Plataformização e vídeo 360°: implicações para o jornalismo no Brasil Platformization and 360 degree video: implications for journalism in Brazil Dra. Ligia Coeli Silva Rodrigues Universidade Federal de Pernambuco | Av. Prof. Moraes Rego, 1235, 50670-901 Recife| Brasil | https://orcid.org/0000-0001-5524-7519|
[email protected] Luciellen Souza Lima Universidade Federal da Bahia | Av. Milton Santos, s/n, 40170-110 Salvador | Brasil | https://orcid.org/0000-0002-5600-0785| luciellensouzali[email protected] : 24/07/2021 | Aceptación: 24/01/202 Resumo O jornalismo enfrenta mais uma etapa de adaptações e ajustes que emergem através dos processos de plataformização. Novos formatos surgem através do uso de recursos oferecidos por empresas de tecnologia, que além de ofertarem condições de distribuição, elaboram estratég ias de orientação e treinamento para jornalistas . Dentro dessa discussão, o foco deste trabalho são vídeos 360 graus com fins jornalísticos divulgados no cenário brasileiro. Diante disso, os objetivos são: 1) d iscutir a distribuição dos vídeos jornalísticos em 360 graus no contexto da plataformização, 2) entender como Facebook e YouTube influenciaram no desenvolvimento desse tipo de conteúdo, apontando vantagens e desvantagens dessa relação e 3) propor o uso do termo plataformas pedagogizantes para discutir as implicações desses recursos. Como marco teórico, as discussões partem do conceito de plataformização (Van Dijck et al., 2018) e de bibliografias sobre narrativas imersivas no jornalismo. A metodologia abarca um estudo exploratório, envolvendo pesquisa bibliográfica, pesquisa documental e entrevista com jornalistas. Dentre os resultados foi Abstract Journalism faces another stage of adaptations and adjustments that emerge through the processes of platformization. New formats emerge with tools offered by technology companies, which in addition to offering distribution conditions, develop orientation and training strategies for journalists. Within this discussion, the focus of this study is 360-degree videos for journalistic purposes disseminated in the Brazilian scenario. Therefore, the objectives are: 1) to discuss the distribution of journalistic videos in 360 degrees in the context of platformization, 2) to understand how Facebook and YouTube influenced the development of this type of content, pointing out advantages and disadvantages of this relationship, and 3) to propose the use of the term pedagogic platforms to discuss the implications of these resources. As a theoretical framework, the discussions start from the concept of platform ization (Van Dijck et al., 2018) and from bibliographies on immersive narratives in journalism. The methodology encompasses an exploratory study, involving bibliographic research, documental research and interviews with journalists. Among the Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 56 (2022) | 86 - 104 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i56.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 86
constatada uma dependência do Facebook e do YouTube para a distribuição de vídeos 360 graus, problemas de sustentabilidade da produção desse formato , incluindo a inviabilidade do investimento em aplicativos próprios. Concluímos que a s narrativas jornalísticas brasileiras em vídeo 360 graus nasceram da própria lógica da plataformização, impulsionadas por empresas de plataformas e de tecnologia, numa relação na qual há ganhos e perdas. results, there was a dependence on Facebook and YouTube for the distribution of 360-degree videos, sustainability problems in the production of this format, including the impossibility of investing in their own applications. We conclude that Brazilian journalistic narratives in 360-degree video were born from the very logic of platformization, driven by platform and technology companies, in a relationship in which there are gains and losses. Palavras-chave: jornalismo, plataformização, vídeo 360 graus, Facebook, YouTube. Keywords: journalism, platform, 360-degree video, Facebook, YouTube. 1. INTRODUÇÃO Não existe um jornalismo que não seja digital (Salaverría, 2020). Mesmo que o produto final seja impresso, radiofônico ou televisivo, as práticas de apuração e veiculação de notícias utilizam tecnologias digitais em pelo menos uma das fases do processo de construção. No cenário de crescente digitalização, as plataformas são imprescindíveis. Assim, a sociedade plataformizada, como vem sendo considerada, foi construída a partir da confluência do desenvolvimento da digitalização, da Internet e da popularização dos smartphones, criando um cenário de comunicação móvel e ubíqua (Canavilhas, 2021), abundância de informações (Boczkowski, 2021) e midiatização profunda (Couldry e Hepp, 2016). Plataformas são aqui entendidas como infraestruturas imbricantes que adentraram no cerne das sociedades e passaram a exercer influência nas instituições, na economia, nas práticas sociais e culturais (Van Dijck et al., 2018), produzindo as estruturas sociais que vivemos (Couldry e Hepp, 2016). Como consequência, há hoje uma pressão social pela presença nas plataformas e uma crescente necessidade de utilização delas. Para as empresas, essa presença tanto se tornou indispensável para a sobrevivência como se configura um atestado da própria existência. Mas para o jornalismo se tornou um labirinto dentro do qual a saída da sobrevivência e da sustentabilidade ainda não foi encontrada (Van Dijck et al., 2018). As plataformas criam e renovam bases para conteúdos e formas de interação diversas e “[...] de modo não planejado e não previsível” geram oportunidades de inovação (Morozov, 2018, p. 59). Nesse contexto, em meio a crises de credibilidade e sustentabilidade (Newman, 2019) para manter e atrair novos públicos, cada vez mais heterogêneos, o jornalismo busca estratégias. Uma delas é apostar em formatos viabilizados por novos equipamentos tecnológicos e pela estrutura resultante do ecossistema midiático atual, dentro da lógica da sociedade plataformizada. Diante disso, buscamos contribuir com as discussões acerca da relação entre a plataformização e novos formatos jornalísticos. Considerando a diversidade de formatos que podem ser incluídos no contexto apresentado, delimitamos o escopo da investigação. Estudamos uma unidade visual mínima específica, que é o vídeo 360 graus com fins jornalísticos. Trata-se de um objeto nativo digital (Omena, 2019) que coloca o olhar do público no meio do ambiente visualizado. Nesse tipo de oferta visual os usuários podem escolher os ângulos de visão a partir de movimentos que vão desde a capacidade de girar a cabeça – no caso do uso de óculos de Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 56 (2022) | 86 - 104 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i56.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 87 Plataforma y video 360º: implicaciones para el periodismo en Brasil Dra. Ligia Coeli Silva Rodrigues / Luciellen Souza Lima
realidade virtual (RV) –, até o simples mover dos dedos no touchscreen e/ou movimento do cursor do mouse. Alguns pesquisadores incluem esses produtos na seara do jornalismo imersivo, definido como conteúdos noticiosos que visam promover experiências em primeira pessoa (De La Peña et al., 2010). Entretanto, há outras abordagens conceituais para esses conteúdos que apostam na imersão e na experiência. Um mapeamento que observou a frequência de utilização de plataformas, entre os anos de 2016 e 2019 (Rodrigues, 2021), indica que os meios jornalísticos do Brasil utilizaram predominantemente YouTube e o Facebook na hospedagem desse tipo de conteúdo, apontando essas duas plataformas como elementos importantes para entender o desenvolvimento de vídeos jornalísticos em 360 graus no contexto brasileiro. Assim, a partir dessas informações, este trabalho delineou os seguintes objetivos: a) Discutir sobre a distribuição dos vídeos jornalísticos em 360 graus no Brasil no contexto da plataformização; b) Entender como Facebook e YouTube influenciaram no desenvolvimento desse tipo de conteúdo, apontando vantagens e desvantagens da relação; c) Propor o uso do termo plataformas pedagogizantes para discutir as implicações e interferências desses recursos nas práticas jornalísticas. A metodologia abarca um estudo exploratório através de pesquisa bibliográfica, documental e entrevista com profissionais de meios jornalísticos. O marco teórico engloba abordagens que tratam de narrativas imersivas e experienciais no jornalismo, como em De La Peña et al. (2010), Benítez (2019), Pérez-Seijo (2021), Pavlik (2019) e Rodrigues (2021); dos estudos de plataforma com base em Van Dijck et al. (2018), Helmond (2019) e d’Andréa (2020); bem como apontamentos a partir de uma perspectiva crítica em relação ao uso de tecnologias, com Pinto (2005) e Morozov (2018). As discussões se mostram oportunas e necessárias pois de acordo com Van Dijck et al. (2018), a implementação das plataformas levanta questões nas quais de um lado estão benefícios privados e ganhos corporativos e do outro estão interesses públicos e benefícios coletivos. Uma dicotomia que abrange importantes debates na área jornalística. Além disso, em meio a uma crise econômica e de credibilidade do jornalismo, discussões sobre as intersecções entre o ecossistema de plataformas e novos formatos noticiosos, como a que propomos neste trabalho, se somam às reflexões críticas que avaliam cenários contemporâneos e podem contribuir para encontrar potenciais caminhos promissores para os meios jornalísticos dentro do atual contexto midiático. 2. MARCO TEÓRICO: PLATAFORMIZAÇÃO E JORNALISMO Van Dijck et al. (2018) definem plataformas on-line como sendo arquiteturas digitais programáveis, com processamento algorítmico, que organizam interações entre atores sociais, além de realizarem coleta, circulação e monetização de dados de usuários. São orientadas por modelos de negócios específicos e regidas por contratos extensos e complexos, raramente lidos pelos usuários. Alimentadas por dados, as plataformas indexam informações a partir de cada clique, endereços de protocolo de Internet, geolocalização, interesses, preferências, entre outras formas de coleta. Existem dois tipos de plataformas: as estruturais e as setoriais (Van Dijck et al., 2018). São status elásticos, que mudam a depender do contexto. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 56 (2022) | 86 - 104 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i56.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 88 Plataforma y video 360º: implicaciones para el periodismo en Brasil Dra. Ligia Coeli Silva Rodrigues / Luciellen Souza Lima
As estruturais oferecem a base para diversas atividades e serviços, a exemplo dos motores de busca e navegadores, servidores de dados, e-mail, redes sociais, hospedagem de vídeo ou serviços geoespaciais. Já as setoriais são direcionadas a determinados nichos, setores ou serviços, como notícias, transporte, alimentação e hospedagem. Embora pareçam entidades separadas, elas só podem operar como parte de algo maior denominado ecossistema de plataforma, que é um conjunto de plataformas trabalhando em rede, governadas por mecanismos específicos (Van Dijck et al., 2018). Nos últimos cinco anos o poder que as plataformas exercem em todos os níveis da vida social chamou a atenção por causa de fatos como a influência em eleições e o uso deliberado de dados pessoais (d’Andréa, 2020). Uma das maiores preocupações é que os protocolos que regem o ecossistema de plataformas permanecem incompreendidos pelos atores sociais. Os algoritmos são segredos comerciais protegidos por leis de direitos autorais (Orlandin e Lopes, 2021). O pesquisador d’Andréa (2020, p.14) enfatiza que esse é um processo complexo de via de mão dupla, que envolve um assimétrico jogo de poder, no qual “artefatos tecnológicos e práticas sociais se coproduzem”, sendo importante compreender também como apropriações criativas e coletivas, por parte dos usuários, recriam as plataformas. Inserido no contexto da sociedade plataformizada, o jornalismo não foge da regra de ser alvo da pressão social pela presença nas plataformas. Dessa forma, a produção de notícias gradativamente foi se adaptando aos mecanismos e princípios que guiam o ecossistema de plataforma (Van Dijck et al., 2018; Steensen e Westlund, 2020; Helmond, 2019; Jurno, 2020). Entretanto, os benefícios são questionáveis e são muitas as perdas para o jornalismo. Cada vez mais empresas de comunicação consideram o relacionamento com as plataformas problemático (Steensen e Westlund, 2020). Por isso, há esforços estratégicos por parte de alguns meios jornalísticos para pressionar as empresas de plataforma e reduzir a dependência delas, indo desde ter maior cautela ao fornecer conteúdo gratuito e exclusivo para as mídias sociais, até o encerramento de perfis e forte campanha para que o público seja assinante ou faça doações em sites jornalísticos. Nesse processo de plataformização, dentre os fatores vistos como problemáticos, há um remodelamento de valores históricos que guiam o papel do jornalismo dentro das democracias da atualidade. Van Djick et al. (2018) apontam que a independência passou a ser fortemente afetada. É certo que antes as redações já sofriam pressões por questões comerciais e políticas. Porém, a plataformização potencializou e complexificou a questão. Os autores afirmam que o que está no centro do problema é a personalização, impulsionada pela popularização dos smartphones. Através da ação de algoritmos, as plataformas colocam cada indivíduo em uma bolha, construída por preferências, interesses e outras questões pessoais. Da personalização ou junto dela partem vários outros fatores que criam uma cascata de tensões para o jornalismo. De acordo com Steensen e Westlund (2020), vivemos uma consolidação do processo de separação entre notícias e jornalismo. Os motores de busca desagregam a relação do público com o conteúdo noticioso, burlando a lógica jornalística da página principal e indo direto para o assunto buscado, em fontes confiáveis ou não. Assim, as organizações de notícias começaram a perder o poder de curadoras da informação. A plataformização também abriu as portas para que uma grande variedade de produtores pudesse distribuir e monetizar conteúdos, fortalecendo o processo de separação entre o Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 56 (2022) | 86 - 104 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i56.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 89 Plataforma y video 360º: implicaciones para el periodismo en Brasil Dra. Ligia Coeli Silva Rodrigues / Luciellen Souza Lima
jornalismo e a produção de notícias. O resultado disso é que as informações se apresentam de forma misturada e relativamente confusa, com imagens e textos que descrevem desde momentos de familiares e amigos até produtos de lojas ou informações noticiáveis de várias fontes, incluindo empresas jornalísticas, usuários gerais e produtores de desinformação (Steensen e Westlund, 2020; Van Dijck et al., 2018). Outra questão importante é que com serviços de métricas disponíveis, os jornalistas passaram a ser pressionados a produzirem conteúdos que geram mais engajamento. O que antes era prerrogativa da autoridade editorial, com a lógica da datificação passou a ser ancorado por dados de interesses e atividades de usuários (Jurno, 2020). Assim, conteúdos com mais engajamento são mais visíveis, enquanto outros, mesmo que sejam jornalisticamente de maior qualidade, ficam invisibilizados. Nesse sentido, conteúdos de desinformação tendem a ter alto engajamento e, consequentemente, grande visibilidade (Van Dijck et al., 2018). Dessa forma, o jornalismo se tornou mais suscetível à manipulação, desinformação e falta de credibilidade (Steensen e Westlund, 2020). 3. NARRATIVAS IMERSIVAS NO JORNALISMO O uso de técnicas imersivas nas produções jornalísticas parte da ideia de não apenas apresentar a notícia ao público mas de incluir as pessoas em cena, sendo parte da história. Isso foi encarado como potencial de fomentar um envolvimento emocional e uma maior compreensão do contexto social do fato (De Bruin et al., 2020). Conteúdos noticiosos que apostam na imersão e na experiência tentam promover uma aproximação da experiência autêntica, que é o aqui e agora do fato gerador da notícia (Fonseca et al., 2020). O ponto de partida dessas discussões foi um trabalho da jornalista e pesquisadora norte-americana Nonny De La Peña, em parceria com estudiosos das áreas de psicologia, neurociência e mídias interativas (De La Peña et al. ,2010). O artigo desenvolveu a definição de jornalismo imersivo como sendo um conteúdo que, através de uma experiência sensorial, permite que o participante se sinta presente em um cenário virtualmente recriado de forma a representar a notícia. Nesses ambientes virtuais os usuários, representados por avatares, podem se locomover e realizar ações, interagindo com a história numa perspectiva de primeira pessoa. Para Mabrook e Singer (2019), a ideia de experiência em primeira pessoa do jornalismo imersivo fez com que um número crescente de redações experimentasse tanto a RV quanto outras técnicas imersivas apoiadas por empresas de tecnologia que enxergam o jornalismo como um veículo potencial para tornar essas tecnologias populares. O conceito inspirou diversos trabalhos acadêmicos ao longo da última década. Nesse mesmo período, chegou gradativamente ao mercado novos softwares, hardwares e gadgets com potencial imersivo, como as ferramentas de produção de vídeos 360 graus também chamados de vídeos esféricos. A partir de uma maior diversidade de ferramentas e possibilidades, percebeu-se que o conceito de jornalismo imersivo, tal qual foi criado por De La Peña et al. (2010), com foco em ambientes totalmente recriados em computador utilizando a tecnologia de realidade virtual, era demasiadamente restrito e não abarcava a variedade de possibilidades de produção de narrativas imersivas. Assim, novas reflexões e terminologias emergiram no mundo acadêmico. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 56 (2022) | 86 - 104 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i56.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 90 Plataforma y video 360º: implicaciones para el periodismo en Brasil Dra. Ligia Coeli Silva Rodrigues / Luciellen Souza Lima
As pesquisadoras Benítez (2019) e Pérez-Seijo (2021), assim como outros investigadores, optaram por fazer rearranjos no próprio conceito de jornalismo imersivo para abranger os vídeos 360 graus, uma vez que dentre formatos imersivos, estes foram os que mais renderam iniciativas no mercado jornalístico. Rodrigues (2021) rompe com o conceito ao desenvolver a noção operatória de Telejornalismo em 360 graus para se referir aos vídeos esféricos. A autora considera que a premissa básica desse tipo de jornalismo é o ato de olhar ao redor, e não propriamente a imersão. Portanto, procurar deixas simbólicas no entorno das imagens exibidas em notícias e reportagens seria uma das possibilidades trazidas com a nova decisão visual proporcionada pelas câmeras que captam vídeos em 360 graus. Outros pesquisadores optaram por conceituações mais abrangentes, que incluíssem mais produtos além dos vídeos 360 graus. Foi o caso de Fonseca (2020), que desenvolveu a ideia de conteúdos jornalísticos orientados à imersão, colocando a imersão como uma categoria estruturante e indutora de inovações no jornalismo em redes digitais. Ele analisou formatos como a grande reportagem multimídia, o newsgame e a realidade virtual. Pavlik (2019), por sua vez, enfatiza a experiência do usuário ao criar a denominação jornalismo experiencial. Segundo ele, a internet em alta velocidade, os dispositivos portáteis e vestíveis e o desenvolvimento do espectro digital criaram o cenário ideal para envolver o indivíduo em experiências de notícias, que são narrativas multissensoriais e interativas nas quais as histórias podem ser experienciadas sob vários ângulos ou perspectivas. Podemos citar ainda a ideia de narrativas complexas Longhi (2020), que se delineou a partir da expansão da imagem para além dos limites da tela que a definia. De acordo com a pesquisadora, conteúdos com a tecnologia da RV e da RA, por exemplo, quebram a lógica das imagens tradicionais ao romper os limites do enquadramento. Dentre promessas apontadas pelas bibliografias e o que realmente foi implementado na prática, estudo feito por De Bruin et al. (2020) observa que o setor jornalístico mostrou interesse pela utilização de tecnologias imersivas. Entretanto, ao analisar até que ponto produções rotuladas como imersivas realmente apresentam elementos de imersão, identificou-se que as possibilidades de interação e controle sobre o desenvolvimento da história são limitadas na maioria dos produtos. Os autores consideram importante que, deslocados do foco de maiores expectativas, estudos analisem o efeito dessas produções imersivas menos avançadas, que apenas dão ao usuário uma visão em 360 graus do ambiente. Observamos que a literatura acadêmica que abarca vídeos 360 graus ainda é pouco consensual, uma característica comum de termos relacionados a produtos que utilizam tecnologias emergentes, em desenvolvimento e transformação. Contudo, neste trabalho consideramos como objeto de pesquisa os vídeos que dão ao público a possibilidade de escolher os ângulos de visão, numa oferta visual em 360 graus. Independente da conceituação adotada por cada pesquisador, esses vídeos foram alvo de levantamentos em diversas partes do mundo. Os mapeamentos realizados conseguem apontar as principais formas de distribuição desse tipo de conteúdo, que iremos abordar a seguir, com foco na realidade brasileira. 3.1. Distribuição de vídeos 360 graus nos meios de comunicação do Brasil (2016-2019) Ao identificar a falta de um inventário e base de dados com robustez numérica e de fácil acesso para elaboração de um panorama brasileiro de vídeos 360 graus com fins jornalísticos, Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 56 (2022) | 86 - 104 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i56.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 91 Plataforma y video 360º: implicaciones para el periodismo en Brasil Dra. Ligia Coeli Silva Rodrigues / Luciellen Souza Lima
além da inexistência de repositórios brasileiros que reúnam informações sobre grupos de pesquisas e trabalhos acadêmicos relacionados à produção de vídeos esféricos (Silva et al., 2020), Rodrigues (2021) fez um mapeamento dessas produções. A pesquisadora catalogou 344 peças audiovisuais em 360 graus com fins jornalísticos em 28 meios de Comunicação do Brasil, publicados entre 2016 e 2019. Com relação à distribuição desses produtos, Rodrigues (2021) verificou que foi feita exclusivamente pelo YouTube em 59,3% dos casos. O uso do YouTube e de outra plataforma representou 17,4% da amostra. E 8,4% foram publicados unicamente através do Facebook. Três meios de comunicação desenvolveram um App específico para armazenar e visualizar vídeos esféricos. A Folha de São Paulo lançou o aplicativo Folha 360 feito em parceria com a empresa Beenoculus; o jornal O Estadão elaborou o aplicativo Estadão Realidade Virtual, um projeto patrocinado pela Siemens; e o UOL desenvolveu um aplicativo de RV para Android e iOS. As iniciativas foram lançadas no ano de 2017 e com exceção do Uol, os outros dois meios de comunicação receberam incentivos de empresas de tecnologia. Atualmente esses aplicativos estão inativos. Constatou-se que os meios brasileiros hospedam seus conteúdos em vídeo 360 graus prioritariamente em duas plataformas: YouTube e Facebook, sendo o YouTube a mais hegemônica. Os dados corroboram com estudos feitos em outros países por pesquisadores como Benítez (2019), Flores (2019), Caballero et al. (2021) e Pérez-Seijo et al. (2018), que reforçam a perspectiva de que essas são as principais plataformas escolhidas pelos meios de comunicação para alojar os conteúdos feitos em 360 graus. Mesmo o Instagram estando entre as plataformas de redes sociais mais utilizadas no Brasil, a interface é limitada para conteúdos em 360 graus, não possibilitando a interação para o escolha do ângulo de visão. Porém, a tecnologia de criação de imagens esféricas está presente no Instagram através da publicação de imagens, estáticas e em movimento, do tipo Tiny Planet que mostram “[…] todo o universo captado de forma lúdica, sem a necessidade de interação do usuário” (Falandes e Angeluci, 2019, p. 7). Isso explica a inexpressividade do formato 360 graus em vídeos nessa plataforma. Diante dessas informações, buscamos entender um pouco mais sobre o Facebook e o YouTube e a relação dessas plataformas com o jornalismo e o desenvolvimento de vídeos esféricos. 3.1.1. YouTube Criado em 2005, o YouTube foi comprado no ano seguinte pela Google (Alphabet) e em 2007 chegou ao Brasil. O site de conteúdo gerado pelo usuário possui uma rede social hipermídia, na qual todos podem criar e compartilhar canais de vídeo, fazer comentários e interagir em tempo real (Palma, 2020). Sendo a plataforma gratuita de hospedagem de vídeo mais popular no mundo (Flores, 2019), usa algoritmos para filtrar, organizar e hierarquizar informações, além de oferecer novos conteúdos ao usuário a partir do histórico de navegação. A plataforma tem sido alvo de investigações por ter conteúdos impróprios para o público infantil no canal exclusivo para crianças, o YouTube Kids, propagar desinformação e não inibir a ação de bots para provocar engajamento (Orlandin e Lopes, 2021). Desde 2015 o YouTube suporta conteúdos em 360 graus, se tornando uma ferramenta que facilita a aproximação do público a narrativas imersivas (Flores, 2019). A ideia de habilitar o YouTube para vídeos com a tecnologia da realidade virtual não foi uma atitude isolada. A Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 56 (2022) | 86 - 104 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i56.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 92 Plataforma y video 360º: implicaciones para el periodismo en Brasil Dra. Ligia Coeli Silva Rodrigues / Luciellen Souza Lima
empresa investiu no desenvolvimento e popularização dessa tecnologia a partir de uma série de ações. Os óculos de RV de baixo custo, o headset Google Cardboard, foi lançado em 2015. Feito de papelão e duas lentes, o equipamento é utilizado junto com um smartphone e chegou a ser distribuído gratuitamente em 2016 para milhares de consumidores do The New York Times. Outra iniciativa foi a inclusão de orientações de elaboração de vídeos 360 graus no YouTube Creator, onde são disponibilizados kits de ferramenta de aprendizado gratuito. A empresa ainda criou um aplicativo específico para vídeos que usam a tecnologia da realidade virtual, o YouTube VR. Com relação às estratégias para atrair jornalistas, o YouTube tem investido milhões para financiar novos programas para ajudar aqueles que buscam construir uma audiência nessa plataforma. Ações fomentadas pelo Google, como o Creator Program for Independent Journalists, se voltam aos ditos jornalistas independentes – expressão que merece ser posta em desconfiança, afinal, são independentes de quem ou do que? São iniciativas que recebem apoio expresso do YouTube, a exemplo do Sustainability Lab for Digital-First Newsroom, que prevê que as redações dos meios de comunicação tenham acesso a especialistas para ajudá-los a aprender as melhores práticas de videojornalismo. Nesse contexto, ressaltamos a importância de avaliar criticamente quem define quais as melhores práticas para o jornalismo. 3.1.2. Facebook O Facebook é a rede social com o maior número de usuários no mundo (Camargo, 2021) e oferece publicações de conteúdos em vários formatos tais como texto, imagem, vídeo e conteúdos de outros sites através de links. A empresa formata dados no intuito de mercantilizar as atividades dos usuários e a interação com os conteúdos do próprio Facebook, de outros sites e aplicativos. Enquanto plataforma multilateral (Helmond, 2019) e programável, apresenta orientações aos usuários tais como resolução, proporção, duração e tamanho do arquivo. Ao afirmar ser uma empresa de tecnologia, nega ser uma empresa ou plataforma de mídia, a fim de se eximir das obrigações, inclusive legais (Jurno, 2020). No entanto, oferece cursos para jornalistas orientando como descobrir conteúdo e transformar em histórias informações encontradas no Facebook, num processo de autorreferencialidade. Ou ainda como o jornalista pode interagir com o público e os seguidores, aproximando a figura de quem deveria ser um mediador social de um influenciador digital. A empresa tenta vender a imagem de mediador neutro entre o jornalismo e os usuários, “mas orienta a forma que eles vão se conectar, construindo novos regimes de valor” (Jurno, 2020, p. 67). O Facebook viu no jornalismo um negócio lucrativo para a plataforma, se oferecendo como infraestrutura para produção, circulação e monetização de conteúdos jornalísticos. Em 2014 passou a investir em ferramentas específicas para meios jornalísticos e em 2017 lançou o Facebook Journalism Project (FJP), hoje denominado Meta Journalism Project, após a mudança do nome da empresa proprietária do Facebook. Foi uma iniciativa divulgada como apoio aos jornalistas e incentivo à inovação. Além de lucrar financeiramente, esse projeto tinha o objetivo de conter a crise da própria plataforma que envolvia escândalos sobre influência em eleições, vazamento de dados e circulação de desinformação (Jurno, 2020). Paralelamente, os meios jornalísticos passavam por uma crise financeira, que continua se agravando. Na tentativa de reinventar o modelo de negócio para tornar o jornalismo digital Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 56 (2022) | 86 - 104 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i56.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 93 Plataforma y video 360º: implicaciones para el periodismo en Brasil Dra. Ligia Coeli Silva Rodrigues / Luciellen Souza Lima
lucrativo, viram uma oportunidade num momento de poucos recursos. Nesse contexto, a produção de notícias progressivamente foi sendo moldada para obedecer aos mecanismos e princípios do ecossistema de plataforma (Van Dijck et al., 2018). O Facebook Journalism Project (FJP) promoveu cursos e treinamentos gratuitos para ensinar aos jornalistas como aproveitar as ferramentas da plataforma, além de desenvolver e melhorar produtos oferecidos, como o Facebook 360. A empresa também financiou projetos de inovação, incluindo iniciativas jornalísticas em vídeo 360 graus. O interesse do Facebook pela tecnologia da realidade virtual se tornou visível em 2014, quando comprou a empresa Oculus e começou a investir no desenvolvimento de óculos de RV. Em 2015 passou a hospedar fotos e vídeos 360 graus, com o próprio Mark Zuckeberg fazendo anúncios e convidando os usuários para experiências imersivas (Gauterio, 2020). A ideia é que os amigos compartilhem experiências e aventuras em ambientes virtuais (O’brolcháin et al., 2016). Mais recentemente, o Facebook anunciou o desenvolvimento do que chamou de uma plataforma do futuro, se referindo a um universo virtual denominado Metaverso. Nela, as tecnologias apresentadas como apostas a ajudar as pessoas a se conectarem são a realidade virtual, a realidade aumentada e os óculos inteligentes. Em outubro de 2021 a empresa passou a adotar o nome corporativo Meta, mantendo a denominação Facebook apenas para a plataforma de rede social. A promessa é que o Metaverso seja uma plataforma de realidade híbrida entre o real e o virtual, na qual o usuário, representado por um avatar pessoal, utilizando dispositivos móveis de RV e RA, pode realizar diversas atividades como jogar, trabalhar e se comunicar, além de acessar conteúdos diversos e participar de todo tipo de evento em ambientes virtuais como shows, reuniões de trabalho e confraternizações. 4. METODOLOGIA O estudo exploratório incluiu revisão bibliográfica, pesquisa documental e entrevista com profissionais de meios jornalísticos que estiveram envolvidos em produções de vídeos 360 graus. A diferença entre as pesquisas bibliográfica e documental é que a primeira visa analisar documentos de caráter científico, livros e artigos; já a pesquisa documental busca informações em dados que não receberam tratamento científico como os relatórios, materiais jornalísticos, sites e redes sociais. Ambas foram importantes para o levantamento teórico e a observação da relação entre as plataformas YouTube e Facebook, o jornalismo e os vídeos esféricos. Quanto às entrevistas, em dezembro de 2021, foram enviados e-mails para os setores responsáveis dos 28 meios de comunicação encontrados no mapeamento realizado por Rodrigues (2021). Entretanto, apenas dois profissionais responderam. Esses entrevistados foram questionados quanto: a) problemas relacionados à distribuição de conteúdo em 360 graus, monetização e sustentabilidade de um aplicativo próprio, b) estratégias empregadas para a resolução dessas questões e c) possível dependência do YouTube e do Facebook para a distribuição de conteúdos jornalísticos audiovisuais em 360 graus – pois como demonstrado em tópico anterior, apenas três empresas de jornalismo do Brasil conseguiram emplacar Apps próprios, que hoje estão desativados. O primeiro profissional a responder nossa investida foi Eduardo Acquarone, jornalista e pesquisador que atuou no setor de projetos digitais na Rede Globo. Ele participou ativamente da produção de vídeos 360 graus na emissora, e dedica-se a investigações sobre narrativas no Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 56 (2022) | 86 - 104 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i56.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 94 Plataforma y video 360º: implicaciones para el periodismo en Brasil Dra. Ligia Coeli Silva Rodrigues / Luciellen Souza Lima
Reivindicamos uma atuação crítica dos jornalistas frente a uma aparente passividade diante dos recursos que estão sendo ofertados, além de amparo legal para podar os excessos e omissões na atuação das plataformas. Destacamos a necessária reflexão do papel dos jornalistas em estabelecer e promover um conjunto diferente de regras de engajamento com a virtualidade (Sánchez Laws, 2017). Para além de um ensino de operar tecnicamente essas ferramentas, cabe aos jornalistas definir a pauta das imagens em 360 graus, considerando que a imagem converte os olhos em uma via de conhecimento (Guardiola, 2019) e que aprender a olhar essas imagens considerando o contexto dos seus circuitos produtivos é tão importante quanto gravá-las e disponibilizá-las a um público. Mais pesquisas são necessárias para determinar a extensão das implicações das plataformas para as novas práticas jornalísticas. Entre as lacunas e possibilidades de estudo que este artigo deixa em aberto elencamos: limitações das plataformas de hospedagem ou de produção de vídeos 360 graus; aprofundamento nas consequências da dependência de narrativas jornalísticas imersivas das plataformas; as diferenças entre a produção e a interação em plataformas próprias e em plataformas pedagogizantes e diagnósticos que indiquem os avanços da tecnologia que precisam acontecer para que esse recurso tenha uma expansão. Referências Alsina, M. (1993). La construción de la notícia. Paidós. Barbeiro, H. e Lima, P. (2002). Manual de telejornalismo: os segredos da notícia na TV. Campus. Benítez, M. J. (2019). El reportaje inmersivo con vídeo en 360º: características, buenas prácticas y empleo por parte de los medios periodísticos españoles. [Tese Doutoral. Universidad Carlos III de Madrid]. Repositorio Institucional Universidad Carlos III de Madrid. https://bit.ly/3rFpPGj. Boczkowski, P. (2021). Abundance. On the Experience of Living in a World of Information Plenty. Oxford University Press. Caballero, S. G., Bautista, P. S. e De La Casa, J. M. (2021). Conteúdo 360º, realidade virtual e jornalismo imersivo: uma revisão actual dos média utilizando estes formatos. Revista Comunicando, 10(1), 87-115. Camargo, J. A. (2021). Como o Brasil se conecta com as plataformas digitais. Em Camargo, J. A. (Org.), O impacto das plataformas digitais no jornalismo (pp. 70-80). Federação Nacional dos Jornalistas – FENAJ. Canavilhas, J. (2021). Epistemology of mobile journalism. A review. Profesional de la información, 30(1), 1-21. Casilli, A. A. (2020). a classe virtual aos trabalhadores do clique a transformação do trabalho em serviço na era das plataformas digitais. Revista MATRIZes. 14(1), 1-10. https://bit.ly/2EMy5Sr Couldry, N. e Hepp, A. (2016). The mediated construction of reality: society, culture, mediatization. Polity Press. ’andréa, C. (2020). Pesquisando plataformas online: conceitos e métodos. EDUFBA. De Bruin, K., De Haan, Y., Kruikemeier, S., Lecheler, S. e Goutier, N. (2020). A first-person promise? A content-analysis of immersive journalistic productions. Journalism, 23(2), 479-498. https://doi.org/10.1177/1464884920922006 De La Peña, N. et al. (2010). Immersive Journalism: Immersive Virtual Reality for the First-Person Experience of News. Presence: Teleoperators and Virtual Environments 19 (4), 291-301. https://bit.ly/2EJcPeQ Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 56 (2022) | 86 - 104 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i56.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 101 Plataforma y video 360º: implicaciones para el periodismo en Brasil Dra. Ligia Coeli Silva Rodrigues / Luciellen Souza Lima
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(Mobjor/UEPB). Desenvolve pesquisa sobre a experiência de consumo de narrativas jornalísticas audiovisuais em 360 graus. Ámbitos. Revista Internacional de Comunicación | N0. 56 (2022) | 86 - 104 http://dx.doi.org/10.12795/Ambitos.2022.i56.06 ISSN: 1139-1979 | E-ISSN: 1988-5733 104 Plataforma y video 360º: implicaciones para el periodismo en Brasil Dra. Ligia Coeli Silva Rodrigues / Luciellen Souza Lima