Integração de imigrantes e acesso ao ensino do Português como Língua Estrangeira em Portugal: O que há de novo no Plano Estratégico para 2024-2027?
Abstract
Portugal adotou, em 2024, o seu primeiro Plano Estratégico para a Aprendizagem de Português como Língua Estrangeira, reconhecendo a importância que a aprendizagem da língua e o conhecimento da cultura nacionais necessariamente assumem no processo de integração social dos imigrantes. Neste texto, analisamos o Plano à luz dos parâmetros internacionais sobre direitos linguísticos e requisitos de integração em contextos migratórios, bem como das políticas de integração adotadas pelo Estado português desde a década de 1990 e o lugar aí ocupado pelas exigências de proficiência linguística e pelo ensino da língua portuguesa.
Full text
1 Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais
2Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior Brasil (CAPES) Código de Financiamento 001. Este livro foi financiado pela FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, Processo SEI 260003/000538/2023 Este livro foi financiado pelo PGLetras Programa de Pósgraduação em Letras UERJ, utilizando verba PROAP CAPES (Processo 0907/2022/88881.719943/2022-01)
JEPLI - Jornada de Estudos em Português Língua Internacional 3 Jefferson Evaristo Davi Borges de Albuquerque Monique Carbone Cintra (Organizadores) Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais
4 Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais Copyright © Autoras e autores Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida, transmitida ou arquivada desde que levados em conta os direitos das autoras e dos autores. Jefferson Evaristo; Davi Borges de Albuquerque; Monique Carbone Cintra [Orgs.] Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais. São Carlos: Pedro & João Editores, 2025. 286p. 16 x 23 cm. ISBN: 978-65-265-1894-6 [Impresso] 978-65-265-1892-2 [Digital] 1. Língua portuguesa. 2. Internacionalização. 3. Ensino superior. 4. Grupo de Estudos em Português Língua Internacional - GEPLI. I. Título. CDD 370/410 Capa: Marcos Della Porta Ficha Catalográfica: Hélio Márcio Pajeú CRB - 8-8828 Diagramação: Diany Akiko Lee Editores: Pedro Amaro de Moura Brito & João Rodrigo de Moura Brito Conselho Editorial da Pedro & João Editores: Augusto Ponzio (Bari/Itália); João Wanderley Geraldi (Unicamp/Brasil); Hélio Márcio Pajeú (UFPE/Brasil); Maria Isabel de Moura (UFSCar/Brasil); Maria da Piedade Resende da Costa (UFSCar/Brasil); Valdemir Miotello (UFSCar/Brasil); Ana Cláudia Bortolozzi (UNESP/Bauru/Brasil); Mariangela Lima de Almeida (UFES/Brasil); José Kuiava (UNIOESTE/Brasil); Marisol Barenco de Mello (UFF/Brasil); Camila Caracelli Scherma (UFFS/Brasil); Luís Fernando Soares Zuin (USP/Brasil); Ana Patrícia da Silva (UERJ/Brasil). Pedro & João Editores www.pedroejoaoeditores.com.br 13568-878 São Carlos SP 2025
JEPLI - Jornada de Estudos em Português Língua Internacional 5 Agradecimentos Agradecemos às nossas famílias, sem as quais nada do que fizemos e fazemos seria possível. Seja no Brasil, na Itália ou na China, nossos trabalhos só existem porque o fazemos por elas.
JEPLI - Jornada de Estudos em Português Língua Internacional 7 Sumário Prefácio Semeando ideias: A história da Jornada de Estudos em Português Língua Internacional Luciane Boganika Martina Delfino Apresentação Jefferson Evaristo Davi Albuquerque Monique Carbone Cintra Propostas para um ensino crítico do português em contexto internacional e italiano Ana Luiza Oliveira de Souza O diálogo cancional luso-brasileiro: a música popular como fator de Lusofonia André Conforte O papel de Timor-Leste no processo de internacionalização do português Davi Albuquerque Políticas linguísticas de internacionalização da língua portuguesa: documentos oficiais, revistas acadêmicas e pós-graduação brasileira Jefferson Evaristo 9 13 15 39 73 87
8 Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais A canção como porta de entrada para o ensino da literatura em português como língua adicional José Peixoto Coelho de Souza Luís Felipe Maliszewski Gonçalves A construção de Políticas Linguísticas plurilíngues para o contexto universitário: do (re)conhecimento de realidades à busca de caminhos Lucas Araujo Chagas Elaine Maria Santos Migração venezuelana e ensino de português como língua de acolhimento no extremo norte do Brasil Marcus Vinícius da Silva O papel da competência metalinguística na aprendizagem do Português como Língua Estrangeira para alunos portadores de Transtornos Específicos de Aprendizagem (TEAp). Uma ajuda ou um obstáculo? Maria Antonietta Rossi Construindo pontes linguísticas: a coleção Rapazinho e o ensino de PLE desde Misiones (Argentina) - uma análise da obra Nicolás O. Borgmann Romina Soledad Macenchuk Integração de imigrantes e acesso ao ensino do Português como Língua Estrangeira em Portugal: O que há de novo no Plano Estratégico para 2024-2027? Patrícia Jerónimo Contacto, migração e refúgio em Portugal: relações internas do português na diversidade Paulo Feytor Pinto 117 139 167 191 213 241 267
JEPLI - Jornada de Estudos em Português Língua Internacional 241 Integração de imigrantes e acesso ao ensino do Português como Língua Estrangeira em Portugal: O que há de novo no Plano Estratégico para 2024-2027? Patrícia Jerónimo (Universidade do Minho Portugal) Introdução As competências linguísticas são reconhecidamente um importante fator e instrumento de integração dos imigrantes1nas sociedades de acolhimento, não apenas porque facilitam o acesso ao mercado de trabalho e a interação com as autoridades estatais, mas também porque constituem um requisito habitual para a obtenção de autorização de residência e para a aquisição da nacionalidade do Estado onde residem. Assim é, por exemplo, em Portugal, cuja lei de imigração exige comprovativo de conhecimento do Português básico aos requerentes de autorização de residência permanente e demonstração de fluência no Português básico aos requerentes do estatuto de residente de longa duração2, e cuja lei da nacionalidade exige conhecimento suficiente da língua portuguesa aos candidatos à naturalização3, 1 2 3
248 Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais sistema de ensino local, particularmente no que respeita ao ensino da língua local (artigo 45.º, n.º 2)18. Tal como vimos no parágrafo anterior, estas disposições não reconhecem direitos subjetivos aos trabalhadores migrantes e aos seus filhos menores e deixam uma considerável margem de conformação aos Estados, apesar de o tom ser ligeiramente mais assertivo, sobretudo, na Convenção Europeia relativa ao Estatuto Jurídico do Trabalhador Migrante, que, no entanto, só se aplica aos nacionais dos Estados Parte, excluindo os imigrantes oriundos de fora da Europa. Não deixa de ser relevante, todavia, que a aprendizagem da língua oficial figure nestes instrumentos normativos como algo que os Estados de acolhimento devem facilitar e não tanto como um dever imposto aos imigrantes. O único tratado internacional de direitos humanos em que a aprendizagem da língua oficial é apresentada como um dever e, mesmo aí, de forma não inteiramente explícita é a Convenção Quadro para a Proteção das Minorias Nacionais, cujo artigo 14.º, n.º 3, ressalva que a concretização da possibilidade de aprender uma língua minoritária ou de receber ensino nessa língua no sistema de um preceito a respeito do qual o Relatório 18
JEPLI - Jornada de Estudos em Português Língua Internacional 249 Explicativo da Convenção Quadro19 observa que o conhecimento da língua oficial é um fator de coesão social e de integração. A responsabilidade dos Estados na facilitação da integração dos imigrantes através da oferta de ensino da língua oficial é, entretanto, também uma nota recorrente nos instrumentos internacionais de política em matéria de gestão das migrações. Por razões de brevidade, atentaremos apenas em dois exemplos recentes, um da ONU e outro da UE. O Pacto Global para as Migrações Seguras, Ordenadas e Regulares, aprovado pela Assembleia-Geral das Nações Unidas em 19 de dezembro de 201820, inclui a formação linguística entre os serviços básicos que os Estados devem proporcionar aos imigrantes (objetivo 15) e responsabiliza os Estados pela capacitação dos imigrantes e das sociedades de acolhimento para assegurar a inclusão plena e a coesão social (objetivo 16), através e.g. do estabelecimento de programas de formação pré-partida e póschegada completos e atentos às necessidades dos migrantes, que podem incluir formação linguística básica, para além de informações sobre direitos e deveres e sobre normas sociais e costumes no país de destino, bem como pelo investimento na aquisição de competências e pela facilitação do reconhecimento de qualificações (objetivo 18), através e.g. da cooperação com o setor privado e empregadores no sentido de disponibilizar programas de formação a distância, que incluam formação linguística básica e ajustada ao setor de emprego, para aumentar a empregabilidade dos imigrantes. Por seu turno, o Plano de Ação sobre a Integração e a Inclusão para 2021-2027, apresentado pela Comissão Europeia em novembro de 202021 19 20 21
250 Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais inter alia que o aumento da participação das crianças imigrantes ou descendentes de imigrantes na educação e no acolhimento na primeira infância pode ter um forte efeito positivo no seu futuro aprendizagem da língua do país de acolhimento 22. Por a uma integração bemessa aprendizagem não dever terminar poucos meses após a chegada e para a importância de também apoiar a frequência de aulas de língua em níveis intermédios e avançados e de adaptar estas aulas às necessidades dos diferentes grupos23. Assumindo como objetivo conseguir uma maior participação dos migrantes em programas abrangentes de formação linguística e orientação cívica, o incentiva os Estados Membros a assegurarem apoio à aprendizagem da língua terminado o período inicial de integração, promovendo o seu conhecimento além do nível elementar ou intermédio, e a fazerem pleno uso do financiamento da UE para apoiar programas e medidas relacionados com a educação, as competências e a formação linguística, em função das necessidades identificadas a nível 22 23
JEPLI - Jornada de Estudos em Português Língua Internacional 251 nacional e regional. A decisão quanto aos concretos programas de integração a adotar continua, no entanto, está bem de ver, na inteira disponibilidade dos Estados Membros24. Apesar de o Tratado de adquiriu competências para estabelecer medidas de incentivo e apoio à ação dos Estados Membros no fomento da integração dos nacionais de países terceiros legalmente residentes nos respetivos territórios, tendo o artigo 79.º, n.º 4, do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia, excluído expressamente qualquer harmonização das disposições legislativas e regulamentares dos Estados Membros. Assim sendo, não surpreende que os Estados europeus adotem políticas de integração muito diferentes entre si, adequadas à sua história e modelo de sociedade, à sua experiência em matéria de imigração e à pressão migratória sentida em cada momento (Jerónimo, 2019, pp. 50-51). A terminar este breve inventário dos parâmetros internacionais aplicáveis, cumpre referir, regressando à matéria dos direitos linguísticos por que começámos, que as recomendações que têm vindo a ser feitas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) ao longo dos anos, sobre o ensino da língua oficial a proporcionar 24
252 Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais pelos Estados aos imigrantes, insistem na importância de incentivar o multilinguismo e o uso das línguas maternas, não apenas como primeiras línguas de instrução para as crianças em idade escolar, mas também como elemento a mobilizar nos programas de literacia e formação linguística ministrados aos adultos (UNESCO, 2003, pp. 30-33; Hanemann, 2018, p. 63). Nos anos mais recentes, a UNESCO (2023) tem insistido também na importância do ensino informal e no uso das tecnologias, bem como na necessidade de assegurar o reconhecimento, validação e acreditação desse tipo de ensino25. 2. Políticas de integração e ensino da língua portuguesa como língua estrangeira em Portugal Desde que ascendeu ao estatuto de país de imigração, na década de 1990, Portugal tem vindo a conhecer um aumento constante do volume de imigrantes, interrompido apenas no período entre 2005 e 2010 (em resultado da crise financeira) e, entretanto, acelerado nos últimos anos26. Com esta aceleração, chegaram também os aproveitamentos políticos dos alarmes sociais em torno da pressão migratória, num claro mimetismo do que temos vindo a observar no resto da Europa e nos Estados Unidos da América há muitos anos. Até aqui, a imigração e a integração dos imigrantes haviam sido quase não-assuntos na agenda política nacional, em larga medida fruto do acordo de princípio sobre a matéria entre os dois maiores partidos (Cook, 2018, pp. 9-10), da experiência como país de emigração (que Portugal nunca deixou de ser) e da circunstância de os números da imigração serem ainda comparativamente baixos no contexto 25 26
JEPLI - Jornada de Estudos em Português Língua Internacional 253 europeu. Vários estudos e sondagens indicaram que os portugueses tinham uma visão mais positiva da imigração do que muitos dos seus vizinhos europeus (Fonseca; McGarrigle, 2014, pp. 65-68) e alguns observadores estrangeiros (Cook, 2018, p. 2) chegaram mesmo a apontar Portugal como um caso à parte, merecedor de maior estudo, pela generosidade das suas políticas em matéria de imigração. muito tempo a necessidade de adotar políticas de integração para os imigrantes no país, provavelmente, por a maioria dos imigrantes ser oriunda de Estados de língua oficial portuguesa (Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau) e se presumir que não existiriam dificuldades de maior com a sua integração cultural na sociedade portuguesa, já que estavam familiarizados com a cultura e conheciam a língua. Uma política de imigração e integração digna desse nome só começou a tomar forma com o XIII Governo Constitucional (19951999) (Santos, 2004, pp. 109, 114), em resposta ao afluxo de um grande número de imigrantes do leste europeu (Ucrânia, República Moldova). Em 1995, foi criado o Alto-Comissário para a Imigração, depois designado Alto-Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas, com a incumbência de acompanhar a nível interministerial o apoio à integração dos imigrantes (cuja presença foi apresentada contribuir inter alia imigrantes em Portugal, de forma a proporcionar a sua integração na sociedade, no respeito pela sua identidade e cultura de 27. Em 1997, a revisão constitucional aditou às 27
254 Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais incumbências estatais em matéria de realização da política de ensino, a de assegurar aos filhos dos imigrantes apoio adequado para a efetivação do direito ao ensino28. A primeira iniciativa dirigida à integração de imigrantes foi adotada em 2001, com a Após a legalização a 29. Consistia na administração pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) de ações de formação para trabalhadores imigrantes desempregados, com uma carga horária de 62 horas, das quais 50 seriam dedicadas ao ensino da língua portuguesa e 12 horas ao exercício da cidadania (igualdade de oportunidades e tratamento no acesso ao trabalho, emprego e formação profissional e formas de acesso à informação). Os cursos eram gratuitos e os participantes tinham direito a subsídio de alimentação e de transporte, mas os resultados ficaram muito aquém do esperado (Santos, 2004, pp. 120-121). Seja como for, a oferta formativa em língua portuguesa dirigida aos imigrantes passou a figurar em todos os planos de integração adotados desde então30 28 29 30
JEPLI - Jornada de Estudos em Português Língua Internacional 255 , por parte dos imigrantes, passaram aliás a ser explicitamente apresentados como condições para uma sua plena integração, haja vista, por exemplo, os termos em que foram definidas as atribuições do ACIME, em 200231. O primeiro Plano para a Integração dos Imigrantes, aprovado em 200732, incluiu, entre outras medidas, (i) o incentivo à responsabilidade social dos empregadores e trabalhadores portugueses na integração de trabalhadores imigrantes no seu contexto laboral, através, por exemplo, de ações no domínio do apoio à aprendizagem da língua; (ii) a formação dos docentes para a interculturalidade, tendo o Português língua não materna como uma das áreas prioritárias de formação; (iii) a adequação das estratégias de acolhimento na Escola às especificidades dos alunos descendentes de imigrantes, tendo nomeadamente em conta o seu domínio da língua; (iv) diversidade de contextos e promotores; (v) a valorização do ensino do Português como língua não materna, através da aplicação pelas escolas e agrupamentos de escolas do documento orientador das orientações Nacionais e da disponibilização de instrumentos de avaliação de diagnóstico para definição do perfil de competência linguística e do perfil escolar do aluno e seus critérios de (v) o reforço da formação inicial e contínua de 31 32
256 Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais educadores na área do ensino/aprendizagem do Português como língua não materna; e (vi) o investimento em programas de formação em Português técnico, especializados para determinados contextos profissionais que exigem um vocabulário específico. Em cumprimento deste primeiro Plano, foi lançado, em 2008, o Programa Português para Todos (PPT), cofinanciado pelo Fundo Social Europeu, com o objetivo de desenvolver cursos de Português básico (nível A2 do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas) e de Português técnico, dirigidos à população imigrante. O programa era administrado pelo ACIDI (depois ACM) e consistia na disponibilização à população imigrante, sem custos para os participantes, de cursos de formação de Português certificados, com a duração de 150 horas, em escolas secundárias da rede pública e em alguns centros de emprego e formação profissional do IEFP, geralmente em horário noturno (póslaboral)33. Foi sinalizado como prática promissora por Carrera e Vankova (2019, p. 44) num estudo comparativo de políticas de integração de vários Estados Membros do Conselho da Europa. O II Plano para a Integração dos Imigrantes (2010-2013)34 deu continuidade ao PPT, alargando-o aos níveis intermédios (B1 e B2) para facilitar aos imigrantes um maior domínio da língua portuguesa. O II Plano deu também continuidade ao programa agora designado programa de intervenção para trabalhadores imigrantes desempregados e ao programa Português Língua Não Materna, insistindo, a este respeito, na necessidade de esclarecer os encarregados de educação quanto à possibilidade de aprendizagem da língua portuguesa como língua não materna, o que sugere que as crianças filhas de imigrantes não estavam a beneficiar desta possibilidade por falta de informação. O II Plano incluiu ainda, entre as suas medidas, a promoção de cursos de Português para Falantes de Outras Línguas, destinados a 33 34
JEPLI - Jornada de Estudos em Português Língua Internacional 257 adultos estrangeiros, detentores de visto de estada temporária ou de residência, recém-chegados a Portugal, ministrados em escolas da rede pública e centros de formação do IEFP35; e a definição e aplicação de recomendações para a constituição de turmas equilibradas e para adequação das estratégias das escolas no acolhimento dos alunos estrangeiros e descendentes de imigrantes, continuando a prever a adoção de estratégias diversificadas de apoio à integração dos alunos filhos de imigrantes, tendo nomeadamente em conta o seu domínio da língua. O Plano Estratégico para as Migrações (2015-2020)36 propôs o reforço do ensino da língua portuguesa, através da revisão do programa PPT e da promoção do ensino da língua portuguesa aos migrantes, crianças e adultos, com o envolvimento das escolas, do IEFP, de associações, organizações não governamentais e empresas, bem como a consolidação dos programas de aprendizagem do Português como língua não materna, através da recolha de informação atualizada sobre o funcionamento do Português Língua Não Materna (PLNM) no sistema educativo e da realização de estudos de avaliação de impacto das medidas de política educativa definidas para o PLNM, bem como da conceção de uma formação, acreditada pelo Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua, dirigida aos professores de PLNM e de Português dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e do ensino secundário, no âmbito da especificidade do ensino do Português como língua não materna, tendo em vista a sua cedência aos Centros de Formação de Associação de Escolas. O Plano Nacional de Implementação do Pacto Global das Migrações, aprovado em 201937, assumiu a promoção do acolhimento e integração dos imigrantes como um dos seus cinco 35 36 37
264 Língua Portuguesa e internacionalização: aspectos plurais É um plano a curto prazo, herdeiro de vários outros planos de curto prazo que o antecederam. Claramente, esta é uma matéria que carece de constantes afinações, um perpétuo work in progress. As dificuldades práticas continuam a ser de monta, sobretudo no que respeita à disponibilidade de recursos humanos qualificados, o que ajuda a explicar a abertura do Plano Estratégico ao envolvimento de voluntários no ensino da língua portuguesa e a valorização dos contextos educativos não formais e informais, para além da aposta na utilização de ferramentas digitais e do ensino a distância. É de saudar a valorização e reconhecimento da importância das línguas maternas das crianças e jovens no processo de integração escolar, já visível nos regimes aplicáveis às medidas de integração de alunos de PLNM no sistema de ensino e aos cursos PLA, ainda que não se traduza em mais do que na promoção de parcerias. Os programas de alfabetização bilingues com línguas maternas das crianças migrantes recomendados pela UNESCO parecem continuar a estar fora de cogitação, sendo previsível que continuem a depender da iniciativa das comunidades falantes dessas línguas num futuro próximo. Importa também notar, para concluir, que, apesar dos inegáveis esforços despendidos e dos elogios que Portugal tem recebido pelas suas políticas de integração generosas, os imigrantes que não têm o Português como língua materna (incluindo aqueles que provêm de Estados de língua oficial portuguesa, como os falantes de Crioulo cabo-verdiano ou guineense) continuam a deparar-se com muitas dificuldades de integração no sistema de ensino e na sociedade em geral, sendo que os obstáculos encontrados na obtenção de formação em língua portuguesa (por a oferta disponível ser escassa e/ou de pouca qualidade) são um motivo de queixa recorrente.
JEPLI - Jornada de Estudos em Português Língua Internacional 265 Referências CARRERA, Sergio; VANKOVA, Zvezda. Issue Paper Human Rights Aspects of Immigrant and Refugee Integration Policies: A Comparative Assessment in Selected Council of Europe Member States. 2019, disponível em https:// rm.coe.int/168093de2c [09.11.2024]. CASTLES, Stephen; DE HAAS, Hein; MILLER, Mark J. The Age of Migration: International Population Movements in the Modern World. 5.ª ed., Basingstoke, Palgrave Macmillan, 2014. COOK, Maria Lorena. apart? Journal of International Migration and Integration, vol. 19, n.º 3, pp. 771789, 2018. FONSECA, Maria Lucinda; MCGARRIGLE, Jennifer. Immigration and policy: New challenges after the economic crisis in Portugal. In Elaine Levine e Mónica Verea (coords.), Impacts of the Recent Economic Crisis (2008-2009) on International Migration. Universidad Nacional Autónoma de México, pp. 51-75, 2014. HANEMANN, Ulrike. Language and Literacy Programmes for Migrants and Refugees: Challenges and Ways Forward. Background paper commissioned for the 2019 Global Education Monitoring Report Migration, displacement and education: Building bridges, not walls. 2018, disponível em https://unesdoc. unesco.org/ark:/48223/pf0000266077 [08.11.2024]. HOLANDA, Pollynne Cavalcante. As Barreiras Linguísticas do Refúgio: Perspetivas de Integração e Acolhimento nas Aulas de Língua Portuguesa Ministradas pelo Conselho Português para os Refugiados. InclusiveCourts Working Paper 2/2020, disponível em https://inclusivecourts.pt/wpcontent/uploads/2020/08/WORKING_PAPER-2_2020.pdf [10.11.2024]. JERÓNIMO, Patrícia. Minorias e povos indígenas. In José Eduardo Franco et al. (coords.), Dicionário Global dos Direitos Humanos. Lisboa, Theya, 2024, disponível em https://dignipediaglobal.pt/dicionario-global/minorias-e-povosautoctones [24.10.2024]. JERÓNIMO, Patrícia. Nós e os outros: Diversidade cultural e religiosa nos marcos das fronteiras. In Anabela Costa Leão et al. (coords.), Nós e os Outros: Alteridade, Políticas Públicas e Direito. Porto, FDUP, pp. 41-54, 2019. JERÓNIMO, Patrícia. O Português língua de integração em contexto de migração in e out. In Viviane Bagio et al. (coords.), Anais Simpósio SIPLE 2017. Londrina, SIPLE, pp. 263-274, 2018. MERINO, Elena; CASSANY, Daniel. El espacio de la cultura. Miríada Hispánica, n.º 6, pp. 33-70, 2013. SANTOS, Vanda. O Discurso Oficial do Estado sobre a Emigração dos Anos 60 a 80 e Imigração dos Anos 90 à Actualidade. Lisboa, Observatório da Imigração/ACIME, 2004.
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