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Resumo A proposta que formulo neste artigo é uma reflexão sobre os métodos adotados numa mesma lógica colonizante tanto no Brasil quanto em Macau. Ao longo do texto, aproximo a caracterização social e a concepção de hibridez do que consideramos categorias estanques na Ciência da Linguagem. Como tentativa científica de incorporar a migração humana no contexto da superdiversidade linguística, evidenciamos alguns problemas advindos da adesão aos rótulos gerados ao longo do século XX na Linguística e trazemos uma concepção mais elástica de língua incluindo traços identitários nessa discussão, já que ser híbrido pode ser uma vantagem em alguns momentos e uma grande desvantagem em outros. Para este estudo, mobilizarei dois casos específicos: o do mameluco (índio e português → euroamericano) e o do macaense (chinês e português → euroasiático), filhos da terra e biculturais em essência. A partir deles, discutiremos os efeitos híbridos decorrentes da política colonizante. Palavras-chave Hibridez cultural, macaense, mameluco, cafuso. Abstract The proposal that I formulate in this research article is a reflection about methods adopted in the same colonizing logic both in Brazil and in Macau. Throughout the text, I bring social characterization and the concept of hybridity closer to what we consider to be watertight categories in the Science of Language. As a scientific attempt to incorporate human migration in the linguistic superdiversity context, we have highlighted some problems arising from adherence to labels generated over the 20th century in Linguistics and bring a more wider conception of language including identity traits in this discussion, since being hybrid can be an advantage in some moments and a losses in others. For this study, I will mobilize two specific cases: the mameluco (Indian and Portuguese → Euroamerican) and the Macanese (Chinese and Portuguese → Euroasian), children of the land and bicultural in essence. From them, we will discuss the hybrid effects resulting from the colonizing policy. Keywords Cultural hybridity, Macanese, Mameluco. Referencia: Lima-Hernandes, M. C. (2021). Escamoteamentos socioculturais e sociolinguísticos: políticas colonizantes e efeitos híbridos. Cultura Latinoamericana, 33(1), pp. 32-51. DOI: http:// dx.doi.org/10.14718/CulturaLatinoam.2021.33.1.3 SOCIOCULTURAL AND SOCIOLINGUISTIC SHIFTS: COLONISING POLITICS AND HYBRID EFFECTS
33 ESCAMOTEAMENTOS SOCIOCULTURAIS E SOCIOLINGUÍSTICOS: POLÍTICAS COLONIZANTES E EFEITOS HÍBRIDOS Maria Célia Lima-Hernandes * Universidade de São Paulo DOI: http://dx.doi.org/10.14718/CulturaLatinoam.2021.33.1.3 Introdução Este texto consubstancia-se como subsídio ao estudo das heranças socioculturais e sociolinguísticas em que está implicada a superdiversidade. Para cumprir esse objetivo, torna-se premente a retomada de alguns contextos específicos que justifiquem abarcar um mais amplo espectro nas definições sincrônicas. Invariavelmente, os estudos sobre heranças culturais, em especial focalizando as línguas em contato, pressupõem a existência de um contexto de línguas puras que se encontram por motivo de migração. Esse contexto, como terei oportunidade de demonstrar, não acolhe outras possibilidades de realidades implicados na histórica de contatos linguísticos no Brasil e em Macau. Essa é a razão por que isolei dois enquadramentos distantes geograficamente, o do herdeiro de língua asiática (Macau, hoje RAEM, China) —que desconhecia uma de suas línguas de herança— e o herdeiro de língua brasileira (Bahia, Brasil) que desconhecia a história de sua família, com implicações para o sobrenome familiar. Demonstrarei que outras razões e contextos podem matizar o processo que tem * Doutora em Linguística (Unicamp), Mestre em Neurociências (Universidad Europea Miguel de Cervantes), Mestre em Filologia e Língua Portuguesa (USP). Professora Titular da Universidade de São Paulo e pesquisadora de Línguas em extinção, línguas de herança e línguas de raiz em seus aspectos sociocognitivos no Grupo de Pesquisa Linguagem e Cognição (LinC-USP). Contato: [email protected] O presente artigo é resultado de pesquisa realizada na China como pesquisadora financiada, em várias etapas, pela CAPES, CNPq e FAPESP. Fecha de recepción: 15 de enero de 2021; fecha de aceptación: 20 de febrero de 2021.
34 Cultura Latinoam. Volumen 33, número 1, enero-junio 2021, pp. 32-51 MARIA CÉLIA LIMA-HERNANDES sido mais geralmente aceito para o emprego do rótulo, especialmente se considerarmos a superdiversidade implicada em cada geografia tendo em vista as dinâmicas humanas (Vertovec, 2007). Hibridez e dinâmicas na sociedade e na Ciência Vários são os fatores que desembocam no que entendemos por superdiversidade. Na concepção de Vertovec (2007), surge a ideia de que as ciências precisam avançar nessa questão, revisando a forma de olhar para os fluxos migratórios líquidos, pois, a depender dos países envolvidos, das línguas maternas implicadas, das religiões em contato, dos canais de migração e do estatuto da imigração, os resultados e efeitos podem ser diferentes. Essas ideias do autor sugerem a verificação dos quadros históricos de colonização e o jargão técnico emanado desse contexto. Tendo isso em mente, definir Línguas de Herança (LH) tem sido já muito menos dramático para o campo de pesquisas linguistas, pois esses estudiosos já tiveram um enorme impacto de estudos sincrônicos que passaram a ganhar identidade própria, saída dos estudos da Linguística Aplicada voltados para o estudo de L2 ou —como considero preferível— de línguas adicionais. Com o passar do tempo, outros contextos de contato linguístico passaram a ser discutidos, tendo em vista a rica experiência de variados pesquisadores (Sartin, 2016; Moroni, 2017; Winterle-Jennings & Lima-Hernandes, 2015; Gonçalves & Melo-Pfeifer, 2020), e isso propiciou que um novo debate se instaurasse com questões bem interessantes, tais como aquelas relativas à motivação da dinâmica empreendida pelo indivíduo: o contexto da imigração voluntária seria o único a permitir identificar as LHs? As respostas ainda têm sido formuladas por meio de estudos pontuais de contextos híbridos em toda parte do mundo envolvendo línguas em contexto variado de contato (Weiwei & Shin, 2020; Kim, 2020; Wilkinson & Wong, 2021; Fahik, Ratminingsih & Adyani, 2021; Comiotto, Mota & Soares, 2020; Calossa & Flores, 2020; Bi, 2013; Mendonça, 2015; Kuhlmann, 2018; Lima-Hernandes, 2009; Lima-Hernandes & Teixeira e Silva, 2019; Spaziani, 2016; Teixeira e Silva & Lima-Hernandes, 2012, 2014, 2020; dentre outros) e adicionalmente elas revelam a superdiversidade implicada em cada paisagem linguística, ainda que paisagens outras surjam embutidas nessas paisagens primariamente vislumbradas.
35 ESCAMOTEAMENTOS SOCIOCULTURAIS E SOCIOLINGUÍSTICOS: POLÍTICAS COLONIZANTES EFEITOS HÍBRIDOS O que estou afirmando é que, independentemente do contexto colonizatório, já havia no Brasil e em Macau uma superdiversidade que poderia ser medida por parâmetros que fogem à Sociolinguística moderna. Assim como em Londres —contexto de discussão de Vertovec (2007)—, no Brasil, é possível repensar esse modelo teórico para, assim, alcançar a diversificação da diversidade. Embora pareça um tanto pleonástica a referência, a lógica dos estudos sociolinguísticos ao longo do século XX foram consolidando algumas variáveis priorizadas e exportadas por estudos norte-americanos, principalmente. No Brasil, o fator classe social é muito mais complexo do que se pode supor. Isso não significa reparar que há várias etnias e estamentos sociais guiados pela produção de riqueza. Sequer estou adicionando o fator da imigração ao longo dos séculos para lidar com o componente étnico, ou seja, não quer dizer que haja somente mais países de origem envolvidos na questão. A pretensão é provocar o exercício de reconhecimento de uma realidade em que age uma multiplicação de variáveis significativas que afetam onde, como e com quem as pessoas convivem, mesmo porque variados problemas advêm do fato de que nem sempre a identidade de grupo é aceita pelos próprios membros da comunidade restrita procurada pelo pesquisador: alguns têm o desejo de serem vistos como membros do grupo majoritário, tornando-se uma espécie de camaleão; outros rejeitam o grupo majoritário e dele se afastam, apegando-se mais fortemente aos traços de origem. Os primeiros são capazes de adentrar os dois espaços linguísticos e, por razões muito mais étnicas do que de fluência global na língua, migram de um para outro espaço com relativa aceitação e funcionalidade. Os últimos convivem apartados da cultura local, ainda que tenham boa fluência na língua majoritária. São casos atípicos que envolvem mais do que geografia e sociocultural. Envolve mais radicalmente conceitos de identidade e de consciência. Nesse sentido, talvez fosse procedente que o pesquisador-camaleão, que participa da dinâmica de convivências e também que colhe os dados para o estudo, pudesse avaliar os estatutos diferenciais da imigração, o que pediria uma visada (i) nos direitos e restrições de direitos, (ii) nas experiências de mercado de trabalho divergentes, (iii) na amplitude dos gêneros identitários, (iv) nos perfis de idade distintos envolvidos nessa dinâmica, (v) nos padrões de distribuição espacial e (vi) nas áreas locais mistas em termos de provedores de serviços e de residentes. Podem não esgotar o que se deve analisar, mas, segundo
36 Cultura Latinoam. Volumen 33, número 1, enero-junio 2021, pp. 32-51 MARIA CÉLIA LIMA-HERNANDES Vertovec, já seria um estudo que permitiria chegar mais perto da realidade. A justificativa oferecida pelo autor baseia-se no fato de que, no atual contexto mundial e de globalização de que fazem parte os espaços virtualizados, mais pessoas migram de vários e diversos lugares, havendo novas conjunções e interações de variáveis significativas que surgem como meio de configurar os padrões de imigração. Além disso, ainda segundo ele, a conjunção da etnia com uma série de outras variáveis torna a comunidade superdiversa e demanda políticas públicas que atendam a essas novas composições, trajetórias, interações e necessidades de serviço público. No Brasil e em Macau, tivemos cenários diferentes de idênticas políticas públicas para lidar com essa massa híbrida. Assim, considerar uma metodologia multidimensional permitiria ir além do ‘grupo étnico como unidade de análise ou único objeto de estudo’ (Glick Schiller et al. 2006, apud Vertovec, 2007) e também favoreceria que o pesquisador apreciasse a coalescência de fatores que condicionam a vida das pessoas. É justamente desse lugar que produzirei a reflexão. De um lugar em que posso apreciar a coalescência de fatores que pareciam rígidos e assim guiaram a lógica social, produzindo uma dinâmica viva de pessoas diante do poder público estabelecido e outra lógica num mundo invisível, em que nada é tão categórico e que essas reminiscências em suas vaguezas e lacunas podem transpirar livremente entre o que se pretende homogêneo. Cenários de hibridez sociocultural Tanto no Brasil quanto em Macau, a colonização portuguesa seguiu um mesmo ritual. O pano de fundo de cada povo colonizado era bem diferente, contudo. No Brasil, comunidades indígenas ágrafas e pouco co-organizadas habitavam o espaço. Não foi difícil aos jesuítas e, depois, à igreja católica impor uma forma de viver diferente. Os jesuítas evangelizaram alguns indígenas, a igreja católica zelou pela constituição da família católica por meio dos rituais de batismo, principalmente. Em Macau, comunidades milenares tinham naquele pedaço de terra um local para negócios. Os mandarins já estavam bem organizados e reportavam-se ao governo chinês os eventos, revelando aí uma co-organização endocêntrica. Esse era o modo de manter uma unidade chinesa em termos de cuidado com a terra, negócios e habitantes. A religião em Macau seguiu o mesmo script do Brasil, no entanto, com a barreira de uma conduta já estabelecida ali, o que
37 ESCAMOTEAMENTOS SOCIOCULTURAIS E SOCIOLINGUÍSTICOS: POLÍTICAS COLONIZANTES EFEITOS HÍBRIDOS dificultou em muito a imposição portuguesa. Os mandarins monitoravam os passos portugueses e, em comunhão com o povo chinês, conseguiram reverter várias ações político-sociais empreendidas pelos portugueses. Estes consideravam-se colonizadores, aqueles rotulavam o contato em bases negociais, daí o termo arrendamento1. No Brasil, por sua vez, os indígenas brasileiros, para sobreviverem aos massacres, tiveram que se adaptar à nova realidade. Muitos não o fizeram e foram extintos. As mulheres indígenas foram as peças fundamentais para o surgimento de uma comunidade híbrida. Também as mulheres africanas. O mesmo ocorrera em Macau. O batismo coletivo, o casamento e os assentos funéreos foram as formas de hibridizar a população e controlá-la, mas —sabemos— que nem tudo estava sob controle de fato. O quadro é bem complexo e a história é digna de nota. Pode ser lida em vários materiais (Rego, 1950, dentre outros), no entanto, será preciso considerar perspectivas sociolinguísticas e identitárias, as quais fogem à narrativa heroica dos colonizadores, tais como Lima-Hernandes & Baxter (2019), Lima-Hernandes & Grosso (2019), Teixeira e Silva, Lima-Hernandes & Carvalhinhos (2014), além da produção sobre o tema feita por discípulos destes. Analisemos os casos relatados por Raminelli, que pode representar a perspectiva da História. Selecionei três deles. Trata-se de um excerto um pouco extenso, mas necessário para que possamos mergulhar na realidade descrita: [1] Os filhos dos conquistadores com “as negras da terra” também não aceitavam a dominação branca sem resistências. Muitos deles viveram boa parte de suas vidas ao lado dos parentes maternos e pouco conheciam os costumes dos “civilizados”. A dualidade racial e cultural transformou os mamelucos em seres deslocados, nem índio, nem branco. Em várias oportunidades, exerciam um papel de intermediários entre os colonizadores e os nativos, influenciando os últimos a trabalhar nas áreas agrícolas e engenhos. Contudo, nem todos os mamelucos estavam satisfeitos com a cristianização empreendida pelos europeus, por isto não era raro encontrar mestiços contestando passagens bíblicas e lançando proposições contra a fé. Antônio Rodrigues, lavrador em Pernambuco, confessou a Heitor Furtado que não acreditava na existência de um mundo além 1. Para uma leitura das transições de governo e suas tentativas de negociação relativas a Macau e a Hong Kong, sugiro a leitura de Lima (1999).
38 Cultura Latinoam. Volumen 33, número 1, enero-junio 2021, pp. 32-51 MARIA CÉLIA LIMA-HERNANDES deste, lançando dúvidas sobre a veracidade das Escrituras Sagradas. O mameluco Lázaro Aranha era, segundo depoimentos, um dos indivíduos mais irreverentes da Colônia. Em certa ocasião, fugiu um escravo de propriedade do mestiço; a fim de recuperá-lo prometeu rezar uma missa em devoção a Santo Antônio. Depois de realizar a promessa, logo o negro fugido apareceu. Lázaro então se lamentou de ter recorrido ao santo e disse: “que o velhaquinho de Santo Antônio era azivieiro que sabia muito que lhe não quisera deparar o negro senão depois que lhe prometer a missa…” O mesmo delator contou que Lázaro propalava a existência de vários deuses, “Deus dos cristãos e outro Deus dos mouros e outros dos gentios” e diziam ainda que Mafoma era um dos deuses do mundo. O mestiço também zombava de rituais católicos. Em uma sexta-feira da quaresma se fez um cortejo no sertão; os penitentes levavam candeias e rezavam com muita devoção, enquanto o dito mameluco fazia zombarias e escandalizava a todos que o viam. Os filhos de brancos com negras da terra não eram os únicos a contrariar os preceitos da ortodoxia. (Raminelli, 1994, p. 213, grifo meu) [2] Os mamelucos não eram os únicos a se converter ao modo de vida dos nativos, os brancos, por vezes, se misturavam à indiada e se transformavam em meio brancos, meio índios. João Brás, em 17 de agosto de 1591, acusou Pantalião Ribeiro de praticar gentilidades, mesmo sendo cristão e branco. Pantalião participava das entradas organizadas por Tamacaúna, pois sabia bem a “língua dos gentios mamelucos”. Uma vez no interior, se “rebatizou” ao modo dos gentios na Abusão da Santidade do Jaguaripe. No processo inquisitorial contra Fernão Cabral Taíde encontram-se, igualmente, referências sobre uma possível “aculturação às avessas” de um poderoso senhor-de-engenho. (Raminelli, 1994, pp. 215-216, grifo meu) [3] Domingos Nobre Tamacaúna não era branco como Diogo Álvares, mas desempenhou a mesma função de intermediário entre portugueses e índios. Tamacaúna era mameluco, filho do pedreiro Miguel Fernandes e da “negra do gentio” Joana. Declarou, em confissão, que entre os 18 a 36 anos viveu alheio ao cristianismo, confessando na quaresma apenas por obrigação. No “dito tempo foi mais de gentio que de cristão porém nunca deixou a fé de Cristo e essa teve sempre no seu coração”. A confissão de
39 ESCAMOTEAMENTOS SOCIOCULTURAIS E SOCIOLINGUÍSTICOS: POLÍTICAS COLONIZANTES EFEITOS HÍBRIDOS Domingos Nobre é um testemunho admirável da dualidade, ou maleabilidade cultural dos mamelucos. O confitente declarou ao Visitador que percorreu varias localidades no sertão a mando das autoridades coloniais. Em cada tribo visitada, o mestiço se adaptou aos costumes locais. No interior da Capitania de Porto Seguro, se pintou com jenipapo, usou cocar de penas, tangeu pandeiros e atabaques, cantou em língua gentílica. No sertão do Arabo, permaneceu quatro ou cinco anos, teve duas mulheres ao modo gentílico, riscou as coxas, nádegas e braços com dente de paca. Tempos depois, voltou à Arabo, a mando do governador Luís de Brito, a fim de “fazer descer o gentio para o povoado”. Na oportunidade, casou com três índias, bebeu com os nativos “o seu fumo”; andava nu, chorava e lamentava “como eles ao seu uso gentílico”. No sertão de Ilhéus passou quatorze meses, tingiu o corpo com urucum, teve sete mulheres, bebeu e bailou sob os tangeres e cantares do gentio. (Raminelli, 1994, p. 217, grifo meu) Em [1], a descrição do mameluco Lázaro nos conduz a uma percepção de suas diferenças no grupo local: era filho de índia [negra da terra] com branco, mantinha uma dualidade de raça e de cultura [nem branco, nem índio], em que o resultado era a negação de uma e outra como um todo em si, daí ser considerado irreverente em conduta. O exemplo apresentado refere-se à religião, mas é óbvio que essa atitude é parte de seu caminhar naquele contexto. Esse comportamento meio lá, meio cá inspirava alguns brancos a adotarem os costumes gentios, tal como descrito em [2] com relação a Pantalião, numa “aculturação às avessas”. Esse mesmo comportamento ambíguo deve ser identificado no mameluco Tamacaúna, que era de aparência mais próxima aos brancos, e sua “maleabilidade cultural”. Como rotularíamos esses casos em que um indivíduo é híbrido em sua origem, mantendo costumes da terra, enquanto percorre espaços funcionais atribuídos ao colonizador sem sofrer qualquer repúdio? Por dominar duas línguas pelo menos, era valorizado entre os dois grupos, ainda que nenhum deles se preocupasse em saber qual era a sua língua materna. Essa, contudo, é uma questão que atinge de perto o que discuto aqui. A fluência em duas línguas, com insupeição de sotaques e de modos de articulação, seriam indícios de que está ali um indivíduo bilíngue com uma língua materna diversa da língua de herança. Os mamelucos eram, por assim dizer, falantes de LH, mas também eram falantes de línguas adicionais apreendidas no contato com diversos povos. Nada disso excluiria o fato de que tinham uma língua materna. Essa realidade desenha-se em todo espaço multicultural.
40 Cultura Latinoam. Volumen 33, número 1, enero-junio 2021, pp. 32-51 MARIA CÉLIA LIMA-HERNANDES Lugares multiculturais —como o Brasil, como a África ou como a China— detêm um colorido sociolinguístico especial e contextos atípicos para se pensar cientificamente. Tais contextos são fundamentais para se refinarem os conceitos e os métodos associados a temas centrais dos estudos, especialmente nos campos socioculturais e sociolinguísticos, ainda que hoje tenha se constituído um problema comum para o ambiente escolar nessa nova onda de migração sistêmica por que está passando o mundo. Visitemos dois contextos em que micro-histórias eclodem para nos evidenciar uma realidade muito mais complexa. Dado ser história documental, tornamos em sigla todos os nomes reais. História do Paulistano João PL José PL (pardo) é baiano de Itiúba (sertão da Bahia) e diz ser neto de português. Casou-se com uma baiana do sertão de Feira de Santana. Tiveram um filho: Vicente PL, que se casa com uma baiana e tem com ela 2 filhos. Vicente PL descobre que o sobrenome original de seu pai era BS e que este tivera, na verdade, mais 1 esposa. Conversando com outras pessoas antigas da região, descobre que José PL havia brigado com a esposa (uma negra da terra) e a expulsara de casa impedindo que levasse consigo seu único filho, João PL. Quando o filho pergunta pela mãe, o pai diz que a mãe morrera. João PL, com 11 anos, muda-se de cidade sozinho em busca de uma vida melhor, pois era maltratado pela nova esposa do pai, uma baiana de Itiúba. João PL, já adulto e morando em São Paulo, decide visitar o pai. Descobre que a mãe era viva e que era uma cafusa, analfabeta, que falava um português muito diferente. Descobre também que o nome original do pai era Brazileiro da Silva. A razão da mudança de nome foi, no passado, camuflar sua origem e destino porque engravidara, na juventude, a filha de um fazendeiro poderoso da região. João PL pensava ser de linhagem portuguesa e se descobriu filho de cafusa [miscigenação de negro com índio]. [Fonte documental] A história de João PL é comum a vários nordestinos migrados para São Paulo na primeira metade do século XX. Muitos vieram, sem estudo e sem família, para buscar um emprego e uma vida melhor. Se fôssemos analisar a miscigenação dos filhos de João PL, teríamos que dizer que descende de baianos, que foram gerados por cafusa e baiano, que, por sua vez, tinha descendência portuguesa. Várias etnias entram na história de vida sociocultural de indivíduos que se consi-
47 ESCAMOTEAMENTOS SOCIOCULTURAIS E SOCIOLINGUÍSTICOS: POLÍTICAS COLONIZANTES EFEITOS HÍBRIDOS europeu, a obrigatoriedade do uso de roupas e o incentivo ao casamento entre índios e brancos. Além disso, o Diretório regulou a distribuição de terras para o cultivo, as formas de tributação, a produção e comercialização agrícola, as expedições para coleta de espécies nativas e a prestação de serviços nos povoados. Aos diretores cabiam a supervisão e fiscalização dessas medidas, sobretudo as que compreendiam a produção econômica resultante do trabalho remunerado realizado pelos índios e a comercialização de sua produção agrícola e extrativa. Também eram encarregados de distribuir postos honoríficos e títulos aos índios que desempenhassem eficientemente os cargos públicos, bem como zelar pelos costumes, impedindo que as famílias vivessem em promiscuidade, entre outros pontos. (Camargo, 2013, s/p.) A partir de então, a promiscuidade de, por exemplo, andar nu ou se casar com mais de uma mulher passa, inicialmente, a ser refreada. Depois, volta a fazer parte da cultura natural de tolerância com explicações, a partir de então, que fogem a um enquadramento étnico. Esse processo de naturalização do “estranho” também ocorreu em Macau, especialmente proveniente da cultura chinesa, mas incorporado pelos macaenses. Um deles é o dote prévio ao casamento, em que a família do noivo oferece à família da noiva um valor que corresponda ao que pretensamente equivaleria à importância da companheira para si. Obviamente, pode ocorrer algum tipo de negociação, mas o ritual é praxe e até segue valorizado como índice cultural local. Todo macaense legítimo reza para o santo católico e também acende incenso para os deuses chineses. A mescla de hábitos condiz com a hibridez étnica implicada. Sair da missa das 18h, realizada na Catedral da Sé, e esticar uma caminhada até o restaurante do cassino para tomar a caldo de cobra é um dos prazeres macaenses que o tempo não apaga3. Ao contrário, é um encadeamento de ações que fortalece a liga do grupo. Os mais tradicionais ainda frequentam a Associação que os representa. Este é um dos dois lugares em que se tem acesso a um tradicional minchi. O outro é o restaurante de dona A.J., chinesa com identidade macaense, que manteve por anos o hábito de sentar- -se ao lado de seus clientes para relembrar histórias da Macau antiga. E no Ano Novo chinês, dividem-se entre banquetes, jogos e queima de panchões. Dentro de casa, é hora de um ritual híbrido: 3. De acordo com Barros (2004), há em Macau vários estabelecimentos dedicados ao preparo desse prato, os quais importam da China aproximadamente 15 a 20 mil serpentes no inverno.
48 Cultura Latinoam. Volumen 33, número 1, enero-junio 2021, pp. 32-51 MARIA CÉLIA LIMA-HERNANDES Não precisando ninguém mais sair da casa, a porta principal é, por fim, selada com papel vermelho para impedir a fuga da felicidade e para obstar a entrada dos demónios. (…) Em certas províncias, antes de se selarem as portas, é costume espalhar-se pelo pátio ramos de pinheiro e de sésamo que denunciarão a aproximação dos demónios, pois estes seres, apesar da sua leveza, não conseguem evitar que os ramos se estalem traíndo (sic) a sua presença. (Rangel, 2012, p. 25) Outros elementos vão surgindo, mas retomando hábitos antigos de uma forma totalmente nova, como a marcar a presença naquele espaço. Um desses empreendimentos traduz-se nas peças teatrais do grupo Doci Papiaçam di Macau, dirigidas por Miguel de Senna Fernandes, um ilustre advogado de Macau que herdou o talento criativo do pai, Henrique de Senna Fernandes, escritor macaense. Considerações finais Ao fazer a comparação —ainda que restrita— de dois espaços que foram submetidos a ações similares orientadas pelo plano colonizatório português, notamos que os efeitos em cada sociedade revelaram-se diferentes, especialmente se considerarmos a superdiversidade contida em cada um deles. Enquanto o brasileiro expõe em suas ações sociopolíticas pela diversidade a reivindicação fragmentada em direitos étnicos, denotando a parca consciência de si nesse grande caldeirão de etnias que colorem a sociedade, o macaense tem sido levado silenciosamente pela ideia de que todos estão ligados por idênticos traços identitários e devem caminhar juntos em suas demandas. O macaense, dado o contexto de mudanças impostas, vez ou outra mais incisivamente, pela República Popular da China, acabou se unindo e revisitando, de várias formas, suas histórias, fazendo com que suas veias identitárias bradassem: 100% macaense é o que somos! O brasileiro, no entanto, continua ignorando que sua composição híbrida deve ser lida nas franjas da história social, do contato entre línguas e dos hábitos culturais. Se, na China, a hibridez étnica irrompe todos os dias com ações de autopreservação à medida do esforço contrário para o seu silenciamento, no Brasil, a mestiçagem silencia-se cada vez mais enquanto presencia lutas e reivindicações que visam à identidade das etnias puras, num processo identitário reverso ao que —espera-se— preservaria a hibridização de tantos povos.
49 ESCAMOTEAMENTOS SOCIOCULTURAIS E SOCIOLINGUÍSTICOS: POLÍTICAS COLONIZANTES EFEITOS HÍBRIDOS Esse, contudo, é um tema que não se esgota aqui, no entanto deve aguardar outro momento e espaço para seus desdobramentos. Este texto, por sua vez, embora publicado num momento em que a pandemia da Covid-19 nos tenha isolado de nossos objetos de investigação, proporciona reflexões mais agudas sobre o que somos no contexto superdiverso que emerge do locus em que nos encontramos, já que não é privilégio coletivo, tampouco geográfico, constituir-se como mescla em suas raízes. Referências Bi, Meng Yin. (2013). Imigração chinesa em São Paulo e seu português falado: interlíngua e marcadores discursivos (Dissertação de Mestrado). Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil. Calossa, B., & Flores, C. (2020). Erosão linguística na aquisição bilingue português – umbundu: evidências no domínio da formação do plural. Revista da Associação Portuguesa de Linguística, (7), 69-85 Camargo, A. (2013). Diretor/Diretório de Índios. [Consulta em 20.09.2017]. Recuperado de http://linux.an.gov.br/mapa/?p=4817. Fahik, T., & Ratminingsih, N. M. (2021). Tangible and Natural Of Indonesian Cultural Heritage Presented In English Textbooks For Senior High School Student. JSHP: Jurnal Sosial Humaniora dan Pendidikan, 5(1), 1-10 Comiotto, A. F., Mota, M. B., & Soares, E. C. (2020). Code-switching em bilíngues talian-português sob uma abordagem psicolinguística. Revista Linguagem & Ensino, 23(4), 1121-1144. Forjaz, J. (1996). Famílias macaenses. Brasil:Instituto Cultural de Macau/Fundação Oriente. Gonçalves, M., & Melo-Pfeifer, S. (Eds.). (2020). Português Língua de Herança e Formação de Professores. Lisboa: Lidel. Kim, S. (2020). Teaching Discourse Markers that Mark Trouble With Questions: Applications of Conversation Analysis to Teaching Korean as a Second/Foreign Language. The Korean Language in America, 24(1), 83-110. Kuhlmann, M. (2018). Os fios de Ariadne: um estudo sobre retratos e valores linguísticos no contexto do refúgio (Dissertação de Mestrado). Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.
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