de Dunten (no noroeste da Letónia, a leste de Limbaži) (EM, I, 141). É muito provável que se trate de um erro de A. B ecenberger.
As línguas indo-europeias não têm um nome comum para o cavalo macho não castrado. Nas várias línguas, este nome foi formado de maneiras muito diversas; cf. o espanhol caballo padre (literalmente, «cavalo pai»), o grego moderno ἄλαγο βαρβάτο (literalmente, «cavalo barbado»; inicialmente, tal qualificativo (barzdotas) era usado a respeito de um homem que não é eunuco, isto é, não é
63 J. Mikkola, AfslPh, 39, p. 14
64 EM, IV, p. 727.
65 J. Pokorny, Et. Wb., p. 441.
66 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 32.
67 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 157–158, 189, 233.
68 Os nomes dos rios e lagos da RSS da Lituânia, p. 206; Divisão administrativo-territorial da RSS da Lituânia, p. 1021; J. Endzelin, ZfSlPh, II, p. 119.
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castrado, que deixa crescer a barba69, pol. stadnik «garanhão»: stado «manada», sérv. пастух «garanhão», bulg. пастух: пастух «pastor»70, irl. (ech-) cullach «garanhão», bret. marc'h kallo'h (literalmente «com testículos, não castrado»)71.
Tal como os nomes célticos de garanhão mencionados há pouco, também o nome báltico — o nome lituano e letão para garanhão — parece ter surgido semanticamente do mesmo modo; cf. lituano eržilas, erzalas, erzēlas, eržilis, eržiokas (LKŽd., II, 835), ergis «garanhão jovem» (LKŽd., II, 827), aržilas «garanhão» (LKŽd., I, 262), letão ērzelis, as formas diminutivas ērzelēns, ēržuks, ērzehuks (EM, I, 577; EH, I, 374), ēržuks (a brevidade do e e a distribuição geográfica da palavra indicariam que esta forma foi tomada de empréstimo do lituano)72.
O nome báltico para garanhão é relacionado com avéstico arəzi «escroto», dual ərəzi «testículos», arménio orji-k «testículos», orji «não castrado», miorji «μονορχις», gr. ὄρχις «testículo», alb. herdhe «testículo», irl. antigo uirgge «testículo, membro viril», irl. moderno uirghe73.
Semanticamente, a explicação da origem do lituano eržilas é também apoiada pelo alemão Bulle «touro, touro reprodutor», nórdico antigo boli, inglês bull: gr. φαλλός «pénis», irlandês antigo ball74.
K. Būga75, baseando-se num paralelo semântico, relacionou o alemão alto médio geil «libidinosus»: geile «testículo», o lituano eržilas e o gr. ὄρχις «testículo» ao lituano arškūs «impetuoso, ardente, furioso; intratável, irascível» (cf. arškūs drigantas, arškūs kumelys) (LKŽd., I, 254), aržūs «impetuoso, ardente; obstinado; libidinoso» (cf. aržūs eržilas), aržlūs «desobediente, rebelde; furioso» (LKŽd., I, 263).
Em alguns dialetos lituanos e letões encontramos ainda outro nome de garanhão comum às duas línguas: lituano drigantas, drigōtas, dragantas (LKŽd., II, 427, 488, 489), letão drigants (EM, I, 498). Alguns investigadores (J. Zubatas, H. Petersonas) consideraram esta palavra um vocábulo báltico autóctone76. Na realidade, porém, a sua fonte é o pol. drygant «garanhão» (palavra de origem obscura, já atestada em documentos polacos do século XVI)77. A distribuição geográfica da palavra letã indicaria que os letões podem tê-la recebido através dos lituanos. Formas como lituano dragañtas, letão drigals «criança irrequieta, brigão» surgiram nestas línguas devido à influência de outras palavras78.
Nas línguas letã e lituana encontramos também outro nome de cavalo de origem estrangeira, usado em letão também com o sentido de «garanhão» — letão rumaks, rumāks «um reprodutor (garanhão)», rumaks «um cavalo», rumāks «um cavalo de carga pesado e desajeitado», rumāks «um cavalo amarelo-escuro ou acastanhado» (EM, III, 557; EH, II, 383), cf. também rumaks «um rapaz de ombros largos». O lituano rumōkas «cavalo de mão (Handpferd)» ocorre nos dicionários da língua lituana da Prússia Oriental e em mais contactos com o polaco
69 C. D. Buck, Dict., p. 81, 169.
70 О. Н. Трубачев, Происхождение..., p. 60.
71 C. D. Buck, Dict., p. 162.
72 EH, I, p. 370.
73 J. Pokorny, Et. Wb., p. 782; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 123; R. Trautmann, B-sl. Wb., p. 71; K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 153; J. Zubatý, BB, 18, p. 259; J. Scheftelowitz, BB, 28, p. 299—313.
74 F. Kluge, Et. Wb., p. 110.
75 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 355; III, p. 780.
76 J. Zubatý, BB, 17, p. 324; H. Petersson, Arische und armenische Studien, Lund, 1920, p. 79.
77 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 151; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 105; A. Brückner, Sl. et., p. 99.
78 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 105; EM, I, p. 498.
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em dialetos que possuem a língua. A fonte desta palavra é o polonês rumak «cavalo, cavalo de guerra, argamākas»79. O polonês rumak, por sua vez, é uma palavra de origem turco-tártara80. Este nome do cavalo pode também ter entrado no letão por intermédio do lituano.
De origem eslava é também let. og’eris «o garanhão» (EH, II, 117), cf. pol. ogier. Nas línguas bálticas, pelo menos no lituano e no letão, encontramos um nome comum para cavalo, usado com sufixos diferentes para designar tanto a fêmea quanto o macho; cf. lit. kumėlė «égua», kumelys «cavalo crescido; garanhão», kumeliūkas «potro» (LKŽd., VI, 866, 867, 868, 870), let. kumelš «garanhão; belo cavalo», kumelis, kumelīce «égua prenhe», kumeliņš «potrinho» (EM, II, 311; EH, I, 673–4). Tanto em lituano quanto em letão, essas palavras são usadas com os mais variados sufixos, que lhes conferem diferentes nuances de significado.
A origem dessas palavras permanece bastante obscura. Entre os linguistas, a etimologia mais popular é a de J. Charpentier, que relaciona lit. kumelys, let. kumelš com sânscrito kumarāḥ «jovem»81. Contudo, essa etimologia apresenta algumas dificuldades. Em primeiro lugar, já é duvidosa a derivação do sânscrito kumarāḥ de *kum-elō-. Em segundo lugar, o significado da palavra sânscrita tampouco oferece fundamento suficiente para tal comparação. O sânscrito kumarāḥ pode significar «criança», «menino», «filho», «príncipe»; cf. sânscrito kumārī «menina, filha». O significado fundamental da palavra sânscrita, como observa M. Mayrhofer, provavelmente era «frágil, delicado, fraco»; cf. védico kumārā-deṣṇa «que concede dádivas perecíveis»82.
J. Pokorny83, talvez o primeiro a refutar a mencionada etimologia de J. Charpentier, tentou explicar de outro modo a origem de lit. kumėlė e de seus cognatos. Em sua opinião, o significado original de lit. kumėlė poderia ter sido «cavalo castrado»; portanto, essa palavra seria uma derivação secundária de kumelys, para o qual tal semântica é perfeitamente possível. Em seguida, J. Pokorny reconstrói para esse nome báltico de cavalo a forma prévia *kom- e o relaciona com eslavo ko-molъ «sem chifres». Em ambos os casos, o significado original das palavras seria «castrado». J. Pokorny tende a relacionar também com essas palavras o prussiano antigo camnet «cavalo» e o lituano kamienas. Parece-nos que a explicação de J. Pokorny seria bastante convincente se a forma báltica original fosse *kumas. Na verdade, J. Pokorny considera lit. kūmė «égua» a forma básica. Contudo, lit. kūmė é uma formação regressiva, surgida da forma ku-mėlė, assim como de barsūkas (cf. bielorrusso борсук <, turco barsuk) surgiu barsas, de gegūtė — gėgė etc.84
Lit. kumėlė, kumelys são relacionados de várias maneiras com eslavo komonь (cf. russo КОМОНЬ «cavalo», tcheco komoň «cavalo»), konь (cf. russo конь, polonês koń). De fato, essas palavras são muito semelhantes na forma e coincidem completamente no significado. Contudo, ainda não é possível comprovar seu parentesco85.
Também é muito obscura a palavra prussiana antiga camnet «cavalo». Essa palavra encontra-se no glossário de S. Grunau (41 palavras), no qual, como se sabe, as palavras prussianas estão especialmente distorcidas. El-
79 A. Brückner, Die slavischen Fremdwörter im Litauischen, Weimar, 1877, p. 128; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 748.
80 A. Brückner, Sl. et., p. 468.
81 J. Charpentier, KZ, 40, p. 435; IF, 25, p. 246.
82 M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 232–233.
83 J. Pokorny, KZ, 56, p. 130–133.
84 P. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, p. 21–22; A. Augstkalns, StB., 4, p. 63–65.
85 A. Brückner, Sl. et., p. 253–254; V. Machek, Et. Sl., p. 216; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 309; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 609, 618; E. Berneker, Et. Wb., p. 555; O. H. Трубачёв, Происхождение…, 50–52; EM, II, p. 311.
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No glossário de Elbing, onde são listados em sequência nada menos que sete nomes de diferentes tipos de cavalos, não há tal nome. Que a grafia camnet é inadequada também se vê pela terminação estranha às línguas bálticas. Assim, neste caso, o prussiano camnet pode ser corrigido de várias maneiras e relacionado tanto ao eslavo komonъ quanto ao lituano kumelys, embora, de todo modo, o prussiano camnet lembre sobretudo o eslavo komonъ86.
A questão de outro nome para cavalo, talvez também usado nas três línguas bálticas, é muito complexa: trata-se do lituano kėve «animal ruim e magro; cavalo castrado», kie-vė «égua ruim», kėvinas «cavalo ruim, cavalo castrado», kėvis, keivis (LKŽd., V, 496, 672, 677, 766)87; o letão kėve «égua», kėve, kėva, com as formas diminutivas kėvele, kėve-lite, kėvene, kėvene, kėvens, kėvens, kėvėna, kėvenice, kėvine, kėvka, kėvelėns (EM, II, 377; EH, I, 700–1); e o prussiano kaywe «égua» (palavra 433 do glossário de Elbing)88. Em primeiro lugar, é claro que não se trata de uma palavra comum às três línguas bálticas, pois o consonantismo da palavra letã indica que, para os letões, ela é um empréstimo. Em segundo lugar, é muito incerto se o nome prussiano para «égua» é de fato uma palavra da mesma raiz que o lituano kėvė e o letão kėve.
Ao examinar as variantes lituanas desse nome, chama imediatamente a atenção o estranho vocalismo da raiz: -ė-, -ie-, -ei-. Já A. Becenbergeris, ao explicar a origem do prussiano kaywe, relacionou a palavra prussiana a uma suposta forma lituana *kievė89. R. Trautman também repete a ideia de A. Becenbergeris90. Em uma carta a J. Endzelynas, datada de 13 de maio de 1910, K. Būga, comentando a obra de R. Trautman, observa, entre outras coisas: «o lituano antigo do sul *kėve, XII, 142, é obra de pura fantasia»91. Como vemos, a forma que A. Becenbergeris certa vez imaginou já figura no «Dicionário da língua lituana». Parece-nos, contudo, que K. Būga tinha razão ao afirmar que tal forma era fruto da imaginação. As formas com -ie- foram registradas em lugares da Lituânia onde ė > ie (Ignalina, Vidiškės), ou nas proximidades (Daugėliškis), onde a palavra kievė, ao lado de dėdė ou tėvas, pode ocorrer como fenômeno esporádico vindo de um dialeto vizinho. A forma keivis também provavelmente não é autêntica, pois foi registrada uma única vez nos arredores de Klaipėda, talvez em lugar de kėvis, que não foi bem ouvido. Embora também pudesse tratar-se de uma mudança esporádica de ė para ei, como às vezes ocorre na fala dos pescadores da costa da Curlândia e nos dialetos letões de influência livônica92. Assim, a forma lituana mais confiável desse nome é kėvė (com a vogal ė na raiz).
Nos últimos tempos, muitos linguistas — na verdade, sobretudo estudiosos das relações entre as línguas fino-úgricas e bálticas — têm sustentado que os letões tomaram essa palavra emprestada dos livônios, cf. livônio kėv «égua», enquanto os lituanos, por sua vez, a tomaram emprestada dos letões e modificaram seu significado93. J. Endze-
86 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 189; R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 352.
87 A. Lyberis, Kalbos kultūra, 7, p. 60–61.
88 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 88.
89 A. Bezzenberger, BB, 23, p. 318; 27, p. 168.
90 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. XII, 142, 351.
91 K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 820.
92 J. Gerullis ir Chr. Stang’as, Lietuvių žvejų tarmė prūsuose, Kaunas, 1933, p. 5–6; Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, p. 75; J. Endzelīns, Latviešu valodas gramatika, p. 138–139; M. Rudzīte, Latviešu dialektoloģija, Rīga, 1964, p. 150–166.
93 V. Thomsen, Samlede Afhandlinger, IV, Köbenhavn, 1931, p. XI; I. H. Toivonen, Finnisch-ugrische Forschungen, 20, p. 144; J. Mikkola, Izglītības Ministrijas Mēnešraksts, 1930, 2, p. 443.
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lynas94, anteriormente considerava o letão kēve um lituanismo (...wohl aus li. kēve „кляча“95. D. Zemzarė96 também considera o letão kēve um lituanismo. Ao investigar a origem do lituano kēve e do letão kēve, parece-nos que a origem da forma prussiana kaywe desempenha um papel muito importante. Se os letões receberam sua palavra dos livônios e os lituanos dos letões, então não poderíamos falar de qualquer relação entre a forma prussiana kaywe e as palavras lituana e letã mencionadas, pois é muito difícil imaginar tal processo do ponto de vista cronológico; além disso, em geral, não é característico dos bálticos tomar emprestados dos fino-bálticos termos agrícolas ou pecuários — o processo inverso é muito mais frequente.
O fato de este nome de cavalo não ser um empréstimo do livônio também seria indicado pelo fato de que, a nosso ver, o lituano kēvē tem uma etimologia muito convincente. E. Fraenkel relaciona esta palavra ao prussiano keuto «pele», ao lituano kēvalas e a outras formas.97 Para a etimologia de E. Fraenkel podem-se encontrar paralelos semânticos diversos em muitas línguas; compare-se o lituano skūrā «égua ruim, cavalo ruim», skūrinis «cavalo ruim»: lituano skūrā «pele» (< balto-russo скупа), lituano lūpena «cavalo ruim»: lituano lūpti, letão ādnieks «cavalo ruim»: letão āda «pele», russo одёр «cavalo ruim e preguiçoso»: russo драть «despelar, esfolar», alemão Schindmähre «cavalo ruim»: alemão schinden «despelar, esfolar»98.
Como mencionamos, A. Bezzenberger e R. Trautmann relacionaram o prussiano kaywe ao lituano *kiēvē. No entanto, o prussiano kaywe pode ter origem até mesmo no lituano kēvē. Talvez se devesse considerar o vocalismo da raiz da palavra prussiana um simples erro de transcrição ou de registro, em lugar de *kiewye ou *keywe; compare-se Plēynis (palavra 38) do glossário de Elbing: lituano plėnys, pleynis (palavra 75): lituano plėnis, plėvė. Na grafia do glossário de Elbing, -y- parece, por vezes, poder indicar o alongamento da vogal precedente99. Por fim, esse -y- pode ter surgido durante a transcrição sob a influência dos nomes próximos Sweykis, Arwaykis.
J. Endzelīns parece ter razão ao duvidar da associação feita por A. Bezzenberger entre o prussiano kaywe e o lituano kaimenē «rebanho», pois kaimenē não significa «grupo de cavalos», mas, em geral, «animais da aldeia». Contudo, a tentativa de J. Endzelīns de corrigir o prussiano kaywe para *kanwe e relacioná-lo ao eslavo konb «cavalo», supondo que -vė seja uma desinência igual à do vocábulo lituano kārvė, é muito pouco convincente. Para ser justo, J. Endzelīns tampouco afirma isso categoricamente (Varbūt...)100.
Assim, talvez a hipótese mais plausível seja a de que kēvē surgiu primeiro no âmbito do lituano com o sentido de «égua ruim» e, depois, o sentido geral de «égua» passou do lituano às línguas prussiana e letã.
Em letão encontram-se formas bastante peculiares do nome de cavalo mencionado: kāvē «cavalo» (Vecaucē), kāvele «nome depreciativo de cavalo ou égua» (Lubana, Meiranai, Cesvaine, EH, I, 575). O ditongo -ai- nessas palavras deveria antes ser explicado como resultado de substituição, pois, em letão, normalmente não ocorrem vogais anteriores depois de -k-.
Nas línguas bálticas há muitos nomes diferentes para o cavalo, geralmente característicos apenas de línguas específicas desse grupo. Esses nomes costumam indicar alguma característica do cavalo e ter uma conotação depreciativa ou carinhosa.
94 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 187.
95 EM, II, p. 377.
96 D. Zemzare, Latviešu vārdnīcas, Rīgā, 1961, p. 45.
97 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 248.
98 O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 58; M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 254.
99 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 26; FBR, XII, p. 148; XV, p. 101.
100 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 187.
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O lit. kūinas «cavalo fraco, magro, débil; égua velha» já aparece no dicionário de K. Širvydas (na III edição, de 1642):
Szk apá Caballus tardus Kuynas Szkapi Caballinus Kuyniβkas Szkapinė (Caballinus caro. Arkliena) kuy nėna. (Dict., 436).
Em alguns dialetos lituanos, a palavra kūinas é usada como adjetivo com o sentido de «sem chifres» (cf. kūinas veršis, kuinà kárvė, Daugelìškis, Tverečius). Nesse uso, a palavra kūinas «cavalo ruim» não é empregada; em seu lugar, usa-se kėvė. K. Būga identifica um caso semelhante de substantivo transformado em adjetivo também no lit. taūras, taurùs «honesto, bom, adequado»: taūras «gado selvagem (Bos primigenius)»¹⁰¹. Em lituano, essa designação de cavalo ruim é muito difundida: é usada na língua literária e encontra-se em grande parte dos dialetos. As outras línguas bálticas, porém, não a conhecem. Além de kuinas, ocorre também a variante kūlnas (LKŽd., VI, 844), bem como škūina (Kapsukas, Tirkšliai). Provavelmente, kūinas deve ser relacionado a outras designações bálticas de cavalo muito semelhantes.
Trata-se do lit. kūika «égua magra e fraca, égua velha, kuinas», kuikas, kūikė, kūikė (LKŽd., VI, 779), e do let. kūika «cavalo ruim» (EM, II, 300). Provavelmente, também se deve relacionar a essas designações o pr. paustocaican < pausto «selvagem» + caican «cavalo» (palavra 654 do glossário de Elbing)¹⁰², o let. kaikaris «kuinas, cavalo ruim» (EM, II, 132), o lit. kaikaras «pessoa muito alta; preguiçoso»; cf. ainda o lit. kaikaruoti «morrer, perecer» (LKŽd., V, 48). E. Fraenkel relaciona ainda essas palavras ao sânscrito kekarah «vesgo», ao latim caecus «cego», ao irlandês caech «caolho» e ao gótico haihs «caolho»¹⁰³. Ele explica o surgimento do radical -ui- nas palavras lituanas kūinas, kūika pela conotação negativa dessas palavras. Em geral, essa etimologia suscita consideráveis dúvidas. Parece-nos que as palavras bálticas podem ter surgido de maneira totalmente diferente: talvez devam ser relacionadas ao lit. keipti «definhar, enfraquecer, emagrecer» e kaipti «minguar, enfraquecer; desfalecer». M. Mayrhofer duvida muito que também o sânscrito kekarah, ao lado de kedara-, teraka-, usados com o mesmo sentido, possa ser relacionado ao latim caecus etc.¹⁰⁴
O lit. škūika «cavalo ruim» também deve ser relacionado a kūika. O š-, como também na palavra škūina, pode ter surgido por contaminação com škapà ou alguma outra palavra, ou simplesmente ter sido acrescentado como reforço expressivo (cf. kabálda: škabálda «quem anda mancando», kūnka: škūnka «pessoa ou animal ressequido»)¹⁰⁵. Também pertencem a esse mesmo grupo o lit. kūika, škūika.
Muitas designações de cavalo ruim surgiram em lituano por um processo semântico semelhante: derivam de palavras que significam «acabar, morrer, chegar ao fim» ou simplesmente «corpo de animal morto». Essas designações costumam ser usadas não apenas para cavalos, mas também para outros animais velhos e ruins. Têm essa origem:
O lit. baigėna, baigliena, baigšėna; cf. o lit. baigtis «chegar ao fim, morrer».
101 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 297; II, p. 318, 635; A. Сабаляускас, Проблемы индоевропейского языкознания, Москва, 1964, p. 63.
102 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 91, 391; Prūsų kalbos paminklai, p. 72.
103 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 202.
104 M. Mayrhofer, Et. Wb., I, p. 264.
105 Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, p. 191–192.
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Liet. diẽngalis, dienagalỹs, dienãgalis (LKŽd., II. 346, 347) < liet. dienà + gãlas, plg. lat. diengalis „ein altes, durch zähes Leben sich auszeichnendes Wesen“ (EM, I, 483).
Lituano dvasnà, dveskà, dvėšlyna, dvėšena, núodvasa (LKŽd., II, 672, 679, 680), compare lituano dvėsti «morrer», dvasnà «corpo de animal morto», dvėšena.
Lituano gaišena, gaištaras, gaištara, núogaiša (LKŽd., III, 37–8, 41), compare lituano gaišti «morrer», gaišena «corpo de animal morto».
Lituano maità, compare lituano maità «corpo de animal morto».
Lituano padlà, compare lituano padlà «carniça» < polonês padło.
Lituano pùolena, compare lituano pùlti «morrer», pùolena «corpo de animal morto».
Lituano spróg ena, núosproga, compare lituano sprógti «morrer, expirar».
Lituano stipena, compare lituano stipti, stipena «corpo de animal morto».
De modo semelhante surgiu também outro grupo de denominações lituanas para um cavalo ruim:
Liet. kuìbena, kùiba (LKŽd., VI, 778), cf. lit. kuibina «calçado feito de couro das pernas; sandália de couro» < let. kuìba, kuìbena «pele retirada das pernas de um animal; calçado feito dessa pele», cf. est. koib «perna»¹⁰⁶.
Lituano lùpena, lupsnà, lupynà, lùpeta, lupýnė, lùpkė, compare lituano lùpti «esfolar, tirar a pele», lùpena «casca que se desprende, lasca».
Lit. skùrdà, skùrinis, cf. lit. skùrà «pele» < bielorrusso скупа.
À mesma categoria semântica pertencem:
Letão âdiniẽks, âdnieks, âdenis, âdeniẽks, âdenica, âdminis (EM, I, 236; EH, I, 192), compare letão âda, lituano óda.
Lituano kalabãnas (LKŽd., V, 100), compare lituano kalabãnas «animal magro e decrépito».
Lituano kaplỹs (LKŽd., V, 238), compare lituano kaplỹs.
Lituano kybelka «animal de pernas fracas e trôpegas (geralmente um cavalo)» (LKŽd., V, 720); cf. lituano kìbelkos «joc. pernas».
Lituano kluknà (LKŽd., VI, 165); cf. klukšėti «grasnar», kluknoti «beber sorvendo aos goles».
Lituano klùmpis (LKŽd., VI, 171); cf. lituano klùmpis «pessoa estúpida ou negligente».
Lituano kramùkas «cavalo muito pequeno e lento» (LKŽd., VI, 418); cf. lituano kramas «magricela, dorminhoco», kramùila «pessoa pequena, que não cresceu».
Lituano kriklà «cavalo magro» (LKŽd., VI, 580); cf. krikti «tornar-se fraco».
Lituano kriòkas «pessoa ou cavalo grande, desajeitado e desengonçado», kriókis (LKŽd., VI, 602, 603); cf. lituano kriòkti.
Lituano kùlčius «cavalo preguiçoso», kùltena «cavalo exausto de tanto ser conduzido, sendeiro» (LKŽd., VI, 821, 850); cf. lituano kùlti «bater, açoitar».
Lituano lapatkis (LKŽd., VII, 142); cf. lituano lapatúoti «andar com dificuldade e desajeitadamente», lapatókas «pessoa negligente», lapònas, lapnòtis «o que caminha pesadamente (a respeito de um cavalo)».
Lituano lòbeda, lòbena (LKŽd., VII, 637); talvez deva ser relacionado ao lituano lėbeda «pessoa estúpida, desajeitada, tola».
Lituano susnà; cf. lituano sùsti «secar».
Liet. klėperis (LKŽd., VI, 50) < vok. Klepper.
Lituano krãgas (LKŽd., VI, 395), krãkas, strėkas, škrãkas podem ter sido emprestados do alemão ou do letão; cf. alemão dial. Kracke, Kragge107, letão krãģis, skrãģis.
106 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 296; EM, II, p. 300.
107 F. Frischbier, Preussisches Wörterbuch, I, p. 416.
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Os exemplos lituanos mencionados encontram-se na região de Klaipėda. Os letões também receberam dos alemães denominações desse tipo para cavalos ruins.
Liet. lušokas <pol. łoszak (LKŽd., VII, 712).
Liet. škapà <pol. szkapa. Provavelmente também tem a mesma origem o lituano škabàrda.
Nas variedades do letão encontramos um número extraordinariamente grande de denominações de «cavalo ruim», de diversas origens:
Let. ābideris «um cavalo magro», cf. let. ābideris, ārd̄bilis «uma ferramenta em forma de garfo com a qual se afastam as traves de secagem umas das outras» (ārds + bīdīt) (EH, I, 191; EM, I, 241).
Let. begis «um cavalo velho» (EH, I, 211). A origem é incerta.
Let. bèmbelis «um cavalo rígido e preguiçoso» (EM, I, 278, 279; EH, I, 212), cf. let. bèmbelis «um insulto», bemberis «uma árvore nodosa», lituano bembys, bamblys.
Let. bestis «um cavalo velho», beškis «um cavalo» (EM, I, 281). J. Endzelīns tende a derivá-los do eslavo bestija.
Let. blànkāns «um cavalo indolente» (EH, I, 226), talvez deva ser associado ao let. blenkt «ficar boquiaberto».
Let. cōbikis «uma égua velha e imprestável» (EH, I, 279), cf. let. cōbliņš «uma pessoa lenta».
Let. cā pāns «um cavalo velho e debilitado», cāpis «um cavalo indolente» (EM, I, 408; EH, I, 285), cf. let. cāpāt «andar devagar», cā pūlis «alguém que anda devagar».
Let. cāpris «um cavalo velho e ruim», cf. let. cāprs «ruim, miserável» (EM, I, 404).
Let. cēmbris «um cavalo velho e ruim» (EM, I, 409). J. Endzelīns tende a associá-lo ao curônio *cembris, cf. lituano kēmbras «magro, debilitado».
Let. drēberis «um cavalo grande e magro; um cavalo rápido e fogoso» (EM, I, 497; EH, I, 333). J. Endzelīns tende a derivá-lo do alemão Traber «corredor; cavalo de trote bom».
Let. kačāps «um cavalo magro» (EH, I, 572) provavelmente deriva de uma denominação étnica de conotação pejorativa.
Let. kāibala «uma égua ruim» (EH, I, 573) provavelmente é uma forma remodelada do russo кобыла.
Let. kaīkaris «uma espécie de cavalo; uma égua velha e surrada» (EM, II, 132), cf. let. kaīkaris «um maltrapilho, um pobretão», lit. kaīkaras «pessoa muito alta; preguiçoso, vagabundo».
Let. kaņa «um cavalo» (EH, I, 585), J. Endzelīns tende a derivar do russo конь. Let. kanēris «uma égua velha e surrada» (EH, I, 584), cf. let. kaneris «uma lebre», pode por vezes também ser uma reformulação do russo конь.
Let. kankans «um cavalo ruim», kankāns «um cavalo grande e magro» (EM, II, 155, 156), cf. let. kankāt «andar, trotar com passos largos e cansados», let. kankāns «algo grande, pesado e macio».
Let. kārkis «um cavalo velho», kākis (EM, II, 197), talvez devesse ser relacionado com let. kārkis «o gancho», kākis.
Let. kāsis «uma égua velha e surrada» (EH, I, 606), J. Endzelīns tende a relacionar com let. kāsis «o gancho». Nossa explicação da origem de let. kārkis também favoreceria tal relação.
Let. keņcītis «um cavalo ruim» (EM, II, 365), cf. let. keņcis «o remendão, o mascate».
11. Baltų ir slavų kalbų ryšiai
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Let. klām̄pa «uma égua velha e surrada, um cavalo velho e rígido, um cavalo manco», klam-pis «um cavalo velho» (EM, II, 212; EH, I, 609) provavelmente deveria ser relacionado com let. klām-pât «andar pesadamente».
Let. klams «um cavalo velho, magro e fraco» (EM, II, 212), J. Endzelīns tende a relacionar com lit. klėmnas «fraco». Contudo, parece-nos mais convincente derivar let. klams do russo хлам «traste, sucata».
Let. klām̄za «um cavalo velho e emagrecido, uma égua velha e surrada» (EM, II, 212; EH, I, 610), cf. let. klamz̄a, klamza «alguém que anda com passos pesados», let. klām-zāt «andar pesadamente».
Let. klanḡis «um cavalo grande e emagrecido», kleņḡis «uma égua velha e surrada» (EM, II, 214, 223), J. Endzelīns relacionou com let. kleņḡis «o andarilho, o inútil».
Let. klaūga «uma égua velha e surrada» (EH, I, 611), cf. let. klaūḡis «um pedaço de madeira; um fanfarrão».
Let. knadz̄is «um cavalo velho», knadze «uma égua velha», cf. let. knaḡis «um gancho ou uma estaca» < alem. Knagge (EM, II, 241; EH, I, 626).
Let. kōksis «uma égua velha e surrada» (EH, I, 640), de origem incerta. Talvez devesse ser relacionado com let. kuksis «um cavalo ruivo, amarelo» ou kuksīt «andar devagar».
Let. krabiņš «um cavalo velho e emagrecido» (EM, II, 255) talvez devesse ser relacionado com let. krabiķis «uma estaca ramificada fincada no solo, na qual se seca cereal no campo», krabināt «rastejar, deslocar-se».
Let. kraḡis «a égua velha e surrada», krāḡis, skrāḡis «um cavalo velho», krak̄is «um cavalo ruim e fraco» são derivados do alemão Kracke, Kragge (EM, II, 255, 256, 265).
Let. krampis «um cavalo velho e magro» (EM, II, 258; EH, I, 641) provavelmente deveria ser relacionado com let. krāmpis «o gancho de fecho».
Lat. krapants “um cavalo fraco e magro”; J. Endzelīnas tende a relacioná-lo com o lituano krapinėti “andar com dificuldade” (EM, II, 260).
Lat. krapš̄kis “um cavalo velho e magro”, krapšis (EM, II, 260; EH, I, 642); cf. lat. krapis “um nome depreciativo”.
Lat. krepsis “uma égua velha e inútil” (EH, I, 649); cf. lat. krepecēt “tossir baixinho”, krepecī “expectoração de muco”.
Lat. krimpa “um cavalo magro” (EM, II, 279); cf. lat. krimpāns “uma criança pequena chorosa”, krimpa “como insulto para uma pessoa esguia”.
Lat. kroksis “uma égua velha e inútil” (EH, I, 658); talvez devesse ser relacionado com lat. kruķis “a muleta, o atiçador de forno”, krukite “nome depreciativo para uma menina pequena”.
Lat. lamāks “um cavalo gordo e pesado” (EM, II, 530); cf. lat. lamaka “uma pessoa que não mantém o corpo firme, um desajeitado”, lamāns “uma pessoa ou um cão grande, desajeitado e glutão”.
Lat. limaks “um cavalo preguiçoso” (EH, I, 742); talvez devesse ser relacionado com a denominação anterior.
Lat. mitenis “um cavalo recebido em troca; uma égua velha e inútil”, mietenis “uma égua velha e inútil”; J. Endzelīnas relaciona com lat. mīt “trocar”; cf. mitala “nome de uma vaca ou égua de má qualidade” (EM, II, 649, 656).
Lat. naina, naine “um cavalo magro e exausto” (EM, II, 690) talvez devesse ser relacionado com lat. naine “a viúva” < est. naene “mulher”?, cf. tā tāda naine vien ir (de ei-
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de uma pessoa do sexo feminino, EH, II, 3). De uma designação depreciativa de mulher também pode ter surgido uma designação de animal.
Let. nátmene «égua velha e imprestável», nátanais zirgs «égua velha e imprestável», nátenis «um cavalo fraco e branco», nátną ķēve «uma égua fraca», nàtns zirgs «um cavalo branco e fraco» (EM, II, 702), cf. let. nàtns «o tecido de linho», cuja acepção original era «feito de urtigas»: nàtre «urtiga». Sobre o sentido de nàtns «ruim», cf. kàrklu vācietis «designação jocosa de um germanófilo que, contudo, não consegue sê-lo».
Let. stīvnica «um cavalo rígido», stīvuicis (EM, III, 1077), cf. let. stīvs «rígido, hirto» < baixo-alemão stīf.
Let. storaks «uma pessoa ou um cavalo preguiçoso», storags (EM, III, 1080; EH, II, 584), cf. let. storcka «designação injuriosa para um ser feminino», storgaks «um gordo desajeitado».
Let. svanaris (?) «um cavalo emagrecido», zvanārs «um cavalo velho, fraco e magro» (EM, III, 1143; IV, 765; EH, II, 814), cf. let. zvanārs «relógio velho, ruim e feio» < russo звонарь «sineiro; tagarela».
Let. testis «um cavalo preguiçoso», cf. let. test «ofegar» (EM, IV, 168).
Let. tūcis «um cavalo preguiçoso» (EM, IV, 278), talvez devesse ser relacionado ao let. tūkat «empurrar, amassar, socar».
Nos dialetos letões encontramos também muitos outros nomes para o cavalo, geralmente relacionados a alguma característica desse animal:
Let. aīcis «o cavalo (designação jocosa)» (EM, I, 12), talvez devesse ser relacionado ao let. āita, aīča «ovelha».
Let. auzainis «cavalo», àusainis (EM, I, 231; EH, I, 188, 189), cf. let. auzas «aveia».
Let. brīēdis «um cavalo com pelos cor de alce» (EM, I, 337; EH, I, 243), cf. let. brīēdis «o alce».
Let. ēbelis «um cavalo orgulhoso», ēberis «termo injurioso para um cavalo velho», ēberis «um bom cavalo; um cavalo pequeno e veloz» (EM, I, 572; EH, I, 371), talvez devesse por vezes ser relacionado ao alemão Eber «javali».
Let. gàisuonis «um cavalo selvagem e indomável» (EH, I, 378), cf. let. gàisuonis «um fanfarrão; uma pessoa inquieta», let. gàiss «o ar».
Let. rēceknis «um garanhão que relincha estridentemente», cf. rēkt «rugir, uivar» (EM, III, 517).
Let. spārdauniece «uma égua que gosta de escoicear», spārdainice (EM, III, 986), cf. let. spārdities «escoicear».
Let. sperška «uma égua que escoiceia» (EH, II, 548), cf. let. spèrt «escoicear».
Letão stakņa «um cavalo que, ao puxar uma carroça, para repetidamente», cf. letão staknīt «parar» (EM, III, 1041).
Letão svipastis «um cavalo que chicoteia ao redor com a cauda», cf. letão svàipīt «açoitar» + aste «a cauda» (EM, III, 1160).
Letão tīza «uma égua que manqueja e não consegue avançar» (EM, IV, 199), cf. letão tizāt «manquear, coxear».
Letão tramdis «um cavalo arisco», tramīkis (EM, IV, 221), cf. letão tramīgs «arisco, selvagem».
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Letão žiblis «um cavalo com um olho»; J. Endzelynas tende a relacioná-lo com o letão žibt «cintilar, ficar ofuscado» (EM, IV, 808).
Letão žlanga «um cavalo que bebe muita água» (EM, IV, 815), cf. letão žlāngāt «beber durante muito tempo, devagar e em grande quantidade (dito de pessoas e cavalos)».
Letão žuklis «um cavalo veloz», cf. letão žukls «rápido, ágil» (EM, IV, 829).
Algumas denominações lituanas do cavalo também estão relacionadas com características específicas do animal:
Lituano bėgūnas «cavalo de passo ligeiro», bėguonėlis (LKŽd., I, 597), cf. lituano bėgti «correr».
Lituano bišius «cavalo pequeno», biškinas «cavalo de porte médio, não corpulento», bišė «égua ruim» (LKŽd., I, 700), cf. lituano biškenti «correr com passos curtos»; pode ser de origem onomatopaica, cf. bišku «palavra imitativa do som usado para chamar um touro».
Lituano gyvėntuvas «cavalo de trabalho» (LKŽd., III, 379), cf. lituano gyvėnti.
Lituano karčiūkas «cavalo com crina bonita» (LKŽd., V, 270), cf. lituano karčiai.
Lituano ristūnas «cavalo de passo ligeiro», ristininkas, ristokas (A. Lyberis, 60)108, cf. lituano risčia «trote».
Lituano šarūnas «cavalo bem alimentado, excelente» (A. Lyberis, 61) provavelmente deve ser relacionado com o lituano šorai «viseiras junto ao freio que impedem os cavalos de olhar para os lados».
Lituano vežmininkas «cavalo forte, adequado para puxar uma carroça» (A. Lyberis, 61), cf. lituano vežimas «carroça».
Lituano žvignis «cavalo bem alimentado, destinado a passear para visitar alguém» (A. Lyberis, 61), cf. lituano žvygauti «relinchar continuamente»(?).
Lituano kunteris «cavalo pequeno, mas forte» (LKŽd., VI, 903) é um empréstimo do alemão; compare-se o alemão Kunter.
Lituano rišokas «cavalo de trote ligeiro» é um eslavismo; compare-se o russo рысак (A. Lyberis, 60).
Lituano staininis «cavalo bem alimentado, destinado a visitas», eslavismo; compare-se o polonês stajenny (A. Lyberis, 61).
Tanto em lituano como em letão, é possível distinguir um grupo de nomes de cavalos característicos sobretudo da linguagem infantil. Esses nomes são, em sua maioria, de origem onomatopaica.
Lituano ygagas «cavalo (na linguagem infantil)», vyčiukas «potrinho» (LKŽd., IV, 7, 20); compare-se o lituano ygaga «interjeição que representa o relincho do cavalo».
Lituano kažis «potro», kožė «égua (na linguagem infantil)», kožis «cavalo, potrinho (na linguagem infantil)», kožius, kužė «cavalo (na linguagem infantil)», kužia, kužis kužius, kužis, kužius (LKŽd., V, 464; VI, 392, 1017, 1018, 1021, 1022); compare-se o lituano interj. (para chamar o cavalo) kuš, kuzi, kuzia, kuziu, kūž, kužiu etc.
Lituano kirkilas «garanhão» (LKŽd., V, 836); compare-se o lituano kirkėti.
Letão cigiņš, ciga, cigus «o potro, o cavalo», cigulis «o potro», ciga (EM, I, 379; EH, I, 269, 290); compare-se o letão ciga, cig «chamamento para atrair potros e cavalos».
Letão kose «nome carinhoso para uma égua», košiņš «o cavalo, cavalinho (geralmente na linguagem infantil)», koša, košiņa košis, košelis, kuziņa «cavalo jovem; cavalo em geral na linguagem infantil», kuze «um potro», kuzlis, kuža «o cavalo, um potro pequeno», kužiņa «termo carinhoso para um cavalo» (EM, II, 255, 331; EH, I, 639, 681); compare-se o letão kuz, kuze, kužu «chamamento para atrair cavalos».
108 A. Lyberis, Kalbos kultūra, 7, p. 59–63.
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Letão sugulis «um potro pequeno», sūgulis, suka «o potro (na linguagem infantil)», sukulis «um potro pequeno», sukulinš, sukuls, suksis «um cavalo que já não consegue andar bem», sukulis «um cavalo não muito forte», sūka «um cavalo jovem e bonito ou um potro» (EM, III, 1117, 1118; IV, 105; EH, II, 600, 601, 607, 657); compare o letão suk, suku, šuk, šuku «interjeição, chamado para atrair um potro».
Letão tprūta «o cavalo (na linguagem infantil)», tprūtina, tprūte (EM, IV, 217); compare o letão tprū «interjeição usada para fazer os cavalos parar».
Nas línguas lituana e letã há muitos nomes de cavalos relacionados com a cor desse animal (tanto em lituano quanto em letão, encontramos numerosos nomes de cores empregados exclusivamente ao falar de cavalos):
Lituano báltis, baltōkas, baltàsis, baltēlis, balckis, baltĕus, balt(a)marģis, balt(a)-keršis, baltplėšnis, balt(a)galvis, balt(a)kāklis, balt(a)kāktis, balt(a)karītis, balt(a)kōjis, baltas mārgis, balt(a)prūšnis, balt(a)smūkis, balt(a)uodēgis, baltas lėpsnis (LKŽd., I, 498–504; A. Lyberis, 62); compare o lituano báltas.
Lituano beliōkas «cavalo ruço» (LKŽd., I, 604), eslavismo; compare o russo беляк.
Lituano bēris, bēris, bērasis, bērōkas, bēriōkas, bēriōte, bēriņas, bēriūkas, bēriūkas, bērelis, bēriūnelis, bēruōlis, bērvalelė, bērširvis (LKŽd., I, 625, 632; A. Lyberis, 62); compare o lituano bēras, bēras.
Lituano blēzis, blēšis, blisis «cavalo com uma faixa branca na testa; cavalo de testa branca», <alemão Blässe (LKŽd., I, 737, 752; A. Lyberis, 62).
Lituano briedplaukis «de cor de pelo de alce, ruço-escuro», <lituano briedis + plaukas (LKŽd., I, 853; A. Lyberis, 63).
Lituano brišis; compare o lituano brišas «pardo-claro; ruivo-escuro, da cor do alce» (LKŽd., I, 867; A. Lyberis, 62—3).
Lituano brūnis, brūnas(is) (LKŽd., I, 894); compare o lituano brūnas «castanho-escuro, acastanhado», brūnas <baixo-alemão brūn109.
Lituano bulānas «cavalo de pelo amarelo-claro; cavalo amarelo», <russo буланый «castanho-claro, avermelhado (cavalo)» (LKŽd., I, 939; A. Lyberis, 63).
Lituano cinākis «cavalo com olhos brancos e vesgos» (LKŽd., II, 20), < cinas «estanho» (<alemão Zinn) + akis.
Lituano čėkis (LKŽd., II, 41; A. Lyberis, 62); compare o lituano čėkas «malhado», <alemão Scheck110.
Liet. darāšis, darāšius, derēšis, derēšius, cf. liet. darāšas, derēšas «castanho-avermelhado (ruivo) com crina branca (sobre um cavalo), castanho-escuro» <pol. deresz <húng. deres (LKŽd., II, 183, 277; A. Lyberis, 62; K. Bartkus, 382111).
Lituano gelsvis, gelsvōkas, gelsvāis, geltis, geltēlis, geltāisis (LKŽd., III, 220, 221, 223; A. Lyberis, 63); compare o lituano gelsvas, geltas.
Lituano gnēdis «cavalo castanho» (LKŽd., III, 458); compare o lituano gniedas «castanho», <russo гнедой.
Lit. jūōdis, jūōckis, juodōkas, juodāsis, juodūkas, juōdberis, juodbrūnis, juodmārgis, juōdširmis, juōdširvis, juōdžerkštis, juōdplėšnis, juod(a)galvis, juod(a)kāklis, juod(a)karītis, juod(a)kōjis, juod(a)prūšnis, juod(a)smūkis, juod(a)uodēgis (LKŽd., IV, 398, 400–10; A. Lyberis, 62), cf. lituano juōdas.
109 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 60.
110 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 72.
111 K. Bartkus, Literatūra ir kalba, VI, p. 371–393.
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Lituano kaštānas, kaštānis, kaštōnas, kaštōnis (LKŽd., V, 401, 403; A. Lyberis, 62), cf. lituano kaštānas «de pelagem castanha», kaštōnas, kaštānas «tal árvore e o seu fruto», kaštānas < polonês kasztan.
Lituano kéršis (LKŽd., V, 624), cf. lituano kéršas «preto em manchas, branco em manchas».
Lituano làukis, laukōkas, laukàgsis, lauk(a)kàktis (LKŽd., VII, 176, 178, 183, 184; A. Lyberis, 62), cf. lituano làukas «com o focinho branco ou a testa branca».
Lituano moliūgis, cf. lituano moliūgas «da cor da argila».
Lituano obuolãinis, obuolmušỹs (A. Lyberis, 63), cf. lituano ōbuolmušas «malhado, com pequenas manchas escuras ou claras», obuolỹs. Segundo M. Nyderman, o lituano ōbuolmušas é um decalque incorreto do polonês jabłkowity¹¹².
Lituano paļšis, paļšōkas, paļšāsis, paļšiūkas, paļšbēris, paļšmàrgis (A. Lyberis, 62, 63; K. Bartkus, 382), cf. lituano pálšas «cinzento-claro».
Lituano palvis, palvỹs (A. Lyberis, 63), cf. lituano palvas «amarelo-claro, amarelado».
Lituano pelēkis (A. Lyberis, 63), cf. lituano pelēkas «da cor de rato».
Lituano pelēnius (A. Lyberis, 63), cf. lituano pelenai.
Lituano plēsnis (A. Lyberis, 62), cf. lituano plēsnas «ruão ou cinzento-avermelhado», palavra de origem eslava, cf. russo пле́нъ.
Lituano pilkis, pilkėlis (A. Lyberis, 63), cf. lituano pilkas.
Lituano raudāsis, raudīkas, raūdžerkštis, raūdžilis, rūdširvis, raudširmis, raudširvis, raudonširmis, raudonbēris (A. Lyberis, 62), cf. lituano raudās «avermelhado, ruão», rūdas, raudōnas.
Lituano sārtis, sartōkas, sartàsis, sartùkas, sartēlis (A. Lyberis, 62), cf. lituano sārtas «castanho-claro, amarelado».
Lituano šalnis (A. Lyberis, 62), cf. lituano šalnas «como a geada, coberto de geada».
Lituano šēkis «cavalo malhado» (Žagarė, Šakyna), cf. letão sekis «um cavalo de várias cores» (EM, III, 815).
Lituano šerkšnis (A. Lyberis, 62), cf. lituano šerkšnas.
Lituano širmis, širmōkas, širmāsis, širmukas, širmēlis, širmbēris (A. Lyberis, 62), cf. lituano širmas «branco com pelos escuros mesclados».
Lituano širvis, širvāsis, širvōkas, širvānis, širvūkas, širvabēris (A. Lyberis, 62), cf. lituano šīrvas «branco com pelos escuros mesclados, grisalho».
Lituano šyvis, šyvāsis, šyvōkas, šyvūkas, cf. lituano šyvas «cinzento-claro».
Lituano žerkštys (A. Lyberis, 62), cf. lituano žerkštas «da cor da geada».
Letão ābuolainis «que tem manchas como maçãs (epíteto do cavalo)», cf. letão ābuōls «a maçã», ābuōlains «manchado como uma maçã», ābuōltains, ābuōluōts (EM, I, 234–5; EH, I, 192).
Letão bāltenis «cavalo branco, um cavalo de pelagem branca», bāltiņš, baltenica «uma égua branca», balteniša, cf. letão balts «branco» (EM, I, 257; EH, I, 202).
Letão bēris «um cavalo castanho», bēritis, bēruks, bēriņš, cf. letão bērs «castanho» (EM, I, 290, 291, 292; EH, 216).
Letão blesis «um cavalo com uma mancha branca na testa» < baixo-alemão médio blesse (EM, I, 314; EH, I, 228).
Letão briēdis «um cavalo de pelagem cor de alce» (EM, I, 337; EH, I, 243), cf. letão briēdis «o alce».
Letão brūnis «um cavalo castanho», brūnicis, cf. letão brūns «castanho» < baixo-alemão médio brūn (EM, I, 340, 341; EH, I, 246).
112 M. Niedermann, ZfslPh, 4, p. 42–44; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 515.
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Letão dārcis «um cavalo malhado», dārkis, cf. letão dārks «malhado, colorido» (EM, I, 447, 448).
Letão dūkanis «um cavalo castanho», dūkanis, dūcis, dūcis, dūcis, dūkainis «cavalo amarelo com crina preta», dūkanbēris «um cavalo castanho-escuro», cf. letão dūkans «castanho-acinzentado» (EM, I, 523, 525; EH, I, 346).
Letão dulis «um cavalo castanho-claro», dulinbēris «um cavalo castanho-escuro», cf. letão duls «de cor escura» (EH, I, 340).
Letão dzeltis «um cavalo amarelo», dzeltinis, dzeltenis, dzeltiņis, dzelṭānis, dzelṭainis, cf. letão dzeltāns «amarelo» (EM, I, 542; EH, I, 353).
Letão gaīkis, na expressão gaika zirgs «um cavalo malhado (castanho e cinzento)» (EH, I, 376), cf. letão gaīkis «o fugitivo, indomável» (zirgs iet kā gaīkis), letão gaīkis «pessoa excêntrica, leviana, exagerada» (EM, I, 584).
Lat. kuksis «um cavalo de pelagem ruiva, o ruivo» provavelmente se originou por assimilação de *puksis <alem. Fuchs (EM, II, 301; EH, I, 668).
Letão lāucis «um cavalo com uma mancha branca na testa», lāukis, laukene «uma égua com uma mancha branca na testa» (?), cf. letão lāuks «com uma mancha branca na testa» (EM, II, 426, 428; EH, I, 722, 723).
Letão luošītis «um cavalo que é luoss», luošelis «um cavalo castanho-amarelado», cf. letão luõss «baio, amarelo-acinzentado» (EM, II, 528).
Letão muõris «um cavalo castanho-azulado, cinzento» (EM, II, 683; EH, I, 841), cf. letão muõris «o mouro» (?).
Letão mūsainis «um cavalo malhado, um cavalo tordilho», cf. letão mūsāns «malhado, colorido» (EM, II, 679).
Letão palseris «um cavalo cinzento-claro», cf. letão palsāins «de cor tordilha», palsāns (EM, III, 62–3; EH, II, 152).
Letão pelēce «uma égua cinzenta», pelēķis «um cavalo cinzento», cf. letão pelēks «cinzento» (EM, III, 196; EH, II, 221).
Letão raūdis «um cavalo vermelho», cf. letão raūds «vermelho, avermelhado, castanho» (EM, III, 483).
Letão ripainis «um cavalo tordilho-maçã, um cavalo com manchas redondas; um cavalo arredondado e bem nutrido», rīpainis «um cavalo malhado», cf. letão ripa «uma mancha redonda» (EM, III, 530, 539; EH, II, 373).
Letão sālnis «um cavalo tordilho-azulado», sahlkis, cf. letão salns «de cor tordilha» (EM, III, 675).
Letão sarkanis «um cavalo castanho-claro», cf. letão sarkans «vermelho» (EM, III, 720; EH, II, 443).
Let. sekis “um cavalo malhado” provavelmente deriva do livônio šek “Schecke” (EM, III, 815; EH, II, 476).
Let. sirkis “um cavalo ruão”, cf. let. sīrks “de pelo grisalho, acinzentado” (EM, III, 846).
Let. sīrmis “o cavalo ruão”, sirmiņš, sīrmsarītis, cf. let. sīrms “cinzento” (EM, III, 846, 847; EH, II, 489).
Let. sveķainītis “um cavalo amarelo”, cf. let. sveķains “resinoso” (EH, II, 613).
Let. ūbelis “um cavalo malhado; um cavalo velho e feio”, cf. let. ūbele “a rola” (EM, IV, 403; EH, II, 740).
Nos monumentos da língua prussiana encontramos vários nomes de cavalo característicos exclusivamente dessa língua.
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No glossário de Elbing está registada a palavra — Rapeno Jungkekobel (palavra 435), “égua jovem”. Até hoje, esta palavra não tem uma etimologia mais segura. Não seria possível considerar o pr. rapeno um empréstimo do alemão, cf. alem. Rappe, que originalmente significava “corvo” e, mais tarde, também “cavalo preto”?113
Também são de origem bastante obscura os outros dois nomes de cavalo encontrados no glossário de Elbing — Sweriapis Keynhengest (palavra 431) e Sweykis Pflugpfert (palavra 432). O primeiro provavelmente significava “cavalo de torneios” e tenta-se derivá-lo do polaco *świerzop “garanhão”, cf. pol. świerzepa “égua”; o segundo (nos documentos também se encontram as variantes sweyke, sweike, sweke) tenta-se relacionar com o alto-alemão antigo sweiga “manada de bovinos”114.
Ao examinarmos os nomes de cavalo nas línguas bálticas, vemos que há entre eles muitos nomes de origens diversas. Em primeiro lugar, as línguas bálticas conservaram o antigo nome indo-europeu do cavalo, derivado da forma de base *eḱuo-s. Nas línguas eslavas não encontramos vestígios claros desse nome. Um nome de cavalo característico exclusivamente das línguas bálticas é lituano žirgas, letão zirgs, prussiano sirgis. Mais tarde, surgiu no lituano um nome de cavalo exclusivo dessa língua, arklys. Estas mudanças nos nomes de cavalo provavelmente estão relacionadas com a evolução das funções do cavalo enquanto animal doméstico. As línguas bálticas têm um nome de garanhão de origem indo-europeia exclusivo delas. Tentou-se relacionar de várias maneiras com o nome eslavo do cavalo o lituano kumelys e o letão kumelš. Contudo, essas tentativas de associação não foram bem-sucedidas até agora. Em geral, os nomes bálticos e eslavos do cavalo diferem muito. Não há traços característicos comuns apenas a esses grupos de línguas, à exceção de alguns casos de empréstimo.
PORCO
Na Europa, em comparação com o cão, a ovelha e os bovinos, o porco foi domesticado pelo homem talvez um pouco mais tarde. Parece também não ter desempenhado um papel tão importante na vida do homem primitivo quanto os outros animais recém-mencionados. Tanto na Europa como na Ásia existiram centros independentes de domesticação de porcos. Os porcos domésticos mais difundidos na Europa descendem do javali (Sus scrofa ferus). A abundância de centros de domesticação de porcos pode estar relacionada também com o fato de que, devido às suas características físicas, o porco é um animal mais difícil de transportar do que, por exemplo, os bovinos e ovinos, bem como os cavalos.
Vestígios de porcos são encontrados em achados arqueológicos do Neolítico na bacia do rio Dniepre, na Bessarábia, bem como em quase todos os assentamentos neolíticos da Europa setentrional e central. Também são encontrados em assentamentos lacustres da planície do Pó e em túmulos micênicos1.
Encontramos muitos fatos interessantes sobre a criação de porcos nas fontes históricas dos antigos países do Oriente. Ali, ao que parece, os porcos foram domesticados muito antes do que na Europa. Por exemplo, na China antiga, em assentamentos do Neolítico inicial, encontram-se vestígios de porcos junto aos de cães, enquanto os vestígios de outros animais só aparecem no final do Neolítico. As inscrições oraculares de Chenan indicam que, na China antiga, durante cerimônias religiosas solenes, às vezes eram sacrificados até 100 porcos2.
113 F. Kluge, Et. Wb., p. 582.
114 J. Endzelīns, Língua prussiana antiga, p. 260; R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 443.
1 O. Schrader, Reallexikon der indogermanischen Altertumskunde, II, p. 360; C. Keller, Die Abstammung der ältesten Haustiere, p. 100–115; M. Hilzheimer, Schwein, — M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, XI, p. 380–383.
2 V. I. Avdijevas, História do Oriente Antigo, p. 576, 582.
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Que os porcos eram criados na antiga Babilônia é demonstrado, entre outras coisas, pelo fato de esse animal já ser mencionado no famoso Código de Hamurábi.
Os israelitas consideravam o porco um animal impuro e não comiam carne de porco. Em geral, embora fosse criado na Ásia, o porco não era apreciado. Quase selvagem, vagava pelas cidades e, junto com os cães e os abutres, contribuía para manter limpas as ruas3.
As fontes históricas do antigo Egito nada mencionam sobre o consumo de carne de porco, embora os porcos fossem conhecidos ali como animais domésticos desde a pré-história. Por exemplo, um desenho encontrado em uma tumba pré-histórica representa uma vara de porcos. Nas camadas arqueológicas mais antigas do templo de Hieracômpolis foi encontrada uma estatueta de javali feita de faiança. Um javali em corrida foi usado como sinal hieroglífico já em um monumento escrito da época da primeira dinastia. Em geral, porém, encontram-se representações de porcos com muito menos frequência do que de outros animais domésticos. Esses fatos indicariam que o porco também não era muito apreciado pelos antigos egípcios. Isso seria confirmado, em parte, pela circunstância de que, em épocas posteriores, o porco era considerado o animal do deus maligno Set, assassino de seu irmão Osíris. Também não está claro para que os porcos eram criados no antigo Egito. Heródoto conta que, durante suas viagens, viu porcos serem usados no delta do Nilo para pisotear os grãos semeados no solo4.
Na Grécia e em Roma antigas, esse animal era tido em maior estima do que nos países do Oriente. Homero conta que Odisseu possuía doze manadas de bois de chifres retos, e outras tantas manadas de ovelhas, cabras e porcos. Os romanos apreciavam a carne de porco e não hesitavam em mostrar imagens de porcos também em seus monumentos artísticos5.
O porco era um animal muito popular nas terras eslavas. Em geral, entre todos os animais domésticos, os eslavos parecem ter criado sobretudo porcos e ovelhas. Viajantes árabes do século X também falam de sua criação nessas regiões. As condições eram especialmente favoráveis à criação de porcos entre o Vístula e o Desna, onde, nas vastas florestas de carvalhos, era possível colher enormes quantidades de bolotas e, assim, garantir-lhes sem grande esforço alimento para o inverno6.
Nos territórios das atuais repúblicas bálticas, vestígios de porcos, juntamente com os de cães e de bovinos e ovinos, já são encontrados em achados arqueológicos do período neolítico7.
Nos achados arqueológicos dos castros escavados no território da República Socialista Soviética da Lituânia (Nemenčinė, Migoniai, Dovainonys, Bačkininkėliai), datados dos séculos I–IV, encontraram-se, junto com ossos de outros animais domésticos, também percentagens consideráveis de ossos de porco8.
O antigo nome indo-europeu do porco, *sūs/*suų, conservou-se bastante bem em muitas línguas indo-europeias: sânscrito śūkarāḥ, avéstico hū-, grego ὗς, σύς, latim sūs, gótico swein, voc.
3 P. Thomsen, Schwein, — M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, XI, p. 383—384; B. Meissner, Haustier, — ibid., V, p. 221; O. Schrader, Reallexikon der indogermanischen Altertumskunde, II, p. 361.
4 Ranke, Schwein, — M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, XI, p. 383; C. Keller, Die Abstammung der ältesten Haustiere, p. 102.
5 C. Keller, ibid., p. 103; V. S. Sergejevas, Senovės Graikijos istorija, Vilnius, 1955, p. 109.
6 Л. Нидерле, Славянские древности, p. 319—320.
7 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, Lietuvos archeologijos bruožai, p. 79; Latvijas PSR vēsture, I, p. 11; История Эстонской ССР, под. ред. Г. И. Наана, Таллин, 1958, p. 10.
8 P. Kulikauskas, R. Kulikauskienė, A. Tautavičius, ibid., p. 252—253; K. Paaveri P. Kulikauskas, Acta Baltico-Slavica, 2, p. 270—272.
169
Schwein, antigo alto-alemão sū, alemão Sau, albanês thi, toch. B suwo, russo свинья, letão sivēns «porco» etc.
Tal como acontece com muitos outros nomes antigos de animais domésticos indo-europeus, o significado original de *sūs/*suu é muito obscuro. Existem várias explicações, umas menos e outras mais convincentes, mas não se pode dizer de nenhuma delas que seja certamente correta e não suscite dúvidas. Tentou-se relacionar o indo-europeu *sūs com a palavra indo-europeia para «filho» (lituano sūnùs, russo сын etc.), derivando ambos os nomes do mesmo verbo, que significa «produzir, começar, dar à luz»; compare-se o sânscrito sūtē, sāuti, sūvátē «produz, dá à luz». Foneticamente, tal relação é possível, mas é muito difícil justificá-la semanticamente, sobretudo tendo em conta que o porco só foi domesticado um pouco mais tarde do que os outros animais domésticos. F. Specht⁹ relacionou o indo-europeu *sūs com o gótico bi-saulan «untar, sujar», o gótico swarts «preto» e o latim sordes «sujidade». Houve várias tentativas de procurar a origem do indo-europeu *sūs não entre os próprios indo-europeus, mas nas línguas dos seus vizinhos. A. Nehring¹⁰ considerava como tal fonte a forma protofino-úgrica *buvo (compare-se o finlandês sika e o mordvino tuwo). E. Polivanov, reconstruindo para os nomes indo-europeus do porco a forma *(t)sūs, derivou-a do chinês antigo čú «porco, varrasco»¹¹. Contudo, talvez a etimologia que reuniu mais adeptos seja aquela que interpreta o indo-europeu *sūs como uma palavra de origem onomatopaica. Do ponto de vista semântico, esta hipótese seria corroborada pelos nomes onomatopaicos de vários animais em diferentes línguas, incluindo o próprio porco. Além disso, favorece esta etimologia a interpretação do sânscrito sū-karāḥ: «sū — que faz», isto é, «animal que “faz” um som». Neste caso, tanto o indo-europeu *sū- como o chinês antigo ču poderiam ser palavras formadas do mesmo modo¹².
Nas línguas eslavas, este nome indo-europeu do porco conservou-se bem, embora numa forma ligeiramente modificada: eslavo antigo svinija, russo свинья, ucraniano свиня, bielorrusso свіння, búlgaro свиня, servo-croata свиња, esloveno svinja, checo svině, eslovaco sviňa, polaco świnia, cassúbio svina, alto sorábio swinja, baixo sorábio swińa. Este nome eslavo provavelmente deriva da forma feminina svinъ, *svini; são formas próximas o latim suīnus «de porco, porcino» e o gótico swein «porco»¹³.
Entre as línguas bálticas, apenas o letão conservou este nome indo-europeu do porco: su-vēns «leitão», suvēns, suvēnelis, sivēns, sivēnis, sivēntiņš, sivēnica «porca (que tem leitões, etc.)», sivēnice, sivēne «porco de 6–7 meses», sivēnēns «leitão pequeno», sivēnīza = sivēnica, sivēniete «porca jovem (com não mais de um ano); porca prenhe», sivēnuks «o leitão», sivēnuks (EM, III, 850, 1129; EH, II, 491, 606). As formas com -i- na raiz surgiram mais recentemente em letão: nesta língua, com bastante frequência, u antes de v e b muda para i; compare-se divi «dois»: duvejāds «bifurcado», zivs «peixe»: zuvs, tīvi «lavrar»: tuvu, driva «terra»: druva, dibens «fundo»: dubēns etc.¹⁴ Nos dialetos letões existem ainda outras variantes deste nome: sukis «um leitão, um porco meio crescido», sukēns, zuikis «um leitão pequeno», sukis «um porco meio crescido, um leitão», sukelis (depreciativo), sukēns, sukentiņš, sukelēns,
9 F. Specht, Der Ursprung der indogermanischen Deklination, p. 123.
10 A. Nehring, Studien zur indogermanischen Kultur und Urheimat, Salzburg—Leipzig, 1936, p. 112.
11 E. A. Polivanov, Archiv Orientalní, 9, p. 405—406.
12 O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 62; M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 593; F. Kluge, Et. Wb., p. 626.
13 V. Machek, Et. sl., p. 489; M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 593.
14 J. Endzelynas, Os sons e as formas das línguas bálticas, p. 15; J. Endzelīns, Latviešu valodas gramatika, p. 50—52; K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 615.
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sukāns, sukans, suŋķis «um porco de tamanho médio», siūka «o leitão, porco jovem», siūkis, svīkis «um porco muito magro», svīķelis «um leitão pequeno e magro», svīkaltis «o leitão, porco jovem», sukantīns «um leitãozinho», sukniši «leitõezinhos» (EM, III, 850, 1115, 1117, 1119, 1124, 1163; IV, 749; EH, II, 601, 602, 619–620). Como vemos, esses nomes se afastam bastante dos nomes de porco da mesma raiz que mencionamos anteriormente. A formação de alguns deles também é muito difícil de explicar. Talvez as formas com iu- devam ser explicadas como derivadas de *suvikis, cf. zuintina < zuvitina15. Por vezes, a formação de algumas formas pode ter sido influenciada por palavras sonoras como suku «chamamento para atrair um potro; uma interjeição», suk «interjeição usada para chamar um cão a quem se atira algo para comer; chamamento para atrair um potro» (EM, III, 1116, 1118), cf. sukulis «um potro pequeno».
Em prussiano também encontramos um nome de porco dessa raiz: a palavra 682 do vocabulário de Elbing, Swintian Swin. Essa forma prussiana pode ser explicada de várias maneiras. Em primeiro lugar, pode ser considerada resultado de dissimilação ou talvez simplesmente de um erro de escrita, derivada de *swinstian < *swinistian (cf. parstian «porco», werstian «bezerro», que, por sua vez, seriam derivados de *parsīstian, *wersīstian; cf. gertistian «pintinho», ao lado de gertis «galo»). De modo semelhante ao prussiano camstian «ovelha» e ao eslavo овца «ovelha», o prussiano swintian teria sido uma forma diminutiva que se tornou nome de espécie animal. Contudo, o sufixo -tian pode ter sido acrescentado diretamente ao radical swīn-, sem qualquer valor diminutivo, segundo o modelo de outros nomes de animais com esse sufixo16. Também não está inteiramente claro se os prussianos remodelaram essa palavra depois de a tomar emprestada dos eslavos (J. Mikola considerava que sua fonte era alguma forma svin-ča, interpretação à qual R. Trautmann também tende a aderir17), ou se se trata de uma palavra antiga da própria língua prussiana. Considerando que o léxico prussiano difere com bastante frequência do das outras línguas bálticas e coincide com o das línguas eslavas, talvez se deva considerar o prussiano swintian uma palavra autóctone. Essa hipótese também seria corroborada pelo fato de que, em prussiano, os termos relacionados à criação de animais são, na maioria das vezes, palavras autóctones.
O nome de porco dessa raiz também se conservou na palavra composta prussiana sewēwnis (palavra 229 do vocabulário de Elbing: Sewenis Sewstal18). É difícil dizer até que ponto essa grafia reflete a forma verdadeira da palavra prussiana. K. Būga explicou seweynis como tendo surgido por dissimilação de *sweina-s19. J. Endzelīns tende a pensar que ew, em vez de uw, pode ter surgido simplesmente durante a cópia, devido à palavra alemã sewstal20 que aparece ao lado. Assim, o nome de porco reconstruído a partir do nome de chiqueiro mencionado corresponderia ao letão suēns. Por outro lado, considerando que o prussiano e representa o i longo, também é possível relacionar o prussiano seweynis com o letão svēns, como fez V. Burda21. Nesse caso, porém, é um pouco mais difícil explicar, no âmbito da língua prussiana, uw > iv, que, de resto, é característico apenas do letão, embora as formas živė, živis, liežuvīs22, atestadas nos arredores de Zietela, provavelmente indiquem que uw > iv também não era estranho ao prussiano, ao menos em certa parte de seus dialetos.
15 J. Endzelīns, Latviešu valodas gramatika, p. 155, 214
16 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 53, 260—261.
17 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 443; J. Mikkola, Baltisches und Slavisches, Helsingfors, 1902—3, p. 8.
18 Prūsų kalbos paminklai, p. 63.
19 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 615; III, p. 852.
20 J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 246.
21 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 85, 425—426.
22 Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, p. 68; Э. А. Вольтер, Известия отделения русского языка и славесности Имп. Ак. Наук, т. 16, кн. 4, p. 151—160.
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No entanto, parece-nos que o melhor seria reconstruir uma forma pr. seweynis que pudesse ser diretamente relacionada com pr. swintian.
Parece que seria possível relacionar com o nome prussiano para «porco», swintian, o hidrónimo da língua prussiana Swene, bem como o nome de povoação Swene23.
Grande parte das línguas indo-europeias conservou a antiga designação para a cria do porco: lat. porcus, irl. orc, alto-alemão antigo farah, hotan-sak. pāsa (< *parsa-) «porco», curdo purs. Essa designação do leitão foi especialmente bem conservada nas línguas eslavas e bálticas: eslavo antigo prase, russo antigo порося, russo поросенок, ucraniano порося, bielorrusso парася, búlgaro прасе, sérvio-croata прасе, esloveno prase, checo prase, eslovaco prasa, polonês prosię, cassúbio parsa, alto-sorbiano proso, baixo-sorbiano prose, polábio porsą, lituano paršas, prussiano parstian24.
A tentativa de explicar o significado original desta palavra assume diversas formas. E. Lidén25 e F. Specht26 relacionaram o lituano paršas e outros termos com o latim porca «vala», persėti, praparšas «fosso», explicando que o significado original desta designação indo-europeia do leitão teria sido «aquele que revolve o solo». Há paralelos semânticos para tal interpretação, mas o problema é que a palavra não significa porco em geral, e sim apenas a cria do porco — o leitão. Houve tentativas de relacionar o indo-europeu *porkos, no sentido de «fogo, isto é, animal sacrificial», com o grego πῦρ «fogo», o arménio hur, o alto-alemão antigo fuir e outros cognatos dessas palavras27. Já vimos uma tentativa semelhante quando o indo-europeu *agnos «cordeiro» foi relacionado com outra designação indo-europeia para «fogo» (lituano ugnis, latim ignis). No entanto, acerca destas tentativas, pode-se dizer, nas palavras de O. Trubachov: «engenhoso, mas pouco provável». Ainda que tais etimologias fossem semanticamente justificáveis, do ponto de vista fonético são extremamente «forçadas». A etimologia de E. Benveniste28, que relaciona o indo-europeu *porko com uma designação de cor, obteve defensores fervorosos; compare-se o sânscrito pṛ́śni- «malhado», o grego πέρκος. A etimologia de E. Benveniste fundamenta-se semanticamente no facto de que, até aos seis meses, a pele dos leitões do javali apresenta riscas longitudinais pretas e amareladas.
Nos dialetos lituanos, paršas é por vezes usado também no sentido geral de «porco», ou mesmo de «porco grande», «varrasco». Estes significados, porém, são mais recentes. O seu aparecimento foi favorecido sobretudo pelo facto de que, nos dialetos lituanos, ao falar da cria do porco, usam-se com frequência formas diminutivas da palavra paršas: paršiūkas, paršūkas, paršėlis, paršiščias. O significado antigo de «leitão» também se conservou nas palavras paršiuotis «dar à luz leitões», paršuotis, paršinga «que está para parir (referindo-se à porca)».
O lituano parš(i)ūkas também passou para as línguas eslavas vizinhas: bielorrusso парсюк, парсюок, парсюляк, паршук, polonês parsiuk, russo парсук, паршук, парсюк, парсюк. As palavras eslavas são usadas com diversos sentidos: «leitão», «varrasco», «leitão magro e mal alimentado». O. Trubachov tende a explicar algumas formas russas não como empréstimos, mas como resultado da redução de outras formas eslavas. Talvez tenha sido levado a isso pelo facto de russo парсук, парсюк29 ocorrerem em locais distantes e isolados do território da Lituânia (nas proximidades de Riazan). No entanto, podem ser explicadas como vestígios de um substrato báltico.
23 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 178.
24 О. Н. Трубачев, Происхождение…, p. 61; M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 409.
25 E. Lidén, KZ, 56, p. 218.
26 F. Specht, Der Ursprung der indogermanischen Deklination, p. 34–35.
27 J. P. Rona, El culto indoeuropeo del fuego, Montevideo, 1957, p. 14; plg. О. Н. Трубачев, Происхождение…, p. 63.
28 E. Benveniste, Bulletin de la Société de linguistique de Paris, 45, p. 77, 85.
29 В. Даль, Толковый словарь живого великорусского языка, III, p. 19.
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Encontramos palavras de origem báltica com bastante frequência também em territórios eslavos situados longe da atual Lituânia e Letônia30.
A denominação indo-europeia do porco também se encontra nos monumentos da língua prussiana. No glossário de Elbing está registrada: Prastian Ferkel (verbete 686)31. A maioria dos pesquisadores (A. Becenberger, R. Trautmann, J. Endzelīnas, K. Būga) corrige o pr. prastian para parstian < *parsistian32. Na palavra prussiana encontra-se o mesmo sufixo diminutivo com que nos deparamos ao falar do pr. eristian, camstian, swintian. O nome prussiano do porco também ocorre em topônimos prussianos, que, aliás, confirmam igualmente a correção da reconstrução de parstian; compare-se Parstlawke < parstian + pr. laucks «campo», Porsekaymen < *parsas + pr. caymis «aldeia»33.
Esta denominação indo-europeia do porco também se encontra nas línguas fino-úgricas: fin. porsas, est. põrzas, veps. porzas, vot. põrzas, liv. puõras, mord. purhts, puršez. Muitos pesquisadores não duvidam do caráter indo-europeu dessas palavras, mas os linguistas divergem quanto à maneira pela qual e à língua indo-europeia de que os fino-úgricos tomaram emprestada tal denominação do porco. V. Thomsen tendia a considerar que as palavras mencionadas chegaram às línguas fino-úgricas a partir das bálticas34. K. Būga apoiava veementemente essa opinião. Escreveu: «fin. porsas, mord. pur’hts, pyr’hts(ez) (moksha), pur’ts, pur’sez, purtsos (erzya) “leitão, Ferkel”, mari porš, porýš, udm. parš, pariš, mans. pūrys, pôres, poreš, ost. pörös, pūrös “porco, Schwein” também deve ser uma palavra de origem báltica... Por via comercial, o paršas da terra báltica podia facilmente viajar pelos mordvinos até mesmo aos fino-úgricos de Perm e dos Urais. Como mostra a distribuição geográfica da palavra paršas, o centro da criação de porcos ficava não no leste, mas no oeste. Por isso, os fino-úgricos não podiam ter recebido o porco do leste, cujos povos, segundo o testemunho inequívoco de Heródoto, não criavam porcos. Não há por que se admirar que o paršas e o *solo (fin. suola...) “sal” tenham percorrido longas distâncias, pois esses dois produtos são muito importantes na vida humana. Outras palavras de origem báltica chegaram, no Oriente, aos mordvinos e aos mari. Uma vez que o porco (paršas) e o sal (la. sāls) da terra báltica já haviam chegado às terras dos mordvinos e dos mari, não foi difícil que, dali, com os comerciantes, chegassem também aos seus vizinhos mais distantes»35. Outros pesquisadores, baseando-se sobretudo em argumentos geográficos, incluem a mencionada denominação fino-úgrica para «porco» na camada de empréstimos indo-europeus da protolíngua fino-úgrica36. Juntamente com o fin. porsas e outros, pertencem a essa camada palavras que outros pesquisadores consideram baltismos: fin. jyvä «grão» (cf. lituano javai), fin. sisar «irmã» (cf. lituano sesuo). Recentemente, essa opinião vem conquistando cada vez mais adeptos. Ainda assim, seria prematuro considerar a questão definitivamente resolvida. Est. pahr «porco»
30 О. Н. Трубачев, Происхождение..., p. 63—64; M. Vasmer, Et. Wb., II, p. 317—318; T. Zdancewicz, Lingua Posnaniensis, 8, p. 346; Cz. Kudzinowski, Acta Baltico-Slavica, 1, p. 224.
31 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92; Prūsų kalbos paminklai, p. 73.
32 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 408; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 219; K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 305.
33 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 424; II, p. 384; III, p. 677; G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 115, 131.
34 V. Thomsen, Beröringer mellem de finske og de baltiske (litauisk-lettiske) Sprog, p. 206.
35 K. Būga, Rinktiniai raštai, III, p. 592.
36 Л. Хакулинен, Развитие и структура финского языка, II, p. 38; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 542; J. Kalima, Festschrift für Hermann Hirt, Heidelberg, 1936, p. 199—214; E. Itkonen, A. J. Joki, Suomen kielen etymologinen sanakirja, III, Helsinki, 1962 p. 606.
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“lys”, J. Kalima, distinguindo-o de outros nomes de porco das línguas fino-úgricas que acabámos de enumerar, considera-o um empréstimo do báltico37.
Nas línguas bálticas e eslavas há ainda outro nome para o porco, que parece ser característico apenas destes dois grupos de línguas indo-europeias e cuja origem continua a suscitar muitas dúvidas. Nas línguas eslavas, esta palavra é usada sobretudo com o sentido de javali: russo antigo вепрь, russo вепрь, russo dialetal венерь «leitão», вепрь, веприк «javali, porco castrado, leitão», ucraniano вепер «javali, porco castrado», bielorrusso вепер «javali, leitão», búlgaro вепър «javali», sérvio-croata вѐпар «leitão», esloveno veper «javali», checo vepř «porco, leitão», eslovaco vepor, polaco wieprz «porco, leitão, javali», alto sorábio wjapr «leitão, javali», baixo sorábio wjapš, polábio víper38.
Entre as línguas bálticas, esta palavra só se conservou bem no letão: vepris «um javali castrado, um porco capado», vepruks «um javali castrado pequeno», veprēks «um vepris não muito pequeno», veprēks, diminutivo depreciativo veprelis, veprēns, veprēlis «um vepris não grande», veprukāns; compare também vepruoties «comer à mesa de modo desordenado e descuidado», veprelis «uma criança suja» (EM, IV, 538; EH, II, 771).
A existência deste nome de porco em lituano pode ser inferida da toponímia: Vėpriai (localidade a sudoeste de Ukmergė), Veprinis (lago no distrito de Vievis), Veprys (lago de Antalieptė), Vepriškiai (dois lagos no distrito de Vievis), Vėprynas (lago de Veisiejai)39.
Os topónimos prussianos Weppen, Wepers permitem supor que essa palavra também não era desconhecida dos prussianos40.
Nas suas notas e aditamentos ao dicionário etimológico da língua russa de A. Preobraženskij, K. Būga aventou a hipótese de que o letão vepris também pudesse ser um empréstimo do russo («…заимствование из русского не исключено»)41. No entanto, os vestígios da palavra em questão nas línguas lituana e prussiana não apoiam essa hipótese, e os outros investigadores não duvidam da origem báltica do letão vepris.
A origem desta palavra e o seu significado original, porém, suscitam inúmeras dúvidas. Alguns investigadores, ao explicarem semanticamente que o javali recebeu o nome de «fecundador», relacionam-na com o sânscrito vapati «ejeta (a semente)»; outros, com o sânscrito yabhati «futuere». Há quem considere que o nome do javali se deve às suas cerdas, e procure relacioná-lo com o latim veprēs «espinhos». Outros, por sua vez, considerando que o v das palavras báltico-eslavas é acrescentado, relacionam-no com o alto-alemão antigo ebur «javali, porco castrado», o alemão Eber e o latim aper42.
Tanto nas línguas eslavas como nas bálticas existem numerosos nomes diferentes para o porco, característicos de apenas um destes grupos linguísticos ou mesmo de uma única língua. Sem nos determos nos nomes eslavos deste tipo, examinaremos mais detalhadamente os nomes deste animal característicos das línguas bálticas.
Na língua literária lituana e em muitas variedades dialetais, o porco castrado é chamado meitėliu (nominativo meitėlis, meitėlys). Nos dialetos também ocorrem as formas maitelis, meičiukas «leitão pequeno», meičokas, meičkus (LKŽd., VII, 760, 1009). Este nome relaciona-se com as palavras misti, maitinti, maistas, maitas «alimento, comida, ali-
37 J. Kalima, Itämerensuomalaisten kielten balttilaiset lainasanat, p. 145.
38 О. Н. Трубачев, Происхождение..., p. 66; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 183.
39 Nomenclatura dos rios e lagos da República Socialista Soviética da Lituânia, p. 190.
40 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 199.
41 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 648–649.
42 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 183; V. Machek, Et. sl., p. 561; F. Kluge, Et. Wb., p. 150; EM, IV, p. 538; О. Н. Трубачев, Происхождение..., p. 66; R. Trautmann, B-sl. Wb., p. 351; Сравнительная грамматика германских языков, I, Москва, 1962, p. 57.
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“šaras” etc.43. Encontramos um paralelo semântico exato para o lituano meitėlis nas línguas eslavas; compare-se o sérvio-croata кѝмад «porca», кѝмак «leitão», кѝмач «porca reprodutora», kѝme «porco meio crescido», o russo dialetal коромак «leitão», o búlgaro кърмак: sérvio-croata кърмити «alimentar», russo кормить «alimentar, dar grãos, nutrir, amamentar», корм «forragem, alimento, ração, comida»44.
O lituano meitėlis tem um cognato em prussiano antigo, nomaytis (Nomaytis Burg, palavra 684 do glossário de Elbing)45. Seu parentesco com o lituano meitėlis não deixa dúvidas. Contudo, R. Trautmann relacionava ambas as palavras bálticas não com o lituano maitinti, prussiano antigo maitātunsin «alimentar-se», prussiano antigo maitā «alimenta», mas com o prussiano antigo ismaitint «perder, deixar escapar». Assim, na opinião de R. Trautmann, o prussiano antigo nomaytis teria recebido esse nome por causa da castração. Ainda assim, parece mais convincente relacionar o prussiano antigo nomaytis e o lituano meitėlis às palavras do grupo do lituano maitinti, mesti, como fazem J. Endzelins e E. Fraenkel46.
Em letão não há um nome para porco derivado dessa raiz, mas encontramos ali outro bom paralelo semântico que confirma a justeza da relação entre o lituano meitėlis, o prussiano antigo nomaytis e o lituano maitinti; compare-se o letão baruoklis «animal de engorda, especialmente porco de engorda», baruoklis, baruoksnis, barūoksnis, baruotnis, baruoknis, baruklis, baruokle «porco de engorda (fêmea)», barukle (EM, I, 265; EH, I, 206): letão baruot «alimentar, nutrir, engordar», barība «alimento, forragem».
Também há no lituano outro paralelo semântico para esses nomes de porcos; compare-se penimis «porco de engorda, leitão», peniūkšlas, peniūkšlis, pešlas < *penslas: penėti47.
De origem completamente obscura é a palavra lituana kiaũlė, usada em todos os dialetos lituanos e na língua padrão como nome genérico desse animal. Em lituano também se usam vários derivados sufixais da palavra kiaulė, cujo significado por vezes se afasta um pouco do sentido principal: kiaulaitė «porco jovem de pequeno porte», kiaulaitė, kiaulėlė «porco pequeno e jovem, leitão», kiaulėlis «leitão», kiaulėnas «porquinho», kiaulienas «porco castrado», kiaulykštė «porco insignificante», kiaulykštis «porco pequeno», kiauliokas «leitão de tamanho médio», kiauliotė «porquinha, leitão», kiaūlis «porco castrado, leitão», kiaulys, kiauliščia «porco insignificante», kiauliūkas «leitão», kiauliūkšė «porco de pequeno porte», kiauliūkštė, kiauliūkštis «leitão de pequeno porte», kiaūlius «porco castrado, leitão», kiauliva «porco (pejorativo)», kiaulūtė «porco de pequeno porte, leitão» (LKŽd., V, 687, 689–90, 691, 696, 698, 699, 701).
Em nenhuma outra língua báltica ou eslava encontramos um nome desse tipo para porco. A palavra kiaũlė é característica exclusivamente do lituano. De fato, tenta-se relacionar essa palavra ao grego σωλούς ὗς48, mas tal associação é extremamente duvidosa.
O lituano kiaũlė, pela sua fonética, lembra muito o nome do porco macho — o cachaço — encontrado nas três línguas bálticas; compare-se o lituano kuilỹs, kuilius (LKŽd., VI, 780–1), letão kui-
43 E. Fraenkel, Et. Wb, p. 459–460; K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 411.
44 И. И. Толстой, Сербо-хорватско-русский словарь, Москва, 1957, p. 357; О. Н. Трубачев, Происхождение…, p. 66; C. D. Buck, Dict., p. 162.
45 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92, 386; Prūsų kalbos paminklai, p. 73.
46 J. Endzelins, Senprūšu valoda, p. 216; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 459–460.
47 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 569.
48 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 249; O. Haas, Lingua Posnaniensis, 3, p. 77.
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lis, pr. cuylis. Muitos pesquisadores consideram esse nome do varrasco um eslavismo⁴⁹. Não haveria motivo algum para duvidar dessa hipótese se fosse possível encontrar uma fonte exata da qual pudessem ter surgido o lituano kuilỹs, o letão kuìlis e o prussiano cuylis. Infelizmente, não existe tal fonte. Os pesquisadores reconstituem a forma kylb. Fazem essa reconstituição com base no russo dialetal КИЛЯК «varrasco, porco macho», que, por sua vez, relacionam ao russo КИЛА «hérnia, ruptura; nódulo (doença das plantas)». Na opinião de O. Trubačiovas⁵⁰, o significado da forma kylb era «presa». O nome do varrasco, de fato, às vezes deriva do nome da presa; compare-se o russo КЛЫКАЧ «varrasco»: КЛЫК «presa», o búlgaro ГЛИГАН «varrasco, javali», ГЛИГ: búlgaro ГЛИГ «presa de varrasco, de javali», e o alemão Hauer «varrasco, javali»: Hauer «presa». Semanticamente, a explicação de O. Trubačiovas para o russo КИЛУН, КИЛЯК seria bastante convincente, mas a relação fonética entre o russo КЛЫК «presa» e *kylb continua sem explicação.
Nos dialetos letões, além das formas do nome do varrasco kuilis, kuilēns, kuilins, diminutivos kuijuks, kuilenītis (EM, II, 300; EH, I, 667, 668), encontramos também as formas ķilis, ķilins, diminutivos ķilēks, ķiluks (EM, II, 388; EH, I, 706). J. Endzelīnas explica que as formas com -i- na raiz derivam da mesma fonte que as formas com -ui-, mas foram emprestadas em época posterior. Algo semelhante ocorreu em lituano com as palavras kūila «hérnia, ruptura» e kỳla, das quais a primeira deriva da forma eslava *kyla, enquanto kỳla entrou no lituano depois que o eslavo ky > passou a ki. A propósito, pode-se observar que em lituano há também um equivalente direto das palavras eslavas, kūlas «nódulo; hérnia» (LKŽd., VI, 819). O novo empréstimo do letão kīlis volta a suscitar dúvidas quanto à autenticidade da fonte eslava. Será possível que a palavra da qual, em épocas diversas, derivou o nome báltico desse animal não tenha sobrevivido em nenhuma língua eslava vizinha?
O nome do varrasco é atestado uma única vez nos monumentos da língua prussiana: no glossário de Elbing (palavra 683), Tuylis Beer (alto-alemão médio ber «Zuchterber»)⁵¹. Com base nas demais formas do nome do varrasco nas línguas bálticas, parece justificável corrigir essa forma para kauils. Essa forma talvez encontre apoio parcial também nos dialetos alemães da Prússia Oriental Kuijel «varrasco», Kujel, kuijeln «correr», que podem ainda estar diretamente relacionados ao nome prussiano do varrasco⁵².
K. Būga tentou explicar o nome báltico do varrasco como palavra autóctone, relacionando-o ao lituano kiaũlė, kūkis «porco macho», kūkė «porca», e ao letão cūka⁵³. Mais tarde, porém, K. Būga também concordou com a explicação segundo a qual os bálticos receberam essa palavra dos eslavos.
Ainda assim, parece-nos haver algum fundamento para relacionar o nome báltico do varrasco ao lituano kiaũlė. O vocalismo da raiz pode ter mudado ocasionalmente também sob a influência do empréstimo eslavo kūila «hérnia, ruptura»; além disso, ui pode ter surgido como resultado de certa carga emocional depreciativa. Compare-se o lituano kūinas, kūikė, kūinas «sem chifres», muitā «carniça», būilis «touro» etc.
Tenta-se relacionar ainda outro nome báltico para porco ao lituano kiaũlė, a saber, o prussiano skewre, skawra. Esse nome prussiano para porco é um dos nomes de animais mais autênticos da língua prussiana, pois está atestado em ambos os glossários prussianos. No glossário de Elbing encontramos: Skewre Suwe (palavra 685); e S. Grūnov:
49 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 92; R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 451; E M, II, p. 300; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 305; J. Endzelin, IF, 33, p. 117.
50 О. Н. Трубачев, Происхождение..., p. 67.
51 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92; Prūsų kalbos paminklai, p. 73.
52 H. Frischbier, Preussisches Wörterbuch, I, p. 442.
53 K. Būga, Rinktiniai raštai, I, p. 296–297.
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sau skawra (19ª palavra)54. R. Trautmann, ao reconstruir a forma proto *skiau-rē, relacionou, com muita cautela (com um?), esta palavra prussiana ao lituano kiaulė55. K. Būga56 e J. Endzelīns57 agiram de modo semelhante. Assim, a palavra prussiana teria um sufixo diferente e um s- acrescentado. No entanto, é muito difícil demonstrar a identidade genética entre o prussiano skewre e o lituano kiaulė: a fonética dessas palavras difere demasiado.
A designação prussiana para «porco» também sobreviveu na toponímia; cf. Skeurekaym < prussiano skewre + prussiano caymis «aldeia»58.
Também suscita muitas dúvidas a explicação da origem do nome lituano para o javali šernas, šėrnas, šerna. Em letão, não se usa uma palavra desta raiz com o significado de «javali». Que o lituano šėrnas tinha um cognato em prussiano é indicado pelo hidrônimo prussiano Serenappe < seren + ape «rio», e talvez também pelo topônimo Sernaw59.
E. Fraenkel, refutando a explicação de E. Berneker, segundo a qual o lituano šėrnas, com base em paralelos semânticos com o eslavo veprь «javali»: sânscrito vāpati «ejacula (sêmen)»; gótico auhsa «touro»: sânscrito ukṣāti «asperge», etc. —, tende a relacionar o lituano šėrnas ao sânscrito kṣárati «corre, flui, derrete»60, ao lituano šerkšnas, šārmas e a outras palavras de raiz indo-europeia *ker-61. Foneticamente, tal associação é inteiramente possível; contudo, as palavras de raiz indo-europeia *ker- tanto nas línguas bálticas como nas eslavas costumam designar cores claras ou coisas de cores claras; cf. lituano širmas «branco com pelos escuros misturados», širvas, letão širins, russo antigo серень «branco», etc., enquanto o javali é um animal de cor escura.
Gostaria de chamar a atenção para uma etimologia do lituano šėrnas que não consta do dicionário de E. Fraenkel, mas que A. Fick já publicou há um século. Sem apresentar qualquer fundamentação mais ampla, A. Fick relacionou o lituano šėrnas ao lituano šer̃š, šėrtis, reconstruindo a raiz *šar- «ser áspero»62. Talvez, por não encontrarem paralelos semânticos mais adequados, os investigadores posteriores tenham encarado esta etimologia com ceticismo e, como vimos, ela nem sequer tenha sido incluída no dicionário etimológico da língua lituana. No entanto, a etimologia de A. Fick é bastante convincente: pode ser fundamentada com paralelos semânticos de outras línguas; cf. húngaro serte «cerdas», eslovaco ošipiná «porco»: eslovaco šip «espinho»63. Como se sabe, as cerdas do javali são ainda mais grossas do que as do porco doméstico. Também não há obstáculo fonético à associação do lituano šėrnas ao lituano šer̃š; quanto à formação, cf. lituano kernà «matagal», prussiano kirno «arbusto»: lituano kėras «arbusto; toco», etc.64
Nas línguas bálticas, como é natural — com exceção do prussiano, devido à escassez de seus testemunhos escritos —, encontramos muitos outros nomes do porco, de uso mais restrito. Há sobretudo muitos nomes de origem onomatopaica.
54 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 92, 94; Monumentos da língua prussiana, p. 73, 78.
55 R. Trautmann, ibidem, p. 429.
56 K. Būga, Escritos selecionados, I, p. 296–297.
57 J. Endzelīns, Língua prussiana antiga, p. 249.
58 G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 161, 233.
59 G. Gerullis, ibidem, p. 155, 156.
60 E. Berneker, IF, 8, p. 284.
61 E. Fraenkel, Et. Wb., p. 974.
62 A. Fick, Dicionário comparativo das línguas indo-europeias, II, Göttingen, 1876 p. 695.
63 О. Н. Трубачев, Происхождение…, p. 67.
64 A. Sabaliauskas, Baltistica, I(2), p. 162–163.
12. Baltų ir slavų kalbų ryšiai
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Liet. ciucė «porca (termo carinhoso ou insultuoso)», čiukė «čiukė, porca», čiukukas «leitão, čiūkutis», ciukūtis (LKŽd., II, 29), cf. as vozes de chamar e tocar os porcos: ciūga, ciūgā, ciuk, čiūkš.
Liet. čiūga «porca», čiūgā, čiūgalis «leitão (na linguagem infantil)», čiūgālis «porco, porca (termo carinhoso)», čiūgana «porca, čiukė», čiūgalis «čiukūtis, leitão» (LKŽd., II, 94), cf. lituano čiūg «čiuk, čiuku (chamamento usado para os porcos)», čiūgā, čiūgā, čiūglė, čiūgnōti «chamar os porcos».
Liet. čiūkā «porca», čiūkas «porca, porco», čiukė «porca (na linguagem infantil)», čiūkė, čiūkis «varrasco», čiūkis, čiūklė «porca (na linguagem infantil)», čiūklis «leitão», čiukūtis «porco (termo carinhoso)», čiūkūtis, čiūlė «porca velha», čiūnis «porco (termo carinhoso)» (LKŽd., II, 95, 96, 99, 101), cf. as vozes de chamar os porcos: čiūk, čiūk, čiūk, čiūka, čiūkā, čiūka, čiūki, čiūku, čiūkut, čiūkuōti «chamar o porco dizendo “čiuk čiuk”», čiūkōti.
Liet. čiūotė «porca, čiukė», čiūotis «varrasco (nome carinhoso)» (LKŽd., II, 108, 109), cf. as vozes čiūo, čiūō, čiūot.
Liet. jūkšė «porca», jūkšius «porca, porco» (LKŽd., IV, 375, 376), cf. a voz de tocar os porcos jūkš.
Liet. kiūkšė «porca» (LKŽd., V, 913), cf. kiukšėti «grunhir (referindo-se a um porco)».
Liet. kriukā «porca», kriūkė, kriuksė, kriūkšė (LKŽd., VI, 641, 644, 645, 647, 648), cf. kriū «interj. que representa o grunhido do porco», kriūkt.
Liet. krūksis «leitão» (LKŽd., VI, 695, 696), cf. krūk «interj. que representa o grunhido do porco».
Liet. kuciūtė «porca», kuciūkas «porco, porca (geralmente chamado assim ao chamar)» (LKŽd., VI, 755, 756, 757), cf. a voz usada para chamar os porcos kuc.
Liet. kūkas «porca, porco», kūkā «porca (na linguagem infantil)», kūkā, kuksa, kūksis «porco, leitão», kūkšis, kūktė «porca», kūkūlė, kūkūtas «leitão», kūkūtė «porquinha», kūkūtis, kūkūtis «leitão, porquinha», kūkūtis, kūkūtīs (LKŽd., VI, 791, 792, 795, 801, 802, 803, 807, 810, 817, 818), cf. as vozes usadas para chamar os porcos: kūkal, kūkat, kūks, kūkt, kūkut.
Liet. kvykulys «porco», kvykūtis «leitão» (LKŽd., VI, 1094), cf. lituano kvýkti.
Também encontramos em letão nomes de porcos de origem análoga. Em primeiro lugar, parece que só assim se deve explicar o nome do porco na língua literária letã cūka. J. Endzel̄ynas⁶⁵ tendia a explicar que o letão cūka derivava de *sūka (cf. persa xūk, inglês antigo sugu, latim sucula, galês hucc, letão sukis), por meio da forma diminutiva cūcina, cujo c- é considerado resultado de assimilação de s-. Contudo, a abundância de exemplos de nomes de porcos de origem onomatopaica tanto nas línguas bálticas como, em geral, nas línguas indo-europeias e também nas línguas não indo-europeias leva a pensar que o letão cūka seja uma palavra de origem onomatopaica; por exemplo, além dos nomes de porcos de origem onomatopaica em lituano já mencionados, cf. ainda russo чуха, чухна, чухня, чушка, чучка, esloveno čuna, čunka, čunja, čunjoga, russo юс «leitão», юсочка «porquinha», russo дюшка «porca», дюк, дзюк, дюхман, cassúbio buxla, alemão Zuckel «porco jovem», Suckel, francês suíço couce, coutche, coutsi, couci «nomes familiares para o porco e gritos para chamá-lo», avar cuka «porca»⁶⁶.
65 EM, I, p. 398.
66 K. Būga, Rinktiniai raštai, II, p. 294; M. Niedermann, Tauta ir žodis, II, p. 443; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 75–76; O. H. Трубачев, Происхождение…, p. 68; K. Müller, ZfSl, 2, 1966, p. 225.
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Além de cūka, nos dialetos letões também se encontram as formas cūcene «um porco jovem, a porca», cūcēns «um porquinho», cūcis «um porco jovem», cūcietis «o porco», cūčka «a porca», diminutivo cūciņa, pejorativo cūkele, cūža «um porco magro», cugītis «um porquinho pequeno (e gordo)», diminutivos cūcele, cūciņa (EM, I, 397, 398; EH, I, 279, 280), cūčka «porca», cūcis «um porco jovem, o leitão», diminutivos cūčaks, cūča, cūčele, cūčelite, cūga «um nome carinhoso para porco», cūgiņa (EM, I, 418, 424; EH, I, 294, 298), cigiņa «o porco (na linguagem infantil)» (EH, I, 269).
Também são de origem onomatopaica:
Let. kvīnka «um porco que guincha», kvīnīta «um porco magro que guincha continuamente», kvīka «um porco que guincha», kveksis «uma espécie de porco» (EM, II, 355; EH, I, 689); compare-se o let. kvīnkt «guinchar fracamente (dito de leitões)», kvīkt «guinchar».
Let. rekšis «o javali», reksis «um porco, um porco mestiço» (EM, III, 508); compare-se o let. rekstēt «grunhir».
Let. rukšis «epíteto do porco», rucis, rukšēns, rukšans, rukainīte, rūkai-nīte, rukaiņa, rukselīte, rūkulis, rukulīte, ruķelīte, rūkašiņa, rukažiņa, rūcītis, rūks-tultīte, rūksis «um porco (jovem)», rukse «um leitão (como nome carinhoso)», rukšu-lītis «um leitão pequeno (branco e limpo)», rūcis «o leitão», ruisis (EM, III, 553, 556, 557, 568, 569, 588; EH, II, 382, 383, 387); compare-se o let. rūkt «bramar, rosnar», rukstēt.
Let. ūce «nome carinhoso para um porco» (EM, IV, 296) é uma palavra de origem bastante obscura; talvez deva ser relacionada com o let. ūicēt «(crianças) engatinhar com as mãos e os pés».
Let. uršēklis «um leitão grunhidor», urgucā «uma porca (prenhe)» (EM, IV, 305, 308; EH, II, 715); compare-se o let. urr «interjeição usada para chamar os porcos (para casa)».
Como mencionámos, houve interpretações segundo as quais o significado original de ide. *porkos teria sido «aquele que fuça». Há paralelos semânticos para tal interpretação também nas línguas bálticas:
Liet. knistikis «porco (palavra de adivinha)», kniūsas, kniūstas, kniūstė (LKŽd., VI, 258, 269, 270); compare-se o liet. knisti.
Let. rakuliņa «a que escava — epíteto da porca», rakulīte, rakušiņa, ruocenīte, ruokuliņa, ruokulīte (EM, III, 475–6, 576, 581; EH, II, 353); compare-se o let. rakt «cavar, revolver a terra».
Let. rukša «um porco que revolve a terra», rušainīte, rušulīte, rušulīna (EM, III, 564, 565; EH, II, 383); compare-se o let. rušināt «revolver a terra, escarvar, arranhar, cavar algo».
Tanto em lituano como em letão encontramos nomes de porcos derivados de nomes de cores:
Liet. bálcikas «leitão branco», bálčkīs, baltrīns, bálčkē «porca branca» (LKŽd., I, 481, 505); compare-se o liet. báltas.
Liet. blisė (M. Katkus⁶⁷, 67); compare-se o liet. blisas «claro (dito de um animal)», blėsis < alem. Blässe.
Liet. dėglis «porca chamuscada», dėglė, deglė, dėglis, deglýs, dėglius, deglóji, dāglis, daglē (LKŽd., II, 141, 249); compare-se o liet. dėglas «malhado (dito de porco)», dāglas.
Let. dāgle «uma porca de cor de brasa», daglis «um javali com manchas de queimadura», diminutivo daglītis «um porco malhado de branco e preto» (EM, I, 430; EH, I, 302); compare-se.
⁶⁷ M. Katkus, Raštai, Vilnius, 1965.
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letão dagls «malhado de branco e preto, castanho-avermelhado com manchas pretas, geralmente dito apenas de porcos».
Lituano juõčkė (M. Katkus, 67), cf. lituano juõdas. Letão juõzis «leitão com uma faixa transversal sobre o dorso» (EM, II, 128), cf. letão juõsta «o cinto», juõzt «cingir».
Lituano kéršė (M. Katkus, 67), cf. lituano kéršas. Lituano žilė (M. Katkus, 67), cf. lituano žilas.
Também há nomes de porcos de outra origem, relacionados a outras características do animal:
Letão kõra «um porco grande e magro» (EM, II, 255), cf. letão kõrāt «andar devagar, arrastar-se».
Letão žnargle «um porco (magro) que não quer comer direito», žnėrgle, žnėrba, žnėrga «um leitão ou uma criança que não quer comer direito» (EM, IV, 823, 825; EH, II, 821), cf. letão žnėrgāt «ser exigente com a comida, comer sem apetite».
Além do nome do varrasco mencionado anteriormente (lituano kuilỹs), considerado por muitos linguistas um empréstimo das línguas eslavas, nas línguas bálticas ocorre também um ou outro nome de porco de origem estrangeira, de uso mais raro:
Lituano kabõnas «porco para engorda, bacon», diminutivos kabonaitis, kaboniõkas (LKŽd., V, 25) provavelmente deriva do bielorrusso, cf. bielorrusso kabān, russo кабан, polonês kaban. A fonte das palavras eslavas são as línguas turcomanas, cf. quirguiz kaban etc.68
Lituano knūras «porco para engorda», knūrus «varrasco, javali» (LKŽd., VI, 266, 279) também é provavelmente um empréstimo eslavo, cf. bielorrusso кнур «varrasco, javali», ucraniano кнур «porco para engorda», polonês knur. Por sua vez, essa palavra eslava tem origem muito obscura; sua forma mais completa é o russo antigo кънопоз, cujo primeiro componente é associado ao russo корный (cf. корпоухий «com as orelhas cortadas»), ao passo que o segundo se tenta relacionar ao grego ὄρχις «testículo», com o qual, segundo se supõe, também é cognata a palavra lituana erżilas69.
Lituano antrius «reprodutor, varrasco», antris, intrius (LKŽd., I, 139; IV, 126), eslavismo, cf. polonês wnęt(e)r «macho com os testículos ocultos».
Letão māška «porca com leitões» (EM, II, 546–7; EH, I, 784), provavelmente, como pensava J. Endzelynas, deriva de mačka, e esta, do russo мачка «mamãezinha».
Letão švinka «um porco» (EH, II, 661), aparentemente deriva do russo свинка «porca»; quanto a š- cf. letão švakstēt: svakstēt, švampāties: svampāties, švepstis: svepstis, švips-tēt: svipstēt etc.
Lituano švinė «porca» (Žagarė, Šakyna, Gruzdžiai) também pode ser uma palavra de origem eslava, cf. polonês świnia70.
Como vemos, os nomes do porco nas línguas bálticas são extraordinariamente variados. Elas não têm um nome genérico comum para esse animal. As línguas bálticas individuais conservaram bem alguns nomes indo-europeus antigos para o porco. Nessas línguas há muitos nomes de porco de origem onomatopaica. A origem de alguns nomes ainda não foi suficientemente esclarecida. Os nomes do porco nas línguas bálticas e eslavas diferem consideravelmente, embora também apresentem certas características comuns.
68 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 495; O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 69. 69 M. Vasmer, Et. Wb., I, 580; O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 65–66. 70 A. Senn, Journal of Central European Affairs, 1956, Juli, p. 190, plg. E. Fraenkel, Et. Wb., p. 1045.
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GATO
Se há motivos suficientes para considerar o cão o primeiro amigo quadrúpede do homem, o gato, sem dúvida, deve ser considerado o último animal doméstico que ele domesticou. Os antigos egípcios foram os primeiros a domesticar o gato. Nos desenhos do antigo Egito, ele começa a aparecer durante o reinado da XII dinastia dos faraós, isto é, no início do II milênio a. C.1. Os antigos egípcios criavam muitos gatos e consideravam-nos animais sagrados; após a morte, chegavam até a embalsamá-los. O historiador grego Heródoto fala longamente sobre a importância do gato no antigo Egito, e Diodoro da Sicília (segunda metade do século I a. C. — início do século I d. C.) descreveu um acontecimento que testemunhara com os próprios olhos: um romano, depois de matar acidentalmente um gato, foi morto pela multidão egípcia enfurecida.
Os gatos domésticos surgiram na Europa muito mais tarde. Nas fontes escritas, o gato doméstico é mencionado pela primeira vez em meados do I milênio d. C. Embora se possa discutir se, em algumas fontes latinas desse período, a palavra cattus (catta) designa um gato selvagem ou doméstico, na biografia do papa Gregório Magno, datada de cerca do ano 600 d. C., afirma-se que ele «nada possuía no mundo além de um gato, que acariciava com frequência e aquecia no colo, como se fosse uma companheira de vida». V. Hehn supõe que os gatos domésticos se difundiram mais intensamente no Império Romano nos séculos IV ou V d. C., em ligação com a chegada em massa de ratos asiáticos ou coelhos espanhóis. Foi também nessa época que o lat. cattus, catta, que antes designava vários animais selvagens (doninha, marta), adquiriu um novo significado: o de gato doméstico2. De Roma, os gatos domésticos e, com eles, o nome do animal propagaram-se para outros países europeus. É provável que, na segunda metade do I milênio, o gato tenha começado a se difundir gradualmente também entre os povos eslavos e bálticos. Assim, já se encontram alguns restos de gatos domésticos em escavações arqueológicas na Polônia, datadas dos séculos VIII–XII. Restos semelhantes foram encontrados em escavações aproximadamente do mesmo período nos territórios da RSS da Lituânia e da RSS da Letônia3 (na Inglaterra, o gato doméstico ainda era um animal raro no século X4).
A origem do lat. cattus, catta é muito obscura. Alguns linguistas tendiam a acreditar que os romanos poderiam ter recebido dos germanos esse nome para o animal, ainda selvagem à época. De fato, nas terras germânicas, os gatos selvagens eram animais muito apreciados. Na toponímia germânica, a forma *kat(t) «curva, curvatura» ocorre com muita frequência; assim, o significado original de «gato» poderia ter sido «animal de dorso curvado». É verdade que o mesmo nome para esse animal também era difundido nas terras celtas; compare-se o galês cath, o córnico cath, o bretão caz e o irlandês cat. Isso deu motivo para considerar esse nome do gato uma palavra comum às línguas germânicas e celtas, ou celtas e germânicas5. A origem germânica do lat. cattus, catta seria, em parte, corroborada
1 V. Hehn, Kulturpflanzen und Hausthiere in ihrem Übergang aus Asien nach Griechenland und Italien sowie in das übrige Europa, Berlim, 1902, p. 456—457; C. Keller, Die Abstammung der ältesten Haustiere, p. 81—83; M. Hilzheimer, Haustier,—M. Ebert, Reallexikon der Vorgeschichte, V, p. 220; H. Ranke, ibid., p. 220; Е. А. Богданов, Происхождение домашних животных, p. 294—301.
2 V. Hehn, ten pat, p. 462; O. Schrader, Reallexikon der indogermanischen Altertumskunde, I, p. 565.
3 W. Hensel, Die Slaven im frühen Mittelalter, p. 79, 94; K. Паавер, Формирование териофауны и изменчивость млекопитающих Прибалтики в голоцене, p. 370—371.
4 Е. А. Богданов, ten pat, p. 295.
5 O. Schrader, ten pat, I, p. 566; F. Kluge, Et. Wb., p. 357.
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Essa circunstância de que, em latim, de fato há numerosos nomes de animais selvagens tomados de empréstimo do germânico — cf. lat. alcēs «alce» < germ. álxis, lat. ūrus «urso» < germ. *ur, lat. bīsōn «bisão» < germ. wisund etc. Portanto, os soldados romanos também poderiam ter conhecido o nome do gato selvagem em terras germânicas. No entanto, essa hipótese é antes de mais nada refutada pelo fato de que os dados das línguas germânicas não permitem explicar convincentemente a origem do nome desse animal. Além disso, a própria história do animal também contradiz uma afirmação semelhante. Tampouco obteve grande aceitação a hipótese de que a fonte do lat. cattus e dos nomes do gato em outras línguas europeias com a mesma raiz seja o núbio kadi. Essa última hipótese baseia-se sobretudo no fato de que o Egito foi um centro de domesticação do gato, mas, até agora, há poucos dados que a confirmem. Por isso, muitos pesquisadores, encarando com ceticismo ambas as hipóteses que acabamos de mencionar, consideram o lat. cattus uma palavra viajante de origem incerta6.
Não há consenso quanto à via pela qual esse nome do gato entrou nas línguas eslavas. Tentou-se buscar a origem do esl. kotъ em pelo menos vários lugares. A. Stender-Petersen7 considerava como tal fonte o gót. *katts; K. Knutson8, o baixo-alemão katt. M. Fasmer tentou derivar o esl. kotъ do gr. médio χάττα (mais tarde, ele próprio abandonou essa explicação)9. Contudo, a hipótese que reuniu mais adeptos foi a de que a fonte do esl. kotъ é o lat. cattus10. A própria história do animal provavelmente também daria o maior apoio a essa hipótese.
Nas línguas eslavas, a palavra kotъ parece ter sido usada inicialmente como designação genérica do animal, tanto para o macho quanto para a fêmea; só mais tarde, já nas próprias línguas eslavas, surgiram novas variantes do nome segundo o sexo e a idade do animal. Variantes diversas desse nome do gato estão bastante difundidas nas línguas eslavas; cf. russo antigo котъка, russo кот, кошка, котёнок, ucraniano кіт, кішка, bielorrusso кот, кошка, búlgaro котка, котак, котарак, кот, коте, servo-croata кот (apenas em textos do século XVI), tcheco kocka, kocour, kote, kot (em dialetos), eslovaco kot (em dialetos), kocúr, koča, kočiatko, polonês kot, kotka, cassúbio koet, koetka, alto sorábio kóćka, kocor, kacor, baixo sorábio kót, koca, kocka, kocor11. Como vemos, esse nome do gato é mais difundido no grupo setentrional das línguas eslavas — nas línguas servo-croata e eslovena, quase não é usado (cf. servo-croata мас̌ка, мачак, esloveno mačka, mačák, máček). Assim, ele abrange de modo peculiar a área das línguas eslavas setentrionais e, como veremos, das línguas bálticas.
Esse nome do gato encontra-se em três línguas bálticas; cf. lituano katė, letão kaķis, prussiano antigo catto. A entrada desse nome nas línguas bálticas também é bastante incerta. J. Endzelīns tendia a considerar o nome do gato nas línguas bálticas um empréstimo do baixo-alemão médio ou das línguas eslavas (...zunächst entweder aus mnd. katte oder aus slav. kotъ)12. R. Trautmann considerava o nome desse animal, tanto nas línguas eslavas quanto nas bálticas, um empréstimo comum13.
6 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 643—644; F. Slawski, Sl. et., II, p. 559; O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 96; E. Fraenkel, Et. Wb., p. 96.
7 A. Stender-Petersen, Slavisch-germanische Lehnwortkunde, Göteborg, 1927, p. 354—356.
8 K. Knutsson, Die germanischen Lehnwörter im Slavischen von Typus buky, Lund, 1929, p. 63—64.
9 M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 643.
10 O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 96; F. Slawski, Sl. et., II, p. 559; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 643.
11 O. H. Трубачев, Происхождение..., p. 95; F. Slawski, Sl. et., II, p. 559; M. Vasmer, Et. Wb., I, p. 643.
12 EM, II, p. 171.
13 R. Trautmann, B-sl. Wb., p. 120.
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Provavelmente, nenhuma dessas afirmações pode ser categoricamente rejeitada nem confirmada. Ainda assim, parece mais correto abordar em conjunto a questão da denominação báltica e eslava do gato, mas, naturalmente, não se deve entender que essa denominação seja um empréstimo comum da época balto-eslava. A cronologia contradiz tal afirmação, pois a palavra entrou tanto nas línguas bálticas como nas eslavas já com o significado de «gato doméstico», e esse conceito, como vimos, só surgiu em meados do primeiro milénio. Por essa razão, essa denominação do gato não é considerada sequer um empréstimo comum eslavo. Deve-se supor que os eslavos e os bálticos a conheceram por volta do final do primeiro milénio, algures perto da fronteira entre os eslavos setentrionais e os bálticos meridionais, e que, a partir daí, a denominação se difundiu para sul e para norte: no sul, sem chegar às próprias línguas eslavas meridionais, e, no norte, entrando no letão através do curónio.
Em lituano encontram-se numerosas variantes deste nome do gato, cf. gato, gata, gatão «gato macho», gatão, gatinho, filhote de gato «filhote de gato», gatinha, gatinho, gatinha, gatinha, gatinho, gatinho, gatinho, gatão, gatinho, gatão, gatinho, gatinho, gatucho, gatucho, gatucho (LKŽd., V, 32–3, 406, 407, 410, 411, 415). Em lituano, assim como em algumas línguas eslavas, cf. russo кошка, ucraniano кішка e outras, o nome da fêmea foi generalizado para designar a espécie desse animal.
A denominação do gato com esta raiz também ocorre com bastante frequência na hidronímia lituana, cf. Kãtupis, Kãtino upelis, Katinėlis (lago), Katinravis, Katišius (lago).¹⁴
Também em letão se empregam muitas variantes deste nome do gato, cf. letão kaķis, kaķe, kaķenīce, kaķene «a fêmea do gato», kaķīte, kaķine, kaķiene, katene, katana, katins «um gato macho», katans, kaķēns, kaķēns «um gato jovem, um gatinho», kaķulēns, kaķulītis, kaķēlēns, kaķenītis (EM, II, 139–40, 171; EH, I, 576, 592).
J. Endzelynas explica que letão kaķis, com k em vez do esperado t, surgiu do curónio, onde a forma do nominativo era *katis, enquanto a do genitivo já era kata, que em letão evoluiu para kaka; com base nesta forma e nas demais formas casuais com k, esta última consoante generalizou-se em todo o paradigma¹⁵.
Várias variantes letãs da denominação do gato também se encontram na toponímia letã, cf. Kaķupe, Kaķupīte, Kaķeņezers, Kaķītes-strauts, Kaķēni, Kaķinkalns, entre outras.¹⁶
O letão kaķis, isto é, a forma masculina da denominação, é também o nome da espécie. Um processo semelhante ocorreu em polaco, onde a forma kot desempenha a função de nome da espécie.
Nos monumentos da língua prussiana, a palavra catto está registada uma única vez, e isso na expressão Paustocatto «gato selvagem» (Paustocatto Wildekatze, palavra 665 do glossário de Elbing)¹⁷; no entanto, a sua autenticidade não suscita dúvidas, pois a denominação do gato ocorre muito frequentemente também na toponímia prussiana, cf. Kath, Katelauke (<Kath+pr. laucks «campo, terreno»), Kathenmedien (<Kath+pr. median «floresta»), Katpanye (<Kath+pr. pannean «pântano, charco»), Kattenplick, Cattiten¹⁸. Até mesmo o prussiano Paustocatto pode ser considerado um decalque
¹⁴ Nomenclatura dos rios e lagos da RSS da Lituânia, p. 70–71.
¹⁵ EM, II, p. 140.
¹⁶ J. Endzelīns, Latvijas PSR vietvārdi, I, 2, p. 8–11, 58.
¹⁷ R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 91; Prūsų kalbos paminklai, p. 72.
¹⁸ G. Gerullis, Die altpreussischen Ortsnamen, p. 57–58, 233; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 190.
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do alemão wilde Katze, cf. prussiano pausto «selvagem»: eslavo antigo pustъ; cf. também o prussiano antigo paustocaičan «cavalo selvagem (wildes Pferd)» (verbete 654 do glossário de Elbing).
Nas línguas lituana e letã há numerosos nomes para gato de origem onomatopaica, usados geralmente na linguagem infantil ou que, de outro modo, têm certo matiz carinhoso.
Lituano kăcas, kăče, kăcius, kaciukas, kăckis (LKŽd., V, 29–30); cf. lituano kăc «interj., para chamar um gato», kacėnti «chamar um gato».
Lituano kicà, kicaras, kičė, kicius, kickà, kickis, kickė, kicūkas, kičiulis, kičūtė (LKŽd., V, 740–1); cf. lituano kic «interj., para chamar um gato», kicénti «chamar um gato».
Letão kicitis «o gato (na linguagem infantil)» (EH, I, 607); cf. letão kic, kic, kic «interj., usada para enxotar gatos, ovelhas e cabras», kicinât «expulsar um gato de um recinto».
Cabe observar que nomes de gato derivados de onomatopeias semelhantes também se encontram nas línguas eslavas; cf. russo киска, alto sorábio hica, checo čiča, cicka, eslovaco cica, cicka. O. Trubačiovas19 parece supor, com bastante razão, que tais onomatopeias podem ser mais antigas do que o próprio nome do gato (tem-se em mente o eslavo kotъ etc.), pois são amplamente usadas em muitas línguas para chamar não só gatos, mas também outros animais20.
Na língua letã, nomes de gato de origem onomatopaica do tipo kic, kac não se difundiram amplamente, pois essas onomatopeias não adquiriram ali um significado específico de chamar gatos, como, por exemplo, aconteceu na língua lituana.
Na língua letã, usam-se mais frequentemente para chamar gatos as onomatopeias īņi, īņci, mīņc, mīņci, piņc e suas outras variantes fonéticas21. Além dessas onomatopeias, encontramos também na língua letã nomes para gato: īņcis, ince (EM, I, 707; EH, I, 430), mīņcis (EM, II, 629), piņcis, piņče (EM, III, 218; EH, II, 234). Em certos casos, esses nomes para gato podem ser palavras de origem onomatopaica, surgidas das onomatopeias īņci, mīņci, piņc que acabamos de mencionar, mas trata-se aqui de um processo posterior. Na verdade, as onomatopeias īņci, mīņci derivaram de nomes para gato cuja fonte, por sua vez, era a língua alemã. O letão īņcis, ince deriva do alemão Hinz, Hinze «nome do gato macho na fábula animal»22, e o alemão Hinz é uma forma carinhosa do nome próprio Heinrich; cf. Fritz – Friedrich, Götz – Gottfried etc.23. O letão mīņcis surgiu do