Kai kurie baltų ir slavų kalbų seniausiųjų santykių klausimai
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B A L T Ų I R S L A V Ų K A L B Ų R Y Š I A I L I E T U V O S T S R M O K S L Ų A K A D E M I J A
SIMAS KARALIŪNAS
ALGUMAS QUESTÕES SOBRE AS RELAÇÕES MAIS ANTIGAS ENTRE AS LÍNGUAS BÁLTICAS E ESLAVAS
O problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas surgiu há muito tempo na linguística. Durante muitos anos, os pesquisadores o examinaram e debateram, mas não chegaram a um consenso; pode-se dizer que a solução do problema se tornou ainda mais complicada. As discussões e controvérsias sobre o tema prosseguem hoje com a mesma paixão de muitos anos atrás. A atualidade do problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas é demonstrada não só pelo fato de que, como um dos problemas mais importantes da linguística eslava, ele foi amplamente debatido no IV Congresso Internacional de Eslavistas, em Moscou (foram apresentados quatro trabalhos sobre o tema), mas também pelo fato de que, por decisão do Comitê Internacional de Eslavistas, foi criada em 1962 a Comissão Internacional para o Estudo das Relações Báltico-Eslavas, da qual faziam parte cerca de uma dezena de destacados especialistas em estudos eslavos e bálticos, provenientes de onze países europeus¹. O problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas constitui precisamente uma das áreas de trabalho dessa comissão. O problema também é atual por integrar o conjunto mais amplo de questões dos estudos indo-europeus. A solução de muitas questões da história das línguas bálticas e eslavas depende, em parte, da maneira como se resolve o problema de suas relações mais antigas. É compreensível que esse problema também esteja relacionado com questões específicas da história da língua lituana.
O fato de que, a propósito do problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, «ocorrem hoje na ciência debates acalorados, que em certos casos chegam a adquirir um significado ideológico e político atual»² também coloca aos linguistas lituanos a tarefa de expressarem sem demora sua opinião sobre essa questão.
As línguas bálticas e eslavas, pertencentes à família das línguas indo-europeias, descendem de uma comunidade linguística que existiu há vários milênios e que recebe várias denominações — indo-europeia, proto-
1 No V Congresso Internacional de Eslavistas, em Sófia, foi aprovada a seguinte composição da comissão: K. Korsakas (presidente da comissão, URSS), J. Safarevičius (vice-presidente, Polônia), S. Bernšteinas (URSS), I. Duridanovas (Bulgária), V. Falkenhanas (RDA), K. O. Falkas (Suécia), V. Georgijevas (Bulgária), V. Holtumas (Inglaterra), Č. Kudz inovskis (Polônia), V. Kiparskis (Finlândia), B. Larinas (URSS), Chr. Stangas (Noruega), R. Šmitelinas (França), V. Toporovas (URSS), P. Trostas (Tchecoslováquia), A. Vračius (Romênia).
2 K. Korsakas, Lyginamoji kalbotyra ir tarybinės lietuvių filologijos uždaviniai, LKK, 6, 1963, p. 13.
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língua, idioma, unidade linguística, comunidade linguística ou época comum3. Como as línguas bálticas e eslavas descendem de uma comunidade linguística indo-europeia, elas compartilham muitos traços herdados desde tempos remotos, encontrados também em outras línguas indo-europeias. No entanto, além disso, as línguas bálticas e eslavas possuem semelhanças que não podem ser explicadas por sua descendência da comunidade linguística indo-europeia. O problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas consiste justamente em explicar como surgiram as inovações dessas línguas, isto é, semelhanças fonéticas, morfológicas e lexicais características das línguas bálticas e eslavas e que não ocorrem fora de sua área linguística.
Para responder à questão de como surgiram as inovações das línguas bálticas e eslavas e qual foi a natureza das relações entre elas nos primeiros séculos após sua separação da comunidade linguística indo-europeia, foram elaboradas várias teorias distintas. O primeiro capítulo deste trabalho é dedicado à história da investigação do problema das relações mais antigas entre os povos bálticos e eslavos e à exposição das teorias propostas.
No segundo capítulo, por falta de espaço, a análise limita-se aos fenômenos fonéticos; apresenta-se a história de sua investigação e expõem-se as concepções sobre sua origem e evolução.
No terceiro capítulo, procura-se resolver algumas questões de cronologia das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas (bem como outras línguas indo-europeias).
Para esclarecer o máximo possível a origem das semelhanças entre as línguas bálticas e eslavas e o momento em que surgiram, o autor do trabalho recorre a dados das línguas bálticas, eslavas e de outras línguas indo-europeias. Entre as línguas bálticas, utiliza sobretudo dados do lituano, que muitas vezes são arcaicos e nem sempre foram devidamente levados em conta na análise desse problema.
Na apresentação do material, especialmente na primeira parte deste trabalho, adotou-se o princípio cronológico: os trabalhos dos pesquisadores são discutidos um após o outro, na ordem em que foram publicados. A atividade de cada pesquisador é atribuída a um único período — sobretudo àquele em que foi publicado seu trabalho mais importante sobre a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas —, embora alguns de seus artigos sobre o tema tenham sido publicados também em outros períodos. Assim, as ideias de Chr. Stang são examinadas no capítulo sobre os trabalhos das décadas de 1920 e 1930, embora um de seus artigos tenha sido publicado também em 1963; as ideias de J. Kurilowicz, por sua vez, são examinadas no capítulo sobre os trabalhos do pós-guerra, embora seu primeiro artigo sobre a questão mencionada tenha sido publicado já em 1934.
O autor deste trabalho não pretende, de modo algum, resolver de maneira definitiva o problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas — por enquanto, ele continua demasiado complexo. O principal objetivo é apenas apresentar o estado atual da investigação desse problema, indicar os pontos fortes e fracos das teorias existentes sobre o tema e oferecer argumentos em favor da teoria que, na opinião do autor, parece mais confiável.
3No trabalho, empregam-se alternadamente os termos «língua ancestral» (праязык, Ursprache), «unidade linguística» (языковое единство, Spracheinheit) e «comunidade linguística» (языковая общность, Sprachgemeinschaft), mas cada um deles recebe um significado diferente. O termo «língua ancestral» é adequado para designar uma unidade linguística de diferenciação dialetal pouco acentuada, existente em tempos pré-históricos. O termo «comunidade linguística» aplica-se a uma unidade linguística pré-histórica com maior diferenciação dialetal. Ao tratar das concepções dos pesquisadores que reconhecem a existência de uma língua báltico-eslava após a desintegração da comunidade linguística indo-europeia, utiliza-se o termo deles próprios: «unidade linguística báltico-eslava».
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HISTÓRIA DA INVESTIGAÇÃO DAS MAIS ANTIGAS RELAÇÕES ENTRE AS LÍNGUAS BÁLTICAS E ESLAVAS
A história da investigação das mais antigas relações entre as línguas bálticas e eslavas já foi amplamente esclarecida. A evolução das teses teóricas gerais relativas às relações mais antigas entre essas línguas é tratada em um extenso artigo de N. Bogoliubova e T. Jakubaitė¹. A história da investigação dessas relações é descrita em detalhe por V. Toporov em três grandes artigos². Aqui nos detemos sobretudo nos momentos mais importantes da investigação dessas relações, especialmente nos teóricos. Ainda assim, não se evitam repetições neste trabalho nem no mencionado acima.
A questão das relações entre as línguas bálticas e eslavas nas obras dos criadores do método histórico-comparativo
A investigação científica das relações de parentesco entre línguas individuais começou no início do século XIX, quando as obras de F. Bopp, R. Rask e J. Grimm¹ lançaram os fundamentos da linguística histórico-comparativa indo-europeia.
Os primeiros comparatistas abordaram de uma nova maneira o parentesco entre as línguas, baseando-se em estudos comparativos das línguas.
Rasmus Rask (1787—1832) dedicou uma parte considerável de seus trabalhos à análise das línguas bálticas e eslavas. Foi o primeiro a destacar a importância das línguas bálticas para a ciência, e desde então essas línguas ocupam um lugar importante na linguística comparativa. R. Rask indicou que as línguas bálticas constituem um ramo independente das línguas indo-europeias e que são aparentadas com as línguas eslavas e germânicas.
Franz Bopp (1791—1867) tinha uma opinião semelhante. Segundo ele², as línguas prussiana, lituana e letã constituiriam um grupo de línguas estreitamente aparentadas, ligado às línguas eslavas. F. Bopp observou que as línguas bálticas não devem ser consideradas parte integrante das línguas eslavas. Tentou estabelecer uma cronologia relativa da origem das línguas, cujo princípio é o seguinte: o parentesco mais próximo ou mais distante entre as línguas dependeria de sua separação mais recente ou mais antiga. Com base no fato de que as línguas bálticas são mais aparentadas com as eslavas do que com outras línguas, F. Bopp considerava que essas línguas, ao que parece, se separaram muito mais tarde. A língua báltico-eslava separou-se de sua irmã asiática, que, segundo se dizia, podia ser chamada de sânscrito ou não receber nome algum, mais tarde do que as línguas clássicas, germânicas e
1 Н. Д. Боголюбова, Т. А. Якубайтис, История разработки вопроса о балто-славянских языковых отношениях, „Rakstu krājums (Veltījums akadēmikim profesoram Dr. Jānim Endzelīnam viņa 85 dzīves un 65 darba gadu atcerei)“, Rīga, 1959, p. 331—375.
2 В. Н. Топоров, Новейшие работы в области изучения балто-славянских языковых отношений, ВСЯ, 3, 1958, p. 134—161; Очерк истории изучения древнейших балто-славянских языковых отношений, УЗИСл, 17, 1959, p. 248—274; Из истории изучения древнейших балто-славянских языковых отношений, УЗИСл, 23, 1962, p. 3—43; além disso, cf. O. Szemerényi, The Problem of Balto-Slav Unity—A Critical Survey, „Kratylos“, 2, 1957, p. 97—123; A. Vraciu, Slava si baltica. Problema vechilor raporturi dintre ele în lumina noilor cercetari, „Romanoslavica“, 12, 1965, p. 283—297, onde são resenhadas as pesquisas mais recentes nesta área.
1 F. Bopp, Sobre o sistema de conjugação da língua sânscrita em comparação com o das línguas grega, latina, persa e germânica, Frankfurt am Main, 1816; R. Rask, Investigação sobre a origem da antiga língua nórdica ou islandesa, Kjöbenhavn, 1818; J. Grimm, Gramática alemã, Göttingen, 1819 (2.ª ed. 1822).
2 F. Bopp, Über die Sprache der alten Preussen, Berlin, 1853, p. 80.
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línguas célticas, mas antes da divisão do ramo asiático em ramos iraniano e indiano. Portanto, F. Bopp foi o primeiro a formular a ideia de uma protolíngua báltico-eslava e de estreitos vínculos entre as línguas bálticas e eslavas e as línguas do grupo indo-iraniano.
Jacob Grimm (1785–1863) também reconheceu às línguas bálticas uma posição de igualdade entre as demais línguas indo-europeias. Em sua opinião, as frequentes correspondências lexicais indicam uma antiga relação entre as línguas eslavas e germânicas. As línguas bálticas e eslavas são muito mais próximas entre si do que cada uma delas é, separadamente, das línguas germânicas. Em certa medida, as línguas bálticas seriam intermediárias entre as línguas eslavas e germânicas. Isso, porém, não significa que as línguas bálticas sejam uma mistura destas últimas. Da mesma forma, segundo J. Grimm, não se pode supor que as línguas eslavas e germânicas tenham tomado emprestados das línguas bálticas os elementos mais antigos de seus sistemas. Segundo J. Grimm, os elementos comuns e as semelhanças entre as línguas germânicas, eslavas e bálticas surgiram porque entre elas existia desde tempos antigos uma comunidade (Gemeinschaft)4.
August Schleicher (1821–1868) sintetizou e desenvolveu ainda mais as concepções dos primeiros comparatistas, dedicando grande atenção, em suas pesquisas, às questões de parentesco das línguas bálticas. A compreensão de A. Schleicher das relações de parentesco entre as línguas está ligada à sua concepção geral sobre a origem das línguas indo-europeias.
A. Schleicher criou uma hipótese coerente de classificação genealógica das línguas, denominada teoria da «árvore genealógica das línguas» (Stammbaumtheorie). Segundo essa teoria, a protolíngua indo-europeia unificada (indogermanische Ursprache) dividiu-se inicialmente em dois ramos: um ramo das línguas bálticas, eslavas e germânicas (Slawodeutsch) e outro das línguas indo-iranianas, gregas, itálicas e célticas. O grande ramo das línguas bálticas, eslavas e germânicas dividiu-se depois em dois menores — o germânico (Deutsch) e o báltico-eslavo (Slawolitauisch). Ao mesmo tempo, também se dividiu o segundo ramo da protolíngua indo-europeia — primeiro em indo-iraniano e greco-itálico-céltico. Mais tarde, após a separação do grego, restou a protolíngua itálico-céltica. O ramo das línguas bálticas e eslavas, denominado por A. Schleicher protolíngua báltico-eslava (Slawolitauische Ursprache), dividiu-se depois nas línguas eslava e báltica fundamentais (Grundsprache), que, por sua vez, voltariam a dividir-se em línguas distintas5.
Portanto, A. Schleicher desenvolveu a ideia de uma protolíngua báltico-eslava formulada por F. Bopp e a integrou numa teoria coerente da divisão da protolíngua indo-europeia. Indicou claramente o lugar da protolíngua báltico-eslava entre as línguas indo-europeias e reconheceu seus vínculos genéticos com a protolíngua germânica. A autoridade de A. Schleicher era tão grande que a maioria dos linguistas aderiu à teoria da protolíngua báltico-eslava na segunda metade do século XIX e até no início do século XX.
Durante o período de formação da linguística indo-europeia histórico-comparativa, não se discutia se a protolíngua báltico-eslava existira ou não — todos a reconheciam sem exceção —, mas sim seu lugar entre as demais línguas indo-europeias. R. Rask considerava as línguas bálticas e eslavas mais aparentadas às línguas do grupo indo-iraniano (ariano), enquanto F. Bopp, J. Grimm e A. Schleicher sustentavam que as línguas bálticas e eslavas tinham vínculos genéticos com as línguas germânicas. A questão do lugar das línguas bálticas e eslavas continuou sendo objeto de debate também na segunda metade do século XX.
3 J. Grimm, Geschichte der deutschen Sprache, Aufl. III, Leipzig, 1868, I, p. 9–10, 119; II, p. 711–712, 715.
4 J. Grimm, op. cit., I, p. 119.
5 A. Schleicher, Compendium der vergleichenden Grammatik der indogermanischen Sprachen, Aufl. III, Weimar, 1871, p. 6–7.
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Baltų ir slavų kalbų seniausiųjų santykių tyrinėjimas XIX a. antrojoje pusėje
A. Schleicher morreu convencido de que conseguira erguer um edifício perfeito e acabado para a linguística indo-europeia. No entanto, na segunda metade do século XIX, esse edifício começou a ser demolido. E quem começou a demoli-lo foram os próprios alunos de A. Schleicher. Assim, Johann Schmidt (1843–1901) avaliou criticamente a teoria da «árvore genealógica das línguas». Na sua opinião, os fatos mostram que as línguas báltico-eslavas (Lituslawische) estão estreitamente relacionadas tanto com as línguas germânicas como com as indo-iranianas. Por isso, observa J. Schmidt, podem ser reconhecidas em pé de igualdade tanto uma protolíngua báltico-eslavo-germânica como uma protolíngua báltico-eslavo-ariana. Assim, a posição das línguas bálticas e eslavas permanecia incerta. Ela se esclareceria quando, na opinião de J. Schmidt, fosse reconhecido não só que as línguas bálticas e eslavas não se separaram nem das línguas germânicas nem das indo-iranianas, mas também que elas ligam organicamente estes dois últimos grupos de línguas. Assim como não há fronteiras geográficas entre a Europa e a Ásia, também não deveriam existir linhas de demarcação rígidas entre as línguas da Europa e da Ásia. J. Schmidt acrescenta que em toda parte se pode observar uma transição ininterrupta (continuierlicher Übergang) de uma língua para outra, e que nunca houve limites rígidos na área linguística indo-europeia: dois dialetos distantes um do outro, por exemplo, A e X, estavam ligados sem interrupção pelos dialetos B, C, D etc. situados entre eles.
Tendo tudo isso em mente, J. Schmidt propõe, em lugar da teoria da «árvore genealógica das línguas», a teoria das «ondas» (Wellentheorie): «Em seu lugar, gostaria de apresentar a imagem de uma onda que, afastando-se do seu centro, se propaga em círculos concêntricos continuamente mais fracos»2. Assim, segundo ele, as mudanças linguísticas se propagavam de uma língua para outra como ondas.
As novas ideias de J. Schmidt representaram um avanço considerável. Algumas delas (os dialetos indo-europeus, a ideia da continuidade geográfica etc.) foram desenvolvidas no século XX.
É importante assinalar que a teoria da protolíngua báltico-eslava não suscitava qualquer dúvida em J. Schmidt. O objeto das suas pesquisas era a posição das línguas bálticas e eslavas na família das línguas indo-europeias.
Kitas A. Šleicherio mokinys Augustas Leskynas (1840–1916) bandė suderinti „genealoginio kalbų medžio“ ir „bangų“ teorijas. Jis manė3, kad baltų, slavų ir germanų kalbos galėjusios pergyventi bendrą istorinį etapą nepriklausomai nuo kitų ide. kalbų, taigi ir skilimą, kaip jis suprantamas A. Šleicherio teorijoje. Be to, visai tikėtina, kad baltų ir slavų kalbos buvusios ta grandimi, kuri jungusi germanų ir indų-iranėnų kalbas. A. Leskyno nuomone, nesą būtino reikalo pripažinti baltų-slavų-germanų prokalbę, nes tų kalbų linksniavimo sistemos, išskyrus kai kuriuos linksnius su bendru formantu -m-, nesančios jau tokios panašios4. Taigi „Vadinamoji „genealoginio kalbų medžio“ teorija visai neprieštarauja „perėjimo“ teorijai, jei taip trumpai pavadintume J. Šmito hipotezę“5.
1 L Schmidt, Die Verwandtschaftsverhältnisse der indogermanischen Sprachen, Weimar, 1872, p. 16–27.
2 J. Schmidt, op. cit., p. 27.
3 A. Leskien, Die Declination im Slawisch-litauischen und Germanischen, Leipzig, 1876, p. XII.
4 A. Leskien, op. cit., p. 157–158.
5 A. Leskien, op. cit., p. XII.
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Nem J. Šmit nem A. Leskyno se interessaram pelas relações entre as línguas bálticas e eslavas. J. Hanuš chamou a atenção para elas. O artigo de Jan Hanuš (1858—1887)6, publicado em 1886, foi o primeiro dedicado especificamente ao problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas.
J. Hanuš levantou duas questões: 1) o que permite reconhecer um período linguístico báltico-eslavo comum? 2) como se pode definir com maior precisão a época em que bálticos e eslavos falavam uma única língua? Ao responder à primeira questão, J. Hanuš apresentou cerca de uma dúzia de traços comuns de fonética e morfologia das línguas bálticas e eslavas: o destino dos sonantes indo-europeus, a declinação dos adjetivos pronominais, entre outros. Seu segundo argumento em favor da existência de um período linguístico báltico-eslavo comum eram os empréstimos de origem báltica nas línguas fino-úgricas da região do Báltico, que ele considerava báltico-eslavos (naquela época, os estudiosos ainda não haviam reconhecido sua origem exclusivamente báltica). Ao responder à segunda questão, J. Hanuš supôs que a tribo báltico-eslava se teria dividido em bálticos e eslavos aproximadamente entre o século V a.C. e o século II d.C., pois, em sua opinião, os neurós de Heródoto eram báltico-eslavos. Pesquisadores posteriores não confirmaram essa datação.
O artigo de J. Hanuš foi significativo porque nele se formulou concretamente a questão das relações entre as línguas bálticas e eslavas e porque, pela primeira vez, foram apresentados em um único lugar todos os traços comuns então conhecidos dessas línguas.
Em pouco tempo, as questões da relação entre as línguas bálticas e eslavas, bem como entre todas as línguas indo-europeias, passaram para segundo plano. Surgiram questões inteiramente novas (leis fonéticas, analogia, empréstimos), que durante muitos anos estiveram no centro das atenções dos pesquisadores7. Foi publicado um artigo8 de Karl Brugmann (1849—1919), um dos mais destacados representantes da escola neogramática (Junggrammatiker), no qual se adotava uma posição cética em relação à teoria das protolínguas: as inovações comuns a línguas distintas não podem servir de argumento para demonstrar um parentesco estreito entre elas, pois essas inovações poderiam ter surgido independentemente em cada língua. K. Brugmann considerava que o único argumento com valor probatório para estabelecer o parentesco entre línguas era o conjunto de inovações fonéticas, flexionais, sintáticas e lexicais9.
Embora K. Brugmann encarasse com ceticismo as teorias sobre o parentesco entre línguas, ainda assim acreditava que as línguas bálticas e eslavas haviam passado anteriormente por uma época de comunidade (Zeit der baltisch-slawischen Urgemeinschaft)10. Em seu «Esboço de gramática comparativa das línguas indo-europeias», K. Brugmann apresentou sete traços comuns às línguas bálticas e eslavas que, em sua opinião, indicavam estreitos vínculos entre elas11:
1) a transformação dos sonantes indo-europeus n, r̥ em in, ir (cf. lituano at-mintis e eslavo eclesiástico antigo mьnǫ, pa-mętь);
2) simplificação das geminadas intervocálicas;
3) formação de formas de adjetivos pronominais com o pronome *jo- (cf. lituano gerasis e eslavo eclesiástico antigo dobrъjь);
6 J. Hanusz, O dobie litewsko-słowiańskiej w stosunku do pra języka indoeuropejskiego, „Rozprawy i sprawozdania z posiedzeń wydziału filologicznego Akademii Umiejętności“, 11, Kraków, 1886, p. 249—272.
7 Plačiau žr. F. Specht, Die „indogermanische“ Sprachwissenschaft von den Junggrammatikern bis zum ersten Weltkriege, „Lexis“, 1, 1948, p. 229—263.
8 K. Brugmann, Zur Frage nach den Verwandtschaftsverhältnissen der indogermanischen Sprachen, „Internationale Zeitschrift für allgemeine Sprachwissenschaft“, 1, 1884, p. 226—256.
9 K. Brugmann, op. cit., p. 253.
10 K. Brugmann Grundriss der vergleichenden Grammatik der indogermanischen Sprachen, I, Strassburg, 1897, p. 146.
11 K. Brugmann, op. cit., p. 20—21.
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4) a passagem, em certos casos, dos particípios de tema em nt e dos substantivos de tema consonântico para o tema em i (cf. lit. vėžančio, esl. ant. vezǫšta de *vezontio e lit. vežàs, esl. ant. vezi de *vezonts; lit. akmenìmis, esl. ant. kamenьmi e lit. akmuõ, esl. ant. kamy de *akmōn¹²;
5) a substituição dos pronomes ide. *so, *sā pelos pronomes lit. tas, tā, esl. ant. to, ta;
6) a formação do dativo singular dos pronomes lit. mānie, pr. mennei, esl. ant. mьnē segundo o genitivo singular;
7) a substituição do genitivo singular dos substantivos de tema em o pelo ablativo (cf. lit. vilko, esl. ant. vlьka e sânscrito vṛkāt).
Essas características comuns das línguas bálticas e eslavas apresentadas por K. Brugmann bastaram para convencer a maioria dos linguistas do final do século XIX e do início do século XX de que existira uma protolíngua balto-eslava.
Na segunda metade do século XIX, como antes, uma das questões mais importantes relativas às línguas bálticas e eslavas era a de seu lugar na família das línguas indo-europeias. Contudo, foi precisamente nesse período que se chamou a atenção para as relações entre as línguas bálticas e eslavas: surgiu o primeiro artigo especializado dedicado, como vimos, a esse problema, o de J. Hanuš, e K. Brugmann apresentou características comuns que caracterizam as relações entre as línguas bálticas e eslavas.
Embora a maioria dos estudiosos desse período não duvidasse da existência de uma protolíngua balto-eslava, foi precisamente então, no final do século XIX, que se fizeram ouvir vozes céticas a esse respeito. Essas vozes se fortaleceram especialmente no início do século XX.
Discussão de 1908–1912 sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas
No início do século XX, a teoria da protolíngua balto-eslava começou a ser fortemente questionada. Todas as características comuns das línguas bálticas e eslavas, geralmente consideradas argumentos a favor da teoria da protolíngua balto-eslava, foram examinadas criticamente.
Desde a época dos neogramáticos, começou-se a olhar com ceticismo para todas as protolínguas. B. Delbrück considerava duvidosos todos os agrupamentos dialetais das línguas indo-europeias, com exceção da protolíngua indo-iraniana. P. von Bradke também se manifestou com dúvidas sobre a protolíngua balto-eslava². Jan Baudouin de Courtenay (1845–1929) escreveu em 1903 que os argumentos a favor da “época lituano-eslava” não eram de modo algum mais numerosos — e talvez fossem ainda menos numerosos — do que os argumentos contra ela, e que, portanto, podíamos considerá-la uma ficção científica³. Kazimieras Jaunius (1848–1908) sustentava que “não é verdade que o eslavo e o aistíco sejam irmãs gêmeas: a língua aística é irmã da eslava, tal como também o são as outras línguas indo-europeias”⁴.
Os pesquisadores mencionados, sem apresentar argumentos, limitaram-se a considerações gerais dirigidas contra a teoria da protolíngua balto-eslava.
12 No livro de K. Brugmann, „Kurze vergleichende Grammatik der indogermanischen Sprachen“ (Berlin—Leipzig, 1922, p. 18), os particípios e o tema consonântico são tratados separadamente e, por isso, ali são indicadas oito características.
1 B. Delbrück, Einleitung in das Sprachstudium, 3. Aufl., Leipzig, 1893 (I leidimas 1880 m.).
2 P. von Bradke, Beiträge zur Kenntnis der vorhistorischen Entwicklung unseres Sprachstamms, Giessen, 1880.
3 И. Бодуэн-де-Куртенэ, Лингвистические заметки и афоризмы, ЖМНП, 346, 1903, p. 330.
4 К. Явнис, Грамматика литовского языка, Петроград, 1908—1916, p. 27.
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O primeiro a se manifestar de forma argumentada contra a teoria da protolíngua balto-eslava foi Antoine Meillet (1866—1936).
Já em 1905, A. Meillet escrevia que as línguas bálticas e eslavas não apresentavam tantas inovações quantas lhes eram atribuídas e que não havia fundamento para falar de uma época de unidade balto-eslava (d’une époque d’unité balto-slave)5. No livro «Os dialetos indo-europeus»6, publicado em 1908, A. Meillet dedicou um extenso capítulo à caracterização das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas.
Antes de examinar as semelhanças entre as línguas bálticas e eslavas apontadas por K. Brugmann, A. Meillet observou que a semelhança entre elas era evidente. Em sua opinião, o caráter semelhante dos sistemas das línguas bálticas e eslavas devia-se aos seguintes fatores: 1) as línguas bálticas e eslavas descendiam de dialetos idênticos da comunidade linguística indo-europeia (l’unité indo-européenne) (de parlers indo-européens sensiblement identiques), que não eram separados por nenhuma isoglossa importante; 2) em sua evolução, as línguas bálticas e eslavas não sofreram rupturas radicais do sistema (aucune fracture brusque du système); portanto, são conservadoras e arcaicas e, por isso, preservaram muitas características antigas; 3) bálticos e eslavos viveram durante todo esse tempo em regiões geográficas vizinhas, em condições civilizacionais semelhantes. Além disso, A. Meillet indicou que a semelhança entre as línguas bálticas e eslavas foi reforçada por empréstimos — sobretudo das línguas eslavas para as bálticas7.
Em seguida, A. Meillet examinou detalhadamente as semelhanças entre as línguas bálticas e eslavas enumeradas por K. Brugmann.
1. Uma evolução semelhante dos sonantes indo-europeus l, m, n, r ocorreu, além das línguas bálticas e eslavas, também nas línguas germânicas e célticas. Em certas posições, u surgiu junto a um sonante também no grego, no latim e no armênio. Portanto, o surgimento da vogal de apoio i, u junto a sonantes é um fenômeno dialetal da comunidade linguística indo-europeia, e não uma inovação das línguas bálticas e eslavas.
2. A simplificação das geminadas é resultado da tendência geral de s nas línguas indo-europeias e começou ainda na comunidade linguística indo-europeia. Nas línguas bálticas e eslavas, assim como no armênio, as geminadas foram simplificadas, ao passo que isso não ocorreu nas outras línguas. É duvidosa a existência de geminadas na própria comunidade linguística indo-europeia, onde elas ocorriam sobretudo no léxico hipocorístico e na linguagem infantil.
3. Os tipos de adjetivos pronominais nas duas famílias linguísticas diferem nos detalhes, e seus significados não coincidem. O pronome *jo- é usado de modo muito semelhante junto a substantivos e adjetivos na língua avéstica (A. Meillet enfatiza particularmente que, tanto no avéstico quanto nas línguas bálticas e eslavas, o pronome *jo- concorda com as palavras junto às quais é empregado).
4. Os particípios ativos masculinos do presente passaram para o tema em jo, seguindo o modelo dos particípios femininos (tema em jā), que já existia na comunidade linguística indo-europeia. A. Meillet indicou que os adjetivos tendem a passar para um tema vocálico muito mais rapidamente que os substantivos (o lituano tem apenas adjetivos com temas em o e u; as línguas eslavas, apenas com tema em o). Essa passagem expressa uma inovação comum às línguas indo-europeias, pois um equivalente exato nas línguas bálticas e eslavas encontra-se nas línguas germânicas ocidentais (inglês antigo, saxão antigo e alto-alemão antigo).
5. A inserção de -i- em formas como lituano akmen-i-mis, eslavo antigo kamen-b-mi, não é característica exclusiva das línguas bálticas e eslavas, pois o latim conhece exatamente o mesmo fenômeno (cf. ped-i-
5 A. Meillet, Etudes sur l’étymologie et le vocabulaire du vieux slave, II, Paris, 1905, p. 201.
6 A. Meillet, Les dialectes indo-européens, Paris, 1908.
7 A. Meillet, Les dialectes indo-européens, Nouveau tirage, Paris, 1922, p. 40—41.
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bus), armênio (cf. ot-i-wkh) e outras línguas. Além disso, a aproximação desses dois tipos foi facilitada pelo fato de coincidirem foneticamente tanto os acusativos singulares dos temas em i e dos temas consonantais quanto os respectivos acusativos plurais.
6. O antigo nominativo do pronome demonstrativo *so-, *sā- (cf. sânscrito sá, sā, grego ὁ, ἡ, gótico sa, so) foi substituído pelo tema *to-, *tā-, além das línguas bálticas e eslavas, também pelas línguas germânicas ocidentais (cf. saxão antigo thē, thia, alto-alemão antigo dēr, diu). A. Meillet salientou que se trata de uma inovação muito simples, pois todas as formas do paradigma, exceto o nominativo singular, começavam com a consoante t-, que, por analogia, poderia facilmente ter sido transferida para o único caso com consoante inicial s-.
7. O dativo do pronome lituano manie, man, prussiano mennei não corresponde ao eslavo antigo mъně nem nas vogais da raiz, nem nas terminações. A. Meillet acrescentou que essas formas das línguas bálticas e eslavas são um excelente exemplo de inovações paralelas, mas independentes umas das outras, que caracterizam ambos os grupos linguísticos.
8. O genitivo-ablativo singular lituano vilko, eslavo antigo vlъka corresponde ao ablativo sânscrito vṛkāt. O genitivo e o ablativo se fundiram porque, em todos os temas, exceto nos temas em o, o genitivo e o ablativo singular tinham uma só e mesma forma. O grego empregava a forma do genitivo para expressar o ablativo, ao passo que, nas línguas bálticas e eslavas, inversamente, o ablativo adquiriu a função do genitivo. A. Meillet salienta que esse fenômeno não parece ter surgido no período da unidade báltico-eslava (à une période de communauté), pois o prussiano tem o genitivo deiw as, «deus». Portanto, acrescentou ele, a generalização do ablativo explica-se facilmente pelo desenvolvimento independente das línguas.
Depois de examinar essas semelhanças entre as línguas bálticas e eslavas, A. Meillet concluiu que «o desenvolvimento das línguas bálticas e eslavas ocorreu paralelamente; em consequência desse paralelismo, surgiram, naturalmente, algumas formas idênticas, mas essas inovações não permitem reconhecer um período comum no desenvolvimento dessas línguas»8. Como exemplo marcante de inovação paralela, A. Meillet apontou a lei de de Saussure-Fortunatov, afirmando com toda a razão que essa lei atuou independentemente nas línguas lituana e eslava.
Apresentando fatos análogos de outras línguas indo-europeias e apontando mais fenômenos semelhantes, A. Meillet mostrou que as semelhanças mencionadas entre as línguas bálticas e eslavas são ou arcaísmos herdados dos tempos protoindo-europeus ou inovações. Se um fenômeno ou fato é arcaico, isso significa que os bálticos e os eslavos, assim como as outras línguas indo-europeias, o conservaram. Da mesma forma, as inovações não podem constituir um argumento decisivo a favor de uma protolíngua báltico-eslava ou de uma época comum, pois podem ter surgido independentemente nas línguas bálticas, eslavas e em outras línguas indo-europeias, ou durante o período de contato entre essas línguas. Além disso, na opinião de A. Meillet, as inovações balto-eslavas são apenas semelhantes, e não idênticas (cf., por exemplo, o dativo do pronome pessoal).
As novas e audaciosas ideias de A. Meillet abalaram os fundamentos da teoria da protolíngua báltico-eslava. Sua crítica mostrou que os argumentos existentes eram insuficientes para comprovar essa protolíngua. Por isso, os defensores da teoria da protolíngua viram-se obrigados a procurar novos fatos para sustentar suas afirmações.
O primeiro a responder foi Viktor Porzeziński (1870—1929). A conclusão de seu trabalho dedicado à questão báltico-eslava foi a seguinte: «as línguas bálticas e eslavas passaram por um período comum, durante o qual surgiram numerosas inovações»9.
8 A. Meillet, op. cit., p. 45.
9 W. Porzeziński, Die baltisch-slavische Sprachgemeinschaft, RSI, 4, 1911, p. 2—3.
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Em seu trabalho, V. Porzeziński procura, em seguida, destacar o maior número possível de inovações que, em sua opinião, surgiram na protolíngua báltico-eslava, que ele denomina «período báltico-eslavo». Para defender as características comuns das línguas bálticas e eslavas das críticas de A. Meillet, V. Porzeziński analisou detalhadamente a primeira e a última das características comuns enumeradas por K. Brugmann. Considera essas características muito importantes para resolver a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas. V. Porzeziński também apresentou novos fatos, considerando-os inovações báltico-eslavas. Entre essas inovações, incluía o pretérito dos verbos, cf. lituano nešė, vedė e eslavo antigo nešė-acho, vedė-acho. A diferença entre o pretérito báltico e o imperfeito eslavo, segundo ele, seria que o pretérito das línguas bálticas se formou com base no aoristo assigmático10.
V. Porzeziński defendia um período comum às línguas bálticas e eslavas (eine baltisch-slavische Periode), enquanto Jan Rozwadowski (1867—1935) elaborou um esquema bastante complexo para esclarecer as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas11. Ele distinguiu três períodos no desenvolvimento das relações entre as línguas bálticas e eslavas:
1) período de unidade (doba prawspólności), que provavelmente durou durante o III milênio a.C.;
2) período em que as relações entre as línguas bálticas e eslavas foram interrompidas e seu desenvolvimento ocorreu de forma independente (II e I milênios a.C.);
3) período de reaproximação e de relações de vizinhança, que começou por volta do início da era cristã e continua até os dias de hoje12.
A maioria dos pesquisadores acolheu com indiferença a teoria de J. Rozwadowski. Apenas o linguista tcheco O. Hujer a considerou «inteiramente confiável»13. Além disso, B. Gornung também é de opinião que os contatos entre as línguas bálticas e eslavas foram interrompidos por muito tempo e retomados por volta do início da era cristã14.
A teoria de J. Rozwadowski suscita sérias dúvidas. É duvidoso que, durante dois mil ou mil e quinhentos anos, as línguas bálticas e eslavas não tenham mantido contato algum, retomando-o apenas por volta do início da era cristã. Tanto a toponímia quanto a cultura material e os fragmentos de fontes históricas permitem supor que bálticos e eslavos provavelmente foram vizinhos desde tempos remotos e, portanto, é compreensível que pudessem manter certos contatos, refletidos também em suas línguas.
Além disso, é pouco provável que as relações entre bálticos e eslavos fossem muito estreitas no III milênio a.C., pois há motivos para pensar que, naquela época, os dialetos bálticos poderiam ser mais próximos dos dialetos germânicos.
Na realidade, J. Rozwadowski defendia a teoria da protolíngua báltico-eslava, mas foi obrigado a modificá-la e a situá-la num passado muito remoto, pois já era difícil defender a versão antiga e inalterada dessa teoria. O exemplo de J. Rozwadowski mostra a influência que as ideias de A. Meillet exerciam naquela época.
Depois dos artigos de V. Porzeziński e J. Rozwadowski, a resolução da questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas começou a se tornar mais complexa.
10 W. Porzeziński, op. cit., p. 24–25.
11 J. Rozwadowski, O pierwotnym stosunku wzajemnym języków bałtyckich i słowiańskich, RSI, 5, 1912, p. 1–36.
12 J. Rozwadowski, op. cit., p. 24.
13 O. Гуйер, Введение в историю чешского языка, Москва, 1953, р. 42.
14 Б. В. Горнунг, Из предыстории образования общеславянского языкового единства, Москва, 1963, р. 95.
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Janis Endzelīns (1873—1961) foi o primeiro a empreender um estudo abrangente das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, dedicando a essa questão uma monografia inteira15.
Em primeiro lugar, J. Endzelīns formulou uma questão fundamental: que fatos e fenômenos linguísticos indicam estreitos laços de parentesco entre as línguas bálticas e eslavas? É evidente que esses fatos e fenômenos linguísticos devem ser inovações dessas línguas. No entanto, para que as inovações tenham valor probatório, na opinião de J. Endzelīns, elas precisam ser numerosas16.
Orientando-se por esses princípios, J. Endzelīns examinou as semelhanças entre as línguas bálticas e eslavas na fonética, gramática, sintaxe e léxico, bem como suas diferenças. Analisou os fenômenos fonéticos com especial minúcia. J. Endzelīns mostrou claramente que fenômenos fonéticos comuns às línguas bálticas e eslavas, como a simplificação das geminadas, a fusão das consoantes sonoras com as consoantes sonoras aspiradas, a passagem do -m final para -n, bem como a queda das consoantes -d, -t no fim da palavra, são fenômenos dialetais da comunidade linguística indo-europeia ou surgiram independentemente já nas línguas indo-europeias separadas e, por isso, não têm valor probatório.
J. Endzelīns observou na morfologia e na sintaxe mais de um fato novo comum às línguas bálticas e eslavas, bem como mais de uma diferença antiga entre elas. Também apresentou uma extensa lista do vocabulário comum às línguas bálticas e eslavas (cerca de 200 palavras).
Depois de examinar com extraordinária minúcia as semelhanças e diferenças entre as línguas bálticas e eslavas, J. Endzelīns caracterizou assim as relações mais antigas entre elas: «Ainda na protolíngua indo-europeia comum, o dialeto “eslavo” já diferia em certos aspectos do dialeto “báltico”, ocupando aproximadamente uma posição intermediária entre os dialetos “ário” e “báltico”. Quando os indo-iranianos, com a desagregação da protolíngua indo-europeia, se separaram territorialmente dos eslavos, estes, por serem os vizinhos mais próximos das tribos bálticas, atravessaram com elas uma época comum, durante a qual suas línguas ainda eram tão próximas que os eslavos entendiam a língua báltica e os bálticos — a eslava. Nesse período, suas línguas se enriqueceram com muitas palavras novas comuns a ambas, e nelas surgiram algumas (poucas!) mudanças fonéticas, morfológicas e sintáticas comuns. Assim, pode-se falar de uma “época eslavo-báltica”16; é melhor evitar o termo “protolíngua eslavo-báltica”, pois ele facilmente sugere uma unidade linguística completa. O fato de a língua eslava já diferir da língua báltica na protolíngua indo-europeia é também indicado pela circunstância de que a proximidade das línguas eslavas individuais com as línguas bálticas parece ser de igual grau (é verdade que alguns dialetos bálticos desapareceram sem deixar quaisquer monumentos escritos). É pouco provável que se possa duvidar de que todas as línguas eslavas estejam igualmente afastadas das línguas bálticas. A língua prussiana difere em alguns aspectos das línguas lituana e letã e se aproxima das línguas eslavas. Excetuando-se o prussiano twais, swais (eslavo antigo tvoi, svoi), em que a coincidência é provavelmente acidental, nos casos especiais de semelhança no domínio da gramática não nos deparamos com inovações comuns, mas com a conservação de formas antigas (cf., por exemplo, o prussiano noūson, tebbei, wans: eslavo antigo nasъ, tebě, vy e o gênero neutro), portanto essas coincidências não indicam um parentesco maior da língua prussiana com as línguas eslavas (em comparação com o lituano e o letão)»17.
Com base nas diferenças muito antigas entre essas línguas, segundo sua opinião (por exemplo, a transformação do s indo-europeu em š depois de r, k em báltico e ch depois de k, r, i, u em eslavo; a transformação do kh indo-europeu em k em báltico e ch em eslavo, etc.), J. Endzelīns, ao contrário dos defensores da teoria da unidade linguística báltico-eslava, considerava que as línguas bálticas e eslavas descendiam de dialetos distintos da comunidade linguística indo-europeia. Ao contrário da teoria do paralelismo de A. Meillet, J. Endzelīns sustentava,
15 И. Эндзелин, Славяно-балтийские этюды, Харьков, 1911.
16 И. Эндзелин, op. cit., p. 3.
17 И. Эндзелин, op. cit., p. 200—201.
2. Baltų ir slavų kalbų ryšiai
17
que, após a desintegração da comunidade linguística indo-europeia, as línguas bálticas e eslavas se aproximaram e atravessaram uma época comum. J. Endzelīns foi levado a esta última conclusão pelas seguintes inovações das línguas bálticas e eslavas: a evolução do indo-europeu r̥, l̥, m̥, n̥ em ir, il, im, in e ur, ul, um, un; a desinência do dativo plural *-mus; a evolução do indo-europeu eu e ēu, nas línguas bálticas e eslavas, para jau, de que mais tarde surgiu o eslavo ju; a formação de adjetivos pronominais; a substituição do antigo genitivo singular dos substantivos temáticos em -o pelo ablativo; o surgimento do pronome *mun-; o uso predicativo do instrumental; o genitivo de negação; e, por fim, a semelhança de grande parte do vocabulário18.
Assim, para explicar as inovações comuns às línguas bálticas e eslavas, J. Endzelīns desenvolveu a teoria da convergência. J. Endzelīns era de opinião que as afinidades linguísticas não pressupõem necessariamente uma protolíngua comum, existente após a desintegração da comunidade linguística indo-europeia: algumas dessas afinidades podem ser condicionadas pela origem comum das línguas na comunidade linguística indo-europeia; outras podem surgir quando as línguas se aproximam geograficamente e estabelecem contatos.
A ideia de J. Endzelīns de que a contiguidade geográfica, a vizinhança e contatos de vários tipos podem provocar o surgimento de fenômenos novos comuns nas línguas ou criar condições para que neologismos de uma língua se difundam em outra era algo relativamente novo na ciência da linguagem. Na verdade, o elemento geográfico da concepção de J. Endzelīns lembrava a ideia de J. Schmidt de continuidade geográfica. Essa ideia de J. Endzelīns harmonizava-se com os fatos da evolução natural das línguas: devido à contiguidade geográfica, ocorrem mudanças comuns em línguas diferentes, que assim se aproximam (cf. as línguas da Península Balcânica).
A nova teoria de J. Endzelīns foi avaliada de maneira controversa. Os partidários da teoria da unidade linguística (protolíngua) báltico-eslava consideravam que J. Endzelīns estava do seu lado. J. Rozwadowski escreveu que, em sua opinião, a teoria da protolíngua báltico-eslava, até então aceita por todos, estava comprovada e que J. Endzelīns a havia reforçado com novos argumentos19. A. Meillet, ao resenhar o livro de J. Endzelīns, afirmou que as conclusões de J. Endzelīns, excetuadas nuances sutis, não diferiam das suas20.
Essa avaliação controversa foi causada pela compreensão insuficiente da nova teoria por parte dos resenhistas e, além disso, por certa falta de clareza nas afirmações de J. Endzelīns. Ao formular conclusões de caráter geral, J. Endzelīns foi muito cauteloso. Como que querendo precisar e explicar sua posição, pouco compreendida pelos outros, J. Endzelīns voltou à questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas em 1931.
No artigo dedicado ao verbo das línguas bálticas e eslavas21, J. Endzelīns ressaltou especialmente a grande semelhança entre os dialetos indo-europeus dos quais se originaram as línguas bálticas e eslavas. Mesmo depois da desintegração da protolíngua indo-europeia, os antepassados dos povos bálticos e eslavos provavelmente permaneceram vizinhos por algum tempo e mantiveram contatos linguísticos. Durante esse período de comunidade linguística (in dieser Periode der Sprachgemeinschaft), teriam surgido algumas inovações linguísticas. Contudo, elas teriam sido muito escassas, pois, naquela época, as línguas bálticas e eslavas eram muito
18 И. Эндзелин, op. cit., p. 200. Além dessas características comuns às línguas bálticas e eslavas, em 1938 J. Endzelīns aponta mais três: casos frequentes de deslocamento do acento; o genitivo plural do pronome da primeira pessoa *nōs(s)ēm; o infinitivo em *-et(e)i ao lado de formas da primeira conjugação do presente; ver J. Endzelīns, Latviešu valodas skaņas un formas, Rīgā, 1938, p. 9–10; cf. J. Endzelynas, Baltų kalbų garsai ir formos, Vilnius, 1957, p. 7.
19 J. Rozwadowski, op. cit., p. 6–7. Cf. também as resenhas de A. Shakhmatov e N. Jokl; ver A. Шахматов, ЮРЯС, 17, 1912, p. 281–290; N. Jokl, AfslPh, 35, 1913, p. 307–317.
20 A. Meillet, RSl, 5, 1912, p. 153.
21 J. Endzelin, Sobre a conjugação eslavo-báltica, APh, 2, 1931, p. 38–46.
18
conservadoras. J. Endzelin considera que esse sentido pode ser atribuído à comunidade linguística báltico-eslava (slavisch-baltische Sprachgemeinschaft) e, se se quiser, também à protolíngua (Ursprache)22.
Este artigo deixa claras as opiniões de J. Endzelin sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas: após a dissolução da comunidade linguística indo-europeia, as línguas bálticas e eslavas constituíram unidades linguísticas distintas, cujas relações eram de natureza contactual.
Neste artigo, ao tirar conclusões sobre a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, J. Endzelin baseou-se nas características comuns do verbo nessas línguas, pois, na monografia „Estudos das línguas bálticas e eslavas“, o verbo quase não foi abordado. Contrariamente à opinião de A. Meillet, segundo a qual as estruturas verbais das línguas bálticas e eslavas são muito diferentes, J. Endzelin procurou mostrar que também nesse domínio há muitos elementos comuns às línguas bálticas e eslavas. Por exemplo, na opinião de J. Endzelin, o optativo indo-europeu passou a ser usado nas línguas eslavas com o sentido de imperativo. O mesmo destino teve também nas línguas bálticas: na língua prussiana, significa imperativo; o permissivo do lituano (por exemplo, tenesė) deriva do optativo anterior.
As línguas bálticas têm um futuro sigmático. Segundo J. Endzelin, os particípios byšęšt- ou byšąst- (cf. lituano būsiančio), entre outros, mostram que as línguas eslavas também o tiveram.
J. Endzelin manteve essa opinião sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas até o fim da vida. É o que mostra seu artigo „Antigas relações linguísticas báltico-eslavas“23, no qual voltou a reiterar suas afirmações anteriores.
A discussão de 1908–191224 desempenhou um papel importante na história da investigação do problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas. Ela mostrou que o problema dessas relações mais antigas não é tão simples nem tão fácil de resolver como se pensava no século XIX. A teoria da protolíngua báltico-eslava, universalmente aceita pelos investigadores do século passado, revelou-se apenas uma entre várias hipóteses, que, tal como as outras, precisa ser fundamentada e defendida.
A discussão de 1908–1912 também revelou o ponto fraco da linguística da época e as deficiências de seu método. Com base na análise de praticamente os mesmos fatos linguísticos, foram criadas quatro teorias que interpretavam de maneiras diferentes a origem e a natureza dos elementos comuns (inovações) às línguas bálticas e eslavas. Após essa discussão, a solução do problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas tornou-se ainda mais complexa e, aparentemente por isso, diminuiu o interesse pelas investigações teóricas. Assim, compreende-se a atitude cética de alguns investigadores em relação à discussão de 1908–1912. Aleksandras Brückner (1856–1939) chamou-a de „uma questão vã“25, pois A. Meillet não negava a semelhança entre as estruturas das línguas bálticas e eslavas, enquanto o representante da teoria da unidade (protolíngua) báltico-eslava indicava honestamente os traços que distinguiam as línguas bálticas das eslavas. O próprio A. Brückner defendia a unidade das línguas bálticas e eslavas com base no léxico. As línguas bálticas e eslavas
22 J. Endzelin, op. cit., p. 45.
23 Я. М. Эндзелин, As mais antigas relações linguísticas eslavo-bálticas, „Известия Академии наук Латвийской ССР“, 3 (56), 1952, p. 33—46; „Труды Института языка и литературы АН Латвийской ССР“, 2, 1953, p. 67—82.
24 B. Gornung descreveu-a em detalhe; ver Б. В. Горнунг, Из истории изучения балтийско-славянских языковых отношений (научная полемика 1911—1912 г.г.), „Rakstu krājums“, p. 109—132.
25 A. Brückner, A unidade linguística lito-eslava, KZ, 46, 1914, p. 217—239.
2*
19
os correspondentes na formação dos temas, em sua opinião, são mais importantes do que todos os pontos indicados por K. Brugman26.
Essa situação — a criação de quatro hipóteses diferentes com base nos mesmos fatos linguísticos — provavelmente se deve ao fato de que, naquela época, as línguas eslavas e, sobretudo, as bálticas ainda não haviam sido suficientemente estudadas, a cronologia dos fenômenos comparados não era conhecida e faltavam dados concretos para generalizações teóricas mais ou menos convincentes. Portanto, K. Būga tinha toda a razão ao escrever que “essa questão (isto é, a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas — S.K.) só poderá ser resolvida após um estudo abrangente das línguas bálticas e eslavas”27.
Apesar de hoje a pesquisa das línguas bálticas ter se intensificado consideravelmente, muitas questões da história dessas línguas ainda precisam ser resolvidas pelo método histórico-comparativo ou revistas à luz dos mais recentes avanços da linguística (não tratamos, por ora, da pesquisa estrutural das línguas bálticas, que ainda deve ficar para o futuro). As circunstâncias aqui mencionadas, assim como o aparecimento tardio de monumentos escritos nas línguas bálticas, os textos fragmentários da língua prussiana e a ausência de monumentos escritos em outras línguas bálticas — curoniano, selônio etc. — também dificultam a resolução bem-sucedida do problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas.
Estudo das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas na segunda década do século XX
Kazimieras Būga (1879—1924) não participou da discussão de 1908—1912, mas expressou sua opinião sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas em várias ocasiões.
Já em „Aistiškuose studijuose“, influenciado pelos ensinamentos de K. Jaunius, K. Būga considerava a protolíngua dos aístios uma das línguas-filhas da protolíngua ide., “que, como uma criança legítima, conservou muitas das qualidades e características de sua mãe”2. K. Būga nem sequer cogitava uma protolíngua ou época comum às línguas bálticas e eslavas.
No artigo sobre a língua lituana, escrito em 1910 para uma enciclopédia polonesa3, K. Būga chamou de dogma a teoria da unidade báltico-eslava, que teria surgido por duas razões: 1) a estreita vizinhança entre os povos bálticos e eslavos; 2) a quantidade relativamente grande de empréstimos eslavos e de outros elementos estrangeiros presentes na língua lituana, pois os linguistas do século passado não sabiam distinguir o que era lituano do que não era. K. Būga faz aqui uma suposição muito interessante: se os aístios vivessem não junto ao mar Báltico, mas em algum lugar mais distante dos eslavos, por exemplo, no Irã ou na Península Ibérica, a ninguém sequer ocorreria procurar um parentesco próximo entre os bálticos e os eslavos4.
Em seguida, K. Būga escreveu que os atuais defensores da teoria da unidade báltico-eslava não haviam apresentado sequer um argumento convincente em seu apoio. Os sete pontos de K. Brugman,
26 A. Brückner, op. cit., p. 236.
27 K. Būga, RR, I, p. 433.
1 São usados os termos de K. Būga.
2 K. Būga, Aistiški studijai, I, Peterburgas, 1908, p. 10.
3 Kaž. Būga, Litewsk i język, „Wielka encyklopedja powszechna ilustrowana“, serja I, 43—44, Warszawa, 1910, p. 624.
4 Loc. cit.
20
Na opinião de K. Būga, de modo algum indicam um parentesco mais estreito entre as línguas bálticas e eslavas (powinnowactwa). Por isso, enfatiza K. Būga, o grupo das línguas bálticas deve ser separado do grupo das línguas eslavas e considerado um membro independente da família indo-europeia 5.
Straipsnyje „Kalbų mokslas bei mūsų senovė“ (1913) seniausiesiems baltų ir slavų kalbų santykiams charakterizuoti K. Būga pacituoja J. Endzelyno išvadą6, padarytą monografijoje „Baltų ir slavų kalbų etudai“. Iš to matyti, kad K. Būga buvo J. Endzelyno konvergencijos teorijos šalininkas.
Straipsnyje „Šis-tas iš lietuvių ir indoeuropiečių senovės“ (1924) K. Būga rašė: „Kiti kalbininkai tiki, kad kalbos bendrybės, kurių turi gana daug aisčių ir slavėnų kalba, rodančios aisčius ir slavėnus turėjus dar ir atskirą prokalbę po indoeuropiškosios. Tuo aš netikiu, nes nerandu nė vieno kalbos fakto, kuris būtinai verstų mus pripažinti tariamąją aisčių-slavėnų prokalbę.
Todas as características comuns às línguas bálticas e eslavas mostram apenas que os bálticos viveram como vizinhos dos eslavos (ênfase acrescentada na citação — S.K.) desde tempos imemoriais, isto é, desde a época indo-europeia.
As línguas dos povos vizinhos, mesmo sem serem aparentadas entre si, frequentemente compartilham características fonéticas: com efeito, tendo partido de um único centro, elas podem, como ondas, inundar toda a área de uma língua vizinha ou parte dela7.
São particularmente importantes as afirmações de K. Būga a respeito do léxico comum às línguas bálticas e eslavas.
Com base apenas no fato de que não se encontram correspondências em outras línguas indo-europeias para o léxico comum às línguas bálticas e eslavas, não se pode, na opinião de K. Būga, afirmar que as línguas bálticas e eslavas também tenham tido uma protolíngua própria. Como bálticos e eslavos foram vizinhos desde a Antiguidade, não é de modo algum surpreendente que suas línguas contenham muitos vocábulos comuns. Essa é uma das razões do surgimento do léxico comum às línguas bálticas e eslavas. K. Būga considera que a segunda razão é a origem das línguas bálticas e eslavas na comunidade linguística indo-europeia: os vocábulos comuns às línguas bálticas e eslavas poderiam ter sido «palavras dos grupos dialetais eslavo e báltico da protolíngua indo-europeia». Na opinião de K. Būga, todos esses vocábulos comuns às línguas bálticas e eslavas apenas mostram «que, em tempos remotos, dois dialetos do nordeste indo-europeu (isto é, os dialetos báltico e eslavo — S.K.) tinham outros nomes para essas coisas, diferentes dos nomes usados nos dialetos ocidentais e meridionais da protolíngua indo-europeia»8.
Assim, por exemplo, para designar o corvo ou a gralha, bálticos e eslavos usam uma mesma palavra, enquanto itálicos e gregos tinham uma palavra inteiramente diferente para esse fim; compare-se o lituano várna, letão vārna, prussiano warne, eslavo *varnā (russo воро́на, polonês wrona, tcheco vrána, servo-croata vrȁna); lituano varnas, prussiano warnis, eslavo *varnъ (russo во́рон, polonês wron, tcheco vran, servo-croatavrȁn) e latim cornix «gralha», grego κορώνη «gralha»; latim corvus «corvo», grego κόραξ «corvo»9. K. Būga enfatiza particularmente a ideia de que «as palavras comuns ainda não demonstram que os eslavos e os bálticos não descendam diretamente de dialetos vizinhos da protolíngua indo-europeia, mas por intermédio de um estágio intermediário, a chamada “protolíngua eslavo-báltica” comum»10.
5 K. Būga, loc. cit.
6 K. Būga, RR, I, p. 407–408.
7 K. Būga, RR, III, p. 595.
8 K. Būga, RR, II, p. 169.
9Os nomes do corvo e da gralha não são uma característica comum específica das línguas bálticas e eslavas, pois a língua tocariana também tem a mesma palavra para esse fim; compare-se o tocariano B wrauna (ver E. Schwentner, IF, 63, 1958, p. 167).
10 K. Būga, loc. cit.
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Portanto, na opinião de K. Būga, o léxico comum das línguas bálticas e eslavas surgiu porque:
a) as línguas bálticas e eslavas descendem da comunidade linguística indo-europeia, na qual os dialetos bálticos e eslavos já possuíam palavras características apenas deles;
b) ao longo da história, as línguas bálticas e eslavas estiveram em contato direto e foram vizinhas.
Essa interpretação da origem do léxico comum das línguas bálticas e eslavas não perdeu seu valor até hoje. O contato prolongado entre línguas aparentadas pode, de fato, provocar não apenas fenômenos fonéticos e morfológicos análogos, mas também ocasionar o surgimento de um léxico comum.
Įga não encontrou nenhum fato que apontasse para a unidade das línguas bálticas e eslavas (em sua terminologia, uma língua proto), e por isso se opunha firmemente a ela, enquanto os linguistas russos A. Šachmatovas e A. Sobolevskis, que atuavam na mesma época, não duvidavam da unidade das línguas báltico-eslavas.
Aleksejus Šachmatovas (1864–1920), pažymėjęs, kad baltų ir slavų kalbų ypatingu artumu vargu ar galima abejoti, rašo: „Šis artumas negali būti atsitiktinis ir priklausyti tiktai nuo bendros jų kilmės iš indoeuropiečių prokalbės; ir baltų, ir slavų kalbos turi daug bendrų nukrypimų nuo senųjų santykių, ir šitie bendrieji nukrypimai liudija jų bendrą gyvenimą tuo metu, kada jos jau atsiskyrė nuo kitų indoeuropiečių kalbų. Vadinasi, reikia pripažinti baltus ir slavus kilus iš bendrų protėvių (от одного общего родоначальника), kurie jau buvo atsiskyrę nuo giminės, kalbėjusios indoeuropiečių prokalbe. Baltų ir slavų kalbų protėviu, kurį galima vadinti baltų-slavų prokalbe, buvo kalba tos indoeuropiečių giminės, kuri, išsiskyrusi iš indoeuropiečių šeimos, tik paskui suskilo į dvi — baltų ir slavų šakas“11.
A citação revela a posição de A. Šachmatovas sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas: ele afirma sem hesitar que houve uma unidade báltico-eslava, tanto linguística quanto étnica, que existiu após a desintegração da comunidade linguística indo-europeia.
Aleksejus Sobolevskis (1856–1929) formulou uma hipótese original e interessante sobre a gênese dos povos e das línguas eslavas. Ao abordar o problema da formação da língua protoeslava, dedicou especial atenção aos reflexos do indo-europeu s nas línguas eslavas. Após i, u, r e k, nas línguas eslavas, o indo-europeu s tornou-se ch; em todas as outras posições, permaneceu inalterado. A. Sobolevskis absolutizou essa lei fonética e concluiu que a língua protoeslava era uma combinação de duas línguas: uma língua s e uma língua ch12.
A língua ch pertencia ao ramo das línguas iranianas e era provavelmente uma das pronúncias de outra língua. Dessa língua derivaram palavras com ch em vez de s. Já a língua s, na opinião de A. Sobolevskis, era «próxima das línguas bálticas, tendo formado anteriormente com elas uma língua unificada, eslavo-báltica, ou eslavo-lituana»13. A ela pertenciam palavras e formas com s no lugar do antigo s; essa mudança para ch jamais ocorreu na língua báltico-eslava.
Assim, A. Sobolevskis estava convencido de que os povos bálticos e eslavos haviam falado, em algum momento, uma única língua. Na opinião dele, essa língua báltico-eslava unificada existira até o início da nossa era, isto é, até a época em que os citas se encontraram com os báltico-eslavos junto ao mar Báltico.
Sobre os hipotéticos báltico-eslavos e sua língua, A. Sobolevskis nada mais pôde dizer: «De onde chegaram à costa báltica os antepassados dos povos de língua s, os báltico-eslavos
11 A. Шахматов, Очерк древнейшего периода истории русского языка, „Энциклопедия славянской филологии“, вып. II, Петроград, 1915, p. IX.
12 А. Н. Соболевский, Русско-скифские этюды, ИОРЯС, 27, 1924, p. 334.
13 А. Н. Соболевский, op. cit., p. 334.
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povo, não sabemos; dificilmente do oeste, do sudoeste ou do leste. Não temos motivo para procurá-lo sequer entre os povos mencionados por Heródoto.» E o povo que falava a língua com ch-, em sua opinião, era um antigo habitante da costa báltica, que deu nome também ao rio Neman14.
A hipótese de A. Sobolevskis foi alvo de críticas severas e acabou rejeitada15. Tanto a hipótese de A. Šachmatovas como a de A. Sobolevskis careciam de argumentação baseada na análise dos dados concretos das línguas bálticas e eslavas. O exemplo de A. Šachmatovas e A. Sobolevskis parecia confirmar as palavras de K. Būga de que, ao tratar de questões relativas à gênese das línguas, é necessário, antes de mais nada, estudá-las bem.
O problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas nas décadas de 1920 e 1930
Nas décadas de 1920 e 1930, os estudiosos investigaram sobretudo as próprias línguas bálticas e eslavas. Ao examinar questões específicas de sua fonética, acentologia, morfologia e lexicologia, os pesquisadores também formulavam conclusões mais gerais relativas às relações mais antigas entre essas línguas. Essa abordagem indutiva da questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, baseada na análise de um vasto conjunto de dados concretos, foi metodologicamente de extraordinária importância.
A obra de N. van Wijk dedicada à origem dos sistemas de acento e entonação dessas línguas1 e o dicionário das línguas bálticas e eslavas de R. Trautmann2 tiveram grande importância para o estudo das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas.
Na introdução de seu livro, Nikolaj van Wijk (1880—1941) indicou que não há diferença de princípio entre as teorias de A. Schleicher e J. Rozwadowski: ambos os pesquisadores reconhecem um «período balto-eslavo». Em seguida, N. van Wijk acrescentou deliberadamente que a teoria de A. Meillet tampouco diferia muito da teoria de A. Schleicher, embora, à primeira vista, a diferença entre elas pudesse parecer muito grande. Com efeito, segundo A. Meillet, os dialetos báltico-eslavos (pode-se dizer também que constituíam uma «língua proto») existiram na comunidade linguística indo-europeia até sua desagregação; já A. Schleicher, como mostra seu esquema da «árvore genealógica das línguas», reconhecia que eles continuaram a existir depois da desagregação da comunidade linguística indo-europeia (a língua proto, na terminologia de A. Schleicher). O próprio N. van Wijk considerava que os dialetos da comunidade linguística indo-europeia dos quais mais tarde se formaram as línguas bálticas e eslavas constituíam um conjunto bastante estreitamente interligado (zusammenhängendes), embora diferenciado dialetalmente (Ganzes), ainda quando outros grupos de línguas indo-europeias, por exemplo, o indo-iraniano, já se haviam separado. Esse contínuo, ao que parece, não durou muito, pois não deixou vestígios mais marcantes nas línguas conhecidas. Por isso, afirma N. van Wijk, podemos, na prática, ignorar a unidade linguística báltico-eslava teoricamente possível3.
Tendo reconstruído duas entonações — o circunflexo e o agudo — para os dialetos protobaltos e prot eslavos, N. van Wijk observou que «isso de modo algum indica
14 A. H. Соболевский, op. cit., p. 332.
15 A. Pogodin apresentou uma avaliação crítica da hipótese de A. Sobolevskis; ver А. Л. Погодин, Теория акад. А. Н. Соболевского о двояком происхождении славянского племени, „Slavia“, 9, 1930—1931.
1 N. van Wijk, Os sistemas de acento e entonação bálticos e eslavos (Uma contribuição ao estudo das relações de parentesco báltico-eslavas), Amsterdã, 1923.
2 R. Trautmann, Baltisch-slavisches Wörterbuch, Göttingen, 1923.
3 N. van Wijk, Os sistemas de acento e entonação bálticos e eslavos, 2.ª ed., ’s—Gravenhage, 1958, p. 13.
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de parentesco mais estreito entre os dois grupos linguísticos, porque: 1) só é possível determinar de maneira muito imprecisa a qualidade das entonações proto-bálticas e proto-eslavas; 2) a língua grega também apresenta relações entonacionais semelhantes»4.
O «Dicionário das línguas bálticas e eslavas», de Reinhold Trautmann (1883—1951), é a maior e mais completa coletânea de vocabulário das línguas bálticas e eslavas. É composto sobretudo por palavras comuns às línguas bálticas e eslavas, embora também inclua palavras que existem apenas em um dos grupos linguísticos ou mesmo em uma única língua. Isso ocorreu, aparentemente, porque R. Trautmann estava convencido da existência da unidade das línguas báltico-eslavas (baltisch-slavische Sprachgemeinschaft)5: em sua opinião, palavras bálticas que hoje não têm correspondentes nas línguas eslavas poderiam ter existido antigamente também nas línguas eslavas.
Não se pode considerar báltico-eslava uma grande parte do vocabulário apresentado por R. Trautmann: algumas das palavras comuns aos dois grupos linguísticos têm correspondentes em outras línguas indo-europeias e, portanto, provavelmente foram herdadas da comunidade linguística indo-europeia; outras existem apenas em um dos grupos linguísticos ou mesmo em uma única língua.
O dicionário de R. Trautmann foi importante para o estudo do vocabulário das línguas bálticas e eslavas, bem como das relações mais antigas entre elas. No entanto, além disso, também exerceu certa influência negativa na discussão da questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas. O próprio fato de se ter compilado tal dicionário induziu os pesquisadores a uma conclusão: se é possível escrever um dicionário tão extenso com o vocabulário das línguas bálticas e eslavas, então não pode haver dúvida alguma de que essas línguas foram unidas! Um exemplo evidente disso são estas palavras de F. Specht: «Após a publicação do “Dicionário das línguas bálticas e eslavas”, de R. Trautmann, já não deveria haver dúvidas de que as línguas bálticas e eslavas passaram antigamente por um desenvolvimento comum, explicável apenas pela teoria de uma protolíngua báltica e eslava»6.
Surge a questão de qual é, de fato, a importância do vocabulário para o estudo das relações de parentesco entre as línguas. A esse respeito, convém recordar as afirmações de A. Meillet sobre a evolução do vocabulário das línguas bálticas e eslavas. Ao levantar questões relativas às relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas e à importância do vocabulário, e ao recordar repetidamente o dicionário de R. Trautmann, no artigo «A origem do vocabulário das línguas eslavas: I. — O problema da unidade báltico-eslava»7, ele observou:
1. Os elementos perdidos caracterizam o vocabulário tanto quanto os conservados. As línguas bálticas e eslavas perderam muitas palavras indo-europeias antigas, substituindo-as por outras novas. Assim, as línguas bálticas e eslavas perderam a antiga denominação de «pai» (sânscrito pitá, grego πατήρ, latim pater). Em seu lugar, os bálticos começaram a usar uma formação nova: lituano tėvas, letão tēvs e prussiano antigo tāws; os eslavos, por sua vez, usaram o eslavo antigo ot-bьcь, de origem expressiva (quanto ao sufixo, cf. o adjetivo eslavo antigo ot-bьjь «paterno»). O fato de as línguas bálticas e eslavas terem perdido palavras antigas e criado, em seu lugar, substitutos diferentes mostra que bálticos e eslavos tinham condições de vida semelhantes e que suas línguas evoluíram paralelamente.
2. As correspondências lexicais entre as línguas bálticas e eslavas não demonstram que essas línguas tenham tido um período de vida comum posterior à época indo-europeia, pois o vocabulário comum às línguas bálticas e eslavas foi herdado dos dialetos da comunidade linguística indo-europeia; cf., por exemplo, lituano miglà, eslavo antigo mbgla e grego ο-μίχλη8.
4 N. van Wijk, op. cit., p. 46.
5 R. Trautmann, op. cit., p. V.
6 F. Specht, Zur baltisch-slavischen Spracheinheit, KZ, 62, 1934, p. 248.
7 A. Meillet, Les origines du vocabulaire slave: I. — Le problème de l’unité balto-slave, RÉSI, 5, 1925, p. 5—13.
8 A. Meillet, loc. cit.
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3. O desenvolvimento paralelo das línguas bálticas e eslavas é demonstrado pelos formantes derivacionais do léxico. Assim, nos derivados de nomina instrumenti, as línguas bálticas têm o sufixo *-tlo- (lituano -kla-), enquanto as eslavas têm o sufixo *-dhlo; compare-se o lituano árklas com o eslavo antigo ralo e o checo rádlo. Esses sufixos são semelhantes, mas não idênticos, e ambos são antigos: o primeiro corresponde ao latim -culum (compare-se o latim pōculum «cálice»), enquanto o segundo corresponde ao latim -bulum (compare-se o latim pābulum «forragem») e ao grego -θλον (compare-se o grego γένεθλον).
4. Uma diferença marcante entre as línguas bálticas e eslavas é que as línguas bálticas conservaram melhor o léxico indo-europeu do que as eslavas. Por exemplo, as línguas bálticas conservaram bem as denominações de «ser humano» e «homem» (compare-se o lituano antigo žmuo, o prussiano smoy e o latim hemō ou homō, o gótico guma; o lituano vyras, o letão vīrs, o prussiano wijrs e o sânscrito vīráḥ, o latim vir, o antigo irlandês fer e o gótico wair), ao passo que as línguas eslavas os perderam.
Ao concluir seu artigo, A. Meillet escreve: «A parte indo-europeia do vocabulário das línguas bálticas e eslavas deriva de um mesmo e único grupo de dialetos indo-europeus. No entanto, basta folhear o Baltisch-slavisches Wörterbuch de Trautmann para se convencer de que, entre a comunidade linguística indo-europeia e a época histórica das línguas bálticas e eslavas, não houve nenhum período durante o qual se tenha formado um fundo vocabular comum a ambos os grupos linguísticos. Há paralelismo, não unidade»⁹.
É interessante que a opinião de A. Meillet sobre o léxico das línguas bálticas e eslavas seja muito próxima da opinião de K. Būga — ambos os pesquisadores consideram que o léxico comum dessas línguas: 1) deriva dos dialetos da comunidade linguística indo-europeia e 2) surgiu de modo independente e paralelo, enquanto os dois grupos linguísticos viviam desde tempos antigos em vizinhança.
Na verdade, para explicar o léxico comum das línguas bálticas e eslavas, não é de modo algum necessário reconhecer uma unidade linguística balto-eslava: os diversos contatos que bálticos e eslavos tiveram ao longo de sua história bastam para explicar o surgimento desse léxico. Além disso, ao se discutir a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, não se deve exagerar a importância do léxico, pois o vocabulário, como se sabe, é a parte mais mutável do sistema linguístico.
Para fundamentar a teoria da unidade das línguas bálticas e eslavas, além do argumento lexical, Franz Specht (1888—1949) recorreu a algumas características gramaticais comuns que havia observado¹⁰, tais como: a substituição do locativo singular dos pronomes demonstrativos pelo acusativo com posposição (lituano tamē=eslavo antigo tomb de *tamen), a distinção rigorosa entre os temas em men e n, a perda dos nomina agentis masculinos com o formante *-tēr- (compare-se o indo-europeu *patēr e o lituano tėvas, o eslavo antigo отbь), entre outras.
N. van Wijk, R. Trautmann e F. Specht abordaram a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas com base nas conclusões de suas pesquisas concretas. Os neolinguistas italianos seguiram um caminho inteiramente diferente. De acordo com os princípios teóricos de sua linguística geral, tentaram sobretudo determinar o caráter das línguas bálticas e eslavas.
Inicialmente, Vittore Pisani reconheceu¹¹ que, após a fragmentação da comunidade linguística indo-europeia, as línguas bálticas e eslavas passaram por um período comum de desenvolvimento. Na opinião de V. Pisani, as isoglossas das línguas bálticas e eslavas, que atravessam o território dessas línguas, permitem supor que os territórios báltico e eslavo permaneceram unidos por bastante tempo após a fragmentação da comunidade linguística indo-europeia. V. Pisani chamava de comunidade o período comum de desenvolvimento dessas línguas
⁹ A. Meillet, op. cit., p. 13.
¹⁰ F. Specht, op. cit., p. 248—259.
¹¹ V. Pisani, Balto e slavo, StB, 2, 1932, p. 1—22 (= Linguistica generale e indoeuropea, Milano, 1947, p. 65—82).
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época (mas não uma protolíngua), que ele datou aproximadamente do século V a. C. ao século IV d. C. Mais tarde, porém, as ideias de V. Pisani mudaram: ele considerava que, com base no sistema de isoglossas, dificilmente se poderia falar de uma comunidade báltico-eslava, assim como dificilmente se poderia falar de uma protolíngua báltica e eslava, pois ela, ao que parece, nunca existiu12.
Outro neolinguista italiano, Matteo Bartoli (1874—1946), após analisar algumas correspondências entre as línguas bálticas e eslavas, chegou à conclusão de que a posição cronológica das línguas bálticas é determinada pelo fato de que nelas haveria mais neologismos pré-históricos do que nas línguas germânicas e muito menos do que na língua indiana antiga13. Discordando da conclusão de M. Bartoli, Giuliano Bonfante expressou a opinião14 de que as línguas bálticas, sobretudo o lituano, são ao mesmo tempo arcaicas e conservadoras, enquanto as línguas eslavas são conservadoras, mas não arcaicas. G. Bonfante apontou vários arcaísmos, acrescentando, porém, que nem as línguas bálticas haviam ficado imunes às ondas de inovações vindas do centro (das línguas grega, armênia etc.)15.
O linguista norueguês Christian Stang não apenas analisou as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, mas também escreveu obras importantes nas quais esclareceu a história do verbo e da acentologia nas línguas bálticas e eslavas.
Em um de seus artigos16, Chr. Stang levantou a questão: afinal, o que significa o conceito de «unidade linguística»? Em sua opinião, a unidade linguística pode ser entendida de duas maneiras:
1) uma unidade caracterizada por desvios individuais (não dialetais nem sociais);
2) uma unidade em que os falantes sentem que sua língua é uma só e a mesma, embora dividida em dialetos (segundo essa definição, por exemplo, o alemão é uma língua, enquanto o sueco e o norueguês são duas, embora a diferença entre estes últimos seja menor do que entre os dialetos do norte e do sul da Alemanha; tal unidade linguística, na opinião de Chr. Stang, baseia-se em relações políticas e culturais).
Não poderia ter havido uma unidade do primeiro tipo entre as línguas bálticas e eslavas após a dissolução da comunidade linguística ide., pois, por exemplo, o destino de ide. s após k, r, i, u aproxima as línguas eslavas das línguas indo-iranianas. A existência de uma unidade do segundo tipo entre essas línguas após a referida dissolução não pode ser demonstrada com base nos dados da ciência da linguagem.
Chr. Stang descreve assim as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas: as línguas bálticas e eslavas descendem, pode-se dizer, do mesmo dialeto ide. No entanto, entre elas já existiam diferenças muito antigas: o destino distinto de ide. s após k, r, i, u (ver este trabalho, p. 81 ss.), detalhes diferentes do fenômeno satam (cf. lit. klausyti e esl. slyšati, ver este trabalho, p. 186 ss.) etc. Mais tarde, quando a comunidade linguística ide. se desfez, as línguas bálticas e eslavas atravessaram um período durante o qual seus territórios foram circundados por várias isoglossas novas. Algumas abrangiam todo o território dessas línguas, enquanto outras cobriam apenas uma parte dele. Entre essas isoglossas estão a transformação de r, l, m, n em ir, il, im, in e ur, ul, um, un (ver este trabalho, p. 76), o tipo verbal com -auju: -ųja, o nomen agentis lit. artōjas, pr. artoys, esl. ant. ratajь etc. Enquanto, na opinião de Chr. Stang, ainda houver a possibilidade de surgirem novas
12 V. Pisani, Glottologia indoeuropea, Torino, 1949, p. 26.
13 M. Bartoli, Il carattere conservativo dei linguaggi baltici, StB, 3, 1933, p. 1—26.
14 G. Bonfante, „Arcaico“ e „conservativo“ nel gruppo baltico, StB, 5, 1935—1936, p. 30—37, plg. „Indogermanisches Jahrbuch“, 21, 1937, p. 326.
15 Para mais informações sobre isso, ver B. H. Топоров, Из истории изучения древнейших балто-славянских языковых отношений, p. 22—25.
16 Chr. Stang, Einige Bemerkungen über das Verhältnis zwischen den slavischen und baltischen Sprachen, NTS, 11, 1939, p. 85—98.
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isoglossas, então se pode falar de uma área isoglóssica viva (lebendiges Isoglossengebiet).
Em 1963, Chr. Stang detalha e concretiza suas ideias sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas17. Ele expressa a opinião de que o destino distinto do s indo-europeu depois de k, r, i, u e alguns reflexos diferentes do satam-fenômeno (klaušyti: sly-šāti) nas línguas bálticas e eslavas não remontam, em antiguidade, aos tempos da comunidade linguística indo-europeia.
Depois de discutir algumas inovações das línguas bálticas e eslavas, Chr. Stang conclui que essas línguas, após a desintegração da comunidade linguística indo-europeia, constituíram uma área dialetal unificada (Dialektgebiet), na qual surgiram neologismos dessas línguas e em relação à qual se pode usar a expressão «línguas báltico-eslavas» («Baltisch-slavisch»). Por outro lado, em sua opinião, também se deve reconhecer que, nessa área dialetal, se cruzavam certas isoglossas antigas que separavam os dialetos bálticos dos eslavos. A divisão da área dialetal báltico-eslava ocorreu em etapas, pois há isoglossas que abrangem, umas, a área eslavo-báltica oriental e, outras, a área eslavo-prussiana.
Em seus trabalhos, Chr. Stang usa frequentemente a expressão «línguas báltico-eslavas». No livro «A acentuação das línguas eslavas»18, indica-se que ele não usava o termo «línguas báltico-eslavas» («Balto-Slavonic») no sentido de uma língua absolutamente homogênea. Com esse termo, ele entendia «uma área dialetal suficientemente homogênea para que nela surgissem mudanças linguísticas capazes de abranger toda a área ou parte dela»19. Essa opinião de Chr. Stang sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas foi confirmada pelas principais conclusões de seu livro «O verbo eslavo e báltico»20. Antigamente, as semelhanças entre os sistemas verbais báltico e eslavo devem ter sido muito maiores, e seus sistemas do presente, após a desintegração da comunidade linguística indo-europeia, devem ter sido muito parecidos21. Mais tarde, devido a diferentes tendências de desenvolvimento, os sistemas verbais dessas línguas se distanciaram.
Chr. Stang também aponta grandes diferenças estruturais entre os verbos das línguas bálticas e eslavas. As línguas bálticas, assim como as germânicas, não têm aoristo sigmático e, ao que parece, nunca o tiveram. O aoristo sigmático eslavo coincide em grande medida com o indo-iraniano: ambos apresentam o grau alongado do vocalismo radical. A esse respeito, Chr. Stang constata que, no que concerne ao aoristo, as línguas bálticas e eslavas pertenciam, possivelmente, a esferas geográficas distintas. As línguas eslavas não têm o pretérito de raiz longa, que ocorre nas línguas bálticas, germânicas, célticas, itálicas e albanesas. Nas línguas bálticas é comum o futuro sigmático, inexistente nas línguas eslavas. Nestas, o presente perfectivo passou a desempenhar a função de futuro, tornando desnecessário o futuro sigmático.
A análise de Chr. Stang mostra que alguns tipos e categorias estruturais (por exemplo, os verbos nasais e temáticos em i, o optativo) são antes resultado de desenvolvimentos convergentes ou mesmo paralelos.
A análise das pesquisas sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas realizadas nas décadas de 1920 e 1930 mostra que os pesquisadores desse período, com exceção de R. Trautman e F. Specht, não encontram dados que permitam reconhecer a ausência de-
17 Chr. Stang, Über das Verhältnis zwischen slavischen und baltischen Sprachen, „Prace językoznawcze“, 5, 1963, p. 393–394.
18 Chr. S. Stang, Slavonic accentuation, Oslo, 1957.
19 Chr. S. Stang, op. cit., p. 174.
20 Chr. S. Stang, Das slavische und baltische Verbum, Oslo, 1942.
21 Chr. S. Stang, loc. cit., p. 268, 271.
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a unidade linguística báltico-eslava. Pelo contrário, o estudo de fenômenos acentológicos e morfológicos específicos permitiu chegar a conclusões que indicavam que as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas eram de natureza de contato.
O estudo das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas nos anos do pós-guerra
O estudo dos problemas relativos às relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas intensificou-se após a Segunda Guerra Mundial. Foram publicados vários artigos dedicados especificamente a esse problema. As relações mais antigas entre essas línguas também são caracterizadas em mais de uma obra abrangente sobre a história das línguas bálticas ou eslavas. O livro de E. Frenkelis, «As línguas bálticas», publicado em 19501, foi o estímulo para o aparecimento de um artigo de J. Endzelynas, ao qual, por sua vez, responderam J. Otrębski, A. Zenas e outros (ver abaixo). Surgiu, por assim dizer, certo debate. As relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas foram discutidas com especial intensidade durante os preparativos para o IV Congresso Internacional de Eslavistas, em Moscou.
A pesquisa das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas no pós-guerra caracteriza-se pela análise detalhada de semelhanças conhecidas e pela identificação de novas semelhanças e diferenças entre essas línguas, bem como pela discussão de sua cronologia. Além disso, atualmente evita-se formular novas hipóteses que reinterpretariam as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas; satisfaz-se com a modificação das teorias propostas em 1908–1912, com uma argumentação mais detalhada ou com sua crítica.
Em 1946, foram publicados os trabalhos de dois linguistas poloneses dedicados ao problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas2 — o artigo de J. Safarewicz, «Sobre a questão da comunidade báltico-eslava»3, e o livro de T. Ler-Splavinski, «Sobre a origem e a pátria ancestral dos eslavos»4.
Em seu artigo, Jan Safarewicz observou que, por um lado, inovações comuns às línguas bálticas e eslavas, como a formação do presente a partir de raízes aorísticas (cf. lituano duomi, eslavo antigo damъ e indiano antigo dādam, grego ἔδομεν), a derivação do tipo minėti a partir da raiz do perfeito *men-, são muito antigas e, portanto, não poderiam ter surgido quando as línguas bálticas e eslavas voltaram a se aproximar. Ao afirmar isso, J. Safarewicz tinha, sem dúvida, em mente a teoria da convergência de J. Endzelynas. Tais inovações e outras semelhantes indicariam, em sua opinião, que provavelmente existiu uma época de comunidade e que esta ocorreu imediatamente após a comunidade linguística indo-europeia, prolongando-a5. Por outro lado, diferenças antigas entre as línguas bálticas e eslavas, como o uso do sufixo de presente *-do (cf. eslavo antigo idǫ e lituano eimi, lituano vėrda, ausente nas línguas eslavas), indicariam, segundo J. Safarewicz, que a época de comunidade dessas línguas (okres wspólnoty) não foi duradoura. Ele considera que a comunidade báltico-eslava se desfez não por causa de contatos geográficos, mas devido à invasão de tribos iranianas.
Mais tarde, as observações de J. Safarewicz sobre a unidade linguística báltica e eslava tornaram-se ainda mais críticas6. Em 1961, ele escreveu que «a existência de uma época de comunidade báltico-eslava não é inteiramente certa»7. Em seguida, J. Safarewicz assinala que as semelhanças entre as línguas bálticas e eslavas
1 E. Fraenkel, Die baltischen Sprachen, Heidelberg, 1950.
2 Durante a guerra, foi publicado o artigo de H. Pedersen «Et baltoslavisk problem» (In memoriam Kr. Sandfeld, København, 1943), que, infelizmente, o autor deste trabalho não teve a oportunidade de consultar.
3 J. Safarewicz, Przyczynki do zagadnienia wspólnoty bałto-słowiańskiej, „Sprawozdania z czynności i posiedzeń Polskiej Akademii Umiejętności“, 46, 1946, p. 199–202.
4 T. Lehr-Splawiński, O pochodzeniu i praojczyźnie słowian, Poznań, 1946.
5 J. Safarewicz, op. cit., p. 200.
6 J. Safarewicz, Bałto-słowiańskie stosunki językowie, „Słownik starożytności słowiańskich“, I, 1 (A–B), Wrocław–Warszawa–Kraków, 1961, p. 79–80.
7 J. Safarewicz, op. cit., p. 79.
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mais semelhantes a inovações paralelas, surgidas independentemente (cf. a desinência do genitivo singular dos substantivos de tema em -o: lituano -o, eslavo antigo -a e prussiano -as). Até mesmo uma característica comum às línguas bálticas e eslavas tão notável como os adjetivos pronominais é considerada por ele como tendo-se formado independentemente em cada um dos dois grupos linguísticos. Na opinião de J. Safarewicz, apenas os primórdios desse fenômeno remontam à época da comunidade báltico-eslava. Ele considera que as línguas bálticas e eslavas descendem de um único dialeto da comunidade linguística indo-europeia e que a época da comunidade báltico-eslava, se é que ela existiu, naturalmente, pode ter ocorrido na primeira metade do II milênio a. C.
O linguista polonês Tadeusz Lehr-Splawiński (1891–1965) abordou a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas sob uma perspectiva um tanto diferente. No livro «Sobre a origem e a pátria ancestral dos eslavos», apresentou sucintamente sua concepção: «os antepassados dos eslavos e dos bálticos passaram outrora por uma época de desenvolvimento linguístico comum, que prosseguiu mesmo depois de já se terem rompido os vínculos com os grupos de outros dialetos indo-europeus9. T. Lehr-Splawiński segue o princípio metodológico segundo o qual as inovações indicam com muito mais segurança o desenvolvimento comum das línguas do que os arcaísmos proto-indo-europeus, que, a seu ver, poderiam facilmente ter-se conservado também no desenvolvimento independente dessas línguas. Para fundamentar sua tese, T. Lehr-Splawiński enumera várias mudanças fonéticas, morfológicas e lexicais inovadoras comuns às línguas bálticas e eslavas. Ainda assim, considera como argumento mais importante as semelhanças de vocabulário, que, segundo ele, são tão numerosas que constituem um grande dicionário etimológico das línguas bálticas e eslavas (com nada menos que 1600 entradas; trata-se do dicionário de R. Trautmann).
Na opinião de T. Lehr-Splawiński, as antigas diferenças morfológicas e, sobretudo, lexicais não confirmam a tese da unidade original das línguas bálticas e eslavas. Em primeiro lugar, essas diferenças mostram que os dialetos indo-europeus falados pelos antepassados dos bálticos e dos eslavos na época da comunidade linguística indo-europeia eram próximos, mas diferiam consideravelmente tanto na composição gramatical quanto na lexical. Isso de modo algum impediu a formação de tendências comuns de desenvolvimento, que atuaram também após a desagregação da comunidade linguística indo-europeia e, mais tarde, aproximaram os dois grupos dialetais durante a época comum a ambos. Em segundo lugar, as antigas diferenças entre as línguas bálticas e eslavas indicam que a época comum báltico-eslava (doba wspólności językowej bałto-słowiańskiej) existiu num passado muito remoto. A essa época sucedeu uma etapa bastante longa de desenvolvimento autônomo e independente dos dialetos protobálticos e protoeslavos, durante a qual surgiram tendências distintas de formação das estruturas gramaticais e aumentaram as diferenças lexicais, parcialmente herdadas ainda da comunidade linguística indo-europeia. Nessa época, os contatos entre os dois grupos dialetais enfraqueceram muito, mas não cessaram por completo. Passado algum tempo, esses contatos se intensificaram novamente, e seu reflexo foram os empréstimos das línguas bálticas provenientes das eslavas e os das eslavas provenientes das bálticas.
Essa concepção de T. Lehr-Splawiński10, exposta no livro «Sobre a origem e a pátria ancestral dos eslavos», de 1946, foi desenvolvida nos anos seguintes em numerosos artigos11, mas sua essência permaneceu a mesma.
8 J. Safarewicz, op. cit., p. 80.
9 T. Lehr-Splawiński, op. cit., p. 23.
10 Jos kvintesencija žr. ВЯ, I, 1958, p. 37–41 ir „Сборник ответов на вопросы по языкознанию (К IV Международному съезду славистов)“, М., 1958, p. 152–157.
11 Para a bibliografia dos trabalhos de T. Lehr-Splawiński publicados entre 1946 e 1955, ver V. Falkenhahn, ZfSl, 2, 1956, p. 49–88; para a bibliografia de suas separatas publicadas entre 1951 e 1961 (incluindo as relativas à questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas), ver «Studia linguistica in honorem Thaddaei Lehr-Splawiński», Warszawa, 1963, p. 7–8.
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Merece menção o artigo de T. Lehr-Splawiński no qual ele tenta caracterizar os dialetos indo-europeus de que se originaram as línguas bálticas e eslavas12.
Na opinião de T. Lehr-Splawiński, os dialetos indo-europeus dos quais mais tarde se formaram as línguas bálticas e eslavas não constituíam uma unidade compacta durante a época da comunidade linguística indo-europeia, mas eram compostos de várias variedades estreitamente aparentadas, que apresentavam diferenças bastante numerosas. Para caracterizar a base dialetal indo-europeia das línguas bálticas e eslavas, T. Lehr-Splawiński apresenta as seguintes características, que revelam a heterogeneidade dessa base:
I. Fenômenos característicos das línguas bálticas e desconhecidos nas eslavas:
a) as línguas bálticas, assim como todas as línguas indo-europeias ocidentais (exceto as germânicas), distinguem o indo-europeu ō e ā, ao passo que nas línguas eslavas, como nas indo-iranianas e germânicas, as vogais longas indo-europeias se fundiram (ver p. 61 ss. deste trabalho);
b) o grupo indo-europeu sr- permaneceu intacto em lituano (cf. lituano sraujà e sânscrito srá-vati), mas em letão, prussiano, eslavo e em todas as línguas indo-europeias ocidentais tornou-se str- (cf. eslavo antigo struja13);
c) formação distinta do numeral «primeiro», cf. lituano pìrmas, prussiano pirmas, inglês antigo forma, alto-alemão antigo formo (sufixo *-mo-) e eslavo antigo prъvъ (sufixo *-uo-, como nas línguas indo-iranianas, tocarianas e, provavelmente, ilírias);
d) formação distinta dos numerais «onze» e «doze», cf. o segundo elemento *-leig- (lituano vienúolika, dvýlika, gótico ainlif, twalif, alto-alemão antigo einlif, zwalif) e a construção sintática do eslavo antigo (jedinъ na desęte, dъva na desęte);
e) a língua prussiana conservou a desinência indo-europeia medial da 1.ª pessoa -mai (prussiano asmai «sou», cf. grego -μαι).
II. Fenômenos característicos das línguas eslavas e desconhecidos nas bálticas:
a) nas línguas eslavas, assim como nas indo-iranianas, o s indo-europeu depois de k, r, i, u tornou-se (š>) ch, enquanto em lituano isso ocorreu apenas depois de r, k (cf. eslavônico antigo mъchъ, ucho e lituano músos, ausis; sobre o assunto em mais detalhes, ver p. 81 ss.);
b) nomina agentis com o sufixo -telb (cf. hitita -talla-);
c) o sufixo *-es- nos nomes de partes do corpo, como também em hitita (cf. eslavônico antigo ucho ušese, oko očese);
d) o sufixo de abstrações adjetivais -ostb (cf. hitita -ašti)14;
e) a formação de adjetivos deverbatíveis com função participial mediante o sufixo *-lo- (cf. eslavônico antigo bylъ e hitita dalugmūla, de dalugnu- «alongar»)14;
f) o uso dos sufixos *-no- || *-io para formar verbos intransitivos e transitivos da mesma raiz, compartilhado com as línguas germânicas (cf. eslavônico antigo užasnąti: užasiti e gótico usgeisnan: usgaisjan);
g) a flexão de primeira pessoa do perfeito -é (eslavônico antigo vedě=letão vidē) e a conservação da desinência medial da terceira pessoa -tъ < *-tor.
Essas antigas diferenças entre as línguas bálticas e eslavas mostram que, no momento da desintegração da comunidade linguística indo-europeia, os dialetos bálticos e eslavos diferiam em muitas características gramaticais. Como os territórios das línguas bálticas e eslavas fizeram fronteira direta durante muitos séculos — circunstância que, sem dúvida, acelerou o processo de nivelamento das diferenças e de surgimento de traços comuns —, as diferenças no momento da desintegração da comunidade linguística indo-europeia podem ter sido muito mais numerosas e maiores, na opinião de T. Ler-Slavinskio.
12 T. Lehr-Splawiński, Podstawy indoeuropejskie wspólnoty językowej bałto-słowiańskiej, „Z polskich studiów slawistycznych“, Warszawa, 1958, p. 125—136.
13 Em lituano há exemplos também com str-, cf. lituano strañjas «rápido (sobre a água)», strėbti, stragùs.
14 Esses dois sufixos parecem ocorrer também nas línguas bálticas; cf. lituano bjaur-astis (: bjaurùs) e dęg-las (: dègti).
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Da teoria de T. Ler-Splavinskis conclui-se que 1) ele deriva as línguas bálticas e eslavas de dialetos da comunidade linguística indo-europeia que não eram idênticos e que 2) os dialetos bálticos e eslavos só se aproximaram mais tarde. Embora, à primeira vista, a teoria de T. Ler-Splavinskis lembre a concepção de convergência de J. Endzelin, no essencial elas diferem profundamente: o linguista polonês reconhecia não apenas o parentesco linguístico, mas também o étnico entre bálticos e eslavos.
André Vaillant resolve de modo semelhante a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas e reconhece sem hesitação um período de unidade balto-eslava (une période d’unité balto-slave)15. Em sua opinião, a abundância de traços comuns às línguas bálticas e eslavas, sobretudo de traços tão surpreendentes como os adjetivos pronominais, mostra claramente que, após a dissolução da comunidade linguística indo-europeia, existiu durante bastante tempo um período de unidade linguística balto-eslava. Por um lado, o eslavista francês reconhece que as línguas bálticas não diferem das eslavas mais do que o sueco do alemão; por outro, vê-se obrigado a constatar que os eslavos percebem sem dificuldade o parentesco entre suas línguas, enquanto o lituano lhes é completamente estranho.
A. Vaillant tende a considerar os venetos do Báltico (Vénèdes de la Baltique) como balto-eslavos, cuja língua, por volta do início da nossa era, ainda diferia pouco. Em sua opinião, a língua balto-eslava comum deve ser imaginada como um conjunto de dialetos (un faisceau de parlers), cujos dialetos centrais e periféricos diferiam entre si em maior ou menor grau. As tribos balto-eslavas, afirma ainda o eslavista francês, foram divididas em dois grupos pelas tribos germânicas que invadiram a região por volta do início da nossa era, especialmente os godos vindos da Escandinávia, que assim dissolveram definitivamente a unidade das línguas balto-eslavas, já fragmentada em dialetos.
A. Vaillant propõe a tarefa de reconstruir a língua balto-eslava. Nesse caso, os estudiosos das línguas bálticas e eslavas teriam de operar com três modelos linguísticos reconstruídos: o indo-europeu, o balto-eslavo e o proto-báltico ou, respectivamente, o proto-eslavo.
No artigo «A unidade linguística balto-eslava»16, A. Vaillant analisou com bastante detalhe as semelhanças e diferenças entre as línguas bálticas e eslavas, enfatizando especialmente a identidade dos fatos em que A. Meillet percebia diferenças entre essas línguas (por exemplo, no verbo). No final do artigo, A. Vaillant propõe a tarefa de encontrar um fundamento comum para os fenômenos e fatos distintos das línguas bálticas e eslavas17. O artigo mostra que A. Vaillant tenta encontrar justamente esse tipo de fundamento comum original para mais de um fenômeno das línguas bálticas e eslavas. Alguns fenômenos das línguas eslavas que se formaram posteriormente parecem, de fato, suscetíveis de interpretação com base nos dados das línguas bálticas. Assim, A. Vaillant observa, com toda a razão, que na flexão do imperfeito das línguas eslavas é possível reconhecer temas ampliados pelos sufixos *-ėjā- e *-ājā- (cf. eslavo antigo vidēa- e iškaa-), que se encontram apenas nas línguas bálticas (cf. lituano mylėjo e ieškojo). No entanto, o fundamento comum original que A. Vaillant propõe para outros fenômenos suscita sérias dúvidas. Por exemplo, A. Vaillant considera que o lituano neša é o resultado da fusão das formas da 3.ª pessoa do singular *nešeti e da 3.ª pessoa do plural *nešanti. É pouco provável que as línguas bálticas tenham tido outrora formas temáticas de 3.ª pessoa do singular e do plural dos verbos
15 A. Vaillant, Grammaire comparée des langues slaves, I, Lyon—Paris, 1950, p. 13—15; Le problème de l’unité balto-slave, BSL, 51, 1955, p. XIII—XV.
16 A. Vaillant, L’unité linguistique balto-slave, „Filologija“, I, Zagreb, 1957, p. 23—35.
17 «É preciso reencontrar a unidade inicial onde ela deixou de ser aparente», – A. Vaillant, op. cit., p. 34.
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com as terminações de 3.ª pessoa *-ti e *-nti. Faltam dados para provar isso. É evidente que A. V. Vaillant reconstruiu as referidas formas de 3.ª pessoa do singular e do plural com base apenas em fatos correspondentes das línguas eslavas; cf. russo antigo nesetb e nesoutb.
Em 1950, quando foi publicada a «Gramática comparativa das línguas eslavas», de A. V. Vaillant, saiu também uma obra sobre a história das línguas bálticas: o livro «As línguas bálticas», de E. Fraenkel18. Os autores de ambos os livros dedicaram considerável atenção à questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, mas chegaram a conclusões diametralmente opostas. A. V. Vaillant é um fervoroso defensor da teoria da unidade linguística balto-eslava, enquanto E. Fraenkel sustenta que as semelhanças e inovações comuns às línguas bálticas e eslavas surgiram em consequência de uma vizinhança duradoura.
O notável baltista alemão, autor do dicionário etimológico da língua lituana19, Ernst Fraenkel (1881—1957), analisou detalhadamente em seu livro «As línguas bálticas» os fenômenos comuns e divergentes da fonética, acentologia, morfologia, sintaxe e léxico das línguas bálticas e eslavas. Para muitos dos fenômenos examinados, apresentou paralelos de outras línguas indo-europeias, mostrando que eles não são característicos apenas das línguas bálticas e eslavas. Também apontou as grandes diferenças estruturais entre as línguas bálticas e eslavas.
E. Fraenkel reconhece que muitas isoglossas ligam as línguas bálticas e eslavas e, em sua opinião, elas surgiram porque 1) as línguas bálticas e eslavas, estando afastadas do centro de relações e intercâmbios ativos das línguas indo-europeias, conservaram sua forma antiga e 2) foram vizinhas durante muitos séculos20. Além disso, nas línguas desses grupos observam-se frequentemente mudanças paralelas, que, contudo, por si só não indicam uma relação mais estreita entre as línguas bálticas e eslavas. Também ocorrem diferenças notáveis, sobretudo no vocabulário e na sintaxe. Por vezes, as línguas eslavas apresentam menos traços antigos do que as bálticas. As línguas bálticas, eslavas e germânicas formariam uma união no sentido da Escola Linguística de Praga21.
J. Endzelin respondeu ao livro de E. Fraenkel22 (ver p. 19 deste trabalho), polemizando com E. Fraenkel sobre questões específicas; algum tempo depois, foram publicados os extensos artigos de J. Otrębski e A. Zenas. Ao resolver a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, esses artigos lembravam os trabalhos publicados em 1950: tal como então, um deles defendia a unidade linguística balto-eslava, enquanto o outro a negava.
No artigo «A unidade linguística eslavo-báltica», Jan Otrębski23 reviu sua posição anterior sobre a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas. Em 1947, escreveu que «a protolíngua balto-eslava nunca existiu»24, pois, segundo ele, o destino diferente do s indo-europeu após p, k, r, i, u nas línguas bálticas e eslavas não permitia reconhecê-la. Em 1954, J. Otrębski já considerava que as línguas bálticas e eslavas tinham se originado de dialetos de um único grupo linguístico balto-eslavo. Esse grupo deve ser considerado uma unidade originada de uma só língua, que, por sua vez, se separou do grupo linguístico indo-europeu25. O vocabulário das línguas bálticas e eslavas, segundo J. Otrębski
18 E. Fraenkel, As línguas bálticas (suas relações entre si e com os idiomas irmãos indo-europeus, como introdução à linguística báltica), Heidelberg, 1950.
19 E. Fraenkel, Litauisches etymologisches Wörterbuch, Heidelberg—Göttingen, 1955 tt.
20 E. Fraenkel, op. cit., p. 75.
21 E. Fraenkel, op. cit., p. 75.
22 Я. М. Эндзелин, Древнейшие славяно-балтийские языковые связи, 1953, p. 67—82.
23 Я. С. Отрембский, Славяно-балтийское языковое единство, ВЯ, 1954, 5, p. 27—42, 6, p. 28—46.
24 J. Otrębski, „Slavia Occidentalis“, 18, 1947, p. 448.
25 Я. С. Отрембский, ВЯ, 6, p. 43.
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opinião, seria tão semelhante que bálticos e eslavos, falando as suas línguas, se compreenderiam uns aos outros não apenas na época da unidade, mas também durante muito tempo após a sua desintegração. J. Otremski vê nas línguas bálticas e eslavas, por toda parte, fenómenos idênticos e processos semelhantes: as línguas eslavas têm aoristo sigmático — também as línguas bálticas o teriam tido, tendo ele posteriormente coincidido com o tempo futuro; nas línguas eslavas, os ditongos oi e ei tornaram-se ē e ī — processo semelhante teria ocorrido também nas línguas bálticas, onde os ditongos oi e ei se tornaram ie, etc. O ponto fraco da argumentação de J. Otremski é considerar que fenómenos de diferentes épocas cronológicas ocorreram ao mesmo tempo — tanto a fusão das vogais longas ō e ā, como a reflexação das sonantes silábicas indo-europeias, a monoftongação dos ditongos oi e ei, a assibilação das consoantes velares palatais indo-europeias e o recuo do acento segundo a lei de Saussure-Fortunatov (sobre alguns deles, ver mais detalhadamente na segunda parte deste trabalho). Além disso, analisa os fenómenos das línguas bálticas e eslavas sem os relacionar com fenómenos semelhantes de outras línguas indo-europeias. Por exemplo, a transformação do grupo tt em st não pode ser considerada um fenómeno característico das línguas bálticas e eslavas e, portanto, um argumento a favor da unidade linguística balto-eslava, pois esse fenómeno também é conhecido noutras línguas indo-europeias (iranianas e gregas). Uma vez que o grupo tt se transformou em st bastante tarde (já depois de se terem constituído grupos linguísticos indo-europeus distintos) e, por isso, de forma independente nas línguas iranianas e gregas, também poderia ter mudado de forma independente nas línguas bálticas e eslavas.
Para demonstrar a identidade completa da flexão nominal das línguas bálticas e eslavas, J. Otremski reconstrói o paradigma do numeral «três» nas línguas bálticas e eslavas, mas não presta atenção ao facto de que quase exatamente as mesmas terminações casuais se encontram noutras línguas indo-europeias — germânicas, no indiano antigo, etc.
A. Vaian, fervoroso defensor da teoria da unidade linguística balto-eslava, assinalou repetidamente que se deve imaginar a língua balto-eslava como constituída por dialetos; segundo J. Otremski, porém, as línguas bálticas e eslavas derivaram de uma única língua, que se separou do grupo linguístico indo-europeu e só mais tarde se dividiu em dialetos.
Alfredas Zenas opôs-se categoricamente à teoria da unidade linguística balto-eslava defendida por A. Vaian, J. Otremski e outros28. Ele considera29 que os antigos bálticos (Urb alten) viviam a norte dos pântanos de Pripet (Pripet- oder Rokitno-Sümpfe). A oeste, norte e leste, as tribos dos antigos bálticos eram rodeadas por ugro-finlandeses, enquanto a sudoeste os seus vizinhos imediatos eram os antigos germanos (Urgermanen). Os pântanos intransponíveis de Pripet separavam os bálticos dos eslavos, dificultavam o seu contacto e isolavam definitivamente os bálticos e a sua língua. A. Zenas escreve que, devido à intransitabilidade dos pântanos de Pripet, não poderiam ter existido quaisquer contactos diretos entre bálticos e eslavos30.
Os assentamentos bálticos a norte de Pripet não eram originários, afirma ainda A. Zenas. Os protobaltos (Vorb alten) viviam a oeste ou a sudoeste dos pântanos de Pripet, onde tinham como vizinhos os eslavos, os germanos e, possivelmente, os ilírios. Aí formaram uma unidade de caráter estatal (staatliche Einheit), mas não uma protolíngua ilírio-germano-eslava-báltica (Ursprache). Para que se constituísse a formação linguística independente dos bálticos, ou seja, a sua comunidade linguística (Urbaltisch), era necessário que mudassem os seus vizinhos — os proto-eslavos
26 W. Porzig, Die Gliederung des indogermanischen Sprachgebiets, Heidelberg, 1954, p. 76–78.
27 Я. С. О тр ембский, ВЯ, 6, р. 28–29.
28 A. Senn, On the Degree of Kinship between Slavic and Baltic, „The Slavonic and East European Review“, 20, 1941, p. 251–265; Die Beziehungen des Baltischen zum Slavischen und Germanischen, KZ, 71, 1954, p. 162–188.
29 A. Senn, Die Beziehungen des Baltischen zum Slavischen und Germanischen, p. 162–188.
30 A. Senn, op. cit., p. 164.
3. Baltų ir slavų kalbų ryšiai
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e as protogermânicas (Vorslaven und Vorgermanen) — línguas, enquanto a própria língua protobalta ainda poderia ter permanecido «protoindo-europeia» («urindogermanisch»).
A. Zenas considera que os bálticos e os eslavos só entraram em contato após a expansão dos eslavos para o norte: os bálticos orientais, com os eslavos orientais, e os prussianos, com os eslavos ocidentais.
A. Zenas aponta as seguintes características comuns às línguas bálticas e eslavas: a) desaparecimento do į pós-consonântico antes das vogais anteriores; b) passagem dos particípios em nt para o tema em io; c) desinência -mus do dativo plural; d) formas do pronome pessoal da primeira pessoa do singular com *mur; e) genitivo plural da primeira pessoa dos pronomes pessoais *nō(s)sōm31.
Todas as características comuns às línguas bálticas e eslavas, segundo A. Zenas, são ou arcaísmos herdados da época indo-europeia, ou inovações surgidas independentemente em cada grupo linguístico.
No artigo «As relações das línguas bálticas com as línguas eslavas e germânicas», parece que A. Zenas adere à teoria do paralelismo. No entanto, num artigo posterior, «As relações entre os bálticos e os eslavos32», A. Zenas afirma não ser partidário da teoria do paralelismo de A. Meillet e acrescenta que não acredita numa evolução paralela de duas línguas vizinhas cujos falantes viveram em estreita simbiose durante mais de mil anos. Na opinião de A. Zenas, as numerosas correspondências e semelhanças entre as línguas bálticas e eslavas refletem o fato de que, no passado, os russos e os poloneses exerceram influência política e cultural sobre os lituanos e os letões.
Ao contrário de J. Otrębski e A. Zenas, Walther Porzig abordou as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas a partir de uma perspectiva metodológica inteiramente diferente. No livro «A desagregação da área linguística indo-europeia»33, as conclusões do autor sobre a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas são especialmente importantes, não apenas porque a comparação das relações entre essas línguas com as relações entre outros grupos de línguas indo-europeias (por exemplo, indo-iranianas ou céltico-itálicas) permite compreender melhor em que consistem essas relações mais antigas e qual teoria explica melhor sua origem. Essas conclusões são particularmente importantes também porque, para caracterizar as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, W. Porzig emprega um método completamente diferente. Ele escreve: «Nosso conhecimento permite concluir que os dois grupos linguísticos foram vizinhos durante todo o tempo. Disso resultaram muitas inovações próprias apenas a eles, quase todas lexicais e de formação de palavras. Ao que parece, as línguas bálticas e eslavas não apresentam inovações fonéticas nem flexionais. É possível que já fossem vizinhas as áreas dialetais das quais as línguas bálticas e eslavas herdaram grande parte de seus sistemas. Há poucos dados diretos que comprovem isso. A reflexação dos soantes silábicos nas línguas bálticas e eslavas, ocorrida já nas línguas separadas, é idêntica, mas, por si só, não tem qualquer força probatória. Nossa hipótese de que as áreas originárias eram vizinhas seria confirmada ou refutada se os dois grupos linguísticos apresentassem, em relação a outras línguas, uma relação idêntica ou frequentemente diferente»34.
A citação mostra que, para caracterizar as relações entre as áreas dos dialetos bálticos e eslavos originários, ou seja, as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, V. Porzig rejeita o argumento tradicional baseado nas características comuns e nas diferenças entre essas línguas: essas línguas
31 A. Senn, op. cit., p. 185.
32 A. Senn, The Relationships of Baltic and Slavic, „Ancient Indo-European Dialects“, Berkeley and Los Angeles, 1966, p. 139–151.
33 W. Porzig, Die Gliederung des indogermanischen Sprachgebiets, Heidelberg, 1954.
34 W. Porzig, op. cit., p. 140.
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As inovações, em sua opinião, surgiram em consequência da longa vizinhança entre as línguas bálticas e eslavas. Por isso, V. Porzig, para caracterizar melhor as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, compara-as com as relações entre outros grupos linguísticos indo-europeus. Depois de examinar as relações entre as línguas bálticas e eslavas, de um lado, e as línguas indo-iranianas, de outro, e de constatar que a área dessas línguas é circundada por vinte e uma isoglossas, V. Porzig chegou à seguinte conclusão: a relação entre as línguas indo-iranianas e bálticas é quase equivalente à relação entre as línguas indo-iranianas e eslavas; portanto, na primeira metade do segundo milênio a.C., os vínculos entre as línguas bálticas e eslavas devem ter sido estreitos35.
A perspectiva de Antanas Salys também se aproxima da de V. Porzig. A. Salys escreve: «A semelhança evidente e reconhecida por todos entre os dois grupos linguísticos explica-se facilmente pelo fato de terem surgido de dois dialetos indo-europeus vizinhos, que mantiveram contatos ainda durante a fase final da desintegração da unidade linguística indo-europeia. A migração dos proto-bálticos (pre-Balts) para o norte, por volta de 2000 a.C., interrompeu os contatos com os proto-eslavos (pre-Slavs), e, por essa razão, os dois grupos linguísticos começaram a desenvolver-se de forma independente. Em consequência da expansão eslava, novos contatos se estabeleceram no norte por volta do século VI d.C. e, um pouco antes, no sul»36.
Manus Loiman escreve sobre os vínculos muito estreitos entre as línguas bálticas e eslavas. Em seu artigo «As línguas bálticas e eslavas»37, assinalou, antes de tudo, que a teoria da unidade linguística báltico-eslava (die baltoslavische Theorie) tornou-se alvo de uma controvérsia fundamental: discute-se os princípios com base nos quais devem ser interpretadas as características comuns das línguas bálticas e eslavas. Em seguida, após enumerar várias características comuns às línguas bálticas e eslavas, o autor dedicou a maior parte do artigo à análise das relações entre os sistemas verbais dessas línguas. M. Loiman afirma que o pretérito báltico em -ā, -ē é essencialmente semelhante ao aoristo temático e sigmático eslavo. Em sua opinião, as características verbais comuns apresentadas são, sem exceção, inovações antigas, que demonstram uma estreita relação entre as línguas bálticas e eslavas.
Com base nessas inovações, M. Loiman considera que, após a dissolução da comunidade linguística indo-europeia, as línguas bálticas e eslavas eram unidas por um conjunto considerável de isoglossas, que distinguia esses dois grupos linguísticos das demais línguas. Por isso, em sua opinião, a etapa ancestral comum báltico-eslava, do mesmo tipo que a indo-iraniana, é a única interpretação adequada desse conjunto de isoglossas38.
M. Loiman fundamentou a tese da unidade linguística báltico-eslava nas características comuns dos sistemas verbais, enquanto J. Kurylowicz o fez sobretudo nas relações prosódicas.
Ježas Kurilovičius considera os seguintes fenômenos os principais argumentos a favor da teoria da unidade linguística báltico-eslava39: a) a substituição da apofonia «grau pleno: grau zero»; b) dois tipos de oposições eR: iR, eR: uR (em que R designa uma sonante
35 W. Porzig, op. cit., p. 169.
36 A. Salys, Baltic Languages, „Encyclopaedia Britannica“, 3, 1964, p. 53.
37 M. Leumann, Baltisch und Slavisch, „Corolla linguistica, Festschrift F. Sommer“, Wiesbaden, 1955, p. 154–162.
38 M. Leumann, op. cit., p. 162.
39 J. Kuryłowicz, Unidade linguística balto-eslava, „Słownik starożytności słowiańskich (Zeszyt próbny)“, Warszawa, 1934, p. 4–7; A apofonia em indo-europeu, Wrocław, 1956, p. 209–243, 286–308; A acentuação das línguas indo-europeias, Wrocław–Kraków, II leid., 1958, p. 162–356; Sobre a unidade linguística balto-eslava, BPTJ, 16, 1957, p. 71–113; О балто-славянском языковом единстве, ВСЯ, 3, 1958, p. 15–49.
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o surgimento de l, r, m, n); c) alterações quantitativas (surgimento de novas quantidades); d) alterações no acento e nas entonações.
J. Kurilowicz considera especialmente importante inovação as entonações das línguas bálticas e eslavas, que ele chama de traço essencial e mais característico dessas línguas40. Em sua opinião, o sistema de entonações do grego e o das línguas bálticas e eslavas formaram-se independentemente um do outro e, por isso, não podem ser considerados herdados da comunidade linguística indo-europeia. Kurilowicz acredita que as entonações das sílabas finais do grego surgiram já em tempos históricos, enquanto o acento agudo das línguas bálticas e eslavas é resultado do recuo do acento para uma sílaba longa.
Orientando-se por princípios prosódicos, J. Kurilowicz periodiza assim a história das línguas bálticas e eslavas:
1) época balto-eslava (desde o surgimento das entonações);
2) época da língua lituana (desde a atuação da lei de de Saussure);
3) época eslava comum (desde o enfraquecimento dos jers e o surgimento do neoagudo)41.
Assim como M. Loiman ou J. Kurilowicz, Peter Arumaa também adere firmemente à teoria da unidade linguística balto-eslava. Para fundamentar essa teoria, procura apresentar novos fatos. Em um artigo dedicado à análise de derivados com o elemento b(h)42, P. Arumaa constatou, lamentando-o, que as relações de formação de palavras entre as línguas bálticas e eslavas foram muito pouco estudadas, e que os sufixos tendem geralmente a endurecer, oferecendo assim terreno fértil para o surgimento de diferenças entre as línguas. Ainda assim, em sua opinião, na derivação das línguas bálticas e eslavas «encontram-se coincidências extraordinárias a cada passo»43. P. Arumaa considera o alongamento das vogais breves, especialmente i e u, e o uso frequente das vogais longas ū e ī, assim como o sistema de entonações, fatos muito importantes para resolver a questão da unidade linguística balto-eslava44.
No primeiro volume da «Gramática do protoslavônico», publicado em 196445, P. Arumaa afirma que as línguas bálticas e eslavas se originaram de uma área relativamente unificada da comunidade linguística indo-europeia, pois, em comparação com outras línguas indo-europeias, possuem um número muito elevado de isoglossas comuns. Após a dissolução da comunidade linguística indo-europeia, as línguas bálticas e eslavas formaram uma unidade linguística (sprachliche Einheit), que possivelmente se dividiu em dois dialetos principais. Na opinião de P. Arumaa, as línguas bálticas e eslavas podem ter sido, em tempos remotos, tão próximas quanto as línguas indo-iranianas. Essa tese seria difícil de fundamentar porque os monumentos escritos das línguas bálticas e eslavas surgiram muito tarde, um milênio e meio a dois milênios depois dos monumentos das línguas indo-iranianas. As numerosas pesquisas posteriores (P. Arumaa refere-se aos trabalhos publicados após a discussão de 1908–1912) demonstram a teoria da unidade balto-eslava como um fato comprovado46. Em seguida, P. Arumaa observa que não há dados que nos permitam determinar a época da unidade balto-eslava. Ainda assim, tende a acreditar que, no século IV a.C., a unidade balto-eslava (na formulação de P. Arumaa, a língua) já se havia desfeito.
40 J. Kuryłowicz, L’accentuation des langues indo-européennes, p. 163.
41 J. Kuryłowicz, op. cit., p. 163.
42 P. Arumaa, Die Verwandtschaftsverhältnisse zwischen Baltisch und Slavisch, ZfsIPh, 24, 1955, p. 9–28.
43 P. Arumaa, op. cit., p. 28.
44 P. Arumaa, De l’unité balto-slave, „Scando-Slavica“, 9, 1963, p. 86.
45 P. Arumaa, Urslavische Grammatik (Einführung in das vergleichende Studium der slavischen Sprachen), I. Band (Einleitung·Lautlehre), Heidelberg, 1964.
46 P. Arumaa, op. cit., p. 19–20.
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Osvaldas Semerenjis também considera que, na Antiguidade, existiu um período de língua comum báltico-eslava (a period of common language). Em seu extenso artigo «O problema da unidade báltico-eslava — uma análise crítica»⁴⁷, depois de examinar numerosas correspondências entre as línguas bálticas e eslavas e de constatar o caráter arcaico de algumas delas (por exemplo, o sufixo dos particípios passivos do presente *-mo-, cf. lituano neša-mas, eslavo antigo neso-mъ e hitita ašima-, «amado»), concluiu que as seguintes correspondências devem ser consideradas inovações das línguas bálticas e eslavas: 1) palatalização; 2) aparecimento da vogal i e, após consoantes velares, de u antes de l, m, n, r indo-europeus; 3) transformação do s indo-europeu em š após k, r, i e u; 4) inovações de acento; 5) adjetivos pronominais; 6) declinação dos particípios em jo; 7) desinência do genitivo singular dos substantivos de tema em o *-ā(t); 8) novos sufixos de graus do adjetivo; 9) raiz *men- (*mun-) dos pronomes pessoais de primeira pessoa do singular e genitivo do plural *nōsōm; 10) pronomes *tos/*tā em lugar do indo-europeu *so/*sā; 11) paradigma do presente *dōmi, *dōsi, *dōst-, *dōdṇ-; 12) temas do passado em -ē e -ā; 13) verbos com lituano -āuju = eslavo antigo -uja; 14) vocabulário comum⁴⁸.
Na opinião de O. Semerenjis, essas principais inovações das línguas bálticas e eslavas não podem ser explicadas pelo acaso nem por um desenvolvimento paralelo. Portanto, elas indicam que bálticos e eslavos compartilharam um período comum de língua e de vida⁴⁹.
É preciso acrescentar, porém, que algumas das correspondências entre as línguas bálticas e eslavas mencionadas por O. Semerenjis aparentemente não podem ser consideradas inovações. Por exemplo, o gótico também apresenta declinação dos particípios em jo; o s indo-europeu transformou-se em š também nas línguas indo-iranianas e, além disso, há indícios de que esse processo ocorreu independentemente em cada grupo linguístico (ver p. 81 e seguintes deste trabalho); as línguas germânicas ocidentais também substituíram o pronome indo-europeu *so/*sā (cf. saxão antigo thē, thia e alto-alemão antigo der, diu); e as línguas itálicas também possuem temas do passado em -ē e -ā (cf. latim dice-bam, amā-bam)⁵⁰.
A palatalização das consoantes aparentemente não é um fenômeno muito antigo, que remonte ao período proto-báltico. A oposição, por exemplo, p – pʹ (cf. taupau – taupʹau), provavelmente surgiu quando j desapareceu, já no território da língua lituana, pois em letão sua realização fonética era diferente: letão p – pl e p – pj. A afirmação de que a palatalização das consoantes é um fenômeno recente também é sustentada pelo desenvolvimento distinto do grupo báltico sj; cf. lituano siūti, letão šūt e prussiano schuwikis (= lituano siuvikis). Assim, pode-se supor que a comunidade linguística báltica tinha grupos consonantais intactos com j.
As demais correspondências entre essas línguas mencionadas por O. Semerenjis tampouco demonstram uma unidade linguística báltico-eslava. O surgimento da raiz pronominal *mun- é demasiado obscuro⁵¹ para que possa ser considerado uma inovação das línguas bálticas e eslavas, surgida durante a comunidade linguística báltico-eslava—
⁴⁷ O. Szemerényi, The Problem of Balto-Slav Unity—A Critical Survey, „Kratylos“, 2, 1957, p. 97—123. O artigo publicado por ele em 1948, „Sur l’unité linguistique balto-slave“ (Études slaves et roumaines, I, 1948), não estava acessível ao autor deste trabalho.
⁴⁸ Para uma caracterização mais detalhada de algumas dessas correspondências, ver a segunda parte do trabalho.
⁴⁹ O. Szemerényi, op. cit., p. 120.
⁵⁰ Os temas do passado em -ē e -ā podem ser arcaísmos; ver A. Vaillant, L’origine des présents thématiques en -e/o-, BSL, 38, 1937, p. 96.
⁵¹ O pronome munie pode ter surgido foneticamente no dialeto žemaitiano, pois aqui a (báltico o) entre m e n transforma-se em u; cf. žem. nūmas, kāmunos, kamunė em lugar de lk. namas, kamanos, kamanė, — K. Būga, RR, II, p. 282; P. Jonikas, Pagramančio tarmė, Kaunas, 1939, p. 59; J. Aleksandravičius, Kretingos tarmės įvardis, „Kalbotyra“, 10, 1964, p. 121; Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, Vilnius, 1966, p. 299.
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durante o período. o-A flexão do genitivo singular dos nomes de tema em -ā mostra que havia relações estreitas apenas entre as línguas bálticas orientais e as eslavas, pois o prussiano parece ter conservado aqui a antiga terminação -as (cf. hitita antuhšāš «do homem»). A opinião de A. Vaillant52, apoiada por O. Semerenji, segundo a qual a terminação prussiana -as teria surgido do antigo *-ā (lituano -o, latim -a), ao qual se acrescentou -s por analogia com o nominativo, é excessivamente hipotética e, portanto, dificilmente pode servir de base para qualquer argumento.
A argumentação de O. Semerenji, tal como a de outros defensores da teoria da unidade linguística balto-eslava, caracteriza-se pela tendência a procurar identidade em cada fato ou fenômeno dessas línguas, ainda que sejam diferentes. Por exemplo, Semerenji deriva o sufixo eslavo *-dlo-, presente nos nomina instrumenti, de *-tlo (e não de indo-europeu *-dhlo-, como fazem todos os pesquisadores), provavelmente porque também ocorre nas línguas bálticas (lituano -kla-s). No entanto, nas línguas eslavas a consoante t não se tornou d.
O linguista búlgaro Vladimir Georgiev também é defensor da teoria da unidade linguística balto-eslava.
V. Georgiev53 levantou a questão de um critério que permitisse determinar o grau de proximidade entre grupos linguísticos. Ele indica que tal critério poderia ser fornecido pela unidade linguística indo-iraniana, cuja existência é indubitável e sobre a qual permitem tirar conclusões os dados dos mais antigos monumentos escritos dessas línguas. Na ausência de monumentos das antigas línguas indo-iranianas (as passagens mais antigas do Rigveda datam do final do II milênio a.C., e o Avesta, no máximo, do século VIII a.C.), dificilmente seria possível, na opinião de V. Georgiev, estabelecer o parentesco estreito entre esses dois grupos linguísticos e, assim, chegar à conclusão de que outrora existiu uma unidade linguística indo-iraniana, pois as línguas indianas e iranianas atuais sofreram profundas mudanças. Os monumentos escritos das línguas eslavas, prossegue ele, só começaram a aparecer a partir dos séculos IX–X, e os do lituano, apenas em meados do século XVI; portanto, os dados das línguas eslavas foram registrados quase 2.000 anos depois, e os do lituano, 2.500 anos depois dos indo-iranianos. Ainda assim, a proximidade entre as línguas bálticas e eslavas seria evidente, ao passo que seria muito mais difícil perceber tal proximidade entre as línguas indianas e iranianas dos séculos X–XV. Por isso, V. Georgiev está convencido de que «as línguas bálticas e eslavas outrora formaram uma unidade que durou um longo período e que provavelmente se desfez mais tarde do que a unidade indo-iraniana»54.
Considerando que a proximidade entre as morfologias das línguas bálticas e eslavas é de tal grau que a morfologia proto-eslava é quase idêntica à morfologia lituana, V. Georgiev considera essa proximidade morfológica o argumento mais importante em favor da unidade linguística balto-eslava: morfemas flexionais idênticos (a flexão nominal e verbal) não podem ser emprestados (precisamente: emprestados!) nem surgir em consequência da aproximação entre línguas — devem ter sido herdados de uma unidade linguística que existiu outrora55.
V. Georgiev propõe as seguintes etapas da evolução das relações entre as línguas bálticas e eslavas: período da unidade linguística balto-eslava — III milênio a.C.; período de transição — final do III milênio a.C. e início do II milênio a.C.;
52 A. Vaillant, BSL, 44, 1948, p. 129.
53 В. Георгиев, Към въпроса за балто-славянската езикова общност, „Български език“, 8, 1958, р. 105—110; Балто-славянский, германский и индо-иранский, СФ, 1, 1958, р. 7—26; Исследования по сравнительно-историческому языкознанию, М., 1958, р. 218—238.
54 В. Георгиев, Балто-славянский, германский и индо-иранский, р. 10.
55 В. Георгиев, ор. cit. р. 11.
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período proto-eslavo — II e I milénios a. e. c.56
Como se pode ver, V. Georgijevas remonta a unidade linguística báltico-eslava a tempos muito distantes, ao III milénio a. e. c. (na sua opinião, a comunidade linguística indo-europeia teria existido até ao IV milénio a. e. c.). A este propósito, convém recordar como outros defensores da teoria da unidade datam a unidade linguística báltico-eslava.
A. Vajanas considera57 que a unidade linguística báltico-eslava se desfez por volta do início da nossa era, quando as tribos germânicas invadiram a região e separaram os bálticos dos eslavos. J. Otrembskis também sustenta uma opinião semelhante58. P. Aruma supõe59 que a unidade báltico-eslava já se tinha cindido no século IV a. e. c. T. Ler-Splavinskis60 data a desintegração da unidade linguística báltico-eslava, que denomina comunidade linguística báltico-eslava, de 1500–1300 a. e. c.
No período pós-guerra, a teoria da unidade linguística báltico-eslava também recebeu numerosas críticas.
Anglų slavistas Viljamas Metjusas (? — 1958), straipsnyje „Baltų ir slavų kalbų tarpusavio santykiai“61 trumpai apžvelgęs ir kritiškai įvertinęs baltų ir slavų kalbų seniausiųjų santykių tyrinėjimo istoriją, konstatavo, kad šių kalbų bendrybių pilniausio inventoriaus sudarymas dar nepadeda spręsti jų seniausiųjų santykių problemos: bendrybės, kaip kalbos faktai, yra izoliuotos ir todėl argumentais negali būti laikomos, nes kalba yra ne izoliuotų duomenų inventorius, bet sistema, kurioje tie duomenys yra susiję ir vienas nuo kito priklauso. V. Metjusas mano, kad baltų ir slavų kalbų seniausiųjų santykių klausimas turi būti tyrinėjamas kita kryptimi: abi kalbų grupes reikėtų ištirti kaip sistemas. Detalūs sinchroniniai, pavyzdžiui, lietuvių ir rusų kalbų struktūrų aprašai esą būtini teisingam tyrinėjimui ir, galimas daiktas, seniausiųjų santykių problemos sprendimui. Jie leistų tyrinėtojui sulyginti visas abiejų sistemų detales, ir tuo būdu būtų galima prieiti labiau pagrįstų išvadų.
Os investigadores dos problemas das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, ao elaborarem as suas teorias, baseiam-se geralmente em factos reconstruídos; no entanto, todos sabem que essas reconstruções se fundamentam, em todos os casos, na comparação de dados de línguas registados em épocas diferentes. Por exemplo, os monumentos escritos das antigas línguas indianas são muitos séculos mais antigos do que os monumentos das línguas eslavas, e estes, por sua vez, são aproximadamente meio milénio mais antigos do que os monumentos da língua lituana. Além disso, ao comparar com as línguas antigas, citam-se geralmente não as formas dos textos antigos, mas as formas do lituano atual. Comparando a língua indiana antiga com o hindi, vê-se o quanto as línguas indianas mudaram. As línguas bálticas e eslavas também poderiam ter mudado de modo semelhante, mas nada sabemos acerca dessas mudanças. As formas pré-históricas reconstruídas seriam irreais, pois não há provas de que alguma vez tenham existido.
V. Metjusas observa que o subjetivismo ocupa um lugar importante na teoria da unidade linguística báltico-eslava. Rejeita categoricamente essa teoria como anti-histórica: uma vez que os bálticos
56 B. Георгиев, op. cit., p. 14.
57 A. Vaillant, Gramática comparativa das línguas eslavas, I, p. 13—14.
58 J. Otrębski, Rozwój wzajemnych stosunków między grupą językową bałtycką a słowiańską, „Z polskich studiów slawistycznych“, Warszawa, 1958, p. 146.
59 P. Arumaa, Urslavische Grammatik, I, p. 19.
60 T. Lehr-Spławiński, Wspólnota językowa bałto-słowiańska a problem etnogenezy słowian, „Slavia Antiqua“, 4, 1954, p. 21.
61 W. K. Matthews, As inter-relações entre o báltico e o eslavo, „The Slavonic and East European Review“, 35, 1957, p. 409—427; В. К. Мэтьюс, Sobre as relações entre as línguas eslavas e bálticas, СФ, I, 1958, p. 27—44.
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e eslava é diacrônica, podemos formulá-lo como um problema de dialetologia histórica, «neutralizando» ao mesmo tempo também o seu caráter sincrônico.
A teoria da unidade linguística báltico-eslava é também rejeitada pelo linguista checo Adolf Erhart.
Ele pensa62 que a semelhança entre os sistemas morfológicos das línguas bálticas e eslavas se deveu ao caráter conservador de ambos os grupos linguísticos. A. Erhart observou que as correspondências (Übereinstimmungen) entre essas línguas são suficientes apenas para provar a vizinhança dos dialetos indo-europeus dos quais mais tarde se originaram as línguas bálticas e eslavas. Após a desintegração da comunidade linguística indo-europeia, as línguas bálticas e eslavas poderiam, na sua opinião, ter-se desenvolvido independentemente.
Contudo, assinala A. Erhart, não temos um único fato com o qual possamos refutar definitivamente a teoria da unidade linguística báltico-eslava.
Em seguida, A. Erhart descreveu brevemente as diferenças e correspondências entre as línguas bálticas e eslavas. Indicou catorze diferenças e vinte e cinco correspondências.
A. Erhart enumerou as seguintes correspondências entre as línguas bálticas e eslavas: a transformação do indo-europeu ḱ, gʰ em š, ž (eslavo s, z), como nos dialetos indo-europeus indo-iranianos, arménios e outros; a perda das consoantes aspiradas sonoras, como também em outros dialetos indo-europeus; a fusão do indo-europeu a e o, como também em outras línguas indo-europeias; a transformação do indo-europeu eu em jau; a alteração do indo-europeu s em š em certas posições, como também nas línguas indo-iranianas; a transformação do indo-europeu R em iR e uR (esta correspondência não tem valor probatório, pois não se trata de um fenômeno fonético típico); a desinência do genitivo singular dos nomes temáticos em o (A. Erhart tende aqui a reconhecer a influência eslava sobre as línguas bálticas); a desinência do instrumental singular dos nomes temáticos em ā (lituano -a < *-ān, eslavo antigo -ą, -oją; sânscrito -ā, -ayā sem m); a passagem dos temas consonantais para o tema em i, como também em latim; os adjetivos pronominais (raiz pronominal indo-europeia; cf. os dados das línguas iranianas e germânicas); o sufixo *-jo- dos particípios presentes, como também nas línguas germânicas ocidentais; o pronome *mun- (cf. hettita ammu); a formação do dativo singular dos pronomes da primeira pessoa com base na forma do genitivo singular (A. Erhart observa que se trata de um fenômeno paralelo); os genitivos plurais dos pronomes *nōssom, *vōssom; o funcionamento da raiz pronominal *i/j-o- como pronome pessoal, como nas línguas latina e germânicas; os nominativos dos pronomes demonstrativos *tos, *tā (em vez do indo-europeu *sos, *sā); os dativos (e locativos) pronominais com a desinência m (cf. lituano tāmui, tamē), como nas línguas germânicas ocidentais; o numeral «nove» (o d- do báltico oriental poderia ter surgido sob influência das línguas eslavas); os numerais lituano ašmas e eslavo antigo osmь; a formação dos numerais distributivos (cf. lituano penkeri, eslavo antigo petorъ); a formação de palavras, cf. os sufixos báltico-eslavos -ējas: -ējė; -ovas: -avъ; -lis, -lys: -lb; -uolis: alb; -ininkas: -bnikъ; -ytis: -ištъ; -tukas: -tъkъ; -tojas: -tajь; -yba: -ьba; a formação do pretérito com os sufixos *-ē, *-ā, como em latim; o sufixo de infinitivo *-ti (A. Erhart compara-o com o védico -tāye) e o sufixo dos particípios passivos presentes *-mo-, como nas línguas arménia, luvita (e, deve acrescentar-se, hitita).
Como se pode ver, entre as correspondências das línguas bálticas e eslavas A. Erhart incluiu não só inovações dessas línguas (a transformação do indo-europeu eu em jau; a passagem do indo-europeu R a iR e uR; a desinência do genitivo singular dos nomes temáticos em o; a desinência dos nomes temáticos em ā
62 A. Erhart, Zum Problem der baltisch-slavischen Spracheinheit, „Sborník prací filosofické fakulty Brněnské University“, Ročník VII, Rady jazykovědné (A), Č. 6, 1958, p. 123–130.
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a terminação instrumental do singular; o pronome *mun-; morfemas derivacionais etc.), mas também aqueles fenómenos comuns que se encontram igualmente noutras línguas indo-europeias.
A. Erhartas apontou as seguintes diferenças entre as línguas bálticas e eslavas:
1. A primeira palatalização das línguas eslavas é bastante antiga, e é perfeitamente possível que esteja relacionada com a palatalização indo-iraniana. Isso constituiria um argumento importante contra a teoria da unidade linguística balto-eslava.
2. O destino distinto do ide. ō e do ā (para mais pormenores, ver p. 61 ss. deste trabalho).
3. A declinação dos adjetivos nas línguas bálticas, tal como nas germânicas, difere da dos substantivos (terminações pronominais do dativo singular etc.).
4. O sufixo do grau comparativo dos adjetivos -esnis lembra o sufixo correspondente germânico (cf. gót. -izan).
5. Formação de palavras. Os nomina agentis das línguas eslavas formam-se com o sufixo -telb, inexistente em lituano. Os correspondentes eslavos dos sufixos lituanos -ėjas, -tojas são bastante raros. Nos sufixos diminutivos da língua lituana predomina o elemento -l-, estranho às línguas eslavas, ao passo que o elemento diminutivo -k-, muito frequente nas línguas eslavas, é raramente usado em lituano. O sufixo dos nomina instrumenti bálticos era *-tlo-, e o dos eslavos, *-dhlo. A língua lituana possui um sufixo adjetival muito produtivo, -ingas, que não existe nas línguas eslavas.
6. Alteração dos numerais primários invariáveis «cinco»–«nove»: nas línguas bálticas acrescentou-se-lhes o elemento adjetivizador jo, enquanto na língua eslava os abstratos numerais se formam com o sufixo *-ti-.
7. O modo de formação dos numerais lituanos «onze»–«dezanove» tem paralelos apenas nas línguas germânicas.
8. Alguns tipos de formação do presente (infixo nasal, tema em sta) não têm qualquer analogia nas línguas eslavas. Os verbos *ne/no, amplamente difundidos nas línguas eslavas, quase não se encontram nas línguas bálticas. Os verbos intransitivos das línguas bálticas têm o sufixo -i-, e os eslavos, -i- (<ei?).
9. Nas línguas bálticas não há quaisquer vestígios do aoristo sigmático.
10. A primeira pessoa do singular das línguas bálticas conservou a flexão ide. *-ō. A origem da terminação eslava -ą é incerta.
11. A terceira pessoa do plural das línguas bálticas não tem terminação.
12. As línguas bálticas não têm particípios com os sufixos -l- e -n-.
13. A categoria do aspeto verbal está menos bem preservada nas línguas bálticas.
14. Vocabulário.
Algumas diferenças entre as línguas bálticas e eslavas apontadas por A. Erhart podem ser muito antigas, por exemplo, a discrepância nos numerais, o aoristo sigmático e a terceira pessoa do plural. Essas diferenças dizem respeito a partes fundamentais dos sistemas das línguas bálticas e eslavas, mostrando que, no passado, as línguas bálticas e eslavas não eram idênticas. Outras diferenças (a primeira palatalização das línguas eslavas, o destino distinto das vogais indo-europeias ō e ā, os verbos de tema em sta, a desinência da primeira pessoa do singular etc.) provavelmente surgiram mais tarde. Portanto, não refletem as relações entre as línguas bálticas e eslavas após a dissolução da comunidade linguística indo-europeia. Assim, A. Erhart apontou diferenças importantes e antigas entre as línguas bálticas e eslavas.
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Samuel Bernstein, um dos defensores mais consistentes da teoria da convergência, também levantou a questão de por que não se pode reconhecer a teoria da unidade linguística báltico-eslava64. Em sua opinião:
1. Muitos dos processos mais antigos nas línguas bálticas e eslavas foram distintos (por exemplo, o indo-europeu o e a tornaram-se a nas línguas bálticas e o nas eslavas; as línguas bálticas conservaram a distinção entre o indo-europeu ē e ā, enquanto as eslavas a perderam; para mais detalhes, ver p. 52 e seguintes deste trabalho).
2. Muitos dos processos mais importantes do protoeslavo, ocorridos durante seu período inicial, eram totalmente ou em parte desconhecidos das línguas bálticas (por exemplo, o indo-europeu s tornou-se ch nas línguas eslavas após k, r, i, u, e š na língua lituana após k, r; para mais detalhes, ver p. 81 e seguintes deste trabalho).
3. A teoria da unidade báltico-eslava nega a antiga dicotomia do protobáltico.
4. Os defensores da teoria da unidade báltico-eslava não conseguem reconstruir o proto-báltico-eslavo; isso seria uma prova evidente da falta de fundamento dessa teoria.
5. Os dados arqueológicos não apoiam a teoria da unidade báltico-eslava. Os arqueólogos, por exemplo, J. Kostrzewski, não encontram uma cultura que possa ser considerada equivalente à unidade linguística báltico-eslava.
Com base nisso, S. Bernstein considera que nunca existiram nem uma unidade linguística báltico-eslava (uma protolíngua), nem um povo ancestral báltico-eslavo.
Em seguida, S. Bernstein observou que o fato de as línguas bálticas e eslavas serem próximas e possuírem muitas características em comum é reconhecido por todos. E não é por isso que os pesquisadores discordam. Em geral, discute-se a natureza e a origem das características comuns às línguas bálticas e eslavas. S. Bernstein considera que a grande proximidade entre as línguas bálticas e eslavas não se deve à sua origem na comunidade linguística indo-europeia, mas aos contatos duradouros estabelecidos entre elas, que teriam começado não imediatamente após a desagregação da comunidade linguística indo-europeia e terminado muito antes da nossa era. Em outras palavras, a proximidade entre as línguas bálticas e eslavas e suas características comuns teriam surgido da comunidade báltico-eslava (сообщность, Verkehrsgemeinschaft)65. A hipótese de contatos duradouros basta para explicar a origem das características comuns às línguas bálticas e eslavas.
Boris Gornung também não reconhece a unidade linguística báltico-eslava nem sua divisão dicotômica. Em sua opinião, durante a dissolução da comunidade linguística indo-europeia, a integração de tipos dialetais distintos (intensificação dos contatos, interação e fusão dos dialetos) não só acompanhou constantemente os processos de diferenciação (a cisão da unidade linguística), como muitas vezes prevaleceu; por isso, por vezes, a própria diferenciação teria sido consequência de processos integradores66.
Segundo B. Gornung, a zona «noroeste» da comunidade linguística indo-europeia dividiu-se, no final do III milênio a.C. e início do II milênio a.C., em zonas «ocidental» (proto-celta-ilíria-itálica-germânica) e «nordeste» (proto-báltica-eslava-tochariana). Depois que os prototocharianos migraram para além do Volga, a zona «nordeste» restante da comunidade linguística indo-europeia deve ser considerada a fonte comum a partir da qual, em meio à diversidade de dialetos, se formaram as comunidades linguísticas protobáltica e protoeslava.
64 S. B. Bernstein. Esboço de gramática comparativa das línguas eslavas (prospecto), КСИСл, 18, 1956, р. 3—26; Comunidade linguística balto-eslava, СФ, I, 1958, р. 45—68; Esboço de gramática comparativa das línguas eslavas, М., 1961, р. 27—37; veja também ВЯ, I, 1958, р. 48—49; «Coletânea de respostas a questões de linguística (por ocasião do IV Congresso Internacional de Eslavistas)», М., 1958, р. 167—169.
65 S. B. Bernstein, Comunidade linguística balto-eslava, р. 45.
66 B. V. Gornung, Sobre a discussão acerca da unidade linguística e étnica balto-eslava, ВЯ, 4, 1958, р. 55—62; Da pré-história da formação da unidade linguística eslava comum, М., 1963.
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O aspecto mais questionável da teoria de B. Gornung é a afirmação de que os dialetos prot prussianos, desde tempos remotos, integravam não a comunidade linguística protobalta, mas a protoslava. O caráter báltico da língua prussiana é indubitável. Não parece que esse caráter báltico fosse menor há alguns milênios do que é atualmente. As isoglossas prussiano-eslavas67 são claramente insuficientes para se chegar a tal conclusão.
Por volta do segundo quarto do II milênio a. C., os dialetos protoslavos — entre os quais, como já se mencionou, havia dialetos prot prussianos — e os dialetos protobalt os começaram a se aproximar: teve início a «época báltico-eslava»68 (B. Gornung usa o termo de J. Endzelynas). No entanto, segundo B. Gornung, ela não durou muito, pois por volta de meados do II milênio a. C. os dialetos prot prussianos se juntaram aos protobalt os (isto é, segundo B. Gornung, aos protolituano-letões), formando assim a comunidade linguística báltica69. B. Gornung considera que, a partir de então, os contatos entre bálticos e eslavos foram interrompidos por um longo período.
A posição fundamental de B. Gornung sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas lembra as concepções de J. Endzelynas, Chr. Stangas, E. Frenkelis e S. Bernšteinas.
Merece especial atenção a ideia de B. Gornung de que os vínculos genéticos (ou seja, as afinidades) entre as línguas bálticas e eslavas podem remontar a épocas cronologicamente distintas. B. Gornung os faz derivar de cinco épocas70: 1) da época da cultura das ânforas globulares; 2) da época da expansão das culturas dos machados de batalha e da cerâmica cordada; 3) da época dos contatos entre os grupos protobalt os e protoslavos e os portadores da cultura dos machados de batalha em forma de barco; 4) da época dos contatos com os protoindo-iranianos, durante a qual se formou a isoglossa satem; e 5) somente por fim, da «época báltico-eslava».
A projeção das afinidades entre as línguas bálticas e eslavas em planos cronológicos distintos é metodologicamente extremamente importante, pois os defensores da teoria da unidade das línguas bálticas e eslavas geralmente ignoram a dimensão cronológica: tendem a projetar todas as afinidades entre essas línguas em um único plano cronológico. Isso cria a impressão de que, de fato, há muitas afinidades entre as línguas bálticas e eslavas e que elas — o que é o mais importante — provêm de uma mesma época. Nesse caso, impõe-se naturalmente a ideia de uma unidade das línguas bálticas e eslavas. A análise das afinidades entre essas línguas mostra que, apesar de tudo, elas provavelmente são produto de épocas cronológicas distintas.
A revisão realizada mostra que, nos anos do pós-guerra, os linguistas de vários países que participaram das discussões sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, tal como antes, não chegaram a uma opinião unânime. Uma parte dos pesquisadores — T. Ler-Splavinskis, A. Vajanas, J. Otrembskis, M. Loimanas, J. Kurilovičius, P. Aruma, O. Semerenijis e V. Georgijevas — adere à teoria da unidade linguística báltico-eslava. Outra parte — J. Safarevičius, E. Frenkelis, A. Zenas, A. Salys, V. Porcigas, V. Metjusas, A. Erhartas, S. Bernšteinas e B. Gornungas — rejeita essa teoria e tende a explicar a proximidade entre as línguas bálticas e eslavas e suas afinidades pela comunidade dessas línguas (J. Safarevičius), pela vizinhança secular (E. Frenkelis), por relações estreitas (V. Porcigas), por contatos prolongados (S. Bernšteinas) ou pela vizinhança dos dialetos ide dos quais elas se originaram (A. Erhartas).
67 J. Endzelīns, Par prūšu valodas radniecības sakariem, FBR, 11, 1931, p. 189—193; S. Stang, Einige Bemerkungen über das Verhältnis zwischen den slavischen und baltischen Sprachen, NTS, 11, 1939, p. 85—103.
68 Б. В. Горнунг, Из предыстории образования общеславянского языкового единства, р. 96.
69 Б. В. Горнунг, op. cit., p. 106, išnaša 9.
70 Б. В. Горнунг, op. cit., p. 97.
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A questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas e o IV e o V Congresso Internacional de Eslavistas
O IV e o V Congresso Internacional de Eslavistas deram um impulso considerável ao estudo das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas. O IV Congresso de Eslavistas, realizado em Moscou de 1 a 10 de setembro de 1958, dedicou especial atenção à questão das relações genéticas entre as línguas bálticas e eslavas.
Na preparação para o congresso, o Comitê Soviético de Eslavistas publicou trinta questões para serem debatidas no congresso, abrangendo os principais problemas da linguística eslava. A vigésima questão era: «Existiu uma unidade linguística e étnica báltico-eslava e como devemos compreendê-la?»1 As respostas a essas questões foram publicadas em volume separado2.
No congresso, foram apresentados quatro trabalhos sobre a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas3. Esses trabalhos e, em geral, a própria questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas foram objeto de acalorado debate durante o congresso4.
À pergunta «Existiu uma unidade linguística e étnica báltico-eslava e como devemos compreendê-la?» responderam K. Janaček, V. Kiparsky, V. Ernits, E. Dikenman, L. Bulakhovsky, I. Lekov e outros.
K. Janaček observou5 que dois obstáculos principais impedem uma resposta afirmativa a essa pergunta: 1) os testemunhos das línguas bálticas e eslavas surgiram muito tarde; 2) não sabemos quais línguas indo-europeias podem ser consideradas línguas da protolíngua indo-europeia, nem de que modo distinguir o período báltico-eslavo do período da protolíngua indo-europeia.
V. Kiparsky expressou a convicção de que existiu uma unidade linguística báltico-eslava6. Em sua opinião, caso contrário, não seria possível explicar os numerosos neologismos lexicais do chamado vocabulário fundamental. V. Kiparsky tende a associar o complexo étnico báltico-eslavo aos neurianos de Heródoto.
V. Ernits, assim como V. Kiparsky, reconhece a unidade báltico-eslava. Ele indicou7 que os báltico-eslavos, depois de se separarem dos demais representantes do grupo satem, ainda mantiveram sua unidade por certo período. Mais tarde, com o crescimento da população, a expansão do território e o surgimento de traços dialetais, começaram a se delinear as diferenças linguísticas e territoriais entre os bálticos e os eslavos
1 ВЯ, 1, 1958, p. 36.
2 Сборник ответов на вопросы по языкознанию (К IV Международному съезду славистов), М., 1958.
3 R. Trost, «A situação atual da questão das relações linguísticas e étnicas báltico-eslavas»; V. Ivanov e V. Toporov, «Como abordar a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas»; J. Otrębski, «O desenvolvimento das relações entre os grupos linguísticos báltico e eslavo»; e V. Mažiulis, «Sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas»; ver IV Международный съезд славистов (Материалы дискуссий), II, М., 1962, p. 422—426.
4 Além dos relatores, falaram sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas T. Ler-Splavinsky (Polônia), M. Altbauer (Israel), K. O. Falk (Suécia), V. Georgiev (Bulgária), J. Czekanowski (Polônia), V. Iličiuss-Svitičius (URSS), M. Guchman (URSS), M. Vasmer (República Federal da Alemanha), V. Machek (Tchecoslováquia), E. Seidel (República Democrática Alemã), A. Vraciu (Romênia), B. Gornung (URSS), B. Larin (URSS), P. Ariste (URSS); ver IV Международный съезд славистов (Материалы дискуссий), II, p. 429—450.
5 Сборник ответов на вопросы по языкознанию (К IV Международному съезду славистов), p. 162—166.
6 Op. cit., p. 170—171.
7 Op. cit., p. 173—174.
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diferenças. Mas os contactos continuaram a ser mantidos. Por isso, as mudanças linguísticas surgidas num grupo podiam facilmente estender-se também ao outro. Tudo isso, na opinião de V. Ernits, deve ter ocorrido antes dos contactos entre os bálticos e os fino-úgricos do Báltico (por volta de 2000 a. C.), pois esses contactos já não se refletiam nas línguas eslavas.
E. Dikenmanas observou8 que faltam dados para responder afirmativamente à questão de saber se houve unidade étnica entre bálticos e eslavos, ao passo que a sua unidade linguística não suscita quaisquer dúvidas.
L. Bulachovskis (1888–1961), vienas stambiausių slavų akcentologijos specialistų, pabrėžė9, kad baltų kalbų kirtis iki šiol nepraradęs savo senosios morfologinės funkcijos (šokinėjimo paradigmoje). Tačiau to negalima esą pasakyti apie slavų kalbas. Svarbiausias baltų ir slavų kalbų ypatingo artimumo įrodymas — de Sosiūro-Fortunatovo dėsnis — gali būti paralelinės abiejų kalbų grupių raidos padarinys. Hirto dėsnio veikimas baltų ir slavų kalbose apskritai kelias abejonių. Ne įtikinamesni yra ir kiti šių kalbų bendri akcentologiniai reiškiniai (pavyzdžiui, metatonija supyno formose ir pan.).
A diferença entre as línguas bálticas e as eslavas é tão evidente que não exige qualquer demonstração. São grupos linguísticos «fechados», sem quaisquer elos de transição. Não parece que, nem mesmo há mil anos, o quadro das relações entre as línguas bálticas e eslavas fosse essencialmente diferente. É possível pensar que as relações entre as línguas bálticas e eslavas existentes na Antiguidade foram definitivamente interrompidas em algum momento. Contudo, isso não impediu que as línguas bálticas e eslavas não só conservassem alguns vestígios da antiga proximidade, mas também desenvolvessem separadamente novas semelhanças.
L. Bulachovskis considera que a maioria das semelhanças entre as línguas bálticas e eslavas surgiu quando estas línguas ainda pertenciam ao dialeto satem da comunidade linguística ide., no âmbito do qual poderia ter existido a unidade linguística báltico-eslava.
J. Lekovas10 também não apoiava a teoria da unidade linguística báltico-eslava. Na sua opinião, as semelhanças entre estas línguas consistem em: 1) herança da comunidade linguística ide.; 2) fenómenos de épocas posteriores, surgidos em resultado de desenvolvimento paralelo; 3) empréstimos de diferentes períodos cronológicos. I. Lekovas chamou a atenção para o facto de que a confusão terminológica dificulta a resolução da questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, pois os investigadores utilizam termos muito variados — comunidade, unidade, época ou período comum, protolíngua, desenvolvimento paralelo, etc.
Tal como nas respostas anteriormente mencionadas, também nas comunicações do congresso não se chegou a uma opinião unânime sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas.
Na sua comunicação, P. Trostas11 salientou que o principal argumento capaz de demonstrar a unidade linguística báltico-eslava são as correspondências morfológicas específicas, isto é, traços morfológicos minuciosos semelhantes nos dois grupos linguísticos. Na sua opinião, as numerosas coincidências entre as duas línguas podem ser explicadas de duas maneiras: por relações genéticas ou por uma união linguística. Contudo, a semelhança entre os traços morfológicos minuciosos das línguas bálticas e eslavas aponta mais para relações genéticas do que para uma união linguística.
Já foi anteriormente mencionada a exigência de alguns investigadores (por exemplo, V. Metjus) de procurar novas
8 Op. cit., p. 175.
9 Op. cit., p. 157–162.
10 Op. cit., p. 172–173.
11 P. Trost, K otázce baltoslovanských jazykových vztahů, „Československé přednášky pro IV. Mezinárodní sjezd slavistů v Moskvě“, Praha, 1958, p. 221–227.
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modo, de novos métodos, pois dificilmente a elaboração de um inventário das semelhanças e diferenças dessas línguas ajuda a resolver esse problema.
Do ponto de vista metodológico, foi valiosa a comunicação de V. Ivanov e V. Toporov12, que abordou a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas sob uma perspectiva inteiramente nova. Os autores indicaram que não se pode colocar a questão de saber se existiu ou não uma protolíngua báltico-eslava. Com efeito, as pesquisas das últimas décadas mostram que o estado mais antigo dos grupos linguísticos báltico e eslavo, indo-iraniano e também itálico e céltico deve ser entendido não como uma protolíngua tradicional, mas como um contínuo dialetal no espaço e no tempo. Por essa razão, V. Ivanov e V. Toporov formulam a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas da seguinte maneira: qual é a relação entre os modelos estruturais mais antigos das línguas bálticas e eslavas?
Tendo determinado, por meio da reconstrução interna, os modelos fonológicos e morfológicos mais antigos, separadamente para as línguas bálticas e eslavas, e comparando-os, V. Ivanov e V. Toporov chegaram à conclusão de que os modelos estruturais mais antigos das línguas bálticas e eslavas coincidem e diferem essencialmente do modelo indo-europeu. Além disso, os modelos das línguas bálticas e eslavas não podem, ao que parece, ser situados num mesmo plano cronológico: o modelo das línguas eslavas surgiu mais tarde e seria resultado de uma transformação do modelo estrutural das línguas bálticas13. V. Toporov caracterizou assim a essência desta solução para o problema das relações genéticas entre as línguas bálticas e eslavas: a protolíngua eslava formou-se a partir de dialetos periféricos do tipo báltico14.
A hipótese de V. Ivanov e V. Toporov harmoniza-se bem com a regularidade espaço-temporal dos fatos linguísticos observada na vida real das línguas: as línguas que apresentam pouca diferenciação dialetal e ocupam um território vasto surgem mais tarde e difundem-se posteriormente por esse território. As línguas eslavas são precisamente desse tipo. As línguas bálticas, pelo contrário, ocupam um território pequeno e estão fortemente fragmentadas em dialetos. Uma boa analogia para a relação entre as línguas eslavas e bálticas é a língua inglesa, difundida por vários continentes, e as línguas germânicas ocidentais da Europa, muito diferenciadas dialetalmente.
Na sua comunicação15, J. Otrebski salientou que os bálticos e os eslavos falaram outrora uma só língua. Na opinião de J. Otrebski, a unidade linguística báltico-eslava (łączność bałtycko-słowiańska), herdeira da comunidade linguística indo-europeia, desagregou-se muito tardiamente, por volta do início da nossa era. A causa da desagregação teria sido o fato de parte dos bálticos, ou dos báltico-eslavos, ter começado a falar línguas fino-úgricas e ter-se tornado fino-úgrica.
V. Mažiulis16 deteve-se sobretudo na origem dos temas de presente do lituano duomi, demi, eslavo antigo damь. O autor, com base nos dados da língua hitita, deriva essas formas atemáticas de formas protoindo-europeias não reduplicadas. O elemento -d- da terceira pessoa do plural-
12 В. В. Иванов и В. Н. Топоров, К постановке вопроса о древнейших отношениях балтийских и славянских языков, М., 1958.
13 В. В. Иванов и В. Н. Топоров, op. cit., p. 39.
14 В. Н. Топоров, К проблеме балто-славянских языковых отношений, КСИСл., 33—34, 1961, p. 213.
15 J. Otrębski, Rozwój wzajemnych stosunków między grupą językową bałtycką a słowiańską, p. 146—148.
16 В. Мажюлис, Заметки к вопросу о древнейших отношениях балтийских и славянских языков, Вильнюс, 1958. Para a versão lituana da comunicação, ver Pastabos baltų ir slavų kalbų seniausių santykių klausimu, LKK, 2, 1959, p. 5—16.
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poderia ter surgido nessa pessoa, na opinião de V. Mažiulis, já em consequência dos sistemas conjugacionais báltico e eslavo que se haviam formado.
À medida que a língua muda, os numerais costumam ser os elementos mais estáveis. Por isso, têm grande importância no estudo das relações de parentesco entre as línguas. Nesse sentido, são interessantes as conclusões a que chegou V. Mažiulis ao estudar o sistema numeral báltico17: «Em geral, o sistema derivacional e morfológico dos numerais bálticos é, em muitos casos, semelhante ao eslavo. No entanto, é preciso observar que os numerais bálticos mais antigos, isto é, os pan-indo-europeus, são relíquias diretas da língua protoindo-europeia, enquanto os numerais posteriores, isto é, os não pan-indo-europeus, são, por sua vez, semelhantes aos numerais eslavos, bem como aos das línguas germânicas e de algumas outras línguas indo-europeias»18. As pesquisas de V. Mažiulis mostram que a maioria das características comuns dos sistemas numerais das línguas bálticas e eslavas foi herdada da comunidade linguística indo-europeia.
Nos trabalhos do IV Congresso Internacional de Eslavística, dedicados ao problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, bem como nos debates sobre essa questão, foram defendidas duas teorias: a teoria da unidade linguística báltico-eslava e a teoria do desenvolvimento convergente das línguas bálticas e eslavas. Tal como anteriormente, os partidários da teoria da unidade linguística báltico-eslava enfatizaram as inovações das línguas bálticas e eslavas, enquanto os representantes da teoria do desenvolvimento convergente dessas línguas, sem negar tais inovações, destacaram também as suas diferenças arcaicas, igualmente numerosas. É evidente que, com base em semelhanças (inovações) e diferenças cuja cronologia é desconhecida, dificilmente se poderá resolver o problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas. O debate do congresso mostrou que, para resolver esse problema, é necessário recorrer a um conjunto de métodos linguísticos variados, no qual deveriam ocupar lugar importante as relações das línguas bálticas e eslavas com outras línguas e grupos linguísticos; os empréstimos das línguas bálticas e eslavas, provenientes de outras línguas e incorporados por outras línguas; a etnonímia e a toponímia; os termos paisagísticos (biológicos e geográficos) etc. A solução desses problemas extralinguísticos, juntamente com uma análise estrutural mais aprofundada dos fenômenos das línguas bálticas e eslavas, permitirá chegar a determinadas conclusões de caráter geográfico e cronológico e dizer se os dialetos bálticos e eslavos existiram juntos ou separadamente19.
É natural que, no desenvolvimento da ciência, após pesquisas febris e intensas, venha um período de calmaria. Essa calmaria começou de fato depois do IV Congresso Internacional de Eslavística.
Por exemplo, além do resumo do esboço de T. Ler-Splavinskio sobre a etnogênese dos eslavos, no qual as relações genéticas entre as línguas bálticas e eslavas foram mencionadas de passagem, no V Congresso Internacional de Eslavística, realizado em Sófia de 17 a 23 de setembro de 1963, não foi apresentada nenhuma comunicação sobre o problema das relações mais antigas entre essas línguas20. É verdade que aqui também houve
17 В. Мажюлис, Литовские числительные и соотношение балтийских числительных с числительными других индоевропейских языков (рукопись), М., 1955; Индоевропейская децимальная система числительных, ВЯ, 4, 1956, р. 53—59.
18 V. Mažiulis, Pastabos baltų ir slavų kalbų seniausių santykių klausimu, p. 14.
19 В. М. Иллич-Свитыч, Балто-славянская проблематика на IV Международном съезде славистов, ВЯ, 1, 1959, р. 139—141.
20 Славянска филология, VI (отчетни материали), София, 1965.
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Falou-se sobre as relações entre as línguas bálticas e eslavas, mas sobre as tardias, do período histórico. As comunicações de V. Falkenhan, J. Otrębski, T. Zdancewicz e E. Smulkova foram dedicadas a questões dessas relações21.
O problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas nos últimos anos
Já se mencionou que, após o IV Congresso Internacional de Eslavistas, diminuiu o interesse pelo problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas. A causa disso, talvez, deva ser atribuída à complexidade do problema, à falta de fenômenos comparáveis cronologicamente diferenciados e à ausência de critérios objetivos para determinar o grau de parentesco entre as línguas.
Ainda assim, continuam a aparecer artigos isolados ou capítulos de livros que caracterizam, em linhas gerais, as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas.
A r i t o n a s V r a č i u s considera¹ que as línguas bálticas e eslavas derivam de uma área dialetal indo-europeia unificada. J a n i s L o j a considera que «as línguas bálticas e eslavas se formaram independentemente na comunidade linguística indo-europeia, mas, em consequência dos contatos duradouros e bastante intensos entre bálticos e eslavos, surgiu mais tarde em suas línguas um ou outro fenômeno comum»². Na sua opinião, não se pode falar de uma unidade linguística balto-eslava, sobretudo porque as grandes diferenças entre as próprias línguas bálticas (o prussiano, de um lado, e o lituano-letão, de outro) não permitem a J. Endzelynas reconhecer, sem reservas, uma protolíngua báltica. Fenômenos comuns às línguas bálticas e eslavas, como a influência do tema em io sobre os particípios de tema em nt, as terminações do dativo e do instrumental plural com -m- (cf. fatos correspondentes nas línguas germânicas), a passagem de temas consonantais para temas em i (cf. fatos correspondentes no latim) e os adjetivos pronominais, são considerados por J. Loja inovações surgidas de modo independente e autônomo nas línguas bálticas e eslavas. Fedot Filin³ também se opõe categoricamente à teoria da unidade linguística balto-eslava. Em sua opinião, essa teoria não tem uma base científica sólida: a argumentação dos defensores da teoria da unidade linguística balto-eslava caracteriza-se pelo apriorismo, pelo anti-historicismo e pelo tendenciosismo na seleção e interpretação dos fatos. Como exemplo desse anti-historicismo e da desconsideração da cronologia dos fenômenos, F. Filin cita a afirmação de V. Georgiev de que o lituano, caracterizado pelo conservadorismo fonético e morfológico, poderia quase substituir a protolíngua eslava, não atestada por escrito. F. Filin também discorda da posição oposta, segundo a qual as línguas bálticas e eslavas se separaram independentemente uma da outra da comunidade linguística indo-europeia e nunca houve entre elas contato mais estreito. Ele considera que, ainda no âmbito da comunidade linguística indo-europeia, formou-se um grupo de dialetos cujos falantes mantinham contatos bastante estreitos e duradouros. Dialetos aparentados, não isolados dos demais indo-europeus.
21 V. Falkenhan, «União linguística lituano-polonesa»; J. Otrębski, «A eslavização dos hidrônimos e topônimos lituanos»; T. Zdancewicz, «A influência do vocabulário lituano e russo nos arredores de Białystok»; e E. Smulkova, «Sobre o bielorrusso g ega „tитnagас“, ver J. Marvan, Vzajemné vlivy mezi slovanskými a baltskými jazyky (V. Mezinárodní sjezd slavistů v Sofii), „Slavia“ 33, 1964, p. 252–256.
1 A. V r a c i u, Problema comunității lingvistice balto-slave, „Romanoslavica“, 4, 1960, p. 87–106; ver a resenha em LKK, 6, 1963, p. 325–330.
2 J. Loja, Valodniecības vēsture, Rīga, 1961, p. 151–154.
3 Ф. М. Филин, Образование языка восточных славян, М.–Л., 1962, p. 123–130; žr. recenziją LKK, 7, 1964, p. 240–243.
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de dialetos, enriqueceram-se com inovações próprias e sofreram muitas mudanças comuns. Nesse grupo de dialetos indo-europeus estavam os antepassados das línguas proto-bálticas e proto-eslavas. Com a desagregação da comunidade linguística indo-europeia, separaram-se as línguas proto-bálticas e proto-eslavas, cujos sistemas, embora não fossem idênticos, permaneceram semelhantes até os nossos dias. Disso F. Filin conclui que os contatos entre as línguas bálticas e eslavas existiram, com pequenas interrupções, ao longo de toda a história dessas línguas.
Uma contribuição valiosa para o estudo das relações acentológicas entre as línguas bálticas e eslavas é o livro de Vladislav Illich-Svitych sobre a história dos paradigmas nominais.4 Os sistemas de paradigmas nominais dessas línguas são semelhantes. Os dados das pesquisas de V. Illich-Svitych permitem concluir que os sistemas de acentuação nominal das línguas bálticas e eslavas são uma continuação do sistema de acentuação indo-europeu. Os nomes da chamada paradigma baritônica em lituano (com exceção do grupo com vogal longa não apofônica na raiz) correspondem aos nomes da mesma paradigma em grego, nas antigas línguas indianas e nas germânicas. Da mesma forma, os nomes da paradigma de acento móvel em lituano correspondem aos nomes da paradigma oxítona das línguas mencionadas. A oposição indo-europeia «paradigma de acentuação baritônica: paradigma de acento móvel ou oxítona» foi, em essência, preservada também nas línguas eslavas.5
Portanto, a acentuação nominal das línguas bálticas e eslavas é muito próxima, e antigamente era ainda mais próxima. A proximidade da acentuação nominal das línguas bálticas e eslavas, como demonstrou a pesquisa de V. Illich-Svitych, é um arcaísmo herdado da época da comunidade linguística indo-europeia e, por isso, não indica que tenha havido uma unidade linguística balto-eslava após a desagregação dessa comunidade.
Em um novo trabalho dedicado a questões da etnogênese báltica, Vytautas Mažiulis6 chama «contatos mais antigos» os contatos entre dialetos (idiomas) aparentados que se caracterizam pelo seguinte: 1) as tribos que os mantinham compreendiam-se relativamente bem; 2) o território em que existiam esses contatos mais antigos devia ser mais ou menos limitado, dependendo da densidade populacional, pois, em um território extenso, os contatos linguísticos compactos teriam de se interromper mais cedo ou mais tarde. Com base na cultura dos machados de batalha com barcos, atribuída às tribos bálticas e que se espalhou por vastas áreas do nordeste da Europa no início do II milênio a.C., V. Mažiulis tende a considerar que foi precisamente nessa época que começou a desagregação dos contatos mais antigos entre os bálticos (ou seja, da comunidade linguística báltica). E, como, em sua opinião, a desagregação dos contatos mais antigos entre os bálticos e dos contatos mais antigos balto-eslavos começou ao mesmo tempo, ele data o início da desagregação dos contatos mais antigos balto-eslavos dos primeiros séculos do II milênio a.C. Na opinião de V. Mažiulis, quanto mais recuamos no tempo a partir do início do II milênio a.C., mais estreitos devem ter sido os contatos entre as línguas bálticas e eslavas. Ele conclui que a protolíngua eslava existiu, mas a báltica não; a protolíngua báltica (Ursprache) existiu no âmbito da unidade linguística balto-eslava (within the framework of the Balto-Slavonic „Ursprache“).7
A obra de Anatolij Nepokupno dedicada sobretudo às relações areais atuais entre as línguas bálticas e eslavas intitula-se «Relações areais entre as línguas balto-eslavas
4 В. М. Иллич-Свитыч, Именная акцентуация в балтийском и славянском (Судьба акцентуационных парадигм), М., 1963; ver a resenha em LKK, 7, 1964, p. 231–236.
5 В. М. Иллич-Свитыч, op. cit., p. 83.
6 V. Mažiulis, Linguistic Notes on Baltic Ethnogenesis, Moscow, 1964.
7 V. Mažiulis, op. cit., p. 3.
4. Baltų ir slavų kalbų ryšiai
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aspectos”8. Contudo, tanto pela própria metodologia quanto pela geografia dos fenômenos semânticos e sintáticos examinados, este livro também pode ser útil para o estudo das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas.
Georgas Ševeljovas, que abordou as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, observa9 que essas línguas possuem muitas semelhanças marcantes, mas também diferenças não menos marcantes. São sobretudo essas diferenças que dificultam determinar a época da unidade báltico-eslava (Balto-Slavic unity), caso essa unidade tenha existido alguma vez.
Na opinião de G. Ševeljovas, a comparação das mudanças sonoras fornece muitas informações importantes, especialmente quando se presta atenção à sua cronologia. G. Ševeljovas considera um fato simples que «as alterações fonéticas e fonológicas das línguas eslavas durante o primeiro dos cinco períodos da história da proto-língua eslava (aproximadamente entre 2000 e 1500 a. C.) eram comuns também às línguas bálticas, ao passo que as dos períodos posteriores já não o eram»10. Nesse período, as línguas bálticas sofreram as seguintes mudanças, assim como as eslavas: perderam as consoantes oclusivas aspiradas e labiovelares, simplificaram os grupos de consoantes e espirantes, transformaram os sonantes silábicos R em iR e uR, adquiriram duas entonações de sílabas longas — o acuto e o circunflexo — e perderam o r final. Algumas das mudanças aqui mencionadas também ocorreram em outras línguas, mas a dupla vocalização dos sonantes silábicos e o surgimento de entonações fonêmicas seriam fenômenos exclusivamente bálticos e eslavos. Portanto, não há dúvida de que, durante o primeiro período da proto-língua eslava, a evolução das línguas bálticas e eslavas foi comum.
Nos períodos posteriores da evolução da proto-língua eslava, as línguas bálticas não estiveram totalmente isoladas das eslavas, mas o vínculo era muito fraco. O grande enfraquecimento das relações entre as línguas bálticas e eslavas é indicado por duas importantes mudanças fonéticas das línguas eslavas que se refletiram apenas parcialmente nas bálticas: nas línguas bálticas, s depois de k, r, i, u não mudou para ch, como aconteceu nas línguas eslavas; nas línguas bálticas, s mudou apenas depois de k, r (veja este trabalho, p. 81 e seguintes). A segunda mudança característica das línguas eslavas — a fusão de ide. o e a — afetou apenas as vogais breves das línguas bálticas.
Assim, com base nas mudanças fonéticas, podemos, segundo G. Ševeljovas, estabelecer quatro períodos na evolução das relações de parentesco entre as línguas bálticas e eslavas: 1) período de evolução comum, por volta de 2000–1500 a. C.; 2) período de contatos enfraquecidos; os últimos séculos desse período foram os séculos VI e V a. C.; 3) período de evolução independente (period of no established contacts), aproximadamente do século V a. C. até os séculos VI–VII d. C.; 4) período de contatos entre os eslavos orientais e os letões (na região de Pskov).
É preciso dizer que o quadro das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas traçado por G. Ševeljovas é relativamente objetivo. Não há dúvida de que a vocalização dos sonantes silábicos e a formação de oposições de acento tonal são inovações das línguas bálticas e eslavas. Elas permitem supor que, nos primeiros séculos após a desintegração da comunidade linguística ide., a evolução das línguas bálticas e eslavas foi comum no sentido de que uma onda de inovação, surgida na área das línguas eslavas, pôde inundar sem impedimentos toda a área das línguas bálticas ou parte dela,
8 А. П. Непокупный, Ареальные аспекты балто-славянских языковых отношений, Киев, 1964.
9 G. Y. Shevelov, A Prehistory of Slavic, Heidelberg, 1964, p. 613—614.
10 G. Y. Shevelov, op. cit., p. 613.
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e vice-versa. Em outras palavras, elas permitem supor que as línguas bálticas e eslavas constituíam um «território isoglóssico vivo» (termo de Chr. Stang).
Após analisar a terminologia eslava dos ofícios (tecelagem, trabalho em madeira, olaria e ferraria) e compará-la com a terminologia correspondente das línguas bálticas, Oleg Trubachiov11 constatou que: 1) o léxico desse campo apresenta diferenças acentuadas entre as línguas bálticas e eslavas12; 2) os correspondentes bálticos e eslavos surgem em camadas lexicais posteriores, de formação recente, o que leva à conclusão de que a proximidade entre as línguas bálticas e eslavas nesse campo é secundária13. Resumindo os resultados de suas pesquisas, O. Trubachiov escreve: «…o próprio material aponta para a orientação dos antigos eslavos não para contatos com os bálticos, mas para contatos com indo-europeus que viviam mais a oeste, cujo intercâmbio com os eslavos, na criação da terminologia, foi tão amplo e tão importante que somos levados a reconhecer que existiu outrora uma área cultural da Europa Central, que abrangia os dialetos dos antigos germanos, itálicos e eslavos (ou parte deles), mas não os dialetos bálticos, com os quais os contatos podem ter começado mais tarde»14.
* * *
Todas as teorias formuladas até agora sobre as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas podem ser representadas graficamente da seguinte maneira, recorrendo aos esquemas de M. Weingart e N. van Wijk15:
Para determinar qual das teorias existentes merece preferência e qual deve ser considerada a mais confiável, por refletir com maior objetividade as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, é preciso examinar as principais semelhanças entre essas línguas, dando especial destaque às que são consideradas argumentos fundamentais a favor da teoria da unidade linguística báltico-eslava.
11 О. Н. Трубачев, Ремесленная терминология в славянских языках, М., 1966.
12 О. Н. Трубачев,, op. cit., p. 209.
13 О. Н. Трубачев, op. cit., p. 275.
14 О. Н. Трубачев, op. cit., p. 393.
15 Žr. N. van Wijk, Die baltischen und slavischen Akzent- und Intonationssysteme, p. 12.
4*
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CARACTERIZAÇÃO DAS PRINCIPAIS SEMELHANÇAS ENTRE AS LÍNGUAS BÁLTICAS E ESLAVAS
Ao abordar o problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, recorre-se sobretudo às semelhanças fonéticas, morfológicas e lexicais dessas línguas, que constituem, por assim dizer, a argumentação de cada teoria. Os defensores da teoria da unidade linguística báltico-eslava enfatizam especialmente as inovações das línguas bálticas e eslavas.
Na literatura linguística, são apontadas com especial frequência as seguintes semelhanças entre as línguas bálticas e eslavas: o destino comum das vogais curtas ie. o e a e do ditongo eu, reflexos comuns dos sonantes silábicos ie. R, alteração da consoante ie. s após k, r, i, u, assibilação das consoantes velares palatalizadas k’ e g’, surgimento de entonações, leis de Hirt e de Saussure-Fortunatov, formação dos sufixos *-ėjo-, *-tėjo- etc., surgimento da raiz pronominal *mun-, formação de adjetivos pronominais, flexão comum do genitivo singular dos substantivos de tema em o, origem da desinência da segunda pessoa do verbo *-sēi etc.
Os defensores da teoria da unidade linguística báltico-eslava projetam todas essas semelhanças, bem como outras, sobretudo as inovações, numa única linha cronológica. Assim, cria-se a impressão de que há muitas semelhanças entre as línguas bálticas e eslavas, especialmente inovações, e de que elas — o que é mais importante — teriam surgido numa mesma época. Daí se conclui que a unidade linguística báltico-eslava teria existido incontestavelmente. Contudo, esclarecer as condições e os pormenores do surgimento dos fenómenos e processos comuns às línguas bálticas e eslavas, bem como a sua cronologia, pode alterar consideravelmente o quadro da formação e da evolução das semelhanças entre essas línguas, sobretudo das inovações.
Por isso, impõe-se a tarefa de examinar minuciosamente as principais semelhanças entre as línguas bálticas e eslavas, sobretudo aquelas que são consideradas argumentos fundamentais da teoria da unidade linguística báltico-eslava. Neste trabalho, pelos motivos indicados no prefácio, a análise limita-se aos fenómenos fonéticos1.
Vogais curtas ie. o e a
O reflexo das vogais curtas ie. o e a nas línguas bálticas é a, enquanto nas línguas eslavas é o. Cf.: a) ie. o: lituano naktis, letão nakts, prussiano naktin (acc. sing.), eslavo eclesiástico antigo noštь (de *nakti-): latim nox noctis; lituano akis, letão acs, prussiano ackis, eslavo eclesiástico antigo oko: latim oc-ulus, grego ὄσσε (nom. du.); b) ie. a: lituano ašis, letão ass, prussiano assis, eslavo eclesiástico antigo osь: latim axis, grego ἄξων, avéstico antigo ahsa, indiano antigo ákṣaḥ; lituano marios, letão mare, prussiano mary, eslavo eclesiástico antigo morje: latim mare, gótico marei. As vogais curtas ie. o e a foram mais bem preservadas pelo latim e pelo grego. Por isso, os seus exemplos mostram claramente onde havia antigamente a vogal o e onde havia a. Ao investigar a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, é importante esclarecer qual vogal a comunidade linguística báltica e a protolíngua eslava tinham no lugar dos atuais báltico a e eslavo o. As opiniões dos investigadores divergem quanto a esta questão.
1 Para uma breve caracterização dos fenómenos acentológicos e morfológicos comuns às línguas bálticas e eslavas, ver S. Karaliūnas, Baltų ir slavų kalbų seniausiųjų santykių klausimu, „Lietuvos TSR Mokslų akademijos darbai“, Serija A, 1(20), 1966, p. 167—177; С. Каралюнас, Древнейшие отношения балтийских и славянских языков (автореферат), Вильнюс, 1967.
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M. Muchas¹, P. Krečmeris², J. Endzelynas³, J. Mikola⁴, V. Vondrakas⁵, E. Švarcas⁶, T. Ler-Splavinskis⁷, A. Vajanas⁸, J. Otrembskis⁹, K. Horālekas¹⁰, P. Aruma¹¹, V. Georgijevas¹² e outros consideravam ou ainda consideram que, tanto na comunidade linguística báltica como no proto-eslavo, as vogais breves indo-europeias o e a se transformaram em a. M. Bartolis¹³, V. Poržežinskis¹⁴, H. Jakobzonas¹⁵, F. Fortunatovas¹⁶ e outros eram de opinião que, durante a unidade linguística balto-eslava, existia a vogal ă (a com um grau reduzido de labialização), da qual mais tarde surgiram a báltico e o eslavo.
Todos esses pesquisadores eram adeptos das teorias da unidade linguística balto-eslava ou da época comum balto-eslava (J. Endzelynas), e isso provavelmente condicionou a sua visão sobre a evolução do vocalismo das línguas bálticas e eslavas: nas línguas bálticas teriam ocorrido os mesmos fenômenos que nas eslavas.
Como em todas as línguas bálticas, em lugar do indo-europeu o e a havia a, também na comunidade linguística báltica, na opinião desses pesquisadores, teria havido a. Ao concluir que antigamente existira nas línguas bálticas a vogal a, não se recorreu suficientemente aos dados das próprias línguas bálticas. Por exemplo, J. Endzelynas¹⁷ tendia a pensar que, na época balto-eslava, teria existido a vogal a por duas razões: 1) a onda de transformação do indo-europeu o em a, que abrangera a área das línguas indo-iranianas, albanesa e germânicas, teria também inundado as línguas bálticas e eslavas vizinhas; 2) em empréstimos gregos e fino-úgricos de origem eslava, em lugar da vogal o atual das línguas eslavas, haveria a. Esses empréstimos também eram considerados pelos outros pesquisadores mencionados como o principal argumento de que o proto-eslavo possuía a vogal breve a.
Já há bastante tempo também foi expressa outra opinião. K. Brugmanas¹⁸ considerava que o indo-europeu o e a se transformaram, durante a unidade linguística balto-eslava, na vogal a, que se conservou nas línguas eslavas, mas mudou para a nas línguas bálticas. No entanto, a sua opinião de que antigamente existira nas línguas bálticas
¹ M. Much, Estudos sobre filologia germânica, „Festgabe für R. Heinzel“, Halle, 1898, p. 213.
² P. Kretschmer, A representação eslava do o indo-europeu, AfslPh, 27, 1905, p. 228–240.
³ Я. Эндзелин, Славяно-балтийские этюды, p. 106–107.
⁴ J. J. Mikkola, Urslavische Grammatik, I, Heidelberg, 1913, p. 48.
⁵ W. Vondrák, Gramática eslava comparada, I, 2.ª ed., Göttingen, 1924, p. 106.
⁶ E. Schwarz, Zur Chronologie von asl. a > o, AfslPh, 41, 1927, p. 124–136.
⁷ T. Lehr-Splawiński, O pochodzeniu i praojczyźnie słowian, p. 24.
⁸ A. Vaillant, Grammaire comparée des langues slaves, I, p. 107.
⁹ Я. С. Отрембский, Славяно-балтийское языковое единство, ВЯ, 5, 1954, p. 28.
¹⁰ K. Horálek, Úvod do studia slovanských jazyků, Praha, 1962, p. 99.
¹¹ P. Arumaa, Urslavische Grammatik, I, p. 74–77.
¹² В. Георгиев, Вокалната система в развоя на славянските езици, София, 1964; Нови теории и традиционални заблуди, „Български език“, 15, 1965, p. 297–307.
¹³ M. G. Bartoli, Riflessi slavi di vocali labiali romane e romanze, greche e germaniche, „Zbornik u slavu V. Jagića“, Berlin, 1908, p. 30–60.
¹⁴ W. Porzeziński, A comunidade linguística báltico-eslava, p. 16.
¹⁵ H. Jacobsohn, Arrier und Ugrofinnen, Göttingen, 1922, p. 75.
¹⁶ F. F. Fortunatov, Lições de fonética do eslavônico antigo (eslavônico eclesiástico), Petrogrado, 1919, p. 26.
¹⁷ Я. Эндзелин, op. cit., p. 106–107.
¹⁸ K. Brugmann, Grundriss der vergleichenden Grammatik der indogermanischen Sprachen, I, 1, p. 146.
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O argumento, porém, não foi bem fundamentado. V. Tomsenas19 e H. Jakobzonas20 apoiaram suas afirmações de que antigamente existia a vogal o nas línguas bálticas em empréstimos de origem báltica nas línguas fino-úgricas, nos quais, em lugar do atual a das línguas bálticas, ocorre a vogal breve o.
Com base nos empréstimos de origem báltica nas línguas fino-bálticas, K. Būga21 considerava que, no período mais antigo dos contatos entre as línguas bálticas e fino-bálticas, os bálticos haviam conservado intacto o indo-europeu o apenas em posição átona, enquanto o acentuado haviam transformado em a.
Recentemente, tenta-se fundamentar com novos fatos a afirmação de que a comunidade linguística báltica possuía a vogal breve o. J. Kazlauskas22 considera que as sequências in, un dos dialetos alto-lituanos orientais e ẹn, ọn dos dialetos žemaitianos podem ter surgido de ẹn, ọn. Em seguida, J. Kazlauskas afirma que a transformação das sequências ẹn, ọn em ē, ō no letão e, depois (com o estabelecimento da correlação ē: ō), em ie, uo seria mais simples e compreensível. As sequências en, an não precisariam necessariamente ter resultado em ē, ō, pois também seriam possíveis as nasais ẹ, ą.
V. Mažiulis23 considera que, em palavras do tipo prussiano doalgis «dalgis», o grafema oa representa a vogal longa ō, surgida da breve o por alongamento circunflexo, que, em sua opinião, deve ser considerada comum ao báltico. A afirmação de que a comunidade linguística báltica possuía a vogal breve o talvez também seja sustentada por outros dois dados.
1. Ao investigar a evolução do vocalismo das línguas bálticas, a literatura científica já havia assinalado o princípio da polarização da evolução dos sistemas vocálicos24. Ele é claramente visível na evolução dos sistemas vocálicos dos dialetos žemaitianos. Aqui, são amplas e abertas não apenas as vogais a, e, mas também as vogais ɔ, ẹ. Que as vogais ɔ, ẹ derivam das vogais fechadas u, i é demonstrado pelas sequências um, un, im, in, nas quais as vogais u, i permaneceram em sua maioria inalteradas. O fato de que as vogais u, i conservaram sua abertura fechada em todos os demais dialetos lituanos, mas se abriram no dialeto žemaitiano, deve provavelmente ser explicado pela forte labialização das vogais longas e pelo seu grande fechamento; compare-se lituano padrão uo, ie → žemaitiano ū, ī, ọu, ẹi; lituano padrão o, ė → žemaitiano uo, ie.
Assim, o sistema de vogais longas dos dialetos žemaitianos evoluiu na direção do fechamento e da labialização, enquanto o sistema de vogais breves evoluiu, ao contrário, na direção da abertura e da deslabialização. Nesse caso, resta concluir que não apenas as vogais ɔ, ẹ, mas também as vogais a, e surgiram de vogais breves fechadas e labializadas (u, i, respectivamente o, ẹ). Considerando essa tendência de abertura das vogais breves, pode-se considerar antiga a sua articulação fechada em certas posições. Por exemplo, nas sequências dos dialetos žemaitianos, como já mencionado, um, un, im, in, as vogais u, i são sempre fechadas; em outras palavras, aqui, sob a influência das vogais nasais, elas teriam conservado seu caráter primitivo. Do mesmo modo, também se devem considerar mais antigas as vogais ɔ, ẹ das sequências žemaitianas ɔm, ɔn, ẹm, ẹn do que as a, e da sílaba aberta. Isso já havia sido discutido na literatura científica25.
Na posição do acento antigo, os dialetos dos dounininkai do norte apresentam vogais fechadas ẹ/ie, em alguns casos ditongadas devido ao grande fechamento, se na sílaba seguinte houver uma vogal fechada-
19 V. Thomsen, Beröringer mellem de finske og de baltiske (litauisk-lettiske)Sprog, Köbenhavn, 1890, p. 89.
20 H. Jacobsohn, op. cit., p. 75.
21 K. Būga, RR, I, p. 457.
22 I. Kazlauskas, Sobre o desenvolvimento do sistema vocálico comum báltico, ВЯ, 4, 1962, p. 20–24.
23 V. Mažiulis, Notas sobre o vocalismo prussiano, „Questões de teoria e história da língua (Coletânea em homenagem ao professor B. A. Larin)“, Leningrado, 1963, p. 192–193; V. Mažiulis, Remarques sur le vocalisme du vieux prussien, „Acta baltico-slavica“, 2, 1965, p. 55.
24 И. Казлаускас, op. cit., p. 21–22.
25 И. Казлаускас, op. cit., p. 23.
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As vogais u, i (breves ou longas). Diante das vogais da sílaba seguinte, exceto as demais, há aqui um e aberto. Que o caráter mais antigo da vogal e foi preservado em determinada posição é demonstrado pelo comportamento das vogais u, i. As vogais fechadas u, i permanecem inalteradas, na maior parte da área dialetal dounininkai, diante das vogais fechadas do dialeto u, ū, uo, i, ī, ie. Diante das demais vogais do dialeto, elas se abriram, tornando-se ọ, ẹ26. Se as vogais u, i preservaram seu caráter original diante das vogais fechadas, então também a vogal e poderia ter preservado seu caráter original (fechamento) nessa posição.
Assim, os fatos descritos aqui mostram que as vogais breves primárias dos dialetos žemaičių provavelmente eram o, ẹ fechados.
Nos dialetos do leste da Lituânia (os chamados rotininkai), em lugar da vogal a átona e não final da língua literária, pronuncia-se o (na transcrição dialetológica, indicado por ə e ă); cf. os exemplos de anykštėnai e kupiškėnai rotai, gražū (acc. sing.), vokaras, dorbas. Em posição átona e no fim tônico da palavra, que fonologicamente equivale a uma posição átona, há aqui a; cf. vakarai, gražūs, giria27.
Surge a questão de saber se o rotininkavimas é um fenômeno recente ou se foi herdado de tempos antigos (dito de outro modo, qual vocalismo é mais antigo: o das posições tônicas ou o das átonas).
O rotininkavimas está difundido numa área relativamente pequena entre Papilis e Ukmergė28. Como a assimilação vocálica não ocorre na parte sul da área do rotininkavimas, e, por isso, as relações sonoras são mais claras, inicialmente nos limitaremos ao exame dos sistemas vocálicos dos dialetos dessa parte. Segundo os dados de Z. Zinkevičius29, por exemplo, os sistemas vocálicos do dialeto de Anykščiai são os seguintes:
vogais breves vogais longas em posição tônica u. i. ū ī ə. ẹ. uo ie em posição átona u i u. i. a e a. e.
Antes do surgimento dos ditongos uo e ie (que, do ponto de vista sincrônico, talvez devam ser tratados como fonemas tensos), o sistema de vogais longas em posição tônica poderia ser o seguinte:
ū ī ō ē ā ē
A posição de cada fonema no sistema poderia ser caracterizada pelos seguintes traços distintivos:
os fonemas /ū/ e /ī/ — difusos (opostos aos fonemas /ō/ e /ē/) e não compactos (opostos aos fonemas /ā/ e /ē/);
26 Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, Vilnius, 1966, p. 61–62.
27 Plačiau žr. Z. Zinkevičius, op. cit., p. 50.
28 Z. Zinkevičius, op. cit., p. 50–51 ir žemėl. Nr. 6.
29 Z. Zinkevičius, op. cit., p. 50 tt.
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os fonemas /ō/ e /ē/ são não difusos (opostos aos fonemas /ū/ e /ī/) e não compactos (opostos aos fonemas /ā/ e /ē/); os fonemas /ā/ e /ē/ são compactos (opostos aos fonemas /ō/ e /ǭ/) e não difusos (opostos aos fonemas /ū/ e /ī/). Além disso, os fonemas /ū/, /ō/, /ā/ e /ī/, /ē/, /ė/, ao que parece, tinham os traços distintivos «bemolização – sustenização». Os fonemas /ū/, /ō/, /ā/ são caracterizados como bemolizados porque, no nível fonético, não só as vogais ū e ō eram fortemente labializadas, mas também ā parece ter tido certo grau de labialização (uma notação mais adequada seria ā ou mesmo ā). Que a vogal ā era labializada é demonstrado por sua labialização até o ditongo uo nos dialetos žemaitianos e em alguns dialetos aukštaitianos (na região de Zietela, Lazūnai, Ramaškonys e nas proximidades de Adutiškis e Gerdasiai, perto de Druskininkai 30). Essa ditongação, por si só, pressupõe um certo grau inicial de labialização da vogal ā. O fato de a vogal ā ser o expoente de um fonema compacto, não difuso e, além disso, bemolizado é confirmado, ao que parece, também pela representação da vogal eslava a pela vogal longa o em lituano (cf. lituano striōkas e russo antigo strachъ, polonês strach). Para a comunidade linguística dos bálticos orientais, deve-se reconstruir, provavelmente, uma vogal como a que hoje existe entre os aukštaitianos orientais (nas regiões de Dusetos, Svėdasai, Alanta e Utena) e os žemaitianos ocidentais (nas regiões de Karklė e Žardė). O caráter arcaico dessa vogal (isto é, ā) também é indicado por um fator geográfico: segundo os princípios da linguística areal, um fenômeno ou fato linguístico que existe em áreas marginais ou em áreas separadas entre si é mais antigo do que aquele fenômeno ou fato linguístico que se difundiu numa área central ou contínua<sup>31</sup>. Em outras palavras, há motivos para pensar que nos dialetos mencionados dos aukštaitianos orientais e dos žemaitianos litorâneos se conservou o antigo ā da comunidade linguística dos bálticos orientais.
Ao compararmos o sistema das vogais longas da comunidade linguística dos bálticos orientais com o sistema das vogais longas do dialeto de Anykščiai, vemos que: 1) no nível fonêmico, a posição relativa e as relações de seus elementos permaneceram as mesmas: os fonemas são caracterizados pelos mesmos traços distintivos que antes; 2) no nível fonético, seus elementos sofreram mudanças na direção de uma ligeira labialização e elevação: ō, ē→uo, ie e ā, ē→ɔ, ė.
Surge a questão de em que direção — de elevação ou de abertura — mudou o sistema das vogais breves do dialeto de Anykščiai e qual foi sua relação evolutiva com a evolução do sistema das vogais longas. Para responder a essa questão, é importante observar que nos dialetos aukštaitianos orientais (pelo menos naqueles que integram a área de rotininkavimas) formou-se uma correlação entre as vogais breves, aqui alongadas até semilongas, e as vogais longas. Numerosos fatos confirmam a existência dessa correlação. Nas proximidades de Ukmergė, neutralizaram-se não só as oposições de quantidade — longa e breve —, mas também as oposições locais (de timbre), cf. rōtas «roda»: prōtas «razão». Na parte setentrional da área de rotininkavimas, onde ocorre assimilação vocálica, tanto o e breve quanto o ē longo tiveram o mesmo destino. Antes de vogais bemolizadas e em posição final absoluta, no dialeto de Kupiškis, em lugar de e e ē da língua literária, há a, respectivamente ā, ao passo que antes de vogais sustenizadas e do j etimológico há e, respectivamente ē. Na posição após k, g, š, ž, č, j, independentemente da qualidade da sílaba seguinte, a maioria dos falantes de Kupiškis tem e, respectivamente ē; já nas proximidades de Papilys, antes de vogais bemolizadas e em posição final absoluta, na posição mencionada, há æ, respectivamente ǣ<sup>32</sup>.
30 Z. Zinkevičius, op. cit., p. 71.
31 В. Пизани, Общее и индоевропейское языкознание, „Общее и индоевропейское языкознание (Обзор литературы)“, Москва, 1956, p. 112–114.
32 Z. Zinkevičius, op. cit., p. 54, 74.
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Uma vez estabelecida a correlação entre as vogais breves e longas (principalmente devido ao alongamento das vogais breves), os dois sistemas vocálicos tiveram de evoluir na mesma direção. Como vimos, o sistema das vogais longas se labializou e se elevou; portanto, o sistema das vogais breves também teve de mudar na direção da labialização e da elevação. Assim, as vogais estreitas o, ẹ dos aukštaitianos orientais provavelmente surgiram recentemente a partir das vogais abertas mais antigas a, e.
Em posição átona, o sistema das vogais longas nos dialetos rotininkai mudou na direção oposta — encurtou e se abriu. Por exemplo, no dialeto de Anykščiai, ō, ē se deslabializaram e se abriram, coincidindo assim com ā, ē; estas últimas, por sua vez, ao se deslabializarem e se abrirem, transformaram-se em a., æ.. Em posição átona, os dialetos rotininkai têm vogais breves abertas em toda parte. Assim, a evolução uniforme dos sistemas vocálicos dos dialetos rotininkai em posição átona também sustenta a afirmação de que sua evolução foi uniforme em posição tônica.
A existência de uma correlação entre as vogais breves e longas nos dialetos aukštaitianos orientais (isto é, o alongamento, a elevação e a labialização das vogais breves em posição tônica) é indicada também pelo fato de que, numa ampla área dos dialetos rotininkai, ao lado das vogais longas ō, ō encontramos a vogal breve (aqui alongada) ɔ; e, na parte oriental dessa área, ao lado de ā, a vogal breve ā. Nos dialetos periféricos, essas relações podem estar confundidas: ao lado de ɔ pode haver ā (na aldeia de Trakiniai, entre Kavarskas e Alanta), e ao lado de ā pode haver ɔ (na fala de Švedasai)³³. Contudo, a própria existência da correlação é indubitável também aqui.
A alternância das vogais no dialeto de Kupiškis conforme a posição (assimilação) será compreensível se supusermos que, antigamente, existiam ali vogais abertas e, respectivamente, ē, que, antes de vogais bemolizadas e em posição final absoluta, se abriram ainda mais e se transformaram em a, respectivamente ā; e que, antes de vogais sustenizadas e do j etimológico, se elevaram e se transformaram em ẹ, respectivamente ē, isto é,
e, respectivamente ē → a, respectivamente ā; e, respectivamente ē → ẹ, respectivamente ē
O fato de a vogal aberta a se elevar nos dialetos rotininkai também é demonstrado pela presença da vogal a (mas não o) no ditongo acentuado au. Ela aparentemente não se elevou devido ao tipo de acento e à presença de u, antes do qual, ao que parece, não pode ocorrer uma vogal estreita (e ou o).
A vogal a labializada também ocorre em alguns dialetos žemaitianos (nas regiões de Laukuva, Seda etc.)³⁴. Contudo, também aqui ela provavelmente é recente, pois, nos dialetos žemaitianos, devido às vogais longas fortemente labializadas e elevadas, as vogais breves necessariamente tiveram de se tornar abertas e amplas.
As mudanças vocálicas mencionadas nos dialetos da língua lituana (a evolução polarizada das vogais breves e longas no dialeto žemaitiano, a formação de correlações e os fenômenos de assimilação nos dialetos aukštaitianos orientais) talvez indiquem que, há relativamente muito tempo, as vogais breves o, e se transformaram nas vogais abertas a, e.
2. Na língua letã, os dialetos orientais dos aukšzemnieki têm a vogal breve o em lugar do a da língua literária. A vogal o pode ocorrer tanto em posição tônica quanto átona (cf. letão vosara e vosora «verão»), tanto antes de uma vogal posterior quanto antes de
33 Z. Zinkevičius, op. cit., p. 50.
34 Z. Zinkevičius, op. cit., p. 51.
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vogais anteriores (cf. letão lobs «bom dia» e obi «ambas»)³⁵. Sem investigar a evolução dos sistemas vocálicos dos dialetos letões, é difícil dizer algo sobre a antiguidade desta vogal.
A vogal breve o também ocorre na língua prussiana. No vocabulário de Elbing da língua prussiana, em vez de a encontra-se com bastante frequência o³⁶, cf. prussiano wobse «vespa», sompisinis «pão grosseiro, Grobbrot» (prussiano som- corresponde ao lituano sam-). Este o pode ser um vestígio da vogal breve o, outrora mais amplamente usada³⁷.
3. A possível existência da vogal breve o na comunidade linguística báltica é indicada, possivelmente, também pelos empréstimos das línguas fino-bálticas de origem báltica, nos quais, em certos casos, aparece o; cf. finlandês morsian e lituano marti, finlandês oinas e lituano avinas, finlandês lohi e lituano lašiš, etc.³⁸ Recentemente, V. Šteinicas expressou a opinião plausível de que as palavras com o pertencem à camada mais antiga de empréstimos de origem báltica nas línguas fino-úgricas³⁹.
Alguns investigadores, desde K. Brugmann⁴⁰, tendem a considerar que também no proto-eslavo existia a vogal breve o. M. Fasmer⁴¹, A. Meje⁴², S. Bernšteinas⁴³, F. Filinas⁴⁴ e outros partilharam ou ainda partilham essa opinião.
M. Fasmer⁴⁵ explicava assim o facto de a vogal o das línguas eslavas ser representada pela vogal a nos empréstimos gregos de origem eslava e nos topónimos: a vogal fechada o do grego não seria adequada para representar a vogal o das línguas eslavas, pois esta era aberta. Na opinião de A. Meje⁴⁶, no proto-eslavo não havia grande diferença de timbre entre o o breve e o a longo. A diferença era sobretudo quantitativa. S. Bernšteinas considera⁴⁷ que a vogal o das línguas eslavas tinha antigamente um grau reduzido de labialização.
Assim, alguns investigadores afirmam que o proto-eslavo tinha a vogal breve a ou ă, enquanto outros tendem a considerar que nele havia a vogal o. Na realidade, não há entre estas duas posições uma diferença tão grande como pode parecer à primeira vista. Com efeito, aqueles que afirmam que o proto-eslavo tinha a vogal a também consideram que essa vogal breve era ligeiramente labializada e mais fechada do que a vogal a. Já aqueles,
³⁵ J. Endzelins, Latviešu valodas gramatika, Rīgā, 1951, p. 110–123; M. Rudzīte, Latviešu dialektoloģija, Rīgā, 1964, p. 267–271.
³⁶ E. Berneker, Die preussische Sprache, I. Lautlehre, Strassburg, 1895, p. 27; J. Endzelin, Zum o für a im Elbinger Vokabular, StB, 5, 1935–1936, p. 94–98; Senprūšu valoda, Rīgā, 1943, p. 24.
³⁷ Plg. И. Казлаускас, op. cit., p. 21.
³⁸ Para a literatura dos últimos anos, ver E. Nieminen, Über einige Eigenschaften der baltischen Sprache, die sich in den ältesten baltischen Lehnwörtern der ostseefinnischen Sprachen abspiegelt, „Sonderabdruck aus den Sitzungsberichten der Finnischen Akademie der Wissenschaften 1956“, Helsinki, 1957, p. 199–200; A. Sabaliauskas, Relações entre as línguas bálticas e fino-bálticas, LKK, 6, 1963, p. 109–136.
⁹ W. Steinitz, Zur Periodisierung der alten baltischen Lehnwörter im Ostsee-Finnischen, „Symbolae linguisticae in honorem Georgii Kurylowicz“, Wrocław–Warszawa–Kraków, 1965, p. 297–303.
⁴⁰ K. Brugmann, op. cit., p. 146.
⁴¹ M. Vasmer, Zwei kleine Abhandlungen. II. Zur slavischen Vertretung von arioeurop. o, KZ, 41, 1907, p. 157–164.
⁴² А. Мейе, Общеславянский язык, Москва, 1951, p. 42–44.
⁴³ С. Б. Бернштейн, Очерк сравнительной грамматики славянских языков, p. 144–146.
⁴⁴ Ф. П. Филин, Образование языка восточных славян, p. 101.
⁴⁵ M. Vasmer, op. cit., p. 157–164.
⁴⁶ A. Meje, op. cit., p. 44.
⁴⁷ С. Б. Бернштейн, op. cit., p. 143.
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aqueles que consideram que a protolíngua eslava tinha a vogal breve o também ressaltam seu fraco grau de labialização e sua abertura.
Os seguintes fatos parecem permitir definir com maior precisão a qualidade da vogal breve da protolíngua eslava:
1. Que a vogal da protolíngua eslava, proveniente do indo-europeu o e a, podia ser foneticamente mais próxima da vogal a do que de o é demonstrado por empréstimos e topônimos de origem eslava nas línguas fino-úgricas, bálticas, germânicas e gregas, que em todos os casos apresentam a em lugar da vogal o das línguas eslavas atuais; cf. finlandês papu «feijão», do russo боб, prussiano antigo maddla «prece, Bitte, Gebet», do polonês modła, alto-alemão antigo bávaro Rasa, do eslavo ražb, grego βάβεω «velha», do eslavo *baba, entre outros. O a de outras línguas é sempre representado no eslavo pela vogal o; cf. eslavo eclesiástico antigo kotblъ «caldeirão», do gótico *katils (cf. katile gen. pl.). Isso mostra que, na época dos empréstimos, as línguas eslavas tinham a vogal a.
2. Os dialetos bielorrussos e alguns dialetos do sul da Rússia, assim como alguns dialetos muito arcaicos da Bulgária48, têm a vogal a em posição átona (o chamado «akanye»); cf. bielorrusso каза́, russo каза́ (escrito коза) e búlgaro kazý-te (nom. pl.).
Em posição átona, esses dialetos terão conservado a vogal breve protoeslava a49. Na recente discussão sobre a origem do «akanye»50, prevaleceu a opinião de que essa característica do bielorrusso e dos dialetos do sul da Rússia surgiu relativamente tarde (por volta dos séculos XIII–XIV)51, espontaneamente ou sob influência do substrato. Contudo, parece mais plausível a primeira interpretação da origem do «akanye»: o a em posição átona desses dialetos deve ser considerado um vestígio do a protoeslavo, pois: a) isso é exigido pelo fator geográfico (cf. o fenômeno análogo nos dialetos búlgaros arcaicos); b) a existência de um a breve na protolíngua eslava é confirmada por estudos fonológicos.
3. Todos os pesquisadores até hoje reconstruíram para a protolíngua eslava a correlação a: ā (respectivamente ă: ǟ)52. A transformação da vogal breve indo-europeia o em a e sua fusão com o reflexo indo-europeu a estavam ligadas à deslabialização de outras vogais da protolíngua eslava. Na protolíngua eslava, juntamente com a palatalização das consoantes, ocorria a labialização das consoantes (respectivamente, a deslabialização das vogais)
48 Ст. Стойков, Акане в говора на с. Триград (Девинско), „Български език“, 13, 1963, p. 8–21.
49 A. Vaillant, Grammaire comparée des langues slaves, I, p. 107; G. Y. Shevelov, A Prehistory of Slavic, p. 386–387; В. И. Георгиев, A akanye russo e sua relação com o sistema de fonemas da língua proto-eslava, ВЯ, 2, 1963, p. 20–29; O significado eslavo comum do problema do akanye, ВЯ, 4, 1964, p. 151–152.
50 В. Г. Руделев, К фонологической интерпретации русского аканья, ВЯ, 2, 1963, p. 30–38; П. С. Кузнецов, К вопросу о происхождении аканья, ВЯ, 1, 1964, p. 30–41; В. В. Колесов, О некоторых особенностях фонологической модели, развивающей аканье, ВЯ, 4, 1964, p. 66–79; Я. Риглер, К проблеме аканья, ВЯ, 5, 1964, p. 36–45; В. И. Лыткин, Ещё к вопросу о происхождении русского аканья, ВЯ, 4, 1965, p. 44–52; Г. А. Хабургаев, О фонологических условиях развития русского аканья, ВЯ, 6, 1965, p. 55–63. Cf. ainda M. Halle, Akan’e (The Treatment of Unstressed Nondiffuse Vowels in Southern Great Russian Dialects), „Symbolae linguisticae in honorem Georgii Kuryłowicz“, p. 103–109.
51 Cf. В. И. Борковский, П. С. Кузнецов, Историческая грамматика русского языка, М., 1963, p. 142.
52 R. Jakobson, Remarques sur l’évolution phonologique du russe comparée à celles des autres langues slaves, TCLP, 2, 1929, p. 20–23; F. V. Mareš, A origem do sistema fonológico eslavo e seu desenvolvimento até o fim do período de unidade linguística eslava, „Slavia“, 25, 1956, p. 445; G. Y. Shevelov, A Prehistory of Slavic, p. 150–162; H. ван Вейк, Sobre a história do sistema fonológico na língua eslava comum do período tardio, „Slavia“, 19, 1950, p. 293.
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processo. Os estudos fonológicos dos últimos anos constataram53 que as vogais breves o e a (assim como ō e ā) coincidiram primeiro na posição após consoantes labiais. Aqui, a propriedade diferencial da vogal o (assim como de ō), a «bemolização», tornou-se irrelevante, pois essa propriedade era um elemento constitutivo das consoantes labiais (ver mais detalhadamente este trabalho, p. 67 ss.).
À afirmação de que na protolíngua eslava existia a vogal breve a (mas não o),1 opõe-se a desinência -ō do nominativo e do acusativo singular dos substantivos masculinos em o, que, foneticamente, só poderia ter surgido de *-os e *-om através das formas intermediárias *-u(s) e *-u(m).
G. Shevelov está inteiramente justificado ao tender a explicar por razões morfológicas54 o surgimento da desinência do nominativo singular -ō em lugar de *-as (cf. eslavo antigo vьlkъ). A desinência *-am poderia ter-se transformado muito facilmente em -ō, uma vez que o fechamento das vogais diante de consoantes nasais seria um fenômeno frequente, encontrado em muitas línguas. Após as mudanças fonéticas no final das palavras da protolíngua eslava, formou-se, por analogia entre os temas em o e em u, a seguinte proporção: *-u (acc. sing., tema em u): *-u (nom. sing., tema em u)= *-u (acc. sing., tema em o): x (nom. sing., tema em o), em que x deveria ser igual a *-u.
Assim, nada impede que se suponha que na protolíngua eslava existia um a breve, talvez um tanto labializado, pois, nos empréstimos do romeno de origem eslava, em lugar do a da protolíngua eslava aparece oa; cf. romeno groază «horror», do eslavo *graza55.
Na opinião dos pesquisadores, a vogal breve eslava a transformou-se em o bastante tardiamente (por volta dos séculos VIII–IX), pouco antes do aparecimento dos primeiros monumentos escritos das línguas eslavas56. Depois do século IX, os empréstimos de origem eslava em outras línguas já apresentam o com bastante frequência; cf. gr. Σϑλοβενοί, do eslavo *slověne.
Quase todos os pesquisadores concordam que tanto nas línguas bálticas como nas eslavas o sistema original de vogais breves era triangular:
Mas é igualmente possível a outra alternativa: o sistema original de vogais breves dessas línguas era quadrangular:
no qual não havia oposição a: o.
Além das línguas bálticas e eslavas, as vogais breves indo-europeias o e a também coincidiram nas línguas germânicas, albanesa, indiana antiga e hitita. Nessas línguas, correspondem-lhes formas com a.
53 B. K. Zhuravlev, Formação da harmonia vocálica de grupo na língua protoeslava, ВЯ, 4, 1961, p. 35–36.
54 G. Y. Shevelov, op. cit., p. 156–157.
55 G. Y. Shevelov, op. cit., p. 162.
56 E. Schwarz, op. cit., p. 136; H. van Wijk, op. cit., p. 293; F. V. Mareš, op. cit., p. 445; G. Y. Shevelov, op. cit., p. 151; B. K. Zhuravlev, Da história do vocalismo na língua protoeslava do período tardio, ВЯ, 2, 1963, p. 13, 19; V. I. Georgiev, ВЯ, 2, 1963, p. 29; Novas teorias e equívocos tradicionais, «Български език», 15, 1965, p. 297–307.
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A vogal breve a na comunidade linguística indo-europeia era, ao que parece, rara. Ocorreu sobretudo no léxico expressivo, técnico e quotidiano, e quase não participava na alternância vocálica57.
O léxico das línguas europeias que distinguem os fonemas o e a, contendo a vogal breve a, limita-se sobretudo ao domínio da agricultura e, por essa razão, esse léxico e, portanto, também o fonema a podem ser de origem posterior58. Alguns investigadores tendem a considerar que a oposição o: a nas línguas indo-europeias meridionais (arménio, grego, itálico e céltico) pode ter surgido posteriormente, em consequência da perda das laringais59.
Por conseguinte, é perfeitamente possível que as línguas indo-europeias que não apresentam a oposição o: a nunca a tenham tido. A vogal breve o do proto-báltico e a a do proto-eslavo podem corresponder às vogais o e a das línguas indo-europeias meridionais.
Para resolver a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, é importante determinar que manifestantes de fonemas compactos átonos, isto é, que vogais breves posteriores de abertura baixa, as línguas bálticas e eslavas possuíam nos primeiros séculos após a separação da comunidade linguística indo-europeia. Não é possível afirmá-lo por muitas razões, das quais as mais importantes são:
a) não dispomos de dados que nos permitam reconstruir as relações vocálicas de épocas tão remotas, isto é, não sabemos se, de facto, naquela época os dialetos bálticos tinham a vogal breve o e os dialetos eslavos, a vogal breve a;
b) não está claro qual dos sistemas de vogais breves (triangular ou quadrangular) era o sistema original nas línguas bálticas e eslavas;
c) desconhecemos a cronologia absoluta exata em que os reflexos das vogais breves indo-europeias o e a coincidiram nas línguas bálticas e eslavas (admitindo como original o sistema triangular de vogais breves).
Seja como for, qualquer que seja o sistema de vogais breves que consideremos original, uma coisa é clara: outros dialetos indo-europeus (por exemplo, o germânico) também tinham originalmente um sistema de vogais breves exatamente igual ao das línguas bálticas e eslavas. Portanto, a reconstrução de um sistema original de vogais breves idêntico nas línguas bálticas e eslavas não demonstra, de modo algum, uma etapa de desenvolvimento comum báltico-eslava, distinta da dos outros dialetos indo-europeus, nem uma unidade linguística báltico-eslava.
Ide. vogais longas ō e ā
Ide. as vogais longas ō e ā coincidiram nas línguas eslavas. As línguas bálticas conservaram a distinção entre elas. Assim, as línguas bálticas e eslavas diferem acentuadamente quanto à evolução das vogais longas ide. Para resolver o problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, é importante esclarecer quando as línguas eslavas deixaram de distinguir as vogais longas ide.
O ide. ā foi conservado intacto em letão (ā); em lituano, transformou-se em o, ao passo que as línguas eslavas apresentam aqui a, cf.:
litu. brólis, broter-ėlis, let. brãlis, brāter-ītis, esl. ant. bratrъ: ind. ant. bhrātā, gr. φράτηρ «membro da fratria», lat. frāter, gót. broþar (o de ide. ā), tocariano A pracar;
57 A. Meillet, Introduction à l’étude comparative des langues indo-européennes, 7 éd., Paris, 1934, p. 99, 166–168. Cf. «La voyelle a se trouve notamment dans des mots de caractère populaire, technique ou affectif» (p. 99).
58 H. Kuhn, Ablaut, in: Altertumskunde, KZ, 71, 1954, p. 129–161.
59 J. Kuryłowicz, L’apophonie en indo-européen, Wrocław, 1956, p. 167–168.
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litu. moté, móteris, let. māte, esl. ant. mati: ind. ant. matā, gr. (dórico) μάτρη, lat. māter, tocariano A mācer.
Nas línguas eslavas, o ide. ō transformou-se em a. Nas línguas bálticas orientais, o seu reflexo foi duplo. Em algumas variedades, o ide. ō transformou-se em uo, cf.:
lituano juos-ta, latim juos-ta, eslavo antigo po-jasъ “cinto”: grego ζωστός “cingido” (= lituano juostas), avéstico vāh “cinto” (ā de ide. ō);
litu. puo-tà: gr. πώ-νω «bebo», lat. pō-tus «bebida», ind. ant. pā-ti «(ele) bebe» (ā de ide. ō);
litu. uoga, let. uōga: esl. ant. jag-oda;
litu. uolektis (e também uolektis), let. uōlekts: gr. ὠλένη «cotovelo»: *ōl- é o grau alongado da raiz *el-/*ol- (cf. litu. elcūnė, alkūnė e let. elkuons);
litu. ūosis, let. uōsis: rus. яс-ень, sérvio-croata jas-ēn;
lituano dūo-ti, duo-snùs, duo-slùs, dūo-klė, letão duō-t, eslavo antigo da-ti, da-nъ “tributo” (= lituano duo-nis “presente”¹), da-rъ “presente”: grego δῶ-μι “dou”, δῶ-ρον “presente”, latim dō-num “presente”, sânscrito dānám “presente” (ā de ide. ō); mas com o, lituano do-snùs (lat. dā-sns), do-slùs, do-vanà (lat. dō-vana), dō-vamas “dado como presente”, dō-vis “ato de dar”, dō-sai “presentes da nora”, dō-tas “ato de dar, presente”, dō-talas (lat. dā-tali “presentes”) “ato de dar, tributo”, do-tilas “o mesmo”: cf. prussiano dā-t, dā-twei “dar”.
O ide. ō, que alternava com o ide. ē, também se transformou em uo em certos casos, cf. brėžti: bruožas; plėšti, let. plēst: plūostas, let. plūōsti «rasgar repetidamente», pluosa «frenesi»; rėžti, esl. ant. rěz-ati «golpear»: ruožas, esl. ant. razъ «golpe; corte»; sėsti: sūodžiai, let. suōd-rēji «fuligem», esl. ant. sazъda; ėsti: ūodas, let. uōds.
Noutros casos, o ide. ō transformou-se em o em lituano e em ā em letão, cf.:
lituano nor-ėti: grego νωρ-εῖν «agir, fazer», νώρ-εμενος «grande, amplo»;
lituano krōk-ti (ir kriōk-ti), kriog-uoti «falar ou gritar com voz rouca», letão krākt, krākt, russo antigo krak-ati «limpar a garganta»: latim crōc-āre, crōc-īre «grasnar (sobre corvos)», grego κρώζω «limpo a garganta» (-ζ- de *-gj-), alto-alemão antigo hruoh «corvo» (uo de germânico ō);
lituano žmōnės, žmona: acusativo singular latino homōnem (nominativo singular homō) e hemōnem; raiz *gʰm-/*gʰem-/*gʰom-; nas palavras žmōnės, žmona temos a raiz em grau zero, enquanto a raiz em grau normal é o lituano žem-ė; mas lituano antigo žmuo (de *gʰm-ōn);
lituano prō, pró- (cf. pró-plaiša): latim prō, prō(d)-, grego πρω-; mas letão pruō-jām, pruō-m «para longe, embora»;
genitivo singular dos substantivos em o-tema: lituano vilk-o, letão vilk-a, eslavo antigo vlъk-a: latim antigo (nome próprio) Gnaiv-ōd, latim lup-ō «do lobo», sânscrito vṛk-āt, vṛk-ād (-āt -ād de *-ōd), grego τω (de *pōd) «de onde».
Em vez da alternância vocálica regular (lituano ē: uo, letão ē: uo de indo-europeu ē: ō), ocorre em lituano a alternância ē: o, e em letão, ē: ā, cf.:
lituano bėgti, letão bēgt: lituano bog-inti «levar, transportar, conduzir ou carregar algo rápida ou penosamente», mas letão buōk-stīt «esconder», buōk-stīties «vaguear, andar a arrastar-se»;
lituano glėbti, letão glēbt: lituano glōbti «envolver, embalar, tomar nos braços», letão glābt «proteger, guardar», lituano globà (acc. sing. glōbą) e glōba; o grau normal da alternância vocálica é lituano glab-ōti «tomar nos braços, agarrar, apanhar», letão glab-āt «guardar, proteger; enterrar» (do báltico *glo-b-);
1 O lituano donis deve ser considerado um eslavismo.
62
lituano korýs (acus. sing. kõrį), letão kãris: grego χηρός «cera», latim cēra; cf. kor-ýti, kor-ýtas;
lituano mólis, mõlė «terra argilosa», mol-iūgas «da cor da argila, argiloso», letão mãls (geralmente no plural mãli): eslavo antigo mẽlъ «cal»; E. Fraenkel inclui aqui também mėlas, mėlynas²;
lituano nókti, letão nãkti «chegar»: gótico nehv(a) «aproximar-se», nehv-jan «aproximar-se», alto-alemão antigo nãh «aproximar-se» (ā de ē < indo-europeu ē);
lituano plėšti: plótas, ao lado delas, raízes no grau normal *plet- (cf. plėčia, plet-óti) e *plot- (cf. platus);
lituano slėgti (ir slėgti), letão slėgt: lituano slog-inti «oprimir, pressionar», sloga «tal doença; peso, aflição», slõgas «peso usado para prensar o linho ou o cânhamo», letão slāga, slāgs «fardo, peso, sofrimento, doença»; mas lituano šliuogas (ir šliuogas) «peso para prensar», letão šluõga, šluõgs «idem», šluõdz-it, šluõdz-et «oprimir, pressionar»;
lituano sėsti, sėd-ėti: sod-inti, sõdas (ir sõdnas), eslavo antigo sadъ, lituano sodà (acus. sing. sõdą), sõdžius (letão sādzā, sādzius, presumivelmente, são lituanismos); baixo-alemão svad-inti «plantar» pode derivar de *suod-inti;
lituano tvėrė, letão tvēru «apalpei, agarrei»: lituano tvorà; encontramos o grau normal em tvēr-ia, cf. russo antigo tvor-iti «fazer, criar»;
lituano vókas (ir vokà) «tampa, cobertura; pálpebra», letão vāks «tampa»: eslavo antigo vėko «pálpebra, tampa»;
lituano vóras «aranha», letão vāris: lituano vėrė, letão vēru «teci»: o grau normal é vēr-ia, var-tai;
lituano žolė, letão zāle: lituano žėlė; a raiz do grau normal *g’hel-/*g’hol- ocorre nas palavras žėl-ia, žãl-ias.
Os reflexos do indo-europeu ō e ā na língua prussiana são muito pouco claros.
No glossário de Elbing (monumento do dialeto de Pomesânia), o indo-europeu ā é representado pelos grafemas o e oa (cf. prussiano mothe e lituano mótė, letão māte; prussiano moazo «tia» e lituano mõša, letão māsa «irmã»). Do mesmo modo, aqui se representa o indo-europeu ō (cf. prussiano podalis e lituano dialetal puo-dãlis; prussiano woasis e lituano úosis, letão uosis). A representação gráfica idêntica dos reflexos indo-europeus ō e ā parece indicar que, no dialeto prussiano do glossário de Elbing, o indo-europeu ō e ā se confundiram³. Contudo, J. Kazlauskas considera⁴ que a representação gráfica idêntica não demonstra a neutralização da oposição entre os reflexos do indo-europeu ō e ā. Afinal, nos antigos textos lituanos, a letra o representaria tanto o como uo. Na opinião de J. Kazlauskas, o prussiano o (do indo-europeu ō) poderia ter sido mais fechado e mais labializado do que o o (do indo-europeu ā). Este último poderia ter sido um som de abertura mais baixa e fracamente labializado.
Nos catecismos prussianos (monumentos escritos do dialeto da Sâmbia), o reflexo do indo-europeu ā é representado por ā ou a (cf. prussiano brāti e lituano brólis, letão brālis). O reflexo do indo-europeu ō é representado aqui principalmente por ō ou o (cf. prussiano per-ōn-i «comunidade» e lituano, letão -uon- em palavras como gel-uon-is ir dzel-uon-s). Em certos casos, o reflexo do indo-europeu ō é representado aqui por ā ou a (cf. prussiano dāt, dātwei e daton e lituano duóti, letão duôt; prussiano sālin e lituano žolė, letão zāle).
Assim, no dialeto dos catecismos, a distinção entre os reflexos do indo-europeu ā e ō foi preservada, exceto em certos casos em que o indo-europeu ā e ō, tal como nas línguas bálticas orientais, se confundiram.
² E. Fraenkel, LEW, p. 430.
³ Plg. K. Būga, RR, III, p. 104.
⁴ I. Kazlauskas, К развитию общебалтийской системы гласных, p. 21.
63
O duplo reflexo da vogal longa indo-europeia ō nas línguas bálticas confundiu os pesquisadores durante muito tempo. Alguns deles (J. Hanuš⁵, O. Wiedemann⁶, J. Mikkola⁷ etc.) consideravam o lit. o e o let. ā como o único reflexo do indo-europeu ō nas línguas bálticas, e derivavam o uo do lituano e do letão do indo-europeu *ōu (ou *ōn e *ōns). A essa opinião opõe-se o fato de que a evolução regular do ditongo indo-europeu *ōu em lituano não foi uo, mas áu, cf. lit. gáuti, káuti etc. Que suas raízes derivam de *gōu-, *kōu- é demonstrado pelas formas gōvė, kōvė. A derivação de káuti de *kōu- também é confirmada pelos dados de outras línguas indo-europeias (cf. alto-alemão antigo houwan «golpear, forjar» e lat. cūd ere «forjar, bater» < *kou-/*kōu-).
Outros pesquisadores (G. Malovas⁸, H. Pedersen⁹, V. Poržežinskis¹⁰, A. Vaillant¹¹ etc.) consideravam que o indo-europeu ō se transformara apenas em uo nas línguas lituana e letã. Essa era também a opinião dos mais eminentes especialistas em línguas bálticas: K. Būga¹², J. Endzelīns¹³, P. Skardžius¹⁴, E. Fraenkel¹⁵ e J. Otrębski¹⁶. Todos esses pesquisadores consideravam que as vogais ō e ā do lituano e do letão, em vez do uo esperado, haviam surgido por alternância vocálica: segundo a apofonia lituana a: o (do indo-europeu a: ā), além da alternância regular a: uo (do indo-europeu o: ō), teria surgido também a alternância vocálica a: o (em lugar do indo-europeu o: ō). Um papel importante teria sido desempenhado aqui pela circunstância de que as vogais breves indo-europeias a e o coincidiram na vogal a nas línguas bálticas.
A deficiência dessa hipótese é que ela não explica a alternância vocálica em palavras como bog-inti, que não têm formas correspondentes com a vogal breve a (por exemplo, *bag- a partir do indo-europeu *bog-).
Além disso, há casos cuja explicação obriga os pesquisadores a imaginar esquemas bastante complexos. Por exemplo, para explicar a vogal ā da palavra prussiana dāt (cf. lit. dúoti e let. duôt), J. Endzelīns elaborou uma complicada teoria da analogia¹⁷. A julgar pelo let. dakstīt «dar», pelo gr. δόσις «presente» e pelo lat. datio «ato de dar», nas línguas bálticas deveria ter existido o infinitivo *dat(e)i. O ā longo (cf. pruss. dāt) teria surgido porque, nos infinitivos, a vogal imediatamente antes de *-t(e)i seria sempre longa. Já as palavras lituana e letã dúoti e duôt teriam recebido o ditongo uo da forma do futuro (cf. lit. dúosiu e sânscrito antigo dāsyā-mi).
Para as palavras cuja vogal radical o (let. ā) alterna com ē, em vez do uo esperado, J. Endzelīns tentou encontrar uma base indo-europeia, propondo pri-
5 J. Hanusz, O dobie litewsko-słowiańskiej w stosunku do prajęzyka indoeuropejskiego, p. 254.
6 O. Wiedemann, Das litauische Präteritum, Strassburg, 1891, p. 45–51.
7 J. Mikkola, RSI, 1, 1908, p. 8; Urslavische Grammatik, p. 50–51.
8 G. Mahlow, Die langen Vocal e A, E, O in den europäischen Sprachen, Berlin, 1879, p. 82.
9 H. Pedersen, Wieviel Laute gab es im Indogermanischen?, KZ, 36, 1900, p. 101–103.
10 B. K. Поржезинский, К истории форм спряжения в балтийских языках, Москва, 1901, p. 7.
11 A. Vaillant, Grammaire comparée des langues slaves, I, p. 112.
12 K. Būga, Priesagos -ūnas ir dvibalsio uo kilmė, RR, II, p. 340–366.
13 J. Endzelin, Le. nākt: li. nók̇ti: got. nēhʷ e a alternância entre ē e ā, KZ, 62, 1934, p. 23–28; Le. buokstīt e termos relacionados, APh, 5, 1935, p. 10–13; O que aconteceu com o ide. ō (e ā) no antigo prussiano, StB, 4, 1935, p. 133–143; Lettische Grammatik, Riga, 1922, p. 39; Latviešu valodas gramatika, p. 58–59.
14 P. Skardžius, Lietuvių kalbos žodžių daryba, Vilnius, 1941, p. 47–48, 544.
15 E. Fraenkel, Die baltischen Sprachen, p. 76.
16 Я. С. Отрембский, Славяно-балтийское языковое единство, ВЯ, 5, 1964, p. 29; contudo, em sua «Gramatyka języka litewskiego» (I, Warszawa, 1958, p. 180–181), J. Otrębski reconheceu também o indo-europeu ō > lit. o.
17 J. Endzelin, Was ist im Altpreussischen aus ide. ō (und ā) geworden? p. 136.
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reconhecer a alternância vocálica indo-europeia ā: ē18. Contudo, essa apofonia, salvo pequenas exceções, não é característica das línguas indo-europeias19, por isso essa ideia de J. Endzelin foi recebida com ceticismo20.
Outros pesquisadores (J. Zubatas21, K. Brugmannas22, H. Hirtas23, A. Meje24, N. van Veikas25, Chr. Stangas26, J. Safarevičius27, H. Krahe28, G. Ševeliovas29, entre outros) reconheceram a existência de dois reflexos da letra indo-europeia ō nas línguas bálticas: em alguns casos, ela se transformou em uo; em outros, em ā (lituano o, letão ā).
Com base na evolução dupla do indo-europeu ō nas línguas bálticas e, assim, exagerando o caráter arcaico do lituano, J. Zubatas30 propôs que a comunidade linguística indo-europeia teria tido dois ō: um que se transformou em uo no lituano e outro que deu o. Mais tarde, ao se constatar que a evolução dupla do indo-europeu ō dependia de condições específicas do lituano, abandonou-se essa teoria.
Ao se admitir a evolução dupla do indo-europeu ō nas línguas bálticas, surgiu naturalmente a questão de em quais casos o indo-europeu ō se transformou em uo e em quais, em ā (lituano o, letão ā, prussiano ā ou a). H. Hirt e A. Meillet tendiam a considerar31 que o indo-europeu ō, quando alternava com o indo-europeu ē, se transformava em ā nas línguas bálticas, enquanto o indo-europeu ō que não participava da alternância vocálica se transformava em uo. A alternância vocálica em palavras do tipo brėžti: bruožas (ver p. 62 deste trabalho), assim como o fato de que a vogal indo-europeia não apofônica ō é representada com bastante frequência pela vogal ā nas línguas bálticas (ver p. 62 deste trabalho), demonstra que essa opinião não tem fundamento.
Nos últimos anos, tem-se tendido a relacionar a evolução do indo-europeu ō (assim como, em geral, do vocalismo das línguas bálticas)32 com o sistema acentual (J. Kazlauskas, V. Mažiulis): na posição tônica, o indo-europeu ō transformou-se em uo nas línguas bálticas orientais e, nos dialetos prussianos, provavelmente se manteve inalterado; na posição átona, o indo-europeu ō coincidiu com o indo-europeu ā nas línguas bálticas. A afirmação de que a evolução do indo-europeu ō (e, de modo geral, do vocalismo) depende do sistema acentual baseia-se em dados do lituano falado. Assim, em muitos dialetos da Alta Lituânia oriental, a oposição entre os reflexos do indo-europeu ō e ā é neutralizada na posição átona: algumas variedades da Alta Lituânia oriental apresentam a (semilongo ou breve) no lugar do indo-europeu ō e ā; outras (por exemplo, nos arredores de Kupiškis e em outros lugares), o (semilongo ou breve); e ainda outras (por exemplo, nos arredores de Raguva e em outros lugares), u (geralmente breve reduzido). A oposição entre os reflexos do indo-europeu ō e ā também
18 J. Endzelin, Le. nākt: li. nókti: got. nēh und der Wechsel von ē und ā, p. 27.
19 A. Meillet, Introduction à l’étude comparative des langues indo-européennes, p. 153–168.
20 E. Fraenkel, Die baltischen Sprachen, p. 78.
21 J. Zubatý, Zum baltischen ū, BB, 18, 1892, p. 241–266.
22 K. Brugmann, Grundriss der vergleichenden Grammatik der indogermanischen Sprachen, I, 1, p. 151–152, 158.
23 H. Hirt, Indogermanische Grammatik, II, Heidelberg, 1921, p. 33, 180.
24 A. Meillet, op. cit., p. 100–104.
25 N. van Wijk, Les voyelles uo, ie en letto-lituanien et en russe, StB, 4, 1935, p. 144.
26 Chr. S. Stang, Das slavische und baltische Verbum, p. 196 (nota de rodapé).
27 J. Safarewicz, Przyczynki do zagadnienia wspólnoty bałto-słowiańskiej, p. 199–202.
28 H. Krahe, Indogermanische Sprachwissenschaft, I, Berlin, 1958, p. 57.
29 G. Y. Shevelov, A Prehistory of Slavic, p. 150.
30 J. Zubatý, op. cit., p. 241. Cf. J. Otrebski, Przyczynki słowiańsko-litewskie, I, Wilno, 1930, p. 53–54. K. Brugmann e H. Hirt incorporaram a teoria de J. Zubatý às suas gramáticas comparativas das línguas indo-europeias; ver K. Brugmann, op. cit., p. 151–152, 158, e H. Hirt, op. cit., p. 33, 180.
31 H. Hirt, op. cit., p. 33; A. Meillet, op. cit., p. 100–104; para uma crítica da opinião de H. Hirt, ver K. Būga, RR, II, p. 242.
32 I. Kazlauskas, Sobre o desenvolvimento do sistema vocálico báltico comum, p. 24; V. Mažiulis, Observações sobre o vocalismo prussiano, p. 195–196; V. Mažiulis, Remarques sur le vocalisme du vieux prussien, p. 53–59.
5. Baltų ir slavų kalbų ryšiai
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não possuem os alto-lituanos ocidentais da região de Smalininkai (aqui há um o longo com ditongação muito leve e, por vezes, até um ditongo claro ou) e os baixo-lituanos ocidentais da região de Priekulė (aqui há um o longo33. Assim, na posição átona, nesses dialetos, em vez de ide. ō e ā existia um som ā labializado (uma notação gráfica mais adequada seria ā); em alguns dialetos, ele se transformou em a; em outros, em o, u ou até no ditongo ou.
Na posição tônica, a diferença entre os reflexos de ide. ō e ā é conservada nesses dialetos. Os dados das línguas bálticas relativos ao destino de ide. ō nas línguas bálticas também parecem não contradizer a ideia mencionada (de que a evolução de ide. ō dependia do sistema acentual): em lituano, uo aparece na maioria dos casos em palavras de paradigma baritônico (cf. brúožas, júosta, plúoštas, rúožas34, súodžiai, úodas, úoga, úolektis, úosis etc.). Nas palavras de paradigma de acento móvel (por exemplo, puõta), a vocalização das formas baritônicas (cf. acc. sing. puõtą) pode ter sido generalizada.
O o lituano, correspondente a ō de outras línguas indo-europeias, é bastante frequentemente átono (cf. nor-ėti, bog-inti, kriog-úoti, kor-ỹs, kor-ýtas, slog-à, slog-inti, sod-inti, tvorà, vilk-o, vorai, žmonių, žolė etc.). É preciso levar em conta também fatores como a analogia e a generalização: a vocalização das formas com ō átono pode ter sido generalizada também para as formas com ō tônico. Assim pode ter surgido o na posição tônica. Também pode ter ocorrido o inverso: a vocalização das formas com ō tônico, que regularmente se transformou em uo, pode ter sido transferida para a posição átona das formas da mesma raiz. Assim pode ter surgido uo na posição átona. Desse modo, torna-se compreensível a existência de raízes duplas; cf. lituano šúo-lis e šõ-k-ti, bem como lituano dúo-ti, letão duõ-t e prussiano dā-t.
O acento quebrado das palavras letãs juõsta, úoga, úoleks, uõsis etc. mostra que, antigamente, essas palavras pertenciam em letão ao paradigma de acento móvel. Também aqui pode ter sido generalizada a vocalização das formas baritônicas.
A análise dos dados das línguas bálticas mostra que ide. ō e ā, como já foi mencionado, coincidiram nas línguas bálticas na posição átona. O resultado dessa coincidência nas línguas bálticas, assim como nas eslavas, parece ter sido ā; cf. ā em letão e ā ou a no prussiano (dialeto dos catecismos). Que o o lituano deriva de um ā mais antigo (provavelmente com um grau reduzido de labialização) é demonstrado pelos dialetos lituanos e pelos textos antigos (cf. a[ō] no catecismo de M. Mažvydas); para mais detalhes, ver p. 56 deste trabalho.
Assim, a coincidência das vogais longas indo-europeias também já havia começado nas línguas bálticas. A razão que impediu a continuação da coincidência das vogais longas indo-europeias ō e ā nas línguas bálticas parece ter sido o fato de que o ō báltico (ide. ō) entrou em correlação com o ē₂ báltico, que surgiu na posição tônica a partir de ē e, ao que parece, de ā35 (cf., por exemplo, o lituano piẽmõ e o finlandês paimen, do báltico *pai-men; cf. gr. ποιμήν). A evolução correlativa do ō e do ē₂ bálticos é demonstrada por sua ditongação (cf. o uo e o ie dos alto-lituanos, e ộu e ẹi dos baixo-lituanos) e pelo estreitamento subsequente (cf. ū e ī dos baixo-lituanos) nos dialetos lituanos. Com a formação dessa correlação, a vogal longa das línguas bálticas orientais vo-
33 Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, p. 69, 86—87 e mapas n.º 29 e n.º 59.
34 DLKŽ (p. 687) indica para a palavra rúožas o terceiro paradigma de acentuação.
35 H. Hirt, Vom schleifenden und gestossenen Ton in den indogermanischen Sprachen, IF, 1, 1892, p. 32—41; J. Endzelin, Litauisch-lettische Miszellen. I. Zum lit.-lett. ie, „Lietuvių tauta“, II, Vilnius, 1911, p. 284—291; FBR, 12, 1932, p. 180—181; K. Būga, RR, II, p. 90, 277; Chr. S. Stang, Ein Beitrag zum Problem von Diphthong ie im Litauischen, „Die Welt der Slaven“, I, 2. Heft, 1956, p. 137—139; J. Kuryłowicz, Łotewsko-litewska monoftongizacja ai, ei>ie, BPTJ, 15, 1965; P. Skardžius, Zum Wandel ai, ei>ie im Litauischen, ZfslPh, 26, 1958, p. 375—382; И. ЭнДзелин, О происхождении литовско-латышского ie, ИОРЯС, 12, I, 1907, p. 40—66.
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O sistema de kalizm tornou-se simétrico, já não havia nele espaços vazios, e o deslocamento da vogal longa ō em direção a ā foi interrompido.
Contudo, a correlação ō: ē₂ surgiu apenas na comunidade linguística dos bálticos orientais (depois dos séculos IV — III a. C.). Parece que não havia condições para que ela surgisse na língua prussiana, pois aqui o ditongo ei (e ai) não sofreu monotongação (cf. pr. deiws, eit etc.)36.
Por essa razão, a convergência das vogais longas indo-europeias ō e ā na língua prussiana poderia ter prosseguido e também passado da posição átona para a tônica. É verdade que o caráter fragmentário dos monumentos escritos da língua prussiana não permite dizer qual foi o destino efetivo de ō e ā indo-europeus nessa língua. O fato de que a oposição entre ō e ā poderia também ter sido eliminada aqui é indicado pelas seguintes circunstâncias:
1) a representação gráfica idêntica dos reflexos de ō e ā indo-europeus no vocabulário de Elbing (grafemas o e oa);
2) a transformação dos reflexos de ō e ā indo-europeus em ū ou u depois de consoantes labiais e, ao que parece, também depois de consoantes velares no dialeto dos catecismos.
Todas as mudanças de ō e ā indo-europeus aqui examinadas ocorreram em etapas posteriores do desenvolvimento das línguas bálticas.
Ao se abordar a questão das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, é importante que as línguas bálticas (e, sem dúvida, as bálticas orientais) ainda distinguiam ō e ā indo-europeus. Também não pode haver dúvida de que as línguas bálticas distinguiam essas vogais nos períodos mais antigos de sua história.
Que as línguas bálticas distinguiam duas vogais longas nos períodos mais antigos de seu desenvolvimento é demonstrado pelos empréstimos de origem báltica nas línguas fino-úgricas da região do Báltico, onde o ō báltico é representado, em muitos casos, pelo finlandês uu (cf. finlandês huuta e lituano šluota; finlandês kuuro e letão kuorns ‘surdo’), enquanto o ā báltico é representado pelo finlandês uo (cf. finlandês vuota e lituano óda, finlandês tuohi e lituano tošis, finlandês luoma e lituano lomà). Além disso, os empréstimos mostram que o ā báltico tinha certo grau de labialização (finlandês uo < *oo).
Como já foi mencionado, nas línguas eslavas desapareceu a oposição entre os reflexos das vogais longas indo-europeias ō e ā.
Pesquisas fonológicas dos últimos anos (A. Martinė, V. Žuravliovas etc.) mostraram que, ao lado das vogais curtas indo-europeias o e a, a convergência das vogais longas indo-europeias ō e ā foi uma das primeiras mudanças no sistema vocálico das línguas eslavas. As pesquisas fonológicas também estabeleceram que, concomitantemente ao processo de palatalização das consoantes nas línguas eslavas, ocorreu outro processo — a labialização das consoantes que precediam vogais labializadas. A essência fonológica desses processos consistiu em as vogais cederem às consoantes precedentes seus traços distintivos de «agudo — grave»37. A convergência das vogais longas indo-europeias ō e ā nas línguas eslavas está, portanto, relacionada a um desses processos — à deslabialização das vogais e à labialização das consoantes. Considera-se que o início do processo de deslabialização das vogais foi a neutralização de o e a após consoantes labiais; isto é, as sequências po: pa, bo: ba, me: ma, uo: ua, pō: pā, bō: bā... poderiam convergir e deixar de se distinguir. A característica de gravidade é constitutiva das consoantes labiais e, por isso, tornou-se irrelevante para as vogais imediatamente posteriores a consoantes labiais. O resultado da convergência das vogais o e a
36 E. Berneker, Die preussische Sprache, I, Lautlehre, p. 16—18; R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, Göttingen, 1910, p. 137—141; J. Endzelīns, Senprūšu valoda, p. 29.
37 V. K. Zhuravlev, Formação do sinarmonismo de grupo na língua protoslava, ВЯ, 4, 1961, p. 35.
5*
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devido à neutralização dissimilativa, devia haver a. Mais tarde, quando a característica diferencial «bemolização» das vogais o e ō passou às consoantes que as precediam, as vogais o e a coincidiram também em outras posições (após consoantes dentais etc.)38.
A cronologia exata da coincidência de ō e ā é desconhecida. Sabe-se apenas que, na época dos contatos entre as línguas eslavas e germânicas e entre as línguas eslavas e gregas (aproximadamente a partir dos primeiros séculos da era cristã), as línguas eslavas já não tinham ō: o ō longo fechado das línguas germânicas e gregas é representado nas línguas eslavas pela vogal ū; compare-se, por exemplo, o eslavo antigo bukъvi «letras», do gótico bōkōs «livros», e o eslavo antigo Solomunъ, do gr. Σολομών.
Pode-se supor que, antes da neutralização da oposição entre os reflexos de ide. ō e ā, as línguas eslavas mantinham essas vogais distintas. Talvez isso também seja indicado por alguns reflexos diferentes em terminações. Por exemplo, o dativo singular do tema em o da comunidade linguística ide. tinha a terminação *-ōi, e o tema em ā, *-āi. Se, devido à neutralização da oposição entre ō e ā, essas terminações tivessem coincidido foneticamente, ambos os temas teriam a mesma terminação. Porém, não é o que acontece, pois, aqui, o tema em o do eslavo antigo tem -u (cf. rab-u), e o tema em ā, -ē (cf. žen-ē).
O sistema original de vogais longas das línguas eslavas, assim como o das bálticas, era provavelmente o seguinte:
ī ū ē ō ā
Tanto as línguas bálticas quanto as eslavas herdaram esse sistema triangular dos dialetos da área setentrional da comunidade linguística ide. (cf., por exemplo, o sistema original de vogais longas, exatamente igual, das línguas germânicas) e, durante os primeiros séculos de sua existência independente, provavelmente o conservaram sem alterações.
Como o problema das relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas é o das relações entre os dialetos bálticos e eslavos que existiram nos primeiros séculos após sua separação da comunidade linguística ide., é evidente por si só que a preservação da oposição entre ide. ō e ā nas línguas bálticas e sua eliminação nas línguas eslavas não pode ser considerada nem argumento a favor da teoria da unidade linguística balto-eslava, nem contra-argumento. O destino das vogais ō e ā caracteriza as etapas posteriores do desenvolvimento das línguas bálticas e eslavas e suas tendências.
No desenvolvimento posterior de ide. ō e ā, as línguas bálticas e eslavas tinham em comum a tendência das vogais longas a coincidir. Por essa característica, as línguas bálticas e eslavas pertencem à mesma área que inclui as línguas germânicas e indo-iranianas.
Contudo, quanto ao destino de ide. ō e ā, as línguas bálticas e eslavas também diferem consideravelmente. Nas línguas eslavas, as vogais longas ide. coincidiram em todas as posições, enquanto nas línguas bálticas isso ocorreu apenas em posição átona. As línguas bálticas (sem dúvida, as bálticas orientais) conservaram até os dias de hoje a distinção entre vogais longas herdada da comunidade linguística ide. (lit. uo: o, let. uo: ā).
As línguas bálticas e eslavas diferem não só nos resultados do desenvolvimento das vogais longas ide., mas também nas próprias tendências de desenvolvimento dos sistemas de vogais longas. O sistema de vogais longas das línguas bálticas tendia a se estreitar e a se labializar; por isso, ō e ē₂ bálticos tornaram-se uo e ie em lituano, enquanto ā e ē bálticos se transformaram em o e ė. Nas línguas eslavas, ao contrário, havia uma tendência acentuada à expansão do sistema de vogais longas e à deslabialização. Por isso, ō e ū eslavos se tornaram as vogais a e y.
38 Б. К. Журавлев, op. cit., p. 35–36.
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Evolução do ditongo indo-europeu eu
Ainda não foi definitivamente esclarecido qual era o reflexo do ditongo indo-europeu eu nas línguas bálticas e eslavas.
Em alguns casos, o ditongo indo-europeu eu (ēu) é representado pelo báltico (oriental) jau e pelo eslavo ju (do eslavo *jau), cf.:
lituano liaukà e liauka (Karsakiškis, Panevėžys), pl. liaukos «uma doença dos porcos», liaūkti «correr, fluir abundantemente», letão ļauka e laukas¹ «doença dos porcos»: grego λεύκη «erupção cutânea» (supõe-se que os finlandeses tenham tomado esta palavra emprestada do báltico, cf. finlandês leuka «queixo»²; isso indicaria que, na época do empréstimo, os bálticos tinham apenas eu);
lituano liaupsė, acc. sing. liaūpse (de *leub-s-), eslavo antigo ljubъ «querido»: gótico liufs, alto-alemão antigo liob «querido» (gótico iu, alto-alemão antigo io de indo-europeu eu);
lituano liaudis e liaudžia, acc. sing. liaudžią (Valkininkai, Rodūnia), letão pl. ļaudis e dial. ļauži, eslavo antigo ljudьje «pessoas», russo antigo ljudi «povo»: alto-alemão antigo liut «pessoas» (iu de indo-europeu eu);
lituano siāuras, letão sāurs: grego εὔριπος «estreito» (o gr. εὐ- pode provir de *seu-);
lituano šiāurė (de *ḱeu-r-): russo antigo séverъ (de *k’ēu-er-).
Há muitos casos em que ao ditongo eu de outras línguas indo-europeias corresponde au nas línguas bálticas e u nas eslavas (do eslavo *au), cf.:
lituano baūsti: eslavo antigo bljusti «observar, perceber», grego πεύθομαι «percebo, experimento», gótico ana-biudan «ordenar, obrigar» (gótico iu de indo-europeu eu);
lituano naūjas, prussiano antigo nauns, lituano *navas (forma reconstruída por linguistas a partir do nome da aldeia Nav-ikai e do apelido Nav-ikas): gótico niujis, grego νέος «novo, jovem» (de *νέFος), hitita neua-; contudo, eslavo antigo novo, latim novus, gaulês (topônimo) Novio-dūnum (cf. lituano Naujamiestis) indicam a existência de indo-europeu *nou-;
lituano laūkas e láukas «animal com focinho branco ou testa branca», letão lauks: grego λευκός «branco» (esta palavra foi tomada emprestada do báltico pelos finlandeses, cf. finlandês laukki «mancha branca no animal», que tem o ditongo au na raiz);
lituano raūdas, letão raūds, eslavo antigo ruda «metal», russo румяный (russo rum- de *raud-m-): inglês antigo réod «avermelhado», grego ἐρεύθω «fico vermelho».
O material apresentado até aqui já mostra que não é fácil dizer diretamente qual era o reflexo do indo-europeu eu nas línguas bálticas e eslavas — lituano jau e eslavo ju ou lituano au e eslavo u.
Alguns pesquisadores (J. Schmidt³, G. Ul janov⁴, E. Berneker⁵, V. Por že zin-
¹ A forma laukos de K. Širvydas (C. Szyrwid, Dictionarium trium linguarum, Quinta editio, Vilnae, 1713, p. 136), incluída nos dicionários de K. Mühlenbach–J. Endzelin e E. Fraenkel (K. Mü len b a c h a Latviešu valodas vārdnīca. Redigējis, papildinājis, turpinājis J. Endzelīns, II, Rīgā, 1925–1927, p. 426; E. Fraenkel, LEW, p. 361), deve provavelmente ser corrigida para liaukos, porque: 1) não se conhece a forma laukos (com l- duro) em outras fontes; 2) na terceira edição do dicionário de K. Širvydas (C. Szyrwid, Dictionarium trium linguarum, Tertia editio, Vilnae, 1642, p. 157, 528) consta Laukos (= liaukos). Ver K. Pakalka, Konstantino Širvydo žodyno „Dictionarium trium linguarum“ lietuviškų žodžių registras (Instituto de Língua e Literatura Lituanas da Academia de Ciências da RSS da Lituânia, 1964, manuscrito).
² Alguns pesquisadores (E. Nieminen, Y. Toivonen) negam o caráter báltico do finlandês leuka; ver A. Sabaliauskas, Baltų ir Pabaltijo suomių kalbų santykiai, LKK, 6, 1963, p. 121.
³ J. Schmidt, Was beweist das e der europäischen Sprachen für die Annahme einer einheitlichen europäischen Grundsprache?, KZ, 23, 1877, p. 352–353.
⁴ Г. Ульянов, Основы настоящего времени в старославянском и литовском языках, Варшава, 1888, p. 36, 64, 100.
⁵ E. Berneker, Von der Vertretung des eu im baltisch-slavischen Sprachzweig, IF, 10, 1899, p. 145–167; cf. AfslPh, 25, 1903, p. 487.
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ski6, E. Cupic7, J. Endzelynas8, H. Pedersen9 etc.) consideravam que o ide. eu se transformou regularmente em jau nas línguas bálticas e em ju nas eslavas. H. Pedersen acrescentou que bastaria a palavra liaukà (cf. gr. λεύκη) para provar que o ide. eu se transformou em jau em lituano10.
Como os pesquisadores mencionados consideravam regular a transformação do ide. eu em jau no lituano, todos os casos em que o au do lituano (e de outras línguas bálticas) corresponde ao eu de outras línguas ide. tinham de ser, segundo eles, exceções. Por isso, era necessário encontrar maneiras de explicá-los.
Depois de examinar essa questão, V. Poržežinskis chegou à conclusão11 de que, na comunidade linguística báltica, as consoantes palatalizadas diante de eu, sob a influência das consoantes que precediam u (e que eram velarizadas), haviam sido substituídas por consoantes velarizadas em parte das palavras. Assim, o grupo «consoante palatalizada + ditongo eu» transformou-se, em lituano e letão, no grupo «consoante palatalizada + ditongo au», e, em prussiano, no grupo «consoante palatalizada + ditongo eu». O grupo «consoante velarizada + ditongo eu» transformou-se no grupo «consoante velarizada + ditongo au». E. Berneker12 concordou com essa opinião de V. Poržežinskis, observando que ela permitia explicar muitas exceções em que aparece au em lugar do esperado jau.
H. Pedersen13 tentou explicar de maneira bem diferente a origem de au. Na palavra tautà, em sua opinião, t…t poderia ter mudado para t…t devido à influência assimilatória do segundo t. A palavra laũkas poderia ter obtido a vogal o de outra palavra da mesma raiz. E naũjas, em vez de *niaujas, poderia ter surgido por dissimilação ou de outra maneira.
E. Cupic14 explicou da mesma maneira, já em 1907, o surgimento do ditongo au na palavra tautà. Essas explicações para o aparecimento de au em lugar do esperado jau não são inteiramente satisfatórias. Por exemplo, V. Poržežinskis não demonstrou por que, em alguns casos, as consoantes palatalizadas foram substituídas por velarizadas, mas não em outros. Sua concepção não explica por que, por exemplo, o pr. peuse não se tornou *pause, embora na comunidade linguística báltica existisse ao lado uma palavra em que p- diante de u era velarizado (cf. lit. pušis). Segundo a concepção de V. Poržežinskis, seria justamente de esperar uma substituição desse tipo. É claro que se pode supor, como afirmam E. Cupic e H. Pedersen, que houve assimilação na palavra tautà, mas é difícil fundamentá-lo com fatos.
O. Wideman15, K. Johansson16, J. Mikola17, A. Meillet18 e outros consideravam que jau surgiu nas línguas bálticas apenas do ide. ēu, enquanto o ditongo au é reflexo do ide. eu. Nas línguas eslavas, segundo eles, ju poderia ter surgido tanto do ide. ēu quanto do ide. eu. A opinião desses pesquisadores não é contrariada por muitos exemplos do lituano em que jau deriva do ditongo curto ide. eu.
J. Zubat19 tentou estabelecer um critério que permitisse determinar onde o ide. eu se transformou em jau e onde em au. Em sua opinião, nas línguas bálticas e eslavas o ide. eu se transformou, respectivamente, em jau e ju diante de vogais anteriores, enquanto diante de vogais posteriores mudou para au e u, respectivamente.
6 В. Поржезинский, К истории форм спряжения в балтийских языках, Москва, 1901, p. 79–80.
7 E. Zupitza, Lit. naũjas, KZ, 40, 1907, p. 250–251.
8 И. Эндзелин, Славяно-балтийские этюды, p. 79.
9 H. Pedersen, Lit. IAU, StB, 4, 1934–1935, p. 150–154.
10 H. Pedersen, op. cit., p. 152.
11 В. Поржезинский, op. cit., p. 80.
12 E. Berneker, AfslPh, 25, 1903, p. 489.
13 H. Pedersen, op. cit., p. 150–154.
14 E. Zupitza, op. cit., p. 254–255.
15 O. Wiedemann, Das litauische Präteritum, p. 17–18, 32, 184.
16 K. Johansson, Indische Etymologien, IF, 8, 1897, p. 172 (išnaša).
17 J. Mikkola, Urslavische Grammatik, I, p. 57–61.
18 A. Meillet, Le traitement de *-eu- en letto-lituanien, BSL, 25, 1924, p. 174–175.
19 J. Zubatý, AfslPh, 20, 1898, p. 396–397.
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J. Zubat, com uma pequena modificação, apoiou a explicação de J. Endzelin20. Segundo ele, o au das línguas bálticas, surgido do ide. eu, provavelmente não apareceu antes de todas as vogais posteriores, mas apenas antes das tônicas; comparem-se os exemplos citados por J. Endzelin: lituano tautā e gótico þiuda (o -d- proveniente de -t- indica que, desde tempos antigos, essas palavras eram acentuadas na terminação), lituano laũkas e gr. λευκός.
A concepção de J. Zubat e J. Endzelin21 não explica fatos do lituano como aqueles em que já ocorre diante de vogais posteriores; comparem-se, por exemplo, liaukà, siaũras, kiáuras, kiáutas etc. Além disso, o ditongo já aparece com frequência também em palavras que têm acento fixo na raiz; comparem-se kiaũlė, kiaũšis, liáudis, šiáurė etc.
E. Berneker22, E. Cupi23, K. Būga24, G. Ševelnov25 e outros tendiam a considerar que o ditongo au das línguas bálticas provinha de um ditongo ide. com um grau de ablaut diferente do do ditongo eu. J. Endzelin26 também não excluía a possibilidade de ablaut. Assim, por exemplo, o lituano tautā deveria ser derivado não de ide. *teutā, mas de ide. *toutā ou *tautā.
É preciso mencionar separadamente a opinião de J. Otrębski27, segundo a qual o continuante normal do ditongo ide. eu nas línguas bálticas (orientais) seria au precedido de uma consoante dura. Nas línguas eslavas, devido à palatalização precoce das consoantes diante de vogais anteriores, o ide. eu teria se transformado em *jau (do qual surgiu mais tarde ju). Como o ditongo ide. eu mudou nas línguas bálticas antes da palatalização das consoantes (isto é, as consoantes diante de vogais anteriores e de j ainda deveriam ser duras), o ditongo em que eu se transformou teria de ser au precedido de uma consoante dura. J. Otrębski fundamenta aqui uma hipótese (a transformação de eu em au) em outra hipótese (a dureza e a palatalização das consoantes). Muitos vocábulos lituanos e letões, cujo ditongo já deriva claramente do ide. eu, contradizem sua concepção.
Nas línguas bálticas e eslavas ocorrem com bastante frequência casos em que a mesma raiz tem duas variantes — uma com jau, a outra com au (eslavo ju e u). O lituano kiáunė e o letão caune (c- de *kj-) têm jau na raiz, enquanto o prussiano antigo caune e o russo куна́ têm au. Algumas línguas eslavas têm ju (cf. russo antigo плюща «pulmões» e tcheco antigo plučé), e outras, u (cf. eslavo antigo plušta e polonês płuca). Os exemplos das línguas bálticas mostram que se trata aqui do vocalismo da raiz em grau o; comparem-se lituano plaučiai, letão plāušas e prussiano antigo plauti. Se admitíssemos que, em certos casos, o ide. eu se transformou regularmente em au nas línguas bálticas e em u nas eslavas, esses fatos nos obrigariam a supor que essa transformação ocorreu muito tardiamente, já nas línguas individuais. É evidente que isso não poderia ter acontecido. O empréstimo finlandês laukk(i) mostra que, na época dos contatos entre os povos bálticos e fino-úgricos, as línguas bálticas já tinham au em lugar do eu de outras línguas indo-europeias.
20 И. Эндзелин, Славяно-балтийские этюды, p. 83; J. Endzelin, Lettische Grammatik, p. 40—41.
21 Essa concepção foi aceita por V. Vondrakas e A. Vaillantas, W. Vondrák, Vergleichende slavische Grammatik, I, p. 41; A. Vaillant, Grammaire comparée des langues slaves, I, p. 122—124.
22 “Os poucos casos em que au e u parecem corresponder podem ser descartados supondo-se um ablaut diferente”, — E. Berneker, IF, 10, 1899, p. 167.
23 E. Zupitza, op. cit., p. 250—251.
24 K. Būga, RR, II, p. 348.
25 G. Y. Shevelov, A Prehistory of Slavic, p. 272—275.
26 И. Эндзелин, Славяно-балтийские этюды, p. 82; J. Endzelin, Lettische Grammatik, p. 41.
27 J. Otrębski, LP, 4, 1953, p. 308—312; Я. С. Отрембский, Славяно-балтийское языковое единство, ВЯ, 5, 1954, p. 31—32.
71
Se supuséssemos que a mudança de ide. eu nas línguas bálticas e eslavas foi um processo regular e ocorreu nas comunidades linguísticas báltica e eslava, de modo algum poderia ter surgido já (ou, respectivamente, ju) em algumas línguas e au em outras.
Essa variação mostra que ou o vocalismo o foi herdado da comunidade linguística ide., ou surgiu em línguas separadas por meio de analogia estrutural. Como, por exemplo, ao lado do pr. caune não havia uma forma com outro grau de apofonia e, por isso, a analogia estrutural não era possível, a palavra prussiana só poderia derivar da raiz *kou-.
Nas línguas bálticas (e eslavas), o ide. eu já se transformou em jau, formando-se a alternância vocálica jau: au: u (ide. eu: ou: u). Em muitos casos, a consoante palatalizada substituiu a não palatalizada que precedia o grau u. Por exemplo, em lituano, griūti surgiu em lugar do esperado *grūti, por influência de griáuti < *grēu-. A consoante palatalizada foi generalizada também nas formas em que, devido à apofonia, surgiu o, cf. griovė em lugar do esperado *grovė < *grōu-.²⁸
Também é possível imaginar o processo inverso: a consoante não palatalizada que precedia o grau u poderia ter substituído a consoante palatalizada. Por exemplo, pode-se supor que o letão laukas (com l- não palatalizado) surgiu em lugar de *liaukas por influência de uma palavra báltica desse tipo (cf. pr. luckis «lasca»), na qual l- não palatalizado era regular. No entanto, palavras como pr. peuse e lituano pušis, pr. caune e lituano kiáunė não permitem essa hipótese. Embora na comunidade linguística báltica, ao lado de peuse, também existisse pušis, peuse não se transformou por isso em *pause. Pela mesma razão, pr. caune tampouco poderia ter surgido de *kiaune por analogia, pois não há palavra em que a consoante precedesse o grau u.
Tudo isso mostra que as alternâncias com au já presentes em palavras desse tipo, como lituano kiáunė: pr. caune, devem ser explicadas por razões fonomorfológicas.
Talvez os empréstimos do finlandês de origem báltica também corroborem essa conclusão. Pode-se supor que os finlandeses tomaram emprestadas as palavras leuka e laukki ao mesmo tempo, pois ambas estão relacionadas a designações de características de seres vivos. Esses empréstimos mostram que, no momento do empréstimo, 1) nas línguas bálticas já existia au em lugar do eu de outras línguas ide. e 2) o ditongo eu ainda não havia se transformado em jau. O ditongo eu transformou-se em jau muito depois de eu ter passado a au. Assim, os processos eu > au e eu > jau provavelmente não estavam relacionados nem cronológica nem estruturalmente.
Os fatos mencionados parecem permitir derivar do grau o da raiz uma parte das palavras das línguas bálticas e eslavas que têm au ou u em lugar do eu de outras línguas ide.; cf.:
*kēu-g-: lituano kiáugė e *kōu-g-: lituano káugė, letão kaudze, nórdico antigo haugr «colina»; *kēu-n-: lituano kiáunė, letão caūne e *kōu-n-: pr. caune, russo куча; *leu-k-: grego λευκός, gótico liuha «luz» e *lou-k-: lituano laukas, letão lāuks, latim lūc-idus «claro», grego λούσσον (-σσ de *-kj-) «cerne branco do abeto»; *leu-k-: lituano liaukà, liaūkti, letão lauku, grego λεύκη e *lou-k-: letão laukas; *leu-|*lēu-: lituano liáutis, liav-ōnas, letão laut «deixar», tcheco leviti «libertar», gótico lēwjan «abandonar à própria sorte» e *lou-|*lōu-: lituano lavōnas, pr. au-lāut «morrer»; *pleu-: russo antigo pljuća «pulmões», tcheco antigo pljuće, grego πλεύμων e *plou-: lituano plaučiai, letão plaušas, pr. plauti, eslavo antigo plušta, polonês płuca; *reu-d-: inglês antigo réod «avermelhado», grego ἐρεύθω «fico vermelho» e *rou-d-: lituano raūdas, raud-ōnas, letão rauds, eslavo antigo ruda «minério», russo румяный (rum- de *raud-m-); *sreu-: lituano sriaumuō, grego ῥεῦμα «corrente» (ῥ- de *sr-) e *srou-: lituano srav-ėti, sraumuo, letão strāume, russo antigo strumenь «riacho» (stru- de *srau-);
²⁸ Talvez por razões semelhantes e outras pouco claras, o r de alguns dialetos lituanos (em certas formas) é palatalizado, enquanto o de outros não; veja Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, p. 153–156.
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*teut-: gótico piuda «povo», ilírio (nome pessoal) Teuta e *tou-t-: lituano tautà, letão tāuta, prussiano tauto, osco touto «Estado», galês tūd «país» (tū- de *tou-), irlandês antigo tuath «povo» (tua- de *tou-).
É preciso acrescentar que apenas uma parte das palavras bálticas e eslavas com vocalismo radical o pode remontar à época da comunidade linguística indo-europeia. Isto se aplica, por exemplo, à palavra lituana tautà e aos seus cognatos: alguns dialetos indo-europeus podem ter tido o grau *teu-, e outros, o grau *tou-. Contudo, as variantes da maioria das palavras com os graus e e o da alternância vocálica podem ter-se formado já nas línguas bálticas e eslavas, pois a alternância vocálica nas línguas bálticas (por exemplo, no lituano) continua viva até hoje. Assim, alguns dialetos bálticos tinham a palavra kiáunę com o grau e da alternância vocálica, e outros, com o grau o (cf. prussiano caune).
Em algumas palavras lituanas, o ditongo au pode, de fato, estar no lugar do indo-europeu eu. Formas do presente como keičia, sėka (pasaka) etc., cuja raiz tem vocalismo de grau e, mostram que também nas formas baudžia, plaukia, smaukia deve haver vocalismo de grau e, pois os verbos iterativos-causativos normalmente têm vocalismo de grau o; cf. kaityti, sakyti e baũdinti, plaũkyti, smaũkyti. Que o antigo ditongo radical nessas formas do presente era eu é demonstrado também por palavras correspondentes de outras línguas indo-europeias; cf. lituano baudžia e eslavo antigo bljūsti, lituano plaukia e alto-alemão antigo fliogen «voar» (io de eu), lituano smaukia e nórdico antigo smjūga «infiltrar-se, escorregar» (ju de eu). Nas formas antigas *beudja, *pleukja e *smeukja, o ditongo radical eu foi substituído por au não porque o indo-europeu eu se tivesse transformado regularmente em au nas línguas bálticas, mas, ao que parece, porque o vocalismo dessas formas do presente se ajustou ao de outras formas da mesma raiz com vocalismo o.
Assim, pode-se supor que, com exceção de alguns verbos nos quais ou provavelmente surgiu por analogia no lugar do mais antigo eu, o ditongo indo-europeu eu não se transformou em au nas línguas bálticas (e eslavas). Todas essas palavras bálticas e eslavas cuja raiz contém au ou u no lugar do eu de outras línguas indo-europeias provavelmente derivam de formas com vocalismo de grau o.
O ditongo indo-europeu eu transformou-se regularmente em jau ou ju nas línguas bálticas e eslavas. Considera-se que esse fenômeno fonético é uma inovação das línguas bálticas e eslavas, indicativa da estreita relação entre elas e favorável à teoria da unidade linguística báltico-eslava.
A transformação do indo-europeu eu em jau ou ju só pode ser considerada argumento em favor da unidade linguística báltico-eslava se o indo-europeu eu se tivesse transformado em jau ou ju durante o período da unidade báltico-eslava. No entanto, aparentemente não há fundamento para considerar esse fenômeno fonético tão antigo.
Não se pode afirmar com certeza que a transformação do indo-europeu eu em jau fosse comum a todas as línguas bálticas. É difícil determinar, a partir dos monumentos da língua prussiana, qual era nela o reflexo do ditongo indo-europeu eu. As grafias do tipo bleusky no vocabulário de Elbing são ambíguas. Alguns pesquisadores consideram29 que a grafia eu representa o ditongo au após uma consoante palatalizada. Assim, também na língua prussiana o indo-europeu eu teria passado a jau. R. Trautmann chama a atenção também para uma grafia semelhante de jau nos antigos monumentos da língua lituana, por exemplo, gereus em vez de geriaus nos escritos de M. Daukša30. Outros sustentam a opinião31 de que o eu prussiano representa, de fato, o ditongo eu, e não jau. Segundo eles, na língua prussiana o indo-europeu eu foi conservado sem alteração.
29 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 148—149; J. Endzelīns, Prūsų tekstu grafika, FBR, 15, 1935, p. 97—98; Senprūšu valoda, p. 30; V. Mažiulis, Prūsų kalbos paminklai, Vilnius, 1966, p. 54—55.
30 R. Trautmann, op. cit., p. 148.
31 J. Otrębski, LP, 4, 1953, p. 308—312.
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Citado por todos os pesquisadores como argumento, o pr. iaukint (= liet. jaukinti) supostamente mostra que, em prussiano, o ide. eu também se transformou em iau. Esse argumento, porém, não é confiável, pois a palavra também poderia ter tido a raiz *ouk- (не *euk-). O vocalismo da raiz o é precisamente adequado ao sentido causativo do verbo pr. iaukint e do liet. jaukinti. Que j- pode ser protético aqui é demonstrado pelo s. esl. učiti (u- de *au-) e pelo s. ind. ókah ‘casa’.
As palavras que no glossário de Elbing são grafadas com o dígrafo eu (ew) são as seguintes: bleusky 286, geauris 757 (cf. liet. giaurÿs LKŽ, III, 282), gleuptene 247, keutaris 762, keuto 156, 497 (cf. liet. kiáutas), peuse 597, skewre 685 (cf. liet. kiáglė). Chama a atenção o fato de que aqui nunca aparecem, antes desse dígrafo, as grafemas i, y ou g, que poderiam ser interpretadas como marcas de palatalização das consoantes. Seria precisamente de esperar tal notação gráfica se, nessas palavras, o prussiano tivesse tido a sequência iau. É verdade que as grafemas mencionadas também aparecem por vezes no glossário de Elbing antes de vogais anteriores; cf. plieynis 38 ao lado de pleynis 75. Por isso, convém atentar para a grafia da palavra keuto: nas duas ocorrências, ela está registrada da mesma maneira, isto é, com o dígrafo eu. Tudo isso parece indicar que, nas palavras mencionadas do glossário de Elbing, havia o ditongo eu.
Partindo do fato de que, em prussiano, a sequência *sj se tornou š (cf. schuwikis 496, schu-meno 507, schuwan 471), costuma-se supor que, em prussiano, j também desapareceu após outras consoantes (dentais e velares), palatalizando-as³². Algumas grafias, contudo, em especial o uso da grafema g, parecem indicar que, nesse caso, se representava de fato o som j; cf., por exemplo, angurgis 565, ansalgis 506, kargis 410, saligan 468, wargien 525 (cf. cugis 518 = liet. kūjis, em que a grafema g representa o som j). É muito duvidoso que, aqui, a grafema g representasse a palatalização das consoantes³³. Como mostram o lituano e o letão, j não precisava necessariamente desaparecer ao mesmo tempo em todas as posições: em alguns casos (por exemplo, após t, d), desapareceu antes; em outros (por exemplo, após consoantes labiais), mais tarde; o resultado desse desaparecimento foi diferente numas posições e noutras. Portanto, a alteração da sequência *sj de modo algum demonstra que também se tenham alterado as sequências de j com outras consoantes. É verdade que os próprios defensores da hipótese da palatalização das consoantes “iotizadas” não excluem de todo que, após consoantes labiais, j ainda existisse em prussiano³⁴. Nesse caso, a grafia do glossário de Elbing é a seguinte: piuclan 547 (no início da palavra), kalabian 424, tarbio 325, knapios 268, wupyan 9, wormyan 465, samyen 235, clawio 375, perwios 281. Para determinar se em prussiano ainda havia o ditongo eu, ou se os dialetos prussianos já tinham jau em seu lugar, não é tão importante saber o que representam as grafias bia, bio, piu, pio, pya, mya, mye e wio: uma sequência de consoante labial com j ou uma consoante labial palatalizada antes de vogais posteriores. O importante é que a representação gráfica dessa posição difere da representação gráfica da posição análoga na palavra peuse: se o ditongo eu tivesse se tornado jau em prussiano, também aqui (isto é, na palavra peuse) esperaríamos uma representação gráfica semelhante de uma consoante labial (com j ou palatalizada) antes de uma vogal posterior (*pjau, *pyau ou *pyeu). Será que a representação gráfica diferente não reflete apenas um complexo fonético diferente (nos exemplos dados acima, pja ou p’a..., e na palavra peuse—pe)? Ao tratar da interpretação fonética da grafia dos monumentos da língua prussiana, vale lembrar também como J. Endzelynas explica a grafia pvienkts do segundo catecismo. Ele conjectura que
32 J. Endzelins, Prūšu tekstu grafika, p. 96–98; T. Milewski, Przyczynki do gramatyki pruskiej, „Slavia Occidentalis“, 15, 1936, p. 102–108; V. Mažiulis, op. cit., p. 54–55.
33 Cf. a explicação duvidosa de J. Endzelynas para a palavra wargien: “je te vēl iesprausts aiz g varbūt tāpēc, lai g-burtu te kas nelasītu ka vēlāro balsīgo šļēdeni“, — J. Endzelins, op. cit., p. 97.
34 J. Endzelins, op. cit., p. 98; V. Mažiulis, op. cit., p. 55.
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aqui, após uma consoante labial, poderia ter surgido j35. Assim, j poderia ser representado até mesmo antes de vogais anteriores.
De modo inteiramente análogo, no glossário de Elbing também se representam as demais consoantes (com j ou palatalizadas) antes de vogais posteriores; cf. maldian 438, median 586, medione 699, brunyos 419, dragios 386 etc. Da mesma maneira, deveriam ser representadas nas palavras keutaris, keuto, skевre, geauris, se essas consoantes estivessem aqui diante de vogais posteriores. Além disso, convém atentar para o fato de que, no glossário de Elbing, as grafemas i, y geralmente não são escritas após consoantes antes de vogais anteriores (cf. deywis 1, deynayno 5, metis 166 etc.), exceto, naturalmente, alguns casos isolados (como plienis 38 ao lado de pleynis 75, geyте 339 etc.). Assim, também nas palavras mencionadas que contêm o dígrafo eu (ew), provavelmente havia uma vogal anterior e, portanto, o ditongo eu.
Ao mesmo tempo, fica claro que não existem dados concretos que indiquem que a transformação do ide. eu em ditongo jau tenha sido um fenômeno comum a todas as línguas bálticas.
No momento da mudança do ditongo ide. eu, as línguas bálticas (orientais) e eslavas encontravam-se em situações fonológicas completamente diferentes: nas línguas bálticas, essa mudança estava ligada a certos processos fonológicos, enquanto nas línguas eslavas estava ligada a processos inteiramente distintos.
A transformação fonética de eu em jau pressupõe o alargamento e a posteriorização da vogal e na posição diante de u (primeiro, ao que parece, nos casos em que essa vogal tinha entoação aguda), isto é, e→ā. Que tal fenômeno fonético é possível demonstra-o o lituano, no qual se observam casos em que a vogal e se alarga e se posterioriza antes de u ou v; cf. kliāvas ir klēvas de muitos dialetos. Antes de v (u), os samogícios pronunciam em muitos lugares a, acompanhado por uma consoante palatalizada. Aqui, até mesmo no lugar de ē, resultante de ei, pronuncia-se a; cf. kr’āus ‘torto’³⁶, š’āvā ‘torta’. O a surgido de e antes de u poderia, foneticamente, ter sido muito próximo da vogal a, que também ocorria antes de u (proveniente dos antigos ditongos āu ir ōu); após j, a vogal a poderia até mesmo coincidir completamente com ā. Quando a vogal o se tornou a, as vogais a e ā tornaram-se variantes do fonema /a/. Desse modo, a variante ā poderia ter sido fonemizada; dito de outro modo, no lugar do manifestante do fonema /e/ no segmento CāuC (C representa consoantes), surgiu o manifestante do fonema /a/, isto é, CāuC → C’auC.
As consoantes que precediam as vogais anteriores já então deviam diferir das consoantes que precediam as vogais posteriores. As primeiras eram palatais; as segundas, velares. A posição antes de j era provavelmente neutra. Após as mudanças mencionadas acima, as consoantes palatais passaram a estar diante da vogal posterior a. Essa situação não poderia perdurar, pois contrariava todo o sistema, no qual as consoantes palatais ocorriam apenas antes de vogais anteriores, e as vogais posteriores, apenas após consoantes velares. Essa anomalia poderia ter sido eliminada de duas maneiras: 1) C’auC deveria tornar-se CauC (antes de uma vogal posterior só é possível uma consoante velar); 2) C’auC deveria tornar-se CjauC (antes de uma vogal posterior, uma consoante palatal só é possível antes de j). A realização da primeira possibilidade envolvia dificuldades maiores do que a da segunda: nessa posição, as consoantes teriam de passar da classe das consoantes palatais para a classe das velares. Embora houvesse uma relação de distribuição complementar entre as classes das consoantes palatais e velares, a realização da primeira possibilidade ainda assim teria representado uma mudança radical no sistema. Provavelmente por isso se realizou a segunda possibilidade, pois, além disso, sua realização era conciliatória: a posição antes de j era neutra, portanto
35 J. Endzelīns, op. cit., p. 96.
36 Z. Zinkevičius, Lietuvių dialektologija, p. 51.
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Aqui, as consoantes não eram nem palatais nem velares (resp., eram tanto palatais quanto velares). A inserção de um jote eliminou a contradição que se havia formado no sistema.
Além disso, em alguns casos, sobretudo quando coexistia uma variante da raiz com o ditongo au (e ou), uma raiz do tipo C’auC- podia facilmente ser substituída por uma raiz do tipo CauC-. Foi provavelmente o que aconteceu nos verbos; compare-se daužia em vez do regular *djaūžia, segundo daužyti.
Na protolíngua eslava, a monoftongação do ditongo eu associada a uma consoante palatal precedente estava ligada à formação de fonemas grupais compostos. Durante a formação de fonemas grupais compostos, os sonantes (incluindo u) juntavam-se aos fonemas desse tipo que os precediam e tornavam-se silábicos, pois o elemento silábico era, em geral, o último elemento do fonema grupal. Mais tarde, quando os traços diferenciais «abertura: fechamento» foram transfonologizados em traços diferenciais «longura: brevidade», as vogais, já não silábicas, tornaram-se indicadores redundantes da diese e, por isso, desapareceram facilmente.
Com a transformação do fonema grupal C’eu em C’+u, surgiu na fonologia da protolíngua eslava um caso singular: uma consoante dieseica diante de uma vogal bemólica. A contradição entre a consoante dieseica e a vogal bemólica que a seguia podia ser eliminada mediante a formação de fonemas grupais neutros. As consoantes neutras assim surgidas (nem dieseicas nem bemólicas) (por exemplo, b) deviam coincidir com as consoantes neutras já existentes no sistema (por exemplo, b de bjV) e produzir os mesmos reflexos. Provavelmente por isso, os reflexos das consoantes que ocorriam tanto antes de j quanto antes do ditongo eu são idênticos em todas as línguas eslavas37.
Assim, a interpretação fonológica da transformação do indo-europeu eu em jaū nas línguas bálticas e em ’u nas línguas eslavas confirma definitivamente a conjectura intuitiva de que essa mudança foi um fenômeno inteiramente independente nas línguas bálticas e eslavas. O ditongo indo-europeu eu mudou nas línguas bálticas e eslavas não apenas sob condições sistêmicas distintas e sob a influência de fatores sistêmicos distintos, mas também foi distinta a essência fonética dessa mudança: nas línguas bálticas (orientais), eu tornou-se jaū, enquanto nas línguas eslavas se tornou simplesmente ’u. O destino do ditongo indo-europeu eu é um exemplo evidente do desenvolvimento paralelo das línguas bálticas e eslavas. Esse exemplo mostra que as tendências comuns de desenvolvimento das línguas bálticas e eslavas, favorecidas pelo contato geográfico, continuaram a existir também em etapas posteriores da história dessas línguas.
Destino dos sonantes silábicos indo-europeus
Os sonantes silábicos indo-europeus l, r, m, n (doravante representados por R) transformaram-se nas línguas bálticas e eslavas em il, ir, im, in ou, mais raramente, em ul, ur, um, un (doravante representados por iR e uR). Seu destino idêntico aproxima ainda mais as línguas bálticas e eslavas.
Os sonantes breves indo-europeus R transformaram-se em iR ou uR (com circunflexo); compare-se:
a) lituano vilkas, letão vilks, prussiano wilkis, eslavo eclesiástico antigo vlъkъ, russo волк, servo-croata vuk (do eslavo *vьlkъ): sânscrito vṛ́kaḥ, gótico wulfs, grego λύκος, latim lupus;
prussiano kirsnan «negro» (cf. lituano Kirsna, afluente do Šešupė), eslavo eclesiástico antigo čьrnъ, russo чёрный (do eslavo *čьrnъ): sânscrito kṛṣṇáḥ «negro»;
lituano šimtas, letão simts, eslavo eclesiástico antigo sъto (provavelmente um empréstimo das línguas iranianas): sânscrito śatám (śa- do indo-europeu *k’ṃ-), grego ἑκατόν (-κα- do indo-europeu *k’ṃ-), tocariano kānt(e), latim centum, gótico hund;
37 В. К. Журавлев, Развитие группового сингармонизма в праславянском языке, Минск, 1963, р. 29–41.
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lituano mintis (acus. sing. minti), at-mintis, latim mit «pensar, adivinhar», prussiano antigo po-minisnan «memória», eslavo antigo pa-mętъ (ę de bn): sânscrito matíh (-a- de n) «intenção, desejo; oração», latim mens mentis «espírito, mente», gótico munš «pensamento»;
b) lituano kulnas (e kulnis, acus. sing. kūlni), letão kulna «calcanhar», prussiano antigo kulnis «tornozelo», eslavo antigo klъka «cavidade do joelho», búlgaro kъlka «coxa», servo-croata kūk (do eslavo *kъlk-): latim calx «calcanhar», tocariano A kolye «coxa»; prussiano antigo curwis «boi»: lituano kárvė, eslavo antigo krava, russo корова, grego κέρας «chifre»: as palavras lituana, eslava e grega apresentam a raiz no grau pleno *kerH-/*korH-; latim cornu «chifre», gótico haúrn «chifre», de *kṛH-; lituano ungurys (gen. sing. ūngario): prussiano antigo angurgis, russo угорь (у- de *ang-), raiz *ng-/*ong-.
As sonantes longas indo-europeias R̄ (de indo-europeu *RH) transformaram-se em iR ou uR (com acento agudo); compare-se:
a) lituano vilna, letão vīna, prussiano antigo wilnis e wilna «saia; casaco», eslavo antigo vъlna, servo-croata vūna (do eslavo *vъlna): sânscrito ūrṇā, avéstico varəna, grego λῆνος, latim lāna, gótico wulla (do germânico *wulna); lituano žirnis, letão zirnis, prussiano antigo syrne «grão», eslavo antigo zrъno, russo зерно (do eslavo *zьrno): latim grānum (rā de indo-europeu *ṛH), gótico kaúrn «cereal»; lituano pintì, letão pīt, eslavo antigo peti (ę de bn, mas também pode ser de en; compare-se o eslavo antigo mrěti, presente mьrǫ), presente pьnǫ: armênio henum «teço, entrelaço», latim pendere «pesar, avaliar»; compare-se ainda o lituano pántis; b) lituano gurklỹs (gen. sing. gūrkliō), prussiano antigo gurcle «garganta» (do báltico *gur-tl-), russo antigo gъrlo (russo горло), polonês gardło (do eslavo *gъr-dl-): sânscrito gūrtáh «esperado, agradável», latim gurges «redemoinho», gurgulio «traqueia»; compare-se também lituano gūrkšnis, gerklė, gargaliuoti; lituano mùlkis, letão muļķis: sânscrito mūrkháh «tolo».
As sonantes indo-europeias R nas línguas bálticas e eslavas transformaram-se em iR e uR não apenas em posição pré-consonântica, mas também em posição pré-vocálica; compare-se:
lituano pilìs, letão pils, prussiano antigo (topônimos) Pill-aw, Pille-kaym: sânscrito pūḥ (acus. sing. pūr-am) «muralha defensiva», grego πόλις «cidade»; lituano girìà, letão dzira (e dzire) «floresta»: sânscrito giríh «montanha»; prussiano antigo garian, garrin «árvore» e eslavo antigo gora «montanha» apresentam outro grau apofônico (*gor-); lituano gun-ioti, gūn-yti «perseguir, enxotar», prussiano antigo gun-twei, eslavo antigo gъn-ati «impelir», lituano giñti, letão dzīt (i de in), eslavo antigo žęti (ę de ьn ou en), presente žьnǫ «colho (cereais)»: lituano gan-ýti, letão gan-īt, eslavo antigo gon-iti.
Os dados apresentados mostram que as sonantes silábicas indo-europeias R se transformaram, nas línguas bálticas e eslavas, ora em iR, ora em uR. Surge a questão de que dependia a distribuição das vogais de apoio i e u. Não há uma resposta única para essa questão. J. Endzelin¹, J. Mikola², K. Būga³, R. Trautmann⁴ e outros tendiam a explicar o surgimento de i ou u por meio da apofonia. Segundo essa concepção, iR surgiu de eR,
¹ I. Endzelin, Estudos eslavo-bálticos, p. 3—24.
² J. J. Mikkola, Urslavische Grammatik, I, p. 68—71; compare-se Woher lit. jau und slav. ju?, IF, 16, 1904, p. 99.
³ K. Būga, RR, II, p. 128—129, 260—264.
⁴ R. Trautmann, Viennes baltų slavėnų gramatikos bruožas, „Švietimo darbas“, 1922, 3—6, Kaunas, p. 271—272; Ein Kapitel aus der Lautlehre der baltisch-slavischen Sprachen, „Slavia“, 2, 1923.
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do ditongo eR do grau zero, e uR — do oR, do ditongo oR do grau zero. Assim, nas línguas bálticas e eslavas, os reduzidos e e o transformaram-se nas vogais plenas i e u.
Nas línguas bálticas, em muitos casos iR alterna com eR, e uR — com aR, cf. girtas: gérti (mas cf. gurklys), gilti: gėlti, kilti: kėlti; kūlti: kūlti, kūmpas: kampas, pr. curwis: liet. karvė. Contudo, há casos em que iR pode aparecer ao lado de aR, e uR — ao lado de eR, cf. miltai: málti, liet. minia: got. manags «muito», liet. giria: pr. garian, s. sl. gora, pr. gulsennin «dor»: liet. gėlti. Em formas de uma mesma raiz, iR e uR podem aparecer lado a lado, cf. tilpti: telpa: talpinti: tūlpinti.
Os casos em que iR aparece ao lado de aR, e uR — ao lado de eR, não contradizem a concepção dos autores mencionados, pois, por exemplo, ao lado de *m̥n- e *mon- (cf. liet. minia e got. manags), poderia ter existido antigamente também *men-, cujo grau zero poderia ser liet. minia.
Por isso, dificilmente é possível tanto refutar como fundamentar com fatos a teoria da alternância vocálica.
É pertinente levantar a questão de por que nas línguas bálticas e eslavas surgiram justamente as vogais i e u diante de sonantes silábicos, mas não, por exemplo, as vogais e ou a, como em outras línguas indo-europeias. Na comunidade linguística báltica existiam os ditongos eR e oR, herdados da época indo-europeia. Por isso, aparentemente, também não poderiam ter surgido e e o (liet. a) diante de sonantes silábicos.
No sistema báltico de vogais breves de quatro elementos
i u e o,
comparando-o com o sistema dos primeiros elementos dos ditongos
e(R) o(R),
os membros não marcados eram as vogais i e u, pois os primeiros elementos dos ditongos eram apenas as vogais e e o. Portanto, os primeiros elementos dos ditongos resultantes de sonantes silábicos só poderiam ser as vogais não marcadas i e u.
Do que foi dito, vê-se que a distribuição de iR e uR poderia depender das formas do grau pleno da alternância vocálica, ou seja, dos ditongos eR e oR: iR (de R) poderia ter surgido nas formas ao lado das quais existiam formas da mesma raiz com o ditongo eR (cf. kil-ti: kel-ti), enquanto uR (de R) — naquelas formas ao lado das quais havia formas com o ditongo oR (cf. kūl-ti: kūl-ti). Se a raiz apresentava a alternância eR/oR, então em suas formas poderiam surgir tanto iR como uR (cf. liet. tém-ti: lat. tim-sa: liet. tamša: lat. tūm-sa).
K. Brugman, A. Vaillant, J. Kurilowicz, G. Shevelov e outros consideravam que o surgimento da vogal anaptítica i ou u dependia do ambiente fonético. K. Brugman⁵ observou que a vogal u surgia depois de consoantes labiais e velares. Essa afirmação não foi devidamente fundamentada com dados das línguas bálticas e eslavas. A explicação de K. Brugman baseava-se em dados do antigo indiano e do grego, pois nessas línguas ocorre ul e ur depois de consoantes labiais e velares.
A. Vaillant⁶ considera que, nas línguas bálticas e eslavas, a vogal anaptítica u deriva do elemento vocálico das consoantes labiovelares indo-europeias kʷ, gʷ, gʷʰ. Por exemplo, o báltico e eslavo *gen-: *gun- (cf. liet. gėna: gunióti, gūnyti e s. sl. ženą: gʷona-ti) teria surgido do indo-europeu *gʷʰen-: *gʷʰn- (ou seja, *gʷʰn- > *gʷʰn- > *gun-). Assim, segundo A. Vaillant, nas línguas bálticas e
5 K. Brugmann, Kurze vergleichende Grammatik der indogermanischen Sprachen, Berlin und Leipzig, 1922, p. 123.
6 A. Vaillant, Grammaire comparée des langues slaves, I, p. 171.
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nas línguas eslavas, a vogal anaptítica u surgiu após consoantes labiovelares, enquanto a vogal i surgiu após todas as restantes.
J. Kurilovičius⁷ pensa de modo semelhante. Segundo ele, os sonantes silábicos R nas línguas bálticas e eslavas transformaram-se em uR não apenas depois de consoantes labiovelares, mas também depois de consoantes puramente velares (IE k, g, gh), e, depois de todas as demais consoantes, em iR. J. Kurilovičius fundamenta essa sua concepção na premissa de que a palatalização das consoantes nas línguas bálticas e eslavas é um fenômeno mais antigo do que a vocalização dos sonantes silábicos. J. Kurilovičius considera que a passagem de R a iR nos grupos kR e gR teria sido provocada pela mudança de k e g em k’ e g’. Contudo, como as consoantes velares não podiam palatalizar-se antes de R e, por isso, eram duras, a coloração vocálica do sonante silábico só poderia ser de série posterior (isto é, u).
Os dados estatísticos apresentados por J. Kurilovičius⁸ não correspondem inteiramente às suas afirmações, pois uR apresenta, depois de outras consoantes, um número de exemplos não inferior ao que ocorre depois de consoantes velares. Assim, uR ocorre em 35,6% dos exemplos depois de k e g, em 34,8% depois de m e em 33,3% depois de n. A mesma percentagem de exemplos que depois de n ocorre também depois de j. A maior parcela dos exemplos (44,4%) apresenta o ditongo uR depois da consoante s. Em todos os demais exemplos, encontra-se iR.
As relações de distribuição originais de iR e uR podem ter-se confundido no desenvolvimento da língua. Assim, a alternância vocálica eR: R depois das consoantes velares duras transformou-se regularmente em eR: uR (cf. lituano gerklė: gurklys, do báltico *ger-tl-: *gur-tl-). Como depois de todas as demais consoantes havia a alternância eR: iR e, por ser mais frequente, ela podia generalizar-se, ao lado de formas com uR depois das consoantes velares duras, podiam facilmente surgir formas com iR (cf. lituano girtas).
Após examinar a questão da distribuição de iR e uR, G. Shevelov chegou às seguintes conclusões⁹:
a) depois das consoantes velares palatalizadas, R transformou-se em iR;
b) entre as consoantes velares não palatalizadas (incluindo as labiovelares), R transformou-se em uR;
c) depois das consoantes velares, antes das não velares, o reflexo fonético de R era uR;
d) depois das consoantes labiais, antes das velares, o reflexo fonético de R era uR;
e) depois das consoantes labiais, antes das velares não palatalizadas, e depois das consoantes dentais (incluindo s), antes de qualquer consoante, R transformou-se em iR.
Um argumento convincente a favor da teoria do ambiente fonético é o fato de que, nas línguas bálticas e eslavas, uR quase não ocorre depois das consoantes š e ž (do IE k’ e g’). Os poucos exemplos encontrados (cf. lituano šultis, žulsnūs) são provavelmente de origem tardia. Esse fato permite supor que, durante a passagem dos sonantes silábicos R a iR e uR, as línguas bálticas e eslavas ainda conservavam k’ e g’, ou já os tinham transformado em š e ž (possivelmente, š e ž). E k’, g’, rš, ž deviam ser muito palatalizados.
Portanto, com base na teoria do ambiente fonético, é preciso reconhecer que, nas línguas bálticas e eslavas, a evolução regular dos sonantes silábicos do IE foi R > iR. Já a evolução R > uR, dependente do ambiente fonético (depois de k e g), constituía uma anomalia.
⁷ J. Kuryłowicz, L’apophonie en indo-européen, Wrocław, 1956, p. 227—243; O jedności językowej bałto-słowiańskiej, BPTJ, 16, 1957, p. 81—94; O балто-славянском языковом единстве, ВСЯ, 3, 1958, p. 23—24.
⁸ J. Kuryłowicz, L’apophonie en indo-européen, p. 229 (išnaša).
⁹ G. Y. Shevelov, A Prehistory of Slavic, p. 90.
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A vogal u surgiu após certas consoantes antes de sonantes silábicos também em outras línguas indo-europeias. Na opinião de V. Georgiev10, os sonantes silábicos indo-europeus após consoantes palatais tornaram-se uR em tocariano (após todas as outras — āR). No indiano antigo, após consoantes labiais e, ao que parece, antigas labiovelares, r antes de vogais tornou-se ur11. No mesmo ambiente fonético, l e r tornaram-se ul e ur também em grego.
No entanto, não há aqui qualquer relação genética entre as línguas bálticas e eslavas, tocarianas, indo-iranianas e gregas, pois não pode haver dúvida de que, após certas consoantes, a vogal u antes de l e r surgiu independentemente em cada língua.
Nas demais línguas indo-europeias, também surgiu uma vogal i antes de sonantes. Assim, em albanês, antes de vogais o R indo-europeu tornou-se não só iR, mas também Ri12. Nas línguas célticas, antes de consoantes, a vogal i surgiu após os sonantes l e r13. Não se pode falar de relação genética entre as línguas bálticas, eslavas, albanesa e célticas, pois as circunstâncias em que surgiu uma vogal i junto ao sonante foram diferentes em cada língua: nas línguas bálticas e eslavas, iR surgiu tanto antes de vogais como antes de consoantes, enquanto, em albanês, apenas antes de vogais; nas línguas bálticas e eslavas, a vogal i surgiu antes dos sonantes, e nas línguas célticas, depois deles.
A língua pelásgica apresenta a reflexação mais semelhante dos sonantes silábicos indo-europeus: aqui, os sonantes silábicos, tal como nas línguas bálticas e eslavas, tornaram-se iR ou uR14. Contudo, não se pode demonstrar uma relação genética entre este fenômeno nas línguas bálticas e eslavas e na língua pelásgica, pois não se conhece a distribuição de iR e uR na língua pelásgica. O fato de que, em certos casos, também surgiram na língua pelásgica lu, ru e om, on provavelmente indica que a reflexação dos sonantes silábicos indo-europeus nas línguas bálticas e eslavas e na língua pelásgica ocorreu independentemente.
Tudo o que foi dito permite supor que a transformação dos sonantes silábicos indo-europeus R em iR ou uR é uma inovação das línguas bálticas e eslavas.
Nenhuma outra língua indo-europeia apresenta a mesma reflexação dos sonantes silábicos que as línguas bálticas e eslavas. Quanto a essa reflexação, as línguas bálticas e eslavas coincidem inteiramente: as línguas eslavas têm iR ou uR nos mesmos contextos que as bálticas (com poucas exceções15); tanto nas línguas bálticas como nas eslavas, os sonantes silábicos indo-europeus R tornaram-se iR ou uR não só em posição pré-consonantal, mas também em posição pré-vocálica. Tudo isso mostra que, durante a transformação dos sonantes silábicos indo-europeus R em iR ou uR, as línguas bálticas e eslavas mantinham relações estreitas: uma onda de inovação originada na área de um grupo linguístico podia alcançar também a área do outro.
A inexistência, em qualquer outra língua indo-europeia, de uma reflexação dos sonantes silábicos igual à das línguas bálticas e eslavas também leva a supor que os sonantes silábicos indo-europeus foram vocalizados (isto é, tornaram-se iR ou uR) já nas línguas bálticas e eslavas, que se separaram dos dialetos da área setentrional da comunidade linguística indo-europeia.
Os sonantes silábicos indo-europeus R tornaram-se iR ou uR nas línguas bálticas e eslavas provavelmente antes da formação da oposição entoacional «circunflexo: agudo», pois iR
10 В. Георгиев, Балто-славянский и тохарский языки, ВЯ, 6, 1958, p. 8—15.
11 T. Burrow, The Sanskrit Language, II impression, London, 1959, p. 86.
12 N. Jokl, Die Verwandtschaftsverhältnisse des Albanischen zu den übrigen idg. Sprachen, „Die Sprache“, 9, 1963, p. 120—122.
13 Г. Льюис и Х. Педерсен, Краткая сравнительная грамматика кельтских языков, Москва, 1954, p. 29.
14 В. И. Георгиев, Исследования по сравнительно-историческому языкознанию, p. 92.
15 Compare lituano sùrbti e russo сра́ба́то, polonês sarbáć (mas eslavo eclesiástico antigo srobati), lituano būrlas e russo берлога. Discrepâncias semelhantes não são de modo algum diferenças significativas entre as línguas bálticas e eslavas, pois também ocorrem nas próprias línguas bálticas (cf. letão tâmnio tūmsa e letão das terras altas tīmsa).
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ir uR eram tratados como ditongos: iR e, respectivamente, uR recebiam circunflexo, enquanto iR e, respectivamente, ūR (do ide. *RH) recebiam acento agudo. Como os empréstimos das línguas fino-úgricas de origem báltica têm iR e uR (cf. finlandês villa e lituano vilna, finlandês kurpponen e lituano kūrpė), conclui-se que, nas línguas bálticas, a reflexação das sonantes silábicas indo-europeias ocorreu antes dos contatos entre as línguas bálticas e fino-úgricas.
Destino do ide. s
Nas línguas eslavas e indo-iranianas, o s indo-europeu mudou após k, r, i, u: nas línguas eslavas, tornou-se ch; nas indo-iranianas, š (sânscrito antigo ṣ, avéstico š). Em lituano, o s indo-europeu tornou-se š após k e r. Ainda não foi esclarecido definitivamente se, em lituano, o s indo-europeu também mudou após i e u. Cf.:
lituano aukštas, letão augsts: latim augustus «elevado» (: lituano augti);
lituano makštis, letão maksts: eslavo antigo mošьna «caixinha» (de *maks-ina) (: lituano makas «bolsa de couro (para tabaco, dinheiro)», letão maks «bolsa», prussiano antigo danti-maks «Zahnfleisch, gengiva», alto-alemão antigo mago «ventre»);
lituano veršis, letão vērsis «boi», prussiano antigo werstian «Kalb, bezerro»: sânscrito antigo vṛṣaḥ, avéstico varšni- «carneiro», latim verrēs «porco, cachaço» (lat. -rr- de *rs);
lituano viršus, letão virsus: eslavo antigo vrъchъ, russo antigo vrъchъ; sânscrito antigo vārṣmā «cume», latim verrūca «elevação; verruga», irlandês ferr «melhor» (lat. -rr- e irl. -rr de *rs);
lituano maišas, letão maiss, prussiano antigo moasis «Blasebalg, fole»: eslavo antigo měchъ «saco», sânscrito antigo meṣáḥ «carneiro», avéstico maeša- «ovelha»;
lituano paišyti, letão pāisīt «esmagar o linho»: russo antigo pъchati «socar», sânscrito antigo piṣṭáḥ «moído», avéstico pišant- «esmagado»;
lituano jūšė (e jušė) «sopa de peixe», prussiano antigo iuse «Juche, uma espécie de sopa»: eslavo antigo jucha «sopa», sânscrito antigo yúḥ (yūṣám), latim iūs;
lituano ausis, letão auss, prussiano antigo ausins (acc. pl.): eslavo antigo ucho, avéstico uši, gótico ausō, grego οὖς, latim auris (lat. -r- de -s-).
Como mostram os exemplos mais recentes, em alguns casos há š em lituano após i e u (cf. maišas e jūšė), e em outros, s (cf. paišyti e ausis). Por isso, surge naturalmente a pergunta: o s indo-europeu mudou ou não em lituano após i e u? As opiniões dos pesquisadores divergem a esse respeito.
J. Endzelynas¹, K. Būga², J. Šeftelovičius³, E. Frenkelis⁴, J. Kurilovičius⁵, S. Bernšteinas⁶, G. Ševel iovas⁷ e outros consideram que o s indo-europeu não mudou em lituano após i e u. Eles derivam de sk’ ou k’ a consoante š em muitos exemplos do tipo maišas. No entanto, ao explicar a origem desse š, os defensores dessa concepção enfrentam grandes dificul-
¹ И. Эндзелин, Славяно-балтийские этюды, p. 51—60; J. Endzelin, Lettische Grammatik, p. 110; О славяно-балтийском рефлексе индоевропейского sk’, ZfslPh, 16, 1939, p. 107—115.
² K. Būga, RR, III, p. 589—590, 823; cf. K. Буга, Судьба индоевропейского s в литовском языке (Vilniaus Valstybinio universiteto rankraštynas, E 180).
³ J. Scheftelowitz, Славянские и именные основы на sk’- и sk- в балтийско-славянском и албанском языках, KZ, 56, 1929, p. 156—170.
⁴ E. Fraenkel, Die baltischen Sprachen, p. 113; LEW, p. 397 (s. v. maišas).
⁵ J. Kuryłowicz, L’apophonie en indo-européen, p. 374.
⁶ С. Б. Бернштейн, Очерк сравнительной грамматики славянских языков, p. 161.
⁷ G. Y. Shevelov, A Prehistory of Slavic, p. 129.
6. Baltų ir slavų kalbų ryšiai
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Mais. Eis como a origem do som -š- é explicada de maneira tão diversa e pouco confiável, por exemplo, na palavra laiškas.
H. Petersonas8 derivou a palavra lituana laiškas de *loik’sko-. Para explicar a origem do grupo -šk- em palavras do tipo laiškas, K. Būga9 manifestou a opinião de que o ide. sk’ se tornou šk’ em lituano10. Por isso, segundo ele, o lituano laiškas teria origem em *loisk’-. J. Šeftelovičius11 relacionou o lituano laiškas e o eslavo antigo listъ ao sânscrito antigo līs- «arrancar» e derivou-os de *lik’-ko- e *lik’-to-.
Sem admitir a transformação do ide. s após i e u em š, dificilmente será possível explicar a consoante š do sufixo -iškas. Sem saber como explicar esse š, J. Šeftelovičius12 considerava que o sufixo -iškas tinha sido tomado de empréstimo às línguas eslavas. J. Endzelynas considerava13 que, além de *-isko-, existira anteriormente também o sufixo *-isk’o (de onde o lituano *-iša-). A afirmação de J. Endzelynas de que o sufixo -iškas surgiu por contaminação desses sufixos não é confiável.
H. Pedersenas14, K. Brugmanas15, H. Arncas16, A. Vajanas17, J. Otrembskis18 e O. Semerenjis19 consideravam que, na comunidade linguística báltica, o ide. s se alterou não apenas após k e r, mas também após i, u. Essa conclusão não se baseava em dados das línguas bálticas. Baseava-se na premissa de que as línguas bálticas e eslavas haviam constituído, em algum momento, uma unidade linguística: como o ide. s se alterou nas línguas eslavas após i e u, também teria de se ter alterado nas línguas bálticas, que anteriormente formavam uma unidade com as línguas eslavas.
Para explicar por que, em alguns casos, após i e u o lituano apresenta š, e em outros, s, H. Pedersenas formulou a seguinte lei20: após uma vogal com acento agudo (cf. jūšė), š foi preservado, enquanto após uma vogal com acento circunflexo š voltou a ser s (cf. saũšas). Contudo, os fatos do lituano contradizem essa lei: em muitos casos, s ocorre após uma vogal com acento agudo (cf. ãusas «ouro», lýsė, viẽšulas, kláusė etc.), enquanto š ocorre após uma vogal com acento circunflexo (cf. maišas, kiũši etc.).
A. Mejẹ21, R. Trautmanas22, V. Pizani23 e V. Porcigas24 afirmaram que, em lituano, ao ide. s após i e u corresponde, em alguns casos, a consoante š e, em outros, à consoante s.
8 H. Petersson, Arische und armenische Studien, Lund—Leipzig, 1920, p. 91.
9 K. Būga, RR, II, p. 285—286.
10 O idg. sk’ provavelmente tornou-se š em lituano; cf. J. Scheftelowitz, op. cit., p. 165—170; J. Endzelin, Über den slavisch-baltischen Reflex von idg. sk’, p. 107—115; M. Leumann, Idg. sk’ im Altindischen und im Litauischen, IF, 58, 1941, p. 1—26, 113—130.
11 J. Scheftelowitz, op. cit., p. 196.
12 J. Scheftelowitz, op. cit., p. 197.
13 J. Endzelin, Über den slavisch-baltischen Reflex von idg. sk’, p. 112—113.
14 H. Pedersen, Das indogermanische s im Slavischen, IF, 5, 1895, p. 33—87.
15 K. Brugmann, Grundriss der vergleichenden Grammatik der indogermanischen Sprachen, I, 2, p. 781.
16 H. Arntz, Sprachliche Beziehungen zwischen Arisch und Balto-Slawisch, Heidelberg, 1933 p. 9—10.
17 A. Vaillant, Grammaire comparée des langues slaves, I, p. 32.
18 Я. Отрембский, Славяно-балтийское языковое единство, ВЯ, 5, 1954, p. 32—34.
19 O. Szemerényi, The Problem of Balto-Slav Unity — A Critical Survey, p. 105—107.
20 H. Pedersen, op. cit., p. 77—78.
21 A. Meillet, Les dialectes indo-européens, p. 85.
22 R. Trautmann, Die altpreussischen Sprachdenkmäler, p. 169; Baltisch-Slavisches Wörterbuch, p. 165 e 250 (s. v. maiša- e sausa-).
23 V. Pisani, Balto e slavo, StB, 2, 1932, p. 16.
24 W. Porzig, Die Gliederung des indogermanischen Sprachgebiets, p. 165.
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A análise do material da língua lituana ajuda a responder à questão de saber se, em lituano, o s indo-europeu se transformou em š depois de i e u, ou não.
Eis exemplos em que, em lituano, aparece š em lugar do s de outras línguas indo-europeias: maišas, riešas (riešutas), višta, glušas, jušė (jušė), kriaušė, kruša, kūšys, rūšė, pušė (puškas), aiškus (eiškus), ieškoti, kišką, laiškas (laiskas), miškas, reiškia; -uš- (ėpušė, kermušė, vėtušas), *-ištja- (eriščias) e -išk- (moteriškas). Os verbos rišti, aušti e traušti são duvidosos, pois o seu -š- também pode derivar de -s-sk’ ou -sk’.
Eis, por outro lado, exemplos em que o s indo-europeu depois de i e u não se transformou em š: ausis, mušė, mušas, pusė; ausas (auksas), blusà, lỹsė, usnis, iesmė, viesulas, visas, pliauskà (plauska); paisyti, tiešti (teisti), veisti, daūsos, klausyti, kniaustis, niausti, praušti, saūsas, tausytis, triušti, o sufixo dos particípios do passado -us- (cf. mirusį25). A comparação com fatos correspondentes de outras línguas indo-europeias mostra que o elemento -s- é antigo nestas palavras e que, sem dúvida, existia antes de o s indo-europeu se transformar em š. Por isso, depois de i e u, espera-se aqui š em lugar de s.
Ao procurar explicar por que o s indo-europeu não se transformou em š nestas palavras, é preciso ter em conta o fato de que a consoante permaneceu intacta quando havia uma fronteira morfêmica entre ela e as vogais i e u26. Em algumas palavras aqui apresentadas, o elemento s também pertencia a um morfema, enquanto as vogais i e u pertenciam a outro; cf.:
plau-sk-à, pliau-sk-à (: plaũ-t-as, pliaũ-t-as, lat. plàu-kt-s, plàu-t-s),
viė-s-ulas, vė-s-ulas (: vė-jas, vė-tra),
pai-s-yti (: pai-l-yti, pai-v-yti, peĩ-k-ė, peĩ-k-enà),
kniaũ-s-tis, kniaũ-s-ėsi (: kniaũ-t-esi)27.
O mesmo se pode dizer do lituano niaũ-s-ti “baixar, inclinar a cabeça”, apsi-niaũ-s-ti “estar carrancudo”, niau-s-óti “estar triste, carrancudo”. Nem os sons nem o significado se opõem a relacioná-los ao lituano niaũ-k-tis (niáu-k-tis) “cobrir-se de nuvens”, niau-k-ùs “nublado, escuro” e niau-r-ùs “carrancudo, zangado”.
No momento em que o s indo-europeu se transformou em š, devido à coexistência de formas de significado próximo que tinham outras consoantes no fim da raiz, o s pode ter sido percebido como um sufixo, isto é, como pertencente a um morfema diferente daquele a que pertenciam i e u.
A explicação de que o elemento -s- não se alterou para -š- por pertencer a um morfema diferente daquele de i e u não serve para todas as palavras que conservaram o s intacto. Não se aplica às palavras que, ao que parece, não tiveram formas assigmáticas correspondentes e nas quais o s provavelmente não era formativo; cf. o lituano tausytis “acalmar-se (sobre o vento)”, o letão tusēt “respirar com dificuldade, sufocar”, o prussiano antigo tusnan “calmo, silencioso”, o eslavo eclesiástico antigo po-tuchnǫti “apagar-se”, o sânscrito tuṣyati “(ele) se acalma”. Por isso, é necessário explicar estas palavras de outra maneira.
É perfeitamente possível que, em lituano, o s indo-europeu depois de i e u não se tenha transformado em š diante de algumas consoantes (por exemplo, diante de j)28.
A análise do material sob este aspecto mostra que, na maioria das palavras, o -s- aparece antes de j(i); cf. o elemento *-sja, identificável nas palavras *peisja (de paisyti), tiešia, teisčia, veisia, kláusia (de klausyti, em que o s precede i), kniausiasi, praušia, *teusjasi (de tausytis, em que o s precede i), triūšia. O sufixo -us- dos particípios do passado também sempre esteve presente
25 Todos os vocábulos e casos em que š e s aparecem em lugar do s de outras línguas indo-europeias foram registrados no artigo „К вопросу об н.-е. *s после i, u в литовском языке“, „Baltistica“, I(2), 1966, p. 113–126.
26 Op. cit., p. 122.
27 Para os significados e as etimologias, ver E. Fraenkel, LEW; K. Būga, RR, I–III (Índices).
28 „Baltistica“, I(2), 1966, p. 125.
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antes de j, cf. mirusio ir mirusios de *mirusiō ir *mirusjās. Substantivos de tema em i, como ausis, musis (cf. também jā de tema musià, em que s ocorria antes de j) e pùšis, originados de antigas palavras de tema consonântico, parecem ser muito mais antigos do que suas formas de tema em ē; cf. mùsė, pùsė.
Em outras palavras, s de outros vocábulos ocorria antes de v(u) (cf. lýsvė, viesulas), m e n (cf. iesmė ir usnis).
Assim, a maioria das palavras em que s permaneceu inalterado depois de i e u tem esse s antes dos sonantes j(i), v(u), m e n. Aparentemente, essa posição de s deve ser procurada também nas palavras em que atualmente não há sonante depois de s. Por exemplo, nas palavras aũsas, blusà, aũsos, dùsas, mùsas ou mùsos, saũsas, visàs, os morfemas aus-, blus-, daus-|dus-, mūs-|mus-, saus-, vis- ocorriam muito mais frequentemente antes de consoantes e vogais sonantes do que antes do morfema -a- (-o-); cf. auksinis, auksinti, auksýti, auksius (acento desconhecido), auksnas, áuksinas, auksioti (o -k- é secundário aqui; cf. pr. ausis e lat. aurum); blusia (acento desconhecido), blùsinas, blusýnas, blusinėti, blusingas, blusinis, blusinti, blùsius; dūsúoti, dūsinti (let. dusinat), dūsýti, dùsnà, dusulýs (let. dusulis), duslùs; mūsýti, musýti; saũsis, sausmė, sausra, sausumà, susnà; vismet, visur, let. visur (cf. também esl. antigo vьsь e ind. antigo viṣú-, que indicam, talvez, que antigamente a palavra báltica também poderia conter i ou u).
Todo o material apresentado aqui parece permitir concluir que o s indo-europeu, depois de i e u, permaneceu inalterado nas línguas bálticas, possivelmente quando era seguido diretamente por sonantes.
Assim, nada se opõe à hipótese de que o s indo-europeu, depois de i e u, também se tenha tornado š nas línguas bálticas, exceto, naturalmente, os casos em que esse s pertencia a um morfema diferente daquele de i e u e era seguido diretamente por sonantes.
Assim, nas línguas bálticas, tal como nas eslavas e indo-iranianas, o s indo-europeu também sofreu alteração na posição depois de k, r, i, u. Que esse fenômeno era comum às línguas bálticas é demonstrado pelos empréstimos de origem báltica nas línguas fino-úgricas da região do Báltico, nas quais o som h corresponde às consoantes bálticas š (e ž), podendo ter surgido apenas de š (cf. finlandês halla, estoniano hall e lituano šalnà, letão salna; finlandês hihna, estoniano ihn e lituano šìkšnà, letão siksna). O š protobalto, surgido do s indo-europeu depois de k, r, i, u e do ḱ indo-europeu, bem como seu correlato ž, surgido de gʰ e gʰh indo-europeus, tornou-se s e z nos dialetos letões e prussianos devido às particularidades de seus sistemas fonológicos. Eles permaneceram inalterados apenas no lituano.
Alguns pesquisadores (A. Meje⁽²⁹⁾, S. Bernstein⁽³⁰⁾ e outros) tendem a identificar vestígios da transformação do s indo-europeu em š na língua prussiana, onde (no terceiro catecismo) de fato ocorre -rsch- ao lado de -rs- (cf. pr. kirscha, kerscha ao lado de kirsa, pirschau ao lado de pirsdai). Esse fenômeno da língua prussiana deve ser considerado, muito provavelmente, não um vestígio do estado protobalto, mas um desenvolvimento novo na língua prussiana (possivelmente devido à influência alemã⁽³¹⁾), relacionado à transformação de *sj em š e ao surgimento do som š nos grupos šp-, šk-, šl-.
A transformação do s indo-europeu em š depois de k, r, i, u é um fenômeno comum às línguas bálticas, eslavas e indo-iranianas. Por isso, não pode ser uma inovação das línguas bálticas e eslavas. Para caracterizar as relações mais antigas entre as línguas bálticas e eslavas, é importante que as circunstâncias em que o s indo-europeu se transformou em š fossem diferentes em cada grupo linguístico.
29 A. Meillet, Les dialectes indo-européens, p. 85.
30 С. Б. Бернштейн, Очерк сравнительной грамматики славянских языков, р. 161.
31 И. Эн