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Multifuncionalidade de canais de irrigação e percursos pedestres associados com integração de geopatrimónio

Vieira, António; Silva, Renato; Rodrigues, Sílvio Carlos

Abstract

Os canais utilizados para condução de água, tradicionalmente designados por levadas, são frequentes em Portugal e destinam-se principalmente à prática de atividades rurais, embora se encontrem mais recentemente associados também a práticas de lazer e turismo. Para além do seu valor cultural, ecológico e económico, estes percursos encerram também uma elevada riqueza ao nível da geodiversidade. Dado o crescimento das iniciativas de geoconservação e de estudo do geopatrimónio e o seu potencial de aplicação a espaços diversificados, considera-se importante a implementação de estratégias de promoção geopatrimonial, nestas estruturas antrópicas ancestrais, propondo a valorização e promoção integrada do território onde se inscreve, utilizando como exemplo o caso das levadas e veredas da Ilha da Madeira, apresentando-se os fatores de multifuncionalidade destes percursos.

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ISBN: 978-989-54317-3-1 As intensas discussões em torno do geopatrimónio, da geoconservação e da geopromoção, promovidas por uma reduzida, mas muito ativa comunidade científica, permitiu a criação, desenvolvimento e expansão de iniciativas de caráter mundial, transformando a ideia da valorização dos elementos abióticos num ideal e numa forma de inter-relação dinâmica entre academia, instituições (públicas e privadas) e sociedade. Ao dinamismo precoce deste movimento na Europa, seguiu-se a expansão e crescimento nos demais continentes, com destaque para o sul americano. As íntimas relações entre países ibéricos e latino-americanos permitiu que a investigação nestas temáticas fluísse facilmente entre estes territórios, promovendo as interações e colaborações, com enriquecimento científico e técnico para ambas as partes. Este livro é um pequeno reflexo da evolução e do conhecimento produzido por investigadores portugueses e latino-americanos, resultado dessas múltiplas interações e colaborações, procurando contribuir para a consolidação e afirmação do geopatrimónio e da geoconservação como ideias fundamentais da relação entre o Homem e a Natureza. GEOPATRIMÓNIO GEOCONHECIMENTO, GEOCONSERVAÇÃO E GEOTURISMO: EXPERIÊNCIAS EM PORTUGAL E NA AMÉRICA LATINA EDITORES António Vieira Adriano Figueiró Lúcio Cunha Valdir Steinke Valdir Steinke Valdir Steinke Valdir Steinke Valdir Steinke Lúcio Cunha Lúcio Cunha Lúcio Cunha Adriano Figueiró Adriano Figueiró Adriano Figueiró António Vieira António Vieira António Vieira EDITORES EDITORES EDITORES António Vieira é geógrafo, doutorado em Geografia pela Universidade de Coimbra. É Mestre em Geografia, área de especialização em Geografia Física e Estudos Ambientais e Licenciado em Geografia pela Universidade de Coimbra. É professor auxiliar no Departamento de Geografia da Universidade do Minho, desenvolvendo atividades de investigação como membro integrado do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS-UMinho), do qual é coordenador da linha Comunicação, Território e Organizações. É membro da Associação Portuguesa de Geomorfólogos (presidente de 2017 a 2019), da Riscos – Associação Portuguesa de Riscos, Prevenção e Segurança (vice-presidente) e da Associação Portuguesa de Geógrafos. É também membro da FUEGORED (Red Temática Internacional Efectos de los Incendios Forestales sobre los Suelos) e coordenador da FESP-in (Fire Effects on Soil Properties International Network). É Colaborador estrangeiro nos grupos de pesquisa PANGEA - Patrimônio Natural, Geoconservação e Gestão da Água (UFSM/Brasil), ROTAGEO (UEPG/Brasil) e Geomorfologia e Meio Ambiente (UFPel/Brasil). Durante a sua carreira desenvolveu investigação no âmbito da geomorfologia granítica, do património geomorfológico e das alterações do uso do solo, debruçando-se atualmente sobre temáticas relacionadas com sistemas de informação geográfica e deteção remota e sua aplicação ao ordenamento do território, geomorfologia glaciar e periglaciar, património geomorfológico, processos erosivos na sequência de incêndios florestais e medidas de mitigação, entre outras. Adriano Severo Figueiró possui graduação em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria (1990), mestrado em Geografia (Utilização e Conservação de Recursos Naturais) pela Universidade Federal de Santa Catarina (1997), doutorado em Geografia (Planejamento Ambiental) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005) e Pós-Doutorado em Geoconservação pela Universidade do Minho-Portugal (2013). Atualmente é professor Associado da Universidade Federal de Santa Maria, com experiência na área de Geografia Física, com ênfase em Geoecologia, Geoconservação e Educação ambiental. É líder do Grupo de Pesquisa em Patrimônio Natural, Geoconservação e Gestão de Águas (PANGEA) e coordenador do Laboratório de Geoecologia e Educação Ambiental (LAGED) do Departamento de Geociências da UFSM, desenvolvendo pesquisas e orientando alunos de graduação e pós-graduação na UFSM e na UFPel nas áreas de ecologia da paisagem, geoconservação, planejamento ambiental, geoturismo e educação ambiental. Lúcio Cunha é Geógrafo e Doutor (1989) com agregação (2002) em Geografia (Geografia Física) pela Universidade de Coimbra (Portugal). Professor Catedrático no Departamento de Geografia e Turismo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território (CEGOT), do qual foi já coordenador científico. Pertence a várias associações científicas das áreas da Geografia e da Geomorfologia, tendo sido já Presidente da Associação Portuguesa de Geomorfólogos e da Comissão Nacional de Geografia. Integra o Executive Committee da International Association of Geomorphology (IAG). É, ainda, membro da Comissão Científica do Centro de Estudos Ibéricos (CEI), da Federação Portuguesa de Espeleologia (FPE) e da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE). Integra a Comissão de Aconselhamento do Centro de Arquitectura da Ordem dos Arquitectos (secção Norte), o Conselho de Bacia Hidrográfico do Mondego e o Conselho Estratégico do PNSAC (Parque Natural da Serra de Aire e Candeeiros). Integra o conselho científico (ou editorial) de uma vintena de revistas nacionais e estrangeiras (Brasil e França). Valdir Adilson Steinke é geógrafo, mestre em Geologia e com doutorado em Ecologia pela Universidade de Brasília. Atualmente é professor associado do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília. É membro do corpo docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade de Brasília e Coordenador do Laboratório de Geoiconografia e Multimídias – LAGIM, e do Núcleo de Estudos de Geografia da Paisagem, onde desenvolve pesquisas nas temáticas de Paisagem, Geopatrimônio, Geoiconografia, Recursos Hídricos e Análise Ambiental. É membro da União da Geomorfologia Brasileira – UGB, da Associação Brasileira de Climatologia – ABClima (Diretor científico de 2016 a 2020) e da Global Water Partership América do Sul – GWP. É também pesquisador internacional vinculado ao grupo de pesquisa Paisagem Património e Educação da Universidade Autônoma de Madrid. Pesquisador do Grupo de pesquisa em Paisagem CNPq e Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Recursos Hídricos CNPq. Durante a sua carreira tem desenvolvido estudos transdisciplinares na perspetiva de vincular a ciência geográfica com as demais áreas do conhecimento, especialmente nos estudos de climatologia, bacias hidrográficas, recursos hídricos transfronteiriços, paisagem, geopatrimónio e a Geoiconografia (fotogeografia, cinema e multimídias), focados na formação de recursos humanos, em especial a formação de professores. António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke Lúcio Cunha e Valdir Steinke António Vieira, Adriano Figueiró Lúcio Cunha e Valdir Steinke 1 C M Y CM MY CY CMY K capa livro dezembro 2020.pdf 1 22/12/2020 00:55 António Vieira, Adriano Figueiró, Lúcio Cunha, Valdir Steinke Editores GEOPATRIMÓNIO. Geoconhecimento, Geoconservação e Geoturismo: experiências em Portugal e na América Latina CEGOT-UMinho Guimarães, 2018 Ficha Técnica: Título Editores ISBN Edição Ano de edição Comissão Científica: Capa Fotografia da capa Design da capa Impressão e acabamentos Tiragem Geopatrimónio – Geoconhecimento, Geoconservação e Geoturismo: experiências em Portugal e na América Latina António Vieira, Adriano Figueiró, Lúcio Cunha, Valdir Steinke 978-989-54317-3-1 CEGOT-UMinho, Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade do Minho 2018 Adriano Severo Figueiró (Universidade Federal de Santa Maria) António Campar de Almeida (Universidade de Coimbra) António Avelino Batista Vieira (Universidade do Minho) António José Bento Gonçalves (Universidade do Minho) Dante F. C. Reis Júnior (Universidade de Brasília) Edson Soares Fialho (Universidade Federal de Viçosa) Eduardo Salinas Chávez (Universidad de La Habana) Ercília Torres Steinke (Universidade de Brasília) Fernando Luiz Araújo Sobrinho (Universidade de Brasília) Juliana Maria Oliveira Silva (Universidade Regional do Cariri) Kátia Leite Mansur (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Laryssa S. de Oliveira Lopes (Instituto Federal do Maranhão) Lúcio José Sobral da Cunha (Universidade de Coimbra) Roque Magno de Oliveira (Universidade de Brasília) Venícius Juvêncio de Miranda Mendes (Uniprojeção) Valdir Adilson Steinke (Universidade de Brasília) Casa do Penedo (fotografia da capa obtida e utilizada nesta publicação com autorização expressa dos proprietários) António Vieira Venícius Mendes; LAGIM-UnB. Copissáurio 100 exemplares Trabalho cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) através do COMPETE 2020 – Programa Operacional Competitividade e Internacionalização (POCI) e por fundos nacionais através da FCT, no âmbito do projeto POCI-01-0145-FEDER-006891 (Refª FCT: UID/GEO 04084/2013). Geopatrimónio - Geoconhecimento, Geoconservação e Geoturismo A. Vieira, A. Figueiró, L. Cunha e V. Steinke (Eds.) 5 Parte I Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Parte II Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 ÍNDICE Prefácio António Vieira, Adriano Figueiró, Lúcio Cunha, Valdir Steinke 23 Aspetos conceptuais envolvidos no conhecimento e na conservação do geopatrimónio 25 Reflexões acerca da construção de uma estratégia de conservação geopatrimonial António Vieira 27 A geoconservação na escala da paisagem: uma abordagem Geobio-cultural Adriano Figueiró, José Mateo Rodriguez, Suzane Marcuzzo 39 Potencialidades e limites para a delimitação de hidrosítios no contexto da geoconservação Eliane Foleto, Francisco Costa 53 Geoturismo: discussão conceptual Maria Luísa Rodrigues 67 Geopatrimónio e desenvolvimento local Valdir Steinke, António Vieira 83 A geoconservação no contexto da Rede Global de Geoparques André W. Borba, Marcos A. L. Nascimento, José Patrício Melo 103 Técnicas e instrumentos metodológicos para a pesquisa do Geopatrimónio 115 Metodologias para a inventariação e avaliação do geopatrimónio António Vieira 117 Métodos de avaliação do potencial geoturístico do geopatrimónio Adriano Figueiró, Djulia Ziemann 135 A representação espacial da geodiversidade e do geopatrimônio: instrumentos para a geoconservação Adriano Luís Heck Simon, Gracieli Trentin 147 Estratégias interpretativas aplicadas ao geoturismo Adriano Figueiró, João H. Quoos, Djulia Ziemann 161 Educação geopatrimonial e conservação: exemplos de iniciativas em Caçapava do Sul, extremo sul do Brasil André W. Borba, Jaciele Carine Sell 177 Índice 6 Capítulo 6 Capítulo 7 Parte III Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Parte IV Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Potencial para o desenvolvimento do geoturismo e de geoprodutos na Bacia do Corumbataí em São Paulo – Brasil Luciana Cordeiro de Souza-Fernandes, Thais Oliveira Guimarães 189 Geoturismo urbano: possibilidades para a educação Antonio Liccardo, Carla Silva Pimentel 203 Estudos de caso em Portugal 219 O Património Geológico do Geopark Estrela e a sua valorização Emanuel de Castro, Fábio Loureiro, Hugo Gomes, Gonçalo Vieira 221 Multifuncionalidade de canais de irrigação e percursos pedestres associados com integração de geopatrimónio António Vieira; Renato Silva; Sílvio Rodrigues 235 Proposta de educação geoambiental e geoturismo: percurso das vezeiras (PNPG – Portugal) António Vieira; António Bento Gonçalves 251 Geopatrimónio e Cultura no Maciço de Sicó Carlos Silva 265 Retrato e avaliação do(s) valor(es) geopatrimonial(ais) da escarpa dos Arrifes do Maciço Calcário Estremenho (Centro de Portugal) Cátia Leal, Lúcio Cunha 279 O contributo do geopatrimónio para a promoção do território: o caso da rota geopatrimónio pedestre do Monte de Lagedas Ana Cláudia Peixoto, António Vieira 293 Estudos de caso na América Latina 309 Territórios aspirantes: o desafio dos projetos de Geoparque em construção no Brasil Marcos A. L. Nascimento, Kátia L. Mansur, Marilda Santos-Pinto 311 Una sinopsis de la geodiversidad y el geopatrimonio del Geoparque Mundial UNESCO Grutas del Palacio (Uruguay). Estrategias para su estudio César Goso Aguilar, Daniel Picchi 321 Revisión de la geodiversidad y patrimonio geológico en el Geoparque Colca y Volcanes de Andagua, Arequipa, Perú Bilberto Zavala Carrión, Igor Astete Farfán 343 Geopatrimónio - Geoconhecimento, Geoconservação e Geoturismo A. Vieira, A. Figueiró, L. Cunha e V. Steinke (Eds.) 7 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Cartografia geomorfológica aplicada à geoconservação: estudo no geomorfossítio Guaritas do Camaquã - Brasil Adriano Luís Heck Simon, Fábio Castilhos Arruda dos Santos 355 Turismo de natureza e geoturismo, paisagens de Mato Grosso do Sul, Brasil Charlei Aparecido da Silva, Patrícia Cristina Statella Martins, Bruno de Souza Lima 369 Desafios à geoconservação da Área de Proteção Ambiental da escarpa devoniana, Campos Gerais do Paraná/BR Maria Lígia Cassol-Pinto, Ricardo Letenski 385 Geopatrimônio hídrico no Brasil: desafios, potencialidades e perspectivas Karen Aparecida de Oliveira, Venícius Juvêncio de Miranda Mendes, Valdir Steinke 399 Avaliação qualitativa dos impactos às nascentes e ao Geopatrimonio do Parque Nacional da Serra da Canastra Giliander Alan Silva, Thallita Isabela Silva Martins Nazar, Renato Emanuel Silva, Sílvio Carlos Rodrigues 409 Promoção do geopatrimônio e desenvolvimento do geoturismo no Brasil Central: desafios e perspectivas Daniela Conceição O. Teles, Vinícius Galvão Zanatto, Valdir Steinke 427 Índice 8 Geopatrimónio - Geoconhecimento, Geoconservação e Geoturismo A. Vieira, A. Figueiró, L. Cunha e V. Steinke (Eds.) 241 As características em questão podem ser entendidas a partir das considerações de Mata et al. (2013). Os autores indicam que a litologia e topografia não são propícias à formação de reservas superficiais de água significativas, como rios e lagos. Logo, a maior parte precipitações não infiltram e alcançam com facilidade o mar. Por conta destas torrentes, que tornam os fundos de vale ainda mais frágeis para a ocupação humana, a instalação de sistema de captação de água, como bombas, também é dificultado sendo dada preferência a construção das derivações tradicionais. Para os pequenos cursos naturais existe o papel ecossistêmico, pela formação dos habitats fluviais e compõem paisagens com potencial turísticos, ainda mais evidenciado pelos canais artificiais (levadas). As levadas são especialmente necessárias na ilha da Madeira à transposição de água aos heréus, como são chamados os utilizadores, da vertente norte para a sul (Branco, 1983; Fernandes, 2010). 4. Potencialidades multifuncionais das levadas da Madeira A abordagem de elementos relacionados com os aspetos geológicos, geomorfológicos, hidrológicos e pedológicos pode ter associada, amiúde, uma perspetiva antrópica ou uma importante integração com elementos provenientes da ação humana. No caso da Ilha da Madeira esta proposição encontra substancial apoio, quando nos referimos especificamente às levadas e veredas. Estas infraestruturas de condução da água são canais frequentemente construídos e escavados na própria rocha, sobre vertentes íngremes, com obras que desafiam a engenharia, e que permitem uma abordagem diversa que se estende das obras de instalação e manutenção, para aproveitamento hidrológico, até ao seu potencial turístico. Com efeito, para além dos valores naturais que estas paisagens encerram, incluindo os geopatrimoniais, encontra-se um riquíssimo património hidráulico, construído, personificando um valor cultural que reflete a atuação de uma civilização que aqui se instalou e se adaptou ao ambiente e o adequou às suas necessidades, criando uma simbiose entre natureza e obra humana. Neste contexto, alguns elementos da geodiversidade são promovidos precisamente pela intervenção do Homem, que os torna visíveis e visitáveis, ganhando por vezes um simbolismo associado à própria presença ou realização humana, enquanto outros traduzem a combinação da natureza geológica, geomorfológica ou hidrológica com a modificação antrópica e a implementação de infraestruturas. O caso das levadas na Madeira traduzem estas realidades, cruzando-se harmoniosamente as dinâmicas naturais e antrópicas e conduzindo a uma valorização do conjunto, variável no espaço Capítulo III.2. Multifuncionalidade de canais de irrigação e percursos pedestres associados António Vieira, Renato Silva, Sílvio Rodrigues 242 e no tempo, e tendencialmente diversificada, ainda que não necessariamente conflituosa, tal como as múltiplas funções que aí podem coexistir. Como facilmente se pode constatar e foi já referido por diversos autores, as levadas servem diversos usos, para além da irrigação, incluindo a produção de energia (Branco, 1983), o uso residencial, a moagem e atividades industriais (Marujo, 2015), sendo o mais recente, e marcadamente bem-sucedido, o aproveitamento das levadas para o turismo. Iniciadas com maior intensidade na última década do século XX, as atividades turísticas baseadas nas levadas (com foco no pedestrianismo) têm alterado o significado destes canais e atraído recursos financeiros (Fernandes, 2010), além de criar novas possibilidades de preservação destes ambientes. A prática de caminhadas junto a levadas não se limita à Madeira, como exposto em Silva et al. (2017) ou Vieira et al. (2018), mas em poucas regiões existe tamanha disponibilidade de percursos e paisagens a eles associados como na Madeira. Como resultado, o turismo gerou (re)valorização dos trilhos, anteriormente utilizados para a manutenção dos canais e agora considerados atrativos, e criou possibilidades para novas dinâmicas de observação/interação com a paisagem. Esses percursos, que acompanham as levadas, são chamados de “veredas” na Madeira, sendo mantidos em bom estado, pelo que permitem ao visitante conhecer áreas de encostas que em outras situações seriam difíceis de serem alcançadas (Figura 3). Figura 3. As veredas, trilhos utilizados para manutenção das levadas, agora são um atrativo turístico na ilha da Madeira. Fonte: elaborado pelo autor. A particularidade das caraterísticas associadas às levadas tem conduzido à implementação de percursos pedestres, que correspondem a caminhos pré-existentes ou estabelecidos e Geopatrimónio - Geoconhecimento, Geoconservação e Geoturismo A. Vieira, A. Figueiró, L. Cunha e V. Steinke (Eds.) 243 sinalizados especificamente com o objetivo de facilitar a circulação de visitantes e aproximá-lo do ambiente natural, como forma de lazer, entretenimento ou educação (Braga, 2007). Efetivamente, estes percursos pedestres em levadas permitem o contato do visitante com um conjunto bastante diversificado de elementos do património cultural e, especialmente, natural. A partir destes percursos podem ser observados elementos geopatrimoniais, como seja a dinâmica de captação de água, as quedas de água, os próprios cursos de água naturais e os artificiais, as formas do relevo e os processos de vertente. A localização destes percursos pedestres encontra-se facilitada, uma vez que é feita uma ampla divulgação deste tipo de oferta turística, existindo informação nos principais pontos de chegada à ilha, como seja o aeroporto e em espaços ligados ao turismo. Para as diversas levadas e veredas são disponibilizados mapas e outros documentos informativos, que também poderão ser encontrados em sites e guias turísticos. A ilha conta com boa rede viária (embora o uso de GPS seja recomendado), bem sinalizada e com restaurantes e outros atrativos ao longo dos caminhos. Muitas das estruturas, como sanitários e acesso a refeições podem encontrar-se em locais próximos das levadas. 4.1. Dinâmica de captação de água baseada nas ATH’s representadas pelas levadas Para Quintal (2011) as técnicas de construção das levadas, do ponto de vista dos menores impactos ecossistémicos nas encostas em que se inserem, tem valor significativo. A sua longevidade é um aspeto de destaque, potenciado pela constante atividade de manutenção, mesmo em ambientes e paisagens de elevada dinâmica, com deslizamentos e avanço da vegetação densa da Laurissilva. Estas assinaturas topográficas humanas são, portanto, um elemento de elevado interesse para valorização e exploração de um turismo voltado para os aspectos do geopatrimónio. Durante as visitas nas levadas é possível observar o sistema de recolha de águas dos cursos naturais e vertentes para os canais artificiais. O processo de derivação e intercetação das águas provenientes das vertentes aproveita o potencial pluviométrico, de humidade e circulação subaérea existente nos setores mais elevados da ilha, e direciona os fluxos para o litoral e outras áreas de consumo. Assim, em conjunto com os tradicionais açudes, ocorrem conexões com pequenos canais artificiais, as galerias de captação e, no corte das vertentes, o afluxo proveniente de fontanários e pequenas linhas de água que “desaguam” nas levadas (Figura 4). Capítulo III.2. Multifuncionalidade de canais de irrigação e percursos pedestres associados António Vieira, Renato Silva, Sílvio Rodrigues 244 Figura 4. Galerias de captação nas duas primeiras imagens e águas de escorrência das vertentes, na terceira, constituem um reforço continuo das águas para as levadas ao longo das vertentes. Fonte: elaborado pelo autor. No corte das vertentes são reveladas, por entre a vegetação Laurissilva, as rochas que constituem o substrato, materiais extrusivos nos quais se modelam as formas do relevo, de elevada imponência, ao longo dos vales escarpados que sulcam os contrafortes da ilha. Nalguns casos, canais menores, com a função de interceção dos fluxos das vertentes, foram construídos diretamente nas rochas e direcionam o fluxo para os canais principais. No que diz respeito às demais assinaturas topográficas, são de referir os cortes das vertentes, incluindo túneis e sulcos, realizados para acomodarem as valas levadas, muitos diretos nas rochas (Figura 5). Figura 5. Um dos inúmeros túneis escavados nas vertentes para implementação das levadas. Fonte: http://www.ruigoncalvessilva.com/madeira/-tuneis-rodoviarios-da-madeira Geopatrimónio - Geoconhecimento, Geoconservação e Geoturismo A. Vieira, A. Figueiró, L. Cunha e V. Steinke (Eds.) 245 Associados às levadas encontramos ainda moinhos e lagares, bem como um conjunto diversificado de estruturas antrópicas de apoio à utilização, manutenção e usufruto das levadas e veredas. Todos estes elementos de origem antrópica acabam por tornar a experiência nas levadas ainda mais diversificada e interessante ao visitante, trazendo a componente históricocultural para o contexto das paisagens naturais, integrando os elementos da biodiversidade, da geodiversidade e os antrópicos. 4.2. A função ecossistémica desempenhada pelas levadas Como seria de esperar, o grande potencial das levadas está na sua dinâmica de transposição da água, pelo que os aspectos hidrológicos dos canais naturais e artificiais podem ser visitados e estudados nestes locais. Os passeios são interessantes para entender a dinâmica de transposição e como o clima húmido e as encostas densamente vegetadas operam no fornecimento de água, alimentando os sistemas em questão. Ao longo dos trajetos cursos naturais menores aparecem, alguns interagindo com o canal artificial, outros, por estruturas como pontes ou manilhas, apenas seguem seu caminho em direção ao mar. Quanto aos aspectos ambientais, as condições das levadas da ilha da Madeira repetem elementos observados em canais em outras regiões do mundo como Caxemira, Portugal, Espanha e Brasil (Silva, 2018). Logo, as intervenções alteram os fluxos dos canais naturais, mas também funcionam como extensores dos habitats aquáticos, inclusive com registros da ictiofauna. Efetivamente, o primeiro e mais significativo elemento valorizável, presente nas levadas, não poderia ser outro senão a própria água. De fato, este elemento, enquanto elemento ecossistémico e como recurso, encerra um conjunto de caraterísticas de extrema importância do ponto de vista da regulação dos valores ecossistémicos. Considerando o seu papel ecossistémico, esta infraestrutura mantém as caraterísticas necessárias para a manutenção de um ambiente próximo do existente no curso de água ao qual retira a água, sendo possível observar uma fauna diversificada ao longo das levadas associados a circulação da água. Desempenha, ainda, um papel importante de conectividade nos e entre os ecossistemas, contribuindo igualmente para a regulação das condições micro-climáticas e ambientais. De facto, é possível identificar este papel ecossistémico, nomeadamente pela utilização da infraestrutura por fauna diversa, mas também pela sua importância para a vegetação e sua ambiência. É de realçar o facto de, desde dezembro de 1999, a Laurissilva, floresta indígena da Madeira, estar classificada como Património Natural da Humanidade, pela UNESCO, sendo que Capítulo III.2. Multifuncionalidade de canais de irrigação e percursos pedestres associados António Vieira, Renato Silva, Sílvio Rodrigues 246 a área onde está implantada é percorrida por estas levadas, e estas constituem uma caraterística intrínseca ao seu ambiente. 4.3. formas do relevo Dos picos elevados na região central da ilha, passando por vertentes e arribas extremamente declivosas, cascatas, vales encaixados, registos de antigos derrames de lavas e até cicatrizes de movimentos de massa, o relevo da Madeira é diverso. Nalguns locais o turista sente-se como se estivesse numa ilha do Havai ou viajando entre montes de alguma paisagem cinematográfica. Mas as estradas e miradouros exploram apenas uma parcela do potencial destas paisagens. Tanto para pesquisadores quanto para turistas as oportunidades paisagísticas a partir dos percursos de levadas são singulares e inovadoras. A partir das levadas é possível contemplar vertentes íngremes, fundos de vales abissais, quedas de água e cursos fluviais, observar a formação e movimentação das nuvens. Com relevo acidentado e canais percorrendo os desníveis topográficos, muitos formando quedas diretas para o mar com paredões livres, a ilha da Madeira tem como importantes atrações as quedas d’água. Estes elementos de interesse geomorfológicos têm sido sistematicamente explorados em diversos estudos como Bento (2014) ou Oliveira et al. (2017), por exemplo. Na ilha da madeira o potencial destas quedas de água tem sido considerado justamente pela sua beleza cênica. Entre as inúmeras quedas de água algumas podem ser visitadas junto aos canais artificiais com acesso facilitado. A questão da facilidade de acesso a rupturas do relevo, onde estão as quedas de água, tem sido ponto de discussão na valorização de parques para o geopatrimónio. Muitas destas formas, apesar de interessantes do ponto de vista cénico e científico, são desvalorizadas pela dificuldade e riscos no acesso. As levadas tornam o acesso facilitado à experiência do turismo em quedas de água acessível a diferentes públicos. No caso das levadas visitadas os exemplos destas geoformas são também impressionantes: a cascata das 25 fontes ou a fantástica cascata da lagoa do vento e do risco (Figura 6) são dois casos de geoformas providas de grande excepcionalidade, e encerrando ainda outros valores geopatrimoniais (especificamente de caráter geológico e geomorfológico). Geopatrimónio - Geoconhecimento, Geoconservação e Geoturismo A. Vieira, A. Figueiró, L. Cunha e V. Steinke (Eds.) 247 Figura 6. Cascata das 25 fontes e cascata da lagoa do vento e do risco. Fonte: Caminheiros Anónimos. 4.4. Processos entre vertentes e canais Outros elementos observados e valorizados em campo foram os relativos aos processos considerados hidrogeomorfológicos, revelando uma íntima relação entre a ação da água, as formas do relevo e as assinaturas topográficas humanas. As condições geológicas, a cobertura vegetal e as caraterísticas de algumas dessas estruturas antrópicas reduzem a conexão de sedimentos das vertentes com os canais. Logo, as limpezas de sedimentos ocorrem com menor frequência do que os casos vistos no Brasil, em canais de terra (Silva, 2018) e mesmo em levadas no norte de Portugal (Silva et al., 2017; Vieira et al., 2018). Contudo, para as levadas da Madeira é significativo o risco de queda de blocos ou erosão que potenciam a interrupção dos fluxos de água. Foi possível identificar, em trabalho de campo, testemunhos de algumas dessas dinâmicas, nomeadamente pela acumulação de sedimentos junto aos canais (Figura 7). Os próprios moradores e utilizadores das levadas informaram que geralmente os canais obrigam a diversas retiradas anuais de sedimentos, ainda que as quedas de blocos que ocorrem sejam mais impactantes, pois podem causar acidentes ou interromper os fluxos. É justamente esse risco de queda de blocos que fomenta a recomendação de realizar os percursos da Madeira com guias especializados. Capítulo III.2. Multifuncionalidade de canais de irrigação e percursos pedestres associados António Vieira, Renato Silva, Sílvio Rodrigues 248 Figura 7. Alguns exemplos dos depósitos materiais que são vistos junto as levadas, o registro realizado em outubro, distante 9 meses da última intervenção de limpeza. Fonte: elaborado pelo autor. Ainda que em menor quantidade, os sedimentos depositados nos canais são retirados e depositados ao longo das veredas. A presença de pessoas no percurso acaba compactando o material e o tornando menos percetível a acumulação dos sedimentos nos trilhos, do que em outros canais artificiais vistos na Europa, Ásia e América do Sul (Silva, 2018). Logo, sendo as veredas constantemente pisoteadas e não havendo diques antrópicos significativos, o nível das mesmas com a borda dos canais em vários trechos é semelhante, resultando em transbordamentos. 5. Conclusões O presente estudo procurou apresentar as potencialidades das levadas e veredas da ilha da Madeira para fins múltiplos, quer as relacionadas com a atividade de transporte da água para fins agrícolas ou de consumo humano, quer as relacionadas com atividades ligadas turismo, seja o cultural ou de natureza, seja o relacionado com o geopatrimónio, no âmbito do geoturismo. Embora sejam notáveis estes potenciais, principalmente associados ao património histórico das levadas, que facilita a contemplação da paisagem, dos elementos hidráulicos e de uma variedade de elementos do geopatrimónio, adequações são necessárias para um melhor aproveitamento destas áreas. Com efeito, a geoconservação e a promoção geoturística das levadas são realidades ainda pouco relevantes. A proposta de geossítios da Região Autónoma da Madeira integra 36 geossítios na ilha da Madeira, sendo um deles as 25 fontes, mas evidencia uma reduzida integração com Geopatrimónio - Geoconhecimento, Geoconservação e Geoturismo A. Vieira, A. Figueiró, L. Cunha e V. Steinke (Eds.) 249 outros valores paisagísticos, nomeadamente os culturais associados às levadas, tal como se observa noutros locais. Dada a capacidade de integração de múltiplas funcionalidades, as levadas poderão constituir um fio condutor para o desenvolvimento de estratégias e propostas de exploração geopatrimonial do território onde estas estruturas estejam instaladas, conduzindo a experiências geoturísticas que aliem o conhecimento e apreciação da geodiversidade/geopatrimónio, ao património cultural traduzido nas práticas seculares de derivação e condução da água para fins múltiplos e demais valores decorrentes das dinâmicas naturais e práticas culturais das comunidades locais. 6. Agradecimentos Os autores agradecem à Universidade Federal de Uberlândia (Brasil) e à Universidade do Minho (Portugal), bem como à CAPES e ao CEGOT, o apoio concedido para o desenvolvimento destas pesquisas. Bibliografia Abreu, U., Rodrigues, D., Tavares, A. (2007). Esboço geomorfológico do concelho de Câmara de Lobos (ilha da Madeira). Tipologia dos movimentos de vertente. 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