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Resumo O presente estudo propõe-se a analisar a forma como Clarice Lispector desenvolveu sua reflexão sobre a condição da mulher através da escrita literária e jornalística. Apesar de ter constantemente rejeitado o rótulo de feminista, o conjunto da obra da escritora brasileira parece traçar um percurso de libertação dos padrões sociais: uma aprendizagem do “ser mulher” que prescinde de qualquer conceito de gênero. Referindo-se principalmente às reflexões de Judith Butler e de Pierre Bourdieu, tal aspecto será aprofundado através da analise das páginas femininas, publicadas sob pseudônimos entre os anos 50 e 60, e o romance Uma aprendizagem ou Livro dos prazers; textos muitos diferentes entre si, mas que oferecem interessantes perspectivas em relação ao “ser mulher” segundo Clarice Lispector. Palavras-chave Clarice Lispector; literatura e jornalismo; páginas femininas; Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Abstract This study aims to analyse the way in which Clarice Lispector developed her reflection on the condition of women through literary and journalistic writing. Although she has constantly rejected the label of feminist, the works of the Brazilian writer seems to trace a path of liberation from social standards: an apprenticeship of “being a woman” that dispenses with any concept of gender. Referring mainly to the reflections of Judith Butler and Pierre Bourdieu, this aspect will be deepened through the analysis of the “women’s pages” published under pseudonyms between the 50s and the 60s, and the novel An apprenticeship or the book of pleasures; texts that are very different from each other but that offer interesting perspectives on “being a woman” according to Clarice Lispector. Keywords Clarice Lispector; literature and journalism; women’s pages; An apprenticeship or the book of pleasures. BEING A WOMAN ACCORDING TO CLARICE LISPECTOR: AN APPRENTICESHIP BETWEEN JOURNALISM AND LITERATURE Referencia: De Crescenzo, L. (2021). Ser mulher segundo Clarice Lispector: uma aprendizagem entre jornalismo e literatura. Cultura Latinoamericana, 34(2), pp. 192-209. DOI: http://dx.doi.org/10.14718/CulturaLatinoam.2021.34.2.8
193 SER MULHER SEGUNDO CLARICE LISPECTOR: UMA APRENDIZAGEM ENTRE JORNALISMO E LITERATURA Luigia De Crescenzo * Università degli Studi Roma Tre DOI: http://dx.doi.org/10.14718/CulturaLatinoam.2021.34.2.8 No mês de setembro de 1941, quando era ainda uma estudante da Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro, Clarice Lispector publicou na revista universitária, A Época, a enquete Deve a mulher trabalhar?. Através dos depoimentos dos colegas de curso, a estudante de direito apresenta as razões a favor ou contra a complexa questão do papel da mulher na sociedade coeva e das mudanças que estavam ocorrendo sobretudo no âmbito do trabalho e da educação feminina. A jovem Clarice não declara explicitamente sua posição, mas coloca a questão «no sábio e prudente meio termo» (Lispector, 2012, p. 72) não oferecendo respostas e abrindo um espaço de reflexão sobre a realidade social da época, como se pode observar no seguinte trecho: Tornou-se velho o problema da mulher, embora date apenas da Grande Guerra, tanto foi ele visado e estudado. Deve ou não deve ela estender suas atividades pelos vários setores sociais? Deve, ou não, voltar suas vistas também para fora do lar? De um lado – apresenta-se-nos ela seguindo apenas seu eterno destino biológico, e de outro – a nova mulher, escolhendo livremente seu caminho. * Doutora em Estudos Euro-Americanos pela Universidade Roma Tre e pesquisadora de Literatura Portuguesa e Brasileira no Departamento de Línguas, Literatura e Culturas Estrangeiras da mesma universidade. Os seus estudos concentram-se principalmente no âmbito da literatura portuguesa e brasileira dos séculos XIX e XX, com particular referência à literatura feminina. É autora de vários ensaios e artigos científicos entre os quais a monografia Clarice Lispector. Corpi disciplinati, corpi (dis)obbedienti (Roma, Nova Delphi Academia, 2019).E-mail: luigia.decrescenzo @uniroma3.it Este artigo faz parte de um projeto da Università degli Studi Roma Tre. Fecha de recepción: 28 de agosto de 2021; fecha de aceptación: 20 de septiembre de 2021.
194 Cultura Latinoam. Volumen 34, número 2, julio-diciembre 2021, pp. 192-209 LUIGIA DE CRESCENZO De um lado, a casa, compreendendo filhos e marido, exigindo abnegação constante. De outro, a evolução dos costumes e dos ideais, lançando-a no conhecimento de si mesma e de suas possibilidades. (Lispector, 2012, p. 71) Embora a jovem estudante não tome partido, suas palavras parecem questionar, de forma indireta, os valores tradicionais que atribuíam à mulher o papel exclusivo de esposa e mãe, enfatizando a importância da evolução dos costumes e dos ideais para que a mulher pudesse ser mais livre e desenvolver a própria autoconsciência. Ao comparar a imagem da nova mulher àquela ligada a uma conceção mais conservadora, Clarice dá sutilmente a entender sua opinião, esboçando, de certo modo, aquele peculiar «procedimento da dissimulação» (Gotlib, 2013, p. 343) que constituirá um elemento essencial das narrativas da futura escritora. Dessa forma, o texto publicado em A Época constitui uma interessante premissa para analisar a forma como Clarice desenvolveu sua reflexão sobre a condição da mulher através da escrita literária e jornalística; nesse sentido, é importante salientar que a perspectiva clariceana nunca assumiu um caráter ideológico nem se tornou numa posição declaradamente feminista, mas contestava a ótica hierarquizante e a univocidade do modelo patriarcal propondo o reconhecimento da alteridade e da multiplicidade de ser mulher através da construção de um caleidoscópico universo feminino. Como afirma Lucia Helena: A obra de Lispector – ao falar sobre a condição da mulher e ao inscrevê-la como sujeito da estória e da história – não se limita à postura representacional de espelhar tal qual o mundo patriarcal e denunciá-lo, como se fora uma narrativa de extração neonaturalista. Nela se constrói, isto sim, um campo de meditação (e de mediação) em que se mergulha fundo no questionamento das relações entre a literatura, a realidade e a sociedade (Helena, 2010, p. 96). Nos seus textos, Clarice não denuncia abertamente a situação de opressão e subordinação das mulheres na sociedade, nem delineia uma imagem feminina estática e fixa; pelo contrário, através do jornalismo e da literatura, a autora de Perto do Coração Selvagem traça um caminho de evolução que leva suas personagens – e, num certo sentido, ela mesma – a pôr em causa os preconceitos e os vínculos que condicionam suas existências. Nos textos de Clarice Lispector, as circunstâncias externas representam meros aspectos factuais de uma realidade mais complexa e difícil a ser captada pela lógica e pela
195 SER MULHER SEGUNDO CLARICE LISPECTOR: UMA APRENDIZAGEM ENTRE JORNALISMO E LITERATURA linguagem humana pois não se trata simplesmente de mimese ou de um «espelhamento ‘selvagem’ […] entre autoria feminina e feminismo» (Helena, 2010, p. 95), mas sim da configuração de um espaço de reinterpretação dos padrões sociais e de busca de uma dimensão mais autêntica do ser para além do ideal de gênero concebido como construção social. De acordo com Luce Irigaray, de facto: Qualquer teoria do “sujeito” é sempre considerada apropriada para o “masculino”. Ao sujeitar-se a ela, a mulher renuncia inconscientemente à especificidade de sua relação com o imaginário. Em outras palavras, ela se coloca na situação de ser objetificada – como “feminino” - pelo discurso. Ela mesma então se re-objetifica quando afirma identificar-se “como” um sujeito masculino. […] A subjetividade negada à mulher, esta é sem dúvida a hipoteca com a qual toda constituição irredutível do objeto é garantida: o objeto da representação, do discurso, do desejo. (Irigaray, 2010, p. 129)1 Como já observamos, no caso de Clarice Lispector não se pode falar de um engajamento feminista stricto sensu, todavia, sua escrita parece delinear uma trajetória de ressignificação do lugar simbólico do sujeito feminino prescindindo das oposições e do binarismo estabelecidos cultural e socialmente. Nesse sentido, as figuras femininas que habitam a ficção e, mais em geral, a escrita clariceana parecem encarnar os vários estágios de um processo de “aprendizagem” do ser no mundo que entrecruza vida e arte, literatura e jornalismo, ultrapassando a demarcação entre qualquer gênero e confluindo na profunda reflexão existencial e expressiva da autora. As palavras “masculinas” através das quais é definido culturalmente o sujeito feminino não permitem – segundo afirma também Irigaray – o reconhecimento de sua individualidade e negam a possibilidade de sua afirmação fora dos padrões patriarcais, constituindo, na perspectiva clariceana, um obstáculo àquela tentativa, tematizada sobretudo na sua produção literária, de «sair do inautêntico para iniciar a busca de si mesmos» (Nunes, 2009, p. 126). A reflexão sobre a condição feminina conjuga- -se, portanto, à incessante busca expressiva de Clarice ao questionar a relação entre linguagem e realidade, palavra e coisa, pois na obra da escritora, como afirma Benedito Nunes (2009, p. 126), «a linguagem […] envolve o próprio objeto da narrativa, abrangendo o problema da existência, como problema da expressão e da comunicação». 1. O trecho foi citado da edição italiana. A tradução para o português é da autora do artigo.
196 Cultura Latinoam. Volumen 34, número 2, julio-diciembre 2021, pp. 192-209 LUIGIA DE CRESCENZO A questão da linguagem constitui, de facto, o cerne de uma escrita que problematiza a capacidade das palavras e, por conseguinte, da literatura de captar o sentido autêntico da existência, pois, de acordo com Nunes (2009, p. 127), «à medida que falamos de nós mesmos, procurando expressar-nos, as palavras, dizendo de mais ou de menos, formam uma casca verbal, que circunda com seus significados o âmago da personalidade, acabando por se converter numa imagem provisória, porém inevitável, do nosso próprio ser». Ao tentar expressar o incognoscível da experiência humana, de facto, Clarice subverte as formas estabelecidas fazendo a linguagem dobrar-se sobre si mesma como se, em lugar de escrever o texto, o «desescrevesse, conseguindo um efeito mágico de refluxo da linguagem que deixa à mostra o “aquilo”, o inexpressado» (Nunes, 2009, p 132); este processo, definido por Benedito Nunes (2009, p. 132) «técnica de desgaste», parece esvaziar as palavras do sentidos convencionais rompendo aquela “casca verbal” que envolve a existência. O trabalho sobre a linguagem é, com efeito, uma constante na obra de Clarice que pode ser lida, segundo Nádia Battella Gotlib, como «a construção e o percurso em direção a uma libertação»2 através de uma escrita à procura de formas expressivas em contínua transformação; à reiteração de temas e motivos corresponde um movimento de renovação da linguagem que, ao estruturar uma nova perceção da realidade, desmistifica as convenções e os lugares comuns cristalizados na cultura e nas relações sociais. Nesse sentido, como sugere Vilma Arêas (2005, p. 15), «é como se Clarice tivesse escrito apenas um livro durante toda a vida», pois, sua reflexão existencial atravessa toda sua obra, configurando uma coerência temática através da fragmentação das formas e questionando o real e os limites de sua representação. Por isso, no presente estudo, a análise da configuração de um espaço de visibilidade para a mulher na obra clariceana não é limitada aos textos literários, mas segue “o percurso de libertação” traçado pela autora, de forma embrionária, já no texto publicado na revista universitária e nas páginas femininas (assinadas com pseudônimos), superando assim as dicotomias de (qualquer) gênero. É dessa forma que se pretende ressaltar, então, a força desestabilizadora da escrita de Clarice em relação ao sistema simbólico que atribui aos homens e às mulheres identidades conformadas com «padrões reconhecíveis de 2. Breve excerto da conferência apresentada durante o encontro Clarice Lispector: sopros de vida realizado no âmbito do programa Diálogos Necessários (30 de agosto de 2020). Vídeo na íntegra disponível na plataforma #CulturaEmCasa: https://culturaemcasa.com.br/video/nadia-batellagotlib-evando-nascimento-e-joao-cezar-de-castro-rocha-dialogos-necessarios/
197 SER MULHER SEGUNDO CLARICE LISPECTOR: UMA APRENDIZAGEM ENTRE JORNALISMO E LITERATURA inteligibilidade do gênero» (Butler, 2003, p. 37), pois, como explica Judith Butler: The symbolic is understood as the normative dimension of the constitution of the sexed subject within language. It consists in a series of demands, taboos, sanctions, injunctions, prohibitions, impossible idealizations, and threats — performative speech acts, as it were, that wield the power to produce the field of culturally viable sexual subjects: performative acts, in other words, with the power to produce or materialize subjectivating effects. (Butler, 1993, p. 106) Segundo Butler – na esteira da perspectiva filosófica de Michel Foucault – o sujeito sexuado é produzido a partir de uma rede de poder e saber que qualifica o “ser humano” (Cfr. Butler, 1993, p. 8) através da repetição de normas e práticas discursivas de gênero as quais, por sua vez, realizam as condições para que a subjetivação seja possível e inscrevem os corpos no âmbito da inteligibilidade social; portanto, a identidade de gênero não é preexistente à linguagem mas é construída por e a partir de práticas discursivas. Por isso, a filosofa associa o gênero ao conceito de performatividade, pois, a naturalização da norma deriva da repetição de uma série de atos que disciplinam as possíveis formas pelas quais a sexualidade se exprime, materializando nos corpos aquilo que nomeia. Nas palavras de Butler: “Sex” is always produced as a reiteration of hegemonic norms. This productive reiteration can be read as a kind of performativity. Discursive performativity appears to produce that which it names, to enact its own referent, to name and to do, to name and to make. Paradoxically, however, this productive capacity of discourse is derivative, a form of cultural iterability or rearticulation, a practice of resignification, not creation ex nihilo. Generally speaking, a performative function to produce that which it declares. As a discursive practice (performative “acts” must be repeated to become efficacious), performatives constitute a locus of discursive production. No “act” apart from a regularized and sanctioned practice can wield the power to produce that which it declares. Indeed, a performative act apart from a reiterated and, hence, sanctioned set of conventions can appear only as a vain effort to produce effects that it cannot possibly produce. (1993, p. 107) Baseada principalmente nas reflexões formuladas por J. L. Austin e J. Searle no âmbito da Speech Acts Theory, a performatividade de
198 Cultura Latinoam. Volumen 34, número 2, julio-diciembre 2021, pp. 192-209 LUIGIA DE CRESCENZO gênero implica a repetição ritualizada de atos – não apenas linguísticos – que produzem os efeitos que expressam, modelando específicas maneiras de ser em relação ao sexo. Como afirma Butler: «o gênero é a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura reguladora altamente rígida, a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância, de uma classe natural de ser» (Butler, 2003, p. 59). A identidade de gênero não é, então, a manifestação de uma essência biologicamente determinada ou, simplesmente, uma construção cultural, mas o produto da reiteração de atos e atitudes que definem os papéis e as caraterísticas dos dois sexos, estabilizando o binarismo e a hegemonia da norma masculina e heterossexista. A reprodução de padrões designados como masculino e feminino não é, naturalmente, um ato voluntário, mas é fruto da interiorização de discursos e práticas sociais por efeito das quais o indivíduo fica “preso” numa rede de imposições (nem sempre evidentes) que moldam sua conduta, gestos e ações, limitando inevitavelmente sua liberdade. Daí que essas particulares disposições ou habitus – segundo a definição de Pierre Bourdieu – funcionem como «matrizes das percepções, dos pensamentos e das ações de todos os membros da sociedade, como transcendentais históricos que, sendo universalmente partilhados, impõem-se a cada agente como transcendentes» (Bourdieu, 2012, p. 45), legitimando as relações de domínio e, por conseguinte, a assim chamada violência simbólica instituída, de acordo com o sociólogo francês: por intermédio da adesão que o dominado não pode deixar de conceder ao dominante (e, portanto, à dominação) quando ele não dispõe, para pensá-la e para se pensar, ou melhor, para pensar sua relação com ele, mais que de instrumentos de conhecimento que ambos têm em comum e que, não sendo mais que a forma incorporada da relação de dominação, fazem esta relação ser vista como natural; ou, em outros termos, quando os esquemas que ele põe em ação para se ver e se avaliar, ou para ver e avaliar os dominantes (elevado/baixo, masculino/feminino, branco/negro etc), resultam da incorporação de classificações, assim naturalizadas, de que seu ser social é produto. (Bourdieu, 2012, p. 47) Os habitus, masculinos e femininos, correspondem a uma construção simbólica do «mundo social e suas arbitrárias divisões» (Bourdieu, 2012, p. 17) indissoluvelmente ligada ao corpo e, em particular, às diferenças anatômica entre os sexos que estabelecem e, de certa forma, justificam as relações de dominação; no caso específico da
199 SER MULHER SEGUNDO CLARICE LISPECTOR: UMA APRENDIZAGEM ENTRE JORNALISMO E LITERATURA mulher, a experiência prática do corpo faz com que “o ser feminino” seja sempre um “ser-percebido”, pois, o corpo é «incessantemente exposto à objetivação operada pelo olhar e pelo discurso dos outros» (Bourdieu, 2012, p. 79). A dimensão corporal da mulher é, com efeito, objetificada por injunções e prescrições que são apreendidas, inconscientemente, «através de uma disciplina incessante, relativa a todas as partes do corpo» (Bourdieu, 2012, p. 38) e que estruturam formas de ser socialmente reconhecidas. Nesta perspectiva, esta adesão mimética, e involuntária, a um “modelo feminino” naturaliza a hierarquia entre os gêneros porque: A dominação masculina, que constitui as mulheres como objetos simbólicos, cujo ser (esse) é um ser-percebido (percipi), tem por efeito colocá-las em permanente estado de insegurança corporal, ou melhor, de dependência simbólica: elas existem primeiro pelo, e para, o olhar dos outros, ou seja, enquanto objetos receptivos, atraentes, disponíveis. Delas se espera que sejam “femininas”, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas. E a pretensa “feminilidade” muitas vezes não é mais que uma forma de aquiescência em relação às expectativas masculinas, reais ou supostas, principalmente em termos de engrandecimento do ego. Em conseqüência, a dependência em relação aos outros (e não só aos homens) tende a se tornar constitutiva de seu ser. (Bourdieu, 2012, p. 82) A dependência do olhar do outro torna-se, portanto, numa atitude introjetada pela mulher constituindo uma marca de sua posição subordinada dentro do discurso masculino, ou de sua exclusão de uma certa ordem do discurso. Nesse sentido, revela-se o esquema de coerções pelo qual atua a performatividade de gênero, pois, através da definição – ou denominação – do feminino, cria um sujeito socialmente inteligível, um “ser humano”, relegando na dimensão do abjeto os indivíduos que não correspondem aos padrões estabelecidos. É, justamente, a partir desse enquadramento teórico que o presente trabalho pretende interpretar alguns textos – literários e jornalísticos – de Clarice como uma reescrita subversiva das «ficções reguladoras que consolidam e naturalizam regimes de poder convergentes de opressão masculina e heterossexista» (Butler, 2003, p. 59); uma contranarrativa estilhaçada numa constelação de diferentes maneiras de ser mulher que aqui serão analisadas principalmente a partir da “apropriação” de um gênero estandardizado como as colunas femininas e também através da figura de
200 Cultura Latinoam. Volumen 34, número 2, julio-diciembre 2021, pp. 192-209 LUIGIA DE CRESCENZO Lóri, protagonista do romance Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (1969). Como observa Lucia Helena, de facto: sua narrativa processou a crítica da tecnologia de gender que urdiu as imagens da terra-mãe e da mulher confinada aos limites do lar e da família, mas também confinada aos poderosos limites da própria incapacidade de descentrar-se dos símbolos internalizados. Ao destabilizar os estereótipos de gender e as formas de articulação do poder, instalados pelo patriarcado, Lispector também rasura as bases do essencialismo. (Helena, 2010, p. 93) Embora Clarice Lispector não se considerasse uma jornalista, por um longo período de sua vida, colaborou, de várias formas, com jornais e revistas brasileiras, produzindo um vasto e diversificado repertório de textos. A relação de Clarice com a imprensa foi um tanto controversa: por um lado, constituía um obstáculo ao desejo da escritora de dedicar-se exclusivamente à literatura, mas por outro, serviu de apoio à sua produção literária. O contato com o jornalismo acompanhou e até antecedeu sua carreira literária e foi justamente através de periódicos e revistas que Lispector conseguiu transmitir seus textos literários a um público mais amplo de leitores e, de certa forma, superar a relutância a publicar suas obras manifestada por algumas editoras. A atuação de Clarice na imprensa começou, em 1940, com a publicação do conto Triunfo no semanário Pan, seguido por outras publicações em jornais e revistas como o periódico literário Dom Casmurro e o jornal Diário do Povo. No início dos anos 40, foi contratada como repórter pela Agência Nacional, órgão do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) do governo Getúlio Vargas e, no mesmo período, colaborou com A Época, revista da Faculdade Nacional de Direito, publicando os artigos Observações sobre o fundamento do direito de punir e Deve a mulher trabalhar?. Ao mesmo tempo, a jovem Clarice trabalhou com o grupo editorial A Noite, publicando contos, traduções, reportagens e entrevistas, inicialmente no semanário Vamos Ler! e depois no jornal A Noite. Numa época em que a maioria das mulheres ainda estava relegada ao papel de esposa e mãe, Clarice foi um exemplo de emancipação e independência feminina, tornando-se numa das primeiras mulheres a trabalhar como repórter no Brasil (Nunes, 2006, pp. 64-65). No âmbito da colaboração com A Noite, Lispector obteve o registro profissional de jornalista e, através do mesmo grupo editorial, conseguiu publicar seu primeiro romance, Perto do coração selvagem (1943), que
207 SER MULHER SEGUNDO CLARICE LISPECTOR: UMA APRENDIZAGEM ENTRE JORNALISMO E LITERATURA Vestiu um vestido mais ou menos novo, pronta que queria estar para encontrar algum homem, mas a coragem não vinha. Então, sem entender o que fazia – só o entendeu depois – pintou demais os olhos e demais a boca até que seu rosto branco de pó parecia uma máscara: ela estava pondo sobre si mesma alguém outro: esse alguém era fantasticamente desinibido, era vaidoso, tinha orgulho de si mesmo. Esse alguém era exatamente o que ela não era. (Lispector, 1998, p. 84) Esse outro é a máscara social que cobre suas feições e que a torna irreconhecível, mas é, também, Ulisses que guia sua aprendizagem do «sentido da existência individual» (Nunes, 1989, p. 81) para que Lóri seja preparada para uma completa união corporal. Como foi assinalado por alguns estudiosos, entre os quais Benedito Nunes e Vilma Arêas, o papel de Ulisses na narração parece de certa forma confirmar a superioridade da personagem masculina em relação àquela feminina, todavia, no romance se realiza também uma inversão desses papéis que estabelece um equilíbrio, neutralizando as diferenças entre os dois. Através do olhar de Ulisses, que não objetifica a mulher, e do encontro amoroso e físico, Lóri (des)apreende, efetivamente, a ser mulher segundo as expectativas dos outros tornando-se livre através dos prazeres do corpo; antes de amar Ulisses, ela apreende, de facto, a amar a si mesma, como revela este belíssimo e significativo trecho: Aí estava o mar, a mais ininteligível das existências não-humanas. E ali estava a mulher, de pé, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fizera um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornara-se o mais ininteligível dos seres onde circulava sangue. Ela e o mar. Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. Lóri olhava o mar, era o que podia fazer. Ele só lhe era delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da Terra. […] Seu corpo se consola de sua própria exiguidade em relação à vastidão do mar porque é a exiguidade do corpo que o permite tornar-se quente e delimitado, e o que a tornava pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias. Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio da madrugada. A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora, ela não tem o exemplo de outros humanos que
208 Cultura Latinoam. Volumen 34, número 2, julio-diciembre 2021, pp. 192-209 LUIGIA DE CRESCENZO transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização da Natureza. A coragem de Lóri é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir, e agir sem se conhecer exige coragem. (Lispector, 1998, pp. 78-79) O encontro entre duas naturezas diferentes anula, portanto, qualquer oposição, revelando numa «realização da Natureza» a ancestral união entre todos os entes e um profundo conhecimento de si mesma. Curiosamente, esta passagem foi publicada, em momentos diferentes, também no Jornal do Brasil: a primeira, em 1968, com o título Ritual – trecho e, sucessivamente, em 1973, com o título As águas do mar; não sendo propriamente uma crônica, este texto parece emblemático daquele procedimento de “subversão de gêneros” que permeia a escrita clariceana, entrelaçando literatura e jornalismo, vida e página escrita, pois, Clarice, ao tentar atingir o âmago dos sentimentos humanos «os inscreve na própria forma que procura testemunhá-los. Ela “performa”, como se diz; ela efetua em sua forma isso de que ela trata» (Prado Jr., 1989, p. 21), desenvolvendo uma profunda reflexão que desmancha qualquer saber codificado. É, portanto, no sentido da labilidade de gênero na escrita de Clarice Lispector que se focou a presente análise da reflexão da escritora em relação à questão feminina. Um assunto vasto e complexo que oferece muitas perspetivas a ser aprofundadas em outros estudos porque “ser mulher” segundo Clarice Lispector foi um processo em constante construção e que se renova a cada leitura de seus textos ficando, porém, indefinível, tal como sua obra: um «segredo ignorado por todos e até pelo espelho: mulher» (Lispector, 1999, p. 154). Referências Arêas, V. (2005). Clarice Lispector com a ponta dos dedos. São Paulo: Companhia das Letras. Bourdieu, P. (2012). A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Buitoni, D. Schroeder. (1990). A imprensa feminina. São Paulo: Ática Butler, J. (1993). Bodies That Matter. On the Discursive Limits of ”Sex”. New York & London: Routledge Butler, J. (2003). Problemas de Gênero. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
209 SER MULHER SEGUNDO CLARICE LISPECTOR: UMA APRENDIZAGEM ENTRE JORNALISMO E LITERATURA Friedan, B. (1971). Mística Feminina. Rio de Janeiro: Editora Vozes Limitada Gotlib, N. Battella (2013). Clarice: uma vida que se conta. São Paulo: Edusp. Helena, L. (2010). Nem musa, nem medusa: itinerários da escrita em Clarice Lispector. Niterói: EdUFF. Irigaray, L. (2010). Speculum. Dell’altro in quanto donna. Milano: Feltrinelli. Lispector, C. (1998). Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. Rio de Janeiro: Rocco Lispector, C. (1999). A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco Lispector, C (2006). Correio feminino. A. M. Nunes (Ed.). Rio de Janeiro: Rocco. Lispector, C. (2008). Só para mulheres: conselhos, receitas e segredos. A. M. Nunes (Ed.). Rio de Janeiro: Rocco. Lispector, C. (2012). Deve a mulher trabalhar?. In A. M. Nunes (Ed.), Clarice na cabeceira: jornalismo (pp. 71-74). Rio de Janeiro: Rocco. Nunes, A. M. (2006). Clarice Lispector Jornalista: Páginas femininas & Outras Páginas. São Paulo: senac. Nunes, A. M. (2019). O jornalismo feminino de Clarice Lispector: em busca do inesperado e da desordem. Journal of Lusophone Studies. 4 (2): Special dossier on Clarice Lispector’s Journalism, pp. 15-36. (https://jls.apsa.us/index.php/jls/article/view/333/354) Nunes, B. (1989). O drama da linguagem: uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Editora Ática. Nunes, B. (2009). O dorso do tigre. São Paulo: Editora 34. Prado Jr., P. W. ( maio 1989), O impronunciável. Notas sobre um fracasso sublime. In V. Arêas & B. Waldman (eds.). Remate de Males. 9, pp. 21-29. Campinas/SP & UNICAMP/Instituto de Estudos de Linguagem. (https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/ remate/article/view/8636558)