Hiat laryngalny w językach bałto-słowiańskich
Full text
ACTA LINGUISTICA LITHUANICA
XLVII (2002), 55–87
Hiato laríngeo nas línguas báltico-eslavas1
WOJCIECH SMOCZYŃSKI
Universidade Jaguelônica, Cracóvia
O artigo trata do chamado hiato laríngeo nas línguas bálticas e eslavas. Trata-se de casos em que uma laríngea se perdeu entre uma vogal alta i ou u e uma vogal sufixal. Essa configuração é característica de formações no grau zero baseadas em raízes do tipo *Cei̯H-/*Ci̯eH- ou *Ceu̯H-/*Cu̯eH-. Quando um sufixo vocálico é acrescentado a uma raiz no grau pleno do tipo *CeH-, a laríngea não deixa vestígios (sua perda leva à contração ou ao surgimento de um ditongo secundário), enquanto uma situação semelhante envolvendo a perda de uma laríngea após i, u produz um hiato, posteriormente eliminado no báltico e no eslavo pela inserção de um glide homorgânico i̯, u̯.
INTRODUÇÃO
O termo hiato laríngeo (alem. Laryngalhiat) é usado para se referir à situação em que uma consoante laríngea (lrg.) se encontra após as vogais altas i, u e antes de uma vogal sufixal, esquematicamente *iH-V, *uH-V. Essa constelação de fonemas é própria de formas lexicais no grau apofônico zero (SZ). Trata-se de derivados de raízes do tipo *Cei̯H-/*Ci̯eH ou *Ceu̯H-/*Cu̯eH-, isto é, daquelas que contêm um ditongo mais uma lrg. Ora, o tratamento das sequências *iH-V, *uH-V é fundamentalmente distinto do caso de *eH-V, quando um sufixo vocálico se acrescenta a uma raiz no grau pleno (SP) *CeH-. Enquanto em *eH-V a lrg. desaparece sem deixar vestígios, o que leva à contração das vogais (com dois resultados possíveis: alongamento por contração ou ditongo secundário, dependendo da qualidade da V² sufixal), no caso de *iH-V, *uH-V a perda de H acarreta um hiato. Sua especificidade consiste em não ser eliminado por contração, mas pela inserção, após i, u, de uma consoante de transição homorgânica, isto é, i̯, u̯. O resultado desse tratamento são as sequências 1. *[ijV], historicamente [ijV], no lugar do pie. *[iHV], e 2. *[u̯V] > hist. [uvV], no lugar do pie. *[uHV]. Por exemplo:
[ijV]: scs. bijenъ ‘batido’ de *bi̯e.no- ⇐ *bʰiH-eno-, formação em SZ-V a partir de *bʰe̯iH-C. Cf. SZ-C biti, bitù.
[ijV]: lit. bijóti(s) ‘temer’ de *bi̯u̯ā- < *bi.HaH- < *bʰiH-eh₂-, formação em SZ-V a partir de *bʰe̯iH-, véd. bháyate. Cf. SZ-C letão bitîes ‘temer’.
[uvV]: scs. zabъvenъ ‘esquecido’ (-en- analógico em vez de *-on-), de *bu̯.ana- < *bhu.h₂.a.no- < *bhuh₂-eno-, formação em SZ-V a partir de *bʰu̯eh₂-. Cf. SZ-C byti, bylù.
1Este artigo desenvolve uma comunicação que apresentei na Comissão de Linguística da Academia Polonesa de Ciências, filial de Cracóvia, em 28 de fevereiro de 2001.
2 Cf., por um lado, os alongamentos: lat. lēnis ‘suave’ < *leh₁-en-; mās ‘homem, macho’ < *maHōs < *meh₂-ōs; flōs ‘flor’ < *bʰloHōs < *bʰleh₁-ōs. Por outro lado, os ditongos: gr. πλεῖστος ‘o mais numeroso’ < *pleh₁-istho-; lit. dienà ‘quente’ < *dein-i̯ < *dʰeh₁-in- (véd. dhénuk ‘vaca’ < *dʰeh₁-inu-); lat. laevus ‘esquerdo’, gr. λαῖ(ϝ)ός, scs. lēvъ < *lāiu̯o- < *leh₂-iu̯o-; lit. sausas ‘seco’ e scs. suxъ < *saHusos < *seh₂-usos (gr. (h)αῦος); lit. káulas ‘osso’ < *kau̯H.lo- < *kaHulo- < *keh₂-ulo- (lat. caulis).
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[uvV]: lituano buvo ‘era’ de *bu. ųą < *bhuh₂-eh₂-, formação com SZ-V de *bʰu̯eH-. Cf. SZ-C búti, būdamas.
Como se pode ver, a estrutura silábica das formas históricas corresponde à estrutura proto-linguística: bi.je.nъ como *bʰi.He.no-, *bu̯e.nъ como *bʰu.He.no- etc. Os fricativos históricos j, v continuam, de fato, as aproximantes proto-linguísticas *i, *u; é preciso, porém, levar em conta que aqui não se trata de fonemas herdados diretamente da língua proto-indo-europeia, como, por exemplo, no caso do lituano lejù < *lei̯H-e-, vejù < *u̯ei̯H-e-, do eslavo eclesiástico antigo zovǫ < *gʰeu̯H-e-, do lituano sravà < *sreu̯-, mas de segmentos de caráter secundário, surgidos apenas na época delimitada pelo enfraquecimento e desaparecimento dos fonemas laríngeos. Consideramos, portanto, os fonemas j e v na sequência ijV e uvV como testemunho indireto da presença de uma laríngea intervocálica e, nesse sentido, distinguimo-los geneticamente de j, v que aparecem após vogais diferentes de i, u.
O objetivo principal deste estudo é documentar, na medida do possível de modo exaustivo, os morfemas bálticos e eslavos que contêm as aproximantes i, u no lugar de fonemas laríngeos. A organização do material é a seguinte. Para cada morfema, estabelece-se um ninho apofônico, no qual se menciona primeiro o alomorfe com ij, uv próprio de SZ-V. Em seguida, ele é contrastado com o alomorfe de vogal longa (ī, ū) da posição SZ-C, a fim de tornar evidente que o caráter do ataque do sufixo, V ou C, determina a complementaridade dessas duas formas de desaparecimento de raízes do tipo eiH/ieH ou euH/ueH. Depois, apresenta-se o grau e (SE) da raiz proto-indo-europeia, geralmente na forma indicada por LIV (1998), e especificam-se seus reflexos báltico-eslavos. Após SE vêm, em algumas entradas, derivados formados a partir de ijV, uvV no grau o (SO). Eles se dividem em antevocálicos (ai-V, au-V) e anteconsonânticos (ai-C, au-C).
O ninho apofônico do morfema também mostra como as formas primárias com ijV, uvV geram seus derivados. Trata-se de três grupos de formas: 1. presentes infixados no grau SZ, 2. derivados no grau alongado ījV, ūuV (indicados como WSZ-V), 3. derivados no grau o (SO). As sequências infixadas lituanas do tipo *Cinį, *Cunų transformam-se foneticamente em Cij, Cuv (gīja, būva) e depois se desnazalizam em Cīj, Cūv (gīja, bija, būva, klūva). Quando há oportunidade, chama-se a atenção para a presença de “presentes em -na” alternantes (gīna, lýna, būna, klūna), pois estes últimos, devido ao circunflexo e ao formante -na, devem ser considerados produto do cruzamento do tipo inovador -(ȳ)ja, -(ū)va com o tipo mais antigo -(ī)na, -(ū)na, representado por formações infixadas herdadas, que remontam à época anterior ao desaparecimento das laríngeas antevocálicas, por exemplo *līna de *li-n-H-e-, *būna de *bʰu-n-H-e-. – Entre os derivados do tipo WSZ-V estão, em lituano, por exemplo, palyjėti ⇐ lij-, papjūvėti ⇐ pjuv-; em eslavo, por exemplo, eslavo eclesiástico antigo upijati sę ⇐ pij-, pokryvati ⇐ krīv-. – Quanto aos derivados em SO, são principalmente nomina deverbais com forma de raiz aiV (⇐ vb. ijV) ou auV (⇐ vb. uvV), por exemplo, lituano bajùs de bij-, gajùs de gij-, sajùs de sij-, bem como letão krava, eslavo eclesiástico antigo krovъ de *kru̯-, eslavo eclesiástico antigo rovъ de rъv- (considerando o conjunto do material, chama a atenção a representação relativamente menor do tipo auV).
Às vezes, a forma SZ-V que nos interessa não está atestada no material. Nesse caso, WSZ-V é tomado como base para a reconstrução interna; cf., por exemplo, as entradas *miį-, *žį-, *liuu-. Nas análises anteriores, ocorreram casos, por exemplo,
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de relacionar a forma yj palyjēti com y (lyti), ou o prs. yj lyja. De modo semelhante, em papjūvéti, associava-se ūv a āu do verbo pjāti (cf., por exemplo, Otrębski 1965: 366). Por sua vez, no que diz respeito ao eslavo, por exemplo, byvati era analisado segundo byti como by-vati (em vez do correto *bū-ā-). Casos desse tipo foram corrigidos na rubrica WSZ-V.
Os quatro excursus anexados ao final do artigo assinalam certas inovações morfológicas que, ao que parece, foram condicionadas indiretamente pelo hiato laríngeo. São elas: (1) presentes infixados de raízes anitáticas do tipo šlyja, srūva, (2) o sufixo nominal - yś como alomorfe de -ijas, (3) o sufixo do infinitivo -yti, (4) o sufixo eslavo -aviti.
1. APROXIMANTE i NA POSIÇÃO *I.HV
1.1. *b̑ij- I < *bʰiH-
SZ-V *b̑ij-: lituano bijóti(s) ‘temer’, letão bijât(iēs), prussiano antigo biātwei³ de *bi.ǰā- < *bi.HaH- < *bʰiH-eh₂-.
SZ-C *b̑i-: letão bitìēs ‘temer’, prs. bìstuōs (⇒ intens. bìstītiēs), prt. dial. bìduōs (variante de bijuōs).
SE *bʰȇiH- ‘ficar com medo’ (LIV 58), cf. védico bháyate ‘teme, sente medo’.
Deriv. bai̯-V: 1. pessoa do singular *boja-, eslavo eclesiástico antigo bojati se ‘temer’ (prs. bojiti̯u se) parece ser um reflexivo formado posteriormente a partir de *bojati, forma que anteriormente tinha valor transitivo (caus. ‘assustar’) em relação ao protosslavo bĭj-, cf. acima lituano bijóti(s)⁴. – 2. prussiano antigo pobaint caus. ‘punir’. – 3. lituano baĵùs ‘medroso, temeroso’; bàju: Mirt nebus bajù ‘Morrer não será assustador’.
Deriv. bai̯-C: ibajdýti caus. ‘assustar, intimidar’ (letão baidīt ‘assustar’), báime f. ‘temor, medo’, baisà ‘medo’ (⇒ baisus ‘terrível’), bailỹs m. ‘pessoa medrosa, covarde’.
1.2. *b̑ij- II < *bʰiH-
SZ-V *b̑ij-: 1. eslavo eclesiástico antigo bĭjenú ‘golpeado’ de *bi.ǰe.no- ⇐ *bʰiH-eno-, 2. eslavo eclesiástico antigo bijetú ‘bate’ (ESJS 63, Stang 1942, 46) < *bi.ǰe- ⇐ *bʰiH-e-, alterado secundariamente para eslavo eclesiástico antigo bijetú por nivelamento com o infinitivo bi-C (ver abaixo brijetú).
SZ-C *b̑i-: 1. eslavo eclesiástico antigo biti ‘bater’, bitù ‘golpeado’, nižùbiti ‘derrubar’, ubiti ‘matar’, zabiti ‘espancar’, 2. letão būt ‘schieben’, iter. bidīt ‘schieben, rücken, schiebend stossen; stopfen’, lituano dial. býdyti ‘forçar a levantar-se, espantar, tocar adiante’ (ver Urbutis 1981: 109).
SE *bʰȇiH- ‘bater’ (LIV 57).
Deriv. *bai̯-V: eslavo eclesiástico antigo, razboi m. ‘ataque, banditismo’, uboi m. ‘assassinato’; eslovaco *boji, polonês bój (significado etimológico ‘luta’).
3 Leia-se [bijá:tvei].
4 É menos provável que a base eslovaca boj- seja herdada, nomeadamente como continuação do perfeito pie. *-bʰoiH- (cf. védico bibhāya-), como se costuma admitir na literatura (ver Vaillant 1966: 393) e, mais recentemente, ESJS 72.
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1.3. *bii- III < *bʰih₂-
SZ-V *bii-: letão biju pret. ‘eu era’. Com base no atestado no optativo do verbo bimū (1. pl.), bi (2.3. sg.) do SZ *bī- anteconsonântico, pode-se, segundo o princípio analítico adotado aqui, reduzir *bii-ā- a *bʰiH-eh₂-, e *bi-C a *bʰiH-C. Se, à luz do alomorfo de mesmo significado *bʰuh₂-V (cf. lit. buvai, antigo letão buvu, eslavo eclesiástico antigo ⁰būvenŭ) especificarmos agora o H da raiz como h₂, obteremos *bʰih₂-V, isto é, SZ para *bʰieh₂-⁵. Isso, em conjunto com o fato de que a variação *bʰih₂- / *bʰuh₂- também ocorre no germânico, céltico e itálico (ver LIV 83), conduz à hipótese de que, nos dialetos indo-europeus ocidentais, o indo-europeu comum *bʰueh₂- ‘crescer, surgir, tornar-se’ se dividiu, por dissimilação das labiais, bʰu > bʰi, em duas formas, e que ambas são usadas complementarmente nas línguas báltico-eslavas no paradigma do verbo ‘ser’, nomeadamente em suas formas fracas. Além disso, se estiver correta a hipótese de que nas formas do conditionalis do antigo lituano em -biau ‘-ria’, -bei ‘-rias’, *-bi ‘-ria’ (pl. -bime, -bite)⁷ está contido o verbo auxiliar *biiu > -biau (1 sg.), *bijai > -bei (2 sg.) e que, por apócope, *bijā > *-bi (3.ª pessoa), encontraremos nisso uma prova da origem proto-lituano-letã do tema *bijā-⁸.
1.4. *brii- < *bʰriH-
SZ-V *brii-: proto-eslavo *brĭjetŭ se ‘barbeia-se’ < *bri.ie- ⇐ *bʰriH-e-; eslavo eclesiástico antigo brijetŭ se é uma forma mais recente; seu i longo provém de nivelamento com o infinitivo bri-C (cf. acima bijetŭ)⁹.
SZ-C *brī-: eslavo eclesiástico antigo briti se ‘barbear-se’ (britva f. ‘navalha, instrumento de barbear’), servo-croata arcaico brīti, brĭjem, secundariamente brĭjati.
SE *bʰreiH- ‘cortar’ (LIV 77). Em proto-eslavo, o significado foi restringido a ‘cortar a barba’.
1.5. *gii- I < *gʷih₃-
SZ-V *gii-: 1. lituano atgijo ‘reviveu’, iżgijo ‘recuperou-se’, letão dziju de *gi.ia- < *gʷih₃-eh₂-, 2. derivado pagijelis m. ‘convalescente’, 3. presente lituano com infixo gija/gija ‘recupera-se’ de *gi-n-i- (forma variante gyna, resultante do cruzamento do mais antigo *gina < *gʷi-n-H-e e do mais recente gija).
⁵ Cf. *gʷih₃- para *gʷieh₂- ‘viver’, s.v. *gii-.
⁶ Outros assumem que a dissimilação ocorreu no tema *bʰū-ī-e- e que foi induzida pelo sufixo -i-, > *bʰī-ī-e-; ver Klingenschmitt (1982: 222, nota 72) e LIV 84. A isso é preciso dizer que, especificamente no que diz respeito às línguas báltico-eslavas, o modelo *bʰū-ī-e- não se sustenta, pois aqui se evita (ao menos no verbo primário) combinar o sufixo -ie- com raízes terminadas em -ū- e -i- (< *-uH-, *-iH-); cf., por exemplo, a ausência de trīja para rīti ‘engolir, devorar’, tļyja para tļīti ‘chover’.
⁷ Por. nusidētum biau, būtumbei, tarnāutum bime, sakōtum bime, Zinkevičius (1981: 122n).
⁸ Dokładniej o tym Smoczyński (2001:51, 224n). Tam też o wcześniejszych próbach objaśnienia łot. bij-V
⁹ Por isso, é improvável a derivação de brijetǫ do indo-europeu *bʰriH-ie- em LIV 77. Sobre a sequência -iH-ie-, ver a observação na nota 6.
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SZ-C *gi̯-: 1. lituano atgȳti ‘recuperar a vida’, letão dzīt ‘recuperar a saúde’, eslavo eclesiástico antigo ožiti ‘reviver’ < *gʷih₃-C¹⁰. 2. gýdyti ‘tratar’ (significado etimológico ‘fazer com que reviva, recupere a saúde’), gȳvas ‘vivo’.
SE *gʷei̯h₃- ⇐ *gʷjeh₃- ‘leben’ (LIV 192), cf. gr. βέομαι ‘viverei’, de origem conjunct. *gʷeih₃-o-.
Deriv. gai̯-V: 1. lituano gajùs ‘que cicatriza facilmente e rapidamente, que se recupera’, atgajùs ‘vivo’. – 2. Em eslavo, a partir do alomorfo antevocálico *gii-, o eslavo comum *ži̯j-V (cf. lituano °gijo), formou-se SO goj-: caus. *gojiti ‘devolver à vida’, refl. *gojiti się ‘cicatrizar-se — diz-se de uma ferida’ (cf. acima bojati się). Apenas do ponto de vista sincrônico gojiti se apresenta como derivado causativo de žiti intr. ‘viver’ < *gʷih₃-C¹¹.
Deriv. gai̯-C: lituano gaivà f. ‘vitalidade’¹². (O fato de não haver reflexos bálticos *gei̯-V/ *gei̯-C exclui a possibilidade de derivar gai- de um tema em SE.)
1.6. *gii- II < *gʷiH-
SZ-V *gii̯-: lituano gijà f. ‘fio na trama do tecido’, letão dzija ‘fio, fio de fiar’, de *g̑i.Hā < *gʷiH-éh₂. Cf. véd. jyá- f. ‘corda do arco’, gr. hom. βίος m. ‘arco’ (significado etimológico ‘provido de corda’) < *bi̯i̯ó- < *gʷiH-ó-.
SZ-C *gi̯-: lituano gýsla f. ‘veia’, sérvio žica f. ‘fio, linha de costura’ < *gīkā.
SE *gʷi̯eH-, cf. véd. jyá f. ‘corda do arco’ (Mayrhofer EWAI₁, 603).
1.7. *gli̯- < *gliH-
SZ-V *glii̯-: esl. *glìjь, russo dial. glej ‘argila, solo argiloso’, ucran. hlej ‘lodo, argila’, bhr. hlej ‘lodo subaquático’ (emprestado pelo pol. glej ‘camada de solo de coloração acinzentada’ (ver Sławski SEJP₁ 282, Bańkowski I 430).
SZ-C *gli̯-: 1. lit. glyti̯s ‘liso, plano’, let. glīts ‘liso, elegante, esbelto, bonito’, 2. eslov. glina ‘argila’.
SE *glei̯H- ‘untar, ficar colado’ (LIV 168): lit. glėjù (ob. glėju̯ prt. gliejau, inf. glėti ao lado de dial. glėti) ‘untar, nivelar untando; moldar, preencher buracos com argila, colar’, refl. ‘colar-se (a algo), apegar-se’.
Deriv. *glai̯-V: lit. glājus m. ‘líquido de consistência viscosa’ (LKŽ).
N.B. Um vestígio do antigo presente infixado *gli-n-H-é- ⇒ lit. glinù, reanalisado como glin-ù, é o neologismo glin-, cf. prt. gliniaũ, inf. glīnti, geralmente com preverbos ap-, už- ‘cobrir com argila, tapar (com argila)’, ver LKŽ.
10 SZ do tipo gy-C talvez esteja presente no composto nominal lit. dveigys ‘animal de dois anos (cavalo)’. Com efeito, esse composto pode ser interpretado como ‘que viveu (dois anos)’, supondo-se que o elemento -gy-s seja uma alternativa do alomorfe antevocálico *gii-V, pbałt. *gii̯as ‘vivente’, que continua o nome pie. *gʷih₃-ó-, cf. gr. βίος ‘vida, modo de vida; meios de subsistência, alimento; cereal’. Ver também Excursus III.
11 Chama a atenção a ausência de lit. *gajyti. Ao eslavo gojiti corresponde, quanto ao significado, o lit. gýdyti (ver acima).
12 Com base em gaiv-, resultante da reanálise de gaiv- + -a, formaram-se em seguida o verbo gaivinti ‘reanimar’ e os nomes gaivàlas ‘elemento’ e gaivùmas m. ‘revitalização’.
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1.8. *gni̯- II < *gniH-
SZ-V *gni̯-: esl. *gnijetū pres. ‘apodrece’ de *gnih₁-e-.
SZ-C *gnī-: esl. (sū)gniti ‘(apod)recer’ < *gnih₁-C. Por nivelamento de *gnīj- para o inf. gni-C formou-se o pres. gnijetū (cf. acima bijetū de biti, brijetū de briti).
SE *gne̯iH-. Ausente em LIV. Quanto ao tipo pwk., ver acima *bʰeiH- e abaixo *leiH-, *pe̯iH-. Deriv. *gnai̯-V: esl. (sū)gnojiti caus. ‘(fazer) apodrecer’¹³ (postverb. esl. gnoi, -ja m. ‘estrume’). Deriv. *gnai̯-C: esl. gnĕvù ‘ira’, Zorn¹⁴. Quanto ao sufixo, cf. lit. gaivà s.v. gii- I.
1.9. *ki̯i- < *kʷih₁-
SZ-V *ki̯i-: esl. *či̯jo < *kʷih₁-e- ‘descanso’, pres. de čiti. Cf. *bījǫ:: biti, *lījǫ:: liti, *vījǫ:: viti.
SZ-C *kī-: esl. počiti ‘descansar’ (com o novo pres. počijǫ) < *kʷih₁-C. Cf. ainda esl. čilŭ, croata-sérvio čō, checo čilý ‘vigoroso, enérgico’ (significado etimológico ‘descansado’).
SE *kʷieh₁- ‘descansar’ (LIV 352), cf. avéstico ši̯iāmā ‘alegremo-nos’. Em eslavo, falta SE *ča- de *kē- < *kʷieh₁- ou de *kʷi̯a- < *kʷioh₁-¹⁵. Cf. lat. quiētus ‘calmo, tranquilizado; pacífico; privado’ < *kʷi̯éh₁-to- (correspondente ao avéstico antigo ši̯āta- ‘feliz’, persa antigo ši̯āta- etc.), perfeito quiēuī < *kʷi̯ē-uai (LIV 353). Quanto ao tipo pwk., cf. *gʷieh₃- s.v. gii- I.
Deriv. *kai̯-V: esl. pokojiti ‘acalmar, revigorar, fortalecer’, pokojiti zakona ‘cumprir a lei’¹⁶, polonês antigo koji się ‘esfria, arrefece’, koji się choroba ‘a doença abranda’ (caus. eslavo com significado etimológico ‘fazer encontrar repouso’, cf. Sławski SEJP II 329). Dele deriva pokoji m. ‘calma, paz’ como postverb.
1.10. *kri̯i- < *kriH-
SZ-V *kri̯-: 1. letão krijāt (< *kriH-eh₂-) ‘esfolar; forrar o trenó com madeira de tília; enrolar o fio numa dobadeira’ (ME II 278), 2. letão krīja f. ‘casca de tília, líber de tília, Lindenborke; aro, rebordo de peneira, faixa de líber de uma peneira, peneira de aro; cesto de líber de tília, Korb aus Lindenborke; tabuinha de tília, Lindenbrett’ (ME II 277; também krijuôt ‘esfolar’, como denominal mais recente).
SZ-C *krī-: 1. lituano krýtis, -ties f. ‘rede para apanhar peixes; puçá’, com metatonia: krytis, -tiēs f. ‘bloco de gelo’ (sentido etimológico ‘pedaço que se separou’). – 2. eslavo eclesiástico antigo krinǫ m. ou krina f. ‘recipiente de madeira, cuba para água’, eslavo antigo okrinǫ m. idem (a respeito, ver outra análise em ESJS 365: de *(s)krej- anitoviano).
SE *krejH-, proveniente da transformação do indo-europeu *kreh₁- ‘peneirar, separar’, cf. LIV 327. A partir de SZ *kriH- foi criado no báltico, pela técnica vṛddhi, um novo SP *kre̯iH-; daí o lituano dial.
13 Historicamente, trata-se, portanto, de um derivado de prs. em -ī-, e não em -i-, como em Vaillant (1966: 417).
14 Quanto à evolução semântica, ver Sławski SEJP I 304, ESJS 182.
15 A menos que relacionemos a essa raiz a palavra čăs ‘tempo’, supondo uma formação ča-s̑ e o sentido etimológico ‘intervalo, momento de descanso’ (?). ESJS 98 s.v. časǫ não considera essa filiação.
16 Derywat od prs. na -ū-, nie zaś -ii- (inf. -i-), jak u Vaillanta (1966: 417). Zob. wyżej gojiti, gnojiti oraz niżej *krojiti, *lojiti, pojiti.
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krejù (krejaũ, kriẽti) ‘recolher da superfície; pescar em um líquido’, letão kreju (krēju, krìet/krìēt) ‘retirar a nata da superfície do leite’.
Der. kraj-V: 1. lituano nomen krājus m. ‘laterais da peneira, crivo; aro’. – 2. proto-eslavo *krojiți, polonês kroić ‘separar usando um instrumento afiado’, russo krojú, kroiť ‘joeirar cereais’, esloveno krojím, krojíti ‘rachar, rasgar’17, eslavo eclesiástico antigo okrojenije n. ‘circuncisão’. SW para kroj- é visível no eslavo eclesiástico antigo krai, -ja m. ‘margem, beira’.
Der. kraj-C: letão kraistīt ‘tirar a nata, desnatar, retirar o creme do leite’, em geral ‘retirar da superfície; fazer superficialmente’ (MEII 256), lituano kraitis m. ‘cesto, cesta de vime’.
1.11. *li̯- I < *liH-
SZ-V *li̯-: 1. letão lija pret. ‘chovia’, lituano įsilijo pret. ‘começou a chover a valer’ < *li̯.i̯ā- < *liH-eh₂-, 2. lituano prs. infixado lȳja/lī́ja ‘chove’ < *li-n-i̯- (forma variante lȳna de uma contaminação entre *lina < *li-n-H-e e lȳja), 3. substantivos: li̯imas m. ‘chuva torrencial’, li̯ùngas dial. ‘chuvoso, de tempo chuvoso’, li̯ùndra f. ‘chuva congelante (tempo em que chove e a chuva congela)’.
WSZ-V *li̯-: lituano palvėti ‘chover (referindo-se a uma chuva de curta duração)’ ⇐ *li̯-ē-18.
SZ-C *lī-: lituano lýti ‘(referindo-se à chuva) cair, chover’ = letão līt (a que corresponde o prs. līst); lituano lýdyti caus. ‘deixar à chuva para que se molhe’.
SE *le̯iH- ‘verter’ (LIV 363): lituano lejù, lieti ‘verter, derramar’, letão leju, liet (novo caus. lituano líedinti caus. ‘fazer verter, derramar, transbordar’).
Drw. lai-V: lituano ãtlaja f. ou ãtlajis m. ‘fundição, baixio, lugar raso num lago’, ãtlajus m. idem, užúolaja f. ‘zona inundável ribeirinha’.
Drw. lai-C: lituano láistyti iter. ‘regar, aspergir; derramar lágrimas’19.
N.B. Cf. a observação sobre ilajai m.pl. ‘argila para tapar buracos’, laitas m. ‘piso de argila batida’ no final da parte I.
1.12. *li̯- II < *liH-
SZ-V *li̯-: 1.ª pess. *lijọ pres. ‘derramo’, russo l’ju juntamente com letão dial. lij ‘chove’ (Endzelin 1922: §609), de *li̯.i̯e- < *liH-ē-, 2.ª pess. *lijati de *liH-éh₂-, o que é implicado pela presença do eslavo ocidental lijati (cf. acima letão lija).
17 Formação ambígua em SO: ou causativo de *kr̥nēti se ‘desprender-se, separar-se, sobressair’ (construído sobre o antigo presente infixado *kr̥nō < *kri-n-H-é-), ou iterativo de ps. *krejo (cf. letão kreju).
18 O alongamento do grau zero condicionado por laringal de -i̯- em -ī- ocorre também em pavijėti (s.v. *u̯ii- I). O correspondente -uu- ⇒ -ū- aparece em papijūvėti (s.v. *pi̯eu-) e pasiūvėti (s.v. *si̯eu-). A vogal i é tratada antes do nosso i secundário da mesma maneira que antes de outras consoantes, independentemente de serem ressonantes, cf. pagvėnti, pamny̌ti, patry̌nėti, pakylėti, ou obstruintes, cf. pabvėdti (brid- ⇐ bred-), paskrydėti, paslydėti (*slid- ⇐ *sle̯id-), pakrypėti (*krip- ⇐ kreip-), palypėti, panysėti (*niš- ⇐ neš-), palytėti (*lit- ⇐ leit-), pamygėti, pavyzdėti (*vizd- ⇐ veizd-), pavyzėti (*viz- ⇐ vež-). Detalhes em Otrębski (1965: §61nn.), embora seja preciso observar que os temas primários desses durativos indicados pelo autor deixam por vezes a desejar; cf. krypsta para kypėti, liečia para *lȳtėti, šlysta para *shȳdėti.
19 O acento agudo foi modelado segundo o tema lieti, como polarização em relação a laistyti ‘manchar, untar, revestir com argila húmida’ (leisti).
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WSZ-V *līj-: eslavo eclesiástico lijati ‘verter, derramar’²⁰, intensivo secundário em -vati: izlivati ‘derramar’. SZ-C *li-: eslavo eclesiástico liti, servo-croata lĭti (se), dial. ljȉti, polaco antigo *lić ‘verter’. SE *lejH- ‘gießen’ (LIV 363): eslavo eclesiástico lęjo ‘verto’ < *lejH-je- (ver também acima *lii- I). Derivado *laj-V: ps. *lojiti iter. ‘verter, derramar’, daí eslavo eclesiástico loji, -a m. ‘sebo’, sórbio inferior łój, checo lůj como pós-verbal (significado etimológico ‘gordura líquida, fluida’). Ausente nas línguas eslavas SO *lě-C.
1.13. *mii- < *miH-
SZ-V *mii-: letão miju, pretérito de mīt ‘mudar, trocar’, < *mi.iā- < *miH-eh₂-. WSZ-V *mii-: nas línguas eslavas mijati ‘passar (do tempo)’ — pressupõe um presente primário *mījǫ (sę) ‘mudo-me’? SZ-C *mi-: 1. letão mīt ‘trocar’, reflexivo mītēs ‘trocar entre si, mover-se alternadamente, mudar, transformar-se’; iterativo mistīt ‘trocar repetidas vezes’ < *mi-stī-. – 2. eslavo eclesiástico minǫti ‘passar (do tempo)’. SE *mejH-. LIV 383 menciona apenas o anitovocalismo *mej- ‘wechseln; tauschen, ändern’ (védico ví mayante, 3.ª pl. ‘mudam’). No letão, o presente *meju²¹ foi substituído por miju em consequência da analogia com o pretérito miju. Derivado *maj-C: 1. lituano atmainà f. ‘mudança’, mainãi m. pl. ‘fase da lua’²², 2. eslavo eclesiástico měna f. ‘troca’.
1.14. *nĭi- < *niH-
SZ-V *nii-: letão niju pret. de nīt, nīt < *ni.iā- < *niH-eh₂-. SZ-C *ni-: letão nīt, nīt ‘realizar um movimento circular’, sviestu nīt ‘bater o creme para fazer manteiga’. SE *neiH- ‘conduzir, dirigir’, cf. véd. náyati ‘conduz’, hitita nēanzi 3pl. ‘dirigem (conduzem), enviam’ (LIV 406). Em letão, o prs. *neju foi substituído por niju em consequência da analogia com o pret. niju. No LIV não há menção ao verbo letão.
1.15. *pii- I < *pih₃-
SZ-V *pii-: eslavônico eclesiástico pijetǫ prs. ‘bebo’ < *pih₃-e- (alomorfo *pih₃- por metátese de *ph₃i-), cf. russo pju, pješь (inf. pitь), p’jányj, ucraniano pju (inf. pytý)²³. WSZ-V *pii-: eslavônico eclesiástico upijati sę ‘embebedar-se’ (intensivo secundário em -vati: opivati sę idem²⁴, de que pivo n. ‘bebida’ como pós-verbo).
²⁰ Vale a pena investigar se lijati não pode ser um reflexo do proto-eslavo *lъj-ē-, isto é, uma formação paralela ao lituano patyjęti; ver acima.
²¹ Cf. letão meju, de miet ‘fincar uma estaca, queimo’.
²² A ausência de acento agudo prova que esses nomina foram derivados de SZ-V *mii-, e não de SE-C *mej-. LIV 383 apresenta apenas o anitótico *mej- ‘trocar; permutar, mudar’.
²³ Inaczej Stang (1942: 46), który (niesłusznie) operuje pierwiastkiem anitowym *pej-.
²⁴ Cf. eslavo posmijati se ao lado da forma mais antiga posmijati se ‘zombar’. O sufixo secundário -vati provém de uma resegmentação ocorrida no tipo oplivati, eslavônico eclesiástico ‘cuspir sobre’ ⇒ opli-vati (segundo pli-noti ‘cuspir’), poči-vati ‘descansar’ ⇒ poči-vati (segundo *poči-noti ‘repousar’).
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SZ-C *pī-: esl. lit. piti ‘beber’.
SE *peh₃- > *peh₃-i- (cf. a notação *peh₃(i)- ‘trinken’ em LIV 417).
Deriv. *pai-V: eslov. napojiti caus. ‘dar de beber, dar de beber²⁵ (pós-verbal napoji, -a m. ‘bebida’, cf. acima lojĭ ‘sebo’).
1.16. *pii- II < *piH-
SZ-V *pii-: 1. lit. pijo pret. de pyti (ver abaixo), 2. prs. infixado pīja ‘enche-se de leite’ < *pi-n-i-²⁶, de *pi.ie- < *piH-é-.
SZ-C *pī-: 1. lit. pyti ‘encher-se de leite (sobre os úberes das vacas)’, išpyti ‘ficar encharcado (sobre o solo, a levedura)’; pýdyti caus. ‘massagear o úbere antes da ordenha para que o leite aflua’, 2. esl. comum *pitǫ ‘saciado, satisfeito’ < *piH-tó-, que serviu de base ao verbo denominativo esl. comum pitěti sę ‘saciar-se, alimentar-se’ (daí o caus. pitati ‘saciar, alimentar, nutrir; criar’) e ao substantivo esl. comum pišta f. ‘alimento’, croata pića, polonês antigo pica²⁷.
SE *peiH- ‘inchar’ (LIV 419), cf. véd. pāyate ‘jorra (sobre o leite)’. Um alomorfe em SO pode estar presente no lit. pěnas m. ‘leite’ < *păina- < *pojH-no- (ver šiena s.v. šii- II).
Não há em lit. SO *pai- de pij-.
1.17. *prii- < *priH-
SZ-V *prii-: eslavo *prĭjǫ ‘demonstro amizade, benevolência’ – inferido da presença do iterativo em SW prijati ‘favorecer alguém, ser benevolente com alguém’²⁸. Reconstrução *pri.ie- < *priH-é-. Cf. véd. priyá- ‘querido, desejável; próprio, contado entre os seus’ (ao lado de prs. prináti ‘alegra-se com algo, está satisfeito; deleita-se com algo’ < *pri-né-H-ti (Mayrhofer EWAI AII 189).
Cf. o SZ correspondente a *bʰeiH-, *leiH-, *ueiH-.
SZ-C *pri-: não atestado no balto-eslavo. Cf. véd. prītá- ‘disposto amigavelmente’ < *priH-tó-, prīti- f. ‘alegria, satisfação’ < *priH-tí- (Mayrhofer EWAI AII 181).
SE *preiH- ‘alegrar, demonstrar amor’ (LIV 441): prs. tcheco, přējǫ, tcheco antigo přěju (Trautmann 1923: 231). No báltico há letão priēks ‘alegria’ (ME III 393) < *prei-ka-. Quanto à formação, cf. letão spēks ‘força, poder; multidão’, lituano spēkas ‘força, poder’ (de spēju, spėti ‘ter tempo livre’, suspėti ‘conseguir chegar a tempo’ < *speh₁-) e eslavo eclesiástico znakъ ‘Kennzeichen’ < *žnō-ka- (de znajǫ, znati ⇐ *gneh₃- ‘conhecer’).
25 Derywat od prs. na -ī-, nie zaś -ī- (inf. -i-), jak u Vaillanta (1966: 417). Zob. wyżej gojiti, gnojiti, *krojiti, *lojiti.
26 É duvidosa a reconstrução de pȳja como *piH-ié- em LIV 419/ Com a continuação regular da dada proforma, teríamos de obter †pýja com acento agudo. Essa forma seria completamente irregular, porque o báltico não combina o sufixo -i̯e/o- com temas em *-iH-, cf. nota 6.
27 É controversa a classificação do proto-eslavo *pirъ, eslavo eclesiástico piro ‘banquete, Gastmahl’; igualmente, pode pertencer ao eslavo eclesiástico piti ‘beber’.
28 Dado que prijati em nada se distingue de iterativos como eslavo eclesiástico lijati ⇐ *līj- (s.v. *lii- II) e lituano palyjėti ⇐ *līj- (s.v. *lii- I), eslavo mijati em relação a letão miju (s.v. *mii-), eslavo eclesiástico upijati sę em relação a pijętǫ (s.v. *pii- I), não se vê necessidade de admitir, seguindo Vaillant (1966: 293), um empréstimo do gótico fijōn ‘ser amigável’.
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1.18. *ri̯- I < *riH-
SZ-V *ri̯-: 1. letão ri̯u presente, ri̯u pretérito, de rīt (ver), lituano nur̄jo pretérito ‘engolir, devorar’, de *rih₂-e-, -eh₂-, 2. lituano presente com infixo rī̀ja/rīja < *ri-n-i- (forma variante rīna, resultante do cruzamento de *rina < *ri-n-H- e rīja), 3. substantivos: lituano rījikas m. ‘glutão’, rījimas m. ‘comilança, devoração’.
SZ-C *rī-: lituano rýti ‘engolir, devorar’, letão rīt idem (intensivo ristīt ‘devorar rapidamente’)²⁹.
SE *reh₂- ⇒ *reh₂i-: A forma em grau zero *rih₂- representa uma alteração metatética a partir de *rh₂i- como SZ para *reh₂i-, esta, por sua vez, abstraída do presente *reh₂-ie-, cf. letão rāju ‘censuro, repreendo’. Falta em lituano o SP *ro-C²⁹.
Derivados rai̯-V: lituano rajōti ‘mastigar, ruminar’, rajùs ‘guloso’, prarajà f. ‘abismo, precipício’.
1.19. *ri̯- II < *h₃riH-
SZ-V *ri̯-: esl. *řijęnu < *HriH-en-, alterado em eslavônico eclesiástico otъ-rivenŭ ‘afastado, rejeitado’ (Vaillant 1966: 232), com v transferido do sinônimo otъ-rinovenŭ ou também do verbo otъ-rūvati ‘arrancar’.
SZ-C *rī-: eslavônico eclesiástico rǫti se ‘desabar, ruir’, otъrinǫti ‘expulsar, rejeitar’, iterativo otъ-rivati ‘repelir, afastar’, urivati ‘cercar’.
SE *h₃rejH- ‘rolar, girar; fluir’ (LIV 271). SZ no védico riṇāti ‘faz fluir, faz correr’, rīyate ‘flui, corre’. Cf. WSE eslavônico eclesiástico rějǫ, rějati ‘correr, rolar (da água)’ (derivado rě-ka ‘corrente, rio’).
Derivados rai̯-V: esl. *rojī m., russo roj, polonês rój (de abelhas); esl. *vǫz-rojī m., polonês (w)zarój ‘lugar onde a água brota, nascente’.
1.20. *si̯- I < *siH-
SZ-V *si̯-: lit. sijóti ‘peneirar, passar por uma peneira’, apsijóti ‘semear por cima’ < *si̯ā- < *sih₁-eh₂-. A forma báltica *sih₁- representa a forma metatética *sh₁i- como SZ de *seh₁i- (esta, por sua vez, abstraída do presente *seh₁-ie- ‘semeia’). Cf. esl. ant. sějǫ < *seh₁-ie-, inf. sěti ao lado de sějati31 ‘semear, peneirar’.
SZ-C *sī-: lit. sýtas m. dial. ‘grande peneira para joeirar cereais, joeira’.
SE *seh₁i- ‘pressionar para dentro, inserir’ ⇒ ‘semear’ (LIV 469).
Deriv. sai̯-V: lit. sajùs ‘aquilo com que se pode semear muito’, que tem como sinónimo sėjùs, é associado sincronicamente a sėti ‘semear’ (pres. sėju) e testemunha a mistura das raízes que significam ‘semear’ (*sē-) e ‘peneirar na peneira’ (*si̯-). A forma radical saj- está para sij- assim como, por exemplo, spar- está para spir- (sparùs ‘ágil, vivaz’ ⇐ spìrti, entre outros sentidos, ‘apressar, insistir’).
29 ME₃ 540, seguindo Osthoff, relacionavam com o véd. riṇāti ‘deixa fluir, deixa correr’, rīyate ‘flui, corre’. Hoje, LIV 271 atribui as formas védicas ao protoindo-europeu *h₃eiH- ‘ferver, girar’ ⇒ ‘fluir’, mas não menciona ali o lit. rýti.
30 Quanto ao lit. rėju, jau, rieti ao lado de rėjau, rieti ‘raspar, lamber’, explica-se mais facilmente como um derivado do tipo vrddhi: *rēi-C < *reih₂- de SZ *rih₂-. Cf. protoindo-europeu *reh₂(i)- ‘gritar, berrar’ em LIV 543.
31 Quanto ao sufixo *-ā-, cf. lit. sėjo ‘semeou’, pretérito formado a partir do presente sėj-a, etimologicamente sė-ja ‘semeia’ < *seh₁-ie-.
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– A entonação das palavras lit. sietas ‘peneira’, croata sìto favorece a protoforma báltico-eslava *séi̯ta- < *séih₁-to-. Esta, por sua vez, pode ser interpretada como uma formação vr̥ddhi em relação à raiz zero *sih₁- (cf. a explicação de lit. siena s.v. sij- II)³².
1.21. *sij- II < *siH-
Raiz zero plena *sij-: 1. lit. sijo pret. ‘amarrava’, 2. prs. com infixo sȳja < *si-n-i-³³, 3. nomes: sijā f. ‘viga que une a estrutura, ligação’ < *si.iā- < *sih₂-eh₂-; atāsija f. dial. ‘barra ou corda que liga os eixos das rodas dianteiras à timoneira’, literário ātsija idem. – A forma *sih₂- resulta da metátese de *sh₂i-, isto é, da raiz zero de uma raiz neocriada *sh₂ei-, que foi abstraída do prs. *sh₂-ei̯é- (lit. *sajù, cf. o tipo eslavo eclesiástico antigo stojǫ de *sth₂-ei̯é-, raiz plena *steh₂-).³⁴ – O prs. lit. sinù dial. ‘amarro’ pode ter uma formação infixada antiquíssima, *si-n-h₂-e-³⁵ a partir de *sih₂- (inf. °sȳti), cf. véd. sināti ‘prende, ata os cascos’ < *si-né-h₂-ti.
Raiz zero reduzida *sī-: lit. sī-: užsī́ti ‘amarrar’, susyti ‘atar a algo’ < *sih₂-C. – Lit. siena f. ‘parede (de vime); fronteira’ < *sei-nā < *sei̯h₂-neh₂-³⁶ parece uma formação vr̥ddhi.
Raiz plena *seh₂-, cf. véd. ā́va sāt ‘desata’ (LIV 471). No báltico, *sei̯h₂- surgiu secundariamente da raiz zero *sih₂- (vr̥ddhi): lit. dial. sejù ‘amarro’ < *sei̯h₂-e-. O infinitivo sieti (não há *sieti!) e o pretérito sėjau baseiam-se no tema de presente sej-. Por conseguinte, no que diz respeito à raiz no protoindo-europeu, deve-se registrar a perda de seu caráter set.³⁷
N.B. A presença da raiz neocriada sej- não permite interpretar inequivocamente os derivados lituanos em grau o como baseados na raiz zero plena sij-. Isso se aplica ao verbo sáistyti ‘enrolar, envolver’ (acento agudo analógico) e aos substantivos pasaitas m. ‘amarração, correia’, atāsaja albo atsajā f. (esta é uma variante da palavra atāsija, veja acima).
1.22. *ui̯i- I < *uiH-
Raiz zero plena *ui̯i-: lit. vijo pret. ‘enrolava; impelia, perseguia’ < *ui.iā- < *uih₁-eh₂-, nuvijóti iter. ‘desenrolar, desenvolver’, ī̯vijas ‘sinuoso, enrolado, espiral’, vijōklis m. ‘trepadeira’.
Raiz zero simples *ūi-: lit. pavȳjė́ti ‘impelir, afastar um pouco (por exemplo, galinhas da horta)’, cf. palȳjė́ti e outras correspondências s.v. *lii- I.
Raiz zero reduzida *ūi-: lit. nuvýti ‘trançar, fazer trançando; afugentar, enxotar’, įvýti ‘trançar para dentro; impelir, empurrar para dentro’.
Protoindo-europeu *uei̯h₁- ‘dirigir a atenção para, aspirar a’ (LIV 609), cf. lit. vejù dial. ‘impilo, persigo; enrolo’ < *uéih₁-e-.
³² Mniej prawdopodobna jest hipoteza metatezy *séh₁i-to- > *séi̯h₁-to- (Smoczyński 2001: 150f.).
³³ Também a forma ambígua syjęti ‘estar amarrado’: derivado ou do prs. syj(a) ou uma raiz zero simples de sij- (cf. o tipo palȳjė́ti s.v. *lii- I).
³⁴ *sh₂i- como resultado da resegmentação do prs. *sh₂-i̯é- parece menos provável aqui; cf. véd. ā́va syāti ‘desata’, hit. ishiyanzi 3pl. ‘amarram, prendem’.
³⁵ Do resegmentado sin-ù formou-se o pret. sin-iau̯ (raiz neocriada sin-).
³⁶ A formação é como em pienas ‘leite’, em relação a pūti, pija, pijo ‘recolher leite (referindo-se às tetas)’.
³⁷ Se a raiz plena herdada *seh₂- tivesse sido preservada em lituano, produziria o prs. †sóju < *sá-ie- < *séh₂-ie- (cf. klóju ‘estendo, cubro’ < *klā-ie- < *kléh₂-ie-, stóju ‘fico de pé’ < *stā-ie- < *steh₂-ie-).
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Derivados com uąj-V: 1. lituano vajóti iterativo ‘perseguir, enrolar’, letão vajât ‘perseguir’. Substantivos: vajīs m. ‘mensageiro’, vajà f. ‘pasto, pastagem’ (prussiano antigo wayos EV 282 ‘prados, pastagens’), įvajųs m. ‘sinuoso’, 2. eslavônico eclesiástico voi, -ja m. ‘guerreiro; exército’.
Derivados com uąj-C: lituano vãiras m. ‘leme, direção’, vainikas m. ‘grinalda’ (= eslavônico věnьcь), de um derivado intermediário *uąj-ni- ‘tecelagem, entrelaçamento’ (cf. védico veṇíḥ ‘trança de cabelo, trança’).
1.23. *uii- II < *uiH-
SZ-V *uii-: proto-eslávico *-vĭjetù presente ‘enrola, entrelaça, une’ < *uḭ.ie- < *uih₁-éh₂-, cf. WSZ eslavônico eclesiástico °vijetù.
SZ-C *uī-: 1. eslavônico eclesiástico viti ‘tecer, enrolar’ (-vinǫti38), sérvio-croata vìti, 2. lituano výti (ver acima) < *uih₁-C.
SE *ueih₁- ‘envolver, cobrir’ (LIV 610). Cf. lituano vejà s.v. *uii- I.
Derivados com *uąi-V: eslavônico eclesiástico povoi, -ja m. ‘vestido, manto para se enrolar’, esloveno ‘planta trepadeira, ipomeia’.
1.24. *ži- II < *ǵhiH-
SZ-V *ži-: lituano žiōju, žiōti ‘escancarar a boca’. Esta forma é resultado da síncope de uma forma mais antiga *žijāti⁹ = proto-eslávico *žijati (sérvio-croata žjāti, žjām) < proto-balto-eslávico *ži.jā- < *ži.HaH- < *ǵʰih₁-eh₂⁴⁰.
WSZ-V *ži-: eslavônico eclesiástico zijati ‘bocejar de boca aberta’.
SZ-C *ži-: eslavônico eclesiástico zinǫti ‘abrir a boca, escancarar-se’, latim hīscō < *ǵʰih₁-C. Este SZ é uma forma metatética de um *ǵʰh₁i-C mais antigo, relacionado ao elemento não radical *ǵʰeh₁-, que surgiu como resultado da reanálise de ie-presente *ǵʰeh₁-ie-, cf. eslavônico eclesiástico žějǫ41. Não há derivados em SO de žij- (ao contrário de gij-, rij-, ver acima).
SE *ǵʰeh₁- ⇒ *ǵʰeh₁i- ‘escancarar a boca, bocejar’ (LIV 153). Chama a atenção a ausência do lituano *žėju, *žėti.
1.25. Hiato laringal *-iHV atestado indiretamente num derivado com grau o:
SZ-V *dij-
SZ-C *di-: letão dīdīt ‘fazer dançar’.
SE *deih₁- ‘perseguir correndo, apressar-se’ (LIV 91, gr. διένται): letão deju, diet ‘saltar, dançar’.
Drw. *dai-C: lit. dainà 4º sg. acc. ‘canção’ < *dai-nā- (significado etimológico ‘canto para dançar’?). Se esta palavra fosse um derivado do SE, apresentaria o acuto (*dāina).
SZ-V *li- (ver acima, s.v. *lii- I)
38 Cf. esl. povinǫti sę ‘submeter-se, sujeitar-se’, povinǫti ser ‘ser submisso, estar sujeito a alguém’.
39 Para a síncope na sílaba pré-tônica, compare como paralelos: 1. niókoju ‘destruo, devasto’, de *nijokōju, verbo denominativo derivado de nījoks ‘nenhum, nem um’, 2. nãuȳgi ‘será que não?’ (< *ne-jau-gi). Ver Smoczyński (2001: 139, 252).
40 É pouco provável a reconstrução de uma base denominativa *ǵʰ.(i)eh₁-,ie-, proposta em LIV 153 para explicar a suposta base proto-báltica herdada *ž-ia- (> lituano žiō-).
41 Rasmussen (1989: 52) widzi nierozszerzony SE *ǵʰeh₁- w nomen gr. χήμη ‘małż’; miarka (znacz. etym. ‘Gähnen’?).
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SE *h₁eiH- ‘untar, besmear’ (LIV 247, lat. linō, -ere, het. halina- ‘argila’). Derivado *lai-V: lit. ilajai m.pl. ‘argila para tapar buracos (no forno, no piso de barro batido)’. Derivado *lai-C: lit. laitas m. ‘piso de argila batida’. N.B. Do ponto de vista semântico, esta é uma localização melhor para ambas as palavras em lituano do que s.v. *lii- I ‘verter, derramar’.
SZ-V *sujj-
SZ-C *suj-
SE *suejH- ‘desvanecer’ (LIV 553, alto-alemão antigo swīnan): falta lit. *śvieti.
Derivado *suaj-V: lit. svaj-d ‘sonho’ ⇒ svajōti, -ōju ‘sonhar; fantasiar; dizer disparates; andar sem rumo; soprar (do vento)’; letão svajāt ‘falar disparates, dizer tolices, mentir’.
Derivado *suaj-C: *svái-ta f. ⇒ denom. svāitėti ‘delirar, alucinar; dizer disparates; vagar’. Aqui talvez também lit. svai-gùs ‘inebriante, embriagador’ (denom. svaigštù, svaigti ‘ficar intoxicado, embriagar-se, perder a consciência’).
2. DESLIZAMENTO DE W NA POSIÇÃO *u.HV
2.1. *blių- I em vez de *bluų- < *bʰluH-
SZ-V *blių- (*liu generalizado a partir de SE): lit. bliuvóti iter. ‘balir, berrar, mugir’. Em vez de *bluvóti, trata-se de *blu.uā- < *bʰluH-eh₂-. Paralelos s.v. *diųu-, *skių-. SZ-C *bliu- ⇒ *blju- (*li generalizado a partir de SE): lit. prabliūti ‘começar a berrar’, subliūti ‘berrar; gritar’. Em vez de *blúti, cf. gr. γλύει ‘jorra, transborda ao ferver’. SE *bʰleuH-: lit. bliáuti ‘berrar, balir’ < *bliąu-C, cf. gr. φλέει ‘transborda’ (LIV 74).
2.2. *blių- II em vez de *bluų- < *bʰluH-
SZ-V *blių- (*liu generalizado a partir de SE): eslavônico eclesiástico antigo bljīvati, iter. ‘vomitar’ (também com preverbos iz-, o-). Em vez de *blūvati, que provém de *blu.uā- < *bʰluH-eh₂-. Cf. o regular do ponto de vista fonológico *lių em eslavônico eclesiástico antigo pljīvati s.v. *(s)pių-. SZ-C *bliu-: não há palavras. *bly- < *bʰluH- (cf. kryti, kryją s.v. *kruų-, tryti, tryją s.v. *truų-). SE *bʰleuH- ‘transbordar’ (LIV 74). Em vez do protoeslavo esperado *blovǫ (*bljuti/*bluti)⁴², estabeleceu-se no eslavônico eclesiástico antigo bljujo (bljīvati), com blju- próprio da posição anteconsonântica; ver acima lituano bliáuti ‘bramar’⁴³.
2.3. *bruų- I < *h₃bʰruH-
SZ-V *bruų-: 1. lituano ant., dial. bruvìs f. ‘sobrancelha’, acus. brùvį⁴⁴, também brùvē. – 2. eslavônico eclesiástico antigo brŭvĭ, -i f. ‘sobrancelha; pálpebra; cílio’, polonês brew, brwi < pbsl. *bru.uin (acus. sg.) < *h₃bʰruH-m̥.
42 Cf. rovǫ:: rjuti/ruti (pwk. *h₃reuH-), trovǫ:: truti (*treuH-) e os anitovos plovǫ:: pluti (*pleu-), slovǫ:: sluti (*kleu-).
43 Com o significado de ‘vomitar’, o lituano conservou o verbo antigo: vēmti (vemiu) < indo-europeu *u̯emh₁-.
44 Reconstruiu-se um nominativo com tema em -i- a partir da forma de acusativo singular em *-im < *-m̥.
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SZ-C *bru-, cf. védico bhrū́h, acus. bhrū́vam, grego ὀφρύς, ὀφρύα ‘sobrancelha’. SE *h₃bʰreuH-. Ausência de reflexo do protoeslavo *br̥āu-C.
2.4. *bru̯- II < *bʰruH-
SZ-V *bru̯-, ver WSZ-V.
WSZ-V *brū-: lit. brū́vėti, prs. -iù/-ė́ju ‘trabalhar arduamente, trabalhar pesado, cansar-se’ (LKŽ).
SZ-C *brū-: lit. brū́dyti ‘mandar apressadamente’⁴⁵: Brūdýk, kol išbrūdysi šeimyną į pievą suimti śieną prieš lietų, isto é, ‘apressa-te o mais rápido possível’ (LKŽ). Com o mesmo significado aparece o vb. quase primário brū́du, brū́dau, brū́sti (LKŽ), que parece ser um derivado regressivo do anterior.
SE *bhreuH- ‘irromper’ (LIV 81): lit. briáutis, -jasi/-nasi ‘invadir, entrar à força’, ao lado de bráutis idem, com r não palatalizado proveniente do prs. bráujasi, onde ocorreu a perda dissimilatória de i antes do sufixo -i̯a- (cf. máuju s.v. *mu̯- II). Ver *bru̯- III.
2.5. *bru̯- III < *bʰruH-
SZ-V *bru̯-: ps. *brūvь, -i f. ‘pequena ponte, passarela feita de um tronco colocado sobre um riacho’, alterado para *brǔvь por assimilação vocálica (ESJS 85): rus. antigo brū̆v ao lado de brūvь, sérvio-croata sh. brv, tcheco antigo břev, gen. břvi. Mais difundido é o derivado em -no-: eslavo eclesiástico antigo brīvno, brūvino n. ‘tronco, viga’, tcheco antigo břevno, polonês antigo birzwno. Etimologia incerta, ver ESJS 85. Talvez remonte ao indo-europeu *bʰreuH- com o significado de ‘jorrar (referindo-se à água que brota das profundezas da terra)’, cf. lit. briáutis ‘invadir, entrar à força’, rus. brujá ‘forte corrente de água’, bruítb ‘fluir velozmente’, além do gr. φρέαρ, -ατος n. ‘poço’, gótico brunna m. idem. Nesse caso, poderia tratar-se de madeira usada para revestir as paredes de um poço ou de uma nascente.
2.6. *bu̯- < *bʰuh₂-
SZ-V *bu̯-: lit. 1. bū́vo prt. ‘era’ < *bu.u̯á < *bʰuh₂-eh₂-, 2. prs. infixado bū́va/bū́va ‘costuma ser, é’ < *bu-n-u- (a forma variante bū́va resulta do cruzamento de *būna < *bʰu-n-H- e bū́va), 3. lit. buvóti iter. ‘costumar estar em algum lugar, ficar, permanecer’, 4. eslavo eclesiástico antigo zabūvenŭ ‘esquecido’⁴⁶, 5. prussiano antigo buwinayti 2 sg. imper. ‘habita, vivei’.
WSZ-V *bu̯-: 1. bū́vis m. ‘ser, existência’, 2. eslavo eclesiástico antigo byvati ‘ser, tornar-se’, byvati sę ‘acontecer’, zabývati ‘esquecer’, pribyvati ‘estar junto a algo, chegar’. Deve-se postular aqui como tema o eslavo comum *būvati, paralelamente ao lit. buvóti? Cf. žyvati ⇐ žūvati, prs. zovo, *ryvati ⇐ rūvati, prs. *rovo.
SZ-C *bū-: 1. lit. būti ‘ser’, 2. eslavo eclesiástico antigo byti ‘ser’, sérvio-croata biti.
SE *bʰuh₂-, secundariamente *bʰeuh₂- ‘crescer, surgir, tornar-se’ (LIV 83).
⁴⁵ Caus. em -dyti, como, por exemplo, pū́dyti ao lado de pū́ti e *pūvéti, ver s.v. *pu̯- I.
⁴⁶ Em vez de *zabūvonŭ, de *bu.ana- < *bʰuh₂-eno-. Ver abaixo *krīvenŭ, *mūvenŭ, *trīvenŭ.
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Drw. *baų-V: proto-eslavo *bovǫ prs. ‘permaneço em algum lugar’ (cf. véd. bhávati ‘é, torna-se, acontece’) é implicado por eslavo baviti ‘entreter, permanecer’, eslavo eclesiástico antigo izbaviti ‘libertar, salvar’, de origem iterativo-causativa com SO alongado, *bōų-i-. Cf. plaviti ⇐ plovǫ, traviti ⇐ trovǫ47. Chama a atenção a ausência em lituano de SO *bav-V/*bau-C.
2.7. *dinžų- < *dŋ́h-uh₂-
SZ-V *dinžų-: prussiano antigo insuwis ‘língua’48, lituano liežùvis49. Trata-se aqui de SZ do sufixo *-ueh₂-: *dŋ́h-uh₂- para PIE *dŋ́h-ueh₂- (Rasmussen 1989: 88). Cf. véd. juhú- f. ‘língua; língua de Agni = chama’ (Mayrhofer EWAIa, 591). – Em eslavo, com base no proto-eslavo *dęzuv-V, formou-se o nom.sg. *dęzy; a partir dele, *dęzy-kū, que depois, por associação analógica com lizati ‘lamber’ (PIE *leiǵʰ-), mudou sua forma para *lęzykū e, por fim — por um caminho obscuro — para języki (cf. lat. lingua em vez do latim antigo dingua).
2.8. *džių- em vez de *duų- < *dʰuH-
SZ-V *džiu-: lituano džiuv- na expressão (nu)džiūvo, pretérito de džiūti (LKŽ)⁵⁰; 2. prs. com infixo džiūva em vez de *dūva; a forma herdada era *dūna < *dʰu-n-H-); 3. džiuvinti caus. ‘secar’ (LKŽ); 4. substantivos: džiuvėsis m. ‘pedaço de pão ressecado; pessoa emagrecida, ressequida’, džiuvinys m. ‘aquilo que se destinou a secar; produto seco’.
WSZ-V *džiu-: pretérito (nu)džiūvo ‘secou’.
SZ-C *džiu-: lituano džiūti ‘secar, ressecar-se, murchar’ (prs. džiūsta), letão žūt. Cf. pūti s.v. *puų-.
SE *dʰeuH-: 1. lituano džiáuti (džiáuju, džioviau) ‘pendurar para secar, secar’, letão žāut < balto-prussiano *diāu-. – 2. Com a mudança eų > oų, deve-se incluir aqui o proto-eslavo *dovǫ, *duti ‘inchar-se; soprar, ventar’: eslavo eclesiástico antigo naduti se, dujeti se ‘inchar-se’, servo-croata dūti, dūjem51. O SW *dōų-V em vez de *dōų-V é visível no eslavo eclesiástico antigo podaviti ‘sufocar; esmagar, aniquilar’ (causativo original ‘privar do fôlego’; diferentemente, ESJS 124, LIV 130).
N.B. 1. O báltico mostra generalização em todo o paradigma do ataque dź- < *d₁- a partir de SE, razão pela qual faltam aqui variantes com d-: *dū-C/*duų-V (SZ) < *dʰuH- e *dāų-C (SO) < *dʰoųH-. Nesse contexto, também džiuv- < *džiu- deve ser uma inovação em lugar de *duv-.
N.B. 2. Se for possível relacionar o lituano džiáu-/džiū- ‘secar, ressecar-se’ com o PIE *dʰeuh₂- ‘fumar, defumar’ (ver Smoczyński 2001: 155), então o ataque d- esperado para o balto-prussiano pode eventualmente estar atestado em dois casos: primeiro, no verbo esloveno diti
47 Diferentemente, ESJS 258, onde izbaviti é derivado de *jьzbyti, assim como zabaviti de zabyti.
48 A perda de d-, para a qual servem de paralelos o lituano ilgas ‘longo’ < *d’ilgas, do PIE *dʰl̥ghó- (cf. eslavo eclesiástico antigo dlъgъ, servo-croata dūg), e āšara ‘lágrima’, pertencente ao tema *dašru < PIE *d(r)ak’ru; cf. gr. δάκρυ n., latim antigo dacru-ma.
49 Alterado no radical por associação com liežùti ‘lambo’ (PIE *leiǵʰ-).
50 Cf. supūvo ‘apodreceu’ de pūti (s.v. *puų-).
51 A isso corresponde, como perfectivo, o eslavo eclesiástico antigo vъdnǫti ‘inspirar, suspirar’; esloveno dúniti, referido ao sopro do vento; polonês antigo dunąć ‘soprar, lançar uma rajada’.
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(prs. díjem) ‘exalar perfume, soprar’ < ps. *dyti < *dʰuh₂-C, cf. o tipo eslavo eclesiástico antigo kyti, kyjǫ (s.v. *kruų-), ryti, tryjǫ (s.v. *truų-); em segundo lugar, no substantivo isolado lituano dūlis, -io m. ‘madeira podre usada para defumar abelhas’, de adj. *dūlas < *dʰuh₂-ló-⁵² (formação paralela a dūmai m. pl. ‘fumo’ < *dʰuh₂-mó-, ver LIV 131).
2.9. *griuų- em vez de *gruų- < *gʰruH-
SZ-V *griuų-: 1. lituano grìuvo ‘desabar’, pret. de grìūti, em vez de *gruv-ā- < *gʰruH-eh₂-, com r’ segundo SE (ver), 2. prs. infixado grìųva ‘está desabando’ < *gʰriu-n-u-, em vez de *gru-n-u-; ainda mais antigo *grūna < *gʰru-n-H-, cf. a variante grìūna), 3. subst. gr(i)uvėsiai m. pl. ‘ruínas’.
SZ-C *grių-: lituano grìūti ‘desabar, cair para baixo, ruir’ (em vez de *grūti).
SE *gʰreHų- ‘precipitar-se, lançar-se’ (LIV 182) ⇒ *gʰreuH-, pbáltico *gʰriāų-: lituano gríauti, griáunu, grióviau ‘virar e derrubar, demolir, destruir’.
2.10. *guų- < *guH-
SZ-V *guų-: 1. letão guvu ‘agarrei’, pret. de gūt, de *gu.ųā- < *guH-eh₂; 2. em lituano falta o pret. *guvaĩ, mas há o substantivo guvìs ‘hábil, ágil; vivaz, rápido como uma faísca’.
SZ-C *gū-: letão gūt ‘agarrar, apanhar, obter’ (prs. gūnu e gūstu⁵³), iter. gūstīt.
SE *geųH- ‘obter’ (LIV 167): o lituano gáuti ‘obter, receber’ tomou o lugar de *gʰiāų-. O ataque foi nivelado segundo a forma SZ, mas o prs. gáunu também leva a considerar aqui a influência da antiga formação infixada *gunū < *gu-n-H-é- (de modo semelhante no caso de
šáunu ao lado do inf. *šiáuti, ver s.v. *šuu-).
2.11. *klių- em vez de *kluų- < *kluH-
SZ-V *klių-: 1. lit. pakliùvo pret. de kliùti. Em vez de *kluv-ā- < *kluH-eh₂-, com l’ segundo SE, 2. prs. com infixo kliųva ‘cair em algum lugar ou em algo; atrapalhar’ < *klių-n-u-, em vez de *klu-n-u- (ainda mais antigo *klūna < *klu-n-H-, cf. a variante kliūna).
SZ-C *klių-: lit. kliùti ‘chegar a; atrapalhar’.
SE *kleųH-, pbáltico *kliaų-: lit. kliáutis (kliáujuosi, klióviausi) ‘unir-se, associar-se, envolver-se com alguém; confiar em alguém’.
2.12. *knių- em vez de *knuų- < *knuH-
SZ-V *knių-, ver WSZ-V.
WSZ-V *kniū-: lit. kniūvynės f.pl. ‘briga’ (significado etimológico ‘luta, empurra-empurra’). Variante secundária knyvynės ‘discussão, desentendimento’. O kn- inicial é modelado segundo SE (ver).
SZ-C *knū-: letão knūdu ou knūstu, knūdu, knūst ‘coçar’, āda knūd ‘a pele coça’. O tema em -d- generalizou-se a partir do prs. *knū-da < *knuH-dʰ-e-, significado etimológico ‘coça-se’. Além disso, a forma de vogal breve knūd ‘coça’, knūdēt, até agora sem explicação.
52
Cf. a observação sobre púliai s.v. *puų-.
53
Não se pode excluir a análise *gun-stu, derivada de uma renovação de *gunu < *gu-n-H-e.
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SE *kneuH- ‘arranhar’ (LIV 326, gr. χνύω ‘arranha’), báltico comum *kni̯au-: lit. kniautis, kniąjuosi, knióviausi ‘lutar, brigar com alguém’, atsikniauti ‘(de uma crosta numa ferida) desprender-se, soltar-se’. Mais amplamente difundido é kniausiu ‘remexer em algo, escavar, revolver; procurar algo’, refl. ‘enterrar-se (remexendo na terra, na palha)’, que outrora pertencia ao inf. *kniau-séti.
2.13. *kruu- I < *kruH-
SZ-V *kruų-: 1. 1.ª pess. *krùvenǫ ‘coberto’, esl. ant. nepokrývenǫ ‘não coberto’⁵⁴ < *kru.ę.no- < *kruH-eno-; esl. ant. pokrývati ‘cobrir, tapar’ < *kruH-eh₂-, 2. letão kruva ‘monte (malkas kruva ‘pilha de lenha’); colina, elevação’ (var. kruva, com r deslocado do SE, ver abaixo), 3. é incerta a pertença do letão kruvesis m., que, além de ‘a corcova’ (ver acima kruva), também significa ‘excremento endurecido pelo gelo na estrada, no campo’; ver ME II 291 (aqui, comparação com gr. κρύος ‘geada’, κρύσταλλος ‘gelo’).
WSZ-V *krū-V: 1. esl. ant. pokryvati iter. ‘cobrir, tapar’, 2. lit. krūvà f. ‘monte (de pedras, madeira, palha, estrume); grupo de pessoas’ (denom. krūvyti ou krūvóti, krūvuoti ‘empilhar’).
SZ-C *krū-: 1. esl. ant. kryti, kryją ‘cobrir’ (paralelo s.v. *trų-), 2. lit. krūšnis, -ies f. ‘monte, pilha de pedras’.
SE *kreųH-: letão krąūt, krąūju ‘amontoar, reunir, carregar’ < *kri̯ąu-C. O início secundário kr- em lit. kráuti ‘empilhar, pôr em cima’ é resultado da dissimilação ocorrida na forma do prs.: *kriáuju > kráuju (cf. máuju em vez de *mjaúju e a nota 56).
Deriv. *krąu-V: lit. pérkravinėti ‘recarregar, sobrecarregar (uma carroça)’, kravuš ‘espaçoso, que comporta muito’ (de uma carroça, de um celeiro), kravažai m. pl. ‘coisas transportadas durante uma mudança, cargas’, letão krava f. ‘monte’. — Do eslavo, cf. esl. ant. krovъ m. ‘telhado, cobertura; abrigo; tenda, cabana; lugar coberto’, esl. ant. pokrovъ m. ‘cobertura, telhado; proteção, defesa’.
2.14. *kruų- II < *kruH-
SZ-V *kruų-: báltico-eslavo comum *kruųina- < *kruh₂-V, cf. 1. lit. krūvinas ‘sanguinolento, ensanguentado’, 2. eslavo krūvinъ ‘sanguinolento; aparentado’ (pol. krewny), 3. esl. ant. krŭvi, -ve f. ‘sangue’, russo krovь, originalmente antigo acusativo singular de kry, < *kru.ųin < *kruh₂-m̥.
SZ-C *krū-: finlandês comum ky, finlandês oriental krĩ, dial. sérvio-croata krĩ f. ‘sangue’ < báltico-eslavo comum *krūs. Cf. avéstico xrū- ‘carne crua, sanguinolenta’, xrūra- ‘sanguinolento; cruel’ (lat. crūdus ‘cru’).
PIE *kréu̯h₂-s-, cf. véd. kravíṣ- n. ‘carne escorrendo sangue’, gr. hom. χρέας idem < *kréua-s-. Nas línguas báltico-eslavas não há vestígio de *kri̯ąu-C. No entanto, o alomorfe etimológico *kri̯ąu- é visível no letão kreve f. ‘sangue coagulado, crosta numa ferida’, de *krave. Deriv. krevains ‘com crostas’, krevelains idem.
Deriv. *kraų-C: lit. kraujas m. ‘sangue’ (também kraujai como pluralia tantum) é ambíguo. Em primeiro lugar, kraų- pode ser um SO de *kruų-. Como tais derivados costumam apresentar o sufixo báltico-eslavo -a-/-ā-⁵⁵, e não -i̯a-, krau-ja- poderia ser um derivado de segundo grau
54 Cf. ainda prikrývenije n. ‘cobertura, abrigo’, sŭkrýveno adv. ‘às escondidas, secretamente’.
55 Cf. letão kruva, esl. ant. krovъ s.v. *kruų-I.
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de algum *kravas ou *krava. Em segundo lugar, kraų- pode estar no lugar de *krųų-, que antes do sufixo -ia- perdeu o segmento radical e, por dissimilação, tal como o vb. kraųju < *kriaųju (cf. letão krāju, ver *kruu- I)⁵⁶. Teríamos, assim, aqui um tema em SE. A ausência de acento agudo obriga a partir do alomorfe prevocálico, *kreuh₂-V- > *kriavas, *kriava. Também neste caso, a formação em -ia- seria uma derivação apenas secundária⁵⁷.
2.15. *kuų- I < *kuH-
SZ-V *kuų-: esl. kŭvati ‘abanar a cabeça’ < *kuH-eh₂-. WSZ-V *kuų-: esl. kyvati ‘abanar a cabeça’, russo kivát⁵⁸. SZ-C *kū-: 1. esl. (po)kynǫti ‘fazer um sinal com a cabeça, acenar com a cabeça’, kyznĭ, -i f. ‘artimanha, maquinações’, 2. lit. kūjis m. ‘martelo de ferreiro’, esl. eclesiástico kyji m. ‘clava, martelo’. SE *keh₁u- ‘wackeln’ (LIV 306) ž *keuH-: esl. kovo, kovati ‘forjar, bater com um martelo’⁵⁹. No báltico, *kāu- generalizou-se à custa de *kiāu-, em consequência da síncope dissimilatória e na formação do presente *kiā-io⁶⁰: lit. káuti, pres. káuju/káunu, pret. kóviau (ant. kavaũ), ‘bater, golpear, forjar’, letão kaût, pres. kaûju/kaûnu, pret. kâvu/kavu⁶¹.
2.16. *kuų- II < *kuh₁-
SZ-V *kuų-: proto-eslavo *kųenŭ ‘sentido’ < *kuh₁-V⁶². Segundo SE, foi substituído por čuti ‘sentir; ouvir’ por *čivenŭ; cf. eslavo eclesiástico učŭvenije, sérvio antigo čvenije (Vaillant 1966: 288); mais tarde, foi renovado como *čuvenŭ, cf. croata čuven ‘conhecido, reconhecido’. – No báltico, impõe-se como equivalente o tema verbal lituano antigo kuv-ē- (ou SW kūv-ē-) reflexivo ‘precaver-se (dos pecados), escapar (à perdição), evitar (as pessoas)’, escrito <nusisukuvitie>, 3.ª pess. pres. <kuwisi>⁶³, embora a relação entre os significados eslavo e lituano continue difícil de explicar.
SZ-C *kū- (sem reflexos). SE *(s)keuh₁- ‘perceber, olhar’ (LIV 507): eslavo eclesiástico čujo, čuti ‘sentir, perceber’ < *kiāu-C.
56 Paralelos: naũjas ‘novo’, de *n̥iaų-ias < PIE *neu̯-io-s (cf. o jónico νεῖος, o gótico niujis, o védico návya-, ver Smoczyński 2001: 122, 162); brájuos, s.v. *bruu- II, máuju, s.v. *muu-.
57 Admitindo um sufixo original *-io-, a laringal estaria em posição pré-consonântica, o que teria necessariamente de produzir um reflexo com acento agudo: *kráujas < *krouh₂-io- ou *kráujas < *kreuh₂-io-. Cf. acima o védico kraviś e o grego κρέ(ϝ)ας.
58 Por. Vaillant (1966: 284), gdzie też porównanie formalne ze stlit. kŭvētis. To ostatnie jest moim zdaniem bliższe *kuu- II, zob. niżej.
59 O reflexo ov resulta da mudança proto-eslava *eų em *ou. Como consequência, no domínio apofônico, SE funde-se com SO. Cf. abaixo as formas etimológicas em SE: plovǫ, s.v. *pluu-, rovǫ, s.v. *ruu-II, snovǫ, s.v. *snuu-, trovǫ, s.v. *truu-, zovǫ, s.v. žųu- I.
60 Cf. lit. kráuti em contraste com letão kraût (s.v. *kruu-I).
61 LIV 308 reconstrói a forma proto-balto-eslava *keh₂u- ‘bater, rachar’ e atribui ao eslavo eclesiástico kovo a estrutura *koh₂u- (de origem, um presente reduplicado em SO: *ḱé-koh₂u-). Segundo o mesmo dicionário, o lit. káuju seria um presente secundário em -ie- com vocalismo proto-balto-eslavo o: *koh₂u-ie-. Duvidoso.
62 Cf. védico ākuvátē ‘pretende, planeia algo’.
63 Zob. dokumentację z Punktay sakimu Szyrwida (1644) w Smoczyński (1989: 50).
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Ver *skuu-.
2.17. *liųu- em vez de *luų- < *luH-
SZ-V *liųu-, ver WSZ-V.
WSZ-V *liųu-: lit. liūvis m. ‘cessação de algo, rompimento com algo’. Cf. gr. hom. λύω ‘liberto’ < *lu.uō < *luH-ē-.
SZ-C *lū- < *luH-. Provavelmente pertence aqui, como substantivo deverbal, *lū-ka-, esl. ant. *łyko n. ‘líber de tília’, sérv.-croat. līko, rus. lýko, checo lýko, pol. łyko⁶⁴, com o significado etimológico ‘aquilo que foi separado, arrancado’⁶⁵. (N.B. Por outro lado, lit. lùṅkas ‘líber’, let. lûks têm outra origem. Trata-se de um derivado pós-verbal do verbo *lūṅku (*lū́kau, *lū́kti) ‘arrancar o líber’, formado a partir do substantivo *lū́ka- ‘líber’⁶⁶).
IE *leuH- ‘cortar, soltar’ (LIV 374, ved. lunāti ‘corta’⁶⁷), báltico comum *li̯āu-: lit. liáutis (liáujasi, lióvesi) ‘conter-se, parar; suportar, aguentar’, let. ļauties ‘parar’, ļaut ‘permitir, admitir’⁶⁸.
2.18. *mluų- < *mluh₂-
SZ-V *mluų-: esl. ant. mlȳva f. ‘alvoroço, tumulto, barulho; confusão, inquietação, motins’ < *mlu.uā- < *mluh₂-eh₂- (cf. ved. bruvánti 3.ª pl. pres. ‘falam’, particípio pres. bruvánt- < *mluh₂-ént- ‘que fala’); sem mlȳvy adv. ‘calmamente, em silêncio’, mlȳvьnъ ‘barulhento, estrondoso, inquieto’. – De mlȳva formou-se o verbo denominativo esl. ant. mlȳvljo, -iti ‘fazer barulho, provocar confusão, incitar motins, instigar’⁶⁹; em outras línguas, ‘falar’: checo antigo mluviti, pol. mówić (ant. e dial. mołwić), rus. mółvitь.
SZ-C *mlū-. Talvez esteja presente no eslavo *młynū m. ‘traça’ < *mlū-no- (significado etimológico proposto: ‘barulho, som alto das pedras que se esfregam umas contra as outras’).
Ausente no eslavo. IE-C *ml(j)u- < proto-balto-eslavo *mli̯āu-C < *mleuh₂-⁷⁰ (cf. avést. mraomī ‘declaro, falo’, ved. brávīti ‘fala’)⁷¹. O alomorfo antevocálico seria esl. antigo *mlov-⁷², cf. rovǫ, r(j)uti, trovǫ, truti.
⁶⁴ Quanto à formação, cf. esl. *rykú ‘rugido’, s.v. *ruu- II.
⁶⁵ Cf. os nomes lituanos para ‘líber’: máukna ⇐ maũkti, entre outros, ‘arrancar a pele, a casca’, karnà ⇐ kérti ‘desprender-se, separar-se’, plaušà ou plaušas ⇐ plýšti ‘rasgar-se, romper-se’.
⁶⁶ Cytowanemu w kółko zrównaniu lit. lùks ze słow. łyko (zob. np. Trautmann 1923: 163) sprzeciwiają się prawa głosowe: ani słowiański nie zna †lǫkъ, ani litewski †lūkas w znaczeniu ‘łyko’.
⁶⁷ Sem material báltico. Este encontra-se em LIV, s.v. *leh₁-, na p. 358.
⁶⁸ O lit. liūtas ‘leão’, até agora problemático, pode ter o tema lū-, abstraído do pres. intr. *liūva ou *liūna ‘rasga-se; rompe algo em si’ < *liu-n-u-. O adj. liūtas ‘selvagem’, tomado de empréstimo do rus. ljuty, é independente disso (ver Fraenkel LEW 382).
⁶⁹ Quanto à formação, cf., por exemplo, lit. krūvija, -yti ‘empilhar’ ⇐ subst. krūva ‘monte, pilha’.
⁷⁰ Cf. esl. ant. bljǫjo para *bhleuH-, pljǫjo para *(s)pie̯uH.
⁷¹ ESJS 485 apresenta em primeiro lugar a reconstrução pie. *melu(H)-, o que não parece correto, porque (1) no eslavo não há SZ *mūlu- < *mlu(H)-; (2) a sequência i̯u em mlȳva só permite uma derivação de uma forma SZ terminada em *uH- (ESJS não menciona a relação de (u)v com o hiato laríngeo).
⁷² SW *mlav(iti), paralelo a plaviti ⇐ plovǫ, traviti ⇐ trovǫ, poderia ter produzido o postverbal *mlava, visível no topônimo polonês Mława (cf. trava, de traviti).
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2.19. *muų- I < *muH-
SZ-V *muų-: 1. eslavo eclesiástico neomūvenu ‘não lavado’ < *mu.ue.no- < *muH-eno-; otūvenije n. ‘lavagem’; russo antigo movī f. ‘banho’ < *mūvī (Vaillant 1966: 282), 2. letão *muvu ‘nadei’, pretérito em relação ao presente dialetal myunu (*mū-nu)⁷³.
WSZ-V *mū-: eslavo eclesiástico omyvati ‘lavar’, umyvati ‘lavar’.
SZ-C *mū-: 1. eslavo eclesiástico izmyti sę ‘lavar-se’, umyti ‘lavar’, servo-croata mūti, tcheco mýti, 2. prussiano antigo aumūšnan ‘lavagem’ (de *aumūt ‘lavar, lavar-se’), 3. letão dialetal myustīs ao lado de myunu ‘nado’, 4. mūdāt ‘fazer flutuar’, mūdāties ‘nadar, banhar-se’, mūdināt ‘fazer os cavalos atravessarem o rio a nado’.
SE *meųH-: nas línguas lituano e letã, em vez de *mių- (cf. abaixo o tipo lituano pjauti), estabeleceu-se *māų-: letão maūt, mauju/maunu⁷⁴, māvu ‘mergulhar, nadar’, causativo maudāt ‘fazer flutuar’, lituano māudyti ‘dar banho a alguém’ (aqui falta um verbo primário⁷⁵).
2.20. *muų- II em vez de *mių- < *miųh₁-
SZ-V *muų-, ver WSZ-V.
WSZ-V *mū-: lituano mūvėti ‘usar algo colocado por cima, vestido (roupa, anel), estar vestido’ (3.ª pessoa do presente mūvi)⁷⁶.
SZ-C *mū-: 1. lituano mūstyti ‘agitar, brandir, mover-se, comportar-se inquietamente; acenar com a cabeça; opor-se, ser desobediente’ (intensivo em -sty-; também a variante mūistyti(s), LKŽ), 2. substantivos: mū-kla ‘laço, armadilha para apanhar pássaros’, mū-klas ‘laço de crina de cavalo preso a uma vara, usado para apanhar lúcios’ (LKŽ); talvez também mūksnis m. ‘gole, trago’ (Trimis mūksniais išgėrė kvartą pieno, LKŽ), caso derive de *mū-snis⁷⁷. Até agora, em relação a mūti, não se mencionava o grau zero mū-C; ver Trautmann (1923: 172), Pokorny IEW 743, Fraenkel LEW 421, Rasmussen 1989: 115ss., LIV 402.
SE *mieųh₁- ‘(sich) bewegen’ (LIV 402⁷⁸). O SE báltico *miąų- sofreu, na formação do presente *miąų-jō, uma alteração por apagamento dissimilatório de i; por isso, lituano máuju, e não *májuju⁷⁹. Daí, o m- inicial não palatalizado estendeu-se a todo o paradigma (inclusive ao SZ-C lituano mū-). Cf. lituano máuti, máuju/máunu, móviau ‘enfiar (um anel, um chapéu), vestir (calças); pôr e tirar’, letão maūt, mauju/maunu⁸⁰, māvu ‘vestir; arrear’.
73 Tak Endzelin (1922: §612). Zob. wyżej łot. guvu ‘chwyciłem’ do gūnu, gūt.
74 A presença do formante de presente -nu obriga a considerar a influência da forma do presente infixado, hoje desaparecida, *munū ‘visto-me’ < *mu-n-Hé-. Cf. a hipótese de um presente ‘unu ‘calço os sapatos’ s.v. *uų-.
75 Poderia ter sido o presente intensivo *mū-du ‘mergulho’ < *muH-dʰe-, de que māud-yti seria um causativo e o letão maud-āt, um iterativo em SO. Ver abaixo lituano pūdyti ‘fazer apodrecer’, pūdamas particípio presente ‘apodrecendo’ ⇐ *pūda ‘apodrece’ (infinitivo pūti). Se assim for, o proto-eslavo *mydło ‘sabão’ admite a análise *mūd-la- e, consequentemente, a separação de védico mūtra-, avéstico mūθra n. ‘urina’ < *muH-tro-.
76 Cf. o tipo siuvėti s.v. *sjuų-.
77 Inserção de k como em alksnis, āuksnas, prussiano antigo lauxnos.
78 Cf. ved. múvati ‘empurra, avança’ < *miH₁u-e-, que provém de metátese laringal em SZ *miųH₁-, ver Eichner (1988: 135).
79 Paralelos na nota 56.
80 A presença do formante de presente -nu obriga a levar em conta a influência da forma do antigo prs. infixado *munū < *mu-n-H-.
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2.21. *pi̯u̯- < *pi̯uh₂-
SZ-V *pi̯u̯-: lituano pjūvenos f. pl. ‘serragem’ < *pi̯u.ue.nā-⁸¹ < *pi̯uh₂-en-. WSZ-V *pi̯u̯-: lituano papjūvėti ‘ficar serrado durante algum tempo’ (cf. pasiūvėti s.v. *si̯u̯-); nomes: lituano pjūvenos f. pl. ‘estilhaços; lâmina de foice’, pjūvis m. ‘corte, serragem; cereal maduro para a ceifa’.
SZ-C *pi̯u̯-: lituano pjūdyti ‘atiçar; incitar, instigar’⁸², substantivo pjūklas m. ‘serra’.
SE *pie̯uh₂-: lituano pjáuti, pjā́unu ‘cortar, serrar’ (intens. pjáustyti), letão plaũt ‘ceifar; colher’ (intens. plaũstīt).
2.22. *plu̯- < *pluH-
SZ-V *plu̯-: 1. lituano plūvo, pretérito de plūti (ver) < *plu.ǭ- < *pluH-eh₂-, 2. presente infixado plūva < *plu-n-ų- (a variante plūna sugere um mais antigo *plūna < *plu-n-H-), 3. pluvėti, plūva ‘estar imerso, afundar em algo; vaguear’, pluvénti ‘escorrer lentamente, fluir’⁸³. – No eslavo, cf. eslavo comum *plŭvěti, checo antigo plvěti, plvu ‘escorrer, espalhar-se, dissolver-se; derreter (a cera)’, plúci ‘que derrete, que se liquefaz’, polonês antigo plwieć ‘oscilar, hesitar’ (uso figurado), płwiących gen. pl. ‘fluctuantium’; eslavo comum *ob-plŭv-itŭ ‘abundante em’, decalque do lat. abundans, polonês antigo opwity ‘abundante’.
WSZ-V *plū-: eslavo eclesiástico plŭvati ‘nadar’. A relação entre kyvati ⇐ kūvati (s.v. *kuu- I) suscita a questão de se não se deve postular uma base *plŭvati, que coexistia com *plŭvěti (ver acima).
SZ-C *plū-: 1. lituano plūti (prs. plūnu/plūvù, pretérito pluvau̯) ‘estar transbordando, espalhar-se’, paplūti ‘ficar debaixo da água, na água; debulhar-se em lágrimas; abundar’; substantivo plūtis m. ‘boia da rede’ (LKŽ). – 2. eslavo comum *plyti ‘fluir’, sérvio-croata plīti, polonês antigo pyć, pretérito pyło ‘(de um líquido) verter-se, fluir; cair como chuva’ (SStp₁₇₈), e também eslavo comum *plynoti como imperfectivo. SP *pleuH-⁸⁴: eslavo eclesiástico plovǫ, pluti, checo antigo plovu, plūti ‘fluir’, cf. sânscrito rovo, ruti, trovǫ, truti.
N.B. As formas anitivas que ocorrem nesta família, como, por exemplo, (1) letão pluts, gen. pluta ‘erva’, (2) eslavo eclesiástico plŭtŭ ‘erva’, russo plot, plotá (*plu-to-), polonês antigo płet, płtu m., checo antigo plet, plti f. (*plu-ti-) etc., (3) eslavo eclesiástico plŭnije n. ‘corrente, fluxo de água, nascente’ (*plu-n-) podem estar relacionados com o *plu- breve do antigo prs. *plune- < *plu-n-H-é- (ver acima).
2.23. *pu̯u- I < *puH-
SZ-V *pu̯u-: 1. lituano (su)pūvo, pretérito de pūti ‘apodrecer’ < *pu.ǭ- < *puH-eh₂-, 2. presente infixado pūva/pūva < *pu-n-ų- (substituiu *pūna < *pu-n-H-, cf. pūna), 3.
81 Isto é evidentemente em vez de *pi̯u.ǭnā- < *pi̯uh₂-en-eh₂. Cf. esl. zabŭvenŭ s.v. *bu̯-.
82 Ao lado disso, pjūdyti também. O vocalismo ū que aqui nos chama a atenção pode ser explicado supondo-se um neoraiz pju-, que foi abstraído do antigo presente infixado *pju-nu̯ < *pi̯u-n-h₂-é. Cf. a observação sobre spjudóti s.v. *(s)pi̯u̯-.
83 Cf. snuvěti, sŕiva ao lado de sruvénti ‘escorrer, fluir em pequeno riacho’.
84 LIV 438 reconstrói apenas *pleu- ‘nadar, flutuar’ e não leva em conta o material báltico citado acima, que depõe claramente a favor do caráter de raiz com *e.
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nomes: pùvenos f. pl. ‘podridão, objetos apodrecidos’, išpuvìmas m. ‘apodrecimento completo, estado de apodrecido’, supuvìmas m. ‘apodrecimento, podridão’, sámpuva ‘objeto podre’, letão puveši m. pl. ‘pus, Eiter’.
WSZ *pūu-: lituano išpùvėti ‘apodrecer completamente’ (LKŽ), pūvažìnai m. pl. ‘ervilhas caídas e apodrecidas’ (LKŽ).
SZ-C *pū-: 1. lituano pūti (pūsta), letão pùt (pùstu) ‘apodrecer’, 2. pūdyti caus. ‘fazer apodrecer, estrumar’, pūdamas particípio presente ‘apodrecendo’ ⇐ *pūda ‘apodrece’ < *puH-dʰ-e-, 3. pūliai m. pl. ‘pus, Eiter’ (derivado do adjetivo *pū-la- ‘podre’), 4. pūtra ‘algo parcialmente podre; ser fisicamente fraco’.
SE *peuH- ‘apodrecer’ (LIV 432), proto-báltico *p̄iau-C. Apenas nomes: 1. lituano pjáulas m. ‘madeira apodrecida ou carcomida’, pjáulai m. pl. ‘madeira podre usada para defumar abelhas’, 2. letão praùls m. ‘um pedaço de madeira moderno ou apodrecido; designação depreciativa de um homem velho’, por dissimilação de *p̄ļāuls, derivado de *p̄i̯āulas (ver MEIII 379)⁸⁵.
2.24. *puu- II < *puH-
SZ-V *puu-: esl. upūvati ‘confiar, crer’, rus. upovátь, ucr. upováty, eslov. ūpati, croata ùfati se, tcheco doufati, pol. ant. pwać, nadpwać e ufać. Este verbo pode ser denominal de um adjetivo desaparecido *pūvъ < *puH-e/o- com o significado de ‘digno de confiança, confiável’⁸⁶. Se esse significado adjetival se desenvolveu a partir de um significado mais antigo ‘puro’⁸⁷, temos aqui um derivado da raiz *peuH-/*puH-, cf. véd. punāti ‘purifica’, páyate ‘torna-se puro’. LIV 432 não menciona upūvati nesse contexto.
2.25. *ruu- I < *ruH-
SZ-V *ruu-: tcheco eclesiástico rùvati ‘arrancar, rasgar’ < *ru.ū- < *ruH-eh₂-, esl. rùvatva f. ‘arrancamento, rasgo’, vūzdrùvanije n. ‘arrancar, desenraizar’, rūvenikъ m. ‘cova, buraco com água’ (pressupõe o particípio *rūvenъ ‘arrancado’)⁸⁸.
WSZ-V *rū-: esloveno rývati iter. (pol. ‘desprender, arrancar’). Cf. °kryvati ⇐ krūvati s.v. *kruu- I. O nome pol. ant. rwocina f. ‘precipício, abruptum’ (SSTP VIII 65).
SZ-C *rū-: 1. esl. ryti, rýjo ‘cavar’, izdyriti ‘cavar para fora’ (paralelos s.v. *kruu-, *truu-); croata rìlo ‘focinho; boca’, 2. lituano rūtis, -ties f. ‘cova, porão’ (forma secundária em lugar de *rūtis?).
SE *reuH-: o báltico oriental *r̄i̯āu- foi substituído por *rāu- em consequência da dissimilação ocorrida na forma do presente *r̄i̯āu-ī̯ō, daí: lituano ráuti, rãuju/rãunu (pretérito róviau) ‘arrancar, extirpar (pela raiz)’, letão raũt, raũju/raũnu (pretérito rāvu). Intensivo lit. ráustyti.
Derivados rau-V: 1. esl. rovъ m. ‘fosso’, p(r)ěrovъ m. ‘cova, gruta’, 2. lituano antigo ravalas ‘erva daninha’ (Dauksza), lituano ravà f. ‘arrancamento; época de arrancar o linho’, išravos f. pl. ‘ervas daninhas arrancadas’, ravùs ‘que se deixa arrancar facilmente’.
85 Lituano pãvalas ‘árvore tombada e apodrecida’ (LKŽ), que à primeira vista parece um derivado apofônico em -alas de puv-, é, na realidade, um empréstimo do polonês pował ‘árvore derrubada’ (cf. walić się).
86 Um substantivo do tipo do pol. ant. pwa ‘confiança, fiducia’ < *pūva provavelmente não é primário, mas sim um pós-verbal de pwać. A partir desse nome abstrato formou-se posteriormente o adjetivo *pūvъ, polonês pewny ‘seguro’, tcheco, eslovaco pevný ‘forte’.
87 Cf. a expressão coloquial polonesa on jest czysty, isto é, ‘desarmado, inofensivo’ ⇒ ‘que não desperta suspeitas’ (daí o passo para ‘que inspira confiança’).
88 Não se sabe se deve ser incluído aqui o lituano riuv- (em vez de *ruv-?) em įsiriuvėti ‘engordar’ (LKŽ). Dificuldade semântica.
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2.26. *ru̯u- II < *h₃ruH-
SZ-V¹ *ruu-: esl. *rŭvati iter. ‘rugir’ < *ru.ā- < *h₃ruH-eh₂- (cf. ved. ruváti ‘ruge’).
SZ-V² *rįu- (*ri- por nivelamento com SE-C, ver abaixo): 1. esl. *rjŭvati > *rjívati iter. ‘rugir’ em pol. ant. rzwać, checo řváti ‘rugir, gritar’. – 2. esl. *rjŭv-īnŭ ‘que ruge, que ruge de raiva; irritado, briguento; comovido⁸⁹’, cf. cs. rĭvini f. ‘raiva, ira’, eslavo eclesiástico rĭvinivŭ ‘irado, ciumento’, pol. rzewny, rzewliwy, checo řevný čas ‘época do cio’, russo revnívyj ‘ciumento’.
SZ-C *rū-: balto-esl. *rū-ka- > checo rykŭ m. ‘rugido’⁹⁰ (⇒ denom. eslavo eclesiástico rykati ‘rugir, rosnar’).
SE *h₃reuH- ‘brüllen’ (LIV 272), balto-esl. *r̥i̯au-: eslavo eclesiástico rovǫ, ruti ‘rugir, gritar’ (vŭzdruti ‘dar um rugido’); rovy particípio presente ativo. O paradigma alternante rev-/rju- é visível em checo revǫ, rjuti, russo antigo revu, rjuti e checo antigo řevu, řúti (cf. também esloveno rjóvem, rjuti, russo revú, revéťb). Ele surgiu pela introdução no presente do grupo inicial rj- do infinitivo rjuti. Em consequência, o regular, do ponto de vista fonético, rov-V foi substituído por *rjov-, de onde *rjev- (> rev-, řev-)⁹¹, ver Trautmann (1923: 241)⁹².
2.27. *śių- < *śiuH-
SZ-V *śių-: lituano siuvì presente, siuvaũ pretérito de siūti ‘costurar’, tot. šuvu⁹³, pretérito šuvu. Reconstrução: *śių-u-V < *śiuH-V. Cf. ainda siuvėjas m. ‘alfaiate’; siuvėlė f. ‘costura’; siùvena f. ‘piolho bovino’, ver piùvenos s.v. *pjųu-. – Em eslavo, cf. 1. eslavo eclesiástico šivěnǫ ‘costurado’ < *siu.ue.na- < *siuH-eno- (ver acima šivěna), 2. eslavo eclesiástico šiv-či ‘alfaiate’, que requer o presente eslavo comum *šīvǫ (= lituano siuvù) como base derivacional; cf. lituano antigo siuvikis m. ‘alfaiate’ ⇐ siùva⁹⁴.
WSZ-V *śių-: 1. lituano pasiūvėti ‘costurar um pouco, dedicar-se à costura de vez em quando’, siūvis m. ‘costura; ponto de agulha’, 2. eslavo °šivati, pol. zszywać, wyszywać, que, como intensivo, pressupõe *šŭvati ‘costurar’ (cf. pol. szwacz, szwaczka).
89 Ausente em Trautmann (1923: 241) s.v. *rau̯ǫ.
90 Cf. *lúka-, esl. *lyko s.v. *liu-.
91 Cf. letão plevināt ‘fazer esvoaçar, mover (cabelos, asas)’ de *plav- em contraste com plau-, eslavo eclesiástico plovǫ ‘nado’, lituano pláuju ‘enxáguo, lavo’.
92 Junto a rjuti, pode ter existido o intensivo *rjujati. Apontam para isso derivados pós-verbais como russo antigo rujene, russo rujěne m. ‘época do cio (do rugido) dos cervos; nome do mês de setembro’, servo-croata rujan ‘setembro’, checo antigo ruję f. ‘época do cio dos cervos’, checo rǐje idem, ‘rujen’, nome do mês de outubro’ (pol. rują ‘época e local do cio dos cervos’ parece ser secundário em lugar de *rzuja, cf. rzwać, rzwiec). O pós-verbal *rju-va é indicado pelo russo antigo rjuvitĭsja ‘coire’.
93 Ao lado disso, há o novo presente šu-ju, que pressupõe uma resegmentação sincrônica šu-vu. Ver abaixo škuju ao lado de skuvu ‘costurar’.
94 Zaskakująca jest wypowiedź Stanga (1966: 334): „Skt. śívati: syūtáh gibt einen Fingerzeig, dass das Prās. siùva keine alte Bildung ist“. Ze stanowiska teorii laryngalnych stlit. praesens śívvati ‘szyje’ tłumaczy się jako forma innowacyjna, wynika z metatezy spółgłoski laryngalnej w sąsiedztwie u: *śiuH-jé- > *siHų-jé-, zob. Eichner (1988: 135), LIV 493. Wynika z tego, że nie można jej brać za punkt wyjścia dla analizy lit. siùva. Podobną metatezę pokazuje refleks stlit. mìvati ‘sunię, pcha, trącą’, z *mih₁-u-é-ti < *miuh₁- (p.wk. *mieuh₁-), zob. wyżej *mu-.
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SZ-C *śiu-: lit. siūti ‘costurar’, letão šūt, eslavo eclesiástico antigo sīti⁹⁵.
SE *śięuH-: falta pbált. *śiąu-C, lit. *śiau-, ps. *šu-.
2.28. *skįu- em vez de *skuu- < *skuh₁-
SZ-V *skįu-: ps. *ščivati < *ščīvati, cf. polonês szczwać ‘mandar (os cães) farejar’, tcheco antigo ščtývati. O šč- inicial resulta de nivelamento com SE (ver abaixo). Quanto a įv, ver žīvati s.v. *žiu-. A forma esperada é *skūvati < *sku̯a- < *skuh₁-eh₂-⁹⁶. Significado etimológico: ‘fazer com que os cães percebam pelo olfato (a caça)’. Formação causativa em -ā- em relação a eslavo eclesiástico antigo čujo, ver s.v. *ku̯-. SZ-C *skū- (sem reflexos). SE *(s)keuh₁- ‘sentir, perceber’. O ps. *ščuję ‘atiço’ continuava o presente *skiąu-ie- (desconhecido no báltico). A partir desse presente formou-se o novo infinitivo *ščūti: esloveno ščúti, polonês szczuć⁹⁷.
2.29. *skuu- < *skuh₂-
SZ-V *skuu-: letão skuvu pres.⁹⁸, skuvu pret. de skūt ‘barbear’, < *skuh₂-e-, *skuh₂-eh₂-. SZ-C *skū-: letão skūt inf. (com o novo pres. skīnu), iterativo skūstīties ‘barbear-se; lavar-se’. SE *(s)keuh₂- ‘trabalhar com uma lâmina, cortar, furar’ etc., pbált. *(s)kiąu-: lit. kiáuras ‘furado’⁹⁹, provavelmente também: skiáutas m. ‘farrapo’, skiáutė f. ‘retalho de tecido, parte cortada’, letão škāute ‘aresta afiada, canto’ (possível mistura com a família do lit. skuti, skūsti ‘barbear, rasgar, descascar, raspar, retirar a casca’, pwk. *skeut-).
2.30. *snuu- < *snuH-
SZ-V *snuu-: ps. *snūvati ‘fiar’ < *snu̯ā- < *snuH-eh₂-. Implicado por WSZ-V -snyv- no eslavo eclesiástico antigo osnyvati ‘estabelecer, instituir’. Ver acima °byvati para būv-, °kryvati para krūv-, °myvati para mūv-, °ryvati para rūv-. WSZ-V *snū-, ver acima. SE *sneuH- ‘girar, torcer’ (LIV 523), pbált. *sniąu-. Cf. eslavo eclesiástico antigo snovǫ (⇒ snovati) ‘fiar, tecer um fio’. O derivado *snau-V talvez esteja presente no eslavo eclesiástico antigo osnova f. ‘trama, base’. Cf. roví para rūv- s.v. *ruu- I.
⁹⁵ O eslavo eclesiástico antigo šijǫ é uma inovação baseada no infinitivo ši-ti, assim como myjo:: myti, vyjo:: vyti e bijǫ:: biti, brijǫ:: briti, gnijǫ:: gniti.
⁹⁶ Quanto à palatalidade secundária nas formas SZ, cf. bl̥jvati s.v. *blu̯- II.
⁹⁷ LIV 507 não leva em conta *ščivati; cita apenas o eslavo eclesiástico antigo čujo. Vaillant (1966: 295) classifica equivocadamente *šču-/*ščīv- como “raiz onomatopaica”.
⁹⁸ O novo pres. skuju provém de diferenciação em relação ao pret. Cf. acima šiju ao lado de šavu ‘costuro’.
⁹⁹ LIV 508 s.v. skeuh₂- cita formas hititas e st. skunāti, āskunoti, mas não observa os dados bálticos. É incorreta a associação de skuvu/skūt com o gr. ἕω e com o pwk. pie. anitomático *skeu- > MEu 908, Trautmann (1923: 268) e Fraenkel LEW 824 (hipótese arbitrária de metátese *ks > sk, sem explicação para a alternância uv-V:: ū-C).
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2.31. *(s)pịų- < *(s)piųH-
SZ-V *(s)pịų-: 1. esl. pljivati ‘cuspir, escarrar’ de ps. *pjuvati < *pių̯ā- < *(s)piųH-eh₂-, pol. płwać. De modo semelhante živati de ps. *žjuvati (s.v. *žiu̯-). Cf. também bljivati s.v. *bluų- II, *ščivati s.v. *skių-. – O tema eslava em -ā- com SZ sugere que o lituano pode ter tido outrora prt. *spjivau, posteriormente renovado como spjōviau. – 2. Um vestígio do iter. lituano *spjuvóti pode ser spjudóti ‘cuspir, escarrar’ (LKŽ), pois seu -d- pode ser explicado por uma associação secundária com o iter. spjáudyti idem.100
WSZ-V *(s)pịų-: 1. lit. spjúvis m. ‘cuspidela’, 2. ps. *-pljivati ← *pljīv-, por exemplo, esl. oplъvati ‘cuspir em’, esl. ant. plivati, tcheco plivat ‘-cuspir’.
SZ-C *(s)pịų-: ps. *plji- em esl. plinǫti ‘dar uma cuspida’, perfectivo de plīvati ‘cuspir’, cf. Vaillant (1966: 232)101.
SE *(s)pięuH-: ‘cuspir, expelir’ (LIV 529), báltico ocidental *(s)piāu-: 1. lit. spjáuti, spjáuju/ spjáunu (prt. spjóviau) ‘dar uma cuspida, cuspir’, let. splaut, splauju (prt. splāvu), 2. prs. esl. pljǫ, eslovaco pljǫm, russo pljují.
2.32. *suų- < *suH-
SZ-V *suų-: let. dial. suvēns ‘leitão’ < *su.uen- < *suH-en- (nos demais casos, dissimilado em sivēns).
SZ-C *sū-: avéstico antigo hūš ‘porca’, gr. ὗς, lat. sūs.
SE *seuH-: não há reflexos bálticos ocidentais *śiau- (esl. comum *šu-C).
2.33. *šluų- < *šluH-
SZ-V *šluų-: šlūvenos f. pl. ‘lixo, aquilo que foi varrido, varredura’ < *šlu.uen- < *k’luH-en-. Paralelos: pūvenos s.v. *puų-, pjūvenos s.v. *pių-, šiūvena s.v. *šių-.
SZ-C *šlū- não atestado.
SE *k’leuH-: ‘limpar’ (LIV 298, lat. cluere). Falta em lituano *šláiuti, pret. *šluvau. Compare-se, porém, o lit. šláuti (šliáuna, šlióve) no sentido figurado de ‘dar um golpe, bater, golpear’. É provável que o alomorfe šlav- no prs. šlavù ‘varro’ (samogítico), os substantivos sąšlavos, iššlavos, núošlavos f. pl. ‘lixo’ representem um SO de *šlu-.
2.34. *šuų- < *k’uH-
SZ-V *šuų-: proto-balto-eslavo *šuų-e- < *k’uH-e- (falta em lituano *šuv-C ‘empurro’).
WSZ-V *šū-: lit. šūvis m. ‘tiro, disparo’.
SZ-C *šū-: lit. šūtis, -ies f. ‘monte, pilha’, šūsnis, -ies f. ‘monte, pilha de madeira e gravetos’ (quanto à formação, compare-se krūšnis ‘monte, pilha de pedras’, de krū-/kráu-).
100 Outra possibilidade é a hipótese de um neoraiz spju-, proveniente da reanálise de *spju-nu (compare-se spjáu-nu), cujo ponto de partida foi o antigo prs. infixado *spjunu < *(s)pių-n-H-é-.
101 Ao contrário do que afirma ESJS 666, Vaillant, loc. cit., não fala de “alongamento do grau reduzido”, mas de grau zero: “Le thème pli- est issu de *pljū-, degré réduit de la racine *(s)pięu-, lit. spiáuju...“.
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SE *k’əuH- ‘lançar, empurrar’ (LIV 294), pbsl. šiąu-: 1. letão šāuju/šāunu, šāvu, šāut ‘fazer um movimento vigoroso numa direção; empurrar ou dar um impulso rapidamente; desferir um golpe ou uma pancada; atirar; avançar depressa, correr, andar apressadamente; chover’, 2. lituano šiaut(u)vas m. ‘lançadeira de tecelagem’, šiaulỹs m. ‘atirador’ (n. m. šiauliai, -iūs m.pl.) de *šiauti. – A presença no protoeslavo do paradigma *sovo, *suti parece decorrer de derivados como o eslavo eclesiástico sov-ati ‘deslizar, dar um toque’ (iter. de sov-) e o prussiano antigo sujo (do inf. *suti), cf. russo sovátь, sujú. – A relação notável entre lituano šaunu:: šauti (‘arremessar, disparar, atirar’) pode ser uma regularização de uma relação mais antiga *šunù:: *šiáuti, em que o presente se baseava na infixação, a saber, herdada: *k’u-n-H-é- > *šu-n-é-, enquanto *šiáu-C refletia o SE báltico (cf. letão šaūt). Cf. acima a observação sobre gáu(nu) em vez de *giáu-102.
2.35. *truų- < *truH-
SZ-V *truu-: 1. prussiano antigo *trúvenų ‘gasto, desgastado’ < *tru.ue.no- < *truH-eno103, cf. o denom. polonês trwonić em vez de *trwionić ‘gastar por fricção, mastigação, mordida’ (denom. de ptc. *trwion); sérvio-croata trvènik m. ‘caminho pisado, aberto’; eslavo eclesiástico rastrъva f. ‘perda, ruína’ (Trautmann 1923: 330). – 2. No lituano-letão, o neopwk. trun- é condicionado pela laringal: lituano trūna, trunėti104 ‘apodrecer, deteriorar-se’, letão trunu, -ēju, trunēt ‘desgastar-se, apodrecer, deteriorar-se; cochilar’. A base foi fornecida pelo presente infixado *truna < *tru-n-H-, que foi interpretado como um tema em -a-: trun-a. Depois, em lituano, por nivelamento com o SZ *trū-, surgiu trūnėti e o presente correspondente trūni105. – É de notar a ausência de WSZ-V *trųn-106.
SZ-C *trū-: 1. eslavo eclesiástico trъti, trъjo ‘esfregar’ (cf. grego τρίβω ‘desgastar, exaurir, subjugar’). – 2. letão trū-dêt intr. ‘desgastar-se; deteriorar-se, apodrecer, estragar-se’, provavelmente, pela sua origem, um durativo de estado em -ē- correspondente ao presente *trūda < *truH-dʰe- (cf. lituano pū́da-mas:: pūti, s.v. *puu- I). Um derivado posterior é o fact. trūd-inât ‘fazer deteriorar-se, apodrecer, estragar-se’ (zeme kaulus trūdina); ver MEiv 250.
SE *treuH- ‘desgastar, consumir’ (LIV 593): eslavo eclesiástico trovǫ, truti ‘consumir’ (inf. em vez de *trjuti < *trjāu-C, cf. rjuti, s.v. *ruų- II)107. Em lituano, espera-se SE *triáuti108. A filiação do verbo triaũnija, -yti ou tráunija, -yti ‘mastigar ruidosamente (uma maçã),’ não é clara.
102 Cf. Stopień, *k’ųH-, é improvável num presente primário.
103 Cf. acima eslavo eclesiástico *bъvenų, *krъvenų, *mъvenų e lituano pūvenos.
104 Com a variante sonorizada drūna/drūni, drunėti ou drunija/drūni, druńyti, ver LKŽII 763, 766.
105 Cf. também o alongamento no verbo sinónimo dūlėti ‘apodrecer, deteriorar-se’.
106 Não pertence aqui o letão trūvēt ‘lamentar, estar de luto’, que provém da dissimilação de trūrēt, verbo emprestado do médio-baixo-alemão truren ‘estar de luto’; ver MEiv 252.
107 Cf. SW *trǫ- em eslavo eclesiástico traviti iter. ‘processar o alimento ingerido’, polonês antigo trawić, entre outros, ‘(sobre o fogo e outras forças) destruir algo, queimar, usar (bens materiais), gastá-los imprudentemente’; trawny ‘ardiloso, astuto, falso’ (SStpIX 181n.).
108 Aqui surge a questão de saber se triaũšėti, -ėja ‘esfarelar-se (falando do cabelo ou da lã das ovelhas), definhar, deteriorar-se’ ao lado de traušėti, -ėja ‘cair (falando do pelo da cauda de um cavalo)’ não é, pela sua origem, um durativo de estado em -sēti, isto é, *triáu-sēti.
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‘roer (uma noz)’, que parece ser um denominativo. Diferentemente, Fraenkel LEW 1114: em apofonia com trūnēti.
2.36. *u̯u- < *h₂uH-
SZ-V *u̯u-: prt. protobalto *ùvo ‘calçou-se’ < pbsł. *u.u̯ā- < *h₂uH-eh₂-. Compare acima bùvo, guvu (fot.), plùvo, pùvo, siùvo. Com base na oposição báltica de prt./inf. com SZ e prs. com SP (cf. Stang 1966: 331), pode-se supor que o prt. *ùvo teve outrora ao seu lado, por um lado, o prs. tr. *avù ‘calço’ < *h₂euH-e- e, por outro, o prs. intr. *unù ‘calço-me’ < *h₂u-n-H-ē- (cf. a hipótese do prs. *munù ‘visto-me’ s.v. *mu̯u-). O lit. histórico aunù = au-nù representa uma formação de compromisso, resultante da contaminação de *av-ù e *u-nù109.
WSZ-V *ū-: *ūvẽti, esperado por analogia com muvéti(s) (cf. s.v. *mu̯u- II), não existe.
SZ-C *ū- < *h₂uH-C, cf. abaixo.
SE *h₂eųH- ‘calçar (calçado)’ (LIV 245, arm. agaw ‘vestir-se’): avēti ‘estar calçado, usar calçado’ (aviù, āvi). Compare o lit. auti ‘calçar ou descalçar’, que é uma inovação em lugar do esperado *ūti (SZ-C). O SE e o circunflexo foram generalizados a partir de formas prevocálicas com laringal desaparecida, como o prs. *avù, durativo avē-, lit. āvalas, letão apavi m. pl. ‘calçado’110.
2.37. *ži̯u- < *ǵiuH-
SZ-V *ži̯u-: esl. živati ‘mastigar’, tcheco antigo žváti, polonês antigo żwać < ps. *žǔvati < pbsł. *ži̯u.u̯ā- < *ǵiuH-eh₂-. Um paralelo é pljīvati com ps. *pljǔvati s.v. *(s)pi̯u-.
SZ-C *žiū- < *ǵiuH- (sem reflexos báltico-eslavos).
SE *ǵieuH- ‘mastigar’ (LIV 148). No báltico, apenas formas nominais: lit. žiáunos f. pl. ‘mandíbulas’ < *ǵi̯āu-nā-.
2.38. *žu- I < *ǵuH-
SZ-V *žu-: 1. lit. žùvo, pret. de žūti (ver abaixo) < *žu.u̯ā- < *ǵuH-eh₂-, 2. 2.ª pessoa infixada žùvù < *žu-n-u- (a variante antiga žinù pode estar relacionada com o tipo mais antigo *žunù < *ǵu-n-H), 3. substantivo pražùvelis ‘perdido, extraviado’.
SZ-C *žū-: lit. pražūti ‘desaparecer subitamente de vista, perecer, morrer; perder a vida; desperdiçar-se; cair na pobreza, na desgraça; trabalhar com afinco, dedicar-se a alguma atividade’. Caus. lituano antigo žūdyti, žūdžiu ‘condenar, punir, fazer perder, exterminar, matar’, letão zudīties ‘preocupar-se atentamente, inquietar-se’, zūdīt ‘preocupar-se, afligir-se’, zudināt caus. ‘fazer perder-se, destruir, esconder’.
109 Isso resulta da metanálise da 2.ª pessoa infixada. Paralelos: *gunu s.v. gu̯-, *munu s.v. *mu̯u-, *šunu s.v. *šu-, truna s.v. *tru-, bem como sinù s.v. *ši̯-.
110 A reconstrução do infinitivo *áuti é equivocada, assim como a derivação de aúna de *(h₂)au-n-ə- em LIV 245, nota 7.
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SE *ǵeuH- ‘pôr-se em movimento rapidamente’ (LIV 147). Não há reflexo proto-báltico-eslavo *žiau̯-C. Derivado *žau̯: lit. žavúosi (žàvisi), žavėtis ‘admirar-se’, caus. žavinti e žavinti ‘encantar, admirar, fascinar’, lituano antigo ‘exterminar por meio de encantamentos’.
2.39. *žų- II < *ǵʰuH-
SZ-V *žų-: eslavo eclesiástico žъvati ‘chamar, convocar’, polonês zwać < *žų̯ā- < *ǵʰuH-eh₂-. WSZ-V *žų-: eslovaco *zyvati, polonês wzywać, nazywać. SZ-C *žū-: cf. védico hútá- ‘chamado’ < *ǵʰuH-tó- (não há lituano *žūtas, eslavo *zytъ). SE *ǵʰueH- ‘chamar’ (LIV 160), secundariamente *ǵʰeuH-¹¹¹: eslavo eclesiástico zovǫ (inf. zъvati) ‘chamo’, polonês antigo zowę, zowiesz, zową, particípio presente tako zowący ‘assim chamado’ (cf. védico hávate ‘invoca’). Não há reflexo *žiau̯-C.
2.40. *žų- III < *ǵʰuH-
SZ-V *žų-: pbált. *žūvin AS f. ‘peixe’ < *ǵʰuH-m̥, lit. AS žùvi (daí žuvis como nom. sg. inovador). – Do eslavo, compare-se ps. *žųveno, polonês antigo zwono n. em vez de *zwiono ‘fatia de peixe cortada transversalmente ao corpo’, russo zvenó idem, pol. (d)zwonka ‘pedaço de peixe’, derivado do adj. *žuv-enǫ ‘de peixe’. O adj. *žūvenǫ está para o substantivo ps. *zy < *žūs ‘peixe’ assim como *krъvenǫ (pol. przekrwiony) está para o substantivo *kry < *krūs ‘sangue’. Falta SZ-C *žūs ‘peixe’ < *ǵʰuH-s. Ver s.v. *brų- e *krų-.
3. R E S U M O
À luz das considerações acima, os segmentos (i)j, (u)v devem ser considerados vestígios de laringais desaparecidas do mesmo nível que o comprimento vocálico nos alomorfos correspondentes com ī, ū¹¹². Do fato de que a dualidade dos reflexos bált. bī-C/bjū-V, esl. ecl. bi-C/bjū-V, ou lit. bū-C/buv-V, esl. ecl. by-C/b’bū-V, remonta à homogeneidade originária de *bʰiH- ou *bʰuH-, conclui-se que o surgimento das alternâncias i-C/ji-V e ū-C/uų-V é uma consequência direta do desaparecimento das laringais na época proto-balto-eslava. Por outro lado, a presença dessa mesma alternância em raízes de origem anitosa, sem laringais (ver abaixo Excursus I), explica-se como uma inovação morfológica de época posterior. Daí decorre a exigência de que, nas seções de fonética histórica que tratam das consoantes bálticas ou eslavas j, v, se distingam claramente as duas proveniências de cada um desses fonemas, a saber, cf. tab. 1.
¹¹¹ Ver o paralelo s.v. *bų-.
¹¹² E, por outro lado: como o comprimento nas formas do grau pleno do tipo lit. dėĩ, esl. ecl. děti ‘pôr’ < pie. *dʰeh₁-C, lit. stóti, esl. ecl. stati ‘ficar de pé’ < pie. *steh₂-C e lit. dúoti, esl. ecl. dati < pie. *deh₃-C.
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TABELA 1. DUPLA ORIGEM DO J, V BALTO-ESL. J, V.
pie. *i, *u
pie. *(i)H, *(u)H
letão kreju < *krei̯H-e-
letão krija, lit. krùja < *kriH-eh₂-
lit. lēju < *lēi̯H-e-
esl. ecl. lijǫ < *liH-ḗ-
esl. ecl. lějǫ < *lěi̯H-je-
lit. lijo < *liH-eh₂-
lit. vēju < *u̯ēi̯h₁-e-
scs. vъjǫ < *u̯iH-ḗ-
scs. zějǫ < *ǵhēh₁-je-
ps. *zъjati, sch. žěti, žjám < *ǵhih₁-eh₂-
scs. zovǫ < *ǵhēuh₂-e-
scs. zъvati < *ǵhuH-éh₂-
ps. *bovǫ < *bheu̯h₂-e- (⇒ SW scs. *baviti)
scs. zabъvenǫ < *bhuh₂-eno-
4. EXCURSOS
4.1. Excursus I
Os presentes infixados lituanos do tipo šlyja ‘apoia contra algo’, srūva ‘flui, escorre’ derivam, por desnasalização, de *šli-n-ja, *sru-n-ua. Isso demonstra que foram submetidos à infixação aqui os temas *šlī-, *sruu-. Do ponto de vista morfológico, são temas «fracos» em relação a *šlēj- (cf. šlējǫ, šlējūosi), *sriau- (aqui apenas srav-, lituano antigo srawanczio DP ‘que flui’), que são «fortes». As peculiaridades consistem aqui em que 1° *šlī- está em lugar de šli- (cf. pašlitas ‘oblíquo, apoiado obliquamente’), enquanto *sruu- está em lugar de sru- (cf. išsruvù/išsrūnù, -sruvaũ, -srūti ‘escoar’), e em que 2° esperaríamos, a partir de šli-, antes o prs. *šli-nù, e, a partir de sru-, o prs. *sru-nù. As formas efetivamente atestadas šlyja, srūva, com os segmentos j, v, devem, portanto, ser consideradas produtos de analogia, precisamente com os presentes do tipo pyja ‘enche-se de leite — sobre o úbere’ < *pi-n-ia e do tipo būva ‘sou, estou em algum lugar’ < *bu-n-ua, respectivamente. A estrutura destes últimos é justificada pela presença de SZ-V antevocálico, com as formas *pii-V, *bu̯-V, que alternavam com SZ-C em ī, ū; cf. *pi-C < *piH-C (pýti ‘encher-se de leite; umedecer-se, amolecer’, SP *pejH- ‘encher-se; jorrar’), *bū-C < *bʰuH₂- (būti ‘ser’, SP *bʰu̯eh₂- e *bʰeu̯h₂- ‘crescer; tornar-se’). O que precede conduz, portanto, à conclusão de que, na língua lituana, algumas raízes não laringalizadas (anitivas) terminadas no ditongo *ei̯ ou *eu̯ (*k’lei-, *sreu-) sofreram a influência analógica de raízes laringalizadas em *eiH ou *euH, que em SZ-V produzem alomorfos *ii-V, *uu-V característicos apenas delas, com i e u como reflexos do hiato laringal.
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4.2. Excursus II
O sufixo -ij-as (vienatijas, medijas/medija, prakijas/prekijas, žūklijas, treinijas/treinijā), que aparece raramente no lituano antigo e também é conhecido em outras línguas bálticas (cf. letão salijs, mālijs, prussiano medies), é originalmente um formante adjetival que, por substantivização, também penetrou nas formações nominais. O sufixo -i̯a- é a continuação do ie. *i.h₂a- < pie. *-ih₂o- (e não *-iio-¹¹³). É digno de nota que, no lituano, segundo o alomorfismo ij-V/i̯-C, se criou, a partir de -ija-, um alomorfe anteconsonântico com a forma -i-s. Ele aparece numa série de nomes lituanos em -ỹs, por exemplo, arklỹs, gaidỹs, svetỹs. A explicação morfológica do sufixo lituano -ỹs parece preferível à hipótese fonética de contração de *-ijas em -ỹs. O tratamento do sufixo *-ih₂o- é, no lituano, peculiar na medida em que leva à criação de duas séries de derivados: uma mais antiga em -ijas (conservada em estado residual) e outra mais recente em -ỹs (produtiva). O primeiro desses sufixos consiste numa simples continuação fonética, levando em conta o hiato laringal; o segundo, por sua vez, é produto de analogia morfofonológica.
4.3. Excursus III
Acima, a propósito da forma lituana dveigys (nota 10), mencionou-se a complementaridade da forma anteconsonântica -gy-s em relação à antevocálica *-gii-as, bem como a possibilidade de criar uma variante anteconsonântica com i com base no tema original antevocálico com ij. Ora, parece que a relação de implicação morfológica como ij-V ⇒ i̯-C também pode explicar o aparecimento da vogal longa i no sufixo do infinitivo lituano -yti, eslavo -iti. Trata-se aqui do sufixo de verbos iterativo-causativos que, em pie., formavam o presente com o sufixo *-éi̯e/o-. Uma ligação plausível entre o sufixo *-éi̯e/o- e o inovador -ī- do infinitivo é possibilitada pela hipótese de uma fase intermediária -i̯i̯a-; cf. os presentes lituanos em -i̯a de verbos (denominais) em -yti, por exemplo, dalija, dalýti de dalìs. Na minha opinião, a forma do sufixo -ija- no lugar de pie. *-éio- reflete o estreitamento do e original diante de i — um caso de assimilação antecipatória¹¹⁴. Quando, nas formas pessoais do verbo secundário, surgiu a sequência estreitada -ii-, precisamente diante das terminações vocálicas, ela foi — ao que parece — incorporada ao sistema de alternância ii-V:: i̯-C, que se havia formado anteriormente no âmbito do verbo primário; cf., por exemplo, lituano lij(o) ‘derramou’, mas inf. lý(ti), gij(o) ‘curou-se’, mas inf. gý(ti). Desse modo, com base no -ij- do presente, surgiu -ī- como alomorfe próprio da posição anteconsonântica na formação do infinitivo.
113 Niedawno S. Ambrazas (2000:134, 205) powtórzył młodogramatyczną rekonstrukcję sufiksu w postaci *-i̯-io-. Sugeruje to, że chodzi o pewien wariant sufiksu pie. *i̯o-. W myśl naszych wywodów w sekwencji i̯a nie jest jednak fonemem odziedziczonym, lecz stanowi – jako wypełniacz hiatus laryngalnego – swego rodzaju namiastkę zanikięj spółgłoski H, w danym razie *h₂. W odniesieniu do litewskiej formacji na -ija- należy mówić o sufiksie *ih₂o-, który nie ma bezpośredniego związku z sufiksem pie. *-io- (po sylabie lekkiej) względnie z wariantem Sieversowym *-iio- (po sylabie ciężkiej).
114 Tal assimilação tem paralelo, por exemplo, em formas isoladas como (1) eslavo eclesiástico antigo trьje ‘três’, lituano trỹs idem < *tri̯iis ⇐ *tri̯es, de pie. *trei̯es (véd. tráyah, gr. τρεῖς = [trèːs], lat. trēs, gót. þreis (note-se que, para os boiários, a forma *tríes no lugar de *treies foi provavelmente favorecida pela presença do alomorfe trī na forma neutra; cf. véd. trī, eslavo eclesiástico antigo tri ‘três’, lituano trýlika ‘treze’ < pie. *triH₂) ou (2) eslavo eclesiástico antigo gostьje ‘hóspedes’ do nom. pl. *gʰostēies (lat. hostēs, gr. πόλεις).
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4.4. Excursus IV
Em eslavo formam-se, por alongamento de i, ŭ iterativos em -ijati, -yvati, por exemplo, °bijati, °lijati, °vijati, °byvati, °kryvati, °myvati, °zyvati, °živati; é interessante que, em sua maioria, eles contrastam com o tipo conservador lituano sijóti, bliuvóti (cf., no entanto, a forma mais recente bliūvóti).
Ao lado desses tipos estão os causativo-iterativos, peculiares em sua forma, em -aviti. Primeiro, é preciso observar que seu componente v — diferentemente do que ocorre em -yv(ati) — nada tem a ver com o hiato laringal. Considerando -av- como uma unidade relativa, pode-se derivar foneticamente esse segmento115 de *-ōu- e, em seguida, analisá-lo do ponto de vista morfofonológico como alongamento do segmento *-ou- da base derivacional. Tal segmento era característico exclusivamente daquelas protoformas de presente em -e/-o- que eram formadas a partir de raízes pie. com a estrutura *Ceu(H)-. Ora, é importante que a mudança fonética da sequência pie. *Ceu(V) para esl. Cou(V) (substituição de e por o) tenha criado, na classe pertinente de verbos primários, um equivalente ao grau apofônico o. Isso, por sua vez, abriu caminho ao alongamento inovador do vocalismo o na formação dos caus.-iter. eslavos em -iti. O que precede aplica-se, em primeiro lugar, a derivados como
plaviti ‘fazer flutuar’ ⇐ plovǫ, pluti ‘fluir’, raiz pie. *pleu-; slaviti ‘tornar famoso’ ⇐ slovǫ, sluti ‘ser famoso’, raiz pie. *k’leu-; traviti ‘digestionar’ ⇐ trovǫ, truti ‘consumir’, raiz pie. *treuH-.
Em segundo lugar, isso se aplica àqueles iter.-caus. que, em eslavo eclesiástico antigo, já não apresentam temas do prs. em -ovǫ, mas têm uma formação nova em -yjo, modelada segundo o inf. -yti:
naviti ‘atormentar’ ⇐ *novo (nvjo), unyti ‘entediar’, raiz pie. *neuH-; taviti ‘tornar rombo’ ⇐ *tovo (tvjo), tyti ‘engordar’, raiz pie. *teuH-.
Compare-se também °baviti °‘entreter’ ⇐ *bovǫ, byti ‘ser, tornar-se’, raiz pie. *bʰeuh₂-116.
ABREVIATURAS
adi. – adjectivum
aor. – aoristo
awest. – avéstico
C – qualquer consoante
conjuntivo – modo conjuntivo
czes. – checo
demin. – diminutivum
115 U Vaillanta (1966: 423–424) pozostawiony bez wyjaśnienia.
116 Vaillant (1966: 424) dodaje jeszcze scs. staviti ‘stawić; zatrzymać’, któremu przez porównanie stati przypisuje „un élargissement en -v- de la racine”. Hipoteza rozszerzenia pierwiastkowego nie ma oparcia w innych paralelnych wypadkach, jest więc ad hoc. Verbum to raczej denominatywem od sb. sta-vŭ ‘stanie, stan; zatrzymanie, wstrzymanie’ (por. denom. lit. stat-ýti ‘stawić’ od *stãtas, dziś stãčias ‘postawiony, stojący pionowo’).
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denom. – denominativo
drw. – derivado
durat. – durativo
gr. – grego
H – qualquer laringal (em oposição a h1, h2, h3)
inf. – infinitivo
intens. – intensivo
lit. – lituano
lrg. – laringal
łot. – letão
neopwk. – neoindoeuropeu...
pbałt. – proto-báltico
pdg. akc. – paradigma acentual
pbsł. – proto-balto-eslavo
pers. – persa
pf. – perfeito
pie. – protoindo-europeu
pol. – polaco
postvb. – (nomen) pós-verbal
prs. – presente
prt. – pretérito
przyp. – nota de rodapé
ps. – proto-eslavo
pwk. – raiz
ros. – russo
rus. – ruteniano
sb. – substantivo
sch. – servo-croata
scs. – eslavo eclesiástico antigo
SE – grau e
serb. – sérvio
słń. – esloveno
SO – grau o
SP – grau pleno
st° – antigo-
stpr. – antigo prussiano
SW – grau alongado
SZ – grau zero (SZ-C – anteconsonântico, SZ-V – antevocálico)
V – qualquer vogal
vb. – verbum
war. – variante
wed. – védico
WSZ – grau zero alongado
zam. – em vez de
znacz. etym. – significado etimológico
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BIBLIOGRAFIA
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Wojciech Smoczyński
Uniwersytet Jagielloński
Katedra Językoznawstwa Ogólnego i Indoeuropejskiego
al. Mickiewicza 9/11, 31–120 Kraków, Polska
[email protected]
Gauta 2002 11 29