Nº 58 | OTOÑO 2022 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.06 58-71 As fronteiras entre o popular e o massivo na teoria cultural da folkcomunicação The borders between the popular and the massive in the cultural theory of folkcommunication Bruna Franco Castelo Branco Carvalho Universidade Federal do Ceará | Av. Mister Hull, s/n - Campus do Pici, ICA, 60455-760, Fortaleza – CE, Brasil 0000-0002-3688-2653 ·
[email protected] Fechas: Recepción: 14/06/2022· Aceptación: 18/09/2022 · Publicación: 15/10/2022 Resumo O presente artigo tem por objetivo principal explorar detalhadamente, e de modo exclusivamente bibliográfico, a teoria da Folkcomunicação (Beltrão, 2004), pertencente ao ramo das Ciências Sociais e Humanas, alinhada, sobretudo, com as Ciências da Comunicação; e que possui sua origem genuinamente brasileira, ao ter sido fundada e desenvolvida pelo jornalista e escritor brasileiro Luiz Beltrão durante a década de 1960. A característica da sua procedência brasileira é, portanto, a principal motivação e justificativa para a realização de uma pesquisa bibliográfica aprofundada sobre a referida teoria, com o intuito de dar a conhecer os principais interesses e fundamentos desta formulação, conceito e disciplina, que se comporta como teoria cultural dedicada a compreender a complexa e estreita relação da cultura popular com os meios de comunicação de massa (Breguez, 2013). O universo folkmidiático contempla a cultura em sua completude, dando a notar a extensa complexidade dos elementos, manifestações e desenhos culturais possíveis no mundo contemporâneo (Marques de Melo, 2008). Ao fazer uso de uma gama investigativa de material científico, que aborda conceitos, processos e perspectivas facilitadores de uma compreensão da teoria brasileira de Luiz Beltrão da Folkcomunicação em seu aspecto amplo, geral e completo, compreendemos que os processos históricos e a inegável realidade da dinamicidade coletiva refletem numa constante metamorfose de interesses, empirias, práticas e investigações (Maciel, 2013), que contribuem para uma permanente e recorrente atualização de estudos e conceitos científicos. Palavras-Chave: folkcomunicação, cultura popular, meios de comunicação. Abstract The main objective of this article is to explore in detail, and in an exclusively bibliographic way, the theory of Folkcommunication (Beltrão, 2004), belonging to the field of Social and Human Sciences, aligned, above all, with Communication Sciences; and which has its genuine Brazilian origin, having been founded and developed by the Brazilian journalist and writer Luiz Beltrão during the 1960s. The characteristic of its Brazilian origin is, therefore, the main motivation and justification for carrying out an in-depth bibliographic research on the aforementioned theory, in order to make known the main interests and foundations of this formulation, concept and discipline, which behaves as a cultural theory dedicated to understanding the complex and close relationship between popular culture and the mass media (Breguez, 2013). The folkmedia universe contemplates culture in its entirety, highlighting the extensive complexity of the elements, manifestations and cultural designs possible in the contemporary world (Marques de Melo, 2008). By
As fronteiras entre o popular e o massivo na teoria cultural da folkcomunicação Bruna Franco Castelo Branco Carvalho 59 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.06 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 58-71 making use of an investigative range of scientific material, which approaches concepts, processes and perspectives that facilitate an understanding of the Brazilian theory of Luiz Beltrão da Folkcommunication in its broad, general and complete aspect, we understand that the historical processes and the undeniable reality of the dynamics collective reflection in a constant metamorphosis of interests, empirical studies, practices and investigations (Maciel, 2013), which contribute to a permanent and recurrent updating of scientific studies and concepts. Keywords: folkcommunication, popular culture, media. 1. Introdução O trabalho que se apresenta, de teor metodológico investigativo exclusivamente conceitual, pretende explorar as faces da teoria da Folkcomunicação, pelo fato principal de se tratar de um campo de estudos que pertence às Ciências humanas, especificamente às teorias da comunicação, e que compreende um conceito científico puro e genuinamente brasileiro por natureza, desenvolvido pelo escritor e jornalista pernambucano Luiz Beltrão nos idos da década de sessenta do século XX, pelo seu interesse em estudar e pesquisar sobre a comunicação popular realizada no Brasil desse período. A referida teoria se encarrega de observar classes da sociedade que são por diversas vezes invisíveis e/ou marginalizadas dentro de um contexto de classificação social sistematizada em nome do regime capitalista dominante em escala global. Diz o mestre Beltrão (1980): Em função da estrutura social discriminatória mantida em nações como a nossa, a massa camponesa, as populações marginalizadas urbanas e até mesmo extensas áreas proletárias ou de subempregados se comunicam através de um vocabulário escasso e organizado em significados funcionais próprios dentro dos grupos. (p. 37-38) Inseridos neste cenário, Beltrão observou que essas classes mais populares se comunicam entre si menos pelos meios de comunicação de massa e mais utilizando elementos do folclore como forma de manifestação e troca popular de mensagens para uma compreensão democrática e coletiva. Sobre isso, Amphilo esclarece: A folkcomunicação parte dos pressupostos funcionalistas, com vistas ao diálogo, ao desenvolvimento, à integração social, às transformações sociais e à inter-relação, principalmente, dos sistemas comunicacionais, formais e informais, fazendo fluir a informação no espaço social, vencendo a “incomunicação”, promovendo a paz social e integrando o país. (2011, p. 198) Sabendo que estamos trabalhando com um campo da comunicação na sua vertente teórica, trataremos de utilizar neste trabalho uma metodologia que contemple o sentido conteudista e conceitual da Folkcomunicação, dando a conhecer a temática científica em questão; desta forma, não é de interesse contemplar o mergulho em um objeto empírico específico, visto que priorizamos trabalhar com o método investigativo exclusivamente bibliográfico, utilizando de fontes e autores próprios da área científica folkcomunicacional.
As fronteiras entre o popular e o massivo na teoria cultural da folkcomunicação Bruna Franco Castelo Branco Carvalho 60 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.06 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 58-71 Como hipótese, temos que os pesquisadores da Folkcomunicação se encarregam de identificar a forma como os sujeitos à margem da sociedade possuem a prática de se expressar, de saber como eles se comunicam e também estão atentos e curiosos em conhecer o que eles têm a dizer entre si e para o mundo em seu mais variado leque de manifestações populares. Dessa forma, nosso objetivo principal no artigo em questão é discutir, aprofundar o conceito e difundir o conhecimento a respeito da teoria folkcomunicacional no campo científico. Este objetivo será executado e estruturado a partir de reflexões em um passeio a ser realizado pelo percurso construtivo dessa teoria; incluindo suas origens, fundamentos, evolução, interesses, modificações e avanços na trajetória formativa da folkcomunicação enquanto conceito acadêmico-teórico-científico vinculado à grande esfera das Ciências Humanas e Sociais. 2. Origens da teoria da folkcomunicação A teoria criada pelo professor e precursor da folkcomunicação no território brasileiro, Luiz Beltrão (1918-1986), representou um grande avanço para os estudos no campo da Comunicação, uma vez que trouxe um repertório de reflexão amparado em outras ciências a nível nacional, tais como a História e a Sociologia, quando o professor Beltrão buscou articular os primeiros conceitos sobre a nova teoria a ser desenvolvida. Suas inquietações iniciais eram várias. As motivações jornalísticas estavam relacionadas, por exemplo, à forma como as populações pobres, excluídas e isoladas geograficamente, em um país tão grande de dimensões continentais como o Brasil, conseguiam se informar; melhor dizendo, as informações eram obtidas por estes grupos, ditos marginalizados, através de quais meios, canais e veículos de comunicação? Quais as vias que estavam disponíveis a este público? E, além disso, quais as suas reações, percepções e opiniões a respeito das informações recebidas? Por onde poderiam expressar seus sentimentos? Quais os canais disponíveis para externar seus pensamentos e ideias? Quem poderia, ou teria interesse, em acessá-los? Quais os impactos e efeitos que trariam? Tudo isso levando em consideração que os meios de comunicação estabelecidos formalmente no país estavam, em sua maioria, concentrado nas mãos das elites e voltados para elas. Refletindo em tudo isso, Breguez (2013) escreveu sobre as pesquisas feitas sobre a cultura do povo, esclarecendo que: Gramsci mostra que vivemos em uma sociedade capitalista, onde existem duas classes sociais: a elite dominante e o povo (conjunto das classes subalternas). Cada classe tem sua própria cultura. A cultura da elite é letrada, possui status acadêmico, é ensinada nas escolas. A cultura popular (folclore) é transmitida pela oralidade, pela proximidade dos membros da comunidade, baseia-se na tradição e memória coletiva. (p. 92) Então, na tentativa de responder a alguns dos questionamentos levantados acima, Beltrão penetrou neste universo durante uma longa e árdua jornada de, pelo menos, sete anos intensos de pesquisas, coleta de dados e observações, tendo desenvolvido e defendido tal teoria em sua tese de doutorado, na Universidade de Brasília (UnB) no referido ano de 1967.
As fronteiras entre o popular e o massivo na teoria cultural da folkcomunicação Bruna Franco Castelo Branco Carvalho 61 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.06 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 58-71 É nesse debate que surgem os enfoques comunicacionais da cultura. O primeiro foi McLuhan, norte americano, sobre a homogeneização cultural e folclore industrial de laboratório. Edgar Morin, francês, vem em seguida com a ideia de uma sociedade tricultural: cultura erudita, cultura popular e cultura de massa. No Brasil, aparecem novos enfoques como o de Luiz Beltrão que cria a expressão Folkcomunicação para designar os processos comunicacionais do folclore. José Marques de Melo também participa do debate e publica seus textos também na Revista de Cultura Vozes (Breguez, 2013, p. 92). A partir daí os caminhos teóricos e metodológicos foram sendo gradativamente abertos no Brasil, disseminados através da abertura de disciplinas no ensino superior, de grupos de estudos, de um corpo de pesquisadores interessados no assunto, de uma rede integrada de pesquisa1 permanente dedicada ao âmbito folkcomunicacional; de modo que os estudos de folkcomunicação foram avançando cada vez mais e ampliando sua área de abrangência, explorando os diversos elementos que abarcam a esfera do folclore e da cultura popular brasileira. Muitos foram os seguidores do legado deixado por Luiz Beltrão. Alguns professores e pesquisadores tiveram destaque na busca por fazer perpetuar os ensinamentos apreendidos em contato com a teoria do grande mestre Beltrão. Dentre eles, podemos destacar mais diretamente os professores Roberto Benjamin e José Marques de Melo, e vários outros, que até os dias atuais colaboram para fazer render reflexões sociais contemporâneas, principalmente, mas não apenas, dentro de espaços acadêmicos. O empenho com os estudos folk permitiu também o contato com autores outros de áreas afins e correlatas à Comunicação, que lidam com as práticas sociais e culturais dos agrupamentos coletivos. Os estudiosos folcloristas, surgidos na década de 1930 interessados em reconhecer e valorizar a cultura do povo brasileiro, muito contribuíram para o desenvolvimento desta teoria; bem como autores que dialogam, sobretudo, com a Antropologia, e também com a História, a Ciência Política e a Sociologia, como forma de trazer uma compreensão transdisciplinar mais ampla a respeito do universo cotidiano e coletivo dos grupos sociais, urbanos e rurais. Dessa forma, temos que a Folkcomunicação está imersa em um contexto de transformações no que se refere às mídias sociais no Brasil. Surgida em uma época em que a televisão estava se lançando como importante ferramenta comunicacional prestes a se tornar o principal veículo de comunicação do país. Período em que essa mídia televisiva despontava ainda como fonte informativa principal das elites, quando “o Brasil perfilava-se como uma sociedade marcada pela vigência de uma mídia elitista, ancorada nos valores da cultura erudita” (Marques de Melo, 2006, p. 21), quando também a ditadura militar operava em regime de censura no país e quando as classes sociais brasileiras encontravam-se fortemente polarizadas. Assim, sabendo da existência de interações entre o local e o global nos processos comunicacionais, numa época em que o pensamento sociocultural despontava como um período frutífero, com o avanço de outras correntes, como os estudos culturais britânicos e europeus, assim como a potência das reflexões acerca da indústria cultural na América Latina, o conceito vai aos poucos buscando compreender como acontece a apropriação da cultura popular pelas indústrias midiáticas brasileiras, 1 “A Rede Folkcom – Rede de Estudos e Pesquisa em Folkcomunicação é uma organização não governamental que busca o desenvolvimento de atividades ligadas à Folkcomunicação. A organização está registrada seguindo os critérios legais para sociedades civis sem fins lucrativos, e é administrada por uma diretoria executiva, por um conselho administrativo e por um conselho fiscal.” Disponível em: http://www.redefolkcom.org/sobre-rede-folkcom/. Acesso em: 14/05/2022.
As fronteiras entre o popular e o massivo na teoria cultural da folkcomunicação Bruna Franco Castelo Branco Carvalho 62 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.06 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 58-71 e surge, nas palavras do seu próprio criador, como sendo “o processo de intercâmbio de informações e manifestações de opiniões, ideias e atitudes de massa, através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore.” (Beltrão, 2001, p.79), podendo, nas palavras do professor Marques de Melo (2008), ser encontrada: Na fronteira entre o Folclore (resgate e interpretação da cultura popular) e a Comunicação de Massa (difusão industrial de símbolos, por meio de meios mecânicos ou eletrônicos, destinados a audiências amplas, anônimas e heterogêneas). (p.17) Essa fronteira entre o Folclore e a Comunicação de massa, longe estar distante ou afastada, como se pode pensar, encontra-se cada vez mais intimamente aproximada por um mundo tecnológico, que se mostra gradativamente interligado por conexões virtuais amplas e complexas. 3. Os principais fundamentos da teoria Os fundamentos da folkcomunicação dedicam-se em compreender aspectos relacionados à cultura e seus elementos; com isso, ela atentou para um fato curioso: De que as manifestações populares da cultura não foram sempre encaradas de fato como traços indicativos de um real sistema de comunicação entre os povos. Porém, como muito bem observou Joseph Luyten (1999), a folkcomunicação despertou para questões desse tipo quando se preocupou em reconhecer como os valores morais e culturais de um grupo são comunicados entre os seus membros, no intuito maior de conhecer o que interessa e afeta mais profundamente a população brasileira nos tempos da fundação da teoria até os dias de hoje, conforme comenta abaixo a autora Betânia Maciel (2013): Há uma multiculturalidade advinda da grande circulação e mobilidade das pessoas pelas redes digitais, meios de comunicação e transbordo em aeronaves. O mundo hoje é uma grande aldeia. A importância de estudar a Folkcomunicação é justamente entender as origens destas, fortalecendo o que existe de cultura e sociedades locais, respeitar os perfis históricos distintos, empreender em regiões projetos que permitam o desenvolvimento e a recolocação dos grupos marginalizados no mundo. (p. 629) Ocorre que dentro deste processo interativo há inúmeros outros fatores que o rodeiam, dentre eles está o sistema de códigos e de linguagem, que muito preocupa aos estudiosos em Semiologia e que também interessa à área de folkcomunicação, pois daí podem derivar processos outros, como o de intermediação, através da figura de um elemento que medeia essa relação, podendo ser denominado “líder de opinião” ou, de acordo com o termo cunhado pelo autor contemporâneo da área folk, Osvaldo Trigueiro, “ativista midiático”; é ele quem permite realizar a decodificação de mensagens de um meio e de uma cultura a outros meios e culturas distintas. Vejamos o que diz Marques de Melo (2013) sobre o processo de trânsito de mensagens entre grupos culturais distintos: Anteriormente, presumia-se que o processo da comunicação, através da imprensa, da TV, do cinema, do rádio, compreendia um único fluxo: do comunicador ao público receptor, sem possibilidade de retorno imediato de mensagens. Lazarsfeld constatou, porém, que esse processo tem um desenvolvimento gradativo, em dois estágios, tendo como intermediário a figura do “líder de opinião”. A mensagem vai do comunicador ao líder de opinião (e, portanto,
As fronteiras entre o popular e o massivo na teoria cultural da folkcomunicação Bruna Franco Castelo Branco Carvalho 63 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.06 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 58-71 codificada segundo o sistema de símbolos peculiar à cultura de massas); numa segunda etapa, vai do líder de opinião ao grupo receptor (aí, a mensagem está recodificada dentro do sistema de símbolos próprio da cultura popular). (p. 538) Mais adiante, o autor continua sua linha de raciocínio manifestando o papel de mediador que possui o líder de opinião, constituindo figura central de grande importância no desenvolvimento desse processo comunicativo. Os “líderes de opinião” desempenham papel fundamental nesse processo, porque, pelas próprias características, são indivíduos dotados de uma grande mobilidade, transitando nos vários estratos sociais. Eles se localizam geralmente naquela faixa comum entre os dois sistemas simbólicos. Dominando ambos os conjuntos de símbolos, esses líderes decodificam as mensagens da cultura de massas e as recodificam na linguagem da cultura popular, fazendo-as então chegar ao seu destino. Pelo fato de pertencerem originariamente ao universo simbólico da cultura popular, eles dispõem de alto grau de credibilidade; daí a influência exercida sobre o público receptor. (2013, p. 538) Daí vê-se o quanto a cultura popular e as manifestações folclóricas podem sofrer influências e modificações quando passam a ser utilizadas pelos aparelhos midiáticos e pela interferência dos interesses próprios das indústrias culturais de uma dada região. Deve-se alertar para o risco de, nesse processo, os elementos folclóricos serem transformados em meros produtos industriais, perdendo o seu sentido simbólico e identitário de representação étnica, social, física, religiosa ou regional. Tais apropriações também podem reduzir a cultura local ao nível do alheio e do exótico, contribuindo, assim, para fomentar a indústria do turismo como simples processo de exploração cultural. Exemplos disso, temos vários; o que aponta para a preocupação da já frequente ocorrência desse fenômeno como uma realidade. Quando vemos, por exemplo, a figura de um estrangeiro utilizando acessórios ou objetos simbólicos - por utilidade ou representação - de cidadãos nativos de qualquer região, pelo simples fato de estar ali a passeio, em uma atividade lúdica, turística e de lazer; muitas vezes, num momento instantâneo e fugaz, contaminado pela euforia de estar em outro lugar passageiramente e faz uma foto como registro, transmitindo a mensagem aos seus conterrâneos de que está imerso e penetrando, mesmo que provisoriamente, noutra cultura. Ou mesmo quando esse turista adquire por algum valor monetário um objeto típico deste lugar e leva para a sua casa como lembrança dali, demonstrando como “fez parte” de uma cultura diferente da sua em um momento específico da vida. Na apresentação do livro Folkcomunicação na Arena Global, a pesquisadora Cristina Schimidt revela que com o passar do tempo: O folclore adquire valor comercial e reconhecimento internacional como produto, atraindo turistas, estudiosos e consumidores de vários perfis. Mas, para os estudos de Comunicação, tem valor como processo comunicacional, percebendo-se como meio de mobilização e identificação de grupos locais no contexto globalizado. (2006, p. 13-14) Dentro desse contexto regionalizado de culturas é que percebemos que “conhecer uma região é pré-requisito ao diálogo que se deseja manter com os seus habitantes” (Beltrão, 2004, p. 57) e que, principalmente no caso brasileiro, as características de mestiçagem e as estruturas sociais das
As fronteiras entre o popular e o massivo na teoria cultural da folkcomunicação Bruna Franco Castelo Branco Carvalho 64 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.06 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 58-71 grandes regiões demonstram o quanto é difícil um conhecimento aprofundado, dado a ausência de uniformidade dentro delas, como reconhece Beltrão (2004) em Folkcomunicação, teoria e metodologia: A investigação da natureza, dos elementos e da estrutura, dos agentes e usuários, do processo, das modalidades e dos efeitos da Folkcomunicação é absolutamente necessária, notadamente em países como o nosso, de elevado índice de analfabetos, de disseminação populacional irregular, de reconhecida má distribuição de rendas e acentuado nível de pauperismo e caracterizado, em consequência destes e de outros fatores, por frequentes crises institucionais que conduzem à inevitável instabilidade política. (p.73) E prossegue alertando que: A redução desses males exige a colaboração de todo o povo, e surpreende que se confie a emissão de mensagens, que se aspira construtivas de unidades de propósitos, quase exclusivamente à comunicação convencional por meios de massa, fora do alcance de imensas porções de audiência como um todo, quando nem mesmo conhecemos realmente bem os que usamos no dia-a-dia em nossos diálogos. (2004, p.73) Beltrão alerta ainda para as diferentes variantes que se apresentam neste grande “laboratório” das ocorrências comunicativas que é a região. A dinâmica da sociedade promove as suas próprias subdivisões internas e marginalizam setores por aspectos econômicos, comportamentais, políticos, ideológicos, étnicos, intelectuais. Em se tratando de uma sociedade cheia de diversidades e contrastes, tais características tendem a aparecer em alguns momentos, senão em vários. Os diversos grupos sociais e suas ramificações tendem a se organizar em coletividade para participar da vida social com os recursos que têm a disposição. Carvalho (2019) discute as diferenças intra-regionais, que tendem a aparecer também por uma característica e necessidade humana de distinção. Beltrão alerta ainda para as diferentes variantes que se apresentam neste grande “laboratório” das ocorrências comunicativas que é a região. A dinâmica da sociedade promove as suas próprias subdivisões internas e marginalizam setores por aspectos econômicos, comportamentais, políticos, ideológicos, étnicos, intelectuais. Em se tratando de uma sociedade cheia de diversidades e contrastes, tais características tendem a aparecer em alguns momentos, senão em vários. Os diversos grupos sociais e suas ramificações tendem a se organizar em coletividade para participar da vida social com os recursos que têm a disposição. (2019, p. 60) Os detentores de riquezas, bens, saberes e capital cultural2, registrado pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, tendem a oprimir e dominar aqueles que não os possuem. Daí surgem as elites organizadas e todo o seu poderio dirigente de conceituar e marginalizar meios e condutas sociais. E, de acordo com Éclea Bosi (2013), tudo isso se reflete na cultura das camadas sociais. 2 Pierre Bourdieu denominou o “capital cultural” como sendo o conjunto de saberes, recursos, conhecimentos e competências acumulados pelos indivíduos durante a sua trajetória de vida como parte formadora de uma experiência individual.
As fronteiras entre o popular e o massivo na teoria cultural da folkcomunicação Bruna Franco Castelo Branco Carvalho 65 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.06 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 58-71 A cultura aparece como uma terra de encontro com outros homens, para uma classe dobrada sobre a matéria, segregada como se fora uma outra humanidade. Se existem duas culturas, a erudita terá que aprender muito do popular: a consciência do grupo e a responsabilidade que advém dela, a referência constante à práxis e, afinal, a universidade. E se um dia a classe pobre alcançar a gestão sobre seu destino, a sua cultura não deixará de englobar os valores dos que trabalham, valores que se opõem aos dos que dominam. Valores como interesse verdadeiro pelo outro, a maneira direta de falar, o sentido do concreto e a largueza em relação ao futuro, uma confiante adesão à humanidade que virá, tão diferente do projeto burguês para o amanhã, da redução do tempo contábil que exprime o predomínio do econômico sobre todas as formas de pensamento. (p. 394) Detentoras de poder, capital cultural e empresas de comunicação, a classe burguesa fala aos seus iguais, excluindo as demais parcelas da sociedade, que, na prática, acabam por não ter espaço para exposição e visibilidade nos mass media, seja por possuir reduzido poder aquisitivo para aquisição dos aparelhos necessários para o consumo, por protestarem contra o sistema social vigente ou simplesmente pela falta de domínio do código utilizado ou incompreensão da linguagem utilizada, conforme explica Woitowicz (2007). O termo exclusão cultural remete não apenas às condições de acesso às informações e aos bens de consumo (materiais e simbólicos), mas também às possibilidades de produção da cultura. Assim, são justamente os grupos excluídos e marginalizados da sociedade que desenvolvem estratégias de resistência e luta em meio às tendências homogeneizantes e massificadoras da sociedade globalizada. (p. 150) Ou seja, embora “marginalizados”, este público excluído da comunicação formal não se ausenta de exercer sua função comunicativa com os demais, arranjando meios indiretos, artesanais e alternativos para isso e utilizando, em alguma medida, o folclore para a sua expressão, de maneira que possam atender as características peculiares de funcionalidade, regionalismo e tradição do seu local de fala. Exemplo3 disso são as estações de rádios e televisão comunitárias presentes em micro espaços de convivência; sejam institucionais, no caso de empresas, escolas, entidades públicas; ou em espaços públicos, como as pequenas cidades interioranas e as comunidades periféricas urbanas nos morros e favelas paulistas, cariocas e demais capitais e centros urbanos; donde se podem divulgar informações importantes e manifestar sua cultura nascente no seio da vida social ao público local ou a outras audiências distantes e interessadas. Com base na leitura de Luiz Beltrão, José Marques de Melo escreve (2007) que: (...) Beltrão (1980) comprovou que a imprensa, o rádio, a televisão e o cinema difundem mensagens que não logram a compreensão de vastos continentes populacionais. Esses bolsões “culturalmente marginalizados” reagem de forma nem sempre ostensiva, robustecendo um sistema midiático alternativo. Constroem e acionam veículos artesanais ou canais rústicos, muitas vezes estabelecendo uma espécie de feedback em relação ao sistema hegemônico. (p. 54) 3 Com o crescente avanço das tecnologias nos dias de hoje existem também inúmeros exemplos de canais audiovisuais disponíveis para acompanhamento contínuo na rede de internet.
As fronteiras entre o popular e o massivo na teoria cultural da folkcomunicação Bruna Franco Castelo Branco Carvalho 66 ÁMBITOS. REVISTA INTERNACIONAL DE COMUNICACIÓN · Nº 58 · OTOÑO 2022 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i58.06 · ISSN: 1139-1979 · E-ISSN: 1988-5733 58-71 Acontece que, além disso, a elite passou a enxergar que, em termos econômico-financeiros, não seria interessante para ela a exclusão que se fazia às classes subalternas e passou a depender delas, devido à sua grande expressividade numérica, como estratégia para garantir suas riquezas. E para isso, precisava falar com ela diretamente, modificar sua linguagem e assuntos, viabilizar a acessibilidade para a aquisição do equipamento, dar-lhes visibilidade e notoriedade; porém, dentro dos limites que julgava prudente. Evidencia-se, contudo, a emergência de uma corrente em sentido oposto, qual seja a incidência de temas populares na mídia massiva, refletindo a sensibilidade dos seus editores para corresponder às expectativas dos segmentos que se incorporam ao seu mercado consumidor, principalmente na imprensa diária. (Marques de Melo, 2008, p. 45). Neste caso, aparece a figura do ativista midiático, com suas características próprias de agentes carismáticos, influenciadores, conselheiros, articuladores do fluxo comunicativo, e que é de fundamental importância como intermediador, tradutor, decodificador de mensagens bidirecionais; passando de simples receptor a comunicador ativo neste movimento, graças ao seu respaldo e credibilidade nos meios em que circula, conforme atesta Luiz Beltrão (2004): Os líderes agentes-comunicadores de folk, aparentemente, nem sempre são autoridades reconhecidas, mas possuem uma espécie de carisma, atraindo ouvintes, leitores, admiradores e seguidores, e, em geral, alcançando a posição de conselheiros ou orientadores da audiência, sem uma consciência integral do papel que desempenham. (p.80) Com o advento crescente e cada vez mais intenso do fenômeno da globalização, é inegável que há uma tendência de também se universalizar e uniformizar as culturas, instituindo padrões de práticas e consumo. As grandes indústrias e grupos multinacionais marcam presença e territórios mercadológicos nos grandes centros populacionais, demonstrando que “costumes, tradições, gestos e comportamentos de outros povos, próximos ou distantes, circulam amplamente na ‘aldeia global’” (Marques de Melo, 2013, p. 639). Isso pode afetar, de certa forma, a identidade e as manifestações das culturas regionais, o que não quer dizer que as exclui, isola ou limita; mas que ambas podem ser sobrepostas; visto que é praticamente impossível, nesta conjuntura atual, existir uma comunidade totalmente dominada por uma pureza cultural. Neste caso, segundo Marques de Melo (2008), a referência regional torna-se fundamental, pois: A globalização permite vislumbrar o cenário de um mundo multiface e multicultural. Ele sugere que qualquer inserção proativa no seu universo depende basicamente do capital simbólico acumulado nas mega, macro ou microrregiões, potencialmente conversíveis em imagens e sons capazes de sensibilizar a aldeia global. (p. 24) Sobre esse aspecto, o folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo (1967) mais uma vez aprofunda o conceito de folclore considerando que o patrimônio tradicional de um país pode ser ampliado ao longo do tempo a partir dos saberes adquiridos e incorporados aos hábitos sociais, quando afirma que: Todos os países do mundo, raças, grupos humanos, famílias, classes profissionais possuem um patrimônio de tradições que se transmite oralmente e é defendido e conservado pelo costume.