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“Cimbri” et “Teutoni”

Harald Bichlmeier; Václav Blažek

Abstract

    The well-known names Cimbri and Teutoni / Teutones are traditionally said to denominate two different Germanic tribes. Here a new idea is proposed, namely that they originally formed a syntagm consisting of both words, PGmc. *þeu̯đanōz kumƀrii̯ōn ‘chieftains of tribes’, which later got split up into two tribal names in ancient sources: Teutoni Cimbrique, or Τευτόνοι καὶ Κίμβροι. While PGmc. *kumƀr- must be reconstructed, there are different ways in which the name is rendered in the Latin and Greek sources, where we find a variation u/y – i in the root vowel. This may be due to the fact that there is a certain fluctuation between u and i in inherited words in Latin on the one hand and a fluctuation between all these vowels in loaned words and names in both languages.    The original form of the name of the Cimbri, PGmc. *kumƀrii̯a, may continue an obscured compound of the roots PIE *gem- ‘press, squeeze, grab’ and *bher- ‘carry’. Pgmc. *þeu̯đanōz is the regular plural to *þeu̯đanaz ‘tribal chieftain’, later ‘king’. Its origin from PGmc. *þeu̯đō ‘tribe’ is generally accepted. Among various etymological attempts to analyze ‘West Indo-European’ *teu̯tā we prefer the idea of de Vries deriving the word from the Celto-Germanic isogloss to *teu̯to- ‘good, friendly’. The Hittite cognates imply the existence of the root *teu̯- ‘to be kind, friendly’.

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HARALD BICHLMEIER Academia Saxônica de Ciências de Leipzig Universidade Martin-Lutero de Halle-Wittenberg Áreas de pesquisa: onomástica (toponímia), fonologia histórica das línguas germânicas, linguística indo-europeia, textos aljamiados. VÁCLAV BLAŽEK Departamento de Linguística e Estudos Bálticos, Universidade Masaryk, Brno Áreas de pesquisa: onomástica e geografia histórica, etimologia indo-europeia, estudo comparativo das línguas afro-asiáticas, urálicas e altaicas; mitologia comparada. DOI: doi.org/10.35321/all83-02 CÍMBRIOS E TEUTÕES Cimbri e teutões ANOTAÇÃO Os conhecidos nomes Cimbri e Teutoni / Teutones tradicionalmente são considerados denominações de duas tribos germânicas distintas. Propõe-se aqui uma nova ideia, a saber, que originalmente formavam um sintagma constituído por ambas as palavras, PGmc. *beudanōz kumbrīōn ‘chefes de tribos’, que mais tarde foi dividido em dois nomes tribais nas fontes antigas: Teutoni Cimbrǫque, ou Τευτόνοι καὶ Κίμβροι. Embora PGmc. *kumbr̥- tenha de ser reconstruído, há diferentes maneiras pelas quais o nome é representado nas fontes latinas e gregas, nas quais encontramos uma variação u / y – i na vogal da raiz. Isso pode dever-se ao fato de haver, por um lado, certa flutuação entre u e i nas palavras herdadas do latim e, por outro, uma flutuação entre todas essas vogais nas palavras e nos nomes emprestados em ambas as línguas. A forma original do nome dos Cimbri, PGmc. *kumbrīa, pode dar continuidade a um composto obscurecido das raízes PIE *gem- ‘pressionar, apertar, agarrar’ e *bʰer- ‘carregar’. PGmc. *beudanōz é o plural regular de *beudanaz ‘chefe tribal’, posteriormente ‘rei’. Sua origem em PGmc. *beudō ‘tribo’ é geralmente aceita. Entre as várias tentativas etimológicas de analisar o ‘indo-europeu ocidental’ *teutā, preferimos a ideia de de Vries, que deriva a palavra de Straipsniai / Articles 27 HARALD BICHLMEIER, VÁCLAV BLAŽEK a isoglossa celto-germânica para *teuto- ‘bom, amigável’. Os cognatos hititas implicam a existência da raiz *teu- ‘ser bondoso, amigável’. PALAVRAS-CHAVE: etnônimos germânicos, discussão das etimologias existentes, novas soluções etimológicas, compostos de estrutura obscura, tipologia semântica. ANOTAÇÃO Tradicionalmente, considera-se que os nomes bem conhecidos cimbros e teutões designam duas tribos germânicas diferentes. O artigo propõe a ideia de que esses nomes originalmente formavam um sintagma composto por ambas as palavras — PGmc. *peudanōz kumbriōn ‘chefes de tribos’ —, do qual se desenvolveram os nomes de duas tribos atestados já nas fontes antigas: Teutoni Cimbrique, ou Τευτόνοι καὶ Κίμβροι. Embora PGmc. *kumbr tenha de ser reconstruído, esse nome é reproduzido de várias formas nas fontes latinas e gregas. Nelas encontram-se variantes da vogal radical u/y – i. Isso pode dever-se ao fato de que, por um lado, há certa alternância entre u e i nas palavras herdadas do latim e, por outro, há alternância entre essas vogais nas palavras e nos nomes emprestados em ambas as línguas. A forma original do nome dos Cimbri, PGmc. *kumbria, pode ter preservado um composto obscuro das raízes PIE *gem- ‘pressionar, apertar, agarrar/apoderar-se’ e *bʰer- ‘carregar’. PGmc. *peudanōz é o plural regular de *peudanaz ‘chefe de tribo’, posteriormente ‘rei’. A origem dessa palavra em PGmc. *beudō ‘tribo’ não suscita dúvidas. Entre as várias tentativas de analisar etimologicamente o “indo-europeu ocidental” *teutā, os autores do artigo preferem a derivação proposta por de Vries a partir da isoglossa céltico-germânica *teuto- ‘bom, amigável’. Os cognatos hititas permitem supor a existência da raiz *teu- ‘ser bondoso, amigável’. PALAVRAS ESSENCIAIS: etnônimos germânicos, discussão das etimologias existentes, novas soluções etimológicas, formações de estrutura obscura, tipologia semântica. 1. CIMBRI O etnônimo Cimbri é atestado em várias variantes (cf. Schönfeld 1911: 63f.): Κίμβροι (Posidônio {135–51 BCE} apud Estrabão, Geographica 2.3.6, 7.2.2; além disso, Estrabão {63 BCE – 23 CE} 4.3.3, 4.4.3, 5.1.8, 7.1.3, 7.2.1, 7.2.3, 7.2.4; Diodoro Sículo {90–30 BCE}, Bibliotheca Historica 5.32.4) Κίμβριοι (Polyaenus {2nd cent. CE}, Strategematum 8.10.1, 8.10.2, 8.10.3) Κύμβροι (Ptolemeu {c. 140 CE}, Geographia 2.11.16 in ms. X) Cimbri (Cícero {106–43 BCE}, Tusculanae Disputationes 2.65; De Officiis 1.38; César {100–44 BCE}, De bello Gallico 1.33.3, 1.40.5, 2.4.2, 7.77.12, 28 Acta Linguistica Lithuanica LXXXIII Cimbri et Teutoni 7.77.14; Valerius Antias {1st século a.C.} apud Orosius, Historiae adversum paganos 5.16) Cymbri (Valerius Maximus {wrote between 14–37 CE}, Facta et Dicta Memorabilia 2.11: Cymbrorum in ms. L; 3.6. Cymbricumque in ms. A; Frontinus {30–103 CE}, Strategematon 1.5.3: Cymbris, Cymbri in ms. H; 2.5.8: Cymbrico, Cymbris in ms. HP; Aulus Gellius {125–180 CE}, Noctium Atticarum 16.10.14: Cymbrico in ms. X) Cumbri (Aulus Gellius {125–180 CE}, Noctium Atticarum 16.10.14: Cumbrico in ms. Z) Conbri (Eutropius {finished 364 CE}, Breviarium ab urbe condita 5.1.4: Conbris in ms. G¹). 2. TENTATIVAS ETIMOLÓGICAS A primeira tentativa de explicar o etnônimo já surgiu na Antiguidade. 2.1. Festus {2nd cent. CE}, em De significatione verborum, p. 43, considerava que ele designava ‘ladrões’ em gaulês: Cimbri lingua Gallica latrones dicuntur “Os Cimbri são chamados de ‘ladrões’ na língua gaulesa.” Sextus Pompeius Festus, De verborum significatu quae supersunt cum Pauli epitome, edidit Aemilius Thewrewk de Ponor. Budapest: Academia Litterarum Hungaricae 1889. 2.2. Plutarch {46–119/127 CE}, em Caius Marius 11.3, disse o mesmo, com a única diferença de que propôs a origem germânica¹ deste etnônimo: ¹ Já em meados do século 1st CE, Plínio [NH 4.28/40/99] apresentou a primeira classificação das tribos germânicas, na qual incluiu explicitamente tanto Cimbri & Teutoni entre os Inguaeones: germanorum genera quinque: vandili, quorum pars burgodiones, varinnae, charini, gutones. alterum genus inguaeones, quorum pars cimbri, teutoni ac chaucorum gentes. proximi autem rhe no istaeones, quorum... mediterranei hermiones, quorum suebi, hermunduri, chatti, cherusci. quinta pars peucini, basternae, supra dictis cotermini dacis. amnes clari in oceanum defluunt guthalus, visculus sive vistla, albis, visurgis, amisis, rhenus, mosa. introrsus vero nullo inferius nobilitate hercynium iugum praetenditur. Plinius: Naturalis Historia, ed. Karl Friedrich Theodor Mayhoff. Lipsiae: Teubner 1906 “Há cinco raças germânicas: os Vandili, dos quais fazem parte os Burgundiones, os Varini, os Carini e os Gutones; os Ingueones, que constituem uma segunda raça e dos quais fazem parte os Cimbri, os Teutoni e as tribos dos Caucos. Os Istevones, que se estendem até o Reno e aos quais pertencem os Cimbri, constituem a terceira raça; enquanto os Hermiones, que formam uma quarta, habitam o interior e incluem os Suevos, os Hermunduri, os Chatti e os Cherusci: a quinta raça é a dos Peucini, que também são os Bastarnas, limítrofes dos Dácios anteriormente mencionados. Os rios mais célebres que desaguam no oceano são o Guttalus, o Vistillus ou Vístula, o Albis, o Visurgis, o Visurgis, o Amisis, o Reno e o Mosa. No interior, estende-se a cadeia do Hercínio, não inferior a nenhuma outra em fama.” Straipsniai / Articles 29 HARALD BICHLMEIER, VÁCLAV BLAŽEK e sobretudo supunha-se que eram povos germânicos daqueles que habitam junto ao oceano setentrional, por causa do tamanho dos seus corpos e da cor azul-clara dos seus olhos, e porque os Germanos chamam ladrões aos Cimbros. “A conjectura mais difundida era que pertenciam a alguns dos povos germânicos que se estendiam até ao oceano setentrional, conjectura baseada na sua grande estatura, nos seus olhos azul-claros e no facto de os Germanos chamarem ladrões aos Cimbros.” Plutarco, Caius Marius. – Vidas de Plutarco, com tradução inglesa de Bernadotte Perrin, Cambridge (MA): Harvard University Press – London: Heinemann, 1920. Isto é repetido laconicamente no léxico bizantino Suda, p. 600 {10th cent. CE}: Κίμβρος ὁ ληστής. Suidae Lexicon, ex recognitione Immanuelis Bekkeri. Berlin: Reimer 1854 Autores mais antigos mencionavam apenas a ambição dos Cimbros de pilhar2 (Diodoro Sículo 5.32.4.) ou o facto de serem um povo pirata3 (Posidónio apud Estrabão 7.2.2.). Mas é necessário verificar, nesta perspetiva, as possibilidades tanto das etimologias célticas como das germânicas (a tentativa de relacionar o Amisius, o Reno e o Mosa. No interior estende-se a longa cadeia dos montes Hercínios, que, em grandiosidade, não é inferior a nenhuma outra.” Plínio, o Velho: História Natural, traduzida por J. Bostock, H. T. Riley, London: Taylor & Francis, 1855. ² Diodorus Siculus {90–30 a.C.} 5.32.4. Tendo sido divulgadas a bravura e a selvajaria destes povos, alguns dizem que eram eles aqueles que, nos tempos antigos, percorreram toda a Ásia, sendo chamados Cimerianos, tendo a palavra sofrido uma ligeira corrupção com o tempo no nome dos chamados Cimbros. Pois desde tempos antigos tinham por costume pilhar, avançando contra terras alheias, e desprezar todos. Diodoro Sículo, Bibliotheca Historica, Vol. 1–2, ed. por I. Bekker, L. Dindorf, F. Vogel, Leipzig: Teubner, 1888–1890. 5.32.4. “E, visto que a bravura destes povos e os seus costumes selvagens se tornaram célebres, alguns dizem que foram eles que, nos tempos antigos, invadiram toda a Ásia e eram chamados Cimerianos, tendo o tempo corrompido ligeiramente a palavra, transformando-a no nome de Cimbros, como agora são chamados. Pois desde tempos antigos tinham por ambição pilhar, invadindo para esse fim as terras de outros, e desprezar todos os homens.” Diodoro Sículo, Biblioteca de História, Volume 3: Livros 4.59 – 8, traduzido por C. H. Oldfather, Cambridge (MA): Harvard University Press, 1939 (Loeb Classical Library 340). ³ Posidonius {135–51 a.C.} apud Strabo {64/63 a.C. – 19/24 d.C.} 7.2.2. Por isso, Posidónio censura justamente os historiadores e não conjectura corretamente, pois os Cimbros, sendo piratas e errantes, fizeram uma expedição até às regiões em torno do lago Meótis. “Posidónio tem razão ao censurar os historiadores por estas afirmações, e a sua conjectura não é descabida: sendo os Cimbros um povo pirata e errante, fizeram uma expedição até à região do lago Meótis.” 30 Acta Linguistica Lithuanica LXXXIII Cimbri et Teutoni etnônimos geograficamente distantes Cimbri e Cimmerii não serão discutidos aqui – trata-se de uma típica Volksetymologie baseada na semelhança acidental). 2.3. Müllenhoff (1887: 117) especulou sobre a origem celta do ponto de vista da interpretação da «pilhagem». Buscou apoio em glosas irlandesas antigas como cim(b) «imposto, tributo, prata» (DIL C-186), além de cimbid «vinctus», isto é, «cativo», mas também «anátema», isto é, «vítima», gen.sg. cimbetho «do cativo», nom.pl. cimbidi «prisioneiros» (DIL C-187). Relacionado pode ser o galo-lat. [Glossário de Endlicher] cambiāre «rem pro re dare» (atestado pela primeira vez em Apuleio), isto é, «trocar», bret. kemm «troca» (< PCelt. *kambio- < PIE *kṃBo), se o tributo era pago em prata trocável e os cativos também eram trocados (cf. LEIA C-99f.; de Bernardo Stempel 1987: 96f.; Schrijver 1995: 282f., 289). Esta solução implica que Cimbri eram chamados de «ladrões», pois capturavam cativos, provavelmente para obter resgate. Mesmo que seja aceita, permanece um problema fonológico: os exemplos precedentes confirmam que a contraparte esperada de OIr. cimbᵒ é o gaul. *kambᵒ, se ambos derivarem de *kṃBᵒ (ver Matthias 1904; Much 1905: 2999). 2.4. Zeuss (1837: 142) destacou o caráter belicoso dos Cimbri, explicando seu nome com o auxílio do ONor. keppa «demonstrar força; lutar», kappi «lutador», OHG kampf «Eifer, Streit, Wettkampf», kempᵒ «pugilista». Müllenhoff (1887: 118) já o rejeitara, pois essas formas foram tomadas de empréstimo do lat. campus «Schlachtfeld» (cf. AnEW: 300f., 306; EWAhd 5: 368–370, 469f.). 2.5. Naturalmente, também é legítimo levar em conta a possibilidade de que o etnônimo da tribo, que tinha uma reputação desonrosa por sua prática de pilhagem, tenha se transformado em um apelativo, como, por exemplo, no caso dos Vândalos. Esse ponto de partida abre espaço para outras soluções, que não estão relacionadas com a agressividade. 2.6. Müllenhoff (1887: 116f.) discutiu várias tentativas etimológicas. Além de uma etimologia celta relativamente racional, analisada acima em §2.3, também rejeitou a comparação superficial com o etnônimo Cymry «galês», bret. Kenuro proposta por Graff (AhdS IV: 405), pois ela refletia o composto britônico pl. *kom-brogī «do mesmo território», em oposição ao etnônimo gaulês Allo-broges [por exemplo, Cícero, De divin. 1.21; Brutus ad Cic. Epist. 11.13.14] «de outro território», = «estrangeiros» (ACS 1: 96–105, 1072; DLG²: 34, 77; DLG³: 39, 91) ⁴ O lat. cambiāre é geralmente considerado um empréstimo do celta, enquanto as palavras célticas medievais mencionadas acima são às vezes consideradas reempréstimos do latim (cf. Walde, Hofmann 1938–1956 1: 145f.; DÉLL: 89). ⁵ Cf. sobre este etnônimo in extenso Zimmer 2007 (com bibliografia anterior). Straipsniai / Articles 31 HARALD BICHLMEIER, VÁCLAV BLAŽEK ou, segundo Zimmer (2007: 674), ““aqueles que vivem na terra de outros (isto é, em terra conquistada)”.” 2.7. O próprio Müllenhoff (1887: 118) também rejeitou a possibilidade baseada no OHG gambar «poderoso, forte», na antepassada dos lombardos Gambara, em que o esperado *k surdo deveria ser resultado da estrita «Zweite Lautverschiebung». 2.8. Talvez mais promissora do ponto de vista da fonética histórica, mas semanticamente mais fraca, seja outra tentativa proposta por Müllenhoff (1887: 118), baseada no OHG einkimpi «funestus», pikimpôt, pikimbitha «funus», que deveria estar relacionado com kumbalþoro «portador do estandarte militar» (EWAhd 5: 861f.), OE cumbol, var. cumbor [Beowulf 1022] «insígnia militar, estandarte» (Holthausen 1963[1934]: 63), ONor. kumbl «túmulo, insígnia do elmo» (AnEW: 333f.). O denominador semântico comum desses significados deveria ser «decoração», aplicada tanto ao elmo quanto ao funeral ou sepultura. Assim, os Cimbri eram caracterizados por seus elmos decorados (!). Ainda menos compatível semanticamente com os termos para «sepultura», «estandarte» ou «elmo» é o OHG kumbarra «tribo, povo, associação de linhagem», cumpurie «tribus» [Vocabularius St. Galli], proposta por Grimm (1840: 92) e aceita por Müllenhoff (1887: 118) e até mesmo em EWAhd 5: 862f. 2.9. Müllenhoff (1887: 118) também especulou sobre a conexão do etnônimo Cimbri com o OE cimbing «cume, junta, conexão» (Holthausen 1963[1934]: 49). Relacionados são o NFris. kimming «horizonte», além do OE cimb-stān «pedestal, encaixe», E chימbe, chirne «borda ou aro de um barril ou tambor», MDU. kirnme «borda, aro», D kim «horizonte», dial. «borda de um barril, aro», MLG kimme «borda, horizonte», G Kimm «linha do horizonte»; sue. kimb «aduela» (Kluge 1999: 442; Holthausen 1963[1934]: 49). Essas formas derivam do PGmc. *kembōn- > *kimbōnf. «crista, cordilheira», que é o tema feminino em n com ablaut pertencente ao PGmc. *kambą- «pente» (EDPG: 287, 279; EWAhd 5: 360–362). Essa ideia foi desenvolvida posteriormente, por exemplo, por Matthias (1904: 40f.; cf. Much 1905: 2999: “Kimber – Leute vom Rand, von der Küste des Meeres”) ou por Schönfeld (1911: 64: “Die einfachste und jedenfalls mögliche Deutung ist ‘die Leute vom Rande (kim), von den Küsten des Meeres, von der Waterkant’”). Essa motivação semântica pode basear-se em histórias transmitidas, por exemplo, por Estrabão (com dúvidas) ou Floro sobre marés devastadoras que haviam destruído a costa marítima da pátria dos Cimbri: Strabo (63 BCE – 23 CE), Geographica 7.2 32 Acta Linguistica Lithuanica LXXXIII Cimbri et Teutoni Quanto aos Cimbri, algumas coisas são ditas corretamente, mas outras têm probabilidades não pequenas. Pois ninguém aceitaria como causa de terem se tornado errantes e piratas que, habitando uma península, teriam sido expulsos de suas terras por uma grande maré; pois ainda possuem o território que possuíam anteriormente, Strabo: Geographica, ed. A. Meineke, Leipzig: Teubner, 1877. “Quanto aos Cimbri, algumas coisas que se contam sobre eles estão incorretas e outras são extremamente improváveis. Por exemplo, não se poderia aceitar como motivo para terem se tornado um povo errante e pirata que, enquanto habitavam uma península, foram expulsos de suas moradias por uma grande maré; pois, de fato, ainda ocupam o território que ocupavam em tempos anteriores.” Strabo: Geography, ed. H. L. Jones. Cambridge (Mass.): Harvard University Press – London: Heinemann, 1924. Florus (74–130 CE), Epitome III 3 Cimbri, Teutoni atque Tigurini ab extremis Galliae profugi, cum terras eorum inundasset Oceanus, novas sedes toto orbe quaerebant “Os Cimbri, os Teutones e os Tigurini, fugitivos das regiões extremas da Gália, visto que o Oceano havia inundado seus territórios, começaram a buscar novos assentamentos por todo o mundo.” Lucius Annaeus Florus: Epitomae Historiae Romanae, ab E. S. Forster editi apud Loeb Classical Library, Londinio, 1929 Um problema que surge com essa etimologia, contudo, é a questão da formação da palavra. Se aceitarmos algum Pré-PGmc. *gembā- → PGmc. *kimb-ōn, teríamos de aceitar que houve uma derivação ro-interna ao germânico a partir de uma raiz em grau pleno. Essa seria uma formação muito excepcional no germânico. A formação regular esperada seria uma formação em grau zero, que, contudo, também teria de ser pré-proto-germânica: PIE *ǵṃbh-rō- → PGmc. *kumbra. Mas o significado dessa formação estaria longe de ser claro; originalmente, teria significado algo como ‘mordente’, pois PIE *ǵembh significava ‘schnappen, (zer-)beißen’ (LIV²: 162f.). Como não podemos determinar quando o lexema PIE *ǵómbh-o- ‘Zubiss’ (EWAhd 5: 362) sofreu a lexicalização para PGmc. *kambā- ‘comb’, também não podemos determinar se PGmc. *kumbra poderia ter tido alguma conexão semântica com PGmc. *kamba- ‘comb’.” 2.10. Talvez apenas um sentido anedótico tenha a última tentativa citada por Müllenhoff (1887: 118), a saber, a explicação com base no islandês kimbí ‘zombador’, no islandês antigo, ‘pássaro zombeteiro’ (!). Straipsniai / Articles 33 HARALD BICHLMEIER, VÁCLAV BLAŽEK 2.11. Matthias dedicou sua dissertação (1904) ao problema do etnônimo Cimbri, ao qual Much (1905) fez referência e comentou detalhadamente. Matthias favoreceu duas soluções, cada uma excluindo a outra. A primeira já havia sido formulada por Müllenhoff em 1887 (ver §2.9.), a segunda era nova. Ele relacionou Cimbri a nomes de lugares dinamarqueses como Himmerland, ou Himbersyssæl. Isso implicaria que o c inicial do etnônimo representava um registro imperfeito do proto-germânico *χ- (isto é, h nas línguas literárias germânicas antigas) ou que a Primeira Lautverschiebung ainda não operava no momento da adoção do etnônimo pelo latim e pelo grego. A ideia de Matthias foi aceita por Much (1920: 95), que propôs como ponto de partida germânico do etnônimo *Himbrōs. E essa solução é mantida até o presente, por exemplo, Nedoma (2017: 875) afirma: “Os primeiros gentes germânicos que entraram em contato com Roma foram os Cimbri e os Teutones, que desafiaram o Império Romano no final do século II a.C.), substitutos de *Himbrōz e *Peudanōz germânicos, cf. Himbersyssæl e Thythæsyssæl, duas áreas do norte da Jutlândia conhecidas desde 1231 d.C.).” Matthias (1904) também ofereceu sua etimologia, baseada na comparação com o nórdico antigo híma ‘estar absorto em pensamentos, vadiar’; cf. ainda o sueco dialetal híma ‘adoecer’, o norueguês hīm ‘camada de nuvens finas, camada fina de geada ou neve’, o feroês hím ‘luz fraca’, embora a motivação semântica e a formação da palavra permanecessem inexplicadas. Talvez o provável derivado, o nórdico antigo himbrin ‘mergulhão-do-gelo (Colymbus glacialis)’, o norueguês imbre, (h) ymmer, poderia ter dado o nome ao dinamarquês Himmerland, e ao sueco Himbra, Himmerfjärden (cf. de Vries em AnEW: 227, que também não excluiu uma relação com o nome dos Cimbri). 2.12. Rozwadowski (1928: 361; cf. também REW 3: 61f.) e Gołąb (1982: 166f.) viram uma relação do etnônimo Cimbri com o apelativo eslavo *sębrъ > antigo sérvio sebrъ ‘participante, companheiro, parceiro’, sérvio sèbar, gen. sèbra ‘agricultor’, esloveno srebar, gen. srebra ‘camponês’, russo antigo sebrъ ‘vizinho, membro da mesma comunidade’, dialetal russo sjabër, gen. sjabrã ‘vizinho, companheiro, parceiro’, ucraniano sjáber, sjabró ‘participante, companheiro, parceiro’, bielorrusso sjabr ‘parente, companheiro, irmão’, com empréstimos antigos nas línguas balcânicas, ainda preservando a nasal: húngaro cimbora ‘companheiro, amigo’, romeno símbră ‘sociedade, comunidade’, albanês toscano sěmbër ‘parceiro, coproprietário de gado’, grego medieval σέμπρος, σεμπρός ‘parceiro’. Se Cimbri refletir o PGmc. *ximbra, ele é de fato compatível com o PSl. *sębrъ, e ambos podem ser derivados do mesmo protoformo pré-PGmc./pré-PSl. *kimro-. Relacionado poderia ser o PGmc. *xaima m. ‘aldeia, lar’ (EDPG: 201; EWAhd 4: 905–907) e o PSl. *sěmbja ‘família’, além do lituano šeimà ‘família, parentesco, pessoal doméstico’, com a extensão em r- šeimerỹs ‘companheiro’, letão saìme 34 Acta Linguistica Lithuanica LXXXIII Cimbri et Teutoni ‘pessoal doméstico, família {em sentido mais amplo}’ (ESJS 13, 804f.) e ainda o irlandês antigo cóim, o bretão antigo cum ‘querido’ (EDPC: 220), todos provenientes do PIE *kei- ‘deitar-se’ ou *tei- ‘habitar’ (LIV²: 320 ou 643f., respectivamente). O problema, contudo, com essa etimologia seria que o pré-PGmc./pré-PSl. *kimro teria de ser segmentado como *ki-m-ro-, pois *ki-m teria de ser considerado o grau zero de uma neorraiz *keim, cujo m é originalmente um sufixo. Se estivermos dispostos a aceitar isso, poderia ser reconstruído um significado original ‘pertencente / relativo ao lar / à família’. 3. UMA NOVA SOLUÇÃO Uma chave para uma nova solução poderia ser buscada no alto-alemão antigo kumbar(r)a⁶ f. ‘tribo, povo, comunidade de linhagem’, glosa cumpurie ‘tribus’ [Vocabularius St. Galli], que descende do PGmc. *kumbariōn- (cf. EWAhd 5: 862f.), com uma possível variante PGmc. *kumburin-. 3.1. Essa solução, mencionada pela primeira vez por Graff em 1838 (AhdS IV: 405f.: “Será que cumbirra ‘tribus’ deve ser mantido junto {scil. mit Cimbri}?”) e aceita, por exemplo, por Laistner (1892: 31), é concebível se a forma original do etnônimo era o PGmc. *kumbra ou *kumbriia-. Já Graff (AhdS IV: 405f.) mencionou o nome pessoal masculino Cumbro junto com o apelativo kumbar(r)a e o etnônimo Cimbri. As variantes do etnônimo com o vocalismo posterior u/y/o da primeira sílaba são de fato atestadas — ver §1. ⁶ Laistner (1892: 31) tentou acrescentar o médio-alto-alemão kumber ‘amontoado, massa, incômodo’, projetado em WGS 37 para o PGerm. *kumbra-. Mas geralmente ele é explicado como uma adaptação do galo-latim *combros ‘aquilo que foi reunido’ (Kluge 1999: 493). Neumann et al. (2000: 494) tentaram explicar até mesmo o alto-alemão antigo kumbar(r)a a partir do galo-latim, cf. o latim medieval confero ‘reunir’. Por outro lado, Tácito [Germania 37] chamou-os de civitas ‘comunidade’. É tentador ver aqui uma pista para a interpretação do etnônimo: Eundem Germaniae sinum proximi Oceano Cimbri tenent, parva nunc civitas, sed gloria ingens. veterisque famae lata vestigia manent, utraque ripa castra ac spatia, quorum ambitu nunc quoque metiaris molem manusque gentis et tam magni exitus fidem. Cornelius Tacitus: de Origine et Situ Germanorum Liber. In: Opera Minora, ed. por H. Furneaux. Oxford: Clarendon Press, 1900. “No mesmo canto remoto da Alemanha, junto ao oceano, vivem os Cimbri, uma tribo agora insignificante {mais exatamente, ‘comunidade’}, mas de grande renome. Restam ainda amplos vestígios de sua antiga glória; em ambas as margens do Reno há acampamentos de enorme extensão, e por seu perímetro ainda hoje se pode medir a força guerreira da tribo e encontrar provas daquela grande migração.” Cornelius Tacitus: Germany and its Tribes. In: Complete Works of Tacitus, traduzido por A. J. Church, W. J. Brodribb, New York: Random House, 1942. Straipsniai / Articles 35 HARALD BICHLMEIER, VÁCLAV BLAŽEK Mencionemos ainda a vacilação u ~ i em latim, em que as formas em u⟟ são primárias,⁷ ou a vacilação grega υ ~ ι, que foi tomada como testemunho de substrato ou de origem estrangeira das palavras (Furnée 1972: 364–367; EDG xxxi; Beekes 2014: 25)⁸. Vacilação semelhante aparece nas transcrições de etnônimos antigos para o grego ou o latim (Schönfeld 1911: 157, 215–217): Λοῦγοι [Ptol. 2.11.10], Λύγιοι [Cassius Dio 67.5.2], Lygii, com as variantes Ligii [Tacitus, Germania 12]. Sugambri [Caesar, BG 4.16.9, 4.18.3, 4.19.13, 6.35.9], Σούγαμβροι [Strabo 4.3.4, 7.1.3, 7.2.4], Sygambri [Horatius, Carmina 4.2.36, 4.14.51], Σύγαμβροι [Ptol. 2.11.6], Sigambri [Suetonius 21.1], Sicambri [Florus 2.30]. 3.2. A motivação semântica é bastante transparente, simplesmente ‘povo’, ‘tribo’ ou ‘união de clãs’ vel sim.. Um desenvolvimento semântico paralelo pode ser encontrado na autodesignação alemã deutsch, OHG diutisc ‘(língua) do povo’, Du. duits, MDu. du(i)tsc, OSax. thiudisk, do PGmc. *þeudiska-, originalmente ‘pertencente à própria tribo ou povo’, que é um derivado do PGerm. *þeudim. > OHG diot m., OLF thiat, nom.pl. thiadi, *þeudan. > OHG diot n. ‘povo, pessoas, tribo, pagãos’, além do mais comum PGerm. *þeudōf. > Goth. þiuda⁹ ⁷ Cf. Lat. lubet ~ libet ‘é agradável’, clupeus ~ clipeus ‘escudo redondo’, liber ‘casca de árvore, livro’ vs. OPruss. lubbo ‘liber, tábua, prateleira’, Russ. lub ‘liber’ (EDLIL: 337f., 121); semelhantemente Marruc. cibat vs. SPic. qupat ‘jaz (sepultado)’ (Untermann 2000: 418). O mesmo efeito provavelmente atuou nas palavras sabélicas transcritas por autores romanos, por exemplo, sabiniano ciprum ‘bonum’ (Varro 1.1.5,159) vs. SPic. akupní (Untermann 2000: 405). Mencionemos que Gaius Marius, que derrotou os Cimbri, nasceu perto da cidade de Arpinum, pertencente até 305 BCE ao território dos Volsci [Iuv. 8.35; Diod. 20.90. Liv. 9.44, 16]. ⁸ Cf. Gr. βίβλος ‘a casca interna do papiro’ [Plato, Polit. 288E], ‘um livro’ [Aesch., Supp. 947] vs. βύβλος ‘papiro egípcio’ [Hdt. 2.92; Aesch. Supp. 761], ‘papel, livro’ [2.100]; βιβλίον ‘uma tira de βίβλος, um papel, carta’ [Hdt. 1.125, 3.128; Ar. Av. 974] vs. βιβλίον ‘papel de biblus’ [Hesychius]; βίβλινος [papyr.], βίβλινος οἶνος ‘vinho bíblio’ (sobre um distrito da Trácia) [Hes. Op. 587] vs. βύβλινος ‘feito de βύβλοιο’ [Od. 21.391; Hdt. 7.25, 36], Βύβλινος [Eur. Ion. 1195]. Esses termos foram motivados pelo nome da cidade Βύβλος, adaptado da forma semítica primária *Gublu, reconstruível com base em Akk. URUḡub/gu-ub-la/li, Syll. Ugar. URUḡu-ub-li & KURḡu₅-ub-li, Alph. Ugar. gbl, Phoen. gbl, Hebr. Ġᵊbal (DUL: 290; HAL: 173f.; GEW 1: 235; Masson 1967: 101–107; Rosól 2013: 167). ⁹ CSlav. *tjudjb ‘estrangeiro’ pode refletir uma fonte gótica reconstruível como *þiudja- (ver Pronk-Tiethoff 2013: 202–204 e ESJS 16, 946f. com discussão). Embora não seja preservada no corpus do gótico bíblico, ela pode ser identificada no nome do rei visigótico Thiodis / Theudis / Teudis [Jordanes, Getica 58/302], Θευδης [Procopius, BV 1.13.13]. No gótico bíblico, é reconstruível como *þiudeis (Schönfeld 1911: 234f.). Jordanes [23/116] informou-nos sobre um povo estrangeiro Thiudos no norte, submetido ao poder do rei gótico Ermanaric. Zeuss (1837: 688) identificou nesse etnônimo o Čjudь de Nestor [2.24; 2.105], talvez os estônios e seu país. 36 Acta Linguistica Lithuanica LXXXIII Cimbri et Teutoni ‘povo, nação’, Gutþiuda ‘povo dos godos’; ONor., Icel. þjóð10 ‘povo’, Faer. tjóð, Norw. tjod, dial. tjo, gotlandês tjaud; OE ðéod, OFris. thiāde, thiēde, OSax. thiod(a), OHG diota ‘nação, povo’ (EDPG: 540; EWAhd 2: 684–688; AnEW: 613; NDEW 2: 1307), com parentes próximos no báltico: OLith. (Daukša) tautà ‘povo’, além de tautìnti ‘dar caráter nacional’, taũsti ‘tornar-se apóstata de seu pertencimento étnico’, aptautėlis ‘anão’; Latv. tàuta, dial. (Raipole) taûta, ‘espécie, tipo; parentesco, povo, nação’, tautas f.pl. ‘estrangeiros; soldados regulares; mercenários de terras distantes’, cf. os nomes de família Tautàs, Tautìnas; OPruss. tauto, acc. tautan ‘terra, país’, etc. (ALEW: 1082; Smoczyński 2018: 1458; LEW 2: 1069; LDW 4: 140f.). Itálico: Ven. nom.sg. teuta, osco nom.sg. τωφτο, touto, acc.sg. tautam, marrucino dat.sg. toutai, umbro acc.sg. tuta, totam, tota, gen.sg. tutas, totar ‘civitas’, Outra designação de cf. Lat. lubet ~ libet ‘é agradável’, clupeus ~ clipeus ‘escudo redondo’, liber ‘casca de árvore, livro’ vs. OPruss. lubbo ‘liber, tábua, prateleira’, Russ. lub ‘liber’ (EDLIL: 337ff., 121); semelhantemente, Marruc. cibat vs. SPic. qupat ‘jaz (sepultado)’ (Untermann 2000: 418). O mesmo efeito provavelmente atuou nas palavras sabélicas transcritas por autores romanos, por exemplo, sabiniano ciprum ‘bonum’ (Varro 1.1.5,159) vs. SPic. adv. kuprí (Untermann 2000: 405). Mencionemos que Gaius Marius, que derrotou os Cimbri, nasceu perto da cidade de Arpinum, pertencente até 305 BCE ao território dos Volsci [Iuv. 8.35; Diod. 20.90. Liv. 9.44, 16]. Cf. Gr. βίβλος ‘a casca interna do papiro’ [Plato, Polit. 288E], ‘um livro’ [Aesch., Supp. 947] vs. βύβλος ‘papiro egípcio’ [Hdt. 2.92; Aesch. Supp. 761], ‘papel, livro’ [2.100]; βιβλίον ‘uma tira de βίβλος, um papel, carta’ [Hdt. 1.125, 3.128; Ar. Av. 974] vs. βυβλίον ‘papel de biblus’ [Hesychius]; βιβλῖνος [papyr.], βίβλινος οἶνος ‘vinho bíblio’ (sobre um distrito da Trácia) [Hes. Op. 587] vs. βύβλινος ‘feito de βύβλο’ [Od. 21.391; Hdt. 7.25, 36], Βύβλινος [Eur. Ion. 1195]. Esses termos foram motivados pelo nome da cidade Βύβλος, adaptado da forma semítica primária *Gublu, reconstruível com base em Akk. URUgu/ub/gu–ub-la/li, Syll. Ugar. URUgu–ub–li & KURgu–ub–li. Alph. Ugar. gbl, Phoen. gbl, Hebr. Ġabāl (DUL: 290; HAL: 173f.; GEW 1: 235; Masson 1967: 101–107; Rosól 2013: 167). CSlav. *tjudь ‘estrangeiro’ pode refletir uma fonte gótica reconstruível como *þiudja– (ver Pronk–T̨iethoff 2013: 202–204 e ESJS 16: 946f. com discussão). Embora não seja preservada no corpus do gótico bíblico, ela pode ser identificada no nome do rei visigótico Thiodis / Theudis / Teudis [Jordanes, Getica 58/302], Θευδης [Procopius, BV 1.13.13]. No gótico bíblico, é reconstruível como *þiudeis (Schönfeld 1911: 234f.). Jordanes [23/116] informou-nos sobre um povo estrangeiro Thiudos no norte, submetido ao poder do rei gótico Ermanaric. Zeuss (1837, 688) identificou nesse etnônimo o Čjudь de Nestor [2.24; 2.105], talvez os estônios e seu ‘povo estrangeiro’, que poderia ser de origem gótica ou germânica oriental, aparece no húngaro antigo (1121) Tout ‘eslavo’, a partir do século XVII Tót ‘eslovaco’ (EWU II: 1535f.). 10 Uma forma mais arcaica aparece no registro rúnico do composto ONor. Sviþjóð, nomeadamente na formulação a suþiuþu ‘na Suécia’, proveniente da inscrição rúnica de Simris, na Escânia, datada de ca. 1050–1100 (AnEW: 571). Uma camada ainda mais arcaica é representada pelo empréstimo proto-nórdico ou gótico antigo no proto-sami *tie̯Dō ‘homem’ (Sammallahti 2001: 409; cf. Qvigstad 1893: 129f. com dados dialetais concretos). Straipsniai / Articles 37 HARALD BICHLMEIER, VÁCLAV BLAŽEK SPic. nom.sg.? toúta, dat.sg./pl.? toútaih ‘cidade, sociedade’ etc. (Untermann 2000: 779–781; EDLIL: 618f.). Céltico: OIr. túath ‘povo, tribo, terra’, MGalês tut ‘povo, país’, galês t̄ud ‘terra’, córnico tus, MBret. tut, NBret. tud ‘povo’ (EDPC: 386f.), gaulês [inscr. de Vaison] τουτιους ‘cidadão’ (DLG³: 300), gaulês cisalpino [Brioni] gen.sg. toutas ‘tribo’ (Lambert 2003: 58, 74f.), celtibérico [Botorrita IV: A1] acc.sg. toutam ‘pueblo’ (Jordán Cólera 1998: 148) = ‘Volk’ (Stifter [1996]2001: 97), além de numerosos correspondentes onomásticos, por exemplo, no teônimo gaulês Teutates [Lucano, Pharsalia 1.444–446], Toutatis ‘epíteto de Marte’ [CIL III: 5320], antropônimo no gen.sg. Touto-rigis [Vienne-en-Val; ver Lejeune 1971: 484; Delamarre 2007: 184], além do epíteto de Apolo no dat.sg. Toutio-rigi [CIL XIII: 7564]; etnônimo galaciano Touto-bodiaci [Plínio 5.146] etc. (DLG³: 295); antropônimo lepôntico como legenda monetária Toutio-pouos (Lejeune 1971: 484); nome de família celtibérico no gen.pl. Toutinikun (MLH V.1, 41f.); além de outros possíveis cognatos onomásticos em outras línguas: teônimos lusitanos Toudadigoe (cf. gaulês Toutatis + –iko–), Toudopalandaigae (MLM V.1: 411f.); nomes próprios messápios: Taotinahiaihi (gen.sg.), Θeotor, gen.sg. Θeotoras etc. (MLM 2: 174, 324); rainha ilíria Teuta [Políbio II.4.7, 6.9, 8.4, 8.7, 8.10, 9.1, 11.4, 11.16, 12.3] = Teuta [Plínio 34.6.24]; ‘pelasgo’ Τευταμίδης [Il. 2.843], isto é, ‘filho de *Teutamos’, efetivamente usado em macedônio Τεύταμος [Diodoro Sículo 18.59]; além do dáco Tautomedes no Cod. Theod. 15.1.13: Tautomedi duci Daciae ripensis (Detschew 1957: 495); nome de mulher trácia Τουτα, Τιουτη, Τουτα (Plovdiv, Saladinovo, Varna, respectivamente; Detschew 1957: 507) etc. (cf. por exemplo, EWAhd 2: 686; Beekes 1998: 461). Também pode estar relacionado o hitita tuzzic. ‘exército, forças militares, acampamento militar¹¹’, apesar de um forte esforço para separá-lo dos comparanda ‘antigos europeus’ (cf. EDHIL: 908; Kloekhorst considera que o continuante hitita do radical em i *teutideveria ser atestado como **tuzzazzi-). Um cognato anatólio hipotético em lício B (= Milyan) tutafoi interpretado como ‘comunidade’ (Stoltenberg) ou ‘guerreiro’ ¹¹ A mesma diferença semântica entre ‘povo’ e ‘exército’ aparece no PGmc. *fulka- > ONor. folk ‘exército, multidão, povo’; OE folc ‘Volk, Stamm; Menge, Schar; Heer’, E folk, OFris., OSax., OHG folk, MHG volc ‘multidão, povo, infantaria’, G Volk ‘povo’ (Holthausen 1963[1934]: 111; Kluge 1999: 866). A forma *fulka-, preservada diretamente na glosa langobárdica fulc-free ‘o mais alto grau de liberdade para um ex-escravo’ e em nomes pessoais germânicos orientais como o visigótico Fulgaresdus, o herúlio Φούλγαρος, foi adotada no eslavo eclesiástico como *pъlkъ > OCS plъkъ ‘formação; cunha’, CS plъkъ ‘multidão, povo’, ORuss pъlkъ / pуlkъ / pъlkъ / polkъ ‘regimento, batalha, campanha, povo, multidão’, Russ. polk ‘regimento, multidão’, Ukr. polk ‘regimento’, Pol. pułk, arq. pełk ‘regimento’, USorb. połk, OCz. plk, Cz. pluk ‘grupo, regimento’, Slk. pluk ‘regimento’, SCr. puk ‘povo, multidão’, Bulg. plăk / pălk ‘id.’ (Pronk-Tiethoff 2013: 121f.). 38 Acta Linguistica Lithuanica LXXXIII Cimbri et Teutoni (Ševoroškin) — ver Neumann (2007: 392f.), enquanto Aixenval’d, Bajun, Ivanov (1987: 173, 190) o traduziram como ‘exército’. 4. TEUTONI / TEUTONES E PIE *teutēh₂– Do mesmo radical PIE *teuto/eh₂– deriva-se o etnônimo Teutoni [Mela 3.3.32; Plínio, NH 4.99; Floro 1.38{3.3}], Τεύτονες [Plutarco, Marius 15, 18 & Plutarco, Caesar 18; Ptolemeu 2.11.9], Teutones [Amiano 31.5.12] (ver ACS 2: 1808–1820; Zimmer 2005: 368). Ele pertence aos primeiros etnônimos registrados da Europa Ocidental, independentemente de sua origem, céltica ou germânica. Plínio, em sua Naturalis Historia [37.35–36/12/11], transmitiu o testemunho de Píteas de Massália de sua viagem ao Norte, realizada por volta de 325 a.C.: … Pytheas Gutonibus, Germaniae genti, accolĭ aestuarium oceani Metuonidis nomine spatio stadiorum sex milium; ab hoc diei navigatione abesse insulam Abalum; illo per ver fluctibus advĕhi et esse concreti maris purgamentum; incolas pro ligno ad ignem uti eo proximisque Teutonis vendere. Plínio Segundo, Naturalis Historia, ed. por K. F. T. Mayhoff, Lipsiae: Teubner 1906. “... Píteas diz que os gutões, um povo da Germânia, habitam as margens de um estuário do Oceano chamado Metuonidis, seu território estendendo-se por uma distância de seis mil estádios; que, a um dia de navegação desse território, encontra-se a ilha de Abalus, em cujas margens o âmbar é lançado pelas ondas na primavera, sendo uma excreção do mar em forma sólida; e que os habitantes usam esse âmbar como combustível e o vendem a seus vizinhos, os teutões.” Plínio, o Velho, The Natural History, traduzido por John Bostock, H. T. Riley, Londres: Taylor & Francis, 1855. 5. TEUTONI & CIMBRI = ‘PARENTES’ OU ‘LÍDERES DE TRIBOS’? Se as ideias precedentes estiverem corretas, ambos os etnônimos, Cimbri (*kumbr̥(ii)a-?) e Teutoni / Teutones foram formados a partir de designações mais ou menos sinônimas da mesma unidade social, ‘tribo, povo’. Os autores antigos frequentemente os citavam juntos: Teutonos Cimbrosque [César, BG 2.4.1], Τευτόνων καὶ Κίμβρων [Plutarco, Marius 11], etc. Straipsniai / Articles 39 HARALD BICHLMEIER, VÁCLAV BLAŽEK 5.1. Uma possibilidade é supor que se tratava de uma única e mesma tribo, conhecida sob dois nomes sinônimos, que foram reinterpretados como os nomes de duas tribos diferentes. Nesse caso, é necessário explicar a extensão nasal no nome Teutoni / Teutones. 5.1.1. Scheel (1898: 578–595) viu aqui uma adaptação dos etnônimos germânicos primários aos modelos derivacionais latinos ou gregos. 5.1.2. Schönfeld (1911: XXVf., 95f.) criticou severamente essa solução e tentou explicar on– como resultado da declinação fraca. 5.1.3. Schaffner (2015: 179–181) vê na extensão nasal nos nomes tribais germânicos em *anm. / *-ōnf. a aplicação do sufixo possessivo indo-europeu *-Hxon após nivelamento com os radicais em n ‘normais’. 5.1.4.1. A extensão nasal do radical *teuto/ā foi identificada no nome de uma rainha ilíria Teutana do 3rdº séc. AEC [Florus, Epitome 1.21], em comparação com a forma não estendida Τεῦτα [Polybius II.4.7, 6.9, 8.4, 8.7, 8.10, 9.1, 11.4, 11.16, 12.3], Teuta [Pliny 34.6.24] etc. (Krahe 1929: 113). 5.1.4.2. Essas formas são ainda mais bem documentadas no celta: nomes pessoais gauleses (ACS 2: 1899f.; Delamarre 2007: 184; OPEL 4: 128): Cassia Toutona coniux de Lugdunum / Lyon, França [CIL XIII: 2014] memori[ae] aeternae T[ou]tonius December qui vixit annos XIII de Lugdunum / Lyon, França [CIL XIII: 2287] Q. Melius Toutonis f(ilius) de Arles, França [CIL XII: 852] Dis Manib(us) Eutico Toutoni fil(io) de Langres / Adematunnум, França [L’Année épigraphique 1969/1970 (1972): 117, n. 427] Inter Toutonos cahi de Greinberg, perto de Miltenberg, Alemanha; c. 200 EC [CIL XIII: 6610] Mascelio Touton[de Mainz-Kastel, Alemanha [CIL XIII: 7302]. Nome individual hispânico antigo (especialmente da área dos Vettones): Toutonus (MLH V.1, 411). 5.1.4.3. Em germânico, há inclusive atestado o apelativo com a extensão em *-an- < pré-PGerm. *-on- (Feist 1939: 496f.; GED: 361; AnEW: 623; Holthausen 1963[1934]: 363): gót. þiudans ‘βασιλεύς’, isto é, ‘rei’, islandês antigo þjóðann ‘rei, príncipe, líder’, inglês antigo dēoden ‘rei, senhor; deus’, saxão antigo thiodan ‘governante, senhor do povo’ < PGmc. *þeudanaz < pré-PGerm. *teutōno. 5.2. Alternativamente, no par Teutoni & Cimbri pode-se ver o sintagma germânico *þeudanōz kumbriōn ‘chefes de tribos / povos’, correspondendo mais ou menos ao nome tribal gaulês Bituriges [Caesar, BG 1.18.6; 7.5.1 etc.; Livy 5.34.1; Pliny 4.108; Strabo 4.2.1 etc. – ver ACS 1: 434–441], anteriormente interpretado como ‘reis do mundo’ (cf. Zeuss 1852: 14: “ita ut significet 40 Acta Linguistica Lithuanica LXXXIII Cimbri et Teutoni “o antigo nome Bituriges, ou os que sempre dominaram o mundo ou amplamente, isto é, ‘poderosos’”, mas talvez tenha significado mais propriamente ‘os do Rei-do-mundo’ (se derivado do gaulês. *Biturīgĭo-, um adjetivo de pertencimento, derivado do nome pessoal *Bitu-rīg-)¹² cf. irl. bihₕ ‘mundus’, e a discussão de Delamarre em DLG¹: 66; 32f., 127; DLG³: 76f.; 37f., 151f., incluindo as formações paralelas Albio-rix; Dubno-rix & Dumno-rix). Outro caso de conexão talvez análoga entre dois etnônimos germânicos com o mesmo primeiro componente pode ser identificado em Τευτονόαροι [Ptolemy 2.11.9] = *Τευτονοουάριοι (Schönfeld 1911: 224)? 6. ANÁLISE ETIMOLÓGICA DO PGMC. *kumbarīōn–/*kumburīōn– e *peudō– 6. Os apelativos germânicos *kumbarīōn–/*kumburīōn– e *peudō–, se representarem as bases dos etnônimos analisados, devem ser etimologizados em detalhe. 6.1. O PGmc. *kumbarīōn–/*kumburīōn– pode ser projetado no pré-PGmc. *(ǵ)mbʰoriā́/*(ǵ)mbʰriā–, enquanto o etnônimo reconstruído PGmc. *kumbra– ou *kumbrīia– remonta ao pré-PGmc. *(ǵ)mbʰro– ou *(ǵ)mbʰriio–. Se o sufixo de pertencimento *(–i)io–/*–iā– for separado, há várias possibilidades de segmentação: 6.1.1. Derivação sufixal: (i) *(ǵ)m–rᵒ com *bʰ secundário; (ii) *(ǵ)mḅʰ–or–/–ro–. Uma conexão com a raiz PIE *ǵembʰ– ‘morder, fazer uma mordida’ (LIV²: 162f.) seria fonologicamente impecável. Essa raiz, usada para descrever a costa ‘dentada’ ou ‘semelhante a um pente’, já foi discutida em §2.9. Há ainda outra possibilidade teórica, baseada no PGmc. *kembōn– > *kimbōn– f. ‘crista’, que é o tema nasal feminino com ablaut pertencente ao PGmc. *kamba– ‘pente’ (EDPG: 287, 279; EWAhd 5: 360–362), a saber, o penteado. Mas, como já mencionado acima (§2.9), o PIE *ǵmbʰ-ró– > PGmc. *kumbra é semanticamente problemático, pois deveria ter significado ‘mordente’, enquanto o PIE *ǵembʰ-ro– > PGmc. *kembʰra > *kimbʰra– teria sido uma formação bastante excepcional. O PGmc. *kumbra ‘mordente’ só poderia fazer sentido como etnônimo numa formação PGmc. *kumbrīia ‘o mordente’, se fosse possível provar que houve uma mudança de significado para ‘os agressivos’ vel sim. Até agora, porém, não foi encontrada tal mudança semântica no germânico. Mas, supondo que uma conexão entre PGmc. *kamba– ‘pente’ e PGmc. *kumbra ainda pudesse ter sido percebida, queremos citar Tácito [Germania 38] sobre a importância do penteado para os Suebi: ¹² Agradecemos a Stefan Zimmer por chamar nossa atenção para esta interpretação de Bituriges. Straipsniai / Articles 41 HARALD BICHLMEIER, VÁCLAV BLAŽEK uma peculiaridade nacional entre eles é torcer o cabelo para trás, prendendo-o com um nó. Assim os suevos se distinguem dos demais germanos, e assim os homens livres entre os suevos se distinguem dos escravos. Entre outros povos, seja por alguma relação de parentesco com os suevos, seja, como ocorre com mais frequência, por imitação, isso é raro e limita-se ao período da juventude; entre os suevos, até a velhice, os cabelos desgrenhados são torcidos para trás e frequentemente presos no próprio alto da cabeça. Os príncipes os têm ainda mais adornados: tal cuidado com a aparência, porém, é inofensivo; pois, não para amar ou ser amados, mas para enfrentar as guerras com certa imponência e terror, enfeitam-se, de modo a apresentarem-se aos olhos dos inimigos. “Uma peculiaridade nacional entre eles é torcer o cabelo para trás e prendê-lo com um nó. Isso distingue os suevos dos demais germanos, assim como distingue os seus próprios homens livres dos escravos. Entre outras tribos, seja por alguma ligação com a raça sueva, seja, como acontece frequentemente, por imitação, a prática é ocasional e restringe-se à juventude. Os suevos, até que suas cabeças fiquem grisalhas, adotam o costume de puxar para trás suas madeixas desgrenhadas, que muitas vezes são atadas no próprio topo da cabeça. Os chefes têm um estilo mais elaborado; tanto cuidam da aparência, mas com perfeita inocência, sem quaisquer pensamentos de sedução; ao contrário, ao se prepararem para a batalha, adornam os cabelos para parecerem altos e terríveis, por assim dizer, para os olhos do inimigo”. Cornelius Tacitus: de Origine et Situ Germanorum Liber. – Opera Minora, ed. H. Furneaux, Oxford: Clarendon Press, 1900. Cornelius Tacitus: Germany and its Tribes. – Complete Works of Tacitus, traduzido por A. J. Church, W. J. Brodribb, New York: Random House, 1942. Outro exemplo do papel do penteado na etnonímia germânica é o nome da tribo vândala Hasdingi, etimologizável com a ajuda do ONor. haddr ‘cabelo da cabeça de mulher’, OE heord ‘cabelo’ (Schönfeld 1911: 129) 6.1.2. Composto: (iii) *(g)m-bʰor-/-bʰro-; (iv) *(g)m bʰ-bʰor-/-bʰro-. Já Laistner (1892: 31f.) propôs identificar o primeiro componente com a raiz IE *gem- ‘apertar, comprimir; agarrar’ (IEW: 368f.; LIV²: 186), cf. Gr. γέμω ‘estar cheio’, γέvτο ‘ele agarrou’. No germânico, esta raiz continua em duas variantes, *geme *gembʰ-: ONor. kumla ‘esmagar’, norueguês kumla ‘comprimir, amassar; formar um torrão’, kumsa ‘mistura’ vs. OE cimb(e) ‘união, junta’, ONor. kimbull ‘feixe’ (IEW: 368). 6.1.3. A derivação sufixal em –r– não é muito típica entre os etnônimos germânicos (por exemplo, Sugambri, Tungri), e por isso preferimos a variante em 6.1.2, na qual o segundo componente parece derivar-se do verbo IE *bʰer- ‘carregar, levar, trazer’ (IEW: 128–132; LIV²: 76f.; cf. PGmc. *beranan ‘sustentar, carregar; dar à luz’ [EDPG: 59]). Um uso análogo do verbo *bʰer pode ser demonstrado, por exemplo, no composto *oi-bʰró- > PGmc. *aibra- > OHG eibar, eiver ‘afiado, amargo; intenso, terrível’, OE āfor ‘veemente, odioso’ (EWAh 2: 969f.; NIL: 16). 42 Acta Linguistica Lithuanica LXXXIII Cimbri et Teutoni Um composto constituído pelos continuantes das raízes IE *gem– + *bʰer–, PGmc. *kem(b)-/*kum(b)- + *bʰer–, permite-nos propor várias interpretações semânticas: ‘conjunto portador’, ‘união portadora’ ou ‘nascido em assembleia’, ‘nascido em união’ vel sim. 6.2. PGmc. *peu̯da–/*peu̯dō–, juntamente com os seus cognatos bálticos, itálicos e célticos, é derivável do PIE tardio *teuto–/*teutā–, introduzido acima (§3.2.). Se os continuantes de *teuto– fossem neutros, parece natural interpretar a forma *teutā– < *teuteh₂– como o coletivo pl.ntr. =. Provavelmente, a lista mais exaustiva de tentativas etimológicas foi compilada em EWAnd 2: 687f. 6.2.1. A etimologia mais frequente, repetida na maioria dos manuais desde Fick (1890: 61), deriva a palavra da raiz PIE *teuh₂– ‘schwellen, stark werden’ (IEW: 1080f.; LIV²: 639f.). 6.2.2. Beekes (1998: 461–465) rejeitou a derivação da raiz PIE *teuh₂– ‘schwellen, stark werden’ por razões tanto acentológicas¹³ quanto semânticas (não motivada, segundo ele), lançando dúvidas sobre a origem indo-europeia de *teutā em geral e propondo a sua adoção de algum substrato hipotético, identificado com a camada da hidronímia ‘europeia antiga’ já por Hans Krahe. Embora Krahe não tivesse dúvidas quanto à filiação indo-europeia dos hidrônimos ‘europeus antigos’, Beekes definiu explicitamente tanto esses hidrônimos quanto o lexema *teutā como não indo-europeus. 6.2.3. McCone (1987: 103, 111, 115f.) ofereceu uma nova solução, baseada no verbo continuado em Lat. tueor / tuor, inf. tuērī & tuī ‘olhar para, vigiar’, ppp. tuitum & tū̆tum, contuērī & contuī ‘olhar, ver’, com derivados nominais como tūtus ‘seguro, protegido’, tūtor ‘guardião’, tūtēla ‘tutela, proteção’, Tūtānus ‘divindade que oferece proteção’, Tūtīlīna ‘deusa que oferece proteção’. Ele derivou *teutā da raiz anit *teu– e interpretou-a como o coletivo *‘Dienerschaft [des Königs]’. É possível concordar com esta identificação gramatical, pois tal motivação semântica representaria mais provavelmente a organização feudal da sociedade naquela época do que na época da unidade ‘europeia antiga’. Em todo caso, McCone iniciou a questão de saber se a raiz era anit ou set. Kümmel (LIV²: 639) reconstruiu a laríngea final da raiz com base no latim tūtus ‘seguro, protegido’. De Vaan (EDIL: 632f.) aceitou a explicação de -ū– proveniente de 13 Beekes (1998: 463) mencionou que, no báltico, a perda da laríngea deveria refletir-se como entoação circunflexa, isto é, *teuh₂ > báltico *teutā, e o ditongo au era incompreensível. Parece necessário recordar que existem realmente formas bálticas com o circunflexo esperado, nomeadamente lituano taũtinti ‘dar caráter nacional’, taũsti ‘tornar-se apóstata da sua identidade étnica’, aptaũtėlis ‘anão’; letão dial. (Raipole) taũta, ‘tipo, espécie; parentesco, povo, nação’ (ver acima). Straipsniai / Articles 43 HARALD BICHLMEIER, VÁCLAV BLAŽEK do ditongo *-euou *-ou numa sílaba não inicial. O elevado número de prefixos produtivos permite aceitar esta solução como uma alternativa real. 6.2.4. Referindo-se a Trier (1942: 239), de Vries (AnEW: 613) também rejeitou a etimologia ‘forte’ (§6.2.1.) e preferiu o ponto de partida semântico baseado no significado primário ‘Gemeinschaft’. No seu lema pjóđ ‘povo’, aludiu ao nórdico antigo þýđr ‘bondoso, afetuoso, amável’, þýđa ‘amizade’. Estas formas estão relacionadas com o inglês antigo geđiede ‘bom, decente’, saxão antigo gi-thiudo adv. ‘de maneira apropriada’, neerlandês médio ge-diede ‘prestável, benevolente’ (*peuđia-), além do verbo factitivo derivado atestado no gótico þiupjan ‘abençoar, declarar bom’, nórdico antigo þýđa ‘conquistar, fazer amizade com’, inglês antigo geđiedan ‘juntar, conectar, associar’ (*peuđianan). Naturalmente, estas extensões em *-ia não podem ser a fonte de PGerm. *peuđō-. Há mais formas primárias no gótico þiup n. ‘τὸ ἀγαθόν’, isto é, ‘o bem’ (*peuba-), por exemplo em þiup taujan ‘fazer o bem’, além dos derivados ampliados þiuþeins ‘bondade, generosidade’, þiuþeigs ‘bom, justo, perfeito; abençoado, louvado’ (Feist 1939: 498; GED: 362f.; EDPG: 539), e o OHG rúnico (isto é, talvez turíngio?) þiup (*peuþi-), que aparece na fórmula þiup:ida:x(x?)exxxxa:hahwar ‘Bom, Ida!... Hahwar.’ Este texto foi escrito na conta de âmbar encontrada num cemitério (Nordfriedhof) em Weimar. É datado de 550 d.C. (Nedoma 2004: 313f.). O cognato não germânico mais próximo encontra-se no bretão antigo tū ‘bom, favorável;?mago’, bretão médio astut ‘miserável, infeliz, insignificante’ < *estut < *eks-teuto-; cf. também galês médio Morgan(t) Tut ‘médico-chefe da corte de Artur’ (Fleuriot 1964: 325; EDPG: 539). Esta etimologia ‘amigável’ pode ser apoiada pelas etimologias dos outros etnônimos. Um dos etnônimos mais frequentes da Europa, Veneti etc. (ver Krahe 1942: 137), foi projetado na protoforma *uenHetoi, que foi derivada do verbo *uenH- ‘conquistar o afeto’ (IEW: 1146f.; LIV²: 682f.). Os continuantes mais convincentes aparecem novamente nas línguas célticas e germânicas: Germânico *ueni- ‘amigo’ > nórdico antigo vinr; inglês antigo, frísio antigo wine, saxão antigo, alto-alemão antigo wini ‘id.’ (EDPG: 579). Céltico *ueniā > irlandês antigo fine f. ‘família’; bretão antigo guen-ceil gl. ‘cognationem’, coguenou gl. ‘indigena’, bretão médio gouen(n), bretão goenn f. ‘raça, espécie’; lepôntico Uenia (Fleuriot 1964: 112, 188; Lejeune 1971: 429; EDPC: 413). No onomástico gaulês há muitos nomes próprios com o componente *ueni-, que pode ser interpretado como ‘membro do clã’, por exemplo Ueni-carus, Ueni-clutius, Ueni-lati, Ueni-marus etc. Muito interessante é o composto Οὐενι-τουτα [G–106]. Este significado é apoiado pela inscrição galo-grega de Vallauris [G–279] ουενικοι μεδου ‘ceux du clan pour Medos’ (DLG³: 313). É legítimo perguntar se existem cognatos do isoglosso céltico-germânico *teuto- ‘bom, amigável’, naturalmente, além do lat. bastante remoto tueor. Neumann (apud HEG 44 Acta Linguistica Lithuanica LXXXIII Cimbri et Teutoni T–466) identificou-o no verbo hitita tušk(ie/a)-zi ‘ser feliz, divertir-se, brincar’, tuškari- ‘felicidade’, tuškaratte duškatar / duškarann- ‘id.’, dušgarau̯ant- ‘feliz, contente’, se for analisado como contendo a raiz *teu ampliada pelo sufixo ške/o. Kloekhorst (EDHIL: 901f.), que documentou as formas citadas, expressou dúvidas sobre a etimologia de Neumann, mas sem apresentar qualquer contra-argumento. Por outro lado, o próprio Kloekhorst (EDHIL: 365) aceitou a derivação do verbo hitita hušk/a-zi ‘esperar por, demorar’ da raiz *h₂eu- ‘ver’, mais o mesmo sufixo ške/o. A continuação da raiz *teu sem qualquer extensão sufixal foi identificada por Aixenval’d, Bajun, Ivanov (1987: 122) no verbo hitita reduplicado duddu- ‘tratar com benevolência’. Mencionemos que Georgiev (1966: 36) relacionou diretamente o hitita duddu com tuzzi- ‘exército’ etc. e o gótico piuda ‘povo’. Em suma, temos à nossa disposição o verbo primário *teu- ‘ser bondoso’, confirmando a etimologia ‘amistosa’ do termo *teutā-. 7. CONCLUSÃO Ambos os etnônimos aqui discutidos, Teutoni & Cimbri, são analisados como formações puramente germânicas. Esses nomes são formados a partir de palavras de significado mais ou menos idêntico, ‘tribo’, e, portanto, podem referir-se a uma única e mesma tribo. Contudo, o significado ‘chefe tribal’ da extensão nasal PGmc. *peudanā-, que provavelmente está no início do etnônimo Teutoni / Teutones, poderia ser parte de um sintagma constituído por ambos os etnônimos, *peudanōz kumbrijōn ‘chefes de tribos’. Essa solução também implicaria que, na realidade, Teutoni & Cimbri representavam apenas uma tribo14 ou uma união tribal, talvez ocupando uma posição de liderança entre outras tribos. 8. PÓS-ESCRITO Morgenstierne (1942: 266) e Szemerényi (1962: 195, fn. 107) ampliaram os termos comparativos para os seguintes correspondentes iranianos hipotéticos: persa toda ‘monte; meda, pilha; outeiro, túmulo; o alvo ou marca contra o qual se atiram flechas’, tod (por toda) ‘colina; topo, cume; monte; corcova de camelo’ (Steingass 1892: 334) e sogdiano: budista twδ’k, cristão twdy, maniqueísta twδyh, ‘monte’, 14 Em 113 a.C. ocorreu em Nórico o primeiro conflito militar historicamente documentado entre os romanos, liderados por Gnaeus Carbo, e os germanos, representados apenas pelos Cimbri [Strabo 5.1.8; Tacitus, Germania 37]. Deve ser considerado bastante improvável que os romanos fossem capazes de reconhecer diferentes tribos germânicas desde o primeiro momento. Straipsniai / Articles 45 HARALD BICHLMEIER, VÁCLAV BLAŽEK ‘massa’ (Gharib 1995: n. 9705). Aceitando nossa etimologia ‘amistosa’ de *teutā, parece impossível relacioná-las. Por outro lado, essas formas iranianas poderiam estar relacionadas ao orônimo no avéstico jovem Tuḍaska- ‘nome de uma montanha ou cordilheira’ [Yt. 19.2.. 4.] (Bartholomae 1904: 655). AGRADECIMENTO O artigo teve origem com o apoio do Fundo de Pesquisa n.º 2817 da Universidade Masaryk, em Brno. Agradecemos a John Bengtson pela correção do inglês. Gostaríamos de expressar nossos agradecimentos aos estudiosos que nos enviaram seus comentários, acréscimos e observações críticas, a saber, Robert Nedoma e Stefan Zimmer. Permanecemos responsáveis por todos os erros. ABREVIATURAS acc. – acusativo Akk. – acadiano Alb. – albanês Alph. Ugar. – ugarítico alfabético Blr. – bielorrusso Bret. – bretão Bulg. – búlgaro Corn. – córnico CS – eslavo eclesiástico CSlav. – eslavo comum Cz. – tcheco Dac. – dácia Dan. – dinamarquês Du. – holandês E – inglês Faer. – feroês G – alemão Gaul. – gaulês gen. – genitivo Goth. – gótico Gr. – grego Hebr. – hebraico Hitt. – hitita Hung. – húngaro Icel. – islandês inf. – infinitivo Lat. – latim Latv. – letão Lith. – lituano Mac. – macedônio Marruc. – marrucino MBret. – bretão médio MDu. – neerlandês médio Mess. – messápico MGr. – grego médio MHG – alto alemão médio MLG – baixo alemão médio MWelsh – galês médio NBret. – bretão novo NFris. – frísio setentrional Norw. – norueguês OBret. – bretão antigo OCS – eslavônico eclesiástico antigo OCz. – tcheco antigo OE – inglês antigo OFris. – frísio antigo OHG – alto alemão antigo OIcel. – islandês antigo OIr. – irlandês antigo OLF – baixo-frâncico antigo OLith. – lituano antigo ONor. – nórdico antigo OPruss. – prussiano antigo ORuss. – russo antigo 46 Acta Linguistica Lithuanica LXXXIII Cimbri et Teutoni OSax. – saxão antigo OSerb. – sérvio antigo PGmc. – proto-germânico Phoen. – fenício PIE – protoindo-europeu pl. – plural Pol. – polonês ppp. – particípio perfeito passivo PSl. – protoslavônico Rom. – romeno Russ. – russo SCr. – servo-croata Serb. – sérvio sg. – singular Syll. Ugar. – ugarítico silábico Slk. – eslovaco Sln. – esloveno SPic. – piceno meridional Swed. – sueco Ukr. – ucraniano Umb. – úmbrio USorb. – sorábio superior Ven. – vêneto REFERENCES ACS – Holder Alfred 1896–1907: Alt-celtischer Sprachschatz, 3 vols, Leipzig: Teubner. AhdS – Althochdeutscher Sprachschatz oder Wörterbuch der althochdeutschen Sprache, Vierter Theil (Gutturale), etymologisch und grammatisch bearbeitet von Dr. E. G. Graff, Berlin: Nikolai, 1838. Aixenvāld Aleksandra Ju., Bajun Lilija S., Ivanov Vjačeslav V. 1987: Materialy k rekonstrukcii kul’turno-istoričeskogo processa v drevnej Maloj Azii (II). – Issledovanija po épigrafike i jazykam drevnej Anatolii, Kipra i antičnogo severnogo Pričernomor’ja, eds. L. S. Bajun, V. P. Jajlenko, Moskva: Akademija nauk SSSR – Institut vseobščej istorii, 106–191. ALEW – Altlitauisches etymologisches Wörterbuch, Vol. 1 (A–M), Vol. 2 (N–Ž), unter der Leitung von Wolfgang Hock und der Mitarbeit von E. J. Bukevičiūtė und Ch. 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Band VI: mâda – pūzza, Hrsgg. von Rosemarie Lühr, erarbeitet von Harald Bichlmeier, Maria Kozianka, Roland Schuhmann und Laura Sturm, Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2017. Band VII: quaderna – skazzôn, Hrsgg. von Rosemarie Lühr, erarbeitet von Dagmar S. Wodtko (Arbeitsstellenleitung), Harald Bichlmeier, Maria Kozianka und Roland Schuhmann, Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2020. [im Druck] EWU – Benkő Loránd et al. 1994: Etymologisches Wörterbuch des Ungarischen, I–II, Budapest: Akadémiai Kiadó. Feist Sigmund 1939: Vergleichendes Wörterbuch der gotischen Sprache. Mit Einschluß des Krimgotischen und sonstiger zerstreuter Überreste des Gotischen, 3. neubearbeitete und vermehrte Auflage, Leiden: Brill. Fick August 1890: Wörterbuch der Indogermanischen Sprachen. Erster Theil: Wortschatz der Grundsprache, der Arischen und der Westeuropäischen Spracheinheit, Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht. Fleuriot Léon 1964: Dictionnaire des glosses en vieux breton, Paris: Klincksieck. 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Kimbrai ir teutonai SANTRAUKA Straipsnyje nagrinėjami du germanų etnonimai kimbrai (Cimbri) ir teutonai (Teutoni), kurie senuosiuose šaltiniuose dažnai vartojami kartu. Išsamiai aptarus jau esamas etimologijas, pateikiamas naujas sprendimas – sintagma *peudanōz kumbrijōn interpretuotina kaip „genčių vadai“. Tokiu atveju abu etnonimai būtų susiję su ta pačia gentimi arba genčių sąjunga. Įteikta 2020 m. spalio 4 d. HARALD BICHLMEIER Sächsische Akademie der Wissenschaften zu Leipzig Arbeitsstelle Jena: Etymologisches Wörterbuch des Althochdeutschen Zwätzengasse 12a D–07743 Jena [email protected] VÁCLAV BLAŽEK Ústav jazykovědy a baltistiky Filozofická fakulta Masarykovy University A. Nováka 1, CZ–60200 Brno [email protected] 54 Acta Linguistica Lithuanica LXXXIII