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„Auka“ ir „aukuras“. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija

Dainius Razauskas

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Acta Linguistica Lithuanica LVIII (2008), 17 – 51 Sacrifício e altar. Origem das palavras e motivação semântica Dainius Rაზauskas Lietuvių literatūros ir tautosakos institutas O artigo trata dos termos lituanos para sacrifício e altar, auka e aukuras. Após apresentar o problema e fazer um levantamento da pesquisa, o autor defende uma conexão entre auka e aukuoti ‘erguer, balançar’, com base em dados históricos sobre a antiga religião lituana e em evidências tipológicas (a prática de erguer as oferendas). A segunda palavra, aukuras ‘altar’, também atestada como genuína por fontes históricas, poderia ser explicada (levando em conta sua forma paralela aukaras) como contendo a mesma raiz auk-, com -ura- e -ara- como sufixos paralelos usados para formar nomina instrumenti. 1. SACRIFÍCIO Ao que parece, o primeiro a tentar etimologizar a palavra lituana auka, em 1909, foi o célebre linguista letão Janis Endzelynas. Ele explicou que ela teria surgido do verbo aukauti ‘sacrificar’, que, segundo sua hipótese, seria formado pelo prefixo au- ‘des-’ (= russo у-) e pelo verbo kauti ‘bater’; assim, aukauti teria significado inicialmente ‘matar’ (como o russo у-бить) (Endzelīns 1974: 70–71). Kazimieras Būga discordou categoricamente de Endzelynas e, por ocasião disso, expôs em 1912 sua explicação, que se tornou clássica: “As palavras aukauti ‘жертвовать’, auka ‘жертва’ e aukuras ‘алтарь’ passaram a integrar o patrimônio da língua lituana graças ao escritor S. Daukantas. Apresentarei algumas citações de Daukantas: Chamavam-no Aukopirmas, das palavras auka e pirmas, como aquele a quem se deve, antes de tudo, aukauti ou adorar; …faziam preces nos altos montes, que auko chamavam montes, nome derivado da palavra aukauti, assim os chamavam…; Também havia sagrados aukurus, ou altares, nos montes, que chamavam auko montes, ou alko montes, e também castelos e grandes pedras, sobre 17 Dainius Razauskas as quais faziam preces e aukavo aos deuses, ou os banqueteavam — como se diz hoje por influência bielorrussa — faziam-lhes oferendas…; Junto à entrada havia um aukūras, sobre o qual sacrificavam animais aukavę e ardia um fogo eterno, alimentado com lenha de carvalho, que queimava dia e noite” (Būga 1958: 355–356)1 e assim por diante. Apresentaremos mais um exemplo eloquente que Būga deixou de citar: Aqui, diante daquela capela, erguia-se um aukūras, ou altar, onde se queimava auką, ou se sacrificavam animais consagrados a Perūnas (Daukantas 1976 1: 514). Būga prossegue: “J. Endzelynas considera que o verbo aukauti […] é composto pelo prefixo au-, equivalente ao eslavo = y-, e pelo verbo primitivo kāuti ‘бить’. É difícil concordar com tal explicação da palavra. Parece-me mais provável que as três palavras — aukauti, auka e aukuras — sejam invenções de Daukantas. Os montes em forma de túmulo, com ou sem bosques, são chamados pelos lituanos de ālko kalnas ou ālkos kalnas. […] Em alguns dialetos, por exemplo na região de Skuodas, ālka ou ālkas kalns (dial.) é pronunciado como aūka ou aūkas kalns, com l alternando esporadicamente com u; cf. lituano oriental aukūnė em vez de alkūnė ‘локоть’. No dialeto de Daukantas, ālka kalns também era pronunciado como aūka kalns. […] Sobre os montes ālko(s) ou aūko(s) kalnus, conta-se entre o povo que, quando ainda pagãos, os antepassados dos lituanos ofereciam sacrifícios aos deuses sobre eles. Influenciado pelas narrativas de sacrifícios em colinas chamadas aūka kalns, Daukantas concluiu que o nome aūka kalns era exatamente o mesmo que apieras kalns, daí a conclusão: auka significa apiera ‘жертва’. A partir da palavra auka, assim reconstruída e dotada na imaginação de Daukantas do significado ‘жертва’, acabaram sendo criados os derivados aukauti ‘жертвовать’ e aukūras ‘жертвенник’ (seguindo o modelo de ugniā-kuro). A palavra auka é conhecida na língua falada viva apenas na expressão aukos kalns (no extremo noroeste do distrito de Telšiai), que originalmente significava ‘colina com um bosque sagrado no alto’; cf. ālkas ‘bosque’” (Būga 1958: 356–357). Em 1943, outro eminente linguista lituano, Pranas Skardžius, concordou com essa opinião. Em suas palavras, “a atual auka ‘apiera’ pode ter surgido inteiramente por acaso. Não a encontramos em absoluto antes de Daukantas; tampouco a encontramos em seus primeiros escritos. Seus escritos posteriores mostram que, mais tarde, ele começou a evitar deliberadamente tanto apieros quanto altoriaus ir apieravoti, por razões puramente nacionalistas. Por isso, por exemplo, em Būdė escreve: Também havia sagrados aukurus, ou altares, nos montes que chamavam auko montes, ou ālko montes, bem como castelos e grandes pedras, sobre as quais faziam preces e aukavo aos deuses, ou os banqueteavam — como se diz hoje por influência bielorrussa — faziam-lhes oferendas. 1 As citações de Daukantas são reproduzidas conforme a edição moderna: Daukantas (1976 1: respectivamente 490, 511, 522 e 513). Todos os destaques aqui e adiante, salvo indicação em contrário, são meus. 18 Auka ir aukuras. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija Uma vez que alka(s), como mostram outras fontes, além de seu significado provavelmente mais antigo, ‘bosque de bétulas, pequeno bosque, arvoredo, bosque sagrado, Hain’, pode ter estado anteriormente associada ao culto dos deuses (por exemplo: “aquela gente… adora o fogo, a terra, as serpentes, as víboras, Perkūnas, as árvores, alkus, os espíritos da floresta, os kaukai e outros demônios” Daukša) e à realização de sacrifícios (por exemplo: alkos kalnas ‘montanha onde se ofereciam sacrifícios’ Juška, alkas [= oferendas, sacrifícios] levavam animais a Rokytai para o patrono dos animais, São Roque Alsėdžiai; compare-se também letão elka kalns ‘montanha dos deuses, montanha sagrada para as cerimônias religiosas dos pagãos’, gótico alhs ‘santuário’ etc.), de modo que, por algum processo (talvez por analogia com grupos como áudra || áldra etc.), pode ter sido transformada em auką e passado a ser usada com o significado de apieros. Mais tarde, Valančius, os aušrininkai e outros a adotaram de Daukantas, e assim ela se estabeleceu na língua-padrão contemporânea” (Skardžius 1943: 586–587, ver também 592, 596; grifos de Skardžius)2. Por fim, essa explicação foi consagrada no “Dicionário etimológico da língua lituana”, cujo primeiro volume foi publicado em 1962, por3 Ernest Fraenkel: “aukà ‘sacrifício’, aukáuti ‘reunir contribuições voluntárias [dar voluntariamente algo]’, aukóti ‘sacrificar’. Introduzido na língua literária por Daukantas no lugar de apierà, apieravóti, respectivamente afiera, afieravoti, do polonês ofiera, ofierować”; por sua vez, “aũkuras =‘altar’ foi formado a partir de aukà, segundo o modelo de ugnìakuras [‘fogão’]”. No entanto, Fraenkel acrescenta algo mais: conjectura que a adoção dessas palavras na língua também foi favorecida por outras, quase homófonas e há muito conhecidas, a saber: “Também contribuíram para isso palavras já existentes, como aukúoti ‘fazer uma oferenda elevando-a’, aukãvimo apierà ‘oferenda feita elevando-a’, auk(u)oti ‘levantar e baixar uma criança [para cima e para baixo]’ (Bretkūnas) = letão aũklēt ‘cuidar de uma criança, carregá-la nos braços e embalá-la’, aũkla ‘babá’, lituano áuklė ‘idem’, 2 A citação de Daukantas é apresentada segundo a edição moderna: Daukantas (1976 1: 522). Daukantas também empregou abundantemente as palavras auka, aukauti em outras obras suas. Eis exemplos mais elucidativos de “Relato dos feitos antigos da nação lituana”: Junto àquele carvalho, sempre verdejante, havia um santuário, onde se ofereciam sacrifícios, ou oferendas, àqueles deuses, e ardia um fogo perpétuo, alimentado com lenha de carvalho; Os terceiros eram chamados kirvaičiai, que abatiam animais para o sacrifício, ou oferenda…; Brutenis permitiu que ele oferecesse sacrifícios, ou oferendas, aos deuses…; …os antigos suecos ofereciam sacrifícios a seus deuses a cada primavera… e assim por diante (Daukantas 1976 2: 33, 34, 41, 49, ver também 29, 38, 40–43, 47, 50 etc.). Sobre as menções a auka e aukavimas em outras obras de Daukantas, ver Klimavičius (2003: 178–179) (meus sinceros agradecimentos ao dr. Vykintas Vaitkevičius por me indicar este trabalho de Klimavičius e, mais adiante, o artigo de A. Girdenis que também será mencionado!). 3 Veja já Buck (1949: 1468) e outros. 19 DAINIUS RAZAUSKAS ūkauti ‘carregar nos braços, cuidar, tratar com carinho’, ukūotis ‘embalar-se, balançar, gingar’, letão u(i)cināt, ucīt ‘acalmar (uma criança) embalando-a nos braços ou nas pernas’, ucītis ‘berço’. Essas palavras são cognatas do gótico auhūma ‘mais alto, acima’, do galês uchel ‘alto’ e do elemento intensificador prussiano, que expressa o grau superlativo, ucka-” (Fraenkel 1962–1965: 24–25)4. Portanto, segundo Fraenkel, as palavras auka, aukoti, por um lado, foram introduzidas na língua literária por Daukantas e, por outro, nela se enraizaram graças às palavras antigas já conhecidas mencionadas acima. De todo modo, algumas delas levam imediatamente a perguntar se auka é de fato um neologismo; mas não nos precipitemos. Em 1967, I. Ermantytė publicou um artigo dedicado à palavra aukà. Ela também parece concordar com a explicação de Būga e Skardžius, mas, levando em conta a opinião de Fraenkel, é muito mais cautelosa: atribui a Daukantas não a origem da palavra, mas apenas sua difusão na língua: “A palavra aukà e seus derivados aukáuti e aūkur as difundiram-se em nossa língua a partir de “Būdas senovės lietuvių kalnėnų ir žemaičių” [“Costumes antigos dos lituanos das terras altas e dos samogícios”] (1845), de S. Daukantas. Antes, no lugar dessas palavras, usavam-se os empréstimos afierà e apierà (do polonês ofiara), afieravóti e apieravóti (do polonês ofiarować) e altõrius (do polonês ołtarz ou do bielorrusso алтарь). A origem da palavra aukà é um tema que suscitou muitas reflexões e debates. K. Būga, Pr. Skardžius e E. Frenkelis dedicaram-lhe atenção repetidamente em seus trabalhos. Alguns relacionaram a palavra sobretudo a álkas, alkà; outros, às palavras que contêm a raiz auk-” (Ermanytė 1967: 38). Em seguida, I. Ermanytė também recorda as dúvidas dos linguistas quanto à alternância dos sons (duros) l e u, a única que permitiu a Būga e Skardžius formular as hipóteses mencionadas. É interessante notar que foram sobretudo o próprio Būga e Skardžius que duvidaram de que tal alternância ocorresse nos dialetos pertinentes. Segundo Ermanytė, “por causa dessa alternância sonora, cujo resultado teria sido a auka de S. Daukantas, surgiram sérias discussões entre alguns de nossos linguistas conhecidos. Em carta a J. Endzelīns, datada de 17 de abril de 1910, K. Būga escreveu que ‘áldra… não pode ser explicada a partir de áudra […] nos falares de Kvedarna e Rietavas, porque nesses falares a transformação de u em t e de t em u é completamente desconhecida’. K. Būga manteve opinião semelhante também em seu trabalho “Sobre os nomes pessoais lituanos”. Pr. Skardžius, apoiando-se nas pesquisas de K. Būga, também sustentou que dificilmente se poderiam encontrar na Samogícia exemplos genuínos e confiáveis de alternância esporádica dos sons u e l, uma vez que os samogícios— 4Além das palavras mencionadas por Fraenkel, também se podem citar uknoti, ukóti, ūk(u)oti, ūkuoti ‘embalar (geralmente uma criança nos braços), balançar, embalar, auk(u)oti’, a interjeição ūko usada para designar o embalo de um bebê nos braços e semelhantes; ver LKŽXVII 412, 442. 20 Auka ir aukuras. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija O velar da Samogícia l não é tão duro quanto o dos Aukštaitianos orientais. E, ainda assim, K. Būga concluiu no primeiro fascículo do dicionário que âldra dificilmente pode ser separado de áudros e que a consoante l deve ter sido recebida de outra palavra de significado próximo, por exemplo, âldu, aldėti ‘gritar’, letão âldaris ‘fanfarrão, tolo etc.’ (Ermanytė 1967: 39–40; ver Būga 1958: 208; Būga 1961: 818). Assim, o som l surge aqui não diretamente de u, mas como que tomado de palavras de significado e sonoridade semelhantes, apropriando-se, no fundo, da própria raiz dessas palavras; do mesmo modo, a palavra auka, que recebeu o som u das antigas palavras com a raiz auk- mencionadas, também se apropria, no fundo, dessa mesma raiz auk- e, portanto, é de fato uma palavra dessa raiz auk-. Por isso, vale a pena examinar mais atentamente as dúvidas de Skardžius, mencionadas por Ermanytė, quanto à alternância dos sons l e u e às conclusões diretas daí decorrentes sobre a origem da palavra aukà. Em resposta à explicação de Būga, Skardžius escreve: «A Būde de Daukantas, cumpre explicar de modo um pouco diferente auką e aukurą, cujo uso ali teve início. […] Aqui auka é associada tão inequivocamente a alka(s) que muitos podem facilmente pensar que auka pode ter derivado de alka(s), sobretudo porque o l velar se transforma em u em alguns dos nossos dialetos […]. E foi precisamente K. Būga quem já expressou essa opinião. Mais tarde, E. Fraenkel concordou com ela. Mas logo surge aqui um obstáculo fonético: o l velar samogiciano não é tão duro quanto o dos Aukštaitianos orientais; por isso, nos dialetos samogicianos não encontramos exemplos inteiramente seguros da transformação de al em au […]. A relação entre os ditongos al e au em samogiciano âldroje e áudroje também pode ser explicada de maneira não fonética. Do mesmo modo, mãukna ‘casca de abeto’ e letão = la. maũkna ‘o mesmo’ devem ser associados, antes de tudo, a maũkti, letão màukt, não ao vabalninkiano málkna, que não pode ser separado de málka […]. Ainda hoje me parece que, ao formar auką, Daukantas pode ter tido em mente não apenas alką, mas também outras palavras de sonoridade próxima, por exemplo, aukuoti ‘heben [erguer (para cima)]’ etc.» (Skardžius 1998: 408–409; algumas referências foram omitidas na citação)5. Em termos diretos, auka pode muito bem ser uma palavra da raiz auk-, criada por Daukantas (ou apenas empregada por ele, ver adiante) sob a influência de alko(s), e não o contrário. Em seguida, I. Ermanytė também se volta para as palavras da raiz auk- e as examina mais detidamente: «Palavras com a raiz auk- já eram conhecidas e usadas em nossos textos muito antes da Būdas de S. Daukantas. A palavra aukuoti encontra-se na Postilė de M. Daukša, em Metai de K. Donelaitis e no Žodynas de K. G. Milkus; já aukavimas está registrado em- 5 É interessante que este artigo de Skardžius tenha sido publicado pela primeira vez em 1937 (Archivum Philologicum 4, p. 192–199), ou seja, seis anos antes da explicação acima citada, na qual ele concorda com Būga. Isso mostra que, de fato, ele não tinha uma opinião firme. 21 Dainius Razauskas do dicionário de P. Ruigys. Žodyne. Aukuoti significava, nos textos desses autores, ‘carregar, embalar, balançar, erguer e baixar um bebê’. J. Bretkūnas também emprega essa palavra em sua tradução da Bíblia, por exemplo: E põe isto sobre as mãos de Aarão e de seus filhos, e ergue (acima: aukūk) isto ao Senhor (Êx 29, 24). E toma o peito do carneiro da consagração de Aarão e ergue (acima: aukūk) isto diante do Senhor (Êx 29, 26). Aqui, aukūoti significa ‘erguer (para cima), levantar repetidamente’. A propósito, Donelaitis usa o verbo aukuoti não apenas com o sentido de ‘carregar, embalar, balançar, erguer e baixar um bebê’, mas também junto a garbinti, ‘adorar’, ou até como sinônimo deste; cf. Pavasario linksmybės 305–307, onde as meninas, tendo feito bonecas de trapos, aukuodamos ant alkūnių garbino bostrą [o garotinho] (Donelaitis 1994: 23). Apesar disso, a autoridade de Fraenkel impede I. Ermanytė de tirar quaisquer outras conclusões; em vez disso, ela apenas repete Fraenkel, estreitando e simplificando até certo ponto sua própria interpretação, por «cautela»: «Na opinião de E. Fraenkel, todas essas palavras contribuíram para o surgimento da palavra aukà, a partir da interpretação incorreta das palavras ãl̄kas, alkà» (Ermanytė 1967: 40). Por fim, afirma-se que «a palavra aūcuras também foi criada por S. Daukantas», e, para confirmar isso, Būga é citado mais uma vez (Ermanytė 1967: 42). Com base em Ermanytė, mas sem deixar de fazer alusões a fontes ainda mais antigas, Aleksandras Vanagas, em seu Lietuvių hidronimų etimologinis žodynas, publicado em 1981, ao explicar nomes de cursos d’água lituanos como Auk-ūpė, Aūk-upis e outros, escreve: «Tentou-se relacionar a raiz auk- ao lituano aukà (B. Savukynas)⁶. Nesse caso, seriam hidrônimos relativamente recentes, cujo significado original estaria ligado a crenças e superstições. Supõe-se que a palavra aukà tenha sido criada por S. Daukantas (E. Fraenkel). A raiz verbal auk- é conhecida de muito antes — da “Postilė” de M. Daukša, de “Metai”, de K. Donelaitis, do “Žodynas” de K. G. Milkus e de outras fontes (I. Ermanytė). Trata-se do verbo aukuoti, ‘carregar, embalar, balançar, erguer e baixar um bebê’ (ibid.). Nos escritos de J. Bretkūnas, essa palavra já significa ‘erguer (para cima), levantar repetidamente’, isto é, é quase sinônimo de aukóti; cf.: ergue isto ao Senhor (acima: aukūk) (ibid.). Assim, os topônimos com auk- podem ser relacionados a esse ou a um verbo semelhante. Nesse caso, seriam de época bem anterior aos escritos de S. Daukantas, nos quais aparece aukà»; por fim, «parece que hidrônimos lituanos com auk- podem ser etimologicamente ainda mais próximos dos hidrônimos letões Aūce, rio, Auciņš, rio, Autzil, lago, e semelhantes», e que todos esses «nomes de lugares lituanos e letões poderiam ser comparados ao lituano aukūoti, ‘embalar, balançar, acalentar’» 6 Savukynas (1960: 298); pats žodis aukà čia išvis niekaip neaiškinamas 22 Auka ir aukuras Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija (LKŽ I, 63), letão aukāt ‘correr’ ([Mūlenbachs e Endzelīns] Latviešu valodas vārdnīca 1, 221), e talvez também ao letão aūka ‘tempestade, vendavais’ (ibid.)» (Vanagas 1981: 52–53). Aqui, ao comparar aukóti com aukúoti, ‘erguer (para cima), levantar repetidamente’, já se sugere diretamente uma etimologia diferente da palavra aukà daquela proposta por Būga, embora de maneira muito hesitante e pouco clara. Já Zigmas Zinkevičius, no volume IV de Lietuvių kalbos istorijos, intitulado Lietuvių kalba XVIII–XIX a. e publicado em 1990, expressa com muita clareza suas dúvidas quanto à opinião corrente sobre a origem das palavras aukà, aukuras, mas, infelizmente, não as fundamenta de modo algum: «A opinião corrente de que aukà, aukuras são neologismos de Daukantas é duvidosa» (Zinkevičius 1990: 152). Não se sabe se as obras dos linguistas mencionados anteriormente levaram o professor a duvidar, ou se, antes de preparar este volume para publicação, ele ainda teve tempo de conhecer o breve, mas finalmente categórico, artigo de Jonas Palionis, «Sobre a origem das palavras aukà e aukóti», publicado no segundo semestre de 1989 — infelizmente, em alemão, na então Alemanha Oriental, e por isso pouco conhecido na Lituânia. J. Palionis priminė ir pakartojo Skardžiaus abejones dėl žemaičių vėliarinio l ir u kaitaliojimosi (Palionis 1989: 212) ir atkreipė dėmesį į dar keletą šaltinių, kuriuose vartojamas veiksmažodis aukúoti reikšme ‘supti, kilnoti kūdikį aukštyn žemyn’ (pavyzdžiui, 1653 m. Jaugelio-Telegos Knyga nobaznystės ir kt.), ir į to veiksmažodžio reikšmę ‘kelti, kilnoti’ vartojimą visai artimą šiuolaikinei aukoti reikšmei prasme 1735 ir 1755 metais Rytprūsiuose išleistuose Biblijos vertimuose (pavyzdžiui: Lygey kaip jis tai aukūj’ nū jāučio, dėkawonės, vietoj apierój’ [šiuolaikiniu vertimu, „lygiai taip, kaip buvo išimta iš bendravimo aukos jaučio“ Kun 4.10]) (Palionis 1989: 210–211). Palionis dar atkreipė dėmesį į tai, kad veiksmažodis aukúoti ‘kelti, kilnoti’ jau prieš Daukantą bent trijuose šaltiniuose pavartotas šiuo metu įprasta lytimi aukóti, būtent: tuose pačiuose 1753 bei 1755 m. Biblijos leidimuose (Wien’s tur a u k ô t, fawo rankôs fâuję plonû kwiecźmileciû = vok. Es soll einer heben eine Hand voll Semmel [„Kiekviena kunigo javų atnaša“ Kun 6.16]) ir, dalyvio forma, J. Bretkūno Biblijos vertimo rankraščio paraštėje (aukojmanghi, pabraukta aukauẇamo, Kruti [„Pašventinsi krūtinę, atnašautą kaip pakylėjimo atnašą“ Iš 29.27]) (Palionis 1989: 211; plg. jau Būga 1959: 642). Pagaliau – o tai yra lemiamas ir galutinis argumentas – Palionis nurodo šaltinį, kuriame prieš Daukantą pavartotas pats daiktavardis aukà šiuolaikine jo reikšme: „K. Būga ir jo sekėjai, vėliau dirbę kalbininkai P. Skardžius, E. Fraenkelis 23 Dainius Razauskas e outros tendiam a considerar a palavra auka, no sentido de ‘Opfer’, uma criação de S. Daukantas. […] Contudo, há fatos que demonstram que essa palavra já era usada com o sentido mencionado em textos escritos anteriores, antes de Daukantas. Ela está registrada numa coletânea de sermões pregados em Šiauliai, em 1720, por uma pessoa desconhecida, intitulada por J. Biržiška Contiones litvanicae, atualmente conservada na Universidade de Vilnius (fundo I, D 23). No vigésimo segundo sermão (Concio Litvanica pro Dominica 22 post Pentecosten), encontramos a seguinte frase: Praszau jusu waykialay mana, tegul miayte Wieszpaties dieva szvyrdij jusu kaip didžiausia auka, batay tasay cysnius nuog musu bus jam wdzieczna… Embora a própria frase não seja inteiramente compreensível (falta-lhe uma conexão gramatical), é evidente que a palavra aukà foi usada ou no sentido de ‘Opfer’ do antigo lituano apiera, ou num sentido próximo ao lituano dovana, ‘Gabe’” (Palionis 1989: 210). J. Palionis conclui que “a antiga palavra aukà, cujo significado original talvez fosse ‘elevação’ (de coisas destinadas à divindade), foi substituída, após a adoção do cristianismo, pelo polonês afiera / apiera (polonês antigo ofiera). Esse empréstimo foi introduzido pelos autores dos antigos escritos lituanos (M. Mažvydas, M. Daukša, M. Petkevičius e outros) como um termo religioso de certo modo canonizado. […]. Portanto, não há fundamento minimamente claro para considerar a palavra auka nem aukoti (ou aukauti, aukoti) uma ‘invenção de Daukantas’, como dizia K. Būga. S. Daukantas pode ter tomado essas palavras da língua falada de sua época, sobretudo da antiga variedade žemaitiana, cujos falantes as usariam com o sentido de ‘elevação’, talvez também num sentido mais restrito: ‘elevação de determinado objeto à divindade, oferenda’” (Palionis 1989: 211–212). Além disso, “o fato de auką ser uma palavra antiga, usada primeiro na língua popular, é atestado também por seus derivados verbais aukuóti, aukóti, aukáuti”, segundo J. Palionis (1989: 210); ele, portanto, os deriva do substantivo original aukà, e não o contrário. Em 2003, Jonas Klimavičius publicou um artigo sobre a questão em estudo, “Auka, apiera, atnaša: aspectos da história e do uso” (Klimavičius 2003: 170–193). É verdade que Klimavičius parece não ter notado a decisiva descoberta de Palionis de que a palavra auka, em seu sentido moderno, já era usada antes de Daukantas; ainda assim, após examinar minuciosamente mais uma vez todo o material disponível e as opiniões de muitos dos autores mencionados, começando por Būga, ele chega essencialmente à mesma conclusão: “S. Daukantas pode ter ouvido auką no dialeto materno”; portanto, “não se sabe como S. Daukantas o fez, mas é evidente que auka não surgiu do nada, mas tem uma base lituana genuína: aukuoti. De um modo ou de outro, S. Daukantas salvou para a língua (comum) uma palavra nacional em vias de desaparecer”; por isso, “a opinião de K. Būga de que auka é uma criação parcial de S. Daukantas (a partir da expressão aukos / alkos kalnas 24 Auka ir aukuras. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija ji perprasm inant), koreguotina“ (Klimavičius 2003: 179, 190). Beje, autorius primena, kad jau 1961 m., taigi dar prieš pasirodant Fraenkelio žodyno pirmajam tomui, žodžių auka, aukauju, aukavimas Daukanto neologizmams neskyrė Jonas Kruopas (Klimavičius 2003: 178). Tik kaip ir I. Erm anytė (bei kai kurie kiti kalbininkai, šiaip jau pasisakę už aukos autentiškumą), J. Klimavičius, atrodo, yra linkęs dėl visa ko paaukoti aukurą – laikyti jį Daukanto išradimu (Klimavičius 2003: 177–178). Depois de tudo o que foi dito, cabe acrescentar apenas que o antigo nome eslavo para sacrifício *žьrtva também foi substituído por empréstimos em muitas línguas eslavas (por exemplo, nos Bálcãs, pelo turquismo курбан; na Polônia, pelo latinismo ofiara, entre outros) e raramente era usado na tradição oral popular dos séculos XIX–XX (Buškevič 1999: 209). Assim, a difusão de apieros em lituano não oferece motivo algum para duvidar da antiguidade de aukos. J. Klimavičius também chamou a atenção para isso, apresentando um exemplo elucidativo que explica o fenômeno, registrado na língua viva (em Mielagėnai, distrito de Ignalina): Kokia viera, tokia apiera (Klimavičius 2003: 181–182)7. Aliás, tampouco há qualquer motivo para duvidar da autenticidade da palavra auka no fato de Daukantas acompanhá-la constantemente de uma explicação: …auka, ou apiera… (ver acima). Ele faz o mesmo com outras palavras próprias, deslocadas por empréstimos, que deseja reintroduzir no uso, por exemplo: …as chuvas e as doenças devastaram toda a sua kariauną, ou vaiską…; …que protegeriam contra ataques os pašalius, ou malas…; …pagar aos dinamarqueses duoklę, ou donį; Naquela época, os lituanos das terras altas voltaram a mandė, ou prabavojo, dominar as regiões meridionais da Rutênia; Qual poderia ser a causa dessa aversão à fé cristã vieros, ou tikybos, cada um pode imaginar (Daukantas 1976 2: 45, 50, 52, 84, 98) etc. Em 2006, Aleksas Girdenis também publicou um artigo dedicado à etimologia de aukos (Girdenis 2006: 375–378). Ele apoia integralmente J. Palionis, que “demonstrou de maneira incontestável que aukà não pode ser uma invenção de Simonas Daukantas, como se pensava anteriormente”; chama a frase com o substantivo auka, encontrada por Palionis no Contiones lityanicae do início do século XVIII, de “argumento absolutamente decisivo” (e apresenta ainda alguns argumentos adicionais próprios) contra a ideia de que a palavra aukà seja uma criação recente; por fim, “é muito duvidosa também a própria possibilidade de tal criação a partir da palavra ãlkas ou alkà: na variedade žemaitiana setentrional, a mudança t → ų é muito difícil de imaginar” (Girdenis 2006: 375; destaque de Girdenis). Assim, “o lituano aukà não é 7 Exemplo do LKŽ, 205; ver Grigas (1987: 532, n.º 565), onde são indicadas duas correspondências, uma bielorrussa e outra polonesa (os primeiros registros lituanos conhecidos datam de meados do século XIX). 25 Dainius Razauskas “uma criação de Simonas Daukantas — isso já foi demonstrado em 1989 por Jonas Palionis” (Girdenis 2006: 377). A partir do substantivo aukà, A. Girdenis deriva o verbo aukóti e o substantivo composto auku-ras (como uma forma composta simplificada de aukakuras), mas, nas palavras dele, os verbos dos antigos textos aukauti e aukuoti, ‘levantar, balançar, embalar’, “dificilmente são cognatos de aukai” (Girdenis 2006: 375–376). Com efeito, A. Girdenis tende a explicar a palavra aukà de maneira inteiramente diferente — especificamente, derivando-a de *avikà < *aùiká, ‘ovelha’ (= antigo indiano aviká, eslavo ovьca) (Girdenis 2006: 376, 377). “Considerando a queda da vogal [i] na palavra *ažikã, que a transformou na forma atual õžka, podemos facilmente imaginar uma mudança semelhante na palavra *aùiká ou numa forma posterior sua, *avikà” (Girdenis 2006: 377). Girdenis dedicou a maior parte de sua atenção à possibilidade formal e fonética dessa mudança, e resumiu sua possibilidade semântica em três frases: “Sabendo que, para muitos povos, a ovelha é o principal animal sacrificado, podemos supor com bastante segurança que isso também ocorria na cultura dos antigos lituanos. Talvez apenas em ocasiões muito solenes, extremamente importantes e sagradas fossem sacrificados animais maiores — bois e semelhantes. Por isso, o antigo *aùiká poderia facilmente ter adquirido também um sentido sacral mais abstrato, ‘sacrifício’” (Girdenis 2006: 376). Na realidade, porém, as coisas não são tão simples. Valeria a pena verificar, primeiro, se o fato de que “para muitos povos, a ovelha é o principal animal sacrificado” pode realmente levar ao surgimento de uma palavra formada a partir do nome da ovelha para designar um sacrifício (e, em geral, se as palavras que designam sacrifícios se originam dos nomes das coisas sacrificadas); e, segundo, se isso de fato “também ocorria na cultura dos antigos lituanos”. Portanto, em primeiro lugar: no Dicionário de sinônimos das línguas indo-europeias de C. D. Buck, entre todas as palavras apresentadas que expressam o conceito de ‘sacrifício’ em várias línguas indo-europeias, nenhuma deriva do nome da coisa sacrificada, nem, portanto, do nome da ovelha; e a única que, ainda assim, está relacionada ao nome da ovelha (o gótico saups) testemunha uma evolução semântica inversa (dele, porque normalmente se assava ou cozinhava carne de ovelha para o sacrifício, surgiu o antigo escandinavo sauðr, ‘ovelha’); as principais fontes semânticas do conceito de ‘sacrifício’ nas línguas indo-europeias são os sentidos ‘aquilo que é trazido, dado, oferecido’, ‘aquilo que é consagrado, sagrado’, ‘aquilo com que se glorifica ou louva a divindade’ e ‘aquilo que é queimado (assado, cozido) no fogo (na fumaça)’ (Buck 1949: 1467–1469, n.º 22.15; ver 157, n.º 3.25)⁸. E 8 Taip pat žr. de Vries (1962: 464, 478); pastarojo autoriaus žodžiais, „avis šitaip tapo pavadinta todėl, kad ji paprastai būdavo aukojama“ (abiejų žodžių, gotų saups ‘auka’ ir sen. skand. sauðr ‘avis’, gilesnis semantinis pamatas yra reikšmė ‘kas kepta, virta’, plg. sen. skand. sjōða, sen. anglų sēoðan ‘virti’ ir kt.). Tokią pačią semantinę raidą, beje, liudija ir rusų žodis жертва ‘auka’, kuriuo Viatkos gubernijoje vadi 26 Auka ir aukuras. Žodžių kilme bei semantine motyvacija Em segundo lugar: nos principais Fontes da religião e mitologia bálticas reunidos por Norbertas Vėlius, apesar de os sacrifícios de animais e outras coisas serem mencionados inúmeras vezes até o final do século XV, o sacrifício de uma ovelha é mencionado apenas uma única vez, e ainda por cima juntamente com um bezerro — Jonas Dlugošas escreve que os antigos lituanos, depois de violarem inadvertidamente um bosque sagrado e, por isso, serem acometidos por alguma doença, expiavam a falta apenas com arietum et vitulorum holocaustis, «sacrifícios de carneiros e bezerros» (BRMŠ₁ 555, cf. 576; para outros sacrifícios, ver o índice, 659–660); nas fontes do século XVI, o sacrifício de uma ovelha ou de um carneiro é mencionado pelo menos cinco vezes, mas isso é metade do número de menções ao galo, à galinha e ao porco, e cerca de quatro vezes menos do que ao bode (BRMŠ₂, ver o índice, 722–724). É claro que talvez fosse possível complementar a coletânea organizada por N. Vėlius com alguma fonte pouco conhecida, mas dificilmente isso alteraria muito o quadro geral. Assim, se os lituanos tivessem criado a palavra «aukai» a partir do nome do animal sacrificado, seria mais provável que fosse «bode» ou «cabra», e não «ovelha». Por outro lado, se relacionarmos etimologicamente o substantivo auka com os verbos aukauti, aukoti e aukoti (!) no sentido original de «elevar, erguer», isto é, fundamentando-o semanticamente no significado de «aquilo que foi elevado, erguido», como J. Palionis formulou com a maior clareza e como supôs a maioria dos linguistas mencionados, começando, em parte, já por E. Fraenkelis, seriam satisfeitos tanto os requisitos formais e fonéticos como os semânticos — tanto tipologicamente («elevado» = «consagrado, sagrado» + «dado, oferecido à divindade») como historicamente, pois, como veremos em breve, os lituanos frequentemente erguiam precisamente os seus sacrifícios9. No entanto, é conveniente chegar a esse ponto recuando um pouco no início e seguindo o caminho trilhado não pelos linguistas, mas pelos mitólogos, embora ele não seja menos sinuoso. Mas, antes disso, ainda é preciso mencionar o breve artigo de Giedrius Subačius, publicado em 2007 e dedicado a aukai, no qual ele concorda com a etimologia de A. Girdenis e ressalta que S. Daukantas não criou essa palavra, mas a difundiu, pois, em geral, «era-lhe muito característico procurar e recolher palavras esquecidas. Muito provavelmente um carneiro abatido por ocasião de uma festa religiosa na igreja (Словарь русских народных говоров 9: 144; agradeço ao Dr. Sergejus Temčinas por me ter indicado este último exemplo!). 9 Se relacionarmos etimologicamente a palavra auka com aukauti, seria interessante chamar a atenção para o letão ucītis, «cordeirinho», que A. Sabaliauskas, de modo geral, tende a considerar derivado de uma palavra de origem imitativa correspondente (Sabaliauskas 1968: 119). Mas, comparando essa palavra com os termos letões mencionados anteriormente ucināt, ucit, «embalar, acalentar (uma criança)», e ainda ucitīs, «berço», aparentados com o lituano aukuoti, poderíamos suspeitar aqui de uma evolução semântica parcialmente semelhante à que vai do gótico saups, «sacrifício», ao nórdico antigo sauðr, «ovelha», e do russo жертва, «sacrifício», ao dialetal жертва, «carneiro», a saber: («aquilo que é balançado, elevado, erguido» >) «sacrifício» > «ovelha, cordeiro». 27 Dainius Razauskas em algum escrito antigo, Daukantas (tal como Palionis mais tarde) encontrou também a oferta, esquecida nos dialetos. E talvez tenha sido esquecida porque tradicionalmente era associada apenas ao pagão — não a uma forma cristã de oferecer sacrifícios. Enquanto a oferta ainda era viva nos dialetos (podemos supor que até algum momento do século XVIII ou talvez até durante o século XVIII), devia evocar nos cristãos contemporâneos associações pagãs impróprias. A palavra oferta só pôde perder a sua antiga conotação pagã depois de esquecida — recuperada já sem conotação negativa, só poderia sê-lo quando Daukantas a encontrou nos escritos antigos» (Subačius 2007: 133–134; destaques de Subačius). De qualquer modo, os linguistas concordam hoje unanimemente que auka é uma palavra antiga do lituano, e não um neologismo. É preciso dizer que a opinião de que sacrifício era uma antiga palavra lituana foi expressa ainda no período entre guerras, não por um linguista, mas por Pranas Dovydaitis. Embora reconhecesse que a palavra se difundira na língua padrão a partir de Daukantas, ele inverteu a relação entre as palavras sacrifício e santuário, considerando a última derivada da primeira. No volume II da Enciclopédia Lituana, de 1934, no artigo dedicado ao sacrifício, após mencionar os termos dos escritos antigos apiera / afiera, escreve que «a partir de 1845, com o Būdas de Daukantas, e de 1848, com o Bispado da Samogícia de Valančius, a palavra sacrifício também se enraizou na linguagem escrita e, na fala viva, sobreviveu ainda na forma alkos, sobretudo em nomes de montanhas». Além disso, propõe sua própria etimologia da palavra sacrifício, e de modo bastante categórico: «Em certo sentido, o sacrifício é um complemento da oração: a oração é o elemento mais passivo e receptivo de toda religião verdadeira e viva, enquanto o sacrifício satisfaz a inclinação ativa e doadora do ser humano. O parentesco intrínseco do sacrifício com a oração também é demonstrado pelo nome do sacrifício em lituano, sem dúvida derivado do mesmo radical que a palavra grega euchē (verbo eúchomai), que significa: oração, pedido, voto» (Dovydaitis 1934: 150). É preciso dizer desde logo que não se pode relacionar a palavra grega εὐχή ‘oração, prece, voto etc.’ (< indo-europeu *euegʰ-h-: Frisk 1960: 596; Pokorny 1959: 348; Benveniste 1995: 374–380 e outros) com o lituano sacrifício, por razões formais (leis fonéticas), razão pela qual os linguistas sequer deram atenção a essa etimologia de Pranas Dovydaitis. Os etnólogos-historiadores, porém, deram atenção a ela, sem se preocuparem muito com os linguistas. Por exemplo, Pranė Dundulienė, sem ser menos categórica que Pranas Dovydaitis, escreve: «A palavra lituana sacrifício, sem dúvida, deriva do mesmo radical que a palavra grega euchē, que significa oração, pedido, voto» (Dundulienė 1990: 175). Gintaras Beresnevičius também seguiu Dovydaitis e, em sua Introdução ao estudo das religiões assinala- 28 Auka ir aukuras Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija … observado que “a oferta é um fenômeno próximo da oração”, e prossegue afirmando com segurança (será que citando Dundulienė?) que “a oferta lituana surgiu da mesma raiz que a palavra grega euchē, que significa ‘oração’, ‘pedido’, ‘voto’” (Beresnevičius 1997: 180). Beresnevičius permanece fiel à iniciativa de Dovydaitis também em seu último livro, Lietuvių religija ir mitologija: “Aukojimas, auka, como termo religioso, relacionam-se com o gr. euchē, que significa ‘pedido’, ‘prece’, ‘voto’” (Beresnevičius 2004: 39). É verdade que, desta vez, ele também menciona a hipótese de Būga de que essa palavra seria uma criação de Daukantas, mas, incapaz intuitivamente de concordar com ela e sem enxergar outra alternativa, fica do lado de Dovydaitis. Em suas palavras, “ainda assim, nesta controvérsia, a primeira explicação parece ser a mais fundamentada, podendo ser confirmada também pelas práticas sacrificiais lituanas” (Beresnevičius 2004: 39–40). A menção às “práticas sacrificiais lituanas” mostra que a intuição de Gintaras Beresnevičius, embora arrastasse consigo o fardo inteiramente desnecessário de uma associação com εὐχή, de resto o conduziu pelo caminho certo. Pois ele observou que “nas descrições dos sacrifícios lituanos também se enfatiza o elemento de elevação do animal sacrificado, e aukuoti, em lituano, também significa ‘balançar’, ‘oscilar’, ‘erguer para cima (um bebê)’ — exatamente como, nas festas da semeadura e da colheita, o animal sacrificado é erguido para cima” (Beresnevičius 2004: 40)10. O que Gintaras Beresnevičius realmente fez aqui foi apresentar um argumento semântico adicional, e muito convincente, a favor de relacionar a palavra auka com aukuoti, despercebido pelos linguistas: chamou a atenção para a prática, característica dos lituanos, de sacrificar elevando, erguendo a oferta, e assim mostrou uma explicação muito convincente 10 De resto, o significado de aukuoti, ‘erguer um bebê para cima e para baixo’, não está muito distante do sacrifício, da oferenda. Basta lembrar Abraão, que colocou seu único filho, Isaac, sobre o altar como a oferta mais preciosa (Gn 22.1–12). Segundo M. Eliade, “até mesmo o sacrifício de crianças, que causa repulsa, a oferenda a Moloch, tinha um profundo significado religioso. Por meio dessa oferta, o ser humano devolvia à divindade aquilo que lhe pertencia, pois o primogênito era frequentemente considerado filho de Deus” (Eliade 1996: 163). Além dos judeus, dos fenícios e dos semitas em geral, muitas sociedades primitivas e povos antigos sacrificavam crianças: gregos, germanos, polinésios, povos da África Oriental, os jagas de Angola, os mbayás da América do Sul, os lengua do Gran Chaco etc. (Frazer 1995: 286–287, 289–290; Tylor 1989: 478, 480–481). Segundo Daukantas, também os lituanos “queimavam em sacrifício aos deuses crianças aleijadas, cegas, nascidas assim” (Daukantas 1976 1: 80). Alguns motivos dos contos populares lituanos evocam o sacrifício de crianças, por exemplo, o do pai que leva a filha para afogá-la, pois supostamente não consegue pensar num nome para ela, mas, no caminho, encontra uma laumė e entrega-lhe a filha que levava para afogar (BsLP, 222–223); por fim, é muito difundido na Lituânia o conto internacional, convencionalmente chamado “o servo fiel” (ATU 516), em cujas muitas variantes o servo transformado em pedra é trazido de volta à vida com o sangue de uma criança (ver Balys 2002: 65: Nr. 516). E a própria palavra lituana vaikas parece ser cognata do latim victima, ‘vítima (viva)’: ver, por um lado, Fraenkel (1962–1965: 1180–1181, 1213–1214); Walde, Hofmann (1938: 782) e, por outro, Toporov (1987: 219); Toporov (1988: 32); Toporov (1989: 47). 29 Dainius R az auskas a base para que o significado de ‘oferta’ (e, correspondentemente, ‘sacrificar’) surgisse do significado de ‘elevação’ (e, correspondentemente, ‘erguer, elevar’). Vale a pena ordenar sistematicamente os exemplos que atestam tal concepção de sacrifício (cf. Beresnevičius 2004: 183–186). Sūduvių knygelėje (por volta de 1520–1530) encontramos a descrição de uma taça erguida durante o sacrifício, com cerveja: Das Fest heissen sie die heiligung Pargrubrij. In allen Dorffern kommen sie zusammen in ein haus. Aldo ist bestalt eine Tonne biers oder zwo vnd der Wourschkaite hebt eine Schalen voll Biers auff mit der hand vnd bittet: du grosser mechtiger Gott Pargrubrius... “Chamam essa festa de consagração a Pergrubrius. Em todas as aldeias, reúnem-se numa casa. Ali se providencia um ou dois grandes barris de cerveja. O Wourschkaite ergue com a mão uma taça rasa cheia de cerveja e pede: Ó grande e poderoso deus Pergrubrius...” (BRMŠII 130, 145; tradução de Vytautas Balaišis e Sigitas Plaušinaitis). Em seguida, a mesma fonte descreve o sacrifício de um bode por meio de sua elevação: Item wan sie den Bock heiligen wollen, kommen vier oder sehs dörffer zusammen. Seind Ir viell, so kauffen sie einen Bollen vnd kommen alle in ein Haus. Da machen sie ein lang fewer; die weiber bringen weitzenmehl vnd teigen das ein. Den bock oder Bollen bringen sie vor den Wourschkaity, der leget beide hende auff jnen vnd spricht anruffende alle Götter... Darnach furen sie Inen in die scheuren, da heben sie den Bock auff, gehen alle vmbher. Der Wourschkaity ruffet aber einmal alle götter... “Assim, quando querem sacrificar um bode, reúnem-se quatro ou seis aldeias. Se forem muitos, compram um touro e reúnem-se todos numa casa. Ali acendem um bom fogo; as mulheres trazem farinha de trigo e preparam a massa. Levam o bode ou o touro até o Wourschkaite, que põe ambas as mãos sobre ele e invoca todos os deuses... Depois conduzem-no até o celeiro, erguem-no e todos caminham em volta dele. O Wourschkaite volta a invocar todos os deuses...” (BRMŠII 132, 147; tradução de Vytautas Balaišis e Sigitas Plaušinaitis). De modo semelhante, Jonas Maleckis-Sandeckis, “Sobre a religião e os sacrifícios dos antigos prussianos, livônios e outras tribos vizinhas” (1551): Litandi uero ritus est talis, Congregato populi coetu in horreo, adducitur caper, quem Vurschaytes illorum sacrificulus mactaturus, imponit uictimae utramque manum, inuocatque ordine daemones, quos ipsi Deos esse credunt... His daemonibus inuocatis, quotquot adsunt in horreo, omnes simul extollunt caprum, sublimemque tenent, donec canatur hymnus; quo finito, rursus demittunt ac sistunt caprum in terram. Tum sacrificulus admonet populum, ut solenne hoc sacrificium, a maioribus pie institutum, summa cum ueneratione faciant, eiusque memoriam religiose ad pos- 30 Auka ir aukuras. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija teros conseruent «O costume da oferenda é o seguinte. Depois que uma multidão se reúne no celeiro, trazem um bode, que o principal sacerdote deles, o Viršaitis, pretende sacrificar. Ele põe ambas as mãos sobre a vítima e invoca, um após outro, os demônios que acredita serem deuses… Depois de convocarem esses demônios, todos os presentes no celeiro juntos levantam o bode e o mantêm erguido enquanto se canta um hino. Ao terminá-lo, abaixam novamente o bode e o põem no chão. Então o principal sacerdote exorta o povo a realizar com a maior reverência essa oferenda, iniciada pelos antepassados e agradável aos deuses, e a preservar sagradamente sua memória para a posteridade» (BRMŠII 203, 204, 208; tradução de Eugenija Ulčinaitė). Motiejus Strijkovskis, em «Crônica da Polônia, da Lituânia, da Samogícia e de toda a Rússia» (1582), descreve tanto o levantamento do bode quanto o da «panela» de cerveja: …tam Wurschajt ich, to jest ofiarnik, albo raczej czarownik, weźmie garniec piwa, a podniow-szy go wzgórę, prosi boga Pergrubiusa… «esse Viršaitis deles, isto é, o oficiante, ou melhor, feiticeiro, pega uma panela de cerveja, ergue-a para o alto e assim suplica ao deus Pergrubius…» (BRMŠII 515, 549; tradução de Dominykas Urbas). Potym Wurschajtos, ich pop, według pogańskiego obyczaju, wieniec na głowę wdziawszy, położy rękę na kozła albo na byka, i prosi wszystkich bogów, każdego z osobna, którem wyższej wyliczył, aby raczyli od nich miłościwie przyjąć obchód i ofiarę onego święta, a ująwszy byka albo kozła za rogi, wiodą go do gumna i podnoszą go wszyscy chłopi wzgórę, a xiądz, Eurschajt, opasawszy się ręcznikiem, wzywa powtórę wszystkich bogów, mówiąc: To jest chwalebna ofiara i pamiątka ojców naszych, abyśmy złagodzili gniew bogów swoich… «Então Viršaitis, o sacerdote deles, seguindo o costume pagão, põe uma coroa na cabeça, coloca a mão sobre o bode ou o boi e suplica a todos os deuses, um por um, que mencionei acima, para que se dignem a receber deles com benevolência a celebração e a oferenda daquela festa. Pegando o boi ou o bode pelos chifres, leva-o ao celeiro; ali os homens o agarram e levantam-no para o alto, enquanto o sacerdote, aquele Viršaitis, cingido com uma toalha, invoca novamente todos os deuses e diz: Eis a ilustre oferenda e a memória de nossos pais, para aplacar a ira de nossos deuses» (BRMŠII 516, 550; tradução de Dominykas Urbas). Jonas Lasickis cita literalmente Jonas Maleckis-Sandeckis em «Sobre os deuses dos samogícios, dos outros sármatas e dos falsos cristãos» (cerca de 1582): His inuocatis, quotquot adsunt in horreo, omnes simul extollunt caprum, sublimemque tenent, donec canatur hymnus… «Depois de invocarem esses [deuses], todos os presentes no celeiro juntos levantam o bode e o mantêm erguido enquanto se canta um hino» (BRMŠII 587; Lasicius 1969: 47; tradução minha, cf. acima). 31 Dainius Razauskas Matas Pretorijus, no capítulo 7 (§13) do livro 5 de «Visões da Prússia» (segunda metade do século XVII), menciona um pequeno pão erguido durante a oferenda: …drauff greiffet er zu seinem Brodtchen, hebet das in die Höhe mit beyden Händen, siehet gen Himmel und spricht: „O Gott, dir sey Danck vor diese deine Gabe, gieb uns künfftigs Jahre grössere u bessere“, und so machen alle, die da niedergekniet haben, wenn sie ihr Brodt annehmen «depois ele pega seu pãozinho, ergue-o para o alto com ambas as mãos, olha para o céu e diz: ‘Ó Deus, graças a Ti por este Teu dom; nos próximos anos, dá-nos um maior e melhor’; e assim fazem todos os que se ajoelharam, ao receberem seu pão» (Praetorius 2006: 516, 518; cf. BRMŠIII 189; conforme as traduções de Jonas Kilius [Praetorius 2006: 517, 519] e Dominykas Urbas [BRMŠIII 294]). No capítulo 10 (§3–4), volta a ser mencionada a oferenda de um bode: …trägt er Gott vor sein Opfer, etwa also: „Nun Gott, vor deine grosse Güte, daß wir haben können gesund unsern Mist aufführen und den Acker betüngen, schenken wir Dir diesen Bock, denn wir dir zu Ehren schlachten und an dich gedenc kende verzehren wollen. Sey uns freundlich, Herr“ etc. etc. In dem er dieses bethet, pflegen etliche den Bock in die Höhe zu halten«ele apresenta a Deus sua oferenda, mais ou menos assim: ‘Agora, Deus, em reconhecimento à Tua grande bondade, por termos podido transportar nosso estrume com saúde e adubar o campo, oferecemos-Te este bode, que pretendemos abater em Tua honra e comer pensando em Ti. Sê-nos propício, Senhor’, etc., etc. Enquanto ele reza assim, alguns costumam manter o bode erguido para o alto» (Praetorius 2006: 530; cf. BRMŠIII 194; conforme as traduções de Jonas Kilius [Praetorius 2006: 531] e Dominykas Urbas [BRMŠIII 298]). No capítulo 1 do livro 6 (§7), volta a aparecer a oferenda de pão: Em seguidaergue o pão para o alto olhando para o céu e dizendo: «Diewe, passotink mus», «Deus, sacia-nos» «Então ele ergue o pão para o alto, olhando para o céu e dizendo: ‘Deus, sacia-nos’» (Praetorius 2006: 550; cf. BRMŠIII 199; traduções de Jonas Kilius [Praetorius 2006: 551] e Dominykas Urbas [BRMŠIII 302]). Aqui se evidencia também a explicação de tal concepção do sacrifício: erguer para cima significa elevar ao céu, a Deus. Também merece atenção, a este respeito, a «elevação das mesas», mencionada nos «Relatórios sobre a situação da diocese de Samogícia», precisamente no relatório de 1639 do missionário Jurgis Šavinskis: Et communiores omnibus fere rusticani et oppidani feria, chielt uve stalu ab oblatione mensarum nuncupatur; quae oblatio sive agape in cibandis pauperibus, pia reciprocatione nunc tenetur «E as festas celebradas por quase todos os camponeses e habitantes das cidades são chamadas chielt uve stalu, em razão da oferenda das mesas; 32 Auka ir aukuras. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija essa oferenda, ou agape, realizada até hoje com o propósito de alimentar os pobres por meio da partilha sincera de alimentos” (BRMŠIII 493; tradução minha). Aqui, o próprio texto exige acrescentar que o lat. oblatio ‘serviço, oferenda’ também significa precisamente ‘sacrifício’ religioso — é uma forma supletiva do verbo apiera, que nos é bem conhecido e deu origem a offere ‘apresentar, oferecer, sacrificar’. Assim, a expressão lituana keltuvė(s) stalų explica-se em latim por oblatio mensarum, “oferenda das mesas”, ou simplesmente “sacrifício das mesas”. Portanto, kėlimas (= aukavimas!) significa aqui precisamente aukojimą, ‘sacrificar’. De resto, é bem conhecido que a mesa era o “altar doméstico”; por isso, o sacrifício relacionado com a mesa não soa nada estranho. Temos dados semelhantes também no “Diário da atividade pastoral do Colégio Acadêmico Jesuíta de Vilnius”, precisamente no relatório de 1718 de Ignas Ostrovskis: …laboratum est insuper, ut eradicaretur superstitio inveterata, dicta Kielimey Statu id est Mensarum Solemnia, quae in Veteri deducta Ethnicismo, huiusque invariableter apud Christianum plebem in non nullis locis perseverant, ubi statis anni temporibus dum laut(i)us pascunt ventrem, simul pascunt daemonem, et animas defunctorum cibo nutriunt consumptibili “... trabalhou-se também para erradicar uma superstição arraigada, chamada Kėlimai stalų, isto é, as Solenidades das Mesas, iškilmės, que veio do paganismo antigo; até hoje ela persiste em alguns lugares entre a população cristã: em determinadas épocas do ano, enquanto alimentam mais abundantemente o próprio ventre, alimentam ao mesmo tempo o demônio com comida; do mesmo modo, alimentam as almas dos falecidos” (BRMŠIV 115, 120; tradução de Marcelinas Ročka, revista e corrigida por Eugenija Ulčinaitė; cf. Lebedys 1976: 208–209; Vėlius 1986: 29). É digno de nota que o latim solemnia corresponde precisamente em lituano à palavra iškilmės — da mesma raiz que kelti, kėlimas e, além disso, usada no plural, como o já mencionado kėlimai. E “servir os demônios” e “alimentar as almas” evocam novamente, de modo evidente, a prática de um sacrifício religioso. Cf. expressões correspondentes desde os mais antigos escritos lituanos até a língua falada viva dos tempos mais recentes (à medida que se tornavam cada vez mais coloquiais): Então ele lhes pôs a mesa, e eles comeram e beberam J. Bretkūnas (1590); Que homem põe a mesa ou a prepara, convida certos hóspedes; sua mesa estava sempre preparada com assados e as melhores bebidas J. Bretkūnas (1591); Ele nos concede a consagração M. Daukša (1599); Procurava viajantes para lhes pôr a mesa e alimentá-los K. Sirvydas (1644); Celebro um casamento Dicionário de P. Ruigys (1747); O dono da casa, alegrando-se, ofereceu aos familiares um banquete, ou uma festa S. Daukantas; Assim, certa vez, ela decidiu oferecer um almoço Dicionário de A. Baranovskis (1920); Ofereci um almoço régio em Notėnai, distrito de Salantai; Se o irmão não quer, 33 Dainius Razauskas que não me ofereça uma festa de casamento; eu mesmo farei a minha Viekšniai, distrito de Akmenė; Eles vão comer essa carne depressa — vão dar uma festa Pociūnėliai, distrito de Šeduva (LKŽ 545). Ainda no início do século XIX, a bênção da divindade, buscada por meio do sacrifício, era entendida precisamente assim, como atesta o “Dicionário das línguas lituana-alemã e alemã-lituana” de Kristijonas Gotlybas Milkus, de 1800: a invocação lituana de oferenda à Terra žemynėlė žiedėklė! pakylėk mūsų Rankų Darbus é traduzida para o alemão como: du bluethbringende Erde, segne das Werk unserer Haende. War ehemals der Wunsch oder das Gebet der heidnischen Littauer, wenn sie Bier tranken, auch davon etwas auf die Erde goßen “Terra que traz flores, abençoa o trabalho de nossas mãos. [Esse] era outrora o desejo, ou a prece, dos lituanos pagãos quando bebiam cerveja e, por isso, derramavam um pouco dela sobre a terra” (BRMŠIV 82; tradução minha; cf. LFCh 33). Além disso, a bebida oferecida em sacrifício muitas vezes não era simplesmente derramada, mas lançada precisamente para cima. Por exemplo, segundo o testemunho de A. Juška, durante os casamentos, “depois do almoço nupcial, a noiva sai de junto da mesa e vai para o meio do chão. Entrando na roda, bebe hidromel ou vinho e derrama para o alto, em direção ao teto, e depois vai dançar com o noivo” (Juška 1955: 343 [= LFCh 143], ver p. 587). De modo semelhante, nos batizados, conforme registrado em 1888 em Serbentai, município de Šimkaičiai, a partir do relato de Domininkas Mačiulis, cada um, ao beber sua porção, deve deixar uma gota de aguardente e, dando um pequeno salto, despejá-la no teto; por fim, acrescenta o informante, fazem assim também nas festas de feira, ao beberem o trago de despedida (DvPSO 210, 389)¹¹. Além disso, conforme registrou Vincas Sinkevičius no fim do século XIX, na véspera de Natal, depois de se sentar à mesa para jantar, primeiro é preciso pegar um punhado de ervilhas e, dizem, lançá-las contra o teto e dizer: “Assim como estas ervilhas saltam ao cair, que todos os meus animais saltem durante o ano inteiro” (BsJK 332, n.º 2). Ainda em 1953, em Jusegirys, região de Papilys, distrito de Biržai, foi registrado o seguinte costume da véspera de Natal: O chefe da família, nosso padrasto, pega feijões, come alguns e lança alguns para cima. Os que atingem o teto caem sobre a mesa. Ao lançar os feijões ou o trigo, dizia: “Kūč Kalėdos!” Dizia que era preciso fazer assim para que os cereais crescessem muito bem (LFCh 33–34). Também no início do século XX, durante os tradicionais ritos de passagem da juventude à idade adulta, segundo Žilvytis B. Šaknys, “às ações que simbolizavam a separação da antiga estrutura social seguiam-se frequentemente kilnojimas. [O ato de erguer] era realizado com especial solenidade sobre um símbolo da mudança de status social — um banco, uma cadeira enfeitada com uma coroa, muitas vezes um cepo, ou, em tom cômico, um cesto. O neófito erguido podia ser visto também pelos participantes mais distantes, conversando entre si ou até bastante embriagados [...].” 11 Plačiau apie šį paprotį žr.: Greimas (1990: 274–276); Vaitkevičienė (2003: 11) ir kt. 34 Auka ir aukuras. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija Desse modo, concentra-se a atenção do maior número possível de testemunhas. Na maioria das vezes, os próprios informantes entendem essa ação como sinal de especial respeito. Erguer — um deslocamento vertical, assim como o salto, o balanço, que exprimem deslocamento horizontal — está estreitamente ligado a momentos críticos da vida humana e comunitária. Ao erguer o chefe da família, muitas vezes assinalavam o término de algum trabalho importante, um dia de nome ou um aniversário; por meio desse ato, podia-se conferir o status de rapaz, moça ou chefe da casa, e até mesmo retirá-lo. Portanto, erguer é um símbolo bastante universal de mudança de status” (Šaknys 1996: 96)12, ou seja, evoca uma iniciação. Compare-se ainda o significado da palavra pakylėtas, próximo de ‘abençoado’, ‘consagrado’; bem como pakilùs, no sentido de ‘solene’. Por fim, também merecem atenção, a esse respeito, as já mencionadas iškilmės. Seu significado original é precisamente iškėlimas, talvez como a já mencionada elevação das mesas, ou talvez, em sentido mais geral, erguer, levantar como forma de consagração e de sacrifício (= aukavimas), acompanhado de uma festa ritual coletiva. Assim, o significado original de iškilmingas é precisamente ‘relacionado com o sacrifício, com os ritos sacrificiais, com a festa no sentido literal da palavra’. Por sua vez, as festividades como banquete ritual coletivo e a celebração como banquete relacionam-se, entre outras coisas, ao costume de erguer a taça antes de beber (cf. LKŽV, 546; antigamente, ao que parece, erguendo-a e depois derramando um pouco), que até hoje conserva a memória da noção de sacrifício por elevação. Mas, naturalmente, esse não é um costume exclusivamente lituano. Tampouco o sacrifício por elevação é característico apenas dos lituanos. Trata-se, em essência, de um fenômeno universal, de uma universalidade. Assim, por exemplo, os letões entendiam o sacrifício dessa maneira. Nos relatórios anuais dos jesuítas de Riga, mais precisamente no relatório de 1606 do padre Janis Stribinis, fala-se de um barril de cerveja erguido durante os sacrifícios: Popus senex cum aliis senibus, conceptis verbis murmurantes dona praesentant et offerunt, postmodum aliquot accurrunt et Tonnam Cereuisiae eleuant in altum. Popus, antequam incipiant bibere, ex Tilia colligit aspergillum et circumstantes aspergit. Postea parantur ignes in multis locis, et partem oblatarum (pinguedinem scilicet) in rogum coniiciunt. Putant etiam nunquam deos exaudituros illos sine Cereuisia “O velho sacerdote, com outros anciãos, murmurando palavras ritualísticas, apresenta e oferece os dons; depois, alguns correm e erguem para o alto um barril de cerveja. Antes de começar a beber, o sacerdote apanha um ramo de tília, faz um aspersório e asperge os que estão ao redor. Depois, acendem-se fogueiras em muitos lugares e lançam nelas parte das oferendas (isto é, a gordura). Também acreditam que os deuses nunca os atenderão sem cerveja” (BRMŠIII 550– 12 Plg. jaunavedžių „pakėlimą“ į šeimininkus (Juška 1955: 585). 35 Dainius R az auskas 551, 555; tradução de Eugenija Ulčinaitė). Talvez baste acrescentar que o lat. offerunt também pode ser traduzido formalmente como «oferecem em sacrifício» (e não «depositam»), e o lat. oblatorum, como «sacrifícios» (e não «presentes»). Embora presente e sacrifício sejam, de resto, conceitos muito próximos (cf., por exemplo, o significado de ‘sacrifício’ da palavra lituana dovana, com exemplos elucidativos no LKŽII 616). Portanto, também aqui temos uma oferenda feita ao erguer algo. O mesmo consta do relato de 1606 do padre Erdmno Tolgsdorffo: Sacrificulos habent Lothauorum aliquos senes; quorum primas oblaturas praefatas hostias, adiunctis sibi duobus ex senioribus, conceptis uerbis altiori uoce murmurando sub aliqua sanctarum arborum, oblationis offert, quo facto, occurrunt aliquot, qui cum praefatis, arreptam caereusiae tonnam, in altum eleuant, in quam demum fronde tiliae intincta populum aspergit: tum uarijs ignibus accensis, adipeque iniecto, crematoque (sine quae caeremonia nullam hostiam faciunt) circa arbores sanctas choreas ducentes… «Entre os latgálios há alguns anciãos que oficiam como sacrificadores; o mais velho deles, oferecendo em sacrifício as vítimas mencionadas, acompanhado por outros dois anciãos, murmura em voz baixa algumas palavras debaixo de uma árvore sagrada; concluído o sacrifício, aproximam-se alguns homens que, juntamente com os mencionados, pegam num barril de cerveja e o erguem bem alto; depois, molhando um ramo de tília nele, aspergem o povo. Em seguida, acendem fogueiras em vários lugares, lançam-lhes gordura e queimam-na (sem estas cerimónias não fazem sacrifício algum) e dançam em torno das árvores sagradas…» (BRMŠII 552–553, 557; tradução de Eugenija Ulčinaitė). Por fim, também a palavra sagrada, nomeadamente a palavra letã sweh̄ts (na ortografia moderna svēts), segundo o testemunho do Dicionário da língua letã de Gotthard Friedrich Stender, de 1789, significava também para os letões theuer und hoch, «precioso e elevado, grandioso» (BRMŠIV 238; tradução de Lilija Kudirkienė e Alfonsas Tekorius), ou seja, exaltado, erguido. No dia de São Basílio (14 de janeiro), os russos abatiam um leitão e, «antes da refeição, o chefe da família erguia para o alto uma tigela com o leitão acabado de preparar, dizendo: ‘Que as porcas tenham leitões, as ovelhas cordeiros e as vacas vitelos’» (Kriničnaja 2001: 263–234). De modo geral, em certos rituais à mesa comum, antes de dividir a oferenda, os eslavos «erguiam-na acima da cabeça: os russos, uma tigela com o leitão de Ano-Novo; os eslavos do sul, o pão durante os cânticos e as orações familiares; os ucranianos, a mesa [!] durante as cerimónias em memória dos mortos» (Buškevič 1999: 213). O erguer ritual do pão em várias ocasiões também era praticado pelos russos (Sumcov 1996: 110, 242). Entre os eslavos era igualmente comum o ritual de aspergir bebida e lançar alimentos para o alto (por exemplo, na Volínia, na véspera de Natal, atirava-se papa para o teto) (Sumcov 1996: 186). Segundo os investigadores, «lançar para o alto podia ser interpretado como uma magia destinada a estimular o crescimento vigoroso das plantas, … 36 Auka ir aukuras. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija …a estimular o crescimento vigoroso das plantas. Praticavam-se ações desse tipo (juntamente com o erguimento de objetos e os saltos) ao semear linho, cânhamo e cereais. Por exemplo, o semeador lançava para o alto a primeira ou a última mão-cheia de grãos, um ovo trazido de propósito ou um saquinho de sementes», mas «outros valores semânticos estão ligados às ações de lançar para o alto, pelas quais, ao que parece, se procurava enviar o objeto para o “mundo superior”» (Vinogradova 1995: 264; ver Agapkina 1996: 220–221; cf. o pão que, como mencionado, os lituanos elevavam a Deus). Os eslavos também erguiam pessoas em sinal de homenagem (Agapkina 1996: 230). Entre os exemplos mais distantes, cabe mencionar, seguindo Edward B. Tylor, «o costume dos talenos da Birmânia de, durante a refeição, antes de começarem a comer, erguer o prato, oferecendo-o ao natu (espírito), bem como o costume dos hindus de, antes da refeição, erguer acima da cabeça uma pitada de arroz e, mentalmente, oferecê-la em sacrifício a Xiva ou a Vixnu» (Tylor 1989: 475–476). Assim, os costumes sacrificiais dos lituanos e, indiretamente, os de outros povos confirmam plenamente a relação etimológica entre as palavras auka, aukóti e aukúoti, «erguer, elevar (para cima)». Ao mesmo tempo, revelam o fundamento e o núcleo da conceção de sacrifício e de oferenda na tradição lituana: erguer, elevar para cima, para o alto (a Deus), exaltar. De modo geral, essa motivação semântica da oferenda integra-se perfeitamente na tipologia geral. Por exemplo, o latim altāre (ou altāria, altārium) deriva do adjetivo altus, «alto» (Kuzavinis 1996: 49; Walde, Hofmann 1938: 32); portanto, de uma forma ou de outra, os romanos tinham de erguer, elevar a oferenda sobre o altar. O latim mactatio, «sacrifício», significa originalmente precisamente «exaltação, elevação»; macto, -āre, «abater uma vítima, sacrificar», significava originalmente «exaltar, elevar, engrandecer» e pertence à mesma raiz que o lat. magnus, «grande, alto» (Walde, Hofmann 1954: 5; Benveniste 1995: 369)13. É interessante que as palavras lituanas gérti ir gìrti, primeiro enquanto atos rituais, parecem basear-se no mesmo significado original de «erguer» (respetivamente, a taça e a voz), isto é, na raiz indo-europeia *gʰer- / *gʰr- «erguer» (Mažiulis 1984: 13). Ora, é precisamente nessa raiz que se baseia o nome eslavo da oferenda, *žьrtva (Černych 1999 1: 300; Vasmer 1996 2: 50). A noção de santidade está diretamente ligada ao sacrifício e à oferenda (cf. lat. sacrificāre < sacr um facere, e o significado de «oferecer em sacrifício» do lituano švęsti, LKŽxv 520, entre outros), e a palavra indo-europeia que a designava, *ḱu̯ento- (> lituano šventas, eslavo *svętъ, iraniano do avéstico 13 Talvez: «exaltar, fazer crescer, engrandecer o deus com oferendas»; cf. a este respeito Daukantas: «…ofereciam sacrifícios aos seus deuses…» (ver acima). 37 DAINIUS RAZAUSKAS spanta-, védico śvānta- etc.) teria tido, ao que parece, o significado original de ‘crescido, aumentado, elevado’, e ele próprio está etimologicamente relacionado com a raiz indo-europeia *ḱeu- ‘crescer, aumentar’ (> védico śū- [śvayati ‘cresce, aumenta’], avéstico sū- ‘crescer, aumentar’ etc.): assim, o epíteto védico do fogo ritual śvānta- significava que ele estava precisamente «crescido»: tinha aumentado, saltado, erguido-se das achas de lenha nele colocadas ou da oferenda combustível nele vertida14 (cf. o holocausto judaico ‘ōla(h), que, segundo a definição de J. Skvireckas, «significa aquilo que se eleva para cima», ver Klimavičius 2003: 184). Por isso, entre os iranianos da Avéstia, a palavra spanta-, que designava a santidade, continuava também a significar crescimento, aumento, abundância (Zaehner 2003: 42, 45, 77). K. Karulis relacionou também a raiz báltica *auk- ‘(aumentar-se), multiplicar-se’ já discutida precisamente com o crescimento, a altura, chamando-lhe simplesmente uma «forma paralela» da raiz *aug- (Karulis 1992 1: 87). De resto, há também certa «difusão» fonética entre as duas raízes; cf. o prussiano *auktas ‘alto’ = o particípio passivo do pretérito do lituano augtas, letão augts, latim auctus ‘aumentado, ampliado’ (Mažiulis 1988: 114; Toporov 1975: 151–153); cf. já Būga, que derivava a palavra auklė como < *aug-klė diretamente de augti (Būga 1959: 153, 409; Būga 1961: 711)15. Segundo a hipótese de Skirmantas Valentas, talvez se trate da «fusão dos significados de auka e augti num único morfema?» (Valentas 1997: 70). A este respeito, é interessante uma canção sobre o sacrifício de um bode, registada por B. Tamulevičius por volta de 1865 (sobre a popularidade desse sacrifício na Lituânia, ver acima), que começa com as palavras: Tu voželi juodbarzdeli, / Auk, auk, auk... (BsLP 266, Nr. IX.15, ver 421; LTs, 181, Nr. 193; Sruoga 2003: 373 etc.) — coloca-se a questão de saber se o lexema auk, repetido três vezes e no qual hoje só ouvimos o imperativo do verbo augti, não estaria na realidade relacionado (no mínimo por associação, e talvez até etimologicamente) com a raiz das palavras auka, aukauti, aukoti e auk(u)oti. Se as palavras lituanas auka e aukoti não forem neologismos do século XIX, mas palavras antigas que, como apontou E. Fraenkelis, têm cognatos em outras línguas indo-europeias (gótico auhūma ‘mais alto, acima’, galês uchel ‘alto’, prefixo superlativo prussiano ucka-), remontando, portanto, à época do proto-indo- 14 Mayrhofer (1976: 404, ver 399–400); Benveniste (1995: 344–346); Toporov (1987: 192–194, 202); Toporov (1988: 17, 27, 35); Toporov (1989: 9–13t); Toporov (1992: 25); ver Pokorny (1959: 630, cf. 592–594). 15 Būgai pritarė P. Skardžius (Skardžius 1943: 199), A. Salys (žr. Klimavičius 2003: 174). 38 Auka ir aukuras. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija indo-europeia16, abre-se então a possibilidade de interpretar de maneira inteiramente diferente da convencional toda uma série de fatos linguísticos correspondentes em todas as línguas bálticas. Além do prefixo superlativo prussiano ucka- (*uka-, sobre ele ver Mažiulis 1997: 209), é preciso recordar, antes de mais, que esse prefixo aparece no nome do deus *Ukapirmo (ver ibid.), cuja interpretação (segundo a explicação convencional, trata-se do deus «Primeiro de todos») ganha, assim, uma nova nuance — e a opinião de Daukantas, mencionada no início, de que lhe chamavam Aukopirmas por causa das palavras auka e pirmas, como aquele a quem se deve oferecer sacrifícios ou prestar culto antes de todos, já não parece de todo descabida. Além disso, a denominação prussiana da ave de rapina grifo, aukis, derivada de uma raiz prussiana reconstruída para esse fim *auk- ‘emitir determinado grito, som’, correspondente ao lituano áukterti ‘uivar, piar’, úkti ‘gritar (a respeito da coruja)’, ūkas ‘coruja’, letão aūka ‘tempestade, vendaval’, russo укать ‘piar, ulular’ e outras formas (Mažiulis 1988: 111–112; Топоров 1975: 148; Karaliūnas 1987: 134), pode agora também ser associada ao lituano auka (supondo que o seu equivalente prussiano tivesse o significado secundário de ‘presa’, tipologicamente poderíamos comparar o prussiano aukis com a designação genérica inglesa de uma ave de rapina bird of prey, tanto mais que o inglês prey ‘presa’ também pode funcionar como sinónimo de vítima, cf. to fall a prey to ‘tornar-se vítima de alguém’ [Piesarskas, Svečevicius 1991: 67]). Embora a etimologia aceita do nome prussiano da ave grifo continue a ser bastante convincente, a explicação correspondente dos topónimos soa muito duvidosa e forçada. E havia realmente muitos topónimos desse tipo (para além de Aukakalniai) nos territórios bálticos. Na Prússia: a localidade junto de Vėluva, perto do rio Prieglius, Auka ou Aukai (Auco 1353, Aucken 1419), o lago Aukulis (Aucul 1353) ou Aukelis (Aukel 1417, mais tarde em alemão Okull-See), o rio Auklapė (Auclappen 1419; ‘rio’ em prussiano é ape, pelo que a raiz contém o mesmo formante -l- que a palavra lituana auklė); na Letónia: Àukas, Àuca-purvs, Aūce, Aūces-ezars, Auces-pļava, Aūcene, Auciņš, Aūči etc.; na Lituânia: Aukena (registado em polaco como Awkena, não identificado), Aukūpė (e a aldeia Aukupėnai) perto de Kėdainiai, Aūkupis perto de Dotnuva, Aukupỹs perto de Krekenava e Aukupỹs perto de Viešintos, talvez Aukspirta perto de Sintautai (e o seu afluente Aukspirta, bem como um pântano com o mesmo nome; segundo 16 Cabe mencionar aqui a raiz indo-europeia distinta *ok- ‘alto, para cima’, reconstruída por S. Feist para este fim; bem como as ligações propostas por M.-M. Rādulescu com a interjeição romena (substrato dácio) (h)ut’a, que designa o embalo (de um bebé) nos braços ou no colo, e com o adjetivo do antigo indiano ucca- ‘alto’ e os advérbios uccā-, uccāih ‘para cima’; neste último caso, porém, seria necessário considerar *udka- como a forma original do tema (> báltico *utka- > *uka-): Rādulescu (1994: 84–90). 39 Dainius Razauskas A. Vanagas, «origem completamente obscura»), o lago Aūkrakštis perto de Daugai (talvez também os rios Aūkšupis, Aukšninė e o pântano Aūksabalė)¹⁷. Merecem também atenção dois rios da bacia do alto Dniepre com nomes de origem báltica, Уча, possivelmente correspondentes ao já mencionado letão Aūce, e pelo menos três com o nome de origem báltica, mas «obscura», Овчеса (Toporov, Trubačev 1962: 199, 211), que agora se pode supor ter sido *Aukesa (cf. Очеса < *Аkеса: Toporov, Trubačev 1962: 200). É digna de nota a localidade lituana Aukaimis, mencionada pela primeira vez por Pedro de Dusburgo (1285) (Otekaym: Crónica da Terra da Prússia III. 226; Ōukaym: III. 247, 280, 290), identificada com o forte de colina situado junto à confluência dos rios Ančia e Ūkis, perto de Batakiai¹⁸ (quanto a Ūkis¹⁹, cf. os já mencionados ūkauti, ūkuoti, ūkuoti e formas semelhantes, ao lado de aukūoti). Neste caso, também têm fundamento as palavras de V. Vaitkevičius: «é possível que nomes de aldeias como Auksūdys (distritos de Kretinga e Mažeikiai), formados a partir da palavra auka ou aukoti e do elemento sūd- (sūduva ‘terreno alagadiço num pântano; olho-d’água)’, também testemunhem antigos ritos associados a pântanos» (Vaitkevičius 2003: 153)²⁰. Por fim, devem também ser tidos em conta os antropónimos, como os apelidos lituanos Aukėnas e Aukūnas (LPŽ₁ 138, 139). Até hoje, todos estes factos linguísticos foram explicados pelos linguistas 17 LAŽ₁₁ 18; LUEŽ 9–10; Palionis (1989: 212) (vê nestes topónimos um argumento adicional a favor da autenticidade da palavra auka: «Os factos apresentados, na minha opinião, mostram claramente a origem popular da palavra auka»); Pėteraitis (1997: 58–59, 69) (na interpretação de V. Pėteraitis, «auk-, com o formante -k-, deriva do indo-europeu *au- ‘fonte, corrente’», mas ele também propõe comparar «o letão aukāt ‘correr’, āuka ‘vendaval’ e o lituano aukūoti ‘embalar, balançar’. Talvez o prussiano auks ‘ave de rapina, grifo’ seja também um parente distante»); Vanagas (1981: 52–53); Toporov (1975: 148); ver parcialmente Būga (1961: 256); Klimavičius (2003: 173). 18 Dusburgietis (1985: 215, 227, 243–244, 250, žr. 414), BRMŠ₁ 339, 342, 350, 352, žr. 355; istoriko R. Batūros Aukaimis pavadintas „šventu kaimu“ (BRMŠ₁ 329); toliau Aukaimį, N. Vėliaus irgi priskirtą „mitinę prasmę turintiems vietovardžiams“ (taigi, matyt, sietą su žodžiu auka), dar mini, pavyzdžiui, „Kryžiuočių karo kelių į Lietuvą aprašymai“ (BRMŠ₁ 428, 430, 431, 433, 434, 438, 439, 441, 442). Trumpai dar žr.: LE₁₁ 155. Gal iš naujo vertas dėmesio ir jotvingių bendrinis daiktavardis aucuma ‘kaimas’ (Zinkevičius 1984: 9–10; Zinkevičius 1885: 69–70). Plg. Daukanto atitinkamai aiškinamą Ukmergę: „Dausprungas paupy Šventosios upės įkūręs pilį, vardu Vilkmergę, arba Aukamerį“ (Daukantas 1976 ²: 51). 19 A. Vanago siejama su ūkas ‘migla, ūkana’ (Vanagas 1981: 352). 20 No entanto, veja-se: «É de notar que talvez tenha havido um número maior de pântanos chamados Alkomis, mas, devido à alternância alka / auka, o seu nome Alkai transformou-se em Aukai. Conhecem-se pântanos assim chamados nos distritos de Kėdainiai e Panevėžys» (Vaitkevičius 2003: 155). Agora, essa explicação forçada e artificial, já duvidosa só por causa da «alternância alka / auka» (ver acima), tornou-se desnecessária. 40 Auka ir aukuras. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija de maneiras muito diversas. É claro que algumas dessas explicações podem estar corretas e continuar válidas; no entanto, agora que auka foi reabilitada, todas elas precisam ser fundamentalmente revistas. 2. ALTAR Entre os fatos linguísticos que exigem revisão está também uma palavra diretamente relacionada à mitologia lituana — o nome de uma divindade, Bieaukuri. Nas relações anuais dos jesuítas de 1611 (Annuae litterae Societatis Jesu), escreve-se sobre os camponeses lituanos fiéis aos costumes pagãos: Varios hi Deastros antiquae vanitatis monstra redolentes colebant; Žemopati, terrestrem diceres, Plutonem, si te ad antiquos referas; Andeui, Neptunum, Bieaukuri frugum custodem, Pagirni Cererem, Vsspeleni lares Vestamve, aliosque similes «[Eles] adoravam várias divindades, evocadoras das vãs invenções da Antiguidade: Žemėpatis, que dirias ser uma divindade terrestre, ou Plutão, se te reportares aos antigos; Andei[n]is — Neptuno; Bieaukuris, guardião da colheita; Pagirnis — Ceres; Užpelenis — o lar doméstico, Vesta; e outros semelhantes» (BRMŠII 625; tradução minha; cf. 633; ver também Lebedys 1976: 208). Todas as divindades aqui mencionadas são mais ou menos conhecidas na mitologia lituana, seus nomes são mais ou menos transparentes, e esta fonte os registra quase sem deformações: Žemopati — Žemėpatis, o senhor da terra; Andeui, Andei[n]is — precisamente Vandenis (cf. lituano dialetal andenis, anduo ‘água’)21; Pagirni — Pagirnis, aquele que está sob as mós; por fim, Vsspel eni — Užpelenis, aquele que está «atrás das cinzas», isto é, atrás da lareira (cf. o substantivo comum lituano užpelenis ‘lugar atrás das cinzas, da lareira’: LKŽ-ŽXVII 677). O único nome desta lista desconhecido de outras fontes é Bieaukuri. Como dificilmente se pode suspeitar que os missionários jesuítas fossem tomados por um romantismo nacionalista e inventassem novas divindades pagãs lituanas, e como os nomes de todas as demais divindades conhecidas que mencionam foram transmitidos com bastante precisão, o ouvido lituano também escuta Bieaukuri com igual naturalidade como Beaukuri, literalmente, como aquele que está sem altar (isto é, que não tem um altar dedicado a si). Foi precisamente assim que Jurgis Lebedys interpretou esse nome divino, sem a menor dúvida ou sequer explicação, ao traduzir a passagem da fonte citada (Lebedys 1976: 208); assim também Norbertas Vėlius, ao escrever sobre a mitologia lituana do século XVII (Vėlius 1986: 31); e Algirdas Julius Greimas, ao conjecturar que ali se descrevia o deus do vento Vėjopatis 21 LKŽ, 134, 135; Greimas (1990: 388). Há também objeções a tais associações do nome divino, mas este não é o lugar para aprofundá-las. 41 Dainius Razauskas ar tiesiog Vėjas (Greimas 1990: 434, 489)22. Tačiau tokia šio dievavardžio interpretacija, šiaip ar taip, reikalauja pripažinti lietuvių kalboje jau XVII a. buvus žodį au karas De modo geral, os pesquisadores evitaram Bieaukuri’o, tanto mais que ele é mencionado apenas uma vez e, além disso, sem comentários mais claros — à exceção de que seria frugum custos, literalmente, ‘guardião dos frutos’ (ou ‘protetor’: Vėlius 1986: 31). Por vezes, também atuava retroativamente o veredito já estabelecido dos linguistas sobre aukuriu. Assim, Jonas Balys escreveu em 1985: «Em regra, só podemos aceitar como autênticos os nomes de deuses mencionados por pelo menos duas fontes independentes entre si. Por isso, muitos dos deuses prussianos também são descartados. Algum equívoco há também nos nomes de deuses ou demônios mencionados uma única vez por missionários jesuítas do século XVII, como Nosolas (Ilganosis?)23 e Beaukuris. Talvez a pessoa interrogada tenha respondido: qualquer um, e pronto, surgiu um novo nome de divindade. Talvez algum semanticista invente que isso significa ‘deus sem altar’, sem saber que a palavra aukaras é uma criação recente» (Balys 2000: 348). Apesar da impaciência categórica característica do respeitado folclorista, é muito revelador que ele próprio — aparentemente cedendo, sem o perceber, à intuição da língua materna — tenha ouvido e pronunciado de novo a forma escrita do nome Bieaukuri como Beaukuri.» Se, contudo, pusermos a argumentação de cabeça para cima e procurarmos fundamentar as considerações teóricas em fatos, ainda que modestos, e não o contrário, então o referido «semanticista», cuja inevitável aparição Balys pressentiu, revelar-se-ia inteiramente correto — pois este próprio Bieaukuri, enquanto Beaukuris, já exigiria que se encarasse com muito mais cautela a premissa levantada por Būga de que as palavras auka e aukaras seriam neologismos de Daukantas. Tanto mais que o próprio Būga formulou sua hipótese apenas a propósito da etimologia artificial de Endzelīns e com grande cautela: «Parece-me mais provável que as três palavras — aukauti, auka e aukaras — sejam invenções de Daukantas». Agora, porém, essa hipótese, apressadamente aceita como a palavra final sobre a questão, precisa ser sacrificada no altar da verdade, como vimos ao examinar os trabalhos dos linguistas. Por sua vez, o nome do deus Beaukuris, mencionado em 1611, pode ser considerado um argumento adicional de que a palavra auka é antiga e um argumento decisivo para que tal 22 Beaukuris, isto é, um deus ao qual não se oferecem sacrifícios (ou, pelo menos, não se oferecem sacrifícios sobre um altar), associado ao deus das tempestades e dos ventos, e interessante notar que, em letão, a palavra auka designa «tempestade, redemoinho». 23 Refere-se a Nosolum da mesma fonte, registrado em 1601 (BRMŠII 624, 631). 42 Auka ir aukuras. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija a palavra aukuras, que, portanto, tampouco há fundamento algum para atribuir aos «neologismos de Daukantas». Além disso, vale a pena reconsiderar a divindade lituana chamada Gabjau kuras, mencionada de passagem por Wilhelm Martinus em 1666: Absint Perkunas, Litu- ans, Babilasque Gabartai, / Nec non Gabjau kuras Baubeque žemėpati “Que pereçam Perkūnas, Litvanis e Babilas, e Gabartai, / Também Gabjau kuras, e Baubas, e Žemėpatis” (BRMŠIII 61, 62; tradução minha). Pode-se levantar a hipótese de que a palavra *gabjaukur as designa não uma divindade, mas o altar da divindade do secador de grãos Gabjaujas ou da divindade do fogo Gabijaaltar. Por fim, encontramos também aukuras nos primeiros registros do folclore. Por exemplo, no segundo volume de «Contos lituanos» de J. Basanavičius, publicado em 1902, encontramos, em um conto registrado por Jonas Valinčius, da aldeia de Vaitkabaliai, distrito de Vilkaviškis, a frase: – Vou construir uma igreja, – diz ele, colocando um queijo no meio, enquanto a constrói. – Ora, isso será um aukaras (altar), e logo ficará pronto (BsLPII 127, ver 5, 483). É claro que um registro do fim do século XIX, considerado isoladamente, não pode ser um argumento contra a autoria de Daukantas; é interessante, porém, que a palavra apareça aqui em uma forma diferente daquela usada por Daukantas: não aukur as, mas aukaras. A forma aukaras também está atestada na revista «Aušra», de 1884, e no dicionário lituano-letão-polonês-russo de M. Miežinis, de 1894 Lietuviškai–latviškai–lenkiškai–rusiškame žodyne (LKŽI 474). J. Basanavičius também usava a forma feminina auk ara, por exemplo, em um discurso proferido em 27 de dezembro de 1906, na abertura da primeira exposição de arte lituana em Vilnius: «...sob a grande aukara da Catedral de Vilnius...» (Basanavičius 1970: 722)24. P. Skardžius considera a palavra um dos neologismos dos aušrininkai, apontando como argumento a evidente «etimologia popular» secundária: «supostamente de auka + la. āra ‘espaço aberto, livre, campo aberto’» (Skardžius 1943: 594). K. Būga, por sua vez, considerava a redação do «Lietuvis» a «culpada» por essa forma da palavra — como a cronologia deixa evidente, sem fundamento —, embora a redação explicasse a formação da palavra de maneira totalmente diferente: «Até agora, na língua escrita, usa-se a palavra au kuras ‘altar’; a redação do “Lietuvis” (1907, n.º 5, p. 76) resolveu reformulá-la como auk-arą, supondo que essa palavra deriva de auka ‘sacrifício’ e ara ‘altar’. Essa explicação da redação do “Lietuvis” é inteiramente equivocada, pois os fatos linguísticos a contradizem»: aukaras «não pode conter a palavra *ara ‘altar’, porque essa palavra não existe em lituano»; já o equivalente do latim āra, que a redação do “Lietuvis” tinha em mente, se existisse em lituano, pelas leis dos sons da língua, soaria completamente 24 Agradeço ao dr. Vytautas Tumėnas por me ter indicado este último exemplo! 43 Dainius Razauskas kitaip (Būga 1958: 114). Šis Būgos sukritikuotas aiškinimas irgi tėra jau esamo žodžio „liaudies etimologija“, juoba kad pats žodis, kaip matėme, vartotas ne tik raštų kalboje, bet ir tautosakoje, ir dargi gerokai prieš minėtą „Lietuvio“ numerį. Kaip pradžioje buvo užsiminta, Būga manė žodį aukuras Daukantą sukūrus „pagal ugniā-kuro pavyzdį“. Kritikuodamas aukarą jis šį savo aiškinimą išplėtoja: „Žodį aukuras reikėtų, etymologiškos rašybos prisilaikant, rašyti su dviem k, t. y. auk-kuras. Auk-kuras yra sutrumpintas iš *auka-kurá-, nom. pl. auk(a)-kurãi. Auk-kuras yra padarytas analogiškai su ugniā-kuras ‘очаг, der Feuerherd = pelenas’ (Kvėdarna): aũkkuras – ‘auku kūrinimo (= deginimo) vieta’“ (Būga 1958: 114). No entanto, essa própria explicação de Būga também pode ser considerada uma espécie de «etimologia popular erudita», suscitada pela «etimologia popular» de Daukantas, com a qual ele apenas procurou explicar a palavra, não criá-la (lembremos: Aqui, diante daquela capela, ficava um aukuras, ou altar, onde se queimava a oferenda ou se queimavam os animais consagrados a Perūnas). Pode-se considerar que as palavras aukuras e aukaras são, de fato, formadas pela raiz auk- e pelos sufixos -ura- e -ara-. Há muitas palavras com esses sufixos em lituano e, o que é mais importante, também há bastantes pares de formas da mesma palavra, uma com cada sufixo: por exemplo, čiūkaras ‘parte superior do telhado, cumeeira’ e ‘abertura no alto do telhado para saída de fumaça’: čiūkuras ‘idem’; daũbaras ‘cavidade’: dauburà ‘depressão’; gaĩmaras ‘pessoa que não come, muito magra, debilitada’: gaĩmuras ‘idem’; gaĩgaras ‘cume de montanha, cordilheira, outeiro’: gaĩguras ‘elevação na superfície do terreno, montículo’; kaukarà, kaũkaras ‘colina, monte, outeiro’ e ‘cume de montanha’: kauku-ra, kaũkuras ‘idem’; kaũparas ‘outeiro’: kaũpuras ‘elevação, montículo, outeiro’; kėmaras ‘pedaço’: kėmuras ‘cacho, pilha, multidão’; kùkštaras ‘carga levada às costas’: kùkšturas ‘idem’; pumparas ‘broto’: puñpuras; compare stãbaras ‘caule de planta sem folhas, galho seco e sem folhas, graveto’ e ‘pessoa rígida, desajeitada’, stabãris ‘planta seca, sem seiva’: stabùris ‘pessoa pesada e imóvel’, staburys ‘haste seca’; stùbaras ‘coluna vertebral’: stùburas; žãbaras ‘galho pequeno sem folhas, graveto’: plural žãburai (por exemplo, de Žeimelis, distrito de Pakruojis: Traga gravetinhos, logo acenderemos o fogo); žiežara ‘pessoa irritadiça’: žiežura ‘idem’; žiežmara ‘bruxa’: žiežmurà ‘pessoa taciturna’, entre muitas outras25. Compare. 25 Ver Skardžius (1943: 302–303, 307–308); LKŽII 140, 145, 310; LKŽIII 31, 32, 167, 168; LKŽV 420, 429, 437, 441, 553, 565; LKŽVI 804, 807; LKŽX 907, 910; LKŽXIII 602–603, 614, 1005, 1006–1007; LKŽXX 11, 25, 561, 564; compare Būga (1958: 133). 44 Auka ir aukuras. Žodžių kilmė bei semantinė motyvacija nomes pessoais Bādaras: Badura; Daubaras: Dauburas etc. (LPŽI 151, 152, 465, 466). Assim, pode-se levantar a hipótese de que au kuru e aukaras são substantivos formados a partir da raiz verbal auk- (aukáuti, aukóti, aukúoti), com os sufixos -ura- e -ara- (formalmente, nomes de instrumentos de ação), que designam o objeto ou dispositivo destinado aos sacrifícios, sobre o qual se ergue, eleva a oferenda elevando-a (depois de erguida, talvez também queimada, elevando-a assim mais uma vez com a fumaça para o alto, até o céu). Nesse caso, o lituano aukuras, aukaras é, por sua motivação semântica, próximo do latino altāre, altāria, altārium, formado a partir do adjetivo altus ‘alto’. De qualquer modo, por tudo o que foi dito, fica claro que aukuras, ou aukaras, aparentemente tampouco é uma criação neológica de Daukantas, mas uma palavra antiga do lituano, talvez tão antiga quanto auka. 3. CONCLUSÃO Assim, já não é preciso quebrar a cabeça para descobrir como os antigos lituanos chamavam as oferendas, que faziam desde tempos imemoriais, e os altares sobre os quais as ofereciam, atestados em fontes escritas desde o final do século XIV — na «História da Polônia», escrita por Jan Długosz no século XV, ao descrever a adoção do cristianismo na Lituânia em 1387: …templum et aram, in quibus hostiarum fiebat immolatio, disrumpli… «destruir o templo e o altar, onde se ofereciam sacrifícios» (BRMŠI 552, 572; tradução de Daiva Mažiulytė; ver Jurginis 1976: 51, 62)26. Os antigos lituanos, ao que parece, chamavam suas oferendas e seus altares de aukomis e aukurais ou aukarais, sem sequer imaginar que seus descendentes tentariam tirar-lhes essas palavras. ŠALTINIAI ATU: The Types of International Folktales: A Classification and Bibliography, based on the system of Antti Aarne and Stith Thompson by Hans-Jörg Uther, Helsinki, 2004 (nurodomas teksto numeris). 26 Lie. atnašauti, atnaša rasi jau tikrai bus naujadarai, ne visai tiksliai nusižiūrėti, tarpininkaujant lenkiškai apieri, nuo lotynų offero, -re pirmine reikšme ‘nešti priešais’ (Klimavičius 2003: 182–191) 45 DAINIUS RAZAUSKAS BRMŠ₁: Baltų religijos ir mitologijos šaltiniai, sudarė Norbertas Vėlius, 1: Nuo seniausių laikų iki XV amžiaus pabaigos, Vilnius: Mokslo ir enciklopedijų leidykla, 1996. BRMŠ₂: Baltų religijos ir mitologijos šaltiniai, sudarė Norbertas Vėlius, 2: XVI amžius, Vilnius: Mokslo ir enciklopedijų leidybos institutas, 2001. BRMŠ₃: Baltų religijos ir mitologijos šaltiniai, sudarė Norbertas Vėlius, 3: XVII amžius, Vilnius: Mokslo ir enciklopedijų leidybos institutas, 2003. 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