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I Cátia Alexandra Pereira Faria Análise do Caminho Português a Santiago e perceção dos comerciantes dos impactes no município de Barcelos Analysis of the Portuguese route to Santiago and traders perception of impactes in the municipality of Barcelos Dissertação de Mestrado Mestrado em Geografia-Planeamento e Gestão do Território Trabalho efetuado sob a orientação da Professora Doutora Paula Cristina Almeida Cadima Remoaldo Março de 2021
ii DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos. Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho. Licença concedida aos utilizadores deste trabalho Atribuição-NãoComercial-SemDerivações CC BY-NC-ND https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/
iii AGRADECIMENTOS Mais uma etapa concluída e por isso resta-me agradecer a todos, que de forma direta ou indireta se cruzaram comigo e me ajudaram ao longo desta investigação. À minha orientadora, a Prof. Doutora Paula Cristina Almeida Cadima Remoaldo, agradeço primeiramente por ter aceitado orientar esta investigação e por ter acreditado na sua relevância. Agradeço também toda a sua orientação cuidada e atenta, pela disponibilidade, confiança, apoio, incentivo, motivação, amizade, empatia e transmissão de conhecimentos ao longo deste período. Aos meus pais pela paciência, confiança e apoio que me deram em tudo na minha vida e por todas as condições que me proporcionaram ao longo desta etapa. À Câmara Municipal de Barcelos, na pessoa da Sra. Vice-Presidente da Câmara, expresso um enorme agradecimento pela disponibilidade e pela informação disponibilizada neste período. Por último, aos técnicos do Posto de Turismo de Barcelos que permitiram a aplicação dos questionários aos comerciantes locais.
iv DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração. Mais declaro que conheço e que respeitei o Código de Conduta Ética da Universidade do Minho.
v Análise do Caminho Português a Santiago e perceção dos comerciantes dos impactes no município de Barcelos RESUMO O turismo e outros setores associados revelaram, até finais de 2019, um acentuado crescimento. A partir deste setor, aproveitam-se recursos culturais e naturais de maneira a contribuir para o desenvolvimento dos territórios. No que diz respeito ao turismo religioso, um grande centro de peregrinação cristã é a Catedral de Santiago de Compostela. As várias rotas existentes, fazem com que os peregrinos realizem, por diversas motivações, este tipo de itinerário, que não é necessariamente religioso. No caso do Caminho Português, um dos vários territórios por onde passa é o município de Barcelos. Este território foi um cruzamento de várias estradas medievais, mas foi no século XIV, com a construção da Ponte Medieval, que começou a ser um local fundamental de passagem para os peregrinos continuarem até Santiago de Compostela. A presente investigação aborda a relação entre turismo religioso e peregrinação a partir da rota do Caminho Português a Santiago de Compostela, cingindo-se ao município de Barcelos. Concentra-se nos serviços que se encontram ao longo do mesmo e que são proporcionados aos peregrinos, abordando o tipo de paisagem através de uma interpretação cultural das emoções, sentimentos e sensações produzidos ao longo da experiência do Caminho, bem como, os impactes que a rota tem sobre Barcelos, na perspetiva dos comerciantes do município. Até 2019 (antes da pandemia da COVID19) o Caminho Português de Santiago tinha cada vez mais pessoas a percorre-lo. Por Barcelos, o itinerário é percorrido maioritariamente por áreas rurais apresentando uma paisagem muito tranquila e com uma variação de cores assinalável, passando, pontualmente, em território urbano onde o ruído dos veículos a motor é um fator negativo. O município apesenta boas infraestruturas e equipamentos para receber os peregrinos, mas carece de pontos de abastecimento de água potável, de alguma sinalética e de locais de paragem. A análise dos questionários aos comerciantes permitiu-nos perceber que as atividades mais representadas ao longo do itinerário são as de restauração, mas é o transporte entre etapas que falta desenvolver no município. Os impactes causados pelos peregrinos que percorrem o Caminho de Santiago são percecionados pelos comerciantes como positivos. Palavras-chave: Barcelos; Caminho Português de Santiago; Impactes económicos em Barcelos; Peregrinação;Turismo Religioso.
vi Analysis of the Portuguese Way to Santiago and traders' perception of impacts in the municipality of Barcelos ABSTRACT Tourism and other associated sectors showed, until the end of 2019, a marked growth. From this sector, cultural and natural resources are used in order to contribute to the development of the territories. With regard to religious tourism, a major center of Christian pilgrimage is the Cathedral of Santiago de Compostela. The various existing routes make pilgrims undertake, for various reasons, this type of itinerary, which is not necessarily religious. In the case of the Portuguese Way, one of the several territories it passes through is the municipality of Barcelos. This territory was an intersection of several medieval roads, but it was in the 14th century, with the construction of the Medieval Bridge, that it started to be a fundamental place of passage for pilgrims to continue to Santiago de Compostela. The present investigation addresses the relationship between religious tourism and pilgrimage from the route of the Portuguese Way to Santiago de Compostela, confining itself to the municipality of Barcelos. It focuses on the services that are found throughout the same and that are provided to pilgrims, addressing the type of landscape through a cultural interpretation of the emotions, feelings and sensations produced throughout the experience of the Way, as well as the impacts that the route has over Barcelos, from the perspective of the merchants of the municipality. Until 2019 (before the COVID-19 pandemic) the Portuguese Way of Santiago had more and more people walking it. Through Barcelos, the itinerary is mostly covered by rural areas, presenting a very peaceful landscape and with a noticeable variation of colors, passing, occasionally, in urban territory where the noise of motor vehicles is a negative factor. The municipality has good infrastructure and equipment to receive pilgrims, but it lacks points for drinking water, some signs and stopping places. The analysis of the questionnaires to the merchants allowed us to realize that the activities most represented along the itinerary are those of restoration, but it is transportation between stages that remains to be developed in the municipality. The impacts caused by pilgrims who travel the Camino de Santiago are perceived by the traders as positive. Keywords: Barcelos; Economic impacts in Barcelos; Pilgrimage; Portuguese Way of Santiago; Religious Tourism.
vii ÍNDICE AGRADECIMENTOS ......................................................................................................... III RESUMO ........................................................................................................................... V ABSTRACT ....................................................................................................................... VI ÍNDICE ........................................................................................................................... VII ÍNDICE DE FIGURAS ......................................................................................................... X ÍNDICE DE QUADROS .................................................................................................... XIV LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E ACRÓNIMOS ........................................................ XVII I.P.C.A. - INSTITUTO POLITÉCNICO DO CÁVADO E AVE ................................................ XVII INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 1 PARTE I - CONCEITOS E EVOLUÇÃO DO TURISMO RELIGIOSO .......................................... 7 1. CONCEITOS FUNDAMENTAIS EM TURISMO E EM TURISMO RELIGIOSO ................... 8 1.1. Evolução do conceito de turismo ......................................................................................... 8 1.2. Conceito de turismo cultural e de turismo religioso ............................................................ 12 1.3. Caminho de Santiago e os seus impactes .......................................................................... 19 1.4. Paisagem e sentidos ao longo da rota do Caminho de Santiago ......................................... 22 1.5. Notas conclusivas ............................................................................................................. 25 2. HISTÓRIA E IMPORTÂNCIA DOS CAMINHOS DE SANTIAGO ..................................... 27 2.1. Evolução dos Caminhos de Santiago.................................................................................. 27 2.1.1. A nível internacional .......................................................................................................... 27 2.1.2. Evolução e análise das estatísticas a Santiago de Compostela a nível internacional ............ 32 2.1.3. Itinerários existentes a nível internacional .......................................................................... 38 2.1.3.1. Caminho Português ................................................................................................... 44 2.1.3.2. Caminho Português da Costa ..................................................................................... 46 2.1.4. A nível nacional ................................................................................................................. 47 2.1.4.1. Caminho Central Português ....................................................................................... 52 2.1.4.2. Caminho Português do Norte ..................................................................................... 54 2.1.4.3. Caminho Português da Costa ..................................................................................... 58 2.1.4.4. Caminho Português Interior de Santiago .................................................................... 61 2.2. Notas conclusivas ............................................................................................................. 65
viii PARTE II – CARATERÍSTICAS DO CAMINHO DE SANTIAGO NO MUNICÍPIO DE BARCELOS E PERCEÇÃO DOS COMERCIANTES DOS IMPACTES NA ATIVIDADE ECONÓMICA ......... 67 3. TIPO DE METODOLOGIA E PESQUISA REALIZADA .................................................... 68 3.1. Procedimentos de pesquisa e fontes utilizadas na investigação .......................................... 68 3.2. Notas conclusivas ............................................................................................................. 75 4. CAMINHO DE SANTIAGO NO MUNICÍPIO DE BARCELOS ......................................... 77 4.1. Enquadramento geográfico do Caminho Português a Santiago no município de Barcelos e a sua caraterização física ................................................................................................................. 77 4.1.1. Enquadramento geográfico do Caminho Português a Santiago no município de Barcelos e tipologia das suas freguesias......................................................................................................... 77 4.1.2. Breve caraterização física do município de Barcelos ........................................................... 80 4.2. Caraterização sociodemográfica e económica do município e das freguesias do Caminho .. 85 4.2.1. Aspetos populacionais ....................................................................................................... 85 4.2.2. Nível de instrução da população ........................................................................................ 96 4.2.3. Estrutura económica ....................................................................................................... 102 4.3. Caraterização da oferta e procura turística no município de Barcelos ............................... 108 4.3.1. Principais aspetos da oferta em termos turísticos ............................................................. 108 4.3.2. Procura turística .............................................................................................................. 110 4.4. Notas conclusivas ........................................................................................................... 117 5. CARATERIZAÇÃO DO TIPO DE PAISAGEM E DOS SERVIÇOS DE APOIO AO PEREGRINO, NO CAMINHO A SANTIAGO NO MUNICÍPIO DE BARCELOS ...................... 118 5.1. Avaliação geral dos serviços existentes ............................................................................ 118 5.1.1. Caraterização do Caminho de Macieira de Rates a Pereira ............................................... 124 5.1.2. Caraterização do Caminho de Pereira até Barcelinhos ..................................................... 131 5.1.3. Caraterização do Caminho no centro do município de Barcelos ........................................ 137 5.1.4. Do Campo 5 de Outubro em Barcelos até ao Albergue Municipal de Peregrinos A Recoleta - Tamel (S. Pedro Fins) ................................................................................................................. 140 5.1.5. Do Albergue Municipal de Peregrinos A Recoleta - Tamel (S. Pedro Fins) até Balugães ..... 146 5.2. Avaliação geral do tipo de paisagem ao longo do Caminho de Santiago ............................ 153 5.3. Notas conclusivas ........................................................................................................... 159
ix 6. ANÁLISE DOS RESULTADOS DOS QUESTIONÁRIOS AOS COMERCIANTES DO MUNICÍPIO DE BARCELOS ........................................................................................... 160 6.1. Análise dos questionários aos comerciantes .................................................................... 160 6.1.1. Perceções dos comerciantes do município de Barcelos em relação ao Caminho Português de Santiago ..................................................................................................................................... 160 6.1.2 – Tipo de serviço ofertado e produtos mais consumidos pelos peregrinos ....................... 162 6.1.3 - Perceção dos comerciantes relativamente aos impactes económicos ............................ 168 6.2. Notas conclusivas ........................................................................................................... 171 7. PRINCIPAIS CONCLUSÕES E PROPOSTA DE MODELO DE INTERVENÇÃO PARA MELHORAR O CAMINHO PORTUGUÊS DE SANTIAGO ................................................... 173 7.1. Principais conclusões ...................................................................................................... 173 7.2. Proposta de intervenção para melhorar o Caminho Português de Santiago ....................... 174 7.3. Limitações e sugestões para futuras investigações ........................................................... 176 BIBLIOGRAFIA .............................................................................................................. 179 OBRAS, ARTIGOS, DISSERTAÇÕES E TESES DE DOUTORAMENTO................................ 179 PUBLICAÇÕES ESTATÍSTICAS ...................................................................................... 194 LEGISLAÇÃO ................................................................................................................. 195 CARTOGRAFIA .............................................................................................................. 196 NOMENCLATURA CORINE LAND COVER DO INSTITUTO GEOGRÁFICO PORTUGUÊS (I.G.P., 2018). .......................................................................................................................... 196 WEBGRAFIA .................................................................................................................. 196 WWW.MAPS.GOOGLE.COM ( GOOGLE MAPS ) – CONSULTADO A 20/8/2020. .............. 197 ANEXOS ........................................................................................................................ 199 Anexo I – Questionário aos Peregrinos – Versão em Português .................................................... 200 Anexo II – Questionário aos Peregrinos – Versão em Inglês ......................................................... 207 Anexo III – Questionário aos Comerciantes .................................................................................. 214
xvi Quadro 41 - Locais para meditação ................................................................................................ 157 Quadro 42 - Número e percentagem de inquiridos por qualidade de quem responde ao questionário segundo o sexo .............................................................................................................................. 161 Quadro 43 - Estabelecimentos com bens ou serviços orientados para os peregrinos ........................ 166 Quadro 44 - Serviços ou bens orientados para os peregrinos, em estabelecimentos de restauração, lojas ou farmácias, alojamentos e outros serviços ........................................................................... 166
xvii LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E ACRÓNIMOS a.D. - Antes de Cristo A.M.U. - Área Medianamente Urbana A.P.R. - Área Predominantemente Rural A.P.U. - Área Predominante Urbana A.T.L.A.S. - Associação para a Educação nas áreas do Turismo e Lazer C. – Caminho C.A.E. - Classificação das Atividades Económicas C.A.O.P. – Carta Administrativa Oficial de Portugal d.C. – Depois de Cristo E.M. – Estrada Municipal E.N. - Estrada Nacional G.P.S. – Sistema de Posicionamento Global I.C.O.M.O.S. - Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios I.G.P. - Instituto Geográfico Português I.N.E. – Instituto Nacional de Estatística I.P.C.A. - Instituto Politécnico do Cávado e Ave Km - Quilómetros m – metros N. S. – Nossa Senhora N.A.S.A. - Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço N.U.T.S. – Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos O.M.T. – Organzação Mundial do Turismo O.N.U. – Organização das Naçõs Unidas S.N.I.G. – Sistema Nacional de Informação Geográfica S.R.T.M. - Missão Topográfica Radar Shuttle T.I.P.A.U. - Tipologia de Áreas Urbanas U.N.E.S.C.O. – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura
1 INTRODUÇÃO Relativamente aos vários tipos de impactes da atividade turística, a sua análise geográfica tem vindo cada vez mais a ser efetuada a nível internacional e em Portugal. Particularmente em Portugal, e com o surgimento da Nova Geografia, o estudo do turismo no âmbito da ciência geográfica intensificouse a partir da década de 1980, tendo como um dos fatores o aumento da atividade turística a que se assistiu ligada à prosperidade económica que marcou o período de pós II Guerra Mundial nos países capitalistas. Também porque naquela década, surgiu na ciência geográfica um novo enfoque dos territórios e o turismo, sendo uma atividade com forte pendor espacial, passou a interessar a nova geração surgida nos anos de 1980. O turismo tem evoluído no tempo e no espaço, assumindo-se cada vez mais pela sua importância a nível social e económico (Fernandes et al ., 2001). Este setor representa bons resultados em muitos países contribuindo para o desenvolvimento de economias debilitadas, assumindo-se cada vez mais como importante gerador de riqueza (Cunha & Cravidão, 1998), originando criação de emprego e oportunidade por parte dos países que têm este potencial natural e histórico-cultural de desenvolverem grandes eventos e negócios. Portugal foi durante muito tempo promovido como um país de sol e praia (Fernandes et al ., 2001). Contudo, na década de 1990 começou a surgir um fenómeno de consumo em massa de natureza, cultura e religiosidade originado pela crise do turismo tradicional (Portillo & Álamo, 1994). Nos últimos anos, houve uma redescoberta turística de cidades históricas e territórios que fornecem novos valores, devido à manifestação do esgotamento dos destinos de sol e praia. Esta mudança progressiva também está associada a um maior investimento promocional de outros destinos turísticos (Fernandes et al ., 2001) observando-se uma tendência de crescente diversificação no que diz respeito aos diferentes tipos de ofertas turísticas que começam a dar mostras da sua importância (Martinho, 2014). Há cerca de dez anos atrás, Nadais (2010) chamava a atenção para o facto de estarem a surgir, nos últimos vinte anos, inúmeros segmentos da atividade turística (Nadais, 2010), como era o caso do turismo religioso. Passados onze anos esta afirmação ainda se tornou mais reveladora da realidade. Este último, tem-se afigurado como cada vez mais consolidado e com expressão no mercado turístico estando relacionado com sítios religiosos, peregrinações ou espiritualidade. Também pode ser considerado como um exemplo de turismo cultural (Fernandes et al ., 2008; Pereira, & Peres, 2010). Os Caminhos de Santiago assumem-se como elemento complementar do passado e podem ser relevantes para o futuro (Costa, 2015). Passaram-se cinquenta anos e nos últimos vinte houve uma
2 extensa transformação na procura e no aumento de novas ofertas de turismo cultural como um produto complementar de desenvolvimento urbano (Ledo et al ., 2007). Com o objetivo de atraírem mais turistas, muitas cidades adotaram políticas empreendedoras, e no caso das áreas rurais reavaliaram recursos endógenos alcançando um desenvolvimento sustentável e diversificado, sendo necessário valorizar os elementos materiais, patrimoniais e paisagísticos (Ledo et al ., 2007). Quando nos reportamos ao Caminho de Santiago estamos a falar de um produto turístico singular porque se percorre a pé, de bicicleta ou a cavalo, e implica espaços transfronteiriços. Não é percorrido só por turistas no sentido estreito, mas maioritariamente por peregrinos. A rota Jacobeia é um produto turístico com alternativas: é religião, espírito, cultura, natureza e relações. Importa recordar que, no século XX, o Caminho de Santiago renasceu por distintos motivos (sociais, políticos, religiosos, turísticos) e como itinerário religioso internacional. Desde os anos de 1990 chegam a Santiago de Compostela peregrinos dos cinco continentes (González, 2008). Quase todos (turistas e peregrinos) o entendem como uma via espiritual, uma via de origem religiosa transformada também num itinerário turístico-cultural (González, 2008). Atualmente são inúmeras as rotas históricas dos Caminhos de Santiago que são promovidas, umas mais do que outras, através de diversos instrumentos de marketing . Em consonância com esta tipificação destacam-se dez caminhos principais, a nível internacional, como: o Caminho Francês, o Caminho de Fisterra-Muxía , o Caminho Via de la Plata , o Caminho Português, o Caminho Inglês, o Caminho Primitivo, o Caminho do Norte, a Rota do Mar de Arousa e rio Ulla , o Caminho do Inverno e o Caminho Português da Costa ( Site O Caminho de Santiago - consultado a 1 de dezembro de 2019). Em Portugal e de acordo como o site Visit Portugal ou o Turismo de Portugal existem quatro rotas principais de peregrinação: o Caminho Central Português, o Caminho Português do Norte, o Caminho Português da Costa e o Caminho Português Interior a Santiago. O Caminho Português do Norte é a continuação do Caminho Central Português, que se designa de Caminho Português a Santiago ( Visit Portugal; Câmara Municipal de Barcelos consultados a 1 de dezembro de 2019). Tendo por base estes pressupostos, a presente investigação, aborda o Caminho Português a Santiago de Compostela, mais concretamente a sua passagem pelo município de Barcelos que, como trajeto, tem o seu início na cidade do Porto e segue por Vilarinho, Barcelos, Ponte de Lima, Rubiães e Valença do Minho. Em Espanha inicia-se em Tuy (ou Tuy em castelhano), direcionando-se para Porriño, seguindo por Redondela, Pontevedra, Briallos, Caldas de Reis, Padrón, e por último a cidade de Santiago de Compostela. Este percurso é o mais percorrido em Portugal e o segundo mais percorrido da Rota Jacobeia, sendo o Caminho Francês o que apresenta maior tráfego de peregrinos (Torre et al .,
3 2010; Pereira 2014; Duarte, 2016; Oficina do Peregrino, 2019; Jornal Expresso – consultado a 1/2/2021). Barcelos originou-se como aglomerado populacional do cruzamento de diversos caminhos medievais e foi na Idade Média, que se tornou num ponto de passagem fulcral para os peregrinos a Santiago (Gonçalves, 2012). Atualmente, tem-se assistido a um crescente desenvolvimento e dinamização dos Caminhos de Santiago, que por sua vez, tem colocado os municípios na rota de um número significativo de peregrinos, que têm contribuído para o aumento do setor turístico, verificandose o reaparecimento da atividade artesanal e outros tipos de arte popular nos municípios onde os peregrinos passam (Duarte, 2016). Através de um levantamento realizado nas bases de dados Google, Google Académico e ResearchGate , em 2019, foi fácil constatar que até ao momento poucos estudos foram realizados invocando o Caminho de Santiago em Barcelos, o seu impacte na economia local, bem como os seus recursos ou potencialidades turísticas. A nível internacional, em 1948, Vásquez, juntamente com dois investigadores, adotaram uma abordagem literária e antropológica, focando-se na rota de Santiago, não abordando os cinco sentidos, apenas aspetos visuais e atraentes. A nível nacional foi publicado um livro, em 1911, da autoria de Miguel de Unamuno intitulado de Por Tierras de Portugal y de España onde retrata espacialmente os sentidos. Em 1945, Orlando Ribeiro publicou o livro “Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico” onde descreve as várias dimensões da paisagem, desde o clima, o relevo, a vegetação, a agricultura, até às cidades, a população, a história dos lugares e o estilo de vida. Gonçalves & Costa (2016) destacam a relação do Galo de Barcelos (elemento do património local) com o Caminho de Santiago, bem como a sua gastronomia, vinhos e artesanato. Ana Duarte na elaboração da dissertação de Mestrado em Turismo datada de 2016, referencia que o Caminho de Santiago que passa por Barcelos é uma das mais importantes rotas Jacobeias destacando que cada vez mais pessoas o percorrem. Francisco Gonçalves autor de uma dissertação de Mestrado datada de 2012 acerca dos Caminhos de Santiago identificou e interpretou as rotas Jacobeias em Barcelos, fazendo uma abordagem do turismo religioso e cultural, contabilizando o movimento de peregrinos em 2016, além dos seus albergues, tentativas de definir o perfil de quem os percorre e as suas motivações. Abordando também o tema dos Caminhos de Santiago, Miguel Pereira (2014) elaborou uma tese de doutoramento cujo objetivo foi permitir ao peregrino usufruir de um modo diferente do território através das tecnologias de informação e comunicação. Esta intitulou-se “S.I.G. e Realidade Aumentada em Turismo - Guia Interativo do Caminho Português de Santiago em Barcelos”. Trigueiros,
4 em 2015, no âmbito do Mestrado em Património e Turismo Cultural, da Universidade do Minho debruçando-se sobre a figura de D. António Barroso e na freguesia de Remelhe abordou, ainda que de forma sucinta, o Caminho de Santiago em Barcelos, bem como as suas potencialidades religiosas e culturais. Com foco no Caminho de Santiago, Pereiro & Ullate (2017) desenvolveram uma pesquisa centrada nas paisagens rurais e como ela é avaliada pelos turistas culturais na rota do Caminho Português do Interior de Santiago de Compostela, enquanto caminhavam. Os autores, registaram as mudanças na paisagem, os sentimentos, a mudança de pavimento, identificando os seus perigos e as carências em relação aos serviços, pontos de abastecimento de água e alojamentos. Além disso, também, diferenciaram o conceito de turista e de peregrino abordando um novo conceito: o turiperegrino. Santana & Alves (2019) abordaram o Caminho Português do Interior de Santiago de Compostela tendo como foco a paisagem cultural e religiosa e usando o método dos anteriores autores. Ainda que alguns estudos tenham sido realizados ainda não existem, no entanto, estudos sobre a caraterização dos Caminhos de Santiago no município de Barcelos. Como nos parecem existirem fragilidades, nomeadamente no que concerne ao apoio por parte de restauração, de farmácias, de alojamentos e das condições ao longo do percurso Barcelense, optámos por realizar esta investigação. Adicionando a isto, também não se tem dedicado atenção aos impactes económicos do Caminho. Na nossa investigação, apesar de ter aspetos comuns com os estudos de Pereiro & Ullate (2017) e de Santana & Alves (2019) concentra-se nos cinco sentidos humanos como elementos que ajudam a construir o conceito de paisagem e emoções que resultam da mesma. Por estes motivos, optou-se por analisar o Caminho Português a Santiago usando as seguintes questões de partida: - Como tem evoluído o turismo e particularmente o religioso em Barcelos? - Quais são as principais caraterísticas do Caminho Português a Santiago no percurso que atravessa o município de Barcelos? - Que tipo de atividades e de serviços são ofertados no percurso referente ao município de Barcelos e que tipo de perceção têm os comerciantes sobre os seus impactes económicos? - O que é que pode ser melhorado, a curto prazo, no Caminho Português a Santiago no troço que atravessa o município de Barcelos? Inicialmente tínhamos pensado em tentar responder à questão: - Quais são as motivações, o perfil e o tipo de consumo do peregrino que passa pelo município de Barcelos? Não obstante, não foi possível, pois em 2020 poucas pessoas fizeram o Caminho por causa da situação pandémica que ainda se vive à data da redação da presente dissertação. Ainda assim, falaremos no capítulo ligado à
5 metodologia do inquérito por questionário que aplicámos a alguns peregrinos e que será aplicado em maior número a partir da primavera de 2021 no âmbito do Projeto em que a presente dissertação passou a inserir-se, intitulo “Avaliação do tipo de paisagem, dos recursos turísticos e dos bens e serviços existentes no Caminho de Santiago Central”. Este projeto foi iniciado em outubro de 2020, no Laboratório de Paisagens, Património e Território (Lab2PT) da Universidade do Minho, na sequência do nosso estudo. Tendo em consideração estas questões de partida os principais objetivos da investigação foram os seguintes: - caraterizar a evolução do turismo religioso e os itinerários existentes a nível nacional e internacional referentes ao Caminho Português a Santiago; - avaliar as principais caraterísticas do Caminho Português a Santiago no percurso que atravessa o município de Barcelos, em termos do estado do percurso, informação, sinalização da rota, infraestruturas, equipamentos de apoio e riscos existentes; - determinar os impactes económicos do Caminho Português a Santiago no desenvolvimento do município de Barcelos através de inquirição realizada aos comerciantes; - propor um plano de ação de melhoria, a curto prazo, do troço do Caminho Português a Santiago que atravessa o município de Barcelos. A nossa investigação foi realizada tendo em conta duas dimensões: uma teórica e outra prática. De modo a atingirmos os objetivos propostos, optámos por uma abordagem de cariz quantitativo e qualitativo (abordagem mista) usando fontes primárias e secundárias. No que diz respeito às fontes primárias, realizámos, como investigadora, o percurso do Caminho Português a Santiago em Barcelos (33,6 quilómetros), procedemos ao levantamento dos elementos necessários para cartografar o percurso, com o intuito de analisar as suas condições e averiguarmos o que é ofertado ao peregrino ao longo do mesmo. Foi concretizada a realização de um inquérito por questionário aos peregrinos e aos comerciantes, de modo a perceber qual a perceção destes no que concerne aos impactes económicos da atividade turística e o seu contributo no processo de diversificação da economia. No entanto, no que toca aos inquéritos aos peregrinos, atendendo ao baixo número de peregrinos, em 2020, a percorrer o Caminho de Santiago em consequência da doença COVID-19, tal como já mencionámos, este tema será continuado no seio projeto mencionado do Lab2PT. Posto isto, apesar de terem sido realizados 33 questionários aos peregrinos até 10 de outubro de 2020, a abordagem do seu perfil e motivações não irá ser realizada na nossa investigação, visto a amostra ser ainda muito reduzida.
6 Quanto às fontes secundárias utilizámos sobretudo artigos e livros internacionais e nacionais, dados estatísticos e sites da Internet , de modo a fundamentar a parte teórica, que se debruçou sobre o turismo religioso e a sua evolução a nível internacional, em Portugal e em Barcelos. Também para se entender melhor alguns elementos caraterizantes dos Caminhos de Santiago existentes e a avaliação dos impactes do turismo religioso na economia Barcelense. Além disso, usámos dados estatísticos oficiais, para entender os impactes do turismo na economia local. Sendo assim, a presente dissertação é constituída por cinco capítulos. O primeiro capítulo intitulado “Conceitos fundamentais em turismo e turismo religioso” procede ao esclarecimento de conceitos fundamentais acerca da temática do turismo, do turismo religioso e das peregrinações, bem como do Caminho de Santiago e os seus impactes. Segue-se, no segundo capítulo (“História e importância dos Caminhos de Santiago”) a evolução e história dos Caminhos de Santiago a nível internacional e nacional, assim como os itinerários existentes. Seguidamente, no capítulo três que apelidámos de “Tipo de metodologia e pesquisa realizada” é abordada a metodologia utilizada ao longo da investigação. No quarto e penúltimo capítulo intitulado “O Caminho de Santiago no Município de Barcelos” é efetuada a caraterização do Caminho Português a Santiago no município, a caraterização económica do Caminho Português a Santiago no desenvolvimento do município de Barcelos e os seus impactes. O penúltimo capítulo denomina-se “Caraterização do tipo de paisagem e dos serviços de apoio ao peregrino, no Caminho a Santiago no Município de Barcelos” sendo realizada uma avaliação geral dos serviços existentes e da paisagem geral ao longo do Caminho de Santiago, no município de Barcelos. O último capítulo intitula-se de “Análise dos resultados dos questionários aos comerciantes do Município de Barcelos” e diz respeito à análise dos inquéritos aplicados aos comerciantes existentes no troço do Caminho no município. Por fim, nas Considerações Finais recordamos as principais ilações a retirar da investigação realizada, destacamos as suas limitações e lançamos pistas para futuras investigações. O estudo realizado interessa à Câmara Municipal de Barcelos e aos agentes locais, estando prevista a sua divulgação junto dos mesmos. O estudo em questão além de ser importante para quem cuida do Caminho e está responsável pela sua divulgação é também importante para um melhor planeamento do mesmo. Se o itinerário estiver bem equipado e com vários serviços de apoio ao peregrino, no futuro, o mesmo pode repeti-lo ou divulga-lo junto de quem também está interessado neste tipo de turismo.
7 PARTE I - CONCEITOS E EVOLUÇÃO DO TURISMO RELIGIOSO
8 1. CONCEITOS FUNDAMENTAIS EM TURISMO E EM TURISMO RELIGIOSO Na primeira parte deste capítulo debruçamo-nos sobre alguns conceitos relacionados com a atividade turística e o turismo religioso. Inicia-se com o conceito de turismo recordando a sua evolução e debruçando-se de seguida sobre um dos tipos de turismo mais antigos, o turismo cultural, e sobre o turismo religioso, recordando o que os une e os distingue. Procuramos distinguir a noção de peregrinos e de turistas, para que ambos não se confundam ao longo da investigação. Por último elaboramos uma breve descrição dos Caminhos de Santiago e salientando os municípios por onde passam. Este enquadramento é importante, pois é necessário falar do conceito de turismo para depois enquadrar o de turismo cultural e religioso. A breve descrição dos Caminhos de Santiago, são uma nota introdutória ao tema que será discutido ao longo do estudo. 1.1. Evolução do conceito de turismo O turismo é um dos conceitos mais complexos sendo abordado por inúmeras ciências. Carateriza-se por ser uma forma de comportamento humano, um fenómeno social, um setor económico e uma fonte de mudança social, ambiental e económica. Quem estuda esta temática olha para ela sob muitas perspetivas diferentes, desde a Antropologia à Economia, passando pela Geografia e usando diversas ferramentas desde a observação participante à inquirição, para recolher e analisar dados (Smith, 2017). Esta atividade tem evoluído no tempo e no espaço, destacando-se cada vez mais pela sua importância a nível social e económico. Tem revelado repercussões do tipo ecológico, político e cultural conduzindo à necessidade de delinear políticas e estratégias de turismo, quer a nível nacional quer regional (Fernandes et al ., 2001). Tentando englobar todos os aspetos que envolvem esta atividade plurissectorial são inúmeros os autores que a procuram definir, sendo este um conceito que apresenta variadas definições e que sofreu grandes alterações ao longo do tempo. Tendo por base Wahab (1991) citado por Marcelino (2016, p. 4) a primeira definição de turismo surgiu pela primeira vez em 1910, pelo economista austríaco Herman Von Schullard Schrattenhoffen que definiu o turismo como sendo “(…) a soma das operações, principalmente de natureza económica, que estão diretamente relacionadas com a entrada, permanência e deslocamento de estrangeiros para dentro e para fora de um país, cidade ou região”. Foi entre 1919 e 1938, período em que decorreram as duas guerras mundiais, que o turismo começou a ser mais abordado a nível académico e quando os economistas europeus começaram a publicar os primeiros trabalhos. Antes de 1936, o turismo era praticado apenas pelas classes sociais
15 atender às suas próprias necessidades. Algumas das definições são abrangentes, enquanto outras são claramente mais limitadas. As definições politicamente orientadas do turismo cultural tendem a ser o mais inclusivas possível para mostrar o nível de interesse do consumidor e, assim, fornecer um argumento adicional para o investimento em atividades de gestão de património cultural. O Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios (I.C.O.M.O.S., 1999), foi criado em 1965, e tem por objetivo a promoção internacional, da conservação, proteção, utilização e valorização dos monumentos, conjuntos e sítios históricos, sendo responsável por propor os bens que recebem o título de Património Cultural da Humanidade. Uma das primeiras definições de turismo cultural corresponde à Carta Internacional do Turismo Cultural, em 1976, que afirma que o objetivo do turismo cultural é descobrir e aprender mais sobre monumentos e sítios histórico-artísticos . Esta definição indica a proximidade do turismo cultural e monumental, embora a realidade seja que o turismo cultural envolve frequentemente, atividades e experiências diferentes da visita (I.C.O.M.O.S., 1999). Seguindo este vínculo e de acordo com Richards (1996), o antigo Diretor do I.C.O.M.O.S., Leo Van Nispen, referiu que a cultura e o turismo estão destinados, agora e para sempre a ficarem juntos. O turismo cultural deve ser encarado como uma atividade turística na qual os bens culturais ou patrimoniais de um destino são apresentados para o consumo dos turistas (McKercher & Cros, 2002). O autor Craik (1997) define o conceito tendo em conta dois lados, o experiencial e o educacional, pois o turismo cultural tem como propósito conhecer lugares e culturas e aprender sobre os hábitos diários da população local, nomeadamente, sobre a história, património e manifestações artísticas que representam o contexto cultural e histórico de um destino turístico. No entanto, ainda existem muitos indivíduos e organizações que continuam a separar o turismo cultural em duas partes: turismo cultural e turismo histórico (Edgell, 2016). Nos anos seguintes, foram vários os autores que criaram definições de turismo cultural, como é o caso de Richards (2002, 2007) que mencionou que este é o movimento de pessoas em direção a atrações culturais, noutro lugar que não seja o local habitual de residência, a fim de obter informação e conhecimento para atender às suas próprias necessidades culturais. Segundo Pérez (2009) o turismo cultural tem um sentido mais restrito, estando relacionado com um tipo de viagem por motivos unicamente culturais e educativos. Contudo, e de acordo com a Organização Mundial do Turismo (2019) o turismo cultural é um tipo de atividade turística em que a motivação essencial do visitante é aprender, descobrir, experimentar e consumir as atrações/produtos culturais, materiais e intangíveis de um destino turístico. Essas atrações/produtos referem-se a um conjunto de elementos materiais, intelectuais, espirituais e emocionais distintos de uma sociedade que engloba artes e arquitetura,
16 património histórico e cultural, património gastronómico, literatura, música, indústrias criativas e culturas vivas, com os seus modos de vida, sistemas de valores, crenças e tradições. De acordo com Edgell (2016), no novo milénio, os consumidores de turismo exigem uma maior qualidade dos seus produtos turísticos. Estes querem destinos novos e diferentes, maior variedade e mais flexibilidade nas viagens. Cada vez mais, os turistas expressam o desejo de um ambiente limpo, experiências de turismo natural, atividades de viagem avançadas e produtos turísticos que incluem cultura, património e história. Em resposta, a estas exigências são cada vez mais os destinos que desenvolvem produtos turísticos de elevada qualidade e que estão a dar maior ênfase ao ambiente natural e ao ambiente construído, que inclui locais históricos, patrimoniais e culturais. Falar sobre turismo quando nos reportamos aos Caminhos de Santiago significa considerar que nos debatemos com uma tipologia turística, o turismo religioso. Pressupõe uma certa complexidade conceitual e terminológica, já que o Caminho de Santiago excedeu o seu sentido religioso original e histórico para se tornar, cada vez mais, numa rota em que fins religiosos e espirituais coexistem com objetivos culturais, ecológicos, naturais e desportivos (Poyatos et al ., 2011). Rinschede (1992), Cánoves (2006) e a O.M.T. (1985) defendem que o conceito de turismo religioso faz parte do turismo cultural, ou seja, o turismo religioso integra o turismo cultural. Segundo Fernandes et al . (2008), esta perspetiva faz sentido, se tivermos em conta que a religião é parte da cultura. Outros como Oñate & Bertolín (1996) e Richards (1996), consideraram que a peregrinação lançou as bases para o turismo cultural, principalmente na cidade de Compostela. Fernandes et al . (2008) destacam que os indivíduos ao viajarem para locais relacionados com a religião, não significa que eles entendam como sendo turismo religioso, isto porque há alguma sobreposição entre os locais religiosos e o turismo cultural, uma vez que o primeiro é uma vertente importante do segundo. Muitas vezes, o património cultural é religioso, o que faz com que sejam dois elementos muitos próximos e dependentes um do outro (Pereira & Peres, 2010). Em 1994, o Office de Nouvelles Internacionelles , ramificou o turismo religioso em duas vertentes. A primeira onde a religião se identifica com o conceito de espiritualidade e a segunda identifica-se com uma natureza mais cultural associando-se ao património. O turismo religioso está em expansão, a nível mundial, porque a religião e a espiritualidade estão entre as motivações mais comuns para viajar (Dias, 2010). Define-se, turismo religioso, de acordo com a Conferência Mundial de Roma (1960), como uma atividade que se realiza em viagens pelos mistérios da fé ou da devoção a algum santo e que move milhares de peregrinos (Ribeiro, 2002). Carateriza-se esta forma de movimento turístico, pela motivação por trás dele, os seus objetivos e os
17 seus destinos (Liszewski, 2000). Existem três vertentes importantes e fundamentais neste tipo de turismo: a cultura, a arte e a fé (Santos, 2008). Rinshede (1992, 1999), Dias & Silveira (2003) e Sharpley & Sundaram (2005) mencionam que a religiosidade é a base do turismo religioso, sendo esta a motivação em que difere este dos outros tipos de turismo. Dias & Silveira (2003) são dos autores com uma das opiniões mais utilizadas para compreender este tipo do turismo e como este se distingue dos outros. Defendem que podem existir outras motivações como o interesse pela cultura ou curiosidade em perceber as manifestações tangíveis e intangíveis de outras culturas. Este fenómeno está presente em romarias, peregrinações, visitas a espaços, festas, atividades ou espetáculos religiosos, sendo que, os locais que estão relacionados com este tipo de turismo são marcados por uma ampla carga espiritual, emocional e afetiva (Nolan & Nolan, 1992; Vukonik, 2002). Contudo, Almeida (2014), menciona que o turismo religioso se orienta através da vivência do culto, motivações ao devoto, promessas que os indivíduos realizam e de renovação espiritual. Também Dias (2003) defende que o turismo religioso apresenta pontos comuns com o turismo cultural, porque o cidadão faz a visita ao destino que é considerado património cultural. Assim, o turismo religioso implica sempre viajar com intenções de uma certa descoberta religiosa, mas também uma descoberta dos lugares da religião e dos lugares não religiosos (Dias, 2010). Raj & Morpeht (2007) referem que para ser considerado turismo religioso o destino tem de ser religioso tal como a motivação da viagem. A O.M.T. (2007) entende que do turismo religioso fazem parte itinerários e rotas que levam a locais de peregrinação ou locais religiosos, monumentos e santuários. Segundo Griffin (2007), citado por Maak (2009), a Associação de Turismo e Educação para o Lazer (A.T.L.A.S.) explicou o aparecimento deste tipo de turismo, mencionando que, talvez paradoxalmente, o declínio no movimento de igrejas nos últimos anos tenha sido paralelo, em muitos casos, ao crescente interesse pela religião e pelas viagens religiosas. A razão para isso parece simples: as pessoas estão à procura do significado para as suas vidas cada vez mais incertas. Muitas pessoas não conseguiram encontrar isso através da tradição e formas de culto, então, estão a adotar diferentes formas de experiência para encontrá-lo. Isso inclui a redescoberta da peregrinação ou viagens a lugares sagrados. Além disso, o turismo religioso não é praticado apenas por indivíduos religiosos, místicos, devotos e sacerdotes profissionais (Oliveira, 2003), mas também por ateus, agnósticos, cristãos, muçulmanos ou judeus. Assim, no caso da peregrinação pelos Caminhos de Santiago até Compostela, este constitui-se pela prática espiritual que se destinge da religiosa (Slavin, 2003; González, 2013).
18 Secall (2009) considera turismo religioso como uma atividade turística onde se pretende obter graças espirituais, em busca da proximidade, imersão ou contacto com o sagrado. Taleb Rifai (2015) citado por Griffin & Raj (2017) sugere que o turismo religioso pode ser uma das ferramentas mais eficazes para promover o desenvolvimento inclusivo e sustentável, e identifica três principais benefícios para que isso aconteça: o turismo religioso aumenta a consciencialização sobre o património comum da Humanidade e fornece recursos para a preservação; pode contribuir para o desenvolvimento local; e constrói entendimento cultural. Por último, Sousa et al . (2017) argumentam que do turismo religioso fazem parte as manifestações religiosas, peregrinações, festas e romarias. Contudo, de acordo com Nyaupane et al . (2015) o turismo religioso e o turismo de peregrinação são conceitos próximos, embora diferentes. Distinguem-se pelas finalidades e motivações da viagem e diferenciam-se no que respeita aos processos inerentes ao alojamento, viagens ou itinerários. Autores como Pérez (1995), Sousa (1999), Ebron (2000), Slavin (2003), Steil (2003), Sousa (2005), Pérez (2008), Pérez (2011), Lois & Santos (2015), Sousa et al. (2017), Gusmán et al. (2017) e Havard (2017) apontam poucas diferenças entre turismo e peregrinação. Segundo Pereiro (2019), o turismo representa o sagrado na sua relação com a peregrinação criando uma categoria de experiência diferente designando as novas peregrinações como turiperegrinação. Há outros que defendem que as motivações das peregrinações, a nível geral, têm-se alterado ao longo da história, como é o caso de Pereira (2013), que defende que na época medieval a peregrinação devia-se a motivos religiosos como as promessas ou devoções, por motivos legais, como é o caso de o peregrino cumprir uma punição, ou por motivos profanos como a curiosidade ou exploração. Atualmente as motivações dos peregrinos são diferentes do que eram no passado, como por exemplo, fugir ao quotidiano, ter contacto com o sagrado, conhecimento cultural ou de natureza ou comunicar consigo mesmo e com outras pessoas diferentes (Clift & Clift, 1996). No turismo religioso a motivação é religiosa e no de peregrinação pode ser diferente (González, 2013; Santos, 2002), como por exemplo a Fátima ou a Santiago de Compostela que são locais de turismo de peregrinação cujo motor deste tipo de turismo é a experiência para obter novas sensações (Blom et al ., 2008). Uma perspetiva diferente tem Moriño acerca dos Caminho de Santiago, pois este defende que alguns desportos como a prática de trekking fizeram com que a peregrinação reaparecesse (Pereira et al ., 2005). Deste modo, a peregrinação nem sempre tem como motivo a religiosidade (Pereira et al. , 2005). Gallegos et al . (2007) defendem que as motivações dos peregrinos atuais são mais espirituais do que outras motivações, como a procura de novas experiências, o património cultural, o contacto com a natureza ou o desporto.
19 Ao alterar o clima ou o espaço físico do quotidiano, o turista e o peregrino ou o turiperegrino têm subjacente o mito de que a sua personalidade se vai alterar, porque procuram uma melhoria, uma mudança simbólica de estatuto (Tolosana, 1992; Amirou, 2007). Isto não significa que tanto o turista, como o peregrino ou o turiperegrinos se considerem turistas religiosos. De acordo com Pereiro (2019) o turismo implica emoções semelhantes aos da peregrinação e por isso muitas peregrinações tornaram-se um produto turístico idêntico a outros. O mesmo defende que o turismo torna sagrado os espaços que fogem ao âmbito religioso para atrair turistas e a peregrinação turístifica os espaços sagrados. 1.3. Caminho de Santiago e os seus impactes O turismo religioso tem contribuído para o crescimento e progresso regional bem como para o desenvolvimento sustentável da comunidade desenvolvendo também a economia local através do alojamento, comércio, gastronomia e lazer (Dias & Silveira, 2003; Santos, 2006; Timothy & Olsen, 2006; Pereira, 2014). O turismo exibe uma grande capacidade para atingir as vidas das comunidades recetoras (Kim et al ., 2012), originando impactes de ordem económica, física e ambiental e sociocultural (Pérez, 2009). A importância do ano Jacobeu (Ano Jubilar Compostelano ou Ano Santo) como marca de promoção turística e na consolidação de Santiago de Compostela como destino internacional é indiscutível, embora inicialmente o " Camiño a Santiago" se tenha considerado como uma forma de turismo religioso que evoluiu para um sentido cultural mais amplo, proporcionando uma nova dimensão, como um fator de desenvolvimento local nas áreas rurais por onde passa o Caminho (Pardellas & Padín, 2014). Para permitir aos turistas disfrutar de vários elementos como cultura, história, natureza, aventuras e espiritualidade existem rotas que impõem um atrativo turístico (Maak, 2009). Juntamente com a proteção do património cultural e natural, as rotas contribuem para o aumento das entradas, para o desenvolvimento das infraestruturas e por conseguinte para o aumento da qualidade de vida nas regiões pelas quais passam (Maak, 2009). Atualmente milhões de peregrinos realizam todos os anos peregrinações a diversos santuários por vários motivos (Torre et al ., 2010). Nesse sentido, o turismo religioso pode ser a principal atividade de uma cidade ou região. Porém mesmo fora dos destinos de peregrinação o lugar religioso fornece apoio ao produto turístico, originando um número considerável de visitantes, pois cada vez mais há um
20 aumento de turistas que não viajam apenas por motivos religiosos, mas sim culturais (Fernandes et al ., 2008). Este tipo de turismo pode representar a oportunidade considerável para o desenvolvimento de atividades turísticas, já que o turista com motivos religiosos resulta num turista mais fiel aos destinos de visita do que os turistas tradicionais e com outras motivações (Robles, 2001, citado por Torre el al. , 2010). Em volta de muitos santuários tem-se concentrado uma série de serviços diversificados, como visitas a museus, passeios, ou algum tipo de atividades com o objetivo de motivar uma maior estadia dos peregrinos (Torre et al ., 2010). Santiago de Compostela tem-se revelado como a cidade com maior projeção internacional do ponto de vista do turismo cultural, graças às estratégias de marketing implementadas em todo o Caminho de Santiago (Ledo et al ., 2007). Este afirma-se como um fator de desenvolvimento local em espaços rurais por onde passa (Pardellas & Padím, 2014), gerando novas perspetivas de desenvolvimento, agregando à identidade do local uma identidade cultural e valores que antes não eram percebidos ou utilizados pela população (Ledo et al ., 2007). Apesar de estar a atuar como fator de incentivo a iniciativas locais, é ainda insuficiente para gerar um processo de desenvolvimento local capaz de evitar o despovoamento da maioria das localidades por onde o Caminho passa. Mas a imagem de marca do Caminho constitui um valor intangível capaz de desencadear um novo processo no desenvolvimento local baseado no capital social que contribuiu para o sentimento de identidade e pertença (Ledo et al ., 2007). As rotas de turismo são vistas como áreas pelas quais as pessoas viajam, apesar de uma proporção de viajantes poder optar por ficar uma noite ou mais ao longo da rota (Denstadli & Jacobsen, 2011). Estas parecem ser uma oportunidade para áreas menos sazonais, mas com bons recursos culturais, atraírem turistas que têm interesses particulares e que para os satisfazer acabam por gastar mais dinheiro nesses locais (Meyer, 2004). Dentro da gama de possibilidades de aprovação da atividade turística de caráter religioso, pode-se somar a ativação ou a reativação de certas atividades, como é o caso da artesanal (Torre et al ., 2010). Mas também a promoção de recursos turísticos como os recursos etnográficos, recursos histórico-monumentais, recursos naturais e recursos históricoarqueológicos (Blas et al., 2011). Isso é propício para muitos dos peregrinos que procuram levar alguma lembrança ou deixar um voto (Torre et al ., 2010). No caso concreto do município de Barcelos a atividade artesanal existente e que se encontra em locais por onde o Caminho passa são os bordados e tecelagem, o ferro e derivados e a madeira, encontrando-se também no centro do município, no Posto
21 de Turismo, exposições de olaria e figurado ( Site da Câmara Municipal de Barcelos, consultado a 4/2/2021). Além disso, as diversas rotas de peregrinação que se realizam desde tempos imemoráveis, seguem guardando os seus valores e secretismos e vêm-se refletidas em expressões culturais atuais. Além de atraírem turistas para um determinado local, um dos principais objetivos das rotas, passa por disponibilizar várias atrações que de outra forma não teriam o potencial para atrair tantos turistas (Meyer, 2004). Ao investir nos seus recursos naturais, históricos, culturais, uma região pode desenvolver e consolidar-se como destino turístico, através da sua recuperação, reabilitação e revitalização. Segundo López et al . (2010), o aumento de popularidade que o Caminho alcançou, devese sobretudo ao trabalho que as autoridades e agentes locais realizaram para atrair peregrinos, desde a publicidade, à melhoria das infraestruturas que acolhem os peregrinos, pois são estes mesmos fatores que mantêm ativas muitas das pequenas aldeias que se encontram ao longo das rotas. Outro fator importante a salientar, prende-se com a crescente existência de associações que promovem as peregrinações em grupo, associadas a uma mentalidade que favorece a ligação com a natureza e que promove este tipo de rotas. Além de ser um promotor do desenvolvimento sustentável, o turismo ligado às peregrinações assume um papel de preservação de valores e tradições mantendo as memórias vivas (Lopez et al., 2010). Contudo, nada disto faz sentido se não existir inclusão e colaboração dos vários municípios numa estratégia única. Isto é importante para consolidar os destinos turísticos, que estão relacionados com diferentes municípios acarretando benefícios tanto para os municípios como para o destino (Pardellas & Padín, 2014). Uma avaliação correta dos impactes do turismo na economia, quer a nível local, regional e nacional é uma ferramenta importante, não apenas para as políticas de turismo ( marketing , infraestruturas ou planos de investimento), mas também dentro do contexto mais amplo dos planos de desenvolvimento, onde o turismo pode desempenhar um papel relevante, em interconexão com outros setores económicos. A promoção do Caminho de Santiago é algo que se concretiza há séculos e que tem envolvido a intervenção de múltiplos atores, desde imperadores e Papas até aos humildes peregrinos que fizeram o Caminho e que o difundiram nos seus locais de origem e de passagem (Sousa et al ., 2010). Atualmente, o Caminho de Santiago está presente nas políticas locais e regionais e a nível comunitário, no âmbito de desenvolvimento regional, tais como: cultura, património, economia, emprego, meio ambiente e turismo. Quanto ao desenvolvimento regional, permanece a necessidade de promover a
22 diversificação das atividades económicas, de criar novos empregos e de melhorar a qualidade de vida nas áreas rurais por onde passa o Caminho e que apresentam deficiências estruturais significativas, pela existência do declínio agrícola e por apresentarem deficiências estruturais nos principais fatores de competitividade, baixa dotação de capital físico e humano, falta de capacidade de inovação e falta de infraestruturas (Maak, 2009). O Caminho tornou-se um recurso cultural e uma atração turística, como um meio para promover o turismo, especialmente, na Galiza (Murray & Graham, 1997). Além de serem e representarem um símbolo da identidade europeia, os Caminhos de Santiago são uma estratégia de desenvolvimento turístico local, regional, nacional e internacional (González et al ., 2014). A doença COVID-19 abalou a Europa e o mundo em 2020 e continua a faze-lo em 2021. A maioria das atividades económicas sofrem com o impacte causado pela mesma. Desde as atividades turísticas ao setor da restauração ou alojamentos, os impactes são muito negativos e no caso do Caminho de Santiago e tudo o que o envolve, não foi exceção. A COVID-19 e o medo da doença afastaram a essência da partilha e do espírito que se vive ao longo do percurso. Além disso, a grande maioria dos albergues públicos estão fechados ou com capacidade muito reduzida e as igrejas ou capelas encontram-se fechadas. Segundo uma entrevista de Lusa Alberto Barbosa, o presidente da Associação dos Amigos dos Caminhos Santiago de Viana do Castelo, avançada pela TVI24, o movimento de peregrinos em 2020 caiu mais de 80% em relação ao mesmo período de 2019, no caso do Caminho Português da Costa (TVI24 consultado a 4/2/2021). No caso do Caminho Português de Santiago, de acordo com a entrevista de Celestino Lores, presidente da Federação Internacional das Associações de Amigos do Caminho Português de Santiago (FIACPS), à rádio Renascença, em 2020 “deveriam chegar mais de 100 mil peregrinos a Santiago de Compostela, através do Caminho Português” e se “chegaram dois mil, já é muito” ( Site da Rádio Renascença – consultado a 4/2/2021). Isto comprova o impacte negativo e a caída da peregrinação no que respeita à peregrinação até Santiago de Compostela. 1.4. Paisagem e sentidos ao longo da rota do Caminho de Santiago A definição de paisagem parece remontar ao século XVII (Santos, 1988). O termo paisagem é um conceito-chave que está presente desde várias ciências sociais à ciência geográfica e ecológica. As paisagens são áreas espacialmente heterogéneas. Caraterizam-se por um mosaico de manchas que divergem em tamanho, forma, conteúdo e história. Esta palavra pode dizer respeito a uma paisagem natural, a uma paisagem cultural, a uma paisagem política, a uma paisagem económica, a uma
23 paisagem mental ou a uma paisagem adaptativa. Os elementos que constituem a paisagem variam muito pela sua simplicidade e pelas suas componentes podendo ser classificados como tangíveis ou intangíveis, biofísicos ou culturais (Wu, 2013). Gibson & Carmichael (1966) foi o primeiro autor a aprofundar a relação entre os sentidos humanos e a compreensão do ambiente. Mas foi o autor Porteous (1985) que abordou a relação entre paisagem e os sentidos humanos e, posteriormente, apareceu o conceito de geografias sensoriais, com Rodaway (1994) aplicadas aos sentidos da visão, audição, olfato e tato. O mundo humano é construído e vivido através de emoções (Anderson & Smith, 2001) e conceitos como o espaço vivido e lugar vivido estão a renascer num ponto de vista centrado no ser humano (Tuan, 1976, 1977; Cloke et al ., 1991; Gregory et al ., 2009). E, por isso, todos os sentidos podem ser espacialmente ordenados ou relacionados a um local, ou seja, todos os sentidos têm as suas paisagens (Porteous, 1985). A dimensão da paisagem é o que chega aos sentidos (Santos, 1988). Estes funcionam como recetores de informação (Hones, 2015), mas nem todos têm o mesmo desempenho, no que toca a um indivíduo sentir um lugar (Tuan, 1977) ao qual estão conectadas emoções e/ou memórias (Hones, 2015). Os sentidos são uma forma de utilizar os corpos para explorar paisagens e realçar as suas qualidades sonoras, olfativas, gustativas e táteis (Everett, 2009; Dear et al., 2011). Rodaway (1994) relatou que as geografias sensoriais analisam a construção de paisagens tácteis, olfativas e sonoras que estruturam o ambiente e que os cinco sentidos são sentidos geográficos porque auxiliam na orientação do indivíduo no espaço, para uma consciência de relações espaciais e para uma apreciação das qualidades específicas de lugares diferentes. Deste modo, são as geografias sensoriais que permitem que os investigadores desvendem diferentes dimensões da experiência (Lefebvre, 1991). No que respeita aos cinco sentidos, Rodaway (1994), Degen (2008) e Helmreich (2010) afirmaram que a audição liga as pessoas ao mundo externo e que as paisagens sonoras proporcionam um envolvimento ativo com os locais, porque os sons têm origem de um determinado lugar (Schafer, 1985, 1994). O cheiro é significativo para os seres humanos e é o sentido mais básico e emocional que implica aprendizagem, antes de outros sentidos. Este, aliado ao paladar, é o responsável pelo sabor dos alimentos (Porteous, 1985). O toque envolve diferentes regiões de recetores corporais (Rodaway, 1994). Por seu turno, o sentido da visão é a dimensão sensorial mais imediata (Degen, 2008) e todos os sentidos do lugar têm sido dominados pelo visual (Howes, 2005). De acordo com
24 Rodaway (1994), o paladar é um sentido às vezes difícil de distinguir, pois atua junto com o olfato e de acordo com Everett (2009) o lugar é apreciado através do gosto. Apesar disso, Santos (1988) recordou que a paisagem é tudo aquilo que vemos e Cosgrove (1985) defendeu que é o individuo que tem controlo na forma como quer ver a paisagem, ou seja, escolhe o que mais lhe importa, assim como o que é atraente e importante. Por isso, afirmar que a paisagem é bonita ou feia, depende dos gostos pessoais de cada um, além de que o mesmo lugar é vivenciado de forma diferente por cada indivíduo levando a julgamentos diversificados acerca da paisagem (Daniel et al ., 1976). Atualmente, segundo Chronis (2015) e na sequência da perspetiva de Pile (2005) existe a discussão sobre a importância do corpo como um elemento móvel, como fonte da ação que se constrói e se relaciona com lugares e valida conhecimento. Aqui encaixam-se os turistas religiosos e os peregrinos, mais precisamente no caso da nossa investigação, acerca da rota dos Caminhos de Santiago, em que ao longo desta e através da peregrinação a perceção que os peregrinos têm de um lugar pode ser diferente e varia devido à influência de vários fatores, como a motivação ou a duração da rota. Além disso, os peregrinos realizam várias paragens ao longo do itinerário, seja para descanso, alimentação ou para apreciar a paisagem e as emoções por ela proporcionadas. Devido aos turistas religiosos ou peregrinos estarem em constante movimento, o apego a novos lugares é menos provável de ocorrer (Brett, 1982; Frank, 1992). O peregrino medieval não tinha sensibilidade relativamente às paisagens. Pelo contrário, o peregrino contemporâneo possui uma consciência e sensibilidade em relação às mesmas. Essa consciência da paisagem é um elemento de distinção da própria experiência (González & López, 2012). O Caminho, à medida que é percorrido pelo peregrino, atravessa espaços rurais e urbanos que se desenrolam como uma paisagem contínua. A mudança de espaços rurais para urbanos transmite uma sensação de movimentos pela paisagem, o que significa que esta não é um cenário fixo, mas sim uma visão em que se desenrola enquanto o peregrino caminha. Este é rico em paisagens simbólicas, como por exemplo, quando os peregrinos deixam uma pedra como um símbolo da sua oração (Lopez, 2019). Lopez (2019) afirma que explorar as interações corporais com o espaço através dos sentidos realça as emoções que contribuem para o significado do Caminho e destaca que há uma nova interpretação cultural das emoções, dos sentimentos e das sensações que são produzidas ao longo deste. Os sentidos, as orientações e emoções dos indivíduos são as vividas, percebidas e concebidas tendo em conta a narrativa acerca das dimensões espaciais do Caminho de Santiago e fornecendo
31 sagrados atuaram como autênticos catalisadores, não apenas para a atração de visitantes, mas também para o crescimento e desenvolvimento do setor (Solla, 2006). Todos esses eventos deram um grande impulso à peregrinação Jacobina (Sousa, 1999). O Caminho para Santiago é oferecido como uma rota cujo único objetivo é chegar a Compostela onde se exaltam valores tradicionais como o esforço ou o contacto íntimo com a natureza, o que facilita a comunicação com Deus. Numa ótica mais próxima do que poderia ser a atividade turística contemporânea, juntamente com o aspeto mais espiritual e tradicional, desenvolve-se uma perspetiva na qual o desporto, o meio ambiente e a cultura se destacam (Solla, 2006). Ainda segundo o mesmo autor, a igreja não deixa margem para dúvidas afirmando que cerca de 70% dos indivíduos que percorrem o caminho fazem-no por razões religiosas às quais outros 20% adicionados o fazem por razões religioso-culturais. Em 2006, o Observatório Turístico do Caminho, coloca a religião em sexto lugar, com apenas 21% dos indivíduos a realizar o percurso por motivos religiosos, ficando atrás de motivos como os espirituais, patrimoniais ou mesmo desportivos e de natureza (Solla, 2006). Em 2019 e segundo as estatísticas da Oficina do Peregrino, os principais motivos de quem percorre o Caminho são religiosos e de outro tipo, e seguem-se os motivos religiosos e, por último, os não religiosos. Os inúmeros caminhos de Santiago existentes em toda a Europa, incluindo o Caminho Português foram percorridos a pé ou a cavalo por muitos imperadores, Papas, reis, cavaleiros, nobres, padres, camponeses, mendigos, viajantes saudáveis, doentes, invisuais, viajantes com incapacidades físicas, ricos e sem-abrigo, por motivos maioritariamente religiosos (Fernandes et al ., 2012). Atualmente, além de o documento de identificação do peregrino ser designado de Credencial do Peregrino (Secall, 2009), as motivações dos peregrinos que percorrem o Caminho de Santiago, mudaram, sendo muito diversas (Lopez et al., 2010). O ano Jacobeu já não é apenas a comemoração religiosa do dia de Santiago e Compostela já não é uma cidade com o apelo religioso suficientemente importante para justificar toda uma política de turismo. Mesmo considerando as pessoas que fazem a peregrinação, confirma-se que a motivação religiosa não é a mais significativa (Solla, 2006). A cidade oferece cerimónias religiosas, património cultural religioso e não religioso, gastronomia, história, arte e música. É um espaço que cumpre diferentes funções: define um espaço sagrado, uma via de peregrinação atual e uma rota de turismo cultural de primeira magnitude da qual se conhece a meta, mas o início da rota não é claro (González & López, 2012).
32 2.1.2. Evolução e análise das estatísticas a Santiago de Compostela a nível internacional Neste sub item abordamos a evolução do Caminho, analisamos e comparamos os dados estatísticos dos peregrinos entre 2004 e 2019, ou seja, ao longo de 15 anos. O sexo, a idade, a profissão, os motivos, a nacionalidade dos peregrinos e os Caminhos a Santiago mais percorridos são as variáveis a que temos acesso através da publicação estatística da Oficina do Peregrino (2019). Ao analisarmos os dados referentes à evolução do número de peregrinos que percorreram os vários Caminhos de Santiago de Compostela existentes, desde 2004 a 2019 (Figura 1), constatamos um aumento significativo do número de peregrinos, sobretudo na década de 2010. É visível a existência de dois picos, nos anos de 2004 e de 2010 coincidindo com os Anos Santos, que ocorrem quando o dia 25 de julho é ao domingo. Figura 1 - Evolução do número de peregrinos entre 2004 e 2019 Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020. No ano de 2016 foi ultrapassado o número de peregrinos do Ano Santo de 2010 tendo o número recorde ocorrido no ano de 2019. Através da Figura 2 e da Figura 3 é notório que em 2004 o sexo predominante era o masculino (56%) e em 2019 o sexo feminino (51%). A diferença entre ambos os sexos é cada vez menor. Se em 2004 era de 12%, em 2019 foi de apenas de 2%. Esta diferença existe, pois, muitas mulheres há 15 anos atrás não arriscariam percorrer o Caminho sozinhas. Além disso, com o auxílio das novas tecnologias, nomeadamente aplicações de telemóvel, G.P.S. ou redes sociais, torna-se mais fácil a organização do percurso para se caminhar sozinho ou acompanhado 0 50000 100000 150000 200000 250000 300000 350000 400000 2000 2005 2010 2015 2020 Nº Anos
33 Figura 2 - Sexo dos peregrinos em 2004 Figura 3 - Sexo dos peregrinos em 2019 Através da Figura 4 e da Figura 5 é possível compararmos as idades dos peregrinos em 2004 e em 2019. Em 2004, mais de metade dos peregrinos que foram a Santiago tinham menos de 30 anos (54,8%), seguindo-se a classe entre os 30 e os 60 anos (37,1%). Em 2019 a tendência inverteuse, pois a classe etária dos 30 e os 60 anos aumentou sendo esta a classe mais representativa, com 54,5%. Os peregrinos com mais de 60 anos a percorrer o Caminho de Santiago também aumentaram (18,7%). Este último facto deve derivar, entre outros aspetos, do envelhecimento ativo a que se tem assistido e praticado nalguns grupos sociais, possibilitando que os mais idosos consigam continuar a realizar desafios como a realização do Caminho de Santiago. Por outro lado, destaca-se o facto de a classe etária dos 30 aos 60 anos representar a maioria de pessoas cuja situação socioeconómica é estável possibilitando um maior poder de compra. Importa não olvidar que o percurso do Caminho pressupõe, consoante a capacidade de cada indivíduo, um número significativo de dias de viagem. Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020. 56% 44% Homens Mulheres 49% 51% Homens Mulheres Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020.
34 Figura 4 - Idade dos peregrinos em 2004 Figura 5 - Idade dos peregrinos em 2019 Comparando a evolução tendo em conta a sua profissão, entre 2004 e 2019, aumentou o número de empregados, liberais e reformados tendo diminuído os estudantes e as outras profissões (Figuras 6 e 7). Em 2004 os estudantes representavam cerca de ¼ dos peregrinos a percorrer o Caminho, e em 2019, quase ¼ dos peregrinos eram empregados. O número de reformados/aposentados aumentou quase o dobro (Figura 7). Figura 6 - Profissão dos peregrinos em 2004 Figura 7 - Profissão dos peregrinos em 2019 54,8% 37,1% 8,1% Menores de 30 anos Entre 30-60 anos Maiores de 60 anos Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020. 26,8% 54,5% 18,7% Menores de 30 anos Entre 30-60 anos Maiores de 60 anos Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020. 18% 24% 14% 10% 13% 7% 14% Estudantes Empregados Liberais Técnicos Aposentados Professores Outros 25% 16% 13% 10% 7% 7% 22% Estudantes Empregados Liberais Técnicos Aposentados Professores Outros Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020. Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020.
35 No que respeita à motivação que leva os peregrinos a fazer os Caminhos de Santiago, constatamos que a mesma se alterou entre 2004 e 2019 (Figuras 8 e 9). Em 2004, cerca de ¾ dos peregrinos tinha como principal motivo da sua peregrinação o “Religioso” coincidindo com o facto de ter sido um Ano Santo. Por seu turno, em 2019 quase metade dos peregrinos tinha como principal motivo o “Religioso e outros”. Figura 8 - Motivação dos peregrinos em 2004 Figura 9 - Motivação dos peregrinos em 2019 Isto significa que o motivo “Religioso e outros” está a ganhar cada vez maior importância, pois os peregrinos acrescentam a essa motivação outros motivos, como os culturais, turísticos e de natureza. A motivação não religiosa também aumentou bastante entre 2004 e 2019. As Figuras 10 e 11 mostram a evolução dos peregrinos, em percentagem, por país de origem. Espanha é o país de origem da maioria dos peregrinos, contudo, na Figura 11, observa-se uma diminuição da percentagem de espanhóis e de franceses a percorrer o Caminho relativamente ao ano de 2004 (Figura 10). Isto acontece porque em 15 anos, a percentagem de peregrinos de outras nacionalidades (“Outros”) triplicou entre 2004 e 2019 (Quadros 1 e 2). É visível o aumento do número de peregrinos de todas as nacionalidades, embora, se destaquem nacionalidades como a italiana, a alemã, a americana ou a portuguesa e menos a francesa. Apesar de existirem cada vez mais peregrinos portugueses a percorrer o Caminho, Portugal continuava em 2019 a ser o quinto país com o maior número de peregrinos a chegar a Santiago de Compostela. 74,7% 19,7% 5,6% Religioso Religioso e outros Não religioso 40,3% 48,7% 10,9% Religioso Religioso e outros Não religioso Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020. Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020.
36 Figura 10 - Evolução dos peregrinos (em %) por país de origem em 2004 Quadro 1 - Número de peregrinos por país de origem em 2004 Figura 11 - Evolução dos peregrinos (em %) por país de origem em 2019 Quadro 2 - Número de peregrinos por país de origem em 2019 Fonte: Oficina do Peregrinos, 2020. Fonte: Oficina do Peregrinos, 2020. Relativamente ao número de peregrinos por Caminho percorrido, nota-se um grande destaque do Caminho Francês em comparação com os restantes (Figuras 12 e 13). Este é o Caminho mais percorrido essencialmente porque é o mais histórico, é descrito no Volume IV do Codex Calixtino , e está classificado como Património da Humanidade pela U.N.E.S.C.O ( Site O Caminho de Santiago). Apesar de na Figura 13 o Caminho Francês ter diminuído a sua percentagem, face ao que aparece na Peregrinos por país de origem País Número de peregrinos Espanha 137163 Itália 7670 Alemanha 6816 França 6567 Portugal 3252 Estados Unidos da América 2028 Outros 16448 Peregrinos por país de origem País Número de peregrinos Espanha 146350 Itália 28749 Alemanha 26167 França 9248 Portugal 17450 Estados Unidos da América 20652 Outros 98962 76,2% 4,2% 3,7% 3,6% 1,8% 1,1% 9,4% 0% 20% 40% 60% 80%100% Espanha Itália Alemanha França Portugal Estados Unidos da América Outros Percentagem (%) de peregrinos Países Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020. Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020. 42,1% 8,2% 7,5% 2,6% 5,0% 5,9% 28,7% 0% 10% 20% 30% 40% 50% Espanha Itália Alemanha França Portugal Estados Unidos da América Outros Percentagem (%) de peregrinos Países Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020. Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020.
37 77,0% 8,8% 3,9% 1,7% 2,7% 5,1% 0,8% 0% 20% 40% 60% 80% 100% Caminho Francês Caminho Português Caminho do Norte Caminho Inglês Caminho Primitivo Via da Prata (Vía de la Plata) Outros Percentagen (%) de peregrinos Caminhos de Santiago 54,6% 20,8% 6,4% 5,4% 4,5% 4,5% 2,6% 0,9% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% Caminho Francês Caminho Português Caminho Português da Costa Caminho do Norte Caminho Inglês Caminho Primitivo Via da Prata (Vía de la Plata) Outros Percentagem (%) de peregrinos Caminhos de Santiago Figura 12, ainda assim aumentou o número de peregrinos que o percorreu, entre 2004 e 2019. Isto significa que, o número total de peregrinos registados em 2019 era superior ao de 2004, mas que devido ao grande aumento de fluxo de outros itinerários principalmente o Caminho Português, o Caminho Português da Costa, ou ao Caminho do Norte, a distribuição de peregrinos por Caminho percorrido foi menos acentuada. Os restantes Caminhos, principalmente os portugueses estão a ganhar muito destaque relativamente aos restantes. Figura 12 - Evolução dos peregrinos por Caminhos a Santiago, em 2004 Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020. Figura 13 - Evolução dos peregrinos por Caminhos a Santiago, em 2019 Fonte: Elaboração própria com base na Oficina do Peregrino, consultado a 15 de fevereiro de 2020.
38 À exceção do Caminho da Via da Prata que diminuiu a afluência de peregrinos, todos os outros itinerários aumentaram em termos de afluência. Existe uma grande evolução dos Caminhos mais percorridos, nomeadamente o número de peregrinos a percorrer o Caminho Português a Santiago que aumentou 12% sendo este o segundo itinerário mais percorrido e o que apresenta uma mais elevada taxa de crescimento. Esta realidade deve-se à massificação do Caminho Francês, mas também ao facto de o peregrino querer percorrer novos itinerários ou de já ter percorrido o itinerário francês. O Caminho Português da Costa estava na classificação de “Outros” em 2004 e em 2019 tem um grande destaque, sendo o terceiro itinerário mais percorrido até Santiago de Compostela. 2.1.3. Itinerários existentes a nível internacional Santiago de Compostela é o núcleo para o qual convergiu e converge uma das estruturas de estradas ou caminhos e a partir do qual cada caminho cria uma área de influência ao seu redor, ao longo da sua rota (Otero, 2009). Existem vários caminhos internacionais, defendidos por vários autores, mas existem mais ainda, declarados no Site O Caminho de Santiago. Neste item é caraterizado cada um dos percursos. O itinerário começa em diferentes pontos da Europa ( Site O Caminho de Santiago). Atualmente, e segundo Otero (2009), (Quadro 3) são sete as rotas de peregrinação que convergem na cidade de Santiago de Compostela: 1-o Caminho de Ferrol e Coruña para Santiago; 2-o Caminho costeiro de Irún a Oviedo e de Oviedo a Santiago; 3-o Caminho de Oviedo a Santiago por Lugo; 4-o Caminho Francês; 5-o Caminho de Sanábria e Verín; 6-o Caminho Português; 7-o Caminho de Fisterra/Finisterra. A designação usada por Torre et al . (2010) é diferente identificando também sete percursos (Quadro 3). No que respeita a Pardellas et al . (2011), o número de Caminhos de Santiago é de dez (Quadro 3).
39 Quadro 3 - Rotas dos Caminhos de Santiago apresentadas por diferentes autores Fonte: Elaboração própria com base nos autores Otero (2009), Torre et al . (2010), Pardellas et al . (2011) e o Site O Caminho de Santiago. O Caminho Francês é a rota mais frequentada (Otero, 2009; Torre et al ., 2010 Pardellas et al ., 2011; Site O Caminho de Santiago ; Site Gronze; Oficina do Peregrino, 2019). É o itinerário Jacobeu mais reconhecido internacionalmente, com mais tradição histórica ( Site O Caminho de Santiago) e atravessa cerca de dois terços do território peninsular longe da costa tendo mais de 800km de extensão (Otero, 2009). As rotas provenientes de Itália ou do leste do continente europeu convergem em muitos outros locais da Europa, um deles, em França ( Site O Caminho de Santiago). Ao chegarem a território francês, formam-se por convergência quatro vias terrestres principais que cruzam os Pirenéus, a partir de Paris, Vézelay, Le Puy e Arles (cidades francesas) (Torre et al ., 2010). O percurso de Finisterra (Fisterra) e Muxía é uma espécie de epílogo à peregrinação a Santiago. A rota inicia-se na catedral de Santiago e termina no Cabo de Finisterra ou no Santuário da Rotas dos Caminhos de Santiago apresentados por diferentes autores Autores Nome do Caminho de Santiago Otero (2009) Caminho de Ferrol e Coruña a Santiago de Compostela Caminho costeiro de Irún a Oviedo (Ovídeo) e de Oviedo a Santiago de Compostela Caminho de Oviedo a Santiago por Lugo Caminho Francês Caminho de Sanábria e Verín a Santiago de Compostela Caminho Português Caminho de Fisterra/Finisterra Torre et al . (2010) Caminho Francês Caminho do Norte Caminho Primitivo Caminho Português Caminho Português da Costa Caminho Via de la Plata Caminho Inglês Pardellas et al . (2011) e Site O Caminho de Santiago Caminho Francês Caminho de Fisterra-Muxía Caminho Via de la Plata Caminho Português Caminho Inglês Caminho Primitivo Caminho do Norte Rota do Mar de Arousa e do rio Ulla Caminho do Inverno Caminho Português da Costa
40 Virxe da Barca de Muxía. Estes locais simbolizavam, na Idade Média, o fim da terra, mais propriamente, o fim do mundo ( Site O Caminho de Santiago). Este caminho distingue-se das outras rotas de Santiago, pois é o único que parte da cidade de Santiago. Outro caminho oficialmente declarado pelo Site O Caminho de Santiago e por Pardellas et al . (2011) é o chamado Via da Prata. A via foi traçada aproveitando caminhos mais antigos. O Caminho de Sanabria e Verín é uma variante do itinerário em questão, que em direção a sul articulava todo o tráfego do centro-oeste da Península Ibérica, de Sevilha a Mérida e Astorga (Otero, 2009). Há peregrinos que optam pelo percurso antigo e desde Sevilha e continuam até Astorga, e daí percorrem o itinerário do Caminho Francês. Por sua vez, existem peregrinos que optam pelo itinerário desde Sevilha até Zamora, seguindo por Puebla de Sanabria , Verín , Ourense chegando ao destino final – Santiago de Compostela. Portugal pode ser qualificado como a “terra dos caminhos”, assim como Espanha, pois surgiam peregrinos de todas as regiões para ir até Compostela. O Caminho Português é a rota de peregrinação que está mais a Sul. É paralela, em grande parte do seu percurso, ao percurso romano conhecido como Via Marítima (Otero, 2009). O itinerário Inglês tem duas alternativas: o itinerário a partir de Coruña até Santiago, que são 74,8 km ou desde Ferrol a Santiago que são 118,4 km, continuando juntos nos últimos 40,9 km até Santiago ( Site O Caminho de Santiago). Esta via também é destacada, devido à transferência do corpo do apóstolo Tiago ter sido feito por via marítima, penetrando na Galiza ao longo do rio de Arousa até Padrón (Torre et al., 2010). O Caminho Primitivo é o primeiro itinerário de peregrinação, sendo o mais antigo dos dez Caminhos declarados ( Site O Caminho de Santiago). No entanto, depois de León se tornar na nova capital do reino, os monarcas, nos séculos XI e XII, potenciaram o Caminho Francês como itinerário privilegiado ( Site O Caminho de Santiago). O Caminho do Norte prolonga-se pela área costeira do Atlântico Cantábrico e foi um dos mais movimentados nos primeiros anos de peregrinação, começando pelos monarcas da corte asturiana. À medida que a reconquista se movia para o sul, esse caminho foi quase substituído pelo Caminho Francês (Torre et al ., 2010). De acordo com Otero (2009), esta rota é composta por duas seções distintas. O setor desde a fronteira com a França até Oviedo (Ovídeo) e o setor de Oviedo até Santiago. A maior parte deste percurso não é de origem romana nem humana, pois é composta por relevo montanhoso, obstáculos interpostos por inúmeros rios, pelas entradas profundas dos estuários e pela
47 Depois de passar por cidades costeiras portuguesas, e de ser possível contemplar as praias de areia dourada, as suas dunas, o oceano Atlântico, pinhais, moinhos e fortalezas, bem como o património histórico e arquitetónico de vilas piscatórias e cidades, o Caminho retira-se de terras lusas, em Caminha e entra em terras da Galiza cruzando o rio Minho através do ferryboat chegando a A Pasaxe, na cidade de A Guarda. A partir daqui o Caminho é de 159,85km até Santiago de Compostela ( Site O Caminho de Santiago). Este trajeto é feito junto à costa, portanto, na direção oeste e continua transversal ao rio Minho até chegar ao seu estuário. A cidade de A Guarda desenvolveu-se no sopé do castro que se encontra no contorno do monte de Santa Trega, e daí parte-se, em direção a norte, para a cidade pesqueira de Oia, onde depois o percurso segue junto aos penhascos passando pelo farol do Cabo Silleiro, a sul da ria de Vigo, penetrando nesta (Site O Caminho de Santiago). Entra-se em Baiona, uma vila medieval profundamente ligada à descoberta da América, isto porque foi a primeira localidade a conhecer o sucesso da primeira viagem de Colombo à América, e onde se inicia a ria de Vigo que é protegida pelas Ilhas Cíes, famosas por serem o coração do Parque Nacional Ilhas Atlânticas. Depois de Baiona procede-se à subida ao monte de Sanromán, para se alcançar o município de Nigrán chegando-se depois a Vigo ( Site O Caminho de Santiago). Sai-se desta cidade por Teis e chega-se a Redondela onde esta rota converge com o Caminho Português ( Site O Caminho de Santiago). A partir daqui o mesmo percurso descrito no Caminho Português é o do Caminho Português da Costa. Segue-se a cidade de Arcade, Pontevedra, Barro, Portas Caldas de Reis Catoira, Padrón, Rua de Francos e Santiago de Compostela ( Site O Caminho de Santiago). 2.1.4. A nível nacional Desde o século XII, a peregrinação Jacobeia foi estabelecendo ligações espirituais, sociais, humanas, económicas, culturais e políticas entre Portugal e Espanha, que nunca se quebraram. Como exemplo disso, reis, nobres, altos clérigos contribuíram de modo eficaz para o consolidar da devoção Jacobeia. No século XIV, a Rainha Santa, D. Isabel de Portugal ofereceu a sua coroa ao altar de Santiago. Após a sua morte, foi enterrada em Coimbra com um cajado de peregrina ( Site O Caminho de Santiago). Em 1502, o rei Manuel I, peregrinou de Lisboa a Santiago de Compostela, e ordenou, que uma lâmpada iluminasse noite e dia o templo de Santigo, como recordação da sua instância em Compostela, ao qual também atribuiu uma renda anual. A importância do fenómeno Jacobeu em Portugal foi tal, que a própria rede viária se formou de sul para norte ( Site O Caminho de Santiago).
48 Marques (2000, pp. 13-14) refere-se às origens dos caminhos em Portugal argumentando que foi a partir do século XII que se destacou o Caminho de Coimbra a Santiago de Compostela realizado pela Rainha Santa Isabel. O mesmo autor, refere que bastantes peregrinos portugueses e até europeus escolhiam Lisboa, seguindo-se Santarém, Coimbra até ao Porto, sendo que na Idade Média também se podia seguir por Braga, Ponte de Lima e Valença até Santiago. Contudo, o caminho frequentado era o de Rates, Barcelos, Ponte de Lima, Valença até Santiago, havendo também quem percorresse o percurso pelo litoral. Dias (1994) mencionava, na década de 1990, que não existia apenas uma via medieval até Compostela. O que existia eram vários trechos ou ligações entre cidades. De acordo com Iglesias (2007), em Portugal, nunca existiu um caminho exclusivo e único de peregrinação até à catedral de Santiago de Compostela. Os peregrinos e todos os que, por razões várias, seguiam para terras espanholas, na Galiza, usavam uma rede complexa de caminhos. Muitos eram tão ou mais remotos do que a própria descoberta do túmulo do Apóstolo São Tiago. A rota que o peregrino seguia dependia de vários fatores, como: onde começava a peregrinação, se ao longo do trajeto existiam desvios associados a outros centros religiosos, se o objetivo da viagem era a descoberta das realidades locais, se era de cortesia política e senhorial, ou outro tipo de eventos (Iglesias, 2007). No decorrer da época medieval e moderna, quem seguia para Santiago de Compostela, através da rede viária existente, percorreu em parte o que restou do sistema viário romano, ao qual se adicionou uma complexa teia de caminhos que nos séculos seguintes se diversificaram e confundiram. Os destinos eram vários, não só a Santiago de Compostela, mas também se usavam as estradas para ir desde a Corte em Lisboa, à feira a Ponte de Lima ou Barcelos, assistir à Semana Santa em Braga ou negociar em Viseu. Assim, quando se fala em rede de caminhos romanos, medievais, ou modernos, significa que existe uma rede que se divide em principal e secundária, em regional e vicinal, estradas que ligavam os centros urbanos ou cujo objetivo era servir a igreja (Iglesias, 2007). A rede viária portuguesa sempre sofreu estrangulamentos exigidos pela geografia, como é exemplo, o norte e centro de Portugal, que é caraterizado por montes e montanhas, e o sul com grandes extensões aplanadas (Iglesias, 2007). Foi na época romana que foi desenhada a primeira rede viária. Na altura havia uma via estruturante que ligava Braga ( Bracara Augusta) a Lisboa ( Olisipo ) e outras que uniam Braga a Lugo, a Astorga e a Mérida, ou então que uniam Coimbra a Viseu e ainda outras de Lisboa até Mérida e a Mértola. Já na Alta Idade Média a rede romana continuou a existir no centro norte do país, sendo que a parte sul, da rede viária que existia foi modificada pela conquista árabe. Na Baixa Idade Média, a rede viária que se criou na época romana conservou-se, embora não
49 totalmente, pois a que servia povoações importantes como Lisboa, Évora, Braga, Viseu, Lamego, Guimarães, Chaves ou Coimbra, manteve-se, com algumas adaptações. A restante rede viária foi abandonada ou secundarizada, como aconteceu com a via que ligava Braga a Mérida por Guimarães, Marco de Canaveses e Viseu e à célebre Via Nova ou Geira, que foi rompida no tempo dos Flávios, a partir de Braga, para ir através do Gerês, pelo menos até Ourense (Iglesias, 2007). Na Idade Moderna, no reinado de D. Sebastião, o alerta para a rede viária foi realizado através de uma publicação, em 1571, de um livro de Francisco de Holanda acerca das estradas. Foi no reinado do seu filho, Carlos V, que se deu a construção de um alargado conjunto de pontes no interior do país. Apesar disto, foi na Idade Contemporânea que a política viária passou a ser da responsabilidade do Estado central. Foi lançado um programa de modernização da rede viária nacional no fim do século XVIII, que foi renovado no século seguinte depois da Regeneração e devido ao incremento dos melhoramentos públicos. O esforço para melhorar, de novo, a rede viária foi realizado no Estado Novo entre os anos trinta e quarenta e depois com a integração de Portugal na União Europeia (Iglesias, 2007). Segundo o autor Iglesias (2007) entre o século XV e o XVII os caminhos percorridos pelos viajantes internacionais que os relatavam eram quase sempre os mesmos. Se os viajantes entrassem em Portugal via marítima, o porto escolhido, normalmente era em Lisboa. Se pelo contrário fosse por via terrestre era pela fronteira de Caia, junto de Elvas. Ao longo da Idade Média e da Idade Moderna, a rede viária existente em Portugal deveu-se a vários de fatores que não têm uma relação direta com peregrinações nem com Santiago de Compostela. O que acontecia era que os que peregrinavam, independentemente da nacionalidade, eram favorecidos por um serviço que foi estabelecido e desenvolvido por interesses diferentes. Os almocreves foram os responsáveis pelo proliferar dos caminhos na Idade Média. Raramente viajavam sozinhos e traçavam sempre trajetos. Eram estes que faziam as ligações pelo interior e litoral, mas devido às vias públicas terem portagens instituídas pelo poder real e as estradas concelhias serem proibidas aos estranhos no município, começaram a surgir itinerários alternativos, sendo numerosos os caminhos que foram inventados (Iglesias, 2007). Na rede de caminhos destacaram-se povoações que foram verdadeiras encruzilhadas, umas mais no interior, outras junto ao litoral, como é exemplo Évora, Lisboa, Coimbra, Viseu, Porto e Braga, localidades essas onde se uniam eixos viários que articulavam as redes regionais e municipais (Iglesias, 2007). Partindo do Algarve saíam dois itinerários principais ao longo da costa ocidental, dirigindo-se a Odemira e Santiago de Cacém e o outro, à vista do rio Guadiana, até Mértola passando por a Beja e
50 Évora. Quem partisse do centro de Faro, Loulé ou Olhão ou circundava a serra do Caldeirão para apanhar o itinerário em Santiago do Cacém, seguindo tinha duas alternativas: São Bartolomeu de Messines e Ourique ou então dirigia-se para este até ao Guadiana. Independentemente destes, Ourique, no Baixo Alentejo, concede uma segunda reflexão, uma vez que dai saiam estradas para Santiago do Cacém, com destino a Lisboa, ou a Beja e a Évora (Iglesias, 2007). Évora era a cidade-chave do Alentejo, pois lá iriam ter os itinerários oriundos do sul, saíssem eles do Barlavento, do Sotavento algarvio e os que faziam a triagem da Andaluzia com a direção de Lisboa. Era por Évora que se fazia a distribuição do tráfego para Coimbra (via Tomar) para Lisboa (por Montemor-o-Novo) e para o interior beirão e transmontano (através de Estremoz e de Vila Velha do Rodão) (Iglesias, 2007). Lisboa, era o grande centro recetor e distribuidor de tráfego. Lá chegavam os indivíduos, viessem de barco ou pelas estradas que surgiam do sul. Estradas essas vindas de Setúbal, de Évora e Elvas. A acrescentar as que ligavam a capital ao centro e norte do país e cuja mais percorrida ia por Alverca, Santarém, Tomar, Alvaiázere, Coimbra, Albergaria Arrifana até ao Porto. A outra é mais costeira, vai por Sintra, Torres Vedras, Alcobaça e Leiria, articulando-se com anterior em Coimbra (Iglesias, 2007). A Coimbra chegava as estradas de Lisboa e do Porto. Desta partia uma outra estrada, para o interior beirão que, por Mortágua e Tondela, sobre o Douro chegava a Viseu e a Lamego (Iglesias, 2007). Pelo centro do país, uma estrada parte de Vila Velha de Ródão, sobre o Tejo, passava em Castelo Branco e ao chegar as imediações da Covilhã desviava-se da Serra da Estrela por Belmonte. A norte a estrada chegava à Guarda, bifurcando-se de seguida em três variantes: numa das estradas chegava-se mais a fronteira, pois ia por Pinhel e Figueira de Castelo Rodrigo, antes de atingir o Douro na Barca de Alva, outra direcionava-se a Marialva e Vila Nova de Foz Côa, para atingir o Vale da Vilariça no Pocinho, e a terceira rumava em direção de Trancoso e Sernancelh juntando-se, em Lamego, à aquela que vinha de Coimbra (Iglesias, 2007). Partindo do Porto, mais a norte do rio Douro, as vilas e cidades eram várias, como o Porto, Vila do Conde, Barcelos, Braga, Guimarães, Viana do Castelo, Ponte de Lima, etc , sendo a que mais se afirmou ao longo da Idade Média foi a do Porto. Daqui saíam e chegavam estradas do vale do Douro e de Vila Real, ou seja, do interior transmontano mais as vinhas do sul, de Lisboa ou de Évora, via Coimbra. Do Porto saíam estradas que percorriam todo o Minho. De todas as estradas, a mais percorrida por quem peregrinava a Santiago de Compostela foi a que, chegava a Barcelos, pela Ponte
51 do Ave, e depois a Ponte de Lima e Tui. Contudo, é de destacar que Braga era um importante centro religioso, dispondo de diversos atrativos e com um destacado passado histórico, pois foi capital dos romanos como Bracara Augusta e depois capital do Reino Suevo na primeira fase da germanização da Península Ibérica (Iglesias, 2007). O planalto transmontano era atravessado por quatro estradas diferentes. A mais oriental decalcava a antiga estrada romana de norte-sul e que depois incidia para nascente, onde se encontrava com a Via de la Plata, que passava além de Miranda do Douro. A estrada mais central vinha do vale da Vilariça e de Macedo de Cavaleiros e atingia Bragança. O segundo trajeto, com duas versões, atravessava o planalto na diagonal, de Bragança à fronteira de Chaves, pela aquela que era antigamente a velha via romana Astúrica Augusta (Astorga)-Bracara Augusta (Braga). O terceiro itinerário transmontano era o mais ocidental, e que numa das estradas que chegavam a Lamego, os peregrinos passavam o Douro perto da Régua, para depois subirem a serra por Santa Marta de Penaguião, Vila Real e Vila Pouca de Aguiar até Chaves. Ao atingir a fronteira a circulação era mais simples, seguindo-se depois Santiago de Compostela (Iglesias, 2007). A Figura 14 e Quadro 8 quais os quatro principais itinerários portugueses atuais: o Caminho Central Português, o Caminho Português do Norte, o Caminho Português da Costa e por último, o Caminho Português Interior de Santiago. Ambos são imprescindíveis para melhor perceber e contextualizar os percursos que irão ser caraterizados tendo em conta a sua história, o seu trajeto e as suas variantes. Figura 14 - Os quatro principais Caminhos de Santiago em Portugal Fonte: Site Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Viana do Castelo, consultado a 30 de março de 2020.
52 Quadro 8 - Início e fim das principais rotas portuguesas Início em Portugal Fim em Portugal Início em Espanha Fim em Espanha Caminho Central Português Lisboa Porto Tuy Santiago de Compostela Caminho Português do Norte Porto Valença do Minho Tuy Caminho Português da Costa Porto 3 alternativas: Caminha (a mais usada), Vila Nova de Cerveira ou Valença do Minho A Guarda Caminho Português Interior de Santiago Viseu 3 alternativas: Chaves: Vilarelho da Raia (a mais usada), Seara ou Velha ou Ervededo Verín Fonte: Elaboração própria com base em Site O Caminho de Santiago ; Associação de Peregrinos Via Lusitana, consultado a 30 de março de 2020; Rato (2006); Pereiro (2019). 2.1.4.1. Caminho Central Português O Quadro 9 contextualiza o percurso do Caminho Central Português. Quadro 9 - Principais caraterísticas do Caminho Central Português Distância 368 km (Lisboa-Porto); Duração (tempo) 13 a 15 dias Etapas 13 Ponto mais alto 474,8 m em Alvaiázere Atrativos Parque das Nações; Rio Tejo; Torre Vasco da Gama; Museu do Ar, Sé de Lisboa; Capela Nossa Senhora da Conceição do Portal; Capela São Lourenço; Capela de São Pedra; Pontes; Igreja gótica de Santa Cruz em Alcáçova; Igreja Matriz de Reguengo; Capela do Espírito Santo de Reguengo; Santuário da Senhora do Socorro; Quinta da Cruz da Légua Quinta da Boavista; Cruzeiros; Praça Oliveira Martins; Praça de Toiros Palha Blanco; Praça do Comércio; Estátuas; Antiga cidade romana de Conímbriga; Santuário de Nossa Senhora das Febres; Antigo Mosteiro de Grijó; Observação A partir do Porto a rota designa-se por Caminho Português do Norte. Fonte: Site O Caminho de Santiago; Rato (2006); Associação de Peregrinos Via Lusitana consultado a 30 de março de 2020. De acordo com o Site Visit Portugal, o Caminho Central Português inicia-se em Lisboa e vai até ao Porto, e a partir daí o itinerário designa-se de Caminho Português do Norte. Internacionalmente o
53 Caminho Português Central e o do Norte são designados de Caminho Português. Tendo isso em conta, este percurso apenas diz respeito ao itinerário desde Lisboa ao Porto. O Caminho Central Português coincide até Santarém com o Caminho do Tejo, o de peregrinação a Fátima. Com início na Sé de Lisboa, segue à beira do Rio Tejo por Alverca, Vila Franca de Xira, Azambuja, Santarém, Golegã e Tomar, antiga sede dos Templários em Portugal. Dali continua para Coimbra, passando por Alvaiázere, Ansião e Rabaçal. Continua-se em direção a norte onde a rota segue por Mealhada, Águeda, Albergaria-a-Velha, São João da Madeira, Grijó, até entrar no Porto ( Visit Portugal). Desde Lisboa ao Porto este trajeto te cerca de 368km ( Visit Portugal). O Caminho Central Português juntamente com o do Norte, até Santiago de Compostela, tem um comprimento total de 610 km ( Site O Caminho de Santiago). De acordo com Rato (2006) o caminho inicia-se na Sé Catedral de Lisboa em direção a Alfama, seguindo-se o Parque das Nações continuando pela Alameda de Oceanos até ao Pavilhão de Portugal onde começa o Caminho do Tejo, para Fátima. Mais adiante, atravessa-se uma linha férrea, pela ponte pedonal junto da estação, e entra-se em Alverca. Segue em direção a Vila Franca de Xira, pela estrada nacional 10, até Castanheira do Ribatejo continuando a itinerário até Azambuja (Rato, 2006). Desde Lisboa até a Azambuja, o peregrino já percorreu 58,9 km. Ao partir da Azambuja, o caminho faz-se por uma estrada pedonal, uma alcatroada, um caminho em terra batida em direção a Reguengo, até chegar a Santarém pela Calçada da Junqueira (Rato, 2006). Depois de Alcáçova chegase à Golegã e aqui já foram percorridos cerca de 61,8 km, desde a Azambuja. Deixa-se a Golegã, seguindo-se Tomar e depois de vários quilómetros o caminho chega a Alvaiázere. A partir do Largo da Igreja, sai-se de Alvaiázere, percorrendo depois uma estrada medieval entre a floresta em direção a Ansião (Rato, 2006). É pela Ponte da Cal que se parte de Ansião, seguindo-se depois Casais da Granja e Junqueira e Rabaçal partindo depois entre terrenos parcelados por muros ao encontro da via romana, para Zambujal. Passa-se por Casas do Poço e chega-se à antiga cidade romana de Conímbriga. Partese para o centro de Coimbra onde existe a Praça do Comércio/Praça Velha, onde se encontra o antigo Hospital Real do século XVI e a Igreja de Santiago datada do século XII. Desde a Golegã até Coimbra já se percorrem mais 120,8 km (Rato, 2006). Chega-se a Mealhada através da Ponte da Ribeira da Lendiosa, prossegue-se para Alpalhão, Aguim, Anadia, Arcos, Avelãs do Caminho, Águeda de Baixo e passado 4 km, atravessando a ponte para o Largo Elizeu Sucena chega-se a Águeda, onde já se percorreram cerca de 47,5 km desde Coimbra. Dali para Albergaria-a-Velha seguindo-se depois em direção a Bemposta, Oliveira de Azeméis rumo a São João da Madeira, Arrifana, Souto Redondo, Lourosa, Mozelos e Grijó. Entra-se mais tarde, em Vila Nova de Gaia atravessando a Avenida da
54 República percorrendo o tabuleiro da ponte D. Luís e entra-se no Porto. Ao subir, a Rua dos Mercadores até à Rua da Bainharia encontra-se vindo da direita o Caminho de quem inicia o seu caminho na Sé do Porto. É aqui que o Caminho Central Português se encontra com o Caminho Português do Norte seguindo através deste até Santiago de Compostela. Desde Águeda ao Porto foram percorridos cerca de 79km (Rato, 2006). 2.1.4.2. Caminho Português do Norte A caraterização do Caminho Português do Norte é o seguinte tema a ter em conta. Através do Quadro 10 são referidas algumas caraterísticas e atrativos deste percurso, mas também irá ser realizada uma descrição breve do itinerário até Santiago de Compostela. Este percurso apenas diz respeito ao itinerário desde o Porto a Santiago de Compostela. Quadro 10 - Principais caraterísticas do Caminho Português do Norte Distância 242,1 km Duração (tempo) 12 a 15 dias Etapas 11 Ponto mais alto 392 m Serra da Labruja Atrativos Sé do Porto; Igreja da Misericórdia; Igreja do Carmo; Igreja das Carmelitas; Igreja de Cedofeita; Igreja de Rates; Igreja de Pedra Furada; Igreja Matriz de Barcelos; Igreja de Vila Boa; Igreja Matriz de Labruja; Igreja românica de Rubiães; Catedral de Tuy; Igreja de São Domingues; São Bartolomeu; Capela do Senhor do Socorro; Capela Nossa Senhora das Brotas; Capela Nossa Senhora da Guia; Capela Santa Cruz das Coutadas; Senhor dos Aflitos; Virgem da Guia em Porrinõ; Santa Marta; São Bento; Santuário de São Pedro da Porta Aberta; Ermida de Nossa Senhora da Franqueira; Plaza de Ferréria, Praça do Obradoiro; Padrão da Légua; Convento do Bom Jesus (da Franqueira); Convento de São Francisco; Convento de Santo António dos Capuchos; Castelo de Faria; Mosteiro de Leça do Badio; Mosteiro de Araújo; Ruinas da antiga estalagem das Pulgas; Pontes D. Zameiro; Ponte São Miguel dos Arcos; Ponte das Tábuas; Ponte Internacional de Tuy; Rio Ave, Cávado, Minho, Lima e Labruja; Fonte de Las Burgas; Pelourinho; Ruinas do Antigo Paço Bucal; Convento de As Clarisas em Tuy; Igreja barroca de Santa Olaia; Convento de Vilavella; Castro de Santa Tegra; Igreja de San Salvador de Coruxo; Capela de As Angustias; Igreja paroquial de Briallos; Igreja de Santa María de Caldas; Antigo porto de Padrón; Santuário de A Escravitude. Observações Em Redondela, Espanha, este itinerário encontra-se com o Caminho Português da Costa. Fonte: Site O Caminho de Santiago; Rato, (2006); Associação de Peregrinos Via Lusitana consultado a 31 de março de 2020.
55 Tal como referido anteriormente por já ter sido realizada uma abordagem histórica acerca do Caminho Português, nos itinerários internacionais, esse tema não será aqui mencionado. A entrada em Espanha deste Caminho já foi descrita em cima, ao abordar todos os itinerários internacionais, no tema “Caminho Português de Santiago”, com base na perspetiva do autor Otero (2009) e no tema “Caminho Português de Santiago da Costa” com base no Site O Caminho de Santiago. A Antiga Estrada Real, nome pelo qual eram conhecidas as estradas que faziam parte da Rede Rodoviária Nacional de Portugal, e que a partir de 1910 se designaram de Estradas Nacionais, é a rota por onde segue o Caminho Central Português, e que quando chega ao Porto se designa de Caminhos do Norte, une o Porto, Barcelos, Ponte de Lima e Valença do Minho (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). Este é o itinerário nacional mais antigo e que tem início no Porto ( Visit Portugal), e serve de espinha dorsal dos Caminhos Portugueses de Santiago (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). Grande parte desta rota terrestre, assenta em antigas rotas que atravessam áreas florestais e agrícolas, aldeias, vilas e cidades históricas e pontes (algumas de origem romana) deparando-se com igrejas, capelas, alminhas, conventos e cruzeiros. Ao longo dos anos, o traçado sofreu diversas alterações devido ao desenvolvimento urbano dos territórios que a rota atravessa (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). Esta rota tem várias alternativas de traçado, uma delas do Porto a Braga, e daí a Ponte de Lima para continuar o percurso principal e a outra alternativa conhecida como “Caminho do Norte” ou de “Nossa Senhora do Norte” que, a partir de Barcelos se desvia para oeste, pela aldeia de Lanheses, e continua a subida para norte até Vila Nova de Cerveira (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). No que respeita à variante que segue por Braga, esta cidade fortalece o papel de origem romana, bem comunicada através vias antigas, sendo a única com Sé arcebispal até o Porto no século XIII, se consolidar como principal centro onde se unem os Caminhos oriundos de Lisboa e Coimbra. A partir do Porto, aparecem três caminhos que atravessam Barcelos, Braga e Guimarães. O percurso de Barcelos, tornou-se na rota favorita durante três seculos, no período baixo-medieval (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). O de Braga tem origem romana na calçada do trajeto Cale-Bracara e foi o central e o que teve mais concorrência até ao início do século XIII. O percurso de Guimarães parece ser auxiliar ao de Braga, como um desvio à devoção da Senhora da Oliveira e São Torcato. Existem variantes muito secundárias, como a de Monção, que passava por Dume, Regalados, Nóbrega-Ponte da Barca e Arcos de Valdevez, com difícil continuidade na Galiza,
56 bem como, a Via Romana que a partir da ponte do Prado se dirigia a Terras do Bouro, seguindo por Vilarinho das Furnas, São Bento da Porta Aberta, Albergaria e Portela do Homem. Devido à danificação da via romana da Portela do Homem, mas também devido à destruição, antes do século XII, da ponte sobre o Cávado, a via de Monção, substituiu a da Portela do Homem, pois a primeira, a partir do século XV, substituiu as travessias de barco, por pontes sobre o Cávado e o Lima (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). Com saída no Porto, o Caminho também partia para o porto de Matosinhos e Ponte de Ave e Barcelos, e o de Braga se separa destes três, no centro do Porto, seguindo em direção à igreja da Lapa até à ponte da Lagocinha, sobre o rio Ave. A partir dali, existe uma variante, para Braga por Vila Nova de Famalicão, chegando a Ponte de Lima. A entrada nesta vila, para o recinto em volta de muros é realizada pela Porta de Braga, e lá o percurso já coincide com o de Barcelos, continuando juntos até Ponte de Lima (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). Relativamente à Via de Guimarães, considerada como secundária, quando se desloca do Porto continuava por Ferrarias, Roriz, e Santo Tirso, e de Guimarães para Braga por Caldas das Taipas e Sande, chegando a Braga pela Porta de Santiago (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). A variante do “Caminho do Norte” ou de “Nossa Senhora do Norte”, desvia-se em Barcelos, para oeste, seguindo para Lanheses, continuando até Lanhelas e Vila Nova de Cerveira e aí cruza a fronteira ou continua pela margem do Minho até Valença, onde se junta ao Caminho principal (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). Neste percurso circulavam, entre os séculos XII e XIII, os mercadores das antigas e importantes feiras de Ponte de Lima e Caminha, os romeiros de S. João d’Arga, do Senhor da Saúde de Sá e os peregrinos a Santiago e também existia o Santuário de Nossa Senhora do Norte. Esta variante, tem início em Barcelos, passando por Fragoso, Barroselas, Vila de Punhe, Portela Susã, Deucriste, Deão, Geraz do Lima, a barca do Lima, Lanheses, Amonde, Orbacém, a Senhora da Serra, Azevedo e Venada, continuando para Vilar de Mouros, chegando a Vila Nova de Cerveira (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). De acordo com o Site Portugal Green Walks , a cidade do Porto nasceu e desenvolveu-se na Idade Média, sendo das mais antigas da Europa. As contínuas ocupações nesta cidade originaram a que se concentrasse inúmeros interesses sociais e económicos que amplificaram e alteraram a cidade. Sendo um lugar que conta com mais de mil anos, dispõe de variados edifícios e monumentos históricos, sendo a sua malha urbana exemplo disso mesmo acrescentando o valor estético e
63 do cristianismo (Pereiro, 2019 baseado em Charpentier, 1971). A ligação histórica deste percurso com o culto de Santiago, está atualmente destacada no Centro e Norte de Portugal, principalmente, no interior do país, através de elementos patrimoniais, especialmente igrejas, capelas e topónimos que mostram o seu legado histórico-cultural (Pereiro, 2019). O Caminho Interior ganhou nova vida devido à sua revitalização feita, no século XXI, com a colocação de sinalética orientadora e a abertura de albergues para os peregrinos ( Visit Portugal), mas também devido à inspiração do livro, em 1995, do professor Arlindo de Magalhães Ribeiro da Cunha sobre a história dos caminhos portugueses de Santiago, devido à realização de uma caminhada feita num troço deste caminho em 2000 de Cidadela de Aguiar até Sabroso de Aguiar, uma exposição fotográfica, em Vila Pouca de Aguiar em 2011, sobre os caminhos jacobeus e a realização de um protocolo de cooperação entre os municípios desta rota para igualar a sinalética da mesma (Pereiro, 2019). Viseu tem origem por volta dos 3000 a.C., a importância do caminho, nesta cidade, deve-se ao seu desempenho ao longo da história, à sua antiguidade, pois era lá o ponto de encontro dos aminhos que comunicavam o centro e o sul do país com o Alto Douro e Trás-os-Montes (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). A rota ascende pelo interior de Portugal, pela região de Trás-os-Montes e Alto Douro, coincidindo com caminhos agrícolas e antigas vias de origem romana e medieval, encontram-se numerosas capelas e santuários, muitos dedicados ao Apóstolo Santiago, assim como cruzeiros e alminhas (Caminho de Santiago/Estudos dos traçados no Norte de Portugal, 2015). Este itinerário cruza oito municípios: os de Viseu, Castro Daire, Lamego, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião, Vila Real, Vila Pouca de Aguiar e Chaves, continuando até Santiago de Compostela, e por 129 freguesias, penetrando por centros históricos de várias cidades, atravessa montanhas, como a de Montemuro, em Castro Daire, passa pelo coração do Alto Douro Vinhateiro, que é Património da Humanidade declarado pela U.N.E.S.C.O., nos concelhos de Lamego, Peso da Régua, Santa Marta de Penaguião e Vila Real, cruzando depois as montanhas em Vila Real, mais concretamente em Alvão, em Vila Pouca de Aguiar, na Padrela, chegando a Chaves seguindo para Espanha. Esta rota percorre 205 km de Viseu até Chaves, no território português, e 182 km desde a fronteira com a Galiza, em Vilarelho da Raia, até Santiago de Compostela, utilizando a Via da Prata (Verín – Ourense – Santiago de Compostela) (Pereiro, 2019). De acordo com Pereiro (2019) que se inspirou no guia do Prof. Arlindo Cunha, as etapas deste caminho vão desde Fontelo, em Viseu, Almargem, Ribolhos, Bigorne, Penude, Bertelo, Vila Real,
64 Parada de Aguiar, Vidago, Chaves, Verín. A rota, tem início em Fontelo, e sai de Viseu pela Cava de Viriato, onde, encontra duas alternativas ao seguir a Estrada Velha. Uma das alternativas vai pela direita em direção à Rua de Santa Amélia e a outra continua para o centro da Freguesia de Abraveses encontrando-se depois as duas alternativas à Escola Preparatória de Abraveses. Segue pela Quinta da Corga, e cruza a estrada IP5, continuando para Moure da Madalena e Moure Calvalhal, e aqui existe a presença de Santiago, através de umas alminhas com a Cruz de Santiago (Pereiro, 2019). O percurso transita entre estradas nacionais, caminhos de terra e monte até chegar de Castro Daire a Lamego. Dirigindo-se para Cinfães, Mezio, passando por Maqueijinha, Matança, até Lamego de onde se destaca a Catedral dos Remédios e desta cidade em direção a Souto Covo. Partindo daqui continua-se para a Régua, até Vila Real. O itinerário continua até Vila Pouca de Aguiar descendo até Cidadelhe, onde se passa a ponte entrando depois numa antiga estrada romana até Pedras Salgadas, passando depois por Águas Romanas. Atravessa-se a estrada nacional de Chaves subindo-se o alto de Reigás descendo até encontrar uma pequena bifurcação para Oura e daí para Salus chegando depois a Vidago. O Caminho continua até encontrar a igreja neo-românica, e em estrada nacional chega-se a Valverde Pereira de Selão e Redial, onde se situa uma Capela dedicada a Santiago. Segue-se até Vila Nova de Veiga em estrada nacional até Chaves (Pereiro, 2019). A partir de Chaves existem três alternativas para chegar a território espanhol, são elas por Vilarelho da Raia, por Seara Velha, e por Ervededo. A alternativa por Vilarelho da Raia, segue em direção a Outeiro Seco, passando perto da igreja de Nossa Senhora da Azinheira, até à Senhora da Portela, seguindo depois para Vilarelho da Raia cuja igreja tem uma imagem de Santiago, cruzando a fronteira até Rabal (Pereiro, 2019). A segunda alternativa parte em direção Vale de Anta, Soutelo, e Seara Velha, continuando até ao santuário da Senhora da Aparecida, e da Senhora das Necessidades, passando depois por Meixido, atravessando a ponte de Assoreira e a Ponte de Chaves até chegar a Vilar de Perdizes, cruzando a fronteira até Xironda . Ao escolher esta alternativa, caso esteja em mau estado e intransitável, é possível uma outra, desde a Capela de Nossa Senhora das Necessidades até Castelões, voltando a Meixido em direção a Soutelinho da Raia até à Ponte de Assoreira (Pereiro, 2019). Por último, a terceira possibilidade deixa Chaves pelo quartel em direção a Montalegre, até Soutelinho e Couto de Ervededo atravessando depois a ponte de Santiago, continuando até Agrela e Cambedo onde pouco depois atravessa a fronteira até Casas dos Montes (Pereiro, 2019). Abordando uma visão diferente, o mesmo autor (Pereiro, 2019), ao ter em conta o guia do historiador Paulo Almeida Fernandes refere que o início do percurso aqui em questão, é o mesmo que é proposto pelas autarquias (início em Farminhão), contudo, o que é proposto pelo historiador é mais
65 concreto, defendendo que o itinerário se inicia no Montebelo Golfe , a 3 km de Farminhão, na fronteira com Tondela (Pereiro, 2019). Adicionando a isto, todo o trajeto percorrido em território português é diferente da proposta de Arlindo Cunha de Magalhães e pelo Eixo Atlântico, mas idêntico à dos municípios. Outra diferença apresentada por Pereiro (2019), é que a proposta do historiador difere da do Arlindo Cunha em que a rota não acaba na fronteira, mas que continua por esta chegando a Verín. O guia do historiador junto com o do Eixo Atlântico e com o guia oficial dos municípios promove apenas uma variante para atravessar a fronteira, que é a de Vilarelho da Raia (Pereiro, 2019). As diferenças visíveis na interpretação da rota são “uma interpretação contemporânea da proposta de percurso do Prof. Arlindo Cunha” (Pereiro, 2019). 2.2. Notas conclusivas Desde a Alta Idade Média, apoiados por uma rede viária antiga, de origem romana, que Santiago de Compostela é o centro de vários caminhos de peregrinação. O renascimento do Caminho, no século XX, pode ser explicado por diversos fatores, como o uso do santuário como referente tradicional dos setores mais reacionários da Igreja Católica e do regime de Franco, e desde 1970, quando o Caminho foi redescoberto como uma expressão da unidade da Europa Ocidental. Foi a partir dos anos 90 que, o Caminho teve um aumento de peregrinos exponencial. Desta forma, a peregrinação a Santiago tornou-se a maior de todas as que ocorrem na Europa, onde a decisão de percorrer os Caminhos envolve uma mudança na vida de alguém se familiarizando com a herança cultural e passando por uma poderosa experiência interna. Atualmente, a peregrinação a Santiago está, de certo modo, relacionada com a nova natureza do turismo no século XXI, que procura evitar a massificação e romper com a realidade da vida quotidiana. Os caminhos mais importantes foram utilizados pelos peregrinos na ida e volta do caminho, no entanto, existiam exceções como quando uma viagem foi feita a outro centro de peregrinação, como por exemplo, às relíquias da Arca Sagrada de São Salvador de Oviedo. Das dez rotas oficiais dos Caminhos de Santiago, as rotas de curta distância, são consideradas os percursos de diferentes portos de embarque e desembarque localizados na Galiza ou mais ou menos perto de Portugal. No que respeita aos restantes percursos, esses, são de maior distância, pois têm início noutra parte da Europa ou Península Ibérica, fazendo-se em direção Este-Oeste. Apenas um dos itinerários, tem início em Santiago de Compostela como fonte de peregrinação, e termina em Fisterra ou Muxía . No que diz respeito aos Caminhos portugueses, é importante ter em conta e em atenção que o Caminho Português do Norte é a continuação do Caminho Português Central, isto significa que, que
66 quando chega à cidade do Porto altera a sua designação. Os dois itinerários formam o Caminho Português a Santiago. Tendo isto em conta pode afirmar-se que são quatro os itinerários portugueses, sendo que o mais longo é o Caminho Português Interior de Santiago, seguindo-se do Caminho Central Português, o Caminho Português pela Costa e o Caminho Português do Norte. Sendo quatro as rotas principais, são várias as variantes ou vias que se ramificavam por Portugal até Santiago de Compostela. A cada ano que passa aumenta o número de peregrinos a percorrer os Caminhos de Santiago, que vêm de qualquer parte do mundo, desde Panamá, Iémen ou Nova Zelândia. As rotas estão cada vez mais reconhecidas e o próprio perfil de peregrinos e a sua motivação se alterou. O sexo feminino aumentou muito na realização das rotas, os motivos deixaram de ser apenas religiosos e são cada vez mais os motivos religiosos e outros, e deixaram de ser apenas os mais jovens a percorrer este tipo de itinerários, mas sim outras idades, principalmente os mais velhos.
67 PARTE II – CARATERÍSTICAS DO CAMINHO DE SANTIAGO NO MUNICÍPIO DE BARCELOS E PERCEÇÃO DOS COMERCIANTES DOS IMPACTES NA ATIVIDADE ECONÓMICA
68 3. TIPO DE METODOLOGIA E PESQUISA REALIZADA No presente capítulo debruçamo-nos sobre a metodologia utilizada no decurso da investigação realizada. A nossa investigação foi desenvolvida tendo em conta duas dimensões: uma teórica e outra prática. Foi concretizada uma abordagem de cariz quantitativo e qualitativo, de tipo misto, usando fontes primárias e secundárias. No que diz respeito às fontes primárias mais importantes utilizadas, estas corresponderam à georreferenciação, à fotografia e cartografia dos elementos existentes no percurso do Caminho que cobre o município de Barcelos, com o intuito de analisar as suas caraterísticas e averiguar o que é ofertado ao peregrino ao longo do mesmo. Também foi aplicado um inquérito por questionário aos peregrinos (que não será objeto de análise na presente dissertação) e outro aplicado aos comerciantes que possuem uma atividade no percurso do município de Barcelos. Utilizámos também fontes secundárias, que vão ser detalhadas no decurso deste capítulo. 3.1. Procedimentos de pesquisa e fontes utilizadas na investigação Na nossa investigação foram usadas fontes primárias e secundárias, no sentido de se responder às questões levantadas e se atingirem os objetivos propostos. Na Figura 15 estão esquematizadas as fontes primárias bem como os objetivos e os procedimentos inerentes às mesmas. Estão incluídos os inquéritos aplicados aos peregrinos, os inquéritos aplicados aos comerciantes locais (tarefa para a qual tivemos a ajuda por parte da Vice-Presidente da Câmara Municipal de Barcelos), o levantamento fotográfico e a georreferenciação. Relativamente às fontes primárias, foi realizado um inquérito por questionário aos peregrinos, enquanto percorriam a sua jornada do Caminho Português a Santiago. Foi redigido em Português (Anexo I) e Inglês (Anexo II) e pretendeu: - identificar o perfil do peregrino, em Barcelos, através das variáveis como o sexo, idade, nacionalidade, habilitações literárias, situação profissional e estado civil; - determinar as motivações dos peregrinos, que passam pelo município de Barcelos, ao longo do seu percurso; - verificar se o peregrino já tinha realizado o Caminho selecionado para estudo ou outros Caminhos de Santiago; - comprovar o grau de satisfação do peregrino relativamente ao itinerário e se o recomendava; - verificar se existe falta de serviços ou bens ao longo do Caminho e quais as sugestões para o melhorar;
69 - identificar os serviços que o peregrino usufruiu em Barcelos e quais os de maior custo. Figura 15 - Fontes primárias utilizadas na investigação Fonte: Elaboração própria. A redação do questionário teve por base alguns questionários usados nos estudos do perfil e motivações do peregrino, bem como outras caraterísticas inerentes à sua passagem por Barcelos, tais como Torre et al . (2010), Gonçalves (2012), Gomes et al . (2019) e Silva & Borges (2019). O questionário foi aplicado a 33 peregrinos, ao longo da rota barcelense, tendo sido realizado entre o dia 5 de agosto de 2020 e o dia 10 de outubro de 2020. A tentativa de análise do perfil e as motivações dos peregrinos que passam pelo município é um dos temas em comum com Gonçalves (2012). Realização de trabalho de campo fazendo uma avaliação do tipo de paisagem ligada ao Caminho com o objetivo de analisar as condições da rota e averiguar o que é ofertado ao peregrino ao longo da mesma. Procedimento: Utilização de uma grelha Excel para registo da caraterização do Caminho, através de uma análise qualitativa e quantitativa. Inquérito aos peregrinos do Caminho Português a Santiago (em Barcelos), cujo objetivo foi o de identificar o perfil e as motivações dos mesmos. Procedimento: Os inquéritos foram realizados ao longo do Caminho em Barcelos, no Albergue de Peregrinos Casa da Fernanda em Vitorino de Piães, no Posto de Turismo em Barcelos e pelo Facebook, no grupo “Caminho Português de Santiago”. Avaliação da paisagem e do Caminho Percorrer o Caminho, com o objetivo de fotografar e definir os diferentes tipos de paisagem, comércio, alojamentos, monumentos, sinalização, entre outros, ao longo do território por onde passa o Caminho de Santiago, em Barcelos. Procedimento: Utilização de uma câmara fotográfica e do telemóvel. Fontes Primárias Inquéritos aos peregrinos Inquéritos aos comerciantes locais Georreferenciação Registo fotográfico Inquérito aos comerciantes, realizado ao longo da rota do Caminho Português a Santiago, em Barcelos, com o objetivo de verificar a oferta de comércio dirigido aos peregrinos e qual a perceção dos comerciantes no que concerne aos impactes económicos da atividade turística e o seu contributo no processo de diversificação da economia. Procedimento: O questionário foi realizado enquanto se fazia o levantamento cartográfico do Caminho, e teve-se ajuda dos funcionários do Posto de Turismo de Barcelos. Georreferenciação do que se encontra ao longo da rota com o objetivo de determinar a localização exata dos estabelecimentos, alojamentos e monumentos, e outras referências culturais existentes ao longo do Caminho. Procedimento: Utilização de uma aplicação de telemóvel, o Locus Map , para gravar todo o percurso realizado e pontos de interesse ao longo do mesmo.
70 No Quadro 13, podemos verificar os grupos temáticos usados no questionário, bem como o número e tipo de perguntas. Quadro 13 - Grupos temáticos e número de questões utilizados no questionário aos peregrinos, em Barcelos Grupo temático Número de perguntas Tipo de perguntas - Realização dos Caminhos de Santiago a nível internacional e nacional e os motivos que o levaram a repetir, caso o tenham feito; - Modo de viagem, companhia e organização do percurso; - Motivações para a realização do Caminho Português a Santiago; - Grau de satisfação e quais as recomendações e sugestões para melhorar o percurso; - Serviços e bens ofertados no município; - Atividades de maior custo ao longo de todo o Caminho; - Perfil do peregrino. 30 perguntas Parte A - 24 Parte B - 6 Escolha múltipla e questões abertas Fonte: Questionário aplicado aos peregrinos entre 5 de agosto de 2020 e 10 de outubro. Foi realizado o pré-teste do questionário, que corresponde a um ensaio do mesmo a pequena escala. Este deve ser realizado junto de pessoas que não fazem parte do universo do qual se vai retirar a amostra e que presentam características semelhantes às pessoas que vão fazer parte dela (Remoaldo, 2007). Deste modo, foi realizado um pré-teste a 9 peregrinos, no Posto de Turismo de Barcelos. Os inquéritos foram entregues no dia 1 de julho de 2020 e foram levantados no dia 30 de julho de 2020. O tempo de resposta foi, em média, de oito minutos. Os inquiridos mencionaram que perceberam todas as questões aplicadas, a sequência de perguntas era a adequada e as questões eram suficientes. Não obstante, a taxa de resposta aos questionários foi bastante baixa porque eram muito poucos os peregrinos que encontrávamos no Caminho, em comparação com os anos anteriores, devido à pandemia da COVID-19. Deste modo, a solução encontrada foi deixar questionários no Posto de Turismo de Barcelos, onde, por vezes, os peregrinos vão pedir informação, assim como no Albergue de Peregrinos Casa da Fernanda em Vitorino de Piães e optámos por colocar os questionários on-line, na rede social Facebook , num grupo de peregrinos intitulado de “Caminho Português de Santiago”. Apesar destes recursos, os questionários aos peregrinos não serão abordados nesta dissertação devido
71 à baixa taxa de resposta, ficando assim para futuras investigações, como é o caso do Projeto intitulado “Avaliação do tipo de paisagem, dos recursos turísticos e dos bens e serviços existentes no Caminho de Santiago Central”, que está a ser desenvolvido até finais de 2021. Além do questionário aos peregrinos, elaboramos e realizamos outro inquérito (Anexo III) aos comerciantes locais sobre os impactes do Caminho Português a Santiago na economia local, ao longo dos últimos três anos antes da pandemia da COVID-19 (2017, 2018 e 2019), assim como a identificação da situação em período de pandemia. O questionário foi redigido em português e teve como principais objetivos: - identificar e caraterizar os estabelecimentos ao longo do Caminho; - aferir se aumentou o número de peregrinos que utilizam os estabelecimentos e se foram realizados investimentos nos estabelecimentos no período de 2017 a 2019; - determinar qual o tipo de consumo do peregrino que passa pelo município de Barcelos; - aferir o tipo de perceção que têm os comerciantes sobre os impactes económicos e turísticos causados pelo Caminho, bem como a situação atual devido à COVID-19; - averiguar se falta desenvolver algum tipo de atividade importante ao longo do Caminho. O questionário foi baseado em inquéritos usados nos estudos da avaliação dos impactes associados à celebração da Capital Europeia da Juventude e da Capital Europeia da Cultura (Vieiro, 2003; Julião, 2013; Ribeiro et al ., 2012). No que concerne aos impactes económicos do Caminho em Barcelos, o mesmo tem uma ligação estreita com a investigação de Ribeiro & Remoaldo (2019), pois esta aborda os impactes do turismo no município de uma forma geral, mas a nível económico, social, cultural, ambiental e institucional. O questionário foi aplicado a 70 comerciantes locais, ao longo da rota barcelense, tendo sido realizado entre o dia 1 de julho e o dia 3 de novembro de 2020. Os mesmos foram entregues e aplicados aos comerciantes que se encontravam ao longo do Caminho à medida que fazíamos a georreferenciação e a avaliação da paisagem, e também foram aplicados por parte de funcionários da Câmara Municipal de Barcelos. Na nossa análise foram usados 60 questionários, pois 10 estavam incompletos. No Quadro 14 estão representados os grupos temáticos usados no questionário, bem como o número e tipo de perguntas.
72 Quadro 14 - Os grupos temáticos e o número de questões utilizadas no questionário aos comerciantes de Barcelos Grupo temático Número de perguntas Tipo de perguntas - Caracterização do estabelecimento. - Motivos da abertura do estabelecimento. - Volume de negócios do estabelecimento. - Investimentos realizados. - Perceção de impactes económicos e turísticos no município. - Perfil do proprietário/responsável pelo estabelecimento. 29 perguntas Grupo A - 18 Grupo B - 7 Grupo C - 4 Escolha múltipla e questões abertas Fonte: Questionário aplicado aos comerciantes locais entre 1/7 e 3/11 de 2020. Realizámos um pré-teste a 8 comerciantes na vila de Ponte de Lima, no dia 5 de junho de 2020. O tempo de resposta foi, em média, de dez minutos. Quando o questionário foi aplicado em Barcelos, a taxa de resposta ao inquérito foi de cerca de 80%. O trabalho de campo foi realizado tendo em conta três vertentes, i.e., além da aplicação dos questionários, foi realizado o levantamento cartográfico, a georreferenciação e a avaliação do tipo de paisagem existente ao longo da rota. Para o levantamento dos equipamentos e serviços realizamos no programa Excel uma grelha (Anexo III) onde constam 22 variáveis, destacando-se: -o nome do estabelecimento/monumento/alojamento e da freguesia; -a georreferenciação do ponto de interesse através da sua latitude e longitude; -tipo de estabelecimento e a sua atividade segundo a Classificação das Atividades Económicas (C.A.E.); -a acessibilidade por parte dos peregrinos aos equipamentos, serviços ou bens; -capacidade de lotação em cada estabelecimento e existência ou não do menu peregrino no setor da restauração; -equipamentos, serviços e pontos de interesse em redor do ponto de referência num raio de 300m e de 500m; -locais com maior concentração de peregrinos; -classificação do tipo de paisagem ao longo do trajeto; -tipo de perigos existentes ( e.g., ausência de passeios, de passadeiras).
79 Este município está geograficamente a meio do Caminho Português a Santiago, e é dissecado ao meio, ao longo de 33,6 km, na direção sul-norte do município constituindo um ponto de paragem obrigatória para quem passa, devido à sua extensão. Para melhor se compreender a caraterização do percurso, a forma como ele traça o município, e perceber, de forma pormenorizada, o que está representado ao longo do mesmo, optámos por dividir o Caminho em 5 etapas (Figura 17): -primeira etapa – desde Macieira de Rates até Pereira; -segunda etapa – desde Pereira até Barcelinhos; -terceira etapa – nesta etapa é retratado o centro urbano de Barcelos, desde a Ponte Medieval até ao Campo 5 de Outubro; -quarta etapa – desde o Campo 5 de Outubro até ao Albergue Municipal de Peregrinos A Recoleta, em Tamel (S. Pedro Fins); -quinta etapa – desde o Albergue até ao local da fronteira com Ponte de Lima, em Balugães. A entrada do Caminho Português a Santiago em território barcelense é realizada pela freguesia de Macieira de Rates, seguindo caminho pelas freguesias de Courel, Gueral, Pedra Furada, Góios, Pereira, Carvalhal e Barcelinhos, e chegando a Barcelos. O percurso ao longo destas freguesias corresponde a 16,4 km de trajeto. Ao longo do caminho, é possível fazer um desvio do itinerário principal, e optar pela variante da Franqueira. A mesma tem início na freguesia de Góios, passando por Pedra Furada, Vilar de Figos, Milhazes, Pereira terminando em Carvalhal, retomando o itinerário principal. A partir da cidade de Barcelos o itinerário segue em direção à freguesia de Arcozelo, Vila Boa, Lijó, Carapeços, Tamel (S. Pedro Fins), Aborim, continuando pela fronteira das freguesias de Aguiar e terminando em Balugães, que faz fronteira com a freguesia de Poiares, já no município de Ponte de Lima, distrito de Viana do Castelo, por onde o Caminho segue rumo a Santiago. Desde o centro da cidade até à fronteira com Ponte de Lima o percurso tem 17,2km (Câmara Municipal de Barcelos. Posto de Turismo de Barcelos, 2018). Esta etapa, apresenta outra opção ao trajeto principal, i.e., a variante de Abade Neiva. Esta faz-se pelo Campo 5 de Outubro e passa em frente ao Solar do Benfeito, no centro da cidade de Barcelos seguindo pelo IPCA (Instituto Politécnico do Cávado e do Ave), atravessando as freguesias de Vila Frescaínha S. Martinho, Abade Neiva e terminando na rua do Espírito Santo em Vila Boa, onde se encontra com o trajeto principal. Vários têm sido os fatores que têm reforçado a importância e a utilização do percurso que passa pelo município de Barcelos. No
80 entanto, foram delineados alguns desvios pontuais ao traçado original do Caminho de Santiago em Barcelos entre 1328 até à atualidade (Pereira, 2014). 4.1.2. Breve caraterização física do município de Barcelos Para melhor se entenderem as caraterísticas físicas do itinerário Português a Santiago, realizámos uma breve caraterização física do município de Barcelos, tendo em conta três aspetos: o clima, os declives e o uso do solo. A abordagem do clima é importante para que se perceba o porquê de existir uma maior afluência de peregrinos a partir de abril e até outubro de cada ano. O clima ameno influencia a afluência de peregrinos ao longo do itinerário. Portugal Continental apresenta caraterísticas climáticas de um clima temperado mediterrâneo (Teles, 2010). No entanto, existem diferenças regionais como o clima do Noroeste que possui uma grande influência e é influenciado pelas características físicas do relevo. A posição geográfica, a proximidade do Oceano Atlântico e a forma e disposição dos principais conjuntos montanhosos constituem o que Orlando Ribeiro (1986) denominou de anfiteatro voltado para o mar. Isto origina um clima de temperaturas amenas, com pequenas amplitudes térmicas e forte pluviosidade média (Câmara Municipal de Barcelos, 2016). Estas caraterísticas podem condicionar a realização do Caminho de Santiago, pois quando ocorrem períodos de elevada pluviosidade alguns dos troços podem não ser transitáveis. Esta é uma região com semelhanças mediterrâneas caraterizada por Invernos moderados e Verões temperados. A temperatura média mais elevada regista-se no mês de julho (27,2°C), sendo este mês, juntamente com agosto, aqueles em que se verifica menor precipitação, enquanto a temperatura média mais baixa se verifica no mês de dezembro (4,5°C). Nos meses de novembro, dezembro, janeiro, fevereiro e março registam-se os máximos de precipitação. A temperatura máxima média do mês mais quente varia entre 23°C e 32°C, observando-se entre 20 a 120 dias por ano temperaturas máximas superiores a 25°C, denominando-se de Clima Marítimo de Litoral Oeste (Câmara Municipal de Barcelos, 2016). Não obstante, cada vez é mais comum termos verões com períodos mais ou menos longos com temperaturas muito elevadas, que podem condicionar bastante a motivação e concretização do Caminho. É através dos declives que é possível perceber certas dinâmicas geomorfológicas desenvolvidas à superfície da terra. No caso do Caminho a Santiago que passa por Barcelos é crucial analisar os declives, que podem condicionar a realização e a perceção do mesmo. Importa definir o perfil
81 longitudinal, nomeadamente quais são os pontos mais altos e mais baixos ao longo do Caminho, qual o grau de inclinação e a dificuldade que proporciona aos peregrinos. Os declives existentes dependem das formações geológicas que emergem no território e dos processos erosivos a que foram sujeitas (Teles, 2010 - Figura 18). São os declives menos acentuados que predominam no município de Barcelos, podendo contribuir para a perceção de um baixo grau de dificuldade na realização do Caminho. Correspondem às áreas a oeste da margem esquerda do rio Cávado, nomeadamente nas freguesias de Gilmonde, a parte noroeste da união de freguesias de Milhazes, Vilar de Figos e Faria e Vila Seca, Cristelo e Barqueiros, e na margem direita do rio Cávado, nomeadamente na parte oeste de Roriz, parte oeste de Galegos Santa Maria, e nas freguesias de Manhente, Tamel S. Veríssimo, Arcozelo e Lijó. Os declives mais acentuados localizam-se nas áreas onde ocorre a transição de áreas de baixa altitude para de elevada altitude. As áreas de elevada altitude têm uma maior expressão na margem direita do Rio Cávado, principalmente nas Serras de S. Gonçalo, Lousado, S. Lourenço e Monte do Facho. A Serra de Airó, que se situa na margem esquerda é onde se ocorrem os maiores declives (Figura 18). Ao longo do Caminho, os declives encontram-se maioritariamente entre os 0° e os 7°, com exceção das freguesias de Tamel (S. Pedro Fins) e Aborim, cujos declives medeiam entre os 11° e os 15°. Na variante da Franqueira como alcança o Monte da Franqueira e Igreja com o mesmo nome, são notórios os declives entre os 16° e os 35° (Figura 18).
82 Figura 18 - Declives no município de Barcelos, ao longo do Caminho a Santiago e suas variantes Fonte: Elaboração própria com base na Carta Administrativa Oficial de Portugal (C.A.O.P.) do S.N.I.G. (2019) e S.R.T.M. (N.A.S.A.). A caraterização do uso do solo no município de Barcelos, assume-se como uma ferramenta de auxílio importante em processos de apoio à tomada de decisão. Falamos, por exemplo, do apoio à gestão municipal ou privada das diversas áreas em Barcelos, desde as agrícolas, às florestais e sociais.
83 Para se compreender melhor os atrativos do Caminho a Santiago, é importante caraterizar o uso do solo que melhor descreve o itinerário, definindo os equipamentos e serviços necessários de apoio ao peregrino enquanto caminha pelo município. Quanto ao tipo de solo e atendendo às caraterísticas do substrato geológico do município de Barcelos, o tipo de solo mais representativo corresponde aos cambissolos húmicos e aos regossolos dístricos (Câmara Municipal de Barcelos, 2002-2005). Organizando a ocupação do solo em quatro áreas, usando a Nomenclatura Corine Land Cover do Instituto Geográfico Português (I.G.P., 2018): a área florestal, a agrícola, a social e em cursos de água, a que predomina em território barcelense é a área agrícola, com 47,13% de ocupação do território, seguindo-se a área florestal (44,97%), a social (7,09%) e, por fim, os cursos de água (0,78%). No Caminho a ocupação do solo mais representativa é a área agrícola. A Figura 19 reporta-se ao uso do solo do município de Barcelos, usando a base Nomenclatura Corine Land Cover de 2018, disponibilizada pelo Instituto Geográfico Português. Importa recordar que: 1-a área agrícola diz respeito às culturas temporárias de regadio, vinhas, pomares, culturas temporárias e/ou pastagens associadas a culturas permanentes, sistemas culturais e parcelares complexos, e à agricultura com espaços naturais e semi-naturais; 2-a área florestal diz respeito às florestas de folhosas, florestas de resinosas, florestas mistas e florestas abertas, cortes e novas plantações; 3-a área social corresponde ao tecido urbano contínuo, tecido urbano descontínuo, indústria, comércio e equipamentos gerais, redes viárias e ferroviárias e espaços associados, áreas de extração de inertes e espaços verdes urbanos.
84 Figura 19 - Uso do solo no município de Barcelos ao longo do Caminho a Santiago e nas suas variantes, em 2018 Fonte: Elaboração própria com base na Carta Administrativa Oficial de Portugal (C.A.O.P.) e Nomenclatura Corine Land Cover do I.G.P. Os espaços sociais encontram-se, sobretudo, no centro do território barcelense. Concentram-se na união de freguesias de Barcelos, Vila Boa e Vila Frescaínha (S. Martinho e S. Pedro) e Arcozelo
85 sendo notória a sua descentralização nas freguesias a norte e a este das anteriores. Contudo, são visíveis também um pouco por todo o território manchas das áreas sociais. Destacam-se mais áreas sociais na margem direita do rio Cávado e de forma mais concentrada, e o contrário acontece na margem esquerda do mesmo rio onde os espaços sociais estão mais dispersos. Enquanto os espaços agrícolas se dispersam muito pelo município, são mais visíveis na margem esquerda do rio Cávado. Os espaços florestais representam grandes manchas no território. Os exemplos que mais se destacam são o Monte de S. Gonçalo com 488 metros, na margem direita do rio Cávado, que aumenta a sua altitude de este para oeste, o Monte de Airó com 412 metros, que se situa na margem esquerda e que aumenta de altitude de oeste para este, o Monte do Facho com 324 metros, que se situa a leste do município e o Monte da Franqueira com 298 metros, que se situa a sul do rio Cávado. Dos vários montes que existem no território barcelense, as mencionadas são os que mais se destacam em termos de altitude. Além dos anteriores existem outros como a Serra da Saia com 299 metros e o alto da Vaia com 285 metros, a sul do rio Cávado e na margem direita do rio a este o Monte de Lousado com 312 metros. Ao longo do Caminho a Santiago, na parte sul do município, constata-se que o percurso é realizado maioritariamente em áreas agrícolas, e um pouco nas áreas florestais. Destaca-se ainda o facto de ser nas freguesias de Pereira, Carvalhal e Barcelinhos onde o Caminho passa entre espaços sociais, nomeadamente, pelo tecido urbano descontínuo, isto é, ao longo da Estrada Nacional 306 (E.N. 306). O centro do município destaca-se por ser o único território com tecido urbano contínuo e onde é possível passar pelo rio Cávado. A partir daqui até à fronteira com Ponte de Lima, o Caminho é realizado por entre espaços agrícolas e com pouca ocupação florestal, sendo que nas freguesias de Lijó, Aborim, e Balugães este volta a passar em espaços sociais, ou seja, em tecido urbano descontínuo. Na última freguesia, em Balugães, o percurso passa pelo rio Neiva, através da Ponte das Tábuas. Conclui-se, assim, que é diversificado o percurso no município de Barcelos, apresentando paisagens variadas, contudo, a norte do município o caminho desenrola-se predominantemente ao longo de caminhos rurais e florestais. 4.2. Caraterização sociodemográfica e económica do município e das freguesias do Caminho 4.2.1. Aspetos populacionais A caraterização da população do município e das freguesias que se encontram ao longo do Caminho a Santiago e das suas variantes é imprescindível para o tema em questão para se perceber a
86 dinâmica existente no município e nas respetivas freguesias, bem como perceber se as mesmas por onde o peregrino passa são freguesias de maior ou menor intervenção humana. Posto isto, ao longo do século XX e início do século XXI a população foi variando em Portugal Continental. As várias oportunidades de emprego, devido ao maior tecido industrial e de serviços nas médias e grandes cidades do litoral português originaram uma mudança da população do interior para o litoral. A partir do Quadro 15 é possível observar o volume populacional, a taxa de variação e da densidade populacional entre 2001 e 2018 à escala de Portugal continental, da região Norte, N.U.T.S. III do Cávado e dos respetivos municípios (Carvalho, 2020). Quadro 15 - População residente, taxa de variação e densidade populacional em Portugal e em várias entidades territoriais do Norte e N.U.T.S. III de Portugal entre 1991 e 2018 Fonte: Elaboração própria com base no XIV e XV Recenseamento Geral da População, Anuário Estatístico de 2018 da Região Norte, e Estimativas Anuais de População Residente de 2018, Instituto Nacional de Estatística (I.N.E., 2001, 2012 e 2018). Entre 2001 e 2011, apesar do aumento da população a nível nacional, na N.U.T.S. III Cávado e respetivos municípios, como Amares, Braga, Esposende e Vila Verde, a região norte e dois municípios da N.U.T.S. III (Barcelos e Terras de Bouro) perderam população e, por isso, a sua taxa de variação foi negativa (Carvalho, 2020). Mesmo assim, comparando com os outros municípios, constata-se que a área de estudo corresponde ao segundo concelho com maior número de habitantes dentro da N.U.T.S. III do Cávado, sendo a capital de distrito, Braga, que alberga o maior número de residentes (Carvalho, 2020). No caso do município de Barcelos perdeu população residente devido à crescente emigração, em consequência da crise económica, mas também devido a uma mobilidade interna, principalmente Distribuição geográfica População residente Densidade populacional Número de residentes Taxa de variação (%) Hab./Km² Área (Km²) 2001 2011 2018 2001/ 2011 2011/ 2018 2001 2011 2018 2018 Portugal Continental 9869343 10030968 9779826 1,8 -2,5 111,5 112,6 109,8 89102,1 Norte 3687293 3687224 3572583 0,1 -3,1 173,7 173,2 167,8 21 285,8 Cávado 393063 411028 403891 4,4 -1,7 317,6 329,9 324,2 1 245,7 Amares 18521 18830 18114 1,2 -3,8 226,9 229,8 221,0 81,9 Barcelos 122096 120391 116531 -1,4 -3,3 322,7 318,1 307,6 378,9 Braga 164192 182176 181919 10,5 -0,1 906,9 993,3 991,9 183,4 Esposende 33325 34371 34057 2,8 -0,9 351,5 360,2 357,0 95,4 Terras de Bouro 8350 7141 6405 -13,1 -10,3 29,8 25,7 23,1 277,4 Vila Verde 46579 47995 46865 2,8 -2,4 204,9 209,9 204,9 228,6
87 para o município de Braga, resultante da capacidade de fixação de estudantes da Universidade do Minho e devido a uma política de habitação de custo acessível (Carvalho, 2020). Usando dados das estimativas da população para o ano de 2018 (porque temos que aguardar por 2021 para termos dados universais e que confirmarão ou não as estimativas), conclui-se que entre 2011 e 2018 todas as entidades territoriais consideradas devem ter perdido população, sendo a sua taxa de variação negativa (Quadro 15). Os municípios que mais se destacam por terem uma mais baixa perda de população são Braga (-0,1%) e Esposende (-0,9%), com taxas de variação inferiores às da região Norte (N.U.T.S. II) e do Continente. Pelo contrário, os municípios que devem ter perdido mais habitantes foram Terras de Bouro (-10,3%), Amares (-3,8%) e Barcelos (-3,3%). A perda de população nos últimos sete anos, deve-se à crise que levou a uma redução na chegada de imigrantes, mas também a um aumento da emigração de portugueses que procuraram oportunidades de emprego noutros países, quer na Europa, quer nos outros continentes, mas também se deve à deslocação da população para as cidades grandes e médias de Portugal Continental, como as capitais de distrito (Carvalho, 2020). Em relação à densidade populacional, verifica-se que Portugal Continental (N.U.T.S. I), e a região Norte (N.U.T.S. II) apresentaram em 17 anos (2001-2018) uma diminuição do número de habitantes por km². A N.U.T.S. III Cávado aumentou a sua densidade populacional face a 2001 e relativamente aos municípios constituintes Braga destaca-se com a maior densidade populacional (991,9 hab./km²), seguindo-se Esposende com 357 hab./km². Terras de Bouro (23,1 hab./km²) tem sido o município com mais baixa densidade populacional, estando longe da média de Portugal Continental (109,2 hab./km²). No que diz respeito ao município em estudo, e segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (I.N.E.), é possível constatar que desde 1864 até 2018 se verificou um crescimento contínuo da população residente até 2001 a partir daí diminuiu até 2019 (Figura 20 e Quadro 16).
88 Figura 20 - Evolução da população no município de Barcelos entre 1864 e 2019 Fonte: Elaboração própria com base nos Recenseamentos Gerais da População realizados entre 1864 e 2011, I.N.E., Lisboa e nas Estimativas Provisórias Anuais da População Residente, 2019. Quadro 16 - Evolução da população residente no município de Barcelos, 1864-2019 Fonte: Elaboração própria com base nos Recenseamentos Gerais da População realizados entre 1864 e 2011, I.N.E., Lisboa e Estimativas Provisórias Anuais da População Residente, 2019. Entre 1864 e 1920 a população barcelense pouco cresceu, aumentando apenas 18% em 56 anos. A partir de 1920 notou-se uma lenta melhoria nas condições de vida da população, sendo a partir deste ano que a população teve um crescimento mais significativo e até 2001. O maior População residente em Barcelos entre 1884 e 2019 Ano Número 1864 44021 1878 44732 1890 45322 1900 46953 1911 51121 1920 52066 1930 58360 1940 68184 1950 75367 1960 83211 1970 88130 1981 103773 1991 111733 2001 122096 2011 120391 2019 116187 0 20000 40000 60000 80000 100000 120000 140000 1864 1884 1904 1924 1944 1964 1984 2004 Nº Ano 1864 1884 1904 1924 1944 1964 1984 2004 2019
95 Figura 23 - Imagens de satélite ao longo do Caminho de Santiago, em Barcelos Fonte: Elaboração própria com base no ArcGis 10.6. E D F A B C
96 4.2.2. Nível de instrução da população Além dos indicadores analisados anteriormente é importante realizar uma análise do nível de instrução da população, que é relevante para aferir a potencialidade de empreendedorismo da população, mas também para determinar a necessidade de preparação da população para o desenvolvimento da atividade turística e de outras atividades que podem ser proporcionadas ao peregrino. Em 2001 a maioria da população em Portugal Continental e nas restantes entidades geográficas presentes no Quadro 21 possuía um nível de formação até ao 1º ciclo do ensino básico ou não tinha de formação formal. À escala de Portugal Continental, verificamos que em 2001 a população apresentava maioritariamente o 1º ciclo, seguindo-se a população sem qualquer nível de escolaridade e a com o 3º ciclo do ensino básico. Já nas N.U.T.S. II Norte e as N.U.T.S. III Cávado a maioria da população apresentava o 1º ciclo, seguindo-se a ausência de uma escolaridade formal e depois o 2º ciclo (Quadro 21). No que respeita aos municípios da N.U.T.S. III do Cávado, Barcelos, Braga e Esposende eram os municípios onde a maioria da população detinha o 1ºciclo e os que apresentavam mais população com ensino superior (Quadro 21). Quadro 21População residente segundo o nível de instrução em Portugal e noutras entidades territoriais em 2001 Fonte: Elaboração própria com base no XIV Recenseamento Geral da População do Instituto Nacional de Estatística (I.N.E., 2001). Nenhum nível de escolaridade Ensino básico - 1º ciclo Ensino básico - 2º ciclo Ensino básico - 3º ciclo Ensino secundário Ensino médio Ensino superior Continente 2582039 2743274 1357199 1365684 1103858 64779 652510 Norte 988277 1101873 598559 448495 339095 18621 192373 Cávado 103346 109670 73279 48745 35663 2069 20291 Amares 5838 5601 3142 2111 1341 44 444 Barcelos 32779 37037 27794 13085 8090 327 2984 Braga 37612 40223 24916 24690 20880 1438 14433 Esposende 9054 9606 7083 3768 2419 125 1270 Terras de Bouro 2822 2750 1475 766 379 18 140 Vila Verde 15241 14453 8869 4325 2554 117 1020
97 Em 2011, em Portugal Continental, a maioria da população possuía o 1º ciclo, seguindo-se o ensino secundário, o 3º ciclo e depois o ensino superior. No Norte e no Cávado a maioria da população apresentava o 1º ciclo, seguindo-se o 3º ciclo e o ensino secundário. Quanto aos municípios da N.U.T.S. III Cávado a grande parte da população detinha o 1º e o 3º ciclo, com a exceção de Braga, onde a maioria possuía o 1º ciclo, seguindo-se o ensino superior. Tendo por base o Quadro 22, é possível afirmar que diminuiu a população sem qualquer nível de escolaridade e aumentou a população com o ensino básico e o ensino superior (Quadro 22). Em relação ao ensino superior, a N.U.T.S. III beneficia da existência da Universidade do Minho em Braga, do Instituto Politécnico do Cávado e Ave (I.P.C.A.) em Barcelos, mas também por estar próxima da Área Metropolitana do Porto. Quadro 22 - População residente segundo o nível de instrução em Portugal e noutras entidades territoriais em 2011 Fonte: Elaboração própria com base no XV Recenseamento Geral da População do Instituto Nacional de Estatística (I.N.E., 2012). No que diz respeito ao município de Barcelos, através da Figura 24 é possível observar que em 2001, 63,7% da população possuía o ensino básico, isto é, o 1º, 2º e 3º ciclo do ensino básico, seguindo-se o ensino secundário e superior. Contudo, um pouco mais de ¼ da população não possuía qualquer tipo de formação. Nenhum nível de escolaridade Ensino préescolar Ensino básico - 1º ciclo Ensino básico - 2º ciclo Ensino básico - 3º ciclo Ensino secundário Ensino póssecundário Ensino superior Continente 848678 246 408 2989 877 1032 140 1580 552 1692 377 87429 1570 160 Norte 296973 87951 1183 949 453417 584080 556362 27976 498974 Cávado 31977 11242 117728 55276 66537 64986 3049 59374 Amares 1711 547 6143 2482 2977 2938 168 1923 Barcelos 9229 3085 38284 20485 20904 16847 781 10776 Braga 12595 5152 44242 19668 28466 32192 1448 37731 Esposende 2719 886 10 062 5421 5536 4933 283 4414 Terras de Bouro 818 171 2795 808 1077 1063 53 468 Vila Verde 4905 1401 16202 6412 7577 7013 316 4062
98 7,6%2,5% 31,7% 17,3% 17,3% 13,9% 0,6%8,9% Nenhum nível de escolaridade Ensino pré-escolar Ensino básico - 1º ciclo Ensino básico - 2º ciclo Ensino básico - 3º ciclo Ensino secundário Ensino pós-secundário Ensino superior 26,8% 30,3% 22,7% 10,7% 6,6% 0,3% 2,4% Nenhum nível de escolaridade Ensino básico - 1º ciclo Ensino básico - 2º ciclo Ensino básico - 3º ciclo Ensino secundário Ensino médio Ensino superior Figura 24 - População residente em Barcelos, por nível de instrução (em %), em 2001 Fonte:Elaboração própria com base no XIV Recenseamento Geral da População do Instituto Nacional de Estatística (I.N.E., 2001). Em 2011, verificou-se um aumento do nível de instrução da população, uma vez que apesar de predominar ainda o ensino básico (1º, 2º e 3º ciclo) com 66,3% da população, aumentou o número de jovens a concluir o ensino secundário, bem como o número de pessoas a ingressar no ensino superior. É de saleientar que é cada vez menor a quantidade de população sem escolaridade (7,6% - Figura 25). Figura 25 - População residente em Barcelos, por nível de instrução (em %),, em 2011 Fonte: Elaboração própria com base no XV Recenseamento Geral da População do Instituto Nacional de Estatística (I.N.E., 2012). No que diz repeito às freguesias do município de Barcelos que se encontram ao longo do Caminho Português a Santiago, no Censo de 2001, a grande maioria dos seus habitantes detinham
99 um nível de formação até ao 1º ciclo do ensino básico, com exceção de Tamel (S. Pedro Fins) e Vila Boa. Seguia-se a população que não tinha qualquer nível de escolaridade, exceto nas freguesias de Carapeços, Courel, Macieira de Rates e Pereira, sendo o 2º ciclo do ensino básico o nivel de escolaridade mais representativo nestas freguesias. As freguesia de Arcozelo, Barcelinhos e Barcelos, que se encontram no centro do municipio são as que possuíam mais habitantes com o ensino superior (Quadro 23). Quadro 23 - População residente segundo o nível de instrução, nas freguesias pertencentes ao município de Barcelos, ao longo do Caminho a Santiago, em 2001 Nenhum nível de escolaridade Ensino Básico1º Ciclo Ensino Básico2º Ciclo Ensino Básico3º Ciclo Ensino Secundário Ensino Médio Ensino Superior Abade de Neiva 492 572 376 217 148 9 55 Aborim 270 303 250 88 54 1 5 Aguiar 164 182 121 60 39 0 8 Arcozelo 3030 3298 2690 2101 1535 70 651 Balugães 229 263 208 83 56 4 20 Barcelinhos 410 588 291 280 212 9 109 Barcelos 916 1310 666 822 859 84 556 Carapeços 553 679 626 191 110 2 27 Carvalhal 420 569 317 155 118 4 31 Courel 136 167 159 38 15 0 3 Góios 155 191 132 50 28 2 9 Gueral 99 146 93 38 29 3 9 Lijó 615 691 557 203 107 4 14 Macieira de Rates 529 588 564 163 93 1 29 Milhazes 283 318 209 104 65 0 5 Pedra Furada 121 163 107 43 25 1 6 Pereira 348 443 351 102 48 0 15 Vila Frescainha (S. Martinho) 546 738 415 260 183 9 68 Tamel (S. Pedro Fins) 167 153 163 30 32 0 6 Vila Boa 558 351 343 187 127 6 68 Vilar de Figos 192 204 166 55 27 1 6 Fonte: Elaboração própria com base no XIV Recenseamento Geral da População do Instituto Nacional de Estatística (I.N.E., 2001). Estes resultados revelam que o peregrino interage com população que detém maioritariamente um nível baixo de instrução e que não devem possuir formação em inglês, francês ou alemão. Ainda
100 que este facto possa revelar uma potencial dificuldade dos residentes em interagir com peregrinos estrangeiros, acreditamos que a hospitalidade e a vontade de colaborar típica do minhoto ajudem a ultrapassar este facto. Nas mesmas freguesias do município, destaca-se, em 2011, que das 21 por onde passa o Caminho, a maioria da população detinha o 1º ciclo, com a exceção da freguesia de Barcelos, cuja maioria da população tinha o ensino superior. É de salientar que numa década (2001-2011), a população com ensino superior mais que duplicou em todas as freguesias consideradas (Quadro 24). Quadro 24 - População residente segundo o nível de instrução, nas freguesias pertencentes ao município de Barcelos, ao longo do Caminho a Santiago, em 2011 Nenhum nível de escolaridade Ensino préescolar Ensino básico - 1º ciclo Ensino básico - 2º ciclo Ensino básico - 3º ciclo Ensino secundário Ensino póssecundário Ensino superior Abade de Neiva 135 55 613 310 318 329 15 249 Aborim 74 22 282 183 144 130 7 49 Aguiar 49 13 189 101 74 72 2 46 Arcozelo 713 334 3208 1969 2466 2463 93 1594 Balugães 72 16 255 180 125 101 5 87 Barcelinhos 114 34 571 206 277 276 21 282 Barcelos 268 97 1124 408 739 860 36 1128 Carapeços 199 62 689 512 422 241 21 131 Carvalhal 114 31 576 193 212 144 10 111 Courel 23 19 181 85 95 61 3 21 Góios 38 16 187 100 108 66 2 31 Gueral 26 11 133 70 64 51 1 24 Lijó 200 38 739 426 379 348 15 161 Macieira de Rates 162 51 625 486 347 252 24 136 Milhazes 66 31 318 135 157 123 6 76 Pedra Furada 37 5 148 66 68 47 3 25 Pereira 92 39 454 248 227 165 5 88 Vila Frescainha (S. Martinho) 212 63 747 293 375 350 16 316 Tamel (S. Pedro Fins) 39 15 181 121 89 62 3 28 Vila Boa 234 85 566 343 425 424 22 384 Vilar de Figos 43 19 232 116 89 61 5 39 Fonte: Elaboração própria com base no XV Recenseamento Geral da População do Instituto Nacional de Estatística (I.N.E., 2012).
101 10,9 9,9 9,4 12,3 9,2 6,9 9,0 18,2 15,4 8,9 8,3 7,6 10,8 7,6 5,8 7,3 15,6 11,9 5,2 5,0 4,5 6,2 4,6 3,4 4,3 9,3 7,3 0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 Continente Norte Cávado Amares Barcelos Braga Esposende Terras de Bouro Vila Verde Percentagem (%) Entidade territorial 1991 2001 2011 Entre 1991 e 2011 houve uma diminuição da taxa de analfabetismo em todas as entidades territoriais, da escala nacional até à escala municipal (Figura 26). Barcelos, não foi exceção, pois em 20 anos esta taxa desceu para metade. Há várias razões que justificam a diminuição significativa nesse período de tempo, tais como desde 1993 a escolaridade obrigatória ter passado a ser até ao 9º ano de escolaridade e no ano letivo 2012/2013 a escolaridade obrigatória ter sido estendida até ao 12º ano. Adite-se a criação de novas oportunidades no término do ensino obrigatório para as pessoas maiores de 18 anos, que contribuiu também para a diminuição desta taxa. Contudo, os municípios de Amares, de Terras de Bouro e de Vila Verde continuavam a apresentar uma taxa de analfabetismo elevada em 2011 (Figura 26). Isso deve-se à significativa percentagem da população idosa, que não tiveram as oportunidades de melhorar a sua escolaridade por razões económicas, mas também porque eram elementos importantes para a sobrevivência da família mais alargada que predominou até há algumas décadas atrás. Tendo em conta estes resultados, perspetiva-se que o Recenseamento Geral da População que vai realizar-se em 2021 revele a continuação do decréscimo deste tipo de taxa. Figura 26 - Taxa de analfabetismo (em %) em Portugal e noutras entidades territoriais entre 1991 e 2011 Fonte: Elaboração própria com base nos XIII, XIV e XV Recenseamentos Gerais da População do Instituto Nacional de Estatística (I.N.E., 1993, 2001, 2012). No município de Barcelos houve também, entre 1991 e 2011, uma diminuição da taxa de analfabetismo em todas as freguesias por onde passa o Caminho (Figura 27). Porém, nesse período as freguesias de Aborim, Pedra Furada e Vila Frescainha (S. Martinho), registaram um aumento desta taxa devido à representatividade da população com 65 e mais anos, que apesar disso, na década seguinte diminuiu. A freguesia de Barcelos, entre 2001 e 2011 aumentou, embora muito pouco, a sua taxa de analfabetismo, em cerca de 0,33%. Estes resultados devem resultar da morte de parte da população
102 9,38 7,32 11,16 4,38 8,46 7,13 4,95 10,15 9,27 7,41 5,82 8,36 11,31 8,17 10,08 7,23 9,35 6,56 11,65 23,59 11,47 7,51 9,31 7,88 2,99 8,28 5,87 3,15 6,91 8,72 6,73 4,12 7,48 9,61 6,64 8,53 9,56 7,94 7,49 8,90 19,22 7,97 3,57 5,71 6,06 2,01 6,15 3,56 3,48 4,66 6,40 3,50 2,86 4,05 5,25 4,14 4,93 4,68 4,61 5,52 4,97 5,55 5,30 0,00 5,00 10,00 15,00 20,00 25,00 Percentagem (%) Freguesias 1991 2001 2011 idosa e da mobilidade da população destas freguesias para outros espaços mais urbanizados ou para outro país. Figura 27 - Taxa de analfabetismo nas freguesias pertencentes ao município de Barcelos, ao longo do Caminho a Santiago, entre 1991 e 2011 Fonte: Elaboração própria com base nos XIII, XIV e XV Recenseamentos Gerais da População do Instituto Nacional de Estatística (I.N.E., 1993, 2001, 2012). 4.2.3. Estrutura económica No período de dez anos (2001-2011) a população ativa não aumentou em todas as entidades territoriais presentes no Quadro 25. A região Norte, os municípios de Barcelos e de Terras de Bouro apresentaram uma diminuição da população ativa. Esta diminuição pode ser explicada pela perda de população nos municípios de Barcelos (-1,4%) e de Terras de Bouro (-13,1%) e pela redução de população na região Norte para outras áreas urbanas e outros países (emigração), bem como pela baixa taxa de natalidade. Segundo os dados apresentados no Quadro 25, que correspondem a 2011, o setor terciário é o setor dominante em relação aos outros dois setores de atividade económica (primário e secundário) desde a escala nacional até à escala municipal. No entanto, o município de Terras de Bouro apresentava a maior percentagem de população ativa no setor primário e ultrapassava a região do Norte e o Continente. O município de Barcelos revelava a maior percentagem de população ativa no setor secundário, enquanto o Continente
103 apresentava a maior percentagem no setor terciário seguindo-se o município de Braga, tendência que se verificou na maioria dos municípios (Quadro 25). Quadro 25 - População ativa (nº), taxa de variação (em %) da população ativa e percentagem da população empregada nos três setores de atividade económica em Portugal e noutras entidades territoriais em 2001 e em 2011 Entidade territorial População ativa População empregada (%) segundo o setor de atividade económica Número Taxa de variação (%) Setor primário Setor secundário Setor terciário 2001 2011 2001/2011 2011 Continente 4778115 4780963 0,1 2,9 26,9 70,2 Norte 1775015 1756065 -1,1 2,9 35,5 61,6 Cávado 193443 203581 5,2 2,4 39,4 58,2 Amares 7962 8477 6,1 4,3 32,6 63,1 Barcelos 61565 59734 -3,1 3,4 54,3 42,3 Braga 85194 94411 9,8 0,6 30,0 69,4 Esposende 16324 17023 4,1 5,4 42,5 52,1 Terras de Bouro 2988 2696 -10,8 7,6 25,1 67,3 Vila Verde 19410 21240 8,6 3,4 40,4 56,2 Fonte: Elaboração própria com base nos XIV e XV Recenseamentos Gerais da População do Instituto Nacional de Estatística (I.N.E., 2001, 2012). No que respeita ao município de Barcelos, entre 1991 e 2011, o setor primário diminuiu, assim como o setor secundário em detrimento do setor terciário. Apesar dos valores destacados na Figura 28, é de realçar a importância do setor secundário no município, que representava mais de metade da população a trabalhar no setor. Este corresponde a um ramo de atividade que processa ou transforma os produtos oriundos do setor primário (agricultura, pecuária, extração mineral, vegetal e animal, entre outros) em bens de consumo ou mesmo máquinas. Esse setor da economia é bastante abrangente, agregando indústria de vários tipos, como frigoríficos, lacticínios, fábricas de roupas, calçados e alimentos em geral, além de construção, que vai desde a mais simples até à mais complexa.
104 4% 54% 42% 2011 Primário Secundário Terciário 5% 64% 32% 2001 Primário Secundário Terciário Figura 28 - População empregada (em %) segundo o setor de atividade económica em Barcelos, em 1991, 2001 e 2011 Fonte: Elaboração própria com base nos XIII, XIV e XV Recenseamentos Gerais da População do Instituto Nacional de Estatística (I.N.E., 1993, 2001, 2012). No período de tempo analisado, a população ativa não aumentou em todas as freguesias. Grande parte das freguesias, ou seja, 15, perdeu população ativa em dez anos. Segundo os dados apresentados no Quadro 26, o setor secundário é o setor dominante em relação aos outros dois setores de atividade económica, com exceção das freguesias de Arcozelo, Barcelinhos, Barcelos, Macieira de Rates, Vila Frescainha (S. Martinho) e Vila Boa, onde se destaca o setor terciário. A freguesia de Macieira de Rates é aquela que tem mais população ativa a trabalhar no setor primário (Quadro 26). Todavia e felizmente, não é comum no percurso do Caminho Português a Santiago encontrarem-se fábricas que desvirtuem a paisagem. 10,9% 64,3% 24,8% 1991 Primário Secundário Terciário
111 dormidas em 18 anos, também devido a este município ser capital de distrito e uma cidade que possui um vasto património cultural e religioso, sendo o Santuário do Bom Jesus do Monte, Património Mundial da U.N.E.S.C.O. e foi distinguida como Capital Europeia da Juventude em 2012, e Cidade Europeia do Desporto em 2018. Terras de Bouro mais que triplicou as dormidas devido ao município estar inserido no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Pelo contrário, o município com menos dormidas neste espaço de tempo foi o município de Vila Verde (Quadro 31). Quadro 31 - Dormidas nos estabelecimentos de alojamento turístico em Portugal e noutras entidades territoriais, em 2000, 2010, 2015 e 2018 Entidade territorial Ano 2000 2010 2015 2018 Continente 28253124 31362735 44 709 708 57 192 011 Norte 3012673 4437756 7 001 899 9 778 017 Cávado 400717 470366 672 383 966 614 Amares 26222 26207 33 069 40 087 Barcelos 6903 25747 37549 49769 Braga 205732 262965 412 617 582 414 Esposende 111865 84154 86 755 129 882 Terras de Bouro 44883 63517 91 074 143 564 Vila Verde 5112 7776 11 319 20 898 Fonte: Elaboração própria com base no Anuário Estatístico de Portugal de 2001 (I.N.E., 2001) e no Anuário Estatístico da Região Norte de 2001, 2010, 2015 e 2018 (I.N.E., 2001, 2010, 2015 e 2018). Barcelos mais que sextuplicou as dormidas em estabelecimentos de alojamento turístico em 18 anos, devido à maior oferta de alojamento tanto no espaço urbano como no rural, como por exemplo, o Caminho de Santiago que influenciou muito o número de dormidas. Também se deve destacar o património existente no centro histórico, o artesanato, o Figurado e a Feira Semanal. Barcelos integra-se numa rota histórico-cultural, o designado touring , que inclui outras cidades do Minho, como Guimarães, Braga e Viana do Castelo, o que significa que há que optam por pernoitar noutros municípios, mas que não abdicam de fazer uma visita de curta duração a algum dos três turistas municípios mencionados no âmbito deste segmento (Ribeiro & Remoaldo, 2019). O Quadro 32 representa a estada média nos estabelecimentos hoteleiros. O indicador relaciona o número de dormidas e o número de hóspedes que deram origem a essas dormidas. Relativamente à estada média (número de dias) nos estabelecimentos hoteleiros verificou-se que a sua evolução oscilou nesses 18 anos. Constata-se que o Continente e o município de Amares se destacam relativamente às outras entidades territoriais. Ambos apresentam o maior número médio de dias nos estabelecimentos hoteleiros ultrapassando os valores da região Norte. Nos anos de 2000 e
112 2010 Amares ultrapassou os valores apresentados pelo Continente, enquanto que em 2005, 2015 e 2018 foi o Continente que registou os maiores valores em relação a este indicador (Quadro 32). Quadro 32 - Estada média (Nº de dias) nos estabelecimentos hoteleiros em Portugal e noutras entidades territoriais, em 2000, 2010, 2015 e 2018 Entidade territorial Ano 2000 2005 2010 2015 2018 Continente 2,2 2,8 2,6 2,6 2,5 Norte 1,8 1,8 1,7 1,8 1,9 Cávado 1,9 2,0 1,8 1,8 1,9 Amares 3,2 2,7 2,9 2,3 2,0 Barcelos 1,9 2,0 1,6 2,0 1,7 Braga 1,6 1,7 1,5 1,6 1,8 Esposende 2,1 2,4 2,4 2,5 2,2 Terras de Bouro 2,6 2,3 2,0 2,0 1,9 Vila Verde 1,7 1,7 2,2 1,9 Fonte: Elaboração própria com base no Anuário Estatístico de Portugal de 2001 (I.N.E., 2001) e no Anuário Estatístico da Região Norte de 2001, 2005, 2010, 2015 e 2018 (I.N.E., 2001, 2005, 2010, 2015 e 2018). À escala municipal observamos que apesar de o município de Amares ter diminuído o número de dias nos estabelecimentos hoteleiros, foi o que se destacou nos anos de 2000, 2005 e 2010. Esposende sobressaiu em relação aos restantes municípios nos anos de 2015 e 2020, devido à promoção do município para o aparecimento de novas empresas ligadas ao turismo, bem como ao Caminho Português da Costa, que tem recebido cada vez mais peregrinos. Barcelos apresentou uma estada média entre os 1,6 e os 2 dias devido, em grande parte, ao aumento do número de peregrinos a percorrer o Caminho de Santiago. É de salientar que Barcelos teve uma maior estada média do que o município de Braga, exceto no ano de 2018 (Figura 31). Barcelos é um importante ponto de paragem e a primeira cidade, para quem inicia o Caminho na cidade do Porto, com interesse histórico e patrimonial.
113 2,2 1,8 1,9 3,2 1,9 1,6 2,1 2,6 1,7 2,8 1,8 2 2,7 2 1,7 2,4 2,3 2,6 1,7 1,8 2,9 1,6 1,5 2,4 2 1,7 2,6 1,8 1,8 2,3 2 1,6 2,5 22,2 2,5 1,9 1,9 2 1,7 1,8 2,2 1,9 1,9 0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 3,5 Continente Norte Cávado Amares Barcelos Braga Esposende Terras de Bouro Vila Verde Número médio de dias Entidades territoriais 2000 2005 2010 2015 2018 Figura 31 - Estada média (Nº de dias) nos estabelecimentos hoteleiros em Portugal e noutras entidades territoriais, em 2000, 2010, 2015 e 2018 Fonte: Elaboração própria com base no Anuário Estatístico de Portugal de 2001 (I.N.E., 2001) e no Anuário Estatístico da Região Norte de 2001, 2005, 2010, 2015 e 2018 (I.N.E., 2001, 2005, 2010, 2015 e 2018). No Quadro 33 podem-se observar os proveitos de aposento. Estes compreendem os valores cobrados pelas dormidas realizadas por todos os hóspedes nos estabelecimentos hoteleiros. Todas as entidades territoriais, à exceção de Amares no ano de 2010, aumentaram os proveitos de aposento entre 2000 e 2018. No que respeita aos municípios integrados nas N.U.T.S. III do Cávado, os que apresentaram maiores proveitos de aposento foram os municípios de Braga e Esposende, destacando-se também Terras de Bouro, nos anos de 2015 e 2018. Vila Verde destaca-se por ter sido o município com menos proveitos de aposento. O município de Barcelos, apesar de apresentar menos proveitos de aposento em relação a outros municípios, revelou uma evolução constante, aumentando 88% dos mesmos (Quadro 33).
114 Quadro 33 - Proveitos de aposento (milhares de euros) por capacidade de alojamento nos estabelecimentos hoteleiros em Portugal e noutras entidades territoriais, em 2000, 2010, 2015 e 2018 Entidade territorial Ano 2000 2010 2015 2018 Continente 769 371 1 053 115 1 645 544 2 633 225 Norte 93 935 150 029 243 562 431 009 Cávado 9 342 13 988 18 273 30 304 Amares 881 810 1 086 1 473 Barcelos 175 890 1 131 1475 Braga 4 582 7 190 10 242 17 389 Esposende 2497 3 103 3 105 4 638 Terras de Bouro 1105 1 832 2 424 4 394 Vila Verde 101 163 285 936 Fonte: Elaboração própria com base no Anuário Estatístico de Portugal de 2001 (I.N.E., 2001) e no Anuário Estatístico da Região Norte de 2001, 2010, 2015 e 2018 (I.N.E., 2001, 2010, 2015 e 2018). As Figuras 32, 33 e 34 dizem respeito aos hóspedes por cada entidade territorial apresentada, entre 2000 e 2018. O total geral referido nas figuras diz respeito ao total dos hóspedes que entraram nos estabelecimentos hoteleiros de todos os países, incluindo a Alemanha, a Espanha, a França e o Reino Unido. No Continente, na região Norte e na N.U.T.S. III do Cávado destacam-se a Alemanha e o Reino Unido que diminuíram a sua entrada, em 2010, e os hóspedes espanhóis e portugueses que aumentaram as suas entradas nos estabelecimentos hoteleiros das entidades geográficas referidas (Figuras 32, 33 e 34).
115 Portugal Alemanh aEspanha França Reino Unido Total geral 2005 5078215 535701 1080740 357622 1050260 10140406 2010 6211495 539937 1335680 497004 921853 12212779 2015 7622627 911054 1601067 1108870 1513164 17421868 2018 9276122 1196839 1991400 1440616 1705845 22926413 0 5000000 10000000 15000000 20000000 25000000 Nº Países 2005 2010 2015 2018 Portugal Alemanha Espanha França Reino Unido Total geral 2000 1127210 55189 144067 63389 52232 1673367 2010 1612177 62933 296862 113291 51385 2545911 2015 2116279 144076 443132 269831 100677 3882255 2018 2579772 214049 592721 334461 154824 5285297 0 1000000 2000000 3000000 4000000 5000000 6000000 Nº Países 2000 2010 2015 2018 Figura 32 - Hóspedes entrados em estabelecimentos hoteleiros, no Continente, segundo o país de residência habitual e em 2000, 2010, 2015 e 2018 Fonte: Elaboração própria com base no Anuário Estatístico da Região Norte de 2005, 2010, 2015 e 2018 (I.N.E., 2005, 2010, 2015 e 2018). Figura 33 - Hóspedes entrados em estabelecimentos hoteleiros na Região Norte, segundo o país de residência habitual e em 2000, 2010, 2015 e 2018 Fonte: Elaboração própria com base no Anuário Estatístico de Portugal de 2001 (I.N.E., 2001) e no Anuário Estatístico da Região Norte de 2001, 2010, 2015 e 2018 (I.N.E., 2001, 2010, 2015 e 2018).
116 Portugal Alemanh aEspanha França Reino Unido Total geral 2000 149606 6862 16119 8838 11141 214194 2010 198129 5475 24014 9663 3660 267422 2015 253269 8507 40577 18451 4893 371914 2018 333976 13401 54121 24514 7352 522150 0 100000 200000 300000 400000 500000 600000 Nº Países 2000 2010 2015 2018 Portugal Alemanh aEspanha França Reino Unido Total geral 2000 2562 92 336 209 40 3629 2010 10951 783 1941 820 201 16323 2015 8551 1 172 2 053 1 327 724 18452 2018 12 056 3 230 3 302 1 717 900 28 457 0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 Nº Países 2000 2010 2015 2018 Figura 34 - Hóspedes entrados em estabelecimentos hoteleiros nas N.U.T.S. III do Cávado, segundo o país de residência habitual, em 2000, 2010, 2015 e 2018 Fonte: Elaboração própria com base no Anuário Estatístico de Portugal de 2001 (I.N.E., 2001) e no Anuário Estatístico da Região Norte de 2001, 2010, 2015 e 2018 (I.N.E., 2001, 2010, 2015 e 2018). Em Barcelos o número de hóspedes portugueses diminuiu em 2015, mas em 18 anos este número aumentou 12,8% (Figura 35), enquanto, por exemplo, em Braga diminuiu o número de hóspedes franceses e alemães em 2010. Figura 35 - Hóspedes entrados em estabelecimentos hoteleiros de Barcelos, segundo o país de residência habitual entre 2000 e 2018 Fonte: Elaboração própria com base no Anuário Estatístico de Portugal de 2001 (I.N.E., 2001) e no Anuário Estatístico da Região Norte de 2001, 2010, 2015 e 2018 (I.N.E., 2001, 2010, 2015 e 2018).
117 Em Esposende diminuíram os hóspedes portugueses e espanhóis em 2015 e os ingleses em 2018 e em Terras de Bouro e Vila Verde diminuíram o número de alemães e ingleses em 2010. O país que mais se destaca pela positiva é Espanha, pois cada vez mais espanhóis ficam hospedados nos estabelecimentos dos municípios analisados. 4.4. Notas conclusivas Ao longo do presente capítulo concluímos que Barcelos apresenta potencial para continuar a desenvolver e a apostar no Caminho a Santiago. Apresenta caraterísticas físicas para a sua prática quer a nível climático, de declives e uso do solo, revelando uma diversidade da sua paisagem, que deve ser atrativa para os peregrinos. Em todo o município o Caminho apresenta baixos graus de inclinação, variando entre 0° a 7°, o que faz com que o grau de dificuldade não seja elevado. É favorecido por ser realizado, em grande parte do seu percurso, em áreas agrícolas e de floresta e pontualmente em áreas sociais e urbanas. Contudo, a elevada pluviosidade e temperaturas baixas podem condicionar a sua realização nos meses de inverno, concedendo-lhe um caráter sazonal. O município em estudo apresenta uma baixa taxa de analfabetismo. A maioria da população possui o ensino básico e uma pequena percentagem possui o ensino superior, embora esta última esteja a aumentar. Tanto a oferta como a procura turística têm aumentado no município, sendo a maioria dos visitantes portugueses. Os impactes económicos e financeiros da pandemia da Covid-19, que têm conduzido a um aumento da taxa de desemprego, e o facto de a população estar cada vez mais envelhecida, são ameaças que o município enfrenta a vários níveis, estando entre eles a turística. No capítulo seguinte abordamos outros aspetos da paisagem que podem contribuir para uma avaliação positiva do Caminho, assim como alguns elementos impeditivos de um fruir mais completo da mesma.
118 5. CARATERIZAÇÃO DO TIPO DE PAISAGEM E DOS SERVIÇOS DE APOIO AO PEREGRINO, NO CAMINHO A SANTIAGO NO MUNICÍPIO DE BARCELOS Este capítulo é dedicado à caraterização dos serviços de apoio ao peregrino e ao tipo de paisagem existentes ao longo dos 33,6 km de percurso do Caminho de Santiago no município de Barcelos. É realizada uma avaliação geral dos serviços e procede-se a uma análise mais pormenorizada de cinco etapas do Caminho de Santiago, desde Macieira de Rates até Balugães. São abordados os serviços existentes, desde as fontes e pontos de abastecimento de água, comércio, serviços, restauração, lavandarias, tipo de piso e paragens adequadas para os peregrinos poderem fazer uma pausa. Realizamos depois uma avaliação geral do tipo de paisagem e os sentidos ao longo do Caminho de Santiago, com definição dos locais adequados para o peregrino meditar. 5.1. Avaliação geral dos serviços existentes Quando o peregrino planeia e percorre o Caminho Português a Santiago, o que o leva a realizar a sua passagem por Barcelos? Porque não vai pela variante de Guimarães e Braga? O município de Barcelos é o ponto central do Caminho Português a Santiago. A lenda do Galo de Barcelos, a posição geográfica do município e vários acontecimentos históricos conhecidos no Caminho são exemplos da ligação profunda do município a esta peregrinação medieval. A Lenda do Galo de Barcelos é uma das principais e mais antigas do Caminho. Reza a lenda do Galo (Câmara Municipal de Barcelos. Posto de Turismo de Barcelos, 2018) que um peregrino galego passava por Barcelos e que a população o acusou de cometer alguns crimes que andavam a acontecer, sem se ter descoberto o culpado. O juiz culpou o peregrino, mandando-o enforcar. Antes de se dirigir à forca, a seu pedido foi novamente presente ao juiz que estava num banquete com amigos e afirmou: “É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem!”. Os presentes riramse, mas ninguém tocou no animal. Quando o peregrino estava pronto a ser enforcado o galo cantou. O juiz dirigiu-se à forca, e para sorte do peregrino e espanto do juiz, o nó era lasso. O peregrino galego salvou-se e foi mandando em paz para continuar a sua peregrinação, voltando uns anos mais tarde, onde ergueu um monumento em honra de Santiago e à Virgem. O monumento, hoje designado de Cruzeiro do Galo, ainda está presente no Paço dos Condes na cidade de Barcelos. A Lenda retrata, assim, o Milagre de Santiago, em que o Apóstolo salva o peregrino da forca. Adicionando a isto, a posição geográfica do município relativamente ao Caminho é um fator relevante, porque o percurso rasga a meio o município, passando pelo centro do mesmo, influenciando, ao longo dos séculos, a sua dinâmica e o desenvolvimento económico, social e urbano.
119 Um dos exemplos desta influência é o centro histórico, onde existem edifícios cuja evolução está intimamente ligada à peregrinação jacobeia. Também existem quatro albergues ao longo do percurso e o Help Point na Casa da Azenha, bem como o Posto de Turismo, onde os peregrinos podem obter várias informações. Em várias freguesias do município, Santiago é o apóstolo das mesmas, e ao longo do Caminho, mas também fora do mesmo, existem santuários, igrejas, nichos, pontes, alminhas e cruzeiros que retratam a herança, a memória, a história e a identidade da vivência jacobeia neste território. Complementando os argumentos anteriores, episódios históricos como a passagem por Barcelos da Rainha Santa Isabel, no Século XIV ou o Sacerdote Confalonieri, no século XVI, entre outros que realizaram e marcaram o Caminho Português de Santiago, como Albani ou Damião de Góis, foram importantes fatores para que a cultura ao longo do Caminho contribuísse para a sua diferenciação cultural e para que Barcelos fosse um verdadeiro Museu Vivo do Caminho de Santiago (Câmara Municipal de Barcelos. Posto de Turismo de Barcelos, 2018). Em Barcelos, o Caminho transborda simbolismo, memórias, religião e arte, desde pormenores arquitetónicos às lendas ou peregrinações que interligam as igrejas, capelas, fontes, cruzeiros ou alminhas. A Figura 36 revela os vários serviços que existem ao longo do itinerário. O facto de não se notar o Caminho a amarelo no mapa, em todos os locais por onde este passa, significa que existe uma concentração de vários serviços em alguns locais, e onde se nota a linha amarela é onde existe esse défice. As várias fotografias presentes na Figura 36 são de locais que irão ser caraterizados em cada etapa do percurso, mais à frente no presente capítulo.
120 Figura 36 - Elementos presentes ao longo do Caminho de Santiago em Barcelos Fonte: Elaboração própria com base no ArcGis 10.6 e Google maps .
127 necessário atenção reforçada (Figura 42). Seguindo rumo a Norte, sempre pela E.N. 306 avista-se um alojamento local e em frente a Igreja e o Salão Paroquial de Santa Leocádia de Pedra Furada (Figura 43). Os acessos à igreja são muito bons, mas devido à pandemia causada pela doença COVID-19, não é possível visitar a igreja, mas sim a enigmática pedra furada junto da mesma. Segundo a lenda, a pedra terá sido cobertura de um túmulo de uma santa, a Santa Leocádia, que teria sido enterrada viva e que para sobreviver a mesma fez um buraco na pedra com a cabeça ( Site do Jornal Barcelos Popular, consultado a 7 de março de 2021). Deste modo, segundo a lenda, o orifício circular na pedra, foi causado pela saída da santa para escapar à morte. Existe um ponto de abastecimento, sem qualquer tipo de informação sobre a possibilidade de consumo. Junto da igreja existe um WC público que excecionalmente está fechado ao público, devido à doença COVID-19, e também existem caixotes para deposição de resíduos, escadas e muros que permitem um período de descanso. Se estiver a chover, a parte da igreja é coberta e por isso, funciona como abrigo. Junto do salão paroquial existem bancos com ramadas que fazem sombra e onde é possível descansar. A rua é movimentada, dificultando a meditação neste local, mas também no restante troço. O percurso continua pela E.N. 306 e encontra-se um painel informativo acerca dos quilómetros que faltam para alcançar cada albergue e onde se encontram bancos para descansar sobre a ramada e um cruzeiro e caixotes de lixo próximos. A partir daqui já existem lombas para os carros diminuírem a velocidade, passadeiras, passeios (embora intermitentes), e avistam-se depósitos de resíduos e ecopontos, devido ao casario disperso (Figura 44). Pouco depois o percurso segue por um pequeno desvio, através de uma bifurcação à esquerda da E.N. 306 onde se encontra o alojamento local Casa D. Maria e uma casa com serviço de massagens, com muito bons acessos. Nesta bifurcação, se o peregrino vier pelo lado direito da estrada, não tem passadeira para poder atravessar o percurso e continuar, e se vier pelo lado esquerdo da estrada, o mesmo não apresenta passeios, o que representa um perigo. Entra-se por um caminho que faz um desvio à E.N. 306, a Travessa de Santiago, que é um troço estreito com o piso irregular em terra, com muitas pedras no piso, que dificultam a caminhada. Este troço tem cerca de 120 m de extensão, com 2 m de largura por onde passam motociclos e que se torna perigoso para assaltos, por ser muito isolado e por existir um estreitamento da via devido ao deslizamento do muro (Figura 45). O itinerário volta à E.N. 306 e muda para asfalto. O percurso apenas tem passeio do lado direito e a passadeira para atravessar apenas existe mais à frente. O percurso passa mesmo em frente ao Restaurante Pedra Furada, que detém o menu de peregrino e
128 alojamento local onde existe um tanque para lavar roupa, tornando este local pitoresco e representativo da cultura minhota (Figura 46). Figura 42 - Entrada em estrada nacional N 306 Figura 43 - Igreja Paroquial de Santa Leocádia de Pedra Furada Figura 44 - Lombas em EN306 A etapa continua pela E.N. 306, sempre com passeios, passadeiras e lombas a acompanhar o Caminho e entra na freguesia de Góios. Esta freguesia destaca-se por possuir uma concentração de Fonte: Fotografia tirada por Sandro Alfaro a 25/11/2020. Fonte: Fotografia tirada por Paula Remoaldo a 5/8/2020. Fonte: Fotografia tirada por Cátia Faria a 6/8/2020. Fonte: Fotografia tirada por Cátia Faria a 6/8/2020. Fonte: Fotografia tirada por Cátia Faria a 6/8/2020. Figura 45 - Travessa de Santiago, local ermo e isolado Figura 46 - Restaurante Pedra Furada
129 serviços junto da estrada. No Caminho encontram-se vários depósitos de resíduos e avista-se um elevado número de casas com jardim, serviços e comércio. Destes serviços e comércio destaca-se a primeira farmácia que se encontra ao longo do Caminho, a Farmácia Dias Félix (Figura 47) e ao lado o café e restaurante Portela. Estes serviços são dotados de muito boas acessibilidades. Na freguesia de Pereira encontra-se o Portelas Park , um centro comercial (Figura 48 e foto 2 na Figura 38), onde se encontram várias lojas de serviço e comércio. Antes, a 60 metros do Portelas Park , caso o peregrino pretenda seguir pela variante da Franqueira, é necessário seguir por uma estrada de alcatrão, que se situa à esquerda. Figura 47 - Percurso em E.N. 306 e Farmácia Dias Félix Figura 48 - Centro Comercial Portelas Park O Quadro 34 mostra os locais de paragem ao longo do itinerário que foram definidos tendo em conta os lugares onde existem bancos ou mesas para descanso, para o peregrino poder sentar-se, pousar a mochila ou alimentar-se, quer os locais se situem em áreas com muito ou pouco ruído. Na primeira etapa do percurso, definimos 2 locais que reúnem condições para se fazer uma pausa. Sendo este um troço com cerca de 7 km, as duas paragens encontram-se muito próximas uma da outra (a cerca de 160m). O ideal seria haver outro local do percurso antes de chegar à igreja de Pedra Furada, para o peregrino poder fazer uma pequena pausa (Quadro 34). Fonte: Fotografia tirada por Paula Remoaldo a 6/8/2020. Fonte: Fotografia tirada do Google Maps.
130 Quadro 34 - Locais de paragem ao longo da primeira etapa Aspetos relacionados com o local de paragem Identificação do local Igreja Paroquial de Santa Leocádia de Pedra Furada (freguesia de Pedra Furada) Rua Carlos Bernardo Limpo Faria, junto da E.N. 306 (freguesia de Pedra Furada) Fotografia Elementos que existem no local Ponto de abastecimento de água sem informação; Igreja de Pedra Furada e Salão paroquial; Bancos de descanso; WC público; Depósito de resíduos. Cruzeiro; bancos em pedra para descanso; oliveira que permite paragem à sombra; painel de informação acerca dos albergues. Aspetos positivos Bancos para descanso; escadas exteriores funcionam também como bancos; paisagem interessante nas traseiras da igreja; ótimos acessos no largo da igreja para pessoas com limitações do foro físico. Bancos para descanso com sombra; painel de informação acerca dos albergues que se encontram no município; cabine telefónica perto do local. Aspetos negativos Ponto de abastecimento de água não potável; ruído dos veículos a motor na E.N. 306; não é propício à meditação; inexistência de passeios na E.N. 306 para aceder à igreja. Inexistência de ponto de abastecimento de água potável; ruído dos veículos a motor na E.N. 306. Elementos necessários para melhorar o local Possibilitar que o abastecimento seja feito com água potável; melhorar acessos à igreja, pois a E.N. 306 não contém passeios. Colocar ponto de abastecimento de água potável; colocar passeios ao longo do troço. Distância do local anterior e para o próximo A 4,6 km da entrada do Caminho no município; a 160m do próximo local de paragem. A 160m da igreja de Pedra Furada; a 1,8 km da Capela N. S. da Guia. Fonte: Elaboração própria com base no trabalho de campo realizado em 2020. Os locais de paragem foram definidos tendo em conta os lugares onde existem bancos ou mesas para descanso, para o peregrino poder sentar-se, pousar a mochila ou alimentar-se, quer os locais se situem em áreas com muito ou pouco ruído. Na primeira etapa do percurso, definimos 2 locais que reúnem condições para se fazer uma pausa. Sendo este um troço com cerca de 7 km, as duas paragens encontram-se muito próximas uma da outra (a cerca de 160m). O ideal seria haver
131 outro local do percurso antes de chegar à igreja de Pedra Furada, para o peregrino poder fazer uma pequena pausa (Quadro 34). 5.1.2. Caraterização do Caminho de Pereira até Barcelinhos A segunda etapa, entre Pereira e Barcelinhos carateriza-se pela maior quantidade de bens e serviços disponíveis, do que na etapa anterior, apesar da mudança da saída da E.N. 306 para o mundo rural na freguesia de Pereira e Carvalhal e seguindo-se outra mudança para o mundo urbano em Barcelinhos. Esta etapa do itinerário é um pouco mais extensa do que a anterior, i.e ., 9,1 km de Caminho pelo meio de três freguesias: Pereira, Carvalhal e Barcelinhos (Figura 49). Figura 49 - Segunda etapa do Caminho de Santiago, desde Pereira a Barcelinhos Fonte: Elaboração própria com base no ArcGis 10.6.
132 Depois do centro comercial Portelas Park , em Pereira, o Caminho de Santiago continua pela E.N. 306 passando junto da Capela Nossa Senhora da Guia (foto 1 na Figura 49) que se situa a 143 metros de altitude. Para visitar a Capela é necessário atravessar a E.N. 306 que não contém passadeira, tornando a travessia perigosa. Para ter acesso à capela é necessário subir 17 degraus, o que faz com que a subida seja inacessível para pessoas com dificuldades motoras. Este é um local com bancos para descanso e sombra para poder contemplar a paisagem semiurbana, mas o ruído dos veículos a motor torna difícil a meditação e a fonte que existente, de acordo com a placa de informação escrita em quatro idiomas (português, inglês, francês e alemão) avisa que a água não é controlada e, por isso, é imprópria para consumo (Figura 50). Após a capela, junto a um supermercado, o percurso segue pelo sopé do Monte, mas para isso é necessário o peregrino usar as passadeiras que se encontram antes deste desvio. O percurso no monte é feito de forma isolada, o que significa que é perigoso no que toca a assaltos (Figura 51). Este pequeno trecho tem como destino a E.N. 306, que se percorre ao longo de 40 m, que de novo leva o peregrino pelo meio da freguesia de Pereira. Apesar de este percurso se fazer por uma área muito tranquila, esta não é adequada para meditação. Nesta freguesia avista-se pelo Caminho um cruzeiro, junto a uma casa com um nicho, do século XVIII, dedicado a Nossa Senhora, a São Bento e a São Luís, depósitos de resíduos, um setor de restauração e as alminhas da aldeia (com elevado valor cultural). Caminhando depois pela estrada municipal E.M. 555, pelo interior mais rural, entra-se na freguesia de Carvalhal e encontram-se umas alminhas, com dois bancos em pedra ao lado, e em frente à Fonte de Pontegãos, que não contém água potável (Figura 52). Figura 50 - Capela Nossa Senhora da Guia Figura 51 - Local isolado no monte Figura 52 Fonte de Pontegãos Fonte: Fotografia tirada por Cátia Faria a 5/8/2020. Fonte: Fotografia tirada por Paula Remoaldo 5/8/2020. Fonte: Fotografia tirada por Paula Remoaldo a 6/8/2020.
133 O itinerário segue em direção à igreja de São Paio de Carvalhal entre piso em alcatrão e em paralelo. Junto da Igreja de São Paio de Carvalhal (Figura 53) existe um alojamento local, um minimercado, uma cabine telefónica, depósitos de resíduos, cruzeiros, alminhas, um marco a referir que faltam 199 km de Santiago de Compostela e uma farmácia a cerca de 100 m (foto 2 na Figura 49). O próximo local que se destaca é a Capela de Santa Cruz das Coutadas com alminhas e com abrigo na porta de entrada. A mesma está localizada no meio da estrada, funcionando como uma rotunda onde se dá o encontro de várias vias. A acessibilidade à capela é muito boa, contudo não estava visitável por questões sanitárias, ou seja, devido à pandemia da COVID-19. Ao lado da capela existe um parque de merendas arborizado (Figura 54) onde muitos peregrinos podem descansar e/ou meditar e cuja acessibilidade é muito boa. Além disso possui várias mesas e bancos, relva e sombra, bem como depósitos de resíduos e ecoponto, mas não apresenta pontos de abastecimento de água. Figura 53 - Igreja de S. Paio de Carvalhal Figura 54 - Parque de merendas junto da Capela de Santa Cruz das Coutadas Depois da capela, o itinerário penetra na freguesia de Barcelinhos. Esta é a primeira freguesia que se carateriza por apresentar vários serviços de que o peregrino pode usufruir. Antes da variante à E.N. 103, ocorre a primeira concentração de serviços nesta freguesia, com cabeleireiro, mecânico (que pode ser importante caso o peregrino esteja a usar bicicleta), restauração, posto de abastecimento e loja de vestuário. Perto do Caminho há um hospital privado, um alojamento local e vários estabelecimentos de restauração. Depois dos serviços anteriores entra-se num troço de percurso mais perigoso, onde se passa por um local isolado e um túnel em asfalto. Esta parte de estrada é estreita e desse modo só é possível circular um carro de cada vez, apesar de o poder fazer em ambos os sentidos. Nesse local também Fonte: Fotografia tirada por Cátia Faria a 5/8/2020. Fonte: Fotografia tirada por Cátia Faria a 6/8/2020.
134 passam pessoas, não tendo passeios para maior segurança. Depois da rede viária ao longo da E.N. 205 há novamente uma concentração de serviços (Figura 55 e foto 3 da Figura 49) onde se destacam a restauração, supermercado, caixas de multibanco, lojas de vestuário, cabeleireiro, um alojamento local, e a primeira lavandaria self-service. Segue-se pelo passeio que ladeia a estrada nacional E.N. 205 e encontra-se um cruzamento junto de um ponto de abastecimento de água não potável. Rumo a norte, desce-se uma rua com bastante inclinação (Figura 56) onde é possível observar a paisagem sobre o núcleo medieval da cidade de Barcelos, junto ao rio Cávado. Nessa rua inclinada existe outra concentração de serviços, como uma farmácia, estabelecimentos de restauração, um barbeiro, o primeiro albergue (o Albergue de Peregrinos da Associação Amigos da Montanha) e uma loja de telecomunicações. No fundo da rua, encontra-se a Capela da Senhora da Ponte, construída no século XIV, que possui vestígios de lava-pés, que é um testemunho da vocação Jacobeia. Não obstante, o lavapés, localizado no exterior da capela, não funciona. Logo a seguir, encontra-se a ponte medieval, que liga Barcelinhos à cidade de Barcelos. Do lado esquerdo da capela, no fundo da rua, encontra-se o Albergue da Residência do Senhor do Galo com uma área de descanso que possui uma mesa e dois bancos, com vista para o rio Cávado. Figura 55 - Concentração de serviços junto da E.N. 205 Figura 56 - Concentração de serviços junto da ponte medieval No que diz respeito aos locais de paragem da segunda etapa do itinerário, foram definidos 6. Tendo em conta que a etapa é realizada ao longo de 9,1 kms, os locais de paragens são suficientes, pois a maior distância entre um local e o seguinte é de 1,9 kms (Quadro 35 e 36). Fonte: Fotografia tirada por Cátia Faria a 12/8/2020. Fonte: Fotografia tirada por Cátia Faria a 12/8/2020.
135 Quadro 35 - Locais de paragem ao longo da segunda etapa Aspetos relacionados com o local de paragem Identificação do local Capela N. S. da Guia (freguesia de Pereira) Rua dos Paulinhos em espaço florestal (freguesia de Pereira) Fonte de Pontegãos (freguesia de Carvalhal) Fotografia Elementos que existem no local Ponto de abastecimento de água não potável; ardim; bancos de descanso; depósito de resíduos. Eucaliptos, mimosas; piso em terra batida; piso com pedras de vários tamanhos. Fonte de água não potável; banco em pedra para descanso; ramadas que permitem aproveitamento de sombra; alminhas com interesse cultural perto da fonte. Aspetos positivos Ponto de abastecimento de água não potável com informação em 4 idiomas; bancos para descanso abrigados e com sombra; escadas exteriores funcionam também como bancos; possui jardim. Proporciona muita sombra; cheiro a eucalipto; largura do percurso; propício à prática de meditação; ouvem se os pássaros; cheiro a eucalipto. Bancos para descanso e escadas com sombra; informação de que a água não é controlada; local silencioso. Aspetos negativos Ponto de abastecimento de água não potável; bancos ao sol; ruído dos veículos a motor na E.N. 306; Não é propício à meditação; elevado número de escadas de acesso à capela; ausência de passadeira de acesso à mesma. Ruído dos veículos a motor na E.N. 306; local ermo e isolado; propício a furtos. A água não é controlada; a informação acerca da água apenas se encontra em Português. Elementos necessários para melhorar o local Colocar o ponto de abastecimento de água com água potável; melhorar acessos à capela, pois não possui passadeira na E.N. 306. Colocar bancos em pedra. Proposta de intervenção na qualidade de água da fonte. Distância do local anterior e para o próximo A 1,8 km do local de paragem junto da E.N. 306; a 240m da entrada em espaço florestal. A 240m da Capela N. S, da Guia; a 1,9 km da Fonte de Pontegãos. A 1,9 km da saída do espaço florestal; a 1,5 km do parque de merendas em Carvalhal. Fonte: Elaboração própria com base no trabalho de campo realizado em 2020.
136 Quadro 36 - Locais de paragem ao longo da segunda etapa (conclusão) Fonte: Elaboração própria com base no trabalho de campo realizado em 2020. Aspetos relacionados com o local de paragem Identificação do local Junto do marco de km em Carvalhal (freguesia de Carvalhal) Parque de merendas em Carvalhal (freguesia de Carvalhal) Parque de merendas ao lado da Capela de Santa Cruz das Coutadas (freguesia de Carvalhal) Fotografia Elementos que existem no local Bancos para descanso; marco com indicação dos quilómetros que faltam até Santiago. Mesa de merendas com bancos; depósitos de resíduos/ecopontos; cabine telefónica; local relvado; equipamentos para prática de exercício. Mesas de merendas com bancos; depósitos de resíduos/ecopontos próximos; local relvado. Aspetos positivos Marco com indicação dos quilómetros que faltam até Santiago de Compostela; alminhas com interesse cultural, igreja e farmácia muito próximas; paisagem interessante e sossegada. Mesa de merendas com bancos; cabine telefónica; depósito de resíduos/ecoponto; local sossegado; elementos de granito que também podem funcionar como banco ou encosto; paisagem interessante. Mesas e bancos, em área com relva, com sombra e depósitos de resíduos/ecopontos próximos; capela e alminhas ao lado do parque; local muito sossegado; passagem rara de veículos a motor. Aspetos negativos Bancos para descanso localizados ao sol; por vezes passam veículos a motor. Falta de fonte com água potável; pouca sombra; faltam de bancos em pedra. Ausência de fonte com água potável. Elementos necessários para melhorar o local Colocar bancos com sombra; colocar ponto de abastecimento de água potável. Colocar bancos; colocar ponto de abastecimento de água potável. Colocar ponto de abastecimento de água potável; colocar painel de informação sobre o Caminho. Distância do local anterior e para o próximo A 1,5 km da Fonte de Pontegãos; a 900 metros do parque de merendas em Carvalhal. A 900 metros do marco com indicação dos km até Santiago; a 280 metros do parque de merendas, ao lado da Capela de Santa Cruz das Coutadas. A 280 metros do parque de merendas de Carvalhal; a 2,7km do Jardim das Barrocas/Jardim dos Assentos.